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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A máquina do amor - Romance reflexivo

Título: A Máquina do Amor.
Autor: Jacqueline Susann.


O HOMEM CRIOU A MÁQUINA.
A Máquina não sente amor, ódio, ou medo; não sofre de úlceras, ataques do coração ou distúrbios emocionais.
Talvez a única possibilidade do homem sobreviver seja tornar-se máquina.
Alguns homens conseguiram isso.
Máquinas que passam por homens dirigem muitas vezes sociedades; os ditadores são máquinas de força nos seus países. Um artista devotado pode transformar-se numa
máquina de talento.
Por vezes, essa evolução ocorre sem que o homem repare nela.
Talvez aconteça da primeira vez em que ele diz: "Sinto-me ferido" e o seu subconsciente responde: "Se eu abolir todos os sentimentos da minha vida, nunca mais
poderei ser ferido!"
Amanda teria rido, se lhe tivessem dito isto a respeito de Robin Stone; porque Amanda estava apaixonada por ele.
Robin Stone era um belo homem.
Sabia sorrir com os lábios.
Sabia pensar sem emoção.
Sabia amá-la com o corpo.
Robin Stone era a Máquina do Amor.


primeira parte AMANDA

Capítulo primeiro

Às nove da manhã, ela estava de pé nos degraus em frente ao Plaza Hotel, a tremer de frio num vestido de linho. Uma das pegas de roupa que prendiam a parte de
trás
do vestido caiu no chão. Uma assistente apressou-se a substituí-la e o fotógrafo aproveitou para trocar o filme da máquina. A cabeleireira retocou rapidamente
alguns cabelos rebeldes com laca e tudo recomeçou. A multidão de curiosos que se fora juntando parecia deliciada: podia ver um dos mais bem pagos modelos de moda,
enfrentando os ventos gelados de Março num leve traje de Verão. Para aumentar ainda mais o insólito da cena, havia alguns bancos de neve nas colinas do Central
Park, vestígios de um recente nevão. Confortavelmente abrigada em casacos de inverno, a multidão não sentiu, de repente, inveja daquela trémula criatura que ganhava
mais dinheiro numa só manhã do que todos eles numa semana.
Amanda tiritava, mas era insensível à multidão. Pensava em Robin Stone. Às vezes ajudava-a pensar em Robin Srone, principalmente quando tinham passados juntos
uma noite maravilhosa.
Porém, esta manhã, os seus pensamentos não eram confortáveis. Não passara uma noite maravilhosa com Robin. Nem sequer tivera notícias dele. Sabia que ele tinha
duas conferências a fazer, uma em Baltimore, no sábado, e a outra num jantar qualquer em Filadélfia, no domingo.
"vou despejar o meu discurso às sete e às dez estarei de volta em Nova Iorque", prometera-lhe ele. "Depois iremos ao Lancer Bar, comer um hamburger". Ela esperara,
toda maquiIhada, até às duas da manhã. Nem um telefonema.
O fotógrafo terminou. A modista coordenadora correu para ela com um capote e uma garrafa térmica cheia de café. Sentiu o
gelo começar a derreter-se-lhe nas veias. Sobreviveria. Graças a Deus que o resto das fotografias seriam todas em interiores.
Acabou de beber o café e subiu para asuite que fora alugada para a sessão fotográfica. As roupas estavam penduradas em fila. com a ajuda da assistente despiu o
vestido de linho e vestiu um vestido de cerimónia, de Verão. Ajustou os enchimentos do soutien e arranjou a maquilhagem. A electricidade estalava, à medida que
o pente penetrava no seu suave cabelo cor de mel. Ela mesma o tinha lavado na véspera e o penteara da maneira que Robin gostava, caído e solto. De tarde tinha
uma sessão de três horas para a Alwayso - provavelmente mudar-Ihe-iam o penteado. Jerry Moss gostava dela com o cabelo para cima; dizia que dava mais classe ao
produto.
Às onze horas ela estava no banheiro a vestir a sua própria roupa. Abriu a bolsa grande e retirou dela a escova e a pasta de dentes. Escovou-os cuidadosamente
em movimentos verticais. Ia fotografar os tons de Verão dos batons da Alawyso. Tinha que dar graças a Deus pelos belos dentes e os lindos cabelos. E também pelo
rosto. Tinha pernas bonitas, ancas finas, era alta. Deus tinha sido muito bom com ela. Só se esquecera de uma coisa. Olhou, com tristeza, para os enchimentos do
seu soutien e pensou nas mulheres que a tinham visto posar: secretárias, donas-de-casa, mulheres gordas, mulheres de ancas largas - todas tinham bustos. Bustos
de que nem se lembravam de agradecer a Deus. Mas ela era seca como um rapaz.
Embora parecesse estranho, isso era uma qualidade para quem quisesse subir na carreira de modelo. Mas era uma desvantagem na vida real. Lembrava-se do que tinha
sentido aos doze anos, quando a maioria das suas colegas de escola começara a ostentar "altinhos" no peito. Correra para a tia Rose, que lhe dissera, a rir: "Ora,
eles virão, querida, e queira Deus que não fique tão grande como os da tia Rose!"
Masnão tinham vindo. Quando ela tinha catorze, a tia Rose dissera: "Não faz mal, querida. O Senhor deu-te um belo rosto e bastante inteligência. Além disso, e
mais
importante seres
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amada pelo que és, realmente, e não apenas por teres um belo rosto ou um lindo corpo."
Estes argumentos eram muito bons enquanto ela se sentava na cozinha, a ouvir a tia Rose, e nenhuma das duas imaginava sequer quê ela iria um dia para Nova Iorque
e conheceria a espécie de gente com quem agora se dava.
Como, por exemplo, o cantor - ela nunca pensava em Billy senão como "o cantor". Amanda tinha dezoito anos e estava a iniciar a carreira, quando se tinham conhecido.
Nos tempos de escola, coleccionara discos dele. Aos doze ficara duas horas numa "bicha" para vê-lo cantar, ao -vivo, num cinema local. Vê-lo em pessoa, numa festa,
tinha sido uma espécie de sonho. Ou, como Billy dissera aos jornalistas: "Amor à primeira vista!". A partir daquela noite, ela passou a fazer parte do círculo
dele. Tudo para ela era novidade: as noites de estreia nos night-dubs, o motorista sempre às ordens, os grandes grupos que ele levava para todos os lados, autores,
empresários, músicos, relações públicas. E, embora nunca a tivessem visto mais gorda, aceitavam-na como parte da família. Amanda deixou-se arrastar pelo "romance"
e pela publicidade que o cercava. Ele beijava-lhe a mão e beijava-a no rosto enquanto a câmara disparava e, na quinta noite, conseguiram finalmente ficar a sós,
nasuite dele.
Ela nunca tinha estado numa suite do Waldorf; naquele tempo ela ainda vivia no Barbizon, Hotel para Mulheres. Ficou de pé, no centro da sala, a olhar para todas
aquelas flores e garrafas de bebidas. Ele beijou-a desapertou a gravata e chamou-a para o quarto. Ela obedeceu docilmente. Ele tirou a camisa e começou calmamente
a despir as calças. "Pronto, minha querida, vai tirando a roupa", disse ele.
Amanda sentiu-se em pânico, mas começou a despir-se lentamente, até ficar só desoutien e calcinhas. Ele aproximou-se e beijou-lhe a boca, o pescoço e os ombros,
ao mesmo tempo que os seus dedos mexiam no fecho do soutien. Quando, por fim, este caiu no chão, ele recuou, evidentemente decepcionado.
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- Minha querida, põe outra vezo soutien, -Olhou para si mesmo e riu-se. - O choque foi tão grande, que repara no que me aconteceu.
Ela pôs de novo osoutien, vestiu todas as suas roupas e saiu a correr do hotel. No dia seguinte, ele mandou-lhe flores, perseguiu-a com telefonemas, de todas as
maneiras. Ela cedeu e passaram juntos três semanas maravilhosas. Ia para a cama com ele, mas sempre de soutien.
Três semanas depois o cantor voltou para a Califórnia e nunca mais a chamou. Mas, para apaziguar a consciência, deu-lhe um casaco de vison como presente de despedida.
Ela ainda se lembrava do espanto dele, ao descobrir que ela era virgem.
Toda aquela publicidade nos jornais em volta dela despertou o interesse da agência de modelos Nick Longworth. Assinou um contrato e viu a sua carreira garantida.
Nick lançou-a a
25 dólares por hora e agora, cinco anos depois, ela era uma das dez modelos mais bem pagas do país, sessenta dólares por hora. Nick Longworth fizera-a estudar
as revistas de modas, aprender a vestir-se e a andar. Mudara-se do Barbizon para uni confortável apartamento no East Side, onde passava, só, a maioria das noites.
Comprara um aparelho de televisão e um gato siamês. Concentrava-se no trabalho e estudava as revistas...
Robin Stone explodira na sua vida num baile de caridade. Amandafora escolhida, juntamente com cinco outros modelos de primeiro plano, para desfilar durante uma
festa de caridade, no Waldorf. Cada bilhete custava cem dólares. O baile e o espectáculo foram no Grand Ballroom e a melhor sociedade novaiorquina compareceu.
Mas havia uma coisa que distinguia aquela festa de outras iguais: a presidente do comité era a Sr.a Gregory Austin. O baile da Sr.a Gregory Austin não só tinha
sido anunciado em todos os jornais, como também recebera ampla cobertura da televisão, através da estação local da IBC. E porque não? No fim de contas, o dono
da IBC era o Sr. Austin.
O Grand Ballroom estava superlotado. Amanda e os outros
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modelos tinham sido recebidas como se tivessem comprado bilhetes, já que estavam a dar o seu tempo. Juntamente com as outras cinco raparigas, sentou-se a uma mesa
e começou a comer qualquer coisa. A IBC colocara, na mesma mesa, seis sub-directores para fazerem pares com as raparigas, todos eles atraentes e suaves. De início
tentaram conversar mas, pouco a pouco, começaram a entrar em discussões de negócios. Amanda mal os ouvia. Olhava, disfarçadamente, para a mesa que a Sr.a Gregory
Austin ocupava com os seus amigos. Reconhecera Judith Austin pelas suas fotografias nos jornais e sentiu-se secretamente orgulhosa de ver que o cabelo da Sr.a
Austin estava tingido exactamente da mesma cor que o seu. Amanda calculava que ela andava à volta dos quarenta, mas era uma bela mulher, pequena, distinta e de
uma elegância perfeita. Era a mulher como a sr.a Austin que Amanda tentara imitar, ao começar a aprender a vestir-se - efectivamente não podia comprar roupas
como as da sr.a Austin, mas podia copiá-las.
Depois do jantar tinha ido para o vestiário preparar-se para o desfile. As câmaras da IBC estavam a postos. O desfile seria transmitido, juntamente com o espectáculo,
ao vivo, no noticiário das onze horas. Ela estava sentada, à espera, com os outros modelos, quando se ouviu bater de leve à porta. Robin Stone entrou.
Todas as raparigas se apresentaram. Quando ela disse, apenas, "Amanda", ele escreveu o nome e ficou à espera. Ela sorriu.
- É só Amanda... mais nada.
Os olhos de ambos encontraram-se e ele sorriu. Amanda ficou a vê-lo andar pelo camarim, anotando os nomes das outras raparigas. Era muito alto e ela gostava da
maneira como ele se movia. Vira-o várias vezes, no noticiário local, antes de ligar para a CBS e para o filme da noite. Lembrava-se vagamente que ele já ganhara
um prémio
Pulitzer, como jornalista. A televisão não lhe fazia justiça. Tinha o cabelo escuro e
espesso, e começava a tornar-se grisalho. Mas o que chamava a
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atenção nele, eram os olhos. De repente, eles tinham-se cruzado com os dela, sustententado o olhar dela como se estivesse a avaliá-la. Depois dirigiu-lhe um sorriso
e foi-se embora.
Julgara que, provavelmente devia ser casado com alguém parecido com a sr.a Austin. Quando o espectáculo chegou ao fim já ela o imaginara como pai de duas crianças
pequenas exactamente iguais a ele.
Já estava completamente vestida, quando ele bateu de novo à porta.
- Olá, menina Um Só Nome - disse, com um sorriso.
- O senhor Um Só Nome está à sua espera em casa, ou pode vir tomar uma cerveja comigo?
Ela tinha ido ao P J. s com Robin, bebera uma coca-cola, e ficara espantada por vê-lo tomar cinco vodkas e permanecer absolutamente sóbrio. Depois acompanhara-o
até ao apartamento dele, sem que ele tivesse falado ou sugerido. A simples pressão da sua mão bastara para transmitir o recado, como se fosse algo mutuamente entendido.
Parecia, mesmo, que ela estava hipnotizada. Entrara no apartamento sem qualquer apreensão e despira-se sem sequer se lembrar dos seios. Ao vê-la hesitar em tirar
o soutien, ele mesmo o retirara.
- Desapontado? - perguntara ela.
Ele atirara o soutien para o outro lado do quarto.
- Só as vacas precisam de tetas!
A seguir tomara-a nos braços, curvara-se e beijara-lhe os seios. Era o primeiro homem que lhe fazia aquilo. Amanda segurara-lhe a cabeça e estremecera...
Naquela primeira noite, ele possuira-a suavemente e sem palavras e, quando ambos os corpos transpiravam de exaustão, ele estreitara-a contra si, e perguntara-lhe:
- Queres ser a minha moça?
A resposta dela foi abraçá-lo no escuro, ainda com mais fervor. Ele afastou-se um pouco e os seus claros olhos azuis procuraram o rosto dela. Os seus lábios sorriam,
mas os olhos estavam muito sérios.
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- Nada de compromissos, nada de promessas, nada de perguntas, de ambos os lados. De acordo?
Ela aquiescera sem falar. E ele então voltara a possuí-la, agora com uma estranha combinação de ternura e violência, por fim ficaram lado a lado, exaustos e satisfeitos.
Amanda deitou uma olhadela ao relógio na mesa de cabeceira dele. Três da manhã! Deslizou para a beira da cama, mas ele estendeu a mão e agarrou-lhe o pulso.
- Onde vais?
- Para casa...
Ele torceu-lhe o pulso, fazendo-a gritar de dor.
- Quando dormes comigo,dormes comigo! Não te vás embora!
- Mas tenho de ir. Estou de vestido de noite!
Sem uma palavras ele soltou-a e, levantando-se, começou a vestir-se.
- Então passarei a noite em tua casa. Amanda sorriu.
- Tens medo de dormir sozinho? Os olhos dele escureceram.
- Nunca mais digas isso! Durmo sozinho. Mas quando vou para a cama com uma mulher, durmo com ela!
Foram para o apartamento dela e mais uma vez ele possuiu-a. Ao adormecer entre os seus braços, Amanda sentia-se tão feliz, que não podia deixar de ter pena de
todas
as outras mulheres do mundo, por não conhecerem Robin Stone. Agora, três meses depois, até o seu gato siamês, Siugger, aceitara Robin e, à noite, aninhava-se
aos seus pés. Robin não ganhava muito dinheiro e aproveitava os fins de semana para ganhar mais alguma coisa, fazendo conferências.
Amanda não se importava de não frequentar o Colony ou o 21. Gostava do P. J.'s, do Lancer Bar, do Piccola Itália, dos quais Robin era. habitue. Adorava ouvi-lo
falar
e estava desesperadamente a tentar aprender a diferença entre um democrata e um republicano. Por vezes, ficava horas no Lancer Bar, enquanto lí Robin discutia
política com Jerry Moss. Jerry morava em
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Greenwich e a sua agência fazia a contabilidade dos cosméticos Alwayso. Fora através da amizade de Robin com Jerry que ela conseguira as fotos coloridas para a
Alwayso.
Amanda contemplou-se no espelho do vestiário do Plaza, enfiou o vestido de lã e dirigiu-se para o living Á&suite.
A pseudo-mesa de jantar já tinha sido removida. O fotógrafo estava a guardar o seu equipamento. Chamava-se Ivan Greenberg e era boa pessoa. Amanda acenou para
ele e para os outros e saiu dasuite, uma autêntica imagem da beleza, com os longos cabelos a esvoaçar e o vison do cantor a drapejar pelo bali.
Correu para o telefone e ligou para a portaria do seu edifício. Nenhum recado de Robin. Marcou o número dele e, do outro lado do fio, o telefone tocou melancolicamente,
o tipo de toque que diz, por si mesmo, não haver ninguém em casa. Desligou.
Quase meio-dia. Onde estaria ele?

Capítulo segundo

Ele estava numa suite do Bellevue Straford Hotel, em Filadélfia.
Acordou aos poucos, com a noção de que a manhã tinha passado quase toda. Arrulhavam pombos no peitoril da janela. Abriu os olhos e compreendeu exactamente onde
estava. Às vezes, quando acordava num motel, não tinha a certeza de onde se encontrava. Todos os quartos de motéis eram parecidos e ele tinha de fazer um esforço
para se lembrar do nome da cidade e até do nome da pequena que dormia a seu lado. Mas esta manhã estava sozinho e aquilo não era um motel. Boa Filadélfia e o
seu jantar do Homem do Ano! Tinham-lhe dado uma verdadeira suite.
Estendeu o braço e apanhou o maço de cigarros que estava em cima da mesa de cabeceira. Estava vazio. Nem ao menos havia uma "beata" decente no cinzeiro. Então,
os seus olhos encontraram o cinzeiro do outro lado da cama, cheio de pontas compridas, manchadas de batôn cor de laranja.
Agarrou no telefone e pediu um sumo de laranja duplo, café e dois maços de cigarros. Escolheu o resto do cigarro menos queimado, sacudiu as cinzas e acendeu-o.
No outro cinzeiro havia pedaços mais compridos com bâton cor de laranja. Levantou-se e atirou-os para a sanita. Puxou o autoclismo e ficou a vê-los desaparecer,
como se daquela maneira estivesse a exorcizar a rapariga do batôn cor de laranja. Bolas, poderia ter jurado que ela era solteira. Geralmente descobria à distância,
as mulheres casadas ansiosas por uma aventura. Aquela tinha conseguido enganá-lo, talvez por ser um pouco superior às outras. Ora! Eram todas iguais. Mulheres
para
uma noite. Os maridos que se preocupassem. Riu-se e olhou para o relógio: era quase meio-dia. Apanharia o comboio das duas, de regresso
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a Nova Iorque.
Nessa noite, ele e Amanda comemorariam, bebendo à saúde de Gregory Austin, o homem que iria mudar toda a sua vida. Ainda lhe parecia um sonho, tão difícil de acreditar
como o telefonema pessoal que o próprio Austin lhe fizera, às nove da manhã de sábado. A princípio Robin pensara que se tratava de uma brincadeira: o presidente
da direcção da IBC a telefonar para um repórter local! Gregory rira-se e dissera-lhe para ligar, ele próprio para a IBC, a fim de se certificar. Robin seguira
o conselho e Austin atendera imediatamente. Poderia Robin Stone dirigir-se de seguida ao seu escritório? Dez minutos mais tarde, estava ele no gabinete de Gregory
Austin, com a sua mala. Tinha de apanhar o comboio do meio-dia para Baltimore.
Austin estava só, no seu imponente escritório. Tinha ido direito ao assunto. Gostaria Robin de ser o Director Geral das Reportagens? Esperava que Robin trouxesse
novas ideias para expandir o Departamento de Reportagens e formasse uma equipa para fazer a cobertura das convenções, no Verão. Sim, Robin gostaria muito. Apenas
achava enigmático o título de "Director Geral de Reportagens". Morgan White etapresidente do Departamento de Reportagens. Randolph Lester era vice-presidente.
Que significava esse título de "Director Geral de Reportagens"?, perguntou Robin. Bem, significava cinquenta mil dólares por ano, mais do que o dobro do seu actual
ordenado. Quanto à pergunta acerca do título, Austin: "Vamos deixar assim, por agora, está bem?"
Era uma proposta fabulosa. E, quando Austin soubera que Robin ainda tinha mais um ano a cumprir do seu contrato de conferências, tratara logo de fazer dois telefonemas,
um para a agência que as organizava e o outro para o seu advogado, instruindo-o no sentido de liquidar o contrato de Robin com a agência. Fora a coisa mais simples
- simples e secreta. Robin ficaria uma semana afastado da IBC e nada diria, absolutamente
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nada, sobre o seu novo cargo. Na segunda feira seguinte assumiria as suas novas funções. O próprio Gregory Austin se incumbiria de anunciar a novidade, da
melhor maneira que entendesse...
Robin serviu o café e acendeu um cigarro. O pálido sol de Inverno entrava pelas janelas do hotel. Daí a uma semana, assumiria o novo cargo na IBC. Deu uma grande
tragada no cigarro, e um pouco da sua boa disposição dissipou-se com o fumo. Apagou o cigarro. Parecia conjurar a imagem da rapariga do batôn cor de laranja. Como
era o nome dela? Peggy? Betsy? Nenhum destes nomes lhe dizia qualquer coisa. Mas era um nome parecido: Billie? Mollie? Lillie? Ora, não tinha importância. Recostou-se
na cadeira e afastou o café. Certa vez, quando ainda estava na Universidade de Harvard e fora a Nova Iorque passar o fim de semana, vira um espectáculo chamado
Lady in the Dark. Era qualquer coisa sobre uma rapariga que ouvia parte duma música, sem nunca passar dos primeiros compassos. Acontecia-lhe o mesmo, de vez em
quando. Apenas não se tratava de uma música, e sim de uma recordação, de uma visão... Nunca podia vê-la completamente, mas sentia-a. Era como se estivesse à beira
de uma lembrança importante e ela o abandonasse com uma sensação de calor almiscarado, de felicidade que desaguava no pânico. Não acontecia muitas vezes, mas
acontecera na noite anterior - uma sensação fugidia, não, duas! A primeira quando a rapariga se deitara na cama, ao seu lado. A sensação do corpo dela, macio e
vibrante
- dos seus seios magníficos. Geralmente, não dava muito atenção aos seios: achava infantil sugar um seio. Porque seria que os homens encaravam isso como um acto
sexual? Para ele era qualquer coisa como saudades da mãe. Havia algo fraco no facto de um homem querer encostar a cabeça ao peito de uma mulher, com seios grandes.
Robin preferia as louras, brilhantes, esbeltas e duras. Os seus corpos tinham uma simetria que ele achava excitante.
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Mas a rapariga da noite anterior era morena, com um belo par de seios. Era estranho, mas sentira-se excitado. Lembrava-se agora. Gritara qualquer coisa ao atingir
o clímax. Mas o que gritara ele? Habitualmente nunca gritava, nem com Amanda nem com qualquer outra. Contudo, sabia que tinha gritado qualquer coisa, assim como
sabia que gritara também outras vezes, e nunca pudera recordar o quê.
Acendeu outro cigarro e voltou aos seus pensamentos para o futuro à sua frente. Era altura de comemorar. Tinha uma semana inteira de férias.
Agarrou no jornal de Filadélfia, que lhe tinham trazido com o pequeno almoço. Na página três com o seu retrato, ao lado do homenageado, um juiz meio calvo e corpulento.
A legenda dizia: ROBIN STONE, PRÉMIO PULITZER DE REPORTAGEM, REPÓRTER DA TV E CONFERENCISTA, VEIO A FILADÉLFIA DISCURSAR EM HONRA DOJUIZGARRISONB. OAKES, PERSONALIDADE
DO ANO DE 1960.
Serviu-se de uma nova chávena de café e sorriu. Sim, tinha vindo falar em honra do juiz, homem de quem nunca ouvira falar. Viera porque a comissão organizadora
da homenagem tinha pago quinhentos dólares à Agência Universal de Discursos.
Bebeu o café, congratulando-se por nunca mais ter de falar de encomenda. Ao começo tinha-lhe parecido fácil. Havia cerca de um ano que fazia o noticiário local
da IBC, quando Clyde Watson director da Agência Universal de Discursos, o mandara chamar. A agência ocupava todo um andar de um edifício novo, naLexington Avenue.
E Clyde Watson, sentado diante uma imponente mesa de nogueira, parecia um consagrado corretor da Bolsa. Tudo estava estudado para pôr a vítima à vontade, até
mesmo o sorriso paternal.
- Sr. Stone, porque razão um jornalista detentor do Prémio Pulitzer há-de acabar fazendo um noticiário local?
- Porque saí da Northern Press Association.
- E porque saiu? Por não dispor de uma coluna em Nova Iorque?
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- Não. O facto de não ter uma coluna num jornal de Nova Iorque não me incomodava. Isso só serve para ter bilhetes de graça nos teatros e refeições grátis nos restaurantes.
Acontece que eu sou um escritor - pelo menos penso que sou. Mas a NPA permitia que os editores de todos os jornais do interior retalhassem literalmente a minha
coluna. Às vezes só publicavam três linhas. Três linhas de uma coluna que me tinha levado seis horas a escrever. Para mim escrever não é fácil. Suo para escrever.
E atirar seis horas do meu dia para o cesto de papéis... - Robin sacudira a cabeça como se realmente estivesse a sentir dor. - Pelo menos na IBC posso comentar
as notícias à vontade. Tenho completa liberdade, a responsabilidade é toda minha.
Desta vez, o sorriso de Watson viera acompanhado de um sorriso de aprovação. E de um suspiro.
- Mas não pagam muito.
- O bastante para eu viver. As minhas necessidades são poucas. Um quarto de hotel, papel para escrever - Robin sorrira como um garoto - e roubo todo o papel e
o químico da IBC.
- Está a escrever um livro?
- Quem não está?
- Quando é que arranja tempo?
- Nos fins de semana, às vezes à noite.
O sorriso desaparecera do rosto de Watson. Ia dar o toque.
- Não acha difícil escrever assim a pouco e pouco? Como é que consegue manter a inspiração? Não acha que um escritor como o senhor deveria poder interromper o
trabalho durante um ano para poder concentrar-se inteiramente no livro que está a escrever?
Robin acendera um cigarro. Os seus olhos encontraram os de Clyde Watson apenas com uma leve demonstração de curiosidade. Watson inclinou-se mais para ele.
- A nossa agência poderia contratá-lo para os fins de semana. Estou certo de que poderíamos pedir quinhentos dólares... talvez até setecentos e cinquenta.
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- Para fazer o quê?
- O senhor escolhia um assunto. Tenho lido as suas colunas. - Watson levantou uma pasta da mesa para provar o que dizia - O senhor poderia falar sobre coisas pitorescas
que lhe aconteceram quando era correspondente de guerra. Misture esses incidentes com outros. Adopte um tom sério ou, quando preferir, um tom leve. Prometo que
não lhe faltará trabalho.
- Porque razão viria alguém ouvir-me?
- Olhe-se ao espelho, sr. Stone. Os clubes de mulheres convidam personalidades e artistas. Estão fartos de professores carecas e comediantes sem sex-appeal. O
senhor levar-lhes-ia um pouco de encanto. Além disso, um correspondente de guerra, que ganhou o Prémio Pulitzer, é uma figura que toda a gente gostaria de ter
como convidada em jantares e universidades.
- É como é que isso me deixaria tempo para escrever o meu livro?
- Por agora, esqueça-se disso. À velocidade a que o senhor vai, levará uns dois anos. Mas, com dois anos de conferências, poderá economizar o suficiente para passar
um ano inteiro sem trabalhar. E então, quem sabe, talvez ganhe um outro Prémio Pulitzer, o da Literatura. Ou será que quer ser toda a sua vida um repórter local?
A proposta tinha-lhe parecido óptima. Mesmo com os trinta e cinco por cento que a agência deduziria do que ele ganhasse, por lhe arranjar conferências. A primeira
tinha sido em Houston. Quinhentos dólares. Cento e setenta e cinco para a agência. Lera então o contrato: tinha de pagar as viagens e os quartos de hotel. Resultado:
da primeira conferência, tinha ficado com trinta e três dólares. Quando tentara romper o contrato, Watson limitara-se a sorrir suavemente. Claro que o podia romper,
desde que o pagasse. Isto tinha acontecido havia um ano: um ano de voos em classe turística, apertando o corpo
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i
de quase dois metros numa poltrona pequena, de voos noctunos ao lado de mulheres gordas e bebés a chorarem. E de motéis horríveis, excepto em casos raros, como
o de Filadélfia, em que uma boa suite de hotel estava incluída no contrato.
Robin olhou à sua volta. A suite era um cenário adequado para a sua última actuação. Graças a Deus que aquilo tinha acabado: adeus voos em classe turística, adeus
conversa fiada com os convidados... Podia esquecer as suas frases, já tão batidas que ele as sabia de cor. Os risos sempre na mesma altura, o aplauso sempre igual.
Por fim até as cidades pareciam iguais. Havia sempre uma rapariga da Liga Juvenil, bonita e toda dentes, no comité de recepção pronta a saudá-lo com admiração
e a discutir Bellow, Mailer e a conjuntura artística. Depois do primeiro martini já sabia que acabaria na cama com ele.
Tinha vagueado por quarenta e seis estados. Mas agora era "Director Geral de Reportagens".
Com o dinheiro da primeira conferência, alugara um apartamento . Nada de muito
bom, mas melhor do que o seu antigo quarto de hotel. Apenas nunca tinha tempo para
estar lá. Na mesa nova havia uma grande pilha de papel amarelo, uma caixa de químicos e uma nova máquina eléctrica, para substituir a sua velha portátil. Mas o
emprego na IBC levava-lhe os dias, mulheres e bebidas tomavam-lhe conta das noites e os fins de semana passava-os a viajar. Bem, tudo isso tinha terminado. Faria
carreira na IBC, economizaria com um louco, e escreveria o tão ambicionado livro.
As vezes Robin ficava a pensar se teria mesmo talento para escrever. O Prémio Pulitzer não provava nada. Ser jornalista não significava que se tivesse talento
para escrever um livro. Mas era um livro o que ele queria escrever. Mostraria o efeito da guerra sobre os políticos: o ressurgimento de Churchill, De Gaule...
Depois gostaria de escrever uma novela política. Mas o que mais desejava era ver o seu livro publicado, o papel
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amarelo dar lugar ao texto impresso.
As coisas materiais pouco valor tinham para ele. Quando via Amanda toda entusiasmada com um novo par de sapatos, tentava analisar a sua falta de interesse por
essas
coisas. Talvez fosse porque sempre as tivera, pelo menos até morrer o seu pai, deixando a Kitty o rendimento de uma propriedade de quatro milhões de dólares. Quando
ela morresse, a propriedade seria dividida entre ele e a sua irmã Lisa. Entretanto,
com os 12.000 dólares mensais, a gloriosa Kitty estava a divertir-se à larga.
Era engraçado como ele pensava sempre na sua mãe como "a gloriosa Kitty". Era bela, pequena e loura, ou talvez tivesse cabelos ruivos. Dois anos antes, quando
partira para Roma, era o que se chamava uma "loura veneziana". Kitty dizia que estava a embranquecer. Riu-se só de se lembrar disso. Para uma mulher de cinquenta
e nove anos, ela estava muito bem.
Tivera uma bela vida, em criança e no seu tempo de Universidade. O seu pai vivera o suficiente para dar a Lisa o mais falado casamento da história de Boston e
ela
agora morava em São Francisco, esposa de um idiota que era também um dos mais ricos vendedores de imóveis da Costa Ocidental. Tinha duas crianças encantadoras.
Caramba...
havia cinco anos que não as via. Lisa devia estar agora com... ele tinha sete quando ela nascera... devia estar agora com trinta anos, mãe de dois filhos, instalada
na vida. Só ele é que não estava. Bem, ele gostava de viver assim. Talvez fosse por algo que o seu pai lhe tinha dito. Devia ter doze anos, quando o pai o levara
pela primeira vez a jogar golfe.
- Encara o golfe como se fosse uma matéria escolar, álgebra por exemplo, algo que tenhas de saber bem. Muitos negócios resolvem-se num campo de golfe.
- Quer dizer que tudo o que aprendemos deve ajudar-nos a fazer dinheiro? - perguntara Robin.
- Naturalmente, se a pessoa quer ter mulher e filhos respondera o pai. - Quando eu tinha a tua idade, o meu sonho era ser um novo Clarence Darrow. Mas depois apaixonei-me
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pela tua mãe e resolvi estudar Direito Comercial. Não me emociono, mas sou um homem muito rico.
- Sim, mas o senhor estudou Direito Comercial quando gostaria de ser criminalista.
- Quando temos família, não podemos fazer o que se quer. Temos de pensar na responsabilidade.
Robin aprendera a jogar golfe. Jogava bastante bem, quando se formara pela Universidade de Harvard. Quis seguir um curso de artes liberais e depois formar-se em
jornalismo. O pai opusera-se, e ficara furioso quando o apanhara a ler Tolstoi e Nitzsche.
- Isso não serve de nada para quem vai ser advogado.
- Mas eu não quero ser advogado.
O pai de Robin olhara para ele e saíra da sala. No dia seguinte Kitty explicara-lhe suavemente que era seu dever fazer com que o seu pai se orgulhasse dele. Caramba,
às vezes parecia que só existia a palavra "dever" neste mundo. Eradever de Robin jogar futebol - todos os advogados famosos o tinham jogado - e por essa razão
ele quebrara o corpo para ser o melhor defesa de Harvard naquela temporada. Ao formar-se, em 1944, poderia ter seguido Direito Comercial, mas tinha vinte e um
anos e o país estava em guerra, de modo que se alistara na Força Aérea, prometendo, ao voltar, completar o curso de Direito. Mas não acontecera isso. Participara
em várias batalhas, fora promovido a capitão e aparecera na segunda página dos jornais de Boston, ao ser ferido no ombro. Pelo menos disso o velho ficara orgulhoso.
O ferimento era pequeno, mas agravara uma antiga fractura dos seus tempos de futebol e Robin tivera de ficar hospitalizado na Europa. A fim de combater a monotonia,
começara a escrever sobre a vida no hospital e as experiências dos outros soldados. Mandara uma cópia para um amigo que trabalhava na Northern Press Association.
Os artigos tinham sido publicados e assim se iniciara a sua carreira de jornalista.
Ao terminar a guerra, Robin ingressara na NPA como correspondente. Naturalmente, não tinham faltado as discussoes
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com Kitty e o pai. Era o seu dever estudar Direito. Felizmente, Lisa estava noiva do idiota e toda a família girava em volta dela, a preparar o casamento. Cinco
dias depois desse acontecimento, o velho morrera a jogar ténis. Tinha sido o tipo de morte que sempre desejara, pensava Robin. Morrera com todos os seus músculos
em forma e todas as suas obrigações para com a família liquidadas.
Robin levantou-se e afastou a mesa do pequeno almoço. Era senhor de si mesmo e não devia nada a ninguém, neste mundo. Estava resolvido a manter-se assim.
Dirigiu-se para a casa de banho e abriu o chuveiro. A água caiu-lhe em cima, dura e fria, varrendo-lhe do cérebro o último vestígio de vodka. Caramba, tinha perdido
a sua sessão de segunda feira no ginásio e esquecera-se de telefonar a Jerry em Nova Iorque, para cancelar a sessão. Riu-se. Pobre Jerry. Provavelmente tinha ido
sozinho. E Jerry detestava o ginásio; só ia porque Robin o obrigava a ir. Por estranho que parecesse, Jerry não se importava de ser flácido aos trinta e seis
anos.
Robin começou a cantarolar. Telefonaria a Jerry e a Amanda assim que chegasse a Nova Iorque. Encontrar-se-ia no Lancer Bar e comemorariam. Não lhes diria o quê,
pois Gregory Austin dissera-lhe que ele próprio se incumbiria de anunciar o novo cargo.
Passou o creme de barbear pelo rosto. Caramba, pensou, o que não daria para saber o que está a acontecer na IBC esta manhã!

Capitulo terceiro

A manhã começou como qualquer manhã de segunda feira. Os "números" (como eram chamadas as cotações semanais Nielsen) foram colocados nas mesas de cada director.
O primeiro sinal de perturbação surgiu às dez horas, provocado por um simples recado: "Gregory Austin pede que Danton Miller compareça no seu escritório às dez
e meia".
O recado foi dado pela secretária particular do sr. Austin a Susie Morgan, secretária particular de Danton Miller. Susie anotou-o num bloco e colocou-o na mesa
do sr. Miller, ao lado das cotações Nielsen. Depois dirigiu-se aos lavabos. Passou pela sala das dactilógrafas. Estavam todas mergulhadas no trabalho, as máquinas
a baterem velozmente desde as nove e meia. Mas não o "Pessoal Superior". As secretárias particulares dos directores chegavam às dez horas, de óculos escuros e
rosto lavado. Batiam o ponto, informando os chefes de que tinham chegado e corriam para os lavabos. Vinte minutos mais tarde, saíam parecendo modelos. Uma das
secretárias tinha até instalado um enorme espelho aumentativo.
Os lavabos estavam cheios quando Susie entrou. Enquanto pintava os olhos, foi dando a sua contribuição diária de mexericos. Gregory Austin mandara chamar Danton
Miller! A primeira rapariga a sair dos lavabos passou a novidade a uma amiga que trabalhava no Departamento Jurídico. Em menos de seis minutos, a notícia dera
a volta a todo o edifício.
Ethel Evans estava a escrever um anúncio à máquina, quando a notícia chegou ao Departamento de Publicidade. Ficou com tanta pressa de falar com Susie e saber todos
os detalhes, que nem esperou pelo elevador. Desceu quatro lances de escada e entrou, ofegante, nos lavabos do décimo sexto andar. Susie estava sozinha terminando
de pintar os lábios.
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- Ouvi dizer que o teu chefe vai ser despedido - disse.
- Não será o habitual boato das segundas feiras? Ethel franziu a testa.
- Desta vez ouvi dizer que era verdade. Gregory reúne-se com os directores de departamentos às quinta feiras. Chamar Dan logo na segunda de manhã, bem, toda a
gente sabe que isso só pode significar a degola.
Subitamente, Susie ficou preocupada.
- É o que dizem por aí?
Ethel sentiu-se vitoriosa. Conseguira que a outra reagisse. Encostou-se à parede e acendeu um cigarro.
- Claro que é o que dizem. Já reparaste nos números? Susie continuou a pentear o cabelo. Estava mais do que
penteada e detestava Ethel Evans. Mas, se Danton Miller fosse despedido, ela também o seria! Tinha de saber o que havia de facto. Sabia que o cargo de Danton dependia
da subida e da descida dos números, mas nunca lhe ocorrera que a chamada de Gregory Austin pudesse ter um significado especial. Dera a notícia nos lavabos para
mostrar a importância de Dan. Agora, porém, ela começava a experimentar uma sensação de pânico. Mas tinha de controlar-se. Ethel Evans era apenas uma empregada
do Departamento de Publicidade. Ela era a secretária particular de Danton Miller! A voz saiu-lhe calma, quando respondeu:
- Sim, Ethel, vi as cotações. Mas as mais baixas são as do Noticiário. E é Morgan White o director do Departamento de Reportagens. Ele é que deve ficar preocupado,
e não Danton Miller.
Ethel riu.
- Morgan Whíte é parente dos Austins. Nada o pode atingir. O teu namorado é que está em apuros.
Susie corou ligeiramente. Era verdade que saía com Dan, mas o "namoro" limitava-se a um jantar de vez em quando no
21, ou à estreia de um show na Broadway. Secretamente, esperava que alguma coisa resultasse dali, mas até ao momento, tudo o que ele tinha feito era dar-lhe um
beijo na testa,
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ao deixá-la à porta de casa. Contudo, Susie sabia que era tida como íntima dele. Tinham até sido mencionados numa coluna social. E gostava do prestígio que isso
lhe dava, aos olhos das outras secretárias.
Ethel encolheu os ombros.
- Bem, estou apenas a avisar-te. É melhor preparares-te para uma noite triste com o Grande Danton. Se ele for corrido, vai enfrascar-se bem.
Susie sabia que Dan tinha fama de beber muito, mas com ela nunca o vira beber mais de dois martinis, e nunca perdera a calma. Olhou para Ethel e sorriu.
- Não acho que tenhas de te preocupares com Dan. Se ele realmente perder o cargo, tenho a certeza de que não lhe faltarão ofertas.
- Não estavas aqui quando Colin Chase se "aposentou". Quando lhe perguntaram quais eram os seus planos, ele respondeu: "Para o comandante de um dirigível, se o
dirigível explode, é o fim. No fim de contas, há muito poucos dirigíveis, são muito poucos". - Ethel esperou que a sua frase causasse impacto e depois acrescentou:
- A verdade é que não deve ser nada agradável ficar sentado à espera de outro dirigível.
Susie sorriu.
- Não acho que Dan precise de um dirigível.
- Minha querida, isso é o que vamos ver. Colin Chase ainda passa os dias no 21 ou no Colony, fazendo horas até ser noite, para ir enfiar-se no Louis ou no Armand's.
Susie olhou-se ao espelho. Ethel desistiu.
- Está bem, fica sossegada, mas eu aposto um almoço contigo em como Dan vai ser corrido. As coisas estão feias para ele.
Susie ficou sentada nos lavabos. Estava preocupada com Dan. Mas estava ainda mais preocupada consigo mesma. Se Dan fosse substituído, o novo traria a sua própria
secretária. E ela não podia voltar à sala das dactilógrafas! Tinha de procurar outro emprego, já...
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Oh! Deus! E ela que gastara todo o ordenado de uma semana num vestido para usar com Dan no jantar de entrega dos Emmys, no próximo mês! Sentia, agora, verdadeiro
pânico. Tinha visto as cotações. Queda vertiginosa. O Noticiário estava pior, mas Ethel tinha razão, Morgan White era parente dos Austin. O sacrificado seria Danton.
Sim, ele não mostrara qualquer sinal de preocupação quando ela lhe pusera o recado na mesa, mas nunca se podia saber se Dan estava preocupado. O seu constante
sorriso dava a impressão de que ele estava sempre seguro de si.
Porém, apesar do sorriso, Dan estava preocupado. Assim que vira as cotações, tivera um mau pressentimento. E, quando Susie lhe colocarão recado diante dos olhos,
sentira um aperto no estômago.
Às dez e vinte sete, Dan saiu do seu gabinete e encaminhou-se para o elevador. Os seus olhos pousaram na imponente porta de nogueira, ao fundo do corredor, sobre
a qual se destacava, em letras douradas, o nome: MORGAN WHITE. Tudo parecia calmo lá dentro. Claro, Morgan estava mais do que seguro. Gregory Austin escolhera
Danton Miller Jr. como o homem a sacrificar.
Cumprimentou com a cabeça o empregado do elevador que o levava velozmente ao último andar. Sorriu para a secretária de Gregory Austin, que o anunciava pelo intercomunicador.
Ela devolveu-lhe o sorriso e fez-lhe sinal para entrar. Dan invejou-a, serena e segura no seu cubículo revestido de lambris e cortinados.
Penetrou na espaçosa sala de recepção onde Gregory recebia geralmente os VIPS - grandes patrocinadores ou presidentes de agências de publicidade, que faziam contratos
de muitos milhões de dólares com o IBC. Dali passava-se para a sala de reuniões e para o luxuoso gabinete de Gregory.
Se Gregory o quisesse demitir, provavelmente estaria ali à sua espera, desejoso de encerrar o assunto depressa. O facto de lá não estar era um bom sinal. Mas,
e se Gregory quisesse fazê-lo esperar o sofrer? Podia ser um mau sinal.
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Sentou-se num dos sofás de couro e estudou a bela decoração da sala. Depois, os seus olhos caíram nos vincos perfeitos das calças do seu fato impecável. Bem, naquele
instante ele era Danton Miller, Jr., director do Departamento de Network. Dali a cinco minutos poderia não ser nada.
Tirou a cigarreira. Apesar do ardor da úlcera que o avisava, tirou um cigarro e preparou-se para acendê-lo. Devia ter tomado um tranquilizante antes de sair do
seu gabinete. Não devia ter bebido tanto a noite passada. Bolas! Isso agora, não adiantava nada! Contemplou a cigarreira. Escolhera-a com todo o cuidado. Trezentos
dólares. Pele de crocodilo preto, com detalhes em ouro de dezoito quilates. Podia ter comprado uma completam ente de ouro pelo mesmo preço, mas não combinaria
com a sua imagem de sóbria elegância: fato preto, gravata preta, camisa branca. Tinha doze fatos pretos, cinquenta gravatas pretas, todas iguais. Cada uma delas
tinha um pequeno número no forro, para não pôr sempre as mesmas. O fato preto simplificava a vida: ia bem no escritório e estava sempre elegante quando se apresentava
uma ocasião especial. Quanto à cigarreira, era uma grande ajuda. Se lhe pediam para tomar uma decisão imediata, pegava na cigarreira, escolhia um cigarro, batia-o
contra a cigarreira, o que lhe dava tempo para pensar. Era um óptimo substituto para o fungar, roer as unhas e outras manifestações de nervosismo.
Sentia as mãos húmidas. Não queria perder o emprego! O cargo dava-lhe poder! Além disso, não tinha outro sítio para onde ir, a não ser para o Walhalla dos ex-directores
de TV, os almoços de quatro horas e uma porção de martinis no 21.
Olhou pela janela. Um sol pálido tentava brilhar no céu baço. A Primavera não tardaria. Aquele sofá continuaria ali quando a Primavera chegasse. A secretária de
Gregory também. Mas ele já não estaria. De repente sentiu-se como um condenado que se dirigisse para a cadeira eléctrica e olhasse para as testemunhas que o iriam
ver morrer. Respirou profundamente, como se quisesse saborear os últimos segundos de vida; como se, dentro de alguns segundos, a sua vida fosse
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terminar. O grande escritório, as viagens à Califórnia, o apartamento no Beverly Hills Hotel, as garotas... Voltou para o sofá. Conscientemente não acreditava
em Deus, mas mesmo assim fez uma pequena prece, uma promessa. Se não fosse despedido mudaria radicalmente. Faria com que os números subissem, mesmo que tivesse
de roubar espectáculos de outras networks. Faria do cargo a razão da sua vida. Deixar-se-ia tanto de bebidas e mulheres. Era uma promessa e ele saberia mantê-la.
Não soubera manter a promessa de deixar de beber ao almoço? Tomara essa decisão ao ver a derrocada de Lester Mark. Lester tinha sido presidente de uma grande agência
de publicidade. Dan vira-o passar de dois para cinco martinis, ao almoço. Toda a gente sabe que os martinis aumentam a auto-confiança de um homem e o fazem soltar
a língua. Vira Lester descer de presidente de uma importante agência de publicidade para vice-presidente de uma agência muito menos importante, de vice-presidente
a desempregado e de desempregado a alcoólatra.
Dan estava convencido de que o martini à hora do almoço era um dos maiores riscos da televisão. Por isso mantinha-se abstémio durante o dia. O que fazia depois
das horas de trabalho era apenas da sua conta e de mais ninguém. Mas, no último ano, tinha exagerado. Talvez fosse essa a razão porque se inclinara para Susie
Morgan, quebrando outra das suas regras (Não mistures a vida social com o trabalho). Susie era jovem demais para ele, de modo que Dan não procurava ultrapassar
os limites e mantinha-se razoavelmente sóbrio quando saía com ela. Além disso, não sabia o que fazer com uma rapariga de vinte e três anos: uma rapariga daquela
idade tem sempre em mira o casamento. Era mais seguro apanhar uma moça na rua. As raparigas como Susie só serviam para se aparecer com elas. Mas poria de lado
as moças se conservasse o emprego. Não sairia de casa durante a semana, ficaria a ver um combate de boxe, os programas dos competidores, descobrindo porque razão
tinha baixado as cotações da IBC. Que era que o público queria? Ora, quem podia saber? Nem o próprio
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público o sabia.
A porta abriu-se e Gregory Austin surgiu. Dan levantou-se de um salto. Gregory trazia as cotações na mão. Entregou-as a Dan e fez-lhe um sinal para que se sentasse.
Dan olhou para as cotações como se as tivesse a ver pela primeira vez. com o rabo do olho, via Gregory andar de um lado para o outro. De onde tiraria ele tanta
energia? Dan era dez anos mais novo, mas não tinha aquela agilidade. Austin não era alto. Dan media um metro e oitenta e era uns dez centímetros mais alto do
que Gregory. Até mesmo Judith, em saltos altos, parecia maior do que Gregory. Contudo dele emanavam força e virilidade. Todo ele parecia cheio de vida; os cabelos
ruivos, as sardas nas mãos fortes e queimadas do sol, a ausência de barriga, os movimentos rápidos e o sorriso súbito, que a todos desarmava. Dizia-se que tinha
sido o galã real de muitas starlets de Hollywood, até conhecer Judith. Desde que se casara com ela, pareciam não existir, para ele, mais mulheres no mundo.
- O que é que acha dos números? - perguntou inesperadamente.
Dan fez uma careta.
- Nota alguma coisa de especial?
Dan puxou da cigarreira. Tirou um cigarro. Gregory estendeu a mão e tirou, também, mas ignorou o isqueiro de Dan.
- Há uma semana que não fumo - anunciou. Limito-me a pôr o cigarro na boca. Dá resultado. Experimente, Dan.
Dan acendeu o seu cigarro e exalou lentamente o fumo. Fez uma nova promessa ao Deus que protegia os directores de networks. Se saísse daquela sala com o seu cargo
intacto, nunca mais voltaria a fumar.
Gregory inclinou-se para a frente. A "sua mão forte, com pelos ruivos, apontou para as cotações.
- Estamos mal - comentou Dan, como se acabasse de fazer uma descoberta.
- Não nota mais nada?
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A úlcera apunhalou Dan. Os seus olhos voltaram-se para os dois espectáculos de variedades incluídos nos dez meses cotados. Espectáculos que ele tinha recomendado.
Mas conseguiu olhar para Gregory com uma expressão inocente.
O dedo de Austin apontou, impacientemente para a página.
- Olhe para o nosso noticiário local. Tem noites em que ultrapassa até a CBS, a ABC e a NBC. E sabe porquê? Por causa de um tipo chamado Robin Stone!
- Já o vi várias vezes, é óptimo - mentiu Dan. Nunca o vira, nem assistira ao noticiário das onze horas. Ou estava cansado e adormecia, ou preferia assistir ao
programa da NBC.
- Há um mês que o venho a observar - disse Gregory. A minha mulher acha que ele é óptimo e você sabe que são as mulheres que escolhem os programas para os maridos,
no que respeita a noticiários. Os homens podem escolher os outros programas, porém, no que se refere a noticiários, são sempre elas que mandam. Isto porque as
notícias são as mesmas, depende apenas de quem as diz. Foi por isso que tirei Robin Stone do noticiário local. Pretendo colocá-lo no nosso programa das sete,
com Jim Bolt.
- E porquê com Jim?
- Ele tem um contrato a vencer. Além disso, não quero que Robin Stone fique preso só a esse programa. Tenho outros projectos para ele. Acho que pode vir a ser
um novo Murrow, um novo Huntley ou Brinkley. Demos-lhe uma oportunidade e ele transformará o programa das sete. No fim do Verão, o seu rosto será conhecido em
todo o país. Será o nosso homem de ouro nas convenções. Temos de reformular o nosso Departamento de Reportages e a única maneira de o fazer é lançar mão de uma
personalidade. Estou certo de que Robin Stone é o nosso homem.
- Talvez - disse lentamente Dan, tentando adivinhar o que estava para vir. Tudo aquilo dizia respeito ao sector de Morgan White.
Como se lhe lesse o pensamento, Gregory disse:
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- Naturalmente, Morgan White terá que nos deixar. Dísse-o calmamente, sem qualquer emoção.
Dan confinou calado. Era uma reviravolta inesperada e não compreendia porque razão Gregory lhe confidenciava tudo aquilo. Gregory, que costumava manter toda a
gente a distância.
- E quem entraria para o lugar de Morgan? Gregory encarou-o.
- Então, não lhe disse já? Terei de ser mais claro? Não quero Robin Stone apenas para aparecer no vídeo. Quero-o para chefiar o departamento.
- Acho uma óptima ideia. - Dan sentia-se tão aliviado por não ser ele a cair, que resolveu mostrar-se expansivo.
- Mas eu não posso despedir Morgan. Ele tem que se demitir.
Dan fez que sim, temendo ainda qualquer sugestão.
- Morgan não tem talento, mas tem orgulho demais. É um mal de família. Ele é parente da minha mulher. A mãe dele e a minha sogra eram irmãs. Uma grande família,
sem qualquer sentido prático, mas com orgulho para dar e vender. É justamente com isso que estou a contar. Quando você sair daqui, quero que mande um memorando
a Morgan, dizendo-lhe que contratou Robín Stone para Director Geral de Reportagens.
- Director Geral de Reportagens?
- Não existe esse cargo. Estou apenas a criá-lo temporariamente. Morgan também irá ficar a matutar em que diabo será isso. Irá falar consigo. Dir-lhe-á que criou
o cargo especialmente para Robin Stone, para ver se ele consegue fazer subir as cotações. Que Robin Stone terá carta branca para fazer alterações no Departamento
de Reportagens... e que prestará contas a você. Está a perceber?
Dan fez que sim.
- Morgan dirá que estou a intrometer-me no departamento dele.
- A intrometer-se, não. Como presidente de Network,
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você tem o direito de sugerir alterações e mudanças em todos os departamentos. Dan sorriu.
- De sugerir, mas não de realizar.
- Não percamos tempo com subtilezas. Morgan virá a correr falar-me. Fingirei que é uma surpresa, mas sustentarei que o seu cargo lhe dá poder para contratar gente
nova.
- E se Morgan não se demitir?
- Demite-se, sim - afirmou Gregory. - Quer apostar? Gregory atirou fora o cigarro por acender e Dan levantou-se. A entrevista terminara. A sua vida tinha sido
poupada.
Saiu do gabinente com um novo sentimento de segurança. O seu cargo não estava em perigo, nem estaria, por algum tempo. Gregory queria que ele fosse o carrasco
de
Morgan. Sentia-se tonto ao pensar no prestígio que aquilo lhe daria. Toda a gente sabia das relações de família que havia entre Morgan e Gregory Austin. E agora
ele, Danton Miller, Jr., iria anunciar que nomeara Robin Stone Director Geral de Reportagens. Todos acreditariam que ele tinha força suficiente para despedir Morgan
White e que Gregory Austin aceitava tudo o que ele resolvesse! O comentário espalhar-se-ia por toda a cidade: "Danton Miller, Jr. tem autonomia."
A mão tremia-lhe ao escrever e reescrever o memorando para Morgan White. Após alterá-lo várias vezes, ditou-o a Susie, imaginando quanto tempo demoraria ela para
levar a notícia a todo o edifício. Depois reclinou-se na cadeira e puxou de um cigarro mas, lembrando-se da promessa, atirou-o, por acender, no cesto dos papéis.
Levantou-se e foi até à janela. O sol brilhava, o céu estava de um azul intenso. A Primavera aproximava-se e ele estaria vivo para recebê-la. Voltou-se calmamente
quando Morgan White entrou pelo seu escritório.
- Que vem a ser isto? - perguntou Morgan.
- Sente-se... - Dan puxou da cigarreira, hesitou e depois abriu-a. Diabo, se Deus existia, Ele sabia bem que era preciso ter um cigarro na mão, naquela altura.
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Capitulo quarto

No dia seguinte ao da grande novidade tudo continuou, como de costume, na IBC. O retrato de Robin Stone aparece no The New York Times, com uma breve notícia anunciando
a sua nomeação como Director de Reportagens. Havia um misto de suspense e apreensão no Departamento de Reportagens, com todos à espera que Robin Stone chegasse.
Robin sempre tinha sido pouco sociável, razão porque todos se perguntavam: "Como será Robin Stone?" A única pessoa que se dera um pouco com ela era Bill Kettner,
um dos operadores. Por duas vezes tinha ido, com Robin a um bar, depois do noticiário das onze. Em ambas as ocasiões tinha ido para ver um jogo nocturno. Robin
Stone gostava de beisebol. Também era capaz de dar conta de três copos de vodka como se fossem de sumo de laranja. Estas eram as únicas particularidades que tinham
conseguido reunir a seu respeito.
Algumas das raparigas tinham-no visto no P.J., sempre com uma moça bonita. Por vezes, Jerry Moss acompanhava-os. Jerry Moss parecia ser o único amigo dele. Encontravam-se
todos os dias no Lancer Bar, para uma bebida.
- Onde diabos fica o Lancer Bar?
Jim Bolt disse que achava que ficava na rua Quarenta e Oito Oeste.
Sam Jackson tinha a certeza de que ficava na Primeira Avenida.
Procuraram na lista telefónica.
Ficava na rua Cinquenta e Quatro Leste.
Nunca ninguém tinha ido lá.
Na quarta-feira de tarde, metade do Departamento de Reportagens foi ao Lancer Bar.
Robin Stone não apareceu.
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Na quinta, um dos pesquisadores foi lá, porque simpatizara com o Lancer Bar.
Robin Stone estava lá.
Com Jerry Moss e a mais bela rapariga do mundo.
Não havia mais nada a fazer senão esperar que Robin Stone tomasse a iniciativa. Isso apenas aconteceu na sexta-feira à tarde. Um recado surgiu nas mesas de todos
os empregados do Departamento de Reportagens:
Haverá reunião na sala de conferência do décimo oitavo andar, segunda-feira, às dez e meia.
ROBIN STONE
Começaram a entrar na sala de conferências às dez e vinte. Às dez e vinte e cinco, Ethel Evans entrou. Jim Bolt olhou para ela com curiosidade. Ethel nada tinha
a ver com isto. Mas ele estava demasiado preocupado com os seus próprios problemas para pensar nela. Um novo director significava uma grande transformação. Entretanto,
não podia deixar de admirar Ethel ao entrar por ali dentro como se nada fosse. Gabava-lhe a coragem e a auto-confiança.
Mas Ethel não estava tão segura de si como aparentava. Reparou que a maioria das pessoas se sentavam automaticamente, como se cada uma soubesse onde devia sentar-se.
A sala era comprida e o seu único móvel era a grande mesa. Havia algumas cadeiras a mais contra a parede. A porta por onde todos tinham entrado dava para o hall.
Ethel olhou para uma outra porta. Uma porta que estava propositadamente fechada. Em breve todos os lugares estavam ocupados, excepto a cadeira vazia à cabeceira
da mesa. Ethel hesitou, depois agarrou numa das cadeiras contra a parede, puxou-a para junto da mesa e meteu-a entre um pesquisador e um repórter desportivo.
Às dez e meia, Randolph Lester, o vice-presidente de Morgan, entrou na sala. Ethel notou que ele parecia bastante
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confiante. Talvez Robin já lhe tivesse dado a entender que o seu cargo não corria perigo. Randoph usava um fato preto e
uma gravata também preta. A imagem da IBC
criada por panton Miller. Sorriu para todos com um ar paternal.
- bom dia, senhoras e senhores - disse. -Sei que todos compartilham do entusiasmo da IBC pela nomeação do sr. Stone para a direcção deste departamento. Alguns
dos senhores já trabalharam com ele. Outros irão vê-lo agora pela primeira vez. Tanto o sr. Gregory Austin como o sr. Danton Miller orgulham-se de colocar o futuro
do
nosso departamento nas mãos do sr. Stone. Serão feitas algumas modificações, ou melhor, muitas modificações. Mas estou certo que todos
compreenderão que elas não
se reflectirão no talento ou nas realizações pessoais de ninguém. As modificações serão para aumentar a cobertura das nossas reportagens. Aumentar as nossas realizações.
- Porque não diz ele aumentar as cotações? - murmurou alguém perto de Ethel.
E outra pessoa resmungou:
- Ainda vamos parar à lista dos desempregados. Randoph Lester continou:
- A política da IBC foi sempre... - mas nesse momento parou; a porta abrira-se e Robin Stone entrava na sala.
Começaram a aplaudir, mas algo no olhar de Robin Stone fez com que os aplausos cessassem mal tinham principiado. Sorriu e todos se sentiram como crianças ridículas,
que tivessem feito qualquer coisa mal mas que houvessem sido perdoados.
Robin Stone percorreu a mesa com os olhos, não se detendo em ninguém. Era como se estivesse a fazer um balanço das pessoas ali presentes, da sala, do ambiente.
Depois sorriu de novo, um sorriso fácil. Ethel reparou que a resistência das pessoas parecia derreter-se. O poder daquele sorriso era como uma voltagem de electricidade
paralisadora. Para Ethel, ele tornou-se, de repente, mais desejável do que qualquer astro de cinema. Meu Deus, poder penetrar através daquela fachada de
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aço... fazer aquele homem tremer nos braços dela... dominá-lo... mesmo que apenas por um segundo! Do seu lugar, na ponta da mesa, podia olhar para ele sem lhe
chamar a atenção. De repente, notou que ele apenas sorria com os lábios. Os seus olhos permaneciam frios.
- Passei em revista todos os sectores do departamento - anunciou. - Vocês são todos óptimos. Mas acontece que as cotações da IBC estão a cair. Temos de introduzir
modificações. Eu sou um repórter, um jornalista, não se esqueçam disso. E isso o que sou e o que serei sempre. Esta é a minha primeira experiência como executivo.
Mas também funcionarei como jornalista. Na Força Aérea, mesmo depois de ganhar várias promoções, continuei a voar como piloto de bombardeiro.
Ethel observava-o enquanto falava. Era um belo homem, frio mas belo. Devia ter quase dois metros de altura e um corpo todo feito de músculos. Ela tinha de fazer
dieta. Ele sorria de novo. Era capaz de conquistar toda a gente só com aquele sorriso.
- Pretendo manter a acção aqui. Este Verão, quero formar uma equipa para cobrir as convenções. - prosseguiu Robin Nessa altura, Andy Parino, da nossa estação em
Miami, já estará a fazer parte de network, e também participará da nossa equipa de convenções. O meu desejo é aumentar e não cortar.
- Virou-se para Randolph Lester. - Mas antes de mais nada, que tal darmos a volta à mesa e apresentar-me todos?
Os dois deram a volta à mesa e Robin apertou a mão de cada presente. O seu sorriso permanecia inalterável, mas o seu olhar era remoto e os seus cumprimentos, impessoais.
Parecia mesmo que nunca vira ninguém antes.
Quando os olhos de Lester pousaram em Ethel, ele demonstrou surpresa, hesitou um segundo e passou adiante rapidamente. Foi tudo tão rápido, que Ethel não percebeu
a deliberada omissão. Os dois homens voltaram para a cabeceira da mesa, mas Robin não se sentou. Os seus olhos percorreram a mesa e deram com Ethel.
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Apontou para ela.
- Parece-me que não fomos apresentados. Ela levantou-se.
.- O meu nome é Ethel Evans.
- Qual é o seu trabalho?
Ela sentiu o calor subir-lhe pelo rosto.
- Trabalho no Departamento de Publicidade...
- Então, o que está a fazer aqui? - perguntou ele, sorrindo e com voz suave, mas gelando-a com os olhos.
- Bem, pensei que... pensei que alguém da Publicidade tivesse que vir, para anunciar quaisquer modificações. Achei que o senhor precisaria de alguém. - E sentou-se
o mais depressa possível.
- Quando eu quiser alguém, informarei o Departamento de Publicidade - replicou ele com o mesmo sorriso. - Que tal se voltasse para o seu lugar, agora?
Todos os olhares a seguiram na saída da sala.
No hall, Ethel apoiou-se à porta. Sentia-se fisicamente doente. Tinha vontade de sair a correr - ouvia-o falar, lá dentro - mas ficou onde estava. Não conseguia
mover-se... estava como que em estado de choque.
Ouviu Lester perguntar a Robin se as segundas-feiras ficariam reservadas para as reuniões semanais.
- Não haverá reuniões semanais - respondeu Robin. Pretendo convocá-las quando houver necessidade. Mas quero desde já uma modificação...
Houve um segundo de silêncio. Ethel sabia que toda a gente estava atenta. E logo a seguir ouviu Robin dizer:
- Tire essa mesa daqui, quero uma mesa redonda.
- Uma mesa redonda? - repetiu Lester.
- Isso mesmo. Uma grande mesa redonda. Não gosto de me sentar à cabeceira de uma mesa. Não quero lugares marcados. Se vamos trabalhar em equipa, temos de reunirmo-nos
como uma equipa. Arranje-me uma grande mesa redonda. Houve um momento de silêncio e depois toda a gente começou a falar ao mesmo tempo e Ethel percebeu que Robin
saíra da
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sala. Ouviu-os conversar com uma espécie de enervado alívio. Dentro em pouco, começariam a sair. Correu pelo corredor. Não podia esperar pelo elevador - não queria
dar de frente com eles. Precipitou-se pela escada abaixo e escondeu-se nos lavabos do andar inferior. Graças a Deus, estava vazio. Agarrou-se ao lavatório com
todas as forças, com lágrimas de humilhação a escorrer-lhe pelo rosto.
- Seu filho da puta, hás-de pagar-mas! - Começou a soluçar. - Hás-de pagar-mas! - Enxugou os olhos e viu-se ao espelho. De novo foi sacudida pelos soluços. - Meu
Deus chorou - porque não me fizeste bela?

Capitulo quinto

Após a sua expulsão da reunião de Robin, Ethel não voltou a sair da sua sala. Não queria encontrar-se com ninguém nos corredores - tinha a certeza que era objecto
de piadas.
Resolveu aproveitar e passou à máquina todos os textos publicitários que se tinham acumulado na sua mesa. Às seis e meia, todas as salas daquele andar estavam
vazias. O trabalho fizera com que o seu sentimento de humilhação se evaporasse. Agora, sentia-se apenas exausta e desanimada.
Pegou no espelho e tentou retocar a maquilhagem. Olhou para a sua imagem e ficou ainda mais desanimada. O seu rosto estava horrível. Colocou a capa na máquina
e levantou-se. Tinha a saia toda amarrotada. Talvez por ser justa demais. Ethel suspirou. Tudo o que comia parecia ir directamente para as ancas. Tinha que começar
mesmo uma dieta rigorosa.
Tomou o elevador para o terraço. Ohall estava deserto, mas a cafeteria ainda estava aberta. Era tarde demais para ir até ao Louis ou ao Armand's, a pretexto de
procurar alguém e dar, talvez, umas boas gargalhadas no bar. Toda a gente que ela conhecia já devia ter-se ido embora. Estava na hora do jantar. Entrou na cafeteria
e pediu um café. Geralmente, tomava-o com leite, bem açucarado. A dieta ia começar! Ficou a ver a empregada servir o café. As mãos dela eram vermelhas e gastas
pelas lavagens da louça. Teria sonhos? Planos para subir na vida? Era muito mais favorecida do que Ethel, no que dizia respeito à beleza. Era esbelta e tinha um
rosto bonito. Apesar disso, não se importava de passar o dia de pé, a impar o balcão, a ouvir os insultos dos fregueses, sorrindo quando lhe davam uma gorgeta,
enquanto Ethel Evans
ganhava cento e cinquenta dólares por semana!
Puxou do estojo de pó-de-arroz e retocou o batôn. Não era
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nenhuma beldade, mas defendia-se. Mais do que isso - mas não seria nada mau ser um pouco mais bonita. Diabo, aquela falha nos dentes. E aquele dentista descarado,
a pedir-lhe trezentos dólares para lhe fazer uma prótese. Propusera-lhe dormir com ele, se fizesse o trabalho de graça-, mas ele pensara que era brincadeira. Quando
ela o convencera de que falava a sério, ele fingira não acreditar. Ela, então, compreendera que ele não aqueria! O Dr. Irving Stein, um dentistazinho insignificante,
não a desejava! A ela, Ethel Evans, que só ia para a cama com gente importante, que era conhecida na IBC como o "dormitório
das celebridades"!
Saiu dacafeteria e nohall, hesitou. Não queria ir para casa. Era a noite da semana em que a sua colega de apartamento oxigenava o cabelo e fazia um barulho desgraçado.
Mas era um arranjo conveniente, o partilhar um apartamento com Lilian, que trabalhava na agência Benson-Ryan. Os seus horários eram os mesmos e as duas tinham
gostos iguais. Tinham-se conhecido em Fire Island. Um rico Verão! Seis raparigas tinham juntado as economias para alugar uma vivenda, a que tinham dado o nome
de "A Casa das Seis Fugitivas". Tinham um quadro negro, onde anotavam os pontos. De cada vez que uma delas conquistava um tipo, as outras tinham de colocar um
dólar no mealheiro. No fim do Verão, a que tivesse feito mais conquistas ganhava o mealheiro. Lilian vencera Ethel por mais de uma dúzia. Mas Lilian não era exigente.
Era uma boa rapariga, divertida, mas nada exigente. Aceitava até um assistente de direcção. Pelo código de Ethel, um A. D. só servia para dar, depois, umas boas
gargalhadas no Louis ou no bar do Armand's e isso estando ela desesperada.
De repente, reparou que o porteiro a olhava. Saiu e começou a andar. Talvez desse um salto até ao P.J. Clarke's.
Havia três pessoas no bar e ela sentou-se ao lado de uns indivíduos que trabalhavam numa agência. Ficou no bar durante mais de uma hora, a contar anedotas sujas,
bebendo uma cerveja com os olhos fixos na porta, à espera que chegasse alguém. Alguém que lhe pagasse o jantar...
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Às sete e meia viu Danton Miller entrar, sozinho. Ficou a pensar onde diabos estaria Susie. Dan olhou para ela sem sequer se dar ao trabalho de acenar e reuniu-se
a uns indivíduos que estavam no outro lado do balcão.
Passou-se mais uma hora e então, como se um despertador tivesse tocado, os tipos da agência emborcaram de repente as suas bebidas e correram para apanhar o último
comboio suburbano, de horário decente. E nem um dos desgraçados se ofereceu para lhe pagar a conta! Agora, ela já estava com fome. Se entrasse no restaurante e
comesse um hamburger, Lilian já teria terminado com a água oxigenada e o jazz quando ela chegasse a casa.
Sentou-se sozinha, numa mesa pequena, e comeu ohamburger. Estava cheia de fome, mas deixou metade no prato. Bolas, para que tomara uma cerveja? Pesava quase setenta
quilos. Bem, tinha cintura estreita e um busto sensacional... Tamanho quarenta e oito, mas bem feito e firme. O seu problema estava no traseiro e nas coxas. Se
não conseguisse emagrecer agora, nunca o conseguiria e dentro de um mês ia fazer trinta anos. Trinta anos e ainda solteira!
Quase riu alto. Podia ter-se casado, se o tivesse querido, com o operador da CBS ou com o bartender de Greenwich Village. Mas Ethel só se contentaria com uma celebridade.
Uma noite com uma celebridade era preferível a uma existência medíocre com um joão-ninguém. No fim de contas, quando se deitava com um galã de cinema e o ouvia
murmurar, "Querida... querida", nos seus braços, esse momento de triunfo compensava tudo. Nesse momento, ela sentia-se bela, sentia-sealguém e podia esquecer-se
de si...
Sempre quisera ser bonita desde criança. A gorducha Ethel Evanski, de Hamtramck, Detroit. A comer puré de batatas com cebolas fritas, a ouvir toda a gente do bairro
a falar polaco, lendo revistas de cinema, a encomendar retratos autografados de Heddy Lamarr, Joan Crawford, Clark Gable, sentando-se
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nos degraus de frente e jogar "O Jogo" -falar de sonhos como se fossem realidade - com Helga Selanski, uma rapariga de cabelo liso e comprido, também filha de
polacos e da mesma idade. Toda a gente era polaca naquele quarteirão de Hamtramck. E a segunda geração de polacos parecia destinada a casar entre si. Iam ao cinema
e viam que existia um outro mundo, mas nunca lhes passava pela cabeça tentar penetrar nele. Para Ethel, porém, o cinema e os lugares que via nos filmes não representavam
apenas duas horas de diversão. Hollywood existia de facto. Nova Iorque e a Broadway também. À noite, ficava até altas horas a ouvir rádio na cama e, quando o locutor
anunciava que estavam a transmitir directamente do Cocoanut Grove, em Hollywood, ela não cabia em si de excitação, ao pensar que, naquele mesmo momento, a bela
música que estava a ouvir, era também escutada pelos astros e estrelas famosos que lá estavam. Era como se ela também estivesse lá.
Ethel tivera sempre a certeza de que acabaria por sair de Hamtramck. Ir para Nova Iorque era o primeiro passo, nos seus planos. Uma noite, quando escutava com
Helga
uma transmissão directa do Paradise Restaurant, em Nova Iorque, Ethel começara "O Jogo", dizendo o que usaria quando crescesse e fosse a restaurantes famosos e
com que actores iria. Geralmente, Helga jogava também. Mas, nessa noite, inesperadamente ela espetou o queixo ossudo e declarou:
- Já não quero saber disso. Estou grande demais para essas coisas.
Ethel ficara surpreendida. Costumava convencer Helga a fazer o que ela queria, mas dessa vez Helga foi obstinada.
- A minha mãe diz que não devemos falar assim, que chegou a altura de pensar na vida e não num mundo de fantasia.
Ethel replicara:
- Mas não tem nada de fantasia. Hei-de ir a restaurantes famosos, hei-de conhecer artistas de cinema, hei-de sair com eles... e hei-de ser beijada por eles.
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Helga dera uma gargalhada.
- Imaginem! Beijada por eles! Ora Ethel, desafio-te a falar disso a outra pessoa no quarteirão. Não vais fazer nada disso. Vais ficar aqui como toda a gente, vais
casar com um filho de polaco e ter filhos.
Ethel franzira a testa.
- vou conhecer galãs de cinema... sair com eles... quem sabe, talvez casar com um.
Helga rira novamente.
- A minha mãe tem razão. Ela diz que está muito bem falar de Hollywood em sonhos, mas não como se fosse uma coisa real. Pareces maluca. Não vais nada sair com
galãs de cinema. Não te esqueças que és Ethel Evanski, gorda, feia e residente em Hamtramck. Que artista de cinema ia querer sair contigo?
Ethel esbofeteara Helga, com toda a força. Mas ao mesmo tempo sentira medo de que Helga estivesse a dizer a verdade. Mas ela não ficaria em Hamtramck, à espera
de casar com um filho de polaco, ter filhos e cozinhar puré de batatas com cebola frita! Para que tinham saído os seus pais da Polónia, se viviam como que numa
pequena Polónia, em Detroit?
O acontecimento que a levara a transformar "O Jogo" em acção tinha sido Peter Cinocek, um rapaz de orelhas de abano e enormes mãos vermelhas, que viera "fazer
uma
visita", quando ela tinha dezasseis anos. Peter era filho de um amigo da tia Lotte, e considerado um
"bom partido", metade polaco, metade checo. A mãe e o pai dela
tinham ficado loucos de alegria. Ethel lembrava-se de como a mãe limpara a casa. Tudo tinha de estar impecável na noite da visita. Parecia-lhe que os estava a
ver. A mãe, à espera, toda nervosa, metida num vestido de algodão, acabado de engomar. O pai, magro, e careca, tão envelhecido, apesar de ter apenas trinta e oito
anos. Sempre lhe parecera gasto e doentio, enquanto a mãe lhe parecia forte e maciça.
Nunca esqueceria a visita de Peter Cinocek. A primeira coisa que vira tinham sido as grandes orelhas, e depois as
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espinhas no pescoço, rodeando um furúnculo que estava ainda a formar-se. Mas pensariam que ele era Clark Gable, pela maneira como a mãe sorrira, ao trazer uma
jarra de limonada para a varanda e desaparecer discretamente na cozinha, à espera.
Toda a gente, no quarteirão estava à espera. Toda a gente, na pequena fila de casas, sabia que um "pretendente" viera visitá-la. Ethel sentara-se no baloiço com
Peter Cinocek. Tinham ficado em silêncio escutando o ranger do baloiço, e os murmúrios dos vizinhos, na varanda ao lado. Parecia-lhe ver ainda a casa. Um cubículo,
no meio de um longo quarteirão de casinhas de madeira idênticas. Todas tinham a mesma varanda meio derruída e uma cozinha onde todos passavam grande parte do tempo.
E havia a fila interminável das latas do lixo e os gatos que frequentavam as traseiras. Parecia-lhe ainda ouvir o miado dos gatos com cio e algum vizinho a atirar
um balde de água em cima deles. Ou a pontaria era má ou os gatos não ligavam à água fria, porque, após um breve intervalo, os miados recomeçavam.
Lembrava-se dessa noite, sentada no baloiço, ao lado de Peter Cinocek. Ele falara-lhe do seu emprego e depois agarrara-lhe a mão. A mão dele era húmida e mole.
Dissera-lhe que esperava vir a formar um lar igualzinho aquele e ter muitos, muitos filhos. Então, ela pulara do baloiço e correra! Claro que voltara, quando tinha
a certeza de que Peter já se fora embora. Os pais tinham rido e troçado em polaco, dizendo que ela tinha medo dos rapazes. Ah!, mas Ethel nascera para ter filhos
- ancas largas, não teria dificuldade.
Ethel ficara calada, mas redobrara os esforços na escola e, nesse mesmo Verão arranjara emprego num escritório, no centro de Detroit, tornando-se bastante eficiente
como secretária. Não namorava, mas não se sentia infeliz. Esperava - e economizava.
Com vinte anos conseguira juntar quinhentos dólares e viera para Nova Iorque. O seu último emprego, em Detroit fora no departamento de relações públicas de uma
pequena
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agência de publicidade. Em Nova Iorque, tinha ido parar à sala je dactilógrafas de uma grande agência de publicidade. A acência cuidava de vários programas de
televisão
e, um belo dia, surgiu a oportunidade que Ethel esperava. Um ídolo cinematográfico que aparecia num dos programas patrocinados pela agência, entrara embriagado
no
escritório. Ethel sentira uma estranha emoção ao acompanhá-lo de volta ao hotel. A bebedeira passara assim que o actor descobrira que tinha possuído uma virgem.
Bêbado como estava, não se lembrava que a virgem virtualmente o seduzira. Sentira-se apavorado. Oferecera-lhe dinheiro que Ethel recusara. Tudo o que fizera tinha
sido por amor. O pânico dele aumentara. Era casado e amava a mulher. Não haveria nada que ele pudesse fazer por ela? Bem, respondera Ethel, ela não estava nada
entusiasmada com o facto de ser apenas uma dactilógrafa entre tantas outras... Ele não tardara a agir. Comfinesse, rapidez e ajuda do seu agente, obtivera a transferência
de Ethel para o escritório de publicidade, em Nova Iorque, da sua companhia cinematográfica.
Fora o céu aberto para Ethel. Conhecera um monte de actores bêbados, e até alguns sóbrios. E fazia tudo por amor. A notícia correra e a carreira de Ethel começara.
Quando surgira uma vaga no Departamento de Publicidade da IBC, Ethel conseguira-a. No fim de contas, tinha percorrido praticamente toda a lista de actores da companhia
cinematográfica. A IBC oferecia mais dinheiro e novas perspectivas. Ela era boa no seu trabalho e excelente no seu hobby - o seu emprego estava assegurado, na
IBC.
Ethel sabia muito bem que a sua reputação atravessara o país. Gostava da notoriedade e até mesmo do título. Uma das Seis Fugitivas de Fire Island tinha ido trabalhar
para Los Angeles, no Departamento de Publicidade da Century Pictures. Ela e Ethel trocavam grandes cartas. Ethel descrevia-lhe todos os pormenores dos seus casos,
dando a cada homem uma cotação de acordo com os seus predicados. Tinha um estilo engraçado e Yvonne, a sua correspondente, mimeografava
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as suas cartas, passando-as entre os colegas de escritório. Ethel soube disso e procurou esmerar-se ainda mais nos pormenores. Era quase como se tivesse posto
um anúncio. Muita gente famosa a procurava, assim que chegava a Nova Iorque. Homens famosos... bonitos...
Muitas vezes ela tinha vontade de que Helga a pudesse ver com os artistas de cinema. Helga devia estar acabada e cheia de filhos. Tinha casado com Peter Cinocek!
De repente, olhou para cima. Danton Miller estava de pé, junto à mesa dela, completamente embriagado.
- Olá, querida - disse, com o seu invariável sorriso.
Ela sorriu.
- Ora, ora. Imaginem!
- Imaginem o quê? - perguntou ele.
- Você só me reconhece quando está grosso. Dan puxou uma cadeira e riu.
- Você é engraçada. - Fez sinal para trazerem outra bebida e olhou para ela. - Dizem que você é a melhor. Que tal se eu experimentasse?
- Eu é que escolho os meus pares, sr. Director. Mas não fique triste... o senhor está na minha lista, para quando não houver outra coisa.
- E esta noite, há outra coisa? - Até agora, não...
Ele passou-lhe o braço pelas costas.
- És feia como os diabos, mas ouvi dizer que eras a melhor. Queres vir comigo?
- Isso é que é romantismo! Ele franziu a testa.
- Também ouvi dizer que falas demais. Que dás uma cotação a todo o tipo que dorme contigo.
Ela encolheu os ombros.
- Porque não? As minhas cotações evitam que algumas das minhas amigas se enganem.
O sorriso de Dan escureceu.
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.- Quem diabo pensas que és para dares cotações desse
tipo?
- Tenho uma excelente base para comparações.
- Queres uma bebida? - perguntou ele, quando o empregado colocou mais um uísque à sua frente.
Ela fez que não. Ele emborcou a bebida e olhou para ela.
- Estás a ficar cada vez mais bonita, Gargântua. E eu estou a ficar cada vez mais curioso.
- E mais bêbado também - disse ela.
- É verdade. Está na hora de ir para casa. Talvez te leve comigo.
- Está a esquecer-se, sr. Director, que sou eu quem decide.
Ele olhou para ela com humildade. -Então, queres vir comigo?
Ethel sentiu-se triunfante. Era como se ele estivesse de joelhos diante dela.
- Se eu for, terá de me mandar de volta num táxi.
- Mandar-te-ei para casa num Rolls-Royce, se fores boa como dizem. - Pôs-se de pé a cambalear e fez sinal para que lhe trouxessem a conta. Ethel viu, com alívio,
que ele incluía também a despesa dela.
- Tem a certeza de não estar bêbado demais para gostar?
- perguntou ela.
- Isso depende de ti - desafiou ele. - Acho que chegou a altura de alguém te cotar.
Já na rua, ela olhou fixamente para ele.
- Esqueçamos isto. Noutro dia quando você estiver mais sóbrio.
Mas ele agarrou-a pelo braço.
- com medo hem? Talvez a tua reputação não passe de conversa. Acho que é isso mesmo. Como é que podes ser melhor do que as outras?
- Já te vou mostrar. - Fez parar um táxi e ajudou-o a entrar.
Ele tinha um belo apartamento. Um típico apartamento de
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solteiro e de executivo. Levou-a directamente para o quarto e tirou desajeitadamente a roupa. Ethel percebeu a surpresa no rosto dele, à medida que ela se despia.
Os seus seios perfeitos provocavam sempre essa reacção.
- Caramba, minha querida, és bem feita! - disse ele, estendendo os braços.
Ela avançou para ele.
- Um pouco melhor do que Susie Morgan, não?
- Não sei - murmurou ele, atirando-a na cama, com um beijo húmido. Tentou trepar nela mas não conseguiu. Ela saiu de baixo dele e deitou-o de costas.
- Calma - disse. - Podes ser o director àanetwork, mas para mim é como se fosses um garoto. Ethel vai mostrar-te o que é o amor.
E começou a mostrar. À medida que ele ia ficando mais e mais excitado e murmurava, "Minha querida, minha querida... és mesmo a melhor", ela esqueceu-se de que,
no
dia seguinte, ele passaria por ela no corredor sem sequer a cumprimentar. O que lhe interessava era o momento presente. E, naquele momento, ela sentia-se bela.


Capítulo sexto
Danton Miller pôs de lado os jornais especializados. Não estava em condições para se concentrar em nada. Dentro de uma hora ia almoçar com Gregory Austin. Não
fazia
ideia de qual seria o motivo. O telefone tocara de repente, e a voz impessoal da secretária de Austin transmitira-lhe o convite.
Até ali, as cotações estavam quase na mesma. O departamento continuava por baixo, mas o tal tipo novo, Andy Farino, começara havia uma semana a falar de Miami.
Dan tinha de admitir que a inovação dava ao programa uma dimensão extra. Bem, o problema era deles. Ele tinha o seu. O espectáculo de variedades fora cancelado.
Dan tinha a certeza que o western que Gregory escolhera para substituí-lo iria fracassar e estava determinado a surgir com um programa de salvação. Por isso passara
todas as noites daquela semana com dois argumentistas e um cantor de meia tigela chamado Christie Lane.
Na semana anterior, fora ao Copa ver um cómico famoso Christie ajudava apenas a compor oshow. Ao começo Dan não prestara atenção àquele cantor de segunda e quarenta
anos de idade, que parecia mais um animador de parque de diversões. Dan nunca ouvira falar no pobre-diabo. Mas, na manhã seguinte, mandara-os chamar e dissera-lhes
que queria fazer um teste com Christie Lane. Os dois tinham olhado para ele com ar incrédulo.
- Christie Lane! Mas ele está ultrapassado, ninguém o conhece - declarara Sig Hyman.
E Howie acrescentara:
- Nem consegue mais uma noite de sábado no Concord
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ou no Grossinger's, mesmo fora de temporada. Leu a crítica do espectáculo do Copa, no Variety. Nem uma referência a Christie. As coristas chamaram mais a atenção
dos críticos do que ele. Só canta em Nova Iorque quando precisam de alguém para encher um espectáculo. E aquelas baladas irlandesas... Howie erguera os olhos para
o céu. E Sig dera o tiro de misericórdia:
- Além disso, ele parece-se com o meu tio Charlie, que mora em Astória.
- É justamente isso o que eu quero! - insistira Dan. Toda a gente tem um tio Charlie de quem gosta.
Sig abanara a cabeça.
- Eu detesto o meu tio Charlie.
- Poupe as piadas para o argumento - replicara Dan. Sig tinha razão quanto ao aspecto de Christie. Realmente
ele era o Homem Vulgar em pessoa. Ficaria perfeito num espectáculo de variedades próprio para famílias. A pouco e pouco, Sig e Howie tinham concordado. Eram argumentistas
de primeira, que até ali só tinham trabalhado para artistas de fama. Três meses antes, Dan dera a cada um deles um contrato por um ano, para ajudá-lo a fazer novos
programas.
- Christie será o apresentador - explicara Dan. - Formamos um pequeno elenco: cantora, locutor, actores para sketches, e tiraremos partido da voz de Christie.
Se vocês fecharem os olhos, ele quase que faz lembrar Perry Como.
- Acho que lembra mais Kate Smith - retorquira Sig. Dan sorrira.
- Digo-lhes que é o momento propício. Como em tudo, também na televisão há ciclos. Após toda a violência dos Intocáveis e dos seus imitadores, chegou a altura
de um espectáculo que toda a família possa ver. Christie Lane pertence à segunda equipa, mas ninguém na televisão o conhece e ele será uma cara nova no vídeo.
Além disso, toda a semana teremos um convidado famoso. Tenho a certeza que resultará!
Como muitos outros artistas, Christie Lane começara no teatro burlesco. Dançava, cantava, contava anedotas, fazia
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sketches. Trabalhara com Dan e com os argumentistas com uma espécie de ânsia histérica. Dan calculava-lhe a idade em quarenta anos. Tinha cabelo louro e ralo,
um rosto largo e comum e um físico médio; começava a criar barriga. Usava gravatas demasiado berrantes, as lapelas dos seus fatos eram demasiado largas, o anel
de brilhante demasiado grande, os botões de punho pareciam mais moedas de meio dólar. Apesar disso, Dan achava que podia transformar aquele artista de segundo
plano, mas de talento, numa personalidade da televisão. Christie era um trabalhador incansável. Em qualquer cidade onde se apresentasse, arranjava sempre maneira
de conseguir também umas aparições em clubes nocturnos. Andava sempre com duas grandes malas armários e, quando estava em Nova Iorque, hospedava-se no Hotel Astor.
No fim da primeira semana, Dan tinha o programa quase todo delineado. Até mesmo os argumentistas se tinham convencido. Não mudariam as gravatas horríveis, as lapelas
exageradas. Christie achava que se vestia bem. Gostava das gravatas. Essa era a chave da sua personalidade, explicara-lhes Dan. Dariam algumas boas canções para
ele cantar, mas deixá-lo-iam também cantar alguma coisa a seu gosto.
Na semana anterior, Dan mandara um breve resumo do espectáculo para que Gregory desse opinião. Talvez o almoço fosse para falar do assunto. Mas Gregory não o convidaria
para almoçar apenas para lhe dizer que aprovava um novo programa. Mandaria recado para continuar... ou para desistir da ideia. Dan esperava que Gregory lhe desse
o sinal verde. Sentia dores de cabeça, só de pensar em todas aquelas noites na suite cheia de fumo do Astor. Seria horrível ter perdido todo aquele tempo e ter
trabalhado
tanto para nada. Christie e os seus charutos baratos! E sempre a eterna corista do Copa ou do Latin Quarter, pacientemente sentada e calada, lendo os jornais da
manhã, à espera que Christie terminasse. E os acólitos - os dois "argumentistas" que Christie levava sempre consigo,
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Eddie Flynn e Kenny Ditto, com a justificação de que lhe inventavam piadas. Pelo que Dan pudera ver, eles eram uma espécie de pau-para-toda-a-obra. "Eh! Eddie,
vai
buscar-me um café. Kenny foste à tinturaria?" Christie pertencia a um mundo em que um tipo provava a sua importância pelo número de acólitos que o acompanhavam.
Às vezes, só pagava a Eddie e Kenny cinquenta dólares por semana. Quando as coisas iam melhor, pagava mais. Mas eles estavam sempre
"com ele". Levava-os às estreias, às corridas de cavalos, nas suas tournées e,
agora, dissera:
- Os meus rapazes devem ser incluídos no programa como argumentistas. Cada um deles devia receber duzentos palhaços por semana.
Dan escondera a sua vontade de rir e o seu sentimento de alívio. Quatrocentos dólares por semana a mais era bem pouca coisa no orçamento de um grande programa
de televisão. E Christie ficaria satisfeito. Sig e Howie teriam os seus nomes em letras grandes e não custava nada acrescentar, em letras pequenas, no fim do programa,
os nomes dos dois responsáveis pelos diálogos adicionais. Claro que ainda faltava muito. Mas se Gregory lhe desse o sinal verde, poderia ter o programa gravado
em Agosto. Dan esperava fazer o espectáculo ao vivo e gravá-lo ao mesmo tempo, a fim de poder usá-lo noutros mercados. Poderiam ganhar bom dinheiro fazendo o programa
ao vivo, e ele, Dan, seria considerado um herói.
Por um breve momento, sentiu-se feliz. Mas imediatamente lembrou-se do almoço e a dor da úlcera voltou. Que diabo quereria dizer aquele almoço?
Ao meio-dia e vinte e cinco, entrou no elevador. O ascensorista apertou no botão que levava ao Conjunto Especial, isto é à suite que Gregory Austin ocupava. Dan
certa vez dissera que C. E. eram também as iniciais de Cadeira Eléctrica e o nome pegara, entre os executivos, pois a vida de um tipo acabava muitas vezes ali.
Bem,
ele estava preparado para o que desse e viesse. Tomara dois tranquilizantes logo depois do telefonema.
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Dirigiu-se directamente para a sala de jantar particular de Gregory. Reparou que a mesa estava posta para três. Estava a puxar de um cigarro quando Robin Stone
entrou. Gregory entrou logo-a seguir e fez sinal para que se sentassem à mesa.
O almoço era quase espartano. Gregory estava numa das suas fases de cuidar da saúde. com ele nunca se sabia o que esperar. Tinha um chefque trabalhara no Maxim's,
em Paris. Podia-se ser convidado para almoçar e saborear um soufflé de queijo, crepes suzette, molhos que provocavam a úlcera e deliciavam o paladar. Isso geralmente
acontecia quando Gregory lia que um seu contemporâneo morrera num desastre de avião ou fora atacado de cancro ou de qualquer outra doença incurável. Gregory punha-se
então a fumar e a comer do melhor, dizendo: "Amanhã mesmo pode cair-me um vaso de flores na cabeça." Essa fase de extravagância gastronómica continuava até que
um outro contemporâneo tinha um ataque cardíaco. Então, entrava num regime drástico. O presente regime começara desde a sua última ameaça de indigestão.
De início conversaram sobre generalidades. Debateram as possibilidades das outras equipas contra os Yankees e os efeitos do tempo nos seusscores de golfe. Nem
parecia
Abril. Num dia um calor doido, e, de repente, um frio desgraçado.
Dan engoliu em silêncio ogrape-fruit, as duas costeletas de carneiro, a vagem e o tomate. Não comeu a gelatina de frutas. Imaginava o que estaria a pensar Robin
Stone. Mas não podia deixar, também, de sentir pena do cozinheiro, cujo talento estava a ser violentado pelo regime de Gregory.
Durante o café, Gregory pôs-se a contar a história da sua vida, disse a Robin como fundara a IBC, a luta que tinha tido para criar uma nova network. Robin escutava
atentamente, fazendo, de vez em quando, uma pergunta inteligente. E, quando Gregory deu os parabéns a Robin pelo Prémio Pulitzer e citou mesmo trechos das suas
colunas, Dan mostrou-se adequadamente impressionado. O velho devia estar obcecado por Robin Stone, para fazer tudo aquilo.
Quando Gregory colocou o cigarro por acender entre os
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dentes, Dan sentiu que o verdadeiro motivo do almoço ia aparecer.
- Robin tem uma quantidade de ideias geniais - declarou Gregory, com entusiasmo. - Vamos transformá-las em programação àenetwork; foi por isso que o convidei Dan.
- E olhou para Robin com uma expressão quase paternal.
Robin curvou-se sobre a mesa. Os seus olhos encontraram os de Dan. A sua voz era firme.
- Quero fazer um programa chamado Em Profundidade. Dan puxou da cigarreira. O tom de voz de Robin não
implicava um pedido. Era, antes, uma comunicação. Bateu o cigarro. Então, era isso. Gregory dera a Robin carta branca. Tudo aquilo não passava de protocolo, para
fingir que lhe cabia decidir, quando o que ele tinha a fazer era simplesmente anuir! Pois bem, ele não ia facilitar as coisas. Acendeu o cigarro e tragou fundo.
Ao exalar o seu sorriso estava intacto.
- bom título - disse calmamente. - O que é que vai ser? Uma reportagem de quinze minutos?
- Meia hora. Programado para segunda feira, às dez da noite - respondeu Robin.
(Aqueles filhos da puta até já tinham escolhido o horário!) Dan manteve um tom de voz sereno.
- Acho que o novo western já está programado para esse horário. - Olhou para Gregory.
Robin atalhou rapidamente.
- O sr. Austin acha que deve ser substituído por Em Profundidade. O western pode passar para outra hora.
- Está a reparar no dinheiro que perderíamos? Depois do western podemos meter um programa desportivo, barato. A hora que se seguisse ao seu tipo de programa ficaria
desperdiçada. - Dan falava com Robin, mas para que Gregory ouvisse.
- Não vejo como Em Profundidade lhe vai alterar a programação - retorquiu Robin.
- Mas vai - disse Dan, friamente. - E também não vamos arranjar um patrocinador interessado num noticiário
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de meia hora. - (Gostaria de saber o que estava Gregory a fazer, ali sentado e calado, deixando-o discutir aquela ideia louca com aquele intelectual!). Robin
mostrou-se enfadado.
- Não percebo nada de patrocinadores. Pode discutir isso com o Departamento Comercial. A minha função, aqui, na
IOC, é trazer ideias novas e expansão aos noticiários
e reportagens, e acho que esse programa vai ser diferente de tudo o que se fez até agora. Pretendo viajar, fazer entrevistas Em Profundidade, sobre assuntos mundiais
de actualidade. Talvez faça reportagens ao vivo em Nova Iorque ou em Los Angeles. Uma coisa garanto: vou fazer um programa fantástico, informativo e, ao mesmo
tempo,
capaz de divertir.
Dan não podia acreditar no que ouvia. Olhou para Gregory em busca de apoio. Mas Gregory sorriu evasivamente.
- Quando pensa estrear o programa? - perguntou Dan. A coisa parecia-lhe incrível.
- Em Outubro - respondeu Robin.
- Quer dizer que não pretende aparecer antes disso? volveu Dan. - Nem no noticiário das sete? Nem numa reportagem especial?
- Pretendo fazer a reportagem das convenções este Verão.
- Penso que Jim Bolt irá consigo. A cara dele é bastante conhecida e fez um grande trabalho em 56.
- Fez um trabalho péssimo - contestou Robin, sem mudar de expressão. -Jim é bom no noticiário das sete, mas não sabe tirar partido de uma reportagem. vou formar
a minha equipa.
- Já tem alguma ideia ou vai ser outra surpresa? perguntou Dan.
- Não, já está tudo mais ou menos planeado na minha cabeça. -Robin voltou-se para Gregory Austin. -vou levar uma equipa de quatro repórteres: eu e mais Scott Henderson,
Andy Parino e John Stevens, de Washington.
Desta vez Gregory falou:
- Porquê Andy Parino? Ele não se interessa por política.
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Gosto que ele venha de Miami, mas para uma convenção...
- Especialmente para a convenção - retorquiu Robin. - Andy foi colega de universidade de Bob Kennedy.
- Que tem isso a ver com o assunto? - perguntou Dan.
- Acho que Jack Kennedy será o candidato democrático. A amizade de Andy com os Kennedys talvez nos possibilite saber o que vai nos bastidores.
Dan riu.
- Pois eu não acho que Kennedy tenha a menor possibilidade. Concorreu a Vice-presidente em 56 e perdeu. Stevenson é que vai ser o candidato.
Robin olhou firmemente para ele.
- Fique com os seus cálculos de custos e as suas cotações, Dan. Você percebe disso. Deixe a política comigo. Stevenson é um bom nome, mas vai perder para Kennedy,
nesta convenção.
Gregory entrou na discussão.
- Dan, acho que devemos apoiar a ideia de Robin. Os lucros e as cotações são a alma do negócio, mas precisamos de aumentar o nosso prestígio. Se Robin conseguisse
firmar o seu nome fazendo a reportagem da convenção, o programa Em Profundidade poderá tornar-se um sucesso comercial.
-Você acha que pode ultrapassar tipos como Cronkite, Huntley e Brinkley numa convenção? -perguntou Dan, sem poder evitar um leve tom de ironia.
- Farei o possível. Indo com Andy Farino, talvez possa gravar uma entrevista com Jack Kennedy. Se ele for eleito candidato, teremos uma excelente estreia para
o Em Profundidade, Pode apostar que Nixon também ficará encantado em me conceder uma entrevista.
- Está bem - rosnou Dan. - Quer dizer que você vai entrevistar os candidatos, o que faz dois programas. Que pensa fazer mais? Pelo que disse, o programa vai ser
apenas uma plataforma para candidatos políticos.
Robin sorriu.
- Penso ir a Londres e entrevistar alguns dos maiores
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atores britânicos, como Laurence Olivier e Paul Scofield. Depois vou entrevistar um actor americano de igual envergadura e comparar as respectivas atitudes. Em
Maio,
a Princesa Margaret vai casar com Tony Armstrong Jones. Tenho um amigo na UPI, que é amigo de Tony. Procurarei arranjar uma entrevista com ele. Estou também a
planear ir na semana que vem a San Quentin, tentar gravar uma entrevista com Caryl Chessman. A última data para a execução está marcada para o dia 2 de Maio.
- Vão dar-lhe novo adiamento. - retorquiu Dan.
- Não creio-disse Robin. -E a opinião pública está de tal modo a insurgir-se contra a pena capital, que é importante fazer um programa sobre a pena de morte.
- Acho o assunto demasiado sujeito a controvérsias contrapôs Dan. - Acho que todos os assuntos que escolheu são demasiado sofisticados. O público não gosta de
coisas tão intelectuais!
Robin riu, mas Dan reparou na frieza do seu olhar.
- Acho que subestima o público - replicou ele.
Dan engoliu a raiva. Puxou de novo da cigarreira. Quando acendeu o cigarro, já conseguira pôr na voz um tom estudadamente condescendente.
- Acho que todas essas suas ideias são muito originais e interessantes. Mas, enquanto anda por aí a atacar moinhos de vento, eu tenho de lutar com patrocinadores,
organizar o horário dos programas e preocupar-me com cotações. Antes de você partir nesse safari, acho que devíamos sondar alguns patrocinadores... no fim de
contas, umanetwork é um trabalho de equipa. Não pode agarrar na bola a correr com ela à espera que eu a apanhe, sem antes me informar sobre as regras do jogo.
Aprecio a sua inventiva, o seu entusiasmo, mas já viu a programação da NBC, da CBS e da ABC? Precisamos de espectáculos de variedades para competir com elas.
Robin atalhou, com voz gelada:
- Eu não tenho nada a ver com isso. A minha função é dinamizar o Departamento de Reportagens da IBC. Talvez a
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sua função seja ficar sentado, assistindo aos sucessos das outras estações e depois tentar fazer cópias a papel químico dos seus programas. Muito bem, essa é a
sua
função mas não a minha. Os olhos de Gregory Austin brilhavam. Levantou-se de um salto e bateu no ombro de Robin.
- Eu também falava assim quando era da sua idade. Tinha o mesmo entusiasmo ao anunciar que ia inaugurar a quarta network. Violei regras, lutei, não dei ouvidos
a
quem punha dúvidas. Para a frente,Robin! Darei ordem ao Departamento de Administração para que aprove todas as despesas. Traga-me essas entrevistas, que eu e Dan
nos encarregaremos de aplainar as dificuldades.
Robin riu e dirigiu-se para a porta.
- vou começar já a tratar das coisas. Prestarei contas ao senhor, onde quer que eu esteja. - E saiu da sala.
Dan continuava sentado à mesa. Pôs-se de pé, lentamente. Gregory Austin olhou para a porta com mal disfarçada admiração.
- Um grande homem! - comentou.
- Sim, se tudo resultar - respondeu Dan.
- Resulta! E, mesmo que não, pelo menos ele esforça-se por isso. Quer saber uma coisa, Dan? Acho que acabo de fazer a melhor aquisição da indústria.
Dan saiu e voltou para o seu gabinete. O esboço do espectáculo com Christie Lane estava sobre a sua mesa, De repente, tudo aquilo lhe pareceu em vão. A arrogância
de Robin Stone tirara-lhe o ânimo. Mas passou os olhos por ele e telefonou a Sig e Howie, convocando-os para uma reunião às quatro horas. com os diabos! Ele tinha
de fazer com que o programa de Christie Lane vencesse. O tal Em Profundidade não se aguentaria, disso tinha a certeza. Mas Gregory gostava de acção. Muito bem,
ele também lhe daria um programa novo. Talvez não tivesse um Tony Armstrong Jones ou um Kennedy e talvez o Times fosse arrasá-lo mas seria um
programa
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quente e comercial, bem cotado. Porque, nas reuniões de accionistas, as cotações é que contavam. O prestígio não pagava dividendos, só as cotações.
Sig e Howie permaneceram no seu escritório até às sete. Quando finalmente ele os deixou ir embora, pediu que lhe trouxessem mais do que um esboço, queria o rascunho
de um argumento dentro de dez dias.
Quando os dois argumentistas saíram, Dan, resolveu, de repente, embebedar-se. Caminhou até ao 21 e encostou-se ao balcão do bar. Todos os habitues estavam lá.
Cumprimentou-os com a cabeça e pediu um uísque duplo. Algo o estava a roer, além da competição com Robin. Procurou saber o que era. Não era a evidente admiração
de Gregory, ele sabia que Gregory podia mudar rapidamente de opinião. Algumas semanas de cotações fracas e ficaria muito desapontado com Robin Stone... não, algo
tinha acontecido, naquela sala de jantar, que o perturbara, embora ele não conseguisse saber o que era. Recapitulou toda a conversa, e nada. Pediu outro uísque
duplo e depois passou de novo em revista todo o almoço, cada palavra, até mesmo a história da vida de Gregory. Sentia que, se se conseguisse recordar, encontraria
a chave e saberia contra o que lutar. O duelo com Robin estava aberto. O tempo se encarregaria de o decretar vencedor e ele emergeria mais forte do que nunca.
Era como se tivesse tropeçado numa chave e a houvesse perdido.
Pensou em Ethel. Talvez se embebedasse e depois a chamasse para ir até ao apartamento. com Ethel não era preciso muita coisa - ele suspeitava mesmo que ela gostava
mais quando não tinha de se despir. Começou a sentir-se quase animado. Mas persistia o pensamento de que havia qualquer coisa errada no seu mundo, algo relacionado
com Robin Stone. Passou de novo a pente fino todo o almoço, desde o começo até à despedida de Robin: "vou começar já a cuidar das coisas." Dan pousou o copo com
tanta força, que se partiu contra o balcão. Um empregado correu a limpá-lo e o bartender serviu-Ihe outro uísque duplo. Dan bebeu-o e, subitamente,
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lembrou-se. Fora a última frase de Robin: "Prestarei contas ao senhor, onde quer que eu esteja."
Prestaria contas a Austin!
Robin Stone deveria prestar contas a ele, Danton Miller. E ele é que deveria prestar contas a Austin. Aquele filho da puta estava a querer passar por cima dele,
a lidar directamente com Gregory. E Gregory não dissera nada. Muito bem, estava decidido, ele teria de fazer com que o programa de Christie Lane fosse um sucesso.
Dirigiu-se à cabine telefónica e ligou para Ethel Evans.
- Não queres ir até ao meu apartamento? - perguntou.
- Não sou nenhuma prostituta.
- Que queres dizer com isso?
- Quero dizer que ainda não jantei.
- Está bem. Encontra-te comigo no PJ.'s.
- Será que esse é o único restaurante da cidade?
- Minha querida - e ele adoçou a voz - já são oito e meia. Não posso deitar-me tarde. Na próxima semana, levo-te onde quiseres.
- Juras?
- Juro sobre as minhas cotações Nielsen. Ethel soltou uma gargalhada.
- Está bem, vou vestir umas calças.
- Para quê?
- Porque sempre que vejo uma mulher entrar no P.J. s as nove da noite, toda arrumada, tenho a sensação de que está decepcionada. Sabes como é, estava preparada
para jantar no Voisin ou no Colony. Mas, quando ela entra de calças, toda a
gente pensa que ela foi lá porque quis.
- Pensas em tudo, não é?
- É... até em si senhor director. Ele riu. Não queria discutir com ela.
- Está bem Ethel, dentro de meia hora estou lá. Voltou para junto do balcão e acabou a bebida. Olhou para
o relógio. Já não era bom ser visto com Ethel, quanto mais esperando por ela.
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Fez um sinal para que lhe trouxessem uma dose dupla. Alguém lhe bateu no ombro. Era Susie Morgan. Caramba! Como ela estava bonita!
- Dan, conhece tom Mathews?
Dan viu-se a apertar a mão a um gigante louro. O seu nome não lhe era estranho. Ah, sim, tinha acabado de ser nomeado para o Departamento Jurídico da CBS. Ou seria
da NBC?
O gigante quase lhe partiu a mão. Devia ser jovem e saudável!
- Dan, olhe! - Susie estendeu a mão, mostrando um brilhante microscópico no dedo anular.
- Parabéns, quando foi que aconteceu?
- Esta noite! - respondeu ela. - Ou seja, ele deu-me o anel esta noite. Há um ano que saímos juntos de vez em quando, e começamos a namorar há três semanas. Não
é maravilhoso, Dan?
- É mesmo maravilhoso. Vamos tomar uma bebida para comemorar.
- Não, os pais de tom estão à nossa espera, lá em cima, para jantar. Mas ouvi dizer que o senhor estava no bar e quis que fosse o primeiro saber.
- Quando é que me vai deixar? - perguntou Dan.
- Não vou. A não ser que você queira. Vamos casar em Junho e aproveitaremos as férias para a lua-de-mel. Vamos ter ambos, duas semanas de férias em Junho. Sabe,
Dan, eu adoraria continuar a trabalhar consigo até vir a cegonha. Corou e olhou para o gigante com ar de adoração.
- Óptimo! - anuiu Dan. - Digam o que querem como presente de casamento.
Ficou a vê-los sair do bar. Não havia direito de estarem assim tão felizes. Ele nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida...
Mas ele tinhapoder, essa era sua felicidade. E faria com que o espectáculo de Christie Lane fosse um êxito, mesmo que nunca mais fizesse nada na sua vida. Até
lá, Robin Stone já se
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teria espalhado com o seu programa Em Profundidade e haveria um novo Director Geral de Reportagens.
Olhou para o relógio. Caramba, eram quase dez horas. Pagou a conta e percebeu, de repente, que estava completamente embriagado. Sabia que Ethel estava à espera,
e depois? Só tinha vontade de ir para a cama. Ela que esperasse. Não tinha nada que lhe dar explicações. Ela era o que era, e ele era um tipo importante!

Capitulo sétimo

Ethel estava à espera. Às dez e meia telefonou para Dan. Após deixar tocar algum tempo, ele atendeu, com voz pastosa:
- Está?
- Sou eu, seu bêbado sem vergonha! Estou aqui no P.J.'s à tua espera.
Ele desligou imediatamente. Ethel ficou um momento a olhar para o telefone e depois desligou também, furiosa. Santo Deus! Como é que ela se meteu com ele? Danton
não era nenhum artista de cinema, e ela não tolerava abusos nem mesmo de um artista de cinema. Voltou para a sua mesa, pagou a conta e olhou em volta. Viu que
toda a gente tinha os olhos fixos numa beldade que acabava de entrar, escoltada por dois homens. Como ela era incrivelmente bonita! Sentaram-se na mesa da frente
perto da porta. A rapariga não lhe parecia estranha. Ah, sim, estava na capa áâVogue daquele mês! Ethel olhou para os homens. Só agora reparava neles. Um era
Robin Stone, o outro Jerry Moss. Conhecia-o das festas dos publicitários.
Aproximou-se da mesa deles.
- Olá, Jerry - cumprimentou, com um sorriso. . Ele olhou para cima, mas não se levantou.
- Oh, viva! - respondeu, displicente. Ela sorriu para Robin.
- Lembra-se de mim, Ethel Evans?... Já nos conhecemos. Trabalho no Departamento de publicidade da IBC. Robin olhou para ela e sorriu lentamente.
- Sente-se Ethel. Está mesmo a fazer falta outra rapariga. Esta é Amanda.
Ethel sorriu para a rapariga, mas ela não lhe retribuiu o sorriso. O seu rosto era uma máscara, mas podia sentir que não
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era bem-vinda. "Como é possível que ela tenha ciúmes de mim?" pensou. "Se eu fosse bonita como ela, todo o mundo seria meu."
Ethel tirou um cigarro. Robin inclinou-se para acendê-lo. Ela ficou a olhar para ele, enquanto o fumo lhe envolvia o rosto. Mas ele voltara a sua atenção paraa
bebida.
O silêncio que se fizera na mesa enervava-a, sentia o descontentamento de Amanda, o mal-estar de Jerry e o alheamento de Robin.
- Acabei um trabalho - disse, numa voz que soou artificial. Fez uma pausa e continuou, quase num sussurro: - E depois resolvi entrar aqui para comer qualquer coisa.
- Nada de explicações - atalhou Robin, com o mesmo sorriso fácil. - Está aqui, isso é o que interessa. - Chamou o empregado. - Que é que toma, Ethel?
Ela olhou para o copo dele, quase vazio. Fazia sempre questão de pedir o que o homem estivesse a beber. Pelo menos tinham logo qualquer coisa em comum.
- Uma cerveja - disse.
- Traga uma cerveja para a senhora - pediu Robin. E, para mim, o meu habitual copo de água gelada.
O empregado trouxe a cerveja e um grande copo de água gelada. Robin bebeu um grande golo. Amanda pegou no copo e bebeu um pouco. Fez uma careta e pousou-o.
- Robin - disse, com o olhar zangado. Ele riu.
- Não gostas de água gelada?
- Isso é vodka puro - respondeu ela. A curiosidade de Ethel aumentou. Robin bebeu outro grande bocado.
- É verdade. Acho que Mike enganou-se.
- Mike está combinado contigo - disse ela, friamente.
- Robin - e inclinou-se para ele - prometeste-me que ficaríamos juntos esta noite.
Ele passou-lhe de novo o braço pelo ombro.
- E estamos juntos, minha querida!
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- Eu queria dizer... - O seu tom de voz era agora baixo e suplicante. -Juntos. Não com Jerry e outra rapariga. Não considero isto estar contigo.
Ele desmanchou-lhe o cabelo.
- Convidei Ethel por causa de Jerry. Agora somos dois
casais.
A expressão de Amanda continuou impassível.
- Robin, amanhã bastante cedo tenho um lavout a cores. Devia ter ficado em casa e deitado cedo. Mas saí para estar contigo. E estás a beber.
- Quer dizer que não estás a divertir-te?-perguntou ele.
- Estaria melhor em casa. Não precisas de mim para te ver beber.
Robin olhou para ela um momento e depois fez o seu sorriso lento. Voltou-se para Ethel:
- A que horas precisa de acordar de manhã?
- Não preciso de sonhos de beleza - respondeu Ethel. De qualquer modo, não adiantaria nada.
Robin riu.
- Jerry, acho que devemos trocar de par. Amanda agarrou na bolsa e levantou-se.
- Robin, quero ir para casa.
- Está bem.
- E então? - Os olhos dela tinham demasiadas lágrimas para se mostrarem zangados.
- Senta-te - disse ele, com voz macia. - Gosto disto aqui. Quero ficar mais um pouco.
Jerry Moss remexeu-se na cadeira.
- Ethel, talvez nós devêssemos sair. Um amigo meu está a dar uma festa prolongada, perto daqui e...
- Não. Quero que fiquem os dois - disse Robin calmamente , mas em tom de comando. Esvaziou o seu copo de vodka e pediu outro. Voltou-se e olhou para Amanda com
um sorriso terno. - Ela é muito bonita, não acham? E já devia estar a dormir. Sou mesmo egoísta. Queres ir para casa, minha querida?
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Ela fez sinal que sim, como se não confiasse na sua voz. Ele inclinou-se e beijou-a na cabeça. Depois virou-se para Jerry e disse-lhe:
- Põe Amanda num táxi e depois volta para aqui. No fim de contas não podemos deixar que o primeiro modelo de Nova Iorque perca o sono, enquanto nós bebemos.
Amanda levantou-se e saiu da sala. Jerry seguiu-a, visivelmente contrafeito.
Todos os homens que estavam no bar a seguiram também com os olhos. Assim que chegou à rua, ela perdeu o controlo.
- Jerry, que foi que eu fiz de mal? Amo-o tanto! Que foi que eu fiz?
- Nada, minha querida. Ele resolveu apenas "desligar". Quando ele "desliga", ninguém pode fazer nada. Amanhã já se terá esquecido. - Assobiou, tentando fazer parar
um táxi.
- Faz-lhe compreender que o amo, Jerry. Não deixes aquela bruxa apanhá-lo. É o que ela está a tentar, não é?
- Minha querida, Ethel Evans procura dormir com todos os homens importantes. Robin sabe disso. Agora, dorme bem.
Um táxi parou. Ele abriu a porta.
- Jerry, acho que vou voltar. Não posso deixá-lo... Ele empurrou-a para dentro do táxi.
- Amanda só conheces o Robin há alguns meses. Eu conheço-o há anos. Ninguém lhe diz o que ele deve ou não fazer. Sabes qual foi o teu erro? Talvez me engane, mas
fizeste o papel de esposa. Disseste-lhe para não beber. Não voltes a fazer isso, Amanda. Nunca mais. Robin detesta ser censurado. Sempre foi assim, até na universidade.
Agora, vai para casa e tenta dormir. Tenho a certeza de que amanhã tudo terá passado.
- Jerry, telefona-me quando se despedirem. Mesmo que seja muito tarde... como é que vou poder dormir, depois disto! Por favor, tenho de saber, mesmo que ele diga
que está farto de mim... ou se for com aquela rapariga...
- Ele não vai dizer-me nada. Já devias saber isso.
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De repente, Jerry percebeu que o motorista estava a divertir-se com a cena, enquanto o taxímetro marcava. Deu-lhe o endereço de Amanda.
Ela abriu a janela.
- Telefona, Jerry - pediu ela, agarrando-lhe o braço. Por favor.
Ele prometeu que telefonaria, e depois ficou a ver o táxi desaparecer. Tinha pena de Amanda. Robin não tivera intenção de a ferir, apenas tinha "desligado". Jerry
conhecia bem esse traço da sua personalidade. Talvez até contribuísse para o seu encanto. Robin era sempre capaz de fazer algo totalmente inesperado. Como, por
exemplo, convidar Ethel Evans a sentar-se com eles.
- Que tal mandarmos vir uns hamburgen? - sugeriu Jerry ao voltar para a mesa.
- Bem devias deixar de comer à noite - respondeu Robin. - Na semana passada, faltaste duas vezes ao ginásio.
- Moro perto daqui - disse Ethel. - Porque não vêm até ao meu apartamento? Posso fazer uma boa omelete. Olhou para Jerry e acrescentou: - E tenho uma colega de
apartamento muito simpática, loura e tudo. Talvez esteja com uma toalha enrolada nos cabelos, mas se lhe telefonarmos, garanto que vai logo fazer um café.
Robin levantou-se.
- Não estou com fome. Vamos acompanhá-la até à sua casa, eu e Jerry. Depois, Jerry pode acompanhar-me até à minha casa. - Pegou na conta e deu-a a Jerry. - Paga
tu que és freguês.
Ethel morava na esquina da Primeira Avenida com a rua Cinquenta e Sete. Andava depressa, tentando acompanhar os grandes passos de Robin.
- Você também mora por aqui? - perguntou.
- Moro à beira do rio - respondeu ele.
- Talvez sejamos vizinhos...
- O rio é muito grande - atalhou ele.
Fizeram o resto do caminho em silêncio. Ethel estava
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descoroçoada. Ele tinha uma certa maneira de responder que parecia de propósito para cortar a conversa. Pararam diante do edifício dela.
- Não querem subir para tomarem qualquer coisa? insistiu ela. - Tenho um vodka formidável.
- Não. vou já para a cama.
- Bem, acho que voltaremos a ver-nos. Tenho a certeza que vai sentir-se muito bem na IBC, e, se eu puder contribuir com qualquer coisa...
Ele sorriu lentamente.
- Sinto-me bem em qualquer sítio. Até qualquer dia. - Deu meia volta e afastou-se, com Jerry atrás dele.
Ethel ficou a vê-los darem a volta à esquina. O seu desejo por Robin era tanto que se sentia fisicamente mal. Porque não seria ela como Amanda? Porque teria de
ser sempre ela a andar atrás dos homens? Que maravilhoso devia ser ter um homem que telefonasse para ela e a olhasse como se ela fosse a mulher mais desejável
do mundo! Caminhou até ao rio, sentindo as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Deus, não era justo! Não era justo ter colocado o coração e as emoções de uma
bela mulher no corpo de uma camponesa. Porque não seriam as suas emoções tão vulgares como o seu corpo? Ela poderia ter amado Peter Cinocek, ter sido feliz com
ela.
- Meu Deus! - disse, em voz alta. - Eu só quero ser alguém, só quero que um homem que seja alguém goste de mim. Será pedir demais? - De repente, sentiu uma solidão
quase insuportável. Todos os seus sonhos, todas as suas noites, mas de facto,
ela não tinha nada! Sim, tinha um bom apartamento, bonito, em comparação com Hamtramck,
mas que não passava de um pequeno apartamento moderno, partilhado com outra rapariga solitária, que também se contentava em dormir com gente importante. Sim, era
uma grande sensação dormir com um artista famoso, mas na noite seguinte ele já lá não estava.
Voltou para o seu edifício. Tinha a certeza de que, àquela hora, Robin Stone estaria nos braços de Amanda. Afastou o
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pensamento da cabeça. Por que razão ficar ainda mais deprimida? Haveria outras noites.
Quando Robin e Jerry se despediram de Ethel, caminharam alguns quarteirões em silêncio. Ao passarem por um bar, Robin disse:
- Vamos entrar e beber um último copo. Jerry seguiu-o calado.
- Onde é que pões o álcool? - perguntou já no balcão. Em vez de sorrir, como de costume, Robin olhou para o
copo com ar sério.
- Penso que passei tanto tempo sem beber, que tenho reserva para muito álcool. A minha família tinha a mania da saúde. O meu pai nunca bebeu.
Jerry deu uma gargalhada.
- E eu que pensava que eras um boémio, na universidade. Robin olhou para
ele como se o estivesse a ver pela primeira vez.
- Andaste em Harvard ao mesmo tempo que eu?
- Formei-me um ano antes de ti - respondeu docilmente Jerry. Ainda bem que não estava ninguém perto. Toda a gente sabia que os dois tinham sido colegas e pensava
que a sua amizade datava desse tempo. Esta era uma das coisas esquisitas que Robin tinha. Parecia prestar sempre atenção, mas nunca se sabia se ele ouvia o que
se dizia. Voltou-se para Robin com uma rara demonstração de raiva. - De onde diabos achas que nos conhecemos?
Robin afagou pensativamente o queixo.
- Nunca pensei nisso, Jerry. Conheço tanta gente! Tinha a impressão de que nos tínhamos conhecido no Lancer Bar. Fez sinal para lhe que lhe trouxessem a conta
e saíram em silêncio. Jerry acompanhou Robin até ao grande edifício em que ele morava, à beira-rio. De repente, lembrou-se de nunca ter subido ao apartamento de
Robin. Ou se limitava a acompanhá-lo a pé até casa, ou se encontravam num bar.
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Quando Robin casualmente lhe disse: "Sobe para tomar qualquer coisa", Jerry sentiu-se embaraçado. Era como se aqueles grandes olhos azuis tivessem lido o seu pensamento.
- É muito tarde - murmurou.
O sorriso de Robin tinha algo de desprezo.
- A tua mulher está à espera atrás da porta?
- Não. É que tenho de andar ainda um bocado, e amanhã de manhã preciso de acordar cedo.
- Como queiras - disse Robin.
- Está bem. Apenas uma cerveja - concedeu Jerry. Entrou com Robin no elevador, prometendo a si próprio interceder por Amanda.
Era um belo apartamento, surpreendentemente arrumado e bem mobilado.
- Uma rapariga que conheci... antes de Amanda explicou Robin, apontando a mão à volta da sala.
- Porque diabo trataste Amanda tão mal esta noite? Ela está louca por ti. Não sentes nada por ela?
- Não.
Jerry olhou para ele.
- Ouve Robin, não és capaz de sentir qualquer coisa? De ter emoções?
- Talvez sinta muita coisa, mas não sou capaz de o demonstrar. - Robin sorriu. - Acho que a vida seria bastante mais fácil para mim, se eu fosse mais extrovertido.
Sou como um índio. Se adoeço viro-me para a parede e fico quieto até sentir-me melhor.
Jerry levantou-se.
- Robin, tu não precisas de ninguém. Mesmo assim, sou teu amigo. Não sei porquê, mas sou.
- Ora... andas comigo porque queres. Agora mesmo disseste uma verdade. Não preciso de ninguém.
- Nunca te sentiste em dívida com ninguém? - Jerry sabia que estava a ser indiscreto, mas não podia evitá-lo.
- Já. Na guerra. Um tipo salvou-me a vida sem sequer me conhecer. Pilotava outro avião. De repente, apontou para a
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minha direita. Um Messerschmidt estava mesmo em cima de mim- Mergulhei e escapei. Dois minutos mais tarde, o avião dele foi atingido. Devo-lhe muito, devo-lhe
a
vida. Tentei saber quem ele era, mas no mesmo dia foram abatidos sete dos nossos aviões. Teria feito qualquer coisa por ele, era até capaz de rne casar com a viúva,
se ela me quisesse. Mas nunca consegui saber quem era.
- Queres dizer que sentirias o mesmo por um médico?
- Não. Nesse caso, a obrigação dele era salvar-me. Estaria a pagar-lhe para isso. Mas esse tipo não me conhecia. Não era obrigado a salvar-me a vida.
Jerry ficou calado por um momento e depois perguntou:
- Que espécie de obrigação esperas de um amigo? Robin sorriu, contraído.
- Não sei. Nunca tive amigos. Jerry encaminhou-se para a porta.
- Robin não vou dar-te o meu facão de escuteiro, nem esperar que atravesses a rua com o sinal fechado para te salvar a vida. Mas quero que saibas que sou teu amigo
e vou dar-te um conselho. Não trates Amanda como se fosse uma moça qualquer. Não a conheço bem, mas sinto que ela é diferente. Uma mulher de classe!
Robin pousou o copo e atravessou a sala.
- Caramba, esqueci-me do passarinho. - Entrou na cozinha e acendeu a luz. Jerry seguiu-o. No chão estava uma grande gaiola, toda ornamentada. E, dentro dela, um
pobre pardal olhava para eles.
- Esqueci-me de dar comida ao Sam - disse Robin, apanhando um pouco de pão.
- É um pardal, não é? - perguntou Jerry.
Robin aproximou-se com um pedaço de pão, uma chávena cheia de água e um conta-gotas. Enfiou a mão na gaiola e tirou de lá o passarinho, confiantemente aninhado
na sua palma.
- O pateta quis voar antes de ter forças. Caiu do ninho e veio cair no meu terraço, com uma asa ou uma pata partida, não sei bem. Amanda estava aqui. Foi logo
comprar uma gaiola
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e agora faço de mãe dele. Ela não pode levá-lo para casa, pOr causa do gato siamês. O diabo do gato sobe até pelas
paredes. Segurou cuidadosamente o passarinho, que
abriu o bico esperançoso. Robin esmigalhou o pão e deu-lho. Mas o espanto de Jerry aumentou quando Robin pegou no conta-gotas e lhe deu de beber.
- Só assim é que ele consegue beber - explicou com um sorriso. Colocou o pardal de novo na gaiola e fechou-a. O passarinho ficou a olhar com um ar grato para Robin,
os olhinhos brilhantes fixos naquele gigante.
- Pronto Sam, está na hora de dormir - disse Robin. Apagou a luz e voltou para junto do bar. - Acho que ele não sente dores - comentou. - Come que nem um desalmado...
e quando um bicho sente dores, não come, não é?
- Não percebo nada de pássaros-respondeu Jerry. -Só sei que um pássaro acostumado à liberdade não pode viver preso.
- Logo que ele fique bom, mando-o embora. É um passarinho bastante inteligente. Reparaste como ele fechou o bico depois de ter comido algumas migalhas e pediu
água?
Jerry estava cansado. Parecia-lhe absurdo que um homem como Robin fosse tão meigo com um pardal e tão insensível para com uma mulher.
- Porque não telefonas a Amanda, para lhe dizeres que o passarinho está bem? - sugeriu.
- Ora, há duas horas que ela deve estar a dormir respondeu Robin. - Para ela, a carreira está acima de tudo. Ouve, não te preocupes tanto com Amanda. Ela não nasceu
ontem.
Robin estava a servir mais uma bebida quando Jerry se despediu. Era tarde, mas resolveu caminhar até à garagem. Era bom para desanuviar a cabeça. Num impulso,
parou num bar e ligou para Amanda.
- Jerry, ainda bem que telefonaste. Ele saiu com aquela bruxa, não foi?
- Para teu descanso, fica sabendo que deixámos a bruxa à
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porta da casa uns vinte minutos depois de teres saído.
- Mas é tão tarde... o que é que estiveram a fazer? Por que não me telefonaste antes? Poderia ter dormido em paz.
- Bem, nós caminhámos um pouco, depois parámos num bar, depois caminhámos até ao apartamento dele, bebemos um pouco e conversamos. E demos de comer ao passarinho.
Quando me despedi ele estava a cantar os seus méritos... dizendo como ele era inteligente, como sabia pedir água.
Ela riu, aliviada.
- Oh, Jerry, achas que devo telefonar-lhe?
- Não. Amanda. Não o persigas. Dá tempo ao tempo.
- Eu sei. Estou a fazer o possível. Fazemos tudo certo, automaticamente, quando não estamos apaixonados. Mas é muito diferente quando se ama. Nunca tinha estado
apaixonada, mas amo-o, Jerry.
- Não deixes que ele saiba disso. Ela forçou o riso.
- Não parece loucura? Amar alguém e ter de o esconder. És homem, Jerry. A tua mulher também escondeu de ti que te amava? Foi assim que ela te apanhou?
Ele riu.
- Mary não era modelo famoso e eu não sou Robin Stone. E se eu não for já para casa posso ficar sem mulher. Boa-noite, minha querida.

