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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Deixados para trás 11

O Anticristo dá as cartas para jogo mais traiçoeiro
do mundo...

Quando a batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso tem início,

o planeta encontra-se completamente devastado: os tetos das casas
voaram pelos ares, novas alianças foram engendradas e o mundo
transformou-se em um barril de pólvora.
O vale de Jezreel está totalmente tomado por tropas, armas e
veículos até onde a vista consegue alcançar.
Quem permanecerá em pé no momento em que a batalha conduzir o
Comando Tribulação ao limiar do final dos tempos e do Glorioso
Aparecimento?
..enquanto milhões de pessoas se aglomeram
para a grande batalha.


CONTRACAPA

Os seis primeiros anos da Tribulação ficaram para trás, tem início
o Armagedom, no entanto será necessário suportar ainda um ano até o
Glorioso Aparecimento. Quem permanecerá firme em sua fé mesmo
diante de uma captura, interrogatório ou tortura?

O Comando Tribulação, espalhado por todos os cantos da Terra, e
os exércitos do mundo inteiro são atraídos inexoravelmente para O
Oriente Médio no momento em que a História leva-os a reunir-se em
preparação para a batalha dos séculos. Durante o último ano da Grande
Tribulação, as casas secretas deixam de ser secretas e os personagens
da trama mudam dramaticamente.

O anticristo dá as cartas para o jogo mais traiçoeiro do mundo, e
todos são obrigados a mudar-se para outro local, exceto os que estão em
Petra. Inicia-se um novo romance, um romance recente é oficializado e
um romance antigo entra em crise enquanto milhões de pessoas se
aglomeram para a grande guerra.

Mesmo depois de tantos preparativos, artimanhas e recursos, de
que forma os membros do Comando Tribulação sobreviverão para ver o
Glorioso Aparecimento? A força que eles enfrentam é tremenda. O
Armagedom será semelhante às muitas batalhas da antigüidade, quando

o inimigo parecia tão grande e a derrota tão iminente.

A BATALHA CÓSMICA DAS ERAS

ARMAGEDOM

O PERÍODO DA TRIBULAÇÃO COMPLETA SEIS ANOS;

DOIS ANOS E MEIO DENTRO DA GRANDE TRIBULAÇÃO

Os Crentes

Rayford Steele - Idade: perto de 50 anos; ex-capitão-aviador do 747 das Linhas
Aéreas Pan-Continental; perdeu esposa e filho no Arrebatamento; ex-piloto do
potentado da Comunidade Global Nicolae Carpathia; membro fundador do
Comando Tribulação; fugitivo internacional exilado em Petra.

Cameron ("Buck") Williams - Idade: cerca de 35 anos; ex-articulista sênior do
Semanário Global; ex-editor do Semanário Comunidade Global, de propriedade
de Carpathia; membro fundador do Comando Tribulação; editor da revista virtual
A Verdade; fugitivo exilado em San Diego.

Chloe Steele Williams - Idade: cerca de 25 anos; ex-aluna da Universidade
Stanford; perdeu a mãe e o irmão no Arrebatamento; filha de Rayford; esposa de
Buck; mãe de Kenny Bruce, um menino de três anos e meio; presidente da
Cooperativa Internacional de Mercadorias, uma associação secreta composta de
crentes; membro fundadora do Comando Tribulação; fugitiva exilada em San
Diego.

George Sebastian - Idade: perto dos 30 anos; ex-piloto de helicóptero da divisão
de combate da Força Aérea norte-americana com base em San Diego;
escondido em San Diego com alguns membros do Comando Tribulação e da
Cooperativa Internacional de Mercadorias.

Ming Toy - Idade: cerca de 25 anos; viúva; ex-guarda do Presídio de
Reabilitação Feminina da Bélgica (PRFB); desertora da Comunidade Global;


escondida em San Diego.

Ree Woo -Idade: cerca de 25 anos; piloto da Cooperativa Internacional de
Mercadorias; escondido em San Diego.

Tsion Ben-Judá - Idade: pouco mais de 50 anos; ex-estudioso das doutrinas dos
rabinos e estadista israelense; revelou sua crença em Jesus como o Messias em
um programa de TV levado ao ar internacionalmente, o que provocou o assassinato
de sua esposa e de seus dois filhos adolescentes; fugiu para os Estados
Unidos; ex-professor e líder espiritual do Comando Tribulação; atualmente
doutrina os judeus remanescentes em Petra; suas pregações diárias, via internet,
alcançam mais de um bilhão de pessoas.

Dr. Chaim Rosenzweig - Idade: pouco mais de 70 anos; botânico e estadista
israelense ganhador do Prêmio Nobel; recebeu o título de Criador da Notícia do
Ano pelo Semanário Global; assassino de Carpathia; atualmente é líder dos
judeus remanescentes em Petra.

Abdullah Smith - Idade: cerca de 35 anos; ex-piloto de aviões de caça na
Jordânia; ex-co-piloto do Fênix 216; dado como morto em acidente aéreo;
atualmente está em missão em Petra.

Al B. (conhecido como "Albie") - Idade: pouco mais de 50 anos; nascido em Al
Basrah, no norte do Kuwait; piloto; trabalhou no mercado negro internacional;
atualmente é membro do Comando Tribulação; escondido em Al Basrah.

Mac McCullum - Idade: pouco mais de 60 anos; ex-piloto de Carpathia; dado
como morto em acidente aéreo; escondido em Al Basrah.

Hannah Palemoon - Idade: pouco mais de 30 anos; ex-enfermeira da
Comunidade Global; dada como morta em acidente aéreo; escondida em Long


Grove, Illinois.

Leah Rose - Idade: pouco mais de 40 anos; ex-enfermeira-chefe do Arthur
Young Memorial Hospital de Palatine, Illinois; escondida em Long Grove, Illinois.

Lionel Whalum - Idade: perto de 50 anos; ex-empresário; piloto da Cooperativa
Internacional de Mercadorias; escondido em Long Grove, Illinois.

Chang Wong - Idade: 20 anos; irmão de Ming Toy; espião do Comando
Tribulação dentro da sede da Comunidade Global, em Nova Babilônia.

Gustaf Zuckermandel (conhecido como "Zeke" ou "Z")

- Idade: cerca de 25 anos; falsificador de documentos e especialista em
disfarces; seu pai foi morto na guilhotina; escondido em Avery, Wisconsin.
Os Inimigos

Nicolae Jetty Carpathia - Idade: perto de 40 anos; ex-presidente da Romênia;
ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas; autodesignado
potentado da Comunidade Global; assassinado em Jerusalém; ressuscitou no
palácio da CG, em Nova Babilônia.

Leon Fortunato - Idade: cerca de 55 anos; ex-supremo comandante da
Comunidade Global e braço direito de Carpathia; recebeu o título de
Reverendíssimo Pai do Carpathianismo e proclamou o potentado como o deus
ressurreto; mora no palácio da CG, em Nova Babilônia.

Viv Ivins - Idade: perto de 70 anos; amiga de longa data de Carpathia; trabalha
para a CG; vive no palácio da CG, em Nova Babilônia.

Suhail Akbar - Idade: cerca de 45 anos; chefe do Serviço de Segurança e
Inteligência, a serviço de Carpathia; reside no palácio da CG, em Nova Babilônia.


PRÓLOGO


Extraído de Profanação

-Pela primeira vez depois de tanto tempo - disse Carpathia -,
estamos jogando de igual para igual. Os rios e lagos estão retornando ao
normal, e precisamos reconstruir toda a infra-estrutura. Vamos nos
esforçar para convocar os nossos cidadãos leais a cerrarem fileiras
conosco. O diretor Akbar e eu reservamos algumas surpresas especiais
para os dissidentes de vários níveis. Estamos de volta ao trabalho,
pessoal. É chegada a hora de recuperar nossas perdas e partir para o
ataque.
O clima festivo durou três dias. A seguir, as luzes se apagaram.
Literalmente. Tudo deixou de brilhar - o sol, a lua, as estrelas, as
lâmpadas das ruas, as luzes elétricas, os faróis dos carros. Tudo o que
antes emitia luz estava apagado - teclas luminosas de telefones,
lanternas, materiais iridescentes ou fosforescentes. Luzes de emergência,
placas indicando saída, perigo de incêndio, alarmes - tudo. Escuridão
total.

A expressão popular de não enxergar um palmo adiante do nariz
tornou-se verdadeira. Fosse qual fosse a hora do dia, ninguém enxergava
nada. Nem relógios, nem fogo, nem fósforo, nem grelhas de gás, nem
grelhas elétricas. A impressão era de que a luz desaparecera
completamente; qualquer vestígio parecia ter sido engolido pelo universo.

As pessoas gritavam de terror. Tratava-se do maior pesadelo da
humanidade, e elas já haviam enfrentado muitos outros. Estavam
completamente cegas - totalmente incapazes de enxergar alguma coisa,
a não ser a escuridão total, todo o tempo.


Os moradores do palácio tateavam no escuro, querendo sair.
Apertavam todos os interruptores dos quais se lembravam. Gritavam
entre si para saber se o problema era localizado ou se era geral. Encontre
uma vela! Esfregue um pedaço de madeira no outro! Friccione o carpete
para gerar eletricidade estática! Faça alguma coisa! Qualquer coisa que
proporcione algum vestígio de sombra, por menor que seja.

Tudo em vão.

Chang sentia vontade de rir. Ele queria extravasar o que pensava.
Queria dizer a todos que, mais uma vez, Deus enviara um flagelo, um
julgamento sobre a terra, que atingiu apenas aqueles que possuíam a
marca da besta. Chang conseguia enxergar, mas de maneira diferente.
Ele também não via as luzes. Simplesmente via tudo em tonalidade sépia,
como se o fluxo de carga da corrente elétrica tivesse sido reduzido.

Ele enxergava tudo o que necessitava, inclusive seu computador,
a tela, o relógio e o apartamento. Seus alimentos, sua pia, seu fogão -
tudo. E melhor ainda. Ele podia andar nas pontas dos pés pelo palácio
usando sapatos de sola de borracha, desviando-se dos colegas que
tateavam para encontrar o caminho.

Depois de algumas horas, entretanto, uma coisa mais estranha
ainda aconteceu. As pessoas não estavam morrendo de fome nem de
sede. Elas eram capazes de encontrar comida e água. Mas não podiam
trabalhar. Não havia nada a discutir, nada a ser tratado, a não ser para
falar da praga da escuridão. E, por algum motivo desconhecido, elas
também começaram a sentir dor.

Elas se coçavam, chegando a arranhar-se. O local ficava dolorido
e era esfregado com força, o que provocava gritos e mais coceira ainda.
Para muitas pessoas, o sofrimento chegava a ser tão intenso que elas se
curvavam e apalpavam o chão para saber se não havia nenhum buraco,


nenhum vão de escada em que pudessem cair e ficar amontoadas ali,
Contorcendo-se, gemendo, coçando-se, procurando alívio.

Quanto mais o tempo passava, mais a situação piorava, e agora
as pessoas blasfemavam, amaldiçoavam Deus e mordiam a língua.
Arrastavam-se pelos corredores à procura de armas, implorando aos
amigos, e até mesmo a estranhos, que as matassem. Muitas se
suicidaram. O palácio inteiro transformou-se em um hospício de gritos,
lamentos e gemidos guturais, como se o povo estivesse convencido de
que aquilo era o que todos imaginavam - o fim do mundo.

Mas não era. Quem não tinha força ou coragem para se matar
simplesmente sofria. E o sofrimento aumentava com o passar das horas.
Piorava a cada dia. Não dava trégua. E, no meio de tudo isso, Chang teve
a idéia mais brilhante de sua vida.

Aquele era o momento perfeito para uma fuga. Ele entraria em
contato com Rayford ou Mac, qualquer um que estivesse disposto e
disponível para buscá-lo. Todos os membros do Comando Tribulação, ou
melhor, todos os crentes que possuíam o selo de Deus na testa, tinham
as mesmas vantagens que ele.

Alguém poderia vir buscá-lo com um jato e pousar bem ali, em
Nova Babilônia. O pessoal da CG teria de correr para esconder-se,
imaginando quem teria condições de fazer tal coisa na mais completa
escuridão. Se Chang e o piloto não conversassem entre si, nenhum deles
seria identificado. O Comando Tribulação poderia apossar-se de
aeronaves e armas, de tudo o que desejasse.

Se alguém se aproximasse para inquiri-los, os membros do
Comando Tribulação teriam a enorme vantagem de poder enxergar. Eles
estariam em posição de superioridade perante todos os demais. E agora
que faltava apenas um ano para o Glorioso Aparecimento, Chang


pensava, as pessoas de bem finalmente estavam em melhores condições
que antes, uma vez que as horas do dia pertenciam somente a elas.

Enquanto durasse esse flagelo, enquanto Deus julgasse
necessário manter o mundo debaixo de sombras e as luzes apagadas,
tudo estaria favorecendo os crentes.

Deus, orou Chang, só preciso de mais dois dias de escuridão para
sair daqui.

UM

Pela primeira vez desde a decolagem, Rayford Steele teve
dúvidas sobre a passageira que viajava com ele e Abdullah Smith.

- Não devíamos ter trazido essa moça, Smitty - ele disse, olhando
de esguelha para Abdullah, que estava no comando da aeronave.
O jordaniano sacudiu a cabeça.

- Sinto muito, capitão, mas o problema é seu. Eu tentei lhe dizer
que ela era muito importante em Petra.
A escuridão envolvendo apenas Nova Babilônia, mas visível a
uma distância de mais de 160 quilômetros, era diferente de tudo o que
Rayford já vira. No momento em que Abdullah iniciou as manobras de
pouso do Gulfstream IX em direção ao Iraque, o relógio marcava 12
horas, horário do palácio.

Normalmente, as magníficas estruturas da capital do novo mundo
reluziam de maneira deslumbrante ao sol do meio-dia. Agora, apenas
uma impressionante e solitária coluna negra erguia-se nas imensas
fronteiras de Nova Babilônia e subia em direção ao céu sem nuvens, até
a uma altura que os olhos conseguiam enxergar.


Chang Wong era o espião de Rayford dentro do palácio.
Confiando nas informações do jovem de que eles seriam capazes de
enxergar o que outros não conseguiriam, Rayford trocou um olhar com
Abdullah, o co-piloto que conduzia a aeronave na escuridão, baseando-se
apenas na brancura refletida pela areia do deserto. Abdullah acendeu as
luzes de pouso.

Rayford olhou para ele de esguelha.

- Vamos precisar de ILS?
- Sistema de pouso por instrumentos? - disse Abdullah.
- Acho que não, capitão. Estou enxergando o suficiente.
Rayford comparou a terrível escuridão com o dia lindo que eles
passaram em Petra. Olhou para a jovem por cima do ombro, imaginando
ver medo em seu semblante. Ela estava tranqüila.

- Ainda temos possibilidade de voltar - Rayford disse a ela. - Seu
pai parecia relutante quando você subiu a bordo.
- Talvez por não querer causar problemas para o senhor - disse
Naomi Tiberias. - Ele sabe que vou ficar bem.
O humor e a autoconfiança daquela adolescente perita em
informática eram excelentes. Ela pareceu tímida e retraída na presença
dos dois adultos até o momento de conhecê-los melhor; depois, passou a
conversar de igual para igual. Rayford sabia que ela ensinara Abdullah a
ser um profundo conhecedor dos assuntos de informática e que manteve
contato constante com Chang desde que a escuridão tomou conta de
Nova Babilônia.

- Por que está escuro somente aqui? - Naomi perguntou.
-É muito estranho.
- Não sei - respondeu Rayford. - A profecia diz que ela afetaria o
trono da besta e que seu reino se transformaria em trevas. É só isso que

eu sei.

A cada visita a Petra, Rayford presenciara a crescente influência e
responsabilidade de Naomi perante os remanescentes. Por ter se
sobressaído como um prodígio em tecnologia, Naomi tornou-se chefe de
fato e de direito do imenso centro de informática de Petra. Passando
rapidamente de subordinada a chefe, ela se tornou professora dos outros
professores.

O centro de tecnologia que havia sido projetado pelo falecido
David Hassid, o antecessor de Chang, era agora o ponto nevrálgico que
mantinha Petra em contato com mais de um bilhão de almas todos os
dias. Milhares de computadores permitiam que muitos mentores
acompanhassem o público virtual de Tsion Ben-Judá. Naomi coordenava
pessoalmente o contato entre Chang, em Nova Babilônia, e o Comando
Tribulação ao redor do mundo.

A idéia de incluí-la no vôo que resgataria Chang em Nova
Babilônia partira dele próprio. A princípio, Rayford não concordou. Já
havia assumido responsabilidade suficiente quando viajou mais de 12 mil
quilômetros de San Diego a Petra, onde pegou Abdullah para ser seu copiloto
durante os últimos 800 quilômetros até Nova Babilônia.

George Sebastian, o piloto especialista em aeronaves de
combate, teria sido melhor escolha, mas Rayford sabia que o grandalhão
passara por maus bocados recentemente. Havia muito trabalho para ele
em San Diego, e Rayford queria poupar George para o evento ao qual o
Dr. Ben-Judá dava o nome de "a batalha do grande dia do Deus Todo-
Poderoso", que ocorreria antes de um ano.

Mac McCullum e Albie estavam em Al Basrah, cidade localizada
cerca de 300 quilômetros ao sul de Nova Babilônia, aguardando ordens.
Mas Rayford tinha outros planos para eles.


O genro e a filha de Rayford - Buck e Chloe Williams -
prontificaram-se a tirar Chang da toca do inimigo, o que não era surpresa
alguma, porém Rayford estava convencido de que, em breve, Buck seria
mais útil em Israel.

Quanto a Chloe, a Cooperativa Internacional de Mercadorias havia
sentido sua falta quando ela esteve ausente por uns tempos. E alguém
teria de cuidar do pequeno Kenny.

- Pegue todos os equipamentos de que você necessita enquanto
estivermos a caminho, Chang - Rayford dissera, com o telefone
encaixado entre o ombro e ouvido enquanto arrumava a mala.
- Smitty e eu chegaremos aí dentro de dois dias.
Chang explicara que a missão era complicada demais e que ele e
Naomi, trabalhando juntos, poderiam tirá-lo de Nova Babilônia muito mais
rápido.

- Eu não quero deixar nada para trás - ele dissera. - Ela pode
ajudar. Quero ter condições de monitorar este palácio de qualquer lugar
do mundo.
- Não se preocupe - disse Rayford. - Logo você estará frente a
frente com ela.
- Não sei do que o senhor está falando.
- O pai dela é um dos anciãos de Petra, você sabe.
-E daí?
- Só restaram os dois na família. Ele a protege muito.
-Ela e eu temos muito trabalho a fazer.
-Entendo.
- Não estou brincando, capitão Steele. Por favor, ela precisa vir
com o senhor. Eu já vi o rosto dela na tela.
-E então, o que você achou dela?

- Eu já lhe disse. Temos muito trabalho a fazer.


Rayford sentiu um cutucão no espaldar de sua poltrona quando
Naomi esticou o corpo para a frente.

- O Sr. Smith tem condições de pousar? - ela perguntou. - Ele está
enxergando bem?
- Não sei - respondeu Rayford. - Parece que alguém pintou as
janelas da aeronave de marrom. Procure entrar em contato com nosso
garoto.
A missão de Chang era confirmar se as pistas de Nova Babilônia
estavam em condições, mas ele não podia dizer isso por telefone, com
medo de que alguém escutasse. Naomi tirou um computador pequeno de
dentro de uma caixa de alumínio, e seus dedos começaram a correr pelo
teclado.

- Evitem pista três esquerda e três direita - ela disse. - E Chang
quer saber que pista será escolhida para poder estar lá quando
pousarmos.
Rayford olhou de relance para Abdullah e dirigiu-se à jovem.

- Ele está falando sério, Naomi?
Ela assentiu com a cabeça.
- Diga a ele que a torre está fechada e que não vamos comunicar
nossa chegada. Daqui, não podemos distinguir as pistas, portanto ele vai
ter de nos dar as coordenadas e...
- Um momento - disse Naomi, digitando mais algumas palavras. -
Ele incluiu em um anexo tudo o que o senhor necessita.
Naomi virou a tela em direção a Rayford e apontou para o anexo.


- O sistema de voz está ativado. Diga a ele o que o senhor quiser.
- O aparelho vai reconhecer minha voz? - perguntou Rayford,
examinando a tela.
- Sim - respondeu o computador.
Naomi riu.
-Anexo, por favor - disse Rayford.
Uma imagem detalhada apareceu na tela exibindo a vista aérea
do aeroporto de Nova Babilônia.

- Vou acertar as coordenadas para você, Smitty - disse Rayford,
procurando programar o sistema de controle de vôo.
- Esta coisa faz tudo. Só não é capaz de preparar comida para o
senhor, capitão Steele - disse Naomi. - O senhor tem uma saída de raio
infravermelho?
-Acho que sim. Temos, Smitty?
Abdullah apontou para um botão no painel de controle.
-Aqui - disse Naomi. - Deixe por minha conta.
Ela debruçou o corpo por cima do ombro de Rayford e apontou a
parte traseira do computador na direção da saída.

- Pronto para aterrissar, capitão?
-Positivo.
- Iniciar manobras de pouso - ela disse, apertando um botão.
- Em qual pista? - perguntou o computador.
Naomi olhou para Rayford, que, por sua vez, olhou para Abdullah.
- Será que essa coisa reconhece tudo, até meu sotaque? perguntou
o jordaniano.

-Sim - disse o computador. - Pista três esquerda e pista três
direita congestionadas. Escolha pistas 11 ou 16.
-Onze - disse Abdullah.

- Esquerda ou direita? - perguntou o computador.
- Esquerda - respondeu Abdullah. - Por que não?
Abdullah acionou o piloto automático para a esquerda e tirou as
mãos dos controles.

-Obrigado - ele disse.
- De nada - respondeu o computador.
Seis minutos depois, o Gulfstream pousou na pista.


Pouco depois de uma hora da madrugada em San Diego, Buck
deu um salto na cama. Chloe se mexeu.

- Volte a dormir, querido - ela disse. - Você ficou vigiando três
noites seguidas. Hoje não.
Ele levantou a mão.

-Você precisa dormir, Buck.
- Acho que ouvi alguma coisa.
O pequeno walkie-talkie na mesinha de cabeceira vibrou.
Sebastian acionou seu código. Buck agarrou o aparelho.

-Sim, George.
- Sinais no detector de movimento - Sebastian sussurrou.
Chloe sentou-se na cama.
-Vou verificar pelo periscópio - disse Buck.
- Tome cuidado - alertou Sebastian. - Não levante nem gire o
aparelho.
- Entendido. Alguém mais sabe disto?
-Negativo.
-Mãos à obra.

Chloe já havia se levantado e vestido um agasalho. Ela abriu um
armário, retirou duas Uzis e jogou uma para Buck, que se dirigiu para o
periscópio ao lado do minúsculo quarto de Kenny. Ele colocou a arma no
chão, guardou o walkie-talkie no bolso do pijama e curvou-se para
enxergar no visor.

Enquanto seus olhos se acostumavam à escuridão, ele notou que
Chloe abriu e fechou a porta do quarto de Kenny. O garoto estava prestes
a completar quatro anos; dormia bem, mas o sono era menos profundo
que antes.

- Ele está dormindo? - perguntou Buck, sem desgrudar os olhos
do periscópio.
- Como um anjo - respondeu Chloe, colocando uma malha de lã
ao redor dos ombros de Buck. - É o que você devia estar fazendo.
- Quem me dera - disse Buck.
- Também acho. - Ela pousou as mãos abertas nos ombros do
marido. - O que você está vendo?
- Nada. George acha que não devo girar o aparelho. Ele está
apontando para o oeste, no nível do chão. Eu adoraria levantá-lo uns 15
centímetros, o que me daria um ângulo de visão de 36°.
- Ele está certo, meu bem - ela disse. - Você sabe que esse
aparelho faz barulho quando é movimentado. Alguém lá fora poderá ouvir.
- Não acho que haja alguém lá fora - disse Buck, afastando-se do
aparelho para coçar os olhos.
Ela deu um longo suspiro.

- Quer uma cadeira?
Buck assentiu com a cabeça e voltou a olhar pelo periscópio.
- Pode ter sido um animal. Talvez o vento.
Chloe colocou uma cadeira atrás de Buck e o fez sentar-se.

- É por isso que você devia ter permitido que eu...
- Oh!, não - ele disse.
-O que foi?
Buck colocou o dedo indicador diante dos lábios e pegou o walkietalkie.


- George - ele sussurrou. - Seis, sete, oito, nove. Nove homens da
CG, fardados e armados, na direção oeste.
- Fazendo o quê?
- Nada de importante. Chutando as aberturas de ventilação.
Parecem entediados. Talvez tenham visto alguma coisa no caminho.
-Veículos?
-Eu teria de levantar e girar o periscópio.
-Negativo. Há mais alguns?
- Deste ângulo, não sei dizer. Não passou mais ninguém. Agora só
estou vendo três.
- Você está ouvindo ronco de motores?
Buck ficou em silêncio por alguns instantes. Em seguida,
respondeu:

- Sim, ouvi um. Depois outro.
-Também estou ouvindo - disse George. - Devem estar indo
embora. Posso ir até aí?
- Diga a ele que não - sussurrou Chloe.


Ao olhar para a lúgubre paisagem em tonalidade sépia através da
janela da cabina de comando, Rayford imaginou que o pessoal do palácio
deveria estar sofrendo muito. Chang lhe contara que o povo se contorcia


e gemia, mas o zumbido de um jato na pista os assustaria ainda mais.

Eles pensariam que teria havido um acidente aéreo, como
aconteceu antes nas pistas três esquerda e três direita.

Parecia que o povo desistira de tentar enxergar. As pessoas
próximas ao Gulfstream IX tropeçaram na escuridão para afastar-se dele
e agora estavam aglomeradas aqui e ali.

- Aquele deve ser Chang - disse Rayford, apontando para um
asiático correndo na direção deles e gesticulando nervosamente para que
abrissem a porta.
- Deixe por minha conta, Srta. Naomi - disse Abdullah, desatando
o cinto de segurança e pulando por cima dela.
Assim que Abdullah abriu a porta e abaixou a escada, Rayford viu
Chang virar-se para um pequeno grupo de homens e mulheres que
tateavam no escuro, procurando segui-lo.

- Afastem-se! - ele gritou. - Perigo! Motores quentes! Combustível
vazando!
Eles se viraram e correram em todas as direções.

- Como ele conseguiu pousar? - gritou alguém.
-Milagre - disse outro.
- Vocês se lembraram de usar sapatos de sola de borracha? perguntou
Chang, estendendo a mão para ajudá-los a sair do avião.

- Prazer em conhecê-lo, Sr. Wong - disse Abdullah.
Chang pediu silêncio.
- Eles não estão enxergando, mas não são surdos.
- Chang - Rayford começou a dizer, mas o rapaz estava
cumprimentando timidamente Naomi. - Tudo bem. Vocês dois terão
tempo para se conhecerem melhor. Vamos fazer o que for necessário e
sair daqui.

- Devo trocar de roupa? - perguntou Buck quando viu Sebastian
trajando farda de serviço.
- Não. Eu sempre uso esta farda quando estou de vigia. Deixe-me
ver o que está acontecendo. - Ele olhou através do periscópio. - Nada.
Vamos levantar e girar o periscópio, Buck?
-Faça como quiser.
-Tudo em ordem. Alarme falso.
Chloe respirou fundo.
- Não diga isso só para me tranqüilizar. Vocês viram pelo menos
nove homens da CG lá fora, e sabemos que havia mais. E eles vão voltar.
- Ei - disse Sebastian -, por que não pensar no melhor em vez de
pensar no pior?
- Talvez eu esteja fazendo isso - ela disse. - Priscilla e Beth Ann
estão dormindo tranqüilas?
Ele assentiu com a cabeça.

- Não quero alarmar Priss e gostaria que você...
- Que eu não dissesse nada? Faz sentido, George. Deixe sua
mulher em paz, ignorando que é chegada a hora de sairmos daqui - disse
Chloe.
- Sair daqui? - perguntou Buck. - Eu não imaginei essa hipótese.
- O que você acha? Devemos ficar aqui e aguardar até que eles
nos encontrem, se é que ainda não nos encontraram?
- Chloe, preste atenção - disse Buck. - Eu deveria ter permitido
que você visse aqueles sujeitos. Eles não desconfiaram de nada. Deviam
estar conversando sobre este lugar que, antes, foi uma base militar. Não

estavam tensos, não estavam à procura de nada. Apenas notaram as
aberturas de ventilação e foram verificar, só isso.

Chloe sacudiu a cabeça e desabou em uma cadeira.

-Detesto viver desta maneira.
- Eu também - disse Sebastian. - Mas quais são nossas opções?
A CG encontrou ontem em Los Angeles, ou melhor, no que restou
daquela cidade, um grupo de pessoas sem a marca. Mais de 20 foram
executadas.
Chloe estremeceu.

-Crentes?
- Acho que não. Se fosse um grupo de judaístas, eles teriam
noticiado. Tenho a impressão de que pertenciam a um foco de resistência
da milícia ou algo parecido.
- É essa gente que estamos querendo alcançar - disse Chloe. - E
estamos todos sentados aqui, sem poder mostrar o rosto, criando bebês
que quase não vêem a luz do sol. Será que não existe outro esconderijo
em um lugar qualquer, onde a CG nem imagine nos encontrar?
- O melhor lugar é Petra - disse Buck. - A CG sabe quem está lá,
mas não pode fazer nada.
- Esse lugar está ficando cada vez mais atraente. Mas... o que
vamos fazer a respeito do que acabou de acontecer?
Buck e Sebastian entreolharam-se.

- Vamos, rapazes - disse Chloe. - George, você pensa que
Priscilla não notou que você saiu e que não vai perguntar onde esteve?
- Ela sabe que eu estava no posto de vigia.
- Mas você não viria até aqui, a menos que houvesse algo
importante.
- Espero que ela não tenha acordado.

Chloe levantou-se e sentou-se no colo de Buck.

- Vejam, eu não quero ser rabugenta. Buck, diga isso a ele.
- Chloe Steele Williams está dizendo que não quer ser rabugenta -
ele anunciou.

- Que bom - resmungou Sebastian. - Você quase me enganou,
Chloe.
Ela sacudiu a cabeça.