Capítulo oitavo

No dia seguinte Robin acordou às sete horas, sentindo-se muito bem. Podia tomar o vodka que quisesse, que ainda estava por saber o que era uma ressaca. Sentia-se
devidamente grato à força misteriosa do seu metabolismo responsável por aquele fenómeno e estava resolvido a aproveitá-la, enquanto fosse possível. Sabia que qualquer
dia acordaria a sentir-se como qualquer outro tipo que bebia demais. Foi até ao frigorífico, e encheu um grande copo de sumo de laranja. Depois pegou num pouco
de pão e levantou o pano que cobria a gaiola. O pardalinho estava deitado de patas para o ar, de olhos arregalados, o corpo enrijecido pela morte. Pegou nele e
colocou-o na palma da mão. Pobrezito, morrera sem dar um pio.
- Nunca te queixaste amigo - disse Robin. - Morreu com classe.
Enfiou uma calça e uma camisa desportiva. Depois, meteu o pequeno cadáver num saco de plástico. Saiu para a rua e dirigiu-se ao rio.
- Um enterro no mar. Sam. Não te posso dar mais do que isso.
Uma lancha cinzenta aproximava-se. Robin atirou o saco de plástico para a água escura e ficou a vê-lo girar na esteira da lancha.
- Lamento que não tenhas conseguido viver - disse ele.
- Mas, pelo menos, tens alguém que realmente sente a tua morte, o que é muito mais do que a maioria das pessoas pode desejar. - Esperou até que o saco desaparecesse
e depois voltou para o apartamento.
Tomou um duche frio e, quando já estava a fechar a torneira, tocou o telefone. Amarrou depressa uma toalha à cintura e, pingando água pelo quarto, correu a atender.
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- Acordei-te, Robin? - Era Amanda. - Tenho um compromisso bastante cedo e quis falar contigo antes de sair.
Ele procurou um cigarro à sua volta.
- Robin... estás a ouvir?
- Estou. - Estava à procura dos fósforos. Descobriu a caixa no chão.
- Sinto muito o que aconteceu ontem à noite.
- Que foi que aconteceu?
- Saí do restaurante. Mas não gostei daquela rapariga e estava cansada e...
- Isso foi ontem à noite. Esquece-te.
- E esta noite? - perguntou ela.
- Óptimo. Queres cozinhar para mim?
- Adoraria - respondeu ela.
- Então está combinado. Bife e aquela salada especial.
- Robin, como está o passarinho?
- Morreu.
- Mas ontem à noite estava vivo!
- Como é que sabes?
- Bem... - Ela pensou rapidamente. - Devia estar, senão ter-me-ias dito.
- É verdade. Deve ter morrido entre as duas e as cinco da manhã. Quando acordei já estava rijo.
- Que lhe fizeste?
- Atirei-o ao rio.
- Não!
- Que querias? Que o enterrasse no cemitério?
- Não, mas parece-me um fim muito triste. Oh, Robin, nunca sentes nada?
- Sinto. Estou agora mesmo a começar a sentir frio.
- Sabes o que és? És mesmo frio - disse ela, mais como uma constatação do que como protesto.
Ele riu e ela ouviu-o dar uma tragada. Houve uma pausa.
- Robin, o que é que queres na vida?
- Bem, neste momento quero uns dois ovos fritos.
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- És mesmo impossível! - ela riu, para mudar de assunto. - Então podes vir às sete horas. Bife e salada. Queres tnais alguma coisa?
- Tu.
Ela riu e um pouco da sua auto-confiança voltou.
.- Robin, esquecia-me de te dizer. Fui convidada para o baile de Abril em Paris, na próxima semana. Mandaram-me dois bilhetes de borla, de cem dólares cada. Levas-me?
- Não, senhora.
- Mas eu tenho que ir...
- Minha querida, penso que não estarei na cidade na próxima semana.
- Onde vais?
- Talvez a Miami. Quero começar a formar uma equipa para cobrir a convenção, com Andy Farino. Ele trabalha na nossa estação de Miami. Queres vir comigo? Já estiveste
em Miami?
- Robin, eu não tenho férias. Tanto trabalho no Inverno como no Verão.
- Isso lembra-me que eu também tenho de trabalhar. Até logo ao jantar, minha querida. E, por amor de Deus, prende o gato na casa de banho. Na última vez, ele passou
o jantar todo no meu colo.
Ela riu.
- Sim, ele adora-te. E eu, Robin, amo-te. Mas ele já tinha desligado.
Amanda apanhou um táxi e mandou seguir para o Lancer Bar. A última sessão tinha passado trinta e cinco minutos da hora. Ganhara um bocado de dinheiro, mas não
tivera tempo de ir a casa mudar de roupa. E queria tanto ter estreado o vestido de seda pura zul-pálido! Robin acabara de voltar de Miami e aquela era a última
noite que iam passar juntos, antes de ele partir para Los Angeles, a fim de fazer a reportagem da Convenção do Partido Democrata.
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Para o diabo com Nick Longworth! Ela quisera tirar dez dias de folga para poder acompanhar Robin a Los Angeles. Teria sido maravilhoso! Claro que, nos cinco dias
da Convenção pouco estaria com ele. Mas depois, Robin e Andy Farino planeavam tirar uns dias de férias para jogar golfe em Palm Springs. O convite dele tinha sido
feito muito por alto, mas a verdade é que a tinha convidado!
Mas Nick mostrara-se inflexível. Ela estava a caminho de ser a modelo mais requestada de Nova Iorque. No Outono, ele ia aumentar-lhe novamente o preço por sessão.
Tinha uma porção de compromissos importantes para ela, em Julho. Quando ela explicara tudo isto a Robin, desejara que ele dissesse: "Ora, manda os compromissos
para
o inferno; o teu futuro sou eu." Mas ele apenas tinha dito: - É verdade, esqueço-me sempre que essa coisa da moda dá muito dinheiro.
- E falara a sério.
Nick tinha razão. Ela trabalhara duramente para chegar até onde estava. Precisava de dinheiro e, se perdesse alguns
compromissos importantes, isso significaria
mais do que perder dinheiro; significaria dar a outra rapariga uma possibilidade de destroná-la! E ela não podia permitir isso.
Amanda olhou para o relógio. Estava dez minutos atrasada e o táxi avançava lentamente. Recostou-se no assento e acendeu um cigarro. Não adiantava nada preocupar-se.
De qualquer modo Andy Farino devia estar com Robin. Fizera-lhes companhia todas as noites desde que chegara de Miami. Amanda gostava de Andy. Era um belo homem,
talvez até mais bonito do que Robin. Mas ela aceitava essa beleza com a mesma apatia que sentia em relação aos modelos masculinos com que posava de vez em quando.
Bonitos, sim, e depois? Pelo contrário, só de pensar em Robin, já se sentia a tremer. Tinha vontade de sair daquele táxi que mais parecia uma tartaruga, a correr.
Mas na rua fazia calor e estava húmido, o que lhe estragaria todo o penteado.
A sua última noite juntos! Não, ela não devia pensar nisso, no fim de contas, ele ausentar-se-ia apenas por dez dias. Mas a
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verdade era que, desde que ele assumira o cargo de Director geral de Reportagens, estava sempre em viagem. Fora duas vezes à Europa. Andy iria ficar com eles durante
toda a santa noite? Das três últimas vezes, tinham-se encontrado no Lancer Bar, indo dali para um restaurante italiano e ela só tinha podido estar a sós com Robin
depois da meia-noite. E nessas últimas três noites ele tinha bebido demais. Entretanto, por mais que ele bebesse, parecia que isso nunca afectava a sua maneira
de fazer amor. Mas ela gostava muito mais quando Robin não bebia - então tinha a certeza de que era ele que lhe estava a sussurar as palavras doces, e não o vodka.
A semi-obscuridade do bar fê-la piscar os olhos. "Estamos aqui"! Ouviu a voz de Robin e dirigiu-se para a mesa dos fundos. Os dois homens levantaram-se. Andy sorriu
com o seu jeito franco e amigável. Mas o sorriso de Robin e o breve segundo em que os seus olhos se encontraram fizeram-na esquecer Andy, o bar, o barulho, até
mesmo o seu coração pareceu parar de bater, naquele maravilhoso momento de intimidade que ninguém mais podia partilhar. Depois sentou-se ao lado dele, que voltou
logo a falar de política com Andy. E a sala e o barulho voltaram também. Olhava para Robin, enquanto ele falava. Tinha vontade de lhe tocar, mas mantinha as costas
direitas e o rosto composto com o "Olhar de Nick Longworth": sorriso leve, nenhum movimento facial, nem um franzir de testa.
O empregado colocou um martini em frente dela.
- Fui eu que o pedi - explicou Robin - Tenho a certeza que vais gostar. Deve ser horrível estar debaixo dos projectores, num dia quente como o de hoje.
Ela não gostava de álcool. Nos velhos tempos (antes de conhecer Robin), teria mandado vir uma coca-cola e dito: "Não bebo". Mas o seu instinto prevenira-lhe que
Robin nunca se daria bem com uma rapariga que não bebesse. Por isso, fingia quase sempre beber. Às vezes deitava metade da bebida no copo dele. Nessa noite, porém,
achou o martini refrescante e agradável. Talvez estivesse começando a apreciar
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bebidas alcoólicas.
Robin e Andy voltaram ao assunto da próxima convenção. À medida que a discussão prosseguia, ele inconscientemente estendeu a mão e agarrou na dela, o que era a
sua maneira de incluí-la numa conversa que ela não entendia.
- Eleonor Roosevelt está fazer o possível para ajudar Stevenson, mas ele não tem possibilidade -comentou Robin.
- É pena, porque é um grande homem.
- Gosta de Kennedy? -perguntou Amanda. Na verdade ela não ligava nada à política, mas achou que devia mostrar interesse.
- Conheci-o pessoalmente. É um homem de grande magnetismo. Pretendo votar nele. Só estou a dizer que é uma pena que Stevenson perca. É muito raro ter dois bons
candidatos
em cena, ao mesmo tempo. Aconteceu com Willkie, mas ele estava a disputar contra Roosevelt. Quem sabe o que poderia ter acontecido se Willkie tivesse nascido dez
anos mais tarde?
Puseram-se depois a discutir os candidatos à vice-presidência. Amanda ouviu os nomes de Smyngton, Humphrey, Meyner... Bebeu o seu martini e contemplou o perfil
de Robin.
Às nove horas foram para o restaurante italiano. Quando acabaram de jantar e Andy sugeriu irem ao PJ.'s tomarem uma última bebida, Robin, para alegria de Amanda,
abanou a cabeça:
- vou passar dez dias contigo, rapaz. Esta é a minha última noite com a minha pequena.
Nessa noite ele foi de uma ternura fora de comum. Passou a mão pelos louros cabelos dela e olhou-a com meiguice.
- Minha linda Amanda, és tão bela e encantadora! Apertou-a contra si e acariciou-lhe a nuca. A seguir amaram-se até ficarem exaustos e satisfeitos. Robin levantou-se
de um pulo e fê-la sair da cama. - Vamos tomar banho juntos.
Ficaram debaixo da água quente. Ela não ligou ao facto de estar com o cabelo ensopado, tendo um compromisso às dez da
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manhã. Abraçou-lhe o corpo molhado porque, naquele momento, era só o que importava. Quando ele estendeu a mão e briu a água fria, ela gritou, mas ele riu e apertou-a
contra si. Um momento depois, o corpo dela habituou-se e a sensação foi maravilhosa. Ele beijou-a com a água a escorrer-lhes pelas faces. Depois, saíram do chuveiro
e ele pegou numa toalha e embrulhou os dois nela. Amanda olhou-o nos olhos.
- Amo-te Robin.
Ele inclinou-se e beijou-a de novo. A seguir beijou-lhe o pescoço e os seios quase inexistentes. Olhou para ela.
- Gosto do teu corpo, Amanda. É um corpo limpo, forte, belo.
Carregou-a de volta para o quarto, e amaram-se de novo. Depois, adormeceram abraçados.
Amanda acordou com Robin deitado sobre o braço dela. Estava escuro e o seu braço dormente. Tirou-o de baixo dele. Robin moveu-se um pouco, mas não acordou. Ela
viu os olhos brilhantes do gato siamês, brilhando na escuridão. Deus do céu, ele tinha conseguido empurrar a porta. Aproximou-se e pulou para cima da cama. Ela
pegou-o ao colo e afagou-o. O gato ronronou, feliz.
- Tenho de te levar de volta para a sala, Sluggs sussurrou ela. - Robin não gosta de acordar e dar contigo enroscado ao pescoço.
Deslizou para fora da cama, carregando o gato. Robin mexeu-se e a sua mão bateu na almofada vazia.
- Não me abandones! - gritou. - Por favor não me abandones!
Ela largou o gato e correu para junto dele.
- Estou aqui, meu amor. - Apertou-o nos braços. Ele tremia, de olhos abertos para a escuridão do quarto.
- Querido - os dedos dela tocaram-lhe na testa suada.
- Estou aqui. Amo-te.
Ele sacudiu a cabeça como se estivesse a sair da água. Depois olhou para ela e piscou os olhos como se acabasse de acordar. Riu e puxou-a para si.
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- Que foi que aconteceu? Ela encarou-o.
- Que diabo estamos nós a fazer, sentados na cama, a meio da noite?
- Eu estava a pôr o gato lá fora e ia beber água, quando gritaste.
- Eu gritei?
- Disseste: "Não me abandones!"
Durante um breve momento, algo semelhante ao medo apareceu nos olhos dele. Mas, de repente, ele sorriu.
- Bem, não me fujas de novo.
Ela abraçou-se a ele. Era a primeira vez que o via assim vulnerável.
- Nunca te abandonarei, Robin. Nunca. Amo-te.
Ele afastou-a a rir. Voltara ao seu habitual estado de auto-suficiência.
- Podes abandonar-me quando quiseres. Menos a meio da noite.
Ela olhou para ele com estranheza.
- Porquê?
Ele continuou a olhar para o escuro.
- Não sei. Para dizer a verdade, não sei. - Mas depressa se riu. - Deste-me boa ideia. Também estou com sede. Bateu-lhe nas nádegas. - Vamos até à cozinha tomar
uma cerveja.
Beberam a cerveja e voltaram a amar-se.
As estações sucederam-se rapidamente para Amanda. O começo da Primavera trouxera Robin para a sua vida. Ao chegar o Verão, as relações entre eles tinham-se transformado
num permanente motivo de excitação. Ele tinha ido a Los Angeles e a Chicago, para as convenções. E, a cada regresso, ela sentia que o amava ainda mais. O seu
amor por Robin recusava-se a estacionar. Aumentava cada vez mais, num crescente febril. E ela tinha medo, pois sabia que Robin não sentia
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a mesma intensidade de emoção. Além disso, o aplauso que ecebera pela cobertura das convenções não contribuía para a sua segurança emocional. A fama que ele conquistara
aparecia-lhe como uma ameaça. Se alguma vez ela o perdesse, não quereria mais viver. O seu maior desejo era que ele voltasse às reportagens locais.
Em Outubro, assistiriam no apartamento dele, ao primeiro programa em Em Profundidade, Gregory Austin telefonara para dar-lhe os parabéns. Andy Farino ligara de
Miami para o mesmo fim. Acabava de conhecer uma jovem divorciada e estava loucamente apaixonado!
Robin achara graça.
- Claro tinha que ser. com todas as mulheres que há em Miami, um católico como tu tinha que ser apanhado por uma divorciada.
Maggie Stewart não é uma mulher vulgar! - insistira Andy. Sim, a religião dele criava uma série de barreiras, mas aparentemente o principal obstáculo era a própria
rapariga, que não queria casar. Andy contratara-a para uma aparição de cinco minutos no noticiário local, e, como ele dizia, pelo menos trabalhavam juntos.
Amanda escutara aquilo e, embora de maneira vaga, começara a formar um plano na sua mente. Um plano que se cristalizara algumas noites mais tarde, quando ela tinha
rido da falta de expressão de uma propagandista, ao anunciar um produto.
- Não rias - dissera-lhe Robin. - Não penses que é fácil permanecer natural, quando toda a gente tem o olho vermelho da câmara em cima de nós.
- O que é que pensas que eu faço? - replicara ela. Ele tinha-a puxado para junto de si, dizendo:
- Tu, minha linda, posas cinquenta vezes a mesma fotografia, até eles conseguirem apanhar o teu ar de anjo. E, quando não conseguem, há sempre o recurso do retoque.
Amanda ficara a pensar naquilo. Se fizesse um bom anúncio para a televisão, Robin ficaria a respeitá-la. Falara com Nick
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Longworth a esse respeito, mas ele rira.
- Minha querida, é uma ideia brilhante. Acontece é que não sabes falar, o que é um talento. Em segundo lugar, só usamos modelos novatos, na televisão. Já tenho
três
contratadas para um anúncio de cerveja. A única coisa que podias anunciar era um importante produto de beleza, mas esses anúncios não costumam cair do céu. Geralmente,
procuram gente cheia de encanto e, ao mesmo tempo, com experiência desse tipo de propaganda.
Na noite de Natal, armaram uma árvore no apartamento dela. Robin dera-lhe um relógio de pulso. Lindo e minúsculo, mas nada de brilhante de noivado. Amanda disfarçara
a sua decepção. Dera-lhe uma cigarreira, em forma de envelope dourado e com a imitação da letra dele. Jerry passara para brindar ao Natal, antes de correr para
casa em Greenwich. Trouxera champanhe e um brinquedo de borracha para Slugger.
Nessa noite, ao irem para cama, Slugger pulara para cima dos cobertores com o seu brinquedo novo. Amanda apressara-se a pegar no gato para o pôr na sala.
- Deixa-o ficar, é noite de Natal - dissera Robin. E acrescentara imediatamente: - Caramba, já me esquecia. Agarrou no casaco, estendido numa cadeira, e tirara
dele uma pequena caixa. - Feliz Natal, Slugger! - e atirara a caixa para a cama. Amanda tinha ficado com lágrimas nos olhos, ao abrir a caixa e ver a coleira de
couro preto, com guisos de prata e uma minúscula chapa, também de prata, com o nome do gato gravado.
Passara os braços em volta de Robin e apertara-o contra si.
- Tu gostas de Slugger.
- Claro que gosto - rira ele. - Só não gosto é do hábito que ele tem de chegar sem se anunciar. Assim, estes guisos vão avisar-me da sua aproximação. - A seguir,
apertara-a nos braços e beijara-a; e nem ouviram tilintar os guizos de prata, quando Slugger, desdenhosamente, pulou da cama e saiu do quarto.

Capítulo nono

Em Janeiro, a coluna da TV do New York Ti mês anunciou as substituições para Fevereiro. Dan sorriu complacentemente, ao ver que The Christie Lane Show comandava
os outros programas. Trabalhara duramente durante todo o Verão e conseguira literalmente uma boa actuação de Christie. Quando Gregory vira o teste e dera a sua
aprovação, Dan pusera de lado os tranquilizantes. Esta noite, ele comemoraria. Inconscientemente, o seu pensamento voltou-se para Ethel. Talvez tivesse sido um
erro indicá-la para o Christie Lane Show. Mas, que diabo, tinha de lhe pagar, de qualquer maneira. Não havia ninguém, mas mesmo ninguém, que pudesse competir
com ela na cama. Ethel pulara de alegria com a indicação. Ele sabia bem que não era por causa dos vinte e cinco dólares a mais, e sim pelo astro convidado que
teria oportunidade de conhecer, cada semana. Bem, ela até agora era uma ninfomaníaca simpática, e a verdade é que ele não podia satisfazê-la mais do que duas
vezes por semana. Se ela quisesse dedicar o resto do tempo a um galã de Hollywood, isto era o menos que ele lhe podia proporcionar. E talvez assim ela deixasse
o estribilho: "Quero que me leves a jantar ao 21". Embora parecesse estranho, Ethel não mostrava qualquer interesse por Christie Lane. Dizia que lhe dava repugnância.
- Tem uma pele tão branca, que até parece um peito de galinha.
Dan recostou-se na cadeira, sorrindo de satisfação. Agora tudo o que tinha a fazer era esperar até Fevereiro. Então, surgiria com um sucesso. Já tinha a Alwayso
para patrocinadora. A fim de combinar com Christie, no seu papel de Homem Comum, Dan contratara uma cantora de aspecto banal e uma locutora também banal; mas,
cada semana, um
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convidado de primeira grandeza contribuiria com o encanto. Para isso contratara Artie Rylander, famoso produtor que se tornara célebre na década de cinquenta fazendo
espectáculos de variedades ao vivo. Uma vez mais, Dan tivera sorte. Uma linda jovem a fazer os anúncios era o perfeito contraste para o ar de programa familiar
que imprimira ao The Christie Lane Show.
Aquela hora, o escritório de Jerry devistar cheio de belos modelos. Jerry pretendia usar uma voz masculina e pôr o modelo a demonstrar o produto. Mas, como ele
dissera, tinham de se decidir por uma rapariga e ficar com ela. Era um problema escolher.
Dan sorriu. Durante meses tinha ficado fechado horas e horas com Christie Lane, os "acólitos", Sig e Howie e Artie Rylander. Ora, era Jerry que tinha o seu gabinete
cheio de belos modelos. Sacudiu a cabeça. Ele é que deveria ter problemas desses.
Mas Jerry tinha um problema: Amanda. Amanda, com as suas puras feições nórdicas, belos malares, explêndido cabelo louro, era perfeita para anunciar o produto;
além do que, no ano anterior fizera os anúncios da revista da Alwayso. Jerry queria que ela fizesse os anúncios do novo programa, mas qual seria a reacção de
Robin?
Iria ele dizer: "Que diabo estás a querer fazer? Monopolizá-la?" ou "Tiveste uma ideia óptima, Jerry. Obrigado."
De repente, sentiu raiva de si próprio. Que diabo, o que interessava era escolher a pessoa mais indicada, e não saber como reagiria Robin! Sentou-se e olhou para
o retrato de Mary com as crianças, em cima da sua mesa. Seriam anormais os seus sentimentos por Robin? Não, isso era ridículo! Não tinha desejo sexual por Robin
Stone! Apenas gostava dele, gostava da sua companhia. Mas, por que gostava da sua companhia? Às vezes, Robin tratava-o com o mesmo encanto impessoal com que se
dirigia ao barman do Lancer. Havia dias em que quase
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náo falava com ele. Outros parecia quase contente de o ver: "A tua bebida está à espera, Jerry". Contudo, secretamente ele tinha a suspeita de que, se de repente
deixasse de passar pelo Lancer às cinco horas, a sua falta não seria sentida.
Apertou o botão do intercomunicador e disse à secretária que mandasse entrar Amanda. Pouco depois, ela abria a porta. Deus!, parecia ter copiado o andar do gato.
Usava um casaco de leopardo e os cabelos louros soltos sobre os ombros. Leopardo! E tinha também um vison, ao passo que a mulher dele, Jerry, só tinha uma modesta
pele de coelho.
Ela sentou-se diante dele, sem se preocupar com a luz. Mas o rosto de Amanda era impecável e ela sabia disso.
- Queres mesmo o trabalho? - perguntou Jerry.
- Quero e muito.
Ele olhou bem para ela. Amanda estava a começar a falar como Robin. com frases curtas, mas precisas.
Viu-a a olhar discretamente para o relógio. Sim, claro o tempo dela era valioso. Foi então que reparou no relógio. Livra! era um Vacheron, o relógio mais pequeno
que já vira. Mary tinha-o namorado na montra do Cartier's. Mas custava mais de dois mil dólares, com o imposto.
- Belo relógio! - comentou. Ela sorriu.
- Obrigada... Foi o presente de Natal de Robin.
Ele ficou calado. Mandara a Robin uma caixa de vodka e ele nem sequer lhe enviara um cartão de Natal.
De repente, ela inclinou-se para ele, com um brilho de urgência no olhar.
- Preciso desse trabalho, Jerry. Quero que Robin se orgulhe de mim. - Deitou-lhe um olhar implorativo. - Oh, Jerry, eu amo-o. Não posso viver sem ele. És o melhor
amigo de Robin. Na tua opinião, quais são as minhas possibilidades com ele? Há já quase um ano que saímos juntos e às vezes parece-me que ele me trata como se
me conhecesse há apenas um dia. Ele é tão imprevisto... que é que achas, Jerry? Os homens costumam trocar confidências.
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Todos os seus modos mudaram. De repente, ele sentiu-se estranhamente ligado a ela. Meu Deus, como devia ser mortificador, para uma mulher, estar apaixonada por
Robin. Ainda bem que ele era homem. Ainda bem que era apenas amigo dele.
- Jerry, quero casar com ele - continuou ela. - Quero dar-lhe filhos. - O rosto dela estava tenso. - Sabes como é que eu tenho aproveitado as noites, quando ele
está a viajar? A tirar um curso de arte dramática na Escola Nova. Acabei de ler os Pickwick Papers e agora comecei Chaucer. Mas, quando tentei discutir o que tinha
lido com Robin, ele riu-se e disse que não desejava brincar ao professor Higgins. Mesmo assim, vou continuar. Oh, Jerry... às vezes sinto vontade de não o amar
tanto. Mesmo depois dele passar a noite comigo, na manhã seguinte, quando ele sai, encosto-me à toalha que ele usou. As vezes chego a dobrá-la e a pô-la na minha
mala, para poder andar com ela o dia inteiro. De vez em quando, pego na toalha e apalpo-a. Parece-me até que ainda tem o cheiro dele... e fico a tremer. Sei que
parece
tolice, mas faço isso mesmo quando sei que nesse mesmo dia vou encontrar-me com ele no Lancer Bar. E, cada vez que entro lá, quase sinto o coração parar de medo
que ele não esteja lá, embora saiba sempre que ele está lá. E, às vezes quando me sento ao lado dele e ele sorri para mim, penso: "Meu Deus, porque não posso guardar
este momento, fazê-lo durar para sempre?" E isso assusta-me, porque significa, talvez que eu espero perdê-lo um dia. - E Amanda tapou os olhos com as mãos, como
que para evitar esse pensamento.
Jerry sentiu os olhos humedecerem-se.
- Não vais perdê-lo Amanda. Estás a ir bem. Há quase um ano que sais com ele. Isso já é um recorde. - Depois entregou-lhe um contrato. - Acho que vais ser óptima
para o nosso produto. E é um prazer ter-te no programa.
As lágrimas ameaçaram escorrer-lhe pelo rosto. Ela pegou na caneta e assinou rapidamente. Quando lhe estendeu a mão, já conseguira recuperar o controlo.
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Ele ficou a vê-la sair da sala. Quem poderia pensar que aquela linda mulher, aquela criatura perfeita, estava a passar por uma torturante paixão? Sim, porque amar
Robin Stone devia ser uma autêntica tortura. Qualquer mulher que o amasse acabaria por perceber que nunca o teria realmente e que
um dia terminaria por perdê-lo.
Ele sabia que as Amandas se sucederiam, ao passo que ele, Jerry Moss, poderia sempre encontrar-se com Robin Stone no Lancer Bar.
Duas semanas mais tarde, Jerry fez a sua primeira visita ao psiquiatra. As suas relações com Mary vinham a tornar-se cada vez mais raras. Quando ela lhe chamara
pela primeira vez a atenção para o assunto, tentara fingir que não o levava muito a sério:
- Eh, com todo esse teu trabalho e o golfe, nos fins-de-semana, não achas que te estás a esquecer da tua mulher?
Ele mostrara-se surpreendido como se tivesse sido uma distracção.
- Nem uma única vez, em todo o Verão - continuara ela, com bom humor. - E agora estamos já a meio de Setembro. Terei de esperar até que esteja frio demais para
jogares golfe?
Ele desculpara-se, murmurando que o começo de uma nova estação era uma época muito atarefada. Setembro, então, era uma rodaviva.
Em Novembro, pusera a culpa nos comboios. O tempo estava horrível para conduzir e não era nenhuma brincadeira correr parao comboio, todas as manhãs, correr para
o
comboio todas as noites. Não, não era porque ele fosse ao Lancer Bar, ter com Robin Stone. É que estava a trabalhar até tarde!
Na época do Natal tinha ainda mais desculpas. Andava tudo atarefado. Em Janeiro, o trabalho para a Alwayso era uma loucura. Os anúncios tinham de ser escritos,
tinha de escolher o produto para o primeiro anúncio: laca ou o novo esmalte iridiscente? Embora essas desculpas parecessem satisfazer
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Mary, elas não calavam a dúvida que começava a crescer na sua propriamente. Sim, ele estava cansado, o tempo estava horrível e o resfriado não o largava. Havia
mesmo
vezes em que punha a culpa nos rolos de cabelo de Mary. Como era que um tipo podia sentir desejo, quando a mulher se deitava ao seu lado com rolos de cabelo cor-de-rosa
e o rosto desuntado de creme? A fim de evitar discussões, não dizia nada. A atmosfera começava a ficar como uma panela de pressão. E, uma bela noite, explodira.
Acontecera numa terça-feira, uma semana depois dele contratar Amanda. Passara o dia a rever o anúncio. Tudo saíra certo e Jerry sentia-se bem. Fora um desses raros
dias em que não houvera nenhum contratempo. Até o tempo estava bom. Tomara o comboio das cinco e dez e, ao caminhar para casa, experimentara de repente uma sensação
de bem-estar. No dia anterior, tinha nevado. Em Nova Iorque, a neve já estava toda pisada e escura, mas, ali em Greenwich, parecia um cartão de Natal, com a neve
branca e imaculada. As luzes que se viam através das janelas prometiam calor e hospitalidade. Logo ao entrar em casa, as crianças tinham gritado "Papá! Papá" com
ruidoso entusiasmo. Brincara com elas, contara-lhes histórias e sentira-se aliviado quando a empregada as tinha levado para a cama. Prepara martinis. Tinha o de
Mary pronto quando ela entrara na sala. Elogiara-lhe o penteado. Ela aceitara a bebida sem um sorriso. "É o mesmo penteado que tenho há um ano". Ele recusara-se
a permitir que a sua desatenção lhe estragasse o sentimento de tranquilidade. "Bem, mas hoje estás particularmente bem"., dissera erguendo o copo.
Ela olhou para ele com ar desconfiado.
- Chegaste cedo hoje. Que aconteceu? Robin Stone faltou ao encontro?
Ficara tão furioso que se engasgara com o martini. Mary acusara-o de ficar nervoso e ele saíra da sala, com um nó de culpa a apertar-lhe a garganta. Sim, Robinfatara
ao encontro. Não exactamente, mas naquela tarde, no seu gabinete, Amanda pedira-lhe para sair às quatro e meia, pois às cinco tinha uma sessão de fotografias.
Jerry sentira-se secretamente
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feliz: Robin estaria sozinho no Lancer Bar. Mal saíra do escritório telefonara a Robin: "Às cinco no Lancer?"
Robin soltara uma gargalhada.
- Por amor de Deus, Jerry, voltei hoje de manhã e Amanda vai fazer-me o jantar. Hoje não vou ao bar, mas amanhã estarei lá.
Jerry ficara vermelho de raiva mas, cinco minutos depois, acalmara-se. Ora, no dia seguinte encontrar-se-ia com Robin. E já não era sem tempo que ele ia para casa
cedo.
Acabara por fazer as pazes com Mary. Ela entrara no quarto brandindo um martini, como se fosse uma bandeira branca. Nessa noite, não pusera creme no rosto, nem
rolos no cabelo, mas mesmo assim, ele não conseguira. Era a primeira vez que isso lhe acontecia! Por mais esporádicas que as suas relações tivessem sido durante
todo o ano anterior, as poucas vezes que elas tinham acontecido, tinham mesmo acontecido. Ela voltara-lhe as costas, a chorar. E Jerry tinha tentado sufocar os
seus receios e desculpar-se com Mary pondo as culpas nos martinis e no novo Christie Lane Show. No dia seguinte, fizera um checkup e pedira uma injecção de vitamina
B-12. Quando o dr. Anderson lhe dissera que ele não precisava de vitamina B-12, ele tinha, por fim, desembuchado o seu problema e o Dr. Anderson aconselhara-o
a procurar o Dr. Archie Gold.
Jerry saíra do consultório furioso. Não precisava de psiquiatra! Caramba, se Robin suspeitasse, sequer, de que ele pensava em tal coisa, bem, não voltaria a perder
tempo com ele. Olhá-lo-ia com desprezo, considerá-lo-ia um fraco.
Não lhe importava o que o Dr. Anderson lhe dissera. Não lhe importava o facto de que muitos homens perfeitamente normais consultassem psiquiatras quando tinham
algum problema. Ele nunca consultaria!
Mary fizera-o mudar de ideias. Agora, todas as noites recebia-o com um sorriso. Nunca mais pusera rolos no cabelo. Jerry tinha reparado que ela passara a pintar
mais os olhos. Passara também a aninhar-se contra ele, na cama, e por duas vezes ele tentara, mas sem resultado. Agora, até tinha medo de
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tentar. A noite, fingia estar exausto. Mal caía na cama, imitava a respiração ritmada de uma pessoa profundamente adormecida. Depois, ficava acordado de olhos
abertos para a escuridão, enquanto Mary entrava na casa de banho para retirar o diafragma, abafando os soluços.
O Dr. Archie Gold era surpreendentemente jovem. Sem saber porquê, Jerry esperava encontrar um tipo de óculos, barba e sotaque alemão. Em vez disso, o Dr. Gold
tinha as faces bem escanhoadas e até não era mal parecido, embora de maneira discreta. Pouca coisa resultara da primeira consulta. Jerry tinha ido direito ao assunto:
"Não consigo ter mais relações com a minha mulher, embora goste dela e não haja nenhuma outra. Por que diabo será isto"? Antes de dar por isso, os cinquenta minutos
já tinham terminado. Ficara espantado quando o Dr. Gold lhe dissera para ir três vezes por semana. Nunca lhe passara pela cabeça que o seu problema não pudesse
ser resolvido numa hora. Tudo aquilo era ridículo! Mas depois pensara em Mary, nos seus soluços abafados, na casa de banho... Ok, segundas, quartas e sextas-feiras.
Na terceira consulta, trouxeram à superfície Robin Stone. E, a pouco e pouco, Amanda também.
Ao fim de duas semanas, Jerry sentia-se melhor.
Após um revolver intenso da sua infância, chegara a conclusões perturbadoras. Tinha problemas de personalidade, mas não era homossexual! Pelo menos, essa terrível
dúvida tinha sido afastada. Desenterraram o pai, um homem enorme e de aspecto viril, que pouco lhe ligara, durante toda a infância. De um momento para o outro,
ele começara a ir com o filho aos jogos de futebol e lembrava-se de o ver aplaudir Robín Stone até ficar rouco. "Caramba, este rapaz é um espectáculo!" gritava
o pai. "A isso é que eu chamo um homem!" Jerry recordava-se de uma vez em que Robin furara um cerco de jogadores para marcar um golo. O pai levantara-se de um
pulo, a berrar: "Fantástico! Aí meu filho!".
Com a ajuda do Dr. Gold, ele ia-se lembrando de outros fragmentos de atentados contra o seu ego. Por exemplo,
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quando a família se convencera de que Jerry não iria crescer mais do que um metro e setenta e cinco, o pai troçara: "Como é que eu fui gerar um tal pigmeu? Tenho
quase
dois metros! Saíste à família da tua mãe. Todos os Baldwins são pequeninos "
Muito bem, ele agora percebia muita coisa. Ao tentar
conquistar a amizade de Robin, o que ele estava a procurar era a aprovação do pai. Esta descoberta deixou-o radiante.
- O meu diagnóstico está certo, não está? - perguntou ao Dr. Gold. Mas os olhos frios do médico limitaram-se a sorrir.
- O senhor é que tem de responder às suas próprias perguntas - replicou.
- Então para que diabo lhe estou a pagar? - quis saber Jerry.
- Não é para lhe dar respostas - respondeu calmamente o Dr. Gold. - Apenas para lhe revolver o subconsciente, de modo a que você próprio possa achar as respostas
que procura.
Na semana anterior à estreia do programa, Jerry resolveu tornar as consultas diárias. Pôs de lado a hora do almoço. ODr. Gold preferia recebê-lo das cinco às seis,
mas Jerry não queria abdicar do Lancer Bar. Insistia em que era a única maneira de aliviar a tensão - tomar umas bebidas com Robin. Mas, quando perdia o comboio,
sentia-se culpado para com Mary e o jantar que ela preparara.
Nessas ocasiões, Jerry perguntava ao Dr. Gold por que se sentia tão culpado. E porque razão tinha de ir todas as tardes ao Lancer Bar beber com Robin, mesmo sabendo
que depois ia sentir-se culpado?
- Não posso continuar assim, querendo agradar a Mary, e ao mesmo tempo, querendo satisfazer-me a mim própiio. Porque não hei-de ser como Robin? Não ter consciência,
ser livre?
- Pelo que me conta de Robin Stone, eu não diria que ele é livre.
Quando Jerry contou ao Dr. Gold o que Amanda lhe
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confidenciara a respeito da toalha de Robin, o Dr. Gold pôs de lado a sua habitual expressão impertubábel e sacudiu a cabeça.
- Ela está a precisar de ajuda - declarou.
- Tolice! É apenas uma mulher muito sentimental que está apaixonada!
Mas o Dr. Gold abanou de novo a cabeça.
- Isso não é amor, é vício. Uma mulher com todos os atributos que você lhe empresta deveria ter, na sua ligação com Robin Stone, uma sensação de realização e não
essa espécie de devaneio. Se alguma vez ele a voltasse contra si... - E o Dr. Gold, mais uma vez, abanou a cabeça.
- O senhor não pode sintetizar as pessoas assim. Não as conhece!
- Quando é que Robin Stone volta? - perguntou o Dr. Gold.
- Amanhã. Porquê?
- Que tal se eu me encontrasse com vocês no Lancer Bar? Podia então apresentar-me Robin e Amanda.
Jerry olhou para o tecto.
- Mas a pretexto de quê? Não posso dizer: "Eh, Robin, o meu analista quer conversar contigo."
O Dr. Gold riu.
- Ora, nós podíamos ser amigos. Somos mais ou menos da mesma idade.
- Posso dizer que o senhor é um médico e não um analista?
- Alguns dos meus melhores amigos são apenas gente replicou o Dr. Gold. - Você não poderia ter um amigo psiquiatra?
Jerry ficou nervoso, ao ver o Dr. Gold entrar no Lancer Bar. Robin estava no seu terceiro martini e, justamente naquele dia, Amanda estava a trabalhar e ia encontrar-se
com Robin mais tarde, no restaurante italiano.
- Oh, esqueci-me de dizer - disse Jerry enquanto o Dr.
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doía se aproximava. - Um velho colega de turma vem encontrar-se comigo aqui.
Passou o braço pelo ombro do médico.
- Archie - não estava habituado a tratá-lo assim e o nome soava-lhe a falso - apresento-te Robin Stone. Robin, este é o Dr. Archie Gold.
Robin olhou para o outro com evidente interesse. Estava numa das suas fases taciturnas. Concentrou-se na sua bebida. O Dr. Gold também não estava muito falador.
Os seus olhos cinzentos pareciam avaliar Robin. Jerry começou a falar nervosamente. Alguém tinha de dizer alguma coisa!
A certa altura, Robin inclinou-se para a frente e perguntou:
- Você é cirurgião, Archie?
- De certo modo - respondeu o Dr. Gold.
- Ele retalha os nossos ids - explicou Jerry, esforçando-se por manter leve o tom de voz. - Talvez não acredites, Robin, mas Archie é analista. Encontrámo-nos
numa festa, recordámos os velhos tempos e ele disse-me...
- Freudiano? - interrompeu Robin, como se não ouvisse o que Jerry dizia.
O Dr. Gold fez que sim.
- Psiquiatra ou psicanalista?
- As duas coisas.
- Depois de anos de estudo, fez dois anos de auto-análise, não foi?
O Dr. Gold fez novamente que sim.
- Deve ser mesmo bom - disse Robin. - Deve ser preciso um bocado de coragem para aguentar firmemente um nome como Archibald. Deve ser mesmo seguro.
O Dr. Gold riu.
- Não, inseguro, ou não o teria encurtado para Archie.
- Interessou-se sempre por essa história de análise? perguntou Robin.
- Não, a princípio eu queria ser neuro-cirurgião. Mas um neurologista tem sempre de enfrentar doenças incuráveis. Só pode prescrever remédios para aliviar os sintomas.
Mas o
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psicanalista - e os olhos do Dr. Gold tornaram-se inexpressivos - o psicanalista pode curar o mal. A melhor coisa do mundo é ver um doente recuperar, retomar o
seu lugar na sociedade e usar todo o seu potencial. Na psicanálise, há sempre esperança de um amanhã melhor. Robin riu.
- Conheço os seus truques, doutor.
- Os meus truques?
- Sim - confirmou Robin. - Você gosta das pessoas.
- Atirou uma nota para cima da mesa. - Eh, Carmen. - O barman acudiu imediatamente. -Isto é para pagar a conta. Dá outra dose aos meus amigos e fica com o troco.
- A seguir estendeu a mão para o Dr. Gold. - Lamento ter de me ir embora, mas tenho um encontro com a minha pequena. - E saiu do bar.
Jerry ficou a vê-lo sair. O barman colocou novas bebidas diante dele.
- com os cumprimentos do Sr. Stone - disse. Grande homem!
Jerry voltou-se para o Dr. Gold.
- E então, que achou dele? O Dr. Gold sorriu.
- Concordo com o barman: um grande homem! Jerry não pôde esconder o seu orgulho.
- Que foi que eu lhe disse? Ele também o conquistou, hem?
- Claro. Eu fiz força para isso.
- E o senhor acha que ele tem algum truque, como ele diz?
- Não posso dizer. Aparentemente, tem perfeito auto-domínio e parece gostar mesmo de Amanda.
- Como é que o senhor percebeu isso? Ele nem sequer falou nela!
- Quando ele se despediu, disse: "Tenho um encontro com minha pequena". Não disse: "Tenho um encontro com uma pequena", o que significaria negar-lhe importância,
torná-la uma entre muitas.
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- E o senhor acha que ele gosta de mim? - perguntou
Jerry.
- Não.
- Não? - ecoou a voz de Jerry em pânico - Quer dizer que ele não gosta de mim?
O Dr. Gold abanou a cabeça.
- Não, ele nem sequer sabe que você existe.
A sala de controlo estava completamente cheia. Jerry só encontrou lugar a um canto. Dentro de quinze minutos, The Crhristie Lane Show iria para o ar, ao vivo!
Um pandemónio, durante todo o dia. Até Amanda se deixara contaminar pelo nervosismo no último ensaio, segurara a laca com a mão errada, escondendo o nome Alwayso.
Christie Lane e os seus "acólitos" pareciam ser as únicas pessoas não afectadas pela tensão. Brincavam. Christie tinha divertido a equipa técnica com imitações,
os "acólitos" tinham ido buscar sanduíches. Pareciam gostar daquele clima frenético.
A assistência já começara a entrar. Amanda tinha dito que Robin ia ver o programa em casa. Curioso, ele não dissera uma única palavra a favor ou contra o facto
de Amanda fazer o anúncio. Várias vezes Jerry estivera tentado a perguntar-lhe qual a reacção de Robin, mas não tivera coragem.
Danton Miller entrou na sala, impecável como sempre, num fato preto. Harvey Phillips, o director da agência entrou esbaforido.
- Está tudo em ordem, Sr. Moss. Amanda está lá em cima a retocar o penteado. Disse-lhe para ficar com o vestido azul para a laca e pôr o verde para o batôn.
Jerry concordou com a cabeça. Agora, era só esperar. Dan disse ao director para ligar o som. O apresentador já subira ao palco para contar a sua anedota habitual.
- Há aqui alguém de Nova Jersey? - perguntou. Levantaram-se várias mãos. - Bem, é para dizer que o auto101
carro está lá fora, à espera. - A assistência riu, como de costume. Jerry olhou para o relógio. Dentro de cinco minutos estariam no ar.
De repente, Jerry começou a pensar se o programa iria mesmo ser um sucesso. Era difícil prever, mesmo através da reacção da assistência. O público que vinha ao
estúdio gostava de todos os programas. Por que não? Eram de graça. No dia seguinte sairiam as críticas, mas na televisão as críticas não tinham importância. Nada
tinha importância senão o diabo dos números. Para isso, teriam de esperar duas semanas. Claro que iam receber as cotações logo no dia seguinte, mas a segunda semana
é que contava.
Faltavam três minutos para o programa ir para o ar. A porta abriu-se e Ethel Evans entrou. Dan acenou-lhe com a cabeça. Sig foi o único homem que se levantou para
lhe oferecer o lugar, mas Ethel recusou.
- Tenho um fotógrafo comigo. Está a tirar umas fotografias de Christie, para fornecermos aos jornais. - Voltou-se para Jerry -Depois do programa, vou mandá-lo
tirar algumas fotografias de Amanda e Christie. - E saiu da sala dirigindo-se para os bastidores.
Um minuto para o programa ir para o ar.
De repente, fez-se completo silêncio na sala de controlo. Artie Rylander estava de pé, segurando um cronometro. Baixou a mão, a orquestra atacou o tema, o apresentador
gritou: "The Christie Lane Show!" E o programa começou.
Jerry resolveu ir também até aos bastidores. Nada tinha a fazer ali, na sala de controlo. O seu lugar era junto de Amanda, para o caso de lhe dar um ataque de
nervos à última hora.
Encontrou-a num dos camarins a retocar o cabelo. O seu sorriso calmo deu-lhe nova confiança.
- Não te preocupes Jerry, segurarei a laca de modo a que se veja o nome. Senta-te e sossega, pareces uma mãe nervosa.
- Não estou preocupado por tua causa, minha querida. É com todo o programa. Afinal, fui eu quem o recomendou ao patrocinador. Assististe a algum dos ensaios?
102
Ele torceu o nariz.
. Só uns dez minutos... até Christie Lane começar a
-pitar animais com cio. - Estremeceu. Mas, ao ver o rosto dele, acrescentou: - Ora, não me ligues. Como homem ele é repulsivo, mas talvez o público goste dele.
A porta abriu-se e Ethel entrou. Amanda olhou para ela. Via-se que não a reconhecia. com o olhar Ethel passou em revista o camarim. Parecia surpreendida por encontrar
apenas Amanda e Jerry. Mas sorriu logo a seguir e estendeu a mão:
- Boa sorte, Amanda.
A expressão de Amanda era delicada, mas curiosa. Sabia que já tinha visto aquela rapariga, mas não se recordava onde.
- O meu nome é Ethel Evans... fomos apresentadas no P.J.'s, no ano passado. Você estava com Jerry e Robin Stone.
- Ah, sim. - Amanda virou as costas e começou a passar laca pelo cabelo.
Ethel sentou-se à beira da mesa, com as suas ancas a atrapalharem Amanda.
- Parece que estamos destinadas a encontrarmo-nos. Amanda chegou-se para o lado e Jerry bateu no ombro de
Ethel.
- Saia Ethel, está a tapar a luz para Amanda. Além disso, não é um momento propício para renovar velhas amizades.
O sorriso de Ethel era simpático, ao levantar-se da mesa.
- Vai fazer sucesso, Amanda. Vão ficar roucos de tanto assobiar, quando aparecer. - Tirou o casaco e, sem pedir licença, pendurou-o na parede. - Tenho que pôr
isto em qualquer sítio. Oiça, vim aqui por dois motivos: primeiro, desejar-lhe sorte; segundo, gostaria de tirar umas fotos suas com Christie Lane, depois do espectáculo.
Amanda olhou para Jerry, que anuiu com a cabeça, e depois disse:
- Está bem, mas não vai demorar muito, pois não?
- Só três ou quatro instantâneos. - Ethel dirigiu-se para a porta. - vou sentar-me na primeira fila. E oiça, Amanda, você vai causar sensação. Caramba, se eu fosse
bonita como
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você, seria dona do mundo!
Amanda sentiu-se derreter. Havia sinceridade na voz de Ethel e leu a inveja nos seus olhos, Retorquiu:
- A minha tia dizia-me sempre que a beleza não dá felicidade.
- A minha mãe também - disse Ethel. - Mas isso é uma parvoíce. Tenho um QI de
136, mas preferia ter metade disso e uma cara bonita. Aposto que o seu namorado, com
toda a sua inteligência, estaria de acordo comigo. Por falar nele, vem assistir ao programa?
- Robin vir aqui? - repetiu Amanda. A ideia de Robin sentado numa plateia de estúdio era tão absurda, que Amanda teve de rir. - Não, vai ver em casa.
Toda a aparente calma de Amanda desapareceu, assim que Ethel saiu do camarim. Agarrou a mão de Jerry.
- Oh, espero que ele fique orgulhoso de mim. Ele disse alguma coisa?
- Que foi que ele disse? - perguntou Jerry.
- Apenas se riu e disse que, se eu tinha resolvido entrar nesta dança, a responsabilidade era minha. - Os seus voltaram-se para o relógio que estava na parede.
- Acho melhor descer, o espectáculo já está no ar há dez minutos.
- Ainda tens cinco minutos, talvez mais.
- Sei disso, mas quero telefonar a Robin, para ele não se esquecer de ver o programa. Sabes como ele é... é capaz de ter tomado uns martinis, de se ter estendido
no sofá e ter adormecido.
O único telefone que havia perto estava junto da porta de entrada dos artistas. Jerry ficou à espera, nervoso, enquanto ela marcava o número, no hall. Ouvia-se
a orquestra a tocar, os aplausos, o programa parecia estar a sair muito bem. Amanda desligou e recuperou a moeda.
- Está ocupado, Jerry. E eu tenho de entrar dentro de minutos.
- Vai andando já, ainda tens de passar por detrás da cortina para o teu set.
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- Espera um pouco. vou tentar outra vez.
Deixa-te disso - disse ele, com voz irritada. - Tens
de estar no teu lugar quando a câmara se voltar para ti. Vai andando, que eu telefono-lhe. Esperou até que ela desaparecesse por detrás da cortina e aparecesse
no
pequeno montado para a Alwayso. Depois, marcou o número de Robin. O sinal de interrompido continuava. Continuou a tentar até ao momento do anúncio. "Como é que
Robin pode ser assim?" pensou. "Sabe que é a estreia da rapariga, por que raio procede deste modo?".
Dirigiu-se para os bastidores a tempo de dar a Amanda um sorriso de vitória. O rosto dela iluminou-se e Jerry percebeu que ela pensava que ele tinha conseguido
falar com Robin. Estava calma e à vontade quando a câmara se voltou para ela.
Assistiu ao anúncio, pelo monitor. Ela era maravilhosamente fotogénica. Não era para admirar que ganhasse tanto dinheiro. Mal terminou, ela correu para ele, ofegante.
- Que tal? Saí-me bem?
- Mais do que bem. Maravilhosa. Agora, descansa cinco minutos e depois muda de vestido, faz o anúncio do batôn e pronto.
- Que disse Robin?
- Não consegui falar com ele. Estava ocupado. Os olhos dela ficaram perigosamente brilhantes.
- Vamos, sobe e troca de roupa. E nada de choros, ou estragarás a maquilhagem.
- Mas, Jerry...
- Mas o quê? Ele está em casa, pelo menos tens a certeza disso. Sem dúvida assistia ao programa enquanto falava ao telefone. Pode ter sido um telefonema urgente,
pode mesmo ter sido um telefone internacional. A guerra pode ter sido declarada, enquanto fazíamos o programa. Ou uma bomba atómica atirada em cima de um país
qualquer. Embora não acredites, The Christie Lane Show não é a coisa mais importante deste mundo. Estamos a trabalhar como se tivéssemos descoberto a cura do
cancro.
105
Christie Lane aproximou-se deles. Bob Dixon estava no palco a dizer piadas.
- Ouviram os aplausos? Tudo para mim! Sou mesmo o melhor! - Colocou a mão no braço de Amanda. - E você a mais bela! Se se sair bem, cá o rapaz talvez a leve a
comer uma sanduíche, depois do programa.
- Calma - disse Jerry, tirando a mão de Christie do braço de Amanda. - Ainda não destronou Berle ou Cleason. E que modos de falar são esses?
- Você não ouviu o que esse tal Dan tm repetido todos estes meses? Que eu tenho mesmo o ar de tipo-família. Faço toda a gente pensar no pai ou no marido. - Voltou
os olhos azuis pálidos para Amanda. - Diz-me boneca, faço-te recordar algum parente? Espero que não, pois seria um incesto o que estou a pensar. - Antes que Amanda
pudesse responder, ele disse: - Bem, o galã de cinema terminou o número. Fiquem agora a ver o verdadeiro astro entrar no palco e acabar com a raça dos outros.
- E correu para o palco. Amanda ficou muito quieta, como se não pudesse acreditar no que tinha acontecido. Depois, deu meia volta e encaminhou-se para o telefone.
Jerry deteve-a.
- Não, nada disso. Tens exactamente seis minutos para mudar de vestido e retocar a maquilhagem. Depois do programa, podes telefonar para ele à vontade. Aposto
uma ceia no
21 em como ele assistiu ao espectáculo. Mais ainda, vou levar-vos os dois a comemorar.
- Não, Jerry. Quero ficar sozinha com ele. vou levar-lhe uns hamburgers. - Olhou para o palco, para Christie Lane e encolheu os ombros. - Talvez eu esteja louca,
mas parece que gostam dele. - E correu pela escada acima, para o
camarim. Amanda fez o segundo anúncio com igual à vontade. Quando o programa terminou, os bastidores
ficaram apinhados. Mal havia espaço para se mover. Os patrocinadores, Danton Miller e os argumentistas penduravam-se à volta de Christie, todos a quererem-lhe
apertar
a mão. O fotógrafo tirava retratos. Ethel aproximou-se e agarrou Amanda.
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.- Quero tirar uma fotografia sua com Christie. Amanda soltou-se e correu para o telefone. Ethel seguiu-a.
- Não poderá esperar? É importante.
Amanda fingiu não ouvir e pôs-se a marcar o número. Sabia que Ethel estava atrás dela furiosa. Jerry aproximou-se e ficou perto, como que a protegê-la. Já não
dava sinal de interrompido. Tocou uma, duas três vezes. Depois da décima vez, ela desligou a apanhou a moeda. Tornou a marcar o número. O mesmo toque monótono,
e Jerry e Ethel, atrás, a olharem. Ela até podia ver o sorriso trocista de Ethel! Que diabo, ela era a namorada de Robin Stone! Não ia dar-lhes o prazer de verem
a namorada de Robin Stone desanimar. Ele não gostaria disso. Ainda na noite anterior, nos braços dele, Robin afagara-lhe a cabeça e dissera-lhe: "Tu és como eu:
estóica. Podem fazer o que quiserem connosco; ninguém saberá se sofremos ou não. Não choramos na frente dos outros, não choramos nem quando estamos sozinhos.
É por isso que nos entendemos." Amanda fez o possível para pensar nisso, enquanto ouvia o telefone tocar sem parar. Desligou, agarrou na moeda com ar displicente.
Enfrentou Ethel e Jerry com um sorriso.
- Sou mesmo uma idiota. Tão preocupada com o programa que me esqueci completamente... - Estacou a pensar numa explicação.
- Ainda estava ocupado? - perguntou Jerry solícito.
- Claro! Ele avisou-me que ia retirar o auscultador do gancho, para que ninguém o incomodasse. E eu esqueci-me!
- Virou-se para Ethel. -Bem, vamos tirar jaós retratos, que tenho de ir a correr para o apartamento dele. Jerry, podias fazer-me o favor de ligar para a Cadi-Cars
e pedir um carro para mim?
Avançou para Christie Lane, e colocou-se entre ele e Bob Dixon, afivelou o seu mais belo sorriso e desenvencilhou-se dos braços de Christie logo que a fotografia
foi tirada. Felizmente havia tanta gente a querer cumprimentá-lo que ele nem reparou.
Jerry chamou o carro. Achava estranho ela ter-se esquecido
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de que Robin planeava desligar o telefone. Mas o sorriso dela parecia autêntico. Ela parecia irradiar felicidade.
Ethel também repara no ar satisfeito de Amanda. Caramba, ir para o apartamento de Robin Stone!
Entretanto, mal Amanda se encontrou dentro do carro, o sorriso desvaneceu-se. Deu a morada ao motorista. Oito dólares atirados à rua só para apanhar um espada.
E havia uma porção de taxis vazios na rua. Mas não poderia ter feito outra coisa. Saíra com a cabeça erguida; era a pequena de Robin Stone e era assim que ele
gostava.
Robin telefonou bastante cedo, na manhã seguinte.
- Olá, estrela! - saudou, brincalhão.
Ela passara quase toda a noite acordada, hesitando entre odiá-lo, renunciar a ele, desculpá-lo, e desejando-o. Prometera a si mesma armar em indiferente, se ele
telefonasse. Mas aquele telefonema matinal apanhou-a de surpresa.
- Onde é que estiveste, ontem à noite? - perguntou. (Meu Deus! Não tinha planeado agir desta maneira.)
- A assistir à tua estreia - respondeu ele, no mesmo tom brincalhão.
- Nada disso! - Sabia que não devia agir assim, mas era mais forte do que ela. - Robin, telefonei-te antes do anúncio, e o teu telefone estava ocupado. Telefonei
de novo, depois do programa, e ninguém atendeu.
- Tens razão. O diabo do telefone começou a tocar mesmo na hora do programa ir para o ar. Não que isso me aborrecesse. Era Andy Farino e prefiro falar com ele
a ouvir esse tal Christie Lane. Mas assim que Andy desligou, telefonou outra pessoa.Como eu queria ver a tua aparição sem que me incomodassem, assim que apareceste
no vídeo, desliguei o telefone.
- Mas sabias que eu ia telefonar logo a seguir ao programa.
- Para te dizer a verdade, esqueci-me de que tinha desligado o telefone.
- Então - explodiu ela -porque não tentaste ligar para mim? Mesmo esquecendo que tinhas desligado o telefone,
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poderias ter-me telefonado. Nunca pensaste que poderia querer estar contigo, depois do espectáculo?
- Eu sei o que acontece quando um programa se estreia. É uma loucura, nos bastidores. Pensei que serias o centro da atenção dos patrocinadores. Pensei que, provavelmente
irias comemorar com eles.
- Robin! -gemeu ela. -Eu queria comemorar, mas era contigo. No fim de contas, eu sou a tua pequena, não sou?
- Claro que és. - O tom dele era ainda brincalhão. Mas isso não quer dizer dedicação total, de lado a lado. Eu não sou teu dono, nem do teu tempo.
- Não queres ser? - perguntou ela. Sabia que era uma jogada errada, mas não podia deixar de fazê-la.
- Não, porque não queria que fosses dona de mim.
- Mas, Robin, eu quero pertencer-te, completamente. Quero dar-te todo o meu tempo. És a única coisa que me interessa. Amo-te. Sei que não queres casar - apressou-se
a dizer - mas isso não quer dizer que eu não possa pertencer-te, em toda a acepção da palavra!
- Quero que sejas a minha pequena, mas não que me pertenças.
- Mas, sendo eu a tua pequena, deves calcular que eu posso querer partilhar tudo contigo. Quero estar a teu lado em todas as ocasiões, e quando não podes estar
comigo,
quero ficar à tua espera. Quero pertencer-te!
- Não quero que sofras - A voz dele agora era séria.
- Não sofrerei. E não me intrometerei. Juro.
- Então digamos de outra maneira: eu não quero sofrer. Após uma pausa, ela perguntou:
- Quem é que te fez sofrer, Robin?
- Que queres dizer com isso?
- Não podes ter medo de sofrer, a não ser que já tenhas sofrido. É por isso que volta e meia colocas uma porta de aço entre nós os dois.
- Eu nunca sofri - respondeu ele. - É verdade, Amanda. Gostaria de dizer que uma mulher me despedaçou o
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coração, quando eu era garoto, naguerra. Mas nunca aconteceu nada disso. Conheci muitas mulheres, montes delas. Gosto de mulheres e acho que gosto mais de ti do
que qualquer outra que eu tenha conhecido.
- Então porque escondes uma parte de ti próprio, e não me queres conhecer toda?
- Não sei, juro que não sei. Talvez seja uma espécie de auto-defesa. Algum instinto que me diz que, se eu não tivesse a tal porta, como lhe chamas, poderia acabar
muito mal. -Riu.
- Livra, é muito cedo para uma sessão de análise. Ou talvez não haja nada para analisar. Talvez se eu abrisse a tal porta, não encontrasse absolutamente nada.
- Robin, nunca te farei sofrer. Hei-de amar-te sempre.
- Minha querida, nada é para sempre.
- Queres dizer que acabarás por me deixar?
- Posso morrer num desastre de avião, posso apanhar um tiro...
Foi a vez dela rir.
- A bala ricochetearia, se acertasse em ti.
- Amanda. - A voz dele era superficial, mas ela sabia que ele estava a falar a sério. - Podes amar-me, mas não faças de mim a tua vida. Ninguém pode entregar-se
assim a outra pessoa. Mesmo que essa pessoa nos ame, ela acabará por nos deixar.
- Que estás a querer dizer-me? - Ela estava quase a chorar.
- Estou apenas a tentar explicar-te o que sinto. Há certas coisas que todos sabemos: primeiro, que não podemos contar com os outros; segundo, que um dia teremos
de morrer. Todos temos de morrer; sabemos isso, mas procuramos não pensar. Talvez porque achemos que, se não pensarmos, talvez não aconteça. Mas, bem no fundo,
sabemos que acontecerá. Sinto o mesmo a respeito de tal porta de aço. Enquanto ela existir, para eu poder fechá-la, não sofrerei.
- E nunca experimentaste abri-la?
- Estou a experimentar agora, contigo. - A voz dele era
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calma- Entreabri-a porque gosto de ti o bastante para querer que compreendas. Mas vou fechá-la agora mesmo.
- Por favor, Robin, não! Não deixes de me amar. Eu compreendo o que essa porta é. Ela fecha-se no sofrimento. Fechaste essa parte de ti. Sentes o amor... mas recusas-te
a pensar nele.
- Talvez. Como me recuso a pensar na morte. Não importa com que idade eu morra. Mesmo que seja aos noventa anos, para mim será horrível ter de deixar a vida. Mas
talvez, se eu não ligar muito às coisas, não me custe tanto deixá-la.
Ela não falava. Ele nunca se tinha aberto daquela maneira, e ela sabia que ele estava a tentar dizer algo, para além daquilo.
- Amanda, gosto de ti. E admiro-te, porque acho que também tens a tua porta de aço. És bela, ambiciosa e independente. Nunca poderia amar e respeitar uma mulher
se soubesse que era a sua única razão de existir. Acho que eu e tu combinamos. Diz-me agora: estamos entendidos?
Ela fez um esforço para rir.
- Estamos, está tudo bem. Isto é, a menos que não queiras jantar comigo esta noite. Então vamos ver com quantos paus se faz uma canoa.
Ele riu também.
- Bem, é melhor eu não arriscar. Ouvi dizer que as mulheres do sul são muito bravas.
- Do Sul? Eu nunca te disse que era do Sul.
- Nunca me dizes nada, minha bela Amanda. Talvez isso faça parte do teu encanto. Mas, quando andas, é como se estivéssemos a ver a Geórgia ou AJabama passar.
- Erraste de Estado. - Após uma pausa, ela disse: Nunca te disse nada a meu respeito, porque nunca me perguntaste. Mas quero que saibas tudo sobre mim.
- Minha querida, nada é tão insípido como uma mulher sem passado. E, quando conhecemos tudo sobre alguém, o passado deixa de existir. Fica sendo apenas uma longa
confissão.
- Mas a verdade é que não sabes nada a meu respeito. Não
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tens curiosidade de saber?
- Bem, sei que tinhas bastante experiência quando nos conhecemos...
- Robin!
- Digo isto como um elogio. Sou demasiado velho para gostar de virgens.
- Não houve assim tantos homens, Robin.
- Cuidado, não me desapontes. Sempre admirei mulheres como Maria Antonieta, Madame Pompadour, até mesmo Lucrécia Bórgia. Ora, se me disseres que houve apenas um
colega de escola, vai tudo por água abaixo.
- Está bem, não te vou falar do ditador sul-americano que tentou suicidar-se por minha causa, ou do rei que quis abdicar para casar comigo. Que tal bife e salada,
logo à noite?
Ele soltou uma gargalhada. Estava tudo bem.
- Óptimo. Eu levo uma garrafa de vinho. Até logo, ás sete.
Ela voltou a deitar-se. Não podia continuar a brincar assim! Mas sabia que tinha de continuar, até conquistar a plena confiança dele. Então a porta abrir-se-ia
e... Saltou da cama e preparou o banho. A vida era maravilhosa. Embora tivesse um dia cheio de trabalho, aquele era o melhor dia da sua vida. Ela sabia agora,
que tinha a chave para abrir a porta de aço. Fingir-se-ia indiferente, não perguntaria nada. Quando menos lhe pedisse, mais ele lhe daria. E ele não tardaria
a descobrir que lhe pertencia. Aconteceria tão gradualmente, que nem daria por isso.
Pela primeira vez, sentia-se confiante. Tinha a certeza que tudo sairia bem.

Capítulo décimo

A nova e feliz sensação de auto-confiança acompanhou Amanda durante o dia inteiro. Quando uma pose se tornava cansativa, ela recordava a conversa telefónica com
Robin e esquecia as luzes em cima dela, o pescoço torcido e a dor nas costas. Ouvia vagamente o fotógrafo dizer: "Isso mesmo, minha querida. Aguenta firme, um
bocadinho!"
A última sessão terminou às quatro. Telefonou para o escritório de Nick Longworth.
- Vais gostar dos teus compromissos de amanhã - disse Nick - Às onze horas na Vogue, e o teu velho amigo Ivan Greenberg é que vai fazer o lavout. - Ela ficou encantada.
Só tinha que começar a trabalhar às onze. Isso queria dizer que poderia dormir até às nove. E preparar o pequeno almoço para Robin...
Fazia um calor fora do vulgar, para Fevereiro. A neblina cobria o céu e o ar estava de se cortar à faca. Não era um tempo saudável. Mas Amanda pôde voltar para
casa andando sem ficar congelada e a sua felicidade era tanta, que o dia lhe parecia maravilhoso.
Voltou para casa, deu de comer a Slugger, pôs a mesa, preparou a salada e aprontou os bifes.
Nunca conseguia comer, quando estava com ele, apenas provava. Desde que conhecera Robin, tinha perdido cinco quilos. Media mais de um metro e setenta e pesava
somente cinquenta e quatro quilos. Mas a magreza era fotogénica e até agora não lhe afectara o rosto.
Ligou a televisão para a IBC. Robin gostava de ver Andy no noticiário das sete. Geralmente, ela aninhava-se nos seus braços, enquanto ele assistia, ou sentava-se
no outro lado da sala, olhando para ele. Nessa noite, porém, ia ver noticiário, queria
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interessar-se por tudo o que lhe dizia respeito.
Gregory Austin também estava à espera do noticiário das sete. Mais uma vez tinha de concordar com Robin Stone. Ele tivera razão em utilizar Andy Farino. Engraçado:
tinha trazido Robin para dirigir as reportagens, mas ele estava-se a revelar um verdadeiro director-executivo. Robin era uma óptima aquisição, mas uma aquisição
fantasma, pois raramente o via. Era de esperar que alguém que viajava tanto à custa da IBC, pelo menos se desse ao trabalho de avisar que tinha chegado, quando
voltasse. Em Profundidade recebera excelentes críticas
- as cotações subiam constantemente - e era de esperar que ele quisesse receber os parabéns.
Em compensação Danton Miller vinha sempre mendigar-Ihe elogios. Mal The Christie Lane Shou- saíra do ar, já ele estava a telefonar-lhe. Bem, aquilo só vinha provar
que não se podia sobrestimar a inteligência do público de televisão. Eram todos uns burros. The Christie Lane Show era bom para o lixo; Judith não conseguira
vê-lo
até ao fim! As críticas, nos jornais da manhã, tinham sido horríveis. Mas a cotação Nielsen tinha sido sensacional. Naturalmente, só dentro de duas semanas seriam
publicadas as cotações nacionais.
Pensava em tudo isso quando ligou o televisor a cores, embutido nos lambris de madeira da sua pequena sala particular. Para ele, a melhor coisa da televisão eram
os velhos filmes coloridos, apresentados no The Late Show. Já não havia mulheres como Rita, Alice Faye e Betty Grable. As vezes quando não conseguia dormir, assaltava
o frigorifico e sentava-se no seu refúgio, vendo as estrelas que tinham sido os seus amores secretos, na juventude. Estava mais do que grato a Judith pelo televisor
a cores. Na verdade, toda aquela pequena sala fora uma surpresa. Judith mandara-a decorar no ano anterior, quando estavam a veranear em Palm Beach. Ele ficara
intrigado com todos aqueles telefonemas e todas aquelas viagens rápidas a Nova Iorque, para consultar o dentista. De regresso de Palm Beach, ela tinha-o surpreendido
com a sua sala. Pregara até um grande laço na porta. Ele ficara comovido.
114
Judith tinha óptimo gosto e a sala era completamente masculina- Ele sabia que cada peça do mobiliário tinha sido escolhida
com todo o cuidado e tinha uma história.
Dizia-se que o grande globo pertencera ao presidente Wilson. A mesa de trabalho era
uma antiguidade. Ele não sabia de que época, não se preocupava com essas coisas. Sabia a data exacta em que Amos e Andy se estreara na rádio e conservara ainda
o jogo de auriculares que montara, quando criança. Mas antiguidades, tapetes orientais,
vasos Ming, tudo isso era com Judith e ela compreendia o seu gosto e não lhe impunha o seu. Comprara-lhe peças antigas
mas, graças a Deus eram fortes, nada desses
efeminados móveis franceses, de pernas finas. "O teu domínio", declarara Judith. "Só entrarei aqui quando for convidada."
Gregory franzira a testa, numa vaga sensação de falta de harmonia. Não sabia explicar exactamente, mas era o mesmo sentimento que tivera quando se tinham mudado
do apartamento da Park Avenue, sete anos antes. Quando Judith apontara para os dois quartos de dormir separados por uma pequena parede de armários embutidos, dizendo:
"Não é maravilhoso, Greg? Agora vais ter o teu quarto e eu o meu. E cada um de nós terá a sua casa-de-banho."
Ele gostara da última sugestão, mas sugerira transformar um dos quartos num quarto de vestir. "Gosto de dormir no mesmo quarto que tu, Judith".
Ela rira.
- Não te preocupes querido. Aninhar-me-ei na tua cama enquanto estiveres a ler o Wall Street Journal. Mas, quando eu quiser dormir, pelo menos poderei dormir.
Não precisarei de acordar oito vezes durante a noite, para te dizer para não ressonares."
Ela tinha razão e o arranjo era prático. A princípio, ele não queria acreditar que ressonava, até à noite em que pusera o gravador junto da cama. Na manhã seguinte
ficara escandalizado; não podia crer que aqueles horríveis roncos tivessem saído dele. Até tinha ido consultar o médico. O doutor tinha rido. "Nada de especial,
Greg. Toda a gente ressona depois dos
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quarenta anos. Tens sorte de poder ter dois quartos de dormir. É a única maneira de poder conservar o interesse romântico num casal de meia-idade."
Depois de lhe ter dado a salinha particular, Judith fora a pouco e pouco, tomando conta da grande biblioteca. Mudarão esquema de cores, os cortinados, algumas
peças de mobiliário. Agora ele detestava a biblioteca. Lembrava-lhe uma dessas suites para VÍPS que há no Waldorf Towers. Os seus retratos autografados de Eisenhower
e Bernard Baruch tinham sido transladados para a sua sala, substituídos, na frágil escrivaninha da biblioteca, por fotografias de parentes dela. Ora, porque razão
não havia de mostrar os seus parentes? A sua família tinha classe. Porque não haveria a irmã dela, que era uma princesa genuína, de ter o rosto numa moldura de
prata?
E as duas princesinhas, suas filhas? E estava correcto ter o retrato a óleo do pai de Judith, em cima da lareira. Parecia mesmo o anúncio de algum vinho muito
velho. Gregory não tinha retratos do pai. Ninguém tirava retratos para colocar em molduras de prata, no Norte da Irlanda. Além disso, Judith precisava da biblioteca.
Era lá que ela e a sua secretária trabalhavam todas as manhãs. Gregory não podia deixar de sorrir, ao pensar na palavra "trabalho" aplicada a Judith. Mas, quem
sabe, talvez fosse trabalho, planear todas aquelas festas, patrocinar um sem-número de acontecimentos com fins beneficientes, manter-se na lista das dez mais.
Tinha de dar a mão à palmatória. Judith cultivara de tal modo a publicidade em volta das sua pessoa, que toda a gente acreditava que ela possuía uma grande fortuna,
quando se casara com aquele irlandês ambicioso, self-made-man, chamado Gregory Austin. Sorriu. Sem dúvida ela pertencia a uma boa família, frequentara as melhores
escolas e estudara no estrangeiro, mas não tinha um tostão. A publicidade que se levantara quando a irmã desposara um príncipe tinha elevado as duas a uma súbita
fama. Agora, ele achava que a própria Judith pensava ter possuído fortuna antes de casar com ele. Devia ter sido duro para ela, ver as amigas debutarem na sociedade
e ter de apertar
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o cinto para não ficar atrás. Fora posta à margem da Alta Sociedade, quando se casara com ele, mas Gregory tinha-lhe proporcionado uma outra sociedade: a sociedade
que furava todas as barreiras. A sociedade das celebridades. O talento era o maior nivelador do mundo. Um Danny Kaye podia ser recebido na corte de Inglaterra.
Um político famoso podia jantar com um rei. E o presidente da IBC era bem recebido em qualquer lugar. Judith era uma grande mulher e ele sentia-se feliz por ter
podido suprir-lhe o único ingrediente que faltava na sua vida perfeita. Agora, Judith Austin era a sociedade. Mais do que isso: criava-a. Ditava a moda, estava
sempre na
primeira página do jornal que todas as mulheres compravam: o Wonarís Wear. Tudo o que ela usava transformava-se logo em moda. Ele não podia crer, ainda, que ela
lhe pertencesse. Parecia-lhe ainda inatingível. Sentira isso quando se tinham conhecido e continuava a senti-lo da mesma maneira.
Faltavam dois minutos para as sete. Gregory Austin foi até ao bar e preparou um uísque com soda para si e um vermute para Judith. Não percebia como é que ela podia
beber aquela droga. Sabia a verniz. Mas Judith afirmava que todas as beldades europeias só bebiam vinho ou vermute. Naturalmente, Judith referia-se às beldades
com mais de quarenta. Era engraçado como uma mulher tão bonita como Judith podia ter um complexo de idade. Entrou na salinha depois de bater à porta. Era uma
brincadeira pedir licença para entrar no "seu" domínio. Mas Gregory aceitava a brincadeira. Compreendia que era uma maneira de se sentir menos culpada de lhe ter
roubado a biblioteca.
Ela sentou-se de frente dele, numa das poltronas de couro, e ele pensou, como todas as noites, quando a via ali: "Como ela é bonita!" Tinha quarenta e seis anos,
mas parecia ter trinta e cinco. De repente, ele sentiu-se orgulhoso e feliz. Gostava do diabo da sala; tornara-se parte das suas vidas. Mesmo quando iam ao teatro
ou davam um jantar, tomavam uma bebida Juntos, naquela salinha enquanto viam o noticiário das sete. E Judith edificara a vida social do casal com base naquilo.
117
O noticiário começou: "Boa noite, senhoras e senhores tele-espectadores doNoticiário das Sete. Os últimos cinco minutos do nosso programa contarão com a presença
do Director de Reportagens da IBC, o homem de Em Profundidade, Robin Stone."
- Que diabo?... - Gregory foi parar à beira da poltrona.
- Desde quando é que Robin aparece no noticiário das sete? - perguntou Judith.
- Desde há um segundo atrás, ao que me consta.
- É um belo homem - observou Judith. - Mas quando o vejo no Em Profundidade, sinto que toma muito cuidado em não permitir que nada da sua pessoa venha a nu perante
as câmaras. Que tal o achas?
- Exactamente como é na televisão. Acertaste em cheio. Ele é enigmático. Encanto para dar e vender, mas tudo o mais fechado a sete chaves.
Os olhos de Judith brilharam de interesse.
- Vamos convidá-lo a jantar uma noite. Gostaria de conhecê-lo.
Gregory riu.
- Não estás a falar a sério.
- Porque não? Algumas das minhas amigas estão ansiosas por conhecê-lo. Ele nunca é visto em público, e está a ficar na moda.
- Judith, sabes que uma das minhas regras é não receber em minha casa quem trabalha para mim.
- Mas quando vamos à Califórnia, comparecemos nas festas deles.
- Não iria se não achasse que gostas dessas festas. Além disso, é diferente. Eles dão festas em nossa homenagem. Quanto a recebê-los aqui em casa, chega a festa
de Ano Novo. E é óptimo que seja assim. Eles sentem-se como se estivessem a ser apresentados à Corte.
Ela estendeu a mão e bateu na dele.
- Para uma pessoa criada na Décima Avenida, és o maior pretencioso do mundo.
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- Não é isso, é apenas instinto comercial. Que diabo, eu não ligo nada a jantares, festas e posição social. Mas sei que tudo o que é difícil de conseguir tem mais
valor.
Ela riu.
- Gregory, não passas de um duro homem de negócios.
- E sou mesmo. Nem a nossa festa de Ano Novo é aberta a todos. Muito pouca gente da IBC é convidada.
Ela sorriu.
- A festa é tão fechada que toda a gente fala dela. E foi ideia minha. Sabes que o Woman's Wear Daily disse que se estava a tornar um acontecimento anual? Até
saiu na coluna de Ernestine Cárter, no Times de Londres.
- Acho que tivemos artistas a mais este ano.
- Precisamos deles, querido. Dão sempre vida a uma festa. E, Greg, não é fácil reunir gente interessante nessa altura do ano.
Ele fez um gesto com a mão e prestou atenção a uma notícia que lhe interessava. Ela ficou calada até ao anúncio.
- Greg, quando vamos para Palm Beach? Costumamos estar lá nos fins de Janeiro. Mas insististe em ficar em Nova Iorque para a estreia desse horrível Christie Lane
Show.
- Quero ficar mais algumas semanas. Acho que podemos transformar esse programa num sucesso. Mas tu podes ir. Irei ter contigo o mais tardar, em princípios de Março.
- Então irei na quinta-feira. Terei a casa pronta quando chegares.
Ele fez que sim com a cabeça. O noticiário voltara para o ar. Judith olhou para o vídeo sem prestar atenção.
- Bem, acho que Robin Stone vai ter que esperar até à próxima festa de Ano Novo.
- Nem mesmo aí - replicou Gregory, estendendo-lhe o copo para que ela o enchesse.
- Porque não?
- Porque teria de convidar os directores dos outros departamentos. Ora, Danton Miller só foi convidado este ano. Estendeu o braço e aumentou o volume.
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Ela deu-lhe a bebida e depois debruçou-se sobre os ombros dele.
- Querido Greg, as minhas amigas não têm vontade de conhecer Danton Miller. Mas estão loucas por conhecer Robin Stone.
Ele acariciou-lhe a mão.
- Bem, ainda falta quase um ano. Tudo pode acontecer, até lá.
Subitamente ele sentou-se mesmo à beira. Robin acabava de surgir no vídeo, em
close. Gregory compreendia porque razão as amigas de Judith estavam tão interessadas nele. Era realmente um belo espécime masculino.
- Boa noite - A voz metálica encheu a sala. - Estamos todos fascinados pela notícia de uma autêntica aventura de pirataria moderna. Refiro-me ao transatlântico
português, Santa Maria, que foi capturado no Mar das Caraíbas, sob a mira de revólveres, por vinte e quatro exilados políticos espanhóis e portugueses e seis membros
da tripulação. O ataque foi chefiado por Henrique Galvão, ex-capitão do exército português. A
31 de Janeiro, há três dias, o Almirante Smith subiu a bordo do Santa Maria, a trinta milhas do Recife, no Brasil, para conferenciar com Galvão. Acabo de saber
que Galvão concordou em deixar desembarcar hoje mesmo os passageiros. Ao mesmo tempo, o
presidente Jânio Quadros, do Brasil, concedeu asilo político a Galvão e seus vinte e nove companheiros. Havia alguns turistas americanos a bordo. Mas o que interessa
principalmente a este repórter é obter uma entrevista filmada com Henrique Galvão. Parto esta mesma noite para o Brasil. Espero trazer de volta, para o programa
Em Profundidade, uma entrevista com Galvão e talvez com alguns dos passageiros americanos que viajavam no navio apresado. Boa-noite e muito obrigado pela atenção."
Gregory Austin desligou o aparelho, furioso.
- Como ousa ele partir para o Brasil, sem falar com ninguém! Porque não me informou? Acabou de chegar de Londres há umas semanas atrás. Quero programas ao vivo,
não
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vídeo-tapes', essa é a nossa maior arma contra os concorrentes.
- Robin não pode fazer todos os seus programas Em profundidade, ao vivo, Greg. São as pessoas mundialmente famosas que dão categoria ao programa. Eu, por exemplo,
gostaria muito de ver uma entrevista com esse Galvão. Gostaria muito de ver o homem que, aos sessenta e cinco anos, teve a coragem de capturar um navio de luxo,
com seiscentos passageiros a bordo.
Mas Gregory já estava ao telefone, a pedir à telefonista da IBC que lhe encontrasse Danton Miller. Cinco minutos depois, Danton telefonava.
- Dan! - explodiu Gregory com o rosto vermelho de raiva. - Tenho a certeza de que não tem a menor ideia do que está a acontecer. Aposto que está calmamente, no
21.
A voz de Danton era seca.
- Sim, eu estava calmamente aqui no hall, a assistir ao nosso noticiário das sete.
- E então, sabia que Robin ia viajar para o Brasil?
- Porque diabo haveria de saber? Ele só dá contas a si. O rosto de Gregory ficou ainda mais vermelho.
- Bolas! Porque é que ele não me disse nada?
- Talvez tenha tentado, mas o senhor não estava no seu gabinete. Tentei falar consigo várias vezes, esta tarde, sobre o The Christie Lane Show. As críticas de
fora de Nova Iorque foram óptimas. Mandei pô-las na sua mesa.
O rosto de Gregory ficou branco de fúria.
- Sim, eunão estive no escritório, esta tarde-gritou. Acho que tenho o direito de não estar no escritório uma tarde num mês! - (Tinha comprado dois novos cavalos
e fora a Westbury vê-los.) - com mil diabos! - continuou - quer dizer-me que, se eu me ausento uma tarde, toda a estação vai por água abaixo?
- Não acho que a estação vá por água abaixo apenas porque um tipo resolve embarcar para o Brasil. Apesar disso, não me agrada o facto de Robin Stone utilizar o
noticiário das sete como meio de auto promoção. Gregory, não acho que o
121
director de qualquer departamento deva ter assim tanta autori dade. Mas, infelizmente, Robin não tem que me prestar contas. Como o senhor não estava no seu gabinete,
talvez que ele tenha utilizado esse meio para o avisar. É mais rápido que um telegrama.
Gregory bateu com o telefone. O visível prazer que a situação causava a Dan Miller fizera-o ficar sem fala, de tanta fúria. Ficou a olhar para o ar, de punhos
cerrados. Judith aproximou-se dele e pôs-lhe na mão uma nova bebida. Depois sorriu para ele.
- Não achas que estás a ser infantil ? O rapaz vai trazer um autêntico furo de reportagem para a tunnetuvrà. Todos os que ouviram o noticiário das sete vão ficar
à espera da entrevista. Agora, acalma-te e toma a tua bebida. Estão à nossa espera no Colony, às oito e quinze para jantar.
- Já estou vestido.
Ela acariciou-lhe o rosto.
- Penso que podias dar uma passagem com a máquina de barbear. Não te esqueças que vamos jantar com o Embaixador Ragil e que ele tem três cavalos árabes que andas
a namorar. Vamos, sorri! Liga o famoso encanto Austin.
As rugas desapareceram-lhe da testa.
- É verdade. Acho que gosto de armar em Pai de família
- disse ele, com um suspiro. - Tens razão. Aquele comunicado inesperado pôs milhões de tele-espectadores em pulgas. É só por seraminha estação, que eu fundei e
criei. Não gosto que ninguém tome decisões sem que eu aprove.
- Também não gostas que o teu tratador compre cavalos que não tenhas examinado pessoalmente. Mas, querido, não se pode estar ao mesmo tempo em todos os lados.
Ele riu.
- Tens sempre razão, Judith.
Ela sorriu.
- E sabes que mais? Penso que, no fim de ano, Robin Stone já estará em ponto de receber um convite...
122
Quando Amanda ouviu a notícia ficou a olhar para o aparelho. Não podia ser verdade. A qualquer momento a
campainha tocaria e Robin entraria pela porta. Talvez já
estivesse a caminho e ela iria ao aeroporto despedir-se.
Esperou dez minutos. Às oito e quinze, já tinha fumado seis cigarros. Telefonou para o apartamento dele. Ninguém atendeu. Telefonou para a IBC. Não tinham a mínima
ideia da companhia em que viajaria o sr. Stone, mas sugeriam que tentasse a Pan Am.
Às oito e meia, o telefone tocou. Ela bateu com o tornozelo contra a mesa na pressa de atender.
- Aqui fala Ivan, o Terrível.
Amanda gostava de Ivan Greenberg, mas não pôde evitar que as lágrimas lhe escorressem pelo rosto.
- Estás a ouvir-me, Mandy?
- Estou - respondeu ela, em voz sumida.
- Oh! Interrompi alguma coisa?
- Não, estava a ver a televisão. Ele riu.
- Muito bem, agora que és estrela da TV, tens que manter-te a par da concorrência.
- Ivan, adoro-te, mas preciso de desligar. Estou à espera de um telefonema importante.
- Está bem, gatinha, eu sei. Ouvi o noticiário das sete. O Grande Stone está de partida, por isso pensei que talvez quisesses comer um hamburger comigo.
- Tenho que desligar, Ivan.
- Dorme bem, então. Temos uma sessão às onze, amanhã.
Ela continuou sentada, a olhar para o telefone. Às nove e quinze, ligou para a Pan Am. Sim, havia um passageiro chamado Robin Stone no voo das nove. O avião partira
à tabela, quer dizer, havia quinze minutos. Amanda deixou-se cair numa poltrona, com as lágrimas a correr pelas faces em sulcos negros. A pintura dos olhos desaparecera
e os cílios postiços estavam a soltar-se. Tirou-os e colocou-os na mesa em
123
frente do sofá.
Levantou-se lentamente e dirigiu-se ao telefone. Precisava de falar com alguém. Ivan tinha sido sempre seu amigo e confidente.
Marcou o número e suspirou de alívio, quando ele atendeu logo à segunda chamada.
- Ivan, aceito o hamburger.
- Óptimo, eu ia mesmo sair. Vai ter comigo ao Tiger Inn: é um restaurante novo, que abriu na Primeira Avenida, perto da Rua Cinquenta e Três. Perto da tua casa.
- Não, traz os hamburgers e comemos aqui.
- Oh, estou a perceber. Estamos em baixo.
- Por favor Ivan. Tenho bifes prontos, se quiseres, e uma salada...
- Não, minha querida, se ficares em casa, não vais parar de chorar... e amanhã vais ter as pálpebras inchadas. Nada disso, gatinha. Ainda me lembro do trabalho
que tive com as luzes quando o Grande Stone partiu para Londres, há poucas semanas. Se quiseres comer um hamburger vai encontrar-te comigo no Tiger Inn. Pelo menos
lá, terás que manter a compostura.
- Mas estou horrível. Levaria uma hora para pintar os olhos.
- Desde quando deixaste de ter óculos escuros?
- Está bem. -Amanda não tinha forças para resistir. Estarei lá dentro de quinze minutos.
O Tiger Inn estava repleto. Quase não havia mesas vagas. Amanda reconheceu alguns modelos e agentes de publicidade. Beliscou um hamburger e ficou a olhar para
Ivan, silenciosamente, pedindo uma explicação.
Ele coçou a barba.
- Não há explicação. Ele ama-te de manhã... e de noite desaparece. com tantos tipos decentes que há nesta cidade, logo foste escolher um como Robin Stone. Ele
nem pertence ao
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teu meio. No fim de contas, quem é ele, o que faz? Um simples repórter de televisão.
- Ele não é um simples repórter. É director do Departamento de Reportagens da IBC!
Ivan encolheu os ombros.
- Grande coisa! Aposto em que, se eu mencionasse os vossos nomes em qualquer mesa aqui dentro, toda a gente te conheceria e perguntaria: "Robin quê? " Quando entras
num restaurante, toda a gente te conhece. Mas alguém conhece Robin Stone?
Ela sorriu fracamente.
- Robin não liga a essas coisas. Nem sequer vamos aos restaurantes da moda! Ele adora um restaurante italiano e o Lancer Bar. Às vezes eu mesma cozinho.
- Caramba! Que vida encantadora!
- É a vida de que eu gosto, Ivan! Há cinco anos que estou em Nova Iorque. Conheço todos os lugares famosos e nada mais me importa do que estar com o homem que
amo.
- E porque é que o amas?
Ela desenhou as iniciais de Robin num guardanapo de papel.
- Bem, isso gostaria eu de saber.
- Ele é melhor do que os outros na cama? Inventou posições novas?
Ela virou a cabeça e as lágrimas deslizaram por baixo dos óculos escuros.
- Calma, Mandy -disse ele. -Toda a gente está a olhar para ti.
- Não me interessa. Não os conheço.
- Sim, mas eles conhecem-te! Minha filha, estás em duas capas de revista este mês. Aproveita a maré... pede mais dinheiro!
- Para quê?
- Devias saber para quê. Aposto que Robin Stone não está interessado em pagar-te o apartamento ou em comprar-te um casaco de peles. Talvez ganhar dinheiro não
seja importante
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para ti. Ou talvez tenhas pais ricos, ou qualquer coisa no género.
- Não, preciso de trabalhar. Não tenho mãe. Fui criada por uma tia e agora tenho de sustentá-la.
- Então, minha filha, é melhor aproveitar. Tirar o máximo partido do momento actual. Porque no ano que vem pode aparecer outra rapariga. Se conseguires chegar
ao cume, agindo com inteligência e estabelecendo um preço máximo, poderás manter-te no alto durante, pelo menos, dez anos.
As lágrimas deslizaram-lhe de novo pelas faces.
- Mas isso não me vai dar Robin. Ele olhou firmemente para ela.
- Que é que estás a querer? Destruir-te? Vais dizer-me que gostas de penar e chorar por ele? É isso o que Robin te vai dar?
- Não achas que o perdi já?
- Antes isso. Ele não é bom para ti. Um tipo que anda pela vida sem ligar a ni nguém, que destrui tudo aquilo em que toca.
- Não. Eu é que estraguei tudo. Hoje de manhã, ao telefone.
- Mandy, não fales assim. Não estragaste nada. Talvez ele não seja assim tão mau. Talvez tu estejas a exagerar.
- Porquê? Porque estou a sofrer? Tenho razão para estar, depois do que ele me fez!
- Está bem. Que te fez ele? Partiu em serviço sem se despedir de ti. Que grande coisa! Quantas vezes fiz eu a mesma coisa? E compreendeste porque somos amigos.
- A amizade é diferente do amor - disse ela.
- Queres dizer, que o amor estraga tudo. Ela conseguiu rir.
- Ouve, talvez Robin seja um bom tipo. Só o conheço através de ti. Mas acho que devias fazer um esforço para seres um sucesso. Fazer com que ele se sentisse orgulhoso
de ti... essa é a melhor maneira de segurar um tipo!
- Oh, Ivan, fazes as coisas parecerem tão simples. Se eu te
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desse ouvidos, daqui a alguns minutos já estaria à espera de um telegrama dele.
- E pode muito bem chegar. Mas estarás a fazer o papel de parva, se ficares para aí a chorar. Deixa que ele saiba que estás a divertir-te.
- Então é que ele teria um bom pretexto para me deixar.
- Pelo que oiço dizer, ele não é dos que precisam de pretextos para nada. É dos que fazem o que querem. Por isso, tenta aparentar indiferença. Sai com outros fulanos,
enquanto ele estiver fora.
- com quem? - perguntou ela.
- Isso não sei eu, gatinha. Deves conhecer um bom número de pessoas.
Ela abanou a cabeça.
- Há mais de um ano que ando só com Robin.
- Queres dizer que ninguém mais tentou, sequer? Ela sorriu debilmente.
- Ninguém a quem eu tivesse dado atenção, incluindo esse horrível Christie Lane. Mas de facto, ele não tentou. Apenas me convidou a sair.
- Podia ter sido pior.
Ela olhou para ele. Ao ver que ele falava sério, fez uma careta.
- Que há de tão horrível a respeito de Christie Lane?
- Viste o programa. Ele não tem um pingo de sex-appeal. É um pobre diabo.
- Bem, é certo que eu não o convidaria para posar no Esqui ré. É um tipo vulgar, que se transformou de repente num astro.
- Ele não é um astro. Ou melhor, é o astro doTbe Christie Lane Show. Mas não viste a nota no Times.3 Vai ser cancelado, depois de treze semanas.
- Em treze semanas, podes conseguir um bocado de publicidade, saindo com ele.
- Mas eu não o suporto.
- Não te estou a dizer para ires dormir com ele, apenas
127
para aproveitar um pouco da sua publicidade.
- Acho que não seria decente sair com ele só pela publicidade.
Ele agarrou-lhe no queixo.
- És uma boa menina. Uma menina.pateta, com um rosto sem rugas. Uma menina pateta que pensa que o seu rosto nunca terá rugas. Minha querida, tenho trinta e oito
anos e ainda posso comer todas as garotas de dezoito anos que eu quiser. E quando tiver quarenta e oito ou mesmo cinquenta e oito, e a barba branca, ainda poderei
reter as mulheres que quiser. Mas, quando tu tiveres trinta e oito anos, só te darão longos para modelar. E isso se te tratares! Nada de fotos do rosto ou das
mãos. E nem mesmo um pobre diabo como Christie Lane olhará para ti. Mas agora, e talvez dentro dos próximos dez anos, podes ter quem quiseres, e o que quiseres.
- Excepto o único homem que me interessa. Ele suspirou.
- Escuta, eu sei que és uma boa menina, ou não estaria aqui a perder tempo, quando tenho um monte de trabalho para fazer e três garotas à minha espera. Enfrenta
a realidade. Robin não é como as outras pessoas, e sim como que uma grande e bela máquina. Luta, minha filha, é a tua única possibilidade.
Ela fez que sim e gravou as iniciais R. S. na mesa.