- Por favor, George. Você sabe que eu o considero um elemento
muito importante para o Comando Tribulação. Você é muito talentoso e
nos livrou de tragédias mais de uma vez. Mas todos que moram aqui têm
o direito de saber o que vocês viram esta noite. O fato de não contar nada
a ninguém, fingir que nada aconteceu, não vai mudar a situação. Quase
fomos descobertos.
- Mas não fomos, Chloe - disse Sebastian. - Por que assustar todo
mundo?
- Já estamos assustados! Passo o dia inteiro com essas mulheres
e seus filhos. Estamos vivendo como cães abandonados, mesmo sem ter
a CG bisbilhotando por aqui e transitando acima de nós no meio da noite.
As crianças só respiram ar puro quando acordam antes do nascer do sol
e alguém as leva até a porta de acesso ao estacionamento. Vocês dois
precisam sair furtivamente e dirigir cerca de 50 quilômetros para chegar
aos aviões, sempre na esperança de não estar sendo seguidos. Só estou
dizendo que se não resolvermos nos defender, pelo menos temos o
direito de estar preparados.


Rayford teria de fazer uma pergunta a Tsion. Por que a escuridão


era tão opressiva a ponto de deixar suas vítimas angustiadas? Ele ouvira
falar de tragédias - desastres ferroviários, terremotos, batalhas - que
sempre deixavam as equipes de resgate assustadas por causa dos gritos
e gemidos dos feridos.

Enquanto ele, Abdullah, Chang e Naomi atravessavam na ponta
dos pés as enormes pistas do aeroporto, desviando-se de equipamentos
pesados e de gente se contorcendo, ficou claro que aquelas pessoas
preferiam morrer. E algumas já deviam estar mortas. Dois aviões que se
chocaram no ar estavam despedaçados na pista, ainda em chamas, com
muitos corpos carbonizados presos às poltronas.

Rayford sentia um aperto no peito à medida que passava por entre
cadáveres e pessoas sofrendo. Os gemidos cortavam-lhe o coração e ele
reduziu o ritmo dos passos, querendo ajudar. Mas o que poderia fazer?

- Oh! Alguém! - Era o grito de uma senhora de meia-idade. - Por
favor! Ajude-me!
Rayford parou e olhou. Ela estava deitada de lado no chão, perto
do terminal. Algumas pessoas ordenaram-lhe que se calasse. Um homem
gritou:

- Estamos todos perdidos e cegos, mulher! Você não precisa de
mais ajuda que nós!
- Vou morrer de fome! - ela choramingou. - Alguém tem alguma
coisa para eu comer?
-Estamos todos morrendo de fome! Cale a boca!
-Eu não quero morrer.
-Eu quero!
- Onde está o potentado? Ele vai nos salvar!
- Quando você viu o potentado pela última vez? Ele já tem
preocupações suficientes.

Rayford não conseguia afastar-se dali. Olhou para a frente, mas
ele enxergava apenas uns seis metros adiante e havia perdido seus
companheiros de vista. Abullah foi a seu encontro.

- Eu não me atrevi a chamá-lo pelo nome, capitão, mas você
precisa vir conosco.
- Não posso, companheiro.
- Você é capaz de encontrar o caminho de volta ao avião?
-Sim.
- Então vamos nos encontrar lá.
Abdullah seguiu em frente, mas a conversa sussurrada entre eles
provocara um silêncio entre os gritos e lamentos. Alguém gritou:

- Quem está aí?
-Para onde ele foi?
- Quem tem um avião?
- Você está vendo alguma coisa?
-O que está vendo?
A mulher voltou a falar.
- Oh!, Deus, salva-me. Quero dormir...
-Você aí, cale a boca!
- Deus é grande. Deus é bom. Vou agradecer a Ele...
- Pare de falar, mulher! Se você não é capaz de fazer alguma
coisa útil, cale a boca!
-Deus! Oh, Deus! Salva-me!
Rayford ajoelhou-se e tocou no ombro da mulher. Ela recuou com
um berro.

- Espere! - ele disse, tocando-a novamente.
-Ai! Está doendo!
- Eu não quis machucá-la - ele disse em voz baixa.

- Quem é você? - ela disse com um gemido.
Rayford viu o número 6 dos Estados Unidos Europeus gravado em
sua testa.

-Um anjo?
-Não.
-Eu orei pedindo um anjo.
-A senhora orou?
- Prometa que não vai dizer a ninguém. Eu lhe imploro.
-A senhora orou a Deus?
-Sim!
-Mas eu vi a marca de Carpathia em sua testa.
- Eu falsifiquei a marca! Conheço a verdade. Sempre conheci. Mas
nunca quis saber de nada.
-Deus a ama.
- Eu sei, mas é tarde demais.
- Por que a senhora não pediu perdão a Deus e aceitou sua
dádiva? Ele queria salvá-la.
Ela soluçou baixinho.

- Como você pode estar aqui e me dizer isso?
-Eu não sou daqui.
-Você é meu anjo!
-Não, mas sou crente.
- E consegue enxergar?
- O suficiente para me locomover.
- Oh, cavalheiro, estou com fome! Leve-me ao terminal, até a
máquina de sanduíches. Por favor!
Rayford procurou ajudá-la a levantar-se, mas ela reagiu como se
seu corpo estivesse em chamas.


- Por favor, não me toque!
-Sinto muito.
- Deixe que eu segure a manga de sua camisa. Você está vendo o
terminal?
- Mais ou menos - ele disse. - Posso levá-la até lá.
- Por favor. - A mulher levantou-se com dificuldade e agarrou
desajeitadamente o punho da camisa dele com o polegar e o indicador.
- Devagar, por favor. - Ela caminhava com passos miúdos atrás de
Rayford. - Está longe?
-Pouco menos de cem metros.
-Não sei se vou conseguir - ela disse, com lágrimas correndo pelo
rosto.
- Vou buscar alguma coisa para a senhora comer - ele disse. - O
que a senhora quer?
- Qualquer coisa - ela respondeu. - Sanduíche, doce, água...
qualquer coisa.
- Não saia daqui.
Ela deu uma risadinha triste. - Não estou enxergando nada. Não
posso ir a lugar algum.

- Eu volto logo. Vou encontrar a senhora.
- Eu orei para que Deus salvasse minha alma. E quando isso
acontecer, vou poder enxergar.
Rayford não sabia o que dizer. Ela já havia dito que era tarde
demais.

- Deus amou muito o mundo - ela prosseguiu. -O Senhor é o meu
pastor. Oh!, Deus...
Rayford correu em direção ao terminal, passando por entre
pessoas angustiadas. Ele queria ajudar todas, mas não podia. Havia um


homem deitado, imóvel, do lado de dentro da porta automática, impedindo
a passagem. Rayford aproximou-se o suficiente para acionar o sensor. A
porta abriu alguns centímetros e foi de encontro ao homem.

- Por favor, afaste-se da porta - disse Rayford.
O homem estava dormindo ou morto.
Rayford empurrou a porta com força, mas ela mal se movimentou.
Ele abaixou o ombro e investiu contra a porta, sentindo a pressão nos
quadris quando ela se abriu lentamente e empurrou o homem. Rayford
ouviu-o gemer.

Dentro do terminal havia uma fileira de máquinas automáticas,
mas assim que ele pegou algumas moedas no bolso, viu que elas
estavam emperradas. Muitas pessoas que conseguiram chegar até ali
haviam arrombado as máquinas e saqueado tudo o que havia dentro.

Rayford vasculhou uma a uma, procurando encontrar alguma
coisa, qualquer coisa que tivesse sobrado ali. Mas só encontrou garrafas,
latas e pacotes vazios.

- Quem entrou lá? - alguém quis saber. - Aonde você pensa que
vai? Consegue enxergar? Há luz em algum lugar? O que aconteceu?
Vamos todos morrer? Onde está o potentado?
Rayford correu para fora.

- Aonde você está indo? - gritou outro. - Leve-me com você!
Ele encontrou a mulher deitada de bruços, com o rosto escondido
entre os braços. Seu choro era tão sofrido que ele mal suportou olhar
para ela.

-Estou de volta, senhora - ele disse em voz baixa. - Não há
comida. Sinto muito.
- Oh, Deus, oh, Deus e Jesus, ajuda-me!
- Senhora - ele disse, estendendo o braço.

Ela soltou um grito quando Rayford a tocou, mas ele a virou de
lado até poder ver seus olhos fundos e aterrorizados.

- Eu sabia de tudo antes dos desaparecimentos - ela disse, com
voz chorosa. - Depois, tive certeza. Mesmo com todas essas pragas e
julgamentos, eu afrontei Deus. Ele procurou me alcançar, mas eu queria
viver por conta própria. Não queria submeter-me a ninguém. Mas sempre
tive medo do escuro, e meu maior pesadelo é morrer de fome. Mudei de
idéia, quero voltar atrás...
-A senhora não pode.
- Eu não posso! Não posso! Esperei demais!
Rayford conhecia a profecia: o povo rejeitaria Deus tantas vezes
que Ele endureceria seus corações e eles não teriam condições de
aceitá-lo, mesmo que quisessem. Mas o fato de saber disso não
significava que Rayford entendia. E, certamente, não significava que ele
tinha de gostar.

Era difícil conciliar tudo aquilo com o Deus que ele conhecia, o
Deus amoroso e misericordioso que parecia fazer uso de todos os meios
para receber cada pessoa no céu, sem deixar nenhuma de fora.

Rayford levantou-se e sentiu o sangue fugir-lhe da cabeça no
momento em que ouviu uma voz partindo dos alto-falantes.

- Aqui fala o potentado! - soou a voz forte. - Tenham bom ânimo.
Não fiquem com medo. Seu tormento está quase no fim. Acompanhem o
som de minha voz até a torre de alto-falantes mais próxima. Lá, haverá
comida, água e instruções.


- Quero fazer um trato com vocês - disse Chloe. - Vou assumir o

posto de vigia se vocês concordarem em contar a todos, assim que o dia
amanhecer, que tivemos visitas esta noite.

Buck olhou para George, e George apontou para Buck.

- Na ausência de seu sogro, você é o responsável, companheiro.
- Só porque sou o mais velho de vocês. Transfiro a missão a você
que é militar.
- Não estamos em guerra, homem. O assunto tem a ver com
relações públicas. Se você aceita um conselho, faça o que deseja fazer,
desde que seja a coisa certa. Diga ao pessoal: "Achamos por bem contar
a vocês que vimos a CG rondando por aqui esta noite, mas, pelo que
sabemos, ainda não há motivos para preocupações."
- Tudo bem, Chloe? - Buck perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
- Eu preferia orar e entregar munições ao pessoal, mas minha
resposta é sim. Tratem todos como adultos e vocês extrairão o que eles
têm de melhor.
- Se você vai mesmo ocupar o posto de vigia, Chloe - disse
Sebastian -, vou para casa e desligar meu walkie-talkie.
-Combinado.
DOIS

Para conseguir a façanha de agrupar as pessoas aterrorizadas de
Nova Babilônia em vários locais, alguém imaginou que uma música
tocada bem alto no sistema de som atrairia o povo para as torres dos alto-
falantes.

- Caminhem com cuidado, leais cidadãos. Ajudem uns aos outros.

Evitem perigo.

Enquanto Leon Fortunato, o braço direito de Carpathia, dizia com
tranqüilidade essas palavras, ouvia-se ao fundo a gravação de um coral
carpathianista de 500 vozes cantando uma versão gravada de "Salve
Carpathia":

Salve Carpathia, nosso rei ressurrecto e senhor;
Salve Carpathia, dono do mundo e nosso governador.
Todos nós o adoraremos eternamente;
Ele é nosso Nicolae, nosso amado dirigente.
Salve Carpathia, nosso rei ressurrecto e senhor.


Rayford detestava aquela canção e o hábito infernal do Sistema
de Transmissão da Comunidade Global de executá-la, via rádio, a cada
duas horas pelo menos. Carpathia insistia nessa execução todas as
vezes que aparecia em público. Os desfiles e as concentrações em sua
homenagem sempre iniciavam e terminavam com ela.

No entanto, algo estranho estava acontecendo naquele momento.
O povo se levantou lentamente e caminhou angustiado em direção ao
som, mas ninguém cantava.

- Lembrem-se - disse Fortunato, fazendo uma careta de dor ao
pronunciar cada palavra -, aqueles que vão servir vocês, levando água e
comida, também estão acompanhando o som para chegar aos lugares
certos. Por favor, tenham paciência e abram caminho para os veículos.
Há alimento suficiente para todos, desde que vocês cooperem. Agora,
cantem com o coral. Vocês serão levados ao local de adoração da
imagem de nosso supremo potentado, que no momento não é visível.
As pessoas em volta de Rayford não demonstraram entusiasmo.

- Não vou cantar - disse alguém. - Morte ao potentado!

- Tome cuidado com o que diz - alertou outro. - Está querendo
morrer?
- Carpathia não consegue enxergar mais que nós! Ele não sabe
quem está falando.
-Ele não é um simples mortal. Eu não me arriscaria.
-O que ele tem feito por você ultimamente?
O pessoal de dentro do palácio estava em melhores condições,
era o que Rayford pensava. Pelo menos, eles tinham condições de tatear

o caminho que os levava a lugares conhecidos, inclusive chuveiros,
camas e geladeiras. Os de fora não podiam sequer encontrar o caminho
de volta para casa.
Rayford tentava imaginar como o povo devia estar desorientado,
sem ter nenhum foco de luz. A situação era frustrante até para ele que
conseguia enxergar um pouco.

- Há 12 torres de alto-falantes distintas - disse Fortunato.
O volume da música foi reduzido enquanto ele falava.
- Quando os mantimentos chegarem, por favor, mantenham a
ordem. Cada um deve dizer o seu nome para que nosso pessoal possa
gravá-lo em disco de áudio. Em seguida, peguem sua ração de alimento e
água.
- Também queremos respostas! - gritou alguém, como se
Fortunato pudesse ouvi-lo. - O que significa isto? Quanto tempo vai
durar? Por que sentimos tanta dor?


Chloe sabia qual seria a reação de Ming Toy quando ouvisse a
notícia de manhã. Ela e Ree Woo haveriam de querer se casar


imediatamente. Todos, exceto Chloe, procuraram dissuadi-los dessa
idéia, mas Ming planejara tudo. Queria que Tsion Ben-Judá realizasse o
casamento sem sair de Petra, por meio de câmera de vídeo.

- Sei que estou exigindo demais de um homem tão importante e
atarefado - ela confidenciara a Chloe. - Mas programei a cerimônia para
durar apenas alguns minutos.
- Acho que ele vai concordar - Chloe lhe dissera. - No lugar dele,
eu concordaria.
As mesmas pessoas que aconselharam Ming e Ree a não se
casarem, em razão do momento em que o mundo se encontrava no
calendário profético, foram as mesmas que haviam aconselhado Chloe e
Buck a não ter filhos durante a Tribulação.

Porém, certos assuntos eram muito pessoais. Chloe não podia
imaginar ter desistido de se casar com Buck, apesar de saber que teriam
pouco tempo pela frente para viver juntos. E, para ela, a vida não teria
sentido sem a existência de seu querido filhinho.

Se Ming e Ree desejassem ficar casados por um ano antes do
Glorioso Aparecimento, de quem seria o problema a não ser deles?
Ambos estavam conscientes das dificuldades. Iniciar uma família naquele
período seria complicado, é claro, mas Chloe entendia que o problema
não era seu, a menos que Ming lhe pedisse conselho.

Aparentemente, Buck voltara a dormir depois de alguns minutos.
Ela achava que George estava certo por ter deixado sua esposa
dormindo no período em que esteve ausente.

Priscilla era uma das pessoas mais atarefadas dali, sempre em pé
antes do amanhecer e esbanjando saúde. Geralmente, começava a ficar
sonolenta após o jantar e ia para a cama às 21 horas.

Chloe ficou feliz por estar de vigia. Um dos motivos era poupar


Buck, que passara quatro noites seguidas no posto. Ela gostou do
trabalho - verificar o detector de movimento, inspecionar a área com o
periscópio. Sua rotina diária era agitada e cansativa; ela passava quase o
dia inteiro no computador, coordenando os trabalhos dos fornecedores e
transportadores de suprimentos e comida ao redor do mundo inteiro.

Aquela era a maneira de Chloe manter-se a par das notícias,
apesar de serem cada vez piores. Seus colaboradores estavam sendo
descobertos, presos pela CG em invasões noturnas e ataques de
surpresa. A CG os executava assim que constatava que eles não tinham
a marca de lealdade a Carpathia.

Segundo o relato de uma testemunha, o motorista de um
caminhão de 18 rodas da cooperativa, que transportava exemplares da
revista virtual de Buck, A Verdade, traduzida para o norueguês, recusou-
se a permitir que a carga caísse nas mãos da CG. Ele distraiu os guardas
por algum tempo para que seu motorista auxiliar fugisse. Em seguida,
acelerou o caminhão e despencou de uma ribanceira de 30 metros de
altura. Foi morto a tiros pelos Monitores de Moral.

Chloe também ouviu falar de dissidentes no mundo inteiro - na
maioria judeus - que, em vez de serem condenados à morte, foram
transportados para campos de concentração, torturados e mantidos vivos
propositadamente.

Algumas notícias ocasionais davam conta de intervenções
milagrosas, por exemplo, o aparecimento de um anjo no local da
guilhotina para alertar o povo sobre as conseqüências de aceitar a marca
de Carpathia. Pelo que se sabia, essas decisões de última hora eram
inúteis, porque, de qualquer forma, os retardatários já estavam
condenados à morte. Mas o anjo implorava aos indecisos que aceitassem
a Cristo para ser salvos. E muitos aceitaram.


Chloe passou um xale ao redor dos ombros e foi, pé ante pé, até o
quarto de Kenny, cuja respiração era profunda e lenta. Ela estendeu outro
cobertor em cima dele. O menino não se mexeu.

Depois de fechar a porta, ela verificou o detector de movimento e
sentou-se diante do periscópio. Não havia ninguém à vista, portanto ela
levantou e girou o aparelho para ter uma visão total da área. Ela gostava
de ter um periscópio no meio de sua casa. Isso lhe dava a sensação de
poder proteger - ou controlar, conforme Buck dizia para brincar com ela -
seus amigos e pessoas queridas, cujo número atingia mais de 200, que
moravam escondidos em San Diego.

Todos esperavam viver até o Glorioso Aparecimento, porém, mais
que isso, poder alcançar outras pessoas, mesmo sem sair de suas
moradias subterrâneas.

O periscópio tinha uma característica peculiar: o visor não
precisava ser movimentado com o aparelho. Um simples controle nas
alças fazia o aparelho levantar, abaixar e esquadrinhar em círculo, em
qualquer direção. Chloe não estava interessada em compreender o
conjunto de espelhos necessários para fazer isso.

Descontraída, com a testa encostada no visor enquanto seus
olhos se acostumavam com a pouca iluminação externa, ela notou que
George Sebastian havia deixado o aparelho no nível do chão, apontado
para o oeste.

A lente superior estava camuflada para confundir-se com
folhagem de arbustos. Poderia ser levantada até uma altura de 1,5 metro,
porém, antes de tudo, o mais importante era fazer uma exploração
minuciosa de 360° no nível do chão para certificar-se de que não havia
ninguém por perto que pudesse notar o aparelho.

A exploração poderia ser feita em movimento suave e muito


devagar, porque o Comando Tribulação de San Diego aprendera que as
coisas feitas com lentidão se tornavam muito mais fáceis. O método
escolhido por Chloe era mover o aparelho alguns centímetros por vez.
Cada vez que ela apertasse o minúsculo embolo vermelho na alça
esquerda, a lente lhe daria mais 45° de visão; oito movimentos desses
completariam 360°.

Não havia nada interessante do lado oeste, portanto Chloe
começou a explorar o lado direito. Passavam das três horas da manhã na
Califórnia.

Rayford havia caminhado uns 400 metros em direção ao norte do
terminal, passando por homens e mulheres mais jovens que ele, mas que
se arrastavam penosamente, com passos de pessoas idosas.

- Na tentativa de manter todos vocês informados - Fortunato
anunciou -, temos algumas notícias animadoras. Apesar de não haver
nenhum tipo de luz ou claridade em Nova Babilônia, esse fenômeno
intrigante não afetou as transmissões via rádio ou telefone. Nossos
sistemas de aquecimento e refrigeração continuam funcionando. Os
fogões não foram afetados, a não ser aqueles movidos por luz solar. Os
fogões elétricos e a gás continuam a esquentar e a irradiar calor, embora
não possam ser vistos, portanto, tenham muito cuidado.
- Os pilotos de aeronaves que partiram de Nova Babilônia ou que
chegaram aqui relataram que a escuridão está restrita a esta cidade. Não
sabemos quanto tempo ela vai durar, mas se vocês conseguirem
encontrar um caminho que os leve para fora dos limites da cidade,
encontrarão luz.

Rayford ouviu palavras de determinação vindas de todos os lados.

- Eu vou tentar - disse alguém.
- Eu também. Não sei onde nem como, mas vou dar um jeito de
encontrar luz.
- Alguém tem uma bússola em braile? Sem uma, vamos andar em
círculos.
- Atenção - Fortunato voltou a falar -, todo o pessoal da alta cúpula
deve reunir-se no escritório do potentado às 15 horas.
Rayford olhou para seu relógio. São 13h15. Como eles vão
conseguir chegar lá às 15 horas?

- Usem relógios sonoros - disse Fortunato. - São 13h15.
Desligaremos todos os alto-falantes às 14h30, exceto os da torre perto da
entrada oeste do palácio. Acompanhem o som para terem condições de
encontrar o caminho para a reunião. Os elevadores estão funcionando. O
botão inferior direito é o do último andar. O comparecimento é obrigatório,
mas limitado ao pessoal da alta cúpula.
- Eu vou de qualquer jeito - disse alguém.
- Eu também. Quero ir até o fundo disto tudo.
- Quero descobrir o que está acontecendo.
- Dizem que ele é o deus encarnado. Por que não toma uma
providência?
Rayford piscou uma vez, depois outra. Ele imaginou ter visto luz a
distância. Estava cada vez mais longe do avião e do lugar em que Chang,
Naomi e Abdullah se encontravam, mas se o pior acontecesse, ele
poderia seguir o pessoal até a entrada do palácio, às 14h30, e ir ao
encontro dos três. Por ora, ele precisava investigar aquela luz.


Chloe já havia movimentado quatro vezes o aparelho na direção
leste. Enquanto examinava a paisagem escura, ela notou um par de
pontos luminosos. Sua respiração acelerou à medida que eles
aumentavam de tamanho. Fosse o que fosse, estavam se aproximando.

De repente, ficou claro que se tratava de um carro ou caminhão. O
veículo rodou até a distância de um quarteirão dali, parou e deu meia-
volta. Agora Chloe via apenas as lanternas traseiras. E elas continuaram
ali. Passaram dez minutos, depois mais cinco.

Chloe explorou rapidamente o caminho ao redor. Nada. Mais um
clique no aparelho e ela voltou a ver o setor leste e o veículo parado. Ela
não queria acordar Buck para contar-lhe o que estava vendo. Todos os
que moravam nos esconderijos sabiam que havia tráfego de veículos nas
redondezas, mas ninguém pararia ali àquela hora da noite.

Chloe gostaria que o periscópio tivesse uma lente telescópica para
poder ver o veículo mais de perto e saber se alguém estaria descendo
dele. O estacionamento oculto dos veículos do pessoal que morava nos
esconderijos, usado apenas à noite quando todos sabiam que a área
estava livre, dava acesso para o leste.

Será que ela deveria atrever-se a dar uma espiada mais de perto?
Uma porta de serviço, escondida perto de outra maior, permitiria que ela
enxergasse a área externa, se mantivesse apagadas as luzes internas.
Assim, ela chegaria uns cem metros mais perto, sem aventurar-se a ser
vista por alguém.

Chloe tirou do armário um macacão preto com capuz e vestiu-o


sobre o pijama e o agasalho. Calçou meias de lã e uma bota de cano alto,
própria para caminhadas em terrenos acidentados. Pegou a Uzi, mas não
levou o walkie-talkie. Um som qualquer emitido por ele poderia atrapalhar
seus planos. E ela não queria envolver-se em situações que exigissem
pedido de socorro. A Uzi serviria apenas para tranqüilizá-la. Portanto,
esta foi a oração de Chloe: Senhor, ajuda-me ou perdoa-me, uma coisa
ou outra.

Ela voltou a abrir silenciosamente a porta do quarto de Kenny. O
menino continuava na mesma posição. Ao colocar a mão em seu rosto,
notou que estava úmido por causa do sono, mas confortavelmente
quente. Ela beijou sua testa. Fria e macia.

Depois de fechar a porta, ela foi até o local em que Buck dormia e
firmou um dos joelhos no colchão, perto do centro. Curvou-se para beijálo,
segurando-lhe a cabeça. Se o sono de Buck fosse leve, ele teria
acordado. Chloe surpreendeu-se ao ver o contraste entre sua roupa
escura e a tonalidade branca de sua pele, que raramente ficava sob os
raios do sol.

Ela encontrou um par de luvas e uma máscara de esquiar. Já
estava transpirando quando chegou ao corredor que passava pelas
outras casas e dava acesso ao estacionamento de veículos. A casa em
que eles moravam ficava no centro do conjunto e havia quatro saídas
para as casas de seus companheiros.

Arrastando-se no chão, ela passou pela casa de Sebastian, por
mais três de outras famílias, por uma fileira de aposentos para homens
que viviam sós - inclusive o de Ree Woo e o de Rayford - por mais duas
casas de outras famílias e por uma mistura de casas para famílias e
aposentos para moças que viviam sozinhas, inclusive o de Ming.

Todos sabiam que Grande George estava de vigia naquela noite e


que Buck Williams, o chefe do grupo na ausência de Rayford, se
revezaria com ele. Talvez fosse por isso que o sono do pessoal era tão
profundo.

Rayford atravessou a multidão e caminhou na direção da luz.
Seria imaginação sua? Além de uma distância de seis metros, ele só via
uma espécie de neblina, e ninguém por perto tinha condições de enxergar
nada, muito menos aquela luz. Quanto mais ele se aproximava, mais a
luz assemelhava-se a uma silhueta humana, a uns 50 metros de
distância. Era só isso o que Rayford via. Quando ele trabalhou no palácio
e morou na região, as garagens e os veículos ficavam naquela área.

Será que alguém conseguira um meio de produzir luz? Rayford
havia passado por pequenos grupos de pessoas que andavam com
dificuldade, e agora não havia nada entre ele e aquilo... aquilo o quê?
Uma aparição? Ao longe, a luz tinha pouco brilho, mas, em seguida, as
cores tornaram-se mais nítidas. Primeiro vermelha, depois amarela e,
finalmente, um tom alaranjado forte. Sim, era a figura de uma pessoa,
especificamente de um homem alto e esguio. E ele se mexia.

Havia outras pessoas perto do homem, utilizando a claridade
daquela luz para acionar os veículos. Todos deviam estar sofrendo como
os demais, mas trabalhavam rápido, como se sentissem revigorados pela
luz. O homem reluzente parecia ser capaz de enxergar até onde sua luz
irradiava, cerca de um metro. Qualquer um que necessitasse de luz
precisaria estar a essa distância dele.

Rayford imaginou que fosse Carpathia. O Dr. Ben-Judá havia dito
que essa mesma pessoa apareceria em primeiro lugar na forma de uma


serpente, depois, como um leão rugindo e, finalmente, como um anjo de
luz.

Rayford teve de conter o riso. O demônio que havia em Nicolae
certamente gostaria de poder emitir mais luz do que aquele patético brilho
que lhe permitia apenas identificar as pessoas que estavam a um metro
de distância.

Rayford caminhou um pouco mais até misturar-se a um pequeno
grupo ao redor dos mecânicos que tentavam acionar vários veículos, cuja
finalidade ele ainda não conseguira entender.

- Todos os sistemas estão funcionando? - perguntou Carpathia.
-Sim, potentado. O jipe está em ordem.
-Acenda os faróis.
O mecânico obedeceu à ordem.
- O sistema elétrico está em ordem, Excelência, portanto está
passando corrente, mas conforme o senhor pode ver...
- Conforme todos nós podemos ou não podemos ver - disse
Carpathia. - Os faróis não acendem. Bem, de qualquer forma, eu irei
adiante do comboio até atravessarmos a escuridão a caminho de Al
Hillah. Não quero saber quanto tempo vai levar.
Que tipo de estratégia seria aquela? A diretoria se reuniria no
escritório de Carpathia, e ele os conduziria a Al Hillah? Para quê? E
quanto aos milhares que continuariam em Nova Babilônia? Não haveriam
de querer segui-lo, para encontrar um pouco de alívio?

-O que há em Al Hillah? - perguntou Rayford.
- Quem está perguntando? - inquiriu Carpathia. - E como você se
dirige a mim sem usar meu título de honra?
Nicolae estava olhando na direção de Rayford, mas não tinha
condições de enxergar a uma distância maior que o raio de sua aura


diabólica. Quando Nicolae deu alguns passos à frente, Rayford recuou
para a esquerda e postou-se atrás dele.

- Pois não - Rayford disse com tom de voz ligeiramente diferente.
-O que há em Al Hillah, ó Grandioso?
Carpathia virou-se para trás, e Rayford desviou-se novamente.
- Eu estava falando com quem se dirigiu a mim! - disse Carpathia.
- Quem está perguntando?
- Acho que ele fugiu de medo - respondeu Rayford com voz grave
-Excelência.
Aquilo era muito divertido.

Chloe sabia que a longa passagem até o estacionamento de
veículos era fria e úmida na maior parte do tempo. Talvez estivesse assim
agora. Mas a agitação em sua mente, os movimentos rápidos para subir a
rampa dos veículos até as portas de acesso ao nível do chão aqueceram
seu corpo em demasia.

Ela retirou as luvas e a máscara de esquiar, ralhando consigo
mesma por tê-las usado sem necessidade. Depois de abaixar o zíper do
macacão, ela se agachou e encostou-se na parede entre a porta de
acesso ao estacionamento e a porta de serviço, para acalmar-se e
recuperar o fôlego.

A sensação de liberdade era deliciosa. Ela estava perto da
superfície, quase fora do esconderijo. Faltava menos de um ano para a
verdadeira liberdade.

Seus joelhos começaram a doer, e ela precisou sentar-se no chão
para esticar as pernas. Depois de deixar a arma de lado, ela estendeu o


corpo até tocar nas pontas das botas, alternando movimentos para a
esquerda e para a direita. Apesar de ter sofrido graves ferimentos, Chloe
se sentia orgulhosa porque sua missão na Grécia provara que seu corpo
ainda estava em muito boa forma.

Ela fechou o zíper do macacão até o pescoço, colocou a máscara
de esquiar no rosto, cobriu a cabeça com o capuz, calçou as luvas,
passou a tira da Uzi por cima da cabeça para que a arma ficasse
encostada em seu quadril direito, levantou-se e dirigiu-se para a porta de
serviço.