Capítulo décimo primeiro

Jerry Moss também estava indignado com a súbita partida de Robin. Telefonara para ele à hora do almoço e Robin tinha dito: "No Lancer, às cinco."
Jerry esperara até às sete e só ficara a saber o que acontecera através de Mary, que ouvira por acaso o noticiário das sete.
No dia seguinte teve uma longa sessão com o Dr. Gold. Não, o Dr. Gold não achava que Robin fizesse as coisas de propósito. Achava que a maioria das acções de Robin
se baseavam num esforço inconsciente para evitar laços mais estreitos com as pessoas. Nada exigia dos amigos, e por sua vez, não admitia exigências.
A conversa que Amanda tivera com Ivan fizera-lhe bem mas, aquando do seguinte Christie Lane Show, ela passara de um estado de depressão para o de pura raiva. O
segundo programa tivera o mesmo clima de excitação, mas a tensão já desaparecera. Havia uma atmosfera de divertimento e boa vontade nos ensaios, essa sensação
de segurança que advém quando há no ar o cheiro do sucesso.
Desta vez, quando Christie Lane a convidou para sair depois do espectáculo, ela aceitou. Foram ao Danny-s Hideaway com os "acólitos" e Agnes, uma corista do Latin
Quarter, que evidentemente era a pequena de um dos dois. Amanda sentou-se ao lado de Christie mas, excepto quando ele lhe perguntou "Que é que vais comer, boneca?",
não conversaram mais. Jack E. Leonard, Milton Berle e vários outros astros da televisão vieram até à mesa deles, dar os parabéns a Christie. Ele ficou encantado
e tentou trocar piadas com os outros. Mas, ao ver Milton Berle encaminhar-se para a mesa da
pista, disse a
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Eddie Flynn: "Acho que estamos mal sentados." A corista replicou numa voz estridente:
- Não, Chris. Desde que estejas na sala, é sinal que te respeitam. Os zé-ninguéns ficam nas outras salas. Esta é a sala dos que estão por dentro.
- Como é que sabes? - rosnou Christie.
- Porque sei - respondeu ela calmamente, passando manteiga no pão. -Já vim aqui com um zé-ninguém.. muito antes de te conhecer - apressou-se a dizer, dando uma
palmadinha no braço de Eddie. - E fomos conduzidos directamente para outra sala. Compreendi logo tudo quando vi as pessoas famosas entrarem para aqui. Mas o coitado
era de Minnesota e não pescou nada.
- Está bem. Berle está numa mesa de pista. E reparem nas irmãs Maguire; estão na outra.
- Red Buttons está numa mesa de lado - disse Kenny Ditto.
- Sim, mas do lado da pista. Um dia ainda irei sentar-me numa mesa de pista. E hei-de ir ao 21.
Amanda ficou espantada.
- Nunca foi?
- Só uma vez - respondeu Christie. - Ia sair com uma fulana que só queria jantar no 21. Telefonei e arranjei uma mesa. Quando chegámos, pumba! uma mesa em cima,
a um canto. E, como disse Agnes, a moça nem percebeu a diferença. Mas eu percebi. - Parecia pensativo. - Tenho de pôr o meu nome nas colunas. Essa tal Ethel Evans
não serve... Eddie, amanhã vamos começar com o nosso próprio agente de imprensa. Procura, descobre alguém que não leve muito. Tudo o que precisa de fazer é conseguir
que o meu nome seja mencionado em três colunas por semana. Mais nada.
Foi assim durante todo o jantar. Christie Lane e os seus "acólitos" a planearem a carreira dele. A corista a comer tudo o que havia na mesa. Amanda ficou a saber
que o verdadeiro nome de Kenny Ditto era Kenneth Kenneth - Christie inventara o Ditto e Kenny estava a pensar em legalizá-lo.
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jCenny Ditto era um nome muito melhor para um argumentista, destacava-se entre o genérico do programa.
Amanda sentia-se estranhamente isolada deles, embora satisfeita por a deixarem entregue a si mesma. Ao levá-la a casa, Christie permaneceu no táxi e disse a Eddie
que a levasse até à porta. Pôs a cabeça de fora e gritou:
- Que tal amanhã à noite, hem, boneca? Há uma estreia no Copa.
- Telefone-me - respondeu ela, entrando no edifício. Ele tefonou na manhã seguinte e ela aceitou o convite. Era
melhor do que ficar em casa, pensando em Robin. Nessa noite, Christie irradiava confiança. O Copa era a sua "base de operações" . Deram-lhes uma mesa de pista
e Amanda ficou imprensada entre Christie, os "acólitos" e o novo agente de imprensa: um rapaz magricela, que trabalhava para uma das principais firmas de publicidade.
Explicou que nenhum agente que se prezasse aceitaria trabalhar por tão pouco mas que, se Christie pagasse em dinheiro, ele daria um jeito para arranjar três menções
em colunas por semana.
Depois do Copa, Christie quis esticar na Brasserie, mas Amanda pediu para ir para casa, com o pretexto de ter um compromisso cedo, na manhã seguinte. E, na manhã
seguinte, Ivan telefonou para lhe dar os parabéns por uma nota que saíra na coluna de Ronnie Wolfe, segundo a qual ela e Christie eram o novo par da cidade.
- Agora, estás a proceder como gente crescida: - disse ele.
Ela ficou assustada mas, quando mais três dias se passaram sem que recebesse uma palavra de Robin, resolveu sair de novo com Christie. De novo uma estreia deboite,
de novo uma mesa de pista atulhada com os "acólitos", o agente de imprensa e um casal de bailarinos de segunda classe, que se tinham colado, na esperança de conseguirem
aparecer como convidados no programa de Christie.
A noite da terceira apresentação do espectáculo foi cheia de entusiasmo. As cotações quinzenais tinham sido publicadas, e
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Christie Lane estava entre os vinte mais! Os patrocinadores apareceram, Danton Miller fez questão de apertar a mão a toda a gente, as congratulações eram gerais.
A Alwayso renovou imediatamente o contrato para a temporada seguinte. Mais trinta e nove semanas. Nessa noite, Danton Miller ofereceu uma pequena festa no 21,
depois do programa. Christie livrou-se dos seus "acólitos" e levou Amanda. Jerry Moss foi com a mulher. Deram-lhes uma mesa em baixo no meio e, embora ninguém
conhecesse Christie Lane, todos conheciam Danton Miller e alguns conheciam Jerry Moss. A certa altura Danton Miller deu os parabéns a Amanda, dizendo-lhe que a
achara excelente nos anúncios.
- Estou habituada às câmaras - disse ela, modestamente. - A minha única proeza foi aprender a segurar o
baton sem tremer a mão.
- Nunca apresentou? Nunca fez cinema, teatro?
- Não, só trabalhei como modelo. Ele parecia pensativo.
- Tem piada, acho que já ouvi o seu nome...
- Talvez o tenha lido em revistas - disse ela. De repente ele estalou os dedos.
- Robin Stone! Não foi com o nome dele que o seu saiu?
- Tenho saído com ele - respondeu ela, cautelosamente.
- E onde diabo está ele? Quando volta? - perguntou Dan.
- Viajou para o Brasil - disse Amanda, notando que Jerry tinha parado de falar e voltara a sua atenção para eles.
Dan fez um gesto com a mão.
- Ovídeo-tape que ele mandou do Brasil já chegou há uma semana. Depois disso ele mandou outro da França. Foi recebido por De Gaulle. - Abanou a cabeça, como quem
custa a acreditar. - Agora ouvi dizer que está em Londres.
Ela bebeu um golo de coca-cola, fingindo-se desinteressada.
- Imagino que vá conseguir grandes entrevistas para o programa.
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Danton sorriu.
- As cotações são bastante boas, o que é raro para um programa de reportagens. Mas o seu novo namorado é que é o nosso trunfo! - Dan olhou para Christie e sorriu.
O seu novo namorado! De repente Amanda sentiu vontade de vomitar. Ainda bem que não ficaram muito tempo mais. Dan tinha um carro de luxo e deixaram-na primeiro
em casa. Mas Ivan tinha razão. Dois dias mais tarde, um dos jornais vespertinos publicou uma reportagem sobre Christie Lane. O título era A HISTÓRIA DE UM HOMEM
VULGAR. O retrato de Amanda ocupava três colunas e trazia a seguinte legenda: "Nem sempre o homem vulgar namora a rapariga do lado; às vezes namora o modelo de
fama!" E a seguinte declaração era atribuída a Christie: "Namoramos há algumas semanas apenas, mas estou louco por ela." Amanda atirou o jornal ao chão, enjoada.
E bateu
com o telefone, quando Ivan a chamou para lhe dizer: "Agora, sim estás a agir com a cabeça."
Releu a reportagem. Era horrível, horrível! Olhou para o retrato de Christie Lane, para aquele rosto aberto, vazio e sentiu náusea. Até então, tinham estado sempre
rodeados de colegas, cómicos e brincalhões. Mas que aconteceria, se alguma vez ficassem a sós?
Alguns minutos mais tarde, o telefone tocou e Christie berrou, com voz jubilosa:
- Boneca, leste o jornal? Pois bem, isto é apenas o começo. Christie vai subir, subir, subir. Esta noite vamos comemorar. Os dois sozinhos. Pedi a Danton que nos
arranjasse uma boa mesa no 21, parao aperitivo, e depois vamos jantar no El Morocco. Danton está a tratar de tudo para a gente se sentar numa mesa como deve ser.
- Lamento muito, Christie - respondeu ela. - Não posso ir. Tenho de trabalhar até tarde e levantar-me muito cedo, amanhã.
- Manda o trabalho para o inferno e sai com o novo Rei...
- Eu não costumo faltar aos meus compromissos. Sou demasiado bem paga para isso.
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- Boneca, eu pago o prejuízo! Quanto é?
Ela pensou rapidamente. Não tinha nenhum compromisso para a manhã do dia seguinte e a última sessão daquele dia era às cinco horas.
- Bem, três horas hoje à noite e duas de manhã.
- Ok, quanto é?
Quase que podia ouvi-lo mascar um daqueles horríveis charutos. Calculou depressa.
- Entre trezentos e cinquenta e quatrocentos dólares. Ele assobiou.
- Ganhas isso tudo?
- Ganho setenta e cinco dólares por hora.
- Vai mentir assim no inferno!
Ela bateu com o auscultador no gancho. Dois minutos mais tarde, ele ligou de novo.
- Desculpa boneca. É que custa acreditar. A pequena de Eddie, Aggie, trabalha como modelo para foto-novelas e só ganha dez dólares por hora. Quinze quando põe
um biquini e vinte quanto não põe nada.
- Eu não poso para esse tipo de fotografias.
- Talvez seja bom que eu avise Aggie. Se é verdade que se pode ganhar assim tanta massa como modelo, porque raio anda ela a pousar sem roupa?
- Christie, tenho que desligar! É tarde...
- Tens razão. Para ganhar esse dinheiro, precisas de dormir bem. Saímos noutra noite. Mas tenho de ir ao 21... uma fulana da revista. Life vai lá tomar uma bebida
comigo. É uma pena não puderes ir, seria boa publicidade para ti, se a Life resolver fazer a reportagem comigo.
- Lamento muito, Christie.
Desligou e decidiu nunca mais sair com ele. Nunca mais! Pouco depois Ivan telefonou.
- Acho que a estas horas, já leste todos os jornais - disse ele. - Bem, pelo menos a reportagem com Christie Lane salva o teu cartaz.
- Que estás a dizer?
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.- Pensei que o maior modelo dos Estados Unidos lesse primeiro as colunas sociais... Não me digas que ainda não as
leste...
- Não - respondeu ela, folheando os vespertinos.
- Abre na página vinte e sete. Fico à espera, enquanto cortas os pulsos.
O sorriso de Robin entrou-lhe imediatamente pelos olhos. Tinha o braço passado em volta de uma tal Baronesa Ericka von Gratz.
- Que tal, gatinha?
- Gostas de fazer os outros sofrer, hem, Ivan?
- Não, Amanda. - A voz dele era baixa e séria. - Só quero que enfrentes os factos. Estarei em casa se precisares de mim. - E desligou.
Ela olhou bem para a foto. A Baronesa Ericka von Gratz era bastante bonita. Robin parecia muito à vontade. Leu a nota:
"A Baronesa Ericka von Gratz não era vista em Londres desde a morte do seu marido, o barão Kurt von Gratz. Todos nós, que sentíamos falta do sofisticado casal,
ficamos encantados ao saber que ela deixou o luto desde a chegada de Robin Stone, repórter da televisão americana. O barão morreu nas corridas automobilísticas
de Monte Carlo, e, durante algum tempo, temeu-se que a jovem baronesa não se recuperasse do seu estado de depressão. Contudo, nos últimos dez dias, ela tem ido
ao teatro e a vários jantares íntimos, sempre acompanhada pelo sr. Stone. Agora, o par partiu para a Suíça, onde deverá hospedar-se no chalé dos Ramey Blacktons,
não se sabe se para esquiar ou para prosseguir o romance iniciado em Londres. O que interessa é ver a encantadora Ericka de novo sorridente!"
Amanda folheou o outro jornal. Havia uma foto de Robin com a baronesa. Atirou-se para cima da cama e soluçou socando
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o travesseiro como se estivesse a bater no rosto sorridente de Robin Stone. De repente, sentou-se. Santo Deus, tinha uma sessão às três horas, de chapéus de Verão!
Correu ao frigorífico e agarrou numa porção de cubos de gelo, embrulhou-os numa toalha e colocou-os sobre os olhos. A seguir fez compressas de água quente: alternando
o gelo e a água quente nos olhos, durante meia-hora, ninguém notaria que ela tinha chorado. Não podia perder um trabalho importante por causa de Robin. Ele não
faria isso por ela!
Depois, noutro impulso, ligou para Christie Lane. Ele atendeu logo.
- Boneca, ia já sair. Por pouco não me apanhavas.
- Cancelei os meus compromissos - disse ela.
- Ouve, eu estava a brincar quando disse que te pagava os prejuízos. Não tenho assim tanto dinheiro.
- Não estou a pedir para pagar. Apenas, decidi de repente, que estava a trabalhar demais.
O tom de voz dele mudou imediatamente.
- Óptimo! Quer dizer que está tudo combinado. Encontra-te comigo no 21, às seis e meia. E quando a fulana da Ltfe vai aparecer.
A noite passou-se mais agradavelmente do que ela esperava. Os empregados tinham, evidentemente, sido instruídos por Danton Miller. A mesa, no 21, ficava no centro,
em baixo. Amanda esforçou-se por beber um uísque; talvez a ajudasse a tornar a noite mais suportável. A repórter da Life era muito simpática. Explicou que tinha
sido mandada para "falar" com Christie a respeito de uma entrevista. Escreveria as suas impressões e os editores decidiriam se valia a pena mandar alguém para
fazer a entrevista.
Christie fez um sorriso amarelo.
- Essa é nova... ser entrevistado para ver se interessa fazer uma entrevista. Até que ponto pode ser petulante uma revista!
- A inesperada humilhação abatera-o visivelmente. Amanda compreendeu que grande parte da sua bravata era apenas uma maneira de disfarçar uma terrível insegurança.
Sentiu pena
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dele. Estendeu a mão e apertou a dele.
A rapariga da Life também pareceu compreender. Riu nervosamente.
- Fazem isso com toda a gente, sr. Lane. Ainda na semana passada colhi dados para uma reportagem com um importante senador e os editores resolveram não publicá-la.
Um pouco da segurança de Christie voltou, ao ouvir aquilo. Insistiu para que a jornalista os acompanhasse ao El Morocco. Amanda percebeu que ele estava ansioso
para que a entrevista saísse. Contou à repórter as suas origens humildes, a sua infância pobre, os clubes nocturnos de terceira, onde trabalhara. Para surpresa
de Amanda, a moça parecia realmente interessada. Quando se pôs a tomar notas, o entusiasmo de Christie aumentou. Passou o braço em volta de Amanda e piscou o
olho para a repórter:
- Imagine, um zé-ninguém como eu, a sair com uma encantadora modelo como ela!
Quando saíram do El Morocco, Amanda pediu para que a deixassem primeiro em casa. Fechou a porta do seu apartamento, sentindo-se exausta. Foi com esforço que se
despiu. Tinha vontade de cair na cama e dormir imediatamente. Removeu a pintura e começou, automaticamente, as cem escovadelas na farta cabeleira loura. Olhou
para a escova. Cheia de cabelos! Tinha que deixar de usar a laca Alwayso. Apesar dos elogios de Jerry, estava a dar-lhe cabo do cabelo. Atirou a lata para o lixo
e caiu, finalmente, na cama, dando graças a Deus por estar tão cansada, pelo menos não ficaria acordada, a pensar em Robin e na baronesa.
Saiu as quatro noites seguintes com Christie, sempre acompanhados por um repórter da Life e de um fotógrafo. Mas não podia esquecer Robin. No fim de semana, a
reportagem
estava quase pronta e parecia quase certo que a revista a publicaria. Mas, como dissera a repórter, nunca se podia saber. As últimas fotos tinham sido tiradas
enquanto ela fazia o anúncio no programa.
Christie ficou nos bastidores, a ver os jornalistas saírem.
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- Está no papo! -exclamou, abraçando-a. -Esta noite, vamos comemorar a valer. Temos uma coisa ainda mais importante para festejar: as novas cotações que acabam
de sair. Agora estou entre os dez primeiros! Estás a ouvir, boneca? Há duas semanas, eu era o número dezanove. Esta semana, sou o número oito! Só há sete programas
na frente! Temos de comemorar. E há ainda uma coisa: nunca saímos sozinhos. Esta noite, vamos ao Danny's Hideaway, só nós os dois.
Quando se viu instalado numa mesa de pista, Christie ficou como uma criança, de felicidade. Até parecia que as cotações tinham saído na primeira página no The
New York Times. O restaurante inteiro dava a impressão de saber. Toda a gente, inclusive Cliff, opublic-relations, fez questão de cumprimentá-lo. Christie estava
radiante. Acenou para outros comediantes, deixou-a várias vezes sozinha enquanto pulava de mesa em mesa. Depois, mandou vir bifes para ambos. Amanda mal provou
a comida, enquanto ele comia com entusiasmo, com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça quase dentro do prato. Quando acabou, enfiou dois dedos na boca, para tirar
um pedaço de comida que ficara preso nos dentes molares.
Ele olhou para o bife dela, ainda pela metade.
- Não estás a gostar da carne?
- Não, é que já estou cheia. vou pedir para porem o resto num saco de plástico.
- Tens um cão?
- Não, um gato.
- Detesto gatos. - Sorriu. - Salta para a tua cama, de noite?
- Sim, dorme comigo.
- Então, esta noite vamos para o meu apartamento. Olhou para o vestido dela, um vestido comprido, bordado a pérolas, que ela usara no programa. - iremos primeiro
ao teu apartamento, para dares de comer ao gato e mudares de roupa.
- Porque é que vou mudar de roupa? Ele riu, desajeitadamente.
- Bem, boneca, como é que vai ser, amanhã de manhã, a
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atravessares o hall do Astor com essa roupa?
- Não tenho a mínima intenção de atravessar o hall do Astor. Amanhã de manhã estarei na minha cama.
- Ah, queres dizer que queres ir para casa logo depois?
- Quero ir para casa agora.
- Sem trepares?
Ela corou, visivelmente.
- Chris, não quero levantar-me da mesa e deixar-te sozinho. Mas, se voltares a empregar esses termos, juro que farei isso mesmo.
- Ora boneca, não te ofendas. vou ter cuidado. Fui criado nos bastidores, aprendi essas palavras, enquanto a maioria das crianças aprendia canções de roda. Vamos
combinar uma coisa: cada vez que eu utilizar uma palavra feia, dou-te um dólar. A um dólar por palavrão e com o meu vocabulário, podias deixar de trabalhar.
Ela esforçou-se por sorrir. Ele estava a fazer o possível por ser simpático. Não tinha a culpa de lhe inspirar repulsa, mas a verdade é que ansiava por se ir embora.
- Chris, quero ir para casa, sozinha. Estou com dores de cabeça, foi um dia muito cansativo.
- É natural, ficaste a segurar aquele batôn pesado. Eu apenas dancei, cantei e íizsketches.
- Mas tu tens talento. Toda a tua vida fizeste isso. Eu fico em pânico, de cada vez que as câmaras se aproximam de mim. E enfrentar a assistência, faz-me ficar
gelada. Tu estás habituado.
- Talvez. Está bem, treparemos, desculpa, faremos amor, amanhã à noite. Não, amanhã tenho uma festa de caridade, talvez na outra noite. Combinado?
- Não sei...
- Que queres dizer com isso?
- Não costumo resolver essas coisas assim tão depressa.
- Já há bastante tempo que saímos juntos...
- Três semanas e quatro dias. (Havia quatro semanas e quatro dias que Robin partira.)
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- Eh, tu deves gostar mesmo de sair comigo, para contares assim os dias. Bem, então quando? Ou ainda estás a pensar em Robin Stone?
Ela sabia que mudara de cor. A pergunta apanhara-a de surpresa.
Ele mostrou-se satisfeito.
- Sabes, eu não sou parvo.
- Não é segredo que eu andei com Robin Stone. Ele é um óptimo amigo. Um velho amigo. Conheço-o há mais de um ano.
- Queres dizer que já não pensas nele?
- Quem te falou nisso?
- Ethel Evans.
Ela ficou calada. Não sabia que Ethel era tão perspicaz. Ainda nessa noite, enquanto Ethel estivera nos bastidores, ela fingira não pensar em mais ninguém, senão
em Christie Lane.
Christie tomou o silêncio dela por espanto.
- Não te lembras de Ethel Evans? Aquela fulana que faz publicidade e que tem o traseiro do tamanho de um autocarro. Já dormiu com tudo o que é macho e orgulha-se
disso. Caramba, não viste, esta noite? Toda atirada para cima do actor convidado. Até o apelido está certo: o Dormitório de Celebridades.
- Talvez sejam as pessoas como tu que tenham a culpa replicou ela.
- Culpa de quê?
- De porem um apelido desses a ela e espalharem essas coisas. No fim de contas, tiveste alguma coisas com ela?
- Não, mas toda a gente que eu conheço teve. Toda a gente importante.
- Então, estás a passar à frente de uma coisa de que apenas ouviste falar.
- Porque a defendes dessa maneira? Devias ouvi-la falar de ti.
- Leva-me para casa - disse ela, secamente.
- Oh, meu Deus, desculpa-me. - Pegou na mão dela e
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olhou-a bem nos olhos. Colocou-lhe a mão no peito. - Gosto de ti, Mandy, é a primeira vez que eu digo isto, sem estar a mentir . Gosto mesmo de ti. E pode ser
para
sempre.
Ela viu os seus grandes olhos cinzentos a suplicarem, o rosto aberto e vulgar, vulnerável, e sentiu que ele estava a ser sincero. Naquela noite, no espectáculo,
ele cantara intencionalmente Mandy, -a canção que Al Jolson tornara famosa. Ao chegar ao verso que diz "Mandy, o padre está à espera", voltara-se e olhara para
ela, nas coxias. O pessoal técnico quase ficara louco, a tentarem mudar de ângulo. Ela não queria fazê-lo sofrer, sabia o que era isso, há tanto tempo que sofria!
Acariciou-lhe a mão.
- Ouve, Chris, vais ser um grande artista, vais ter tudo o que quiseres. Milhões de raparigas bonitas...
- Eu não quero milhões de raparigas bonitas. Quero-te a. ti.
- Chris, nós só saímos algumas vezes juntos. Não podes amar-me, não me conheces.
- Boneca, eu não nasci ontem. Tenho conhecido de tudo: clubes nocturnos de terceira, pequenos infernos, prostitutas. Toda a vida sonhei com qualquer coisa de melhor.
Foi por isso que fiquei solteiro até agora. Apanhava uma fulana quando precisava, mas nada a sério. Estás aperceber? Então, zás!, veio o programa e tu! Tudo ao
mesmo
tempo. Pela primeira vez frequento os melhores lugares, tenho um espectáculo de sucesso e uma senhora a meu lado. Sim, porque eu sei reconhecer uma senhora; vi
muitas nas festas de caridade em que representei. Mas todas as senhoras que conheci eram desdentadas e mais lisas de peito que uma prancha de surf. Mas tu és diferente.
Ela empalideceu, apensar nos seus seios quase inexistentes. Mas que importava? Ele nunca o saberia. Olhou-o bem nos olhos e disse:
- Gosto de ti, Chris, mas não te amo.
- Isso para mim já chega - retorquiu ele. - Estou disposto a esperar. Só quero que me prometas uma coisa: dá-me uma possibilidade. Sai comigo e eventualmente
acabaras
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por querer ir dormir comigo. Se resultar, será para valer. Talvez até acabe em casamento. - Fez um gesto, como que para evitar que ela objectasse. - Espera.
É só esperar, não te peço mais nada.
Ela compreendia o que ele estava a sentir. E, se o facto de o deixar ter esperança o fazia feliz, que mal havia? Esta noite, pelo menos, ele iria para a cama com
um sonho. Era muito possível que ele chegasse a ser um grande artista e, quanto mais ele subisse, menos lhe ligaria.
Deu-lhe um beijo de despedida à porta do apartamento. Logo que entrou, deu com um telegrama que tinha sido posto por baixo da porta. Apanhou-o mecanicamente. Sem
dúvida um convite para a inauguração de uma nova discoteca:
CHEGAREI IDLEWILD 2 DA MANHÃ VOO 3 DA TWA. SE FORES MESMO MINHA PEQUENA ESTARÁ À ESPERA com CARRO.
ROBIN
Olhou para o relógio. Onze e quarenta e cinco. Graças a Deus, tinha tempo!
Correu para o telefone e pediu um carro. Nunca conseguiria perceber Robin. Não tinha gasto um centavo para telefonar a despedir-se, mas mandara um telegrama a
anunciar a chegada. Tinha tempo de mudar de roupa, fazer nova maquilhagem: tinha de estar bonita para esperá-lo. Cantava, ao passar creme no rosto. E, pela primeira
vez em quatro semanas e quatro dias, não se sentia nem sequer um pouco cansada.
Ficou de pé no Portão n.? 7. O avião acabara de aterrar. Os passageiros estavam a começar a desembarcar. Amanda avistou logo Robin. Ele era diferente dos outros
homens. Os outros andavam. Robin paecia velejar entre as pessoas. Deixou cair a maleta e abraçou-a.
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- Que tal a nova estrela da TV?
- Encantada em receber o maior repórter do mundo respondeu ela, imitando o tom de voz dele e jurando a si própria não falar na baronesa.
Ele passou-lhe um braço pela cintura e dirijiram-se para o carro.
- Não percebo - disse ela. - Pensei que estivesses em Londres, mas o telegrama veio de Los Angeles.
Vim pela rota polar e parei uns dias em Los Angeles. Enfiou a mão no bolso e entregou-lhe um pequeno embrulho.
- Um presente para ti. Esqueci-me de o declarar. Por tua culpa, tornei-me contrabandista.
Uma vez dentro do carro, ela aninhou-se contra ele e abriu o embrulho. Era uma bela caixa de cigarros, antiga, de porcelana Wedgwood. Amanda sabia que era uma
coisa cara, mas preferia algo que tivesse custado a metade do preço e fosse mais pessoal.
- Espero que ainda fumes. - Ele riu, tirou do bolso um maço todo amarrotado de cigarros ingleses e ofereceu-lhe um.
Ela tragou o fumo, e quase se sufocou, de tão forte que era. Ele tirou-lhe o cigarro da boca e beijou-lhe de leve os lábios.
- Sentiste a minha falta?
- Bem, deixaste-me com dois bifes prontos... Ele olhou para ela como se tentasse recordar.
- Poderias ter-me telefonado a dizer: "Minha querida, não tires os bifes do frigorífico, porque não posso ir jantar."
- Não telefonei? - perguntou ele parecendo sinceramente surpreendido.
- Não faz mal. O gato teve um jantar de luxo.
- Mas tu sabes que tive de viajar. - Ele parecia vagamente perturbado.
- Bem, ouvi o teu comunicado pela televisão. Mas, Robin, estiveste fora tanto tempo!
Ele abraçou-a e puxou-a mais para si.
- bom, agora já estou de volta. Cansada? Ela encoscou-se a ele.
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- Para ti, nunca estou cansada.
Ele beijou-a longamente. O seu olhar era terno e acariciou-Ihe o rosto como se fosse um cego a tentar ver.
- Minha encantadora Amanda. Como és bela!
- Robin, enquanto estiveste fora, saí com Christie Lane.
- Ele parecia querer lembrar-se do nome. - O astro do programa - esclareceu ela.
- Ah, sim, sei que ele está a transformar-se num sucesso. Tenho-me mantido a par das cotações.
- O meu nome apareceu ligado ao dele, nos jornais.
- Fez subir o teu preço? - perguntou ele a sorrir. Ela encolheu os ombros.
- Já é bastante alto.
- Óptimo. Amanda olhou para ele.
- As pessoas, bem, algumas pessoas, pensam que sou a namorada dele. Quis que soubesses que não era verdade. Fiquei com medo que te aborrecesses.
- Porque havia de me aborrecer?
- Pensei que talvez... Ele acendeu outro cigarro.
- Acho que não devia ter-me preocupado - disse ela. Ele riu.
- És uma celebridade, e as celebridades é que enchem as colunas.
- Quer dizer que não te importas de eu ter saído com Chris?
- Porque havia de me importar? Eu também não me armei em eremita, em Londres.
Ela soltou-se dos braços dele e olhou pela janela, para a escuridão da noite e as luzes dos carros que passavam em sentido contrário. Ele procurou a mão dela e
segurou-a. Ela retirou-a.
- Robin, estás a querer fazer-me sofrer?
- Não. - Ele estava a olhar para ela com ar franco. Nem tu estás a querer fazer-me sofrer.
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- Mas eu sou a tua pequena, não sou?
- Claro que és. (Aquele sorriso diabólico dele.) Mas, Amanda, eu nunca disse que te queria com uma coleira.
- Queres dizer que não te importas que eu tenha saído com ele, nem ligarias se eu continuasse a vê-lo?
- Claro que não.
- E se eu dormisse com ele?
- Isso é contigo.
- Não te importarias?
- Bem, se mo dissesses, sim, importar-me-ia.
- Queres dizer que não quererias que eu te dissesse.
- Está bem, Amanda: estás a dormir com ele?
- Não, mas ele está a querer. Até está a falar-me em casamento.
- Aproveita...
- Robin, manda o motorista parar no meu edifício.
- Porquê?
- Quero ir para casa. Sozinha. Ele puxou-a outra vez para si.
- Minha querida, vieste até Idlewild para me esperar. Porquê essa mudança?
- Robin, não vês que... - de repente, ele beijou-a. E ela não tentou explicar-se mais.
Passaram a noite juntos, entrelaçados nos braços um do outro. Não se falou mais em Christie Lane. Era como se Robin nunca se tivesse ausentado, era como ao princípio.
Como era sempre que estavam sozinhos, na cama. Urgente, excitante, terno.
Mais tarde, quando estavam deitados lado a lado, a fumarem, ela perguntou:
- Quem é a baronesa? - Aquilo saiu-lhe. Arrependeu-se imediatamente.
A expressão dele não mudou.
- Uma prostituta qualquer.
- Não, Robin, no jornal dizia que ela era baronesa.
- Sim, o título é real, mas ela não passa de uma prostituta.
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Nasceu durante a guerra e aos doze anos já se entregava aos GIs, a troco de barras de chocolate. Mais tarde casou com o barão, veado e voyeur. Ericka conhecia
todos os truques. Não é má pessoa, tem um título, dinheiro, pela primeira vez na sua vida e gosta de se divertir. Conhecia-a numa bacanal. Amanda sentou-se na
cama.
- Numa bacanal?
- Estão na moda, em Londres. Ouvi dizer que em Los Angeles também já estão a pegar.
- E tu gostas desse tipo de coisa? Ele riu.
- Porque não haveria de gostar? É melhor do que ver televisão, em Londres. Como sabes, eles só têm dois canais.
- Robin, fala a sério.
- Estou a falar a sério. Conheces Ike Ryan?
O nome não lhe era estranho. De repente, ela lembrou-se. Ike Ryan era um produtor de filmes americano, aquartelado na Itália e na França onde se estava a tornar
conhecido.
- Vais gostar dele. Conhecemo-nos em Londres. Eu estava a sentir-me em baixo. O tempo estava a dar cabo de mim, quando ele me convidou para uma das suas festas.
Havia três actrizes italianas, a baronesa, Ike e eu. Noite de mulheres, de estafar.
- E tu tomaste parte?
- Claro, porque não? Primeiro, assisti à exibição das garotas, umas com as outras, depois Ike e eu deixámos o harém tomar conta de nós. Ericka era a melhor de
todas (os alemães são perfeccionistas) por isso apanhei-a para mim. Mas Ike é um grande tipo. Vai a Los Angeles fundar a sua própria companhia. Aposto em como
vai dar vida nova à cidade.
- com bacanais?
- Não, com filmes. Gosta de arriscar e tem muita classe. Além disso, é um belo homem. As mulheres são loucas por ele.
- Pois eu acho-o repelente.
- Porquê?
- Ora, porque organiza bacanais!
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Ele riu.
- E eu, sou repelente?
- Não. Acho que és como que um garoto endiabrado, que se julga um homem. Mas esse tal Ike Ryan é repelente, porque a ideia partiu dele...
- Minha querida, a ideia partiu dos antigos gregos.
- E tu gostarias que conhecesse um homem desses? Que eu fosse vista em público com ele. Se eu fosse vista contigo e com ele, toda a gente pensaria que eu também
participava em bacanais. Gostarias disso?
Ele virou-se para ela e disse, com voz séria:
- Não, Amanda, prometo-te: nunca te convidarei para sair com Ike Ryan.
Depois, levantou-se e tomou uma pílula para dormir, juntamente com uma cerveja.
- Ainda estou a regular-me pela hora europeia, estou exausto. Queres também um comprimido?
- Não. Tenho que acordar às dez.
Ele voltou para a cama e tomou-a nos braços.
- Minha bela Amanda, como é bom estar contigo. Não me acordes ao saíres, de manhã. vou ter uma tarde atarefadíssima: montes de correspondência para responder,
horas marcadas. Preciso de dormir um pouco.
De manhã ela vestiu-se e saiu depressa do apartamento dele. Passou todo o dia cansada e não conseguiu trabalhar muito bem. Além disso, estava preocupada com o
cabelo, sempre a cair. Telefonou a Nick e pediu-lhe a morada de um dermatologista. Ele riu. "Será que vais ficar careca? Tudo isso são nervos."
- Talvez seja mesmo - concordou ela. Robin voltou.
Telefona para o teu médico e toma uma injecção de vitamina B-12, e por amor de Deus, não te esqueças que as noites são feitas para dormir.
- Não tenho médico - Ela riu-se. Nunca precisei de médicos. Conheces algum que seja
bom?
- Amanda, minha querida, és tão jovem e saudável que
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até dá raiva. Pois eu tenho seis médicos. Um para a garganta e os ouvidos, um para a próstata, um para a vértebra descaída. Queres o meu conselho? Procura ficar
longe deles todos. Tenta dormir bem esta noite e, quando a reportagem da Life sair, todas as tuas preocupações terão acabado.
Talvez ele tivesse razão. Às três horas, ela tinha terminado o trabalho do dia. Foi para casa dormir uma sesta. Slugger saltou para cima da cama e aninhou-se nos
braços dela. Amanda beijou-lhe a cabecinha. "Ainda não é noite, querido. Estou só a descansar." Ele ronronou satisfeito. "És o único representante do teu sexo
que é fiel, querido, mas Robin está de volta e, logo à noite, quando ele vier, não me queiras mal se eu te puser na sala."
Sabia que tinha dormido. Sentou-se na cama de um salto. Estava escuro, tentou orientar-se. Que dia era? De repente lembrou-se. Acendeu a luz. Nove horas. Slugger
saltou da cama e miou a pedir o jantar.
Nove horas! E Robin não telefonara! Perguntou para a entrada. Nenhuma chamada. Ligou para Robin. Depois de esperar que o telefone tocasse dez vezes, desligou.
Não conseguiu dormir durante o resto da noite. Sentindo que qualquer coisa estava errada, Slugger aninhou-se junto dela.
No dia seguinte, esperou até às seis da tarde e depois telefonou para ele. No fim de contas, podia estar doente. Robin atendeu, estava óptimo. Tinha sido o trabalho
que na sua ausência se acumulara. Prometeu telefonar no dia seguinte.
De manhã ela descobriu o nome dele numa das colunas
sociais:
"Ike Ryan e Robin Stone estavam ontem no El .Morocco com duas belas actrizes italianas. Os seus nomes eram demasiado complicados para que este colunista os guardasse,
mas ele nunca esquecerá os seus rostos e os seus... caramba!!!"
148
Atirou o jornal para o chão. Robin sondara-a sabendo que Ike Ryan ia chegar. Céus, porque dissera ela que não queria ser vista com ele?
Nessa noite, saiu com Christie. Foram ao Danny's. Ela quase não falava e Christie estava mal humorado: tinham-lhe dado uma pequena mesa encostada à parede. Uma
das mesas de pista estava ocupada por um grupo de celebridades de Hollywood. Outra estava vazia, mas com o sinal de RESERVADA.
- Vais ver que está guardada para outro figurão de Hollywood - comentou ele, a olhar para a mesa com inveja. Porque será que ligam tanto a essa malta do cinema?
Aposto que há mais gente que me conhece do que à maioria desses artistas de Hollywood.
Ela tratou de o animar: de nada servia sentirem-se os dois infelizes.
- Christie, esta mesa é óptima. Gosto de ficar no meio da sala, assim posso ver toda a gente.
- Mas eu mereço a melhor mesa!
- Onde quer que te sentes, fica, automaticamente, a ser a melhor. - disse ela.
Ele encarou-a firmemente.
- Achas?
- O mais importante é que tu aches.
Ele riu e pediu o jantar. Não tardou a voltar-lhe o bom humor.
- A reportagem da Life está garantida - disse. Olhou para ela ternamente. - Mandy, há uma coisa que eu quero mais do que à reportagem da Life. Amo-te. Fico como
um miúdo de escola, só ao segurar a tua mão. Estive a pensar. Como é que tu podes amar-me sem dormir comigo? Sei que não tens mais ninguém. Eddie estava a querer
convencer-me que andavas obcecada por esse tal Robin Stone. Mas eu li o jornal de hoje...
- Chris, já que tocaste nesse assunto, acho que devo
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dizer-te... - De repente, ela estacou com a atenção desviada para as quatro pessoas que estavam a ser conduzidas à mesa reservada. O próprio Danny era quem os
levava.
Duas belas jovens e dois homens. E um dos homens era Robin!
Amanda sentiu essa espécie de tontura que costuma acompanhar o choque. Robin estava a acender o cigarro da rapariga que ele acompanhava e dando-lhe o seu sorriso
especial. O outro homem devia ser Ike Ryan.
- Dizer o quê, boneca?
Chris estava a olhar para ela. Amanda viu que tinha de dizer alguma coisa, mas não conseguia tirar os olhos de Robin. Viu-o debruçar-se, beijar a moça na ponta
do nariz e depois rir.
- Repara quem se sentou na minha mesa - disse Chris.
- Assisti ao programa dele, na outra noite; quis ver que tal eram os meus rivais. Não consegui aguentar mais de dez minutos. Ele estava a gritar não sei o quê
sobre Cuba e uma palhaça qualquer concordava com ele. Que coisa! Viste a cotação dele?
- Está entre os vinte e cinco mais, o que é excelente para um programa de reportagens. - Ela não sabia porque diabo o defendia.
- Pois eu vou ser o número um, toma atenção ao que digo. Toda a gente me trata como se eu já fosse o número um, menos tu.
- Mas... mas eu gosto muito de ti.
- Então aquece-me.
- Quero ir para casa. - Ela não estava a fingir, sentia-se mesmo mal. Robin estava à escuta do que a rapariga lhe dizia, com a cabeça inclinada para ela.
- Boneca não nos vamos zangar. Amo-te, mas não me dás uma possibilidade de o provar.
- Leva-me para casa...
Ele olhou para ela de maneira estranha.
- Se te levar para casa, está tudo acabado.
Ela ficou a vê-lo pagar a conta. Teriam de passar pela mesa de Robin. Chris parou em quase todas as mesas a
cumprimentar
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as pessoas em voz alta. Amanda sabia que Robin tinha de reparar nela. Quando passaram pela mesa em que eles estavam, ele levantou-se. Não parecia embaraçado.
Pelo contrário, parecia satisfeito de a ver. Deu os parabéns a Chris pelo programa e apresentou os seus companheiros de mesa. As duas jovens eram ambas francescas
qualquer coisa - actrizinhas italianas - e o homem era Ike Ryan. Amanda não pôde deixar de ficar surpreendida, quando ele se levantou. Tinha quase dois metros
de altura, cabelos pretos e olhos azuis destacando-se na pele bronzeada. Era forte e bem parecido, ao contrário do que ela tinha imaginado.
- Então esta é a famosa Amanda? - Virou-se para as duas raparigas e falou em italiano. As garotas sorriram para ela e Ike explicou: - Disse-lhes que você era a
mais famosa modelo dos Estados Unidos, Amanda.
- Fale-lhes de mim - pediu Christie. Ike riu.
- Não é preciso. Elas conhecem-no. Desde que chegaram, não fizeram outra coisa senão ver televisão.
Finalmente, após uma eternidade, saíram do restaurante. Amanda ainda lançou um último olhar a Robin, à espera de captar alguma mensagem nos seus olhos; mas ele
estava a conversar com a jovem ao lado e ela sorria. Evidentemente, percebia qualquer coisa de inglês.
Christie fez sinal a um táxi com expressão macambúzia. De repente, ela pegou-lhe no braço.
- Resolvi ir ao teu apartamento, Christie. Ele ficou pateticamente feliz.
- Oh, boneca! Mas, ouve, e o vestido? Queres dar um salto a casa e mudar de roupa?
- Não, irei embora logo que... a seguir.
- Nada disso, vamos para o teu apartamento, apesar do gato. Não tenho nada para fazer amanhã de manhã. Posso passar a noite contigo e assim, levantas-te quando
quiseres.
Ela ficou toda arrepiada.
- Não, amanhã muito cedo vai um fotógrafo tirar fotos no
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meu apartamento. São apenas dez e meia, agora, o que dá tempo para eu ir ao teu apartamento e sair depois.
- Mas eu quero passar a noite contigo nos meus braços. Ela procurou dominar a sensação de náusea. Escolhera o
Astor como o menor dos males. Pelo menos, poderia sair logo.
- Tem de ser como te estou a dizer - disse ela.
- Como queiras, boneca. Vais gostar! Eu sou o melhor, vais ver.
Amanda tinha a certeza que todos os que estavam nohall do Astor sabiam dos seus planos, ao entrar no elevador. Até mesmo o motorista tinha olhado para ela com
desprezo, ao vê-la saltar em frente do hotel. Mas quantas vezes ela passara pelo
hall de Robin, quantas vezes dissera bom-dia ao porteiro do edifício dele, e tudo lhe parecera
tão natural, tão maravilhoso... Não, ela não podia pensar em Robin, naquele momento.
Entrou no banheiro da suite de Christie e despiu-se completamente. Olhou para o seu peito chato e depois saiu desafiadoramente para o quarto. Ele já estava na
cama,
de cuecas, a ler uma revista. Abriu a boca desapontado.
- Onde estão os peitos? - O olhar dela era frio, desafiador. Ele riu e estendeu os braços. - Bem, acho que está provado que todas as mulheres de classe são magrinhas.
Pelo menos não és desdentada. Mas vais ver que não ficas desapontada cá com o rapaz...
Ela submeteu-se impassível ao abraço dele, no escuro. Sabia que ele estava a fazer força para lhe dar prazer. Meu Deus, mesmo que ele tentasse durante horas a
fio, nada aconteceria. Nunca poderia excitá-la nunca. Se pelo menos terminasse já. Pediu-lhe ajuda. De repente, ele rolou para o lado, ofegante. Após alguns minutos
disse:
- Não tenhas medo, boneca, saí mesmo a tempo.
Ela não respondeu. Ele tomou-a nos braços, o corpo coberto de suor.
- Não consegui, não é? - perguntou.
- Chris, eu...
152
- Não te preocupes, deixa-me descansar um pouco para tentar outra vez.
- Não, Chris. Foi maravilhoso! Apenas eu estava nervosa, mais nada. Da próxima vez vou usar qualquer coisa.
- Ouve, já resolvi. Vamos casar-nos. No fim da temporada. Tenho um contrato de seis semanas em
Las Vegas, para fazer uma boa nota. Podemos casar lá e aproveitar para gozar a nossa lua-de-mel. Não uses nada: se ficares grávida, óptimo, casaremos antes.
- Não, só quero ter um filho depois de casar. Não gostaria que pensassem que só casava por isso.
- Ouve, boneca, tenho quarenta e sete anos. Estou a ser sincero contigo. Todos pensam que só tenho quarenta, até mesmo Eddie e Kenny. Mas, já que vais ser a minha
mulher, quero que fiques a saber. Toda a minha vida tive cuidado com o dinheiro. Ganhei sempre de quarenta a cinquenta mil dólares nos últimos quinze anos. E pus
sempre metade de lado. Quando tiver sessenta anos, vou ter um milhão de renda. Há vinte anos conheci um tipo em Chicago que é um dos maiores especialistas em
impostos. Safei o miúdo dele de um aborrecimento, nada de sério, um pequeno acidente de automóvel. Mas eu conhecia muita gente e tirei o garoto de apuros e o pai
dele, chama-se Lou Goldberg, ficou tão grato que se tornou meu pai, minha mãe, meu advogado, meu investidor, tudo. Disse-me logo que eu era um artista de segunda
classe mas que, se eu seguisse os seus conselhos, acabaria por ser um cidadão de primeira. E começou a agarrar em metade do que eu ganhava, pouco naquela altura,
e a investir. Agora, tenho um bocado de acções, da IBM e de outras companhias, que não fazem outra coisa senão dobrar as cotações. Lou continua a agarrar na metade
do que eu ganho, e agora estou a ganhar um bom bocado. Se tudo continuar assim, a subir sempre, dentro de alguns anos vou ter dois milhões. E, pela maneira como
ele está a investir, vou ter mais de seis mil dólares por mês, livre de impostos, sem precisar de pôr a mão no resto da massa. Essa poderemos deixar para o nosso
filho. Agora, que te tenho, vai
153
ser tudo perfeito. E quero logo um rapaz, para, quando eu tiver sessenta anos, ainda poder assistir a jogos com ele e vê-lo entrar para o liceu, o que eu nunca
pude
fazer. Não digas a ninguém, mas nunca passei da instrução primária; aos doze anos estava já a trabalhar num teatro. Mas o nosso garoto vai ter tudo.
Ela não respondeu. O que fizera! Aquele pobre tipo...
De um pulo, saiu da cama, entrou no banheiro e vestiu-se, Chris também estava a vestir-se quando ela saiu.
- Não te preocupes - suplicou. - Posso apanhar um táxi. - Estava ansiosa por sair dali. Não podia aguentar o olhar terno -dele.
- Não, ainda é cedo. vou levar-te a casa e depois passar pelo Stage Deli. Eddie e Kenny devem estar lá. vou tomar um café com eles. Estou tão feliz que nem posso
dormir, quero que todos saibam.
Ela deixou-o segurar-lhe a mão, no táxi. Ele beijou-a no elevador. Depois ela entrou no apartamento, correu para a casa de banho e vomitou.
Robin telefonou no dia seguinte. Não falou nas italianas. Ia partir nessa mesma tarde para Los Angeles, com Ike Ryan. Queria fazer uma entrevista com ele para
Em Profundidade e achava que seria mais interessante filmá-la no escritório de Ike ou no set. Dali, voltaria para Londres e não sabia quando regressaria. Ela não
mencionou a baronesa ou a estrelinha italiana e ele não falou em Christie Lane.

Capítulo décimo segundo

No primeiro dia de Maio, Amanda acordou quinze minutos antes da hora habitual. No dia seguinte a. Life estaria em todos os postos de venda de jornais, mas o Plaza
Hotel recebia sempre o Time e a Life um dia antes. Vestiu-se rapidamente. Nas últimas seis semanas oscilara entre a ansiedade e a apreensão. Toda a gente estava
à espera da reportagem da Life. Christie achava que ela ia transformá-lo numa celebridade internacional. Nick Longworth estava pronto para pagar a Amanda cem dólares
por uma hora de pose.
Apanhou um táxi para o Plaza e entrou a correr no hall. A capa da revista, de um vermelho vivo, atraiu-lhe o olhar mal ela se aproximou da banca. Pôs o dinheiro
em cima do balcão e encaminhou-se rapidamente para uma grande poltrona.
Era uma reportagem de dez páginas, com um grande cabeçalho: O FENÓMENO CHRISTIE LANE. Ela aparecia com Christie em quatro fotos e havia também
uma delas sozinha, a posar para Ivan num vestido de chiffon, no Central Park. O vento que fazia o vestido esvoaçar não tinha sido provocado por um ventilador:
ela não se esquecia do
frio que fizera nesse dia. À medida que ia lendo, ia ficando satisfeita ao ver a percepção do repórter. Havia uma descrição da maneira como ela enfrentara sem
pestanejar o frio vento de Março. Era preciso ser forte para ser um bom modelo, observava ele. Tudo muito elogioso para ela. E, embora apresentasse Christie como
um ídolo do povo, revelava nas entrelinhas o seu desconhecimento de gramática, a sua vaidade e a sua preocupação com a fama recém-adquirida. (Até aqui, muito bem,
pensou ela.) Continuou a ler:
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"Para combinar com a sua nova fama, Christie Lane arranjou uma namorada digna de ser a consorte do novo ídolo da televisão. Um belo modelo: Amanda. Ela não é apenas
a rapariga que ele ama. É também um símbolo. É a maneira de provar que os clubes nocturnos de segunda classe são coisas do passado. Porque Amanda é, sem qualquer
dúvida, de primeiríssima classe. E, após vê-los juntos, eles não ligam tão mal como se poderia pensar. Christie Lane idolatra a elegância dessa autêntica beldade.
E talvez a encantadora Amanda descubra a realidade ao lado de Christie Lane. Uma jovem que é forçada a suportar uma temperatura de dez graus negativos com um
vestido de chiffon e um sorriso tropical adora provavelmente a autenticidade de um homem como Christie Lane. Talvez ela esteja ansiosa por trocar o mundo elegante
da moda pelo verdadeiro mundo desse homem autêntico."
Amanda fechou a revista. Aquela última linha! Qual seria a reacção de Robin? Saiu para a rua cheia de sol. Embora saísse com Christie e às vezes dormisse com ele,
achava que mal o conhecia. Nunca estavam sós, excepto durante as torturantes horas que passavam no apartamento dele, no Astor. Christie reservava pelo menos duas
noites por semana para encontrar-se com os seus argumenristas; além disso, havia as festas de caridade, as entrevistas, tudo o que fazia parte da vida de um astro.
Contudo, ele estava a planear casar com ela em Las Vegas! Ela deixara-o sonhar; o Verão parecera-lhe tão distante! Mas agora já estavam em Maio.
Tinha que romper com Christie Lane! Só não pusera já ponto final por causa da sua solidão e das suas saudades de Robin. Não podia amar outro homem. Mas, ao menos,
estava a fazer Christie feliz...
A reportagem da Life causara sensação. Ela sentia-se verdadeiramente famosa, principalmente nas noites depois do espectáculo,
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quando à saída lhe pediam autógrafos e a chamavam pelo nome. Mas nunca mais tivera notícias de Robin. Subitamente, num domingo, ele telefonou. Ela acabara
de discutir com Christie. Ia fazer um espectáculo especial no Grossinger's
em troca de uma quantia fabulosa. Queria que ela também fosse, mas Amanda recusara.
- Ora, deixa-te disso - dissera ele. - Vamos divertir-nos à brava. Até a Aggie vai fazer forfait no Latin Quarter...
- Pois sim, mas eu não posso deixar de ganhar dinheiro. Além do mais, não sou Aggie, não ando atrás de ninguém.
- Que história é essa? Vamos casar no Verão.
- Se e quando nos casarmos, então acompanhar-te-ei para onde fores. Agora, vou ficar em Nova Iorque, a trabalhar. Não vou a nenhum sítio como parte da caravana
de Christie Lane.
- Ora, tu com as tuas ideias de gente importante. Para que fui apaixonar-me por uma senhora! - E desligara mal-humorado, mas não zangado.
Assim que desligara, ela pusera-se a pensar. Porque não lhe tinha dito: "Nunca me casarei contigo!"? Porque tinha medo! Tinha medo do que aconteceria, se Robin
desaparecesse definitivamente da sua vida. Ela enlouqueceria. Tinha tentado romper com Christie uma vez. Dissera-lhe que não queria vê-lo mais. O rompimento demorara
apenas cinco dias... Pelo menos com Christie ela podia manter a sanidade mental. Havia sempre uma estreia ou uma festa de beneficência; estar com Christie era
melhor do que estar só.
O telefone tocara. A voz de Robin apanhara-a desprevenida:
- Olá celebridade!
- Robin! Onde estás?
- Acabei de chegar. Estive fora, a cobrir o julgamento de Eichmann. Li os últimos números da Life no avião e fiquei a saber o sucesso que estás a fazer!
- Que é que achaste da reportagem? - perguntou ela tentando manter um tom de voz natural.
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- Óptima! -disse ele com entusiasmo. - Faz-te parecer quase tão interessante como és na realidade.
Ela sentiu um nó na garganta, mas conservou o mesmo tom de voz.
- Até parece que sentiste a minha falta.
- Senti.
Ela mal escutava o que ele dizia a planear o que fariam à noite. Eram cinco da tarde, já não dava tempo para lavar a cabeça, mas ela podia pôr uma peruca. Esperava
que ficassem em casa. Graças a Deus, era domingo. Jerry estava no campo e não os acompanharia por todo o lado. Ela tinha bifes no frigorifico. Mas o vodka acabara.
- Ainda estás bonita? - perguntou ele.
- Vem ver.
- Óptimo. Encontra-te comigo no Lancer Bar, amanhã às sete.
Amanda ficou tão desapontada, que não conseguiu falar. Ele tomou o silêncio dela por indecisão. Perguntou, num tom superficial:
- Ou será que Christie Lane me passou à frente?
- Não, mas ele pediu-me em casamento.
- Talvez seja um bom partido. O programa dele está garantido.
- Robin, não te importarias, se eu casasse com Christie Lane?
- Claro que me importaria. Detestaria perder-te. Mas não posso competir contra o casamento.
- Porquê?
- Ouve, minha querida, só há uma razão para o casamento: ter filhos. E eu não quero filhos.
- Porque não?
- São uma tremenda responsabilidade.
- De que ponto de vista?
- Ouve, Amanda, eu preciso de sentir-me livre, poder viajar a qualquer momento. Podemos fazer isso com uma mulher, mas não com uma criança. Que espécie de pai
seria eu?
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Ela tremia. O casamento tinha sido sempre um assunto que ele se recusara a discutir. Mas agora estavam a fazê-lo.
- Oh, Robin, acho que serias um pai maravilhoso.
- Um pai deve estar sempre ao lado do filho.
- O teu pai abandonou-te?
- Não, ele trabalhava das nove às cinco. E Kitty era uma boa mãe. Tínhamos governantas e cozinheiras, mas ela estava sempre à mão. E é assim que deve ser.
- Então, não percebo. Porque achas que não ias ficar ao lado dos teus filhos?
- Por causa do meu trabalho - respondeu ele, secamente. - E, embora nunca me tenha esquecido, sei que, se eu fosse criança e o meu pai andasse sempre a viajar,
seria horrível. Sei que seria. Não me perguntes porquê, mas sinto que seria.
- Robin, não precisamos de ter filhos já...
- Então, para que casarmos? - perguntou ele.
- Para estarmos juntos.
- Estamos juntos, a não ser quando preciso de estar só. Como hoje à noite, por exemplo. Tenho a mesa cheia de correspondência. A minha vontade era atirar tudo
para o cesto dos papéis. Talvez faça isso mesmo. - Fez uma pausa e depois continuou: - Pronto, já fiz. Mandarão as contas de novo e não acho que me cortem a electricidade
por me atrasar um mês.
- Muito bem, atiraste fora a correspondência. Agora podemos passar a noite juntos - disse ela.
- Amanda, é por isso que sou contra o casamento. Esta noite, quero estar sozinho. - A voz dele tornou-se subitamente meiga. - Estás a compreender agora, Amanda?
Acho que não sou feito para o casamento. Gosto das coisas como elas são.
- E das bacanais que Ike Ryan organiza!
- Ike Ryan, onde foste buscá-lo? Há tempos que não o vejo, nem sequer penso nele.
- E que me dizes da baronesa? Ou também há tempos que não pensas nela? - Sabia que estava a destruir todas as suas possibilidades, mas não podia controlar-se.
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- Amanda, minha querida, outra coisa detestável no casamento é ter de dar explicações. Não te devo explicações, nem tu a mim. Que resolves para amanhã? Estás livre?
- vou fazer o possível para estar livre - respondeu ela, secamente.
- Óptimo.
- Vais ficar em Nova Iorque, ou viajar?
- Minha querida, estou tão cansado de viajar, que pretendo ficar em Nova Iorque até ao Outono.
- Óptimo. - Ela sentiu o desânimo evaporar-se. Dentro de duas semanas, o programa acaba.
- Por falar nisso, Jerry Moss convidou-me a passar o feriado de Quatro de Julho em Greenwich. Têm uma bela casa com piscina. Gostarias de ir?
- Adoraria, Robin.
- Óptimo! Até amanhã à noite.
Ela ficou muito tempo sentada. Mal conseguiu dormir. Na manhã seguinte, telefonou para Jerry Moss às nove horas.
- Jerry preciso de falar contigo. É urgente.
- Provavelmente, ver-nos-emos no Lancer. vou encontrar-me com Robin às cinco horas.
- Eu só poderei chegar às sete. Mas preciso de falar contigo a sós. É muito importante!
- Que tal almoçarmos juntos?
- Não, tenho uma sessão ao meio-dia. Não poderei dar um salto ao teu escritório? Às dez horas, talvez?
- Claro que podes. vou mandar fazer um café para ti. Amanda sentou-se numa cadeira em frente da mesa de Jerry
e saboreou o café. Contou-lhe que Chris a pedira em casamento, dando a entender que não tinha havido intimidade entre eles. De certo modo, não era mentira, não
havia mesmo intimidade. Ela apenas apertava os dentes e submetia-se a ele.
- Foi por isso que vim falar contigo, Jerry. És a única pessoa que me pode ajudar.
Ele ficou espantado.
- Eu?
160
.- Se eu for a Las Vegas com Chris, terei de casar com ele. Se não for a
Las Vegas, acabarei por perdê-lo. Jerry concordou.
- A decisão é simples. A garantia contra a aventura.
- Mas eu quero experimentar a aventura - retorquiu ela.
Robin ficará todo o Verão em Nova Iorque. Convidou-me a
ir a tua casa no feriado do Quatro de Julho.
Jerry ficou calado por um momento e depois disse:
- Vai a Las Vegas. Casa-te com Chris. Não percas mais tempo com Robin.
- Porquê? Ele disse-te alguma coisa?
- Não, mas ouve. Já ouviste falar em Ike Ryan?
- Sei tudo acerca de Ike Ryan. Mas Robin há tempo que não anda com ele, nem participa nessas festas.
Jerry sorriu.
- Tenho um amigo que é psiquiatra. Quando Robin me contou o que tinha feito com Ike, contei-lhe isso, e ele disse-me que é muito possível que Robin odeie as mulheres.
- Isso é ridículo! - disse ela. - Esse teu amigo nem sequer conhece Robin. Como pode ele dizer uma coisa dessas?
- Ele conheceu Robin...
- Queres insinuar que Robin é maricas? - Ela agora estava furiosa.
- Não. Só estou a dizer que, como pessoas, como amigos, ele gosta de homens. Também gosta de mulheres, mas só pelo sexo; no fundo não gosta delas. É-lhes hostil.
- E achas que isso é verdade?
- Acho. Mas também acho que Robin gosta de ti, tanto quanto ele pode gostar de uma mulher. Eventualmente ele acabará por se cansar de ti; e tu é que terás de romper.
- Jerry... - O olhar dela era suplicante. - Ajuda-me, Jerry...
- Como te posso ajudar?
- Faz com que eu não vá a Las Vegas com Christie. Podes dizer-lhe que eu assinei um contrato para fazer anúncios no
161
programa de Verão e que tenho de ficar aqui para fazê-los ao vivo.
Ele olhou para ela.
- Vai a Las Vegas, Amanda. Christie Lane está a oferecer-te um futuro, filhos, tudo.
- Jerry - suplicou ela. - quero só mais uma possibilidade com Robin.
- Pensei que tivesses mais classe, Amanda. Onde está o teu espírito desportivo? Se eu gostasse assim tanto de alguém, arriscaria. Desiste de Christie Lane, aposta
tudo em Robin! Perdes uma oportunidade de fazer um bom casamento. Se tivesses trinta e cinco anos, dir-te-ia que já não estavas em idade de arriscar. Mas és jovem
e deves ter um bocado de dinheiro poupado.
- Não tenho. Não consigo poupar. Jerry encolheu os ombros.
- Então deixa de comprar todas essas roupas assinadas. Santo Deus, Mary compra roupas formidáveis em Greenwich por quarenta e cinco dólares.
- Mary não ganha cem dólares por hora. E não se esqueça que eu uso as minhas próprias roupas no programa. Vestir bem faz parte da minha profissão. E eu tenho pavor
de não ter dinheiro, Jerry.
- Na minha opinião, uma mulher que tem dois homens apaixonados por ela não deveria ter medo de ficar sozinha. E uma jovem que ganha cem dólares por hora não deveria
preocupar-se com o dinheiro.
Ela fechou os punhos.
- Jerry, alguma vez foste pobre? Mesmo pobre? Pois eu fui. Não posso ouvir Chris falar de Miami, de como representava em clubes-nocturnos de segunda e de como
jurou ainda vir a representar nos grandes hotéis. Eu nasci em Miami, numa instituição de caridade. A minha mãe era finlandesa e camareira num desses hotéis de
luxo. Imagino que deve ter sido bonita. Só me lembro dela muito magra e cansada. Não tenho a menor ideia de quem era o meu pai. Devia ser um desses ricaços
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que se hospedavam no hotel e a achavam bonita. Apenas sei que ele era um homem rico, que podia passar o Inverno em jvíiami e meter-se com uma humilde camareira.
Depois de eu nascer, morámos no bairro negro da cidade, porque a única mulher que quis ajudar a minha mãe foi uma rapariga preta que também trabalhava no hotel.
Morávamos num barracão num bairro por onde passamos a caminho do aeroporto. A tal rapariga negra (chamava-se Rose) levou a minha mãe para a tal instituição de
caridade onde nasci. Depois ficámos a viver com ela. Eu chamava-lhe tia Rose e ela é a mulher mais admirável que já conheci. Mais tarde, quando a minha mãe trabalhava
à noite, a tia Rose fazia o jantar e fazia com que eu estudasse e dissesse as minhas orações. A minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. A tia Rose pagou o
enterro e passou a tratar-me como se eu fosse filha dela. Fez com que eu terminasse o liceu, e trabalhava para me manter e vestir. Depois mandou-me para Nova Iorque,
com cinquenta delates que conseguira economizar. - Amanda fez uma pausa para enxugar as lágrimas.
- Tenho a certeza que já lhe pagaste os cinquenta dólares
- disse Jerry.
- No começo mandava-lhe cinquenta dólares por semana. Mas precisaria da vida inteira para lhe pagar todo o amor que me deu. Há cerca de um ano e meio a tia Rose
sofreu um derrame. Corri para a Florida - foi pouco antes de conhecer Robin - e internei-a num hospital. Não foi fácil. Eles não queriam aceitar uma paciente negra.
Mas conheci um médico humano e ele ajudou-me a conseguir um quarto particular. Naturalmente, ela não tinha seguro, nada. Ficou lá seis semanas, o que me custou
quatro mil dólares, com as enfermeiras e o tratamento. Tenta explicar isso ao Imposto de Rendimentos. "É parente? Dependente?" perguntam. "Não, apenas uma pessoa
muito querida". Imaginam que ela tenha direito à Segurança Social e que possa ir para uma instituição de caridade. Mas, segundo a lei, ela não é minha parente;
nem sequer fui adoptada. E olham para mim e pensam: "Modelo, cem dólares por hora; ganha mais num dia, do que nós numa semana."
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- Onde é que ela está agora? - perguntou Jerry.
- Não podia deixá-la sozinha, mesmo depois de lhe darem alto no hospital. Tentei arranjar alguém para tratar dela, mas não resultou. Por isso trouxe-a para uma
casa de saúde especializada, em Long Island. Cem dólares por semana, mas era bem tratada e eu visitava-a todas as semanas. Então, há cerca de oito meses, teve
um novo derrame. Tive de levá-la para outra casa de saúde, onde lhe dão atenção permanente. E agora estou a pagar duzentos e cinquenta dólares por semana.
- Ainda a visitas todas as semanas? Ela abanou a cabeça.
- Causa-me demasiado sofrimento e ela nem sequer dá conta da minha presença. Costumo ir uma vez por mês e no dia de Ano Novo. Quando ia para Nova Iorque, costumava
telefonar-lhe na noite de fim de ano, e uma vez não consegui falar, porque os circuitos estavam todos ocupados, e fiquei desesperada. Então, ela disse-me: "Minha
filha, de agora em diante telefona no dia de Ano bom. Não quero que estragues a tua noite à procura de um telefone."
Amanda endireitou-se na cadeira.
- Cresci conhecendo o poder do dinheiro, Jerry. Foi o dinheiro que permitiu ao meu pai sair da cidade e continuar a sua vida sem sequer me conhecer. Foi a falta
de dinheiro que fez com que a minha mãe tivesse medo de lutar. E a única coisa que está a dar algum conforto à tia Rose, agora, é o dinheiro. Por isso, Jerry,
é
que eu não posso arriscar. Tenho que jogar no seguro. Mas acho que conquistei o direito de ter uma possibilidade com o único homem que amo no mundo! Não posso
resolver-me por Christie sem primeiro tentar conseguir Robin.
Ele dirigiu-se para o pequeno bar que tinha no escritório e serviu duas doses de uísque. Deu-lhe uma.
- Amanda, acho que a Alwayso vai ter de fazer os seus anúncios ao vivo, este Verão. Ordeno-te que não saias da cidade. - Brindou com ela. - Farei o que puder,
querida. E agora vamos brindar ao feriado de Quatro de Julho e a um Verão maravilhoso. Vamos divertir-nos.
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Ela forçou um sorriso.
- Espero que sim. Porque no Outono terei que tomar uma decisão.
O Verão terminara. Ela estivera com Robin todas as noites. Tinham passado alguns fins-de-semana com os Hamptons. Outros tinham ficado em Nova Iorque, tinham ido
até Greenwich Village, passear pelas ruelas estreitas, ou horas inteiras num café, em Cornei ia Street.
Agora em Outubro a temporada começara. The Christie Lane Show voltou para o ar. Em Profundidade iniciou a sua segunda temporada. Christie exigia que ela marcasse
uma data para o casamento e Robin voltara às suas viagens esporádicas. Era como se não tivesse existido Verão. Apesar da sua promessa Ela sabia que tudo continuaria
como dantes; que ela continuaria a manter Christie à espera e que continuaria a esperar por Robin. Perdeu os poucos quilos que engordara no Verão, mas, sempre
que Robin regressava, ela sentia-se bem. Não conseguia tomar uma decisão; limitava-se a esperar.
Por fim, foi o patrocinador que a obrigou a decidir: no dia quinze de Janeiro, a Alwayso ia transferir o programa para a Califórnia.
- Iremos já casados! - insistiu Christie. - Paramos em Chicago e casamos!
- Não, não me casarei no caminho. Se for para a Califórnia, casaremos lá - replicou ela.
A decisão de transladar o programa tinha sido feita uma semana antes do Natal. E Robin estava em Londres.
Na véspera de Natal, ela encontrou-se com Jerry no Lancer Bar. Jerry também não estava satisfeito com a ideia de ir para a Califórnia. Ia ter que ficar lá muito
tempo...
Ficaram os dois a olhar desanimadamente para o bar, com a sua árvore de Natal, a neve falsa e a decoração tradicional. Ela ergueu o copo.
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- Feliz Natal, Jerry.
- Estás abatida, Amanda.
- Desesperada - disse ela.
- Ouve, minha querida, não podes continuar nesse jogo de espera. Fala com Robin no Ano Novo.
- Porquê no dia do Ano Novo? Como posso saber se estarei com ele?
- Chris não foi convidado para a festa do Ano Novo da sr.a Austin?
Ela sorriu.
- Se foi? Não fala noutra coisa. Até parece que vai ser apresentado à corte de Inglaterra!
- De certo modo, é parecido. Judith Austin raramente convida gente da IBC.Este ano parece ser uma excepção. Danton Miller ficou espantado ao saber que Robin também
foi convidado. E eu sei que Robin vai voltar no dia 31. Brincou comigo dizendo que ia celebrar duas vezes a passagem do ano, devido à diferença de horário. Robin
irá à festa da Sr.a Austin. Não ousará faltar.
- E o que é que eu faço? - perguntou ela. - Chegar perto dele e dizer "Robin, é agora ou nunca?"
- Isso mais ou menos.
- Não posso. Não vou à festa.
- Porquê? Chris não te convidou para ir com ele?
- Claro que convidou. Mas eu passo sempre o dia de Ano bom com a tia Rose. Naturalmente que eu não disse isso a Chris. Ele não sabe de nada. Mas vou ter uma grande
dor de cabeça.
- Mas disseste-me que ela não te reconhecia, Amanda.
- Eu sei, mas fico com ela, dou-lhe de comer; o dia de Ano bom é o nosso dia.
- E ela saberá que dia é? - perguntou Jerry.
- Não, mas saberei eu.
- Ouve, vai à festa. E encosta a faca ao peito de Robin. Faz com que ele diga sim ou não. Se ele disser não, não penses mais nele. Dois anos é muito tempo para
se esperar por alguém,
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mesmo que esse alguém seja Robin. E poderás ir visitar a tua tia no dia seguinte.
Ela pensou um pouco. Depois, concordou.
- Isso mesmo! -Ergueu o copo. -Um brinde ao ano de mil novecentos e sessenta e dois, o meu ano decisivo! Vamos beber vodka, Jerry, como Robin toma, e desejar-lhe
um Feliz Natal, onde quer que esteja!

Capítulo décimo terceiro

O convite para a festa de Ano Novo dos Austin especificava: "Cocktail das 16 às 19 horas". Chris queria ir buscar Amanda às três e meia. Ela insistiu em que ele
passasse às quatro e meia.
- Mas, boneca, temos de estar lá às quatro.
- Ora, ninguém chega antes das cinco. E as pessoas importantes só chegam às seis.
Ele concordou, embora relutando.
- Quem entende esses protocolos? Acho que vou mesmo precisar de uma mulher como tu.
Às três da tarde, ela tinha experimentado seis vestidos diferentes. O preto ficava-lhe bem, e podia usá-lo com um fio de pérolas e o relógio de ouro que lhe dera
Robin. Toda a gente o elogiava, talvez por ser tão diminuto. Nick Longworth declarara que era um relógio caríssimo.
Chris dera-lhe uma pulseira de ouro, com enfeites, como presente de Natal. Amanda achava-a horrível, mas sabia que teria de usá-la. Olhou para a medalha que dizia
Mandy e Chris; era tão pesada que mais parecia um guiso. Não, não combinava com o vestido preto.
Tirou do armário o tailleur Chanel, cópia perfeita, até mesmo no tecido. Mas Judith Austin veria logo que não era autêntico. Talvez ela até tivesse o original.
Bem, não era a sr.a Austin que ela pretendia impressionar. E Jerry tinha razão. Amanda vira o noticiário do meio-dia da IBC. Tinham mostrado Robin a chegar ao
aeroporto de Idlwild às seis da manhã.
Ela tinha tudo planeado. Seria fácil escapar de Christie num cocktail. Aproximar-se-ia de Robin e diria: "Preciso de falar contigo esta noite. É urgente." Arranjaria
maneira de se encontrar com ele mais tarde, depois de ter largado Christie. E nessa noite tudo se resolveria, para bem ou para mal. Chris
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pensava que ela estava pronta para partir para a Califórnia, mas Jerry dera-lhe um contrato que ela só tinha de assinar até ao fim da semana. Santo Deus, tinha
que resultar! Nas últimas semanas, ela modificara muitas das suas ideias sobre Christie. Ele não era apenas um pobre diabo de bom coração. Nalgumas coisas, principalmente
no que dizia respeito ao dinheiro, era calculista e mesquinho. Na noite anterior, os seus olhinhos de peixe tinham ficado de um cinza escuro, quando ele lhe dissera:
"És bastante esperta, boneca. Lou Goldberg topou tudo. Disse que estavas a adiar a data de casamento de propósito."
- Não compreendo - disse ela.
- Queres casar-te comigo na Califórnia... têm lá uma coisa chamada comunhão de bens. Se nos divorciarmos, ficas com metade de tudo o que eu tenho.
Como aquilo nem lhe passasse pela cabeça, o espanto estampado no rosto de Amanda fora genuíno. "Se eu me casar contigo, será para sempre", dissera ela. "Claro
que vai ser para sempre", rira ele. "E o que é meu, será teu... logo que tivermos um filho."
Lou Goldberg viera a Nova Iorque pelo Natal. Era um homem simpático, de sessenta e poucos anos. Amanda fizera o possível para ser agradável, mas não era boa actriz
e o olhar agudo de Lou captara tudo... o modo como ela "deixava" Chris segurar-lhe a mão, a sua falta de afecto espontâneo.
Naquele dia, ela deveria estar com a Tia Rose; o dia de Ano Novo era dia de visitas na casa de saúde. Talvez nem lhe dessem o jantar, pensando que Amanda, como
de
costume o faria. Bem, ela telefonaria da festa, a fim de certificar-se.
Umas vinte pessoas já tinham chegado, quando Amanda e Chris entraram na casa dos Austin. O seu luxo era discreto, refinado. O mordomo pegou-lhes nos casacos e
acompanhou-os até ao enorme living. Amanda reconheceu um senador, várias figuras da sociedade, vários artistas de cinema e um dos maiores comediantes da CBS (lera
que a IBC andava atrás dele).
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Viu também Danton Miller, e a um canto, conversando com a sr.a Austin, Ike Ryan. Amanda reconheceu-o imediatamente. Nos últimos meses, Ike Ryan tomara Hollywood
de assalto. A sua personalidade extrovertida agradava em cheio. O seu primeiro grande filme estava quase pronto e a publicidade começara quando ele tinha contratado
uma das mais belas estrelas de Hollywood para interpretá-lo. Ela não tardara a deixar o marido e iniciar um ardente romance com Ike Ryan. Mas, assim que as filmagens
tinham chegado ao fim, ele trocara-a por uma estreante, a quem prometera o papel do seu próximo filme. A estrela abandonada tomara soporíferos, mas tinha sido
salva por um telefonema que ela própria fizera para o marido. Algumas semanas mais tarde, a jovem estreante também engolira soporíferos, sendo salva pelo próprio
Ike, que ela mandara chamar na hora H. Ike aparecera nas primeiras páginas de todos os jornais, a jurar que não tinha ido para Hollywood armar-se em galã, mas
para fazer filmes. Estava farto de aventuras amorosas, declarara. Casara com uma antiga colega de escola, em Newark. Havia cinco anos que se tinham divorciado.
Agora, ele vivia só para o trabalho. Claro que de vez em quando se apaixonava, aliás, todos os dias. Mas não era a sério.
Era bem parecido, embora não exactamente bonito. A mãe era judia, o pai tinha sido um boxeur de segunda. Ike revelara isso nas entrevistas que fizera, afirmando
ter herdado o melhor de ambos. Amanda calculava que ele tivesse quarenta anos. Tinha a pele bronzeada e o cabelo preto a branquear nas temooras. O nariz era curto
e meio arrebitado, emprestando um ar de garoto ao seu rosto quadrado. Judith Austin parecia fascinada por ele.
Amanda não pôde deixar de ficar surpreendida. Judith Austin era tudo o que Amanda ambicionava. Esbelta e elegante, o cabelo de um louro acizentado, penteado numchignon
e usando um vestido comprido de veludo. Amanda vira-o na Vogue e sabia que tinha custado mil e duzentos dólares. Reparou que a sr.a Austin usava muito poucas jóias,
apenas uns pequenos brincos de pérolas. Mas logo os seus olhos deram
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Com o enorme brilhante em forma de pêra que lhe enfeitava o dedo anular. Devia ter pelo menos trinta quilates.
Ela e Chris estavam sozinhos, estranhamente isolados na sala cheia de gente. Danton Miller viu-os, aproximou-se e cumprimentou-os. Chris agarrou-se literalmente
a Danton e os dois puseram-se a falar de cotações.
Amanda olhou em volta. Era uma casa de sonho. Como a tia Rose gostaria de a ver num ambiente daqueles! De repente, lembrou-se da casa de saúde. Pediu licença e
perguntou ao mordomo onde havia um telefone. Ele acompanhou-a até à biblioteca e fechou a porta. Ela olhou em redor, impressionada com a beleza da decoração. Aproximou-se
da secretária e passou suavemente as mãos pelo tampo. Devia ser francesa. Viu os botões no telefone e o cartão em branco, no lugar do número. Não estava na lista,
naturalmente. Olhou para o retrato de Judith, emoldurado em prata e inclinou-se para ler a dedicatória. Viu que estava assinada "Consuelo", nessa caligrafia virada
para a esquerda que todas as mulheres da sociedade pareciam partilhar. Claro, era a irmã gémea de Judith Austin, a princesa! Ligou para a casa de saúde. Ocupado.
Sentou-se, abriu a caixa de cigarros que estava em cima da mesa e acendeu um. Olhou para a outra moldura de prata, onde se viam as duas princesinhas, numa fotografia
tirada quando elas deviam ter dez e doze anos. Agora já deviam ser debutantes, belas debutantes a viverem na Europa, sem preocupações. Tentou ligar de novo para
a casa de saúde. O número estava ainda ocupado.
A porta abriu-se e Ike Ryan entrou. Riu.
- Vi-a sair da sala. Assim que pude escapar-me, vim procurá-la. Chamo-me Ike Ryan. Fomos apresentados no ano passado, no Denny's Hideaway.
Ela esperava que o seu rosto não denotasse recordação do incidente. Numa voz indiferente, disse:
- Entrei aqui para fazer um telefonema, mas o número que eu quero está sempre ocupado.
Ele fez um gesto com a mão.
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- Também queria telefonar. Incomoda-se se eu tentar? Antes que ela pudesse responder, ele agarrou no telefone e
começou a marcar um número. De repente parou e voltou-se para ela:
- Eh, estará livre depois da festa? Ela abanou a cabeça.
Ele marcou de novo.
- Então é melhor eu telefonar. Vê-se que liga mesmo muito ao pobre diabo com quem veio. Estava com ele no Danny's quando nos apresentaram.
- Faço os anúncios no The Christie Lane Show - disse Amanda. Teria Robin falado dela a Ike Ryan?
Do outro lado atenderam.
- Olá, Joy, queres jantar comigo às nove horas? vou mandar o meu motorista buscar-te. Temos três festas onde ir, ou podemos ir jantar na Sixth Avenue Delicatessen.
Tu é que escolhes. O quê? Claro que sim, ou pensas que ia interromper um negócio para te telefonar, se não estivesse caído por ti? Adeus, meu bem. - Desligou e
voltou-se para Amanda. Está ver o que perdeu?
Ela sorriu desdenhosamente. Ele sorriu para ela.
- Você agrada-me. É raro uma garota não me ligar.
- Não sou uma garota, como o senhor diz. Tenho um contrato para ir à Califórnia fazer anúncios e o "pobrezinho" que veio está apaixonado por mim.
Ele sorriu.
- Onde vai ficar hospedada?
- Em Beverley Hill... se for.
- Se for? Pensei que tinha um contrato.
- Tenho, mas ainda não o assinei.
- Qual é a efsher P
- A efsher? Ele sorriu.
- É uma palavra ídiche. A minha mãe costumava empregá-la. É difícil traduzi-la, mas tentarei dar um exemplo
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deefsher. Deixe-me ver. Já sei! A minha irmã era horrível antes de eu lhe pagar a operação plástica ao nariz, graças à qual ela arranjou um marido. Antes disso,
nunca tinha namorado. Um fim-de-semana, ela resolveu conhecer o Grossinger's e combinou com um grupo de amigas, todas feias como ela, deve conhecer o tipo. Não,
não deve. Virgens judias, com mais de vinte e cinco anos. Histéricas, insuportáveis, sem esperanças. A minha irmã era assim. Lembro-me que, nesse fim-de-semana,
ela estava a fazer as malas e a pôr dentro calças compridas, raquete de ténis, fato de banho, quando a minha mãe perguntou: "O quê? Não levas nem um vestido bonito?"
A minha irmã respondeu: "Mãe, eu conheço esses lugares. Não vai nenhum homem sozinho. Desta vez vou para descansar, jogar ténis e nadar". Mas a minha mãe pegou
no melhor vestido da filha e disse: "É melhor levares, efsher." Amanda riu. Começava a simpatizar com Ike Ryan.
- Compreendeu? - perguntou ele. -Efsher quer dizer "talvez" uma possibilidade, uma vaga esperança. Qual é a sua efsher, querida? - E, como se percebesse nela uma
mudança de atitude, acrescentou: - Oiça, quer mudar de ideias e sair comigo esta noite? Posso cancelar o convite que acabei de fazer.
- Não costumo cancelar convites. - disse ela.
- Nem eu, quando eles me interessam - Ryan olhou fixamente para ela e depois sorriu. - Telefone-me, quando for à Califórnia, querida. Acho que combinamos bem.
A biblioteca pareceu-lhe vazia, depois dele sair. Amanda viu que já passava das seis. Robin podia ter chegado. Ligou de novo para a casa de saúde. O telefone ainda
estava ocupado! Retocou a maquilhagem e voltou para a festa. Mais tarde voltaria a tentar.
O enorme living estava cheio e os convidados tinham-se espalhado pela ante-sala e pela sala de jantar. Ela andou de uma para outra, a olhar para toda a gente,
mas nada de Robin. Chris estava ainda no mesmo lugar, a falar ainda com Danton Miller. Danton pareceu aliviado de a ver chegar e afastou-se imediatamente.
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- Onde diabo estiveste? - perguntou Chris, mal ficaram
a sós.
- A pentear o cabelo - respondeu ela secamente.
- Há vinte minutos que desapareceste. Dan Miller ficou aqui, de castigo, a falar comigo.
- Ora, se és assim tão famoso, onde estão os teus admiradores?
Chris olhou para a gente famosa que enchia a sala.
- É engraçado - suspirou. - Conheço toda a gente de vista, mas não vejo ninguém conhecido. Boneca, vamos "cavar", não tou a gostar desta festa.
- Oh, Chris, pelo menos tenta fingir que estás a divertir-te.
- Porquê? Somos obrigados a divertirmo-nos? Eddie Flynn também convidou gente para uma festa, no apartamento dele, no Hotel Edison. Vão lá algumas miúdas do Copa...
a festa é para a Aggie, porque ela resolveu largar o Latin Quarter e ir para a Califórnia com Eddie. Essa é que vai ser uma festa divertida.
Ela olhou na direcção da porta e sentiu o coração a bater com mais força. Mas não, era apenas um outro homem alto...
Às oito e quinze, Amanda cedeu finalmente e deixou que Chris a arrastasse para a festa de Eddie, no Edison. As coristas do Copa e do Latin Quarter tinham partido
já para os respectivos espectáculos. Amanda sentou-se num sofá e começou a beber uísque. Chris sentia-se à vontade, aquele era o seu género de festa. Trouxe um
prato cheio de sanduíches.
- Toma, boneca, muito mais saboroso do que aquelas coisas complicadas que havia na festa dos Austins.
Ela fez que não e encheu de novo o copo.
- É melhor comeres - avisou Chris, enfiando uma sanduíche inteira na boca. - Já meti três sanduíches no papo e não janto.
- Não tenho fome - replicou Amanda. Agnes sentou-se ao lado dela.
- É assim que os modelos conservam a linha? - perguntou.
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- Não sabe o que está a perder. As sanduíches estão formidáveis.
- Não tenho mesmo fome. - repetiu Amanda. O uísque começava a fazer efeito. Abriu a boca e bocejou.
Agnes piscou-lhe o olho.
- Tou a ver que festejaram demais a passagem do ano.
- Não, nada disso. Chris fez um espectáculo numaboite. Passámos um fim de semana sossegado.. isto é, se a boite do Waldorf pode ser considerada sossegada.
- No ano passado, eu e Eddie fomos com Chris a Fontainebleau. Caramba, ninguém se divertiu. Chris fazia parte do espectáculo, foi antes dele ter o programa de
televisão. Sabe uma coisa? Eu e Eddie divertiamo-nos mais antes de existir o programa e de ganharmos tanto dinheiro. Divertiamo-nos mesmo, como deve ser, nos dias
de festa.
- Não gosto do fim do ano, nem de nenhum feriado disse Amanda.
Às onze, ela estava completamente embriagrada. Chris queria ir a qualquer lado, tomar um café, mas acabou por concordar em levá-la a casa.
Mandou o táxi esperar, enquanto a levava à porta. Era uma cortesia que Amanda tinha conseguido meter-lhe na cabeça, embora ele ainda a achasse ridícula.
- Ike Ryan tem um carro com motorista - disse ela.
- Ora, um carro alugado - rebateu ele.
- Sim, mas não precisa de chamar táxis...
- Só quando as galinhas tiverem dentes é que eu vou pagar oito dólares por hora para um motorista ficar sentado no carro, a ouvir rádio. - Deu-lhe um beijo rápido,
preocupado com o taxímetro. - Não te esqueças boneca; quando eu tiver sessenta anos, seremos milionários e um tipo como Ike Ryan pode acabar por se afundar.
Entrou no apartamento a cambalear. Sentia uma terrível náusea e o começo de uma enorme dor de cabeça. Telefonou para a portaria. Sim, havia um recado, da casa
de saúde. Claro que tinham telefonado; as enfermeiras estavam ansiosas para
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receber as notas de vinte dólares que ela distribuía no dia de Ano bom.
Mas, nem notícias de Robin! Pronto era essa a resposta. Acabara-se a... como era a palavra?... aefsher. Sim, não havia mais efsher. Iria para a Califórnia! Casaria
com Chris! De repente, foi como se lhe tivessem dado um soco. Para a Califórnia! E quem iria visitar a Tia Rose? Ela ia sempre, uma vez por mês, sempre em dias
diferentes, a horas diferentes, para ver como ela estava a ser tratada.Se fosse para tão longe, iriam negligenciá-la. Como é que ela não tinha pensado nisso? Talvez
porque, até à última hora, não tinha acreditado que acabaria por ir. Nem sequer tinha procurado alugar o apartamento. Esperara por Robin até ao fim.
Pensou um momento e depois num impulso telefonou para casa de Jerry. A mulher dele atendeu. Amanda pediu desculpa pela hora, e explicou que era urgente.
- Jerry, não posso ir para a Califórnia. A voz dele era alegre.
- Deu resultado, hem? Ainda bem que ouviste o meu conselho.
- Ele não apareceu - disse ela, lentamente.
- Então, porque é que não podes ir para a Califórnia?
- A razão não tem nada a ver com Robin - respondeu ela. -Jerry, de repente, lembrei-me. Tenho pensado tanto em mim, em Robin e em Chris, que me esqueci da Tia
Rose. Não posso ir para tão longe. Quem iria visitá-la?
- Tenho a certeza de que na Califórnia deve haver boas casas de saúde.
- Mas, Jerry, como iria levá-la?
- Faz com que Chris alugue um avião particular e pague a uma enfermeira para ir contigo.
- Ele não sabe nada a respeito da Tia Rose e não sei como iria receber a novidade.
- Ouve, Amanda, Chris veio do nada. Quando souber vai gostar ainda mais de ti e sentir-se feliz por poder ajudar-te.
- Jerry, se Chris fizer isso, eu farei o possível por amá-lo.
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Procurarei torná-lo feliz, juro. vou telefonar para ele agora mesmo.
Chris não estava no Hotel, o que queria dizer que devia estar no bar do Copa, no Stage, no Lindy's ou no Toots Shor. Amanda ligou para todos esses lugares e finalmente
descobriu-o no Toots Shor.
- Chris, podes vir até aqui? Preciso de falar contigo.
- Boneca, estou aqui com Toots e Ronnie Wolfe. Ele vai escrever sobre mim na sua coluna.
- Preciso de falar contigo.
- Caramba, parece que está toda a gente aqui. Apanha um táxi e vem até cá.
- Chris, não posso falar diante de toda essa gente. É um assunto importante que diz respeito a nós, ao nosso futuro.
- Boneca, estivemos toda a noite juntos. Na festa dos Austins, parecias muda. Porque não me disseste o que tinhas a dizer? Ninguém estava à escuta. Até parecia
que tínhamos vindo de Marte.
- Vens cá ou não, Chris?
- Boneca, daqui a meia-hora estou aí.
- Não. - O uísque estava a fazer efeito. Ela sentia-se tonta. - Vem imediatamente enquanto estou acordada. É muito importante. Vem já.
- Tá bem! vou já pr'aí.
- Depressa!
- Não posso tomar mais um copo primeiro?
Ela desligou. Depois despiu-se. Provavelmente, ele quereria ir para a cama com ela. Se concordasse em levar a Tia Rose para Los Angeles, para uma boa casa de saúde,
poderia dormir com ela todas as noites, que ela até faria o possível para corresponder.
Vestiu um roupão, penteou-se retocou a maquilhagem e colocou o diafragma. Finalmente, Chris chegou. Começou logo a tirar o sobretudo, agarrando-a e começou a beijá-la.
- Chris, deixa isso para logo. Preciso falar contigo.
- Falaremos mais tarde - desamarrou-lhe o cordão do
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roupão mas, de repente, estacou. - Tá bem, ganhaste. Não gosto de estátuas. Acho que era melhor comprar o último número do Playboy e arranjar-me sozinho. Ela fechou
o roupão e atravessou a sala.
- Senta-te, Chris, tenho muito que te dizer.
Ele ficou sentado, enquanto ela falava. Amanda contou-lhe tudo, sem omitir o mínimo detalhe. Os olhos dele arregalaram-se e sacudiu a cabeça, compadecido.
- Pobrezinha! Lutaste tanto como eu! Os olhos dela encheram-se de lágrimas.
- Vais ajudar-me Chris?
- Como é que eu posso, boneca?
- Levando a tia Rose para a Califórnia!
- Deves estar a brincar! - disse ele. - Sabes o que é que isso vai custar? Não podemos levar uma crioula doente no avião!
- Não permito que fales assim da Tia Rose.
- Tá bem! Mesmo que ela fosse a Branca de Neve, não se pode levar uma pessoa doente num avião.
- Mas tu podes alugar um avião.
- É lógico, pagando milhares de dólares!
- Ora... tens dinheiro bastante.
Ele olhou para ela. Depois, levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro. Deu meia volta, a gritar e apontando o dedo para ela.
- Estás louca! Tenho um primo, um primo legítimo, um primo-irmão, que me pediu dois mil dólares emprestados para abrir um negócio e eu recusei. Sabes porquê? Porque
eu sou como tu. Nunca ninguém fez nada nada cá pelo velhote. Os meus velhos eram pobres. O meu pai trabalhava em revistas. Enganava a minha mãe e ela enganava-o
a ele. Acabaram por separar-se, voltaram a casar e nenhum deles quis saber de mim. Desde os doze anos que estou a ganhar a minha vida. Tenho um meio-irmão, mas
não lhe dou nem um tostão. Sabes porquê? Porque se ele estivesse no meu lugar, sei muito bem que nem se importaria em saber quem eu era.
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- Queres dizer que não vais fazer o que te peço? - perguntou ela.
- Livra! Dentro em pouco, ias querer que a Tia Rose fosse morar connosco depois de casados.
- Se ela melhorasse, porque não?
- Porque eu não deixo nem a minha família encostar-se a mim... como estaria eu a gastar dinheiro com uma velha que nunca vi? Era bem capaz de custar dez mil dólares!
- Sim, era bem capaz - concordou ela, friamente.
- E sabes o que preciso eu de trabalhar para ganhar dez mil dólares?
- Ouvi dizer que estavas a ganhar isso por semana. Ele franziu a testa.
- Vais dizer-me que estiveste a tomar informações de quanto eu ganho?
- Toda a gente sabe que o patrocinador te aumentou o cachei para dez mil dólares por semana. Tu mesmo fizeste questão de que isso saísse em todos os colunistas.
- Tá bem, mas o governo tira-me setenta por cento. Para eu gastar dez mil dólares, precisava de ganhar uma fortuna.
- Muito bem, Chris, por favor, vai-te embora. Ele aproximou-se dela e agarrou-a.
- Amanda, amo-te. Não sou avarento. Ouve, se tivéssemos um filho e ele ficasse doente, eu gastaria dez mil dólares a brincar para consultar o médico, o melhor
especialista. Tudo o que eu tenho vai ficar para ti e para o garoto. Mas não para os parentes, principalmente para quem nem é mesmo parente acrescentou.
- Ela é como se fosse minha mãe!
- Diabo! - explodiu ele. - Só mesmo a mim é que me aconteceria uma coisas destas! Pensei que tinha encontrado uma mulher de classe,
uma grande senhora e, de repente,
atiras-me em cima uma mãe preta, ainda por cima doente, que não podemos fingir que é a empregada! Caramba, boneca, estragaste-me a noite!
- Vai-te embora Chris!
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- Vou-me embora, mas pensa bem no caso. E não imagines que não te amo. Amo-te e não sou avarento! pensei que eras
de uma grande família. Tava sempre a pedir desculpa
de não ter a tua classe e, de repente, sem mais nem menos, dizes-me que és ilegítima, que foste criada por uma criada preta e se isso me importa! Não me importa!
Eu continuo a amar-te e a querer casar contigo. Mas não vou obrigar-te a aceitar a minha família e não me podes obrigar a tratar da tua. Quando nos casarmos, o
meu dinheiro vai ser para gastar com o nosso filho. Uma coisa, Mandy. - Ele parou. - Caramba, até agora o nome soa mal. Quem sabe se não quererás pôr o nome de
Rastus ao nosso filho? De hoje em diante, ninguém te chamará Mandy. Só Amanda. Foi a tua tia que te pôs esse nome?
- Não - respondeu ela, calmamente. - O meu verdadeiro nome é Rose. Nick Longworth resolveu mudá-lo quando comecei a trabalhar como modelo. Rose Jones não era sonoro.
Ele achou que Amanda soava a nome inglês, lembrava Noel Coward, etc.
- E lembrava mesmo, até eu ficar a saber a história da tua tia Rose. Ouve, boneca, compartilhei camarins com artistas de cor. Eles são meus amigos. As coisas acabarão
por mudar, espero que mudem. Mas não tenho forças para lutar sozinho. Se alguém começar, talvez eu lute ao lado. Toda a minha vida trabalhei duramente. Em tudo
o que era inferno. Conheço um bocado de tipos que nunca conseguiram subir. Eu consegui e estou a querer dar-te tudo! Mas só para ti! Nada de tia, de primo, de
meio-irmão, só para nós dois.
Pegou no sobretudo e encaminhou-se para a porta.
- Vamos esquecer esta noite, entendeste? Como se não me tivesses dito nada. Não sei quem é a Tia Rose. És Amanda, a famosa modelo, e vamos casar. - Bateu com a
porta.
Ela ficou alguns minutos imóvel. Depois levantou-se e preparou uma bebida. Embora parecesse estranho, compreendia perfeitamente o que Chris sentia. Bem, aquilo
só vinha provar uma coisa, que ela não devia esperar ter o amor de ninguém. Toda a gente só queria tratar de si próprio, subir,
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vencer! Nunca mais quereria saber de Christie Lane ou de Robin Stone! Deixaria o programa, diria a Nick para lhe arranjar mais trabalho como modelo, mesmo que
tivesse
de baixar o preço. Já não sentia remorsos em relação a Christie. Trabalharia, tomaria conta da Tia Rose e casaria com o primeiro homem decente que lhe aparecesse
e que lhe quisesse dar um filho e uma vida normal.. Tomou uma pílula para dormir, deu corda ao despertador e desligou o telefone.
O despertador acordou-a às nove horas. A cabeça doía-lhe. Estendeu a mão para o telefone, para saber se alguém a tinha procurado, mas mudou de ideias.
Tomou um táxi para Queens. O pequeno hall da casa de saúde estava quase vazio. Algumas velhinhas viam televisão em cadeiras de rodas. Uma delas estava a fazer
um quebra-cabeças de criança. Outra olhava fixamente para o ar. Uma servente desmontava uma carcomida árvore de Natal.
Amanda dirigiu-se para o elevador e apertou o botão para o terceiro andar. Nunca se anunciava. Gostava de chegar de surpresa, para ver como as coisas andavam.
Abriu a porta do quarto. A cama estava vazia.
Miss Stevenson, a enfermeira-chefe, entrou a correr no quarto, com uma expressão transtornada no rosto.
- Telefonámos para a senhora ontem à noite - disse ela.
- Eu também tentei telefonar - disse Amanda. - A linha estava sempre ocupada. Porque mudaram a Tia Rose de quarto? - De repente, ela empalideceu. - Que aconteceu?
Ela piorou?
- Ela morreu - disse Miss Stevenson. Amanda soltou um grito.
- Como foi que aconteceu? Como? - berrou.
- Às seis da tarde, quando lhe trouxemos o jantar, ela sentou-se na cama, de olhos brilhantes, e perguntou: "Onde está a minha Rosinha?" Dissemos-lhe que a senhora
estava a chegar. Ela recostou-se e sorriu, dizendo: "vou esperar pela
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minha Rosinha. Não gosto de comer só. Quando ela voltar da escola, comemos..."
Amanda começou a soluçar.
- Ela pensava que estava no passado. Mas talvez me tivesse reconhecido.
A enfermeira encolheu os ombros.
- Quando achámos que a senhora não vinha, tentámos fazê-la comer, mas ela só dizia: "vou esperar pela minha filha". As oito horas, voltámos e ela estava sentada
na cama, como a tínhamos deixado, mas morta. Telefonámos-lhe imediatamente. ..
- Onde é que ela está? - perguntou Amanda.
- No necrotério.
- No necrotério!
- Não podíamos deixá-la aqui.
Amanda correu para o elevador. Miss Stevenson foi atrás dela. vou dar-lhe o endereço. Lá mesmo, a senhora pode combinar o enterro.
Ela tratou da cremação e dos serviços fúnebres. Depois foi para casa, desligou o telefone e adormeceu.
Quando Jerry telefonou, no dia seguinte, ela contou-lhe o que acontecera.
Ele tentou não deixar transparecer o alívio que sentia, mas disse que tinha sido melhor assim.
- Agora, podes ir para a Califórnia com a consciência tranquila.
- Sim, Jerry já posso ir para a Califórnia.
Nessa noite, Amanda bebeu uma garrafa inteira de uísque. Depois olhou-se no espelho. "Pronto aí está. Ninguém é de ninguém! Ninguém se importa contigo. Este mundo
é horrível!"
Deixou-se cair na cama e soluçou. "Oh, Robin, Robin, onde estás? Que espécie de homem és tu? Fiquei naquela festa à tua espera, enquanto a tia Rose esperava por
mim. Devia ter estado com ela; ter-me-ia reconhecido, teria morrido nos meus braços, sabendo que alguém a amava."
183
Enterrou o rosto na almofada. "Odeio-te, Robin Stone! Estive à tua espera enquanto a Tia Rose morria, e onde estavas? Meu Deus, onde estavas?"
Robin dormira até ao meio-dia. Acordou, foi até ao frigorifico, levou dois ovos duros e uma lata de cerveja para o living, ligou a televisão e estendeu-se no sofá.
Pegou no controlo remoto e percorreu todas as estações. Por fim parou na IBC. Estavam a fazer a reportagem do desfile que antecedia a abertura da temporada de
futebol. Lá estava a habitual banda de música, as faixas, a entrevista com Miss Flor-de-Laranjeira ou qualquer coisa parecida. Eram todas iguais: raparigas de
ar saudável e pernas de ginasta, que pareciam ter sido criadas com sumo de laranja. Aquela então, parecia ter sido amamentada com sumo de laranja. Os dentes certos
e brancos, o cabelo bem escovado, o sorriso nervoso. Bem, teria um dia de glória, uma semana de popularidade local e três páginas de recortes, para mostrar aos
filhos.
Olhou para a moça com pouco interesse. Ela estava a dizer que queria ter uma porção de filhos. Bolas, porque não teria, nenhuma delas, a coragem de dizer: "Ora,
só quero divertirme à grande!" Tinha pena da pobre rapariga que a estava a entrevistar. Só lhe via a nuca, mas tinha uma bela voz. Conseguiu ver-lhe o perfil,
quando ela se despediu: "Aqui fala Maggie Stewart, que acaba de entrevistar Dodie Castle, Miss Flor-de-Laranjeira de 1962. E agora convosco, Andy Parino."
Andy entrevistou um ex-jogador de futebol. Robin mudou para a CBS, para ver o jogo, e depois para a NBC. Estava nervoso. Mudou para o Canal lie ficou a ver um
filme antigo até cochilar. Depois, desligou a TV, ligou para Amanda e desistiu. Não devia estar em casa, de certeza, e além disso, ele pensava afastar-se dela.
Estava cansado... o tempo em Londres tinha estado horrível, mas aquela pequena inglesa era de fogo e, quando ele lhe tinha apresentado a baronesa, ela não se fizera
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rogada. Ike Ryan iniciara-o nas bacanais. Ora, não eram bacanais: apenas sexo em grupo. Ike Ryan tinha uma técnica para fazer uma moça participar de uma bacanal.
Primeiro ela fazia a coisa com a gente, depois com um amigo, enquanto a gente olhava, e depois com outra mulher. Uma vez conseguido isso, a sente tinha a mulher
na mão, isto é, o que toda a mulher era, no fundo: uma puta. Talvez ele devesse pôr a técnica em prática com Amanda. Assim, ela não voltaria a falar em casamento.
Mas, algo nele era contra a ideia. Talvez porque sentisse que ela concordaria; ela faria tudo para o segurar. Mas não o esqueceria, como a baronesa ou a inglesa.
E ele não queria feri-la. Bolas, no princípio sentira-se tão à vontade com ela! Mas
ultimamente ela parecia estar sempre a ponto de perder o controlo. Era tempo
de acabar. Ele dera-lhe motivos de sobra; preferia sempre que a moça rompesse: pelo menos poupava-lhe a humilhação. Talvez esse caso com Christie Lane resultasse.
Pegou no telefone e pediu à telefonista da IBC que lhe localizasse Andy, no estádio. Desejou-lhe um feliz Ano-Novo.
- Que tal a Miss Flor-de-Laranjeira? - perguntou.
- Peito chato e pernas tortas - respondeu Andy.
- Não parecia.
- Maggie fez com que ela melhorasse.
- Maggie?
- Maggie Stewart, só a viste de costas, mas é sensacional! Robin sorriu.
- Está-me a parecer que há qualquer coisa entre os dois.
- E há. Gostaria que a conhecesses. Porque não vens passar aqui uns dias? - perguntou Andy. - Podíamos tirar umas férias. - O golfe está em plena temporada.
- Eu não preciso de férias. Vivo intensamente cada dia que passa. Acabei de voltar da Europa com uns tapes geniais. Agora, quero fazer programas ao vivo. Ouve,
rapaz, não cases antes de eu a conhecer!
- Pois eu casaria amanhã mesmo, se ela quisesse.
- Andy, aposto em como te arrependerias.
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- Não admito que digas isso de Maggie! - retrucou Andy, indignado.
- Feliz Ano Novo, anjinho - disse Robin, e desligou. Acendeu um cigarro e pensou nas noites em que ele e Andy
percorriam juntos a Rua Setenta e Nove, parando em todos os bares, arrumando garotas, trocando-as no meio da noite...
Vestiu o sobretudo e saiu. A noite estava fria e clara. Desceu a Terceira Avenida, até à Rua Quarenta e Dois. Atravessou a cidade e chegou à Broadway. Ficou a
olhar para as luzes dos cinemas e das pizzarias.
Passou por um cinema, comprou um bilhete e sentou-se. Minutos depois, sentiu um sobretudo roçar-lhe a perna, logo seguido de uma mão tímida. Levantou-se e mudou
de lugar. Cinco minutos mais tarde, uma jovem negra, com uma peruca loura, aninhou-se junto dele. "Por cinco dólares, ponho o meu casaco em cima de ti e mostro-te
o que sei fazer."
Trocou novamente de lugar. Sentou-se ao lado de duas adolescentes. De repente, uma delas sussurou: "Passe para cá dez dólares." Ele olhou para ela como se estivesse
louca. Não podia ter mais de quinze anos e a amiga também. Fingiu não ter ouvido. "Passe-me dez dólares ou eu grito que você tentou fazer-me mal. Sou menor; vai
ver-se em apuros."
Robin levantou-se e saiu do cinema. Andou alguns quarteirões e entrou numa cafeteria para tomar um café. Meteu a mão no bolso. Deus!, tinham-lhe roubado a carteira.
Quem teria sido? O homossexual? A prostituta? Ou as adolescentes? Levantou a gola do sobretudo e foi andando para casa.

Capítulo décimo quarto

A multidão que enchia o Polo Bar, Beverly Hills Hotel, começava a diminuir, mas ainda fazia barulho de mais para se tentar um telefonema inter-urbano. Jerry resolveu
telefonar do seu quarto. Livra! Detestava aquela cidade, mas a verdade é que o programa passara para segundo lugar. Fora uma óptima jogada, mudá-lo de Nova Iorque
para a Califórnia na segunda metade da temporada. Mas isso queria dizer mais três meses na cidade do sol, das palmeiras, da solidão...
Subiu ao seu apartamento e pediu uma ligação para Mary. Ainda bem que estava a chegar o Verão e a hora de substituir o programa. Ele teria que voltar, para ajudar
a tomar decisões. Isso significaria uma semana inteira em Nova Iorque. Nem se importaria de ter de tomar o comboio.
A telefonista informou-o que o circuito de Greenwich estava ocupado. Jerry cancelou a chamada. Tinha encontro marcado com Christie e Amanda no Chasen's, às oito
e meia. Havia muito tempo que Amanda não saía à noite. Estava sempre cansada, ultimamente. O apartamento dela ficava no fundo do corredor e o sinal de É FAVOR
NÃO BATER aparecia na sua porta pontualmente, às oito e meia da noite. Até certo ponto, compreendia-se; ela estava a trabalhar muito, destronara todas as outras
modelos da Califórnia. Christie Lane também detestava a cidade. Dizia que às dez e meia toda a gente ia para a cama e passava as noites numa enorme casa alugada,
jogando g rummy com Eddie Flynn e Kenny Ditto. Não se sentia bem em nenhum dos lugares nocturnos de Hollywood. Dizia que nunca lhe davam uma mesa decente. Passara
semanas com ar ressentido porque Amanda se recusara acasar no Dia dos Namorados, alegando que não queria casar e voltar a correr para o trabalho; exigia uma lua-de-mel
verda187
deira. Christie acabara por concordar e agora planeavam casar no dia seguinte ao do fim do programa.
Jerry não sabia o que pensar de Amanda. Saía com Christie na noite do espectáculo e mais umas vezes durante a semana, mas negava-se acircular, a ir ao Cocoanut
Grove ou às estreia, que Christie adorava, fazendo com que ele percorresse Hollywood com Kenny, Eddie e a corista. Todas as noites eles apareciam na sorveteria
do Beverly Wilshire Hotel, à espera de encontrarem algum cómico ou outros nova-iorquinos desenraizados, com saudades das noitadas da Grande Cidade. Segundo Chris,
aquela era a sua primeira e última experiência californiana! Terminaria a temporada, mas já comunicara aos patrocinadores que, na temporada seguinte, faria todos
os programas em Nova Iorque. Jerry apoiava-o; sentia-se tão só como Chris.
Amanda, porém, não parecia sentir a mínima saudade de Nova Iorque. O seu aspecto nunca fora melhor e começava a atrair a atenção de vários produtores cinematográficos.
Toda a sua atitude parecia ter mudado; como se o clima da Califórnia tivesse operado alguma alteração na sua personalidade. Jerry nunca a vira sorrir tanto, mas
sentia que alguma coisa mudara nas suas relações. Era quase como se nunca tivessem sido amigos. Ele já desistira de convidá-la para jantar. Ela dizia sempre a
mesma coisa: "Adoraria, Jerry, mas estou exausta e amanhã tenho um dia cheio". Até parecia que ele tinha sido exorcizado, juntamente com Robin. Ela nunca o mencionava,
nem perguntava por ele.
Jerry olhou para o relógio: oito e quarenta e cinco. Christie e Amanda deviam estar furiosos. Telefonou para o Chasen's. Christie atendeu logo.
- Onde diabo está você?
- Aqui no hotel, à espera de um telefonema de Nova Iorque.
- Então é melhor desmarcar. vou até ao Schwab's. - A voz de Christie era desanimada.
- Ora, ao menos não está à espera sozinho! Está com
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Amanda.
- Ela deu-me bola. .- Como?
- Telefonou, ainda não há uma hora. Disse que tinha dores de garganta: deve ser este maldito smog. Tomou uma pílula para dormir e foi-se deitar. Estou aqui à espera
mais só que um cão sem dono. Livra!, que cidade! Ninguém sai de casa, só nos fins-de-semana. E não ligam nicles a quem não fizer fitas. Eh, Alfie e a malta dele
estão a entrar...
- Alfie?
- Jerry você anda mesmo na lua. Alfred Knight.
- Ah, sim, o famoso actor inglês.
- Livra, até parece que ele é Sir Alfred, da maneira como toda a gente anda em volta dele. Precisava de ver como esta gente é. Mandei reservar mesa; e sabe para
onde me atiraram? Para um cantinho. Mas o tal Alfie, que mal tirou o pé do avião, já tá na mesa de pista e tudo. Não é só a cidade que eu odeio. Também odeio o
povo.
- Anime-se - riu Jerry - O Verão está quase aí.
- Queira Deus.
Jerry desligou, sentou-se na cama e acendeu um novo cigarro. Talvez Amanda quisesse que ele lhe mandasse enviar qualquer coisa. Telefonou para ela.
- Muito obrigada, Jerry, mas não posso comer nada. A garganta dói-me e tenho um inchaço no pescoço. Acho que vou ficar doente e o pior é que o programa é daqui
a dois dias. Seria terrível se eu faltasse.
Jerry desligou, sentindo-se vagamente desapontado.
De repente, era como se estivesse prisioneiro. A solidão atacou-o fortemente. Abriu a porta envidraçada que dava para o pátio ajardinado. Amanda era louca por
aqueles jardins privativos. Dizia que era maravilhoso ficar sentada, à noite, a olhar para as estrelas. Jerry saiu para o pátio. A escuridão e o silêncio intensificavam
o canto das cigarras. O pequeno jardim de Amanda ficava três portas abaixo. Ele tinha de falar com alguém. Talvez ela ainda não estivesse a dormir. Não queria
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tocar e incomodá-la, mas nem sempre os soporíferos faziam efeito, ele sabia-o por experiência. Saiu para o jardim esperando ver se a luz dela estaria acesa. Nada!
Cada pátio estava separado dos outros por uma alta parede de madeira. Tentou abrir o portão do seu pátio; custou, mas conseguiu abri-lo. Encaminhou-se para o pátio
dela.
Nesse momento, ouviu outro portão abrir-se. Escondeu-se atrás de uma das palmeiras gigantes. Era Amanda, olhando cautelosamente em volta. Vestia calças compridas
e camisola e dirigia-se para os bangalós. Impulsivamente, ele seguiu-a. Ela parou diante de um bangaló e olhou em redor. Depois bateu à porta. Ike Ryan abriu-a.
- Então, menina, onde estiveste até agora?
- Quis esperar algum tempo, no caso de Christie telefonar. Acabei de desligar o telefone.
- Quando vais deixar esse pobre diabo?
- Logo que o programa acabe. Acho melhor terminar a temporada sem aborrecimentos.
A porta fechou-se. Através da janela, ele viu-os beijarem-se.
Mandou subir alguma coisa para comer e tentou ver a televisão, mas o bangaló de Ike Ryan não lhe saía da cabeça. Eram duas da manhã, quando ouviu o portão do pátio
abrir-se. Não admirava que ela estivesse sempre cansada para sair; um inchaço no pescoço!
A verdade é que ela tinha um inchaço no pescoço. Ike também o notara. Ao voltar para o seu apartamento, Amanda olhou para o espelho. A pintura do seu rosto estava
toda borrada. Ike não era um amante muito gentil, mas sentia que ele gostava realmente dela. Não parava de insistir para que ela rompesse com Christie. Quando
ela explicara que o programa era a sua principal fonte de receita, ele disse:
- Escuta, minha querida, nunca terás de te preocupar com dinheiro, enquanto estiveres comigo.
Mas isso não era exactamente um pedido de casamento. Ela
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esperaria até Junho e depois perguntar-lhe-ia francamente quais eram as suas intenções. Se ele não quisesse casar com ela, casaria com Chris. Tanto lhe dava, ou
quase. De repente, sentiu-se exausta, como se de uma hora para outra tivesse ficado sem pinga de sangue. Andava a tomar estimulantes:
tiravam-lhe o apetite, mas
ela obrigava-se a comer. Nessa noite, porém, mal pudera provar a comida. Tinha o céu da boca e as gengivas em carne viva. Talvez uma injecção de penicilina desse
resultado, ou uma boa noite de sono. Caiu na cama exausta.
Mas na manhã seguinte acordou pior. Quando escovou os dentes, as gengivas sangraram. Ficou apavorada, devia ser alguma infecção. Telefonou a Jerry, mas, a julgar
pelos sintomas, ela tinha mesmo uma infecção.
- Talvez seja difteria - disse ele.
- Meu Deus, Jerry, onde é que eu iria apanhar isso?
- Não sei - respondeu ele, friamente. - No fim de contas, ficas todas as noites trancada aí no apartamento!
Ela percebeu o sarcasmo.
- Bem, acho melhor consultar um médico.
- Espera até depois do programa de amanhã. Enquanto isso vai gargarejando com uma solução de água oxigenada. Eu já tive isso antes e não é nada de sério - acrescentou
ele, desligando.
Amanda tomou dois comprimidos de estimulantes, antes de sair para trabalhar. O cansaço desapareceu um pouco, mas o coração parecia querer disparar. O fotógrafo
levou-a de carro até Malibu e ela ficou de fato de banho enquanto preparavam as câmaras. O sol batia-lhe com força, mas Amanda subiu para os esquis aquáticos e
conseguiu equilibrar-se. A foto foi tirada logo à primeira, mas o fotógrafo quis tirar outra, no caso de não ter saído bem. Amanda sentiu-se tonta, ao subir de
novo para os esquis. A lancha começou a andar, ela dobrou os joelhos e segurou a corda, depois endireitou-se à medida que a lancha ganhava velocidade. De repente,
tudo pareceu oscilar, o sol mergulhou no mar e ela sentiu-se envolvida pela frescura da água.
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Quando abriu os olhos, estava na praia embrulhada num cobertor. Todos a contemplavam com um olhar preocupado.
- Penso que desmaiei - disse ela.
Passou o resto do dia e da noite na cama. Quando acordou, na manhã seguinte, tinha bom aspecto e a boca parecia melhor, mas as pernas estavam cheias de manchas
pretas
e azuis. Devia tê-las magoado, ao cair; batera, sem dúvida com elas nos esquis. Ainda bem, no programa, ia usar um vestido
comprido!
No dia seguinte, sentiu-se pior. A boca estava outra vez cheia de feridas, mas o que mais a assustava eram as manchas nas pernas. Formavam agora uma enorme e alarmante
mancha roxa, que a cobria desde os tornozelos até às coxas. Quando Christie telefonou, ela disse-lhe o que se passava.
- Bem, tu é que queres fazer esse trabalho de malucos. Qualquer pessoa teria morrido de pneumonia há dois anos. De roupa de Verão com temperatura negativa! Tás
mais morta que viva. E todos os que caem dos esquis magoam-se.
- Chris, arranja-me um médico...
- Ouve, boneca, daqui a dez minutos vou ter uma reunião com os argumentistas. Depois tenho uma entrevista. Mas deves ter um médico nesse hotel de luxo.
O médico do hotel estava fora, a atender uma chamada. Amanda estava desesperada. Cancelou a sessão da tarde. Era preciso posar de short, e a maquilhagem não conseguia
cobrir-lhe as marcas das pernas. Estava a dormitar, quando Ike telefonou. A princípio ela mostrou-se evasiva, mas depois disse-lhe a verdade.
- Não te mexas, querida. Volto já, com o melhor médico de Los Angeles.
Em menos de vinte minutos, Ike voltou acompanhado por um homem de meia-idade, que carregava a maleta típica dos médicos.
- Amanda, apresento-te o Dr. Aronson. vou deixá-los a sós, mas ficarei ali fora, nohall, de modo que é só gritares se ele se mostrar atrevido. - E piscou o olho
para o médico, mostrando
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que eram amigos de longa data.
ODr. Aronson examinou-a rotineiramente. Auscultou-lhe o coração, tomou-lhe o pulso e abanou a cabeça, aprovadoramente. Ela começou a sentir-se mais tranquila.
A
atitude do médico dizia-lhe que não havia nada de radicalmente sério. Ele viu-lhe a boca com uma luz.
- Há quanto tempo lhe apareceram essas feridas?
- Há uns dias atrás. Mas o que mais me preocupa são as pernas.
O médico apalpou-lhe o pescoço e não mudou de expressão ao examinar-lhe as pernas manchadas de púrpura.
Ela contou-lhe o acidente que sofrera com os esquis aquáticos.
- O senhor não acha que foi disso?
- Ainda não posso dizer. Talvez os sintomas não tenham relação uns com os outros, mas gostaria de interná-la para uns exames. Apenas alguns dias. Lembra-se de
quando fez o último exame de sangue?
- Nunca fiz. -De repente, Amanda ficou assustada. Doutor há alguma coisa séria?
Ele sorriu.
- Duvido. Provavelmente, apenas um caso antiquado de anemia; vocês todas, modelos, têm falta de sangue. Mas quero ter a certeza de que não é outra coisa.
- O quê, por exemplo?
- Bem, febre glandular, por exemplo. Está a trabalhar muito e tem alguns dos sintomas: fadiga, manchas, inflamação das glândulas, dores de cabeça.
- Não poderia fazer os exames no seu consultório? Tenho medo dos hospitais.
- Como quiser. Darei a morada a Ike e amanhã mesmo faremos os exames.
Ela ficou a vê-lo sair do quarto. Sentia-se melhor. Entrou no banheiro e penteou-se. Estava horrível e dentro em pouco Ike estaria de volta. Passou batôn, pintou
os olhos e voltou para a cama.
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Ike entrou no quarto todo sorridente.
- Faz as malas, põe as tuas camisolas mais giras e está pronta quando eu voltar. vou à livraria ali em frente, comprar-te os últimos best-sellers.
- Mas para onde é que eu vou?
- Para o hospital, e nada de reclamações. Ouve, querida, o doutor receia que estejas com febre glandular. Se a tiveres, contagiarás o hotel inteiro, e ninguém
virá dar-te nem mesmo um copo de água. Além disso, ele acha que deves ter uns dias de repouso completo, na cama, e talvez uma ou duas transfusões de sangue, para
te restaurar as forças.
- Mas, num hospital, Ike! Eu nunca estive doente!
- Nem estás doente agora, mas acontece que estamos em Hollywood e aqui é tudo feito em grande escala. A namorada de Ike Ryan não se arrasta até ao consultório
de um médico para fazer uns testes. Não, recebe um tratamento de princesa. Já reservei o maior quarto de esquina. Ouve querida, aproveita e descansa. Eu pago as
contas; aposto como uma pequena como tu não tem seguro hospitalar.
- Não. Nunca precisei.
- Muito bem. Está pronta quando eu voltar. Deixarecado que foste a San Francisco tirar umas fotos e que vais voltar a
tempo para o programa.
Jerry estava à espera no Lancer Bar. Naquele instante devia estar em Los Angeles, a assistir ao ensaio de Christie Lane, mas resolvera aumentar para dez dias a
sua
visita a Nova Iorque. Em Los Angeles deviam ser duas horas da tarde e o pandemónio estaria a começar. Terminou o seu martini e acenou, ao ver Robin encaminhar-se
para o balcão.
Depois do segundo martini, viu que ia perder o último comboio de horário decente. Robin estava a expor-lhe uma ideia que acabara de ter para um novo programa de
reportagens, quando o barman fez sinal a Jerry de que o chamavam ao telefone. Ficou surpreendido.
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. É para mim? Nunca digo para me procurarem aqui.
Robin sorriu.
- Vais ver que a tua mulher descobriu a pista. Era Christie Lane.
- Oiça, Jerry, telefonei para o seu escritório e não o encontrei. Telefonei para sua casa e a sua esposa disse-me para o procurar aí no bar. Bolas, ainda bem que
está aí! Amanda não vai fazer o espectáculo desta noite. Ficámos como loucos, mas já arranjámos uma outra modelo. Acho que vai servir, mas penso que você precisa
de fazer qualquer coisa.
- Onde é que ela está?
- É um mistério para mim. No outro dia, evaporou-se de repente. Deixou um recado a dizer que ia a San Francisco tirar fotos. Hoje telefona-me, a dizer calmamente,
que não pode fazer o programa. Isto às nove da manhã! E quer saber onde está? No hospital.
- No hospital!
- Calma, não há azar. Pus o impermeável em cima do pijama e corri para o hospital. Fui dar com ela num quarto enorme e cheio de sol, flores e ela toda embonecada,
que nem uma princesa. Diz que tá anémica e que não pode sair enquanto não ficar boa.
- Bem, se ela está no hospital, é porque precisa, Christie. Nenhum hospital deixa gente entrar, sem mais nem menos.
- Em Hollywood? Está a brincar? Metade das fulanas desta cidade entram no hospital por causa do que elas chamam esgotamento nervoso; mas é apenas para fazerem
uma cura de sono. Oiça, eu vi Mandy; está mais bonita do que nunca!
- Estarei aí no fim da semana, Christie. Mas não se preocupe com Amanda. Estou certo que não é nada sério.
- Não tou preocupado, tou furioso. Ela só faz um anúncio, mas trabalha no programa. E não faltamos a um programa, só para descansar. Olhe, muitas vezes representei
com gripe. Cantei com a garganta a doer como um raio. Não tenho paciência com gente que se afasta de um programa só porque está cansada. O palco é tudo para mim,
sem ele eu não teria
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nada. Acho que Mandy tem de aprender a respeitar isso. Como é que o nosso casamento pode resultar, se ela acha que pode cancelar um programa como se fosse uma
estopada
dessas de tirar fotos? Tá-me a perceber?
- Falarei com ela assim que voltar.
Jerry desligou e contou a Robin o que Christie lhe tinha dito.
- Ela não é do tipo de entrar num hospital sem um motivo sério - disse Robin.
- Ike Ryan está por detrás de tudo isto - murmurou Jerry.
- Que tem Ike a ver com isto?
Antes que se apercebesse, Jerry estava a contar a Robin que vira Amanda entrar, a meio da noite, no bangaló de Ike.
- Queres saber o que penso? - continuou ele. - Acho que essa história da garganta doer não passou de um pretexto. Aposto que Ike a engravidou e ela entrou no hospital
para fazer um aborto. Que achas?
- Acho que és um mexeriqueiro dos diabos! Jogou uma nota em cima do balcão e saiu do bar.
Amanda ainda estava no hospital, quando Jerry regressou a Los Angeles. Foi encontrá-la sentada na cama, linda e toda maquilhada. Mas ficou espantado por ver um
grande
vaso de sangue e a agulha espetada no seu braço. Ela percebeu a sua surpresa e sorriu.
- Não fiques impressionado. Estou a tomar o meu sumo de tomate.
- Para quê a transfusão de sangue? - perguntou ele, sentando-se numa cadeira.
- Para poder voltar mais depressa ao programa.
De repente, a porta abriu-se e Ike Ryan entrou no quarto.
- Eh, queridinha, trouxe-te todas as revistas e um livro novo. - Olhou para Jerry com ar curioso, quando Amanda os apresentou. Depois, estendeu a mão. - Ouvi falar
muito em
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você. Amanda diz que você tem sido um bom amigo.
Sim, somos bons amigos -disseJerry, em voz sumida.
A força que irradiava daquele homem assustava-o. Num esforço para fazer valer a sua autoridade, disse: - Tudo isto está muito bem e sei que Amanda está a aproveitar
o merecido descanso, mas acontece que ela. tem um compromisso comigo, ou melhor, com o programa. - Voltou-se para ela. Quando pensas sair daqui?
- O médico acha que no fim da semana...
- Ela só sairá quando estiver completamente restabelecida - interrompeu Ike.
Jerry levantou-se.
- Bem, então talvez seja melhor arranjarmos uma substituta permanente para o resto da temporada. (Diabos! Sentia ódio de si próprio, por ter de fazer aquilo!).
- Não! - implorou Amanda. - Oh, Jerry, por favor, não! Eu voltarei na próxima semana. Talvez ainda esta semana.
- Olhou implorante para Ike.
- Como queiras, querida - disse ele, encolhendo os ombros. - Ouve, tenho de fazer uns telefonemas. vou fazê-los da cabina do
hall. Até já, amigo - disse olhando
para Jerry com frieza.
Assim que ficaram a sós, a atitude de Jerry mudou. A sua voz tornou-se sincera.
- Ouve, Amanda, talvez devesses mesmo deixar o programa. Este tipo parece louco por ti.
- Mas não me pediu em casamento... Ele gemeu...
- Outra vez a mesma mania? O rosto dela ficou tenso.
- Olha, Jerry, Ike está louco por mim porque sabe que Chris também está. Mas se eu perder o emprego e Chris, Ike depressa se cansará de mim.
- De onde tiraste toda essa fé nos teus semelhantes?
- Nasci com ela - respondeu Amanda, friamente. Mas depressa o seu olhar se suavizou. -Jerry, eu vou voltar. Já
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estou a sentir-me outra. Precisava mesmo deste descanso. Há seis anos que não paro, que não tiro umas férias. Ele afagou-lhe a cabeça.
- Fica sossegada, querida, não vais perder o emprego. Telefonarei amanhã.
Saiu do quarto e dirigiu-se para o hall. Ike Ryan estava à espera dele.
- Chegue aqui, amigo - disse, apontando para a pequena sala de espera.
- Tenho de voltar para o escritório - disse Jerry.
- Depois de termos uma pequena conversa. Belo amigo que você é! Como se ela não tivesse já bastante, ainda vem ameaçá-la!
- Uma anemia não é uma coisa assim tão séria - retorquiu Jerry.
- Ela pensa que tem anemia. - Ike olhou firmemente para ele. - vou confidenciar-lhe uma coisa. Uma coisa que ninguém sabe, só o Dr. Aronson e eu. E que ninguém
vai saber, principalmente Amanda. Ela está com leucemia!
Jerry afundou-se no sofá. As mãos tremiam-lhe quando puxou de um cigarro. Por fim, balbuciou:
- Escute, há pessoas que têm leucemia e vivem muito tempo!
- Não com o tipo de leucemia que ela tem.
- Quanto tempo tem ela?
- Talvez minutos. Talvez seis meses.
Os olhos de Jerry encheram-se de lágrimas. Virou a cabeça para o lado, mas não adiantou. Por mais que fizesse para se conter, começou a soluçar perdidamente. Ike
sentou-se a seu lado e pôs-lhe a mão no ombro.
- Escute, estão a experimentar um novo medicamento. Mandei buscá-lo de avião. Mil dólares cada injecção. Ela começou já a toma-lo há dois dias e os glóbulos vermelhos
já aumentaram. É cedo demais para ter esperança, mas, se as coisas continuarem assim...
- Quer dizer que há esperança?
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- Há esperança que ela saia a andar do hospital, em vez de sair dentro de um caixão. Há esperança de que ela possa viver uOs tempos mais, talvez seis meses, e,
quem sabe?, talvez então já tenham achado a cura ou descoberto um outro medicamento milagroso.
- Que posso eu fazer? - perguntou Jerry.
- Apenas ficar calado. Faça com que Christie Lane deixe de chatear com essa história de que o espectáculo não pode parar. E diga a ela que o lugar continua à espera.
- Já disse.
Ike abanou a cabeça.
- O pior é que, se o medicamento der resultado, o médico diz que a melhora vai ser dramática: em menos de uma semana ela ficará boa. Por quanto tempo, ninguém
sabe. Para que diabo quer ela trabalhar? Tem tão pouco tempo!
- Porque ela acha que talvez você a peça em casamento, mas só se ela estiver a trabalhar e for independente.
- Oh, pelo amor de Deus - Ike Ryan levantou-se e foi até à janela.
Jerry dirigiu-se para a porta.
- Mas, como você diz, ela não vai durar muito tempo. Não precisa de preocupar-se com isso. É melhor que ela trabalhe. Só assim acreditará na história da anemia.
Ike voltou-se e os dois apertaram solenemente as mãos.
- Se alguém souber que ela tem leucemia, juro que lhe parto a cabeça - disse Ike.
Jerry prometeu que nada diria a ninguém, mas sabia que não cumpriria a palavra. Tinha de dizer a Robin. Amanda tinha tão pouco tempo, e Robin era o único homem
que lhe interessava. Via-se que ela gostava de Ike, que gostava dele, mas nunca olharia para ele como antes olhava para Robin. Mas esperaria alguns dias, até ver
como ela reagia ao novo tratamento.
Ike Ryan acompanhou-o até à porta e depois voltou lentamente para o quarto de Amanda. Endireitou-se, afivelou um sorriso, e depois abriu a porta e entrou. Uma
enfermeira estava
199
a retirar a agulha do braço de Amanda. - Esta noite vou trazer champanhe e uns livros novos, mas
agora tenho de ir trabalhar. - A meio caminho da porta oltou-se.
- A propósito, querida, há uma coisa que sempre quis perguntar-te. Queres casar comigo? Não precisas de me
dar a resposta antes de, pelo menos, dez minutos. Telefonarei
para ti quando chegar ao estúdio.
Amanda reagiu bem ao novo medicamento. Numa semana, a sua conta de glóbulos vermelhos era normal. Ike estava ladiante, embora o doutor Aronson o tivesse prevenido
de que se tratava de uma melhoria, e não da cura. - Por enquanto, porém, ela pode levar uma vida normal,
não é? - perguntara Ike.
- Deixe-a fazer o que ela quiser. Só Deus sabe até quando ela se sentirá bem - respondeu o médico. - Mas quero que
ela vá todas as semanas ao meu consultório,
fazer um exame de sangue. Temos de controlar o número de glóbulos vermelhos, - Todas as semanas? Ela vai suspeitar, - Não, o seu estado de espírito é excelente
e ela não tem a menor ideia de que está seriamente doente. Ike foi buscá-la ao hospital.
- Acabei de alugar um palácio em Canyon Drive. Espera tté veres que lugar! Mudei-me ontem. Tem tudo, até cozinheira e mordomo. Quando queres casar, querida?
- Quando terminar o programa. - Estás a brincar? Ainda faltam seis semanas. - Seria horrível continuar a trabalhar com Christie, se ele
soubesse.
- E quem disse que tens de continuar a trabalhar com ele? Deixa esse diabo de programa.
- Isso não seria justo para com Jerry; ele deu-me o trabalho quando eu precisava. As raparigas que experimentaram, quando estive de cama, não resultaram. Estão
todos tão conItentes por eu voltar a tempo do programa de amanhã!
200
- Mesmo assim, acho que devias esperar uma semana pelo
menos.
- Ike, eu já tive quase três semanas de descanso. Sinto-me maravilhosamente bem. - De repente, a alegria desapareceu-Ihe do rosto. -Mas o Dr. Aronson disse que
eu
tinha de fazer exames de sangue todas as semanas. Porque será?
Ike encolheu os ombros.
- Provavelmente, para ter a certeza que não vais voltar a ficar anémica.
- vou comer fígado todos os dias. Estive a ler a respeito do sangue; sei de tudo o que é bom para ele.
- Ora, não vais querer praticar medicina agora - disse
ele.
Ela enfiou o braço no dele e o motorista pegou-lhe na mala.
- Ike, estou tão aliviada. vou confessar-te uma coisa: estava morta de medo, quando entrei no hospital. Nunca tinha estado doente e, no primeiro dia, quando me
vi
deitada na cama, pensei: "Não seria horrível, morrer agora... morrer sem ter tido um filho?" Estou tão satisfeita por estar bem! Sei o que é sentir-se infeliz,
sofrer,
é por isso que quero terminar o programa.
Ike deixou-a no hotel. Assim que chegou ao seu gabinete, telefonou para Jerry.
- Você tem de fazê-la largar o programa. Ela acha que, por sua causa, tem de terminar a temporada. Tem tão pouco tempo de vida, que não quero que ela desperdice
uma única hora, quanto mais seis semanas. Mas, se eu fizer força para a convencer, ela pode ficar desconfiada, arranje um pretexto qualquer!
Jerry olhou para o céu coberto de smog, para o sol fraco, a tentar brilhar através dele. Nem parecia o mesmo sol que iluminava Greenwich no Verão, nem o sol cor-de-laranja
que tinham no Outono. Amanda nunca mais veria aquele sol, nem gozaria o frio seco do Inverno. As lágrimas vieram-lhe aos olhos.
201
Pegou no telefone. A secretária de Robin informou-o que o
sr. Stone estava em conferência.
- Diga-lhe que tire o Sr. Stone da conferência - gritou
Jerry para a telefonista interurbana. - É um caso urgente!
Após alguns minutos, Robin atendeu.
- Sim, Jerry!
- Estás sentado, Robin?
- Vai direito ao assunto. Tenho dez pessoas à espera, na
sala de conferências.
- Amanda está com leucemia.
Seguiu-se um terrível silêncio e depois Robin perguntou:
- Ela sabe?
- Não, apenas três pessoas sabem: o médico, Ike Ryan e
eu. Tu és a quarta. Deram-lhe um novo medicamento que
opera milagres. De tal modo que já vai fazer o programa
amanhã. Mas o médico não lhe dá mais do que seis meses de
lida. Pensei que gostarias de saber.
- Obrigado, Jerry. - E Robin desligou.
Amanda sentia-se feliz por estar de volta ao hotel. A sua suite estava cheia de flores. Dúzias de rosas enviadas por Ike, lladíolos mandados pelo hotel, uma planta,
dos colegas de trabalho e um ramo de flores baratas, da estação, com o
seguinte bilhete: "Estou a tirar fotos para a publicidade, telefono para ti às seis horas.
Um grande beijo, Christie." Às quatro horas um empregado entrou, com uma batata cozida
coberta de caviar e creme de leite. Acompanhava-a um recado: Para te aguentares
até ao jantar. Beijos, Ike". Ela achou maravilhoso e comeu a batata, embora soubesse
que tinha de começar a vigiar o peso. Aumentara quase três quilos no hospital.
Às seis horas, o telefone tocou e ela atendeu necanicamente. Devia ser o Christie. - Olá, estrela. Como vais?
Ela ficou um momento sem poder falar. Era Robin, assim como se nada... sem dar explicações...
202
- Acabo de chegar do hospital - conseguiu ela dizer, por
fim- Que houve contigo?
- Anemia. Mas agora estou óptima. Jerry não te contou?
- Estive a viajar, há muito que não falo com Jerry. Escuta, querida, tenho uns assuntos a tratar em Los Angeles e vou chegar no domingo, por volta das cinco da
tarde.
Achas que podes dedicar a noite a um velho amigo?
- Será um prazer Robin.
- Óptimo. Então está combinado: jantar no domingo.
Amanda desligou e recostou-se na almofada. Não havia razão para se sentir emocionada. Certamente, ele só ia ficar uns dias em Los Angeles e pensava que ela estaria,
como sempre, à sua espera. Por isso telefonara. No fim de contas era mais fácil de que ter de procurar alguém.
Hollywood não era o território dele. Não conhecia quase ninguém lá, mas não queria passar uma noite em branco. Muito bem, ela vê-lo-ia - Olá! - e dar-lhe-ia uma
boa lição. Mas como? Não aparecendo? Deixando-o esperar no Chansen's indefinidamente?
Pensou no caso durante uma hora. De repente, veio-lhe uma ideia genial! Mal podia esperar até domingo.

Capítulo décimo quinto

Robin chegou ao Beverly Hills Hotel às cinco horas. O empregado da recepção entregou-lhe um envelope. Dentro havia um bilhete apressadamente escrito por Amanda:
"Querido Robin, hoje é o meu aniversário e Ike Ryan vai reunir um grupo de pessoas. vou ter de chegar cedo, porque sou a convidada de honra. Estou desejando rever-te."
Uma vez na suasuite, Robin releu o recado de Amanda. No fim, havia um número de telefone e um endereço no North Canyon Drive. O seu primeiro impulso foi telefonar
e dizer que esperaria por ela no hotel. Detestava reuniões mundanas. Mas mudou de ideias logo a seguir. Doravante, seria tudo como Amanda quisesse. Meteu a mão
no bolso e apalpou a caixinha com as alianças; se conseguissem sair da festa a tempo, tomariam um avião para Tijuana e casar-se-iam lá. Chamou um porteiro e mandou
pedir um táxi.
North Canyon Drive estava atulhada de carros estacionados. Pagou a corrida e subiu a pé o caminho que levava até à casa. Todas as casas de Hollywood eram enganadoras:
a fachada era sempre modesta, mas quando se entrava era uma verdadeira explosão de luxo. A casa de Ike não era excepção. O
hall de mármore estava super-lotado, o
enorme living tinha o habitual e enorme bar, à volta do qual as pessoas se reuniam. Portas envidraçadas davam para um jardim com uma piscina olímpica; havia mesmo
um recinto de ténis. Robin sentia-se
205
ligeiramente desorientado, apanhado de surpresa por toda aquela gente. Mas logo sorriu: devia ter visto logo. Para Ike, aquilo era uma pequena reunião. Viu caras
conhecidas, caras que tinha visto repetidas vezes na tela. Naquela sala, havia gente capaz de, com os seus ganhos, sustentar um pequeno país: actores, produtores,
donos de estúdios e realizadores, alguns dos mais conhecidos argumentistas e a habitual parte de mulheres bonitas.
De repente, Amanda atravessou a sala para cumprimentá-lo. Tinha-se esquecido como ela era bonita. Não era possível que a morte estivesse alojada naquele corpo
encantador!
- Robin! - exclamou ela, lançando-lhe os braços à volta do pescoço. Ele ficou espantado com aquela demonstração de afecto. - Robin! Chegaste! Que
bom! Oh, mas não deves conhecer muita gente. - Largou-lhe o pescoço, pegou-o pela mão e gritou: - Eh, amigos, atenção!
Todos se calaram.
- Quero apresentar-lhes Robin Stone. Ele acaba de chegar de Nova Iorque. Todos devem conhecer Robin Stone. - A voz dela era sarcástica. - Devem conhecer, é o astro
de Em Profundidade! - O olhar dela era inocente. - Vocês não parecem muito impressionados, mas ele é famoso em Nova Iorque.
Algumas pessoas fingiram reconhecê-lo com acenos de cabeça, mas depressa voltaram aos seus assuntos. Robin fez o possível por não deixar transparecer o espanto
diante do estranho comportamento dela. Mas Amanda limitou-se a encolher os ombros.
- Assim é Hollywood - disse ela, sorrindo. - Ainda se recusam a reconhecer que a televisão veio para ficar. Quanto a programas de reportagens e noticiários, querido,
noticiários é coisa que eles só ouvem nos rádios dos carros, a caminho do estúdio, e isso quando interrompem um programa de música. Por isso, desculpa-nos se
não te conhecem e festejam. Paul Newman, Gregory Peck, Elizabeth Taylor, esses são os nomes nesta terra.
206
Levou-o até ao bar, para tomar uma bebida. Ike Ryan urnprimentou-o efusivamente e depois atravessou a sala, para receber um realizador que acabava de entrar. Amanda
colocou um copo na mão de Robin.
- Cheio da tua marca predilecta de água gelada. Mas esta é autentica, importada.
De repente, fez-se silêncio, logo seguido de um crescente murmúrio, à medida que todos os olhos se fixavam no belo rapaz que acabava de entrar.
- Veja quem é! - exclamou Amanda. - Ike conseguiu até fazer com que o Grande Dipper viesse. - Os olhos dela brilhavam, ao ver Ike conduzir o rapaz para o bar.
- Por acaso conheces este tipo? - perguntou Ike a rir. Amanda fez um sorriso encabulado.
- Ora, Ike, todos conhecem Dip Nelson. É uma honra, o senhor ter vindo, Sr. Nelson. Ike passou o seu último filme para mim, quando eu estava no hospital.
Dip parecia levemente embaraçado; Robin também. Que diabo teria Amanda? Então ela disse:
- Dip, quero apresentar-lhe Robin Stone, um velho amigo. É quase como se fosse da família, não é, Robin?
Dip apertou a mão de Robin, mas logo foi cercado por uma porção de mulheres e foi literalmente carregado para o outro lado da sala.
- Pobre Dip, essas mulheres não lhe dão folga! - exclamou Amanda.
Ele sorriu.
- Ora, o Grande Dipper sabe muito bem tomar conta de si. Não tem uma gota de talento, apenas músculos, covinhas e beleza. Mas é o actual campeão de bilheteria
e
isso é o que interessa.
Amanda chegou-se perto de Ike.
- Querido, por falar em bilheteira... olha quem chegou!
Robin ficou a olhar, enquanto Ike e Amanda se afastavam para cumprimentar um homem esbelto e bem parecido:
207
Alfred Knight, o actor inglês que estava a fazer tanto sucesso em Hollywood. Olhou em redor, à procura de Chris Lane, e descobriu-o no outro lado da sala,
a um canto. Pobre Chris, não só parecia completamente deslocado, como a precisar de um programa para reconhecer os presentes. Ainda pensava que estava noivo de
Amanda. Robin terminou o seu vodka, pediu mais e permaneceu no bar. A noite prometia ser muito divertida.
Os empregados começaram a colocar as mesas à volta da piscina. De repente, Robin lembrou-se que o aniversário de Amanda era em Fevereiro. Ou seria em Janeiro?
Tinha
que ser num desses meses: lembrava-se de o terem celebrado durante uma tempestade de neve.
Ia dar início ao seu quarto vodka, quando se ouviu um rufar de tambores. Amanda estava de pé no meio da sala.
-Atenção! Queremos fazer um comunicado!
Ergueu a mão. Um enorme brilhante fulgia-lhe no dedo.
- Ike deu-me este anel hoje. Mas não é um presente de aniversário. A verdade é que não estou a fazer anos e sim a anunciar o nosso noivado!
Toda a gente começou a falar ao mesmo tempo. Christie Lane parecia ter levado um ferro na cabeça. Ficou imóvel, mudo, com o olhar vidrado. Um dos convidados correu
para o piano e pôs-se a tocar a Manha Nupcial. A pouco e pouco, toda a gente voltou aos seus grupinhos. Do outro lado da sala, o olhar de Amanda cruzou-se, por
um
momento, com o de Robin e ele notou a expressão de triunfo nos olhos dela. Robin ergueu o copo, num brinde silencioso. Depois ela deu meia volta e deixou que Alfie
Knight a conduzisse para outra parte da sala. Robin viu Ike travessar para a ante-sala. Pousou o seu copo e foi atrás dele.
Ike sorriu, ao ver Robin aproximar-se.
- Que tal? Tens de admitir que sou um verdadeiro saco de surpresas.
- Quero falar contigo, meu caro.
- O quê? Não me dás os parabéns?
208
Onde podemos falar? É coisa de pouco tempo.
Ike fez sinal a um empregado para que lhes trouxesse bebidas e depois levou Robin para a beira da piscina, que estava
deserta.
Pronto, fala. Que me querias dizer. - perguntou.
Quero falar-te sobre Amanda.
- É verdade, já andaste com ela. - Ike engoliu de um trago o seu uísque puro. Depois olhou para o copo de Robin. Não brindas à felicidade do noivo?
- Sei tudo a respeito de Amanda - disse Robin, calmamente.
Ike franziu a testa.
- Que é que sabes?
-Jerry Moss é meu amigo.
- Eu mato aquele mexeriqueiro. Disse-lhe para não abrir a boca.
- Pára de armar em duro. Jerry fez o que achou que devia fazer. Vim até aqui para pedir Amanda em casamento.
- Ela não precisa da tua caridade - retorquiu Ike.
- Não é o que lhe estás a dar?
- Tu é que o disseste, e não eu.
- Ike, divertimo-nos juntos e eu não tenho nada contra isso. Mas Amanda não serve para essas coisas, principalmente agora.
O sorriso de Ike tornou-se frio.
- Se eu não gostasse tanto de ti, partia-te a cara agora mesmo. Que espécie de desavergonhado pensas que sou?
- Nenhuma espécie em particular, apenas desavergonhado. E eu não quero que Amanda sofra.
Ike olhou para ele com curiosidade.
- Queres dizer que a amas?
- Gosto dela. Quero fazer com que ela tenha um fim de vida feliz.
Ike assentiu.
- Então estamos no mesmo barco.
- Estás a ser sincero?
209
Ike curvou-se sobre a mesa.
- Ouve, acho que não é a hora de brincar e fingir. É a hora da verdade. Ama-la? É só dizeres que sim e irei agora mesmo buscar Amanda, para ela escolher enrre
nós
os dois. Mas, se vieste aqui para armar em generoso, é melhor desistires. Ela não precisa dos teu favores; quando chegar o momento, acho que estou melhor aparelhado
para lhe dar o que ela precisa.
- Está bem, meu caro. Mas já que estamos a jogar o jogo da verdade - o rosto de Robin estava sério - tu estás apaixonado por ela? Acho que ainda não respondeste
a esta pergunta.
Ike levantou-se e olhou para a piscina.
- Claro que não - respondeu. - Mas tu também não.
- Foi o que pensei, desde o começo - disse Robin. Porquê, então o casamento?
- Porque não? - contrapôs Ike.
- Ora, acho que o casamento vai amarrar-te. Ike sorriu.
- Sim, mas Amanda pode ajudar-me.
- Não percebo.
- Talvez não tenhas lido os jornais. No mês passado, a minha mulher, a minha ex-mulher, pois há cinco anos que estávamos divorciados, resolveu suicidar-se. Graças
a Deus que isso foi em Wisconsin. Tinha ido lá visitar o meu filho, aproveitando as férias da Páscoa. Ele estuda lá, num colégio interno. Ela tomou comprimidos
para dormir, um frasco inteiro, e deixou um bilhete dizendo que não podia viver sem mim. Ainda bem que Joey, o meu filho, agarrou o bilhete e mandou chamar-me.
Espalhei alguns milhares de dólares e consegui fazer com que a coisa parecesse acidental. - Ike suspirou. - Havia cinco anos que eu não a via. Nunca a amei. Fomos
colegas de escola e ela entregou-se a mim no último ano. Casámos, mas ela nunca se adaptou a mim, sempre a encher-me os ouvidos, a querer que eu vendesse gravatas
para o tio dela. Aguentei até Joey ter doze anos, depois desapareci. Mandava-lhe todo o dinheiro que uma mulher podia gastar.
210
Caramba, até concordei em continuar a pagar-lhe a mesada se ela voltasse a casar. Em vez disso ela resolveu viver no passado e
vingar-se de mim acabando com a vida.
Precisavas de ter visto o tal bilhete; até parecia que eu era o pior patife deste mundo. Eu e o Joey queimámo-lo, mas andam por aí a dizer que ela se suicidou.
Depois, duas outras malucas também tentaram matar-se por minha causa; não percebo porque é que essas fulanas gostam tanto de tomar comprimidos para dormir. Não
acho que seja assim tão saboroso. Mas uma dessas revistas escandalosas pôs um cabeçalho assim: AS MULHERES MORREM POR IKE RYAN. É uma cidade de loucos: tem falta
de homens. As mulheres não podem ver um cabo de vassoura de fato, agarram-se logo. Metade das estrelas que estás a ver ali vieram com os maricas dos seus cabeleireiros.
De qualquer modo, a minha reputação não é das melhores. Estou a precisar de limpá-la. Quando Amanda desaparecer, toda a gente olhará para mim de maneira diferente.
Lembrar -se-ão que eu fui o tipo que fez com que ela tivesse um fim feliz. vou transformar os últimos meses que ela tem de vida numa autêntica festa. E, quando
o caixão se fechar sobre ela, vou dar-lhe o maior funeral que já se viu.
Robin ficou um momento sem saber o que dizer. Depois sibilou, numa voz rouca:
- Queres aproveitar-te dela. Seu filho da puta, queres aproveitar-te dela.
- Digamos antes que eu preciso dela, mas não tanto como ela precisa de mim. - Ike aproximou-se, o rosto duro. Ouve, eu conheço-te. Tens gelo nas veias em vez de
sangue, por isso não admito que me julgues. Ela gosta de mim e eu vou fazê-la feliz. vou alugar aviões para ela dar a volta ao mundo. vou cobri-la de brilhantes.
Que lhe podes dar? Sexo? Eu também posso... embora só Deus saiba até quando ela terá forças para isso. Mas podes dar-lhe mais alguma coisa? Conheço o passado
dela e acho que ela agora quer tudo o que não teve: luxo, uma vida sem preocupações. Achas que lhe podes dar isso?
211
Robin levantou-se. O seu olhar era tão duro como o de Ike. Os dois defrontaram-se.
- Não, não posso. Mas é melhor cumprires o que dizes. Se for só palavreado, Ike, descobri-te-ei, onde quer que estejas. E quebrar-te-ei todos os ossos do corpo.
Durante um momento, os dois olharam-se num silêncio tenso. Por fim, Ike sorriu e estendeu a mão.
- Combinado. - Deu meia volta e entrou em casa. Robin não lhe apertara a mão. Afundou-se numa poltrona de vime, a beber automaticamente. Sentia-se derrotado, vazio.
Ike não se preocupava com Amanda; preocupava-se com a sua própria imagem. Contudo, qual era a diferença? Os resultados eram a única coisa que contava. Olhou para
o relógio. Ainda era cedo; podia tomar o avião da meia-noite.
- Não serve de nada. A esta hora, não vai ficar bronzeado
- Robin olhou para cima. Era Dip Nelson.
- Um pouco de sol far-me-ia bem - riu. Dip acendeu um cigarro.
- Acha mesmo? Por acaso, será de Nova Iorque? Robin fez que sim.
- Eu também... quer dizer, nasci lá. Mas fui criado aqui, na Califórnia. Também faz parte da industria?
- Não, graças a Deus.
- Imaginei isso. - Olhou indagadoramente para Robin.
- Deixe-me adivinhar: é parente da noiva?
- Distante. - E acrescentou: - A propósito, sabe que sou seu admirador? Vi alguns dos seus filmes. Você monta muito bem a cavalo.
Dip olhou para ele com ar desconfiado.
- Está a querer-me gozar?
- Claro que não.
- Então que história é essa? Que acha da minha actuação?
- Horrível - disse Robin, a sorrir.
Durante um segundo, Dip hesitou entre a raiva e a acção, mas depois riu e estendeu a mão:
- Bem, pelo menos você é sincero.
212
- Não acho que o facto de representar melhor ou pior tenha muita importância - disse Robin. - O que interessa,
no cinema, é a facilidade de se comunicar com a plateia
e, a julgar pela recePÇão que teve aqui, isso não lhe falta.
Dip deu de ombros.
- Como disse, montar bem a cavalo foi o que me valeu, durante anos. Fiz não sei quantos westerns de segunda até que de repente, ficaram na moda e tornei-me um
astro.
Mas o meu novo filme é que está a provocar toda esta onda. Estreia-se na próxima semana em Nova Iorque. Nele, faço o papel do anti-herói: gravata fina, fato cinzento,
igual a você. Eh, você é desse tipo, não é?
- Mais ou menos.
- Upa, vem aí a Bibi. Vamos embora.
- Quem é a Bibi?
- O marido dela é um produtor famoso. Que tal sairmos à sucapa desta festa?
- Acho que você sabe ler o pensamento - disse Robin.
- Venha comigo! - Dip dirigiu-se para o lado das cabinas. - Agora fique quieto. Ela está bêbeda e não ficará aqui.
Ficaram os dois escondidos na escuridão das cabinas, enquanto a mulher do produtor cambaleava à volta da piscina, a chamar por Dip. Por fim ela desistiu e entrou
em casa.
Dip desapertou o colarinho.
- Livra, não há nada de pior do que uma fulana de mais de quarenta com cio. Oiça: cá para nós, não pense que, por eu ser artista de cinema, ando para aí a armar
em conquistador. Tenho a minha garota e chega. Bem, às vezes precisamos de nos armarmos em galãs para apanhar alguns papéis, mas eu não sou dos que correm atrás
de uma fulana como a Bibi, como muitos por aí.
Estremeceu.
- Não há nada de pior: uma fulana de quarenta anos com um corpo de vinte, até que vamos para a cama com ela: aí fica que nem geleia, tão mole que mete nojo, coxas,
barriga, peitos caídos.
213
- Parece que fala por experiência própria.
- Tive que escolher entre montar cavalos toda a vida ou montar Claire Hall durante um filme. Escolhi Claire e tornei-me um astro. Vamos, o caminho está livre.
Podemos passar por baixo da cerca.
Levou Robin até ao Cadillac mais comprido que ele já tinha visto.
- Gosta? - perguntou Dip, orgulhoso.
- Bem, não há dúvida que chama a atenção.
- Mandado fazer de encomenda: é o único conversível de ouro da cidade. Ouro autêntico: a pintura é de ouro de vinte e dois quilates e os estofos são de pelica
dourada. Faz parte da minha publicidade. O homem de ouro: cabelo dourado, carro dourado. Só os estofos custaram-me dois mil dólares.
O carro desceu a rua. Dip tomou o caminho do Sunset Boulevard.
- Tem alguma coisa de especial para fazer? Robin sorriu.
- Só apanhar o avião da meia-noite para Nova Iorque.
- Um tipo como você deve sentir-se deslocado nesta terra.
- Sem dúvida.
- O que interessa é a gente vencer, então sentimo-nos à vontade até na China. Quem me ensinou isto foi a minha velhota. Morreu no asilo dos artistas de Hollywood.
- Sinto muito.
Dip encolheu os ombros.
- Ora, até teve um fim feliz. Eu ainda não era famoso, de maneira que não tivemos outro remédio. Mas até é um lugar bastante
bom. Cada um tem o seu bangaló, toda
a gente se conhece e fica a conversar sobre os velhos tempos. A minha mãe era umaextra; o meu pai era o duplo de Fred Thompson e tom Mix, um dos melhores duplos.
Isso, antes de eu nascer. Foi ele quem me ensinou a montar. Morreu ao fazer uma cena perigosa e a minha mãe ficou comigo para sustentar. E já não era nenhuma jovem.
Eu nasci quando ela estava na mudança de idade. Dizem que quem nasce tarde é sempre mais inteligente.
214
pode não acreditar, mas eu nunca fiz nem o liceu.
Sim, mas parece que não perdeu nada com isso - disse
Robin.
- Às vezes sinto a falta, e mesmo dúvidas. O cinema até é fácil, só temos que dizer o que está escrito... mas as entrevistas são o diabo; sei que não sou uma maravilha
a falar, porque às vezes os jornalistas pensam que estou a brincar com eles, imitando a fala dos cow-boys.
- Pode dobrar na próxima rua e deixar-me no Beverley Hílls Hotel, se não incomodar - disse Robin.
- Para quê tanta pressa? São só sete horas. Ou tem alguma coisa para fazer?
- Não, mas você deve ter. Dip riu.
- É lógico que tenho! Vamos apanhar a minha pequena: ela canta numa boite do Strip. Aguente até topá-la, só tem dezanove anos mas é uma garota de primeira.
- Você não acha que três é demais?
- Qual quê! Quero que leve uma boa recordação da única noite que passou em Hollywood. Sei como se sentiu naquela festa. Uma vez aconteceu-me isso e ninguém me
estendeu a mão. Então, resolvi conversar um pouco com o pianista, até que um tipo me pediu para cantar. Pensaram que eu fazia parte daorquestra. Quandoo vi lá
na festa, pensei: "Caramba, lá está um tipo perdido, sem conhecer ninguém, enquanto eu, Dip Nelson, sou o Maior. Não vou fazer como aqueles tipos que não me ligaram,
quando eu não
era ninguém." "Tá. maluco se eu ia enfeitar a festa de uma pistoleira que nem essa Amanda. Só compareci por causa de Ike Ryan, e fui logo aproveitando para desaparecer.
Mas agora vou mostrar-lhe como nos divertimos, em Hollywood.
- Acho que já fez demais - disse Robin. - Não há razão para gastar o resto da noite comigo.
- Nada disso, que diabo! Eu ia mesmo ficar sentado sozinho a ouvir Pauli cantar. Ela trabalha numa boite de segunda, mas canta melhor do que Judy Garland ou qualquer
215
outra. Vai acabar por destroná-las a todas, verá. Mas primeiro vou ter de lhe dar um pouco de classe. É uma garota e tanto! Era virgem quando nos conhecemos e
eu sou tudo para ela. Mas não vamos poder casar enquanto eu não tiver feito pelo menos mais três fitas quentes. Sei que hoje sou o maior, mas graças a uma fita.
vou precisar de fazer mais duas, para ver. Então, poderei casar com Pauli: nenhum estúdio vai poder dizer-me o que eu devo fazer. Enquanto isso vou ver se lhe
dou um pouco mais de classe. Talento e coração tem ela, para dar e vender. Aguente só até ver.
Encostou o carro à porta de um pequeno restaurante.
- Só tá a ganhar setenta e cinco dólares por semana, mas deixam-na cantar o que quer e não precisa de se sentar com os fregueses.
O proprietário desmanchou-se em atenções para com Dip e conduziu-o a uma mesa encostada à parede. A sala estava lotada até metade. Os homens vestiam camisas desportivas
e a maioria das mulheres usavam calças compridas. Devia haver cerca de vinte fregueses no bar.
- O número dela é aqui a dez minutos, depois ela senta-se connosco. - Viu Robin olhar para o relógio. - Não se preocupe por causa de Amanda, eu digo-lhe que o
tirei de lá.
- Não é isso, é que tenho de apanhar a mala e pagar ao hotel.
- Eu levo-o ao aeroporto.
- Não é preciso.
O rosto de Dip abriu-se num sorriso.
- Meu caro, cá o paizinho gosta de fazer as coisas bem. Oiça, que é que faz em Nova Iorque? Disse que trabalhava numa agência de publicidade, não foi?
- Não. Na Internacional Broadcasting.
- A única coisa que eu vejo na TV, são os filmes. Acho que posso aprender alguma coisa. Que faz na IBC?
- Reportagens.
- Ah, é repórter? Escreve?
- Às vezes.
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Aposto que cursou a Universidade.
Robin sorriu.
- Repara-se?
- Sim. Você fala bem como o diabo. Mas acho que cursar a universidade é perder tempo, a menos que se queira ser
médico ou advogado. Eu quero ser o maior astro de
Hollywood! Não não descansarei enquanto não for. Quero poder mandar todos para o inferno!
- E Pauli?
- Pauli é a minha pequena. Quando nos casarmos, se ela quiser ficar em casa e esquecer a carreira, para mim, está bem. Tem talento que se farta, mas está sempre
a dizer que só quer casar e ter uma porção de filhos. E você, aposto que tem mulher e filhos?
- Não.
- Só uma pequena, como eu?
- Nem isso.
Dip olhou para ele, de repente.
- Porque não? Eh, não me vai dizer que é maricas! Robin deu uma risada.
- Não, até gosto muito de mulheres.
- Então, qual é o problema? Caramba, um sujeito da sua idade já devia ter casado e com filhos. Eu ainda só tenho vinte e seis anos.
O sorriso de Robin desconcertou-o.
- Está bem, tenho trinta e um. Mas posso passar por vinte e seis, não posso?
- Pode, pelo menos em Hollywood.
- Isso é o que interessa. Quantos anos tem?
- vou fazer quarenta, para o mês que vem.
- E nunca se casou?
- Nunca.
- Nem nada de pequena?
- Tinha, mas ela ficou noiva de outro. Dip sacudiu compassivamente a cabeça. - Foi duro, aposto. Não é fácil, encontrar uma pequena
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decente, principalmente aqui. Todas essas fulanas andam apenas em busca de fama e dinheiro.
- E você não anda? - perguntou Robin. Dip pareceu ofendido.
- É lógico. Mas eu não lhe menti. Só quando é para melhorar a minha carreira. Quando tou com gente de quem gosto sou cem por cento fixe.
- Quer dizer que gosta de mim?
- Sim, acho que gosto. Mas oiça, nem sequer sei o seu nome.
- Robin Stone.
Dip olhou para ele desconfiado.
- Tem a certeza de que não é maricas? Oiça, se for é melhor desaparecer. Pauli reconhece maricas a um quilómetro de distância.
Deu-lhe um murro no braço.
- Aí vem ela! Aguente só para ver que talento! Robin inclinou-se para a frente. À luz dospotlight viu uma
moça esbelta e de aspecto muito jovem. Tinha cabelos anelados e ruivos, que deviam ser naturais, a julgar pelas sardas nos seus ombros. A boca era grande e os
olhos enormes e de um azul inocente. O nariz era curto e quase que comicamente arrebitado. Mas quando ela começou a cantar, ele ficou decepcionado. Tinha uma bela
voz, mas sem brilho. Uma imitação grosseira de Judy Garland e Lena Horne. Tinha ouvido mais de cem jovens como Pauli, mas mais bonitas. A única vez que lhe prendeu
a atenção foi quando imitou Carol Channing: tinha uma indiscutível veia cómica. O seu número terminou com alguns aplausos e entusiásticos assobios de Dip.
- Então, que foi que lhe disse? - perguntou ele batendo nas costas de Robin. - Não é uma beleza? Não tem classe? Esta pocilga até fica a parecer o Waldorf quando
Pauli começa a cantar!
Os dois levantaram-se, quando ela se aproximou da mesa.
- A minha noiva, Pauli. Pauli, este é Robin.
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EEla sorriu levemente e sentou-se. Depois olhou para Robin com curiosidade.
- É de Nova Iorque - explicou Dip.
- Ouve, Dip, o teu agente de imprensa disse para telefonares para ele com urgência - disse Pauli, sem prestar atenção.
Dip levantou-se.
- Fiquem a conversar. Robin trabalha na IBC.
Pauli esperou até que Dip se afastasse. Depois voltou-se para Robin.
- Que é que está a fazer com Dip?
- Conhecemo-nos numa festa. Ela franziu a testa.
- Que tem um tipo que trabalha com máquinas de comum com Dip?
- com máquinas?
- Ele não disse que você trabalhava na IBM?
- Na IBC; International Broadcasting.
- Ah! Eh, será que poderia arranjar-me uma possibilidade no programa de Christie Lane?
Robin decidiu que, efectivamente, não gostava dela, mas, no fim de contas, devia um favor a Dip.
- Posso dar um jeito. Os olhos dela brilharam.
- Sério, acha que pode ser? - Mas logo ficou desconfiada. - Que faz na IBC?
- Noticiários.
- Como Huntley e Brinkley?
- Mais ou menos.
- Então, porque é que nunca ouvi falar de si? Costumo assistir ao noticiário das sete. Conheço Walter Cronkite, mas não a si.
Ele sorriu.
- Você estragou-me a noite.
- Como me pode pôr no The Christie Lane Shou?
- Pedindo a ele.
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O olhar dela era calculista. Arriscando a possibilidade de ele estar a falar a verdade, ela resolveu mudar de táctica.
- Se pode pedir a ele, se der um jeito, eu... bem, eu faria tudo para aparecer no programa.
- Tudo? - Robin sorriu, olhando-a bem nos olhos.
- Sim, se é isso o que quer.
- E o que quer você?
- Dar o fora deste chiqueiro.
- Dip vai dar um jeito nisso. Ela encolheu os ombros.
- Olhe, você não o conhece. Sei que não são velhos amigos, porque nunca o ouvi falar de si.
- Acertou.
- Muito bem, não diga nada a ninguém - disse, baixando a voz - mas ele não é nenhum Lawrence Olivier. É um pedaço de homem, mas não tem talento. Até aqui, teve
foi muita sorte.
- Pelo que Dip me disse, pensei que não tinha ambições, só queria casar e ter filhos.
Ela fez um gesto impaciente com a mão.
- Você acha que eu ia cantar para estes tipos três vezes por noite se não soubesse que tinha futuro? Eu sei que tenho talento.
- E Dip?
- Gosto dele. Gosto bastante. Dei-lhe a minha virgindade. Juro por Deus. Quando o conheci era pura. Mas eu conheço-o. Dip só vive para a carreira. Não aguentaria
nem dois minutos com uma garota que também tivesse ambições. Quer ser ele e só ele. Então finjo que não quero nada. Fico sentada a ouvi-lo contar como a carreira
dele está a subir. Mas por dentro fico a arder de raiva, porque sei que eu sou melhor. Ele só está a subir porque é bonito. Também é só o que tem. Inteligência,
nem uma gota.
- Mas ele quer ajudá-la. Ele próprio me disse - disse Robin.
- Sim, ele diz isso. Conversa fiada. Oiça, arranja-me
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mesmo uma apresentação no espectáculo de Christie Lane? - Se eu arranjar, ficará agradecida? .- Oiça, é casado? - Talvez.
- Bem, então põe-me no programa dele e a qualquer hora, em qualquer lugar, é só estalar os dedos que eu vou a correr. Pago sempre as minhas dívidas, tenho um grande
sentimento do dever. - Robin puxou um cigarro. Ela pegou nos fósforos e acendeu-o. Inclinou-se e perguntou? - Então, topa ou não?
Ele sorriu.
- Queres saber de uma coisa, putinha? - falava suavemente. - Quase que valeria a pena... por causa de Dip.
- Não estou a perceber.
Robin continuou a rir, com a voz calma.
- Tens razão numa coisa: Dip não tem um pingo de inteligência, ou então já não estaria iludido contigo. Acredita que és um anjo, quando és apenas uma prostituta,
sem talento e sem nada.
Levantou-se e sorriu. A calma dele enfureceu-a.
- Se pensa que tenho medo que vá contar ao Dip, o que lhe disse, está muito enganado. -Ela sorriu. -É só abrir essa boca fedorenta, que eu digo a ele que me fez
uma
proposta.
- Diz a Dip que recebi um telefonema. - Colocou sobre a mesa uma nota de dez dólares.
- Para que é isto? - perguntou ela.
- Acho que o preço de uma prostituta é de cem dólares à hora. Fica com isto como sinal. Acho que vais longe.
E Robin saiu.

Capítulo décimo sexto

Christie Lane terminou o programa na primeira semana de Junho. No dia seguinte partiu para Nova Iorque.
No dia 4 de Julho, Amanda e Ike casaram-se em Las Vegas. As primeiras páginas de todos os jornais apresentaram fotografias do casamento: Amanda e Ike rodeados
por vários artistas que estavam a representar em Las Vegas. Iam passar a lua-de-mel na Europa.
Nessa noite Chris fez vigília, na sua suite do Astor Hotel. Eddie, Kenny e Agnes faziam-lhe companhia.
Chris andava de um lado para o outro.
- Bolas, se ao menos eu me embriagasse! Mas não posso com a bebida.
- Vamos dar uma volta por aí - sugeriu Eddie.
- Fui tão bom para ela - repetiu Chris. - Até ajudei a procurar um lugar para ela deixar o diabo do gato.
- Que será feito do gato? - perguntou Agnes.
- Que se dane. Era a única coisa a que ela ligava mesmo.
- Aposto que ela vai mandar o gato, quando voltar da Europa - disse Agnes.
- Estou cagando para ela! - rosnou Christie.
- Bem, foste tu que puxaste o assunto! - disse ela.
- Fui tão bom para ela - repetiu Chris. - Porque fez ela aquilo comigo? No fim de contas, sou muito mais bonito do que Ike Ryan.
- O queuuuuuê? - disse Agnes. Chris avançou para ela.
- Achas que ele é bonito?
- É sexy - respondeu Agnes, perversamente. Eddie mandou-lhe um olhar fulminante.
- Eh, Aggie, estás a querer perder o lugar? Não é hora de
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dizer piadas.
Mas eu acho que ele é sexy - teimou ela. Escuta, Chris - interrompeu Kenny - que tal se
fossemos reservar uma mesa no Copa?
Conheço umas meninas que trabalham como coristas. Há três novas. Uma é mesmo boa e só tem dezanove anos. Aposto que vai gostar de ti. É uma jovem cem por cento.
Chris deu um chuto com tanta força na mesa do centro, que a perna se soltou e a mesa caiu.
- Não quero saber de jovens cem por cento! Tive uma que era cem por cento; nem quero lembrar-me do olhar que ela me deitava quando eu dizia uma palavra feia na
sua frente! E vê o que ela me fez! Nem uma fulana de teatro de revista faria isso. Estou farto de armar em bom tipo e não quero mais nada com jovens cem por cento.
Quero uma fulana qualquer! Assim ninguém sofre. Arranjem uma fulana para mim: a mais vadia da cidade!
- Telefone para Ethel Evans - disse Eddie, imitando um groom de hotel.
Chris estalou os dedos.
- Isso mesmo! Eddie riu.
- Ora, eu estava a brincar. Ouve, Chris, pelo menos arranja uma fulana bonita. Há aí uma de San Francisco...
- Não quero saber de fulanas bonitas nem de San Francisco. Quero Ethel Evans!
- Mas ela é um bofe! - disse Kenny.
- Não quero uma rainha de beleza, já disse. Quero uma fodedora! - Franziu a testa. - Se a malta me vir com uma gaja como ela, vão pensar que Amanda não era o meu
tipo, e é isso que eu quero. Tratem de me arranjar Ethel!
Eddie telefonou para Jerry Moss, em Greenwich. Jerry suspirou e prometeu fazer o possível. Foi dar com Ether em fire Island.
- Que diabo de história é essa? -perguntou ela. - Estás a brincar comigo?
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- Não. Christie Lane em pessoa pediu para te ver.
- Que maneira de falar!
- Ethel, toda a gente sabe que deste para todos os astros convidados do programa de Christie.
- Para todos não. Não te esqueças que eles fizeram metade da temporada em Hollywood.
- Na próxima temporada, vão ficar aqui mesmo.
- Óptimo. vou comprar um diafragma novo.
- Ethel, Christie está mesmo em baixo. Precisa de ti.
- Mas eu não preciso dele.
- Peço-te que vás até lá.
- É uma ordem? - A voz dela era gelada.
- Digamos que é um pedido. - A resposta é não.
- Então, talvez tenha de telefonar para Danton Miller e pedir-lhe para te tirar do programa. -Jerry sentia nojo de si próprio, mas tinha de fazer aquilo.
Ela riu.
- Não tenho medo de Danton. Manobro-o à vontade.
- Não contra a vontade do patrocinador. E, quer queiras ou não, Ethel, é justamente isso o que eu sou.
- A sério? Pensei que fosses o criado de quarto de Robin Stone.
- Não vou falar contigo em bases pessoais - replicou ele mantendo a voz calma.
- Oh, desculpa. Realmente tudo isto é impessoal. Telefonar-me e dizer-me para ir aí, para trepar com Chris Lane.
- Como queiras. Foste tu que conquistaste essa reputação. E eu não tinha nada que estar a telefonar para ti num Quatro de Julho. Só faço isso, porque penso no
programa. Evidentemente, não tens ideia do que seja trabalhar em equipa.
- Ora, pára com essa publicidade - cortou ela - quero que percebas uma coisa. Não sou nenhuma prostituta. Quando durmo com um tipo, é porque gosto dele. Durante
um ano e meio ele nem sequer olhou para mim, graças a Deus! E agora,
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DE repente, transformei-me em Elizabeth Taylor. Que história é essa?
- Amanda e Ike Ryan casaram-se hoje.
Após uma pequena pausa, ela riu.
- Eh, o teu amigo Robin Stone também deve estar em lixo. Porque não vou até lá consolá-lo, hem? Para isso sou
capaz até de ir a nado.
- Vens ou não vens?
- Está bem. Onde mora o nosso D. Juan?
- No Astor.
Ela riu de novo.
- Sabes uma coisa? Toda a minha vida quis conhecer alguém que morasse realmente no Astor!
Christie estava sozinho quando ela chegou.
- Eh, que história é essa? - perguntou ele. - Estás de calças.
- Como queria que eu viesse? Nua?
Ele não riu.
- Não. Mas a malta está toda no Copa e eu estava à tua espera para ir até lá.
Ela olhou para ele.
- No Copa?
- Vamos! - ordenou ele. - Apanhamos um táxi e
vamos até tua casa. Pões um vestido e vamos até ao Copa.
No táxi, ele sentou-se do outro lado do banco, calado e com u olhar alheio mas, assim que entraram no Copa, toda a sua
atitude mudou. Acendeu um sorriso, segurou-lhe no braço e
apresentou-a a toda a gente com ar de proprietário. Seguroulie na mão durante todo o espectáculo e até lhe acendeu o
cigarro. Ethel estava ansiosa para que tudo aquilo acabasse. Já
tinha visto o espectáculo, estava cansada, e estava desejando
ir embora.
Eram quase três horas quando voltaram ao Astor. Que noite! Depois do Copa, o bar do Copa, a Brasserie, um salto
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ao Stage Delicatessen. Agora, finalmente, estavam sós. Ethel despiu-se sem uma palavra. Ele já estava nu à espera dela, na
cama. Ethel olhou para ele e sentiu-se
enojada. Havia algo de repulsivo naquele corpo flácido. Como era possível que Amanda tivesse dormido com ele? Passar de um
homem como Robin Stone para aquilo!
Aproximou-se da cama, completamente nua. Ele não pôde disfarçar a surpresa ao olhar para os firmes e grandes seios dela.
- Eh, boneca, podes não ser uma beleza, mas és muito boa. - Deu-lhe uma palmada no traseiro. - Se perderes um pouco dessa almofada, ficas mesmo cem por cento.
Ela afastou-se dele. Não queria que aquelas mãos pegajosas a tocassem.
- Tens algum creme? - perguntou.
- É lógico, porquê?
Ela entrou no banheiro e voltou com o tubo de creme. Espalhou-o pelas mãos.
- Agora deita-te de costas, senhor astro da TV!
Em menos de cinco minutos, ele jazia exausto e arquejante. Ela correu para o banheiro e vestiu-se depressa. Quando voltou ao quarto, ele estava inerte e de olhos
fechados.
- Adeus, Chris - Nunca mais saía dali. Ele estendeu o braço e agarrou-lhe na mão.
- Boneca, mereces vinte valores. Mas não está certo, não sentiste nada. Eu nem te toquei.
- Não faz mal - respondeu ela, com voz suave. - Sei que estavas deprimido e só quis fazer-te esquecer, sentires-te melhor.
Ele puxou-a para a cama e olhou bem para ela.
- Sabes, isso é a melhor coisa que já me disseram. Nunca esquecerei. Sei que vieste especialmente de Fire Island. Posso fazer alguma coisa por ti?
Ela teve vontade de dizer: "Deixares-me em paz e esqueceres que eu existo." Mas limitou-se a sorrir. Ele puxou-a para perto.
- Dá um beijinho ao paizinho.
227
Tinha uns beiços moles e oleosos. Ethel conseguiu soltar-se sem mostrar a sua repugnância. Inclinou-se, beijou-lhe a testa suada e saiu a correr do apartamento,
sem sequer pedir dinheiro para o táxi.
Ele telefonou-lhe na manhã seguinte e convidou-a para jantar. Como não tivesse outra coisa que fazer ela aceitou. Durante duas semanas, os dois saíram juntos todas
as noites. Os colunistas começaram a sugerir um romance. Ele convidou-a a acompanhá-lo a Atlantic City, onde iria fazer um espectáculo no Five Hundred Club. Ethel
começava a gostar da súbita publicidade que estava a ter, como namorada de Christie Lane. Ela nunca fora a namorada" de ninguém e por isso resolveu aceitar. Uma
foto dela com Chris, a apanhar sol numa cadeira de praia, apareceu num dos matutinos, com uma legenda que insinuava um "noivado".
Jerry Moss ficou apreensivo e telefonou para Christie, em Atlantic City.
- Christie, não tens a intenção de casar com essa rapariga, ou tens?
- Claro que não. Ouve, Jerry, Dan já tem os dois primeiros programas para a nova temporada quase prontos. Quem é que vai substituir... - Estacou.
- Usaremos uma moça diferente cada semana - respondeu Jerry. - Mas quero falar contigo a respeito de Ethel.
- Sim?
- Conheces a fama que ela tem.
- E depois?
- Achas que agiste como deve ser ao levá-la a Atlantic City? Os colunistas estão a falar a vosso respeito e ela não é mulher que te convenha. O público quer ver-te
a andar com uma rapariga decente, uma mulher bonita.
- Ouve, meu caro, andei com uma rapariga decente, com uma mulher bonita. Talvez o público gostasse, mas eu é que sei o que sofri. O público não me consolou, no
dia em que
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Amanda casou com aquele tipo. Quem me consolou foi Ethel Evans!
- Todos os que trabalham na televisão conhecem a fama de Ethel - insistiu Jerry. - Por enquanto, o público ainda não sabe de nada mas, depois desse boato do noivado
que saiu nos jornais, as pessoas vão querer saber mais a respeito dela. E
como é que o público vai reagir, quando souber que o seu astro favorito, o seu astro tipo
família anda com uma puta?
- Não digas isso! - disse Chris, furioso. - Ela nunca cobrou um tostão a ninguém!
- Chris, essa história com ela é a sério? Daqui a algumas semanas vais para
Las Vegas. Não me digas que a vais levar contigo!
- As passagens de avião custam uma nota. Não é como em Atlantic City, onde se pode alugar um carro e toda a gente cabe lá dentro.
- Queres dizer que não a estás a levar a sério.
- É lógico que não. Mas sei uma coisa. Ela está sempre pronta quando eu preciso dela. É boa para mim. Não me engana. E não saiu com outro tipo desde que estou
a sair com ela. Tudo o que quero fazer, ela topa e dá certo. Ao lado de Ethel, sinto-me bem. - Fez uma pausa, como se recordasse qualquer coisa e depois riu. -
Levar Ethel para Las Vegas! Seria como levar uma sanduíche mista para o Danny's Hideaway!
O Verão custara a passar, para Ethel. Trabalhava num programa de variedades, desses que apresentam talentos novos. Não podia com todos aqueles grupos tocadores
de guitarra. Até mesmo os artistas convidados pareciam reverenciar a jovem guarda. Quando Christie Lane voltou, ela sentiu-se quase alegre.
Saíram juntos durante todo o mês de Setembro. O programa só começava em Outubro e ele tinha quase todas as loites livres. A companhia de Kenny, Eddie e Agnes
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chateava-a. Detestava o bar do Copa, os restaurantes chineses (sempre os mais baratos) e, principalmente, o hipódromo. Como ele nunca se oferecesse para apostar
por ela, Ethel de vez em quando apostava dois dólares e ganhava sessenta centimos. Tinha horror a contactos físicos com ele mas, para seu alívio, constatou que
ele não era muito exigente. Duas vezes por semana era mais que suficiente. Depois ele ficava deitado, a ler o programa das corridas de cavalos.
Ethel estava só a matar o tempo até que o programa recomeçasse e chegassem novos astros convidados. Então, deixaria Christie e os seus "acólitos".
Uma semana antes do programa começar, duas revistas de TV publicaram reportagens sobre Christie, falando de Ethel
Evans.
Jerry ficou, no escritório, a olhar para as fotos dos dois, sorridentes: caramba, até combinavam! Mas ele tinha de fazer alguma coisa. Aquilo já estava a ultrapassar
os limites. Telefonou para Danton Miller e convidou-o a almoçar.
A princípio Dan riu das preocupações do outro.
- Ora, Jerry, estás a preocupar-te à toa. Os anjinhos nunca ouviram falar na reputação de Ethel.
Jerry estalou os dedos.
- Dan, o caso é sério. torn Carruthers, o patrocinador, é baptista. Não gostou nem de alguns dos cantores de rock que apresentámos no programa de Verão. Ele acredita
que Ethel é uma rapariga decente. Até a convidou para jantar com a esposa dele. Se uma dessas revistas de escândalo resolve escavar o passado de Ethel, estamos
perdidos! Ela tem uma amiga na Califórnia que guardou todas as suas cartas. Mandou tirar cópias e passa-as adiante. Imagina se essas cartas são publicadas. A propósito,
Dan, ouvi dizer que também tinhas sido citado".
O sorriso de Dan desapareceu.
- Ouve, Dan, não sou nenhum moralista. Este tipo de publicidade pode ajudar a carreira de um cantor jovem guarda, mas só pode prejudicar o nosso homem. O público
dele é
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constituido por famílias. Carruthers está até a querer mudar o programa para uma hora mais cedo, para as crianças poderem vê-lo- Quer conservar Christie Lane para
sempre. Vocês têm uma mina de oiro nesse programa, e não podemos permitir que £thel estrague tudo.
Dan tomou uma segunda chávena de café. Jerry Moss tinha razão. Era só alguma revista farejar o escândalo e adeus patrocinadores! Tinham consentido no "romance"
com
Amanda, porque ela representava o sonho de todo o homem vulgar: um tipo sem nada de especial a andar com a mais bela rapariga do mundo. Se Christie o tinha conseguido,
tudo era possível. Ele dera esperança ao público. E esse mesmo público identificara-se ainda mais com ele quando Amanda o trocara pelo
playboy Ike Ryan. Agora as simpatias
iam para Ethel Evans porque ela tinha o aspecto de uma rapariga vulgar. Jerry tinha razão. Era um problema e tanto!
Danton Miller despediu-se com a úlcera a arder e a promessa de acabar imediatamente com o caso Ethel Evans-Christie Lane.
Dan passou vários dias no que fazer. Sabia que tinha de tirá-la do programa. Santo Deus, que teria ela escrito na carta a seu respeito?
Telefonou para o Departamento de Publicidade. Informaram-no que ela estava no instituto de beleza. No instituto de beleza! Seria preciso um cirurgião plástico
para
melhorá-la. Anotou o número e telefonou.
- Olá - Ela parecia alegre.
- Será que hoje é feriado e eu não sei? Porque não estás a trabalhar? Ela riu.
- Sabes que estou quase noiva e preciso de tratar da aparência. Hoje é a grande noite.
- Hoje? - De repente, ele lembrou-se. A noite da entrega dos prémios às Personalidades do Ano, na TV. A IBC tinha uma mesa reservada. Depois do Emy, era o maior
acontecimento anual da televisão.
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- Tu vais? -perguntou ele. Era uma pergunta estúpida; claro que ela ia.
- E tu vais? - replicou ela.
- Tenho de ir. Chris é candidato a um prémio, Robin Stone também e Gregory Austin faz parte do júri.
- Então, ver-nos-emos certamente. Provavelmente vamos sentar-nos à mesma mesa. A propósito Dan, porque me telefonaste?
- Talvez eu quisesse convidar-te a ir comigo - respondeu ele. Aquele não era o momento adequado para lhe dar o ultimato. Tinha que o fazer pessoalmente.
Ela soltou uma gargalhada desagradável.
- Vamos deixar de brincar, sim? Estou com o cabelo molhado e preciso de voltar para debaixo de secador. Porque me telefonaste?
- Amanhã digo-te.
- Amanhã temos o programa e Carruthers vai dar uma festa depois dele.
- Sim, mas tu não vais - atalhou ele. Sabia que se tinha antecipado, mas aquilo era demais.
- O que foi que disseste?
- Esta noite será a última vez que apareces em público com Chris.
Ela ficou um momento calada e depois perguntou:
- Será que estás com ciúmes?
- É uma ordem oficial.
- Dada por quem?
- Por mim! The Christie Lane Show pertence à IBC. É meu dever proteger uma propriedade. Vamos dizer que a tua pessoa não é muito adequada para um programa de tipo
familiar. Por isso, de amanhã em diante, não quero que andes mais com Chris.
- E se eu não obedecer?
- Serás despedida da IBC. Ela ficou calada.
- Estás a ouvir-me Ethel?
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- Está bem, entendi. -A voz dela era dura. -Claro que podes despedir-me. Mas talvez eu não me importe. A IBC não
é a única estação da cidade. Há também a CBS, a NGC e a
ABC- Não terás possibilidades em nenhuma delas, se eu espalhar o motivo porque foste despedida.
- Queres dizer que é ilegal dormir com Christie Lane, ou com o director de networks?
- Não. Mas é ilegal mandar escritos pornográficos pelo correio. Tenho em meu poder cópias de cartas que escreveste a uma amiga de Los Angeles, com descrições gráficas
e estatísticas sobre a tua vida sexual.
Ela tentou fingir que não ligava.
- Óptimo. Isso quer dizer que não preciso de trabalhar mais. Ficarei com mais tempo para dedicar a Christie.
Ele riu.
- Pelo que ouço dizer, a generosidade não é uma das qualidades de Christie Lane. Mas talvez o conheças melhor; no fim de contas vocês são íntimos. Talvez ele te
instale num apartamento e te dê uma mesada.
- Filho de uma puta! - A voz dela parecia querer fulminá-lo pelo telefone.
- Ouve, desiste de Christie. Conserva o emprego e farei com que faças a cobertura de outro programa.
- Vamos fazer um acordo - disse ela. - Dás-me o programa de Robin Stone e eu prometo-te que Christie Lane nunca mais verá a minha cara.
Dan ficou pensativo.
- Há uns tempos, oferecemos-lhe uma pessoa para cobrir o programa, mas ele recusou. Vamos ver o que posso fazer. Prometo-te que vou fazer o possível. Mas, se não
conseguir, há outros programas.
- Só me interessa o de Robin Stone.
- Acho que não estás em posição de fazer exigências, Vou tentar conseguir-te o programa de Robin Stone. Mas, não te esqueças esta noite é a última vez que sais
com Christie
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Lane. Se amanhã apareceres no programa dele, adeus emprego!
Ethel vestiu-se com apuro nessa noite. Tinha deixado crescer o cabelo e tingira-o de castanho avermelhado. O vestido verde ficava-lhe bem, decotado, revelava a
perfeição dos seios. Os quadris continuavam largos demais, porém, a saia farta, escondia-os. Olhou-se ao espelho e ficou satisfeita. Não era nenhuma Amanda, mas
se tivesse o cuidado de não sorrir e mostrar aquela horrível falha entre os dentes, não estaria nada mal. Mesmo nada mal...
O grande salão de baile do Waldorf estava superlotado. Chris entrou com ela, a gritar saudações para todas as mesas por onde passava. A mesa do júri estava cheia
de gente importante, os presidentes de todas as estações, alguns astros da Broadway, o prefeito da Nova Iorque e um realizador cinematográfico. Ethel viu logo
Gregory Austin e a sua bela esposa, mesmo no centro da mesa. Um jornalista conversava com ela, que parecia mais estar a conceder uma audiência. Ethel seguiu Chris
até à mesa da IBC, mesmo em frente do júri. Dan Miller já estava sentado, ao lado de uma morena dos seus trinta e poucos anos. Parecia mesmo que ele tinha telefonado
a um agente e pedido: "Mande-me uma rapariga com ar de sociedade: vestido preto, pérolas, um pouco para o magro." Havia dois lugares vazios ao lado dela. Estariam
reservados para Robin Stone? Só podia ser para ele, todos os outros lugares estavam ocupados. Isto queria dizer que ele ia sentar-se mesmo ao seu lado. Ethel não
contara com tanta sorte.
Ele chegou atrasado, acompanhado por uma jovem lindíssima, Inger Gustan, uma nova actriz alemã. Ethel puxou de um cigarro. Christie não fez um gesto mas, para
sua surpresa, Robin acendeu-lhe o cigarro.
- Admiro o seu bom gosto - disse ela, em voz baixa. Vi o último filme dela na semana passada. Não representa nada, mas não interessa. - Vendo que ele não respondia,
234
Ethel continuou, esforçando-se por manter um tom de brincadeira. - O romance é a sério ou apenas novidade?
Ele sorriu e disse:
- Coma o seu grapefruit.
Não gosto de grapefruit.
Faz-lhe bem - disse ele, sem levantar a cabeça.
- Nem sempre eu gosto do que me faz bem.
A musica começou. De repente, Robin levantou-se.
- Venha Ethel, vamos dançar um pouco.
Ela corou de satisfação. Começaria ela finalmente a interessar-lhe? Talvez o vestido verde e a nova cor de cabelo tivessem ajudado mais do que ela pensava. Dançaram
alguns minutos em silêncio. Ela chegou-se mais a ele, afastou-se e olhou para ela. O seu rosto estava vazio de expressão e os seus lábios mal pareciam mexer,
mas as palavras saíram, frias e nítidas.
- Escute, sua tola, não sabe que, talvez pela primeira vez na sua vida, tem uma possibilidade de subir? Pensei que era inteligente. Pois bem, seja-o e tente ganhar
a parada.
- Talvez eu não esteja interessada em subir.
- Que quer dizer com isso?
- Que Christie Lane não me atrai. Ele atirou a cabeça para trás e riu.
- Você é mesmo exigente. Gosto da sua coragem.
- E eu gosto de tudo em si - replicou ela, com voz macia e insinuante.
Ele afastou-se ainda mais e, sem olhar para ela, disse:
- Lamento, mas não pode ser.
- Porquê?
Ele olhou para ela.
- Porque também sou exigente.
- Porque me odeia? - perguntou ela, encarando-o.
- Não a odeio. Até agora a única coisa que eu admirava em si era a sua inteligência e a sua coragem. Mas agora começo a duvidar. Conseguiu apanhar Christie Lane,
não o subestime. Talvez ele não seja um Frank Sinatra, mas o programa
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é muito cotado. E garanto-lhe que vai durar muito, muito
Impo.
- Robin, diga-me uma coisa. Porque me pediu para dançar?
- Porque vai ser uma longa noite e não estou para receber dez ou doze propostas veladas da sua parte. Pensei
que assim ia pôr logo as coisas em pratos limpos. A resposta é
não.
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Ela olhou para a actriz alemã, que dançava junto deles.
- Não, hoje à noite. - Ethel sorriu.
- Não em qualquer noite.
- Porquê? - Ela olhou nos olhos dele.
- Quer que seja franco?
- Quero. - Ela sorriu sem mostrar os dentes.
- Consigo eu não daria nada. É só isso.
O rosto dela ficou tenso.
- Não sabia que tinha problemas. Então o caso é esse.
Ele sorriu.
- Seria consigo.
- Talvez fosse por isso que Amanda o trocou por Ike
lyan. O grande Robin Stone: encanto, conversa, mas nada de
emoção. Ela até o enganou com Chris.
Ele parou de dançar e agarrou-lhe no braço.
- Acho melhor voltarmos para a mesa.
Ela recusou-se a arredar pé.
- Oh, quer dizer que eu pus o dedo na ferida, hem, sr.
Stone? - O sorriso dela era perverso.
- Não estou ferido. Só não acho que tenha o direito de falar sobre Amanda. - Uma vez mais tentou levá-la para a
mesa, mas Ethel obrigou-o a continuar a dançar.
- Robin, dê-me uma oportunidade. Só uma! Não lhe
peço nada em troca! Farei o que quiser! É só estalar os dedos,
que eu serei toda sua! E pode ter a certeza que vai ficar satisfeito
comigo; nunca mais perderá a cabeça por uma mulher como Amanda.
Ele olhou para ela com um sorriso estranho.
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Aposto que é forte como um cavalo.
Nunca na minha vida estive doente.
Ele assentiu com a cabeça.
- Vê-se.
Ethel olhou fixamente para ele.
- E então?
Ethel - ele quase suspirou - contente-se com Christie
Lane!
- Não posso. -Ela sacudiu a cabeça. -Não é pormim; recebi ordens de acabar com ele.
Robin interessou-se.
- Ordens de quem?
- De Danton Miller. Claro que ele procura-me quando tem vontade, mas esta tarde telefonou-me para dizer que eu tenho de largar Chris; parece que estamos a ter
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a mais e que prejudico a imagem que ele tem de sujeito tipo família de modo que, se eu não acatar as suas ordens, vai pôr-me na rua.
- Que vai fazer?
Até que enfim ela conseguia despertar-lhe algum interesse. Talvez fosse aquela a táctica, armar em fraca, em vítima. Porque não? Ela já tentara tudo. Fez força
para
levar algumas lágrimas aos olhos, mas não conseguiu.
- Que é que eu posso fazer? - suspirou, olhando para ele com ar desamparado.
- Está a cair na minha cotação, com esse ar de Shirley Temple. Não queira, de repente, armar em desgraçada. - Riu para ela. - Até aqui, tem feito um jogo de homem,
com regras de homem. Apostaria em si contra Danton Miller.
Ela olhou para ele com curiosidade.
- Está a dizer que eu devia lutar contra Dan Miller. Abanou a cabeça. - Não tenho uma possibilidade, a não ser que você me dê um lugar no seu programa. Disse que
eu sou inteligente. Vamos pôr o sexo de lado. Dê-me uma oportunidade, Robin. Posso fazer um bocado pelo seu programa. Posso conseguir óptima publicidade.
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- Não me interessa - atalhou ele. - Não sou um actor...
- Mas deixe-me trabalhar para o seu programa. Posso escrever à máquina, o que quiser.
- Não.
- Porque não? - suplicou ela.
- Porque não costumo dar nada por caridade, piedade ou compaixão.
- E por amizade?
- Não somos amigos.
- Serei sua amiga. Farei qualquer coisa por si, o que quiser.
- Neste momento, não há nada que eu mais queira do que voltar para a mesa.
Ela largou-o e olhou para ele com ódio.
- Robin Stone: quero que vá para o inferno!
Ele riu, pegou-a pelo braço e conduziu-a para fora da pista.
- Isso, assim zangada gosto mais de si. -Ao chegarem à mesa, ele agradeceu-lhe pela dança com um sorriso agradável.
Foi uma noite longa e enfadonha. Chris foi escolhido como personalidade do ano num programa novo. O Em Profundidade venceu na categoria de reportagens. Quando
os discursos terminaram, a cortina abriu-se, a orquestra começou a tocar e toda a gente gemeu intimamente, ao virarem as cadeiras para verem o espectáculo.
Robin agarrou na rapariga alemã e os dois desapareceram mal as luzes se apagaram. Chris permaneceu sentado, junto das restantes pessoas da IBC e assistiu a todo
o espectáculo.
Ethel ficou a olhar para as duas cadeiras vazias. Quem diabo era ele para sair assim, sem mais nem menos? Até Danton Miller aguentou até ao fim o aborrecido espectáculo.
Chris não teria ousado ir-se embora e Chris era duas vezes mais importante do que Robin Stone. Pensando bem, era ainda mais importante do que Dan Miller. Dan podia
ser despedido a qualquer altura e, se a sua situação tinha melhorado,
era por causa de Chris! Como ousara ele ameaçá-la! Enquanto ela
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tivesse Chris, teria mais força do que Danton Miller. E do que Robin Stone. De repente, Ethel compreendeu que Chris era a única coisa que ela tinha a seu favor.
Estava com trinta anos. Só podia continuar a dormir com uma celebridade depois de outra Mais alguns anos e ninguém quereria saber dela.
Na escuridão, alheia ao riso forçado da plateia, Ethel foi forjando um novo plano. Porque haveria de correr com Chris? Dormir com ele era uma coisa, mas ser a
sr.a
Christie Lane era outra, muito diferente! A enormidade da ideia amedrontava-a. Claro que ia ser difícil. Teria de ir com cuidado. Mas depois poderia mandar todos
para o inferno: Dan, Robin, todos. Sr." Christie Lane! Esposa do maior sucesso da televisão! Casando com ele, ela teria o poder nas mãos!
Eram três da manhã, quando voltaram ao Astor. Chris tinha-se oferecido para deixá-la em casa.
- Tenho um ensaio às onze da manhã, boneca.
- Deixa-me dormir contigo. Dormir bem, Chris. Quero estar contigo.
O rosto dele iluminou-se num sorriso.
- Está bem, boneca. Pensei que preferisses ir para casa, mudar de roupa, etc., porque também tens que estar às onze para o ensaio.
- Não tenho.
Dentro do táxi ele virou-se para ela.
- O quê?
- Conto-te quando subirmos.
Despiu-se em silêncio e deitou-se ao lado dele. Chris estava a ver o programa de corridas. O estômago saía-lhe para fora do pijama, tinha um charuto entre os dentes.
Apontou para a outra cama.
- Dorme além, boneca. Nada de marmelada, hoje.
- Só quero ficar junto de ti Chris. - E passou-lhe os braços em volta do corpo flácido.
Ele olhou para ela.
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- Caramba, estás esquisita. O que se passa?
Ethel desmanchou-se em lágrimas, surpreendida por ver como elas vinham facilmente. Estava a pensar na humilhação que Robin Stone lhe causara e as lágrimas aumentaram
para soluços.
- Boneca, por amor de Deus, que bicho te mordeu? Fiz alguma coisa mal. Conta-me.
- Não, Chris. Estou a chorar porque esta é a nossa última noite juntos. - Os soluços aumentaram. Chorava por todas as humilhações que lhe tinham imposto, por todos
os homens que amara apenas uma noite, por todo o amor que nunca tivera.
- Que diabo estás a dizer? - Ele abraçou-a e afagou-lhe desajeitadamente a cabeça. Deus!, até o cheiro dele ela detestava, suor e loção de barba barata, mas fez
um esforço para pensar em Robin na pista de dança. Pensou na beldade alemã, que Àquela hora devia estar nos braços dele, e os seus soluços aumentaram.
- Boneca, não posso ver-te chorar dessa maneira. És a rapariga mais forte que já conheci. Ainda outro dia disse isso ao Kenny. "Aposto que a Ethel era capaz de
matar por minha causa." Que história é essa de dizeres que hoje é a nossa última noite juntos?
Ela olhou para ele com o rosto banhado em lágrimas.
- Chris, que sentes por mim?
Ele afagou-lhe a cabeça e ficou a pensar por um momento.
- Não sei, nunca pensei nisso. Gosto de ti. És muito simpática...
Ela começou a soluçar de novo. Aquele porco também estava a rejeitá-la!
- Ouve, boneca, eu só quis dizer... bem, nunca mais vou querer apaixonar-me. Chegou. Mas juro que não existe outra. Podes ficar comigo o tempo que quiseres. Mais
do que Kenny e Eddie. Então, que história é essa da última noite?
Ela virou a cabeça.
- Chris, conheces o meu passado.
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Ele corou.
- Pois é - soluçou ela. - Mas a verdadeira Ethel Evans não é assim. O que estás a ver agora é a verdadeira Ethel Evans. Estás com medo de sofrer por causa de Amanda.
Pois bem, isso aconteceu comigo. Estava noiva de um estudante universitário. Eu era virgem e ele deixou-me. Sofri tanto que resolvi dormir com todos os homens
deste mundo, só para me vingar dele. Odiava-o, odiava a vida, odiava-me a mim própria. Até que apareceste; então foi como se eu me tivesse purificado. Conheci
um autêntico ser humano, conheci o amor. E comecei a gostar de mim, da nova Ethel Evans. Todo o meu passado foi um fingimento. O que eu tenho sido para ti é o
que sou na verdade.
- Compreendo boneca, e até não ligo muito ao teu passado. Então porquê tanto choro? Estou a perguntar-te alguma coisa?
- Não, Chris, mas... antes de te conhecer, eu... andei com Danton Miller.
Ele sentou-se na cama.
- Ora bolas, também com ele? Não perdias mesmo tempo, hem?
- Chris, Dan gostava mesmo de mim. Tinha ciúmes de tudo o que era homem com quem eu andasse. Atirou-me para o teu programa para poder ficar de olho em mim. Ficou
furioso quando Jerry me pediu para vir aqui, mas pensou que era só por uma noite. Não podia imaginar que eu me apaixonasse por ti. Agora ele está louco de ciúmes.
- Dorme com ele!
- É isso o que ele quer.
- Estás a brincar.
- Não, ele telefonou-me hoje, a dizer que não queria que eu andasse mais contigo. Quer que eu fique livre só para ele. Mandei-o cavar batatas, mas ele insistiu
que eu tinha de te deixar esta noite mesmo. Que se eu aparecesse no teu programa amanhã faria com que eu fosse despedida da IBC. Se eu te deixar, fico com o emprego
e ele até prometeu-me arranjar
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outros programas, com mais dinheiro. Mas eu não posso fazer isso Chris, não posso viver sem ti.
- vou falar com Dan amanhã.
- Não serve de nada, ele vai negar tudo e tu ganhas um inimigo. Ele diz que ele é que te fez e que pode destruir-te de uma hora para a outra.
O queixo de Christie endureceu. Ethel percebeu que não devia ter dito aquilo. Christie ainda se sentia inseguro, ainda tinha medo de Dan Miller.
- Ele não pode prejudicar-te, Chris, és o maior nome da TV. Mas pode acabar comigo. Acontece que eu escrevi uma porção de cartas idiotas a uma rapariga que eu
julgava ser minha amiga, sobre alguns dos casos. E Dan tem cópias dessas cartas.
- Sabes? Há mulheres que falam demais, mas tu escreves demais. Porque diabo escreveste essas cartas? Pode prejudicar os tipos também.
- Eu sei e talvez Deus esteja a castigar-me. Mas como é que podia sonhar que Yvonne mandaria fazer aquelas cópias? Porque não a castiga Deus? Escrevi essas cartas
de brincadeira. Mas tudo isso passou. O meu problema é o que fazer agora.
- Está bem, deixa o programa - disse Chris.
- E depois?
- Podes arranjar outro emprego: na CBS, na NBC, em qualquer dessas estações.
- Não, Dan faria com que eu não arranjasse nada. Estou liquidada.
- vou dar-te um emprego, agora mesmo.
- Chris, são três e meia da manhã.
- Quem se importa com isso? - Agarrou no telefone e pediu um número. Dentro em pouco Ethel ouviu uma voz sonolenta responder. - Herbie? Aqui fala Chris Lane. Sei
que é tarde, mas ouve, meu caro, sabes que sou um tipo impulsivo. Se não me engano, no outro dia, nas corridas, disseste que darias tudo pelo prestígio de trabalhar
para mim em relações
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públicas. Muito bem, talvez eu entre na jogada. Vai falar comigo amanhã.
Herbie parecia mais do que acordado. Estava felicíssimo. Christie Lane iria ver o que era trabalhar. Ele estaria no ensaio às onze.
- Espera aí, Herbie. Primeiro temos que conversar. vou pagar-te três notas de cem por semana; não tenho nada com o que os outros cobram. Tens uma merda de escritório,
na Broadway, com uma clientela de cómicos do tempo da avozinha e uns pares de bailarinos. Se trabalhares para Christie Lane, ficas a ser conhecido. E talvez eu
arranje algum trabalho para esses teus clientes mortos de fome. Mas há uma coisa: tens que dar trabalho a Ethel Evans. Eu sei que ela trabalha na IBC, mas quero
que trabalhe só para mim; tu pagas. Quanto? Cem por semana? - Olhou para Ethel. Ela abanou energicamente a cabeça. - Espera um pouco, Herbie. -Virou-se para Ethel.
- Quanto é que queres, um ordenado de vedeta?
- Ganho cento e cinquenta por semana na IBC, mais vinte e cinco dólares para cobrir o teu programa; isso faz cento e setenta e cinco dólares.
- Herbie, cento e setenta e cinco dólares e está fechado. Sei que só ficas com cento e vinte e cinco, mas pensa no prestígio! Bem, compreendo, está bem, cento
e cinquenta. Fingiu não sentir a cotovelada de Ethel. - Ok, Herbie, amanhã às dez ela está no teu escritório.
- Queres dizer que, com toda a tua fama, eu vou ganhar menos? - perguntou ela.
- Ele tem razão. Não podes ganhar mais do que ele. Mas acerta-se uma coisa pela outra. Na IBC tinhas de trabalhar numa série de programas. com Herbie só tens o
meu programa e podes viver muito bem com cento e quarenta dólares.
Ethel estava furiosa. Conhecia Herbie... ele fá-la-ia bater ponto e trabalhar horas extraordinárias. O seu emprego na IBC dava-lhe prestígio, ao passo que Herbie
tinha um escritório de quinta classe. Fora tudo por água abaixo, mas ela já não podia fazer nada.
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- Chris, estou liquidada, e sabes disso.
- Porquê? Acabei de te arranjar emprego.
- Na IBC tinha uma porção de vantagens: assistência médica, seguro, escritórios limpos e com ar condicionado.
- Mas continuas comigo. Não era o que querias? Ela chegou-se mais para ele.
- Sabes que sim. Deixei a IBC por tua causa. Podia ter continuado, a trabalhar para outros programas, mas deixei tudo para trabalhar para Herbis Shine, e, o que
me dás em troca?
- Não estarás maluca! Não te arranjei emprego?
- Eu quero ser a tua pequena.
- Ora, toda a gente sabe que és.
- Mas não oficialmente. Não podemos dizer que somos noivos?
Ele pousou o programa das corridas.
- Esquece-te disso! Não vou casar contigo, Ethel. Se algum dia me casar, será com uma rapariga decente. Quero ter filhos e tu és como o Túnel Lincoln, por onde
toda a gente passa.
- Queres dizer que Amanda era uma mulher decente...
- Não, não era, mas eu pensava que sim. Pelo menos contigo, sei a quantas ando.
- E não achas que as pessoas podem mudar?
- Talvez. Vamos ver. - Agarrou de novo no programa das corridas.
- Por Deus, Chris, dá-me uma oportunidade!
- Estou a pôr-te para fora da cama? Vais comigo para onde eu for, não é?
Ela abraçou-o.
- Oh, Chris, amo-te mais do que isso, adoro-te. És o meu Deus, o meu senhor, o o meu rei.
És toda a minha vida!
Deu a volta na cama e começou a passar-lhe a língua pelos dedos dos pés. Sentia nojo, mas tentou fazer de conta que ele era dos astros de cinema que ela adorara.
Ele riu.
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- Eh, que bom! Nunca ninguém me fez isso!
- Deita-te, quero beijar-te todo. Quero mostrar-te como te adoro. Adorar-te-ei sempre, faças o que fizeres. Amar-te-ei sempre. Amo-te tanto, mas tanto... - Começou
a gemer e a amá-lo- Quando ele já estava exausto e coberto de suor, disse:
- Mas boneca, não é justo. Eu gozei como um louco, caramba!, até os dedos dos pés, e tu, nada.
.- Estás louco? - retorquiu ela. - Eu gozei a dobrar só por te dar amor.
- Estás a brincar?
- Chris, será que não percebes? Excitas-me tanto que eu gozo só de te tocar.
Ele abraçou-a e esfregou-lhe o cabelo.
- Ora, vejam! És meio maluca, mas gosto de ti assim. Arrotou e pegou no programa de corridas.
- Diabos, passa das quatro e eu preciso de fazer uma soneca. É melhor ires para a outra cama e dormires. Vais ter de acordar cedo, para te despedires do Dan e
apresentares-te ao Herbie. Vê se dormes, boneca.
Ela deitou-se na outra cama e voltou-se de costas para ele. Apertou os dentes e disse:
- Amo-te, Chris.
Ele saiu da cama e dirigiu-se para o banheiro. Pelo caminho, deu-lhe uma palmada nas nádegas.
- Eu também, boneca. Mas não te esqueças que eu tenho... que eu tenho quarenta e dois anos e uma grande carreira pela frente. É isso o que conta para mim.
Sem se preocupar em fechar a porta, sentou-se na sanita e evacuou ruidosamente. Ela tapou a cabeça com a colcha. Que porco! E tinha ela de se arrastar diante dele!
Mas vingar-se-ia. Casaria com ele! Depois mandaria a todos para o inferno, principalmente a ele!
Ethel arrancou a cópia da máquina de escrever e atirou-a em cima da mesa de Herbie Shine, homem baixo e meio careca que
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a leu cuidadosamente.
- Está OK - disse ele por fim. - Mas não dá a morada do restaurante.
- Herbie, isso é umpress release para os colunistas. Ou eles guardam o nome "Lario's" ou não. Nenhum colunista põe endereços.
- Mas esse lugar fica fora de mão. Ninguém sabe onde é.
- Se dessem uma festa de inauguração e convidassem algumas celebridades e todos os colunistas, todos saberiam. Mas são como todos os seus clientes; avarentos demais
para faser as coisas como deve ser.
- Nisso tem razão, principalmente no que diz respeito ao meu freguês n.?
1, sr. ChristieLane. Não há como ele, para ser avarento. O Lario's é um restaurante pequeno.
Não podem gastar bebida e comida, para fazer uma festa. O melhor é fazer com que as pessoas da IBC vão lá, bem como Christie Lane.
- Oiça, Chris está a pagar-lhe do seu próprio bolso. Detestou aquele restaurante seu cliente, o da rua Doze, onde me fez arrastá-lo; gastou três dólares de táxi
ida e volta. Não ouvi falar de outra coisa, durante uma porção de dias.
- Ele não deu gorjeta aos empregados - disse Herbie.
- Chris acha que, quando o exploram, não precisa de dar gorjeta.
- Mas todos sabem que o empregado espera gorjeta.
- Pelo que se vê, Chris não sabe.
- Bem, porque não lhe diz?
- Porque não sou professora de etiqueta. - Ethel vestiu o casaco.
- São só quatro horas. Pensa que isto é um banco para deixar o serviço às quatro? Chegou às dez e quinze da manhã.
- Quando eu trabalhava na IBC, chegava muitas vezes às dez e meia e saía quando queria. Outras vezes chegava às nove e saía às seis. Oiça, Herbie, eu sei fazer
o trabalho. Faço o meu trabalho e estabeleço o meu próprio horário. Daqui a pouco vai querer que eu marque o ponto.
- Não sou a IBC. Tenho três funcionários e doze clientes.
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Você ganha mais do que os outros dois e trabalha a metade das horas que eu trabalho.
. Então, porque não me manda embora?
Ele olhou para ela com um sorriso perverso.
Bem gostaria, e sabe muito bem disso! Mas ambos
precisamos de Christie Lane, e você não vai sair daqui às quatro
horas.
.- Espere e verá.
- Se sair, está despedida.
- Pronto, não saio. Mas, quando eu chegar à première de Ike Ryan com o cabelo por fazer, Chris quererá saber porquê. E então contar-lhe-ei que grande emprego ele
me arranjou.
- Vá arranjar o cabelo, vá!
Ela sorriu e saiu da sala. Ele ficou a olhar para os enormes quadris dela a rebolarem e, como toda a gente, a pensar o que seria que Chris via nela.
Ethel sabia que muita gente estava a pensar o que Christie Lane via nela. Estava no bar do Copa, a tentar sorrir das piadas de Eddie e Kenny. Nunca detestara Chris
tanto como naquela noite. Toda a gente importante tinha ido à première de Ike Ryan. Toda a gente sabia que Chris não perdoara Amanda, mas pelo menos eles podiam
ter ido ao Sardi's onde lhe tinham reservado uma mesa de fundos. Ele não podia ser mais avarento e egoísta! Olhou para o vestido que tinha posto. Dois anos eram
muito para um vestido. Quando lhe falara em comprar um vestido novo para ir àpremière, ele tinha franzido a testa:
- Que história é essa? Pago a tua comida, o teu apartamento não é caro. com cento e cinquenta dólares por semana, deverias andar como um modelo. Além disso, Lou
Goldberg fez com que eu renovasse o empréstimo a longo prazo.
Lou Goldberg era a resposta. Devia chegar dentro de uma semana. Ela tinha de conquistá-lo e convencê-lo de que era a mulher para Chris. Abriu a bolsa e retocou
os
lábios. Precisava consertar aquela falha nos dentes. Tinha insinuado, de todas
as maneiras, que queria um casaco de vison como presente de Natal, mas naturalmente, Chris fizera-se surdo. Muito bem,
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tinha de esperar que Lou Goldberg chegasse; então entraria em acção.
Ficou tensa, enquanto o dentista lhe injectava novocaína na gengiva, embora soubesse que não ia doer. Não demorou a sentir o lábio, a boca e até o nariz insensíveis.
Até que enfim, ia consertar os dentes! E tinha de agradecer a Lou Goldberg. Recostou-se e fechou os olhos, ao ver o dentista aproximar a broca. Ouvia o barulho
da broca contra os dentes, mas não sentia nada. Tentou não pensar que dois dentes iam ser feitos em pedaços. Tinha de ser assim, para fechar aquela horrível falha.
Pensou em Lou Goldberg. Tinham marcado encontro para se conhecerem e tudo correra às mil maravilhas. Também, ela planeara a coisa nos mínimos detalhes. Ficara
de propósito até tarde, no escritório, e correra para o Dinty Morre's num vestido de lã azul, de trabalho, e num casaco de camurça.
- Lamento não ter podido ir a casa mudar de roupa desculpara-se mas o Sr. Shine faz a gente trabalhar para além da hora. E eu que tanto queria apresentar-me o
melhor possível a si! Chris fala tanto em si, que tenho a impressão de o conhecer há muito tempo.
Lou Goldberg era um homem bem parecido. Alto, grisalho, mais velho do que Chris, mas esbelto e com um andar de jovem. Não tinha sido fácil. A princípio ele mostrara-se
desconfiado e precavido contra ela. Mas Ethel fingira nada notar, fizera-se ingénua e afectuosa. Toda a sua conversa fora sobre Chris: sobre a sua carreira, o
seu talento, como ela admirava a maneira simples como ele enfrentava a fama, como se sentia feliz por ter a orientação de Lou Goldberg, como ele era diferente
dos outros astros, que só se preocupavam com as aparências.
- Todos gostam de Chris - afirmara. - Gostariam dele mesmo se ele não fosse o astro que é, porque ele é bom. E acho que encontraria sempre trabalho. Mas mais tarde
é que um
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homem precisa de segurança. Se ele ficar doente, ninguém ligará, a não ser a família. Chris tem sorte em tê-lo como família, sr. Goldberg.
Vira Lou Goldberg derreter-se diante dela. Toda a sua prevenção se dissolvera e ele olhara para ela com interesse. Não tardou que fizesse perguntas; perguntas
pessoais, de quem estava interessado em conhecê-la. Ethel respondera com simplicidade. Os seus pais eram polacos, gente temente a Deus, que ia à igreja todos os
domingos. Sim, ainda estavam vivos. Moravam em Hamtramck. Quase se engasgou ao explicar que lhes mandava cinquenta dólares por semana. Mas Lou engolira facilmente.
Caramba, se ela lhes mandasse cinquenta dólares por mês, o seu pai aposentar-se-ia!
Lou Goldberg sorrira, encantado.
- Gosto de saber. Hoje em dia, quase nenhuma rapariga pensa na família. Gastam tudo o que ganham em trapos.
- É porque querem impressionar as pessoas - replicara ela. Eu estava com medo de vir encontrar-me consigo assim, em roupa de trabalho, mas compreendi que o senhor
não se importaria, de acordo com o que Chris tem contado a seu respeito. Ele diz que o senhor conhece as pessoas logo que as vê. Que o senhor é capaz de farejar
um mentiroso ao longe.
- Geralmente, posso - assentira ele, satisfeito. - E posso dizer-lhe que você é uma rapariga sincera.
- Obrigado - dissera ela, com modéstia. - Toda a minha vida mudou, desde que conheci Chris. Nem sempre foi assim. Fiz algumas asneiras. Mas era jovem e queria
sentir-me bonita. - Ethel rira. - Sei que nunca serei bonita, mas isso agora não me importa. Só me interessa o amor de Chris.
Lou estendera o braço e acariciara-lhe a mão:
- É muito simpática, não se preocupe. Ethel apontara para os dentes da frente.
- Sim, mas veja isto...
- Ora, isso pode ser consertado - dissera Lou. - Actualmente, os dentistas fazem milagres.
Ela anuíra.
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- Pois é, mas o conserto custa pelo menos trezentos dólares.
Lou olhara significativamente para Chris. Ethel fingira que o assunto estava encerrado e voltara ao seu hamburger.
- Chris, quero que mandes consertar os dentes de Ethel
- dissera Lou.
- Para quê? Eu gosto dela assim mesmo!
- Mas ela não gosta.
E fora assim que ela conseguira. O próprio Lou tinha preenchido o cheque.
- Vou descontar do teu dinheiro, Chris - dissera ao entregar o cheque a Ethel. E acrescentara, a rir: - Sabe, ensinei-o a ser poupado, mas às vezes ele exagera.
Chris, devias comprar uns fatos novos.
- Comprei três, para usar na TV. E estou a trabalhar como um burro. Um alfaiate prometeu que daria todas as roupas que quisesse, de graça, se eu fizesse propaganda
dele no programa. Dan Miller disse que não queria penduras, mas, para o ano que vem, quando chegar a altura de renovar o contrato, vou insistir com ele.
- Podes deduzir as roupas do imposto de renda - dissera Lou.
- Sim, mas se as conseguir de graça, não é necessário isso. Chris queria tudo de graça, pensou Ethel, enquanto o
dentista lhe triturava os dentes. Mas ela conseguira! Fora só conquistar a confiança de Lou Goldberg, para que toda a atitude de Chris mudasse. Era como se ela
tivesse nascido de novo. Como ele dizia: "Sinto-me como Deus. Transformei-te numa senhora!" Ela sorria e segurava-lhe a mão, quando a vontade que tinha era de
esbofetear aquela cara idiota; mas os dentes iam ficar prontos para o grande jantar no Waldorf. Claro que ainda faltava muito para apanhá-lo. Alguns colunistas
insinuavam que eles estavam noivos, mas Chris não queria saber de casamento. Ethel pensara em engravidar, mas ele cortara-lhe essa possibilidade. Não a deixava
usar um diafragma. Das poucas vezes que ele fizera alguma coisa, tinha
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usado uma camisa-de-vénus. Na maior parte das vezes, limitava-se a deixar-se amar! Acreditava piamente que ela sentia prazer só de tocá-lo... Bem, o que interessava
era que ela tinha os dentes garantidos e conquistara o beneplácito de Lou Goldberg. Para começo de conversa, era muito bom. E ia comprar um vestido novo para comparecer
ao jantar.
O jantar, no Waldorf, decorrera exactamente como os outros jantares no Waldorf. Dan Miller fora com uma réplica da morena tradicional que levara à entrega dos
prémios, mas esta tinha o cabelo pintado. Havia dois lugares vazios à mesa... Robin Stone não comparecera. Ethel lamentara ter gasto tanto no vestido. A única
coisa que valera a pena fora ter sido apresentada à sr.a Gregory Austin, o que acontecera quando esperavam pelos agasalhos, no bengaleiro. Ethel mostrara-se adequadamente
humilde, a sr.a Austin, adequadamente condescendente, ao dar a Chris, os parabéns pelo seu programa.
Enquanto se despia, Chris regozijava-se.
- Viste como Gregory Austin fez questão de se aproximar e dizer que eu sou o melhor? Nem precisava, mas fez questão. Podia ter cumprimentado com a cabeça de longe.
Ele é conhecido por isso mesmo; não gosta de se misturar com os artistas. Caramba, nunca me esquecerei da festa de Ano Novo que ele deu! Cumprimentou-me com a
cabeça, e na cara estava escrito que ele nem sabia o meu nome. - Chris caiu na cama, nu em pelo. - Vem, boneca, estou à espera. É uma honra para ti, dar prazer
ao Rei.
Ela fingiu não ouvir e continuou a despir-se lentamente. Chris tinha os olhos fixos no tecto.
- Sabes que mais? Esse nome de Rei não está bem. Pode dizer-se rei na Inglaterra, na Grécia, na Suécia, na... bem, há reis que se fartam. Mas só existe um Chris
Lane. Terei que inventar um apelido para mim.
- Porque não Deus?
- Não, isso é sacrilégio. - Pensou um pouco. - Eh, que
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tal "fantástico"? Está certo: O Fantástico. Começa a pôr esse apelido depois do meu nome, nas colunas. Eu sou fantástico Viste a sr.a Austin dizer-me que gostava
muito do meu programa? É porque cá o paizinho é mesmo o melhor!
- Ela acharia que eras o maior dos avarentos, se soubesse como eu trabalho para Herbie Shine e as horas extraordinárias que faço.
- Ficaria mais chocada se eu te sustentasse - grunhiu ele. - Não há nada de mal em trabalhar.
- Ora, toda a gente sabe que sou tua amante. Acham que és avarento demais para me manter.
- Ninguém diz que eu sou avarento.
- Mas eu sou a prova disso. Há quase seis meses que sou tua amante. Todos riem das minhas roupas, mas não se riem de mim, riem-se de ti! - Ela viu-o corar e achou
que talvez tivesse ido demasiado longe. Amaciou a voz: - Ouve, não me interessa o que me dás ou não me dás, mas esse Herbie Shine está a encher-me as medidas.
Fica a insinuar que és avarento e que, se não fosses, não me farias trabalhar num escritório como o dele. Bolas, Chris, ele não tem categoria para ser o teu homem
de relações públicas. Não devias ser cliente de Cully & Hayes?
- A mil dólares por semana?
- Podes pagar isso.
- É dinheiro deitado à rua. Eles arranjam convites para todas as festas importantes, mas não mandam nem uma linha sobre nós, nos jornais. Herbie pelo menos, arranja-se
para pôr o meu nome nas colunas.
- Sim, mas não consegue as revistas.
- A publicidade da IBC toma conta disso. Só quero que o Herbie ponha o meu nome nos jornais.
- Estás a pagar-lhe trezentos por semana só para isso?
- Cento e cinquenta. Os outros cento e cinquenta são para ti.
- Isso é o que" julgas. Trabalho para outros dez clientes dele. E quem paga és tu.
- O filho da puta - disse ele, em voz baixa.
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- Chris, porque não me contratas e despedes Herbie? Ele sorriu velhacamente.
- Estás a querer que eu te pague trezentos por semana? Não vou nisso. Assim como está tu e Herbie trabalham para
mim- Herbie não trabalha para ti. Só te faz ir aqueles restaurantes miseráveis, para o nome dele sair no jornal. E os restaurantes pagam-lhe para isso. Ouve, Chris,
pagas-me duzentos, menos cem do que estás a pagar a Herbie, e eu faço o mesmo serviço. Conheço tudo o que é jornalista. Vais sair em todas as colunas. E eu fico
livre para sair contigo quando quiser. Na semana passada, tive que te deixar às duas horas no Copa, porque Herbie queria que eu de manhã estivesse a postos, a
trabalhar com um cliente dele. Deste modo eu poderia acompanhar-te e Herbie não apanharia mais dinheiro teu e ainda rir nas tuas costas.
Ele franziu a testa.
- Aquele pulha. - Ficou calado e, de repente, sorriu. Está bem, boneca, vou pagar a Herbie só esta semana. Na sexta-feira recebes e dizes para ele ir para o inferno.
Podes dizer que foi Chris que mandou.
Ethel precipitou-se sobre ele e cobriu-lhe o rosto de beijos.
- Oh, Chris, amo-te! És tudo para mim!
- Está bem, aquece-me. O Sr. Fantástico está à espera. Uma vez satisfeito, Chris apanhou o programa das corridas
e ela os jornais da manhã. No Daily News, parou na página três. Havia uma grande fotografia de Amanda a ser levada de maca para o hospital. Ike segurava-lhe a
mão. Até numa maca Amanda estava linda. Ethel leu a notícia cuidadosamente. Amanda tinha desmaiado a meio de uma festa. O diagnóstico era hemorragia interna, causada
por uma úlcera. A sua situação era tida como "satisfatória". Ethel tratou de esconder o jornal. Havia muito que Chris não falava em Amanda; ela tinha a certeza
que ele já não pensava nela. Gostaria de saber o que Robin tinha sentido, quando Amanda se casara com Ike.
253
Depois pensou nas duas cadeiras vazias, no jantar dessa noite. Tinha de admirar-lhe a coragem. Como é que ele ousara não comparecer?

Capítulo décimo sétimo

Robin tinha planeado comparecer. Dissera a Tina, a nova menina dos olhos da Century Pictures, que estivesse pronta às oito horas. Tinha mesmo contratado um táxi.
Gostara de ir àquelapremière, na semana anterior. Geralmente evitava essas coisas, mas tinha recomeçado a escrever o seu livro e, após ter trabalhado nele à noite,
durante várias semanas, sentia necessidade de se divertir. E Deus criara Tina St. Claire para isso mesmo. Tina era uma bela idiota, que estava em Nova Iorque para
promover um filme. Tinha apenas um pequeno papel, mas os astros principais não tinham podido comparecer e Tina St. Claire a jovem estrela da Georgia, concordara
em fazer publicidade. Ecomo fizera! Em San Francisco, em Bouston, em
Dállas, em St. Louis, em Filadélfia e, finalmente, em Nova Iorque! A companhia acabou por dar-lhe um agente de imprensa, um guarda-roupa completo, emprestado pelo
estúdio e uma suite no Hotel St. Regis, onde ela mal parava. No espaço de três dias, aparecera em
sete programas de TV, em dez programas radiofónicos, dera quatro entrevistas a jornais e comparecera a uma loja de departamentos, a fim de autografar o álbum com
a banda sonora do filme. (Isso fizera-a sofrer mais no ego do que nos pés: ficara duas horas de pé e ninguém aparecera). Tudo culminara na première e na festa
que
se seguira, durante a qual o agente de imprensa dera-lhe a passagem de regresso (em classe turística) para Los Angeles, juntamente com instruções para sair do
hotel
no dia seguinte.
Ela ficara tristíssima. Na festa, depois de tomar dois cubas-libres, ela fora apresentada a Robin e contara-lhe toda a sua odisseia.
- Trabalhei como uma desgraçada e agora tenho de voltar. P'ra quê? P'ra ficar à espera qu'eles m'arrangem outro
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papelinho à toa. Foi a primeira vez que vim a Nova Iorque e nem vi nada!
- Fique mais um pouco - ofereceu Robin - que eu mostro-lhe a cidade.
- Com'é que posso? Não tenho dinheiro p'ra pagar o hotel, ló tenho sés dólares e a passagem de volta. Só ganho vinte e
cinco por semana. N' é incrível? A minha
irmã é empregada de lalcão em Chicago e ganha mais do qu'eu. Depois de mais dois cubas-libres, Tina mudara do Hotel It. Regis para o apartamento dele. Durante
uma semana, Robin vivera cercado de máscara, sombra de olhos epancake.
Não podia acreditar que uma rapariga tão fresca pudesse pôr tanta porcaria no rosto. Tinha
mais pincéis do que um pintor, ele tinha sido obrigado a levar o seu manuscrito para o escritólio. Segundo Tina, a mesa de trabalho de Robin é que tinha a melhor
luz para ela pôr os cílios postiços. O interessante é que Robin tinha gostado de trabalhar no escritório. Das cinco às
sete, desligava os telefones e adiantava um
bocado. Tirou a folha da máquina de escrever e olhou para o relógio. um quarto para as sete. Hora de acabar. Tina ia-se embora
deentro de quatro dias e ele poderia
voltar a trabalhar à noite no apartamento. Ela era uma garota e tanto, mas ele não estava
com pena dela partir. Os dois eram parecidos. Como ele, ela tambem era
insaciável na cama, não fazia perguntas nem exigências.
Robin pôs de lado o manuscrito e acendeu um cigarro. Não queria ir ao jantar do Waldorf, mas era promovido pela sr.a R.ustin, em benefício de uma coisa qualquer,
e ele tinha de comparecer. Bem, agarraria Tina e sairiam logo depois das
conversas. Prometera levá-la ao El Morocco. Não que ele gostasse, mas sempre devia alguma
coisa à pequena! Utilizava-se da máquina de barbear eléctrica no escritório,
porque Tina também tomara conta da casa de banho, transformando-a num arsenal de cremes.
Ligou a máquina de barbear e a televisão para ver o noticiário das sete. Tinha acabado de fazer a barba, quando Andy Farino
256
surgiu no vídeo, a falar, todo excitado sobre uma nova aparição
de discos voadores. Robin escutou sem grande interesse até que as fotos do disco encheram o vídeo.
Estavam meio tremidas mas, caramba! não pareciam forjadas. Aproximou-se do televisor; podia jurar que via até janelas no diabo do disco.
- O Pentágono afirma que é um balão atmosférico. - A voz de Andy era irónica. - Se isso é verdade, porque mandaram um dos componentes do projecto Bluebook investigar?
porque razão presumir que, em todo o vasto universo, o nosso planeta seja o único a ter vida? Todos sabemos que nem o nosso sol é tão potente como outros sóis,
e
sim um astro de grandeza bastante inferior. Porque não haveria um planeta de outro sistema solar, ter vida humana talvez vinte milhões mais adiantada do que a
nossa? Está na hora de se fazer uma verdadeira investigação, e de levar os resultados ao público.
Robin ficou fascinado. Tinha de falar com Andy.
Estava a fazer-se tarde mas, que diabo, chegariam ao Waldorf às oito e meia. Chamou Andy do estúdio e deu-lhe os parabéns pelas fotos do disco, pedindo-lhe mais
pormenores.
- É tudo exactamente como eu disse - respondeu Andy.
- E falaste bem. Quem escreveu o comentário? Houve um momento de silêncio e depois Andy disse:
- Maggie Stewart. - Vendo que Robin não se lembrava do nome, acrescentou: - Já te falei a respeito dela.
- Parece uma rapariga inteligente.
- Ainda não consegui convencê-la a casar comigo...
- Então, eu não disse que ela parecia inteligente? Como está aí o tempo?
- Quente e claro.
- Pois aqui está húmido e parece que vai chover.
- Sabes uma coisa, Robin? Se eu fosse Director de Reportagens, procuraria reportagens em lugares quentes, no Inverno e em lugares frescos no Verão.
- Gostaria bastante.
- Bem, tenho que ir andando. Maggie deve estar à minha espera no bar do Gold Coast. Fica mesmo em cima da baía.
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Podem ver-se todos os iates a entrar e a sair. Uma beleza! Sentamo-nos juntos da janela e ficamos a olhar para a lua e para a água.
- A vida está para ti - disse Robin, com a voz cheia de inveja. - Eu tenho que ir pôr black tie e ir ao Waldorf.
- Estás louco, só vivemos uma vez. Porque não vens até aqui passar uns dias e descansar?
- Gostava bastante.
- Bem, tenho que ir-me embora. O tipo que viu o disco vai jantar connosco. Ensina matemática num liceu e calculou até a velocidade do objecto. Acho que daria um
belo programa, quem sabe se num domingo à tarde?
- Um momento! - gritou Robin. - Daria um grande Em Profundidade. Agarramos no teu professor de matemática e outras pessoas que tenham visto discos e que sejam
dignas de crédito, com fotografias. Depois, agarramos alguns sujeitos do Pentágono e metralhamos os tipos com perguntas...
- Queres que te mande o material? - perguntou Andy.
- Não, eu vou até aí. Quero conversar com esse professor.
- Quando vens?
- Esta noite.
Fez-se uma pausa e Andy repetiu:
- Esta noite?
Robin soltou uma gargalhada.
- vou aceitar o teu conselho. Preciso de uns dias de sol.
- OK, vou reservar-te umasuite no Diplomar. Fica perto do meu apartamento e tem um grande campo de golfe. Mandarei um carro esperar por ti.
- Até logo à noite, então.
- Não, Robin. vou mandar-te um carro, mas vazio. Tenho um encontro com Maggie.
Robin riu.
- Filho da puta! Vocês andam a dormir juntos?
- Quando conheceres Maggie verás que ela não é desse tipo.
- Está bem, Andy. Vejo-te amanhã de manhã.
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Eram oito e quinze quando Robin entrou no seu apartamento. Tina estava já de vestido comprido, com a luxuriante cabeleira ruiva penteada em estilo grego.
Queridinho - disse ela, rodopiando à volta dele - não
sabes o que'aconteceu. O estúdio disse qu'eu posso tirar mais uma semana de férias, n'é maravilhoso? Mas, querido, é tarde, precisas mudar de roupa. O carro tá
à espera...
Robin entrou no quarto e tirou uma mala do armário. Tina seguiu-o.
- Tenho que ir a Miami - disse ele.
- Quando?
- Esta noite, queres vir? Ela torceu o nariz.
- Querido eu moro em Los Angeles. Los Angeles é tal qual Miami, tem é o smog a mais.
Ficou a olhá-lo, boquiaberta, enquanto ele telefonava para o aeroporto, mandando reservar uma passagem.
- Robin, tu não podes ir embora dessa maneira. E o banquete do teu patrão?
- Mandarei uma desculpa amanhã por telegrama. Robin pegou na mala, agarrou no sobretudo e caminhou para a porta. Atirou algumas notas para cima da mesa. - Tens
aí quase cem dólares!
- Quando voltas?
- Dentro de quatro ou de cinco dias. Ela sorriu.
- Ah, atão inda vou tar aqui. Ele olhou para ela.
- É melhor não estares. Ela ficou espantada.
- Pensei que gostavas de mim.
- Boneca, faz de conta que nos conhecemos durante um cruzeiro nas Caraíbas. Este é o primeiro porto de escala e tu desembarcas nele.
- E s'eu resolvesse ficar no barco? - Atirava-te ao mar.
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- Atiravas, uma ova!
Ele riu.
- Atirava, sim. O barco é meu. - Beijou-a na testa. Quatro dias, e depois fora!
Ela ainda estava de boca aberta quando ele saiu do apartamento.
O carro, um enorme carro de luxo preto, estava à sua espera, no aeroporto de Miami. A suite no hotel, também;
havia até um balde de gelo e uma garrafa de vodka.
O bilhete Izia: "Telefono de manhã. Dorme bem. Andy." Robin mandou buscar os jornais de Miami. Despiu-se,
preparou uma bebida e instalou-se confortavelmente na
cama. A fotografia na página dois, o retrato de uma rapariga a sorrir,
parecia-lhe familiar: Amanda! Amanda posando como modelo de modas, a cabeça atirada para trás,
um ventilador a despenteá-la. A legenda dizia: BELDADE LOCAL GRAVEENTE ENFERMA. Robin leu a notícia rapidamente e pediu
uma ligação para Ike Ryan.
- A coisa é séria? - perguntou, logo que Ike atendeu. - com
ela, cada segundo é sério. Está a viver de empréstimo desde Maio passado.
- Sim, mas... - Robin não sabia como dizer.
- Não, não é o fim. Ouve, eu aprendi a viver com a sorte. Todos os dias morro um pouco. Sabes o que é, Robin,
ter uma mulher tão bonita; a maldita doença parece que a torna Inda mais bela, como se fosse de porcelana. Estou sempre a
vigiar e sei quando ela está cansada e finge
não estar. Também vejo o começo do medo nos olhos dela. Ela sabe que não é
natural sentir-se assim tão cansada. Brinco com ela e finjo que
também estou cansado. Ponho
as culpas na Califórnia, na mudança de ares, ou mesmo em tudo. Graças a Deus que ela está
um pouco melhor. Deram-lhe uns litros de sangue e amanhã vai começar com um
novo medicamento. O médico acha que pode dar resultado e, com um pouco de sorte, talvez ela tenha
ainda mais uns meses de vida.
- Ike, ela está a resistir desde Maio; oito meses mais do que fora previsto.
- Eu sei e fico a dizer a mim próprio que ela viverá mais oito meses. Mas a maldita leucemia acaba por criar resistência a todos os medicamentos. Chega um dia
em
que não há mais nenhum para experimentar.
- Ike, ela não desconfia, pois não?
- Sim e não. Acho que desconfia. Seria completamente idiota, se não desconfiasse, com esses exames de sangue todas as semanas e um exame de medula todos os meses.
Assisti uma vez a um e quase desmaiei; enfiam uma agulha até à espinha. Mas ela nem se queixa. Perguntei-lhe depois se tinha doído e, nem vais acreditar-me, ela
apenas sorriu e disse que sim. Quando ela me pergunta porque é que esse exame tem de ser feito todos os meses, ponho-me na brincadeira e digo que quero uma mulher
forte, e depressa. Mas ela faz perguntas engraçadas e anda sempre a ler as colunas de medicina nos jornais. No fundo ela sabe que há qualquer coisa de muito sério,
mas recusa-se a acreditar. Está sempre a sorrir, sempre a preocupar-se comigo. Robin, aprendi um bocado com esta rapariga. Nunca vi ninguém tão generoso; aliás
não
sabia o que significava a palavra generosidade antes de conhecer Amanda. Morre de medo, mas não o mostra. Sabes o que ela me disse esta noite! Olhou para mim e
disse-me:
"Oh, meu querido, sou mesmo desmancha-prazeres. Querias ir tanto a Palm Springs!"
- A voz de Ike era trémula. - Amo-a, Robin, e sabes que não me casei com ela por amor. Casei por egoísmo. Pensava que ela viveria mais seis meses e depois acabar-se-ia.
Tinha planeado fazê-la aproveitar o máximo, enquanto vivesse, e depois
dar-lhe um funeral de luxo e receber os aplausos. Era como se eu tivesse assinado um contrato
para fazer um espectáculo de curta temporada. Isso dá-te vontade de me partir a cara? Bolas, todas essas raparigas de quem eu trocei podem agora rir por último.
Pela primeira vez na minha maldita vida, estou verdadeiramente apaixonado. Robin, eu daria tudo que tenho se a
pudessem
261
salvar. - Ike começou a soluçar abertamente.
- Ouve, Ike, posso fazer alguma coisa para te ajudar? Robin não sabia o que dizer, a ouvir um homem como Ike a
chorar daquela maneira.
- Meu Deus! - disse Ike. - Eu não chorava desde a
morte da minha mãe. Desculpa ter desabafado contigo, mas é a
primeira vez que tenho com quem falar. Ninguém sabe, só eu,
tu, Jerry e o médico. E tenho de fazer cara alegre diante de
Amanda. As vezes parece que vou sufocar.
- Ike, estou no Diplomat Hotel, em Miami Beach. Telefona para mim todas as noites se quiseres conversar um pouco.
- Não, hoje foi bom, mas não vai ser preciso mais. Posso
aguentar tudo, menos quando ela me pede para lhe fazer uma
criança. Quer tanto ter um filho! Precisavas de a ver com o
gato. Fala com ele como se fosse um bebé.
- O gato tem muita classe - disse Robin.
Houve uma pausa e depois Ike continuou, em voz baixa.
- Robin, quero que me expliques uma coisa. Eu e tu
temos conhecido muitas mulheres, a maioria verdadeiras putas. Queres apostar que elas vão chegar aos cem anos? Mas esta
pobrezinha, que nunca fez mal a ninguém.. por que tem de ser
assim? Queres explicar-me?
- Acho que é como jogar aos dados - respondeu Robin,
lentamente. - O tipo faminto, que aposta tudo, acaba por
ficar sem calças, ao passo que, se Paul Getty jogasse aos dados,
provavelmente duplicaria a sua fortuna.
- Não, não pode ser só isso. Não sou um tipo religioso,
mas juro que estes sete meses deram-me que pensar. Não quero
dizer que vou passar a frequentar a igreja ou a sinagoga, mas
tem que haver uma razão para as coisas. Ela tem só vinte e cinco
anos, Robin, só vinte e cinco anos. Eu tenho mais vinte do que
ela. Que fiz eu para viver quase o dobro do que ela viveu? Não
posso acreditar que talvez daqui a um ano, ela já não exista,
tendo deixado, apenas umas fotos para o provar. Porque há-de
ela morrer, quando há nela tanta beleza, tanto desejo de vida,
tanto amor?
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Talvez o que ela tenha feito por ti nestes últimos meses
seja razão suficiente para ela ter existido. Muita gente passa por este mundo sem deixar qualquer marca.
- Sei apenas uma coisa - disse Ike. - vou fazer com que este Natal seja o mais feliz que ela já teve. Robin, quero que venhas passá-lo connosco. Tens que
vir! Quero
que o Natal dela seja perfeito.
Robin ficou calado. Detestava doenças; e estar com Amanda e saber...
Ike percebeu a hesitação dele.
- Talvez eu esteja a ser egoísta - disse. - Provavelmente, gostas de passar o Natal com a família. Eu queria apenas dar a ela todas as alegrias possíveis, não
faltar nenhuma.
- Conta comigo - disse Robin.

Segunda parte MAGGIE

Capítulo décimo oitavo

As duas da manhã, Maggie Stewart continuava desperta. Tinha fumado um maço inteiro de cigarros. Durante três horas andara de um lado para o outro, do living para
a pequena varanda sobre a baía. Gostava de olhar para a baía; o oceano era enorme e vazio, mas a baía refulgia de vida. Os iates salpicavam-na, as suas luzes a
reflectirem-se nas águas escuras. Maggie invejava as pessoas que dormiam neles: devia ser como se estivessem num berço grande, com as ondas a lamberem os costados
e fazendo-as adormecerem com os embalos. Agarrou-se ao parapeito da varanda e ficou a pensar.
Robin Stone estava na cidade! Defrontar-se-iam no dia seguinte. Que iria ele dizer? Estranhamente, pensou em Hudson. Pela primeira vez, em quase ano e meio, permitia-se
pensar nele. De há muito, ou, melhor, logo após ter casado com Hudson, aprendera que era melhor ignorar a infelicidade. Pensar nela só fazia alimentá-la,
mantê-la
viva. Esta noite, pela primeira vez, deixou que a imagem de Hudson Stewart surgisse diante dela. Via-lhe o rosto, o sorriso, que aos poucos se fora tornando amargo
e, por fim, o último, terrível, ameaçador sorriso. Tinha sido a sua última visão dele: aquele horrível sorriso, antes de desmaiar. Parecia-lhe tão longínquo, o
tempo em que vivera naquele casarão, como a Sr.a Hudson Stewart in. Porque eram sempre os homens perdoados, enquanto as mulheres tinham de obedecer às regras pré-estabelecidas?
Tinha casado com Hudson aos vinte e um anos. Oficialmente, o casamento durara três anos. Era difícil recordar exactamente o que ela sentira, no início. Tinha querido
ser actriz, um sonho que começara quando ela era ainda criança e Vira pela primeira vez Rita Hayworth num filme. Um sonho
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que se cristalizara quando ela tinha visto a sua primeira peça no Forrester Theater. Ver os actores de perto, ali no palco, fizeram com que tudo nos filmes lhe
parecesse pálido e irreal. Actriz de teatro, eis o que ela seria. Tomara essa decisão aos doze anos e anunciara-a à mesa do jantar. Os pais tinham sorrido, mas
ela entrara para um grupo de teatro amador, quando andava no liceu e, em vez de ir a bailes, passava os fins-de-semana a estudar Tchekov. A crise surgira quando
ela proclamou que não desejava continuar os estudos; pretendia ir para Nova Iorque, fazer teatro. A mãe desatara a chorar.
- Maggie - soluçara - já estás matriculada em Vassar. Sabes bem como eu economizei, para que pudesses tirar um curso superior!
- Mas eu não quero um curso superior. Quero ser actriz!
- É caro viver em Nova Iorque. Poderias levar mais um ano a teres uma oportunidade. Como irias viver?
- com o dinheiro que economizaste para eu estudar em Vassar. Só preciso de metade.
- Nada disso! Não te vou dar dinheiro para ires para Nova Iorque e dormir com actores e velhos porcos que produzem espectáculos. Maggie, raparigas decentes não
vão para Nova Iorque.
- Grace Kelly foi, e era uma rapariga decente. Mas a mãe não se deixara convencer.
- Grace Kelly é uma excepção. Além disso, era rica. Maggie, eu nunca pude tirar um curso superior. O teu pai teve de trabalhar duramente para concluir o curso.
O nosso sonho foi sempre mandar a nossa filha para a melhor universidade. Por favor, vai para Vassar. Se, quando terminares o curso preparatório, ainda quiseres
ir para Nova Iorque, bem, aí já terás vinte e um anos.
E ela fora para Vassar. Conhecera Hudson no último ano do preparatório. Achara-o razoavelmente atraente, mas a mãe ficara louca de alegria.
- Oh, Maggie, que maravilha! Uma das melhores famílias de Filadélfia, e tão ricos! Espero que os Stewart nos
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aceitem. No fim de contas, somos respeitados e o teu pai é
médico.
Só saí duas vezes com ele, mãe, e ainda estou a pensar
em ir para Nova Iorque.
- Nova Iorque! - repetira a mãe, indignada. - Ouve, menina, tira essas ideias da cabeça. Economizei durante anos para mandar-te estudar em Vassar. Logo que me
escreveste a dizer que a tua companheira de quarto era Lucy Fenton vi que as coisas estavam bem encaminhadas; tinhas de conhecer rapazes de boas famílias, através
de Lucy!
- Vou para Nova Iorque, mãe.
- Viver de quê?
- Bem, arranjarei um trabalho qualquer e depois tentarei o teatro.
- E que espécie de trabalho achas que arranjas, hem? Nem sequer sabes escrever à máquina. Não estás preparada para trabalhar. Eu não devia ter-te deixado entrar
para aquele grupo teatral no liceu, mas pensei que acabasses por enjoar. E não penses que eu não via o modo como olhavas para aquele rapaz estrangeiro.
- Adam nasceu aqui mesmo em Filadélfia!
- Então precisava de tomar banho e cortar o cabelo! Maggie ficara surpreendida por ver a mãe lembrar-se de
Adam. Nunca lhe falara nele. Adam fizera parte do grupo de amadores de que ela também participara, durante o liceu. Fora para Nova Iorque e nessa temporada voltara
a Filadélfia, com uma companhia da Broadway. Evidentemente, uma companhia itinerante, de que ele era apenas assistente de direcção. Mas conseguira, era um profissional
do teatro. A peça permanecera três meses no cartaz e ela vira-o todos os fins-de-semana. Até mesmo Lucy o achara o melhor. Na noite anterior à última apresentação,
Adam pedira-lhe para ir ao hotel dele. Ela hesitara, mas depois dera-lhe o braço, dizendo: Vou passar a noite contigo, porque quero passar a minha vida a teu lado.
Mas não poderemos casar enquanto eu não terminar os estudos. A minha mãe teria um ataque. Ela nunca acreditou que eu
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acabasse por ir para Nova Iorque tentar uma carreira no teatro. Pelo menos, vou ter que acabar o curso e formar-me." Ele tomará-lhe o rosto nas mãos.
- Maggie, estou caído por ti, mas, querida, em Nova Iorque eu moro no Village, com dois outros tipos. Metade do ano vivo à custa do seguro de desemprego. Não posso
nem pagar um apartamento, quanto mais sustentar uma mulher.
- Queres dizer que querias dormir comigo e depois desaparecer?
Ele rira.
- Estou sempre a desaparecer, para Detroit, para Cleveland, para St. Louis, depois de regresso a Nova Iorque. E espero que o meu agente já me tenha arranjado trabalho
numa companhia de Verão. Quero tentar a encenação. Claro que vai ser uma companhia miserável, e sem receber um tostão. Pois é, Maggie, estou sempre a desaparecer.
Todos os actores estão. Mas não estou a fugir de ti, isso é diferente. Podes saber sempre onde estou, através do Sindicato.
- Mas, e nós? Como seria a nossa vida juntos?
- A vida que podem ter duas pessoas que lutam para vencer. Estou caído por ti, talvez mesmo apaixonado. Mas nunca se podem fazer planos, no teatro. Não é um emprego
com horário e ordenado fixo todos os meses. Não há tempo para ter filhos e um apartamento decente. Mas, se quiseres vir comigo depois de terminares o curso, óptimo.
Conheço bem Nova Iorque, apresentar-te-ei ao meu agente. Talvez possamos viver juntos.
- E por que não casar?
Ele passara-lhe a mão pelo cabelo.
- Não saias de Filadélfia, Maggie. A pensares assim, é melhor não saíres. Ou queres ser actriz, ou dona de casa.
- E não posso ser as duas coisas?
- Não, com um actor. Não resultaria. Os actores e as actrizes são gente devotada, que passa fome, que trabalha, que sonha...
- E que não se apaixona?
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Apaixona-se e mais do que os outros. Quando se apaixona, dormem juntos mas, se aparece um trabalho para
separá-los, eles separam-se. Uma actriz nunca se sente só porque
tem dentro dela essa chama sagrada que se chama talento e que nunca se apaga.
- Quero dormir contigo, Adam - dissera ela. Ele ficara um momento calado.
- Maggie... já dormiste com alguém, antes? Os olhos dela pareciam desafiá-lo.
- Ainda não sou uma dessas actrizes devotadas. Ainda tenho um quarto limpo e confortável, só para mim.
- Então vamos deixar a coisa assim. Se alguma vez fores a Nova Iorque, procura-me.
A entrada de Hudson na vida de Maggie, juntamente com a sua formatura, tornaram aqueles seis meses de namoro numa tal roda-vida, que ela nem tivera tempo de analisar
as suas emoções. Tentara não se deixar influenciar pelo entusiasmo da mãe, mas fora impelida pela avalanche de coisas novas que Hudson trouxera à sua vida. O Country
Club, a sua primeira ida ao hipódromo; as duas semanas que passara em Ocean City, como hóspede do casal Hudson Stewart II.
Em Setembro, o noivado fora anunciado e Hudson dera-lhe um brilhante de sete quilates. O seu retrato aparecera no Inquirer e no Bulletin.
Era como se ela estivesse a representar uma peça e Hudson fosse o galã e, no final do terceiro acto, o público aplaudisse e a peça terminasse.
Mas, à medida que se aproximava a data do casamento, Maggie de repente dera-se conta de que, quando a peça terminasse, ela seria a Sr.a Hudson Stewart in. A sua
atitude tinha sido de tranquila resignação até ao dia em que tinha aceitado
um convite para almoçar com Lucy, uma semana antes do casamento.
Estavam no Warwick, a discutir os planos para a cerimónia,
271
quando Lucy perguntara, sem mais nem menos:
- Tens tido notícias daquele actor, Adam? Vi-o num anúncio da TV, não há muito tempo. Não falava, apenas se barbeava, mas que olhos. Tem razão quando dizem que
os
judeus são sexy!
- Ele é judeu? - Era uma surpresa para Maggie.
- Chama-se Adam Bergman - recordara-lhe Lucy. Lembro-me de uma noite em que estávamos a conversar (provavelmente estavas tão caída por ele, que nem prestavas atenção)
e ele disse que um agente sugerira arranjar-lhe outro nome, porque Bergman era demasiado judeu. Adam respondeu: "Não faz mal, fico com ele; Ingrid triunfou, apesar
do nome." - Vendo que Maggie não respondia, Lucy acrescentara: - Acho que isto faz parte da vida. Todas nos apaixonamos homem errado. No fim de contas, não importa
muito, desde que casemos com o homem certo, tome juízo e tenha filhos. Principalmente tu: cada vez que tiverem um filho receberão um milhão. O pai de Hudson já
deu
à filha dois milhões; por isso é que teve dois filhos em três anos de casada. Eu e Bud teremos de esperar até que o meu pai morra.
- Mas amas Bud, não amas?
- Bem, ele serve.
- Serve? - Maggie não escondera a sua surpresa. Lucy sorrira.
- Eu não sou bonita como tu. Tudo o que tenho é o nome e muito dinheiro.
- Ora Lucy, tu és...
Lucy interrompera com um sorriso.
- Não me digas que eu sou "simpática" ou inteligente. Sei que sou inteligente e sei que nada posso fazer para ser mais bonita, porque não sou suficientemente feia.
Foi por isso que te escolhi para minha colega de quarto, Maggie. Pensei que, se tivesse como colega a rapariga mais bonita da escola, tiraria algum proveito. E
foi quando comecei a ser notada. Conheci Harry nesse Verão. Trabalhava na recepção de um hotel, em Atlantic City. Podes imaginar a minha mãe a dar-me
autorização
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para casar com Harry Reilly, que mora no Bronx e estuda na Universidade de Nova Iorque? Não que ele me pedisse
em casamento- Mas, no Outono seguinte, conheci Bud
e a minha mãe ficou encantada. Eu também; acho que vamos ter uma boa vida. Mas pelo menos passei dois meses maravilhosos com
Harry.
- Queres dizer que... - começara Maggie.
- Claro que sim. E tu, com Adam, não? Maggie sacudira a cabeça.
- Livra, Maggie, és mesmo tola. Todas as raparigas deveriam dormir com um homem de que realmente gostam, pelo menos uma vez na vida.
- Mas como é que vais explicar au Bud?
- Explicar o quê? Isso é velho. Referes-te ao sangrar, etc? vou tirar as medidas para um diagrama; direi a Bud que o médico me desflorou.
- Mas não achas que ele vai desconfiar?
- Tratarei de fingir. Ainda me lembro da minha primeira noite com Harry. vou armar em inexperiente, gemer um pouco, ficar tensa e tudo resultará. Sabes uma coisa?
Não sangrei com Harry. Mas foi difícil; acho que nisso é que está a virgindade. vou fazer com que Bud também tenha dificuldade, na primeira noite, claro.
Maggie não tivera de fingir nada com Hudson. Até mesmo a dor fora verdadeira. Hudson tinha sido bruto, fora doloroso, e ela achara tudo aquilo horrível. E o mesmo
acontecera na segunda e na terceira noites. Estavam a bordo do Liberte, a caminho de Paris, onde passariam a lua-de-mel. O camarote era luxuoso, mas ela estava
a tomar Bonamine e sentia-se sonolenta. Talvez as coisas melhorassem quando chegassem a Paris. Mas, uma vez no Hotel George V, as coisas pioraram ainda mais. Hudson
bebia sem parar e caía sobre ela todas as noites, sem tentar mostrar-lhe ternura ou afecto. Assim que ficava satisfeito, mergulhava num sono de chumbo.
Quando regressaram a Filadélfia e se instalaram na bela residência perto de Paoli, Maggie pensara que as coisas seriam
273
diferentes. Hudson voltara a trabalhar, ela tinha contratado empregados, dado jantares, começado a aprender golfe, no clube, e entrado para vários comités de benificência.
Em todos os jornais, as colunas sociais publicavam fotos dela. Era a nova chefe da jovem sociedade de Filadélfia. Hudson parecia
um garanhão, arrastando-a para
a cama todas as noites. Nem sequer tinha mais cuidado a beijá-la ou a acariciar-lhe os seios. A princípio ela julgara ser culpa sua, o facto de não chegar ao clímax,
mas à medida que passavam os meses, ela fora perdendo as esperanças. Apenas queria um pouco de afecto no ritual nocturno. Tentara sondar Lucy, mas ela limitara-se
a encolher os ombros.
- Comigo às vezes resulta, às vezes não. Mas gemo e finjo que está a ser maravilhoso. E contigo e Hudson, como é?
- Cem por cento - apressara-se a dizer Maggie. - Mas, como dizes, às vezes eu também não vibro.
- Ouve, há três meses que não acontece comigo. O clímax, quero dizer. Mas estou grávida de dois meses. Por isso, é evidente que uma coisa não tem nada a ver com
outra. De qualquer modo, é bom fazeres Hudson beber menos. A bebida pode tornar os homens temporariamente impotentes.
Magie achava que um filho melhoraria as coisas entre eles. Aparentemente tudo ia muito bem. Ele era gentil em público, gostava de dançar muito agarrado a ela;
mas nada tinham em comum, quando estavam a sós.
Ela soubera da existência de Sherry ao fim do primeiro ano de casamento. Naqueles dois últimos meses, Hudson tinha ido várias vezes sozinho a Nova Iorque, em negócios.
Nessa noite, ela estava no quarto, a vestir-se para o jantar. Hudson esperava no andar de baixo. Então, tocara o telefone. Maggie estava atrasada e continuara
a pentear-se, certa de que a empregada atenderia. Mas o telefone não parava de tocar. Por uma destas ironias da sorte, ela resolvera atender ao mesmo tempo que
Hudson, no andar inferior. Ia desligar, quando ouviu uma voz feminina sussurrar:
- Huddie? És tu? Desculpa telefonar, mas é urgente.
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Maggie continuara a escutar, estranhamente calma. O tom de Hudson também era cauteloso.
- Bolas, Sherry, disse-te para nunca telefonares para aqui.
- Eu sei, Huddie, mas é urgente.
- Não podia esperar até amanhã? Telefona amanhã para o escritório.
-. Não posso, porque a essa hora estarei a trabalhar e não posso pedir uma ligação
interurbana, as minhas colegas ouviriam. Alguém pode ouvir-me aí? A tua mulher
está em casa?
- Está, mas lá em cima. Que queres?
- Huddie, o exame deu positivo. Estou grávida.
- Bolas, outra vez!
- Bem, que é que eu posso fazer? O diafragma está sempre a sair do lugar e tu não queres usar nada!
- Vais ao mesmo médico, em Jersey?
- vou, mas ele agora cobra mil dólares.
- Está bem.
- Huddie, ele não quer cheques. E eu marquei para segunda feira.
- Ok, irei a Nova Iorque no domingo e dar-te-ei o dinheiro. Não, é melhor eu ir durante a semana. Maggie desconfiaria se eu fosse a um domingo. Fica para quinta-feira.
Estarei em tua casa às oito. Bolas, quem me dera que a minha mulher fosse fértil como tu. Esse bebé vai custar-te mil dólares para desmanchar; se fosse dela, dar-me-ia
um milhão.
Desligara o telefone. Maggie esperara que a rapariga desligasse também e depois pousara lentamente o auscultador no gancho. Sentia como se lhe tivessem dado uma
pancada na cabeça. Nunca lhe passara pela cabeça que uma coisa daquelas lhe fosse acontecer. Sabia que acontecia com outras pessoas, mas com ela! E, contudo, se
o desmascarasse, que ganharia com isso? Tinha vinte e dois anos e não estava preparada para trabalhar. Uma mulher divorciada, em Filadélfia, mesmo que tivesse
uma pensão do marido, era uma mulher solitária. Não havia saída para ela.
Não dissera nada a respeito de Sherry, mas entrara para o
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grupo de teatro amador. Hudson não pusera objecções. Pelo contrário, parecia encantado com a ideia de ter noites livres. O director de programação da IBC local
tinha
ido aos bastidores, após a estreia da segunda peça, e oferecera-lhe um lugar na televisão, como anunciadora do boletim meteriológico. O seu primeiro impulso fora
recusar, mas depois compreendera que assim teria alguma ocupação com que preencher os seus dias.
Maggie tinha levado o trabalho a sério. Passara a ver todos os programas de televisão, principalmente os programas em network. Tomava aulas diárias de dicção e
progredira rapidamente. Seis meses depois era promovida ao Departamento de Reportagens e davam-lhe um programa diário de meia-hora chamado Maggie e a Cidade. Fazia
entrevistas com gente famosa de Filadélfia e de fora, cobrindo todos os sectores, desde modas até política. Não demorara a tornar-se conhecida. Os olhares seguiam-na
ao entrar num restaurante ou num teatro com Hudson. Mas ela encarava o sucesso com divertido despreso.
Hudson substituíra Sherry por uma rapariga chamada Irma, que trabalhava no seu escritório. Já não se incomodava em arranjar desculpas para passar as noites fora
de casa, mas continuava metodicamente a ter relações com Maggie três vezes por semana. Ela submetia-se a ele passiva e silenciosamente. Mais do que nunca almejava
ter um filho.
E assim decorrera o casamento, por quase três anos de aparências. Não conseguia ficar grávida, embora todos os exames constatassem ser ela perfeitamente normal.
Às vezes pensava se iriam ficar assim eternamente. Alguma coisa tinha de pôr um fim àquele estado de coisas.
A coisa veio acidentalmente. O jantar para escolher o Homem do Ano tinha sido planeado durante meses e estava marcado para o primeiro domingo de Março. Na sua
qualidade de celebridade local, Maggie tinha sido convidada para membro do júri, do qual também faria parte o prefeito da cidade e o Juiz Oakes, que ia ser homenageado
em virtude da sua próxima aposentação. Robin Stone seria um dos oradores.
Maggie tinha lido as colunas de Robin Stone. com a
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farta experiência que tinha como entrevistadora, sabia que as pessoas raramente correspondiam à imagem que delas fazia o
público- Mas o retrato de Robin Stone correspondia
à imagem que a sua coluna projectava, forte, viril e dura. Ela estava curiosa por vê-lo em carne e osso.
As seis horas, Maggie já estava pronta e à espera. Hudson ajnda não voltara do country Club, onde costumava passar os domingos. Maggie telefonara para o clube.
Não,
ele não fora lá durante todo o dia. Parvoíce dela, deveria ter desconfiado que aquela era mais uma desculpa dele para passar o dia com a amante de momento.
Sim, mas ela não deixaria de ir à festa. Talvez fosse a sua única oportunidade de conhecer Robin Stone. Depois do jantar, os convidados de honra geralmente corriam
para apanhar o comboio. Olhou para o relógio. Se saísse imediatamente, chegaria a tempo, embora isso significasse que Hudson teria de ir sozinho.
Mal chegara ao hotel, fora directamente para o Salão Dourado. Robin Stone estava cercado de gente. Segurava um martini e sorria delicadamente.
Maggie aceitara um uísque com soda, morno, que um empregado lhe servira. O Juiz Oakes aproximara-se dela.
- Venha, quero apresentá-la ao nosso orador convidado. As nossas esposas estão loucas por ele.
Robin olhara para ela e sorrira.
- Jornalista? É bonita demais para ser repórter. - E, sem mais nem menos, tomara-a pelo braço e afastara-a do juiz. O seu uísque está sem gelo.
- Está horrível - concordara ela. Ele engolira o resto do martini.
- Isto também. - Pusera o copo na mão do juiz. Segure isto para mim, está bem? Venha jornalista, vamos procurar gelo. - E arrastara-a para o outro lado do salão,
Murmurando: - Não olhe para trás. Estão a seguir-nos?
- Duvido - respondeu ela, a rir. - Acho que o espanto Petrifícou-os.
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Ele entrara no bar e dissera para o boquiaberto barman:
- Importa-se de me deixar preparar a minha bebida? --. Antes que o homem pudesse responder, Robin já estava a deitar uma grande quantidade de vodka num jarro.
Olhara para Maggie. - Quer um pouco mais de uísque, ou prefere experimentar um Stone Especial?.
- Um Stone Especial. - Ela tinha a noção exacta de que estava a agir como uma estudante. Detestava martinis. E também sabia que estava a olhar para ele como uma
idiota. "Aproveita este momento" pensava. "Amanhã, estarás com Hudson, de novo na tua vida chata, e Robin Stone estará noutro hotel, noutra cidade, a preparar
outro martini."
Ele estendera-lhe o copo.
-Para si, repórter. - Depois, agarrara-a pelo braço e tinha-se instalado num pequeno sofá.
Maggie sabia que não havia mulher no salão que não estivesse a olhar para ele. Sentia, também, uma nova e estranha liberdade. Que olhassem à vontade! Ela é que
não podia ficar ali, a olhar para ele. Tinha que dizer alguma coisa.
- Li que o senhor tinha deixado a coluna e que agora se dedicava a fazer conferências e a falar em ocasiões como esta. Sinto a falta da sua coluna. -Caramba, como
parecia forçada e insincera!
Ele encolhera os ombros.
- Quando a coluna chegava aos jornais, mais parecia um picado.
- Não, às vezes eram até bem compridas. Mas, talvez prefira falar em público. -Ele engolira a sua bebida duma só vez e depois apanhara o martini dela. - Não gosto
mais disso. É apenas um meio de vida.
Oferecera-lhe um cigarro e acendera-o.
- E você, que faz na televisão?
- Como já lhe disse, reportagens, entrevistas... quase sempre com mulheres.
- E aposto que tem um bom público.
- Porquê? Acha assim tão incrível?
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Não, nada é incrível na televisão. Aliás, é uma coisa maravilhosa - dissera ele. - Criou uma nova raça de gente
bonita.
- Mas acha que o facto de se verem as pessoas torna o jornalismo mais pessoal, ajuda a gerar um melhor entendimento?
Ele encolhera de novo os ombros.
- Ora, gera é ídolos. Toda a gente idolatra Lucy, Ed Sullivan e Bob Hope neste momento. Mas o público é volúvel. Lembra-se de como adorava o tio Miltie? Diga-me
uma coisa, de quem é que você gosta, na televisão?
- Gostaria de si - Maggie parara, horrorizada. Ele rira.
- É a primeira rapariga sensata que conheço. Vai direita ao assunto.
- Quis dizer que gostaria de o ouvir expor as suas ideias. Ele terminara a bebida.
- Nada de explicações ou estragará tudo. O mundo está cheio de mulheres dissimuladas. Gosto da sua franqueza. Venha, vamos tomar mais uma bebida.
Ela seguira-o de volta ao bar, maravilhada com a facilidade com que ele tinha tomado as duas bebidas. Ele preparara mais dois e dera-lhe um. Maggie provara, escondendo
uma careta: era quase vodka puro. Várias pessoas aproximaram-se e as mulheres começaram a afluir; não tardara que ele estivesse de novo cercado. Respondera a todas
as perguntas, sempre com um sorriso, mas sem nunca lhe largar o braço. O olhar de Maggie estava fixo na porta. De repente, ela desejava que Hudson não aparecesse.
Ouvira-se tocar uma campainha e o presidente do júri batera as palmas.
- Onde se senta? - perguntara Robin.
- Acho que na ponta. Oiça, estão a chamar-me - Maggie afastara-se dele.
Robin batera no ombro do presidente.
-O senhor incomodar-se-ia de trocar de lugar com a
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minha jornalista? Tanto o senhor como o Juiz Oakes são muito simpáticos, mas não viajei duzentos quilómetros para ficar entre os dois, quando posso sentar-me ao
lado de uma mulher bonita.
Ao entrarem no salão de festas, Robin tinha-a escoltado para a cadeira ao lado da dele, na mesa do júri. Maggie sentira todos os olhares cravados neles. Robin
mandara vir mais martinis. A sua resistência à bebida parecia ilimitada. Três martinis bastavam para que Hudson ficasse alegre, mas Robin parecia absolutamente
sóbrio. Contudo, ninguém podia tomar tantos martinis sem sentir algo.
Vira Hudson entrar e sentar-se na ponta da mesa. Vira o vizinho explicar-lhe a troca de lugares. E não pudera deixar de gozar com a expressão de surpresa no seu
rosto.
Ouvira o presidente do júri apresentar Robin. Antes de se levantar ele sussurrara ao seu ouvido:
- Oiça, vou despachar o serviço o mais depressa possível. Tenho uma suite à minha disposição aqui no hotel. Foram generosos, aqui em Filadélfia. Se quiser encontrar-se
comigo, estarei à sua espera. Se não, irei a correr apanhar o comboio das onze e meia.
Levantara-se e esperara que os aplausos terminassem. Depois inclinara-se e dissera-lhe ao ouvido:
- Então? Estou à espera duma resposta.
- Irei ter consigo.
- Óptimo, Suite 17 B. Espere um pouco depois de eu sair.
Fizera o seu discurso e o prémio fora entregue ao Juiz Oakes. Todos vieram abraçar o juiz, os jornalistas a
pedirem-lhe para posar ao lado de Robin e as mulheres
rodeando-os. Robin assinara alguns menus, olhara para o relógio e dissera que estava à espera de uma chamada interurbana. Despedira-se do juiz, acenara para todos
e saíra.
Eram onze horas. Hudson saíra do seu lugar na mesa, e sentara-se na cadeira que Robin deixara vaga.
- Que tal o cocktatl, foi bom?
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Gostei - respondeu ela.
Vamos embora.
De repente ela caíra em si. Como é que prometera
encontrar-se com Robin Stone? Que se passara com ela? Não
podia sequer pôr as culpas no martini... mal o tinha provado.
O facto é que não tinha a menor intenção de ir ao apartamento
dele!
- Este é o último jantar a que espero comparecer anunciara Hudson. - E queixas-te dos sábados à noite no Country
Club. Pelo menos lá, divirto-me. E estamos com amigos.
- Faz parte do meu trabalho - justificara-se ela.
- Trabalho? - troçara ele. - A propósito, temos de conversar. Anda muita gente a comentar. O meu pai diz que alguns amigos dele acham mau entrevistares todos esses
tipos. O escritor que entrevistaste, na semana passada, parecia comunista.
Ela não respondera. Hudson de vez em quando falava assim e depois a coisa passava. Era melhor deixá-lo falar.
- Não me ligas importância, não é, Hudson? -perguntara ela, vendo-o emborcar o copo e voltar a enchê-lo.
Ele suspirou pesadamente.
- Não é contigo. É conosco... com as nossas famílias... As vezes, sinto que estou farto... Mas não te preocupes, não te deixarei. Nenhum de nós pode ter verdadeira
liberdade, enquanto não deitares cá para fora uns miúdos. Caramba, era o mínimo que podias fazer.
Ela pusera-se de pé.
- Hudson, metes-me nojo.
Ora, bem vi a tua mãe no casamento, toda sorridente. E o teu pai, todo apertos de mão e charutos. Porque estavam eles tão felizes? Porque nos amávamos? Nada disso!
Por causa do dinheiro dos Stewarts. Mas tu não estás a cumprir a tua parte do contrato. O teu papel é ter filhos. - Olhara para ela. Talvez fosse boa ideia irmos
para casa e tentarmos.
- Talvez, se não bebesses tanto - dissera ela.
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- Quem sabe, se eu não tenho de beber para me entusiasmar contigo? Sou homem, não posso fingir. - E seguira-a de
cara fechada. No vestiário, tinham encontrado Bud e Lucy. Ela
estava de novo grávida, e também ligeiramente embriagada.
T Vamos acabar no Embassy. Querem vir?
Hudson olhara com inveja para a barriga de Lucy.
- Óptima ideia! - Tinha pegado Maggie pelo braço e
entraram todos no elevador.
O motorista de Bud estava à espera.
- Deixem os carros - sugerira Lucy. - Viremos buscá-los depois.
O Embassy estava completamente cheio. Sentaram-se na
sala cheia de fumo, apertados em volta de uma mesa minúscula. Alguns conhecidos do club estavam na mesa ao lado.
Tinham juntado as mesas, os homens tinham contado anedotas, o empregado trouxera
uma garrafa de uísque e Maggie
ficara a pensar no homem à sua espera na Suite 17 B.
Tinha de telefonar para ele. Tinha de dizer-lhe á verdade,
que aceitara num momento de loucura, que era casada. Não era
justo fazer Robin Stone esperar. Ele trabalhava demais.
De repente levantara-se.
- vou pentear-me - Tinha de haver telefone nos lavabos.
- vou contigo - dissera Lucy. - Estou morta por saber
o que te disse Robin Stone. Vi-o falar contigo várias vezes, à
mesa. Vens também, Edna? - perguntara Lucy a uma das
raparigas.
As três dirigiram-se para os lavabos. Havia um telefone,
mas a empregada estava sentada mesmo ao lado. Maggie
resolvera retocar a pintura, respondendo laconicamente às
perguntas sobre Robin Stone. Tinham falado de televisão,
explicara. Ainda tinha tentado ficar para trás, mas Lucy e Edna
tinham esperado por ela. Ao voltarem à mesa Hudson tinha
desaparecido. Ela vira-o no outro extremo da sala, sentado a
uma mesa com um grupo, o braço passado pelos ombros de
uma rapariga. Maggie reconhecera-a, era uma jovem recémI-casada que se tornara sócia do clube há pouco tempo. A mão
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de Hudson acariciava-lhe as costas nuas. O marido estava sentado em frente e não via. Maggie pusera-se de pé.
- Senta-te - sussurraraLucy. - Maggie, sabes bem que isso não quer dizer nada. Hud tem a mania de namorar com
todas as sócias novas.
- Vou-me embora... Bud agarrara-lhe o braço.
- Maggie, não precisas de ficar assim. Conheço a rapariga, é June Tolland. Adora o marido.
Saíra a correr da boite. Só parara de correr ao chegar à rua. Andara até à esquina, fizera parar um táxi e mandara o motorista ir até ao Bellevue Stratford Hotel.
Tocara à campainha da Suite 17 B. O toque era estridente, mas não parecia estar ninguém. Olhara para o relógio. Meia-noite e quinze. Talvez ele tivesse partido
ou
estivesse a dormir. Tocara outra vez, depois resolvera ir-se embora. Estava já a meio do corredor, quando de repente a porta se abrira. Robin segurava um copo.
- Entre, repórter, estou ao telefone.
Ela entrara para o living do apartamento. Ele apontara-lhe a garrafa da vodka e voltara para o telefone. Estava a falar a respeito de trabalho, qualquer coisa
sobre as cláusulas de um contrato. Ela preparara uma bebida. Ele tinha tirado o casaco. A camisa tinha duas pequeninas iniciais, RS bordadas no peito. A gravata
estava desamarrada e ele falava com voz precisa e frases curtas. Maggie notara que a garrafa de vodka estava pela metade e mais uma vez se maravilhara da capacidade
de beber que ele tinha. Finalmente ele desligara.
- Desculpe tê-la feito esperar, mas também demorou um pouco.
- Para onde vai amanhã? - perguntara ela, subitamente nervosa e encabulada.
- Para Nova Iorque. Acabaram-se as conferências, para sempre.
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- Porquê esse nome? - dissera Maggie. - Esta noite, por exemplo, não fez nenhuma conferência, nem sequer um discurso. Falou de vários assuntos, de quando era correspondente
de guerra, das pessoas que conheceu...
- Acho que o termo vem de quando algum chato projectava slides, etc. Ora, esqueça-se disso! - Pousara o copo e estendera os braços. - Então, não me beija?
Ela sentira-se como uma garota.
- O meu nome é Maggie Stewart - murmurara. Tinham feito amor três vezes, nessa noite. Ele
sussurrara-lhe frases carinhosas, acariciara-a, tratara-a como a uma virgem.
Logo à primeira vez, ela soubera o que era o amor. E, da terceira vez, ela caíra para trás, exausta e grata, enquanto ele a beijava. Quando ele começara de novo
a acariciá-la, ela afastara-se.
Ele tinha mergulhado o rosto nos seios dela.
- Esta noite foi diferente. Estou bêbado, amanhã talvez não me lembre de nada... Mas quero que saibas que foi diferente.
Ela ficara muito quieta. Sentia que ele dizia a verdade. Tinha medo de se mexer, de quebrar o encanto. O célebre, o experimentado Robin Stone parecia-lhe, de repente,
tão vulnerável. Olhara para o rosto dele encostado ao seu peito; queria recordar-se de tudo, nunca esqueceria, principalmente a palavra que ele gritava cada vez
que atingia o clímax.
De repente ele beijara-a, estendera os braços, acendera dois cigarros e dera-lhe um.
- São duas e meia. Se tiveres de acordar a uma hora certa, telefona para a recepção e pede que te chamem. Eu não tenho nada a fazer senão apanhar o comboio de
regresso a Nova Iorque. A que horas tens de estar no trabalho?
- As onze.
- Então, que tal acordarmos às nove e meia? Podemos tomar juntos o pequeno almoço.
- Não... tenho que me ir já embora.
- Não - Era uma ordem... uma ordem, mas os olhos
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dele suplicavam. - Não me deixes!
Tenho que ir, Robin - Ela pulara da cama e correra
a o banheiro. Vestira-se rapidamente e, quando voltara ao quarto, ele estava recostado nos travesseiros. Parecia ter recuperado inteiramente o auto-domínio. Acendera
um cigarro e olhara com curiosidade para ela.
- Para quem estás a correr? Marido ou amante?
- Marido - respondera ela, olhando-o bem nos olhos. Eram tão frios e tão extraordinariamente azuis!
Ele insistira:
- Arriscaste alguma coisa, vindo ter comigo?
- Nada, a não ser o meu casamento.
- Chega aqui jornalista. - Ela chegara e ele tinha-a olhado como se tentasse ler-lhe o pensamento. - Quero que saibas uma coisa. Eu não fazia ideia de que eras
casada.
- Não precisas de sentir remorsos - disera ela, calmamente.
Ele tivera um riso estranho.
- Remorsos, uma ova! Estou a achar engraçado... Boa noite, jornalista.
-O meu nome é Maggie Stewart.
- Boneca, há outro nome para garotas como tu. Debruçara-se para fora da cama e apagara o cigarro.
Ela ficara de pé à beira da cama.
- Robin, esta noite também foi diferente para mim. Tu nem sabes o significado que ela teve para mim. Acredita-me por favor.
De repente, ele enlaçara-a pela cintura, enterrando a cabeça no vestido dela.
- Então não me deixes! - O seu tom de voz era urgente.
- Dizes que me amas, mas vais deixar-me!
Ela não tinha dito que o amava! Soltara-se dele e contemplara-o espantada. Ele parecia estar a olhar para qualquer coisa muito distante, embora estivesse a olhá-la.
Certamente era o vodka. Ele não podia saber o que estava a dizer.
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- Robin, tenho de ir-me embora... mas nunca te esquecerei.
Ele pestanejara e olhara-a como se a visse pela primeira vez.
- Estou com sono. Boa-noite. - Depois, apagara a luz, virara-se para o lado e adormecera. Ela mal podia acreditar que ele não estava a fingir. Mas não, estava
mesmo a dormir.
Voltara para casa numa confusão de emoções. Tudo aquilo fora uma loucura. Robin Stone não era um homem, e sim dois, que nunca pareciam confundir-se a não ser quando
fizera amor com ela. Bem, ele próprio tinha dito: no dia seguinte, nem sequer se lembraria, seria uma qualquer na sua longa lista de conquistas. Mas seria ele
assim para com todas? Não importava. A única coisa que lhe importava era aquela noite.
Maggie entrara em casa sem fazer barulho. Eram quatro da manhã.
Subira ao quarto pé ante pé. No escuro, vira que a cama de Hudson estava vazia. Estava com sorte. Ele ainda não voltara para casa. Despira-se rapidamente e tinha
acabado de apagar a luz, quando ouvira o carro dele entrar na garagem. Fingira estar a dormir, quando ele entrara no quarto. O cuidado que ele tinha em não fazer
barulho, em não acordá-la, divertia-a. Dentro em pouco, ouvia-o roncar, no seu profundo sono de bêbado.
Nos quinze dias seguintes, ela tinha mergulhado no trabalho e afastado Robin Stone do pensamento. Quase tinha conseguido, quando um belo dia abrira a agenda para
confirmar um compromisso e lera "Início do período". Estava com um atraso de quatro dias! E Hudson havia três semanas que não chegava perto dela! Robin Stone!
Não
tomara precauções; Hudson tinha conseguido convencê-la de que ela não podia engravidar.
Escondera o rosto nas mãos. Não queria fazer um aborto! O filho de Robin seria uma criança realmente concebida com amor... E Hudson queria tanto um filho. Não,
que pensamento horrível!... Mas, por que não? Que interessava dizer a verdade a Hudson? Só o faria sofrer, e prejudicaria o bebé.
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bebé. Levantara-se com súbita determinação. Ia deixar nascer aquela criança!
Quando uma semana se passara sem que viesse a mestruação, ela vira-se na contingência de fazer com que Hudson a amasse. Ele nunca passara tanto tempo alheio a
ela. Ou a modelo enchia-lhe as medidas, ou ele tinha um novo interesse Quando Hudson estava de romance fresco, nunca se aproximava dela.
Nessa noite encostara-se a ele na cama, mas ele repelira-a.
Ela mordera os lábios, no escuro.
- Quero ter um filho, Hudson. - Abraçara-o e tentara beijá-lo, mas ele virara a cabeça.
- É verdade, mas pára, deixa-te de meiguices. O que precisamos é de fazer amor.
Quando o segundo período não viera, ela tinha ido consultar um medico. No dia seguinte, ele telefonara-lhe a dar-lhe os parabéns. Estava grávida de seis semanas.
Maggie decidira esperar mais algumas semanas para dar a notícia a
Hudson.
Alguns dias mais tarde estavam os dois em casa numa das suas raras noites a sós. Ele estivera calado durante todo o jantar mas o mau-humor que passara a fazer
parte
da sua personalidade não viera à superfície. Parecia calmo, pensativo, gentil a ponto de lhe sugerir subirem para a salinha de estar a fim de
tomarem uma bebida. Ele sentara-se no sofá, vendo-a preparar bebidas. Pegara no copo, bebera uns golos em silêncio e depois perguntara:
- Poderias largar o teu importantíssimo trabalho na televisão daqui a uns três meses?
Posso pedir uma licença... porquê? Disse ao meu pai que estavas grávida.
Ela olhara para ele espantada. Depois ocorrera-lhe que talvez o Dr. Blazer lhe tivesse dito. Pedira ao médico para guardar segredo devido ao seu trabalho, mas
certamente ele não imaginara que ela não quisesse contar a Hudson. Isso explicava o novo estado de espírito dele. Maggie sorrira, aliviada. O seu instinto não
a enganara. O nascimento de uma
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criança modificaria as coisas, entre eles.
- Hudson, não é preciso eu afastar-me da televisão. Posso continuar a trabalhar quase até ao fim, se a câmara não me apanhar de corpo inteiro.
Ele olhara-a com curiosidade.
- E como vamos explicar ao meu pai e a toda a gente que não tenhas barriga?
- Mas, eu...
- Isso é uma coisa que não podemos fingir. Todos têm de pensar que é verdade. Até mesmo Bud e Lucy. Uma indiscrição eo meu pai descobrirá tudo. Tenho tudo planeado.
Vamos dizer-lhe que queremos dar a volta ao mundo, como presente de gravidez. Porque uma vez a criança nascida, não temos coragem de deixá-la. Depois, diremos
que
nasceu antes do tempo, em Paris.
- Não compreendo, Hudson. Quero que o meu filho nasça aqui.
O velho sorriso de desprezo voltara.
- Ora, não me leves a sério. Eu só lhe disse que estavas grávida... não quer dizer que estejas.
Levantara-se e servira-se de outro cálice de brandy.
- Tratei de tudo. Podemos adoptar uma criança em Paris. O médico com quem falei deu-me o endereço. Até procuram combinar os traços físicos da criança com os dos
pais. Há três bebés para adoptar que devem nascer daqui a sete meses. Só temos que pagar a hospitalização da mãe, numa clínica de primeira. O bebé é-nos entregue
imediatamente... a mãe não chega sequer a vê-lo, nem a saber de que sexo é. Pedi um garoto. Depois conseguimos uma nova certidão de nascimento, para parecer que
é mesmo teu. E o felizardo do miúdo não só nos garante um milhão de dólares, como fica com dupla cidadania. E regressamos triunfalmente aos Estados Unidos.
Ela rira. Levantara-se do sofá e aproximara-se dele.
- Hudson, agora é a minha vez de te fazer uma surpresa. Não precisas de todos esses planos... estou grávida.
- Que é que queres dizer com isso?
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Estou realmente grávida.
Repete o que disseste - ordenara ele.
Estou grávida. - Ela não gostara da maneira como ele a
olhava.
De súbito, a mão dele caíra-lhe sobre o rosto.
Prostituta! De quem é a criança?
Minha! Nossa! - sentia o lábio a começar a inchar e o
gosto do sangue na boca. Ele avançara para ela, agarrara-lhe nos ombros e começara a sacudi-la.
Diz-me de quem é o bastardo que estás a querer
impingir-me - Esbofeteara-a de novo. - Dízes-me ou batote até confessares?
Ela conseguira correr para fora da sala, mas ele fora atrás dela e apanhara-a no corredor.
- Diz-me de quem é o bastardo que tens na barriga!
- Qual é a diferença? - soluçara Maggie. - Estavas disposto a adoptar uma criança em Paris; pelo menos, esta é minha.
De repente, a fúria desaparecera-lhe do rosto. Um lento sorriso assomara-lhe aos lábios, enquanto ele a empurrava de volta para a sala de estar.
- Tens razão. Tens toda a razão. É evidente que vou deixar teres a criança. Mais do que isso: vais ter um filho cada ano durante os próximos dez anos. Depois,
se
fores boazinha, dar-te-ei o divórcio, com uma bela pensão.
- Não. - Ela sentara-se no sofá e olhara para ele com uma calma que estava longe de sentir. - Não resultará. Não quero criar o meu filho numa atmosfera de ódio.
Quero o divórcio já.
- Não te darei um tostão.
- Não é preciso - dissera ela. - Viverei com a minha família. Ganharei bastante, na televisão, para criar o bebé.
- Não vais fazer nada disso. - Que queres dizer?
- Essa criança vale um milhão de dólares para mim. Ou a ma dás para criar, ou nunca mais poderás trabalhar,
tratarei de sujar o teu nome em tudo o que é jornal.
Nunca
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mais terás trabalho na TV e a tua família não poderá olhar para ninguém nesta cidade.
Ela levara as mãos à cabeça.
- Hudson, porquê tudo isto? Porquê? Sei que cometi um erro; uma única noite, um único homem. Nunca tinha acontecido e nunca mais acontecerá. Queria que tudo desse
certo connosco. Mas fizeste-me sofrer tanto, que ao teu lado nem me sentia mulher. Talvez o que eu tenha feito seja errado, e nem vou falar das coisas que sei
a teu respeito. - Estava quase em prantos. - Pensei que ainda tínhamos uma oportunidade. Acho que estava louca, mas pensei que ficarias feliz, tendo uma criança.
Pensei que talvez o bebé nos aproximasse. E que talvez depois ainda tivéssemos filhos, filhos teus...
- Idiota! Não percebeste nada? Eu sou estéril! - berrava ele. - Fiz os exames na semana passada. Sou estéril, nunca poderei fazer filhos!
- Mas e esses abortos que pagaste?
- Como sabes?
- Sei.
Ele puxara-a do sofá.
- Queres dizer que puseste detectives atrás de mim! Esbofeteara-a outra vez. Pois é, aldrabaram-me! Todas essas putas a quem paguei para desmancharem os bastardos
que diziam ser meus, todas elas me aldrabaram! Como acabas de tentar fazer. Mas agora sei: sou estéril.
Ela soltara-se dele, com as lágrimas a escorrer pelo rosto e o lábio a sangrar. Apesar de tudo tinha pena de Hudson. Dirigira-se para a porta, mas ele correra
a agarrá-la.
- Onde vais?
- Fazer as malas - respondera ela, em voz baixa. - Não posso continuar nesta casa contigo.
- Porque não? - perguntara ele com ironia. - Ficaste, mesmo sabendo o que eu andava a fazer, agora estamos quites. Somos iguais. Talvez até seja melhor assim.
Cada um fará o que quizer, desde que o meu pai não saiba.
- Não quero viver assim.
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- Então que explicação dás para o bastardo que carregas na barriga?
- Eu sabia das tuas aventuras. Então conheci uma pessoa. Foi como aconteceu. Talvez estivesse a precisar de alguém que reparasse que eu estava viva, de alguém
que me ligasse... mesmo que fosse apenas por algumas horas.
Ele esbofeteara-a de novo.
- Acho que é disto que precisas. - E esbofeteara-a outra vez. com a cabeça à roda, dolorida, ela correra para fora da sala. Ele fora-lhe no encalço. -vou dar-te
umasurra, não seria isso o que precisavas? Eu batia em Sherry com um cinto e ela adorava. - E começara a desafivelar o cinto.
Maggie gritara, na esperança de que os criados ouvissem. Fugira pelo corredor. Ele tinha o cinto na mão: o cinto de crocodilo que ela lhe tinha oferecido no Natal.
Lançara-o contra ela acertando-lhe no pescoço. Maggie vira o ódio e a perversão estampados no rosto dele e ficara apavorada. Recuara a gritar. Onde estariam os
criados?
Ele parecia ter enlouquecido; o cinto acertara-lhe agora no rosto, por pouco não lhe atingira o olho. Ele podia cegá-la! Ela recuara em pânico, e de repente sentira-se
cair pela escaderia abaixo. Lembrava-se de que o seu pensamento fora: "Oxalá eu morra depressa para nunca mais ver a cara dele". Mas não morrera. Ficara caída
no fundo
da escada, vendo Hudson olhar para as suas pernas. Sentira uma dor horrível, que a fizera levar as mãos ao ventre e, logo a seguir, o sangue escorrer-lhe pelas
pernas. Depois, mais uma vez, a bofetada dele.
- Puta! Acabas de me fazer perder um milhão de dólares.