A porta de acesso ao estacionamento não podia ser aberta aos
poucos. Todos sabiam disso. A areia, a terra e a vegetação grudadas ali
faziam com que ela se movimentasse de uma só vez. Ou ela ficava
totalmente aberta ou totalmente fechada. Mas a porta de serviço, embora
fosse camuflada da mesma maneira, podia ser aberta aos poucos,
conforme Chloe desejava. Ela apagou a luz e segurou a maçaneta com
firmeza.

Rayford seguiu apressado rumo ao palácio. Ele queria verificar
como estavam seus companheiros e falar sobre seu plano. Em seis anos,
ele havia presenciado numerosos eventos bizarros, talvez em número
maior do que um dia chegou a imaginar.

Embora muitos tivessem sido mais significativos, mais
espalhafatosos e mais violentos, aquele era completamente diferente.
Pobres pessoas! Sim, elas haviam escolhido seu destino e, sim, tiveram
muitas oportunidades de voltar-se para Deus. Mas que preço estavam
pagando!


A angústia era geral. Por todos os lugares onde ele andava, mais
e mais pessoas tornavam-se visíveis dentro de seu raio de visão de seis
metros. Muitas estavam mortas. Muitas balançavam o corpo no lugar ou
choravam deitadas no chão. Todas haviam desistido de enxergar alguma
coisa, e a escuridão era tanta que chegava a desorientá-las.

As que acompanhavam a música ou a voz de Fortunato caminhavam
com passos trôpegos ou com os braços esticados para a frente
ou para os lados, balançando o corpo como se estivessem embriagadas
ou com tontura.

Chocavam-se umas com as outras ou com prédios e passavam
por cima de escombros. Muitas não tinham forças, andavam lentamente,
paravam, cambaleavam. Rayford gostaria de ajudá-las, mas não havia
nada que ele pudesse fazer.

Quando estava a caminho do apartamento de Chang, Rayford
teve uma idéia e mudou de direção. Entrou no elevador e chegou ao
último andar do palácio. Lá, ele passou, na ponta dos pés, por entre
vários executivos e seus asseclas, que conversavam ao telefone ou
permaneciam sentados diante de computadores, ditando algumas
palavras mas incapazes de enxergar se suas mensagens estavam sendo
enviadas.

Todas as ligações telefônicas tinham o mesmo tema e o mesmo
tom.

A assistente de Carpathia não era a mesma dos tempos em que
Rayford trabalhou com ele. Chang havia lhe contado qual era o nome
dela. Devia ser aquela mulher falando ao telefone na ante-sala do novo
escritório de Carpathia. Rayford notou que ela se assustou quando o
ouviu sentar-se no sofá do outro lado, mas ele não disse nada e a mulher
continuou a conversa.


- Não sei -ela dizia com voz chorosa. - Ele quer que eu trabalhe
como se não estivesse sofrendo igual aos outros. Mas estou sofrendo,
mãe. Posso fazer algumas pequenas coisas quando ele está aqui, porque
ele emite esse tal brilho. Mas ele convocou uma reunião com a diretoria e
eles estão planejando uma espécie de romaria... Não, eu não quero ir,
não quero mesmo. Ele não está contando ao pessoal que os chefes estão
partindo. Ooh! Ai... não sei descrever o que sinto. Cãibras, acho. Uma dor
de cabeça como nunca senti, e tenho tido um pouco de tontura...
Ela parecia americana, mas estava de costas para Rayford, e ele
não podia ver o número em sua testa ou mão.

- Parece que estou carregando um peso enorme nos ombros,
pressionando minha coluna. Sinto dor no quadril, nos joelhos, nos
tornozelos, nos pés. Semelhante à sua artrite, acho. Mas, mãe, eu só
tenho 36 anos. Parece que tenho 75... Sim, estou me alimentando.
Consigo tatear o caminho até meu apartamento e preparar alguma coisa
para comer, mas quando me deito, tenho vontade de dormir por cem
anos. Mas não posso... É por causa da dor! Não há posição que a alivie.
Parece que a escuridão está me oprimindo e causando todo este
sofrimento, mas todos se queixam da mesma coisa.
Rayford se mexeu no lugar e a mulher assustou-se mais uma vez.

- Um momento, mãe. - Ela se virou e Rayford viu o número - 6 em
sua testa, o que confirmou sua suposição. Estados Unidos Norte-
americanos.
- Há alguém aí? Posso ajudar?
Ele sentiu vontade de dizer que tinha algumas perguntas a fazer
sobre a reunião, mas que aguardaria até que ela terminasse a conversa.
Porém, a assistente de Carpathia conhecia os homens que restaram na
diretoria e não reconheceria sua voz. Ele gostaria de dizer-lhe algumas


palavras de conforto, dizer algo que Jesus diria. Mas ela não podia mais
ser ajudada. Rayford nunca se sentira tão manietado.

- Desculpe-me, mãe - ela disse. - Agora estou ouvindo coisas. É
melhor eu desligar. Está chegando a hora da reunião, e eu não sei o que
ele está pretendendo fazer. Ninguém será capaz de ler nada, a não ser
que coloque o papel perto da luz dele, e o grupo é composto de 20
pessoas... Sim, 20... Eu sei... Sim, eram 36. Imagine só!
- Empolgante? Não. Isso já faz muito tempo. Ele não é o homem
que eu imaginava... Ah!, sim, em todos os sentidos. Mesquinho, cruel,
violento, egoísta. Preciso de um dicionário para encontrar outros adjetivos
para ele... Não posso!... Não! Claro que não! Para onde eu iria? O que
faria? Eu sei muita coisa, e ele não vai permitir que eu saia de seu
controle... Não, agora vou ter de conviver com isso... Não sei, mãe. Essa
história não vai terminar bem. Eu não me importo mais. A morte será um
alívio... Bem, lamento muito, mas foi isso mesmo o que eu quis dizer...
Não se preocupe, mãe. Não estou planejando tomar atitude drástica
alguma... Sei que você tem. Todos nós temos. Todos menos o tio
Gregory, acho. Ele ainda está resistindo, não?... Como está vivendo?
Você sabe o que vai acontecer se ele for descoberto... Não, não me
conte. Não quero saber. Assim, se alguém me perguntar vou dizer que
não sei. Diga-lhe que estou orgulhosa dele, que ele continue a resistir,
mas que tome cuidado. Você e o papai também devem tomar muito
cuidado. Se vocês forem pegos ajudando-o de uma forma ou outra...
Rayford ouviu passos no saguão, e ficou claro que ela também
ouviu.

- Preciso desligar, mãe. Tudo de bom para você.
Ela desligou e virou-se quando a porta foi aberta. Um homem alto
e magro, de cerca de 50 anos, arregalou os olhos, boquiaberto, ao ver


Rayford. Ele apontou para a testa de Rayford, e Rayford também notou o
selo na testa dele.

- Posso ajudar? - perguntou a assistente de Carpathia. - Quem
está aí?
Rayford levou o dedo indicador aos lábios, apontou para o saguão
e disse apenas movimentando os lábios:

-Cinco minutos.
O homem fechou a porta e afastou-se correndo. A mulher
encolheu os ombros.

- Obrigada por ter vindo - ela murmurou - seja você quem for.
- Quem chegou acabou de sair - disse Rayford.
Ela deu um salto na cadeira.
-Faz tempo que você está aqui?
- Tempo suficiente para saber quem é o tio Gregory.
- Eu sou uma idiota! Não conheço você, conheço?
-Não.
- Você não faz parte da diretoria.
-Não.
-Há alguém com você?
- Não, Krystall.
- Como sabe meu nome?
- Posso ajudar seu tio.
-Garanto que vou negar cada palavra que eu disse.
- Você não quer que alguém o ajude?
- Você está preparando uma armadilha para mim.
- Não estou. Se eu fosse da CG, não seria capaz de enxergar,
certo?
-Você não está enxergando nada.

- Estou. E posso provar. As cores de suas roupas não combinam.
- Isso não é prova, seu idiota. Não consigo enxergar nada. Eu me
visto apenas usando o tato, como todo mundo está fazendo.
- Já que você não acredita, levante alguns dedos. Vou dizer
quantos... Três... Sua mão direita está de frente para mim e você levantou
o dedo mínimo, o anular e o médio.
- Como você sabe?
-Você quer saber como posso enxergar?
-Você não pode.
- Então me responda uma coisa. Como eu sei que agora você está
me mostrando seis dedos: cinco da mão esquerda e o indicador da
direita, com as duas mãos viradas de costas para mim? Vejo pela
expressão de seu rosto que você está começando a se convencer. Agora
está escondendo as mãos debaixo da mesa.
Krystall comprimiu os lábios, como se desejasse conter o choro.
Rayford levantou-se.

- Fique onde está - ela disse, com a voz trêmula e as mãos no
colo.
Rayford levantou-se e postou-se atrás dela.

-Isso não seria nada divertido - ele disse.
Ela deu um salto e virou-se na cadeira.
- Estou vendo novamente suas mãos. Elas estão fechadas em seu
colo, com os polegares apontando para cima.
- Muito bem, você consegue enxergar. Como?
- Esta escuridão é uma maldição de Deus, e eu sou um dos filhos
dele.
- Você está falando sério?
- Posso ajudar seu tio, Krystall.

-Como?
- Você não estava dizendo que ele ainda não recebeu a marca?
- E se estivesse?
- Então ele ainda tem chance de se salvar. Ele é crente em Cristo?
- Acho que não. Acho que ele não passa de um rebelde.
- Um homem de sorte, se agir rápido.
- Se você imagina que vai me ludibriar para que eu conte onde é o
esconderijo dele, está muito...
- Eu não preciso saber disso. Seria uma tolice você arriscar-se a
me contar. De qualquer forma, você não pediu a sua mãe que não lhe
contasse onde ele está?
Ela não respondeu.

- Se quer ajudá-lo de verdade, diga a ele para entrar no site do Dr.
Tsion Ben-Judá. Você sabe como se escreve o nome dele ou preciso
soletrar?
- Você acha que não conheço esse nome e como se escreve?
-Desculpe-me.
-Foi no site dele que fiquei sabendo que é tarde demais para mim
e meus pais, para minha família inteira... que sentiam tanto orgulho de
mim.
- Lamento muito, Krystall.
- Lamenta muito? Como acha que estou me sentindo?
-Você não vai contar a ninguém que estive aqui, vai?
- Por que eu contaria? Eles não vão enxergar você. O que
poderiam fazer? Ficar tateando à sua procura?
-Bem lembrado.
- O que você está fazendo aqui?
- Tratando de negócios. A idéia de ajudar seu tio ocorreu-me há

poucos instantes.

- Bem, de qualquer forma, obrigada. Você é judaísta, não?
- Sou um crente em Cristo, para ser mais preciso.
- Então, diga-me uma coisa: por que é tarde demais para as
pessoas que já receberam a marca de Carpathia? Não continuamos a ter
livre-arbítrio?
Rayford sentiu um aperto na garganta.

- Aparentemente não - ele conseguiu dizer. - Eu não entendo
muito bem, mas você deve admitir que já teve motivos suficientes para
escolher o outro caminho.
-Durante muitos anos.
- É isso mesmo, Krystall.
- Quer dizer que minhas chances acabaram quando fiz a grande
escolha?
- Sim. Talvez antes disso. Quem pode conhecer a mente de
Deus?
- Estou começando a conhecer.
- Como assim?
- Isso dói muito. Dói mais do que a angústia e o sofrimento
causados pela escuridão. Acho que aprendi tarde demais que não
podemos zombar de Deus.
TRÊS

A possibilidade de abrir apenas uma fresta na porta de serviço
camuflada causou um problema para Chloe: ela não tinha a visão de que
necessitava. Embora a porta estivesse de frente para o leste, onde o


veículo suspeito estava parado a apenas um quarteirão de distância na
última vez que Chloe olhou, ela conseguia apenas enxergar o lado
nordeste.

A porta teria de ser aberta no mínimo 45° para Chloe confirmar se

o carro ou o caminhão continuava lá. Deveria ela se arriscar a abrir um
pouco mais a porta para receber a claridade da lâmpada da rua? Será
que isso não faria barulho ou acionaria algum detector de movimento
portátil da CG?
Chloe resolveu pensar que o veículo poderia estar trazendo boas
notícias em vez de más. Talvez estivesse transportando um grupo de
crentes de outros esconderijos que ouviram falar que o contingente do
Comando Tribulação havia se protegido embaixo de uma antiga base
militar.

Não seria maravilhoso descobrir outros irmãos e irmãs que
estariam chegando para ajudá-los, animá-los, defendê-los? Foi o que
Chloe descobrira em "O Lugar", em Chicago, onde havia um grupo de
crentes autodidatas. De outro lado, toda aquela atividade e movimentação
do Comando Tribulação já estava comprometendo a casa secreta.

Um número maior de pessoas transitando naquela área que,
segundo a CG, estava de quarentena, poderia chamar a atenção dos
guardas e levá-los até lá para bisbilhotar. Se fossem novos amigos
chegando, Chloe teria de aceitar que aquilo seria o fim da grande casa
secreta.

Ela não gostaria que isso acontecesse novamente. Havia muita
gente ali e, embora o local fosse subterrâneo, possuía as mesmas
vantagens do Edifício Strong. E agora eles contavam com a ajuda de
George Sebastian, que havia expandido o que Chloe - e todas as outras
pessoas interessadas - aprendera sobre treinamento de combate com


Mac McCullum em sua missão na Grécia. Os equipamentos de exercícios
em estado precário que George e Priscilla resgataram da base militar não
eram grande coisa., mas George os considerava uma vantagem.

- Esses equipamentos serão úteis para vocês – George disse.
Ele consertou e lubrificou os que tinha em mãos, e depois de seis
semanas vários membros do Comando Tribulação resolveram passar
algum tempo na sala de exercícios para fortalecer os músculos. Aquilo
era apenas um pré-requisito, é claro.

Chloe gostava dos treinamentos comandados por George. Muitos
faziam sentido, outros não. Ele havia recebido um treinamento de alto
nível e provou ser um excelente professor. Chloe achava que agüentaria
carregar uma arma em qualquer situação.

Ao lembrar-se daquele treinamento, ela se deu conta de que
estava cometendo um erro fundamental. Havia-se afastado de seu posto,
e ninguém tinha idéia de onde ela estava. Seria impossível comunicar-se
com alguém a uma distância tão grande. Portanto, se levasse adiante o
plano de abrir a porta de serviço o suficiente para enxergar um inimigo em
potencial a um quarteirão de distância ou, talvez, mais perto ainda, ela
teria de tomar uma decisão.

Deveria abrir a porta de uma só vez, sair e fechá-la de novo ou
deveria continuar com a mão na maçaneta caso necessitasse recuar
rapidamente?

Chloe encostou a orelha na porta para ouvir algum movimento do
lado de fora, mas não logrou êxito. A Uzi bateu de encontro à porta e o
capuz e a máscara de esquiar que ela usava abafavam qualquer tipo de
som. Ela recuou, sentindo-se uma idiota.

Calma. Respirem fundo. Vamos sair bem devagar e fechar a porta
atrás de nós.


O fato de usar o pronome nós a fez sentir-se menos
desamparada, mas ela sabia que estava enganando a si própria.