De repente, começou a fazer frio na varanda. Maggie entrou para o living e preparou um uísque. Tudo aquilo parecera ter acontecido num outro mundo e, contudo,
tinha sido apenas há dois anos. Lembrava-se vagamente da sirene da ambulância, da semana que passara no hospital, de que ninguém lhe fizera perguntas sobre os
vergões
no rosto e no
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pescoço, da maneira discreta como o médico fingira acreditar que tinha sido resultado da queda acidental, e da luta que toda a gente tinha com ela para que não
pedisse
o divórcio. Todos menos Hudson. A sua mãe pensara que ela estava com um esgotamento nervoso. Perder um bebé, provoca isso por vezes. Até Lucy suplicara que pensasse
bem.
Ela resolvera pedir o divórcio na Florida. Levaria três meses e Maggie precisava de sol e de tempo para descansar, para cicatrizar o seu sofrimento e planear uma
vida nova. Conseguira uma licença da televisão.
Embora os advogados de Hudson tivessem concordado em pagar todas as custas do divórcio, inclusive a sua estadia na Florida, ela alugara um pequeno apartamento
e vivera frugalmente. Dois meses depois já não sofria, sentia apenas um vazio. Hudson não existia mais; mas ela era jovem, e o desejo de viver voltara e ela começara
a sentir o peso da ociosidade. Resolvera pedir emprego na estação da TV local. Andy Farino contratara-a imediatamente. Ela gostava de Andy. Precisava amar alguém,
dedicar-se. Tinha iniciado uma confortável ligação amorosa. Andy fazia-a sentir-se bem, fazia com que ela gostasse de ser mulher. Mas Hudson matara ou destruirá
uma parte da sua personalidade. A parte que lhe possibilitaria amar realmente.
Depois de alguns meses, ela começara a sentir-se segura. Andy amava-a e ela gostava do trabalho. Chegara a altura de sacudir aquela letargia. A altura de sentir,
de vibrar, de sonhar e esperar; e ela tentara, mas em vão. Era como se Hudson lhe tivesse secado as emoções. Quando Andy a pedira em casamento, ela recusara.
E eis que esta noite, pela primeira vez ela sentia a vida correr-lhe nas veias. Ia voltar a ver Robin Stone. Mal podia esperar para ver a expressão dos seus olhos,
quando se reencontrassem ...

Capítulo décimo nono

Sentada no bar do Gold Coast, Maggie tentava sentir se o seu nervosismo estaria muito em evidência. Andy passara o dia a jogar golfe com Robin, que lhe dissera
para
entregar o noticiário das sete a um locutor especializado, durante os próximos dias. Olhou para o relógio. A qualquer momento eles chegariam. Acendeu um cigarro
e de repente viu que tinha um quase inteiro no cinzeiro. Apressou-se a apagá-lo. Sentia-se como uma miúda à espera do seu primeiro namorado. Estava muito nervosa.
A qualquer momento Andy estaria com Robin Stone, ela voltaria a encontrar-se com ele. Apagou o segundo cigarro.
Olhou-se no espelho do outro lado do bar. O bronzeado da sua pele combinava com a cor do vestido de seda pura. Em Filadélfia ela não estava bronzeada. Quando Robin
lhe passara as mãos pelos seios dissera: "Que pele tão branca! Parece madrepérola." Mas o bronzeado fícava-lhe melhor. Ela sabia que era bonita. Sempre soubera,
mas antes não ligara: as pessoas eram altas ou baixas, feias ou bonitas. Até então a sua beleza não lhe dera nenhuma alegria. Pelo contrário, só lhe trouxera sofrimento.
Mas, nessa noite, ela sentira-se feliz por ser bonita. Vestira-se com apuro; o tom do vestido, combinado com a cor da sua pele, parecia ressaltar o verde dos
seus olhos. Olhos de gata. Andy chamava-lhe a sua pantera negra. E nessa noite ela sentia-se mesmo uma pantera, tensa, pronta a saltar!
Tinha sido ideia dela, encontrarem-se ali. Não queria um encontro apressado, no escuro de um carro. Queria ver ambos entrar. Queria ver a expressão de surpresa
de Robin. Desta vez, ela teria o comando da situação.
Estava a terminar a bebida, quando viu Andy entrar pela porta, sozinho. Procurou não trair o seu desapontamento,
293
enquanto ele se sentava a seu lado e mandava vir uma dose de uísque. Macacos a mordessem se ela perguntaria onde é que estava Robin. Mas, onde estaria ele?
- Desculpa o atraso, Maggie - disse Andy.
- Não faz mal. - Não aguentou mais. - Onde está o teu amigo?
- O grande astro da TV? - Andy deu um grande trago.
- Não vem? - Tinha vontade de matar Andy por obrigá-la a fazer tantas perguntas.
- Talvez. Precisavas de ver a confusão que ele provocou no Diplomat... até parecia que era Cary Grant. Pelos vistos, toda a gente conhece o programa dele, pelo
menos
toda a gente que encontrámos no campo de golfe.
Maggie acendeu outro cigarro. Nunca se permitira assistir ao programa de Robin. Isso fizera parte da sua cura, da mesma maneira que não pensar em Hudson ou recordar
o passado. Claro que ele agora era famoso. Porque não pensara nisso?
- Em cada buraco, ele tinha de parar para assinar um autógrafo - continuou Andy. (Ela ainda se lembrava de como ele se esforçara para esconder o seu aborrecimento,
no Bellevue, ao pedirem-lhe para assinar os menus).
- Foi uma chatice - continuou Andy - até que chegámos à lourinha, no décimo sétimo buraco.
- Que lourinha? - perguntou Maggie. Andy encolheu os ombros.
- Uma hóspede do hotel. Não devia ter mais de dezanove ou vinte anos. Deixou o seu grupo de lado para apanhar o autógrafo de Robin e não voltou mais. Foi connosco
até ao décimo oitavo buraco. - Andy soltou uma gargalhada. - Betty Lou, é verdade, é o nome dela. - Ergueu o copo. - A saúde de Betty Lou; graças a ela ganhei
vinte
dólares. -Bebeu outro grande golo e continuou: - Ela caçou-o de tal modo, que ele se esqueceu que estava a jogar. Quando Robin vê
uma pequena bonita, esquece tudo,
e Betty Lou fisgou-o bem. Robin ficou louco por ela e não ligou a mais nada. Estava a
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ganhar, mas eu é que acabei por ficar com os vinte dólares. Vamos entrar, estou morto de fome.
Iam pedir o jantar, quando Andy foi chamado ao telefone. Voltou a rir:
- O galã vem a caminho.
Eram quase nove horas quando Maggie viu Robin entrar no restaurante, limpo e fresco. Atrás dele vinha a lourinha. Maggie viu logo que ela tinha feito amor com
Robin. Tinha o cabelo despenteado e a pintura borrada.
Andy levantou-se.
- Olá, Betty Lou. - Abraçou-a como se fossem velhos amigos. Depois virou-se. - Apresento-lhes Maggie Stewart. Maggie, apresento-te Robin Stone.
Ele olhou para ela com um sorriso franco.
- Andy disse-me que você também jogava golfe. Tem que vir connosco, uma destas tardes.
- Oh, eu não jogo bem - respondeu ela. - Não posso competir com vocês.
Robin mandara vir dois martinis de vodka. Betty Lou agia não só como se fosse dona de Robin Stone, mas também como se toda a sua vida o tivesse conhecido. Robin
por sua vez, era gentil com ela. Acendeu-lhe o cigarro e, embora falasse pouco com ela, deixava perceber que a sua presença lhe agradava.
Maggie viu-o pegar na mão da jovem e de vez em quando mandar-lhe um sorriso. Mas toda a sua conversa era dirigida a Andy.
De repente Maggie pensou que talvez Betty Lou tivesse sido convidada por Robin a fim de tornar o confronto mais fácil. Andy devia ter-lhe falado da ligação que
havia entre ambos.
Num esforço para acompanhar Robin, Betty Lou aceitou um segundo martini. O primeiro já tinha deixado marca, o segundo foi fatal. No fim do jantar, ela estava apoiada
no cotovelo, o cabelo a cair em cima do esparguete, o olhar vidrado. Robin não tardou a aperceber-se.
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- Sol demais e golfe, às vezes não combinam bem com o álcool.
Maggie gostou da maneira como ele defendia aquela jovem que acabava de conhecer. Ajudaram-na a sair do restaurante e a entrar no carro dele. Depois de a terem
levado para o hotel, Robin insistiu para que fossem ao Diplomat tomar uma última bebida.
Sentaram-se a uma mesa pequena. Robin brindou à saúde de Andy.
- A ti, meu caro. Muito obrigado pelas primeiras férias que tiro em anos. E à tua linda dama. - Olhou para Maggie. Ela desafiou-o com o olhar, mas os olhos dele
continuaram inocentemente azuis. Disse: -Só tenho ouvido elogios seus e, realmente você é linda. A sua reportagem sobre os discos voadores fascinou-me. Onde colheu
tantas informações? parece muito entendida!
- É um assunto que sempre me interessou - respondeu ela.
- Que tal se nos encontrássemos amanhã às onze horas no teu escritório, Andy? Tu e... - deteve-se e olhou para Maggie. Parecia não se lembrar do nome.
- Maggie - disse Andy. - Maggie Stewart. Robin sorriu.
- Sou horrível para lembrar nomes. Que tal encontrarmo-nos e tratarmos de fazer um programa sobre os discos?
Terminaram as bebidas e despediram-se no hall. Maggie ficou a ver Robin entrar no elevador.
Não disse mais nada ao entrarem no carro. Estranhando o silêncio dela, Andy disse:
- Maggie, não fiques ofendida pelo facto de Robin ter esquecido o teu nome. Ele é mesmo assim. A menos que tenha relações com uma rapariga, não repara nela.
- Leva-me para casa, Andy. Ele desceu a rua em silêncio.
- Outra vez dores de cabeça? - perguntou com voz seca.
296
Estou cansada.
Ele continuou mal-humorado, até deixá-la à porta do edifício. Maggie nem sequer tentou acalmá-lo. Saiu do seu carro e entrou a correr. Nem esperou pelo elevador,
subiu a pé os dois andares. Uma vez dentro do apartamento, bateu com a porta e encostou-se a ela, com as lágrimas a correr pelo rosto. Depois, os soluços sacudiram-na.
Ele não só não se lembrara do nome dela, como também não se lembrava que já se tinham conhecido!
Maggie fez um esforço para se concentrar no texto. Não tinha olhado para ele desde a chegada de Robin. A estreia, no Player's Club, ainda era dentro de três semanas,
mas ela queria fazer boa impressão. No fim de contas, a peça era de Eugene O'Neill e Hy Mandei viria da Califórnia especialmente para ver o seu desempenho, se
bem
que, provavelmente, nada fosse resultar disso. O director de uma companhia cinematográfica independente vira-a na televisão e perguntara se ela não estaria interessada
num teste cinematográfico. Ela dissera que estava interessada em ser actriz, mas não no teste. Não podia deixar o seu programa da televisão para ir à Califórnia.
Talvez tivesse sido justamente a falta de interesse que mostrara, que fizera com que o director se obstinasse. Telefonara para Hy Mandei, conhecido agente de Hollywood,
dizendo maravilhas dela. Resultado: ele viria vê-la representar num grupo de teatro semi-profissional.
Bem, depois daquela noite, ela teria muito tempo para se concentrar em CXNeill.
Era a última noite de Robin Stone na cidade. Ele não voltara a ver Betty Lou. Na segunda noite aparecera com uma professora de natação, chamada Anna. Depois, com
uma divorciada, chamada Beatrice. A seguir, alugara um barco por três dias e saíra para pescar, sozinho. Voltara naquela tarde e Andy avisara-a de que jantariam
os três juntos. Maggie não Pode deixar de conjecturar com quem ele iria: com Betty Lou,
297
Com Anna ou com a divorciada?
Andy telefonou quando ela estava a acabar de se maquilhar. Parecia entusiasmado.
- Acabei de falar com Robin. Ele não quer pôr os discos voadores no Em Profundidade. Quer fazer um programa especial só com eles... e que nós trabalhemos nele.
Isso significa uma viagem a Nova Iorque, com todas as despesas pagas!
- Espero que não seja quando estiver a representar na peça do O'Neill.
- Maggie, tens vinte e seis anos, É um pouco tarde para iniciares uma carreira em Hollywood. O teu lugar é aqui, comigo.
- Andy, eu... - Ela tinha de lhe dizer que estava tudo acabado entre eles. Que realmente nunca houvera nada.
Mas ele interrompeu-a.
- Ouve, Maggie, não digas nada a Robin sobre Amanda.
- Amanda?
- A rapariga cuja fotografia te mostrei no jornal de anteontem .
- Ah, a que morreu de leucemia?
- Isso mesmo. Era amiga de Robin. Ele estava a pescar quando ela morreu, e provavelmente não sabe de nada. Não há nada que ele possa fazer: o funeral foi hoje
e só lhe estragaríamos as férias.
- Mas ela estava casada com Ike Ryan - disse Maggie.
- Sim, mas durante muito tempo foi amante de Robin. Parece que a ligação durou quase dois anos.
Maggie ficou a pensar naquilo, enquanto acabava de se pintar. Dois anos, isso queria dizer que Amanda era amante dele na noite em que se tinham encontrado no Hotel
Bellevue. Franziu a testa ao olhar-se ao espelho. "Bem feito, idiota. Estás a reagir como uma virgem de vinte e seis anos! Pensaste que realmente tinhas sido algo
de especial para Robin Stone?"
Estacionou o carro no Diplomat. Sentiu que vários homens se viravam para trás, para vê-la atravessar o
hall. Teria sido sempre assim? Teria ela vivido num tal vácuo
que nunca
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reparara nisso? De repente, sentiu-se excitada. Mal entrou no bar, Robin levantou-se e sorriu.
- Andy volta já. Tem sido um camaradão. Tenho passagem para amanhã ao meio-dia, mas ele está a tentar trocá-la para um avião da tarde, a fim de podermos jogar
uma última partida de golfe. - Fez sinal ao empregado. - Que toma? Uísque, como de costume?
Ela fez sinal que sim.
- E quem é a sua companheira desta noite? A divorciada de sempre? - A estranha sensação de Maggie fazia a sua voz sair brincalhona.
Ele riu.
- Esta noite a minha companhia são vocês. Você e Andy. Quero beber e conversar com dois bons amigos. Talvez até embriagar-me.
Andy voltou para a mesa com um sorriso vitorioso.
- Consegui. Às seis da tarde, amanhã. Pessoalmente, acho que é loucura ires-te embora. Ellie, o meu contacto com a National, disse que o termómetro estava abaixo
de zero, em Nova Iorque. E o Natal está a chegar. Toda aquela neve pisada, todos aqueles pais-natal de pé, à porta das lojas, a tocar sininhos, e nem um táxi -
sacudiu
a cabeça e estremeceu.
Robin olhou para o copo vazio e pediu outra bebida.
- Gostaria de ficar, mas tenho um convite especial para ir passar o Natal em Los Angelos.
Robin tomou quatro martinis. Maggie mal podia terminar o segundo uísque e mais uma vez se maravilhava com a resistência dele. Mas Robin também lhe parecera perfeitamente
sóbrio naquela noite, em Filadélfia, quando confessara estar bêbado. Tão bêbado que nem se lembrava dela! Foram ao Fontainebleau ouvir Sammy Davis. Maggie pediu
um bife. Robin não pediu nada, a não ser mais vodka. Andy tentou imitá-lo.
Acabaram por ir parar a um bar na Rua Setenta e Nove. O lugar estava cheio de fumo. Robin mandou colocar uma garrafa de vodka em cima da mesa. Maggie pediu outro
uísque. O
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barulho era tanto que não se podia conversar. Robin ficou a beber em silêncio, acompanhado por Andy.
À uma da manhã, Andy deixou-se vencer pelo álcool Maggie e Robin lutaram para pô-lo dentro do carro.
- Vamos deixá-lo em casa - disse Robin - que depois eu levo-a.
- O meu carro está estacionado na Diplomat.
- Nada disso. Apanhe um táxi e vá buscá-lo amanhã. Inclua a corrida nas despesas e diga a Andy que ele é que deu a ideia, antes de ficar grosso. - Ela ensinou-lhe
o caminho para o edifício de Andy. Robin tentou tirá-lo do carro, - Está mesmo um peso morto - resmungou. - Venha daí Maggie, preciso de ajuda. - Os dois conseguiram
arrastar Andy até ao seu apartamento. Robin deitou-o na cama e desamarrou-lhe a gravata. Maggie não podia esconder a sua preocupação. Nunca vira ninguém perder
os sentidos de tanto beber. Mas Robin tranquilizou-a com um sorriso:
- Agora, nem um dos seus discos voadores poderia acordá-lo. Amanhã ele vai sentir-se horrivelmente mal, mas passa depressa.
Voltaram para o carro.
- Eu moro perto daqui, naquele edifício baixo e comprido
- disse ela.
- Que tal irmos primeiro a qualquer sítio, tomar uma bebida?
Ela levou-o a um pequeno bar que havia perto. O proprietário reconheceu Robin, colocou uma garrafa de vodka em cima do balcão e iniciou imediatamente um bate-papo
sobre futebol . Maggie ficou sentada com um uísque aguado, a ouvir. Era incrível, Robin parecia absolutamente sóbrio.
Fecharam o bar e ele levou-a a casa. Ficaram um momento
no carro.
- Não tem vodka lá em cima? - perguntou ele.
- Não, apenas uísque.
- Que pena! Bem, boa-noite Maggie. Foi uma óptima noitada.
300
- Boa-noite, Robin. - Ela virou-se para a porta. De repente, num impulso, voltou para trás e beijou-o. Depois saiu a correr do carro e entrou no edifício.
Estava radiante. Quando um homem sentia vontade de beijar uma mulher, beijava-a, pura e simplesmente. Desta vez, ela tomara a iniciativa. Era como se tivesse dado
o grito da Independência feminina, como se tivesse quebrado as grilhetas da escravidão. Daí em diante, ia romper muitas convenções. Despiu-se a cantar. Começou
a vestir a camisola, mas mudou de ideias. Sempre quisera dormir despida, mas antes nunca lhe parecera correcto. Abriu a gaveta da cómoda, tirou todas as camisolas
e atirou-as para um saco de compras. No dia seguinte a empregada ficaria feliz, com aquele presente inesperado. Entrou na cama e apagou a luz. Os lençóis estavam
frios contra o seu corpo, mas a sensação era deliciosa; nunca se sentira tão livre. Não tinha sono, mas fechou os olhos...
Alguém estava a bater à porta. Acendeu a luz e olhou para o relógio. Apenas quatro e meia. Ela devia ter acabado de adormecer. As pancadas na porta eram agora
mais insistentes. Maggie pôs o roupão em cima do corpo e abriu a porta, sem tirar a corrente de segurança. Robin Stone estava de pé, na soleira, segurando na mão
uma garrafa de vodka.
- Trouxe a minha bebida! - anunciou. Ela deixou-o entrar.
- Estava no meu quarto. Cortesia do hotel. Mas não gosto de beber sozinho.
- Quer um pouco de gelo?
- Não, vou beber assim mesmo.
Ela deu-lhe um copo e sentou-se no sofá, a vê-lo beber. De repente, ele virou-se para ela.
- Estou bêbado.
Maggie sorriu, sentindo a garganta pulsar-lhe.
- Quer dormir comigo? - perguntou ele.
Ela levantou-se do sofá e andou até ao outro lado da sala.
- Quero - respondeu. - Mas não esta noite.
- Tem que ser esta noite. Amanhã vou-me embora.
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- Adie a partida.
- Porquê amanhã e não hoje?
- Porque quero que se lembre de mim!
- Seja boa para mim, que nunca a esquecerei. Ela virou-se e encarou-o.
- Lamento mas já passei pelo teste.
Os olhos dele mostraram curiosidade. De repente, ele estendeu a mão e, num movimento rápido abriu-lhe o roupão. Ela agarrou-o, mas ele arrancou-o. Apesar da vergonha
ela desafiou-o com o olhar.
- Seios grandes e bonitos - comentou ele. - Detesto seios grandes. - com outro movimento inesperado, agarrou-a pelos braços, carregou-a para o quarto e atirou-a
para cima da cama. -Também detesto morenas. -Tirou o casaco e desamarrou a gravata. Maggie sentiu-se subitamente amedrontada. Havia uma estranha expressão nos
olhos dele como se olhasse sem a ver. Tentou levantar-se mas ele não deixou. Não me vais deixar. Eu já sou grande. - Parecia falar consigo mesmo. Os seus olhos
tinham o olhar fixo dum cego.
Ela viu-o despir-se. Podia fugir, gritar por socorro, mas a curiosidade petrificava-a. Talvez fosse assim com as vítimas de um assassino. Talvez ficassem como
ela, paralizadas, incapazes de resistir. Uma vez despido, ele sentou-se na cama e olhou para ela com aqueles mesmos olhos sem expressão. Mas quando ele se inclinou
e a beijou todo o seu medo se evaporou. Deitou-se ao lado dela, corpo contra corpo. Ela ouviu-o suspirar. A boca dele procurou-lhe os seios. Ela estreitou-se contra
ele cheia de excitação e emocionada, e os dois atingiram o êxtase ao mesmo tempo. Colado a ela, ele gritou as mesmas três palavras que gritara em Filadélfia:
-Mutter!
Mãe! Mãe
Ele caiu para o lado e, no escuro, ela sentiu a mesma expressão vítrea nos seus olhos. Robin acariciou-lhe a face e sorriu.
- Sei que estou bêbado, mas desta vez foi diferente, nao
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foi como das outras vezes.
- Já me disseste isso uma vez, em Filadélfia.
- Já? Não mostrou qualquer reacção. Ela aninhou-se contra ele.
- Robin, foi diferente com muitas mulheres?
- Não... sim... não sei. - A voz dele era sonolenta. Apenas quero que não me deixes. - Apertou-a contra ele. promete que não me deixas.
Ela colou-se a ele. "Aí está", disse para si mesma. "Aí está a tua oportunidade. Atira-o para fora da cama. Diz-lhe Bye, bye, repórter." Mas não foi capaz.
- Nunca te deixarei, Robin. Juro. Ele estava quase a dormir.
- Conversa.
- Não, eu nunca disse isso a ninguém. Prometo nunca deixar-te. Amo-te.
- Não, abandonar-me-ás... para ir...
- Para ir onde? - Ela precisava de saber. Mas ele adormecera.
Ela viu o céu clarear sem que o sono lhe chegasse. Olhou para a bela cabeça dele, para o rosto quente contra o seio. Não, não era um sonho. Ela estava ali, a dormir
nos seus braços. Ele pertencia-lhe! Ainda bem que ela lhe falara de Filadélfia. Ele pedira-lhe então que não o deixasse. E ela deixara-o; talvez ele tivesse razão.
Por isso é que ele tinha agido como agira, nessa noite: embriagado como estava, pensava que ela ainda estava casada, naturalmente! Maggie sentia-se aponto de
explodir de felicidade.
Ficou deitada a dormitar, acordando para olhar para o homem nos seus braços, e certificar-se de que não sonhava. Viu a aurora chegar e maravilhou-se com a rapidez
com que o sol Ruminava o céu, com as gaivotas a chamarem-se umas às outras anunciando o novo dia. Era um novo dia, um dia glorioso! O sol entrava pelo quarto;
em breve alcançaria o homem nos seus braços. Tinha-se esquecido de puxar as cortinas, à noite. Deslizou para fora da cama e atravessou o quarto nas pontas dos
303
pés. Dentro em pouco todo o quarto estava escuro. Eram nove horas. Ela entrou no banheiro. Queria deixá-lo dormir à vontade para curar a ressaca. Queria que ele
se sentisse bem quando acordasse. Olhou-se ao espelho. Livra, como é que não devia estar, que nem tirara a maquilhagem! Ainda bem que acordara antes dele. O batôn
e a pintura dos olhos estavam todos corridos. Passou creme pelo rosto, tomou um duche e pintou os lábios. Puxou o cabelo para trás, num rabo-de-cavalo, vestiu
umas calças e uma blusa e entrou na cozinha. Gostaria ele de ovos estrelados com baconl Talvez o cheiro o fizesse sentir náuseas, depois de toda a vodka que tomara.
Tirou a lata do café e abriu uma de sumo de tomate. Diziam que era bom para as ressacas. Deixou a frigideira de fora; se ele quisesse ovos, ela fritá-los-ia.
Ela faria tudo o que ele quisesse.
Era quase meio-dia quando ela o ouviu mexer. Encheu um copo de sumo de tomate e levou-o à cama. Ele agarrou-o avidamente no escuro, e bebeu-o de um só trago. Só
então Maggie abriu as cortinas. O sol inundou o quarto. Robin piscou repetidamente e olhou em volta.
- Livra, Maggie! - Olhou para a cama, e depois novamente para ela. - Como foi que eu vim parar aqui?
- Por tua própria iniciativa, cerca das quatro e meia da manhã.
Ele devolveu-lhe o copo vazio, como um sonâmbulo.
-Nós... é, acho que sim. - Olhou para a cama. Depois, sacudiu a cabeça. - Às vezes, quando me embriago, faço coisas assim. Lamento, Maggie. - De repente, os seus
olhos brilharam de raiva. - Porque me deixaste entrar?
Ela sentiu-se tomada de pânico.
- Meu Deus! - Ele passou a mão pelo cabelo. - Não consigo lembrar-me. Não consigo lembrar-me.
Maggie deixou as lágrimas rolarem-lhe pelo rosto, mas a raiva impediu-a de soluçar.
- Essa é a desculpa mais esfarrapada que já ouvi, Robin. Mas podes utilizá-la, se com isso te sentes melhor! O chuveiro é ali.
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Saiu para o living e tomou um café. A pouco e pouco, a sua raiva foi-se diluindo. O espanto nos olhos dele tinha sido
verdadeiro. De repente, ela teve a certeza de
que ele dissera a verdade, de que não se lembrava.
Ele entrou no living dando o nó da gravata, com o casaco no braço Para cima do sofá e aceitou a chávena de café que ela lhe dava.
- Se quiseres ovos estrelados, ou torradas...
Ele sacudiu a cabeça.
- Sinto muitíssimo tudo o que aconteceu, Maggie. Sinto por causa de Andy e, principalmente por tua causa. Ouve, vou-me embora. Não precisas de dizer ao Andy. Eu
trato disso... arranjarei uma maneira.
- E eu? Importas-te comigo? Ele olhou para ela.
- Sabias o que fazias. Andy nem sequer desconfia que o traíste.
- Não o amo. Ele riu.
- Vais dizer que estás apaixonada por mim!
- Estou mesmo.
Ele riu de novo, como se fosse uma graça.
- Devo ser óptimo quando estou bêbado.
- Queres dizer que isto já te aconteceu antes.
- Não muitas vezes, mas aconteceu, talvez duas ou três vezes. Sempre que acontece, fico apavorado. Mas esta é a primeira vez que sou confrontado pela evidência.
Geralmente, acordo e sei que aconteceu qualquer coisa, qualquer coisa que não consigo recordar inteiramente. Geralmente é quando estou preocupado. Mas ontem à
noite,
eu estava calmo, certo de que podia beber à vontade, só estavam tu e Andy comigo. Que diabo lhe aconteceu.
- Apagou-se, como vocês dizem.
- Sim, disso lembro-me. Acho que é a última coisa de que me lembro.
- Não te lembras do que me disseste?
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Os olhos azuis dele eram inocentes:
- Porquê? Terei dito coisas horríveis? As lágrimas assomaram-lhe aos olhos.
- Não, disseste-me as coisas mais belas que já ouvi. Ele pousou a chávena e levantou-se.
- Maggie, lamento muito. É verdade. Ela olhou para ele.
- Robin, não significo nada para ti?
- Gosto de ti. Por isso vou ser franco contigo. És uma rapariga bonita e inteligente, mas não és o meu tipo.
- Não sou o teu... - Ela não pôde continuar.
- Maggie, não sei o que me levou a vir aqui. Não sei o que foi que eu disse ou fiz... Meu Deus, como lamento ter-te feito sofrer. - Aproximou-se dela e afagou-lhe
a cabeça, mas ela afastou-se. - Ouve, Maggie, tu e Andy têm de fazer de conta que nada disto aconteceu.
- Por favor, vai-te embora! Já te disse que não tenho mais nada a ver com Andy. Já não tinha, antes disto acontecer.
- Vai ser duro para ele. Ele gosta de ti.
- Mas eu não o amo. Por favor, agora vai-te embora.
- vou transferi-lo para Nova Iorque - disse ele, de repente. - Aqui não há mesmo muitas novidades. E tu. Gostarias de trabalhar em Nova Iorque?
- Oh, por favor, deixa-te de armar em Deus! Ele olhou-a firmemente.
- Maggie, gostaria que esta noite não tivesse existido! Há muito tempo que não me acontecia nada como isto. A última vez foi em Filadélfia.
Ela encarou-o.
- Lembra-se disso? Robin sacudiu a cabeça.
- Ela tinha-se ido embora quando acordei. Só me lembro do batôn cor-de-laranja.
- Eu uso batôn cor-de-laranja.
Os olhos dele arregalaram-se de espanto. Maggie anuiu com a cabeça.
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- Foi uma loucura. Eu estava a trabalhar em Filadélfia.
- Caramba, andas a seguir-me?
Ela ficou louca de raiva e humilhação. Antes que pudesse evitá-lo, esbofeteou-o. Ele sorriu tristemente.
- Acho que mereci. Devias odiar-me, Maggie. Estivemos juntos todos estes dias e não me lembrei.
- Não, não te odeio - respondeu ela secamente. Odeio-me a mim mesma. Odeio todas as mulheres que procedem como idiotas sentimentais ou que perdem o auto-domínio.
Lamento ter-te batido. Não me mereces nem isso.
Não te armes em dura, a tua natureza não é essa.
- Como sabes qual é a minha natureza? Como podes saber seja o que for a meu respeito. Dormiste comigo duas vezes e nem sequer te lembras. Quem és tu, para dizer
o que não sou? Quem és tu? Quem?
- Não sei, na verdade, não sei. E Robin foi-se embora.

Capítulo vigésimo

Assim que saiu do apartamento de Maggie, Robin pagou a conta do hotel e foi imediatamente para o aeroporto.
Em Nova Iorque, o tempo estava claro e agradável, com a temperatura aproximadamente de dez graus. O Aeroporto de Idlewild estava cheio de bem-humorados passageiros
em férias.
Robin apanhou um táxi e chegou ao seu apartamento pouco antes da hora do rush. Prometera a si próprio não tocar em bebidas até ao Natal, em Los Angelos.
Não havia nenhuma carta importante. O apartamento estava em ordem. Robin sentia-se estranhamente deprimido. Abriu uma lata de sumo de tomate e pediu à telefonista
uma ligação interurbana: queria falar com Ike Ryan. Amanda já devia ter saído do hospital.
- Onde diabo estiveste? Agora é que telefonas? - A voz de Ike era rude e amarga.
- Como vão as coisas? - perguntou Robin intrigado.
- Se precisar de mim, é só telefonar, Ike! - imitou Ike.
- Bolas... e como telefonei! Dois dias a telefonar!
- Eu andava à pesca, num barco. Porque não deixaste recado?
Ike suspirou.
- Que adiantaria? Não foste ao enterro. Robin esperou não ter ouvido bem.
- Que enterro?
- Saiu em todos os jornais. Não me digas que não soubeste.
- Ike, pelo amor de Deus, acabo de regressar a Nova Iorque. Que aconteceu?
- Amanda foi enterrada anteontem.
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- Mas ainda há uma semana disseste-me que ela estava a reagir.
- Foi o que pensávamos. No dia em que morreu... nessa mesma manhã, ela parecia estar muito bem. Cheguei ao hospital por volta das onze. Ela estava sentada na cama,
maquilhada, a enviar cartões de Natal. O medicamento estava a dar resultado. Esperava trazê-la para casa dentro de alguns dias. De repente, ela deixou cair a caneta
e os seus olhos ficaram valados. Corri para a porta e gritei pelas enfermeiras e pelo médico. Dentro de segundos o quarto estava cheio de gente. O médico deu-lhe
uma injecção e ela adormeceu. Fiquei sentado três horas à cabeceira da cama, até que ela abriu os olhos. Ela viu-me e sorriu debilmente. Tomei-a nos braços e disse-lhe
que tudo ia correr bem, mas ela olhou-me e disse: " Ike, eu sei, eu sei!"
- Sabia o quê, Ike - perguntou Robin.
- Meu Deus, como vou saber? Acho que ela queria dizer-me que sabia que estava a morrer. Chamei a enfermeira. Ela veio com a agulha, mas Amanda empurrou-a com a
mão. Abraçou-se a mim como se soubesse que não tinha muito tempo. Olhou para mim e disse: "Robin, toma conta de Slugger. Por favor, sim, Robin?" Depois perdeu
o conhecimento. A enfermeira disse-me que ela não sabia o que estava a dizer, que estava a falar no passado. Ela despertou de novo, cerca de uma hora mais tarde,
com aquele seu sorriso angélico no rosto. Agarrou-me a mão. Meu Deus, Robin, como os seus olhos reflectiam medo! Disse: "Ike, amo-te. Amo-te a ti." Depois fechou
os olhos e nunca mais recobrou o conhecimento. Morreu uma hora mais tarde.
- Ike, as últimas palavras dela foram para ti. Isso deve dar-te algum conforto.
- Se ela tivesse dito: "Ike, amo-te" e nada mais, estava bem. Mas ela disse: "Ike, amo-te, amo-te a ti. Assim era Amanda, boa e gentil. Sabia que tinha chegado
ao fim e queria deixar-me com algo de positivo a que me agarrar.
- Ike, não fiques a pensar nisso. Ela não sabia o que dizia.
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- Sim. Ouve, importavas-te se eu ficasse com o gato?
.- com o gato?
- Bem, por direito ele é teu. Porque, consciente ou não, ela disse para tomares conta de Slugger. E eu quero respeitar as vontades dela. Mas gostaria de ficar
com
o gato, é como ficar com uma parte dela.
- Oh, por amor de Deus! - disse Robin. - Claro que o gato te pertence.
- Durmo com ele todas as noites - disse Ike. - O gato sente que aconteceu alguma coisa. Fazemos companhia um ao outro.
- Ike, dá um pires de leite ao gato e dorme com uma loira.
- Para cúmulo do azar, estou a fazer um filme de guerra. Nem uma pequena no elenco. Só vinte tipos, todos parecidos com John Wayne. Mas, com mil diabos, acho que
é melhor assim. Feliz Natal, Robin.
- Obrigado. Para ti também, Ike.
Robin desligou e afundou-se na poltrona. Amanda estava morta... parecia impossível. Ela não podia tê-lo amado. Ike é que estava fora de si, com tanto sofrimento.
Pobre tipo, que Natal horrível ele ia ter. A ideia do Natal também não era muito animadora para Robin. De repente sentiu o desejo de passar o Natal com alguma
pessoa querida. Quem poderia ser? A mãe dele? A irmã? Kitty estava em Roma e Lisa, bolas, havia anos que não a via. Nem sabia como eram os filhos dela. Pediu
ligação para San Francisco.
Lisa pareceu sinceramente surpreendida.
- Robin! Não posso acreditar. Tu a telefonares-me! Já sei: Vais casar.
- Querida Lisa, falta uma semana para o Natal e, por estranho que pareça, de vez em quando penso na família.
principalmente nesta altura do ano. Como vão as crianças? Como vai Richard?
Muito bem e, como sempre, o homem mais maravilhoso
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do mundo. Robin, devia zangar-me contigo... estiveste tantas vezes em Los Angeles, e nunca telefonaste, nem nos visitaste. Estamos apenas a uma hora de distância,
de avião. Kate e Dickie adorariam ver-te. Apanhaste-nos em casa por um triz. Daqui a uma hora partimos para Palm Springs. Estamos loucos com o ténis. Vamos passar
as férias com a família do Dick. Quando nos vens visitar?
- Da próxima vez que eu for a Los Angeles, prometo. -. Fez uma pausa. - Como vai a bela Kitty?
Lisa não respondeu logo. Depois disse:
- Robin, porque a chamas sempre assim?
- Não sei. Talvez depois que o velho morreu.
- Referes-te ao meu pai?
- Deixa-te disso, Lisa: Como vai Kitty?
- Porque lhe chamas apenas Kitty? Ele riu.
- Está bem, como vai a mãe? Gostas mais assim?
- Ela foi uma boa mãe para ti, Robin.
- Claro que foi e gosto que ela aproveite o fim da vida. Como vai ela?
- Não muito bem. Sofre das coronárias, de vez em quando tem um ligeiro ataque cardíaco. Passou um mês no hospital. Agora está bem, mas o médico aconselhou-a a
não se cansar. Anda sempre com comprimidos de nitroglicerina. E mudou para um casarão em Roma. Claro que não está sozinha... desta vez é um rapaz de vinte e dois
anos. Acho que é maricas. Ela diz que ele cozinha, satisfaz os seus menores desejos e adora-a. Em troca, ela dá-lhe uma mesada. Não é horrível?
- Não, acho que é óptimo - respondeu-lhe Robin. - Que queres que ela faça, que more com um velho artrítico? Eu sou como Kitty, também gosto de companhias jovens
e bonitas.
- Não queres ter filhos e um lar?
- Não, e vou dizer-te uma coisa. Penso que a bela Kitty também não queria. Acho que ela nos teve por dever.
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- Não digas isso! - protestou ela indignada.
- Ora, Lisa. Nós tivemos sempre ama... pelo menos tu tiveste. Ainda me lembro de como Kitty ficava nervosa, quando tinha de te pegar ao colo. E nunca me lembro
de
ela me ter pegado ao colo. Acho que éramos parte da paisagem... um menino e uma menina, para completar a decoração da casa.
- Ela gostava de crianças - retorquiu Lisa. - Gostava tanto de crianças que já começava a desesperar quando eu nasci.
- Isso vem provar o pouco que eu significava - disse ele em tom de troça.
- Não, comigo foi diferente. No fim de contas, temos sete anos de diferença. Ela queria uma casa cheia de crianças. Quase morreu quando eu nasci e teve quatro
maus partos depois de mim.
- Porque é que eu nunca soube disso?
- Eu também não sabia. Mas, um ano depois do pai morrer, ela veio visitar-nos. Eu estava grávida de três meses de Kate e ela disse-me: "Não tenhas só um filho,
Lisa,, nem dois. Trata de encher a casa de crianças. Tenho tanto dinheiro para te deixar e ao Robin! Vocês os dois podem ter muitos filhos. A vida não é nada,
sem filhos." Foi nessa altura que ela me contou muita coisa que eu não sabia. Quis que ela ficasse a viver connosco, mas ela não queria nem ouvir falar nisso.
Disse que eu tinha o meu marido e a minha vida e que cabia a ela reorganizar a vida dela. Estava resolvida a viver na Europa.
- Acho que as raparigas são mais ligadas às mães comentou Robin.
- Não sei, mas sei que ter filhos é importante. A mãe gostaria que sentisses o mesmo.
- Bem, feliz Natal e diverte-te em Palm Springs!
- Feliz Natal para ti também, Robin, embora eu ache que vás passá-lo rodeado de loiras.
Depois de Lisa ter desligado, Robin ficou a pensar no que fazer. A época natalícia aproximava-se. A ideia do programa especial sobre os discos voadores começava
a concretizar-se na sua mente, mas ele sabia que nada se poderia fazer antes do Ano
313
Novo. Até lá, havia o Natal a passar. Podia ir a Los Angeles dar um pouco de solidariedade a Ike, mas a ideia de o ouvir falar sobre Amanda bastava para deprimi-lo.
Telefonou para um modelo com quem saíra algumas vezes. Ela tinha ido passar as férias de Natal a Virgínia. Telefonou para uma hospedeira. O avião dela estava com
um atraso de duas horas, mas a sua colega de quarto estava disponível. Robin combinou encontrar-se com ela no Lancer Bar. A rapariga era bonita e desportiva. Tomaram
algumas bebidas. Comeram um bife. Ela estava pronta para ir ao apartamento dele, mas ele deixou-a à porta do edifício onde ela morava. Deu um passeio, depois
assistiu ao The Late Show e adormeceu. Acordou às quatro da manhã, coberto de suor. Embora não conseguisse lembrar-se com clareza, sabia que tinha tido um pesadelo.
Acendeu um cigarro. Quatro da manhã, ou seja, dez da manhã em Roma. Quanto mais pensava naquilo, mais plausível lhe parecia. Ligou para a telefonista internacional
e pediu um número. A voz que atendeu era de homem e falava um inglês hesitante.
- Desejava falar com a Sra. Stone, por favor - disse Robin.
- Ela está a dormir. Quer deixar algum recado?
- Quem fala?
- Posso fazer-lhe a mesma pergunta?
- Sou o filho dela, Robin Stone. Agora diga-me: quem é você?
- Oh! - O tom de voz tornou-se cordial. - Já ouvi falar muito de si. O meu nome é Sérgio e sou um grande amigo da Sra. Stone.
- Então, tome nota, grande amigo. vou apanhar o primeiro avião que sair para Roma. Quero passar o Natal com a minha mãe. Como está ela?
- Muito bem, mas vai sentir-se ainda melhor quando lhe der a notícia.
Robin manteve-se frio. Se todos os chulos procediam com igual simpatia, não era de surpreender que tantas mulheres se
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deixassem iludir por eles. Aquele estava a dar uma mostra do seu encanto através do telefone internacional.
- Oiça grande amigo, poupava-me um telegrama se me pudesse reservar uma suite no Excelsior...
- Não compreendo...
- No Excelsior, um grande hotel que há na Via Veneto.
- Conheço bem o hotel, porque razão iria o senhor ficar lá? A sua mãe tem um palazzo enorme, com dez quartos. Ficaria muito sentida se o senhor não ficasse com
ela.
- Dez quartos!
- Sim, é uma belavilla, óptima para descansar. "Aposto em que é óptima mas é para o Serginho hospedar
os seus amiguinhos", pensou Robin.
- Se o senhor telegrafar a dizer qual é o voo, irei esperá-lo - disse Sérgio.
- Não é preciso.
- Mas será um prazer.
- Está bem, meu caro. Você faz mesmo jus à mesada, hem?
- Estou ansioso por conhecê-lo.
O avião aterrou às onze da noite, hora de Roma. Robin achou óptimo chegar àquela hora. Podia abraçar Kitty e ir logo dormir. De certo modo, preferia ter ficado
no hotel. Não lhe agradava o papel de hóspede, mesmo que fosse na casa de sua própria mãe. No fim de contas, um palazzo em Roma, com Sérgio, era muito diferente
do casarão de pedra em que ele e Lisa tinham sido criados, em Boston. E tinha a certeza de que Sérgio não se parecia nem um pouco com o seu pai.
Viu-o mal saiu do avião: um rapaz muito jovem, de calças muito justas. Assim que Robin atravessou o portão, ele correu e tentou
tomar-lhe a mala. Robin não permitiu.
- Ainda não estou decrépito, menino.
- O meu nome é Sérgio. Posso tratá-lo por Robin?
- Porque não? - Encaminharam-se para a alfândega. O
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rapaz era excepcionalmente bonito, muito mais do que qual quer artista de cinema. Definitivamente efeminado, mas com descrição. E não tinha apenas beleza. Todo
ele respirava simpatia; entusiasta e ansioso por agradar, mas não subserviente.
O filho da puta procedia mesmo como se para ele fosse uma alegria conhecer Robin. Além
disso, era um mágico a desembaraçar a bagagem; Robin não percebia patavina do que ele dizia em italiano, mas a verdade é que deu resultado. Num instante carimbaram-lhe
o passaporte e, enquanto toda a gente tentava encontrar a sua bagagem, Sérgio limitou-se a puxar de algumas liras e logo um velho carregador apareceu com as malas
de Robin e as empilhou num belo Jaguar vermelho. Robin não disse nada, enquanto deslizavam pela moderna auto-estrada que conduzia à cidade.
- Lindo carro - observou, finalmente.
- Pertence à sua mãe.
- Estou mesmo a vê-la andar por aí a toda a velocidade retorquiu Robin, em tom sarcástico.
- Não, eu é que dirijo. Ela tinha um enorme Rolls-Royce com motorista, mas, em Roma, com o nosso trânsito, um carro tão grande não é prático. E o motorista - Sérgio
ergueu os olhos para o céu - estava combinado com postos de gasolina. Roubava muito dinheiro a sua mãe. Agora, sou eu que dirijo.
- E, com certeza, já arranjou um bom posto de gasolina.
- Como?
- Nada, Sérgio. Como está a minha mãe?
- Acho que está melhor do que estava, há uns tempos. E a sua chegada deu-lhe tanta alegria! Estamos a planear uma grande festa de Natal em sua honra. A sua mãe
gosta de festas e eu acho que isso é bom para ela, que põe vestidos bonitos. Quando uma mulher veste roupas chiques, automaticamente ela sente-se bem.
Robin ficou a ver Sérgio navegar através dos minúsculos e barulhentos carros e do trânsito congestionado do centro aa cidade. A pouco e pouco, foram saindo para
ruas menos engarrafadas e dirigiram-se para a Via Ápia. Em plena Via
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Ápia, Sérgio enveredou por uma monumental entrada de carros, ladeada de árvores. Robin assobiou.
- Até parece um palácio de Verão de Nero. Qual é o aluguer? Uma fortuna, não?
Não - respondeu Sérgio. - Kitty comprou a villa. Linda, não acha?
Kitty estava à espera no grande hall de entrada, de mármore. Robin abraçou-a ternamente. Parecia menor do que antes, mas tinha o rosto liso e sem rugas. À primeira
vista, de pé, no seu palazzo-pijama de veludo vermelho, ela podia passar por uma mulher dos seus trinta anos. Conduziu-o para um enorme living-room. O chão era
de mármore rosado e as paredes altas decoradas com frescos. Sérgio desapareceu e Kitty fez com que Robin se sentasse no sofá.
- Oh, Robin, como é bom ver-te de novo!
Ele olhou para ela com ternura. De repente, sentia-se tão feliz por ela ser a mãe dele! Viu as manchas da idade que lhe salpicavam as mãos, em contraste com o
rosto jovem e liso. Entretanto, ali, sentada a seu lado, ela de repente pareceu-lhe uma velhinha. O corpo parecia ter-se relaxado, até o rosto sem rugas parecia
ter envelhecido.
Nesse momento, Sérgio entrou e Robin presenciou uma extraordinária transformação. Kitty endireitou-se no sofá. O seu corpo tornou-se vibrante - parecia ter crescido
um centímetro. O seu sorriso era de novo jovem; ela era jovem, ao aceitar a taça de champanhe que Sérgio lhe oferecia.
- Para si, preparei um martini de vodka com gelo disse Sérgio. - Kitty disse-me que era a sua bebida predilecta. É assim que gosta?
Robin bebeu um grande golo. Incrível! Aquele filho da mãe preparava um martini melhor do que o do barman do Lancer. Sérgio desapareceu novamente e Kitty agarrou
as duas mãos de Robin.
- Estou um pouco cansada, mas amanhã conversaremos. Oh, Sérgio, és um amor. - O rapaz voltara com uma travessa de lagosta fria.
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Robin mergulhou um pedaço de lagosta num molho qualquer. De repente, percebeu que estava com fome.
Sérgio parecia ter todos os talentos. Olhou para o jovem, de
pé erecto, junto da lareira, e ficou a pensar o que teria feito com que um rapaz com tantos atractivos ficasse assim. Se era por causa do dinheiro, tinha de haver
jovens herdeiras capazes de se apaixonarem por um tipo bonito como ele. Porque morar com uma mulher de idade? A resposta era fácil: uma mulher de idade agradecia
sempre mais qualquer pequeno favor. Agradecia ao ponto de o deixar ter, de vez em quando, um amiguinho.
- Telefonaste na hora H - disse Kitty. -Já tínhamos passagens de avião para a Suíça. Eu tinha prometido a Sérgio dez dias de esqui.
Robin franziu a testa.
- Porque não disseram que não viesse? Ela fez um gesto com a mão.
- Ora, para mim ir ou não à Suíça, é o mesmo. Deus sabe que não esquio. O pobre do Sérgio é que estava ansioso por ir. Mas a decisão de não ir foi dele. Quando
acordei, ele disse que vinhas aí e que já tinha concelado as marcações no hotel.
Robin olhou para Sérgio. O rapaz encolheu os ombros.
- Acho que talvez o ar da montanha fosse perigoso para Kitty. com o coração fraco como ela têm, talvez fosse melhor não ir.
- Tolices! O médico disse que eu podia ir - protestou Kitty. - Mas assim é muito melhor, todos juntos. Sérgio já te disse? Vamos organizar uma grande festa de
Natal.
Já estou a fazer a lista. Claro que há muita gente de férias, mas quem ficou em Roma virá. Robin, vais ficar até ao Ano Novo. No fim de contas, desistimos dos
Alpes por tua causa.
- Mas, se eu ficar apenas alguns dias, ainda podem ir à Suíça.
- Não. Agora já não arranjaríamos lugar no hotel. Tem de se reservar quartos com meses de antecedência, por isso terás de ficar.
Robin pousou a taça.
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-São horas de me deitar - Robin levantou-se e ela fez-lhe sinal para que se sentasse. - Acaba a tua bebida. É tarde para mim, mas tu ainda estás na hora americana,
por isso não podes tef sono. - Beijou-o. Sérgio deu-lhe o braço e ela olhou para ele ternamente. - É um óptimo rapaz, Robin. Podia ser um filho. - De repente,
voltou-se para ele. - Que idade tens, Robin?
- Fiz quarenta em Agosto.
- Quarenta. - Ela sorriu. - Ainda tão jovem! Mas com essa idade, um homem já deve estar casado. - Olhou para ele, interrogativamente.
- Acho que não encontrei ainda ninguém tão fascinante como tu.
Ela sacudiu a cabeça.
- Não esperes demais. Os filhos são muito importantes.
- Claro-anuiu ele. -É por isso que precisas do Sérgio. Somos um grande conforto para ti, eu e a Lisa.
- Robin, uma mãe só ama realmente os filhos quando não se prende a eles. Eu não tive filhos para que eles fossem o meu arrimo na velhice. Eles foram parte da minha
juventude, da minha vida maravilhosa com o teu pai. Agora, os meus filhos devem ter a sua própria juventude e os seus próprios filhos. Suspirou. - Esses são os
anos verdadeiramente felizes da nossa vida. Agora, que os recordo, é que me dou conta. Não deixes que eles te escapem, Robin. - Saiu da sala acompanhada por Sérgio.
Robin ficou a vê-los subir a escada, e depois encheu o copo de vodka puro. Estava cansado, mas não tinha vontade de se ir deitar. Não trouxe nada para ler...
e persistia aquele novo e estranho sentimento de solidão. Olhou para o alto da escada. Kitty e Sérgio estariam a fazer amor? Estremeceu. A noite não estava muito
fria, mas ele sentia-se gelado. Aproximou-se da lareira. Talvez fosse o diabo do mármore. Estremeceu de novo.
- Acendi o fogo no seu quarto. Virou-se. Sérgio estava de pé junto da escada.
- Não o ouvi descer - disse Robin. - Faz menos barulho do que um gato.
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- Uso solas de borracha de propósito. Kitty às vezes adormece no sofá e eu não quero que os meus passos a
incoModem.
Robin voltou para o sofá. Sérgio sentou-se a seu lado. Robin afastou-se e olhou para o rapaz.
- Oiça, Sérgio, há algo que eu quero que fique esclarecido: more com a minha mãe, ande com rapazes, faça o que quiser, mas não fique com ideias a meu respeito.
- Quarenta anos é tarde para ainda estar solteiro. Robin riu amargamente.
- Raciocinou bem, mas enganou-se. Gosto de mulheres, meu caro. Gosto tanto que não pretendo contentar-me só com uma. - Os olhos castanho-escuros do rapaz perturbaram-no.
- Oiça, porque não está na cama com a gloriosa Kitty? É para isso que ela lhe paga.
- Moro com ela porque gosto dela.
- Sim, eu também gosto dela. Mas deixei-a quando tinha a sua idade e ela era bastante mais jovem e bonita.
Sérgio sorriu.
- Mas acontece que ela não é minha mãe. Existe amor entre nós, mas não do tipo que você pensa. A sua mãe não quer sexo, quer afecto, quer alguém a seu lado. Tenho-lhe
amor. Serei sempre bom para ela.
- Óptimo, Serginho. - A voz de Robin estava comovida. Começava a encarar o rapaz por outro prisma. Já não lhe tinha ressentimento. Achava mesmo que Kitty tinha
sorte. Sentia-se grato a Sérgio.
- Fale-me do seu trabalho nos Estados Unidos - pediu Sérgio.
- Não há muito que dizer... Faço reportagens para a televisão.
- Gosta do seu trabalho? Robin encolheu os ombros.
- Serve. É um trabalho como outro qualquer. Serviu-se de mais um pouco de vodka. O rapaz levantou-se
de um salto e trouxe-lhe o balde de gelo.
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- Todos temos que ter um emprego - disse Robin.
- Somos um país católico, onde não há divórcio. Os pobres têm uma porção de filhos, por isso têm que ter um
emprego e trabalhar duramente, mesmo em coisas de que
não gostam. Mas os homens que estudam, a gente rica aqui não tem um emprego qualquer. Trabalham no que gostam. Aproveitam a vida. Todos os escritórios, todas as
lojas fecham do meio-dia às três. Os ricos, à hora do almoço, vão visitar as amantes. Almoçam, bebem vinho, fazem amor. À noite, vão para casa, onde as esposas
os esperam, e gozam a noite. Mas vocês, americanos, aceitam empregos de que não gostam. Diga-me, bebe vinho ao almoço?
Robin riu.
- Aí está uma ideia que nunca me passaria pela cabeça.
- Porquê? A sua mãe vai deixar-lhe muito dinheiro! Porque tem de trabalhar tanto num emprego qualquer?
- Eu não trabalho assim tanto. Talvez nós, na América, não gozemos tanto a vida, mas em compensação não esperamos ser sustentados por mulheres, amantes ou mães.
Robin ficou à espera da reacção, mas a expressão de Sérgio não mudou.
- E pretende trabalhar toda a vida nesse emprego da televisão? - A pergunta foi feita com interesse sincero.
- Não. Um dia vou deixar a televisão para escrever um livro.
Os olhos de Sérgio iluminaram-se.
- Adoro ler. Kitty está a estimular-me para adquirir cultura. Eu era tão ignorante! Estou a ler um livro de Wells, Outline on History. Você escreve como ele?
- Não, eu escrevo à minha maneira, que é a única maneira de se escrever, seja ela boa ou má. O pior é que só posso escrever nas horas vagas.
- Acho que deveria largar o emprego e vir morar connosco. Podia escrever e viveríamos todos muito felizes. Kitty
ficaria contentíssima e eu também.
Robin sorriu.
321
Acho que estou velho demais para ser seu colega de quarto.
- Oh, mas você teria um quarto só para si. Teria até uma suite. E nas férias, poderia ir esquiar comigo. Por favor, Robin, fique!
- Sérgio, a última vez que alguém me olhou assim, dormimos juntos três dias a fio. A única diferença é que era uma rapariga. Por favor, deixe-se disso.
- Nota-se?
- Claro que se nota.
- E incomoda-o?
- Se quer que eu fique, deixe-se disso. Sérgio suspirou.
- Compreendo. É que... é que você é tudo o que eu sempre sonhei encontrar num homem. Não posso evitar, assim como uma rapariga não poderia evitar olhar para si
assim. Se fosse uma rapariga, você não a odiaria. Eu olho para si do fundo do coração. Não posso evitar as
minhas emoções. Mas não se preocupe. - Estendeu a mão. - Aperte
Robin. Vamos ser bons amigos.
Robin ficou espantado com o firme aperto de mão de Sérgio.
- Combinado. - Pousou o copo e começou a subir a escada. - A propósito, onde é que dorme, hem?
- No fundo do corredor. Num quarto pegado ao da sua mãe.
Robin sorriu lentamente, mas o olhar de Sérgio era sério.
- Ela sofre do coração. Achei que deveria ficar perto.
- Boa-noite, Sérgio. Você ganhou-me. Sérgio sorriu e dirigiu-se para a lareira.
- vou apagar o fogo. As criadas chegam às sete horas. Deixei uma garrafa térmica com café quente à sua mesa de cabeceira, para o caso de acordar mais cedo.
Robin riu.
- Ainda bem que, como você, só existe um, senão as mulheres, acabariam sendo ultrapassadas!
322
Kitty passou os dias seguintes ocupada com grandes preparativos para a festa de Natal. Comidas, vinhos, enfeites, a árvore de Natal, tudo tinha de ser comprado.
Todos os dias ela dava uma lista a Robin e a Sérgio e mandava-os fazer compras, como se fossem duas crianças. Robín divertia-se com aquilo. Sérgio dirigia o carro
e conhecia todas as lojas boas. Muitas vezes, eram forçados a sentarem-se num restaurante e almoçar calmamente, enquanto esperavam que as lojas reabrissem. Robin
adaptou-se logo ao tranquilo ritmo de vida romano. Até já bebia vinho e simpatizava com Sérgio. O rapaz era bom e gentil. Robin começava a sentir uma espécie de
afecto paternal por ele.
Sérgio queria saber tudo acerca dos Estados Unidos. Nova Iorque e Chicago interessavam-no, mas o que o fascinava mesmo era Hollywood. Devorava revistas de cinema.
As casas à beira da praia e as luxuosas mansões impressionavam-no.
- Em Roma, pouca gente vive assim. Em Hollywood, todos têm piscina. Que vida maravilhosa! Aqui, não há possibilidade de ser descoberto para o cinema, há tantos
rapazes como eu! Mas em Hollywood, seria diferente.
- Representas? - perguntou Robin.
- É preciso saber representar para trabalhar no cinema?
- Os olhos castanhos eram inocentes. - Ouvi dizer que é tudo feito aos pedacinhos, que o realizador diz-nos o que temos de fazer.
- Bem, não é assim tão fácil. Porque não estudas teatro? Kitty não se importaria.
Sérgio encolheu os ombros.
- Eh, é apenas um sonho. Estou feliz, ao lado de Kitty. E estes últimos dias, Robin, foram os mais felizes da minha vida.
Na véspera de Natal, Sérgio arrastou-o até uma joalharia na
via Sistina. O dono da loja, um homem gordo e semi-calvo, estremeceu de emoção ao dar com Sérgio.
- Sérgio, voltaste - disse ele.
- Quero ver o espelho - retorquiu Sérgio friamente.
- Ah, sim, menino ingrato. Já te disse que era teu, se
323
quisesses. - Procurou numa vitrina e tirou um belo espelhinho de ouro florentino. Sérgio contemplou o espelho com admiração.
- Que diabo está ele a dizer? - perguntou Robin. Estava a sentir-se mal. O dono da loja olhava para Sérgio como se o quisesse comer, embora o rapaz parecesse não
perceber.
- Kitty ficou louca por este espelho - explicou Sérgio.
- Viu-o há cerca de um mês. É um espelhinho de bolsa. Tentei economizar, mas só consegui juntar a metade do que ele custa.
- Sérgio - a voz do homem era melosa - já te disse que podes pagar o que quiseres. O resto é presente meu.
Sérgio, porém, não lhe deu ouvidos. Tirou da carteira algumas notas amarrotadas.
- Robin, preciso de... bem, mais uns vinte dólares americanos chegariam. Não poderíamos dar o presente em nome dos dois?
Robin fez que sim. Deu o dinheiro ao homem que, com ar desapontado, desapareceu no fundo da loja para embrulhar o presente. Robin pôs-se a examinar as jóias nas
vitrinas, seguido por Sérgio.
- Tem coisas lindas - disse o rapaz. - Colecciona jóias antigas. - Parece que não é só isso o que ele colecciona. Sérgio baixou os olhos, encabulado.
- Sim, também é conhecido pelos presentes que dá a rapazes novos.
Robin riu.
- Sérgio, do modo como ele olhou para ti, dentro em pouco temos casamento.
- Só o conheci quando vim aqui perguntar o preço do espelho. Ele disse que era de graça se eu...
- Porque não, Serginho? Não é muito mais velho do que Kitty.
- Mas eu teria que dormir com ele.
- E então?
324
- Só durmo com gente de quem gosto.
Robin afastou-se. O rapaz estava atribuindo uma estranha Dignidade à sua condição de homossexual. Sérgio foi atrás
dele.
- É verdade Robin. Só tive alguns poucos amigos. Desde
qUe o meu último amigo adoeceu, nunca mais dormi com ninguém.
- Mas não tardarás em deixar Kitty, quando aparecer um novo amigo, não é?
- Não, não a deixarei. As coisas não são fáceis para mim. Os homens que me atraem gostam de mulheres. Não gosto de qualquer homem, só por ser homossexual. Prefiro
ficar com Kitty.
- Fica com ela Sérgio. Prometo-te, que quando Kitty morrer, conseguir-te-ei uma mesada para o resto da tua vida.
Sérgio encolheu os ombros.
- O dinheiro não é tudo para mim. - Fez uma pausa. Mas compra-me um presente de Natal para eu ficar com uma recordação sua?
Estavam junto de uma vitrina cheia de relógios de luxo para homem. Um brilho desconfiado assomou aos olhos de Robin.
- Então, meu caro, o que é que esses olhos estão a cobiçar?
- Aquilo ali. - Sérgio puxou Robin para junto de uma vitrina com pulseiras de ouro. Sempre quis ter uma pulseira dessas.
Robin conteve um sorriso. As pulseiras custavam cerca de dezoito dólares.
- Escolhe a que quiseres. - O rapaz parecia uma criança, de tão entusiasmado. Por fim escolheu a menos cara: elos de ouro liso,
com uma placa para pôr o nome.
- Posso mandar gravar o meu nome? Custa um pouco mais caro.
Robin sorriu.
- Podes mandar gravar o que quiseres. - Sérgio bateu palmas de alegria e pôs-se a falar, num italiano entusiasmado,
com o dono da loja. Robin percorreu a joalharia.
De repente, os
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seus olhos caíram numa pantera de esmalte preto e olhos de esmeralda.
Fez sinal ao caixeiro.
- Quanto custa aquele broche?
- Quatro mil.
- Liras? - perguntou Robin.
- Dólares.
- Isso tudo!
Imediatamente o caixeiro colocou o broche sobre um pedaço de veludo branco.
- Não há jóia mais linda em toda a Roma. Veio da índia, mandada fazer por marajá. Tem trezentos anos. As esmeraldas são inestimáveis. E não terá de pagar direitos,
já que é uma peça de antiquário.
Robin olhou para a pantera. Os olhos de esmeralda eram exactamente da mesma cor dos de... Deu meia volta. Mas de súbito, movido por um súbito impulso, disse ao
homem
que embrulhasse o broche. Ora, porque não? No fim de contas, devia muito a Maggie. Ao preencher o traveler's check, ocorreu-Ihe que nunca tinha gasto tanto dinheiro.
Todavia, sentia-se satisfeito. Pôs a caixinha no bolso e depois foi apressar Sérgio, que se recusava a ir-se embora antes de receber uma garantia por escrito de
que a gravação de seu nome ficaria pronta naquele mesmo dia.
Robin nunca passara uma noite de Natal tão agradável. O fogo crepitava na lareira, a árvore chegava até ao tecto, toda enfeitada de branco a fingir de neve. À
meia-noite abriram os presentes. Kitty comprara botões de punho com brilhantes para Robin e Sérgio. Robin ficou encabulado, ao ver a medalha de ouro
com um S. Cristóvão que
Sérgio lhe dera.
- Foi abençoada pelo Santo Padre - explicou Sérgio. - Como viaja tanto!
Kitty ficou encantada com os seus presentes. Brindou a ambos com champanhe e Sérgio passou a noite a olhar para a
sua nova pulseira de ouro.
No dia seguinte, a villa ficou completamente cheia de convidados. Robin bebeu demais e acabou num apartamento fronteiro aos jardins da Villa Borghese,
com uma bela
jugosJava, cujo marido estava em Espanha em negócios. Passaram a tarde do dia seguinte a amar. À noite, voltou ao palazzo de
j<Kitty, exausto mas feliz.
A semana passou rapidamente.
Sérgio levou-o ao aeroporto.
- Telefona-me, se ela não se sentir bem. E obriga-a a fazer exames, Sérgio. Ela não se queixará, não quer parecer velha, mas trata de chamar o médico à menor suspeita.
- Pode confiar em mim, Robin. - Aproximavam-se do portão de embarque. A bagagem de Robin, já tinha sido despachada pela alfândega, o voo já fora anunciado. - Robin,
talvez você também precise de consultar o médico.
- Que diabo, tenho uma saúde de ferro.
- Outra espécie de médico. Robin estacou de repente.
- Que queres dizer com isso?
- Você tem qualquer coisa que o preocupa. Duas noites a fio gritou, enquanto dormia. Na noite passada corri para o seu quarto...
- E que foi que eu disse?
- Estava a dar voltas na cama, a dormir, mas com uma expressão de sofrimento no rosto. Estava abraçado ao travesseiro e a gritar: "Não me deixes! Por favor, não
me deixes!"
- Entrei demais no vodka - disse Robin.
Mas, no avião, pensou no assunto. Pensou ao ter de pagar um imposto pesadíssimo pelo broche, na alfândega; se ele pudesse apanhar aquele filho da puta que lhe
dissera
que não se pagavam direitos por peças de antiquário! E pensou no assunto já no táxi. Tudo aquilo não fazia sentido. No auge da sua ligação
com Amanda, nunca lhe
comprara um presente tão caro. E ali estava ele, com uma jóia de quatro mil dólares, para uma rapariga com quem só funcionava quando estava bêbado.
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Talvez fosse sentimento de culpa, mas quatro mil dólares mais o imposto era um preço demasiado alto para uma só noite Uma noite de que ele nem sequer se lembrava.

Capítulo vigésimo primeiro.

Assim que chegou a Nova Iorque, Robin entrou em acção. Avisou o Departamento Jurídico que redigisse um contrato para Andy Farino. Depois remeteu-o pelo correio,
com uma nota oferecendo-lhe um lugar na emissora, em Nova Iorque. Enviou também o broche para Maggie, com um bilhete a dizer:
"com os votos atrasados de Feliz Natal,
Robin." Três dias mais tarde, Andy telefonou entusiasmado, aceitando a oferta.
- Tens a certeza que não vais sentir a falta de nada aí? perguntou Robin.
- Não. Maggie e eu acabámos.
- Sinto muito.
- Não, tinha de ser assim mesmo, Ela é... bem, ela é complicada demais para mim. Agora está a ensaiar como uma louca. Um desses agentes de Hollywood vem aqui só
para vê-la representar. Eu quero uma mulher que não me passe para trás de Eugene O'Neill.
- Muito bem. vou pôr-te no Departamento de Reportagem. Continuarás a trabalhar com Jim Bolt. E podes começar a assistir às gravações do Em Profundidade, para ficares
dentro do assunto. Dentro de um mês, mais ou menos, deixar-te-ei fazer um programa sozinho e, na próxima temporada, espero entregar-te o programa e partir para
qualquer coisa de novo.
- Tenho estado a ouvir e estudar todas as tuas gravações e não sei se vai ser assim tão fácil substituir-te.
- Faz as coisas à tua maneira, que todos gostarão.
- Obrigado pelo voto de confiança. vou tentar!
No fim da semana, Robin já tinha posto o trabalho atrasado em dia e feito uma gravação para o seu programa. Olhou para a agenda: tinha a tarde livre. Abriu a gaveta
da mesa e puxou
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para fora o manuscrito do livro. Parecia que havia anos que não escrevia. Essa noite ia levá-lo para casa e trabalhar nele, sem tocar no vodka. Não fora ao Lancer
Bar desde que voltara.
A secretária entrou com uma encomenda para ele assinar o recibo. Enquanto assinava, Robin perguntava a si mesmo o que estaria dentro daquele embrulho de papel
pardo, cheio de selos e com um carimbo de seguro. Abriu-o e encontrou a caixinha de couro com o broche da pantera. Junto havia um bilhete escrito à máquina: "Só
aceito presentes de amigos".
Rasgou o bilhete e colocou a caixinha dentro de um pequeno cofre, onde guardava contratos e documentos particulares.
Depois guardou de novo o livro na gaveta da mesa e saiu do escritório. Ao entrar no Lancer Bar, Carmen, o barman, cumprimentou-o euforicamente.
- Sr. Stone, há tanto tempo que não o via! O de sempre?
- Pode ser duplo para comemorar a minha volta - disse Robin.
Terminou rapidamente a bebida e pediu outra. Ia ser uma daquelas noites... Estava a começar a detestar a noite. Sabia que tinha pesadelos... várias vezes acordara
banhado em suor, mas não conseguia recordar o que sonhara. Também não se lembrava do que sonhara em Roma, mas Sérgio dissera-lhe que gritara duas noites seguidas.
Terminou a segunda bebida e pediu outra. O facto de Maggie ter devolvido o broche aborrecia-o, mas, porquê? Ela nada significava para ele. Nada parecia ter sentido,
ultimamente. Talvez Sérgio tivesse razão. Atravessou o bar e pegou na lista telefónica. Porque não? Valia a pena fazer uma consulta a um psiquiatra, para deixar
de
ter pesadelos. Procurou no G. Havia uma porção de Golds, mas não podia haver mais do que um Archibald Gold. Lá estava ele, com consultório na Park Avenue. Hesitou
um momento depois marcou o número rapidamente. Logo à segunda chamada, o Dr. Archie Gold atendeu.
- Daqui fala Robin Stone.
- Sim?
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- Gostaria de dar um salto até aí. - Visita profissional ou pessoal? Pausa.
- Acho que profissional.
- Pode voltar a telefonar às seis horas? Estou com um doente.
Robin desligou e dirigiu-se de novo para o bar. Terminou a bebida e às seis em ponto, telefonou para Archie.
- Então, doutor, quando é que posso ir aí?
Ouviu passar páginas e percebeu que o médico estava a consultar a sua agenda.
- Tenho algumas horas vagas - disse ele. - Alguns dos meus clientes foram para o sul, passar o Inverno. Que tal a próxima segunda-feira? Posso marcar para as dez
da manhã. Talvez possamos começar com três consultas semanais.
Robin soltou uma gargalhada forçada.
- Não quero fazer um tratamento, doutor. Só quero falar sobre um problema que tenho. Porque não vem ao Lancer Bar tomar uma bebida? Pago-lhe a bebida e a consulta,
como se fosse até aí.
- Desculpe, mas não costumo fazer isso.
- E que eu falo melhor quando estou a beber - explicou Robin.
- Pois eu escuto melhor no meu consultório - replicou o médico.
- Então, nada feito.
- Lamento muito, mas sabe o meu número se resolver mudar de ideias.
- A que horas é a sua última consulta de hoje?
- O meu último paciente deve estar a chegar.
- Quer dizer que às sete está livre.
- Pretendo ir para casa às sete.
- Archie, se me atender, vou até aí, às sete.
O Dr. Gold não se deixou iludir pelo tom de voz superficial de Robin. Para um homem como ele, o próprio telefonema já
era um pedido de socorro.
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- Está bem, Robin, até às sete. Tem a minha morada.
- Tenho. Oiça, Archie, se disser alguma palavra disto ao seu amigo Jerry, juro que lhe parto a cara.
- Nunca falo dos meus pacientes. Mas, se tem dúvidas talvez seja melhor consultar outro médico. Posso recomendar-lhe vários colegas.
- Não, Archie, só o quero a si. Até às sete.
Robin estava sentado em frente da mesa do Dr. Gold achando tudo aquilo,ridículo. Nunca se abria com ninguém como diabo ia dizer àquele quase desconhecido de aspecto
plácido o que o incomodava?
O Dr. Gold sorriu diante do silêncio.
- Às vezes, é mais fácil falar sobre coisas íntimas com pessoas a quem não conhecemos. É por isso que os barmen têm muito em comum. Só nos procuram quando as pessoas
querem.
Robin riu.
- É isso mesmo. Bem, a coisa é simples. É sobre uma mulher. - Fez uma pausa. - Não consigo tirá-la da cabeça, mas não vou por ela. Não é estranho?
- Quando diz que não vai por ela, quer dizer que não simpatiza com ela?
- Não, simpatizo, sim. Simpatizo até muito. Mas não consigo funcionar com ela, sexualmente.
- Já tentou? Robin deu de ombros.
- Parece que em duas ocasiões diferentes, quando estava bêbado, e a julgar pelas reacções dela, saí-me muito bem.
- Então, porque diz que não funciona com ela? Robin acendeu um cigarro e expeliu o fumo, com ar
pensativo.
- Bem, da primeira vez, quando acordei, de manhã, ela já se tinha ido embora. Não consegui lembrar-me sequer do rosto dela... nem do nome. Só sabia que era morena
e de seios grandes. Acordei e senti que algo me perturbava. Não consegui lembrar-me de nada, mas tinha a sensação de ter feito ou
332
dito algo que não devia. Depois, para completar, fui apresentado à moça dois anos mais tarde e não me recordava absolutamente nada de a ter visto antes. Nessa
altura,
ela era amante de um amigo meu. Achei-a bonita, simpática e boa para ele e fiquei satisfeito porque, como já disse, ela não era o meu tipo. Saímos juntos algumas
noites e depois saí-para pescar, sozinho. Na minha última noite na cidade saí com eles. Embriaguei-me. O meu amigo embebedou-se de tal modo que perdeu o conhecimento
e acabei por ficar sozinho com ela. E devo ter-me portado maravilhosamente, porque ela estava a preparar o pequeno almoço para mim, toda feliz.
- O que é que sentiu em relação a ela? - perguntou o Dr. Gold.
- Medo. -Robin estremeceu. -Algo como que ver-se, ao acordar, ao lado de um homem ou de uma criança, de alguém com quem não se devesse ir para a cama. E como ela
me era simpática, disse-lhe a verdade. - Esmagou a ponta do cigarro. - Fui brutal. Contei-lhe o que senti. Ela era linda mas, quando pensava em sexo com ela, sentia
uma súbita repulsa e sabia que não conseguiria.
- Repulsa por ela?
- Não, repulsa pelo acto sexual. Como se, ao fazê-lo, eu estivesse a fazer algo sujo, incestuoso. Entretanto, gosto dela. Talvez goste mais dela do que qualquer
outra mulher que eu tenha conhecido. Mas não sinto atracção física por ela.
- E você quer sentir ou, melhor, gostaria de remover esse obstáculo, de modo a poder sentir.
- Errado. Para mim, tanto se me dá, se nunca mais a vir. Mas não gosto de coisas estranhas dentro de mim. A rapariga é linda, porque diabo hei-de sentir isso em
relação a ela? E não é a primeira vez que isso acontece, e sempre com uma morena. Mas as outras não eram da categoria desta, e felizmente nunca mais as vi. O que
aconteceu com Maggie, foi um acidente. Sem querer, embriaguei-me a ponto de não saber o que fazia.
- Sem querer? Bebeu alguma coisa a que não estava Costumado?
333
- Não, vodka. É o que eu tomo sempre.
- Não percebeu que estava a beber demais?
- Acho que sim.
- Vamos retroceder até ao seu primeiro encontro com essa rapariga, há dois anos. Você estava bêbado, quando a conheceu?
- Não, mas estava a beber.
- E continuou a beber propositadamente?
- Propositadamente? O Dr. Gold sorriu.
- Parece-me que sim. Você não é o tipo de pessoa que faz as coisas sem querer.
Robin ficou pensativo.
- Quer dizer que, subconscientemente, eu desejava a rapariga e embriaguei-me de propósito para
poder funcionar com ela? - Como o Dr. não respondesse, Robin abanou
a cabeça. - Não faz sentido, porque eu não alinho com aquele tipo de rapariga. Para que quereria eu ir para a cama com ela? Bêbado ou não, ela não é o meu tipo.
- Qual é o seu tipo?
- Gosto de raparigas magras, louras, altas. Gosto do cheiro das louras, um cheiro limpo. Maggie é do tipo provocante, como uma pantera.
- Já se apaixonou alguma vez? Robin encolheu os ombros.
- Já andei caído. Mas consegui desligar-me no momento oportuno. Sabe uma coisa, Archie? Nem toda a gente é heterossexual ou homossexual. Há gente que é apenas
sexual. Gostam de sexo, mas nem sempre se apaixonam. com Amanda, por exemplo; ela era linda. Eu achava que as nossas relações não podiam ser melhores. Contudo
pelo que Jerry me disse, eu fi-la sofrer muito. Mas nunca dei conta disso. Só tentei cortar a coisa no fim, quando ela já estava a querer apossar-se de mim. Mesmo
assim, não queria
acabar, apenas arrefecer um pouco. E não sabia que estava a fazê-la sofrer.
- Nunca se apercebeu mesmo?
334
- Nunca. Por exemplo, quando eu resolvi ir à Europa gravar um programa e não lhe escrevi, imaginava que ela
soubesse que eu ia voltar para ela. E, quando eu voltava,
estava sempre ansioso por estar com ela.
- Contudo, tem consciência de que fez sofrer esta rapariga, Maggie.
Robin fez sinal que sim.
- Porque razão não percebia que estava a fazer sofrer Amanda, a quem desejava e sente remorsos por causa dessa rapariga, a quem não liga?
- É por isso que estou aqui, Archei. Para que você me diga.
- Como era a sua mãe, de que aspecto?
- Oh, pelo amor de Deus, não traga Freud à baila. Tive uma infância feliz e saudável. Kitty, a minha mãe, é loura, simpática, com ar limpo...
- E o seu pai?
- Meu pai era um sujeito formidável, forte, musculoso. Tenho uma irmã mais nova que é um amor. Tudo na
minha infância foi perfeito. Acho que estamos a perder tempo.
- Muito bem... pai, mãe, irmã, tudo relações sadias. Temos que achar o desconhecido moreno, ou desconhecida morena. Terá sido uma ama? Uma professora?
- A minha primeira professora era corcunda. Isso foi no jardim-escola. A minha ama, bem, devo ter tido alguma mas não me recordo. Lembro-me de empregados; eu ia
para o colégio com o motorista. Lembro-me também de uma ama, quando Lisa nasceu. Uma senhora grisalha.
- Não havia rivalidade entre a sua irmã e você?
- Não. Eu era o "irmão mais" velho", sempre pronto a protegê-la. Ela era uma Kitty em miniatura: loura, branca, de ar limpo.
- Você parece-se com Kitty? Robin franziu a testa.
- Tenho os olhos azuis dela, mas o meu cabelo é escuro, como o do meu pai, embora esteja a ficar grisalho.
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- Vamos voltar à época em que sua irmã ainda não tinha nascido. Qual a sua primeira recordação de infância?
- Lembro-me do jardim-escola.
- Antes disso.
- Não me lembro de nada.
- Tem de se lembrar de qualquer coisa. Toda a gente se recorda de qualquer incidente da infância. Um bicho, um amigo, alegria, tristeza.
Robin sacudiu a cabeça. O Dr. Gold continuou:
- Uma conversa, uma oração? Robin deu um estalo com os dentes.
- Sim, lembro-me de uma coisa. Talvez fosse uma conversa, mas só me lembro de uma frase, e não sei quem a disse: "Os homens não choram. Se choras é porque não
és homem, e sim um bebé." Não sei porquê, guardei isto, acreditei nisto. Acreditava que, se não chorasse, conseguiria tudo o que queria. Quem quer que tenha dito
isto, devia ser muito chegado a mim, porque eu nunca mais chorei.
- Nunca mais chorou?
- Não que me lembre. -Robin sorriu. -Bem, quando vou ver um filme sentimental, fico com um nó na garganta. Mas na minha vida pessoal - abanou a cabeça - nunca.
O Dr. Gold olhou para o relógio.
- São cinco para as oito. Que tal se voltasse aqui na próxima segunda-feira. O meu preço é trinta e cinco dólares por hora.
Robin fez uma cara de espanto.
- Não deve estar bom da cabeça! Estou aqui há mais de uma hora para falar sobre uma rapariga que não me sai da ideia. Não chegámos a nenhuma conclusão e quer que
eu volte.
- Robin, não é natural não conseguir recordar a sua infância.
- Cinco anos não é velhice, creio.
- Não, mas devia ser capaz de se recordar de algo acontecido antes, a menos que...
- A menos que...?
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- A menos que esteja intencionalmente a bloquear alguma recordação.
Robin debruçou-se sobre a mesa do médico.
- Archie, juro por Deus que não estou a bloquear nada. Talvez tenha uma péssima memória. Ou não lhe ocorreu que não me tenha acontecido nada digno de lembrança?
Archie abanou a cabeça.
- Frequentemente, quando acontece algo traumatizante, o cérebro automaticamente defende-se por meio da amnésia.
Robin dirigiu-se para a porta. De repente, voltou-se para o médico.
- Oiça, eu morava numa casa espaçosa e confortável, com um par de pais maravilhosos e uma irmã linda. Tive uma infância perfeita. Talvez seja por isso mesmo. Talvez
as coisas tenham sido demasiado fáceis para mim, talvez o jardim-escola tenha sido o meu primeiro choque, a tal professora corcunda, talvez seja por isso que a
minha primeira lembrança seja essa.
- Quem lhe disse que um homem não chora?
- Não sei.
- Foi antes do jardim-escola?
- Só pode ter sido, porque eu nunca chorei no jardim-escola, como as outras crianças.
- Então, quem foi que lhe disse?
- Archie, não sei. Mas, fosse quem fosse, tem a minha bênção. Não gosto de ver homens chorar. Não gosto nem de ver mulheres ou crianças chorarem.
- Robin, gostaria de tentar a hipnose consigo. - Você está louco? Escute, doutor, estive na guerra e fui bastante ferido. Posso lembrar-me de uma porção de coisas
capazes de me ter perturbado o juízo, sobrevivi a tudo incólume. Vim aqui para que você respondesse a uma pergunta simples. Não conseguiu responder. Pronto, mostre
o seu espírito desportivo e confesse. Não tente
armar em bom, revolvendo a minha infância para ver se uma governanta me bateu quando eu tinha dois ou três anos, por eu não arrumar os brinquedos. Talvez isso
tenha
acontecido, talvez ela tivesse
337
cabelos pretos, olhos verdes e seios grandes. E depois?
- Sabe onde me encontro, se resolver procurar-me de novo - disse o Dr. Gold.
Robin riu.
- Obrigado, mas acho mais fácil e mais barato eu fugir se encontrar uma morena de olhos verdes... - Fechou a porta do consultório e saiu para a noite. O Dr. Gold
ficou a olhar para as anotações que tomara. Resolveu guardá-las numa pasta. Robin Stone voltaria.
Robin passou em revista as cotações de Fevereiro. O Departamento de Reportagens estava, finalmente, competindo com as outras estações. Naquela semana estava em
segundo lugar entre os programas do mesmo horário. Em Profundidade ainda estava entre os vinte e cinco programas mais cotados. Dera uma possibilidade a Andy na
semana anterior e a coisa tinha saído bem. Examinou o projecto para o programa sobre os discos: a equipa de pesquisa descobrira novos e excitantes ângulos. Aquilo
ia dar um programa e tanto.
No dia seguinte encontrou-se com Danton Miller e explicou-lhe a sua intenção de ir a pouco e pouco largando o Em Profundidade e deixar Andy tomar definitivamente
o comando do programa, na temporada seguinte. Estranhamente, Dan não pôs objecções.
- Vai deixar de representar? - perguntou com um sorriso. - As suas admiradoras não vão gostar.
- Pretendo fazer um programa especial de reportagem uma vez por mês - explicou Robin. - Abordar algum assunto que ninguém queira tocar. Pesquisá-lo bem, pô-lo
a nu. Este aqui podia ser o primeiro. - Entregou a Dan o projecto dos discos. Dan leu-o cuidadosamente.
- Parece um programa dominical. Talvez as crianças gostem - disse Dan. Mas nunca um programa nocturno.
- Pois eu acho que vai dar um grande programa nocturno. Porque não experimentá-lo em Maio ou em Junho, quando os
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grandes programas estão a ser repetidos? Seria um bom teste.
- Se quiser, posso encaixá-lo num domingo à tarde, em Abril ou Maio. Mas nunca à noite.
- Domingo à tarde não me interessa - disse Robin. Sabe muito bem que não obteria cotação. Os jogos de beisebol absorvem tudo. Quero arranjar um patrocinador para
o Outono.
Dan sorriu.
- Se quiser convocar uma equipa e fazer uma gravação com essa história de ficção científica, é consigo. Mas não conte comigo para uma apresentação em network.
Robin pegou no telefone. A secretária de Dan atendeu.
- Por favor, ligue-me para o Sr. Gregory Austin. Diga-Ihe que Robin Stone e Danton Miller gostariam de falar com ele assim que fosse possível.
O rosto de Dan ficou branco, mas logo recuperou e afivelou um sorriso.
- Não devia ter feito isso - disse. - Passou por cima de mim.
- Sim, mas ao menos não foi nas suas costas. - Por um momento os dois olharam-se em silêncio. Quando o telefone tocou, Dan atendeu. A secretária anunciou que o
sr. Austin podia recebê-los imediatamente.
Robin levantou-se.
- Vem comigo? Dan franziu a testa.
- Parece que não tenho outro remédio. - Depois sorriu.
- Estou curioso por ver a reacção de Gregory à sua ficção científica. Perceberá logo que eu votei contra, e ele não gosta de perder tempo actuando como juiz. Foi
por isso mesmo que me nomeou director de network. A minha decisão em assuntos desses é lei. Mas vou deixá-lo cavar a sua própria sepultura.
Dan ficou calado, enquanto Robin descrevia o seu projecto a Gregory. Quando ele terminou Gregory voltou-se para Dan.
- Pelo que percebi, você não aprova. Dan sorriu e uniu as pontas dos dedos.
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- Robin está a pensar fazer um programa desses na próxima temporada. Um por mês, no horário da noite.
Gregory olhou interrogativamente para Robin.
- Um programa sobre discos voadores todos os meses? Robin riu.
- Não. Quero fazer uma hora de televisão comparável a uma reportagem da revista Life sobre um assunto qualquer que seja notícia. Discos, política, tudo o que esteja
nos cabeçalhos ou actual. Em vez de fazer a reportagem sobre uma personalidade, como na meia-hora de Em Profundidade, quero fazer uma reportagem sobre um assunto,
de uma hora. Por exemplo, um filme importante que estivesse a ser feito: iríamos ao local das filmagens, falaríamos com os artistas, com o realizador, com o autor
da história. Podíamos focalizar a vida particular de um astro de televisão, Christie Lane, por exemplo. O público quer saber como ele é na vida real.
O nome de Christie Lane trouxe uma nuvem de preocupação aos olhos de Gregory. Voltou-se para Dan.
- Isso recorda-me que Christie só tem para mais uma temporada. Alguém está a tratar de lhe renovar o contrato, a longo prazo?
- Já iniciámos as negociações - respondeu Dan. - Ele quer começar as reprises no fim de Abril, para poder apanhares contratos de
Las Vegas. Também aceitou aparecer
em parques de diversões, à razão de dez mil dólares por noite. Ainda está a fazer programas ao vivo, mas estamos a gravá-los para reprise. Na próxima temporada,
ele quer gravar os programas... está suficientemente seguro, agora. Até lá, não há problema. Mas Cliff Dorne diz que o problema está no dinheiro, na diferença
entre
o que ele pede e o que nós queremos dar-lhe. Concordámos em conceder-lhe um grande aumento, mas ele quer formar a sua própria companhia e apresentar o programa
em
sociedade connosco. Além disso, quer ficar com as gravações após a primeira reprise, para vendê-las às estações independentes. Mais outras vantagens extra. Não
vai
ser fácil. Tanto a NBC como a CBS estão loucas por ele.
340
A secretária interrompeu a reunião para anunciar que a sr.a Austin estava ao telefone. Gregory pôs-se imediatamente de
pé.
- vou atender na outra sala.
Assim que Austin saiu, Dan bateu no joelho de Robin.
- Escute - disse ele, em voz baixa - espero que tenha aprendido a lição. Como vê, não basta ser um repórter armado em intelectual para entender de programação.
Você
aborreceu Gregory com essa sua insistência em fazer um programa de ficção científica. Fez com que ele e eu perdêssemos tempo. Você é Director de Reportagens. Eu
sou Director de network. Trabalho sozinho. Não preciso de sócios.
Robin riu.
- Até parece uma versão novaiorquina de uma guerra de gangsters de Chicago: Você fica com o Lado Sul da Cidade, que eu fico com o Lado Norte.
- Ambos os lados são meus. Você é Director de Reportagens, ponto. Não tem nada a ver com a programação. Não sou nenhum jornalista armado em actor ou a executivo.
Isto é a minha vida, e não um hobby. E ninguém vai meter-se nela.
- Não tenho o mínimo desejo de me intrometer nas suas coisas, Dan. Mas sou Director de Reportagens e tenho um programa que acho que vai ser um sucesso. Você precisa
de me arranjar um horário. Se disser que não, eu terei que...
- Você terá que baixar a cabeça! Está a perceber? Baixar a cabeça! Da próxima vez que eu disser que não quero um programa, você baixa a cabeça. Não quero mais
telefonemas a Gregory Austin!
Robin sorriu, divertido.
- Muito bem, sr. Director, só peço que eu não tenha de baixar a cabeça depressa demais.
Gregory Austin voltou à sala.
- Desculpem, meus senhores. Não costumo deixar que assuntos pessoais interfiram nos assuntos profissionais, mas acontece que a sr.a Austin é a minha patroa. -
E sorriu, pensando na mulher. - Falei à sr.a Austin do seu plano de
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fazer uma emissão especial sobre os discos voadores. Ela ficou entusiasmada. Nunca me tinha passado pela cabeça que as mulheres vissem romantismo no espaço. Encaixe
o programa em Maio, Dan, no lugar de uma das reprises de Christie. Se obtiver boa cotação poderemos pensar numa série mensal. Olhou para Dan. - Quanto à renovação
do contrato de Christie, vou falar com Cliff Dorne. Mais alguma coisa a tratar?
Dan levantou-se.
- Não, acho que é só.
Gregory esperou que os dois homens chegassem à porta, e então, como se se acabasse de lembrar de alguma coisa disse:
- Robin, pode esperar um momento? Preciso de falar consigo.
Dan saiu e Robin sentou-se numa poltrona. Gregory olhou para a porta que acabava de se fechar e sorriu.
- Dan é óptimo para nós, ambicioso. Aliás, todos nós somos e é justamente por isso que ele é
bom. Gostei da sua ideia de pensar noutros programas. Mas, daqui em
diante, se forem estranhos ao Departamento de Reportagens, peço-lhe que fale comigo primeiro, e eu me encarregarei de os passar a Dan como se fossem ideias minhas.
Assim manteremos a paz no seio da nossa pequena família.
Robin sorriu.
- Ainda não estou bem por dentro do protocolo da televisão. - Não fez menção de sair, por pressentir que Gregory não o detivera só para lhe dizer aquilo.
- Robin - começou Gregory, subitamente encabulado.
- Sei que parece tolice e que não tem nada a ver com o seu trabalho, mas onde é que esteve no dia
1 de Janeiro?
Robin franziu a testa. No dia 1 de Janeiro... Ah, sim, fora o dia em que Sérgio o levara ao aeroporto. Gregory acendeu um cigarro.
- Engordei cinco quilos - explicou, com ar velhaco por isso resolvi voltar a fumar, até perder o que engordei. Depois, disse: - A nossa festa de Ano Novo.
342
Robin pareceu não compreender. Gregory olhou para a cinza que saía do cigarro. .- Você foi convidado dois anos seguidos e não só não
compareceu, como nem sequer se desculpou.
- Caramba! Que indelicadeza minha! Este ano estava em Roma e, no ano passado, acho que estava... - Franziu a testa, procurando lembrar-se. - Ah, sim, isso mesmo,
estava na Europa. Voltei justamente no dia um. Encontrei a minha mesa cheia de correspondência e até me envergonho de lhe dizer o que fiz, em ambas as ocasiões.
Atirei toda a correspondência para o cesto dos papéis. No fim de contas, ninguém espera receber resposta a cartões de Natal e imaginei que as contas seriam enviadas
de novo no mês seguinte. Decerto, o convite da sr.a Austin estava entre os cartões. vou escrever-lhe a pedir desculpa.
Gregory sorriu.
- Logo vi que era qualquer coisa assim. Mas sabe como são as mulheres. A sr.a Austin ficou a pensar que você tinha feito de propósito.
- Isso seria a última coisa que eu desejaria que ela pensasse. Em vez de lhe escrever posso telefonar-lhe?
- Claro que pode. - Gregory escreveu o número do telefone num pedaço de papel.
Robin voltou para o seu escritório e pediu à telefonista que lhe ligasse para a sr.a Austin.
- Ora. Robin Stone - disse ela, assim que atendeu não precisava de telefonar. Sei que é coisa de Gregory.
- É verdade, e ainda bem que ele me disse. Das duas vezes que a senhora me convidou para a sua festa de Ano Novo, eu estava fora do país.
Ela riu, quando ele contou como atirara fora toda a correspondência.
- Acho uma óptima ideia - disse. - Gostaria de ter coragem para fazer o mesmo. Assim, não precisaria de ir a tanta coisa chata.
- Sr.a Austin, prometo-lhe: no ano que vem, passarei em
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revista todos os cartões de Natal, à procura do seu convite.
- Ora, Robin. - Ela deteve-se. - Desculpe a minha familiaridade, mas não perdemos o seu programa e sinto
como se o conhecesse.
- Sr.a Austin, prometo-lhe que, esteja onde estiver, no dia um de Janeiro de mil novecentos e sessenta e quatro estarei na sua festa.
Ela riu.
- Espero que não precisemos de esperar tanto tempo para nos conhecermos.
- Espero que não. Mas quero que a senhora saiba que gosto de festas de Ano Novo.
- Aposto que Gregory já lhe disse que ele as odeia. Oh, Robin - ele ouviu o ruído de um papel que se desdobrava vou dar um pequeno jantar no dia um de Março. Acabamos
de voltar de Palm Beach e o tempo estava tão incerto, que resolvemos ficar em Nova Iorque. Gostaria de vir?
Como diabo se metera ele naquilo? Mas tinha as duas festas de Ano Novo para compensar.
- Gostaria imenso, sr.a Austin.
- O jantar é em honra da minha irmã que, não sei se sabe, está em Nova Iorque. O príncipe não pôde vir. Posso sentá-la ao lado dela, ou está a pensar em trazer
alguém?
- Gostaria de levar uma amiga - respondeu ele, mais do que depressa.
Sem se dar por achada, ela retorquiu:
- Óptimo. Então, dia um de Março, às oito e meia. Black tie.
Robin desligou e ficou a olhar para o telefone. Ah, então a princesa estava na cidade sem o príncipe. Pois bem, ele não ia fazer o papel do "solícito acompanhante"!
Havia o perigo de ser aprovado e ter de aceitar outros convites. Assim, ele cortara a coisa pela raiz. Mas agora tinha que convidar uma rapariga. Bem, tinha ainda
dez dias... até lá arranjaria alguém.
Na semana seguinte, esqueceu-se completamente da sr-a Austin. Passou dois dias em Washington, a preparar o
programa
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dos discos. Tinha escolhido um realizador e um produtor e marcara o dia quinze de Março como data para fazer a primeira gravação. Tudo estava em ordem. Tudo,
excepto o telefonema que tinha que fazer a Maggie Stewart. Não tinha que lhe telefonar, mas a verdade é que, se não fosse ela, ele não teria pensado em discos
voadores. Andy ia fazer uma parte e ele prometera a Maggie que ela também participaria no programa. Pediu a ligação interurbana. Quando ela atendeu, ele não perdeu
tempo. Explicou-lhe logo do que se tratava e perguntou-lhe se ela estaria interessada. Maggie respondeu na mesma moeda.
- Claro que me interessa participar no programa. Quando é que devo ir?
- O mais cedo possível!
- Hoje é dia vinte e cinco. Que tal no dia um de Março? Assim a estação terá tempo de arranjar uma substituta para mim.
- Um de Março é óptimo. - Robin abriu a sua agenda e viu a anotação: "Jantar com os Austins". - Maggie, sei que não lhe devia pedir, mas pode fazer-me um grande
favor?
- Sim?
- Venha no dia vinte e oito de Fevereiro e traga um vestido comprido.
- Para o programa?
- Não, para um jantar no dia um de Março. Gostaria que fosse comigo.
- Desculpe, mas só vou aí para trabalhar.
- Tem toda a razão, mas... gostaria que fosse comigo. É um jantar a rigor, em casa dos Austin.
Ela hesitou.
- Quer mesmo que eu vá?
- Quero, sim.
Ela riu e a sua voz tornou-se menos impessoal.
- Bem, acontece que eu tenho um vestido sensacional, que estou ansiosa por estrear.
- Obrigado, Maggie. Telegrafa a hora de chegada. Mandarei
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um carro esperar-te ao aeroporto. E vou reservar-te acomodações no Plaza.
Telefonou ao Plaza para reservar um quarto, mas de repente resolveu reservar uma suite. O Departamento Financeiro decerto ia
reclamar, mas ela bem merecia. Toda a
gente vivia bem à custa da IBC, porque não podia Maggie ficar numa suite?
O telegrama dela chegou na manhã do dia vinte e oito: CHEGAREI IDLEWILD 5 HORAS NORTHEAST AIRLli NES VOO 24. MAGGIE STEWART.
Robin contratou um carro; depois, num impulso, telefonou a Jerry Moss.
- Podes ficar livre às quatro horas? Tenho de ir esperar uma rapariga em Idlewild. Contratei um carro...
- E...?
- E não quero ir esperá-la só.
- Desde quando precisas de companhia?
- Jerry, tenho as minhas razões.
- Está bem, às quatro horas em frente ao edifício da IBC. Eram quase onze da noite e Robin bebia sem parar. Jerry
terminou o café. Não percebia nada daquilo. Maggie Stewart era a mulher mais incrivelmente bonita que ele já vira. Contudo, ela cumprimentara Robin como se mal
o conhecesse. E, quando Jerry tinha sugerido que fossem tomar uma bebida ao Lancer Bar, tanto Robin como Maggie tinham recusado ao mesmo tempo. Haviam-na deixado
no Plaza e depois Robin arrastara-o ao Loui's para jantar. O restaurante já estava quase vazio, mas Robin ainda estava a beber. Long John Nebel, passara pelo
restaurante a caminho do seu programa da madrugada.
- Escuto o programa dele quando não consigo dormir disse Robin. - É uma pena ele estar contratado por outra estação, ou pô-lo-ia no meu programa sobre os discos.
Ele sabe um bocado sobre o assunto.
Robin pediu outra bebida e ficou em silêncio. Jerry percebeu e não quis ser indiscreto. Mas, que história era aquela dele escutar o programa de Long John Nebel?
Só podia significar
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que não estava a dormir como deve ser, e também que não estava a dormir com nenhuma garota. Só se escutava Long John quando a pessoa se sentia só ou sofria de
insónias. Robin a sofrer de insónias? Essa era completamente nova. De repente, Jerry disse:
- Ouve, Robin, não sei o que realmente te incomoda, mas essa Maggie Stewart é realmente fora de série. Se também a deixares escapar, é porque algo está errado
em ti.
- Não existe nada de errado em mim-rosnou Robin. E vê se percebes bem: Não há nada entre mim e Maggie Stewart. Só a mandei vir a Nova Iorque porque ela percebe
de discos voadores.
Jerry levantou-se.
- Se quiseres ficar a beber toda a noite, fica sozinho. Estive aqui até agora porque pensei que precisasses de mim.
- Não preciso de ninguém - respondeu Robin. - Vai a correr para a tua mulher, vai!
Jerry tinha dado alguns passos, quando se voltou.
- Ouve, Robin, não me vou zangar contigo, porque sei que qualquer coisa te incomoda. Não és o mesmo desde que vieste da Florida. E, queiras confessá-lo ou não,
é qualquer coisa relacionado com essa rapariga.
Robin ficou a beber até o restaurante fechar. Depois, andou até ao seu apartamento e ligou o rádio. Era mais fácil adormecer com o rádio, não se acordava com a
luz da televisão a bater em cima. Serviu-se de outro copo de vodka puro. Era a primeira noite que bebia desde que consultara Archie. Deitou-se e ficou a ouvir
Long John. Adormeceu quando Long John anunciava uma água qualquer. Água... Era bom pensar em água... Pensa num barco, num barco e em água... Num belo beliche...
Dorme... Dorme... Estava num barco deitado num beliche. O beliche transformara-se numa grande cama.
Maggie aninhava-o contra o peito, acariciando-lhe a cabeça, dizendo que tudo ia
resultar. Ele sentiu-se bem. Acreditava nela. Depois ela saía da cama e Jerry estava à espera no outro quarto. Ela estava a fazer amor com Jerry! Ele entrou a
correr,
ela
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levou-o de volta para a cama, apertou-o contra ela e disse-lhe que era apenas um pesadelo. Afagava-lhe a cabeça... Ele acalmava-se aos poucos... Ela era quente...
Nisso, ele ouvia-a sairdacamaoutravez, ouvia-a rir no quarto ao lado. Entrava... Jerry já não estava lá. E ela estava sentada no sofá com Danton Miller. Danton
sugava-lhe o seio... Danton olhava para ele e ria. "Está com ciúmes", dizia. Maggie não ria. O seu rosto estava sério. "Volta para a cama e sossega." Era uma
ordem e, embora ele não soubesse porquê, sabia que tinha de obedecer.
Acordou. Caramba, quatro da manhã. Tivera outro sonho esquisito. John Nebel estava ainda a falar. Robin ligou para um programa só de música e finalmente conseguiu
adormecer.
Às oito da noite do dia seguinte, foi apanhar Maggie. O vestido era realmente sensacional e ele sentiu-se culpado, porque o jantar dos Austin foi rígido, formal
e aborrecido. Todos eram agradáveis e gentis, mas a conversa mundana sempre o aborrecia. Sentou-se à esquerda de Judith Austin e durante todo o jantar fez um esforço
enorme para prestar atenção ao que ela dizia. Conseguiu parecer interessado, fazer perguntas adequadas sobre as sociedades de beneficência a que ela prestigiava
ou o tempo que fazia em Palm Beach. Os seus olhos varriam continuamente a comprida mesa, ao encontro de Maggie. Ela estava entre um neuro-cirurgião e um corrector
da Bolsa. Robin invejava-lhe o à vontade e perguntava a si mesmo o que estaria ela a dizer aos dois.
Mais tarde, já nohall do hotel, ele agradeceu-lhe por "tê-lo ajudado" e reparou que todos os homens se viravam para a olharem. Porque não? Ela era mais bonita
do que qualquer artista de cinema. De repente, ele perguntou-lhe:
- Que tal uma bebida? Acho que mereces uma.
- Suponho que estás abstémio; reparei que não bebeste, em casa dos Austin. Será que tens medo de beber vinho, quando estás comigo? - Os olhos verdes contemplavam-no
com expressão trocista.
Ele pegou-lhe no braço e levou-a para o Oak Room. Fez sinal ao empregado.
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- A senhora vai tomar um uísque. Eu quero um vodka
duplo- Não precisas de provar nada - disse ela. - Conheço as tuas fraquezas.
- Beber não é uma delas - retorquiu ele, secamente.
- Oh, eu estava a começar a pensar que também tinhas perdido esse talento.
Ele esperou que o empregado trouxesse as bebidas. Depois estendeu o braço e agarrou-lhe a mão.
- Queria que fôssemos amigos.
Ela não retirou a mão, e os olhos de ambos encontraram-se.
- Nunca poderemos ser amigos, Robin.
- Ainda me odeias?
- Bem gostaria. Meu Deus, bem gostaria...
Ele soltou-lhe abruptatamente a mão e bebeu o vodka de um só trago. Depois, fez sinal para que lhe trouxessem a conta.
- Tenho uma onda de trabalho à à espera - disse, enquanto pagava.
- Não precisas de mentir - disse ela. - Até agora não mentiste. Porquê começar?
- Não, é verdade. Estou a fazer serão, escrevendo um livro. Prometi a mim mesmo escrever cinco páginas todas as noites, qualquer que seja a hora a que eu chegue
a casa.
Ela olhou para ele com interesse.
- É essa a tua ambição secreta?
- Tento dizer que não é?
De repente, ele sentiu-se muito cansado.
- Maggie, eu não sei o que quero ou o que não quero. A expressão dela suavizou-se.
- Não te sentes feliz, Robin?
- Quem disse isso?
- Quem não sabe o que quer é porque tem medo de descobrir. Não há nada mais simples. A menos que tenha medo dos seus próprios pensamentos.
- Obrigado, doutora, voltarei a telefonar-lhe quando
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precisar da senhora. - Levantou-se e ajudou-a a vestir o casaco de peles.
Maggie entrou no quarto e atirou o casaco em cima da cama, furiosa. Logo agora, que tudo ia tão bem! Franziu a testa. Para quê, enganar-se a si própria? Nada ia
bem, a não ser na sua cabeça. E ela ia expulsar essas ideias rapidamente. Ele tinha-a convidado a ir ao jantar dos Austins e ela ficara logo esperançada. Não percebera
que ele só a tinha convidado porque precisava de um par. Bem, ela tinha o fim-de-semana pela frente e não ia ficar à espera que ele telefonasse! Acordaria cedo,
iria ao teatro à tarde, ao cinema à noite. Não estaria no hotel, se ele chamasse. E, na segunda-feira, quando entrasse no escritório dele, fingiria mal o conhecer.
Tomou uma pílula para dormir, pendurou um cartaz de NÃO INCOMODE na porta e pediu que acordassem às dez da manhã.
Parecia que só tinha dormido alguns minutos, quando o telefone tocou. Tentou alcançar o auscultador, mas o soporífero tornara-lhe o braço tão pesado como a cabeça.
Ao segundo toque conseguiu atender, com grande esforço. A voz impessoal da telefonista chegou até ela:
- Sei que a senhora tem um cartaz a pedir para não incomodar, mas chegou um telegrama urgente.
Maggie sentou-se na cama e acendeu a luz. Eram apenas sete e quinze.
- Pode mandá-lo - murmurou. Saiu da cama e vestiu um roupão. Ainda dormia sem roupa; nem o tempo frio conseguira alterar-lhe o hábito.
Assinou o telegrama. De repente, sentiu-se apreensiva, quem lhe teria mandado um telegrama? Quem estaria doente, o pai ou a mãe? Abriu. Leu-o e releu-o, incrédula:
STELLA LEIGH GRÁVIDA. URGENTE SUBSTITUÍ-LA. CONVENCI CENTURY PICTURES USÁ-LA. HÁ SEIS HORAS TENTANDO TELEFONAR EM VÃO. TELEFONE IMEDIATAMENTE. HY MANOEL.
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Pediu a ligação para Hy Mandei e mandou pô-la na conta do hotel. Robin Stone e a IBC que a pagassem! Ouviu a voz de j-ly, a atender. Pobre Hy; em Los Angeles eram
apenas cinco da manhã. Bem, ele tinha pedido para ela telefonar imediatamente.
- Maggie! - Ele acordou logo. Quando pode vir?
- Calma - disse ela. - Qual é o papel? Quanto vou receber?
- Qual é o papel? Stella Leigh aceita papéis secundários? É o principal papel feminino, ao lado de Alfie Knight. Há uma semana que Stella não comparece. Pensava
que estava com alguma virose, a vomitar durante todo o tempo. A parva nem desconfiava que estava grávida. Agora, oiça, a Century está com as filmagens muito atrasadas.
Consegui que eles lhe dessem vinte mil pelo papel, mais uma opção para fazer outro filme, em termos a serem discutidos. Também te vão pagar a estadia
numa suite do Beverley Hills Hotel.
- Oh, Hy, como conseguiu isso?
- Para lhe dizer a verdade, eu já tinha quase desistido. Você e o seu preconceito contra o teste cinematográfico! Enchi os ouvidos de toda a gente a falar de si
na peça de O'Neill, mas ninguém me dava atenção. Ontem, quando soubemos que Stella estava grávida, tentei de novo. Francamente, não pensei que tivéssemos possibilidade,
mas o realizador ficou entusiasmado e disse que era exactamente o que queria, uma cara nova.
- Quem é ele? Como é que ele sabe quem eu sou?
- Eu não espalhei a sua cara por toda a Hollywood?
- Oh, Hy, espero não desapontá-lo.
- Não vai desapontá-lo, não. Oiça: na peça de O'Neill saí-se bem, não por ser uma grande actriz dramática, que isso não é, mas por ter personalidade, vibração,
justamente o que uma estrela precisa. Lembro-me de quando Ava Gardner chegou aqui. Era quase uma menina, mas tinha a mesma qualidade indefinível que você tem.
Faz-me lembrar a Ava. Foi o que eu disse ao realizador.
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- Caramba - riu ela. - O pobre homem vai mesmo ficar desapontado!
- Não, espere só até ele a conhecer. É o realizador mais falado da actualidade. Acabou de fazer um filme de sucesso e a Century contratou-o logo para dirigir Alfie.
Chama-se Adam Bergman.
- Adam?
- Conhece-o?
- Trabalhei com ele uma vez, há muito tempo, num grupo de teatro amador. Oh, Hy, estou tão entusiasmada!
- Pode chegar esta noite mesmo? Teria todo o domingo para ler oscript e preparar-se. Segunda-feira querem que faça os testes de guarda-roupa e maquilhagem. vou
fazer-lhe
já a reserva no hotel.
- Óptimo! vou fazer as malas.
- Muito bem. Mal tenha a passagem, telegrafe-me a dizer o voo e a hora de chegada. Estarei à sua espera no aeroporto.
Maggie desligou e tentou disciplinar os pensamentos. Estava fora de si de contente. Ia voltar a ver Adam! Era maravilhoso! Mas mais maravilhoso ainda era pôr a
andar
o sr. Robin Stone.
Robin voltou para o escritório após ter visto a gravação dos discos. Quanto mais pensava no programa mais se convencia de que deveria estrear em Setembro e ser
o
primeiro de uma série nova. Podia transformá-lo num acontecimento, num happening. Isso mesmo! Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. Happening,
pronto,
já tinha o título! Se pudesse convencer Gregory. Mas precisava de outras ideias para happenings, não podia apresentar-lhe uma. Pensou em Christie Lane: que espécie
de reacção química o tinha transformado, da noite para o dia, num ídolo nacional? Porque não fora ele um ídolo cinco anos antes, quando cantava os mesmos números
em clubesnocturnos? Daria um grande programa. O Happening <k Christie Lane. Entrevistaria proprietários de nightclubs onde ele tinha cantado, quando ainda era
desconhecido,
entrevistaria os seus "acólitos", a família de Christie - ele tinha que ter
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família - entrevistaria até aquela horrível Ethel Evans, com quem ele andava. E devia haver muita gente interessante no seu passado.
Pôs o seu plano em acção fazendo uma visita não oficial a Gregory Austin, na manhã seguinte.
- Robin, sem dar por isso, trouxe-nos exactamente o que estávamos a precisar! -exclamou Gregory, entusiasmado. Estamos a ter uma dificuldade tremenda para convencer
Christie a assinar um novo contrato. Ele está a fazer-se rogado mas, se lhe dissermos que vamos fazer um programa de uma hora especialmente dedicado a ele, bem,
Robin, eu acho que estacou, à procura de adjectivos. - Não diga uma palavra a ninguém sobre isto. Sobretudo, não diga nada a Dan. Eu mesmo vou falar com Christie.
Naturalmente, você não se incomodará se eu fingir que a ideia é minha. Amanhã, ao almoço vou expô-la. vou convidar o pobre-diabo e os seus advogados a almoçar
comigo e com os meus advogados na minha sala de jantar. Direi a eles que nenhuma rede de televisão fez isto, um programa especial a focar um astro e a verdade
é que não! Inauguraremos a série deHappenings com ele e depois continuaremos com os discos.
Três dias mais tarde, as revistas especializadas publicavam a notícia de que Christie Lane assinara um novo contrato de cinco anos com a IBC. No dia seguinte,
Gregory mandou chamar Robin e Danton Miller e expôs-lhe a ideia que tivera para o primeiro Happening.
Dan ouviu com atenção. Robin observava-lhe as reacções. Tinha a certeza que Dan se lembrava que fora ele quem sugerira um programa sobre Christie Lane, para a
nova série. Mas Gregory estava a falar como se a ideia lhe tivesse ocorrido alguns dias antes. Dan não era parvo, Robin sabia-o bem, mas tinha de fingir que acreditava:
sorriu e balançou a cabeça, em sinal de aprovação. Depois, franziu ligeiramente a testa, como se tivesse deparado com um obstáculo.
- Acho a ideia brilhante, Gregory, principalmente porque obrigou Christie a renovar o contrato connosco. Mas não
353
sei se Robin é a pessoa indicada para apresentar o programa. Não estou a querer ofendê-lo, Robin, apenas a sua imagem não se presta a divulgar a vida de um homem
como Christie Lane. Precisamos de um astro famoso para apresentá-lo, um Danny Thomas ou um Red Skelton. Alguém que tenha empatia com ele.
Gregory ficou sem saber o que dizer. Talvez ele tivesse razão. O sorriso de Dan era agora vitorioso. Robin inclinou-se para a frente. A sua expressão era calma
e a sua voz tranquila.
- Pois eu não concordo.
O sorriso de Dan permaneceu. A voz tornou-se paternal.
- Desculpe mas, como Director denetwork, sei mais o que público gosta do que um repórter que passa metade do ano na Europa.
Robin não sorriu.
- Concordo que perceba de programação mas acho que não percebe absolutamente nada de natureza humana. Ponha um astro ao lado de Christie Lane e automaticamente
tirará força ao programa. Fica a ser um programa de Danny Thomas ou Red Skelton, tendo como artista convidado Christie Lane. Não, o programa tem de ser dele, sobre
ele, sem ninguém para ofuscá-lo.
Gregory levantou-se.
- Ele tem razão, Dan! Pondo-se outro astro como apresentador, fica um programa de variedades como outro qualquer. E quero que este seja o primeiro de uma série
de programas que Robin vai fazer.
Dan fez que sim e virou-se para Robin.
- Passe por alto o lado romântico - avisou.
- O público gosta de romance - respondeu Robin.
- Sim, mas o romance dele não é muito edificante objectou Dan.
- Isso ainda lhe dá mais interesse - insistiu Robin.
- Nada de romance! - disse Dan. - Além do mais, o público não está interessado na vida sentimental de Christie.
Gregory interrompeu.
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- Está enganado outra vez, Dan. Christie tem que ter uma mulher na sua vida. Pessoalmente, desconfio sempre de
um homem que já passou dos quarenta e nunca se casou.
com Christie é compreensível, ele viveu sempre como nómada. Mas precisamos de focar o ângulo romântico. Quem é a rapariga e que há de errado com ela?
- O nome dela é Ethel Evans - informou Dan. Trabalhou connosco, no Departamento de Publicidade. É pouco menos do que uma call-girl.
- Não podemos arranjar outra rapariga? - perguntou Gregory. - Porque não uma porção delas? Podem-se contratar belos modelos, ligá-lo a várias.
Ethel não toleraria isso - disse Dan. E não se pode deixá-la de lado. O público leu demais acerca dela.
- Que é que ela faz, além de andar com ele? - perguntou Gregory.
Dan riu.
- Por incrível que pareça, trabalha para ele, como contacto com a imprensa!
- Óptimo! - interrompeu Robin. - Apresentamo-la como o seu contacto, no programa. Todos os astros têm o seu contacto. .
Dan aquiesceu.
- Sim, é uma solução. Não podemos fingir que ela não existe; o público está farto de a ver ao lado dele nas revistas.
Robin riu.
- Então, está resolvido. O seu problema é fazer com que Christie Lane concorde.
Dan soltou uma gargalhada perigosa.
- Ora, ele concorda. O pior vai ser ela concordar!

Capítulo vigésimo segundo

A presença de Danton Miller no Hotel Astor parecia realçar a miséria do apartamento. Ethel olhou para uma mancha no tapete e ficou a pensar porque seria que Christie
se hospedava sempre nassuites mais miseráveis. Provavelmente, porque pedia sempre a mais barata. Lá estava Dan, elegante, a destoar do conjunto, sentado numa poltrona
desbotada. E Christie a fumar tranquilamente o seu charuto, nem reparara na cara de Dan, ao entrar no apartamento. Ethel, em compensação, estava num enorme estado
de tensão. Ficara logo desconfiada, quando Dan telefonara, anunciando que ia passar pelo hotel, a fim de conversarem sobre o programa especial. Dan não era do
tipo de "passar" por nenhum lugar. E que diabo de conversa seria? Toda a vida de Christie ia ser focada: os seus amigos, as pessoas que conhecera, a luta para
subir! Havia duas semanas que ela não ouvia falar noutra coisa. Christie dava a impressão que ia ser imortalizado. Mas ela compreendia o seu entusiasmo. Como astro
do The Christie Lane Show, ele cantava, faziasketches, apresentava artistas convidados. Mas oHappening ia ser sobre ele. Todos falariam sobre ele, apenas sobre
ele! Os "acólitos" já estavam até a reclamar uma novasuite, Agnes não parava de fazer alusões. Não, ela não esperava entrar no programa, dizia, "mas, quando todas
as minhas amigas troçam de mim, por andar sempre atrás de vocês, digo que prefiro ter uma pequenina parte na vida de Christie a ser a estrela da vida de qualquer
outro". Christie ainda não cedera, mas Ethel sentia que não demoraria. A pouco e pouco a própria Ethel ia-se deixando envolver pelo entusiasmo geral. Começara
uma dieta rígida e
comprara dois vestidos para usar no programa. Mas o impacto da sua importância no programa só lhe ocorreu quando Danton Miller resolveu "passar" pelo hotel.
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Ethel ficou calada, a ouvir Dan falar sobre o programa especial. Para o seu espanto, ele parecia tão entusiasmado
como Christie. Tudo o que ele dizia aguçava o
apetite de Christie, alimentava-lhe a vaidade. À medida que falava, o Happeninp sobre Christie ia tomando as proporções de um acontecimento inesquecível. Apostava
em como ia ganhar o Emmy. Mas, quando chegou à "mecânica", as suspeitas de Ethel confirmaram-se. Toda aquela conversa era para adormecer. O objectivo de Dan era
passá-la para trás, atirar uma cortina de fumo sobre o verdadeiro papel que ela desempenhava na vida de Christie. Era incrível! Como quem não quer a coisa, Dan
explicava que iam contratar modelos lindíssimos para aparecerem no programa como namoradas de Christie. Havia também uma debutante que já concordara em comparecer
à inauguração do Aqueduct com ele. E fotografariam Christie a visitar as cavalariças do pai dela.
- Dá outra impressão de si - dizia Dan. - Christie Lane não é apenas o astro querido por toda a família: as mais lindas mulheres são atraídas por ele, as debutantes
adoram-no. Conseguimos até uma poetisa e vamos mostrar os dois a percorrer uma livraria. Christie Lane também percebe de literatura! Naturalmente, Ethel vai desempenhar
um papel importante no programa. Vamos mostrá-la a abrir a sua correspondência, ao telefone, anotando os seus compromissos...
Ethel colou os olhos numa mancha de sol que avançava pelo tapete desbotado. Aquilo era o cúmulo da humilhação, nivelá-laaos "acólitos". Mas, pensando bem, que
mais era ela? Eles prestavam serviços a Christie e ela também, mas na cama. Até ganhavam a mesma coisa. Pela primeira vez na vida, ela sentiu-se derrotada. Não
tinha nem sequer vontade de lutar. Talvez fosse a atitude superior de Dan, talvez fosse asuite, mas de repente ela sentiu-se tão miserável como as cortinas sujas
que pendiam, desgraciosamente, das janelas encardidas. De repente, viu-se como Danton Miller devia vê-la e sentiu vontade de fugir! Deus, que acontecera com a
pequena e gorducha Ethel Evanski, que se sentava na soleira da porta, em Harntrarnck,
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e passava horas a sonhar? Como se transformara em Ethel Evans, que se sentava num apartamento cheio de fumo do Astor e ouvia Danton Miller arranjar uma
maneira diplomática de a excluir da vida de Christie? Como é que ela chegara àquele ponto? Só quisera ser alguém, seria isso pecado? Tinha vontade de romper em
pranto, de se atirar sobre Danton Miller, de lhe arrancar, com as unhas, aquele sorriso condescendente do rosto .. .Como podia estar ele ali sentado, com um ar
tão impecável
e imaculado? Quem era ele, para insinuar que ela não era suficientemente boa para aparecer como namorada de Christie? Dan tinha dormido com ela. Porque razão isso
não o sujara, nem ao diabo do seu fato preto? Mas continuou calada, porque tudo o que Dan dizia, fazia sentido. com os modelos, a debutante e a poetisa, o programa
ia ser melhor. E para Christie, o programa era o que importava. Era algo contra o qual ela não podia fazer nada. Embora parecesse estranho, ela não se incomodava
com
o que os outros pudessem pensar. Todos veriam que aquilo era uma farsa. Mas, pela primeira vez, ela pensava nos pais e até mesmo em Helga. Aos olhos deles, ela
estava
noiva de Christie Lane. Que iriam pensar, quando viessem Christie rodeado de mulheres sedutoras e a gorducha Ethel Evanski sentada ao lado com os empregados? Colou
os olhos à mancha de sol. Não tinha coragem de olhar para cima. Sentia um nó na garganta, estava a ponto de chorar. Os olhos sem brilho de Christie estavam pensativos.
Dan continuava a expor a sua ideia com vista a um final brilhante. Quando terminou, disse:
- Então, Christie, que acha?
Christie mordeu um pedaço de charuto e cuspiu-o no chão.
- Acho que tudo isso cheira mal. Ethel olhou para ele. Dan ficou sem fala.
- Que história é essa de eu aparecer ao lado de uma debutante ou de uma poetisa? Todos sabem que eu só ando com Ethel.
Ethel abriu a boca de espanto. Aquele pobre diabo estava a Jutar por ela!
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Dan encolheu os ombros.
- Sei disso. Mas pensámos um bocado sobre esse programa e a conclusão foi unânime: acham que ficará mais interessante, se aparecer com muitas mulheres, em vez
de só
Com uma.
- Vamos fazer um programa sedutor ou um programa especial sobre Christie Lane? - perguntou ele.
- É melhor se pudermos combinar as duas coisas.
- O meu programa está entre os cinco mais cotados, não é? E não é por causa de nenhum modelo, nem de nenhuma debutante. É graças a mim!
Dan aquiesceu.
- Mas, Christie, não podemos esquecer de que tem alguns convidados no seu programa, raparigas bonitas para propaganda e, de vez em quando, uma cantora famosa para
fazer um dueto consigo.
- Porque não pôr Ethel ao meu lado? - A voz de Christie era dura.
- Ethel é muito simpática - apressou-se a dizer Dan. A sério, Ethel, estás com óptimo aspecto. - O sorriso dele era condescendente. Ela respondeu-lhe com um olhar
perverso.
Christie não percebeu.
- E então? - perguntou.
- Temos medo das revistas de escândalos. Até agora temos tido sorte. Mas basta uma delas começar a falar sobre o passado de Ethel, para todas elas se assanharem.
- Processo-as - disse Christie. -.Há mais de um ano que ela só anda comigo. Posso prová-lo.
- Apenas provaria a favor delas. Sim, Ethel só tem andado consigo... ou melhor, vivido consigo! É por isso que nós pensamos em mostrá-la como sua secretária. Assim
se explicaria o facto de ela andar tanto consigo.
- Um momento! - interrompeu Christie. - Quem diabo é nós?
Dan puxou da cigarreira.
- vou explicar-lhe Christie. Robin Stone também participa
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deste programa. Se as revistas de escândalos o atacassem, logo no primeiro programa, por causa de Ethel, ele poderia perder o patrocinador para toda a série.
Tem de se lembrar que há um mundo inteiro fora de Nova Iorque, Chicago e Los Angeles; um mundo onde as pessoas vão à igreja todos os domingos, casam-se e comemoram
as bodas de ouro. Essas pessoas adoram-no. Você entra-lhes pelas salas a dentro. Não pode dizer-lhes: "Esta é a rapariga com quem eu vivo; aceitem-na se quiserem".
- Dan tirou partido do silêncio de Christie e continuou, com renovada ênfase: - Não interessa por onde encare as coisas, Christie, o resultado é sempre o mesmo:
não pode correr o risco de apresentar Ethel como a sua namorada, no programa.
- Muito bem, não vou apresentá-la como minha namorada - disse Christie calmamente. - vou apresentá-la como minha esposa.
A cara de Dan mudou de cor. Abriu a boca mas não conseguiu dizer nada. Ethel inclinou-se para a frente; aquilo só podia ser uma armadilha! Christie balançou a
cabeça, como se quisesse reafirmar a sua decisão a si próprio.
- Sim, como ouviu, vou casar-me com Ethel.
Dan conseguira recuperar-se do choque inicial e retomar o riso felino. Christie recostou-se na poltrona, como se o assunto estivesse encerrado, mas Ethel sentia
que a luta apenas começara. Dan estava a juntar forças, a preparar outro ataque. E o ataque não demorou muito.
- É engraçado - disse, com voz quase melancólica. Pensava que você fosse um grande romântico.
- O quê? - perguntou Christie.
- Um homem capaz de amar apenas uma mulher em toda a sua vida. Tinha a certeza que o seu romance com Amanda era desse tipo. Na noite em que ela morreu, até tive
medo que cancelasse o programa. Mas você é mesmo um profissional. Sabia o que estava a sentir, mas compreendeu que a vida tem de continuar. Quando um homem perde
a única coisa que lhe mteressa, é vulgar procurar um substituto... uma pessoa que o
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faça esquecer temporariamente.
Pela primeira vez, Ethel compreendeu porque havia pessoas a quem a fúria cegava ao ponto de se tornarem
assassinas. Sentia vontade de se atirar ao pescoço de Dan.
Mas não estava em condições de dar vazão à sua fúria. Fincou as unhas nos braços do sofá e, procurando controlar-se, disse, numa voz tão cautelosa como a de Dan:
- Parece esquecer-se, meu caro Danton, que Amanda abandonara Chris para casar com Ike Ryan. Quando ela morreu, era a sr.a Ryan e não a pequena de Christie.
Dan respondeu num tom conciliatório:
- Ah, mas os maiores amantes são os que perdem e continuam a amar. Para mim, Christie Lane é desse tipo.
Christie pôs-se de pé num salto.
- Que história é essa? Para mim, isso não é ser um grande amante, mas sim um grande parvo! Um parvo que fica a chorar por uma mulher que o deixou! Nada disso,
Danny, está enganado comigo. Christie Lane lutou muito para vencer... nenhuma loira me estragará a vida. - Aproximou-se de Ethel e pegou-lhe na mão. - Veja bem,
sr. Miller, esta é que é uma mulher. Uma mulher e tanto. Depois de sair alguns dias com ela, até esqueci que tinha conhecido Amanda.
Dan fez um sorriso triste.
- Ainda há pouco estive a reler a reportagem da Life e fiquei emocionado. Principalmente quando você dizia que Amanda era a única mulher com quem pensara casar.
A mulher com quem queria ter um filho. - Suspirou. - É realmente uma pena, o romance com Amanda ia ser parte importante do seu programa especial.
- Que é que Amanda tem a ver com isso? - perguntou Christie.
Dan respondeu numa voz baixa e intensa:
- íamos fazer ampliações das fotos que vocês tiraram para a Life. Exibiríamos o tape de Amanda a fazer o anúncio, e do grande momento em que você cantava "Mandy"
para ela. Lembra-se? Fomos aos bastidores e tirámos um close do rosto
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dela, a ouvi-lo cantar - Dan abanou a cabeça, tristemente.
Toda a gente choraria. Todos os jornais do país escreveriam
a respeito do programa especial com o romance de amor do século. Amanda, a única mulher na vida de Christie. Quando ela casou com outro, ele não lhe quis mal.
Mas, quando ela morreu, um pouco dele morreu também. O público vai ficar louco. Isso explica os modelos, a debutante, porque, depois de Amanda, não pode haver
uma única mulher na vida de Christie Lane: ele tem que sair com muitas, para tentar esquecer. Quando estiver a cantar, a voz do locutor dirá "As mulheres gostam
de ouvir Christie cantar; mas Christie dedicará sempre as suas canções de amor a uma mulher que nunca mais as ouvirá." Então, mostrá-lo-emos a circular, tentando
esquecer. Christie, o público adora pessoas capazes de amar; até vão esquecer que ela casou com Ike Ryan. No fim de contas só estiveram casados alguns meses.
Diga-me, quantas mulheres
se lembra, de andarem com Sinatra? Foram muitas, mas os admiradores pensam que ele só canta para Ava Gardner. As letras das canções adquiriram significado; todos
adoram uma pessoa apaixonada, principalmente quando canta um amor perdido. Podemos dizer que Ethel Evans é a sua maior amiga, que ela também gostava de Amanda:
eram
amigas e trabalhavam juntas no programa, de modo que ela compreende o que você passou. Está a perceber, Christie?
- Você devia escrever histórias para filmes, Dan - A voz dele endureceu. - Que programa de merda está a querer que eu faça? É isso que vai ser o Christie Lane
Happening? A história de um tipo que subiu, trabalhando duramente, que era ainda praticamente desconhecido quando fez quarenta anos? Ninguém dava nada por ele
e, dois anos depois, tornou-se um sucesso! Essa é a sua história. Ei-la! Se um dia eu precisar de remexer nos ossos de uma moça que morreu para ter um programa,
então é melhor aposentar-me! O meu programa vai ser sobre a minha vida. E nem você, nem o senhor Robin Stone vão dizer-me o que eu sou. Eu sou eu! Está a perceber?
Eu! E vou casar-me com a única mulher que amo: Ethel Evans!
363
Dan dirigiu-se para a porta:
- Sinto muito. Talvez tenha levado a reportagem daLife demasiado a sério: toda aquela conversa de como queria ter um filho com Amanda, para que ele se parecesse
com ela, etc..
- É isso mesmo! - berrou Christie. - É lógico que eu quero ter um filho. Quero dar-lhe tudo o que eu nunca tive. EU e Ethel vamos ter um rapagão.
Dan fez uma reverência.
- Posso desejar-lhes felicidades? Christie, depois de o ouvir falar, mudei de ideias. Penso que você e Ethel... bem, quase se poderia dizer que nasceram um para
o outro. - E saiu.
Christie ficou a olhar para a porta. Depois, deu meia volta e encaminhou-se para o quarto. Sem olhar para Ethel, disse:
- Telefona a Lou Goldberg. Diz-lhe para vir a Nova Iorque. Liga para o Kenny e para o Eddie. Diz-lhes que vamos tratar dos exames de sangue e de toda essa estopada.
Telefona para o prefeito. Vê se ele nos pode casar. - E fechou a porta do quarto.
Ethel ficou sentada no sofá. Não podia acreditar que ele estivesse a falar a sério. Ela ia ser a sr.a Christie Lane! Viu Christie sair do quarto, com o sobretudo
no braço.
- Então, que estás a fazer aí, sentada? - perguntou. Não te queres casar? - Vendo-a fazer que sim com a cabeça, ele estalou os dedos. - Então, mexe-te.
Ela pulou do sofá e atirou-se para os seus braços.
- Oh, Christie. - As suas lágrimas eram verdadeiras. Estás a falar a sério?
Ele ficou encabulado.
- É lógico que estou. Agora, trata de fazer os telefonemas. - E dirigiu-se para a porta.
- Onde vais?
Ele não respondeu logo. Depois, com um sorriso pálido, disse:
- vou comprar as alianças.
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Assim que Christie saiu do Astor, encaminhou-se para a R.ua Quarenta e Sete, para o quarteirão dos joalheiros. Conhecia vários tipos lá: os Edelmans arranjavam-lhe
sempre pechinchas, quando ele procurava botões de ouro para dar aos
argumentistas e à equipa do seu programa, no Natal. Viu-os através da vitrina. Acenou-lhes
com a mão e perguntou a si mesmo porque não tinha entrado. Mas continuou a caminhar. Quando deu por si, estava a dirigir-se para a Quinta Avenida. Estugou o passo,
ao aperceber-se, lentamente, para onde o seu subconsciente o levava. Começou a correr. Ao chegar à Rua Cinquenta, ofegava. Hesitou um momento e depois subiu devagar
a escadaria de pedra da Catedral São Patrício.
Christie nascera de família católica. Aceitava esse facto da mesma maneira como uma pessoa aceita a cor da sua pele. Não praticava a religião, não se lembrava
nem do catecismo, embora o soubesse de cor ao fazer a primeira comunhão. com o divórcio dos pais, a sua educação religiosa terminara de um momento para o outro.
A sua mãe voltara a casar: o tipo era baptista e o seu meio-irmão tinha sido criado nessa religião. Ou fora metodista? Christie não se entendera com o padrasto
e tinha saído de casa aos catorze anos. De repente, na suave escuridão da Catedral de São Patrício, todos os rituais esquecidos lhe voltaram lentamente à lembrança.
Inconscientemente mergulhou os dedos na água benta e fez o sinal da cruz. Passou por fileiras e fileiras de velas acesas e olhou para as Estações da Cruz. Viu
uma mulher entrar num dos confessionários. Subitamente, sentiu o desejo imperioso de se confessar. Aproximou-se nervosamente de um confessionário, mas logo parou.
Havia tanto tempo! A última vez que se confessara, tinha catorze anos, após a sua primeira experiência carnal. Esperara que o facto de se confessar o impedisse
de apanhar uma doença. Só tinha reparado no tipo da mulher, depois do acto consumado. Também, o que se podia esperar apenas por cinquenta cents? Uma mulher dirigiu-se
para os bancos, depois de sair do confessionário. Christie viu-a ajoelhar-se e pegar no rosário. Os seus olhos fecharam-se, os seus lábios moviam-se a
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cada conta que passava. Tudo o que ele tinha a fazer era entrar no confessionário, ajoelhar-se e dizer: "Perdão, padre, para os meus pecados". Entrou no confessionário,
ajoelhou-se e murmurou:
- Perdão, padre para os meus pecados.
- Sim, meu filho?
Distinguiu a silhueta do padre atrás do confessionário.
- Cometi muitos pecados mortais - começou ele. - Vivi com uma mulher que não era minha esposa. Usei o nome do Senhor em vão.
- E pretende regenerar-se?
- Sim, padre. vou casar com essa mulher, vou ter um filho e vou... - Estacou. Queria dizer: "vou amá-la e honrá-la", mas as palavras não lhe saíam da garganta.
Levantou-se de um pulo e saiu a correr do confessionário. Dirigiu-se para a frente da igreja. Tinha de haver uma saída. O seu olhar percorreu a parede, onde fileiras
e fileiras de velas acesas bruxuleavam na penumbra. Vários fiéis estavam ajoelhados diante da Virgem. Andou até aos fundos da Catedral. Sob cada imagem havia
círios acesos. Parecia um mar de luzes, representando cada chama uma oração. De repente, passou por um altar escurecido. Levou um momento para perceber que apenas
uma vela brilhava, uma apenas no meio de duas fileiras de velas por acender. Brilhava desafiadora, e orgulhosa na sua patética solidão. Não era justo: só aquele
santo é que estava apagado. Olhou para a placa. Santo André.
Olhou em redor, para ter a certeza de que ninguém estava a ver e depois ajoelhou-se. Os degraus de pedra eram duros. Colocou a cabeça entre as mãos e olhou para
o santo.
- Ouve, André, meu caro, vê-se que não tens muito que fazer senão escutar-me. Essa vela que tens aí está quase a apagar-se, por isso verás que estavas mesmo à
minha espera. Levantou-se. Estaria a ficar louco? Falava para uma estátua, como se fosse para alguém... Além disso essa história de santos não existia. Eram só
um grupo
de malucos que morriam por uma causa maluca. E que importância tinha tudo isso? Tinham
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morrido, tinham-se tornado pó e as pessoas continuavam a pecar, a lutar e a morrer. Como Amanda. Amanda... As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Escondeu o rosto nas
mãos e soluçou. - Oh, Mandy - murmurou - tudo o que eu disse era mentira. Meu Deus, se o céu existe na verdade e Tu me ouves, diz-lhe que era mentira. Mandy, ouves-me,
boneca? Nuncaamei, senão a ti. E nunca amarei. Nem me importa que não me amasses. Amei-te e isso é que conta. Talvez seja por isso que vou casar com Ethel. Amava-te
e casaste com outro, e sofri como os diabos. Acho que me lembrei disso hoje e de repente pensei: para que vou fazer sofrer Ethel? Ela ama-me. Porque não procurar
fazê-la feliz? Como vês, boneca, indirectamente és a razão porque Ethel vai ser feliz. E quando eu tiver o meu filho, também serei feliz. Porque tem de ser assim,
Mandy? Porque me ama Ethel e eu te amava e, merda, desculpa boneca, porque é que as pessoas não podem amar juntas? Mas eu vou dar tudo ao meu filho... E escuta,
Mandy, talvez quando eu sair daqui, eu ache que estou a ficar louco, mas agora, neste momento, acho que estás a ouvir-me. E acho que Santo André está a teu lado
e que talvez haja qualquer coisa depois da morte. Não vou começar a ir à missa, mas digo-te uma coisa: vou educar o meu filho como católico e nunca direi uma
palavra feia diante dele. E, boneca, não vou deixar de te amar. Sei que sabes disso, não sabes, Mandy? Não estás debaixo da terra, dentro de um caixão. Estás lá
em cima, num lugar qualquer, e és feliz. Sei que estás. Meu Deus, eu sei que estás! - Fez uma pausa e, por um momento, viu o rosto dela perto do dele, a sorrir.
Sorriu também. - Está bem, boneca, toma conta de ti aí em cima. Talvez, se houver mesmo outra vida, nos encontremos. Fechou os olhos. - Santo André, ajuda-me a
ser um bom pai. E dá-me um filho saudável. - Levantou-se, mas voltou a ajoelhar-se. - A propósito, agradece ao Chefe aí em cima pela sorte que Ele me tem dado.
E reza por mim, está bem?
Levantou-se e enfiou uma moeda na caixa de esmolas. Depois, pegou numa vela e acendeu-a. Agora, havia duas velas acesas. Mas, por mais estranho que parecesse,
a vela que ele
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acendera parecia realçar ainda mais as velas por acender. Christie olhou para a imagem de Santo André.
- Eu sei o que estás a sentir, como eu quando cantava em boites vazias, só para duas mesas, até quase ficar cego. - Tirou da carteira um dólar, pô-lo na caixa
das
esmolas e acendeu mais quatro velas. Ainda era pouco, comparado com os outros santos. Christie encolheu os ombros. - Que diabo, não vou ser miserável. - Puxou
uma nota de vinte dólares e enfiou-a na caixa. Depois acendeu cuidadosamente todas as velas. Recuou e depois contemplou orgulhosamente o efeito. -André, meu velho,
quando os padres vierem logo à noite vão ficar de boca aberta: vais ser o santo mais cotado! - Voltou ao quarteirão dos joalheiros e comprou duas alianças.
O casamento recebeu uma enorme cobertura da imprensa e da televisão. Até mesmo os acontecimentos anteriores à cerimónia deram grandes cabeçalhos. Lou Goldberg
alugou o segundo andar do Danny's e deu uma grande festa de "despedida de solteiro" a Christie. Tudo o que era actor que estava em Nova Iorque, compareceu. Os
colunistas publicaram algumas das piadas contadas durante o jantar, os cómicos da televisão fizeram piadas bem-humoradas a seu respeito. Mas ninguém contou uma
única piada a respeito de Ethel. Toda a gente sentia que a menor brincadeira poderia fazer explodir a tampa da panela de pressão que continha o passado da noiva.
Apesar disso, Ethel teve os seus maus momentos. O primeiro foi a chegada do pai e da mãe, uma semana antes do casamento. Christie reservou um quarto de casal no
Astor. Ethel não discutiu. Os seus pais nunca tinham estado num hotel e provavelmente não saberiam o que fazer numa suite. Ela até teve de dizer à mãe para nao
fazer as camas. Ficara espantada ao ir esperá-los, na Estação Penn. (Claro que eles não tinham querido vir de avião! A ideia de irem a Nova Iorque já era assustadora!)
Custara-lhe a acreditar que aquelas duas pessoas minúsculas eram os seus pais. Teriam encolhido?
Ficaram impressionados com o Astor, sem fala ao serem apresentados a Christie e fascinados e, simultaneamente, apavorados
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com a cidade em si. Fizeram questão em que ela os levasse ao alto do Empire State Building (Ethel nunca tinha ido lá)- Depois fora o passeio de barco à volta
de Nova Iorque. E tinham de ver a Estátua da Liberdade. A seguir, na lista - claro que tinham trazido uma lista; todo o Hamtramck colaborara nela - vinha a Radio
City. O filme era bom, mas ter que aguentar o espectáculo! Eles adoraram. Ethel ficou aliviada quando os "acólitos" se encarregaram de levar os velhos a visitar
o Túmulo de Grant, a passear de carruagem pelo Central Park e atravessar a Ponte George Washington. Ela ficou-lhes muito grata, até que, de repente, deu-se conta
de como seria, quando ela fosse a sr.aChristie Lane: eles passariam a ser seus "acólitos" também. Entretanto, ela aproveitava os serviços deles para correr as
lojas,
à procura de um vestido de noiva adequado. Era uma loucura aquela súbita decisão de Christie, de se casarem na igreja. Mas era também um bom sinal, sinal de que
ele queria que a coisa durasse. Quanto a ela, tanto se lhe dava, desde que o casamento fosse legal. Falara com o padre Kelly. Não, ela não precisava de converter-se,
apenas prometer que educaria os filhos na religião católica. Os filhos! Ia dar-lhe um filho. Um só! Mas só quando estivesse disposta. Tinha trinta e dois anos
e passara muitos anos a comprar saldos e preocupada com os preços nos restaurantes. Pela primeira vez, na sua vida, ia ter belos vestidos, tomar massagens, frequentar
os melhores institutos de beleza. Não ia passar seis meses em vestidos de grávida. Pelo menos, ainda não. Só quando tivesse obtido tudo o que ambicionava.
Casaram na primeira semana de Maio, na Catedral de São Patrício, com a presença dos pais dela, de Lou Goldberg, dos "acólitos" e de Aggie. Chris quis que fosse
assim e ela não quis discutir enquanto não tivessem dito o "sim". Logo que a cerimónia acabou, todos se beijaram. De repente, ela reparou que Christie Lane desaparecera.
Viu-o atravessar a nave para o outro lado da Catedral. Segui-o curiosa, e viu-o ajoelhar-se
369
diante de um altar. O doido estava a acender todas as velas! E a meter uma nota de vinte dólares na caixa! Ethel voltou para junto dos outros sem que ele a visse.
Ela nunca suspeitara de como ele a amava. Para que ele desse vinte dólares, era porque a amava muito. Mas, por outro lado, muitos homens avarentos mudavam depois
de casados. Aquilo era bom sinal.
Christie levou toda a gente a jantar fora e depois foram todos à estação, despedir-se dos pais dela. Nessa noite, quando Ethel foi para a suite de Christie, no
Astor, escreveu pela primeira vez o seu nome na lista dos hóspedes.
Não reclamou por passar a lua-de-mel no Astor. Christie estava imerso nos ensaios do seu programa especial e depois iriam a
Las Vegas por seis semanas. Aí, então ela trataria das coisas. Dir-lhe-ia para depositar cinco mil dólares na conta dela, todos os meses, quem sabe, até dez mil.
No fim de contas, ele tinha um contrato fabuloso com a IBC. E, antes de partirem, ela chamaria um corrector para que lhes procurasse um duplex na Park Avenue.
Ethel passou a primeira semana de casada sentada num escritório às escuras, a assistir a Christie na gravação do seu Happening. Ela aparecia com Christie em restaurantes,
teatros, etc. Agora, estavam a recriar a atmosfera do seu programa de televisão, para que ele pudesse cantar alguns números. Ethel apressara-se a entrar em contacto
com uma correctora, uma tal sr.a Rudin, mulher elegante, que chegou um dia, durante o ensaio, com plantas de vários apartamentos excelentes. Christie aproveitou
o intervalo para ver do que se tratava e Ethel apresentou-o à sr.a Rudin, explicando-lhe ao que ela vinha. Christie ouviu em silêncio, mas depois mordeu a ponta
do charuto.
- Oiça, minha senhora, pode enrolar todas essas plantas e desaparecer. Eu e Ethel estamos muito bem no Astor.
Ethel ficou com o rosto em fogo. Esperou que a mulher se fosse embora e depois atacou-o furiosa.
- Como te atreves a fazer isso?
- Que fiz eu?
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- Humilhaste-me diante dessa mulher.
- Então, não tragas mais nenhuma, que já não te humilhas.
- Mas temos de arranjar um apartamento.
- Para quê?
- Christie, pensas que vou viver eternamente no Astor, com as tuas duas malas noliving, um armário miserável para os dois e uma só casa de banho?
- Ouve, vi o lugar em que tu e Lilian moravam. Não era nenhum palácio.
- Mas eu também não era a sr.a Christie Lane.
- Pois fica sabendo que osr. Christie Lane está muito bem no Astor.
Ela decidiu que aquele não era o "lugar apropriado para discutirem. Tinha todo o Verão para o convencer."
- vou até ao Saks, comprar um fato de banho para usar em Las Vegas. A propósito quero abrir uma conta no banco.
- Então, abre.
- Preciso de dinheiro para a abrir.
- Ganhavas duzentos dólares por semana antes de nos casarmos. Estive a falar com Lou. Ele vai continuar a enviar duzentos dólares para ti todas as semanas. Podes
continuar a tratar da minha publicidade.
- E a minha mesada?
- Duzentos dólares não é pouco dinheiro, mais agora que não tens que pagar metade do aluguer. Há muitas famílias de oito pessoas que vivem com duzentos dólares.
Ela afundou-se numa cadeira vazia. De repente, sentiu-se ludibriada, como se tivesse descoberto um poço de petróleo e de repente, visse que ele secara. Quando
o programa especial terminou e partiram para Las Vegas, esse sentimento persistiu. No hotel chamavam-lhe sr.a Lane. Fora disso, a sua vida não mudara. Ou talvez
tivesse mudado parapior. Antes de casar ela ainda tinha algumas noites livres, noites em que podia ficar à vontade. Agora passava todos os momentos com Christie,
os "acólitos" e Agnes. Quando voltassem a Nova Iorque, seria a
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vez do Copa, dojilly's e dos jantares com os "acólitos". Mas ela não voltaria ao Astor.
Disse isso a Christie, uma noite, depois do espectáculo
- Que é que tem o Astor? - perguntou ele.
- Não quero morar lá.
- Onde queres morar?
- Num apartamento confortável, com sala de jantar, varanda e duas casas de banho!
- Tudo isso só para nós? Ouve, quando tivermos um filho, então falaremos. É lógico que desejo que o meu filho tenha uma casa de jantar. Mas, para nós os dois só,
umasuite de hotel chega e sobra.
Na noite seguinte, ela não usou o diafragma.

Capítulo vigésimo terceiro

Robín viu o retrato de Maggie no jornal da manhã, enquanto tomava o café. Leu a legenda: MAGGIE STEWART, A MAIS NOVA ESTRELA DA CENTURY, CHEGOU A NOVA IORQUE PARA
FILMAR CENAS DE "THE TARGET".
A maquilhagem era mais pronunciada, o cabelo era mais comprido, mas ela estava linda. De repente, ele sentiu um desejo irresistível de a ver. Telefonou para o
Plaza. Sim, ela estava lá hospedada, mas ninguém atendia. Deixou recado de que tinha telefonado.
Estava no meio de uma reunião, quando a sua secretária entrou na sala e colocou um bilhete diante dele: "A Menina Stewart está ao telefone." Ele fez-lhe sinal
de que não podia atender e continuou com a reunião. Só às cinco horas é que conseguiu telefonar-lhe.
- Dlá! - disse ela num tom alegre e impessoal.
- Como vai a grande estrela?
- Exausta. Estou a interpretar um modelo de alta costura cuja vida corre perigo. Na primeira cena, há um atentado contra mim, enquanto estou a ser fotografada
no Central Park. Mas, à maneira de Hollywood, as cenas iniciais foram deixadas para o fim. Essa é a razão porque estou em Nova Iorque.
- Pelo que dizes, o filme é emocionante.
- Espero que seja. Logo que acabemos estas cenas, vão começar a montar e a musicar o filme.
- E já tens outro programado?
- Tive várias ofertas, mas o meu agente quer que eu espere até este filme ser lançado. É um risco. Se eu me sair bem, receberei muito mais dinheiro e melhores
ofertas. Se ffacassar, perderei tudo o que agora podia conseguir.
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- Realmente é uma decisão arriscada - disse Robin.
- Mas eu gosto de riscos - retorquiu ela. - vou esperar.
- Assim é que se fala! E, a propósito, quanto tempo ficas em Nova Iorque?
- Só três dias.
- Queres comer uma sanduíche comigo no P. J.'s - O convite saiu-lhe antes que ele reparasse.
- Porque não? Só te peço o tempo de tirar oito camadas de pancake e tomar banho.
- Sete horas está bem?
- Óptimo. Encontro-me contigo lá. - E desligou.
Robin ficou a pensar. Ela nem sequer lhe dera a oportunidade de se oferecer para ir buscá-la. Teria feito de propósito? Nesse caso, ainda tinha ideias... Apressou-se
a telefonar para Jerry Moss.
As sete e meia ainda estavam à espera dela, no P. J.'s.
- Talvez ela me tenha dado sopa - disse Robin, com um sorriso.
Jerry olhou para ele com curiosidade.
- Que há contigo e com essa rapariga?
- Nada, em absoluto. Somos apenas amigos, quase velhos amigos.
- Então, porque tens medo de ficar a sós com ela?
- Medo?
- Da última vez que ela veio a Nova Iorque, pediste-me que te acompanhasse ao aeroporto.
Robin bebeu um pouco de cerveja.
- Ouve, ela era a namorada de Andy Parino. Tinham acabado de romper quando ela veio a Nova Iorque, e eu não quis que ele pensasse que lhe estava a pôr os cornos.
Deve ter sido por isso que te pedi para me acompanhares. Já não me lembro.
- Oh, isso explica tudo. E esta noite eu estou aqui para te proteger de Adam Bergman?
Robin encarou-o.
- Adam Bergman?
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- Sim, o jovem realizador que é a sensação da temporada
. explicou Jerry. - Foi ele que dirigiu aquela peça que
ganhou todos os prémios da Broadway. Esqueci-me do nome, aquela sobre-uma lésbica e um maricas. Eu e a Mary saímos depois do primeiro acto, mas ele é apontado
como
um génio.
Robin não respondeu. - Engraçado - continuou Jerry talvez eu seja estúpido mas gosto de peças com enredo: princípio, meio e fim. Hoje em dia, porém... -Parou alertado
pelo burburinho que enchia a sala. Toda a gente olhava para a rapariga que caminhava para a mesa deles. Ela fingiu reconhecer Jerry, embora ele visse que não.
Não se desculpou pelo atraso. Pediu um prato áechili e remexeu na bolsa, à procura de cigarros.
- Sinto não poder dar-te dos meus, mas deixei de fumar
- disse Robin.
- Então vais ter que me comprar um maço. Esqueci-me do meu.
Jerry ficou satisfeito por ver Robin levantar-se e dirigir-se à máquina de cigarros. Voltou com o maço, abriu-o e
acendeu-lhe o cigarro.
- Quando deixaste de fumar? - perguntou ela.
- Há dois dias.
- Porquê?
- Só para provar que podia passar sem os cigarros.
Ela abanou a cabeça, como se tivesse compreendido. Quando terminou o chili, disse:
- Gostaria de tomar uma cerveja, mas depois terei de me if logo embora. Preciso de acordar cedo, amanhã.
Robin mandou vir a bebida. Uma fila formara-se junto da porta. De repente, Robin levantou-se.
- Desculpem, estou a ver um amigo.
Viram-no ir até à porta e cumprimentar um casal que estava na fila. Dentro em pouco, voltou, trazendo o casal consigo.
- Maggie Stewart, Jerry Moss; apresento-lhe Dip Nelson e Pauli... - Voltou-se para a rapariga. - Desculpe, Pauli, as não me lembro do apelido.
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- Agora é Nelson.
- Parabéns. - Robin apontou para duas cadeiras. .
Acho que, apertando um pouco, cabemos todos.
- Só quero comer e sair - disse Pauli, deixando-se cair numa cadeira. - Bolas, estou morta! O dia inteiro a ensaiar! Só faltam três semanas para a estreia.
- Estamos a ensaiar um número de night-club - explicou Dip. -Vamos estrear num clube em Baltimore. De graça, só para ver a reacção. A verdadeira estreia é em Concord,
no fim-de-semana do Quatro de Julho. Vamos receber cinco mil dólares só por uma noite.
- Caramba, é dinheiro! - disse Robin.
- Sim, mas acontece que o número vai custar-nos mais de vinte e cinco dólares.
- Vinte e cinco mil dólares! - exclamou Robin.
- Para que é que pensa que ensaiamos oito horas por dia, nos Estúdios Nola? - perguntou Pauli. - Eh, empregado, dois chiis, dois cheeseburguen e duas cocas.
- É porque vai ser um número especial - explicou Dip.
- com coreografia e tudo. Pauli é boa a dançar e assim não fica a ser apenas canto. Vamos fazer duas semanas em
Las Vegas, e quinze mil "por semana". Isso vai compensar-nos o prejuízo. Depois, vamos para o Reno, e, em Setembro, vamos à Sala Persa, no Plaza. Isso é o que
conta mesmo: a crítica novaiorquina.
- Porquê tanto interesse num número de night-club? quis saber Robin
- Não viu os meus dois últimos filmes?
- Vi.
- Então, deve saber que foram duas bombas. Robin riu.
- Não. Sei o que é bom ou não, na televisão, mas vou ao cinema para me divertir.
- Bem, deve ter visto como o Variety bateu! - interrompeu Pauli.
- Não leio críticas de cinema.
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- Pois eu percebo do negócio - disse Dip. - Talvez não perceba de mais nada, mas, quando o meu agente vem ter comigo com uma oferta para fazer um filme independente
só por mil dólares, já sei que está na hora de me pôr a andar.
- Bem, com o dinheiro que ganha, não precisa de se preocupar. - Robin tentava desviar a conversa para assuntos mais gerais, a fim de incluir Maggie e Jerry.
- Tá a brincar! - disse Dip. - Comprei uma casa para os velhos dela.
- Uma casa, vírgula - disse Pauli. - Uma casinha, em Los Angeles. Não faças os outros pensar que compraste uma mansão para eles...
- Mas comprei uma casa, não comprei? Quarenta e nove mil dólares não é para se deitar no lixo. Aconteça o que acontecer, eles já estão garantidos. E comprei uma
casa para nós. Devia ir lá. Só com os móveis e o decorador, gastei uma boa maquia. É mesmo em Bei Air. Foi uma pena termos de sair de lá, mas precisamos de saber
desaparecer, antes de arrefecer. O nosso número vai ser um sucesso. Hollywood vai pedir-me de joelhos para voltar.
- E p'ra eu voltar também - disse Pauli.
- É lógico. Como disse, quando nos casámos: vamos ser um casal e picos.
- Mas eu não quero fazer um teste - confidenciou Pauli para toda a mesa.
- Concordo consigo. - Era a primeira coisa que Maggie dizia.
Pauli olhou para ela.
- Também tá no cinema?
- É a estrela do novo filme de Alfred Knight - explicou Robin.
- Oh! - Pauli olhou para Maggie como se a visse pela primeira vez. - É isso mesmo, você é a tal que está a ter o grande romance com Adam Bergman.
A expressão de Maggie não se alterou. Dip é que ficou horrorizado.
377
Fez-se um silêncio embaraçado, que Pauli não notou, tão ocupada estava com o seu hamburger. Quando pôs o
último pedaço na boca, disse:
- Paga a conta Dip, preciso de dormir cedo. Amanhã temos outro ensaio de oito horas.
Robin sorriu.
- Deixa a conta comigo. É um prazer. Imagine, vou poder dizer que conheci a famosa Pauli Nelson antes de ela se tornar estrela.
Ela voltou-se e encarou-o.
- Sabe de uma coisa? Não tenho de engolir desaforos. Quem diabo pensa que é? Dip disse para eu assistir ao Em Profundidade. Grande coisa! Aliás reparei que lhe
deram com os pés; têm outro tipo a fazer o programa, agora.
- Pauli! - Dip agarrou-a pelo braço. - Robin, desculpe. E, oiça, lamento que tenha perdido o programa. Tem alguma coisa em vista?
Robin sorriu.
- Um novo programa, a estrear no Outono, chamado Happening.
Dip parecia sinceramente aliviado.
- Ainda bem, rapaz. Você até parece o Big Dipper. Não conseguem nada connosco, não é? Na mesma estação? quando Robin disse que sim, Dip perguntou: - Oiça, por
acaso conhece bem Andy Farino?
- Muito bem.
- Então, pode dar-me uma ajudinha, meu caro. - Dip pôs em acção o seu belo sorriso. - Antes de estrearmos no Plaza, se você pudesse dar um jeito de sermos entrevistados
no Em Profundidade, Pauli e eu...?
- Se quiser, está combinado.
- Fora de brincadeira?
- Dou-lhe a minha palavra. Dip levantou-se.
- Telefono-lhe assim que voltarmos.
Quando saíram do restaurante, Robin pegou no braço de
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Maggie- Vamos, eu e Jerry vamos levá-la, a pé, até ao hotel.
- Não estou com vontade de andar.
- Jerry,.chame um taxi para Maggie - disse Robin.
- Jerry, não chame um táxi para Maggie - disse ela imitando o tom de voz dele. - Maggie tem um carro à espera. Só então repararam num enorme carro de luxo.
- Muito obrigado pelo chili e pela fascinante conversa. Farei o possível por retribuir a hospitalidade, se alguma vez forem à Califórnia.
Jerry ficou a ver o carro desaparecer pela Terceira Avenida.
- Ela gosta mesmo de ti. - comentou.
- Claro, está louca por mim - retorquiu Robin secamente.
- Não, não estou a brincar. Ela é actriz, não te esqueças. E provavelmente uma boa actriz, a julgar pelo desempenho dela esta noite.
- Que queres dizer com isso?
- Nem parecia a mesma rapariga que eu conheci no aeroporto, em Fevereiro. E nenhuma rapariga muda tanto em três meses.
- Talvez esse tal Adam tenha operado a metamorfose.
- Talvez.
- Vamos até ao Lancer Bar, tomar uma bebida - disse Robin.
- Não, eu vou é para a estação apanhar o comboio. Se eu fosse a ti, telefonava a Maggie e convidava-a a tomar uma bebida no Plaza. Os dois.
- Não, obrigado. Jerry parou.
- Ouve, Robin, ela é como os cigarros?
- Não percebo.
- Que diabo estás a querer provar, abstendo-te de Maggie Stewart?
Maggie foi-se embora e Robin mergulhou no trabalho. Todas as noites, escrevia quatro páginas do livro. Tina St.
379
Claire chegou a Nova Iorque por uma semana, a fim de fazer a promoção de outro filme. Robin deixou-a hospedar-se no seu apartamento, dormiu todas as noites com
ela
mas, quando ela se foi embora, sentiu o mesmo alívio que da outra vez. Trabalhou a sério na série dosHappenings e perdeu quase totalmente a noção do tempo e dos
dias. De repente olhou para o calendário na sua mesa, e viu que o Quatro de Julho estava a chegar. Caía numa quinta-feira, o que significava um longo e vazio fim-de-semana.
Nem sequer havia alguém com quem ele tivesse vontade de dormir. Jerry Moss ficou encantado, quando Robin aceitou, desanimado, o seu convite para passar o fim-de-semana
em Greenwich. Robin sabia bem que ia ter que assistir a uma porção de festas, mas eles tinham piscina e talvez pudesse jogar um pouco de golfe.
O telegrama de Maggie chegou no dia 2 de Julho:
CHEGO NOVA IORQUE TRÊS JULHO FAZER PROMOÇÃO TV MEU FILME: ACHA QUE ELIZABETH TAYLOR TAMBÉM COMEÇOU ASSIM? FICAREI NA CIDADE ALGUNS DIAS. TALVEZ ME POSSAS AJUDAR.
MAGGIE
Telefonou imediatamente a Jerry, cancelando o fim-de-semana. Na quarta-feira, saiu do escritório às cinco horas. Assim que chegou a casa, telefonou para o Plaza.
Disseram-lhe que ela tinha chegado duas horas antes, mas saíra para gravar The Jobnny Canon Show. A noite estava húmida e o fim-de-semana estendia-se à sua frente.
Tinha muito tempo.
Na quinta-feira, telefonou-lhe de novo. Ela tinha saído. Robin deixou recado e saiu para jogar um pouco de golfe.
Na sexta-feira deixou dois recados. No sábado não se deu ao trabalho de telefonar.
As nove horas de domingo, o telefone dele tocou. Ela que fosse para o inferno! Que passasse o dia sozinha. Esperou ate
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que a recepção atendesse, ao terceiro toque. Depois, tomou banho e telefonou para a recepção.
Um certo senhor Jerry Moss telefonara-lhe de Greenwich.
Sentiu-se estranhamente desapontado. Que quereria Jerry, às nove da manhã de domingo? Telefonou-lhe.
- Estás a divertir-te por aí, nesse forno novaiorquino? perguntou Jerry.
- Estou a trabalhar.
- Perdeste uma quantidade de festas formidáveis. Rick Russel deu uma enorme, ontem à noite. Deves saber quem é ele. Tem um monte de poços de petróleo e uma linha
aérea.
- Já estou a ver tudo - disse Robin. - Festa ao ar livre, barracas, lanternas japonesas, bêbados, mosquitos.
Jerry soltou uma gargalhada.
- Tudo isso e uma amiga tua, que era a convidada de honra: Maggíe Stewart.
- Que fazia ela lá?
- A beber, a dançar, a matar mosquitos como todos nós. Rick Russel está a comemorar o seu quinto divórcio. Não é mal-parecido principalmente quando se pensa em
todos aqueles poços de petróleo. Parece que eles se conheceram num avião de Los Angeles e que ele nunca mais a largou. Vai mandá-la para Chicago hoje, no seu avião
particular.
- Óptimo. A propósito, Jerry, porque é que me telefonaste?
Jerry não respondeu logo.
- Bem... bem, pensei que gostasses de saber notícias de Maggie.
- Porquê?
- Bem, eu... - gaguejou Jerry.
- Se pensaste que eu estava apaixonado por ela, porque me contas tudo isso? Ou estás a querer fazer-me ciúmes?
- Não, eu sei que não gostas dela - retorquiu Jerry.
- Então, porque me fazes perder tempo com telefonemas? - E Robin desligou.
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À tarde, foi a um cinema. Quando saiu já estava escuro. As ruas estavam desertas. A cidade parecia pertencer-lhe. Parou num pequeno bar, na Terceira Avenida, e
comeu um cachorro quente. Depois pôs-se a caminhar sem destino através da cidade. Quando deu por si, estava na Quinta Avenida, diante do Plaza.
- Que tal divertir-se um pouco, hem? - A pergunta foi-lhe feita por uma mulher dos seus quarenta anos, baixa, gorda e de cabelo pintado. Segurava o braço de uma
rapariga ruiva e magra, que não podia ter mais de dezoito anos. Via-se que a jovem era uma novata. A mulher empurrou-a na direcção de Robin.
- Cinquenta dólares. Ela tem um quarto.
A rapariga usava um vestido transparente. Tinha a pele marcada de acne, sob a pesada maquilhagem. Robin continuou a andar. A loura agarrou-lhe o braço.
- Quarenta dólares, está bem? Venha, vê-se que você precisa de divertir-se.
- Nota-se, hem? - disse Robin, e continuou a andar. Não tinha andado meio quarteirão, quando foi abordado por outra mulher, jovem e nada feia.
- Que tal o paraíso por cinquenta dólares, hem?
Ele riu e continuou a andar. Evidentemente, cinquenta dólares era o preço de tabela e a área do Central Park o novo quartel general das mariposas. Ao passar pela
Hampshire House, aproximou-se outra mulher, mas ele estugou o passo. De repente, lembrou-se que havia uma livraria, na Sétima Avenida, que ficava aberta à noite.
Compraria um livro leve. comeria uma sanduíche e iria para casa ler.
- Quer divertir-se, rapaz? - Olhou e viu que estava diante de uma amazona.
Era uma mulher horrível: devia ter quase dois metros de altura. Tinha o cabelo pintado de negro, armado
em estilo de bolo de noiva. A noite estava quente, mas ela
usava uma estola
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de vison. Tinha olhos pretos e perfurantes, nariz fino e comprido. Seios grandes... De repente, ele sorriu. Ela sorriu também.
- Cinquenta dólares. Tenho um quarto.
- Pediram-me menos, no outro quarteirão. Ela encolheu os ombros.
- Elsie está a lançar uma novata. Só apanhou três fregueses desde que está aqui. E, pelo que ouvi dizer, ainda só é boa para os mineiros de carvão lá de Scranton.
Comigo, garanto-Ihe que vai gostar.
- Talvez tu é que devesses pagar - disse ele. Dizem que sou o tal.
- Não adianta. Comigo para prazer, só mulher. Homem, só para ganhar - disse ela.
- Pelo menos és honesta.
- E tu um amor. Está bem, vou deixar por quarenta dólares.
- Nada de favores. vou pagar-te o preço da tabela. Onde fica o teu quarto?
- Vem comigo, minha jóia - Deu-lhe o braço e encaminharam-se para a Sétima Avenida. O quarto era num edifício escuro na Rua Cinquenta e Oito. Era evidente que
ela não morava ali. Pela escuridão do edifício, também era evidente que a maioria dos quartos era alugada para o mesmo fim. O hall estava deserto e um elevador
transportou-os, lentamente até ao terceiro andar. O-corredor cheirava a mofo e a tinta estava a saltar da porta que ela abria.
- Não é nenhum palácio. Chamo a isto o meu escritório.
Robin entrou no pequeno quarto. Um estore preto cobria uma janela sem cortinas. Havia uma cama, um lavatório e um pequeno banheiro e uma sanita. A lâmpada, no
tecto, dava ao quarto uma luz irreal. Ela sorriu e começou metodicamente a despir-se. Tudo o que usava era adequado à profissão.
O soutien de renda preta tinha buracos
que deixavam aparecer os grandes bicos dos seios. Não usava calça, apenas um apertado porta383
-ligas de renda preta, que lhe fazia uma inestética marca vermelha contra o enorme estômago branco.
- Tiro as meias ou deixo? - perguntou.
- Tira tudo - respondeu ele, mal reconhecendo a própria voz, enquanto se despia rapidamente.
Ela pegou numa toalha suja e limpou o baton. O seu corpo, apesar de grande, era extraordinariamente proporcionado.
- Passa para cá os cinquenta, rapaz, o pagamento é adiantado.
Ele meteu a mão nos bolsos das calças e deu-lhe duas notas de vinte e uma de dez. Ela enfiou-as avidamente na bolsa. Está bem, rapaz, podes fazer o que quiseres.
Só te peço para não me desmanchares o cabelo nem me arrancares as pestanas. Ainda é cedo e quero ver se apanho mais algum freguês.
Rapidamente, ele atirou-a na cama. Ela gemeu.
- Eh, rapaz, calma. Que queres provar? Assim que atingiu o clímax, ele parou.
- Não precisavas de fazer isso. Estou preparada - disse ela.
- Não quero correr o risco de fazer um filho desta maneira
- murmurou ele.
Ela olhou para o relógio.
- Três minutos. Tens direito a outra dose. - Inclinou-se sobre ele e começou a passar-lhe a língua pelo corpo. Ele empurrou-a, virou-a de bruços e recomeçou, impelido
por uma fúria que não compreendia. Quando, finalmente a largou, ela pulou da cama e correu para a pia, resmungando:
- Caramba, e parecia um tipo fino!
Robin ficou deitado na cama, olhando para o espaço. Ela estava diante da pia, uma massa nua e branca, pintando os lábios.
- Está bem, rapaz, vai andando. Está na hora de voltares para a tua mulher. Aposto que não fazes com ela o que fizeste comigo, não é? Aposto que com ela te armas
em santinho.
- Não tenho mulher - disse ele, em voz apagada.
384
- Então, vai para o pé da maezinha. Aposto que moras com ela. Tipos como tu moram sempre com as mães. Ele deu um pulo e agarrou-a pelo cabelo.
- Calminha, meu filho, larga-me o cabelo. Já te disse que ainda tenho que trabalhar. Vai para junto da maezinha.
O punho dele acertou-lhe no queixo. Por um breve momento, antes que a dor lhe chegasse ao cérebro, os olhos dela encararam-no com um espanto quase infantil. Depois,
quando a dor se fez sentir, ela abriu a boca num gemido e correu para o banheiro. Ele agarrou-a pelo braço.
- Por favor - gemeu ela. - Você sabe que eu não posso gritar, atrairia os polícias. Por favor, deixe-me.
Ele agarrou-lhe os enormes seios e começou a sugá-los.
- Está a morder-me - gemeu ela, lutando para se libertar. -Já gozou os seus cinquenta dólares!
-com um último esforço, ela meteu-lhe o joelho no ventre e conseguiu
desembaraçar-se, mas ele foi atrás dela. Pela primeira vez os seus olhos demonstraram medo. - Ouve rapaz! -gritou ela.
- Dou-te outra vez o dinheiro! Vai para casa, para junto da tua mãe! Vai chupar os peitos dela!
- Que foi que disseste?
Sentindo que tinha encontrado a fraqueza dele, ela perdeu o medo. Endireitou o corpo nu.
- Conheço-os muito bem, aos filhinhos da mãe. Fingem que são os tais, mas o que vocês querem é a maezinha! Eu pareço-me com ela? Vai para junto dela, vai! Cá a
maezinha tem de trabalhar.
De novo o punho dele esmurrou-lhe o queixo, mas desta vez não parou. O sangue escorria-lhe do nariz e da boca. Uma ponte quebrada saltou para o chão, mas mesmo
assim ele continuou a esmurrá-la, até sentir a mão doer. Olhou para a mão como se ela não lhe pertencesse. Estava coberta de sangue, do sangue dela. Cambaleou
até à cama e perdeu o conhecimento.
385
Quando abriu os olhos, viu a lâmpada no tecto e três cadáveres de mariposas mortas, queimadas pela luz. Depois viu os lençóis ensanguentados. Sentou-se e olhou,
espantado para as próprias mãos. De repente, viu o maciço corpo da mulher, caído no chão. Deus! Desta vez não fora apenas um pesadelo. Tinha acontecido mesmo.
Saiu da cama e aproximou-se do corpo. Os lábios estavam grotescamente inchados, um fio de sangue escorria-lhe da boca e um pouco de sangue seco cobria-lhe o lábio
superior. Debruçou-se sobre ela. Ainda respirava. Deus do céu, o que ele tinha feito! Vestiu-se depressa. Depois, meteu a mão no bolso e tirou a carteira; só
tinha trinta dólares. Não chegava, tinha de levar a mulher para o hospital. Não podia deixá-la ali.Olhou em volta. Nada de telefone. Abriu a porta e olhou para
o corredor. Tinha de ir buscar um médico. Tinha que haver uma cabine telefónica
na rua.
O hall ainda estava deserto. Saiu do edifício e a escuridão da Rua Cinquenta e Oito envolveu-o. Dirigiu-se à farmácia da esquina. Tinha de telefonar a pedir uma
ambulância.
- Eh, meu caro, que está a fazer aqui? - era Dip Nelson nurn conversível aberto.
Robin avançou para o carro.
- Estou em apuros - disse.
- Só você? - Dip deu uma risada. - Estreámos no Concord, ontem à noite, e fomos bombardeados.
- Dip... tem algum dinheiro consigo?
- Deixe ver... dez notas de cem e um cheque em dinheiro. Porquê?
- Dip, dê-me os mil dólares em dinheiro. Dar-lhe-ei um cheque.
- Entre no carro e conte-me o que aconteceu. - Deram a volta ao parque e Dip escutou em silêncio. Quando Robin acabou, ele disse: -Vamos tratar das coisas mais
importantes primeiro. Número um, acha que ela vai reconhecê-lo? Sem dúvida, ela já o viu na televisão, não é? E então?
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Robin encolheu os ombros.
- Então, vai ser um escândalo. Dip abanou a cabeça.
- Rapaz, não sei como é que você anda por esse mundo. Se quer vencer, tem de tomar cuidado para o escândalo nunca o apanhar! Escute, ia ser a palavra dela contra
a sua. Alguém acreditaria na palavra de uma prostituta e duvidaria de um tipo famoso? - Olhou para o relógio no carro. - Dez e meia. A que horas acha que aconteceu?
Robin encolheu os ombros.
- Fui ao cinema. Não estou com relógio, mas já estava escuro quando saí.
- Então deve ter sido por volta das oito e meia ou nove. Vamos planear um alibi para as oito horas, para não haver dúvida.
- Que alibi?
- Eu, meu caro. O Grande Dipper é o seu alibi. Se é que precisa de alibi. Vamos dizer que eu fui ao seu apartamento às sete e meia. Ficámos a conversar e depois
resolvemos dar uma volta de carro. Quando eu deixar o carro na garagem, vou fazer de modo a que alguém nos veja.
- Mas o que vamos fazer com a mulher? - perguntou Robin. - Ela está mal.
- Mulheres dessas nunca morrem. Amanhã estará de novo na rua, verá.
Robin abanou a cabeça.
- Magoei-a muito. Não posso deixá-la como está.
- Porque se meteu com ela? Caramba, vi-o com uma brasa, lá no P. J.'s.
- Não sei, lembro-me dela me abordar, e depois foi como se algo rebentasse na minha cabeça e eu tivesse sonhado.
- Escute, quer um conselho? Esqueça-se dela. Que interessa uma prostituta a mais ou a menos?
De repente, Robin agarrou-se à porta. Dip ficou preocupado.
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- Que foi?
- Dip, alguma vez teve a impressão de alguma coisa já lhe ter acontecido antes, de você já ter ouvido as mesmas palavras?
- É lógico. Isso acontece com toda a gente. Há mesmo uma canção sobre isso. Onde ou Quando.
- É verdade - disse Robin.
- Então, não pense mais nela. Esqueça - disse Dip.
- Não, não posso fazer isso. Ela é um ser humano... quem sabe até se não tem filhos?
- Pensei que tivesse dito que ela era lésbica.
- É isso mesmo. Tem razão.
Dip dirigiu o carro pela Rua Cinquenta e Seis abaixo e entrou na garagem. O empregado correu a recebê-lo.
- Então, que tal o carro, hem, sr. Nelson?
- Uma maravilha - respondeu Dip. - Eu e o meu amigo estamos a dar voltas desde as sete e meia. Conhece-o, não é verdade? Robin Stone, o homem de Em Profundidade.
O empregado fez que sim com a cabeça, para agradar a Dip, e depois perguntou:
- Sr. Nelson, lembrou-se de me trazer a fotografia autografada que o senhor prometeu, para a minha filha Betty?
- Como é que me esquecia? - Dip abriu o compartimento das luvas e entregou-lhe um envelope. - Assinado, com beijos e tudo.
Saíram da garagem e Robin rumou para a Rua Cinquenta e Oito. Dip saiu a correr atrás dele, tentando dissuadi-lo.
- Escute, ela é capaz de estar com outro tipo.
- Oxalá estivesse - murmurou Robin. Pararam diante do edifício escurecido. Dip olhou em volta, cauteloso. - Acho que também estou louco. Vamos subir já.
A porta estava meio aberta, exactamente como Robin a deixara. Ficaram um momento a olhar para a mulher, desmaiada no chão. Dip asobiou.
- Caramba, que mulheraço.
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- Dê-me os mil dólares - disse Robin. - vou pô-los na bolsa dela e depois podemos chamar um médico da rua.
- Sim. E o médico leva-a para o hospital, ela abre os olhos e diz que foi você. Meu caro, quando uma prostituta tem mil dólares, toda a gente faz perguntas. Ela
descreve-te e você fica frito.
- Que podemos fazer? - perguntou Robin.
- Fique aí, que eu tenho uma ideia. Tranque a porta. Quando eu voltar, bato duas vezes. Não abra senão para mim.
- Antes que Robin pudesse responder, já ele tinha desaparecido.
Robin sentou-se na cama e contemplou o corpo maciço e branco caído no chão. Enterrou a cabeça nas mãos. Pobre mulher. Como pudera ele fazer aquilo? Fora a primeira
vez que se metera com uma mulher de cabelos pretos, sem estar embriagado. E jurava que seria a última! Imaginem se tivesse sido com Maggie.
A mulher mexeu-se e gemeu debilmente. Robin levantou-se e colocou uma almofada debaixo da cabeça dela. Depois apanhou o lenço, molhou-o na água fria e tentou limpar-lhe
o sangue do lábio. Afastou-lhe os cabelos do rosto.
- Desculpa - murmurou. Ela abriu um pouco os olhos, gemeu e desmaiou de novo. - Desculpa-me. Peço-te perdão. Oh, meu Deus, peço-te perdão.
Abriu a porta assim que ouviu bater duas vezes. Dip entrou com um frasco cheio de cápsulas vermelhas.
- Caramba, que ideia genial!
- Seconal? - perguntou Robin. Dip fez que sim com a cabeça.
- Agora, é só fazê-la engolir.
- Vamos matá-la.
- Qual quê, aqui só há oito. Uma mulher normal talvez morresse, mas essa baleia, nem com dinamite!
- Não estou a perceber. Para quê essas pílulas?
- Vamos pô-la em cima da cama, com o frasco vazio ao lado; não tem etiqueta, por isso ninguém saberá onde foi
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comprado. Depois, vamos embora e telefonamos para a polícia. Eu disfarço a voz, digo que tinha encontro marcado com ela e a encontrei assim. Que ela dizia sempre
que se ia suicidar É mesmo da forma como todas essas fulanas acabam, a não ser quando um tipo como você dá cabo delas. Então a ambulância apanha-a e leva-a para
o hospital, fazem uma lavagem ao estômago e ninguém acreditará no que ela disser, nem vão escutar. Mas vão consertar todos os estragos que você fez. Agora temos
de a pôr na cama.
A mulher era pesadíssima e os dois acabaram ofegantes. Dip enfiou-lhe as pílulas na boca e meteu-lhe água pela garganta abaixo. Ela regurgitou e as pílulas e a
água escorreram-Ihe pelo rosto. Dip meteu-as de novo na boca e obrigou-a a engoli-las, com mais água. Robin levantava-lhe a cabeça, para que ela não se asfixiasse.
Tinha a camisa colada ao corpo e a testa coberta de suor.
- OK, vamos embora - disse Dip, assim que conseguiram. - Não, espere - puxou de um lenço e começou a destruir as possíveis impressões digitais. Piscou o olho para
Robin. - Todos esses filmes policiais que fiz estão a servir-me para alguma coisa. Conheço todos os truques. Mexeu nalguma coisa, meu caro? - Tirou do bolso um
pequeno estojo escuro. Dentro havia um pente dourado, uma lima de unhas e uma tesoura. Robin ficou a vê-lo, fascinado, cortar as longas garras vermelhas da mulher.
A seguir Dip limpou-as metodicamente com a lima. - Isto para o caso dela ter agarrado algum cabelo seu. - Olhou em volta. - Acho que está tudo OK. Sempre com o
lenço, abriu-lhe a bolsa e puxou para fora a carteira.
- O nome dela é Anna-Marie Woods. Mora na Rua Bleecker.
- Dê-me esse endereço. - Robin pegou na agenda e anotou o nome e o endereço. Depois, devolveu-a a Dipper, que a recolocou na bolsa da mulher. - Ela tem quase cem
dólares na carteira; tome.
- Está louco! - Robin empurrou o dinheiro.
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- Não escreveu o endereço para a convidar a ir a uma festa, não é? Quer enviar-lhe dinheiro. Então mande este também senão algum servente ou alguma paciente lá
no hospital acabam por lhe roubar.
Robín cedeu. Compreendia agora porque Dip triunfara no cinema. Estava sempre alerta a tudo e desconfiado. Talvez isso fosse necessário para quem se fazia à sua
própria
custa.
Saíram cautelosamente do quarto. A sorte acompanhou-os: chegaram à rua sem encontrar ninguém. Dip telefonou. Mas Robin recusou-se a ir-se embora enquanto não tivesse
a certeza de que o socorro chegara. Dip era contra, mas ficaram escondidos num portal, do outro lado da rua. Dentro de dez minutos, ouviram as sereias. Três carrros
da polícia estacionaram em frente do edifício. Dois minutos mais tarde, chegou uma ambulância. Logo uma multidão se formou; Robin tinha a sensação que saíam do
chão.
- Tenho de ir ver se ela está viva - sussurrou. Dip quis ir com ele, mas Robin não deixou. - Onde tem a cabeça? com esse cabelo louro e esse bronzeado californiano,
acabariam por esquecer a ambulância e pedir-lhe autógrafos. A mim ninguém vai reconhecer.
- Acho melhor não ter tanta certeza - sibilou Dip.
- Pelo aspecto deles, tenho a certeza. E também tenho a certeza que viram todos os teus filmes policiais. - Robin atravessou a rua e misturou-se com os
curiosos.
Alguns minutos depois, os encarregados da ambulância saíram do edifício carregando a maca. Robín respirou aliviado: a cabeça dela não estava coberta, o que significava
que ainda vivia.
Voltou para junto de Dip, depois da ambulância abrir caminho por entre a multidão. Dip agarrou-o pelo braço.
- com mil diabos, oiça, acho que precisa é de ir dormir. Vá para casa e procure descansar.
Robin olhou para ele.
- Dip, como é que posso pagar-lhe? Diga-me.
- Deixe-se disso - Dip deu-lhe um murro no braço. Eu e a Pauli estamos feitos. Em Setembro pode pôr-nos a
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sermos entrevistados no Em Profundidade, antes de nos estrearmos na Sala Persa. Agora vamos chamar um táxi para cada um de nós, mas a alguns quarteirões daqui.
Aprende-se
um bocado a fazer filmes policiais.
Logo que Robin entrou em casa, tomou uma pílula para dormir. Uma hora mais tarde tomou outra e uma dose de uísque. Dentro em pouco estava ferrado no sono. Quando
acordou, no dia seguinte, a primeira coisa que fez foi telefonar para o Dr. Archie Gold.
- Fala Robin Stone. Acho que podemos começar o tratamento.

Capítulo vigésimo quarto

Robin parecia calmo e controlado, quando terminou de contar ao Dr. Gold o que acontecera.
- Costuma ter relações com prostitutas?
- Não. Foi a primeira vez.
- Nem nunca pensou nisso?
- Nunca.
- Diz que passou por uma relativamente bonita e não ligou. Porque escolheu essa?
Robin apagou o cigarro contra o cinzeiro.
- É justamente por isso que estou aqui. Ela tinha cabelo preto.
Os olhos cinzentos de Archie brilharam com interesse.
- Acaso quereria experimentar-se antes de tentar com Maggie?
- Não estou a perceber.
- Se não conseguisse nada com essa prostituta, só teria perdido cinquenta dólares.
Robin abanou a cabeça.
- Não, não creio que tenha sido isso. Senti como se algo explodisse no meu cérebro, quando ela se aproximou de mim. Desde que fui com ela tive a impressão de estar
a sonhar.
O Dr. Gold passou em revista os seus apontamentos.
- Da última vez que esteve aqui, eu disse que gostaria de hipnotizá-lo. Era o que deveríamos fazer.
- Isso é ridículo. Podemos conversar e...
- Não quero desperdiçar o meu tempo e o seu dinheiro. Gostaria de hipnotizá-lo e utilizar um gravador. Assim poderá
ouvir as suas respostas e teremos um ponto de
partida válido. Reparou na testa franzida de Robin. - Da última vez que
falamos, em Janeiro, descobrimos um bloqueio. Não consegue
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lembrar-se da primeira infância. Não que se recuse a recordar, não se recorda mesmo. Além disso
até agora você tem separado o sexo do amor. Não consegue encará-los
como um todo. O que sente por Maggie é desejo de amor. Contudo, amor com sexo parece-lhe incestuoso. Temos de encontrar a razão disso. Nada do que me disse na
última visita nos fornece sequer uma pista, e eu presumo que você não tenha ocultado nada. - Fez uma pausa e depois perguntou: - Robin, quantos anos tem?
- vou fazer quarenta e um no próximo mês.
- Já pensou em casar?
- Não. Porquê?
- Todo o homem presume, naturalmente, que um dia se casará. Quando é que pela primeira vez se deu conta de não pretendia casar?
- Não sei. Acho que sempre me senti bem sozinho.
- Outra vez! - exclamou Archie triunfante. - Outra coisa que sentiu. Quando? De que maneira? Está a ver que temos de voltar à sua infância? - Levantou-se. - Robin,
estamos a perder tempo. Acho que por hoje basta, mas que volte amanhã. Poderá dispor de três horas?
- Três horas?
- Quero hipnotizá-lo e gravar as suas respostas. Depois de as escutarmos, acho que encontraremos a solução.
- Terá de ser à noite - disse Robin. - Seis horas está bem?
- Espero-o aqui, às seis.
No dia seguinte Robin percorreu todos os jornais para ver se havia alguma notícia a respeito de Anna-Marie. Encontrou finalmente, uma pequena nota na quinta página
do News:
"Uma mulher foi violentamente espancada num quarto mobilado da Rua 58. A polícia acorreu ao local depois de ter recebido um telefonema anónimo. A mulher não morava
no quarto e não explicou porque se
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encontrava lá. Foi internada no Bellevue Hospital, onde se descobriu que tinha ficha como prostituta. Não há queixa contra ela, nem foi capaz de identificar o
seu
agressor. O seu estado não inspira cuidados e amanhã mesmo receberá alta do hospital"
Robin foi ao banco, retirou dois mil dólares em notas pequenas e mandou-as para o endereço dela, dentro de um envelope vulgar. Ainda não estava convencido quanto
à necessidade do hipnotismo, mas às seis horas em ponto estava no consultório do Dr. Gold. Quando viu o gravador teve um arrepio de apreensão.
- Acha que vai resultar?
- Espero que sim - respondeu Archie. - Tire o casaco e desaperte a gravata.
Robin puxou os cigarros.
- É melhor pôr-me à vontade. Quer que me deite no sofá?
- Não, sente-se aqui, nesta cadeira. E guarde os cigarros. Robin, você vai colaborar ou não?
- Oiça, nenhum de nós tem tempo para brincar.
- Óptimo! Agora, quero que se concentre naquela gravura marítima pendurada na parede. Você está a ver água... os seus pés flutuam... já não os sente... as suas
pernas flutuam... o seu corpo a pouco e pouco vai ficando leve... você está leve... leve... as suas mãos vão cair para os lados... já não sente a cabeça e o pescoço...
os seus olhos vão fechar-se. Feche os olhos Robin. Pronto... agora, está tudo escuro... não vê nada... está quase a dormir...
Robin percebeu que o Dr. Gold tinha diminuído as luzes. Tinha a certeza de que não ia resultar, mas seguiu as instruções . Fixou os olhos na tal gravura. Disse
a si mesmo que estava a flutuar. Concentrou a sua atenção na voz calma do Dr. Gold... Estava a ouvir a voz de Archie. Não ia resultar. Ainda estava a ouvir a voz
de Archie. Sentia um peso nos olhos... mas não ia resultar...
Abriu os olhos. Estava deitado no sofá. Sentou-se, olhou
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em volta e puxou os cigarros.
- Como é que eu vim parar aqui? Ainda há uns minutos eu estava naquela cadeira.
- Isso foi há duas horas e meia. Robin deu um pulo.
- Que horas são?
- Um quarto para as nove. Você chegou às seis. Robin agarrou no telefone e marcou para a informação
horária. A voz disse: "Atenção! Ao sinal serão oito horas e quarenta e sete minuros." Desligou e olhou para o Dr. Gold com expressão incrédula. O doutor sorriu.
Robin olhou para o gravador numa pergunta muda. O Dr. Gold assentiu com a cabeça.
- Então, pelo amor de Deus, deixe-me ouvir!
- Não, por hoje chega. Quero ouvir a gravação sozinho. Amanhã poderá ouvi-la.
- Eu disse alguma coisa de jeito?
- Você revelou coisas muito importantes.
- Pelo amor de Deus, deixe-me ouvir! Como é que eu vou poder dormir, esta noite, nessa expectativa?
O Dr. Gold colocou duas pílulas verdes num pequeno envelope.
- Tome isto antes de se deitar. Poderá voltar aqui amanhã as seis?
As pílulas deram resultado. Robin dormiu toda a noite, mas passou o dia seguinte tenso e impaciente. Fumou sem parar e não conseguiu concentrar-se no trabalho.
Quando
entrou no consultório do Dr. Gold, estava num feixe de nervos.
- Robin - disse o Dr. Gold - antes de começarmos quero que você tenha isto presente: as pessoas dizem sempre a verdade quando estão hipnotizadas. Tudo o que ouvir,
foi você que o disse. Às vezes pode parecer-lhe estranho, porque eu o fiz voltar à sua primeira infância e você fala como uma criança. Mas quero que escute com
espírito aberto e não se revolte contra nada do que ouvir.
396
O Dr. Gold aproximou-se do gravador.
- Pronto?
Robin fez sinal que sim. Ouviu-se um zumbido e imediatamente a voz do Dr. Gold:
PR. GOLD: Robin, você está sob hipnose... Vai ouvir a minha voz e fazer tudo o que eu lhe disser. Levante-se dessa cadeira e vá até ao sofá. Muito bem. Agora,
deite-se, Robin. Vamos voltar ao passado... você ainda é criança. Tem cinco anos... está na cama...
ROBIN: Sim, eu estou na cama.
Robin sentou-se na ponta da cadeira, os nervos tensos. A voz era mais jovem e menos grossa, mas era a sua voz!
DR. GOLD: Você está na cama. Que espécie de cama é?
ROBIN: É uma cama muito bonita. Kitty está a dar-me as boas-noites.
DR. GOLD: Robin, você tem quatro anos. Você está na cama... (Silêncio no gravador).
DR. GOLD: Robin você tem quatro anos... quatro anos...
ROBIN: Porque me chama Robin? O meu nome é Conrad.
DR. GOLD: Está bem, Conrad. Você está na cama... que está a ver?
ROBIN: A mamã está na cama comigo, mas...
DR. GOLD: Mas o quê?
ROBIN: Ela finge que vai ficar, mas é só até eu adormecer. Depois vai-se embora. Ela vai-se embora todas as noites.
DR. GOLD: Como sabe que ela se vai embora?
ROBIN: Porque eu acordo sempre e ouço-a no outro quarto... quando ela está com eles.
DR. GOLD: "Eles" quem?
ROBIN: Não sei.
DR. GOLD: Onde está o seu pai?
397
ROBIN: A gente não tem pai.
DR. GOLD: A gente?
ROBIN: Eu e a minha mãe... a gente não tem ninguém. É só nós e eles.
DR. GOLD: Quem são "eles"?
ROBIN: Às vezes, é o Charlie. Outras vezes, são outros.
DR. GOLD: Eles vêm visitar a sua mãe?
ROBIN: Sim... mas esperam até eu estar a dormir.
DR. GOLD: Que faz quando os ouve?
ROBIN: Não faço nada. Desde que o Charlie me bateu...
DR. GOLD: Quando é que o Charlie lhe bateu?
ROBIN: Há algum tempo... quando entrei e o encontrei em cima da mamãe, no sofá.
DR. GOLD: Ela ainda vai para a sala, depois de você adormecer?
ROBIN: Ainda, mas já não é com o Charlie. Ela nunca mais o deixou vir, por me ter batido. Eu sou o único homem de quem ela gosta... só nos temos um ao outro...
ninguém nos liga... só nos temos um ao outro...
DR. GOLD: Quantos anos tem?
ROBIN: Amanhã vou fazer quatro anos. Amanhã é dia vinte de Agosto. A minha mãe vai levar-me a Boston, para eu ver os pombos na praça...
DR. GOLD: Onde moram?
ROBIN: Moramos em Providence, Rhode Island.
DR. GOLD: Não vai fazer uma festinha de aniversário para os amigos?
ROBIN: A gente não tem amigos.
DR. GOLD: Rob-Conrad, já passou uma semana desde o seu aniversário. Que está a fazer?
ROBIN: Tou zangado com a minha mãe.
DR. GOLD: Porquê?
ROBIN: Um homem veio aqui a casa no dia do meu aniversário, quando estávamos para ir para Boston. A mamãe disse que ia sair... para ele voltar mais tarde, de noite.
Ele deu a ela dinheiro e disse que alguém o tinha
398
mandado. A mamãe deu-me um níquel e disse-me para eu ir comprar um sorvete e só entrar em casa quando ela me chamasse. Sentei-me na porta a tomar o sorvete. Então
um menino mais velho tirou-mo da mão. Corri para dentro de casa... A mamã tava na nossa cama... o homem tava com ela. Fiquei furioso. Ninguém dorme de dia. Era
o dia do meu aniversário. Ela gritou comigo. .. disse para eu me ir embora... (Silêncio no gravador).
DR. GOLD: Conrad, é o dia de Acção de Graças. Tem quatro anos... que está a fazer?
ROBIN: A mamã faz pato para comermos. As famílias grandes comem peru. Mas a nossa família é pequena. É só a gente... por isso vamos comer pato. Mas vamos ter um
molho muito bom... e a mamã vai cozinhar o pato igualzinho ao que ela comia quando era menina, em Hamburgo.
DR. GOLD: Conrad, já esteve em Hamburgo?
ROBIN: Não. A mamã é que nasceu lá. Lá tinha uma porção de marinheiros e foi lá que a mamã o conheceu. Então ele trouxe-a para a América e casou com ela.
DR. GOLD: E aí nasceu? Ele era o seu pai?
ROBIN: Não. Ele morreu. Não era o meu pai. Era só o marido da mamã. Ele não prestava. Ela disse. Guiava um camião cheio de uísque e isso era proibido. Então, uma
noite, toda a gente que tava no camião dele morreu. Deram tiros neles. A mamã ficou sozinha. Ela ainda não me tinha nem a mim. Tava sozinha. Mas o homem que era
dono do camião disse para a minha mãe não ficar triste, que ele ia mandar uma porção de homens visitá-la e dar dinheiro a ela. Então, um ano depois, Deus mandou-me
para lhe fazer companhia.
DR. GOLD: A sua mãe sabia qual dos homens era seu pai?
ROBIN: Eu já lhe disse que a gente não tinha pai. Era só eu e a mamã. E tava sempre a mudar de casa, porque os polícias não gostavam de ver um menino a morar sozinho
399
com a mãe sem ter pai e, se eles nos apanham, vão mandar-me para um asilo longe da mamã e vão mandá-la de volta para Hamburgo. Mas ela tá a economizar e um
dia vamos voltar os dois para Hamburgo e morar com a minha Grossmutter... e eu vou ter crianças para brincar. Agora eu não posso brincar com as crianças da rua,
porque elas vão começar a perguntar onde está o meu pai... e então iam dizer à polícia que eu não tinha pai...
DR. GOLD: Conrad, é de noite, uma semana depois do dia de Acção de Graças. Que está a fazer?
ROBIN: Estou na cama, mas a mamã tá na sala com o George. Todas as noites ele vem visitá-la. Diz que nos vai dar passaportes e todas noites dá dinheiro a ela.
DR. GOLD: Quem é George?
ROBIN: É um dos homens...
DR. GOLD: Conrad, já passaram duas semanas depois do dia de Acção de Graças. É de noite. A sua mãe está com George?
ROBIN: Não... Ele é que tava lá.
DR. GOLD: Quem é ele?
ROBIN: É outro homem.
DR. GOLD: Quem era o outro homem?
ROBIN: Não sei. Acordei e senti que a cama tava vazia e então vi que a mamã tava na sala. Eu tava com fome e queria comer os biscoitos de coco que ela punha no
frigorífico,
mas precisava de passar pela sala para chegar à cozinha. Então, fui em bicos de pés, porque me lembrava que Charlie me bateu uma vez... e a mamã fica furiosa quando
eu não fico na cama...
DR. GOLD: Quem estava com a sua mãe?
ROBIN: Eu nunca o tinha visto. Tava de joelhos no sofá, inclinado para cima da mamã.
DR. GOLD: Que estava ele a fazer?
ROBIN: As mãos dele estavam no pescoço dela. Fiquei quieto a olhar. Depois ele levantou-se e foi-se embora. Nem
400
disse adeus à mamã. Cheguei junto do sofá e ela tava a dormir... mas não tava a dormir a sério, os olhos dela tavam abertos e ela tava a fingir que dormia. Quando
a sacudi, ela rolou para o chão, com a língua pendurada para fora do cabelo preto todo despenteado. Eu gostava de dormir contra o peito dela... era tão quentinho
e macio, debaixo da camisola. Eu nunca tinha visto o peito dela como era, mas é tão feio, sem camisola, até dá nojo! O cabelo dela é preto demais junto do rosto
dela e os olhos tão engraçados, a olharem para mim que até parece que não me vêem. Tou com medo. Mutter, Mãe, Mamã! (Silêncio no gravador).
DR. GOLD: Já estamos no dia seguinte. Onde está?
ROBIN: Numa sala grande... toda a gente me pergunta uma série de coisas. Eu só quero a minha mãe. Querem saber como é que era o homem. Eu quero a minha mãe. Então
uma senhora de roupa branca leva-me para uma sala cheia de meninos e diz-me que eu vou morar ali, e que todos os outros meninos que estão ali são como eu... não
têm mãe. Pergunto a ela se a mamã foi para Hamburgo e ela diz que não. Então, um dos meninos diz: "A tua mamã morreu". E eu pergunto: "A mamã foi para o céu?"
E a senhora de roupa branca ri e diz: "Não, meu filho. Gente má não vai para o céu e a tua mamã merece ter morrido. Trazer um filho ao mundo com a vida que ela
levava!" Então eu... eu bato nela... eu bato nela... (a voz grita e após uma pausa continua). Tudo está escuro mas há uma porção de gente junto de mim. Eu não
estou a chorar... A mamã dizia que eu era um homem e os homens não choram. Não vou chorar... não vou falar... não vou comer... não vou escutar o que eles dizem.
Então vão ter de me levar de volta para junto da minha mãe. Bem dizia ela que iam descobrir que a gente não tinha pai... trouxeram-me para aqui... para longe dela.
Mas eu não vou chorar... não vou escutar o que eles tão a dizer... (Silêncio no gravador.)
401
DR. GOLD: Conrad, é Natal. Onde está?
ROBIN: (em voz fraca) Tá escuro... tou a dormir... tá muito escuro... Há um tubinho como um canudinho de refresco no meu braço... mas não dói... vou dormir, dormir...
Desde que aquela má mulher de cabelo preto me abandonou e foi para Hamburgo eu só quero dormir. . Ela nunca mais gostou de mim... vou dormir e não vou pensar mais
nela... ela era má...
DR. GOLD: Já se passaram duas semanas, Conrad. Ondeéque você está?
ROBIN: Estou sentado numa cama grande, com grades, para eu não cair. Duas senhoras de branco tão comigo e uma fica muito contente porque eu tou sentado. Pergunta
como é o meu nome. Eu não tenho nome. Nem sei onde estou. Um homem de roupa branca chega junto da cama e olha para os meus olhos com uma luzinha. É simpático...
dão-me sorvete...
DR. GOLD: Faz hoje cinco anos, Conrad. Onde está?
ROBIN: Porque me chama Conrad? O meu nome é Robin Stone. Tou a fazer anos. A mamã, o papá e os meus amigos tão na minha festa.
DR. GOLD: Gosta da sua mãe?
ROBIN: Gosto. Eu tive muito doente, sabia? Quando a mamã e o papá me vieram buscar ao hospital, eu nem os conhecia. Mas agora já tou
bom.
DR. GOLD: A sua mãe é bonita? Como é ela?
ROBIN: É bonita, sim. Tem cabelo louro e chama-se Kitty
O dr. Gold desligou o gravador.
- O resto confere exactamente com o que você já me tinha dito: o nascimento de Lisa, etc.
Robin afundou-se na cadeira. Tinha a camisa encharcada, o rosto branco. Olhou para o Dr. Gold.
- Que quer isso dizer?
O Dr. Gold olhou firmemente para ele.
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- Não é preciso explicar, ou é? Robin levantou-se:
- É tudo mentira!
O médico olhou para ele com expressão compreensiva.
- Sabia como se ia sentir. Às nove horas da manhã, telefonei para o journa, de Providence. Passaram em revista os números que se seguiram ao dia de Acção de Graças
de 1928. finalmente, encontraram a seguinte notícia: "Após receber um telefonema anónimo, a polícia invadiu um apartamento e encontrou uma mulher estrangulada,
com o filho de quatro anos a dormir junto dela. Havia sete horas que a mulher estava morta. Fora várias vezes acusada de praticar a prostituição, mas nunca chegara
a ser condenada. A polícia acredita que o autor do telefonema tenha sido o assassino, mas não há pistas, pois a criança é a única pessoa que viu o criminoso e
não sabe descrevê-lo."
- Quer dizer que é verdade? - perguntou Robin.
- Mais uma notícia, três dias depois -continuou Archie
- "A polícia tentou mostrar à criança fotografias de vários criminosos sexuais, mas o menino parecia em estado de coma. Foi levado para o Asilo bom Pastor, em
Providence, Rhode Island".
Robin dirigiu-se para a janela.
- Quer dizer que eu não sou eu. Sou um bastardo qualquer, chamado Conrad. - Voltou-se e olhou para Archie. Porque fez isso comigo? Porquê? Não estava melhor sem
saber nada?
- Acha que estava melhor indo atrás de prostitutas e quase a matá-las? Acha que estava melhor incapaz de ter relações normais com uma mulher?
- Podia ter continuado a evitar as prostitutas. Estava muito bem como estava.
- Acha que sim? Aliás, duvido que pudesse ter continuado a evitar prostitutas. O facto de Maggie o ter rejeitado, provocou-lhe
uma espécie de reacção em cadeia.
E, quando viu a prostituta, sentiu, inconscientemente, a mesma raiva que
403
sentiu pela sua mãe, por tê-lo abandonado e por ser "uma mulher má". Houve, como disse, uma espécie de explosão no seu cérebro. Representou uma fantasia onírica,
de amor e de ódio.
- Ódio! Ódio porquê? A criança que eu ouvi no gravador amava a mãe!
- Claro que a amava. Demais, até. Não havia mais ninguém na sua vida a não ser ela. Contudo, e embora fosse criança, o seu subsconsciente sabia que tinha de odiar
para poder sobreviver. Mas, até mesmo o ódio pode ser doloroso, de modo que a criança preferiu esquecer, através de uma amnésia auto-induzida. Quando você viu
a prostituta, algo despertou, no seu subconsciente: o ódio. Quando conheceu Maggie, outro sentimento despertou no seu subconsciente: o amor. O amor que você sentia
pela sua mãe. Mas também via em Maggie uma mulher bela e desejável. Entretanto, o seu subsconsciente rebelava-se e era por isso que você precisava de se embriagar
para poder funcionar sexualmente com ela. Sóbrio, o seu subconsciente relacionava-a com a sua mãe.
- E agora, só porque você me contou isso, eu vou poder sair daqui e funcionar com Maggie?
- A coisa não é assim tão simples. Eventualmente, é possível. Depois de ter aprendido a compreender os seus impulsos, os seus desejos e o que os motiva. Quando
isso acontecer, não vai precisar mais de uma mulher loura e de aspecto "limpo" para o despertar sexualmente e de uma mulher como Maggie para amar à distância.
Ficará capacitado a dar e aceitar o amor na sua totalidade.
- Archie, eu vou fazer quarenta e um anos. Acho que é tarde demais para mudar de personalidade. Preferia ter continuado a dormir com uma loura sempre que sentisse
vontade.
- Afundou-se numa poltrona. - Caramba, quer dizer que eu não sou eu, Kitty não é minha mãe. E não sei quem é o meu pai, nem quem era a minha mãe. - Soltou uma
gargalhada forçada. -E pensar que eu sentia pena de Amanda! Eu, ornais miserável bastardo deste mundo! Eu, Conrad quê?
404
- Nada disso, você é Robin Stone. Um nome não faz um Homem. Mas você tem vivido até aqui, com algumas das emoções de Conrad. Procure trazê-las à superfície, arejá-las.
Conserve as boas e liberte-se das prejudiciais.
- Quais são as prejudiciais?
- O ódio pela sua verdadeira mãe.
- Oh, mas ela era um amor - disse Robin. - A mãe de Amanda, pelo menos, só andou com um homem. A minha... livra!
- Era uma pobre rapariga alemã, sozinha num país estranho. Evidentemente, o homem com quem ela casou trabalhava para um gangster. Quando ele foi morto, o patrão
provavelmente lançou-a na prostituição. Não se esqueça de que, quando você nasceu, ela podia ter-se desembaraçado de si. Tê-lo posto num orfanato. Mas ela amava-o.
Fez o possível para lhe dar um lar, por economizar dinheiro para levá-lo de volta à sua pátria. Ela amava-o, Robin.
Ele cerrou os punhos.
- Porque diabo Kitty não me contou? Porque me criou na crença de que eu era mesmo seu filho?
- É evidente que você ficou em estado de choque quando a sua mãe morreu. Ao recuperar-se, tinha perdido completamente a memória. Contar-lhe que tinha sido adoptado
poderia reactivar-lhe as más recordações, que embora fosse muito pequeno, você queria esquecer. Provavelmente aconselharam-na
a não contar. - Um brilho duro surgiu
nos olhos de Robin. - Oiça, Robin, não quero que você sinta pena de si próprio. É um homem de sorte. Teve uma mãe que o amou e teve Kitty, que o amou a ponto de
o adoptar e de lhe esconder o segredo. Uma pessoa que recebeu tanto amor, não tem que andar pela vida sem dar nada de si mesmo.
Robin levantou-se.
- Pois eu acho que não tenho que andar pela vida sem fazer nada de mim mesmo.
- Quer quer dizer com isso?
- Lisa sabe a verdade: uma coisa que ela me disse deu-me
405
aperceber isso. E Kitty também sabe, é claro. Provavelmente ela está preocupada comigo. Acha que eu preciso de protecção. Que eu sou fraco. Acham que eu preciso
de mulher e filhos, como uma espécie de âncora. Meu Deus, passei estes trinta e cinco anos iludido. Kitty e Lisa têm pena de mim. Pois bem, eu não preciso de piedade.
E não preciso de mulher. Não preciso de filho. Não preciso de ninguém, inclusive de si! Está a perceber? Eu não preciso de ninguém! E, de hoje em diante, ninguém
me vai dar nada. Eu vou conseguir tudo por mim mesmo.
Pegou no casaco e saiu do consultório.