Tomando o máximo de cuidado, ela caminhou pé ante pé, abriu a
porta, saiu e fechou-a atrás de si. Será que o veículo continuava ali?. Ela
teria de aguardar alguns instantes. Talvez ele estivesse com as lanternas
traseiras apagadas. Chloe dirigiu-se a uma fileira de arbustos no lado
leste e escondeu-se atrás deles. Em seguida, girou o corpo para ver se o
inimigo não estava vindo na outra direção. Ela fez uma pausa para sentir

o gosto da liberdade, a liberdade de estar respirando o ar frio da
madrugada.
Quando seus olhos se acostumaram à fraca luz proporcionada
apenas pelas lâmpadas da rua, Chloe olhou através da folhagem e viu o
caminhão branco, especial para transportar funcionários da CG,
estacionado no mesmo lugar, com as lanternas traseiras apagadas, mas,
aparentemente, e o motor não estava desligado.

A pergunta era se o caminhão estaria vazio. Se estivesse, quantos
soldados trouxera e para onde teriam ido?

Rayford caminhou rapidamente, nas pontas dos pés, até o fim do
corredor e encontrou um homem inquieto e retorcendo as mãos.

- Fala inglês? - o desconhecido perguntou, com acentuado
sotaque alemão.
- Sim. Sou americano.
- Irmão, irmão, irmão! - o homem sussurrou, abraçando Rayford
com força.
- Quem é você? Como se chama? O que está fazendo aqui?

O homem tinha músculos firmes, como os de um trabalhador
braçal.

- Eu também quero lhe fazer estas mesmas perguntas, amigo -
disse Rayford, libertando-se do abraço. - Mas precisamos tomar cuidado
para que ninguém nos ouça.
- Sim, muito bem. Onde?
-Tenho alguns companheiros aqui. Eles estão em um
apartamento particular. Você precisa conhecê-los. Vamos conversar lá.
- Será que vou agüentar esperar tanto tempo? Estou muito
emocionado. O apartamento fica longe daqui?
- Seis andares abaixo, na outra ala - disse Rayford, conduzindo-o
ao elevador.
-Você mora aqui no palácio? Trabalha aqui?
- Morei e trabalhei aqui. - Rayford olhou ao redor e aproximou-se
mais do homem. - Estou morando em um esconderijo em San Diego e
tenho amigos em Petra. Vamos tirar nosso espião daqui enquanto é
possível.
- Achei que o espião fosse você!
- Fui um deles. Agora temos apenas um. Pelo menos é o que
imaginamos. Você é daqui?
- Moro a uns dez quilômetros de distância, você pode acreditar?
Havia três executivos diante dos elevadores, amparando-se um no
outro e tateando à procura dos botões. Rayford e seu novo amigo
entreolharam-se e ingressaram no primeiro elevador que chegou. Os três
entraram depois deles.

- Precisamos chegar no horário - disse um executivo.
- É verdade - disse outro. - Eu gostaria de ter um relógio sonoro.
- Retirei o cristal do meu. Estou aprendendo a sentir as horas. O

problema é que fico passando a mão nos ponteiros e nunca sei qual é a
hora exata. - Ele passou dois dedos sobre seu relógio. - Acho que são
14h50. Ainda temos dez minutos.

Rayford notou que o alemão olhou para o próprio relógio e ergueu
as sobrancelhas. O elevador parou dois andares abaixo, e os três
desceram. Mas assim que as portas começaram a se fechar, o
companheiro de Rayford segurou-as com as duas mãos, deu uma batida
de leve no ombro do executivo que calculou as horas e, ao mesmo
tempo, esfregou o polegar no mostrador do relógio dele. O homem
assustou-se, e seu companheiro foi de encontro a ele e perguntou:

-O quê?
E o terceiro perguntou: - O que foi?
O alemão recuou os braços para que as portas se fechassem.
Quando ficou sozinho com Rayford no elevador, ele caiu na gargalhada.

- Acho que foi a última vez que ele ficou sabendo qual era a hora
certa. Agora posso me apresentar?
-Ainda não - disse Rayford.
Em seguida, pronunciou as palavras somente movimentando os
lábios.

- Quase todos os elevadores e corredores daqui têm sistema de
escuta.


Imprudência ou coragem? Para Chloe, era uma questão de ponto
de vista. Provavelmente, muitos a tachariam de imprudente. Mas ela
estava curiosa demais a respeito do caminhão e mais curiosa ainda a
respeito de quem eram seus ocupantes.


Acompanhando a fileira de arbustos e distante das lâmpadas da
rua, ela caminhou um quarteirão à esquerda, movimentando-se
silenciosamente no meio da noite, conforme aprendera.

Ela reduziu o ritmo dos passos assim que se alinhou à esquerda
do veículo, a uma distância aproximada de 30 metros. Censurou a si
mesma por não ter levado o binóculo e o walkie-talkie. Poderia ter
deixado o aparelho desligado até o momento de necessitar dele,
evitando, assim, uma transmissão inoportuna. E teria a possibilidade de
comunicar-se com Buck ou com qualquer outra pessoa em caso de
urgência.

No entanto, até aquele momento, não tinha havido urgência
alguma. Chloe aproximou-se mais do veículo, dizendo a si mesma que se
houvesse alguém dentro, o motor estaria funcionando e uma ou mais
janelas estariam abertas. Mas ela não queria avançar sem ter certeza.

Depois de girar lentamente o corpo em círculo para ver se não
havia alguém se aproximando ou ao redor, Chloe chegou perto do
caminhão e olhou através das janelas traseiras. Não havia ninguém.

Mas dali ela não podia saber se havia alguém no banco da frente.
Se houvesse uma pessoa aguardando, deveria estar sentada diante do
volante. Ela aproximou-se pelo outro lado, com o corpo curvado para ficar
abaixo do nível da janela até o momento de poder endireitar-se
rapidamente e pegar o inimigo de surpresa, se necessário.

Rayford surpreendeu-se ao ver o grande número de moradores do
palácio aglomerados no saguão dos elevadores. Todos estavam
sofrendo. Ele caminhou em direção ao apartamento de Chang em


companhia de seu novo companheiro.

Havia pessoas abraçadas nos cantos, chorando. Outras
rastejavam na tentativa de encontrar o caminho para os apartamentos,
apoiavam-se nas maçanetas e passavam os dedos nos números antes de
bater e implorar que os amigos lhes abrissem a porta.

- Isso me corta o coração - Rayford cochichou ao ouvido do
alemão.
-O meu não - disse o homem -, mas estou procurando me
sensibilizar.
Rayford deu uma batida de leve na porta de Chang. A conversa lá
dentro cessou.

- Sou eu - ele disse baixinho. - E não se assustem. Trouxe alguém
comigo.
Abdullah abriu uma fresta da porta, o suficiente para enxergar e
encaixar o cano de uma Glock calibre .45. Satisfeito ao ver que era
Rayford, ele examinou o alemão de cima a baixo. Depois de ver o selo
dos crentes na testa do homem, Abdullah abriu a porta com força.

Assim que entrou, o homem não conseguiu ficar parado. Depois
de olhar para todos, para os computadores e para as pilhas de disquetes,
ele perguntou.

- Posso falar? Tudo bem aqui?
Chang fez um movimento afirmativo com a cabeça. Apesar de ter-
se assustado diante da reação efusiva do homem, ele continuou a
trabalhar com Naomi.

-Meu nome é Otto Weser - ele disse. -Madeireiro alemão,
judaísta, chefe de um pequeno grupo de crentes aqui em Nova Babilônia.
O alemão abraçou Abdullah e disse, rindo:

-Cuidado com essa arma aí!

Ao cumprimentar Chang, quase o levantou do chão.

- Vejam só! Você é asiático. Nosso amigo de turbante é o quê?
Egípcio?
Abdullah o corrigiu.

- Ah! jordaniano. Quase acertei. Eu sou alemão. Rayford Steele,
seu nome é ocidental e você me disse que é americano, mas também
tem a aparência de egípcio.
-É um disfarce.
- E você, minha jovem, também é do Oriente Médio, não? Claro
que é. Não vou abraçá-la sem a permissão de seu pai.
Otto apontou primeiro para Rayford, que fez um movimento
negativo com a cabeça, e depois para Abdullah, que pareceu ofendido.

- Ah!, mas vocês têm idade para ser pai dela. - Ele se virou para
Chang. - Sei que ela não é nada sua, a menos que sejam casados.
Naomi aproximou-se dele, com os braços abertos.

- Meu pai não está aqui, mas se eu tiver de lhe dar permissão,
pode me abraçar.
-Ah! Eu adoro esses jovens que gostam de filmes antigos.
Assim que ficou conhecendo todos, Otto prosseguiu:
-Vou ser breve. Sei que vocês têm uma missão a cumprir e que
precisam sair daqui. Eu não sabia se encontraria algum irmão ou irmã
dentro do palácio, mas estou feliz por ter encontrado. Meus amigos e eu
nos consideramos cumprimento da profecia. Vocês querem saber por
quê? Estávamos escondidos na Alemanha, lutando contra a CG sempre
que possível, e Deus... quem mais poderia ser?... levou-me a ler
Apocalipse 18. Fiquei confuso; o que mais posso dizer? Vocês conhecem
a passagem. Eu a memorizei.
-Não sou nenhum intelectual, nenhum estudante, nenhum

teólogo, mas procuro ficar um passo adiante de meu pessoal para poder
ensinar alguma coisa a eles. Bem, Apocalipse 18 fala sobre a destruição
desta cidade, desta mesma onde estamos. Iniciando no versículo quatro,
lemos: "Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo meu, para
não serdes cúmplices em seus pecados, e para não participardes dos
seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e
Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou. Dai-lhe em retribuição
como também ela retribuiu, pagai-lhe em dobro segundo as suas obras,
e, no cálice em que ela misturou bebidas, misturai dobrado para ela.
Quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria, dai-lhe em igual
medida tormento e pranto, porque diz consigo mesma: Estou sentada
como rainha. Viúva não sou. Pranto, nunca hei de ver! Por isso em um só
dia sobrevirão os seus flagelos, morte, pranto e fome, e será consumida
no fogo, porque poderoso é o Senhor Deus que a julgou."

- Bem, vocês devem conhecer esta passagem melhor que eu.
"Retirai-vos dela, povo meu"? O que podíamos entender desta frase a
não ser o óbvio? Devia haver povo de Deus aqui, ou pelo menos uma
pequena parte, até pouco antes de acontecerem esses flagelos! Quem
eram eles? Nunca imaginei que pudesse haver crentes aqui. E se
existissem, não durariam muito tempo! Como isso seria possível? Se a
CG e os Monitores de Moral estão matando gente no mundo inteiro por
não ter a marca de Carpathia, que chance alguém daqui teria?
- Não sabíamos, mas queríamos descobrir. E vou dizer uma coisa
a vocês. Não era mais possível ficar brincando de esconde-esconde com
a CG na Alemanha. Reunimos um grupo de quase 40 pessoas,
arrumamos nossas coisas e viemos para cá. Devo dizer que a viagem
não foi fácil. Também não tem sido fácil viver aqui, mas sabíamos disso
quando decidimos vir. Perdemos seis pessoas de nosso grupo desde que

chegamos... Quatro de uma só vez. Dois, devo admitir, morreram por
minha culpa e vou sentir vergonha disso pelo restante da vida. Mas
vamos nos encontrar novamente, não é verdade? E eu mal posso
esperar.

- E outra coisa que eu esperei ansiosamente foi esta praga da
escuridão. Quando ela chegou e percebemos que ninguém podia
enxergar, exceto nós, decidi que queria conhecer este lugar. Queria
conhecer os prédios, o pátio, o palácio, tudo... principalmente o escritório
do potentado. Não pude trazer os outros comigo, mas estou aqui, e quem
mais eu poderia encontrar a não ser vocês? Bem, se somos cumprimento
da profecia por fazer parte de um pequeno grupo do povo de Deus que
deve sair daqui antes que chegue o fim, vocês são uma resposta à minha
oração. Se tivermos de sair daqui, precisamos descobrir um lugar para
ficar, de preferência que seja seguro. Se vocês têm ligações com Petra, é
para lá que queremos ir, se eles nos aceitarem.
- Desculpe-me, Rayford - disse Chang. - Esta conversa está muito
interessante e agradável, mas preciso mostrar a Naomi, você sabe, como
funciona o sistema que David instalou aqui. Depois, acho que devemos
partir.
- Certo - disse Rayford -, e vou me sentir mais tranqüilo se
Abdullah ficar com vocês. Quero voltar ao escritório de Carpathia para ver
se Otto e eu podemos entrar na grande reunião e saber o que está
acontecendo.
- Ah! Eu adoraria! Conforme já disse, eu queria conhecer o
escritório dele. Foi por isso que eu estava lá, mas fiquei tão assustado
quando vi alguém com o selo...
- Otto - disse Rayford -, precisamos ir.


Depois de ficar agachada por um bom tempo ao lado da porta
direita do caminhão, Chloe quase desistiu de levar seu plano adiante. O
que aconteceria se ela erguesse o corpo e o motorista estivesse sentado
ali, aguardando o retorno dos soldados?

Talvez ela tivesse de apontar a arma para ele. E fazer o que
depois? Desarmá-lo? Impedi-lo de falar pelo rádio? Forçá-lo a contar para
onde foram os soldados e o que pretendiam fazer?

Porém, tudo aquilo só serviria para comprometer o esconderijo, a
não ser que Chloe estivesse disposta a matar o motorista e tentar
afugentar o restante do pessoal. Para isso, ele teria de lhe contar onde os
soldados estavam.

Finalmente Chloe disse a si mesma que se o caminhão estivesse
vazio, ela faria um amplo reconhecimento do terreno ao redor do
esconderijo para saber se a CG não estava por perto ou prestes a
capturá-los; em seguida, voltaria para buscar ajuda.

Chloe soltou a trava de segurança da Uzi, colocou o indicador
direito no gatilho, apoiou o cano da arma na palma da mão esquerda e
levantou-se rapidamente.

Vazio.

Era como ela também se sentia: vazia. Os efeitos da adrenalina
em seu organismo desde o momento em que ela se aventurara a sair
pela porta de serviço haviam-na deixado quase imóvel. Ela se abaixou ao
lado do caminhão para recompor-se. Seus braços e pernas pareciam ser
feitos de borracha. Se seus sentidos não estivessem em estado de alerta
máximo, ela teria encostado o queixo no peito e dormido ali mesmo.

Apesar da sensação de estar sendo observada, imaginando que


havia no mínimo nove soldados da CG com armas apontadas em sua
direção, ela se sentia uma mulher de sorte em razão da fragilidade de seu
plano. Na verdade, ela mal elaborara um plano.

Embora concordasse com o lema do Comando Tribulação - "Não
acreditamos em sorte" -, era difícil atribuir a Deus a proteção que
recebera até aquele momento, principalmente porque se sentia tola
demais por ter novamente testado seu destino.

Chloe levantou-se e começou a fazer o reconhecimento do
terreno. Enquanto caminhava silenciosamente no escuro, sentindo-se
vulnerável e procurando ser mais cautelosa que rápida, ela só percebia o
ritmo acelerado de sua respiração e as batidas fortes de seu pulso.

Quando Rayford e Otto chegaram ao conjunto de escritórios de
Carpathia, a reunião já havia começado, e alguns retardatários
atravessavam desajeitadamente a porta da sala de conferências. Rayford
viu o fraco brilho emitido por Carpathia. Apenas Leon Fortunato
permanecia perto dele o suficiente para receber um pouco de luz.

Rayford tocou levemente nos ombros dos homens que estavam
na porta e eles abriram caminho para ele e Otto passarem. Por questão
de segurança, eles se sentaram na outra extremidade da sala, longe de
Carpathia.