Capítulo vigésimo quinto
Maggie espreguiçou-se, deitada na enorme cama de casal. Sorriu, ao ouvir Adam, com a sua voz de barítono, a cantar debaixo do chuveiro. Precisava de dormir bem.
No dia seguinte, domingo, Adam prometera-lhe ajudar no novoscript. Só de pensar nisso enchia-se de rnedo, o medo que ela sentia desde que Karl Heinz Brandt a escolhera
para estrela do seu novo filme. De nada servia Adam dizer-lhe que não ficasse assustada: ela estava apavorada. Karl Heinz era conhecido pela sua maneira sádica
de tratar os actores. Humilhava os astros mais famosos, a fim de conseguir o que queria. Maggie esforçou-se por afastar esse pensamento e apanhou um número da
revista semanal Variety. Nunca tinha tempo de ler, a não ser revistas especializadas e, mesmo assim enquanto estava a ser penteada ou maquilhada. Há quanto tempo
não lia ela um jornal? Os colunistas atacavam-na por ela viver com Adam Bergman na sua casa de praia. Tinham descoberto que ela tinha sido casada com Hudson Stewart.
Condenavam uma rapariga "decente" por ela ignorar abertamente a instituição do matrimónio. Entretanto,
Hi Mandei estava encantado com a onda. Achava que ela se estava a tornar
uma personalidade. E, quando Karl Heinz a escolhera para interpretar o seu novo filme, a avalanche de publicidade fizera-lhe subir o cartaz.
Uma revista de actualidades chamara-lhe a "Dama das Dunas" e publicara uma foto dela a caminhar descalça ao luar com Adam pela praia de Malibu. O facto de ela
recusar
sistematicamente todos os convites para as festas "correctas" serviu para aumentar a lenda em volta da sua pessoa. A verdade e que ela não ia porque tinha medo.
Gostava de viver com Adam, gostava de trabalhar com ele, gostava de dormir com ele. E nenhum dos dois falava de casamento. Nem pensavam.
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Tudo isto lhe veio à ideia, enquanto folheava a Váriety. Ao chegar à secção de televisão, acendeu um cigarro e passou em revista todas as notícias. Depois, leu
as cotações. Christie Lane estava em primeiro lugar! E o programa de Robin, Happening, estava entre os vinte primeiros.
Tivera directamente notícias dele em Fevereiro, ele estava a planear um programa sobre o mundo da moda. Enviara-lhe uma carta escrita à máquina, oferecendo-lhe
viagens pagas, acomodações de primeira no Plaza e cinco mil dólares se quisesse actuar como comentarista convidada. Ela escrevera uma carta em papel da Century,
a explicar que o cachet da Miss Stewart para aparecer na TV era de vinte e cinco mil dólares, mas que, infelizmente, os seus compromissos cinematográficos impediam-na
de entrar em negociações para aceitar o convite. Assinara a carta "Jane Biando, secretária de Miss Stewart".
Adam saiu do chuveiro com uma toalha amarrada à cintura. Ela ficou a vê-lo pentear o cabelo e a pensar em como era feliz. Adorava Adam. Então, porque razão pensava
sempre, subconscientemente, em Robin? Talvez porque ainda o desejasse? Sim, era isso mesmo! Alfie Knight é que explicara bem esse sentimento. Estava apaixonado
por
Gavin Moore, o famoso cenógrafo, mas andara atrás dela durante todas as filmagens. E, quando o filme ficara pronto, continuara a telefonar-lhe. Um belo dia, dissera:
- Minha querida, acho que vai ter um caso comigo, para eu poder voltar a ser um homossexual feliz e bem ajustado.
- Ora, Alfie, não está apaixonado por mim - retorquira ela.
- Claro que não. Eu adoro Gavin. Ele é o amor da minha vida, esta temporada. Mas, minha querida, quando estou a fazer um filme, tenho de me convencer de que estou
apaixonado pela estrela, para poder trabalhar como deve ser. O diabo é que às vezes sai bem demais e, quando o filme acaba, tenho de fugir para Palm Springs a
fim de me livrar delas. Mas, você foi sempre tão distante, que se tornou uma obsessão para mim408
Ela contara a Adam e ele rira.
- No fim de contas, deves-lhe qualquer coisa, ele é que fez que te saísses tão bem no filme. E a obsessão é a pior espécie de doença. Tens que fazer qualquer coisa
para o curar.
- Queres dizer que me deixarias dormir com Alfie? perguntara ela em tom de brincadeira.
- Claro, se me deixassem assistir - respondera ele, em tom perfeitamente sério.
Para seu próprio espanto, ela telefonara a Alfie, expondo-Ihe a proposta de Adam. Alfie aceitara radiante. Viera à casa da praia e os dois tinham-se amado, enquanto
Adam assistia, deitado ao lado deles, na cama. O mais incrível é que ela não sentira vergonha. Depois ela ficara a ver Alfie ter relações com Adam. E tudo lhe
parecera perfeitamente normal. Uma vez terminado, tinham ido todos para a cozinha e feito ovos mexidos. E continuavam amigos.
Talvez Adam tivesse razão. Alfie voltara para Gavin, mas a obsessão que ela sentia por Robin Stone ainda a atormentava. Tinha a certeza que um dia voltariam a
encontrar-se. Ele estaria cheio de voldka; ela saltaria da cama e atirar-lhe-ia em cima um jarro de água fria. Ele que tentasse fingir que não sabia o que tinha
acontecido, depois disso!
Adam interrompeu-lhe os pensamentos, deixando cair a toalha e avançando para ela. Depois, correram para um mergulho para o oceano e, quando voltaram para casa,
ela aninhou-se nos braços de Adam, adormeceu e sonhou com Robin.
Foram de avião a San Francisco, assistir àpremière especial do filme. Maggie ficou todo o tempo agarrada ao braço de Adam, enquanto ele
comiapop-com. Karl Heinz
estava sentado na fila da frente, ao lado de uma jovem estrela. Outros Membros do elenco estavam também na plateia.
Maggie prestou bastante atenção ao filme, para ver se conseguia ser suficientemente objectiva para poder analisar o
409
seu desempenho. Sabia que nunca estivera tão bonita; o cinema era fantástico! Toda ela era olhos, maçãs do rosto e cabelo soprado ao vento. As roupas também eram
lindas. Adam queixara-se de que ela estava magra demais, mas a verdade é que na tela ficavam bem. Sentou-se na ponta da cadeira. A cena principal estava próxima.
Assim que começou, ela procurou ver as reacções da plateia. Mal podia acreditar: as pessoas pareciam, realmente afectada pelo seu desempenho!
Quando o filme acabou, Adam pegou-lhe na mão, murmurando, enquanto saíam a correr:
- Minha querida, estás uma actriz e tanto! Essa última cena estava formidável.
Saíram do cinema mesmo na altura em que as pessoas começavam a levantar-se. Ficaram de pé na calçada, à espera de Karl Heinz e dos outros. Maggie estava ainda
apreensiva. Mas, quando Karl Heinz saiu do cinema, ela sossegou. Ele vinha a sorrir. Estendeu os braços para ela e beijou-a.
Uma semana depois dapremière especial, Hy Mandei, o seu agente, marcou encontro com ela no Polo Lounge, do Beverly Hills Hotel. Esperou que trouxessem as bebidas
e depois entregou-lhe o novo contrato com uma reverência.
- Conseguimos, querida! Quando os grandes chefes da Century assistiram à projecção do teu novo filme, perceberam que não te podiam forçar ao velho contrato de
setenta e cinco mil dólares por filme. Então eu disse: "Meus senhores, ela poderá continuar a fazer filmes para vós, mas não se sentirá satisfeita. E, então o
que acontecerá? Não se sentindo satisfeita, ela não dará tudo o que pode. E vocês destruirão uma estrela em ascensão. Que dirão os accionistas? Principalmente
porque se trata de uma super-produção, três horas e meia quase só com ela. Três horas e meia interpretadas por Maggie Stewart", repeti. "Que irão dizer por aí,
quando souberem que deixaram morrer uma estrela, criada por outro realizador?" E o resultado está aqui! Vê o novo contrato! Duzentos e cinquenta
410
mil dólares por cada um dos teus próximos dois filmes, mais trezentos mil dólares pelo terceiro, além de vinte e cinco por cento dos lucros líquidos!
Ela fez que sim com a cabeça e continuou a beber o seu gloody Mary. Ele prosseguiu.
- Agora, ouve, o filme só começa a ser rodado em Fevereiro. A quinze de Janeiro, tens de estar de volta para as provas do guarda-roupa.
- Quinze de Janeiro! Que bom! Ainda estamos a dez de Dezembro!
- Isso mesmo. Conseguimos umas feriazinhas para ti. Ela olhou desconfiada para ele. Hy riu.
- Bem, talvez não sejam umas férias, mas pode-se conciliar tudo. O facto é que vai haver umapremière de gala de A Mulher Dilacerada em Nova Iorque, e...
- A Mulher Dilacerada? - Ela torceu o nariz. - Esse é o título definitivo?
- Não aches mau, querida. Quando o título eraHencterson, todos pensavam apenas no artista. Assim, o filme fica sendo teu.
Ela sorriu.
- Está bem. Agora, diz-me o que tenho de fazer.
- Ora, não é nada assustador: ir a Nova Iorque e comparecer à estreia não é trabalho de estivador.
- Sim, mas além disso há as entrevistas, os programas de televisão e nem um minuto para mim própria.
- Enganas-te. O filme estreia-se a vinte e seis de Dezembro. Só tens que estar em Nova Iorque a vinte e dois.
- E trabalhar do dia vinte e dois até à grande noite de estreia.
- Sim, mas podes fazer o que quiseres até ao dia vinte e dois. E, se quiseres ir mais cedo para Nova Iorque assistir às ultimas peças, podes ir. Ou, se quiseres
ficar mais uma semana depois da estreia... de qualquer modo, são umas feriazinhas.
Desde que estejas de volta no dia quinze de Janeiro, o resto escolhes tu. Porque
não vais já? O estúdio paga.
411
Ela abanou a cabeça.
- Acho que vou ficar na praia a descansar. vou aproveitar enquanto o tempo está bom ainda.
- Maggie -disse ele -eu não quero que fiques na praia. Ela olhou para ele com curiosidade.
- Todos sabem que eu vivo com Adam.
- Porque não te casas com ele?
- Porque não quero.
- Então, porque vives com ele?
- Porque me sinto só. Viverei com ele até... - Estacou.
- Até encontrares o homem dos teus sonhos? Maggie, já pensaste que não encontrarás ninguém, enquanto viveres com Adam?
- Já o encontrei.
Hy olhou para ela, surpreendido.
- Encontrei-o há quatro anos - continuou ela - mas...
- Ele é casado?
Ela fez sinal que não.
- Hy, não falemos mais nisto. Estou satisfeita com o meu trabalho, sinto-me feliz com Adam.
- Tenho sessenta anos - disse ele, lentamente. - Estou casado com Rhoda há trinta e dois. Ela tem cinquenta e nove. Casei-me com ela quando eu tinha um pequeno
escritório na Rua Quarenta e Seis e Rhoda estava a terminar a faculdade. Quando nos casámos ela era uma virgem de vinte e sete anos e eu não fiquei espantado.
Naquele tempo a gente esperava que as raparigas fossem virgens. Hoje, uma virgem de vinte e sete anos é quase uma piada. Hoje, um tipo que não engana a mulher
é quase um palhaço. Pois bem, eu sou um desses palhaços. Talvez Rhoda tenha dez quilos a mais do que deveria ter. E talvez eu não tenha já tanta vitalidade. Há
dois ou três anos que eu e Rhoda não temos relações. Mas temos uma boa vida em comum. Temos filhos crescidos e netos e ainda dormimos na mesma cama e damos a mão
quando vemos a televisão. Mas agora damos a mão com um amor diferente Desde que me tornei um dos principais agentes de Hollywood
412
e principalmente agora que me estás a dar fama, vejo-me assediado por lindas raparigas de vinte e um anos, as mesmas raparigas que nunca me teriam olhado quando
eu era mais jovem. Ainda no outro dia veio uma. Nunca vi um corpo tão bem feito! Debruçou-se sobre a minha mesa, e só faltava deitar-se por cima de mim. Mas, sabes
uma coisa? Todos os dias, quando faço a barba, me vejo ao espelho. Vejo um tipo quase careca e barrigudo. Talvez eu devesse ter apanhado a loura. Talvez rolássemos
na cama juntos. Mas eu não me iludo. Ela não iria para a cama comigo por causa do meu perfil e sim por causa das minhas relações. E isso que lhe interessa, relacionar-se
com gente importante através de mim. Por isso pergunto: Hy, achas que vale a pena? E respondo que não. Tenho visto tipos da minha idade a andarem com raparigas
mais novas que as próprias filhas. Mas não as exibem. Vão ao La Rue todos os domingos à noite com esposas. Estás a perceber o que quero dizer? Está muito bem manter
uma ligação, mas conservando as aparências em benefício dos filhos e da mulher. Maggie, tu não tens filhos mas tens o teu público, e ainda há muita gente que
pensa como eu e não tem vontade de pagar três dólares de entrada para ver uma mulher bonita a chorar porque vai morrer e deixar o filho e o marido, sabendo que
essa rapariga vive com um homem numa praia, sem estarem casados.
- Já gastei demasiado tempo da minha vida obedecendo a regras e convenções - retorquiu ela.
Ele suspirou.
- Maggie, que se passa com a juventude de hoje? Será que estou tão ultrapassado? Tudo o que te peço é que te cases com Adam ou então vivas sozinha. Dorme com ele,
corre pela praia com ele, mas, por favor, mora sozinha.
Ela riu.
- Está bem, Hy, quando eu voltar de Nova Iorque, virei Para este hotel. Entretanto, podes procurar um apartamento Para mim.
- Acontece que eu, acidentalmente, já descobri um aparCamento que talvez te servisse. Mobilado, no Melton Towers.
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Quatrocentos dólares por mês, telefone, mesmo no centro de Beverley Hills. Vem, levo-te lá.
Maggie viu o apartamento. Era exactamente o que ela precisava. Tinha um grande living, cozinha completa, quarto de dormir e uma sal inlia, com um bar. O vendedor
que lhes mostrou o apartamento já tinha o contrato pronto. Maggie riu, ao perceber que Hy já tinha escolhido o apartamento antes de conversarem. No dia seguinte,
Adam ajudou-a na mudança. Ficou na praia, pois estava a ler o script para um novo filme.
Após dois dias sozinha no novo apartamento, Maggie começou a ficar nervosa. Adam ia partir na semana seguinte para filmar no Arizona. Ela ficaria sozinha em Los
Angeles. Telefonou a Hy e disse-lhe que, se o estúdio ainda estivesse disposto a pagar-lhe as despesas, ela iria a Nova Iorque para a estreia.
Adam levou-a ao aeroporto. Ela posou para o agente de publicidade da companhia de aviação e depois Adam convidou-a a tomar uma bebida no bar da TWA.
- vou ficar três meses a filmar - disse ele. - Quando eu voltar, vou morar contigo. É um belo apartamento e, na praia, em Março, faz muito frio.
Ela olhou para os aviões na pista e retorquiu:
- Já te disse o que Hy me pediu. Ele sorriu.
- Bem, diz-lhe que eu também sou um rapaz decente. Podíamos até casar, Maggie. Acho que resultaria. Tu não te importarias se eu de vez em quando dormisse com outra
mulher.
- Não, acho que me importaria, sim - disse ela, lentamente.
- Oh, queres dizer que pretendes um casamento certinho e convencional, igual ao primeiro?
- Não, mas não quero sei parte de um casamento... como o apartamento ou os móveis. Quero que tenhas ciúmes de mim, Adam.
- Ora, não fechaste os olhos quando Alfie partilhou a
cama connosco.
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.- Mas não compreendes? Aquela não era eu. Ele encarou-a com o seu olhar directo e intenso.
- Deixa-te disso, Maggie. Ninguém pode retroceder. A rapariga que dormiu com Alfie és tu. Mas, de repente, deste
para
ficar toda cheia de coisas e armar em romântica com vistas
ao que esperas do casamento. A nossa vida na praia é que serve para gente como nós.
Tomou o silêncio dela como aceitação e agarrou-lhe a mão.
- Casaremos quando eu voltar do Arizona. vou já anunciar à imprensa.
Ela retirou a mão.
- Não te atrevas a fazer isso! - exclamou, com os olhos a dardejar. - Não vou deitar a minha vida por água abaixo a viver contigo e a fingir que representar é
uma arte. Representar é uma profissão! Mas a vida é mais do que representar e desculpar os nossos desvios sexuais com o argumento de que somos artistas. Quero
um marido, não um jovem e brilhante realizador que fuma marijuana e de vez em quando se deita com um homem para se divertir.
Ele zangou-se.
- Quando te zangas, não tentas dourar a pílula. - Estalou os dedos. - Pronto, acabámos.
- Talvez nunca tenhamos começado, Adam.
- Bem, boa sorte. E fica sabendo que a casa da praia está sempre às tuas ordens.
Um agente de imprensa da Century Pictures, chamado Sid Goff, estava à espera de Maggie no Aeroporto Kennedy, em Nova Iorque. Os fotógrafos avançaram, osfashes
rebentaram. Sid apanhou a bagagem de mão e escoltou Maggie até ao grande carro preto que o estúdio
alugara. Os repórteres correram atrás, bombardeando-a com perguntas, enquanto
a bagagem era guardada no porta-bagagens. Finalmente, o carro saiu do aeroporto e ela reclinou-se, a suspirar.
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- Não pense que todo esse acolhimento quer dizer publicidade garantida - disse Sid Goff, com voz lúgubre. - Talvez não consigamos sair nem num jornal.
- Porquê? - perguntou ela.
- Diana Wiliams chega no próximo avião. Provavelmente, todos os jornais vão ocupar-se dela, amanhã.
- Pensei que ela estava a fazer uma série para a televisão
- disse Maggie.
- Foi cancelada, de modo que, de repente ela quis trabalhar numa peça da Broadway, Ike Ryan contratou-a. Começam a ensaiar em Fevereiro.
Maggie sorriu.
- Bem, não se preocupe. A Century só quer saber da cobertura da imprensa no dia dapremière.
- Isso é o que você pensa - retorquiu Sid, em tom lamentoso. - Se as fotos da sua chegada não saírem nos jornais, vou ouvir gritar a toda a gente, lá na Califórnia,
sem precisar de telefone. Temos uma porção de programas para você aparecer, e também algumas entrevistas a jornais. Tirou do bolso um envelope, com o programa
batido
à máquina. - Depois disso, se não me engano, poderá ficar até ao dia catorze de Janeiro, se quiser que a Century lhe pague as despesas. Já tem aposentos reservados
no Plaza até ao dia vinte e seis. Se quiser ficar mais, comunique já no hotel.
Ela passou em revista o programa.
- É incrível! - disse. - Nem o Natal vou ter livre! Vocês arranjaram duas festas para eu comparecer.
- John Maxwell é um dos maiores accionistas da Century. Tem uma casa enorme em River House. A festa vai estar cheia de gente rica, mas ele adora celebridades e
pediu para que comparecesse. À outra, no Fórum, não pode faltar, toda a imprensa estará presente. É a festa que Ike Ryan vai dar em honra de Diana Williams.
- Nunca vou a festas - disse ela.
Sid Goff encarou-a como se não pudesse acreditar nos seus ouvidos.
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Depois de alguns minutos de silêncio, ele disse:
- Miss Stewart, o seu agente prometeu à Century que você viria a Nova Iorque para promover o filme e, ao mesmo tempo, aproveitar todas as oportunidades de obter
publicidade pessoal. Trata-se de um filme de Karl Heinz Brandt e a Century está a arcar com as despesas da viagem para fazer com que você se torne famosa para
eles.
- Compreendo - respondeu ela. - E concordo em conceder entrevistas e aparecer na televisão. Mas não há nada no meu contrato que me force a comparecer a festas
dadas por accionistas. Se o sr. Maxwell quiser que eu vá abrilhantar a festa dele, o meu cachet é de vinte e cinco mil dólares.
Sid Goff inclinou-se para a frente e fitou as pontas dos sapatos.
- Talvez tenha razão quanto a John Maxwell. Realmente não a podem obrigar a comparecer. Mas vai haver um bocado de cobertura na festa de Diana Williams. Por favor,
não falte a essa festa.
Ela teve pena dele e abrandou. Aquela era a profissão dele e, se ela pudesse colaborar indo à festa de Diana Williams, porque não? Mas à de John Maxwell, nunca!
Como tinha quatro dias livres antes de começarem as entrevistas, Maggie convidou os pais a irem visitá-la a Nova Iorque. Arranjou-lhes bilhetes para os principais
teatros e levou-os a jantar. Sid Goff tratou de reservar mesas, contratar carros e afastar os admiradores. Voltaram a Filadélfia na véspera do Natal, em estado
de choque ante a inesperada fama da filha.
Maggie sentiu-se tremendamente só, no dia de Natal. Tinha uma arvorezinha de Natal que a família lhe trouxera, e uma planta meio murcha... com os cumprimentos
do estúdio. Os programas de Natal transmitidos pela Rádio só faziam deprimi-la ainda mais. Começou a gostar da ideia de comparecer à festa de Natal em honra de
Diana Williams: pelo menos sairia do hotel.
Sid Goff telefonou-lhe às cinco horas.
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- Só precisamos de ficar uma hora - disse-lhe ele. .
Depois, pode sair e ir ter com os seus amigos.
- Que vai fazer, Sid? - perguntou ela.
- O mesmo que você: desaparecer. A minha mulher reuniu a família.
O Fórum estava superlotado. Mal ela entrou os fotógrafos começaram a tirar fotografias. O agente de imprensa de Ike Ryan pediu-lhe que posasse ao lado de Ike e
Diana Williams. Maggie ficou espantada com Diana. Não devia ter ainda quarenta anos, mas parecia tão gasta! Magra, demasiado magra. E a sua exuberância dava a
impressão de estar a um passo da histeria. Parecia feliz, demasiadamente feliz, demasiadamente simpática; e o copo de sumo de laranja que ela segurava na mão
era salpicado de gin. Maggie posou ao lado dela. Trocaram os elogios habituais. Maggie sentia-se tão jovem e
saudável ao lado da outra!
E também sentia pena dela. Todos rodeavam Diana, mas os olhos dela pareciam não ver ninguém.
Maggie ia passar pelo bar, dirigindo-se para a porta, quando deu de frente com um homem alto e bronzeado, que entrava. Ele olhou para ela com ar incrédulo, mas
logo o habitual sorriso lhe iluminou o rosto. Maggie tão pouco podia acreditar: Robin Stone, numa festa de Natal em honra de Diana Williams!
Ele agarrou-lhe as mãos, com o espanto transformado em alegria.
- Olá, estrela!
- Olá, Robin - retorquiu ela com um sorriso frio.
- Maggie, estás linda.
Sid Goff rondou-os discretamente, mas Maggie sabia que ele queria ir para casa, para o jantar em família.
- vou sair - disse ela. - Tenho outros compromissos. Ele sorriu compreensivamente.
- Também estou aqui em negócios. Preciso convencer Diana Williams a fazer um dos meus Happenings. É um projecto ultra difícil, mesmo que ela concorde, mas Ike
Ryan e meu amigo. Filmarei o primeiro dia de ensaios no set ainda
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vazio, depois o ensaio final em Filadélfia e a estreia em Nova Iorque, seguidos de entrevistas com Diana, Ike e o elenco... Estacou. - Desculpa, Maggie, que maneira
esquisita de te dizer que estou feliz por voltar a ver-te! Maggie riu e depois olhou para Diana.
- Acha que ela ainda está em forma? O rosto de Robin ficou sério.
- Acho que és a última pessoa a poder julgar o talento, pelos padrões de Hollywood. Quando Diana se sai mal, ainda é muito melhor que a maioria das estrelas de
Hollywood. Começou na Broadway vai fazer vinte anos, quando tinha dezassete. Não foi criada com ângulos de câmara, reflectores e agentes de imprensa.
- Acho que preciso mesmo de me ir embora - disse ela, com voz fria.
Ele agarrou-lhe o braço.
- Devo dizer-te que começaste bem. Como é que foi isso?
- Sorriu. - Mas vamos tratar de coisas mais importantes. Quando posso ver-te?
- Não sei. - De repente, ela sorriu, desafiadora. - A ante-estreia do meu novo filme é amanhã à noite. Talvez queiras ver o que os reflectores e os agentes de
imprensa são capazes de fazer. Queres ir comigo?
- Não gosto de ir ao cinema de gala. Gosto de assistir a filmes a comer pop-corn. Porque não vamos depois de amanhã?
Ela encarou-o.
- Disse amanhã à noite. Nunca faço planos com tanta antecipação.
Os olhares de ambos encontraram-se e ele riu-se.
- Está bem, boneca, por ti desisto do pop-corn. A que horas devo ir buscar-te e onde?
- Às oito no Plaza. O filme começa às oito e meia, mas antes é a reportagem de televisão. Infelizmente tenho de estar presente.
- Não faz mal. vou buscar-te às oito.
O agente de imprensa voltou e acompanhou-a até à porta.
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Robin ficou a vê-la sair e depois atravessou a sala, para junto de Diana Williams.
Às cinco para as oito, ela começou a ficar nervosa. Era ridículo preocupar-se, disse consigo mesma. Acima de tudo Robin era um cavalheiro. Não lhe daria com os
pés, e além disso, só ficara de chegar às oito. Às três para as oito, ficou a pensar se não deveria telefonar para Sid Goff, a pedir-lhe que a acompanhasse.
O telefone tocou às oito em ponto: Robin estava à espera dela no hall. Maggie olhou-se pela última vez ao espelho. Robin provavelmente detestaria a sua toilette.
Vestido branco rebordado (emprestado pelo estúdio), casaco de vison branco (emprestado ao estúdio por um peleiro de Hollywood) e o cabelo solto, aumentado por
uma peruca (cortesia do cabeleireiro do estúdio, que fora especialmente ao hotel penteáfla da mesma maneira que no filme). Que loucura, pensou, enquanto o elevador
descia. Tinha tanto cabelo, para quê aumentá-lo com uma peruca? E os enormes brincos de brilhantes e esmeraldas (também emprestados e segurados) faziam-na sentir-se
pesadíssima.
Robin sorriu ao vê-la sair do elevador. Surpreendentemente, o aceno de cabeça que acompanhou o seu sorriso parecia demonstrar-lhe aprovação. Não falaram enquanto
não se livraram dos caçadores de autógrafos em frente do hotel, desafiando o frio para lhe tirarem uma fotografia ou conseguir-lhe o autógrafo. Uma vez instalados
no carro, ela recostou-se, mas depressa se endireitou.
- Meu Deus, acabo por perder a peruca. Ele riu.
- Pensei que o teu cabelo tivesse crescido de ontem para hoje.
- É demais? - perguntou ela, hesitante.
- Não, estás simplesmente maravilhosa - respondeu ele. - Ouve, encara a coisa como se fosse um baile de
máscaras.
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No fundo é o que é. Estás mascarada de estrela de cinema. Representa o teu papel até ao fim.
A multidão em frente do cinema era de meter medo. O carro deles ficou quinze minutos na fila, enquanto outros carros despejavam homens de gravata preta e mulheres
carregadas de jóias. Quando uma mulher envolta em vison saía do carro e não era reconhecida pelos admiradores, ouvia-se um fnurmúrio de desapontamento. Maggie
olhou para a multidão, de dentro do carro. Barricadas de madeira e polícias fardados continham os admiradores. Do outro lado da rua, um camião servia de base
a um enorme reflector. Uma passadeira vermelha tinha sido estendida na calçada. Os fotógrafos pareciam impacientes e deslocados, nos seus trajes a rigor. Quando,
por fim, o carro dela encostou junto à passadeira, os fotógrafos avançaram. A multidão aplaudiu e rompeu o cordão policial. Algumas mãos mais afoitas tocaram
no vison branco, enquanto se ouviam gritos de "Maggie, Maggie". Sid Goff e outro agente de imprensa rodearam-na protectoramente. Ela procurou Robin. Ele desaparecera.
Em pânico, sentiu que a empurravam na direcção de um homem alto, de microfone na mão. Quando ela chegou ao lado dele, osflashes rebentaram, a câmara de televisão
aproximou-se. Oh, Deus, onde estaria Robin?
De repente, Sid Goff ajudou-a a entrar nohall, onde Robin a esperava com aquele maravilhoso sorriso de compreensão. Segurou-lhe o braço e os dois desafiaram o
público
elegante que se congregava no hall, olhando uns para os outros. Ela encaminhou-se para o seu lugar e logo o público a seguiu, as luzes apagaram-se e a música e
o
genérico inundaram a tela.
Quando a cena final chegou, Sid Goff fez-lhe sinal. Curvados, saíram dos seus lugares e saíram da sala. Chegaram ao carro no momento exacto em que as portas se
abriam e a brilhante plateia começou a sair.
Robin segurou-lhe na mão.
- Acho que te saíste maravilhosamente bem. E estás excelente, no filme. Agora diz-me: ainda tens mais alguns compromissos esta noite ou estás livre?
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- Há uma ceia regada a champanhe, no American Hotel.
- Claro!
Ambos riram. De repente, a ideia de se sentar num salão de baile profusamente iluminado, à mesa de Karl Heinz e do galã do filme, e posar para mais fotografias,
parecia-lhe intolerável.
- Não vou! - exclamou ela.
- Óptimo. Que tal se fôssemos ao bar do teu hotel?
- Não, tenho uma ideia melhor. Estes brincos estão a incomodar-me e, se não tiro já a peruca, vou apanhar uma dor de cabeça. Que tal vestir umas calças e irmos
ao P J.'s?
- És a mulher das ideias mais brilhantes que já conheci. Mas não és só tu que vais mudar de roupa. vou levar-te ao hotel e deixo o carro. Quando estiveres pronta,
podes apanhar-me.
Vinte minutos mais tarde, ela estava de novo no carro, metida numas calças e num casaco desportivo de pefe de carneiro branco. Usava óculos escuros e fumava nervosamente,
enquanto se dirigia para o edifício dele, no East River. Robin estava à espera do lado de fora. Usava uma camisola branca, calças cinzentas e mais nada. Sentou-se
ao lado dela, dizendo:
- Que tal "irmos" ao Lancer Bar? É mais sossegado que o P. J.'s.
Ela fez que sim e o motorista dirigiu-se para a Rua Cinquenta e Quatro. Era o mesmo bar, o mesmo barman. Não havia ninguém, a não ser um casalinho novo, a beberem
de mãos dadas. Robin pediu um uísque para ela, um martini para si e dois grandes bifes.
Levou-a para uma mesa escondida e ergueu o copo.
- Este filme vai consagrar-te Maggie.
- Achas que estou bem?
- Pelo menos convencerás os críticos de que és capaz de representar.
- E tu não achas que sou capaz?
- Importa-te? Ela sorriu.
- Mera curiosidade.
Ele apertou os lábios, pensativo.
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- Minha querida, tu não és capaz de representar. Mas isso não interessa: és uma maravilha em fotogenia. O teu futuro está garantido.
- Não acreditas que haja realmente estrelas?
- Acredito, mas têm que ser génios ou loucas.
- Talvez eu seja uma dessas duas coisas. Ele riu.
- Não me refiro a génios intelectuais, e sim a génios emocionais. Acho que a fronteira entre o génio e a loucura é quase invisível e graças a Deus não te enquadras
em nenhuma dessas categorias. Diana Williams é um génio e uma louca, coitada. Pensando bem, acho que nunca conheci um génio equilibrado e feliz. - Tomou-lhe as
mãos. - Graças a Deus que és apenas uma bela mulher que, não sei porque circunstância, está a fazer sucesso em Hollywood. Sim, porque estás longe de ser louca.
És tudo o que um homem deseja numa mulher.
Maggie conteve a respiração e esperou pela contra partida, pelo insulto velado, pela ironia. Mas os olhos de ambos encontraram-se e ele não sorriu.
Era uma hora quando saíram do Lancer Bar.
- Tens muitos compromissos para amanhã? - perguntou ele.
Ela abanou a cabeça.
- Daqui em diante, estou livre. Ele não escondeu a sua alegria.
- Até quando podes ficar em Nova Iorque?
- Até ao dia catorze de Janeiro, se eu quiser.
O carro parara em frente ao Plaza. Ele olhou para ela.
- Eu quero. Que tal jantarmos juntos, amanhã?
- Adoraria, Robin.
Ele beijou-a ternamente e acompanhou-a até ao elevador.
- Telefono-te antes do meio-dia. Dorme bem.
As onze horas, ela acordou com o telefone. Deixou-o tocar um pouco. Era Robin sem dúvida e ela queria estar acordada. Quando, finalmente, atendeu, ficou espantada
ao ouvir o
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criado da reserva perguntar-lhe a que horas ia sair do hotel
- Não vou sair - respondeu ela, cortante. - vou ficar pelo menos mais duas semanas. - Desligou e voltou a deitar-se. Só acordaria quando Robin telefonasse. Mas
o
telefone tocou de novo. Desta vez, era o gerente.
O tom untuoso era de quem pedia desculpas.
- Miss Stewart, a sua reserva termina hoje. Disseram-nos que a menina nos avisaria se pretendesse ficar mais tempo. Infelizmente, o hotel está totalmente cheio.
Se nos tivesse dito...
Ela agora estava mais do que acordada. Caramba, esquecera-se. Bem, encontraria outro hotel. O gerente pôs-se à disposição dela para lhe encontrar alojamentos.
Quinze minutos mais tarde, voltou a telefonar.
- Miss Stewart, a situação não está nada boa. O Reg£ncy, o Pierre, o St. Regis, o Navarro e o Hampshire estão todos cheios. Não tentei ainda os hotéis comerciais,
não sabia se quereria.
- Muito obrigada - respondeu ela. - vou ver se a Century pode fazer alguma coisa. - Telefonou para Sid Goff. Ele ficou desolado. - Maggie, avisei-a de que tomasse
providências. Vamos ver o que posso fazer.
Ela estava a fazer as malas quando Robin telefonou. Explicou-lhe os apuros em que se encontrava.
- Acho que vou acabar nalgum hotel de terceira, de forma como as coisas se encontram. Sid Goff ainda não respondeu, e se ele não puder fazer nada, ninguém poderá.
- Diz-lhe para não tentar mais - retorquiu Robin. Deixa comigo.
Vinte minutos mais tarde, ele telefonava-lhe do hall, dizendo-lhe para descer as malas.
O carro estava à espera. Assim que entraram, ele deu ao motorista o endereço do seu edifício. Ela olhou para ele, surpreendida.
- Não é o Regency - disse Robin. - Mas tenho uma empregada todos os dias e é bastante confortável, mesmo para
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uma estrela como tu. Dormirei no clube.
- Robin, não te posso fazer isso.
- E não vais fazer. Eu é que vou.
Maggie gostou do apartamento. Inconscientemente o seu olhar voltou-se para a grande cama de casal e perguntou a si
mesma quantas mulheres ela não teria conhecido.
Ele entregou-lhe uma chave.
- Podes entrar e sair à vontade. Virei buscar-te para jantar.
- Apontou para o bar. - Tudo o que te peço, como aluguer, é que me prepares as bebidas. Se quiseres ser a minha namorada, tens de aprender a preparar um martini
de vodka. Três onças de vodka, uma gota de vermute, nada de casca de limão. Prefiro azeitonas.
Ela dirigiu-se obedientemente para o bar.
- Maggie! - ele riu. - Agora não. Só à noite.
Às sete ela tinha os martinis prontos. Comprara também dois bifes e espargos. Depois do jantar, ficaram a ver a televisão e ele segurou-lhe a mão, no sofá. Quando
o noticiário das onze apareceu no vídeo, ele foi até à cozinha e trouxe duas latas de cerveja, dizendo:
- Bem, estás em tua casa. Avisa-me quando quiseres que me vá embora.
- Quando quiseres - disse ela. Ele puxou-a para si.
- Eu não quero ir-me embora...
Tomou-a nos braços e beijou-a. "Muito bem", pensou ela: "diz-lhe que não tens vontade e que ele não é o teu tipo!" Mas colou-se a ele, beijou-o e, quando foram
para a cama de casal, ela teve a certeza de que não era o vodka o responsável: nem ele gritou Mãe, nem ela precisou de lhe atirar em cima um jarro de água fria.
Os cinco dias que se seguiram foram, para Maggie, incrivelmente felizes. Todas as noites iam jantar fora. Às vezes agasalhavam-se e davam um longo passeio a pé,
e uma noite foram ao cinema do bairro, mas nem uma noite deixaram de se
amar e de adormecerem nos braços um do outro.
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Ela pensava nisto ao vê-lo dormir. Saiu da cama e começou a fazer o café, enquanto olhava o East River e as suas águas cinzentas. Nunca se sentira tão feliz, e
ainda
faltavam catorze dias, porque não ser feliz para sempre? Robin estava apaixonado por ela, não havia dúvida sobre isso. Nunca tinham falado daquela horrível manhã
em Miami; ela sentia que era assunto arrumado. Mas o que agora estavam a ter era muito diferente. Ele sentia-se bem com ela, gostava de estar com ela. Talvez coubesse
a ela tomar a iniciativa. Claro que era! Como é que ele lhe ia pedir para desistir da carreira? Ela teria de o fazer compreender que, pela primeira vez na sua
vida,
se sentia plenamente feliz.
- Como o rio fica horrível, quando a manhã está cinzenta.
- Ele entrara na cozinha e estava de pé atrás dela. Curvou-se e beijou-lhe o pescoço. - Pensando bem, acho que esse rio é horrível mesmo num dia bonito. O sol
parece pôr a nu trclas as suas fealdades. Essas ilhotas horroroas e os rebocadores.
Ela deu meia volta e abraçou-o.
- É um rio lindo. Robin, quero casar contigo. Ele afastou-a de si e sorriu.
- É uma maneira auspiciosa de começar um novo ano.
- Resultará, Robin, tenho a certeza.
- Talvez. Mas não já, já.
- Se estás a pensar na minha carreira, eu já pensei. - Ele sorriu e estendeu a mão para a cafeteira. - vou fazer os ovos disse ela. - E tens sumo de laranja.
- Deixa de falar como uma dona-de-casa - disse ele. Pegou na chávena de café e desapareceu dentro do quarto. Ela não o seguiu. Sentou-se à mesa da cozinha e ficou
a olhar para o rio e a beber café. Bem, ele não dissera que não, mas também não parecera entusiasmado. Dez minutos mais tarde, ele voltou à cozinha. Ela ficou
espantada. Robin tinha vestido uma camisola de gola alta e um sobretudo por cima.
- Volto dentro de uma hora, tenho um trabalho a fazer- Inclinou-se e beijou-lhe a cabeça.
- No dia de Ano Novo!
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- Tenho de ver umas coisas no escritório. Trabalho melhor quando estou só, principalmente quando o edifício está vazio- Fica mais sossegado. Maggie, desculpa-me,
mas achas que poderias ir a uma festa, às cinco horas?
- Que festa?
- A festa de AnoNovodasr.a Austin. Não compareci três anos seguidos. No ano passado, lembrei-me de lhe mandar um telegrama. Mas desta vez não posso faltar.
- Oh, Robin, mandei de volta quase todos os meus vestidos. Era quase tudo emprestado pelo estúdio. Só tenho calças compridas e alguns vestidos pretos.
- Gosto de mulheres que viajam com pouca roupa. com um vestido preto ficarás arranjada.
- Mas é de lã...
- Maggie - ele aproximou-se e deu-lhe um toque na cara. - com qualquer outro vestido estás muito melhor do que todas as outras mulheres. Agora trata de lavar a
louça
para mereceres a hospedagem.
E saiu do apartamento.
Fazia frio, mas ele foi andando. Archie Gold não queria ir ao consultório, mas Robin insistira. Tinha a certeza de que Maggie não o ouvira falar ao telefone: a
cozinha
ficava no outro extremo do apartamento e ele falara em voz baixa.
Chegou ao consultório ao mesmo tempo que Archie.
- Robin, não costumo atender ninguém a um feriado e a qualquer hora. Há ano e meio que não vem ao consultório e agora, de repente, telefona-me a dizer que é uma
emergência.
Robin sentou-se.
- Preciso de um conselho. Maggie Stewart está em Nova Iorque. Temos saído juntos, tem dado tudo certo e agora está a viver comigo.
Archie acendeu o cachimbo.
- Então, não há problema.
- Há, sim! Ela quer casar.
- Quase todas as mulheres o querem.
- Mas não resultaria. Escute, casar é muita diferente de
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viver com uma mulher, isto é, para uma rapariga como Maegie. Nestes últimos cinco dias, ela contou-me tudo da sua vidao seu primeiro casamento, a sua ligação com
Farino, o tipo da Califórnia, e a vida que eles levavam na casa da praia Contou-me tudo.
- E você, o que fez?
- Ouvi. Não tenciono falar. Por onde iria eu começar? Diria: "Oh, sabes, o meu verdadeiro nome não é Robin Stone"
- Mas é o seu nome legal.
- Sim, mas dentro de mim existe um pequeno bastardo chamado Conrad. E esse também sou eu. Maggie quer filhos... um casamento completo. - De repente, Robin bateu
com o punho na mesa. - com todos os diabos, Archie! Eu vivia tão bem antes de o conhecer! O sexo dava-me prazer, eu funcionava bem!
- Você funcionava como uma máquina. Agora, Conrad está a lutar para se fundir com Robin. O homem que não deixava Conrad exprimir-se não vivia; na realidade, não
sentia nada. Você mesmo o confessou. Agora, pela primeira vez, você está a lutar consigo mesmo; e isso é bom sinal. Está a sentir emoções, conflitos, preocupações
o que é normal.
- Pois eu gostava mais de como era antes. Quando saí daqui a última vez, disse-lhe que faria com que o nome de Robin Stone triunfasse. E hei-de conseguir. Não
preciso de Conrad! Quero esquecer-me de que ele existe.
- Robin, porque não vai a Hamburgo?
- Para quê?
- Sabe o nome da sua mãe. Tente localizar a família dela. Talvez as suas origens o surpreendam.
- A mãe de Conrad era uma prostituta!
- Ela tornou-se uma prostituta para sustentar Conrad. Talvez descubra que se orgulha de ser Conrad!
Robin pôs-se de pé.
- com mil diabos, será que não compreende? Eu não quero conhecer Conrad. Não quero preocupar-me com fazer Maggie Stewart sofrer! Não quero sentir falta dela quando
ela
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voltar para a Califórnia. Não quero sentir a falta nem precisar de ninguém!
O Dr. Gold levantou-se.
- Robin, não fuja de si mesmo! Não percebe o que está a acontecer? Iniciou o processo de dar, de combinar sexo com amor. A experiência perturbou-o, o que é normal,
mas não fuja dela. Claro que vai haver problemas. Mas no dia em que puder voltar-se para alguém e dizer-lhe: Preciso de ti, será uma pessoa completa. Maggie é
esse
alguém, Robin. Não a expulse.
Mas Robin já tinha batido com a porta.
Estava frio, mas Robin voltou a pé para o apartamento. Tinha a mente vazia e sentia uma estranha calma. Maggie estava no living, já pronta, com o vestido preto.
Ele olhou para ela inquisidoramente.
- Que horas são? - perguntou.
- Quatro e meia.
Ele sorriu, mas os seus olhos eram frios.
- Tira o vestido. Temos uma hora antes de irmos para a festa. - Levou-a para o quarto e amaram-se. Depois olhou para ela com um sorriso desprendido. Parecia satisfeito
consigo mesmo. - Não sabes, menina - disse - mas Robin acaba de fazer amor contigo e saiu-se bem.
- Saíu-se sempre - disse ela, suavemente.
- Mas desta vez foi diferente. - Deu-lhe uma palmada no traseiro. - Vamos, menina, temos que ir a uma festa.

Terceira parte JUDITH

Capítulo vigésimo sexto

Judith Austin saiu da banheira. Viu o seu corpo reflectido nas paredes de espelho... e pôs-se a analisá-lo em todos os ângulos. Apesar da magreza, nunca deixava
de fazer dieta. Aos cinquenta anos não podia correr o risco de engordar. Connie tinha sorte: esquiava, tanto nos alpes como no mar, e os seus músculos continuavam
firmes. Tinha sido muito agradável a visita de Connie, mas graças a Deus que ela tinha voltado para a Itália, a fim de passar o Natal com o príncipe e as filhas.
Fora uma roda-viva de festas, toda a gente queria ter uma princesa como homenageada. Sacudiu a perna diante do espelho. Sim, as suas coxas começavam a ficar flácidas.
As de Connie eram firmes como uma rocha. Talvez ela praticasse algum desporto. Mas o sol e o vento tinham feito rugas na pele de Connie.Judith aproximou-se mais
do espelho: apenas algumas pequenas rugas em volta dos olhos. À luz artificial, podia passar por uma mulher de trinta e oito anos ou até trinta e seis. Encabeçava
a lista das mulheres mais elegantes e ainda era tida como uma das dez maiores beldades de Nova Iorque. A visita de Connie aumentara a publicidade: todas as revistas
tinham falado das "duas mais belas gémeas do mundo".
Judith pôs-se a pensar se Connie ainda estaria apaixonada por Vittorio. Sentou-se no banco e começou a enxugar-se lentamente. Tinham-se passado três anos sem que
um romance acontecesse na sua vida. Três anos desde que rompera com Chuck.
Tinham-se conhecido no Verão que ela passara em Quogue. Chuck era um golfista profissional, vinte e oito anos, louro. Tudo começara quando ela lhe pedira umas
aulas. Ele pusera os braços em volta dela, para ensiná-la a segurar os tacos. Os seus olhos tinham-se encontrado e assim começara tudo. Ela até
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tinha planeado transferi-lo para o clube de Palm Beach. Tudo ia muito bem, até ao dia em que ele dissera: "Judith, não seria óptimo se eu fizesse o comentário
de golfe na TV, como Jimrny Demaret ou Cary Middlecoff?" Aquilo desagradara-lhe, mas ela forçara-se a não ligar.
Ele acabara por aceitar o emprego em Palm Beach. Ela chegara no dia dois de Janeiro e, durante três semanas, fora maravilhoso. Gregory ainda ficara em Nova Iorque
e todas as noites Chuck entrava em casa pela porta lateral. Então, ele voltara a mencionar o seu projecto de trabalhar na TV. Ela mostrara-se intencionalmente
vaga e ele dera de ombros: "Bem, talvez eu me inscreva no torneio, então".
Óptima ideia, pensara ela. Os torneios obrigavam a viajar e isso proporcionava toda uma série de oportunidades interessantes. De vez em quando, ela poderia ir
ter com ele. Qauck descrevera o torneio: naturalmente teria de treinar todos os dias, durante cerca de um mês.
- vou precisar de dez ou quinze mil dólares - acrescentou.
Ela olhara para ele.
- Dez ou quinze mil dólares? Para quê?
- Ora, participar num torneio custa dinheiro. Se eu ganhar um prémio, pagar-te-ei.
Aquilo fora o fim de Chuck. Depois disso ela nunca mais atendera os seus telefonemas.
Fora a primeira vez que um homem se aproximara dela com segundas intenções. Isto tinha acontecido havia três anos, três anos em que nada de excitante acontecera
na sua vida. Nada a não ser Gregory. Ela amava Gregory, mas não estava apaixonada por ele. E estar apaixonada era única coisa que fazia com que a vida fosse digna
de ser vivida. Ela nunca teria casado com Gregory se não fosse por Connie.
As belas gémeas Logan: Judith e Consuelo. Filhas de Elizabeth e Cornelius Logan. Um belo casal, belas filhas gémeas, um nome tradicional. Tinham tudo, excepto
dinheiro.
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Ela nunca esqueceria a "pobreza" deles. De um modo Ou de outro, os Logan sempre tinham conseguido viver em boas casas; ela e Connie tinham sempre frequentado
os melhores colégios e, embora se dissesse que Cornelius Logan perdera tudo na grande crise financeira, todos sabiam que a Avó Logan ainda possuía uma enorme fortuna.
Fora ela que fizera questão de dar às netas uma grande festa de estreia na sociedade. E fora ela também quem lhes oferecera a primeira viagem à Europa, quando
elas tinham feito vinte e um anos. Connie conhecera Vittorio, mas Judith voltara de mãos a abanar.
Judith tinha vinte e seis anos quando conhecera Gregory Austin. Tinha visto a sua fotografia nos jornais e sabia que ele saía com artistas de cinema, mulheres
da sociedade e debutantes. Ele tinha trinta e seis anos, era solteiro e dono de uma cadeia de rádio. Parecia orgulhar-se da sua falta de instrução formal: "Nunca
terminei sequer o liceu, mas leio as páginas da bolsa melhor que Bernard Baruch." O seu primeiro emprego tinha sido de mensageiro, na Wall Street. Quando da crise,
fizera o seu primeiro milhão vendendo título que não possuía. com os lucros, comprara uma pequena estação de rádio no estado de Nova Iorque, começara a comprar
acções na baixa e a vendê-las na alta e a empregar os lucros assim obtidos na compra de mais estações. Aos trinta anos formara a rede IBC. A sua atitude atrevida
e o seu comportamento extrovertido tinham-no transformado numa personalidade saliente. As suas declarações provocavam grandes cabeçalhos. Gostava de mulheres,
mas não pensava sequer em casar até ao dia em que conhecera Judith Austin. Talvez o seu interesse tivesse sido estimulado pela indiferença dela. Gregory procurava
sempre o inatingível.
Judith saíra algumas vezes com ele, devido à sua persistência, e ficara surpreendida de se ver de repente, a fazer notícia. Mais admirada ficara, ainda, ao ver
que todas as suas amigas queriam oferecer jantares de homenagem "àquele fascinante tigre ruivo". Quando Consuelo escrevera a contar que o conhecera em Londres
e o achara sexy e interessantíssimo, Judith
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passara a ver Gregory Austin com outros olhos. Compreendera, também, que ele estava a oferecer-lhe um reino: não tinha brasão mas, nalguns círculos, a sigla IBC
tinha ainda muita importância. Ele abria-lhe a porta para um mundo de opulência. Vittorio tinha dinheiro, mas as jóias de Connie eram jóias de família, que tinham
de ser passadas de geração em geração. E Gregory presenteara Judith com um anel de noivado de brilhantes (um brilhante de vinte e cinco quilates) um colar de brilhantes
como presente de núpcias e cinquenta mil dólares para abrir uma conta corrente. O casamento enchera tanto as páginas sociais, como as colunas de teatro.
Gregory ficara surprendido ao descobrir que desposara uma virgem. Comprara-lhe a mansão de Palm Beach para comemorar o primeiro aniversário de casamento. No segundo
aniversário dera-lhe uma pulseira de brilhantes. No terceiro, já não havia mais nada que ele pudesse dar-lhe. Nessa altura, a
única coisa que ela realmente queria
era romance. Sexualmente falando, Gregory tinha sido para ela uma completa decepção. Não tinha base de comparação, mas sentia que ainda iria descobrir o verdadeiro
amor. Isso acontecera-lhe aos trinta e dois anos. Decidira ir a Paris, visitar Connie. A guerra tinha acabado, toda a gente estava optimista e Judith estava ansiosa
por mostrar a Connie as suas jóias e peles. Gregory não pudera acompanhá-la, mas desejara-lhe uma óptima viagem e dera-lhe uma gorda carta de crédito. Ela conhecera
o célebre cantor de ópera a bordo. Resolvera não desembarcar em Paris e os dois tinham estado todo o tempo em Londres. Ela não visitara Connie, mas Gregory nunca
se lembrava de perguntar porque razão as suas cartas tinham selos ingleses.
Depois disso, fora mais fácil. Tinha-se seguido o galã de cinema italiano, durante dois anos fora a vez do dramaturgo inglês, depois do diplomata francês... Connie
tinha sido inestimável: ela podia sempre dizer que ia à Europa visitar a irmã, tanto mais que eram gémeas. Claro que Connie ultimamente lhe cobrava na mesma moeda:
todas aquelas visitas aos Estados Unidos... Mas, nos últimos três anos, Judith não tinha ido
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"visitar Connie". Enquanto se enxugava, pensava naquilo: três anos de nada.
Acabou de se pintar, levantou-se e olhou no espelho o seu corpo nu. A princípio sentira-se feliz por não conseguir engravidar. Fizera o possível até aos trinta
anos, chegara a pensar em adoptar uma criança, mas Gregory já tinha quarenta anos e não se importava de não ter filhos. "A rede é a nossa filha", repetia. E uma
criança era uma responsabilidade... Agora, ao olhar para o seu ventre praticamente inexistente, ela sentia-se grata por não estar deformada. Mas os seus seios
estavam a ficar flácidos, e as coxas também. Ergueu os braços acima da cabeça. Assim os seios estavam levantados - e na cama, quando ela estava deitada eles pareciam
firmes. Mas o estômago estava demasiado mole, embora não sobresaísse...
Entrou no quarto de vestir e tirou do armário o vestido de veludo roxo. Depois, num súbito impulso, trocou-o pelo pallazo de lamé vermelho. Usaria também o colar
de ouro e rubis. Pela primeira vez em muito tempo, sentia prazer em escolher um vestido. Desde que recebera o bilhete de Robin Stone garantindo a sua presença
na festa, ela contava os dias.
Até então, Judith recusara-se a confessar, até para si mesma, que estava a vestir-se para Robin Stone. De repente, porém, compreendeu que o desejara desde que
o vira pela primeira vez. Sim, ela desejava Robin Stone! Seria o seu último e mais excitante romance. Mas ela sabia que teria de tomar a iniciativa, fazê-lo compreender,
e de uma maneira terrivelmente subtil, que estava interessada nele. Um homem como Robin Stone saberia como agir. As circunstâncias eram ideais. Ele viajava tanto!
Ela poderia facilmente ir ter com ele ao estrangeiro.
Às quatro e meia, Judith desceu para passar em revista o bar e os hors (foeuvres. Às quatro e quarenta e cinco, Gregory desceu, envergando o smoking. Parecia cansado.
Palm Beach se encarregaria de o pôr em forma. Às cinco chegaram os primeiros convidados. Tinham de ser o senador e a sua esposa. Porque seria que os convidados
chatos chegavam sempre primeiro?
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Tinha-se de ficar a falar com eles até chegarem os outros. Quando o mordomo introduziu o casal de meia-idade no living, Judith recebeu-os com o melhor dos sorrisos.
- Como vai, senhor? Não, minha querida, não chegaram cedo demais. Chegaram exactamente à hora, e ainda bem Assim poderemos conversar à vontade.
Danton Miller chegou dez minutos mais tarde, sozinho Uma vez, ao menos, Judith gostou de o ver chegar. Dava-lhe uma boa desculpa para se ver livre do senador.
Em breve a campainha da porta tocava sem parar. Dentro de vinte minutos, os convidados enchiam o living e começavam a espalhar-se pela biblioteca e pela sala de
jantar. A festa começara.
Robin Stone chegou às seis. Judith atravessou a sala de braços estendidos.
- Muito bem, cumpriu a promessa! - O seu sorriso era radiante e aceitou ser apresentada a Maggie como se
nunca a tivesse visto. Depois afastou-se para receber outros
convidados. Diabo de rapariga! Tão alta e tão bonita! Judith endireitou-se. Sentira-se tão baixa e atarracada ao lado de Maggie Stewart! Andava de um lado para
o
outro do salão, recebendo pessoas, falando com elas... sem nunca deixar de olhar para Robin Stone e Maggie Stewart. Oh, lá estavam Christie Lane e a sua horrível
esposa. Gregory teimara em convidá-los. A mulher Ethel (sim, era esse o nome) estava a conversar com Maggie Stewart. Chris mais parecia um índio de madeira. Óptimo,
Robin afastara-se para falar com o senador.
Aquela era a sua oportunidade. Aproximou-se dele e, como que por acaso, agarrou-lhe o braço:
- É a primeira vez que vem a nossa casa, não é? Gostaria de dar uma volta?
- Uma volta?
- Sim - Judith conduziu-o do salão para outra sala - Geralmente, os convidados gostam de bisbilhotar as casas, mas raramente passam do living, da biblioteca ou
da sala de jantar.
- Parou diante de uma pesada porta de carvalho - Aqui e
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onde os convidados param, mas eu gostaria que você visse o refúgio de Gregory.
- A casa é enganadora - disse Robin. - É enorme, não
é?
Ela riu.
- Não sabia? São duas casas. Mandámos derrubar toda a parede que as separava e acabámos com quinze grandes peças pequenas.
Robin olhou em volta com ar de aprovação.
- Óptimo refúgio para um homem.
- Infelizmente Gregory passa demasiado tempo aqui. Ele assentiu.
- Sem dúvida é onde vem meditar nos seus problemas.
- Você também se fecha assim? Ele sorriu.
- Os meus problemas são bastante mais pequenos. Só tenho que me preocupar com um departamento, ao passo que Gregory tem toda a rede.
Ela pôs as mãos para o alto, em fingido desespero.
- Será essa a única espécie de problemas que os homens têm? Como os invejo!
Ele sorriu com indiferença.
- Os problemas de uma mulher não podem ser apagados com uma bebida e uma hora de meditação - disse ela.
- Quem sabe se é porque a mulher nunca tentou? replicou Robin.
- Como é que você apaga a solidão, Robin?
Ele olhou para ela com curiosidade. Durante um segundo os seus olhos encontraram-se. O dela era desafiante, com um quê de intimidade. Disse em voz baixa.
- Robin, eu amo Gregory. Ao começo o nosso casamento £ra maravilhoso. Agora, porém, ele parece estar casado com a IBC. É muito mais velho do que eu, e o trabalho
é suficiente para ele. Traz os seus problemas para casa; às vezes tenho a sensação de não existir para ele. Vejo-o no meio de gente, em
festas, em jantares. Sei que ele me ama, mas sou apenas parte
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do seu império. Sinto-me tão só e isolada! Não sou o tipo de mulher que joga ou gosta de almoçar com as amigas.
- Todos têm a sua solidão - disse Robin.
- Mas porque razão? A vida é tão curta! A juventude dura tão pouco tempo. Sempre pensei que, desde que não se faça sofrer ninguém, tudo está bem. - Encolheu os
ombros.
- Gregory jogava na bolsa, quando jovem, e certa vez disse-me: "É o jogo mais excitante do mundo", mas agora já não joga. Agora, os "números", como ele diz, são
a sua paixão. Mas uma mulher não sabe viver assim. Precisa de afecto. - Olhou para as mãos e deu voltas ao grande anel de brilhante. - Encontrei esse afecto uma
ou duas vezes, talvez.
- Olhou para ele. - Mas isso nunca afectou o meu amor por Gregory. Era algo diferente. Apenas dei a alguém algo que Gregory não tinha tempo ou sensibilidade para
aceitar. - E, em voz baixa, disse: - Não sei porque lhe estou a contar tudo isto. Mal o conheço. - O sorriso dela tornou-se subitamente tímido. - Mas a amizade
não é apenas uma questão de tempo, e sim de compreensão.
Ele agarrou-a pelos ombros e riu.
- Judith, você é uma mulher encantadora, mas aconselho-a a não se abrir assim com qualquer pessoa.
Ela ergueu os olhos para ele.
- Não costumo abrir-me com ninguém. Nunca fiz isso. Não sei o que se passa comigo, Robin.
Ele acompanhou-a em direcção à porta.
- Champanhe a mais -disse, com um sorriso. -Agora, voltemos para junto dos seus convidados. Eis uma maneira de não se sentir só.
Ela olhou-o bem nos olhos.
- Será essa a única solução?
Robin pegou-lhe no braço e levou-a de volta no living. Vim com uma rapariga que talvez também esteja a sentir-se muito só, no meio de toda esta gente. Feliz Ano
Novo, Judith E cuidado com o champanhe. - Deixou-a e foi para junto de Maggie.
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Ijudith ficou em estado de choque, mas continuou a cumprimentar as pessoas, com o sorriso intacto. O sorriso de Maggie também permaneceu intacto. Tinha visto Robin
deixar a sala com Judith Austin e notara que eles se tinham demorado. Judith Austin era uma bela mulher. Mas, ao ver aquele homem alto e bonito atravessar o salão
para ficar junto dela, toda a sua apreensão desapareceu.
Ele agarrou-lhe o braço e pôs-se a afastá-la das proximidades de Ethel e Christie Lane. De repente, a sua atenção voltou-se para a porta. Toda a gente olhou para
a frágil mulher que acabava de entrar na sala. Um murmúrio perpassou o ambiente. Por mais discretamente que entrasse num lugar, Diana Williams causava sempre sensação.
Ficou junto da porta hesitante e sozinha, quase com ar de criança. Gregory Austin correu a recebê-la e passou-lhe o braço pelas costas, num gesto protector. Dali
a um minuto toda a gente a rodeava. Diana aceitou todas as apresentações com modéstia.
Quando Diana conseguiu desenvencilhar-se, aproximou-se de Robin. Gregory Austin ainda lhe segurava o braço.
- Robin - ralhou ele - porque não nos disse que tinha convidado Miss Williams para a nossa festa? Não sabíamos que ela estava em Nova Iorque, ou tê-la-íamos convidado
pessoalmente.
- Convidou-me no dia de Natal, no Voisin - acusou Diana. - Quando vi que não telefonava, pensei que tivesse entendido mal e que esperava encontrar-se comigo aqui.
- Permita-me compensar a minha falta indo buscar-lhe uma bebida - disse Robin. Ele e Gregory conduziram-na até ao bar, deixando Maggie com Ethel e Christie.
Ethel estava a falar sobre a nova suite que ocupavam, na Essex House.
- Mudámos ontem - contou ela a Maggie.
- Grande coisa! - exclamou Christie. - Living, dois quartos, e três vezes mais caro do que o Astor.
- Sim, mas como querias que passeasse com o bebé pela Broadway? - retorquiu Ethel. - Pelo menos a Essex House
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fica em frente ao parque.
- Oh, eu não sabia. Parabéns - disse Maggie, mostrando um interesse que não sentia.
Christie riu, feliz.
- A coelha morreu na semana passada. Quando o médico me deu a notícia, fiquei tão contente que era capaz de fazer qualquer coisa.
- Menos mudar do Astor - disse Ethel. - Mas ele acabou por ceder.
- Sim e ela pôs-se a dormir no outro quarto. Só até ao bebé nascer, depois vamos transformá-lo num quarto de criança. Mas verá que ela rem razão; uma mulher que
espera um bebé precisa de dormir bem. Eh, fiquem aí as duas a conversar. Estou a ver Dan e preciso de conversar com ele. - Atravessou a sala e agarrou o braço
de Enton Miller.
Maggie ficou sem saber o que fazer. Não conhecia bem Ethel e não sabia o que dizer.
- Quando é que o bebé vai nascer? - perguntou.
- No fim de Agosto ou princípio de Setembro. Estou só três semanas atrasada, mas o teste deu positivo.
Seguiu-se um momento de silêncio embaraçoso, mas Maggie apressou-se a dizer:
- Acho que foi muito acertado escolher um hotel perto do parque. Vai ser óptimo para o bebé.
- Não pense que eu pretendo ficar lá - retorquiu Ethel.
- Christie ainda não sabe, mas na próxima temporada vai fazer o programa na Califórnia.
- Ah, compreendo. - Maggie não compreendia, mas tinha que dizer alguma coisa.
- vou dar um jeito para convencê-lo. com Christie, "bebé" é a palavra mágica. vou dizer-lhe que o parque não é bom para a criança. Vagabundos, etc. Quando chegarmos
à Califórnia, vai ser uma vida nova: uma casa grande, boas relações. vou fazê-lo contratar Cully & Hayes; temos que nos dar com a nata, para o nosso filho brincar
com os filhos deles.
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Não se esqueça do que lhe digo, Hollywood está à espera de Ethel Evans Lane!
- Talvez se decepcione - disse Maggie, olhando em volta a pensar onde poderia estar Robin.
- Ele está na biblioteca, com Diana - disse Ethel.
- Desculpe, não percebi.
- O seu namorado. Diana colou-se a ele.
Maggie ficou tão espantada que não conseguiu responder. Felizmente Dan e Christie vieram quebrar o silêncio.
- Estivemos a falar sobre um novo horário, para o próximo ano, sem ser este - disse Christie. - Que me dizes, hem, boneca? Os patrocinadores, tá tudo à espera!
- Posso ir buscar-lhe outra bebida? - perguntou Dan, sorrindo para Maggie.
Ouviu-se uma gargalhada, vinda da biblioteca. Dan sorriu e baixou a voz, em ar conspirador.
- Reparei que veio com Robin Stone. Isso significa que tem de se ir embora com ele?
- É a praxe, não é? - retorquiu ela.
- Que pena! Ia convidá-la para jantar. Quanto tempo mais fica em Nova Iorque?
- Mais umas duas semanas.
- Posso telefonar-lhe?
- Bem - Maggie pensou rapidamente. Não podia dizer sem mais nem menos que não e não convinha que ele soubesse onde ela estava hospedada. - É melhor eu
telefonar-lhe. Estou a planear ir visitar a minha família amanhã, em Filadélfia, e não sei quanto tempo demorarei.
- Sabe onde encontrar-me?
- Na IBC. - Ela sorriu. - bom, acho melhor eu ir ter com Robin. - Despediu-se de Dan e entrou na biblioteca. Diana prendia a atenção geral com uma história sobre
os seus dois filhos gémeos.
Meu Deus, estão a ficar dois gigantes - dizia ela. Naturalmente, os beatles são os seus ídolos. Eles também usam o cabelo comprido dos pés à cabeça, são totalmente
Carnaby
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Street. Ainda outro dia ia apresentá-los como meus filhos, quando olhei para aqueles dois rapazes de dezassete anos e um metro e noventa e disse: "Apresento-lhes
o meu duo de cantores".
Todos riram mais alto do que era necessário. Robin não riu. Ficou a olhar para ela e, quando Diana lhe entregou o copo vazio, ele fez sinal a um empregado.
Maggie chegou-se para ele e deu-lhe o braço.
- São sete horas - sussurrou. - Estou morta de fome.
- Na sala de jantar, há uma mesa cheia dehors d'oeuvres respondeu ele, sem tirar os olhos de Diana.
- Gostaria de me ir embora...
- Estou a trabalhar - disse ele, batendo no bolso Tenho aqui um contrato já pronto. Tudo o que ela precisa de fazer é assinar. Se quiseres colaborar podes servir
de tstemunha.
- Quanto tempo demorará?
- Espero que ela assine esta noite, ao jantar.
- Ela vai jantar connosco? - perguntou Maggie.
- Ela vai jantar comigo. Se quiseres podes vir também. Maggie deu meia volta e saiu da biblioteca. Não olhou para
trás mas tinha a certeza de que ele também não se virara. Viu Dan Miller apertar a mão da sr.a Austin com o sobretudo já no braço.
- O convite para jantar ainda está de pé?
- Claro que está. Gosta do Pavillion?
- É um dos meus restaurantes predilectos.
O Pavillion estava a começar a esvaziar-se. Sentada diante de um brandy, Maggie pensava qual teria sido a reacção de Robin ao descobrir que ela se tinha ido embora.
Eram quase onze horas. Provavelmente, ele àquela hora estaria em casa, a ver o noticiário. A sua raiva evaporou-se e, de repente, sentiu-se culpada. Que mal teria
havido se Diana tivesse jantado com eles ? Robin não precisava da assinatura dela para o Happening?
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procedera como uma criança e, pior do que isso, como uma mulher ciumenta! Nunca agira assim com nenhum homem, nem com Adam nem com Andy. Talvez porque não gostasse
suficientemente deles. Talvez tivesse sido esse o segredo do seu sucesso. Seria verdade? Seria preciso fingir que não estava interessada num homem para prendê-lo?
Aceitara jantar com Dan só para dar uma lição a Robin. Mas era ridículo: ela tinha Robin, ela amava-o. Porque razão estava ela no Pavillion a ouvir aquele idiota
contar a sua vida?
- Alegro-me que não haja nada entre você e Robin. disse ele inesperadamente.
Ela olhou para ele, curiosamente.
- Porquê?
- Porque não gosto dele.
- Robin é muito meu amigo - disse ela, em tom de aviso.
Ele sorriu.
- Mesmo assim, não gosto dele. E não é nada pessoal. Bem, ela também não gostava de Danton Miller. Principalmente do seu sorriso matreiro.
- Talvez tenha medo dele - disse, secamente.
- Medo?
- Se não tem nenhuma razão pessoal para não gostar dele, então deve ser qualquer coisa relacionada com o trabalho. Sei que trabalham os dois na IBC e percebo um
pouco da política que há nos bastidores da rede. Certamente Robin estendeu-se para além do sector do noticiário e há rivalidade entre vocês.
Dan atirou a cabeça para trás e gargalhou. Quando voltou a olhar para ela, os seus olhos castanhos pareciam dois riscos.
- Não tenho medo do Grande Stone, e quer saber porquê? Porque ele tem orgulho demais; e isso acabará por destruí-lo.
- Pensei que o orgulho fosse um trunfo, na competição.
- Na televisão, a gente orgulhosa não tem lugar. vou dizer-lhe uma coisa, Maggie. Quando se trata de lutar, eu ponho o orgulho de lado. Por isso é que consigo
sobreviver. Aparece sempre uma ocasião em que é preciso rebaixar-se,
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mesmo que a pessoa seja poderosa e importante. Mas Robin Stone não é capaz de se rebaixar; e é por isso que não conseguirá sobreviver, quando a única palavra que
conta, nesta selva, é a sobrevivência.
Ela pegou na bolsa, esperando que ele compreendesse que estava na altura de se ir embora. Ele notou e fez sinal para que trouxessem a conta.
- Está chateada por me ouvir falar só em trabalho, não é? Vamos a qualquer lugar tomar uma bebida?
- Estou muito cansada, Dan, e amanhã preciso de acordar cedo.
Ele chamou um táxi e ela disse-lhe que estava hospedada no Plaza. Ele deixou-a lá e ficou à espera que ela entrasse. Assim que o táxi partiu, Maggie saiu pela
porta lateral e tomou outro táxi para o apartamento de Robin.
Não havia luz por baixo da porta, quando ela meteu a chave na fechadura. Talvez ele já estivesse deitado. Maggie atraressou o living na ponta dos pés e entrou
no quarto. Estava às escuras, mas ela distinguiu o contorno da cama, ainda revolvida desde a tarde de amor. Estava vazia. Voltou para o living e ia acender a luz,
quando viu a faixa de luz por baixo da porta do escritório. Sorriu: ele devia estar a trabalhar no livro. Dirigiu-se para a porta e já estava com a mão na maçaneta,
quando ouviu vozes. Diana estava lá dentro e parecia bêbeda.
- Este tapete não é macio... Robin riu.
- Eu disse-lhe para fazer a cama.
- Não costumo fazer amor nos lençóis de outra mulher! Não houve resposta.
Maggie abriu a porta sem fazer barulho. Mal pôde acreditar no que via. Ambos estavam completamente nus. Robin estava estendido na poltrona, a um canto do escritório,
de olhos fechados, os braços atrás da cabeça, enquanto Diana de joelhos, lhe fazia amor. Nenhum dos dois reparou que ela estava ali. Saiu e fechou a porta de mansinho.
Depois voltou ao quarto e acendeu a luz. Tirou a mala do armário, mas logo, numa súbita
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mudança de ideias, largou tudo no chão. Para quê preocupar-se com algumas peças de roupa e um vestido? Nunca mais quereria usar nada que tivesse sido usado por
ele. Pegou no estojo de maquilhagem e na carteira e saiu do quarto. De repente, voltou-se e olhou para a cama. Para a cama que partilhara com Robin algumas horas
antes. Para a cama que esperara partilhar com ele nessa noite e todas as noites. Para a cama que ela pensava fazer do seu futuro: a cama em que Diana se recusara
a entrar por não ter lençóis limpos. Quantas mulheres teriam dormido nela? Quantas mais haveriam de dormir ainda? Avançou para a cama e começou a rasgar os lençóis,
mas não tinha força para rasgá-los nos pedaços que a sua fúria exigia. Ninguém voltaria a dormir naqueles lençóis, nem naquela cama! Lembrou-se que havia uma
lata de fluído de isqueiro no armário da casa de banho e correu a buscá-la. Derramou sobre os lençóis e a cabeceira da cama, riscou um fósforo, chegou-o junto
dos outros fósforos, até que todos ardessem e atirou-os para cima da cama. com um silvo, uma chama alaranjada subiu dos lençóis.
Maggie correu para fora do apartamento. Atravessou o hall e parou junto à porta. Em voz calma, disse ao porteiro:
- Acabo de tocar à campainha do sr. Stone e ninguém atendeu, mas pareceu-me sentir o cheiro de fumo.
Enquanto o porteiro corria para o elevador, Maggie atravessava a rua como se nada houvesse acontecido e punha-se a olhar para cima. Um sorriso iluminou-lhe o rosto,
ao ver o clarão que saía da janela do quarto de Robin. Em poucos minutos, as sereias soavam. Não tardaram a sair rolos de fumo pela janela. Viu Robin sair para
a rua, com outros moradores. Pusera a gabardina por cima de umas calças. Diana estava embrulhada no seu casaco de peles, mas descalça, pulando num pé e no outro
sobre a calçada gelada. Maggie deu uma risada.
- Oxalá ela apanhe uma pneumonia-disse, em voz alta. E desceu a rua.
Andou cinco quarteirões e só então percebeu o que fizera. Começou a tremer e a suar frio. Caramba, o que ela tinha feito!
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Podia tê-lo morto. Podia ter morto toda a gente. Sentiu-se desmaiar, ao compreender o horror do seu acto. De repente, percebeu como havia gente capaz de matar
num momento de fúria. Ela nem pensara no perigo do fogo se estender... Graças a Deus que tudo acabara bem! Viu passar um táxi, fez sinal e murmurou para o motorista:
- Aeroporto Kennedy.
Depois, deixou-se afundar no assento. Teria de esperar horas para tomar um avião para Los Angeles, mas não se importava. O táxi passou por uma rua ladeada de árvores
e pouco iluminada; era naquela rua que viviam os Austins. Ergueu os olhos para a casa de pedra. Havia luz no segundo andar. Como ela invejava uma mulher como Judith
Austin, segura na sua fortaleza de pedra!...
Naquele momento, Judith Austin estava de pé diante do espelho, a analisar-se secretamente. Sorriu para o espelho e estudou o seu sorriso. Sem dúvida, parecia forçado.
Tinha sido o sorriso que ela mantivera até às nove e meia, até que o último convidado saíra. A cabeça doía-lhe e tinha vontade de se deitar, mas obrigara-se a
fazer uma ceia com Gregory, no quarto dele. Mordiscara o peru frio e ouvira-o resmungar. Aquelas festas estavam a ficar demasiado show-business. No ano seguinte
ele próprio faria questão em ver a lista de convidados; se é que ia haver festa no ano seguinte.
Normalmente, ela teria discutido com ele, ou procurado acalmá-lo; mas nessa noite Judith estava demasiado imersa nos seus próprios pensamentos. Quando, por fim,
se recolhera ao quarto, atirara-se em cima da cama, completamente vestida e tentara passar em revista os acontecimentos da noite.
Mas agora, de camisola e diante do espelho, tinha de enfrentar o facto de que Robin não mordera a isca. De repente, todas as suas defesas caíram por terra e as
lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Toda a noite as contivera. Não permitira a si mesma pensar que fora repelida. Não podia pensar, diante de
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toda a quela gente, diante de Gregory. Mas agora podia dar livre curso às suas emoções. Não, não choraria! As lágrimas eram um luxo a que ela não tinha direito.
Sim, algumas lagrimazinhas numa peça triste ou diante da notícia da morte de um amigo; lágrimas que podiam deslizar suavemente pelos cantos dos seus olhos, sem
fazer correr a pintura das pestanas inferiores. Mas não lágrimas verdadeiras, acompanhadas de soluços: isso significava pálpebras empapuçadas no dia seguinte,
e rugas sob os olhos. E no dia seguinte ela tinha um almoço no Colony e um jantar de gala à noite.
Mas Robin rejeitara-a. Não, não a tinha rejeitado; simplesmente ignorara a sua proposta velada. Velada! Ela nunca oferecera tão abertamente a ninguém, em toda
a sua vida. No passado, não fora necessário mais do que um olhar, um sorriso subtil para produzir uma reacção imediata. Deus... ela desejava-o tanto! Precisava
de alguém que a tomasse nos braços e lhe dissesse que era linda. Precisava de amor. Desejava Robin! Queria sexo com alguém que a fizesse sentir jovem e desejável.
Havia meses que Gregory nem sequer tentava. Oh, Deus, ser novamente jovem, sentir-se desejada por um homem como Robin, sentar-se em bares poucos iluminados e dar-se
as mãos, caminhar à beira do mar e olhar para a lua... O amor, para Judith, começava no coração e na imaginação; o orgasmo era apenas incidental. Desde que ela
se sentisse emocional mente envolvida, a experiência era maravilhosa. Se pudesse sentir os braços de Robin a apertá-la, o seu corpo nu colado ao dela, tocar-lhe
o rosto, nada mais importaria.
Gregory nunca a excitara, como homem. Mesmo quando era jovem, vigoroso e cheio de vida, nunca possuíra aquela centelha que provoca o romance. Desde o princípio
não dera unportância ao sexo. Era sempre a mesma coisa, não conhecia nenhuma variação. Não sabia dizer as coisas que uma mulher
esperava, nos momentos apropriados. Nunca
conseguira entusiasmá-la. Talvez fosse culpa dela. Talvez ela o fizesse sentir que era superior
a isso. Mas o facto é que nunca pudera sentir, por Gregory, a excitação
que sentira pelos seus amantes.
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Ele não acreditaria, se visse o abandono que ela mostrava na cama com eles, o abandono que nascia da excitação do romance. E contudo, havia tanta coisa que
ela admirava em Gregory. Amava-o com a mesma devoção que sentia pelo pai ou pela mãe. Sentir-se-ia perdida sem ele. Tinham uma vida óptima. Ela nunca se sentia
entediada ao lado de Gregory; mas não havia romance, nunca houvera. Talvez um homem-dínamo, como ele, fosse incapaz de exprimir os pequenos nadas sentimentais
que tanto significavam
para uma mulher. Mas Robin Stone parecia tão cheio de força como Gregory, talvez mais ainda. Podia ver-se a força dentro dele. E, naquela noite, ele tinha saído
com aquela actriz já gasta, Diana Williams. Como é que um homem que a rejeitara podia ser uma conquista tão fácil para.starlets e estrelas em declínio? Não era
justo! Robin seria a sua suprema conquista. Ele não seria apenas um amante a mais. Tinha a mesma vitalidade que ela admirava em Gregory, mas era belo, excitante;
oh, Deus, ser amada por um homem assim!
Mas ele rejeitara-a. Talvez tivesse achado perigoso. Claro! Só podia ser isso! Se tivessem um caso que terminasse mal, talvez ele pensasse que a sua carreira ficaria
prejudicada. Ela tinha de dar-lhe a entender que, se tivessem um mês juntos um ano, mesmo - se terminassem abruptamente, a carreira dele
em nada sofreria.
Aproximou-se do espelho e prescrutou o rosto. Que horror, a pele estava a ficar flácida. Acontecera tão lentamente que ela não repara. Repuxou a pele para trás.
Que diferença! Muito bem, no dia seguinte pôr-se-ia em campo, à procura de um bom cirurgião plástico. E teria de tomar algum remédio. Havia cinco meses que não
tinha regras e os suores nocturnos eram horríveis. Não podia pensar em dormir com um homem como Robin, acordando no meio da noite banhada em suor.
Vestiu um roupão. Estranho, Gregory não tinha vindo dar-lhe as boas-noites e dizer-lhe que aquela era, positivamente, a última vez que davam uma festa de Ano Novo.
Muito bem, ela iria dar-lhe um beijo de boas-noites e desejar-lhe um
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feliz Ano Novo, se ele ainda estivesse acordado. Agora, que decidira fazer cirurgia plástica e conquistar Robin, sentia-se radiante. Teria de dizer a Gregory que
ia fazer um lifting e explicar-lhe que era apenas por vaidade. Quanto a desaparecer por uns tempos, não havia problema: fingiria ter ido visitar Connie, em Roma.
O sorriso desvaneceu-se no momento em que ela entrou no quarto dele.
Gregory estava atravessado na cama, completamente vestido. Ela ficou alarmada.
- Greg - murmurou baixinho.
- Acho que o champanhe me fez mal - gemeu ele. Judith respirou aliviada.
- Dizes isso todos os anos, mas bebes mais do que ninguém. Não és obrigado a beber champanhe, tens o uísque. Vamos, tenta despir-te.
- Não posso mover me, Judith. Cada vez que tento uma dor apunhala-me.
- Queres que te vá buscar uma alka-seltzer?
- Já tomei duas.
- Gregory, não podes ficar assim, atravessado na cama. Vamos, tenta levantar-te.
Ele fez uma tentativa para sentar-se, mas contorceu-se todo. Tinha o rosto branco e parecia olhar para ela sem a ver.
- Judith, isto é diferente. Ela correu para ele.
- Onde te dói?
- No estômago.
- Então é indigestão, Greg. Tenta despir-te para poderes descansar. - Ele tentou, mas gritou de dor. Ela correu para o telefone e chamou o médico. Notou que Gregory
não se opunha. Estava agora sentado na beira da cama, a contorcer-se e a gemer.
O Dr. Spineck chegou vinte minutos depois. Judith estava no andar de baixo à espera dele.
- David, ainda bem que pôde vir.
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- Ainda bem que não saí da cidade. Pelo que me diz não parece um ataque cardíaco. - Acho que é apenas indigestão. Desculpe tê-lo chamado, mas ele nunca se sentiu
tão mal.
Esperou do lado de fora do quarto, enquanto o médico o examinava. Quando ele a mandou entrar, Gregory estava sentado numa poltrona, todo vestido, mas calmo.
- Dei-lhe uma injecção de Demerol, para tirar a dor disse o Dr. Spineck. - Acho que é a vesícula.
- Então não é sério - disse ela, mais em tom afirmativo do que interrogativo.
- Teremos de fazer uns exames - retorquiu o médico. Mas tem razão, não é sério. Apenas desagradável.
Foram para o hospital no carro do médico. Gregory foi instalado num apartamento especial. Chamaram as enfermeiras, fizeram-lhe exames de sangue. Judith foi conduzida
à sala de estar, onde ficou a fumar sem parar. Cerca de meia hora mais tarde, o Dr. Spineck voltou. t
- Não vai ser tão simples como pensávamos. Tem uma pedra alojada no canal biliar e precisa de ser operado imediatamente. Já chamei o Dr.
Lesgam. Deve estar a chegar.
À uma da manhã, Gregory foi levado para a sala de operações. A enfermeira responsável pelo andar serviu um café a Judith, que esperava no quarto de Gregory. Acordou
com o Dr. Spineck a tocar-lhe de leve no rosto. Olhou espantada em redor, mas não tardou a recordar-se de onde estava e a olhar para o relógio: eram quatro da
manhã. Os seus olhos voltaram-se para a cama onde Gregory devia estar. Alarmada, olhou para o Dr. Spineck, mas ele sorriu.
- Gregory está bem, na sala de recuperação. Ficará lá algumas horas, mas sempre cuidado por enfermeiras.
- Vai ficar bom? - perguntou ela. O médico fez que sim.
- Há já algum tempo que ele devia ter pedras na vesícula. A operação foi mais difícil do que pensávamos. Ele não vai poder sair da cama e trabalhar dentro de duas
semanas. Vai ter
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de descansar o resto do Inverno, para se recuperar.
- Ele nunca fará isso - disse Judith.
- Tem de fazer. Já não é assim tão novo. Nenhum de nós, aliás. Esta operação foi um choque para todo o seu organismo. Duvido que ele se sinta capaz de trabalhar
durante meses.
- A que horas virá para o quarto?
- Não antes das dez ou onze da manhã. vou levá-la a casa. Era quase dia claro quando ela se deitou. Pobre Gregory,
detestaria ter de descansar. Ela teria de ficar em Palm Beach todo o Inverno e... De repente, sentiu horror de si mesma. Como se atrevia a pensar em Robin? As
lágrimas vieram-lhe aos olhos. "Oh, Gregory, amo-te", murmurou. "Por favor, põe-te bom depressa." E jurou que, apartir daquele momento, nunca mais pensaria em
Robin Stone, embora soubesse que não seria capaz de cumprir a promessa. Naquele mesmo instante, sozinha no quarto escuro, surpreendeu-se a imaginar-se na cama
com Robin Stone...
Robin estava numa cama de solteiro, sozinho num pequeno quarto do Harvard Club.
Sorriu pela primeira vez naquela noite. Pelo menos, Maggie avisara o porteiro, depois de ter posto o fogo. Soubera que tinha sido Maggie ao ver a mala dela no
chão
e a caixa de fósforos queimados do Pavillion sobre a cama. Estava a começar a achar a situação divertida. Riu alto, só de pensar nela a entrar e a apanhar Diana
montada nele! E o pior é que ela não estava a conseguir nada. De certa maneira, dava graças ao fogo: ele nunca poderia ficar excitado com aquela doida. Caramba!
Os dentes dela mais pareciam navalhadas. Sim, o fogo viera a tempo. Diana tinha acabado com as suas tentativas e ficara muito satisfeita quando ele a deixara
à porta do hotel. Mas porque fora ele levá-la para o seu apartamento? Ela tinha assinado o contrato no Jilly's, durante o jantar. E se o problema era recompensá-la,
poderiam ter ido para o hotel dela. Archie dizia que ele queria ser apanhado em flagrante, fazer com que
Maggie o deixasse. Tudo se resolvera da melhor maneira e só lhe custara uma mobília de quarto. Bem, também lhe custara
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Maggie Stewart. Franziu a testa, mas logo forçou um sorriso. "Não, Conrad, tu é que perdeste Maggie. Eu não. Estás morto, percebes? Morto."
Tomado por um impulso, pegou no telefone e ligou para a Western. O endereço dela? Podia ser o da Century Pictures. Ela receberia.
O telegrama foi entregue a Maggie no seu apartamento de Melton Towers, depois de passar três dias na sala de correspondência do estúdio. Elaleu-o, comprou uma
pequena moldura e pendurou-o na parede da casa de banho. Dizia:
RETIRO O QUE DISSE. SERÁS UMA ESTRELA. ÉS COMPLETAMENTE LOUCA!
ROBIN
Judith passava os dias à cabeceira de Gregory. Pela primeira vez reparava que ele pintava o cabelo. Nunca lhe ocorrera que o seu cabelo ruivo, estriado de cinza,
não fosse natural. Mas, após uma semana no hospital ela reparou que era mais branco do que ruivo; na nuca, totalmente branco. O rosto dele, com a barba por fazer,
acentuava-lhe a aparência velha e cansada. Mas ela soube que ele estava a melhorar, quando começou a mostrar interesse pelo mundo à sua volta. Ao fim da segunda
semana, já estava a passar em revista as cotações. Mandou também chamar o barbeiro e disse a Judith que fosse "fazer compras ou qualquer coisa". Quando ela voltou
às cinco horas, o cabelo retomara o seu tom ruivo, o pijama do hospital fora substituído pelo seu próprio, de seda, e ele estava a ler o Time, outra vez com o
aspecto do director-presidente da IBC. Mas perdera muito peso e, pela primeira vez na vida, demonstrava a idade. Judith estremeceu, a pensar em como ela própria
ficaria, se tivesse de passar por algo parecido. Havia quinze anos que André lhe pintava o cabelo. Deus, devia estar completamente grisalha. E sem maquilhagem...
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Gregory pôs de lado a revista, pegou no telefone e ligou para a IBC.
- Por favor, querido, sabes que tanto o Dr. Lesgan como o Dr. Spineck, te proibiram de trabalhar. Aliás, quando saíres daqui, querem que tires umas longas férias.
- É o que pretendo fazer - disse ele. - Vamos passar todo o Inverno em Palm Beach. Serão as minhas primeiras férias em não sei quantos anos. - Estendeu o braço
e segurou -lhe a mão. - Judith, estou tão aliviado por ter sido só a vesícula! Há tempo qu vinha a sentir estas dores horríveis, mas aguentava. Tinha medo de fazer
um checkup. Tinha quase a certeza que tinha um cancro. Se eu tivesse forças teria gritado de alegria, quando disseram que era apenas a vesícula. Este Inverno vou
aproveitar para jogar golfe e estar contigo. É por isso que tenho de telefonar e pôr as coisas em ordem.
O seu primeiro telefonema foi para Cliff Dorne, chefe do Departamento Jurídico.
- Cliff, quero que esteja aqui dentro de meia hora. Agora ligue-me para Robin Stone.
Robin Stone e Cliff Dorne chegaram ao hospital às cinco e meia. Judith estava sentada na poltrona.
- Querem que eu vá para a sala de estar, enquanto falam?
- perguntou ela.
- Não, fica, Judith - disse Gregory. - A decisão que vou tomar é importante. Quero que a oiças. Robin, gostaria de ser presidente da IBC?
Robin não respondeu. Quem reagiu foi Cliff Dorne.
- Presidente da IBC? - repetiu ele. - E o que é que Danton Miller é?
Gregory encolheu os ombros.
- Dan é presidente da network.
- E o que vem a ser presidente da IBC? - perguntou Cliff.
- Um novo cargo que acabo de criar. Significa apenas uma divisão no poder, enquanto eu estiver afastado.
- Mas achas que Dan vai aceitar que Robin passe à frente
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dele? - volveu Cliff.
- Acho, porque Dan continua a ter o mesmo poder. Sempre me prestou contas, mas agora fá-lo-á através de Robin.
Cliff assentiu e, pela primeira vez, ambos olharam para Robin.
Robin levantou-se.
- Sinto muito, mas não aceito.
- Você está louco? - gaguejou Gregory.
- Estaria louco mas é se aceitasse um cargo desses. Teria dois meses de luta surda com Dan e, no fundo, seria apenas um cão de guarda e um mensageiro. Depois,
quando você voltasse de Palm Beach, todo bronzeado, eu voltaria para a direcção de Reportagens, com um punhado de inimigos e uma das úlceras de Dan.
- Quem disse que você voltaria às reportagens? - perguntou Gregory.
- Presumo que o cargo seja temporário. Todos esses cargos criados são temporários.
Gregory coçou o queixo, pensativo.
- Talvez fosse, originalmente, mas, quanto mais penso na coisa, mais interessante me parece tornar o cargo permanente.
- Mas eu sou basicamente um repórter - objectou Robin.
- Bolas! -gritou Gregory. -Você transformou esse seu programa Happening num autêntico espectáculo. Sem dar conta disso, Robin, você foi-se afastando das reportagens.
Se eu não o conhecesse bem, pensaria que também estava atrás do poder.
Robin, sorriu, mas os seus olhos pareciam de aço.
- Talvez esteja. Gregory sorriu também.
- Não costumo fazer juízos apressados. Conheço-o melhor do que pensa - Estendeu a mão para um maço de papéis em cima da mesa de cabeceira - Duvida? Muito bem:
Você é de Boston. Ainda herdará bastante dinheiro. O seu pai era dos
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maiores advogados da cidade. A sua mãe vive em Roma. Não está bem de saúde, infelizmente. Tem uma irmã em São Francisco casada com um homem rico. Ora, um tipo
com esse background quer é fazer o seu trabalho bem feito. Tem segurança material, e não fome de poder. Veja o meu exemplo, Robin. Criei-me na Décima Avenida,
um dos garotos com quem eu brincava morreu na cadeira eléctrica. Sei que parece um filme de Humphrey Bogart, mas é a verdade. Alguns dos garotos do meu quarteirão
também conseguiram triunfar, como advogados, políticos ou médicos. E sabe porquê? Porque os garotos daquela rua tinham de ter poder. Se ingressavam no crime, não
ficavam no roubo. Tornavam-se assassinos. E, se entravam no mundo dos negócios, também iam até ao fim. Eu sou um deles, Dan também, mas você não é. Nem por cinco
minutos eu lhe confiaria a parte financeira da rede. Você rebentou sempre com o orçamento com o Em Profundidade. Transformou-o num programa de prestígio. Agora
que Andy Farino está à testa dele e Cliff supervisiona, o programa está a dar lucro, pela primeira vez.
- Mas também não está tão bom como era - retorquiu Robin. - Planeio uma reunião com Andy na segunda-feira. Estamos a fazer demasiados programas baseados em Nova
Iorque. Precisamos de um pouco de sabor europeu.
- Não vai haver reunião nenhuma - cortou Gregory. É o que quero dizer, quando digo que você não percebe de finanças. O programa tem uma boa cotação. Podemos continuar
com ele mais uma temporada. Felizmente, os patrocinadores do Happening pagam bem, o suficiente para termos algum lucro, mesmo consigo à frente. - Gregory sorriu,
para amenizar a censura. - Mas eu não lhe pedi para vir aqui, para lhe dar uma aula sobre o aspecto financeiro da televisão. Dan conhece-o de sobra. Cliff conhece-o
ainda melhor. E Dan tem mais alguma coisa: nunca recomenda um programa que não dê lucro.
- E a qualidade não interessa? - perguntou Robin.
- O público não quer qualidade. Temos alguns programas
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de qualidade e dão todos prejuízo. Você sabe o que o público quer. Porcaria, isso é o que ele quer. As elevadas cotações dos velhos filmes mostram isso. Eu ainda
não entrei nessa jogada. Enquanto puder tentarei criar programas novos. Mas isso não quer dizer que não sejamos comerciais, e é justamente isso o que Dan é. Por
isso, se combinarmos o seu bom gosto com o comercialismo de Dan, não podemos perder.
Robin pôs os dedos em pirâmide e contemplou-os. Depois, olhou para Gregory:
- Quem vai ficar como director de Reportagens?
- Cabe a si fazer uma sugestão.
- Andy Farino.
- Não creio que ele tenha capacidade - disse Gregory.
- Ficarei de olho nele. Prestar-me-á contas. Gregory anuiu.
- Está bem, concordo.
- E o contrato? - perguntou Robin. .
- Dan não tem contrato.
- Mas eu quero ter.
- Por quanto tempo?
- Um ano. - Robin notou a expressão de alívio no rosto de Gregory. - Sabe, Gregory, talvez isto não resulte, mas quero que fique a saber desde já que eu não pretendo
ser apenas seu lugar-tenente. vou ser presidente da IBC. vou dar ideias e lutar por elas, se achar que estão certas. Preciso de um ano. Ninguém pode ver os resultados
num mês e meio. Mas, após um ano, ou dará resultado ou eu lhe entrego o cargo e volto às reportagens.
Gregory concordou.
- Acho justo. Que lhe parece sessenta mil dólares por ano, mais as despesas?
- Parece-me ridículo.
- Dan começou com cinquenta mil.
- Quanto é que ele ganha agora?
- Setenta e cinco mil, mais as despesas e opção na compra de acções.
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- Isso soa melhor - disse Robin.
Gregory ficou um momento calado e depois sorriu.
- Gosto da sua coragem e também gosto de ver que está disposto a levar a coisa avante. Muito bem. Cliff redigirá o contrato. - Estendeu a mão para Robin. - Boa
sorte, sr. Presidente da IBC.
Robin sorriu.
- E boas férias, sr. Director-Presidente. - Olhou para Judith com um sorriso especial. - Cuide bem dele, sr.a Austin.
A notícia espalhou-se pela Madison Avenue num abrir e fechar de olhos.
Dan Miller ainda não se refizera do choque, mas fingira ter sido quem sugerira a contratação de Robin. Enfrentou a imprensa com o seu sorriso do costume e declarou:
- Robin Stone é muito competente e eu precisava de alguém que me ajudasse durante o impedimento de Gregory.
Mas passara horas a olhar para a linha dos arranha-céus, à janela, pensando no que estariam a dizer. Tomava tranquilizantes e passou a evitar o "21" e os restaurantes
onde pudesse encontrar gente da TV. À noite ficava em casa e, ao ler que Robin Stone estava a gravar o Happening com Diana Williams, rezou para que Diana fizesse
uma das suas e à última hora desse com os pés em Robin.
Mas, lá para fins de Janeiro, os temores de Dan começaram a diminuir. Os programas a serem cancelados tinham sido escolhidos vários meses antes. Os programas novos
tinham sido seleccionados por Gregory em Novembro: alguns pareciam estar a triunfar, outros eram bombas ainda maiores do que os anteriores. Chegara a hora de passar
em revista os pilotos para a temporada de Outono.
Quando chegou Fevereiro, ele já recobrara a confiança em si. Foi então que soube dos novos escritórios de Robin. Uma
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suite no terraço! Dan entrou furioso, no escritório de Cliff Dome.
- Onde é que o podíamos pôr? - disse Cliff. - Diga-me onde. Andy Farino ficou com o antigo escritório de Robin. Não há espaço. Gregory tinha trezentos metros quadrados
vazios, no terraço. Tinha pensado transformá-los num ginásio com sauna. Como não tínhamos outro lugar, transformámos o espaço vazio em escritórios para Robin.
- E eu, com que cara fico eu? Cliff suspirou.
- Está bem, diga-me onde podemos pô-lo, que eu tratarei de lhe fazer a vontade.
- Eu é que devia ter vindo para aqui - disse Dan. - E Robin devia ter passado para o meu escritório.
Cliff sorriu.
- Não acho bom o raciocínio, para quem tem dito a toda a gente que Robin foi nomeado graças a si. Se o puserem noeu escritório, Dan, todos pensarão que ele está
a substituí-lo.
Dan não teve outro recurso senão ficar calado. Todos os jornais destacavam o novo cargo de Robin. De início, ele recusara-se a fazer comentários, mas acabou por
capitular dando uma entrevista colectiva no dia em que inaugurou os seus novos escritórios.
Sentado à sua enorme secretária, Robin foi bombardeado com perguntas. As suas respostas eram polidas, mas evasivas. Os repórteres sentiram a sua relutância em
responder e redobraram o ataque. Como ex-repórter, Robin simpatizava com eles. Sabia que eles não podiam voltar de mãos vazias.
- Vamos falar de televisão, em vez de falarmos sobre o meu novo cargo - disse, com um sorriso.
- Que acha da televisão? - perguntou um jovem.
- Comparo-a a um polvo. Já não é um aparelhozinho, é a Máquina do Amor.
- Porquê a Máquina do Amor? - perguntou outro repórter.
- Porque vende e gera amor. Os presidentes são escolhidos
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pela maneira como aparecem na televisão. Transforma políticos em artistas de cinema e artistas de cinema em políticos. Você pode ficar noivo, se usar uma certa
pasta de dentes. As mulheres não o largarão, se você preferir um certo creme de barbear. Diz às crianças para comerem um certo cereal, se quiserem ficar como o
seu ídolo de beisebol. Mas, como todos os grandes amantes, a Máquina do amor é muito volúvel. Tem enorme magnetismo, mas não tem coração. No lugar do coração
palpita uma cotação Nielsen. E quando a cotação oscila, o programa morre. A Máquina do Amor é o símbolo do século .
Todos os jornais publicaram a entrevista. Dan leu-a e ficou furioso, principalmente porque os colunistas começaram a chamar a Robin, a Máquina do Amor. "Talvez
Robin Stone esteja a comparar a televisão consigo mesmo" escreveu Ronnie Wolfe. "É bem conhecido o seu hábito de se dedicar a uma mulher bonita e, como a máquina
de que fala, desligar-se com igual facilidade."
Dan atirou o jornal ao chão. Caramba, aquilo só fazia aumentar a fama de Robin: é só dizer que um tipo é o tal com as mulheres, para o tornar o tal em tudo. Tomou
outro tranquilizante e ficou a pensar que seria que o filho da puta estaria a fazer nos seus luxuosos escritórios. Que novos planos teria ele? Os ensaios do programa
com Diana Williams tinham sido adiados por duas semanas. Os jornais noticiavam qiieByron Withers, o galã, tinha desistido, reclamando que o seu papel fora reduzido
a favor de Diana. Byron Withers! Como era que aqueles pobres diabos tinham a coragem de pensar que podiam vencer na Broadway depois de fazerem apenas três filmes,
e ficar em pé de gualdade com Diana Williams? Embora torcesse pelo fracasso de Robin, Dan respeitava o talento de Diana. Pôs o jornal de lado, na esperança de
que a notícia fosse falsa e que a própria Diana é que estivesse a armar em difícil.
Robin também suspeitava de que Diana estivesse a armar em difícil. Estaria ela a tomar soporíferos e a beber? Ike Ryan toara que ela estava OK e ansiosa por começar
os ensaios.
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"Logo que encontremos um actor, começaremos", dizia Ike "Nem precisa de cantar bem, basta ter o físico apropriado para o papel".
Dez minutos mais tarde a secretária de Robin entrou.
- Um certo senhor Nelson está ali fora, a querer vê-lo. Por um momento, Robin ficou sem saber quem era. A
secretária acrescentou:
- É Dip Nelson, o actor de cinema. Robin sorriu.
- Claro, mande-o entrar.
Dip entrou, a deitar um sorriso encantador para a secretária. Ela corou e quase tropeçou nos móveis, ao sair da sala. Robin riu.
- É uma solteirona de quarenta anos, ainda a matas de emoção.
Dip encolheu os ombros.
- Se é assim, talvez eu lhe dê um beijo, quando sair. Pelo menos, morre feliz. - Assobiou, ao ver o escritório. - Caramba, meu caro, que palácio arranjaste, hem!
- Como vão as coisas, Dip?
Ele sentou-se e jogou as compridas pernas por cima do braço da poltrona.
- Aqui entre nós, têm ido muito mal.
- Que aconteceu para não fazerem o espectáculo na Sala Persa? Pelo menos não vi nenhum anúncio.
Dip encolheu os ombros.
- O espectáculo era uma bomba. Viajámos com ele durante mais de um ano e fizemos algum dinheiro, mas não me atrevi a apresentá-lo em Nova Iorque. Sabes uma coisa?
Pauli e eu não ligamos.
- Queres dizer que o casamento fracassou?
- Qual quê? Está mais firme do que nunca! Mas as nossas personalidades não ligam no palco. Quando ela faz comédia ou canta sozinha, é sensacional. E, quando eu
imito Ted Lewis, rapaz! Mas acontece que ela tem um estilo e eu outro. Ouve, o meu agente disse-me que Ike Ryan anda à procura de um galã
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para representar com Diana Williams e o Grande Dipper é o astro para ela. Uma vez disseste-me que me devias um favor. Que tal pores-me, mais a Pauli, no The Christie
Lane Show? Ryan veria como eu sou bom e a massa também calhava bem.
Ouvi dizer que pagam cinco mil dólares a cada convidado. Pauli também vai gostar. Caramba, vai ficar furiosa se eu trabalhar com Diana Williams e deixar o espectáculo
mas, se a oferta vier do programa de Chris Lane, ela não reclamará.
- Podes contar comigo. Quando queres participar no programa?
- Era bom ter sido no de ontem!
Robin pegou no telefone e ligou para Jerry Moss.
- Jerry, quem é o artista convidado do próximo programa de Chris Lane? Lon Rogers? Muito bem, cancela-o... Não, não me interessa que tenha sido Artie Rylander
quem o escolheu. A IBC pagará da mesma forma. No lugar dele, quero que ponha Pauli e Dip Nelson. E se alguém reclamar, diz que a ordem foi minha... Claro, diz
que eu detesto Lon Rogers... Não, acho que ele é um óptimo barítono. Mas quero que Dip e Pauli entrem no lugar dele.
Desligou e sorriu para Dip.
- Está garantido. Dip abanou a cabeça.
- Caramba, meu caro, subiste mesmo muito!
Na manhã seguinte, a secretária de Robin anunciou que Danton Miller estava à espera na sala. Robin estava ao telefone, a falar com Gregory, em Palm Beach.
- Diga-lhe para esperar - disse.
A fúria de Dan foi crescendo. Quando, por fim, lhe disseram para entrar, começou a dizer, antes de passar pela porta:
- Você acha pouco meter-se nos meus programas, arma-se também em importante e faz-me esperar.
- Que o traz por cá, Dan? - perguntou Robin, com um sorriso glacial.
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Dan encarou-o de punhos cerrados.
- Agora também se põe a contratar gente. Como se atreve a passar por cima de Artie Rylander e pôr uma dupla miserável no meu programa principal?
- No programa principal da IBC - retorquiu Robin.
- Qual é a sua desculpa? - perguntou Dan. Robin olhou-o friamente.
- Deixei de pedir desculpa quando tinha cinco anos.
- Porque razão os pôs no programa? - insistiu Dan com os lábios apertados de fúria.
- Porque acontece que eu gosto deles. São uma dupla nova, nunca apareceram na televisão. Só isso já é
bom. Estou farto de ver sempre as mesmas caras velhas do cinema, esses a quem pagamos cinco mil dólares e a quem dias depois vemos nos programas de Johnny Carson,
Mery Griffin ou Mike Douglas. De agora em diante não quero publicidade
de filmes em nenhum dos nossos programas. - Oiça, seu filho da puta...
O inter-comunicador tocou. Era a secretária de Robin. A sua passagem para Roma está confirmada, sr. Stone.
- Roma! - Dan parecia à beira de um ataque. - Que diabo vai fazer a Roma?
Robin levantou-se.
- vou a Roma despedir-me da minha mãe, que está a morrer. Passou diante de Dan e parou à porta. - E tenho permissão de Gregory para ficar lá o tempo que for necessário.
Espero que possa prescindir de mim durante alguns dias. Quando Robin saiu do escritório, Dan ainda estava de pé no meio da sala, a olhar para ele.

Capítulo vigésimo sétimo

Sérgio estava à espera no aeroporto quando Robin desembarcou .
- Não lhe telegrafei antes - explicou - porque pensámos que era outro ataque leve. Mas ontem o médico disse para eu avisar a família. Fiz bem?
- Fizeste muito bem, Sérgio - respondeu Robin. Viu as lágrimas brilharem nos olhos do rapaz. Esperou até entrarem no carro e depois perguntou: - Como está ela?
Pelo canto do olho, viu que as lágrimas deslizavam pelas faces de Sérgio.
- Está em coma - disse ele.
- Avisaste a minha irmã? - disse Robin.
- Lisa e Richard estão a caminho. Encontrei os nomes deles no livro de moradas de Kitty. Mandei-lhes o mesmo telegrama que a si.
Eram dez da manhã quando chegaram à clínica. Robin só pôde ver-lhe o rosto lívido debaixo da tenda de oxigénio. Morreu às onze e meia, sem ter recuperado o conhecimento.
Lisa e Richard chegaram uma hora depois. Lisa começou a gritar e teve de tomar calmantes. Richard ficou ao lado dela, estóico, sem poder fazer nada.
Na manhã seguinte, Robin, Sérgio e Richard reuniram-se no escritório do advogado de Kitty, a fim de tratarem dos funerais. O testamento de Kitty seria autenticado
nos Estados Unidos. O dinheiro era para ser dividido igualmente entre Robin e Lisa, mas Kitty deixara a villa, o carro e todas as suas jóias a Sérgio. Lisa passou
todo aquele dia na cama. Na manhã seguinte, desceu para o pequeno-almoço pálida e silenciosa, quando Sérgio e Robin já estavam na segunda chávena de café.
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- Kitty queria ser cremada - disse Robin. - Tratámos de tudo ontem. Richard compareceu no teu lugar.
Lisa não "disse" nada. De repente, voltou-se para Sérgio.
- Importa-se de tomar o café na outra sala? Quero falar com o meu irmão.
Robin franziu a testa.
- Esta é a casa dele - disse. Mas Sérgio já tinha levado o café para o living.
- Foste muito grosseira - observou Robin. Lisa fingiu não o ouvir e virou-se para o marido.
- Então, não dizes nada?
Richard pareceu embaraçado. Endireitou-se, como que a ganhar coragem e disse, finalmente:
- Vamos contestar o testamento.
- Porquê? - perguntou Robin cautelosamente. - Que vão contestar?
- O facto de Sérgio herdar a villa e as jóias. Não podemos perder.
- Porque estão tão certos disso? Richard sorriu.
- Ora, ele precisará de dinheiro para contratar um advogado e tudo isso, quando dermos início à acção. É evidente que ele não tem um tostão. Após alguns meses,
concordará em ceder a propriedade em troca de alguns milhares de dólares para viver. Claro que também argumentaremos que Kitty não estava de juízo perfeito quando
fez o testamento, que o rapax fez pressão sobre ela.
- Fiquem sabendo que vou tentar impedi-los - disse Robin, calmamente.
- Queres dizer que ficas do lado desse maricas? - perguntou Richard.
- vou ficar do lado de quem foi bom para Kitty.
- vou mandar fazer investigações acerca dele - disse Richard. - Provarei que ele se aproveitou do estado emocional de uma mulher velha e doente.
- Quem diabo és tu para provar seja o que for? Alguma
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vez estiveste aqui? Por acaso viste-os juntos? Eu vi. E é por isso que a minha palavra valerá mais do que a tua.
- Oh, não, isso é que não - disse Lisa, com uma voz esquisita. - Acontece que eu sei de coisas que podem diminuir o poder da tua palavra. E podes ser muito prejudicado
no teu cargo se houver publicidade.
Richard mandou-lhe um olhar de aviso.
- Lisa, podemos ganhar a acção por vias legais. Para quê entrar em campos pessoais?
- Devia ter esperado isso mesmo de ti - disse Lisa, olhando para Robin. - Afinal, quem és tu? Apenas um órfão que teve muita sorte...
- Lisa! - gritou Richard.
- Ora, porque razão hei-de evitar chocá-lo? Gostaria de ver o meu irmão perder a calma pelo menos uma vez na vida! O procedimento dele só vem provar que o sangue
é outro. Ele é tão meu irmão como o maricas que está ali na outra sala. Voltou-se para Robin. - Foste adoptado quando tinhas cinco anos!
Fez uma pausa, à espera da reacção de Robin, mas Richard pareceu ser o único afectado. Olhou na direcção do terraço, procurando esconder o seu constrangimento.
Robin encarou-a.
- Lisa, neste momento, nada me dá maior satisfação do que saber que não somos do mesmo sangue.
- A tua mãe era uma prostituta!
- Lisa! - gritou outra vez Richard.
- Deixa-a falar - disse Robin, serenamente.
- Guardei o segredo durante estes últimos anos. Antes, também não sabia. Kitty disse-me quando esteve doente. Disse que, se alguma vez eu me visse em apuros, te
procurasse. Que eras uma pessoa muito forte e que gostava de ti como se fosses mesmo filho dela. Adoptou-te quando já tinha desistido de ter um filho. O pai tinha
um amigo criminalista que lhe falou de um caso que tinha entre mãos: um pobre órfão em
estado de coma num asilo, em Providence. A mãe insistiu em
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adoptar-te. A tua verdadeira mãe foi estrangulada e não tinhas pai. Mas a mãe, a minha mãe, adorava-te porque, dois anos mais tarde, o impossível aconteceu: eu
nasci!
Não posso evitar que fiques com metade dos bens do pai. Isso é legal. O pai fez um testamento "estúpido". Mas posso impedir-te que faças esse fresco ficar com
alguma coisa!
- Tenta então. Adoro uma luta.
Ela levantou-se de um pulo e atirou-lhe o café à cara.
- Tu sabias que eras adoptado! Filho da puta! Tens mesmo sangue dela! Odeio-te! - E correu para fora da sala.
Richard estava perplexo. Robin enxugou calmamente o rosto e a camisa.
- Graças a Deus que o café estava morno - disse, com um sorriso.
Richard levantou-se.
- Lamento muito, Robin. Ela não está no seu juízo. Vai passar. Mas, não se preocupe, Robin. Não vou deixá-la contestar o testamento.
Robin sorriu para ele.
- Richard, acho que te subestimei.
O corpo de Kitty foi cremado. Lisa ficou com a urna contendo as cinzas e logo no dia seguinte o casal tomou o avião de volta aos Estados Unidos. Sem dúvida, Richard
conseguira dissuadi-la, pois ela não voltara a falar na contestação do testamento. Assim que eles partiram, Robin preparou uma bebida. Sérgio ficou a olhá-lo silencioso.
- Quero agradecer-lhe, Robin. Eu estava na outra sala quando a sua irmã reagiu daquela maneira violenta. Infelizmente, não pude deixar de ouvir. É verdade que
foi adoptado?
Robin fez que sim. Depois virou-se com um sorriso e disse:
- Mas também é verdade que agora és um homem rico. O rapaz assentiu,
- Ela deixou-me muitas jóias. Pérolas, um brilhante de vinte quilates. Agora, posso ir para a América!
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Robin assobiou.
- Sérgio, estás mesmo rico!
- O que eu quero dizer é que talvez você queira o anel de brilhantes ou o colar de pérolas para dar a alguma rapariga de que goste.
- Nada disso. Vais ficar com tudo. Tu é que tomaste conta dela.
Sérgio olhou para ele.
- Que vai fazer agora, Robin?
- Bem, para começar, vou embriagar-me. Sabes uma coisa, Sérgio? Vamos fazer uma farra, apanhar umas mulheres... - Parou. - Tu não gostas mesmo de mulheres?
O rapaz sacudiu a cabeça.
- Mesmo com Kitty, éramos apenas bons amigos.
- Está bem, então hoje à noite armas em meu bom amigo. Vamos sair e embebedar-nos.
- vou consigo, mas não vou embebedar-me.
Às duas da manhã, Robin cantava pelas ruas. Tinha a vaga consciência de que Sérgio o segurava. Por várias vezes tropeçou e teria caído se não fosse Sérgio. Nunca
se embriagara daquela maneira. A última coisa de que se lembrava, antes de perder o conhecimento, era de ter caído na cama. Na manhã seguinte acordou com a primeira
ressaca da sua vida. Estava debaixo dos lençóis só de cuecas. Sérgio entrou no quarto com um bule de café preto retinto. Robin olhou para ele curioso.
- Sérgio, como é que eu estou sem roupa?
- Despi-o eu.
- Imaginei isso. Gostaste? Sérgio ficou ofendido.
- Robin, o mal é que as pessoas pensam que um homossexual é sempre um tarado. Se estivesse com uma mulher e ela perdesse os sentidos, você possuí-la-ia só por
ela ser mulher?
Robin sorriu, a pedir desculpas.
- Tens razão. Desculpa. - E para alegrar o ambiente, acrescentou: Mas, Sérgio, eu é que devia sentir-me insultado. Pensei que estivesses louco por mim.
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Por um segundo, os olhos castanhos brilharam, esperançosos. Mas logo compreenderam o sorriso de Robin.
- Está brincar, mas usarei sempre esta pulseira. - Estendeu o braço. - Sei que gosta de mulheres, mas ainda hei-de encontrar um homem de quem eu goste e que goste
de mim.
Robin bebeu o café. Estava mau, mas pelo menos ajudava a clarear as ideias.
- Você detesta o que eu sou, não é Robin?
- Não, Sérgio. Pelo menos, sabes o que és, quem és e o que queres na vida.
- Tem pena de não ter conhecido a sua verdadeira mãe?
- Tenho. Faz com que eu me sinta no limbo - respondeu Robin, lentamente.
- Então, porque não tenta descobrir quem ela era?
- Ouviste o que Lisa disse. Infelizmente, é verdade. Tenho um velho recorte de jornal na carteira que prova isso.
- A Alemanha não é assim tão longe.
- Que queres dizer com isso?
- Sabe o nome da sua mãe, a cidade onde ela nasceu. Talvez tenha parentes, amigos que lhe possam falar sobre ela.
- É melhor esquecer isso.
- Quer dizer que prefere aceitar a palavra de Lisa e de um recorte de jornal? Eu sou o que Lisa chama um maricas, mas também sou uma pessoa. Talvez a sua mãe fosse
uma boa pessoa. Tente descobrir quem era ela.
- Ora, eu não falo alemão, nem nunca estive em Hamburgo.
- Mas eu falo alemão e já estive em Hamburgo. Conheço bem a cidade.
Robin sorriu.
- Sérgio, és um rapaz de talentos múltiplos.
- Podíamos estar na Alemanha dentro de algumas horas. Eu iria consigo.
Robin atirou os lençóis para trás e saltou para fora da cama.
- Sabes uma coisa, Sérgio. Nunca estive na Alemanha e gostaria de conhecer o país. Principalmente Hamburgo. Atirei
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umas bombas em cima da cidade, durante a guerra, mas só a vi do alto. E gosto muito das raparigas alemãs. Reserva duas passagens de avião. Talvez não descubramos
nada sobre a minha mãe, mas não há dúvida que nos vamos divertir!
Hospedaram-se no Hotel das Quatro Estações. Asuite não podia ser mais europeia: tapetes orientais, edredons nas camas. Sérgio foi directamente ao telefone e pôs-se
a telefonar para todos os Boeches que havia na lista. Robin mandou pedir uma garrafa de vodka e sentou-se junto da janela, a beber e a ver o crepúsculo cair sobre
a cidade. Via-se gente à espera dos autocarros, mães a puxarem crianças pela rua, as lojas a começarem a fechar. O rio Alster corria, sereno e escuro. Então era
aquele o inimigo que ele tinha bombardeado. A cidade que os ingleses quase tinham arrasado. Parecia uma cidade qualquer da América. Mal prestava atenção ao impecável
alemão de Sérgio fazendo telefonema após telefonema. No oitavo, Sérgio chamou-o excitado, ao mesmo tempo que anotava um número e um endereço.
- Estamos com sorte - disse, ao desligar. - Estes Boeches dizem que são primos distantes de uma certa Herta.
- Tente mais - disse Robín. - Pode ser que haja mais de uma Herta.
Ao fim de uma hora, tinham localizado cinco Hertas Boesches que tinham emigrado para a América. Uma delas ainda vive em Milwaukee, não podia ser essa. As outras
nunca mais tinham dado sinal de vida.
Sérgio estava desanimado.
- Parecia um plano tão bom! Lamento muito, Robin.
- Ora, não me digas que vais ficar aqui a lamentar-te! Pelo menos mostra-me Hamburgo. Há vida nocturna?
Sérgio soltou uma gargalhada.
- Robin, não há cidade no mundo com a vida nocturna de Hamburgo.
- Estás a brincar! Melhor do que Paris?
- Ao pé de Hamburgo, Paris é um grande colégio de "freiras. Os ntghtdubs de Paris são para turistas. vou mostrar 471
-lhe o que é a vida nocturna. Mas não convém levar mais de cem dólares, e trocado em notas pequenas. Onde o vou levar, é vulgar ser-se roubado.
Tomaram um táxi e Sérgio mandou andar até um certo ponto. Depois saíram e foram andando.
- Este é o bairro de S. Paulo - explicou Sérgio. Caminharam por uma rua profusamente iluminada.
- Esta é a Reeperbahn.
Tinha mais luzes que a Broadway. Ao lado de um Wimpy's erguia-se um arranha-céus. Do outro lado da rua havia um bowling. Mas o que mais impressionava Robin era
o povo. Gente e mais gente, todos a andarem sem pressa. Lembrava a multidão a fazer compras na Quinta Avenida antes do Natal, mas sem aquele frenesi. Ali, as pessoas
passeavam, simplesmente. Robin e Sérgio passaram por um conglomerado de lojas
- leiloeiros, antiquários - toda a rua era uma confusão de anúncios luminosos. E, por todo o lado, persistia o cheip a salsicha. Tomado por um impulso, Robin parou
numa barraquinha.
- Dois Wetsswurst por favor. Sérgio olhou-o espantado.
- Que é isso, Robin? Parece um cachorro-quente branco. Robin deu uma dentada e espetou o repolho quente.
- Weisswurst. Não o comia desde... - Parou, de repente, sem fala. - Acabei de vê-la, Sérgio! Vi uma mesa redonda em falso e uma mulher linda, de cabelos pretos,
a colocar um prato disto diante de um rapazinho. - Robin afastou o prato. - Isto é uma porcaria, comparado com o que ela fazia.
Saíram da barraca e caminharam em silêncio.
- Vi o rosto dela - murmurou Robin. - Começo a recordar-me de tudo. Ela era linda. Morena, com olhos negros e brilhantes, como uma cigana.
- Ainda bem - disse Sérgio.
- Era uma prostituta mas, pelo menos, agora lembro-me dela. Caramba, era linda. Vamos comemorar, Sérgio. Não
vamos
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passar a noite toda a andar por uma avenida alemã, ou vamos? Pode ser essa a tua ideia de vida nocturna, mas a minha é muito diferente.
Sérgio pegou-lhe no braço e fê-lo atravessar a rua. Viraram à direita e caminharam mais um quarteirão.
- Aqui estamos - disse Sérgio. - A Silbersackstrasse. Robin teve a impressão de terem entrado num outro
mundo. As mulheres abordavam-nos abertamente.
- Amerikaner-Spiel?
Uma das mais ousadas foi atrás deles.
- Que tal divertirmo-nos os três?
Robin sorriu e continuou a andar. A cada passo uma mulher saía de um beco ou de uma porta. As propostas nunca variavam. Faziam com que as raparigas que andavam
pela
Sétima Avenida e pelo Central Park parecessem debutantes. Aquelas eram jovens acostumadas a satisfazer os apetites rudes dos marinheiros. Entraram por outra rua
e Sérgio parou diante de um portão de madeira escura, onde se lia, pintada em grandes letras brancas: PROIBIDO! Sérgio abriu o portão e Robin seguiu-o, tomado
de
mudo espanto.
- Esta é a Herberstrasse - sussurrou Sérgio. Robin mal podia acreditar no que via. A rua, comprida e estreita, era ladeada por minúsculas casas de dois andares.
As janelas das salas de baixo iam do chão até ao tecto e, em cada janela iluminada, estava sentada uma mulher. Algumas janelas estavam às escuras. Sérgio apontou
para um quarto do primeiro andar.
- Janela escura quer dizer que a mulher está a trabalhar.
- As pessoas subiam e desciam a rua, examinando as raparigas. Para surpresa de Robin, havia também mulheres andando pela rua com homens. Avistou uma conhecida
estrela
de cinema, com óculos escuros e lenço na cabeça; o representante alemão da companhia para a qual ela trabalhava estava a
mostrar-lhe Hamburgo à noite. Robin estava
boquiaberto como a atriz. Não podia crer que existisse o que via. As Mulheres por detrás das janelas pareciam indiferentes aos homens
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que andavam na rua. Tinham minúsculos soutiens e biquinis tapa-sexo, e bebiam vinho. Os seus olhos, pintadíssimos, não pareciam ver ninguém. De vez em quando,
uma delas voltava-se para a colega da janela ao lado e fazia um comentário. A outra ria. Como era possível rir, num mundo daqueles? Que pensavam e sentiam aquelas
mulheres? Como é que elas podiam rir?
- A noite de Natal é uma noite triste, para elas - sussurrou Sérgio. - Armam pequenas árvores e dão presentes umas às outras. À meia-noite, choram.
- Como sabes tudo isso?
- A minha irmã trabalhava aqui - respondeu Sérgio.
- A tua irmã!
- Nasci durante a guerra. O meu pai foi morto na Tunísia. A minha mãe fez o que pôde para sustentar-me e aos meus três irmãos. Todos tínhamos menos de dez anos.
A minha irmã tinha catorze. Começou a prostituir-se para nos trazer comida dada pelos soldados americanos. Mais tarde, acabou aquina Herberstrasse. Morreu no ano
passado, aos trinta e cinco anos
- uma vida longa para uma mulher da Herberstrasse. Venha, vou mostrar-lhe para onde elas vão depois dos trinta. - Levou Robin a um beco fora do trecho central
da Herberstrasse. Nele, as janelas davam para uma parede e só exibiam mulheres gordas, de mais de trinta anos. Robin olhou para uma de cabelos tingidos de preto,
com dentes de ouro e olhos empapuçados. Um homem de cara congestionada, com o nariz cheio de pequenas veias, bateu à janela dela. A mulher abriu. com o homem havia
mais três. Seguiu-se uma acirrada discussão. De repente, ela fechou a janela. Os homens encolheram os ombros e bateram na janela ao lado, onde estava uma mulher
de cabelos
louros, com um quimono que lhe cobria os seios enormes, pendentes até à cintura. Nova
conversa, ela abriu a porta e os homens entraram. As luzes apagaram-se e o
grupo subiu a escada.
- Que foi que eles disseram? - perguntou Robin.
- Tudo questão de preço - explicou Sérgio. - Estavam dispostos a pagar o preço pedido para o homem que fosse
com
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ela, mas os outros queriam assistir, mediante um pequeno pagamento. Robin riu.
- Divertimento em grupo. Sérgio fez que sim.
- A segunda mulher concordou, mas fez com que prometessem pagar a limpeza do tapete se se masturbassem durante o acto.
Voltaram para o troço principal da Herberstr.Lsse. Numa das janelas, Robin viu uma mulher que lhe lembrou a prostituta que ele espancara. Estava de pé com botas
e chicote na mão.
- A fazer publicidade dos seus talentos - murmurou Sérgio.
Voltaram à Reeperbahn e entraram numa discoteca, onde foram prontamente postos na rua. Robin ainda conseguiu ver mulheres a dançarem juntas e de mãos dadas no
bar.
Ali, os homens eram verboten. Pararam num café onde se anunciavam "nus artísticos". Robin encolheu os ombros e Sérgio entrou com ele. O lugar estava cheio de marujos
e conduziram-nos para uma mesa do fundo. O palco era elevado e uma mulher acabava de se despir completamente: nem tapa-sexo, nem tlores nos pontos estratégicos.
Ouviram-se palmas e a rapariga desapareceu.. A orquestra atacou e entrou outra rapariga. Devia ter uns dezanove anos, era fresca e vestia chiffun cor-de-rosa.
O seu sorriso era inocente como o de uma jovem que vai ao seu primeiro baile. "Esta deve ser cantora", pensou Robin.
Ela deu a volta à pista, rindo para todos os marinheiros e atirando-lhes beijos. Eles gritaram, entusiasmados. Sem dúvida, ela era bem conhecida. Então, a música
começou e ela foi tirando a roupa. Robin não podia acreditar. Ela era bonita e fresca, ficaria melhor a escrever à máquina nos escritórios da IBC do que a andar
naquela pista a conversar com os marinheiros. De repente, ficou completamente nua, rodopiando num Pé, sempre com o mesmo sorriso. Via-se que gostava da sua Profissão.
Depois, puxou de uma cadeira para o centro da pista
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e sentou-se nela, de pernas abertas, sempre a rir. Finalmente levantou-se e andou à volta da pista, inclinando-se para cada mesa e deixando os homens chuparem-lhe
os seios. Aproximou-se da mesa de Robin e Sérgio, mas riu, abanando a cabeça. Piscou o olho para eles, como quem percebe, e continuou pelas outras mesas.
Robin atirou umas notas em cima da mesa e saiu. Sérgio correu atrás dele. Desceram a rua em silêncio.
- Aquela rapariga - disse Robin - não podia ter mais de vinte anos. Como é possível?
- Robin essas raparigas são produto da guerra. Cresceram sem ter que comer. Crianças que crescem sem ter que comer só querem saber.de uma coisa: subsistir. Para
elas, sexo não é amor, nem sequer prazer. É uma forma de sobreviver.
Enquanto desciam a rua, eram abordados por mais mulheres.
- Ouve, acho que já chega - disse Robin.
- Vamos só a mais um lugar, antes de voltarmos ao hotel. Entraram num cabaret na Grosse Freiheit Strasse. Tudo ali
era elegante. Gente bonita e bem vestida conversava em voz baixa, enquanto um trio de cordas tocava canções de amor alemãs. A sala era comprida, pouco iluminada.
Havia grupos de homens, o que despertou as suspeitas de Robin até que viu vários casais vulgares, de mãos dadas e a ouvirem música.
- A comida é óptima aqui na Maison Bleue - disse
Sérgio.
- Tu comes. Eu quero é embriagar-me.
Sérgio mandou vir um bife e atacou-o com tal fúria que Robin se sentiu culpado; esquecera-se de que não tinham jantado. Mandou vir uma garrafa de vodka e começou
a bebê-la pura. Tinha gosto de veludo quente e branco...
O conjunto de cordas parou de tocar. Um baterista juntou-se à orquestra, um mestre-de-cerimónias anunciou qualquer coisa e o espectáculo começou. Robin olhou,
sem
grande interesse. Via-se que era um nightclub de primeira. Uma cantora francesa, chamada Veronique, apareceu na
pista.
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Cantava bem, com uma linda voz de contralto. Acabou de cantar e recebeu aplausos bem educados. Robin serviu-se de outra dose de vodka. Teve de fazer um esforço
para focar a cantora seguinte. Era loura, bastante bonita, e cantava qualquer coisa como Gipsy. Ethel Merman não tinha porque se preocupar. Robin levantou os olhos,
tonto, ao ouvir gritar "Brazillia"! Uma jovem esbelta e morena surgiu à luz dos reflectores.
Robin endireitou-se na cadeira. Aquela, sim, valia a pena olhar. Usava um fato de homem por cima de uma malha de ballet. O seu cabelo negro estava puxado para
trás, sob um chapéu de homem, posto de través. Lentamente iniciou um número apache. Dançava extraordinariamente bem e via-se que tinha uma sólida formação de
bailarina clássica. Terminou o seu número em ritmo acelerado, tirou o chapéu e sacudiu os negros cabelos até lhe caírem em cascata sobre os ombros. Os aplausos
encheram a sala, mas ela não se foi embora. Esperou, até que as palmas diminuíssem e então a música atacou um ritmo peculiar. Contorcendo-se sugestivamente, ela
tirou o fraque. Lentamente caiu de joelhos e, como uma serpente a mudar de pele, tirou a malha de ballet, revelando um corpo branco e perfeito, vestido apenas
com um biquini e um minúsculo soutien prateado.
A música acelerou, as luzes começaram a piscar; Robin viu o corpo branco e prateado a saltar no ar, caindo no chão. As luzes diminuíram, ela arrancou o soutien
e o biquini e as luzes acenderam-se, para deixar o publico ver o seu corpo nu e os seios pequenos e firmes. Finalmente as luzes voltaram a apagar-se e ela desapareceu,
sob intensos aplausos. O espectáculo terminara e Robin estava completamente embriagado.
- Quero conhecer Brazillia - declarou
- Vamos até ao Liesel's, nesta mesma rua. É onde vão todos tomar o pequeno almoço. Brazillia deve estar lá.
Robin olhou para o relógio.
- Estás a brincar? São três horas da manhã. Isto aqui já vai fechar. Não vamos encontrar nada aberto.
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- Em Hamburgo, há lugares que ficam abertos vinte e quatro horas por dia.
Robin pagou a conta, mas teimou em mandar um bilhete a Brazillia, dizendo-lhe para se encontrar com eles no Liesel's. Sérgio escreveu pacientemente o bilhete em
alemão e entregou-o ao empregado, juntamente com um punhado de marcos. O empregado voltou e disse qualquer coisa em alemão
para Sérgio.
- Ela vai lá - disse ele a Rosin. - Venha, vamos
embora.
Robin obedeceu.
O Liesel's era propriedade de uma mulher gorda, que os conduziu a uma espécie de adega, com mesinhas e toalhas quadriculadas. Sérgio pediu cerveja. Robin pôs-se
a olhar em volta enquanto bebia o seu vodka. Um homem alto e bem parecido entrou e sentou-se a uma mesa do outro lado da sala. Não tardou que alguns homossexuais
se juntassem a ele. O homem alto olhou fixamente para Sérgio. Robin estava
bebado, mas percebeu o olhar trocado entre o homem e Sérgio.
- Tens a certeza que este é o lugar onde Brazillia costuma vir, e não apenas um ponto de reunião de maricas?
- É tudo isso e também o único lugar no quarteirão que serve
pequeno-almoço - Sérgio não tirava os olhos do bonitão.
- Vai Serginho, vai ter com os rapazes.
- Não, vou ficar consigo. Talvez Brazillia não venha e não quero que fique só.
- Ouve meu caro, não preciso de ama. E tenho a certeza que ela virá.
- Robin, não gosto nada disto. Sabe que espécie de rapariga é Brazillia, não sabe?
- Desaparece ou o galã acabará por perder o interesse. A esta altura, deve estar a pensar que eu sou o teu namorado.
- Mas, Robin...
- Tenho de te dar um pontapé?
Nesse momento, a porta abriu-se e ela entrou. Olhou em
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volta, hesitante. Robin levantou-se e acenou. Ela encaminhou-se directamente para a mesa dele.
- Desaparece, Sérgio - disse ele, baixinho.
Sérgio encolheu os ombros e foi sentar-se na mesa da frente. Brazillia sentou-se ao lado de Robin. A dona da casa trouxe-lhe um conhaque.
- Eu falo inglês - disse a rapariga, numa voz grossa e baixa.
- Não precisas de falar, menina.
Olhou para cima a tempo de ver Sérgio sair com o homem. Sérgio acenou-lhe e Robin fez o V da vitória com os dedos. A rapariga bebeu o seu conhaque em silêncio.
Robin mandou vir outro, estendeu o braço e segurou-lhe a mão. Ela apertou a dele. Um jovem louro e efeminado entrou na sala e dirigiu-se para a mesa onde eles
estavam. Disse algo em francês a Brazillia. Ela fez que sim e o homem sentou-se.
- Este é o Vernon. Ele não fala inglês. Está à espera de um amigo e não gosta de ficar de pé, sozinho.
Robin mandou vir uma bebida para Vernon. Para sua surpresa, a mulher gorda trouxe-lhe um copo de leite.
- Vernon não bebe - explicou Brazillia.
Nesse momento, entrou na sala um homem alto e de aspecto desportivo. Vernon engoliu o leite e correu ao seu encontro.
- Pobre Vernon - disse Brazillia - ele não sabe o que quer.
- É evidente - comentou Robin. Brazillia suspirou.
- Durante o dia tenta viver como um homem. À noite é uma mulher. É triste. -Voltou-se para Robin. -Andaaqui em busca de emoções diferentes?
- Gosto de toda a espécie de emoções.
- Se está à espera de ter emoções diferentes comigo, é Melhor ir-se embora. -Ela parecia cansada. -Você é bonito. Gostaria muito de ir para a cama consigo..Mas
gostaria de uma noite de amor, de sexo limpo. Nada de taras, percebeu?
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- OK.
- Quer dizer que concorda? - A voz dela era quase
suplicante.
- Como quiser, menina.
- Um momento. - Ela foi até ao bar e disse qualquer coisa ao ouvido de Vernon. Ele fez que sim, com um sorriso. Ela voltou para a mesa e disse; - Vamos, então.
Ao pagar a conta, ele ficou a pensar qual teria sido a conversa com Vernon. Mas sabia que muitas mulheres tinham homossexuais como amigos e confidentes. Amanda
chegara a dizer que uma sua colega morava com um maricas. E ele próprio, não andava com Sérgio?
Havia um táxi estacionado do lado de fora, mas ele fez que não.
- Moro aqui perto.
Conduziu-o por ruas escuras e empedradas até um grande prédio. Atravessaram um portão de madeira e chegaram a um pátio. Havia um ar de Paris em tudo aquilo. Os
gerânios nas janelas, um gato a passear, todo um ambiente de classe média. Subiram ao segundo andar. Ela baixou-se, pegou num embrulho de pão e enfiou a chave
na fechadura.
- É para o caso de tomar conhaque a mais. Comendo pão, não acordo com uma ressaca.
O apartamento era pequeno e totalmente feminino. Brilhante de limpeza e quase virginal, com uma colcha branca na cama com bonecas em cima. E, sobre o mármore da
lareira, o retrato de uma das cantoras do espectáculo, Véronique.
- Ela canta bem demais para abrir o espectáculo - comentou Robin. - Podia fazer sucesso em Nova Iorque. Estendeu o braço e agarrou-a pela cintura. - E tu danças
bem demais para fazer strip-tease. És mesmo boa.
Brazillia encolheu os ombros.
- Assim ganho mais dinheiro e atraio mais público. No fim de contas qual é a diferença? Desde que vivemos e trabalhamos na Reeperbahn, de nada serve sonhar, é
tarde demais. Mas eu já estive na América. Já dancei em Las Vegas.
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- Sim? - perguntou Robin, surpreendido.
- Sim, mas não como solista. Fazia parte de um grupo de seis coristas. O nosso número era estudado para servir de apoio a um velho cantor americano. Ele mal conseguia
emitir as notas e nós procurávamos distrair a atenção do público. Isso foi há dez anos. Eu tinha dezoito anos e esperava dedicar-me seriamente ao ballet. Mas
quando o número terminou, tudo o que eu tinha era uma passagem de volta à minha cidade natal. E então, voltei.
- Qual é a tua cidade natal?
- Milão. Vivi lá algum tempo. - Ela serviu-lhe um conhaque. - Depois percebi que tentar servir à mesa e viver a vida burguesa que se esperava de mim era tão desonesto
como... - De novo encolheu os ombros. - Não me diga que é igual a todos os outros, que eu preciso de lhe contar toda a minha vida!
- Não, não tens que me contar nada Brazillia. Mas és jovem e bonita. Não desistas dos teus sonhos.
Ela empurrou-o para o sofá e sentou-se ao colo dele.
- Esta noite, um dos meus sonhos está a realizar-se. Pasou a mão pelo rosto dele e roçou-lhe a orelha com a língua.
- Fazer um homem bonito como tu querer dormir comigo.
- Ansiava por dormir contigo - disse ele. Beijou-a e ela colou-se a ele. Depois levantou-se e puxou-o para o quarto.
Na cama, ela revelou-se agressiva. A sua língua borboleteava por todo corpo dele, os seus seios jovens e firmes colavam-se-lhe ao peito, o seu longo cabelo negro
fazia-lhe cócegas no rosto. Elaéqueo amou, deixando-o i ncapaz de nada a não ser aceitar passivamente o amor que ela lhe fazia. Quando ela terminou, ele estava
exausto de prazer. Estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça.
- Brazillia, nunca esquecerei esta noite. Foi a única vez, na minha vida, que uma mulher me fez amor.
- Eu também senti prazer.
- Agora é a minha vez.
- Não precisas...
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- Tolinha, eu quero. - Acariciou-lhe o rosto e o corpo, e, assim que entrou nela, começou a fazer movimentos ritmados e contidos. Queria dar-lhe prazer. Aprofundou
e acelerou os movimentos. Ela estava grudada a ele, mas Robin sentia que ainda não estava na hora. A cabeça latejava-lhe, ele estava a conter-se ao máximo, sentindo
que ela ainda não estava pronta. Nunca lhe acontecera aquilo. Nunca demorara tanto tempo a dar prazer a uma mulher. Cerrou os dentes e continuou. Tinha de dar-lhe
prazer! Mas não, o clímax chegou e ele saiu dela exausto, com a certeza de a não ter satisfeito. Ela estendeu a mão e tocou-lhe o rosto. Depois, aninhou-se contra
ele e beijou-lhe a testa, o nariz e o pescoço.
- Robin, foste um amante maravilhoso.
- Não finjas, menina.
Levantou-se e foi para o banheiro. Feminino, como o resto do apartamento. Tomou um banho e voltou para o quarto. Ela estendeu-lhe um cigarro aceso e alisou a cama.
Ele contemplou-lhe o lindo corpo. Os seios empinavam-se sob a camisola transparente que ela vestira. Sorriu.
- Toma, fuma.
Ele sorriu também, cansado.
- Brazillia, na minha terra sou tido como bom na cama, mas não aguento outra sessão. - Pegou no cigarro e começou a vestir-se.
Ela pulou da cama e abraçou-o.
- Por favor, fica comigo a noite inteira. Quero dormir nos teus braços. Amanhã de manhã posso fazer-te o pequeno-almoço e, se o dia estiver bonito, podemos dar
um passeio. vou mostrar-te St. Paul à luz do dia, e talvez à tarde possamos fazer amor outra vez. Oh, Robin, foi tão
bom! Fica, por favor.
Ele começou a dar o nó na gravata.
- Não gostaste de mim? - perguntou ela.
- Gostei muito, até. - Virou-se para ela e puxou da carteira. - Quanto é?
Ela virou-se de costas e sentou-se na cama. Ele tocou-lhe no ombro. com voz suave insistiu:
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- Então, Brazillia, quanto é? Diz. Ela abaixou a cabeça.
- Não é nada.
Robin sentou-se ao lado dela e levantou-lhe o rosto. As jágrimas deslizavam-lhe pela face. - Minha querida, que aconteceu?
- Tu não gostas de mim - soluçou ela.
- Eu? - Ele estava perplexo. - Ouve, não vou casar contigo, mas isso não quer dizer que não tenha gostado. Gostei muito. Só tenho pena de não te ter dado prazer.
Ela passou-lhe os braços pelo pescoço.
- Esta foi a noite mais maravilhosa da minha vida. Robin, tu és cem por cento.
- Cem por cento?
- Quando te vi com o rapaz, pensei que eras maricas. Mas és um homem, e é maravilhoso.
- Sérgio é meu amigo, um bom amigo. Nada mais. Ela assentiu com a cabeça.
- Compreendo. E trouxe-te para ver o bas-fond.
- Pára de te degradar. Ele mostrou-me a vida nocturna de Hamburgo, apenas.
- Como achaste fazer amor comigo? - perguntou ela.
- Achei óptimo. Só tenho pena que não tenhas sentido prazer.
Ela olhou para ele e sorriu.
- Robin, comigo é tudo aqui. - Levou a mão ao peito.
- O facto de te abraçar e dar amor, basta-me.
Ele acariciou-lhe suavemente o cabelo.
- Quer dizer que não sentes prazer?
- Agora, já não posso.
- Porque não?
- Há coisas que são tiradas e já não podem ser substituídas. - Ele olhou para ela intrigado. De repente, ela ficou
assustada. - Robin, tu não sabias! Oh, meu Deus...
-Saltou da cama e correu para a sala. Ele seguiu-a. Ela encostou-se à Parede e encarou-o, com ar apavorado.
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- Brazillia! - Ele avançou para ela, mas ela recuou, como se esperasse que ele lhe baresse. - Brazillia, que é que há?
- Por favor, Robin, vai-te embora. - Atravessou a sala e estendeu-lhe o sobretudo. Robin atirou-a para o sofá e agarrou-a. Ela tremia de medo.
- Explica-me o que está a acontecer. Ninguém te vai fazer
mal.
Os olhos escuros dela encararam-no. Ela tremia.
- Pensei que soubesses que tipo de casa era a Maison
Bleue.
- Não, não sei - respondeu Robin, embora as mais
terríveis suspeitas começassem a assolá-lo.
- Vernon é a cantora que abriu o espectáculo, a que admiraste. Quando ele usa peruca, chama-se Véronique. É meu companheiro de apartamento.
Robin deixou cair o braço dela.
- E tu? Qual é o teu verdadeiro nome?
- O meu nome era António Brannari... antes de fazr a
operação.
- Tu és um... Ela recuou.
- Agora, sou mulher! - gritou.
- Mas antes eras um homem - disse ele, lentamente. Ela assentiu com as lágrimas a correr pelo rosto.
- Mas agora sou mulher. Não me batas, não fiques zangado comigo! Oh, meu Deus, se soubesses o que sofri para me tornar mulher. Sabes o que é ser mulher dentro
de um corpo de homem? Sentir como mulher, pensar como mulher, amar como mulher? Sempre fui mulher por dentro.
- Mas, e os seios?
- Silicone. E tomei hormonas. Põe a mão no meu rosto. Não me barbeio. E os meus braços e as minhas pernas são lisos, agora. Sou mulher.
Robin afundou-se no sofá. Um travesti. Tinha tido relações com um travesti. Não espantava que o pobre diabo não tivesse prazer. Olhou para a desgraçada criatura.
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- Vem cá Brazillia. Não te bato. Tens razão. És uma mulher.
Ela correu para o sofá e começou a aninhar-se contra ele. Robin tirou-lhe os braços de cima.
- Mas agora, que sei o que eras, vamos conversar como homens.
Ela afastou-se.
- Todas aquelas garotas do espectáculo são homens? Quando ela disse que sim, ele perguntou: - Todas fizeram a tal operação?
- Menos Vernon. Acha que não poderá utilizar o seu passaporte e voltar a Paris, se fizer a operação. Mas está ansioso porfazê-la. A vida é triste para ele! Está
apaixonado por Rick, o homem com quem se encontrou esta noite. Há três meses, Vernon tomou iodo por causa dele. É por isso que agora não pode beber. Rick é...
como é que eu posso explicar? Às vezes vai com uma mulher verdadeira, outras com maricas. O pobre Vernon não é uma coisa nem outra.
- Em Las Vegas conseguiste enganá-los?
- Não. Nesse tempo eu era bailarino.
Robin levantou-se e puxou da carteira. Não tinha muitos marcos, mas tinha mais de cem dólares americanos.
- Toma Brazillia. Compra um vestido novo.
- Não quero o teu dinheiro.
Ele atirou o dinheiro para o sofá e saiu. Ouvi-a soluçar quando fechou a porta do apartamento, e sentiu um nó na garganta. Não lastimava o que tinha acontecido.
Lastimava a infeliz criatura. Desceu as escadas. Os primeiros clarões do dia riscavam o céu. A Reeperbahn ia, finalmente descansar. Casais caminhavam de braço
dado.
Marinheiros com stripteasers, homens com homens, homens com mulheres que de repente lhe pareciam de uma masculinidade suspeita. Todos os sonhos e esperanças daquela
gente tinham-se convertido em pó. O mundo não era feito para os vencidos, e Brazillia era um deles.
De súbito, os seus próprios problemas lhe pareceram muito Pequenos, e Robin sentiu-se tomado de raiva. Gregory Austin
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tinha medo de Dan, mas não tinha medo de Robin Stone. Gregory achava que ele era um vencido. Pois bem, daquele dia em diante, ele daria as cartas. De repente,
sentiu-se
ansioso por voltar a Nova Iorque. Também estava ansioso por ver aquela doida, Maggie Stewart, na Califórnia, mas ela podia esperar. Podia esperar até ele se tornar
o maior triunfo de todos eles!

Capítulo vigésimo oitavo

Robin voltou a Nova Iorque a tempo de ver o Cbristie Lane Show com Dip e Pauli. Dip enfeitava o programa, desafinava e mexia-se como um boneco de pau. Pauli não
era íbtogénica, cantava muito bem e movia-se como uma bailarina. Era incrível. Pauli deixara de imitar Lena Horne, Judy Garland e BarbraStreisand. Agora, era ela
mesma, com um estilo inconfundível e um linguarejar pessoal. Robin não sabia quando teria ocorrido aquela metamorfose. Talvez tivesse sido a pôr de lado os maneirismos
ao andar com Dip por night-clubs de terceira e desistir de fazer sucesso. Fosse o que fosse era quase um milagre. Até o nariz ridiculamente arrebitado e os dentes
para fora lhe davam encanto.
Às onze horas do dia seguinte, Dip invadiu-lhe, furioso, o escritório. Esparramou-se numa poltrona e olhou para o espaço com os olhos injectados.
- vou dar cabo dela.
Robin foi apanhado de surpresa.
- Que aconteceu?
- O meu agente telefonou-me há uma hora. Aquele filho da puta do Ike Ryan! Burro. Imagina que me quer atirar ao ar. Vai dar o papel ao Lon Rogers, aquele barítono
fracassado!
- Mas disseste que ias dar cabo dela. Quem é ela?
- Pauli! - Os olhos de Dip faiscavam. - Ike Ryan ofereceu-lhe o papel de Diana Williams e aquela cretina vai aceitar! Depois de tudo o que lhe ensinei, de toda
a
classe que tentei dar-lhe, ela vai ser substituta!
- Talvez não seja má ideia - disse Robin. - Pelo menos, vocês vão ganhar alguma coisa.
- Que coisa? Ela vai ganhar só trezentos dólares por semana. Eu ganhava mais do que isso, de gorjetas, no Beverly
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Hills Hotel! Além disso, com que cara fico eu? Que achas daquela cadela? Aceitou o papel e esqueceu-se de
mim. - fúria deu-lhe nova vitalidade. Pôs-se de pé e
começou a andar de um lado para o outro. - Queres saber de uma coisa? vou voltar para a Califórnia. Não vou estar aqui quando a "estrela" voltar de assinar aquele
contrato de merda. Vamos ver o que ela pode fazer sem o Grande Dipper ao lado. E vou também pôr a velha dela fora de casa. Mas primeiro vou dar cabo de Pauli!
E
saiu do escritório.
Robin estava ainda a pensar em Dip e Pauli quando o telefone tocou. Era Cliff Dorne. No mesmo momento, a secretária anunciou que Danton Miller estava na sala de
espera. Antes que Robin pudesse falar com qualquer dos dois, Dan
entrou.
- Você não me vai deixar lá fora à espera. Já viu as críticas ao nosso programa? A moça saíu-se bem, mas Dip Nelson foi a coisa mais horrível que já se viu na
televisão. Depois da actuação dele, o programa não conseguiu recuperar. Espero que, daqui em diante, não se meta mais no meu programa!
Robin fingiu não o ouvir e voltou ao telefone.
- Sim, Cliff. Desculpe a interrupção. - Dan viu a expressão dele mudar.
- Quando foi que aconteceu? Hospital Monte Sinai? vou já para aí. - Desligou. Dan ainda estava de pé, diante dele,
furioso.
Robin olhou para ele surpreendido como se de repente se
lembrasse da sua presença.
- Gregory está mal outra vez - disse, e dirigiu-se para a
porta.
- Pensei que ele estivesse em Palm Beach. - A raiva de
Dan dera lugar ao choque.
- Voltou de avião há uma hora, e foi internado no Hospital de Monte Sinai.
- É coisa séria?
- Ainda não sabem. Cliff diz que há uma semana que ele andava a sentir-se mal. Parece que foi ao hospital de Palm
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Beach fazer um checkup, mas não confiou no resultado e resolveu vir para cá.
- Quer que eu vá consigo? Robin olhou para ele, espantado.
- Claro que não.
E uma vez mais deixou Dan de pé no meio do escritório, boquiaberto.
Gregory estava sentado numa cadeira, no quarto do hospital, vestindo um roupão e o seu pijama de seda. Estava bronzeado, mas tinha o rosto abatido. Judith também
estava queimada do sol, mas parecia cansada. Cliff Dorne tinha um ar preocupado. Robin forçou um sorriso, ansioso por aliviar aquela atmosfera carregada.
- Você não me parece doente - disse.
- Tenho cancro - disse Gregory. - Sei disso.
- Greg, pára de falar assim - pediu Judith.
- Ninguém demora tanto a recuperar-se de uma operação à vesícula. E a dor não me larga.
- Sempre no mesmo sítio? - perguntou Robin.
- Sei lá, parece tudo doer. Não posso nem urinar sem sentir dores. Estou todo atacado, mas o pior é que ninguém me quer dizer. Em Palm Beach, vieram-me com uma
história de próstata. Mas eu sei que à Judith eles disseram a verdade. Que era cancro.
Ela olhou para Robin, suplicante.
- Estou cansada de lhe dizer que é a próstata. Não estou a mentir-lhe.
- Claro - disse Gregory. - Vão mandar-me fazer testes. Todos virão dizer-me que deram negativo. Todos virão com grandes sorrisos
a esperar que eu morra aos poucos.
- Você ainda vai é enterrar-me se continua com isso disse o Dr. Lesgam, entrando no quarto. - Oiça, Gregory, vi
os testes que fez em Palm Beach. É mesmo a próstata
e vamos cer de operar.
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- Que disse eu? - A voz de Gregory era triunfante. Não se opera a próstata a menos que seja cancro.
- Não quero mais conversa desta - disse o Dr. Lesgam com firmeza. Quero que todos saiam agora. vou dar-lhe um calmante, Gregory. Fez uma viagem exaustiva e quero
que esteja em boas condições para a operação, amanhã.
- Quer dizer que vão operar-me? - perguntou Gregory, de repente assustado.
- Vamos. E você vai ficar bom.
- E se for cancro?
- Se for, depois falaremos. Mas fique sabendo Gregory, que o cancro não é uma sentença de morte. Muitos homens vivem uma longa vida depois de operados a um cancro
na
próstata.
- Já ouvi falar desses casos. Perdem os testículos, depois acabam por perder tudo.
O Dr. Lesgam fez sinal a Judith para sair. Ela atravessou o quarto para junto de Robin e Cliff. O Dr. Lesgarn pegou num pedaço de algodão e esfregou o braço de
Gregory.
- Diga-me, doutor - pediu Gregory. - Antes de pôr-me a dormir, diga-me: É cancro?
- Ninguém pode jurar se é ou se não é até se operar. Mas digo-lhe uma coisa: já operei muitos tumores malignos da póstata e você não tem nenhum dos sintomas. Acho
que há noventa e nove por cento de não ser cancro.
- Mas ainda fica uma possibilidade? Judith chegou ao pé dele e beijou-lhe a face.
- Ora, és o maior jogador do mundo e nunca na tua vida tivestes tantas possibilidades a teu favor. Como podes estar
Com medo?
Ele sorriu levemente e ela beijou-lhe a testa.
- Estarei aqui amanhã de manhã, antes de ires para a sala. Agora faz o que o médico te disse. Descansa. Amo-te,
Greg.
E saiu depressa do quarto, acompanhada por Robin e Cliff. Os três atravessaram o corredor em silêncio. Ela só falou
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quando chegaram ao elevador.
- Quando o olhei nos olhos vi a morte. -Estremeceu. Ele acredita mesmo que vai morrer.
Chegaram à rua. O enorme Lincoln estava à espera. O motorista abriu a porta.
- Quer que a leve a casa? - perguntou Cliff.
- Não. Acho que preciso de uma bebida - disse ela.
- Acho que precisamos todos - disse Robin.
- Infelizmente não posso acompanhá-los - disse Cliff.
- Tenho uma longa viagem pela frente, até Rye, e quero estar no hospital de manhã cedo.
- Eu tomo conta da sr.a Austin - ofereceu Robin. Entraram no carro.
- Há um bar de que eu gosto, a não ser que queira ir ao St. Regis ou ao Oak Room.
Ela recostou-se.
- Não, basta ser um bar sossegado.
Ao entrar no Lancer Bar, Judith olhou em volta, curiosa. Então era aquele o bar que ele frequentava. Havia pouca luz, ainda bem. Ele conduziu-a a uma mesa do fundo
e mandou vir um uísque para ela. Judith esperou que ele tivesse tomado um trago do seu martini e depois perguntou:
- Que acha que vai acontecer, Robin? - Acho que vai correr tudo bem.
- Não estará a dizer isso, por dizer?
- Não. As pessoas que pensam que vão morrer raramente morrem. Ele está apavorado demais para morrer.
- Não compreendo.
- Durante a guerra, fui ferido e fiquei internado num hospital. Era uma enfermaria enorme com filas e filas de camas. Havia um sujeito à minha direita cheio de
estilhaços de granadas. Teve de fazer cinco operações. Cada vez que ia para a sala tinha a certeza de ser o seu último dia de vida. Enquanto sso, o tipo à minha
esquerda lia tranquilamente os jornais. Sorria muito, mal sabendo que morria aos poucos. Sou de opinião que, quando a morte está dentro da pessoa, a enche de
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uma estranha calma. No fim de contas, tudo desenvolve a sua própria resistência e imunidade. A morte provavelmente carrega consigo a sua própria anestesia emocional.
- Fez-me sentir muito melhor - disse ela.
- Não vai ser fácil - observou ele. - As verdadeiras dificuldades vão aparecer depois da operação.
- Está a referir-se à falta de sexo. - Ela encolheu os ombros. - Robin, nunca houve uma paixão sexual entre nós os dois, nem mesmo ao princípio. A IBC foi sempre
a grande paixão de Greg. Não tem sido fácil para mim.
- Não estava a pensar em si - disse ele. - Estava a pensar em Gregory. Ele não acreditará que o tumor não é
maligno.
- E eu? - perguntou ela. - Gregory não sabe aceitar nenhum contratempo. Não está acostumado a doenças. Que pensas que estes dois últimos meses têm sido para mim?
Tenho vivido com um inválido resmungão. Recusava-se a jogado golfe, vivia a tomar o pulso...
- O casamento não é para os bons e os maus momentos?
- Acha isso? - perguntou ela.
- Se fosse casado, acharia.
- Talvez - disse ela, lentamente. - Mas eu nunca tive um verdadeiro casamento.
- Parece-me que não ajuda muito descobrir isso agora.
- Não olhe para mim como se me detestasse, Robin. Eu contribuí com a minha parte para este casamento.
- Para este casamento? É assim que uma mulher pensa? Não como o nosso casamento?
- Está a parecer um sentimental. Ele mandou vir mais bebidas.
- Acho que isso é a última coisa que sou. Mas pensei que as mulheres fossem sentimentais.
- Eu não. Quando me casei com Gregory, pensei que o nosso casamento ia ser maravilhoso. Mas ele não quis nada do quezz um casamento. Principalmente, não quis filhos.
Queria, isso sim, uma esposa. Uma mulher para lhe dirigir as
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casas. Gregory gostou sempre de coleccionar coisas. A casa aqui em Nova Iorque, a casa em Palm Beach, a casa de Quoque... Tem sido um trabalho e tanto.
- Bem, dirigir uma rede de televisão também não é nenhum hobby.
- Sei isso, e sempre respeitei o trabalho dele. Aceitei os amigos dele, fiz deles meus amigos. Mas uma mulher necessita de algo mais do que uma vida em sociedade
e o papel da anfitriã perfeita. Quando olho para trás, a minha vida parece-me bastante vazia.
- Ora, não comece a olhar para trás, agora. Neste momento a sua principal preocupação é fazer o seu marido voltar ao que era. Ele vai precisar de si, por isso
é melhor acabar de lamuriar. Daqui em diante, você vai fazer os papéis de Florence Nightingale, Sigmund Freud e da melhor amiga que ele já teve. Gostei do que
disse no quarto, sobre ele ser um jogador. O seu instinto está certo, Judith. com um doente é preciso saber quando ser dura e quando ceder. Um problema emocional
é mais difícil de curar do que qualquer doença física. Tem que fazer o possível para ele não se ir abaixo, se for, então saberá o que são problemas. Vi muitos
tipos caírem nisso. Ainda estão em hospitais de veteranos, a tomarem sol em roupão de banho, a fazerem quebra-cabeças.
- Mas porque acha que isso pode acontecer a Gregory? Homens com menos força moral do que ele fazem operações à vesícula e ficam como se não tivessem passado por
nada. Até mesmo operações da próstata. Gregory não é o mesmo desde que foi internado num hospital pela primeira vez.
Robin acendeu um cigarro.
- Às vezes a doença ataca com mais violência uma pessoa forte do que uma fraca. Como disse, Gregory não está acostumado a doenças. Não sabe como enfrentá-las.
Esteve semPre preparado para qualquer emergência na sua carreira, mas nunca lhe ocorreu que o seu corpo era vulnerável. Para um homem como Gregory, a doença tira-lhe
a dignidade.
Ela olhou para ele, suplicante.
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- Robin, ajude-me.
- Muito bem.
Ela agarrou-lhe as mãos.
- Robin, vou tentar, mas creio que não vou conseguir aguentar sozinha toda esta tensão. Há tanto tempo que vivo numa torre de marfim! Não tenho amigas íntimas.
As mulheres com quem às vezes almoço contam-me os seus problemas, mas eu nunca me abri com elas. Sentia-me superior a tudo isso. De repente, não tenho ninguém
a quem recorrer e não quero que ninguém saiba da operação de Gregory. Parece que vão castrá-lo. Robin, posso ter a liberdade de lhe telefonar, de chorar no seu
ombro?
Ele sorriu.
- Tenho ombros largos, Judith. Ela recostou-se e bebeu.
- Greg também está preocupado com a cadeia. Dan está a dar entrevistas demais. Gregory fica com úlceras cada vez que as lê. É zsua cadeia de televisão, e detesta
que outra pessoa fale
por ele.
- Às vezes é difícil evitar a imprensa - retorquiu Robin.
- Eu evito-a, por isso os jornalistas procuram Dan. Depois da minha única entrevista colectiva, nunca mais quis falar.
Ela sorriu.
- Dan deve ficar furioso. Ao recusar-se a conceder entrevistas, você tornou-se um enigma. Escrevem e especulam a seu respeito a toda a hora. Gosto do apelido que
lhe deram: A Máquina do Amor.
Ele franziu a testa.
- Vão acabar por se cansar de tudo isso. Publicidade é
coisa que não me interessa.
- Greg sabe disso e não se importa com a sua publicidade. É natural que você a tenha. Dan está no ramo há muitos anos mas, embora você apareça no vídeo, continua
a ser um mistério para a Madison Avenue. Todos sabem o que você pensa, o que
aprecia.
- Acho que está a exagerar o interesse deles. - Robin
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bebeu o seu martini de um só trago. - Que tal outra bebida?
- Não. Tenho de acordar muito cedo, amanhã. Vai ao hospital?
Ele abanou a cabeça.
- Alguém tem de ficar a tomar conta dos negócios. Mas, por favor, chame-me assim que souber o resultado.
- Muito bem. Qual é a sua extensão na IBC?
Ele puxou de um caderno de notas e escreveu o número.
- Ponha também o seu telefone de casa - disse ela.
- A IBC pode sempre contactar-me... Tenho uma extensão em casa.
- Robin, lembra-se do que me disse sobre os seus ombros? Se eu me sentir sozinha, a meio da noite, talvez precise de falar com alguém...
Ele escreveu o seu telefone particular, que não estava na lista. - Pode chamar a qualquer hora - disse,
entregando-lhe o pedacinho de papel.
Judith sentou-se à beira da cama e escreveu ambos os números no seu livro de telefones. Anotou os dois na letra A. sem nomes, apenas os números. A significava
Amor.
Era assim que ela anotava sempre o número do homem amado. Estendeu-se na cama. O creme de noite pesava-lhe no rosto e tinha a cabeça protegida por uma rede, para
que o creme não chegasse aos cabelos. Sentia-se radiante. Gregory não tinha cancro e, uma vez passada a operação, talvez voltasse ao que era. Enquanto isso, ela
veria Robin diariamente.
Gregory ficou seis horas na mesa de operações. Durante esse tempo, Judith telefonou duas vezes a Robin. A voz dele era preocupada e disse-lhe que tinha duas reuniões
mas que as deixaria se ela precisasse dele. Finalmente combinaram encontrar-se ao fim do dia. Tudo saíra bem, repetia ele.
O Dr. Lesgar apareceu às três da tarde. Gregory estava a passar bem, mas o principal era que não havia sinais de cancro.
Gregory voltou para o quarto às cinco horas. Recuperara a
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consciência, mas o tubo no nariz e a agulha espetada no braço faziam com que parecesse um vegetal. Uma hora mais tarde, o Dr.
Lesgam entrou e disse-lhe o resultado.
Gregory virou as costas.
Judith correu para junto da cama e agarrou-lhe a mão.
- Estamos a dizer-te a verdade, Greg. Juro! Ele empurrou-a.
- Mentiras! Tudo mentiras! És uma péssima actriz, Judith! - Ela correu para fora do quarto e encostou-se à parede do corredor, a tremer. O Dr.
Lesgam saiu, a abanar
a cabeça.
- Dei-lhe uma injecção de calmante, mas vai ser difícil livrá-lo da obsessão do cancro.
Ambos levantaram os olhos ao ver Robin chegar. O seu sorriso confiante e o seu ar saudável só faziam aumentar a impressão de que Gregory estava acabado, como homem.
- Falei com o médico há uma hora - disse ele, referindo-se ao Dr. Lesgar. - Ele deu-me a boa notícia,
- Gregory não acredita em nós - disse ela. Robin mostrou-se preocupado.
- Cliff preparou uma notícia para os jornais. Dissemos-lhes que se tratava de uma nova operação à vesícula. Acho que assim não haverá perguntas.
- A senhora teve um dia cansativo, sr.a Austin - disse o Dr. Lesgam. - Acho que deve ir para casa.
Ela sorriu.
- Neste momento o que tenho vontade de fazer é tomar uma bebida e comer. Não comi durante todo o dia.
Robin levou-a ao Lancer Bar. Desta vez, ela despediu o motorista. Pelo menos, Robin levá-la-ia a casa sem se sentir embaraçado. Olhou em volta ao ver que se sentavam
à mesa. Ele iria sempre àquele bar?
Sem dúvida ele leu o pensamento dela, pois disse:
- Teríamos ido a outro lugar mas, infelizmente, já tinha marcado um encontro aqui. Mas os bifes são bons e as bebidas ainda são melhores.
Judith tomou devagar a sua bebida. com o estômago vazio,
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era perigoso, e ela queria ter completo auto-controlo, naquela noite.
- Não serei demais, já que marcou encontro?
- Não. - De repente, Robin levantou-se e Judith viu uma jovem alta encaminhar-se para a mesa deles.
- Robin, estou atrasada. Desculpa.
- Não faz mal. - Fez sinal à rapariga para que se sentasse ao lado dele e depois apresentou: - A sr.a Austin, Ingrid. É hospedeira da TWA e voamos muitas vezes
juntos.
A jovem voltou-se para Robin com um sorriso íntimo.
- Tivemos de dar voltas sobre o Aeroporto Kennedy durante meia hora. Por isso é que me atrasei.
Robin mandou vir uma bebida para Ingrid. Judith reparou que o empregado automaticamente lhe trouxe um vodka com água tónica. Isso queria dizer que ela já tinha
ido lá mais vezes com Robin. Tinha um leve sotaque, sueco, ou de qualquer outra língua escandinava. Era alta e um pouco magra demais, com cabelo louro e liso e
uma franja que lhe chegava abaixo das sobrancelhas. Os seus olhos estavam pesadamente maquilhados, mas não usava baton. E, quando a viu enfiar a mão na de Robin,
Judith teve ímpetos de agredi-la. Santo Deus, a vibração da juventude! Na sua blusa de seda branca e na sua saia lisa, Ingrid fez, subitamente, com que Judith
se sentisse pesadona no seu impecável tailleur de Chanel. A rapariga não podia ter mais de vinte e dois anos e ela tinha idade suficiente para ser sua mãe! Também
era jovem demais para Robin, mas olhava para ele com a mesma indisfarçável admiração. Deus, o mundo era mesmo dos homens. Num homem, os anos não contavam. Dentro
de dez anos, Robin ainda teria uma hospedeira de vinte e dois anos a olhar para ele daquela maneira. Judith abriu a bolsa e puxou de uma cigarreira de ouro. Robin
imediatamente estendeu-lhe o isqueiro; pelo menos ainda se lembrava da sua presença. Pois bem, ela não ia entregar as armas assim, sem mais nem menos. No fim
de contas, aquela rapariga serviria o jantar num avião. Era apenas uma garçonnete!
Judith pôs-se a analisar Robin. Como permitiria ele que
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uma hospedeira partilhasse sequer de uma parte da sua vida? A quantas jovens simples como aquela teria ele dado o seu corpo, enquanto ela era obrigada a ficar
ali,
olhando para ele, desejando-o, planeando, armando o jogo?
Robin mandou vir mais bebidas. Judith sentia necessidade de comer qualquer coisa: já começara a sentir o primeiro uísque. Robin ergueu o copo e brindou à saúde
de
Gregory. Teve de explicar a Ingrid quem era Gregory Austin.
- Sinto muito - disse Ingrid, num tom sincero, voltando-se para Judith. - Oxalá ele recupere depressa. Foi sério?
- Não, apenas um checkup - respondeu Robin. - Veio da Florida porque prefere os médicos de Nova Iorque.
- Costuma viajar pela TWA? - perguntou Ingrid.
- Não. Temos um avião particular - respondeu Judith.
- Oh, que maravilha - disse Ingrid, num tom de voz pouco impressionado.
- Judith, você tem de fazer com que Gregory mantenha interesse pela cadeia mesmo durante o tempo que estiver no hospital, a fazer o checkup. - disse Robin, sublinhando
a palavra checkup. - Quero que o force a interessar-se, percebe?
Ela fez que sim. Ingrid olhou para ambos.
- Pois eu não percebo - disse. - Pobre sr. Adlen...
- Austin - corrigiu Robin.
- Está bem, Austin. O meu pai fez um chekup uma vez, e disse que é horrível. Teve de engolir giz, fazer radiografias. Acho que o deviam deixar descansar e esquecer
tudo.
Robin sorriu.
- Minha querida, dizes ao piloto o que ele deve fazer quando aparece mau tempo?
- Claro que não. Para isso existe a torre de controlo e o navegador.
- Muito bem, pois eu sou a torre de controlo e Judith é o navegador.
- Continuo a achar que o pobre homem devia fazer o seu checkup em paz - insistiu ela.
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Judith não podia deixar de admirá-la. Não parecia intimidada nem encabulada pela atitude de Robin. Era evidente que tinha dormido com Robin e tinha plena consciência
do seu poder. E tudo isso porquê? Porque era jovem. Deus, também ela, em jovem, tinha pensado que a juventude era eterna.
- Estou com fome - disse Ingrid, de repente. Robin fez sinal ao empregado.
- Traga um bife para a menina. E, para mim, um vodka duplo. - Depois virou-se para Judith. - Que quer comer? Aconselho o bife e a salada mista.
- Que vai comer?
Ele apontou para o copo.
- Acho que tomo apenas um outro u isque - disse ela calmamente.
- Não come nada?
- Nada.
Um sorriso iluminou os olhos dela.
- Muito bem, Judith, gosto da sua classe. É preciso mais do que alguns ataques para a fazer perder a luta. Acho que é por isso que você é uma vencedora.
- Acha que sim? - perguntou ela, desafiante.
- Claro que sim! - Ergueu o copo, num brinde. Ingrid olhou, espantada. De repente, levantou-se.
- Acho melhor cancelares o meu bife. Parece que não sou necessária aqui.
Robin olhou para o copo.
- Como quiseres minha querida.
Ela pegou no casaco e dirigiu-se para a porta. Judith procurou parecer preocupada.
- Robin, talvez eu deva ir-me embora. Você e essa rapariga...
Ele estendeu o braço e agarrou-lhe a mão.
- Não seja hipócrita, Judith. Você não é dessas. Era isso mesmo o que queria, não era?
Com o canto do olho, Judith viu Ingrid hesitar, já aporta, à espera que Robin fosse atrás dela. Judith esperou que ela saísse
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e depois disse:
- Não quero magoar ninguém.
- Ingrid não vai ficar magoada, pelo menos, por muito tempo - retorquiu ele. Cancelou o bife e pediu a conta. Acabaram de beber em silêncio e saíram do restaurante.
- Moro nesta rua - disse ele.
Ela enfiou o braço no dele. Não fora exactamente assim que ela planeara. Assim, não havia romance. Tinha de fazer com que ele compreendesse o quanto significava,
para ela.
- Robin, há muito tempo que gosto de si. Ele não respondeu, mas deu-lhe a mão.
- Você é uma triunfadora, Judith. Não dê explicações.
Quando entraram no apartamento dele, ela sentiu-se insegura, como uma jovem a iniciar a sua primeira lição amorosa. De repente, sentiu o suor entre os seios, na
testa. Aqueles malditos calores! Avisos de que ela não era uma jovem £ despreocupada hospedeira!
Robin preparou-lhe um uísque fraco e encheu o seu copo de vodka. Bebeu-o de pé, no meio do living. Ela sentou-se no enorme sofá, à espera de que ele se sentasse
a seu lado. Havia uma lareira e uma pilha de lenha. Se ele a acendesse e pudessem ficar sentados no escuro, iluminados apenas pelo fogo, ouvindo alguns dos discos
que estavam junto do gira-discos! Como ela desejava que ele a abraçasse...
De repente, ele encaminhou-se para ela, tirou-lhe o copo da mão e levou-a para o quarto. Ela sentiu pânico. Teria de despir-se diante dele? Ingrid provavelmente
deixava-o despi-la, orgulha-se do seu corpo firme e jovem. Ela estava a usar umacinta-calça. Nada era menos sexy. Apesar da sua esbelteza, a cinta empurrava-lhe
a carne flácida para cima.
Robin indicou a casa de banho enquanto desamarrava a gravata.
- Não tenho quarto de vestir, use a casa de banho. Ela entrou e despiu-se lentamente. Viu um roupão de seda
castanho pendurado na porta. Vestiu-o e amarrou a faixa. Quando abriu a porta, Robin estava a olhar pela janela, de
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cuecas. O quarto estava às escuras, mas a luz da casa de banho revelava-lhe os ombros largos. Caramba, não tinha nem um centímetro a mais do que deveria ter. Ela
nunca imaginara que ele tivesse um tal físico. Aproximou-se dele. Robin virou-se e pegou-lhe pela mão. Suavemente levou-a para cama. Olhou para ela e sorriu:
- Bem, dizem que uma mulher experiente é o que há de melhor. Prove, Judith. Tome a iniciativa.
Ela ficou espantada, mas desejava-o tanto que lhe fez a vontade. Dentro em pouco, ele virou-a de costas e possuíu-a. Tudo terminou em menos de um minuto. Ele recostou-se
numa almofada e agarrou num cigarro.
- Desculpe a pressa - disse, com um sorriso. - É que nunca sou muito bom depois de beber.
- Eu gostei, Robin.
- Gostou? - Ele olhou para ela, surpreendido. - Porquê?
- Porque foi com você. Essa é a diferença. Ele bocejou.
- Se eu acordar durante a noite, tentarei satisfazê-la melhor. - Beijou-a de leve e deu-lhe as costas. Após alguns minutos ela viu que ele dormia profundamente.
Olhou para ele. Então, aquele era o homem a quem chamavam a Máquina do Amor? E agora? Ele esperava que ela adormecesse. Ingrid adormeceria. As outras, provavelmente
também. E porque não? Gregory estava no hospital. Ela não tinha ninguém a quem dar satisfações. Mas, e se começasse a suar no meio da noite, ou mesmo a ressonar?
Gregory tinha-a feito dormir no mesmo quarto que ele, em Palm Beach, e dissera que ela ressonava. Brincara com ela, mas parecia secretamente satisfeito; outro
aviso de que ela já não era jovem.
Ficou deitada a olhar para o tecto. A idade transformava udo. Não podia passar a noite nos braços de um homem por causa dos suores nocturnos e do ressonar. Além
disso, se ela adormecesse num ângulo desfavorável, os seus seios penderiam. De repente, lembrou-se que ainda estava com o roupão.
501
Ele nem se dera ao trabalho de o tirar. Nem sequer lhe vira o corpo ou o tocara. Pensara apenas em satisfazer-se.
Saiu da cama e foi para a casa de banho e vestiu-se. Quando voltou ao quarto, Robin estava sentado na cama. Parecia ter-lhe passado o efeito do álcool.
- Judith, eu adormeci assim tão depressa? Que horas são?
- Meia-noite. - Dentro do seu tailleur Chanel, ela sentiu-se novamente segura de si.
- Porque está já vestida?
- Acho que devo ir para casa, talvez telefonem do hospital.
Ele pulou para fora da cama e começou a vestir-se.
- Naturalmente. vou vestir-me e levá-la a casa. Não demoro nada.
- Não, Robin. -Ela aproximou-se dele e abraçou-o. Era apenas meia-noite; se ele se levantasse e vestisse ainda podia telefonar para Ingrid. Além disso, ficaria
com
raiva dele se tivesse de se vestir e sair. - Robin, eu posso apanhar um táxi. Por favor, volte para a cama. Eu sei que tem um dia em cheio pela frente.
Ele passou-lhe a mão pela cintura e caminhou com ela até à porta.
- Amanhã? - perguntou ela.
- Não. vou a Filadélfia e demoro-me alguns dias. Quero gravar o programa de Diana Williams.
- Quando volta?
- Dentro de uns três dias. Depende. Ela abraçou-o.
- Robin, nunca me beijou.
Ele beijou-a obedientemente no alto da cabeça.
- Estou a referir-me a outro tipo de beijo. Ele sorriu.
- Não aqui, a meio da porta. - Olhou fixamente para ela e depois disse: - Venha cá. - Tomou-a nos braços e beijou-a profundamente. - Pronto - disse ao largá-la.
- Não posso
502
deixá-la ir para casa sentindo-se mal satisfeita, depois do risco que correu.
Depois dele fechar a porta, Judith encaminhou-se para o elevador, sem saber porque razão se sentia tão deprimida. Estivera com Robin e voltaria a estar, mais vezes.
Mas, da próxima vez, não o deixaria beber tanto.
Mas, nas duas semanas que se seguiram, a rápida deterioração da moral de Gregory pôs de lado qualquer outro pensamento. Fisicamente ele recuperava, mas o seu estado
emocional amedrontava-a. Robin foi visitá-lo, mas Gregory recusava-se a falar sobre a IBC. Passava o tempo sentado, de roupão, a olhar para fora, pela janela.
Quando recebeu alta do hospital, não quis sair da cama, em casa, e passava o dia inteiro a olhar para o tecto. Negava-se a acreditar nos resultados do laboratório.
Queixava-se de dores no pescoço e nos quadris.
- Estou todo atacado, eu sei - gemia.
Uma manhã acordou completamente paralisado da cintura para baixo. Não conseguia mexer as pernas nem sentar-se.
Lesgam foi imediatamente chamado. Espetou um alfinete
na perna de Gregory e, quando viu que não havia reacção, mandou vir uma ambulância. Gregory foi logo submetido a vários testes. Não era um derrame, como Judith
temera: todos os testes deram negativos. Por fim, chamaram um neurologista.
O Dr. Chase, um conhecido psiquiatra, conversou com Gregory. Outro especialista examinou-o e a opinião de ambos foi unânime: não havia causa física para a paralisia
de Gregory. Explicaram as suas conclusões a Judith. Ela ficou apavorada.
- Sugiro que ele seja internado - disse o psiquiatra.
- Quer dizer que ele vai ficar aqui? -perguntou Judith. O psiquiatra abanou a cabeça.
- Não, refiro-me a internamento num hospital psiquiátrico. Payne Whitney ou o Instituto Hartford...
Judith tapou o rosto com as mãos.
- Não, não posso fazer isso a Greg! Ele não pode ficar todo
o dia sentado com uma porção de idiotas!
503
O psiquiatra ficou muito sério.
- Sr.a Austin, a maioria dos doentes mentais são homens de grande inteligência e sensibilidade. Uma pessoa insensível raramente sofre um esgotamento nervoso.
- Não me importa. Gregory não gostaria de viver se soubesse que estava internado num hospital psiquiátrico. Isso arruinaria a vida dele e os accionistas da IBC
entrariam em pânico. Não, não podemos fazer isso.
O Dr. Lesgam pensou um pouco e depois voltou-se para o Dr. Chase.
- Que tal aquela clínica na Suiça? Gregory podia internar-se lá com um nome suposto. Têm bengalós onde as mulheres podem viver com os maridos, enquanto eles se
submetem a tratamento. Gregory teria um óptimo tratamento e ninguém saberia de nada. Judith podia espalhar que iam fazer uma viagem à Europa - Olhou para ela e
sorriu. - Você podia até dar um salto a Paris e a Londres e mandar cactões postais aos seus amigos para eles não desconfiarem.
- Tudo isso é ridículo - retorquiu o Dr. Chase. - Não há nada de mal no facto de um homem precisar de tratamento psiquiátrico. Há muitas clínicas boas aqui nos
Estados Unidos. E não vejo razão para tanto segredo.
O Dr. Lesgam abanou a cabeça.
- Pois eu compreendo o ponto de vista da sr.a Austin. A publicidade pode ser prejudicial. A IBC é conhecida como a obra de um homem; se esse homem não funcionar,
os accionistas podem entrar em pânico. A Suiça é a melhor ideia. Voltou-se para Judith. - Mas podem ser seis meses, ou um ano, ou ainda mais.
- Não faz mal, - respondeu ela, com firmeza. Pediu ao Dr. Lesgam para providenciar imediatamente as
coisas. Depois foi para casa e fez dois telefonemas. Um para Cliff Dorne e o outro para Robin Stone. Pediu a ambos para irem vê-la o mais depressa possível.
Os dois chegaram juntos, às seis horas. Judith não lhes ofereceu de beber. Recebeu-os no escritório de Gregory
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e contou-lhes o que se passava. Depois avisou:
- Se uma palavra que seja transpirar de tudo isto, eu direi que é mentira e, como mulher dele, despedirei a ambos. Já que ele está incapacitado de tomar decisões,
eu posso agir como sua procuradora.
- Ninguém discute isso - disse Cliff. - Acho que a sua decisão é muito certa. As acções baixariam dez pontos, e no mesmo dia, se a verdade viesse à tona. E acontece
que eu também sou accionista, embora modesto.
- Então estamos de acordo. - Vendo os dois homens aquiescerem, ela continuou: Quero que Robin Stone assuma o inteiro comando da IBC. Cliff, informe Dan, amanhã.
Diga-Ihe que Gregory vai tirar umas férias por tempo indeterminado e que ele deve prestar contas a Robin. As decisões de Robin serão definitivas.
Fingiu não perceber a expressão de incredulidade nos olhos de Cliff e levantou-se para dar a entender que a reunião tinha terminado.
- Robin, se puder ficar mais um pouco, gostaria de falar consigo - disse ela.
Cliff hesitou, junto à porta.
- Espero lá fora, então. Preciso acertar umas coisas com a senhora.
- Não pode esperar até amanhã? Estou muito cansada.
- Receio que não possa. A senhora vai partir amanhã à meia-noite e há assuntos urgentes, que necessitam da sua atenção.
Robin encaminhou-se para a porta.
- Falarei eu então consigo amanhã, sr.a Austin. Que tal ao almoço?
- Muito bem. Pode vir almoçar comigo? Estarei ocupadíssima a fazer as malas.
- Uma hora, não? - Ela fez que sim e ele saiu.
Mal a porta se fechou, Judith virou-se para Cliff, sem tentar esconder a sua irritação.
- Que é que há de tão urgente?
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- Gregory sabe da sua decisão?
- Gregory nem sabe assinar o nome! Não percebe? Está paralisado!
- Sr.a Austin, a sr.a compreende o que está a fazer?
- Estou a fazer o que Gregory faria.
- Não concordo. Ele colocou Robin no cargo em que está para controlar o poder de Danton. Agora, a senhora não só está a pôr todo o poder nas mãos de um único homem,
como também o está a tornar autónomo.
- Se eu dividisse o poder, a rede desmoronar-se-ia. Danton tem inveja de Robin. Combateria todas as ideias que Robin pudesse ter e nada resultaria. Tem de haver
um chefe.
- E porque não Danton?
- Porque Gregory não confia nele.
- O que a leva a pensar que ele pode confiar em Robin?
- Investiguei o passado dele. Robin é milionário. Não aspira ao poder.
Cliff abanou a cabeça.
- O poder é um vício. Desde que o temos uma vez, nunca mais se pode viver sem ele. Além disso, acho que Danton está melhor preparado para o cargo.
- Dan é um snob.
- Mas não no trabalho. Tem dado óptimos programas à IBC. Além disso, sabe dirigir uma cadeia de televisão. E como acha que ele vai receber a notícia de que Robin
vai ficar por cima dele?
Ela encolheu os ombros.
- Isso é problema dele.
- Ele ficará numa posição intolerável - disse Cliff. Terá de pedir a demissão.
- Será que ele prefere perder o emprego? - perguntou ela.
- Quando se toma uma decisão emocional, raramente se raciocina. A indignação costuma dar uma falsa coragem.
- Bem, o problema é dele - repetiu ela.
506
Cliff Dorne deu a notícia numareuniao da direcção, às nove da manhã do dia seguinte. Às nove e meia, Danton Miller entregou-lhe a sua demissão. Cliff tentou convencê-lo
a não desistir.
- Não faças isso Dan. Isto não vai resultar. Gregory vai voltar. Pensei que fosses um homem capaz de resistir a tudo para sobreviver.
Dan conseguiu sorrir.
- Às vezes, para sobreviver, precisamos de bater em retirada. Não te preocupes comigo Cliff. A propósito, quem pensas pôr no meu lugar?
Cliff encolheu os ombros.
- Acho que a escolha lógica é George Anderson, mas Robin já mandou chamar Sammy Tebet.
- Não o deixes escolher Sammy! -disse Dan. -Sammy é um homem capaz, mas ele e Robin são do mesmo estofo. Havard, família de alta sociedade. Concordará em tudo
com Robin.
Cliff sorriu.
- Eu também tenho de sobreviver. E a minha táctica de sobrevivência é ficar em cena, a observar.
Robin percebia a hostilidade de Cliff Dorne, mas não estava ali para ganhar concursos de popularidade. Trabalhava bem com Sammy Tebet e, algumas semanas depois,
a maior parte do pessoal da IBC já se tinha esquecido que existira um homem chamado Danton Miller. Os vice-presidentes guardaram os seus fatos e as suas gravatas
pretas e começaram a usar roupas cinzentas, como Robin.
Robin trabalhava duramente. Todas as noites via televisão, e raramente aparecia no Lancer Bar. A pouco e pouco foi perdendo contacto com o mundo. Nada mais existia
a não ser a IBC e os programas dos competidores. Lia todas as ideias para novos programas e tinha uma dúzia de novos programas-tipo pronta para passar em revista,
na Califórnia.
Estava de partida para o aeroporto quando Dip telefonou. Esquecera-se de Dip, na frenética actividade daquelas últimas
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semanas.
- Como vai o meu caro, o grande chefe? - A voz alegre de Dip chegou-lhe aos ouvidos através do fio, - Ia telefonar-te a dar os parabéns, mas tenho estado muito
ocupado, ajudando a Pauli.
Robin sorriu.
- Se não me engano, da última vez que nos vimos, ias dar cabo dela.
- Tu conheces-me. Aqueço e arrefeço com a maior das facilidades. Além disso, ela não pode fazer nada sem cá o paizinho. Ensaio-a, trabalho com ela. Da forma que
Diana Williams está a ir, ela tem uma possibilidade de tomar o lugar dela, depois da peça estrear-se na Broadway. Que tal vires comigo esta noite a Filadélfia
e ver a peça?
- Estou de partida para a Califórnia, Dip. Tenho de ir ver uns programas para estrear em Fevereiro.
- Está bem. Enquanto estiveres lá, faz-me o favor de espalhares que eu tive uma oferta porreira.
- Tiveste mesmo?
- Não. Mas mesmo assim, espalha. Os tipos, lá, acreditam em tudo.
A viagem para a Califórnia foi aborrecida. Robin passou quase todo o tempo a pensar em Judith Austin. O seu último almoço juntos fora estrictamente de negócios,
até ao fim. À hora da despedida, ela olhara-o nos olhos e dissera!
- Ciao, por agora. - O seu primeiro impulso fora fingir não perceber o que os olhos dela diziam, mas Judith parecera-lhe tão só e vulnerável naquele casarão! Não
sabia porquê, fizera-o lembrar-se de Kitty e ele apertara-lhe a mão, sorrira e respondera:
- Sim, ciao, por agora.
Bem, Gregory ficaria na Europa muito tempo e Judith, sem dúvida, acabaria por encontrar uma porção de acompanhantes europeus. Afastou-a do pensamento e tentou
ver
o filme. Quando acabou, passou em revista as apresentações dos programas que ia ver. Estava ansioso para que o diabo do avião
508
aterrasse, ansioso por escapar à conversa do seu vizinho de assento mas, acima de tudo, ansioso por ver Maggie Stewart. Telefonou-lhe assim que entrou no bar,
ele viu que se tinha esquecido o quanto ela era bonita. Sorriu ao sentar-se à mesa dele.
- Pensei que nunca mais me quisesses ver, depois daquele incêndio.
Ele apertou-lhe a mão.
- Estás a brincar? Achei muito engraçado.
- Que tal vai a peça de Diana? - perguntou ela.
- Não sei. Nunca mais a vi. Parece que alguém transformou em cinzas o nosso promissor romance. A propósito, que tal o teu novo filme?
Ela fez uma careta.
- Vi uma cópia na semana passada. - Emborcou o uísque e pediu outro.
Ele olhou para ela com curiosidade.
- É assim tão mau?
- Pior do que mau. Se não tivesse um contrato para fazer mais três filmes, estava liquidada. Nem sequer vai ser lançado.
- Todos podem fazer um mau filme. Ela fez que sim.
- Tinha uma oportunidade de limpar a minha reputação com o próximo. Adam Bergman vai dirigi-lo. Mas ainda não sei se o vou fazer.
- Adam Bergman é um óptimo realizador.
- Claro que é. Até me tornou actriz.
- Então qual é a dúvida?
- Ele não me dá o papel, a não ser que eu me case com ele. Robin ficou calado.
- vou recusar. Oh, não fiques com esse ar culpado. Já me tinha recusado a casar com ele antes do último Natal. - Os olhos dela dardejaram. - Sim, talvez devesses
sentir-te culpado. Estragaste as minhas possibilidades de gostar de outro homem.
Ele riu.
509
- Ora, não sou assim tão maravilhoso.
- É lógico que não és. O problema é meu. Como disseste, sou louca. De qualquer modo, tenho ido a um analista e aprendi a gostar de mim mesma.
- Tens ido a um analista? Mas o que é que o facto de gostares de ti mesma tem a ver com o casamento com o Adam?
- Recuso-me a deixar-me apanhar num casamento típico de Hollywood, pelo menos do tipo que Adam quer. Quando morei com ele, na praia, fiz coisas que nunca imaginei
que pudesse fazer. É engraçado, não é? Quando estou deitada no sofá do analista, pergunto a mim mesma: que aconteceu a toda a gente? Onde está a Maggie que vivia
em Filadélfia e amava e tinha esperança? Esta rapariga que faz coisas malucas não sou eu...
- O que te levou a consultar um analista?
- O incêndio. Quando percebi que podia ter morto muita gente, fiquei apavorada.
- Bem, comprei uma cama nova - disse ele. - com uma colcha à prova de fogo.
Levou-a ao Dominick's para jantar e depois voltaram para o apartamento dela. Passou três dias a ver gravações e três noites a amar Maggie. No dia em que teve de
partir, encontraram-se no Polo Lounge para tomar uma bebida. Ela entregou-lhe uma caixinha.
- Abre - disse. - É um presente.
Ele ficou a olhar para um pequeno anel de ouro, dentro da caixinha de veludo.
- Que vem a ser isto? Parece uma miniatura de uma raqueta de ténis.
Ela deu uma gargalhada.
- É um ankh.
- Um quê?
- Um símbolo egípcio. Cleópatra andava sempre com um. Significava' vida duradoura, e assim és tu. Tu duras. Nenhuma mulher consegue esquecer-se de ti e acho que
vais durar para sempre. Para mim, é o símbolo do sexo eterno. 510
Enfiou o anel no dedo mínimo dele. -Bonito e brilhante, não é? Como tu. E quero que o uses. É como se estivesse a ferrar-te. Claro que vais atirá-lo fora assim
que te afastares de mim, mas vou fingir que o usas, que todas as mulheres vão olhar para ele e perguntar o que ele quer dizer. Talvez tenhas a coragem de lhes
dizer.
- Não uso jóias. -disse ele lentamente. -Nem mesmo relógio de pulso. Mas vou usar este anel, prometo.
- Sabes de uma coisa? - perguntou ela. Tinha- ouvido falar em relações de amor e ódio, mas não sabia o que isso queria dizer, até conhecer-te.
- Tu não me odeias, nem me amas.
- Amo-te, sim - disse ela, em voz baixa. - E odeio-te por que me fazes amar-te.
- Quanto tempo falta para começares o novo filme?
- Dez dias.
- Vem comigo a Nova Iorque.
Por um instante, os olhos dela brilharam.
- É verdade? Queres mesmo que eu vá?
- Claro. Tenho o meu jacto particular, cortesia da IBC. O avião até tem uma cama, podemos fazer amor durante o voo.
Ela ficou calada.
- Vem, Maggie, veremos todas as peças, até podemos ir a Hamptons, se o tempo ajudar. Não podes vir?
- Robin, eu largaria toda a minha carreira se pensasse que precisavas de mim. Não estou nem a falar de casamento, apenas necessitares de mim. Meu Deus, seguir-te-ia
por toda a parte.
Ele olhou para ela de maneira estranha.
- Quem falou em precisar de ti? Convidei-te a ires a Nova Iorque por pensar que uma mudança de ares te faria bem.
- Oh, uma viagenzinha por prazer?
- A vida é isso, minha querida.
Ela levantou-se com tal ímpeto que a bebida se derramou sobre a mesa.
- Acho que já chega. Oh, não me digas que vais telefonar-me quando vieres à Califórnia. Seria capaz de ir
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dormir de novo contigo. E tudo isto porque estou doente. Mas o meu analista vai pôr-me boa e um dia ainda hás-de precisar de mim, mas já será tarde!
O olhar dele tornou-se frio.
- Acho que estás muito enganada. Não preciso de ninguém. Mas tu talvez precises de Adam Bergman. Aposto em que precisas dele para fazer um bom filme.
Ela debruçou-se sobre a mesa e encarou-o.
- Para usar uma expressão que acabei de aprender, sr. Stone, estou vidrada por si, mas você é o rei dos patifes!
E foi-se embora. Robin terminou a sua bebida e encaminhou-se para o aeroporto. Ia atirar o anel ao lixo, mas estava apertado na mão e não conseguiu tirá-lo. Sorriu.
Quem sabe se ela não o tinha mesmo ferrado?
Quando voltou a Nova Iorque, soube que Diana Williams se retirara e que Pauli se estreara em Filadélfia e recebera uma tal ovação que Ike Ryan estava a pensar
em lançá-la na Broadway.
Dip enviava a Robin notícias diárias. Num esforço para salvar o Happening com Diana Williams, Robin levou uma equipa a Filadélfia e gravou a peça com Pauli. Quando
viu a gravação, ficou espantado ante o seu tremendo impacto. A primeira parte mostrava Diana a ensaiar, Diana a falar sobre a suarentrée e os títulos nos jornais,
a falarem da "doença" dela. A segunda parte mostrava Pauli a fazer o papel e a entrevista com Pauli, já no camarim da estrela. Parecia uma novela, mas ele tinha
a certeza de que o público adoraria.
A peça estreou-se em Nova Iorque e as críticas a Pauli foram fantásticas. Contudo, por estranho que parecesse, não recebeu ofertas para fazer filmes. Dip ficou
furioso e recusou-se a aceitar a explicação do agente dela, segundo a qual Pauli era uma personalidade teatral, e em breve se tornaria uma estrela da Broadway.
Ficou arrasado quando soube que Hollywood contratara uma artista de cinema para fazer o papel dela no filme.
512
Robin apresentou oHappening em Maio. Conforme previra, as cotações ultrapassaram todos os outros programas.
Foi um Verão favorável para ele. Os novos programas estavam a ser bem recebidos. Saía com algumas das raparigas da peça de Pauli. Tentou até ser gentil para com
ela, mas esta ostensivamente não o tolerava. Resolveu ignorar a sua atitude hostil e passou a ir ao Sardi's com raparigas diferentes apresentadas por Dip. Começava
a gostar do Sardi's mas, à medida que a lenda do seu poder aumentava, deixou de ir lá e mais do que nunca refugiou-se no Lancer Bar. A fim de evitar contactos
com agentes ou astros, passou também a evitar o 21 e o Colony. Aprendera depressa o valor de um "não" decisivo, acompanhado de um sorriso firme, quando recusava
um programa. Jurara que nunca se permitiria ficar furioso ou perder a calma. Nunca dizia "vou pensar". Era sempre um "Sim" ou um "Não". Não tardou que se espalhasse
que ele era um tipo frio, capaz de, com um mero aceno de cabeça, fazer ou destruir um tipo. As raras vezes que ia ao 21, ficava impressionado com a atmosfera
de medo que a sua presença causava.
Contudo, descobriu que um curioso fenómeno acompanhava a sua fama nova. Pela primeira vez na sua vida, era-lhe difícil conseguir mulheres. As jovens actrizes estavam
fora de cogitação: ele não podia fazer amor com elas em troca de um papel. Apegou-se às hospedeiras, mas não resultou. Vestiam-se todas à espera de irem ao El
Morocco ou ao Voisin, mas logo percebiam que a sua vida social era limitada ao Lancer Bar, a um filme ou ao seu apartamento.
Se não fosse Dip, ele não teria mais vida sexual. Dip tinha sempre uma porção de raparigas à disposição. Contudo, o trabalho tomava-lhe quase todo o tempo, e desde
que estivesse com uma rapariga duas ou três noites por semana, já se dava por satisfeito. E usava o anel de Maggie. Quando uma mulher perguntava o que significava
o anel, ele respondia: "Significa que eu estou apaixonado por todas as mulheres; é o símbolo da vida eterna, do sexo eterno."
Duas vezes por semana, recebia cartões de Judith. Cliff
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Dorne cuidava de que aparecessem notícias em várias colunas sociais, a falarem da maravilhosa volta ao mundo que os Austin
estavam a fazer.
Um belo dia, Dip Nelson entrou no escritório de Robin a gritar que tinha a certeza de que Pauli estava a ter um caso com o astro da peça, Lon Rogers. Na mesma
altura, Cliff telefonou para participar que Ethel e Christie eram pais de um bebé de
quatro quilos.
Robin disse a Dip que não passava tudo de "paleio da Broadway" e telefonou para a Tiffan's a encomendar uma tacinha de prata para o bebé de Christie. Nessa noite,
desceu a Broadway sozinho e foi ver um filme horrível interpretado por Maggie Stewart.

Capítulo vigésimo nono

Robin estava no seu apartamento à espera que The Christie lane Show começasse a nova temporada. Nos últimos dias, os jornais tinham insinuado que o público iria
ter uma grande surpresa. Robin suspeitava que Christie iria apresentar ao público o seu filho recém-nascido.
Sem falar, estendeu o copo a Dip Nelson, para que ele o enchesse.
- Uísque com água, Dip.
Franziu a testa ao ver Dip encaminhar-se obedientemente parao bar. Sabia que se falava daquela amizade. Robin sorrira e não dera explicações, quando Jerry Moss
lhe
contara o que se dizia dele e Dip. A verdade era que deixava Dip gravitar à sua volta porque sentia pena dele. Sentia que, apesar do seu entusiasmo pelo sucesso
de Pauli, Dip não podia gostar do seu novo papel de "marido da estrela". Contudo, ele nunca se queixava.
Robin pusera Dip como actor convidado em dois shows de variedades da IBC. Ambas as vezes Dip fora massacrado pela crítica. Um colunista insinuara, até, que Dip
devia ter muito poder junto de um certo chefe da IBC. Mas Robin não ligava nada a mexericos. Se Dip tivesse talento, Robin teria feito questão de que ele trabalhasse
em todos os espectáculos da IBC. Mas Dip era horrível, na televisão: um rosto bonito e não era o suficiente. Havia tipos que faziam anúncios e se saíam muito
melhor do que ele.
- Porque bebes uísque esta noite, rapaz? - respondeu Dip ao passar-lhe o copo.
- Abertura de uma nova temporada. Gosto de estar sóbrio quando analiso um programa. Mais tarde poderemos ir até ao Lancer Bar e beber uns martinis.
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- Gostaria que fosses ao Danny's Hideaway comigo, acho que seria bom para mim.
- Porquê? - perguntou Robin, enquanto ligava a televisão a cores.
- Bem, certa vez J. P. Morgan disse a um tipo: "Se eu entrar na Bolsa contigo, estás garantido".
Robin sorriu.
- Está bem, podemos lá ir, depois do programa.
O entusiasmo de Dip lembrava o de uma criança, ao correr para o telefone. Robin não pôde deixar de sorrir, ao ouvi-lo mandar reservar uma mesa de pista. Depois,
aumentou o som e sentou-se para assistir ao The Christie Lane Show.
Robin mal podia crer nos seus olhos. A princípio pensou que fosse uma piada, que a qualquer momento a casaca e o laço branco de Christie fossem transformar-se
numa roupa desportiva e a comédia maluca começasse. Mas, quando surgiu o primeiro anúncio, ele deu conta de que o show era a
sério. Estava mesmo a tentar fazer um musical sofisticado. O resultado era tão mau que dava vontade de desligar o aparelho; ainda por cima, a rapariga que aparecia
ao lado de Christie era boa demais para se
poder levar tudo aquilo na palhaçada.
Dip foi à cozinha buscar uma cerveja. Olhou para o show e ficou a pensar porque razão Robin parecia tão preocupado. Entrou no escritório e pôs-se a ver um western
no outro aparelho. Robin compreenderia: irritava-o ter de assistir a um programa que sempre o tinha recusado.
Quando o programa terminou, ele voltou para o living. Robin nem parecia ter notado a sua ausência. Estava de pé, no meio da sala, olhando para o ar.
- Que tal foi, hem? - perguntou Dip, animadamente.
- Horrível.
- Ora, talvez na próxima semana melhore - Dip estava ansioso por ir ao Danny's.
- É incrível. - Robin parecia tonto. - A NBC apresenta uma comédia musical no mesmo horário, a CBS um óptimo policial. Não há dúvida que perdemos metade do
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público na segunda metade. Tenho a certeza de que vamos ficar no fundo da lista.
- Bem, vamos para o Danny's. Agora já não se pode fazer nada. Isto acontece.
- Comigo não acontece - retorquiu Robin, com secura. Ligou para a IBC. - Fala Robin Stone. Ligue-me a Artie Rylander, em Los Angeles. Vocês têm o telefone de casa
dele. É em Brentwood. - Acendeu um cigarro e ficou à espera. Não tenho nada com quem esteja na linha. Desligue e diga para esperarem que eu fale.
Quando Artie atendeu, Robin cerrou os dentes de raiva.
- Rylander, explique-se. Como diabos você deixou que ele fizesse aquilo? Não estava a ver que era uma merda? Então porque não me chamou? Não tenho nada com Noel
Victor! Talvez ele seja o melhor compositor que há, mas para tom Newley ou Robert Goulet, não para Christie Lane. Que está a dizer? Chris despediu os argumentistas?
Sei que Chris é dono do programa mas em sociedade com a IBC. E nós não somos simples sócios. O tempo é nosso também. Que baladas? Ouça Archie, isso de música
nova não interessa, o que interessa é música conhecida. O público gosta de ouvir músicas que ele conheça. Não me venha com osshows da Broadway. Claro que os espectáculos
da Broadway lançam novas músicas e na noite de estreia os críticos escrevem sobre elas. Mas depois de terem sido lançadas em álbuns e tocadas na rádio. Não temos
tempo para isso com um programa semanal. E Chris Lane não é nenhum Rex Harrison! De fraque, parecia um pinguim louro e gordo. Diga-lhe para modificar o programa
e fazê-lo voltar ao que era. Renove o contrato da cantora simples que fazia os sketches e o do apresentador também. Quem foi o génio que resolveu pôr um número
de ballet? Não sabe que num vídeo de vinte polegadas qualquer ballet se perde? Estou até com medo de olhar para as despesas extra. Não me interessa o contrato
de Noel Victor, faço questão de que os antigos argumentistas voltem a escrever o programa. Que quer você dizer com que ele não abrirá a mão? Vamos obrigá-lo. Não,
não li o contrato,
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mas vou lê-lo esta noite! E amanhã de manhã voltarei a ligar para si. - E bateu com o telefone.
- Robin - disse Dip. - Vamos acabar por perder a mesa no Danny's se não formos já.
Robin atravessou a sala e vestiu o casaco.
- Não tenho vontade de jantar. - Pegou outra vez no telefone. - Ligue-me para casa de Cliff Dorne. É em Rye. Acenou para que Dip lhe trouxesse os cigarros. - Cliff?
Fala Robin Stone.
- Sim Robin, espere um minuto. vou atender na outra sala.
Robin acendeu um cigarro e esperou. Cliff desculpou-se.
- Sabe, é que temos uma festinha aqui em casa.
- Que achou do Christie Lane Show? Silêncio.
- Também achei horrível - disse Robin. - Para ser sincero não vi o programa. Sabe...
- Que quer dizer com isso de que não viu?
- Robin, é o septuagésimo aniversário da minha sogra. A família está toda reunida aqui. Estamos à mesa.
- O show está incrível - disse Robin.
- vou ver o tape amanhã de manhã.
- Quero que se encontre comigo no seu escritório, esta noite mesmo.
- Como?
- Sim, esta noite mesmo! Você tem as chaves do arquivo onde estão os contratos, não tem?
- Robin, não pode esperar até amanhã? A mãe da minha mulher está a jantar connosco.
- Isso não me interessa. Venha para a cidade assim que puder.
- Robin, se fosse a minha mãe, eu iria. Mas a minha mulher não me vai perdoar. As minhas relações com a minha sogra não estão muito boas. Há trinta anos que vivemos
às turras. Se eu sair da festa agora...
- Você é que a sustenta?
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- Não, ela trabalha, numa garagem, como mecânica. Claro que a sustento! Até lhe comprei uma estola de vison, para o aniversário. Pode parecer loucura gastar tanto
dinheiro com uma velha de setenta anos, mas tenho a certeza de que ela vai aproveitar a estola ainda uns trinta anos.
- Então, deixe de me encher os ouvidos com tiradas sentimentais. Venha imediatamente para o seu escritório!
- Robin, acho que terá de esperar até amanhã.
- Se isso acontecer, amanhã estará outro tipo no seu lugar.
Houve uma ligeira pausa e depois Cliff respondeu, em voz seca:
- vou para o escritório. Mas, Robin, acho melhor você ler também o meu contrato. Eu não trabalhownz si ou sob as suas ordens. Sou chefe do Departamento Jurídico
da IBC. Não sou nenhum tipo que possa ser substituído.
- Se estiver no meu escritório dentro de meia-hora, a sua sogra poderá ganhar outra estola de vison para o ano que vem. Se não, acho melhor devolver a estola amanhã
mesmo. Eu estou a chefiar a IBC e não há ninguém que não possa ser substituído. Temos um programa de primeira que pode ir por água abaixo se não tomarmos medidas
imediatas. Quero ver se podemos toma-las. E não amanhã. Agora mesmo.
- Muito bem, Robin.
- Outra coisa, Cliff. Se acha que não pode trabalhar comigo, pode ir limpando a sua mesa mesmo esta noite.
- Está bem, eu vou trabalhar consigo, Robin - retorquiu Cliff - até Gregory voltar. Depois, acho que vamos conversar.
- Como quiser. Por agora sopre as velinhas, cante os parabéns a você e corra para a IBC - Desligou o telefone, caminhou até à janela e ficou a olhar para as luzes
da cidade.
- Dip riu.
- Caramba, até parece o que eu dizia num filme: "Nova Iorque, cuidado comigo"!
Robin virou-se.
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- Que queres dizer?
- Quero dizer que parecias o grande chefe, o gigante qUç vai governar sobre a Madison Avenue, dobrar arranha-céus com
umaa das mãos, etc., etc.
- Estou apenas a fazer o meu trabalho.
- E a que horas vamos ao Danny's?
- Não tenho tempo para ir.
- Robin, o homem ainda tem que vir de Rye. Não pode estar aqui em meia-hora. Podias ao menos entrar comigo no Danny's...
- Não tenho vontade de comer nem de beber. Deixemos para outra noite.
- Mas eu sei que alguns agentes importantes vão lá esta noite. Até mandei reservar uma mesa ao lado deles.
- Vai ao Danny's. Diz a toda a gente que eu vou lá ter contigo. Diz que faço tudo o que queres.
É o que dizem por aí, não é? Telefona para mim, da mesa, aqui para
casa. Ninguém responderá mas podes dizer: "Está bem, Robin, vou ter contigo." - Puxou da carteira e atirou uma nota
de cinquenta dólares para o sofá. - Paga o jantar
com isto. - E dirigiu-se para a porta.
Dip pegou no dinheiro e foi atrás dele. Quando Robin saiu do táxi, Dip gritou:
- Se acabares a tempo, vem ter comigo. Só vou telefonar daqui a uma hora.
Eram quatro da manhã quando Robin e Cliff acabaram de passar o contrato em revista.
- Vá para casa, Cliff - disse Robin, desalentado. -Já analisámos todas as cláusulas, todas as palavras. Estamos num beco sem saída.
Cliff vestiu o casaco e endireitou a gravata.
- Quando lhe demos sociedade no programa, ficámos com o direito de aprovação de talentos, mas demos a Christie o controlo artístico.
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Robin acendeu o último cigarro e atirou ao lixo o maço
vazio.
.- Quem foi o génio que usou esta linguagem ambígua? pé que serve podermos aprovar o elenco se não temos controlo artístico?
- É uma velha reminiscência do tempo dosRedCbannels e a única razão porque ainda existe. Dá à agência ou à estação a possibilidade de derrubar um actor com quem
o patrocinador não simpatize.
Robin ficou pensativo.
- Não poderíamos vetar todo o elenco?
- Teríamos de apresentar uma razão válida. Teríamos de argumentar que o patrocinador achava o programa indigno do seu nome. E, pelo que você diz, o programa foi
chatíssimo, mas dentro do maior bom-gosto. Por isso não podemos vetar o elenco, ou estaríamos infringindo o direito de controlo artístico de Christie.
Robin amassou o cigarro.
- Bem, lá vai um dos nossos melhores programas por água abaixo.
- Foi assim tão horrível? - perguntou Cliff.
- Verá o tape. E eu já estou a ver as cotações.
O dia começou a clarear quando Robin saiu da IBC. Sabia o que tinha a fazer. De nada serviria chorar pelo The Christie Lane Show. Até ao fim de Junho o programa
tinha de ser cancelado e ele teria de procurar novos programas: mais comédias e mais violência. Convocaria uma reunião para esse mesmo dia, contrataria argumentistas
capazes de escreverem programas para a IBC.
Em Janeiro fez a imprensa anunciar que The Christie Lane Show sairia do ar em fins de Junho. Disse a Jerry que ficasse tranquilo: lançaria um programa sensacional
no mesmo horário e os patrocinadores de Jerry teriam a prioridade.
O cancelamento do programa de Christie fez correr rios de
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tinta em todas as publicações especializadas e nas colunas de TV doTzmes e doTribune. Dois dias depois da notícia, Christie recebeu ofertas para fazer programas
na NBC e na CBS.
Embora as suas cotações tivessem caído, Christie continuava na crista da onda. A sua publicidade era tremenda. Ele e Ethel eram convidados para todas as grandes
festas. Ao contratar Cully & Hayes e Noel Victor Ethel entrara para o grupo de Alfie. Alfie fazia-lhe confidências, adorava-a, e Ethel ia com ele a todos os lugares
para "tapar" o rapaz por quem ele estivesse apaixonado. Enquanto Christie trabalhava no seu shou os três iam juntos a todas as estreias.
Embora Christie tivesse óptimas ofertas da NBC e da CBS, não se apressava em aceitá-las. Os programas que lhe ofereciam davam-lhe quase apenas a oportunidade de
aparecer como mestre-de-cerimónias. Em Fevereiro, foi a Nova Iorque, para fazer uma última tentativa de ajustar as coisas com Robin e continuar na IBC. Disse ao
escritório de Johnson-Harris para comunicar a Robin que não se importava de fazer o programa voltar ao que era.
O "novo" programa tinha sido ideia de Ethel, para poder entrar para o grupo de Alfie. Noel Victor era um dos melhores amigos de Alfie. Bem, tinham conseguido entrar!
De tal maneira que Christie mal via Ethel. Queria fazer com que o programa voltasse ao esquema antigo; era muito mais fácil cantar velhas canções do que aprender
novos números todas semanas.
Quando chegou a Nova Iorque, ficou espantado ao saber que o seu agente não conseguira marcar um encontro com Robin.
- Quando ele diz não - explicou o agente - é mesmo não. Não dá oportunidade de discutir, pedir ou suplicar.
Chris tentou falar ele mesmo com Robin. Cada vez que tentava era informado de que o sr. Stone estava em "reunião"Telefonou para Danton Miller. Dan ficou encantado
ao saber que ele estava na cidade e sugeriu que se encontrassem no
21. Eram quatro da tarde e o restaurante estava quase vazio522
Sentaram-se numa mesa da frente, perto do bar e passaram uma hora a falar mal de Robin Stone. Chris começou a sentir-se melhor.
- Pelo menos você tem ofertas de outras cadeias. Ali vem um tipo que não sabe o que fazer na vida. - Os dois viram Dip Nelson entrar e dirigir-se para o bar.
Dan sorriu.
- Vem cá quase todos os dias sozinho.
- Porquê?
Dan encolheu os ombros.
- Que outra coisa pode fazer um tipo, quando a mulher é uma estrela e ele está sem trabalho?
- Como vão as coisas consigo? - perguntou Chris
- Bem, digamos que estou a tentar sobreviver. E aquele louro no bar pode ser a minha salvação.
- Dip Nelson?
- Acho que ele está ansioso por trabalhar. E eu tenho uma proposta...
- Dip Nelson está liquidado. Procure a mulher dele.
- A mulher dele não se interessa por Robin Stone. Dip sim.
- Sim. -Chris ficou pensativo. -Na Califórnia, todos falam disso. Dizem mesmo que há algo esquisito entre eles. Sabe o que é.
- Não me interessa saber se eles estão secretamente "casados". O que eu quero é pôr um programa no ar.
- Quer dizer que vai voltar como produtor?
- Produtor e dono - respondeu Dan. - Não há nada neste negócio que eu não conheça. Mas quero que seja na IBC. Quero estar lá quando a Máquina do Amor explodir.
íEntão voltarei ao que era, mas mais forte e maior do que nunca.
Chris fez que sim.
- Você, pelo menos, tem o futuro planeado. Dan riu.
- Christie, não chore. Você tem uma casa enorme na Califórnia, dinheiro aos montes e anda com o grupo de Alfie.
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Não pode pedir mais nada da vida.
- Ethel é que não pode - suspirou Christie. - Está com tudo o que pediu a Deus. Mas eu não gosto desta vida. Todas as noites chego a casa e ou Alfíe está lá, ou
vamos a uma festa. Eddie e Kenny estão mais comigo. Gostam mais de Nova Iorque. Arranjaram um emprego no novo espectáculo de variedades da CBS.
- Talvez não precise mais deles. Você subiu na vida.
- Acha que subir na vida é ficar a rir das piadas de Alfíe e vê-lo namorar algum actor por quem esteja apaixonado? Todos têm de fazer como Alfie. Ethel fica furiosa
quando a chamo de "boneca". Tenho de chamar toda a gente de "querido". Que acha disso? Andar num grupo onde os homens se tratam de "querido"?
De repente, o rosto gordo de Christie amarrotou-se nujp sorriso.
- Sim, sei que não devo queixar. Como disse, tenho dinheiro aos montes. Mas, acima de tudo tenho o meu filho, Christie Lane, Jr. - Puxou de uma porção de fotografias
de um bebé gordo e risonho. - Mesmo que a Ethel não me ligue mais, não posso queixar-me. Ela deu-me o garoto e isso é que me importa. Eu vivo para esse miúdo.
- Olhou para o relógio.
- Caramba, tenho que voltar para o hotel. O Plaza, imagine. Alfíe diz que é o único hotel para mim. Precisava de ver a minha suite. Acho que o Lincoln dormiu lá.
Mas Ethel vai telefonar-me às seis e meia; ela põe o miúdo ao telefone e ele às vezes faz um barulhinho lindo!
Depois dele sair, Dan pediu outro martini e mandou um bilhete para Dip, que estava ainda no bar. Dip leu-o e aproximou-se.
- Porque é que temos de beber sozinhos? - perguntou Dan. - Achei melhor bebermos juntos.
- Porquê? - retorquiu-Dip. - Você é o tipo que fez todo aquele barulho quando Robin me pôs no programa de Christie Lane.
- Só porque assim eu não pude preparar uma boa cobertura
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para si. Garanto-lhe que, se eu tivesse tido tempo, as críticas ter-lhe-iam sido favoráveis. Dip sentou-se.
- Os gajos estão sempre prontos para destruir um astro de Hollywood. Pensam sempre que o tipo não tem talento. Mas quando eu canto, principalmente para uma plateia
ao vivo, caramba, não há quem me chegue aos pés.
- Deixe-me pagar-lhe uma bebida - disse Dan.
- Estou à espera de um telefonema de Robin. Só estou a tomar uma água tónica até ele telefonar. Depois eu e Robin vamos dar uma volta por aí e beber a valer.
- Você e Robin são muito chegados?
- Unha com carne - respondeu Díp.
- Então porque é que ele não o ajuda? -perguntou Dan.
- Dizem por aí que você é o moço de recados dele.
Os olhos de Dip fuzilaram.
- Não diga isso de mim! Robin precisa de mim para tudo. Para dizer a verdade, fui eu que lhe disse para elp cancelar o programa de Christie Lane! E quer saber
de uma coisa? Robin estava a querer deixá-lo voltar na próxima temporada, mas eu não esqueço. Christie Lane tratou-nos aos dois, a mim e a Pauli, como cães, quando
entrámos no programa dele, e eu sei esperar. Mas depois vingo-me!
- Até quando vai ficar em cartaz a peça da sua mulher?
- Até Junho, aqui em Nova Iorque. Depois vai fazer uma tournée de um ano. Eu também vou. Vão aumentar o papel do irmão e eu vou interpretá-lo.
- Porque vai aceitar um papel secundário? -perguntou Dan.
- Para estar perto de Pauli. Ela precisa de mim.
- Ela precisa tanto de si como de mais dentes.
- Quer apanhar aqui mesmo, no 21?
- Não, apenas estou a querer fazê-lo pensar.
- Pensar em quê?
- Que todas as noites você é visto com a força n.? l da TV. Ninguém na televisão tem a autonomia de Robin Stone e você
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deve aproveitá-la, enquanto durar. Porque, mais cedo ou mais tarde, o poder que ele agora tem, vai rebentar-lhe nas mãos, da maneira como ele age, até parece que
se delicia em fazer inimigos. É quase como se estivesse a fazer uma experiência, vendo até que ponto pode ir, até que ponto pode abusar das pessoas. Deve haver
uma espécie de doença por detrás daquela arrogância e ambição. Por isso se for esperto, é melhor ouvir
o que tenho para lhe dizer.
- Não preciso de conselhos de um vencido - disse Dip. Dan mandou-lhe o seu sorriso.
- Talvez dois vencidos tenham mais força do que um só. Não gostaria de ser sócio de um programa?
- Não percebo nada de programas.
- Que vai fazer ao jantar? - perguntou Dan.
- Nada, ou melhor, vou encontrar-me com Robin.
- Pode adiar o encontro?
Dip sorriu.
- Posso fazer o que eu quiser.
- Então, vamos. Tenho um encontro com Peter Kane, do escritório de Johnson-Harris, no Voisin. Oh, você ainda não assinou o contrato para fazer a tournée com Pauli?
- Não. Estou à espera para ver como é que eles aumentam
O papel.
Dan pagou a conta.
- Então, venha comigo. Oiça, mas não abra a boca.
- Ninguém fala comigo assim - disse Dip.
- Mas eu posso falar porque vou fazer de si um homem muito rico. Levantou-se e Dip saiu com ele do restaurante.
No Voisin, Dip pediu um bourbon com água. Dan e Peter Kane mandaram vir martinis.
Dan encaminhou logo a conversa para a carreira de Dip. Por estranho que parecesse, Peter Kane mostrou-se interessado. Ambos concordaram que os críticos se tinham
vingado nele da antipatia de Robin.
- Este pobre rapaz herdou todos os inimigos de Robin e nenhum dos seus amigos - explicou Dan.
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- Que amigos é que Robin tem? - perguntou Peter Kane. - Nem uma rapariga firme. Ouvi dizer que Ike Ryan às vezes lhe arranja uma garota. Ele gosta de se divertir
a três. Diga uma coisa, Dip, ele é tarado?
- Só se for por mulheres - respondeu Dip.
- Bem, acho que a sua carreira se foi abaixo graças a Robin
- disse Peter Kane. - Todos sabem que Robin é o seu maior amigo e, se ele não lhe dá trabalho, as pessoas têm de pensar que você não presta mesmo. Robin estragou
a sua reputação, não lhe dando um programa especial.
- Nunca pensei nisso - disse Dip, lentamente. - Talvez por isso é que não tenho ofertas.
Ficou calado, a ouvir os outros dois a analisarem vários programas de diferentes estações. Quando acabaram de jantar, Peter Kane voltou-se para Dan.
- Tenho a cabine de projecção reservada para as nove horas. Acho melhor irmos andando.
Dan virou-se para Dip.
- Vamos lançar um novo programa. Os direitos são meus e Peter é o meu representante. Já fizemos o programa-guia. É uma série de espionagem e vai-nos sair barato.
Vic Grant vai fazer o papel principal. Quero que veja se gosta.
Dip ficou animado. Vic Grant era um actor secundário, ao passo que ele era um astro. Vic não fazia um filme havia dois anos.
Dan pagou a conta e foram directamente para a cabina de projecção do escritório de Johnson-Harris. Dip ficou empolgado. Era um filme policial com bastantes tiroteios.
Vic não estava mal, mas Dip tinha a certeza de que podia representar muito melhor: o papel parecia feito de encomenda para ele. E ele voltaria a ficar por cima!
Quando a luz se acendeu, Dan olhou para ele.
- Gostou?
- Acho que vai ser um sucesso - respondeu Dip, entusiasmado.
- Vamos descer. Há um bar do outro lado da rua, um bar
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sossegado onde poderemos discutir a coisa - sugeriu Peter.
- vou com vocês - disse Dip.
Sentaram-se a uma mesa dos fundos. Dip mandou vir um bourbon e bebeu-o puro. Se Dan e Peter tinham visto nele aquele detective amigo de beber e de mulheres, ele
não podia deixá-los saber que geralmente só bebia água tónica ou cerveja.
- Estamos a pensar pedir cento e vinte cinco mil dólares pelos direitos - explicou Dan. - Podemos empatar noventa mil, algumas semanas até menos. Acrescentando
a comissão de dez por cento, ficamos com um lucro de trinta mil dólares, que pode ser dividido por três, se necessário.
- Quer dizer que eu fico com um terço dos lucros, em vez de salário? - perguntou Dip.
- Bem, também lhe poderíamos pagar um salário pró-forma, digamos, mil dólares por semana, mais despesas de
escritório.
- Para que vou eu precisar de escritório? ,
- Para montar a sua companhia. Você não pode receber todo o dinheiro como salário, os impostos levariam tudo. A minha companhia chama-se Danmill. Arranjo um nome
para a sua. Se quiser, o meu advogado trata de tudo.
Tudo aquilo era correr demais para Dip.
- Porque iria eu confiar nesse advogado?
- Porque é a sua companhia que vai ficar com todos os lucros e pagar a respectiva parte à Danmill.
- Onde filmaríamos? Aqui ou em Los Angeles?
- Onde a IBC achar melhor. Têm estúdios grandes em Los Angeles mas eu preferia filmar as cenas de acção nas ruas de Nova Iorque, têm mais carácter.
- Quer dizer que a IBC já comprou os direitos? - perguntou Dip.
- Não, mas vai comprar, espero.
- Bem, eu tenho a certeza que vou ser sensacional no
papel.
Dan e Peter entreolharam-se. Dan disse:
- Tenho a certeza que sim. Mas acontece que contratámos
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Vic Grant por dois anos. Ele fez o guia, com a condição de lhe darmos o papel, se a série fosse vendida.
- Então, que estou a fazer aqui? - perguntou Dip.
- Você pode fazer com que Robin Stone o compre. Dip pôs-se de pé, mas Dan agarrou-lhe no braço.
- Sente-se! Oiça, você prefere ser um mau actor toda a sua vida ou ser um milionário?
Dip fuzilou-o com os olhos.
- Você não descansa enquanto eu não lhe der uns murros. Peter intrometeu-se.
- Dip, encare as coisas como elas são. Você não serve para a televisão. Já lhe deram todas as possibilidades. Porque não acorda e resolve ganhar dinheiro? Dá mais
prestígio ser produtor do que actor.
- Porque acha que a IBC vai comprar os direitos? perguntou Dip de repente.
Dan franziu a testa.
- Parece que você anda pelas mesas do Danny's a dizer a toda a gente que manda em Robin Stone. Pois bem, chegou a altura de provar isso. Faça com que ele compre.
Em Janeiro vão precisar de novos programas. Diga-lhe que, se ele comprar os direitos, fica com um terço dos lucros. Você pode pagar-lhe conforme ele quiser: em
dinheiro, em viagens, comprando-lhe uma casa de campo.
- Não vai haver problemas com o governo?
- Temos um óptimo técnico em tributação. Há sempre maneira de fazer com que o terço de Robin pareça despesa extra. Se ele quiser um Cadillac, podemos comprá-lo
e utilizá-lo em algumas cenas, como se fosse para o programa. A casa de campo serve para filmar uma sequência. Construímos cenários e damos-lhe os móveis. Se
ele preferir dinheiro, encontraremos mil maneiras de inventar despesas imprevistas. Deixe que nós cuidamos disso.
- Quer dizer que eu só tenho de falar com ele? Dan encolheu os ombros.
- Parece que você é que sabe lidar melhor com ele.
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- E quanto é que diz que fica para nós?
- Dividindo os lucros em três partes, dez mil para cada
um.
- E Pete?
- Eu só quero que a agência fique com a comissão respondeu Peter. - Se conseguir vender os direitos a Robin Stone, serei nomeado vice-presidente. O resto não me
interessa.
Dip olhou para o ar.
- O meu nome tem que aparecer no vídeo como produtor. Dan riu.
- Todos saberão que é mentira.
- Não me interessa. Pauli não saberá. O público também não. Eu quero o meu nome no vídeo, e maior do que o de Vic Grant. Assim Pauli, ficará impressionada.
- Está bem - concedeu Dan. - Eu serei o produtor executivo e você será apresentado como produtor.
Dip sorriu.
- Primeiro, dê-me uma carta assinada e autenticada, dizendo que eu fico com dois terços dos lucros. Imagine se eu faço Robin entrar no negócio e depois vocês nos
aldrabam?
- vou mandar redigir a carta amanhã de amanhã prometeu Dan.
Dip encontrou-se com Robin no Lancer Bar, nartarde do dia seguinte. Tinha a carta de Dan no bolso. Esperou que Robin pedisse o segundo martini e depois falou no
filme-guia. Descreveu-o, representou o papel e terminou dizendo:
- Um terço do lucro vai para o teu bolso, meu caro. Robin agarrou-o pelas lapelas e puxou-o para junto dele.
- Ouve o que te vou dizer, imbecil. Danton Miller ficou rico fazendo negócios desses, quando estava na IBC. Pus na rua todos os agentes que negociaram com ele.
Não te atrevas a misturar o meu nome num negócio desses!
- Queres dizer que não aceitas? - perguntou Dip.
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- Não aceito ganhar dinheiro com isso! - Voltou-se para Dip. - Ouve, se tens um bom fílme-guia, mostra-o. Se for
bom, terá preferência sobre todos os outros programas.
Se Dan quiser pôr o seu nome nele, isso é com vocês.
Dip sorriu aliviado.
- Queres dizer que não estás zangado?
- Só me zango quando te tentas meter nos meus negócios. Ouve, Dip, estou sempre à espera de bons programas. Não vejo razão para que não possas dedicar-te à produção.
Tens uma inteligência tipo gangster que eu admiro. Se eu comprar esse programa e eles puserem o teu nome como produtor, sei muito bem que Danton vai fazer o trabalho
todo. Mas, se te contentares em ficar a olhar e a receber elogios, mudarei de ideias quanto à tua inteligência. Procura aprender tudo o que houver para aprender,
repara nos cameramen, aprende a calcular as despesas... e saberás calcular os teus lucros. Procura contratar bons músicos. Mas, quanto a dividir os lucros a três,
esquece-te disso. Dividam-nos entre vocês os dois, fora o que têm de dar ao tal agente.
Robin viu o filme guia com Dip. Quando terminou, pôs-se de pé.
- Não é apenas bom, é o grande! Podes dizer a Dan que o negócio é dele.
Dip deu um passeio a pé, depois de se despedir de Robin. Descobriu que desprezava Robin Stone e que detestava Danton Miller. Sentia ódio por tudo o que era filho-da-puta.
Como chegara ele a uma tal situação? Tinha uma mulher que era uma estrela e que o tratava como se fosse um criado. Homens como Robin e Dan diziam-lhe na cara que
ele era um péssimo actor. Que acontecera com ele? Ainda se lembrava de quando entrava numa sala e todos paravam para o olhar. Ainda se lembrava de quando as mulheres
andavam atrás dele. Agora, evitavam-no. Pauli tinha-lhe dito para não se aproximar das raparigas da peça; nenhuma delas queria sair com Robin Stone. Mas ele tinha
de arranjar garotas para Robin, tinha de se fazer util. De qualquer maneira, Robin era um tarado com as mulheres.
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Ele nunca se esquecera da prostituta que Robin tinha surrado. E elas queixavam-se de que ele era miserável: só as levava ao Lancer Bar e depois directamente
para a cama. Quando o não satisfaziam ele mandava-as para casa sem sequer pagar o táxi. Dip suspirou e encaminhou-se para o Sari's. Criara o hábito de ir lá almoçar
e olhar em volta, à procura de actrizes novatas para Robin. Claro que Robin nunca lhe pedia nada, mas parecia sempre satisfeito, quando Dip lhe piscava o olho
e lhe dizia: "Caramba, meu caro, arranjei-te uma mulher que nem queiras saber!"
Como chegara ele àquele ponto? Bem, agora seria diferente. Ele voltaria a ser grande. Trinta mil dólares por semana, divididos por dois... Porquê por dois ? Como
é que Dan ia saber que Robin não tinha aceitado? Não ia saber. Ele ficaria com dois terços, além do salário. Diria que Robin tinha preferido dinheiro e deixaria
que o tal especialista em impostos achasse um meio de o pôr nas despesas. Depositaria aqueles dez mil num cofre de aluguer, todas as semanas. Livres de impostos!
Ficaria rico. Mas diabos o levassem se ele ia ficar a preílar atenção aos cameramen ou a aprender a ser produtor. Os idiotas como Dan Miller que se encarregassem
de tudo. Ele ficaria com dois terços e divertir-se-ia à grande. Depois encarregar-se-ia de espalhar que Robin estava no negócio... Assim, todos os tipos que quisessem
vender direitos viriam ter com ele e oferecer-lhe-iam dois terços, um para ele próprio e outro para Robin. Pauli ficaria impressionada, não viria mais com aquela
história de estar muito cansada quando ele chegava perto dela. Em breve ele poderia dar-lhe um emprego! De repente, desanimou. Pauli! Caramba, até parecia uma
doença. Ele não conseguia tirar Pauli do pensamento. As vezes tinha vontade de matá-la mas, entre todas as mulheres bonitas que conhecia, ela era a única que
o fazia vibrar. Chegara até a tentar uma orgia com Robin, uma garota e eles dois. Ficara a ver Robin com a pequena e não ficara excitado. Quando chegara a sua
vez, só conseguira funcionar fazendo de conta que a moça era Pauli. E ela era sensacional! Bem, dentro em pouco o nome de Dip
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Nelson surgiria no vídeo a cores e ele teria dois programas, talvez até três, e Pauli ficaria a saber que ele era o tipo mais importante da cidade.
Robin programou a série de Dip, Um Homem chamado fones, para substituir o primeiro programa a ser cancelado em Fevereiro. O contrato fora feito, Dan concordara
e agora Dip nada mais tinha a fazer do que esperar por Setembro e ver que programas iriam ser substituídos.
Pauli iniciou a tournée em Junho e Dip permaneceu em Nova Iorque. A atitude de Pauli mudara, ao saber que Dip ia ganhar dez mil dólares por semana. (Ele não lhe
falara nos outros dez mil que tencionava depositar no cofre). Escrevia-lhe longas cartas e nunca se esquecia de lhe dizer que sentia muitas saudades dele.
Em Setembro os novos programas estrearam-se. Uma das séries que Robin escolhera mostrou-se logo vitoriosa. Dois outros eram duvidosos, mas o programa diurno era
sólido. A nova novela era um êxito e, dos dois programas duvidosos, um deles deveria ser cancelado em Fevereiro. Robin entraria com a série de Dip no seu lugar.
Isso acabaria com qualquer obrigação que ele lhe devesse. Pôs-se a pensar em Dip... A princípio tinha realmente gostado dele. Havia nele uma tolerância e uma
vontade de viver que Robin achava fantásticos. Mas, à medida que os meses tinham passado e ele fora vendo Dip servir de capacho para Pauli, o seu respeito por
Dip, fôra-se transformando em repugnância. Dip tinha de saber que Pauli o estava a enganar. A princípio, tentara despertar nele a hombridade, tratando-o como se
fosse seu criado. Achava que Dip se revoltaria e que isso lhe seria salutar. Mas não, Dip aceitara tudo.
Quanto mais Robin pensava na subserviência de Dip em relação a Pauli, menos desejava envolver-se com qualquer
mulher. As poucas vezes que iniciara algo semelhante
a um romance, os seus pensamentos voltavam-se automaticamente para Maggie e a rapariga com quem ele estava parecia-lhe
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insípida. Não, era mais fácil deixar que Dip lhe arranjasse divertimentos. Ligava tão pouco às raparigas que Dip ou Ike arranjavam que precisava de uma diversão
a três para que elas o excitassem. Só depois de ver Ike fazer amor com uma moça é que conseguia alguma coisa. Sabia que, embora de maneira subconsciente, Maggie
estava sempre nos seus pensamentos, e aquilo enfurecia-o. Nenhuma mulher jamais o "apanharia"! Dirigir a rede exigia-lhe todo o tempo. Não escrevia uma única página
do seu livro havia um ano. E, na noite anterior, arrumara metodicamente as trezentas páginas numa página de cartolina e guardara-a num arquivo. Gostaria de saber
quando voltaria Gregory, se era que voltaria... O último cartão postal que recebera de Judith fora enviado em Agosto, de Cannes. Gregory estava a sentir-se bem,
a ponto de jogar chemin defer horas a fio.
Os Austin voltaram inesperadamente a Nova Iorque, em fins de Setembro, Judith não quisera tornar público o regresso. Uma vez instalada, o regresso seria anunciado
com grande festa. Ela não queria dissipar o impacto com a fotografia dos dois a desembarcarem do navio. Tencionava alugar o salão de baile do Plaza, convidar toda
a gente interessante, toda a imprensa... Gregory voltava ao que era antes e convencera-se de que não tinha cancro. Chegara até a provar-se na cama com ela. Judith
achava que deveria ganhar o Oscar para a melhor actriz: fingira-se muito excitada, dissera-lhe que ele era, sem dúvida, o maior do mundo. Nem na lua-de-mel se
mostrara tão excitada com ele. Estava resolvida a fazer tudo para que Gregory ficasse bom e, acima de tudo, para fazer com que ele voltasse a Nova Iorque. Tinham
estado ausentes um
ano e meio!
Mas ela tinha empregado bem o seu tempo. Durante os primeiros três meses em Lausanne, Gregory tinha estado incapacitado de receber visitas. Quarenta tratamentos
de choque, seguidos de horrível período regressivo, em que chegara a fazer
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as necessidades nas calças. Depois, o lento processo de recuperação... Judith alugara um pequeno apartamento perto do sanatório e, durante os três primeiros meses,
em que a não tinham permitido vê-lo, tratava de se entregar nas mãos de um excelente cirurgião plástico.
O resultado tinha sido miraculoso, embora a princípio ela tivesse ficado decepcionada. Esperava voltar aos vinte anos e aparentava trinta e oito, mas uns trinta
e oito bonitos e bem cuidados. O médico fora realmente um génio. Naturalmente havia pequeninas rugas diante das orelhas e grandes cicatrizes por detrás delas,
mas ela agora usava o cabelo para baixo, suave ebouffant, alguns centímetros abaixo das orelhas. Vidal Sasson em pessoa, criara aquele penteado para ela, e o resultado
era sensacional. Gregory nada sabia acerca da operação. Dissera que ela estava linda e que o novo penteado a favorecia imenso. Ela sorrira. Não teria ele reparado
como o seu queixo estava firme? Nem dera pela plástica que ela fizera aos seios ou nas diminutas cicatrizes junto ao pélvis, onde as coxas tinham sido
repuxadas.
Gregory também estava de óptimo aspecto. O tom ruivo voltara aos seus cabelos, estava bronzeado e esbelto, mas não mostrava desejo de voltar a trabalhar. Já estavam
em casa há uma semana e ele nem falara em ir ao escritório. Todos os dias vinha com uma nova desculpa. Tinha de ir ao alfaiate, perdera cinco quilos e nenhuma
das roupas lhe ficara bem. Tinha de ir ver como estavam os cavalos. No início da segunda semana, ela literalmente expulsou-o de casa, insistindo para que ele fosse
ao escritório.
Assim que ele saiu, Judith telefonou para Robin. Esperara até então, de propósito. Ele sabia que eles tinham voltado. Gregory falara várias vezes com ele ao telefone.
Judith tinha a certeza de que devia estar a estranhar que ela não telefonasse. Naquela altura devia estar ansioso por ouvir a sua voz...
O telefone dele não atendia. Ficou desapontada, mas não quis deixar recado. Ele devia estar nalguma reunião. Só conseguiu encontrá-lo às três da tarde. Robin mostrou-se
encantado.
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Passara a manhã com Gregory e ficara surpreendido por o ver tão bem disposto.
- Quando é que o vejo? - perguntou ela.
- Quando quiser - respondeu ele. - Logo que Gregory tenha disposição, gostaria de os convidar para jantar.
- Não me refiro a isso, Robin - disse ela. - Quero vê-lo a sós.
Ele ficou calado.
- Está, Robin? Está a ouvir-me?
- Estou, sim...
- Quando o posso ver?
- Amanhã às seis, no meu apartamento.
- Muito bem. Deixarei recado a Gregory de que fui a uma festa de caridade. Não terei horas para voltar e Gregory adormece logo depois do jantar.
No dia seguinte, Judith foi a um novo salão de beleza. Não queria arriscar-se a ir ao seu salão habitual, onde todas as empregadas a conheciam, a menos que quisesse
que as cicatrizes atrás das orelhas se tornassem o prato do dia em toda a Park Avenue. As raparigas contavam-lhe sempre quem fizera a última operação plástica.
Sentou-se num cubículo no novo salão de beleza. Marcara a hora com o nome de Wright. Tinha a certeza de que ninguém a reconhecera. No fim de contas, havia mais
de um ano que o retrato dela saíra na primeira página do Womeris Wear. Bem, dali a algumas semanas ela faria a sua rentrée. Recostou-se e desejou que a mulher
não lhe esfregasse a cabeça com tanta força. Sabia que ela estava a sentir as cicatrizes. Diabo da mulher, estava com ciúmes por que nunca se poderia dar àquele
luxo. Olhou para ela. Era uma mulher de trinta e poucos anos, quadris largos, dedos permanentemente descoloridos pelas tinturas, grandes sapatos brancos, calçando
pés doridos de tanto ficarem de pé, Deus, até varizes! Porque não haveria a pobre criatura de odiar e invejar alguém capaz de pagar três mil dólares só para se
livrar de algumas
rugas?
A mulher sorriu, ao conduzir Judith a outro cubículo para
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pentear o cabelo. Enquanto Judith folheava um número atrasado do Harper's a mulher sussurrou para o rapaz encarregado do penteado:
- Vais ganhar uma boa gorjeta dessa aí, Dickie. É a Sr.a Gregory Austin, com um nome falso e uma porção de cicatrizes. Cuidado com os grampos.
Judith pôs-se a fumar nervosamente, enquanto o rapaz lhe enrolava o cabelo. Percebeu que ele olhava para as orelhas dela.
- Operei os ouvidos o ano passado - disse. Ele fez que sim com a cabeça.
- O meu colega de apartamento também operou.
Debaixo do secador, ela acalmou-se. Voltou para o cubículo para Dick a pentear e refazer a maquilhagem. Estava a usar aquela maravilhosa lingerie que comprara
em Paris. Graças a Deus que as cicatrizes debaixo dos seios não apareciam. A operação plástica aos seios e às coxas fora dolorosa, mas valera a pena. Nessa noite,
ela tiraria a roupa e exibir-se-ia diante de Robin. Já não temia comparações com nenhuma hospedeira!
Saiu do salão de beleza às cinco e meia. Não queria ir a pé para não estragar o penteado. Estava linda. Vidal cortara-lhe tão bem o cabelo que até mesmo Dickie
conseguira seguir a linha. Dera-lhe uma gorgeta de dez dólares. Havia anos que não se sentia tão feliz. Tinha vontade de cantar, de gritar, mas a única coisa que
fez foi entrar numa confeitaria e tomar uma chávena de chá, para matar o tempo. Às cinco para as seis, tomou um táxi para o apartamento de Robin.
O porteiro olhou distraidamente para ela, mas Judith sabia que os seus enormes óculos de sol a camuflavam perfeitamente. Além disso, ele não a reconheceria! Havia
tanto tempo que ela estava ausente! Ofegava de excitação e nervosismo quando tocou à campainha. Ele abriu a porta, mandou-a entrar e voltou para o telefone. Caramba,
que recepção! Estava a falar para a Califórnia, parecia Gregory, com todas aquelas malditas cotações. Judith olhou em volta. Só estivera lá uma vez mas, durante
todo aquele ano, recordara todos os segundos que tinham compartilhado. Todas as palavras, todos os móveis do
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seu apartamento estavam gravados na sua memória. Sentia-se levemente desconfortável na nova lingerie. O soutien transparente e o minúsculo biquini de renda arranhavam-lhe
o corpo. Mas qualquer desconforto valeria a pena, para ver a cara dele quando ela ficasse nua. Planeava despir-se lentamente. Estava a usar um tailleur. Valentine
excedera-se a si próprio, ao desenhá-lo: a blusa de seda abotoava-se na frente, nada tinha de passar pela cabeça e ela estava a usar aquelas sensacionais pestanas
postiças; não precisava de preocupar-se que elas não cairiam.
Robin desligou, avançou para ela e tomou-lhe as mãos em sinal de boas-vindas. Tentou sorrir, mas tinha a testa franzida.
- Problemas? - perguntou ela.
- Roddy Collins.
- Quem é ele? - quis ela saber. Desta vez ele sorriu mesmo.
- Não só esteve ausente, como aposto que não ligou a televisão desde que voltou.
- Não, e nem Gregory, graças a si.
Ele sentou-se e ofereceu-lhe um cigarro. A testa voltou a franzir-se.
- Roddy Collins é o nosso novo astro, tem uma série que está entre os dez primeiros. É um western em que ele faz a figura de um destemido defensor da lei e da
ordem. Um tipo com um ar fantástico, dois metros de puros músculos. Acabei de saber que ele é maricas.
Ela encolheu os ombros. Só queria que Robin a tomasse nos braços mas ele não parava de andar de um lado para o outro, mal olhando para ela. Ainda estava a pensar
no telefonema.
- A vida particular de um astro não é privada? - perguntou ela.
- Claro se ele a mantiver privada. Não me interessa com quem ele dorme, mas parece que a sua especialidade não é dormir com homens. Ele gosta de se vestir de mulher
mandar por aí atrás dos homens. Já imaginou? Dois metros de altura, a
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mais recente sensação da televisão, patrocinado por um produto de consumo familiar e entrando num bar, vestido de rnulher, à procura de outros maricas? Ela começou
a rir.
- Não é nada engraçado, Judith. Parece que um tipo pouco mais baixo do que ele lhe deu um murro e os polícias acudiram. Os nossos advogados entraram imediatamente
em acção. Pagámos a três pessoas para jurarem que ele estava apenas a querer ganhar uma aposta e que o estava a seguir. Desta vez, a coisa passou, mas não podemos
andar atrás dele a toda a hora.
- Robin, há tanto tempo que estou fora de tudo isso! Sei que tenho de voltar a integrar-me, mas não agora, não no nosso primeiro encontro!
Ele olhou para ela como se a visse pela primeira vez. - Claro. Quer uma bebida?
- Quero. - Ela queria qualquer coisa que ajudasse a quebrar o gelo.
Ele preparou dois uísques.
- Gregory está de óptimo aspecto - disse, ao passar-lhe o copo. Sinto-me orgulhoso pelo facto de ele querer que eu continue a dirigir, mas você tem de fazer com
que ele tome algum interesse.
- Porquê? Ele não se interessa?
- Não. Convocou uma reunião, esta manhã, para dizer a toda a gente como se orgulhava de mim. Amanhã vai jogar golfe. E, depois de amanhã, vai ver uns cavalos para
comprar.
Ela encolheu os ombros.
- Agora, a rede é sua, Robin.
- É, eu sei - respondeu ele.
- Então, deixe Gregory jogar golfe e comprar cavalos.
- Judith, pensei que ele ia voltar e tentar retomar a direcção das coisas. Estava até preparado para lutar contra ele; afinal, trinta por cento dos programas são
obra minha. Mas ele não mostra interesse absolutamente nenhum, e isso não é
bom. Gosto de Gregory. Quero trabalhar com ele, sugerir-lhe coisas
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, fazer com que ele discuta comigo quando achar que eu estou errado. Tudo isso melhora a programação. Além do mais, andam a dizer que a rede é minha, e eu não
quero que ele se aborreça.
Ela pousou o copo e lançou-lhe um olhar íntimo.
- Deixe-me tratar disso. A rede também é minha, como deve saber.
- Judith, para você é fácil dizer isso, agora, mas espere até ficar por dentro. Eu não dou entrevistas. Não sou o tipo mais simpático do mundo, segundo a imprensa.
E, a menos que Gregory volte imediatamente, em breve ele estará esquecido. Quando ele estava longe, a coisa era outra, mas se ele volta e não se põe a trabalhar,
os jornais vão começar a especular e a rede vai ficar a ser realmente minha. Há um colunista que me detesta particularmente. Recusei-me a permitir que ele participasse
de uma mesa-redonda num dos nossos programas. É um pobre diabo gordo, que detesta toda a gente. Tem escrito a meu respeito quase todos os dias, chamando-me a Máquina
do Amor!
Ela franziu a testa.
- Que tal tentar corresponder ao título? Ele engoliu o resto da bebida.
- Dê-me umas férias primeiro. Você tem estado a nadar mas eu não tive tempo de passar um fim-de-semana em Hamptons.
- Parece-me em boa forma, Robin.
Ele aproximou-se e puxou-a pelas mãos, até ela ficar de pé. Os braços dela enlaçaram-lhe o pescoço. De repente, o telefone tocou.
- Não atenda! - pediu Judith.
- É da IBC! - Ele tirou-lhe os braços do pescoço e foi atender. - Está? Sim. Não brinques Dip. Dan já o viu? Não, nunca ouvi falar de Preston Slavitt. Ah, sim,
é aquele argumentista que parece que nunca tomou um banho. É bom hem? Muito bem, até quando dispões da cabina de projecção? OK, estou aí dentro de vinte minutos.
- E desligou.
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- Não me diga que tem de sair. - Ela não podia acreditar.
- Dip Nelson descobriu um guia que talvez seja sensacional. - Pegou no copo e acabou com a bebida. - Ele diz que pode mostrar-me ainda esta noite. As outras cadeias
só o vão ver amanhã.
Ela parecia surpreendida.
- Quem é Dip Nelson?
- É uma longa história. Dip é um ex-artista de cinema que se tornou produtor de televisão. Comprámos uma série dele e de Dan Miller. - Estendeu a mão e ajudou-a
a levantar-se do sofá. - Oiça, Judith é melhor descer primeiro. Eu desço daqui a minutos.
- Quando o vejo?
- Telefono-lhe amanhã, por volta das onze. - Beijou-a ao de leve e levou-a até à porta, mas Judith sentia que a cabeça dele já estava na sala de projecção.
Desceu, apanhou um táxi e chegou a casa a tempo de encontrar Gregory a preparar um martini. Ele olhou para ela com sincero prazer.
- Ainda bem que voltaste cedo! Encontrei o teu bilhete e receava ter de jantar sozinho. Caramba, como estás bonita!
Judith pegou no martini e começou a beber, distraída. De repente, lembrou-se de que Robin Stone nem sequer fizera qualquer elogio ao seu novo aspecto.
À uma hora ele ainda não tinha telefonado, e ela ficou furiosa. Provavelmente tinha ido almoçar com alguém, de forma que só telefonaria por volta das três. Mas
ele prometera telefonar às onze! Bem, ele podia não ter tido possibilidade de tlefonar. Pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto. Estava toda maquilhada,
mas ainda de negligée. Esperara que ele a convidasse para almoçar para um longo e sossegado almoço durante o qual pudessem conversar e recordar o passado. Agora,

se tomassem juntos um cock-tail. Ela podia ficar com ele até às nove. Deixaria recado para Gregory de que tinha
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sido chamada para uma reunião das patronesses do Baile dos Órfãos.
Estendeu-se em cima da cama e começou a fazer paciências, dizendo a si própria que, se saíssem cinco cartas, ele telefonaria às quatro, só para conversar. Se saíssem
dez, ele telefonaria às três, também só para conversar. Se saíssem quinze, ele convidá-la-ia para tomar uma bebida. Vinte, convidá-la-ia para jantar. Todas, ele
diria que estava louco por ela e tudo seria como ela tinha sonhado.
Saíram oito cartas. Ela tentou de novo. Quinze, desta vez; não, assim, não valia. Desta vez ela levaria os resultados a sério. Não saiu nenhuma carta. Deus, quereria
aquilo dizer que ele não telefonaria?
Depois das cinco, ela estava desesperada. Telefonou para ele, mas ninguém atendeu. Isso significava que ele já tinha saido. Quando Gregory chegou a casa, às seis,
ela ainda estava de negligée.
- Vamos a algum lugar? - perguntou ele, notando a maquilhagem perfeita.
- Oxalá fôssemos - respondeu ela. Ele sorriu.
- Estivemos ausentes durante muito tempo. As pessoas ainda não sabem que voltámos.
- Tens razão. Acho melhor eu começar a telefonar. Ele suspirou.
- Gosto deste sossego. Podemos jantar calmamente e assistir a um bom programa de TV.
- Que pensas que eu ando a fazer há um ano e meio? perguntou ela.
Ele fez um ar contrito.
- Está bem, então põe um vestido e vamos ao Colony.
- Sozinhos?
- Juntos - respondeu ele.
- Que irão pensar? - disse ela.
- Que estamos a jantar no Colony.
- E também que não temos um único amigo.
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- Talvez não tenhamos, Judith. A maioria das pessoas não tem mesmo.
- Isso é tolice, fomos sempre convidados para todos os lugares.
- Convites - disse ele. - Convites para estreias, para festas depois do teatro. Acho que estivemos muito tempo fora da circulação.
- Então, voltemos - insistiu ela. Ele encolheu os ombros.
- Muito bem, trata tu disso. Foi sempre a tua especialidade.
Ela pensou naquilo, de noite. Que fazer para voltar à circulação? Não tinha amigas íntimas, apenas mulheres que conhecia o suficientemente bem para almoçarem juntas,
falar de roupas e de festas de caridade e de ouvir os problemas delas. Judith nunca tomara ninguém em confidências e nunca estivera fora de circulação. Convites
para jantares, estreias, vernissages, bailes de caridade nunca lhe tinham faltado. De repente, percebeu que toda a sua vida social se tinha centralizado à volta
do cargo de Gregory. Quando uma peça se estreava na Broadway, havia sempre lugares reservados pelo produtor, porque o produtor ou o director esperavam trabalhar
para Gregory ou pôr um dos seus astros num programa da IBC. Quando algum artista de Hollywood vinha a Nova Iorque, telefonava para Gregory e convidava-os a sair.
O telefone não tinha tocado desde que ele voltara. Mas era culpa dela. Não tinha feito nada senão pensar em Robin. Pois bem, entraria em acção no dia seguinte.
Talvez oferecesse um jantar. Telefonaria a Dolores e a John Tyron. Eles sabiam sempre tudo.
Dolores ficou encantada por saber que ela voltara.
- Judith, minha querida, que maravilha estares de volta! Vais à festa de homenagem de Joan Sutherland, na semana que vem?
- Bem, para dizer a verdade, Dolores, não tenho nenhum compromisso. És a primeira pessoa a quem telefono. Mal tive tempo de desfazer as malas.
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- Deves estar exausta, com todas essas festas na Europa. Estou ansiosa por saber detalhes. Viram a Grace Kelly quando estiveram no sul da França? Ouvi dizer que
ela deu um baile de sonho.
- Estávamos em Capri nessa altura.
- Ah, então foram ao baile dos Korda? Que tal, hem?
- vou contar-te tudo o que fizemos quando nos encontrarmos. Mas estou mais interessada em saber de vocês e de todos os amigos que há tanto tempo não vejo.
- Bem, vocês devem ter-se divertido à grande, para ficarem tanto tempo na Europa! E não achas que Gregory teve sorte em deixar aquele homem maravilhoso no lugar
dele? Diz-me, Judith é verdade tudo o que dizem sobre ele?
- Que dizem?
- O diabo, querida! Mulheres, bacanais... dizem que ele é fresco. Está sempre com aquele boneco que foi artista de cinema, o marido de Pauli Nelson.
- Quem é Pauli Nelson?
- Livra, querida, estiveste mesmo ausente. Foi a maior sensação da Broadway na última temporada. Mas Robin Stone parece tão interessante. Adoraria conhecê-lo.
- Bem, estou a pensar em dar um jantar e posso convidá-lo. Que tal uma noite desta semana?
- Querida, estamos amarrados até ao fim da outra semana. Mas convida Robin Stone e dá o teu jantar, digamos, daqui a quinze dias. Telefona-me para dizeres a data,
para eu poder anotar na minha agenda. Oh, minha querida, o outro telefone está a tocar e Freddy acaba de chegar para me pentear e... meu Deus, como é tarde! E
eu tenho de estar no La Grenouille dentro de uma hora.
Judith fez vários telefonemas. Todos se mostraram encantados por os saberem de volta, mas todas as suas amigas disseram que já tinha o tempo todo tomado e falaram
sem parar da nova temporada, presumindo que ela e Gregory tinham sido convidados para todos os acontecimentos. Um jantar no Colony não ia dar resultado. A solução
era umaa
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grande festa em casa.
Resolveu marcá-la para o primeiro de Outubro. Telefonou a Dolores. Já estava de abalada, mas claro que ia ver na agenda.
- Querida, a um de Outubro é impossível! É o dia da inauguração do New Regai Club. Receberam o convite, não. Vê na correspondência. É um clube muito restrito mas
tenho a certeza de que lhes mandaram a proposta de sócio para assinar. Que tal passares a tua festa para o, vejamos, dia oito de Outubro? Nesse dia não temos
nada; vou anotar a lápis e depois telefonas-me para confirmar. Agora, tenho de correr, minha filha, mas antes disso ainda nos vemos.
Judith telefonou para Betsy Ecklund. Oito de Outubro! Judith não ia a.vernissage, seguida de jantar a rigor, na Galeria Berner? A duquesa de Windsor estava a ser
esperada especialmente para essa ocasião. Judith que procurasse na correspondência, o convite tinha de ter chegado.
Desligou e olhou para a correspondência, em cima da bandeja do pequeno almoço. Algumas contas, um anúncio do Saks e uma carta da irmã. Era inacreditável! Estava
fora de tudo. Tinha de perguntar a Dolores e a Betsy se elas estavam disponíveis! Antigamente, ela escolhia simplesmente uma data e entregava a lista à secretária.
Quando os seus convites eram expedidos, toda a gente comparecia. Agora, ela tinha de fazer com que as datas se encaixassem na vida social delas. Um ano e meio
de ausência podia mudar tão radicalmente as coisas?
Era meio-dia e meia hora. Ela não tinha nada que fazer. com renovada determinação marcou o número de Robin. Ao terceiro toque, ele atendeu. Ouviu vozes, o escritório
dele parecia cheio de gente.
- Oh, sim - disse ele num tom de voz impessoal. Desculpe não ter telefonado antes, o trabalho foi demais. Posso telefonar-lhe mais tarde, hoje à noite ou amanhã
de manhã?
Ela desligou. E agora? Estava toda maquilhada. Tinha de o ver. Quando ele a visse a coisa mudaria. Tinha notado um olhar de admiração ao entrar no apartamento
dele. Mas o maldito telefone tocara!
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Fingiria encontrá-lo por acaso! Sim, era isso mesmo. E nesse mesmo dia. Provavelmente ele sairia para almoçar à uma hora e voltaria lá pelas duas. Ela tinha de
passar como se por acaso pelo edifício da IBC a essa hora e dar de encontro com ele.
Vestiu-se cuidadosamente: sem chapéu, casaco bege com gola de marta. Chegou à IBC às dez para as duas. Dirigiu-se a uma cabina telefónica e ligou para o escritório
dele. Quando a secretária perguntou quem falava, Judith respondeu:
- Judith Weston, da agência Nielsen.
- Posso dizer-lhe para telefonar? Ele deve estar a chegar.
- Não, eu ligo depois - Judith desligou. Óptimo, ele ainda estava a telefonar. Havia uma livraria ao lado da IBC. Postou-se à porta e fingia examinar as novas
edições. Ficaria ali até que Robin voltasse e, mal o visse, fingiria que passava por ali casualmente e ficar surpreendida por encontrá-lo. Quanto tempo se podia
ficar a ver os livros? E fazia vento. Graças a Deus que ela pusera laca no cabelo. Ficou a pensar se o porteiro não a teria reconhecido. Estava a ficar frio.
Sentia os olhos lacrimosos por causa do vento. Um pouco da pintura começou a escorrer. Havia um espelho na porta de entrada e Judith viu pontinhos negros a salpicarem
o branco dos olhos. Metade das pestanas inferiores tinham desaparecido. Essa era a desvantagem de ter sido loura natural: o cabelo escurecia com a idade, mas os
cílios continuavam brancos. Puxou o lenço. A pintura formara pequeninas linhas debaixo dos olhos. Tentou tirá-la.
- Um cisco entrou-lhe na vista? Judith voltou-se e viu Robin.
À luz do dia, vendo o seu rosto bronzeado diante do dela, Judith sentiu de repente que toda a operação fora uma farsa. Mas virou-se e conseguiu sorrir.
- Não é um cisco, foi um pouco de pintura que me entrou nos olhos. Deve ter sido o vento. Tenho um convite para almoçar e, como o dia está tão bonito, achei melhor
andar um pouco e mandei embora o meu carro. De repente, porém, parece que estamos no Inverno.
- Quer que lhe chame um táxi?
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- Sim, por favor, disse ela, procurando não mostrar o constrangimento.
Ele acompanhou-a até à beira da calçada e fez sinal a um táxi.
- Judith, eu quis telefonar-lhe, mas estive tão ocupado.
- Compreendo, mas...
O táxi chegou imediatamente e ela entrou furiosa. Geralmente, era difícilimo encontrar um táxi àquela hora, mas aquele imbecil parecia estar treinado para as corridas
de Indianápolis. Robin abriu-lhe a porta.
- Telefono-lhe, Judith.
Ela esperou até entrar no seu quarto para se atirar para a cama e soluçar, fazendo com que os seus cílios postiços saíssem todos.
Às cinco horas tomou uma das pílulas para dormir de Gregory e mandou dizer que estava com dores de cabeça. Antes de cair num sono profundo, a última coisa que
lhe passou pe