O potentado pediu a Krystall que procedesse à chamada dos
presentes, o que foi feito quase que de memória. Ao constatar que havia
se esquecido dos nomes de três diretores, ela perguntou se poderia ler o
restante da lista sob a luz de Carpathia.

- É melhor que as pessoas cujos nomes não foram chamados se

identifiquem - disse Nicolae.

Enquanto elas se identificavam, Otto cutucou o braço de Rayford e
disse, apenas movimentando os lábios, que gostaria de gritar seu nome
para ver a confusão que isso provocaria.

- Cavalheiros, se vocês tiverem a bondade de reprimir seus
gemidos - Carpathia começou a dizer -, o diretor do Serviço de Segurança
e Inteligência, Suhail Akbar, vai mencionar o primeiro item da reunião.
-Obrigado, Excelência. Oh! Perdoe-me, senhor, mas estou
sentindo muitas dores. Ai!
- Suhail, por favor!
- Desculpe-me, potentado, mas não sei o que...
-Controle-se, homem!
-Vou tentar, senhor. Nosso primeiro assunto, senhoras e
senhores, além do óbvio, é que uma...
- O que pode ser mais importante que o óbvio? - perguntou
alguém com sotaque indiano. - Temos de encontrar uma solução para
este...
- Quem está falando? -Carpathia interpelou. - Raman Vajpayee, é
você?
- Sim, senhor, eu só quero saber...
- Raman, eu só quero que você fique calado. Como se atreve a
interromper um membro de meu gabinete?
- Bem, senhor, há algo mais importante que...
- Há algo mais importante que tudo. Sua ofensa merece um
miserável pedido de desculpas, e é melhor que seja feito imediatamente.
- Sinto muito, potentado, mas...
-Sua resposta foi mais miserável ainda. Não posso imaginar
tamanha insubordinação em uma época de crise internacional. Estou

pensando em...

- Pensando em quê? - desafiou Vajpayee. - Em me matar como
faz com qualquer um que fala o que pensa? Eu lhe digo uma coisa:
prefiro morrer a viver desta maneira! No escuro! Sofrendo dores! Sem
nenhuma possibilidade de alívio. E, apesar disso, o senhor está...
- Apresente-se, Raman! Imediatamente!
O indiano correu para a frente, empurrando quem estava no
caminho. Para Rayford, ficou claro que ele estava simplesmente seguindo

o som da voz de Carpathia, incapaz até mesmo de enxergar o brilho.
- Estou aqui, distante um braço do senhor! Mate-me por eu ter
ousado falar o que penso ou revele-se como um covarde!
- Suhail - ordenou Carpathia -, tire este homem daqui e execute-o.
-O senhor é mesmo um covarde! Não vai usar suas mãos para
me matar! Pelo menos tenha um pouco de respeito comigo.
- Eu só sinto desprezo por você, Raman. Você arruinou sua
posição dentro da Comunidade Global e eu...
- Mate-me com suas mãos, seu medroso...
Ao ouvir estas palavras, Carpathia arremessou-se em direção ao
indiano, permitindo, assim, que um enxergasse o outro. Os dois homens
começaram a lutar enquanto os outros ouviam aterrorizados. Carpathia
conseguiu agarrar a cabeça do homem com as mãos. Com uma forte
torção, ele quebrou o pescoço de Vajpayee, e o homem caiu morto no
chão.

- Há outros dissidentes aqui? - perguntou Carpathia. - Alguém que
prefira morrer a sofrer pela causa? Hem? Se não há, prossiga, Suhail, e
quando terminar, tire este corpo daqui.
Ainda abalado, Akbar conseguiu controlar seus gemidos de dor
enquanto relatava que uma aeronave havia pousado em Nova Babilônia


naquela tarde.

-Só podemos imaginar que a aeronave estava ligada no piloto
automático - ele disse -, mas não temos registro do equipamento.
Solicitamos cautela por parte de todos, porque deve haver subversivos
entre nós.
-Se não conseguirmos que os ocupantes da aeronave se
identifiquem - disse Carpathia -, eu mesmo vou inspecioná-la depois
desta reunião.
- Esta é a nossa deixa - Rayford cochichou ao ouvido de Otto. -
Temos de sair daqui antes disso.
Enquanto eles começavam a sair sorrateiramente da sala,
Carpathia prosseguiu:

- Conforme vocês sabem, estou determinado a pôr um fim em
nosso problema com os judeus, e se isso incluir os judaístas covardes
que continuam escondidos nas montanhas, tanto melhor. Estou
convocando uma reunião com todos os dez líderes das regiões globais
daqui a seis meses. A reunião será em Bagdá e terá a finalidade de traçar
nossa estratégia para livrar o mundo de nossos inimigos. Nesse ínterim,
nosso posto de comando será transferido para Al Hillah, onde há luz.
Conforme é do conhecimento da maioria de vocês - e se for novidade,
espero que tratem o assunto com total discrição -, em Al Hillah está
localizado nosso imenso depósito de armamento nuclear, voluntariamente
entregue a nós por todo o mundo. Isto nos será muito útil neste derradeiro
esforço para encontrarmos uma solução final.
- Enquanto as outras partes do mundo se preparam para cerrar
fileiras comigo, planejo começar a reunir forças de combate em Israel.
Todos os militares dos Estados Unidos Carpathianos que ainda não foram
designados para trabalhar como soldados das Forças Pacificadoras ou

Monitores de Moral deverão apresentar-se no vale de Jezreel para
treinamento de combate.

- Quanto ao nosso deslocamento para Al Hillah, estejam prontos
em 24 horas. Levem tudo o que for necessário para ajudá-los nessa
transferência.
- E quanto aos nossos funcionários, nossos departamentos?
- Continuarão aqui, e eles não devem saber para onde vamos,
nem que estamos indo. Entendido?
Rayford já estava do lado de fora da porta quando constatou que
ninguém respondeu.

-Entendido?
- Sim - murmuraram alguns.
- Então, mãos à obra. O Sr. Akbar, o reverendo Fortunato e eu
vamos nos dirigir ao aeroporto.
Rayford fez um sinal para que Otto o acompanhasse e correu para
os elevadores.

- Chame todos os elevadores e aperte todos os botões. Retarde
esses elevadores o mais que puder. Vou descer pela escada. Não tenho
idéia de onde meus amigos estão, mas preciso deixar um bilhete no
apartamento de Chang caso eles voltem para lá. Temos de sair daqui
antes que Carpathia descubra a identidade de nosso avião e onde
estamos. Entendeu?
- Entendi. Obrigado por confiar em mim.
- Você estava esperando ir conosco? Isso só será possível se
você...
- Não, vamos deixar esse assunto para mais tarde. Não quero ir
sem meus companheiros.
- Se você encontrar meus amigos antes de mim, mande-os para o

avião.

Rayford desceu correndo a escada, provocando gritos estridentes
do povo sofrido que estava sentado nos degraus. Alguns perguntaram,
aos brados, como ele conseguia correr daquela maneira no escuro.
Rayford detestava ter de desprezá-los.

Quando chegou ao piso principal, ele saltou por cima de várias
pessoas e correu em ziguezague no meio de outras. Passou rapidamente
pela porta e disparou rumo ao avião. Se conseguisse ligar o motor e
posicionar a aeronave, ficaria esperando e orando para que Chang,
Naomi e Abdullah estivessem a caminho.

Buck dormiu profundamente durante horas até o momento em que
alguma coisa começou a perturbá-lo. Ele foi ficando cada vez mais
agitado e acordou de repente. A sensação era de culpa por ter deixado
Chloe de vigia depois de ela ter trabalhado arduamente o dia inteiro nos
assuntos da cooperativa e cuidado do filho. Que tipo de marido ele era?

Passou as mãos no cabelo, sentou-se na cama e gritou:

- Está tudo bem, querida?
Talvez ela estivesse no quarto de Kenny. Ou preparando chá na
cozinha. Buck saiu do quarto, espreguiçando-se.

- Chloe! - ele chamou. - O detector de movimento está sinalizando
alguma coisa aqui!
Ele se curvou para olhar no periscópio e fez uma rápida
exploração. Não havia ninguém. De repente, ao virar o aparelho para
sudoeste, ele avistou um vulto sozinho, armado.

- Chloe! - ele gritou, com a testa franzida. - É melhor chamar

George. Estou vendo um fantasma às oito horas da manhã. Chloe?

O sangue de Buck gelou. Ele se levantou e foi até a cozinha. Tudo
escuro. E Kenny estava chorando. Buck pegou o telefone a caminho do
quarto de Kenny e digitou o número de Ming.

-Ei, garotão - ele disse.
O menino, em pé na cama, passou rapidamente do choro ao riso.
-Mamãe?
- Ela já vem. Deite mais um pouco e volte a dormir. Ainda está
escuro.
Ming atendeu.

-Peço desculpas por despertá-la, Ming, mas tenho uma
emergência aqui.
- Estou às ordens, Buck.
- Você poderia cuidar de Kenny por alguns instantes? Acho que
Chloe saiu.
- Chego aí em um minuto.
Ele agradeceu a Ming e ligou o walkie-talkie.
- George, você já está em pé?
QUATRO

Rayford já havia ligado os motores e feito uma manobra de meia-
volta com a aeronave quando avistou a luz de Carpathia ao longe. O
potentado parecia apressado, mas, por ter de conduzir Suhail Akbar e
Leon Fortunato, ele tinha de andar lentamente para iluminar o caminho
para os dois.

No entanto, essa luz não ajudaria muito sem o ronco dos motores


do jato, portanto Rayford desligou tudo e orou para que aquele trio com
dificuldade para enxergar se perdesse no caminho, para dar tempo ao
outro trio - seus três companheiros - de encontrá-lo.

Rayford pegou seu celular e ligou para Mac McCullum em Al
Basrah para contar-lhe as novidades.

- Você e Albie podem seguir para Al Hillah hoje?
- Estamos sentados aqui como dois patetas, sem fazer nada.
- Pelo que entendi, a resposta é sim. Vocês estão muito visados
depois do que aconteceu na Grécia. Como vão conseguir andar por aí?
- Com muita conversa, charme, e viajando somente à noite, é
claro. Acho que você está querendo saber o que NC e seus garotos estão
aprontando.
- O ideal seria que vocês descobrissem onde eles vão se reunir
em Bagdá e instalar nesse lugar um sistema de escuta para nós.
- Ah!, claro. Eu vou dizer ao pessoal de lá que sou o novo criado
pessoal dele e perguntar se posso passar algumas horas na sala de
reunião antes da chegada deles.
- Se fosse tão fácil assim, eu mesmo faria isso – disse Rayford.
- Albie conhece todo mundo. Se tiver de ser feito, pode contar com
ele.
Chang, Naomi e Abdullah chegaram, cada um carregando várias
caixas e maletas. Naomi estava pálida como um lençol. Rayford abriu a
porta e abaixou a escada.

- Chegaram na hora exata - ele disse.
- Providenciamos tudo, capitão - disse Abdullah. - Graças a este
jovem gênio.
- Só estava fazendo algumas demonstrações - disse Chang,
colocando sua bagagem dentro da aeronave e ajudando Naomi a entrar.

- Eu queria mostrar a ela como David grampeou o palácio inteiro e
que podíamos ouvir tudo o que se passa no escritório de Carpathia.
- Então você sabia que ele estava vindo - disse Rayford,
permitindo que Abdullah se sentasse na poltrona do piloto.
- Por favor, vamos mudar de assunto? - disse Naomi. Aquelas
palavras provocaram um silêncio constrangedor.
Rayford atreveu-se a olhar para trás. A pálida silhueta alaranjada
estava caminhando mais rápido. Carpathia devia ter abandonado Akbar e
Fortunato ou os dois estavam sofrendo dores muito fortes.
Aparentemente, o sofrimento não atingira Carpathia. Talvez Deus
estivesse reservando outra coisa para ele.

Rayford e Abdullah evitaram fazer uma inspeção formal da
aeronave e verificaram apenas os pontos críticos.

-Ligue os motores - disse Rayford.
Mas Abdullah continuou parado, esticando o pescoço para ver a
luz aumentar cada vez mais de tamanho à medida que se aproximava do
avião.

- O que você está esperando, Smitty? Vamos embora.
- Um momento, por favor, capitão. A que distância você acha que
ele consegue enxergar?
- Até onde o brilho dele alcança. Agora vamos.
- Um momento, por favor.
- O que está havendo, Sr. Smith? - gritou Naomi. - Aquele não é
Carpathia?
- Ele não sabe para onde está indo. Mas eu sei.
- Assim que ligarmos o motor, ele não vai poder fazer nada - disse
Rayford. - Mas é melhor que ele não saiba quem somos.
-Ele não vai saber - disse Abdullah.

Rayford inclinou o corpo sobre Abdullah e viu Carpathia correndo
na pista, cerca de seis metros atrás da aeronave.

- Lá vamos nós - gritou Abdullah, acionando os motores e
deixando a luz alaranjada para trás, até a figura de Nicolae desaparecer
ao longe.
Assim que ganharam altitude, Naomi inclinou-se para a frente.

- Posso falar com o senhor? - ela perguntou. Rayford tirou os
fones de ouvido. - Vocês acham tudo isso normal?
- Hoje, nada mais é normal, Naomi. Você tem visto muitas coisas
com os próprios olhos.
- Nunca ouvi falar que um homem foi assassinado. E nunca andei
no meio de tantas pessoas feridas sem poder fazer alguma coisa por
elas. Estamos isolados em Petra, e eu gostaria de estar no meio da ação.
Nunca vi nada semelhante a isto, mas está tudo bem comigo. E vamos
poder fazer coisas em nosso centro de informática que jamais imaginei.
- Você passou por situações difíceis, sinto muito - disse Rayford. -
Eu também passei.
Ele contou sobre a conversa que teve com a assistente de Nicolae
e como procurou ajudá-la.

- Vamos procurar o nome do tio dela no sistema - disse Naomi. - E
acho que também vamos receber notícias do Sr. Weser.
- Espero. Que sujeito bom!
Naomi aproximou-se um pouco mais de Rayford. Apesar de ter de
falar alto por causa do ruído dos motores, ela conseguiu que só Rayford
ouvisse suas palavras.

-Chang não está bem.
-O que houve?
- Por pior que tenha sido, ali era o seu lar. Ele deve estar

estranhando ter de abandonar tudo.

- Pensei que ele ficaria feliz por sair de lá.
- Eu gostaria de ter conhecido o Sr. Hassid, aquele homem do
qual Chang tanto fala. O que eles fizeram no palácio e os equipamentos
que instalaram onde estamos morando...
Rayford assentiu com a cabeça.

- Você acha que vai ser capaz de fazer a mesma coisa em Petra,
isto é, monitorar esse lugar?
- Com a ajuda de Chang, sim. Vai ser maravilhoso poder contar
com ele.
-Ele vai concorrer com você?
-Acho que não. Vou deixar que ele faça o que quiser. Ele gosta
de assuntos técnicos, de lidar com as partes internas do computador,
muito mais do que lidar com pessoas. Mas ele poderá dar aulas, se
quiser.
O celular de Rayford soou. Era George Sebastian.

- Faz tempo que estava querendo falar com você. Seu celular
estava desligado? - George perguntou.
- Deixei-o desligado para cuidar de uma missão no palácio. Estava
esperando vocês acordarem para contar as novidades. Ainda é noite aí,
não?
-Temos um problema.
- Por que está sussurrando? Onde você está?
-Fora do esconderijo.
-Que horas são aí?
- Quase cinco. Não conseguimos encontrar Chloe.

Buck concluiu que o vulto que havia visto através do periscópio
era o de Chloe, mas onde ela estava? Fazia parte do comportamento dela
sair sem um walkie-talkie ou um telefone, o que Buck considerava uma
estratégia e não uma imprudência. Mas ele teria dificuldade para
convencer o pessoal.

Ele e George haviam se separado, ambos armados e em
constante contato um com o outro. George descobrira o caminhão da CG
vazio - que devia ser uma espécie de chamariz - mas não viu ninguém da
CG nem Chloe. Buck esperava não ter de chamar outras pessoas para
ajudá-los, porque não queria expor seus companheiros nem o esconderijo.


Duas horas depois, quando o sol despontou no horizonte, Buck e
George tiveram de retornar ao esconderijo. Eles haviam percorrido uma
área de dois quilômetros quadrados, sem encontrar nada.

Quando chegaram ao esconderijo, todos já estavam em pé,
preocupados, orando e ansiosos por saber notícias de Chloe. Ming Toy
levou Kenny e Beth Ann, a filha de George, para sua casa "pelo tempo
que for necessário".

George e Priscilla instalaram um centro de comando na sala de
operações. Ree Woo, sentado diante de uma mesinha dobrável em um
dos cantos, folheava os arquivos para ver se encontrava algum codinome
que não havia sido usado ou que não estivesse comprometido.

Buck admitiu que pouco poderia ajudar.

-Estou paralisado.
- Pare de pensar no pior - disse George. - Desse jeito, você não
está ajudando nem Chloe nem nós.
Buck olhou firme para George, sabendo que seu companheiro


estava certo.

- Para você, é fácil falar, Sebastian. Não é a sua mulher que está
lá fora.
Priscilla olhou para o outro lado. George deixou seus papéis
caírem sobre a mesa e aproximou-se de Buck. Colocou as mãos nos
braços da poltrona de Buck e ficou frente a frente com ele.

- Vou dizer uma vez só. Se minha esposa estivesse lá fora, eu não
ficaria sentado aqui com as mãos no colo. Devo um favor enorme a sua
esposa. Ela arriscou a vida por mim na Grécia. Posso imaginar como
você se sente. O fato de não sabermos nada é melhor do que saber que
aconteceu o pior. Talvez você esteja furioso com Chloe porque ela não
obedeceu ao protocolo e infringiu várias regras.
- Talvez - ele prosseguiu - você esteja se sentindo culpado por ter
se zangado com sua mulher e agora está com medo de que tenha
acontecido algo com ela. Eu não culpo você. Não culpo mesmo. Mas vou
lhe dizer uma coisa. Precisamos da ajuda de todos, principalmente de
alguém com sua inteligência. Eu lhe faço uma pergunta: você quer
descobrir onde Chloe está para trazê-la de volta sã e salva ou quer
pensar no pior e começar a chorar desde já?
-George! - ralhou Priscilla.
- Não estou pretendendo ser duro demais com ele - disse George.
- É que não há nada que possamos fazer lá fora durante o dia, a não ser
que a gente saiba que o terreno está livre ou que existe alguém com um
bom disfarce e um codinome. Enquanto isso, vamos ter de ficar calmos e
planejar uma estratégia, e não queremos que Buck continue sentado aqui
se sentindo infeliz...
- Muito bem, George, já entendi! Certo?
-Você e eu estamos entendidos?

-Claro.
- Você acha que saí daqui no meio da noite para brincar?
- As notícias não são boas - disse Ree. - Os nomes "Chloe Irene"
de Chloe e "Howie Johnson" de Mac foram descobertos depois do que
houve na Grécia. O nome de "Indira Jinnah" de Hannah ainda está limpo,
mas só ela pode usá-lo, e ela está muito longe daqui. As identidades de
cidadãos do Oriente Médio utilizadas por Rayford e Abdullah continuam
válidas, mas Abdullah está em Petra e Rayford vai precisar de descanso
quando chegar aqui.
- Não tenha tanta certeza assim - disse George. - Ele vai querer ir
até o fim.
- Tenho certeza - disse Buck.
- O nome de "Comandante Elbaz" usado por Albie já está
comprometido? - perguntou Ree.
Buck assentiu com a cabeça.

- Infelizmente, sim.
- Ele também está muito longe daqui - disse George. - Temos
mais alguém?
- Temos mais um. "Chang Chow", o nome masculino que Ming
adotou.
- Não vamos pôr a vida de Ming em risco - disse Buck.
- Por que não? - estranhou George. - Ela ainda tem a farda. Pode
cortar o cabelo e...
- Ei! - interrompeu Ree. - Você está falando de minha noiva.
-E daí?
- Pelo menos ela precisa ser consultada.
- Não, Ree - disse George. - Acho que devemos arrastá-la até
aqui, segurá-la e cortar o cabelo dela.

- Calma, rapazes - disse Priscilla. - Ninguém me conhece. Eu
poderia inventar um codinome e...
- Você não - disse George.
- Agora a pimenta ardeu nos seus olhos, não? - disse Buck. - A
idéia de sua mulher sair daqui...
- Pare com isso! - disse George. - Eu só acho que ela é
inexperiente e não tem muita saúde.
- Ming não tem um bom físico - disse Ree. - Não recebeu
treinamento para lidar com armas.
- Não me venha com essa - disse Buck. - Ela trabalhou no PRFB.
-Cuidar de detentas em uma prisão feminina não é o mesmo que
resgatar um de nós das mãos da CG.
- De qualquer forma, ninguém daqui gostaria que ela fizesse isso disse
George. - Buck e eu, e talvez você, Ree, temos de resgatar Chloe.
Vamos precisar de Ming, ou de outra pessoa, para descobrir onde ela
está.


Quando estava no meio do caminho para voltar ao esconderijo,
Chloe avistou outros dois veículos da CG, que rodavam em direção ao
sul. Enquanto ela observava, os dois caminhões pararam, e mais de meia
dúzia de homens desceram de cada um dos veículos. Ficou claro que
eles levavam adiante um cuidadoso plano de encontrar acampamentos
clandestinos. E a casa secreta subterrânea ficava no caminho deles.
Talvez estivessem com ar de tédio quando Buck os viu pelo periscópio
poucas horas antes, mas haviam notado alguma coisa estranha.

Aqueles homens tinham o semblante compenetrado. Carregavam


detectores de metal, sondas e alguma coisa parecida com aparelho para
descobrir substâncias radioativas. Chloe não sabia se teria tempo de
correr de volta ao esconderijo para alertar os outros. Se calculasse mal o
tempo, levaria a CG diretamente ao esconderijo.

Determinada a distraí-los e desviar o rumo deles, ela começou a
caminhar novamente. Queria que eles a vissem, mas sem perceber que
ela estava fazendo isso de propósito. Ela caminhava com passos furtivos,
mas determinados.

Em vez de seguir à direita e dar meia-volta para chegar à entrada,
Chloe continuou a caminhar na direção oeste, mais para o sul. Quando
ouviu um dos veículos vindo em sua direção, ela começou a andar mais
depressa e, em seguida, correu a toda velocidade. Não conseguiria ir
mais depressa que o caminhão, mas talvez pudesse chegar aonde ele
não chegasse.

A Uzi, por mais leve que fosse, começou a ficar pesada. Fazia
mais sentido livrar-se dela e vir buscá-la depois, a não ser que Chloe
acreditasse ser capaz de dominar um ou dois pelotões da CG com ela.

Chloe jamais teria condições de explicar o uso de uma arma como
aquela. Ao ouvir o ronco de um caminhão - talvez dois - a cerca de um
quarteirão e rodando rápido, Chloe deu meia-volta e atirou a Uzi e a
máscara de esquiar atrás de algumas árvores. Retomou o ritmo dos
passos e correu cerca de 500 metros. Sua idéia tinha dado certo. Agora
os dois caminhões a seguiam.

Ao ver que estava bem longe do esconderijo, Chloe decidiu que a
melhor atitude seria a de indiferença, portanto abaixou a cabeça e
continuou a correr. O caminhão da frente emparelhou com ela, mas Chloe
não olhou para ele.

Da janela do lado do passageiro, uma moça gritou:


- Quer uma carona?
-Não, obrigada.
-Entre.
- Não, obrigada. Estou bem.
- Queremos fazer-lhe algumas perguntas.
-Pode fazer.
-Vamos lá, pare e venha conversar conosco.
- Converse comigo onde estou.
-De onde você é?
- Moro a uns dez quilômetros a oeste.
- Tempos atrás, havia ali um reservatório de água subterrâneo
proveniente de um tsunami (palavra japonesa usada para definir um tipo
de onda oceânica, gerada por distúrbios sísmicos).
- É claro que eu sei disso.
- O que está fazendo aqui?
-Correndo.
- Como chegou até aqui?
-Correndo.
-Para onde está indo?
-Para casa.
-Como se chama?
-Febe.
Parece um nome bíblico.

-Febe de quê?
- Febe Evangelista.
-Nome estrangeiro?
- Meu marido é. Ele é WASP [Protestante Branco Anglo-saxão]
-Você tem um documento de identidade?

-Não está comigo.
- Muito bem, senhora, vou ter de pedir que pare e venha conversar
conosco por alguns instantes.
- Não, obrigada. Você poderá acompanhar-me até em casa, se
quiser.
Vou me distanciar do esconderijo até cair de exaustão.

- Preciso saber de que região você é. Também quero ver sua
marca.
- Não vou tirar o capuz nem as luvas porque está frio e estou
transpirando.
- O quê? Você recebeu a marca na testa e na mão? Chloe fez um
gesto de pouco caso e continuou a correr.
O caminhão saiu da estrada e parou diante dela. Chloe desviou-se
dele e continuou seu caminho. Ouviu as portas sendo abertas e passos
de botas no asfalto. De repente, dois homens da CG apareceram e
começaram a correr a seu lado.

- Muito bem - disse um deles -, a brincadeira acabou. Pare ou vai
ter de entrar no caminhão. Vamos, a senhora sabe que podemos obrigála
a entrar à força, mas não há necessidade.
Chloe continuou a correr. O homem à sua direita atirou a arma ao
companheiro da esquerda, e, a seguir, passou os dois braços ao redor do
pescoço dela, forçando os joelhos no meio de suas costas. O homem
devia pesar uns 90 quilos. Chloe perdeu o equilíbrio e caiu de bruços no
chão. O sangue começou a escorrer-lhe pela testa. O homem pressionou
um dos joelhos na nuca de Chloe, puxou-lhe as mãos para trás e
algemou-as.

Desesperada para retardá-los, Chloe fingiu estar sem forças para
sair do lugar.


-Faça como quiser - disse um deles.
O homem segurou-a pelas algemas e arrastou-a em direção ao
caminhão. Ela continuou com o rosto encostado no chão, deixando que a
areia, os pedregulhos e o asfalto lhe ferissem a face.

Deitada de bruços ao lado do caminhão, ela só poderia ser
levantada do chão se forçasse os ombros para cima. Foi o que o homem
da CG procurou fazer.

- Há um jeito mais fácil - ele disse -, já que ela quer assim.
Ele agarrou-a pelos pés e dobrou suas pernas, forçando os
tornozelos a encostarem-se às algemas e amarrou-os ali com uma tira de
plástico. Em seguida, jogou-a dentro do caminhão.

Chloe tinha certeza de que havia fraturado uma costela. Durante o
percurso de 20 minutos até a sede da CG, ela começou a orar.

Deus, dá-me força. Permite que eu morra antes de delatar
alguém. Fica com Kenny, Buck e meu pai.

Ela se lembrou das histórias espetaculares que George contou
quando foi preso na Grécia. Ele não disse absolutamente nada a seus
captores. Se ao menos ela tivesse aquela coragem. Preferia ridicularizálos,
provocar a ira deles, deixá-los confusos. O que seria melhor? Ficar
sentada sem dizer uma só palavra ou enfrentá-los, para que eles
soubessem que ela não era uma presa fácil?

Tortura. Como enfrentaria uma tortura? Com a tua força, Senhor.
Permite que eu ofereça minha vida em troca da vida das pessoas que
amo.

Quando Chloe chegou à sede, eles retiraram suas algemas,
revistaram-na e perguntaram novamente seu nome e sua região. Ela não
disse nada. Passou cuidadosamente a palma da mão no rosto e sentiu os
ferimentos na testa e nas faces.


- Ela já nos disse. Febe Evangelista. Americana.
- Então deve haver o número -6 em algum lugar, escondido
debaixo de todo esse sangue. Pegue uma toalha molhada e limpe os
ferimentos.
Alguém segurou Chloe pela nuca e passou uma toalha em seu
rosto. Ela gritou de dor.

- Não estou vendo nada. Mas deve haver um número. Alguém
está procurando o nome e a descrição dela nos arquivos?
- Sim. Até agora, nada.
- Jock vai chegar às nove. Ela precisa tomar banho e vestir um
macacão limpo. E não se esqueçam das impressões digitais.
Chloe pensou em soltar o corpo e deixar que uma funcionária da
CG a despisse, a colocasse debaixo do chuveiro e tornasse a vesti-la,
mas obedeceu às ordens. Saiu do chuveiro com o rosto ardendo, vestiu
um macacão verde escuro e fechou as mãos com força.

Continuou com as mãos fechadas quando foi conduzida aos locais
para tirar foto e impressões digitais. Ela parecia tão diferente da aluna
que estudou em Stanford seis anos antes que não se preocupou com a
foto. Ninguém a reconheceria.

Uma mulher mexicana, do tipo matrona, procurou abrir a mão de
Chloe e disse:

-Primeiro a mão direita, por favor.
Chloe fez um movimento negativo com a cabeça.
- Vamos, querida. Você não vai querer me enfrentar. Vou tirar
suas impressões digitais e você precisa cooperar.
Chloe fez o mesmo movimento com a cabeça.

- Eu vou fazer isso, você entendeu? Será que vou ter de chamar
dois caras daqui para fazer você me obedecer? Se for assim, veja o que

costumamos usar.

A mulher mostrou a Chloe um fio de metal semelhante ao usado
pelos homens da "carrocinha" para laçar cães.

- Eu amarro este fio um pouco acima de seus pulsos. Quando ficar
bem apertado, você vai abrir as mãos. Não sei quem você é nem por que
está aqui, mas não vai querer passar por isso.
Chloe sacudiu novamente a cabeça, e a mulher solicitou ajuda
pelo rádio. Chloe resistiu quando dois homens chegaram, mas, conforme
a mulher dissera, o esforço não valeu a pena. Quando o fio de metal foi
amarrado ao redor de seus braços, ela abriu as mãos. A CG tirou suas
impressões digitais e enviou-as, via Internet, aos bancos de dados do
mundo
inteiro.

- Também fizemos uma leitura de seus olhos com a câmera,
querida. Vamos descobrir se você tem licença para dirigir, se cursou
faculdade ou se é casada. Vamos descobrir tudo sobre você.
Chloe esperava que a CG estivesse com falta de pessoal para
trabalhar. Talvez as informações demorassem a chegar, dando tempo
para que Buck, George e o restante do grupo viessem resgatá-la. Quem
eu estou enganando?

Rayford havia planejado descansar um ou dois dias antes de
voltar a San Diego, mas agora teria de sair de Petra assim que a
aeronave fosse reabastecida. A presença de Mac McCullum aguardando
por ele ali o deixou atônito.

- Buck já me contou - ele disse. - Penso que Tsion e Chaim

precisam saber o que aconteceu a fim de reunir o pessoal daqui para
orar. Albie já entrou em contato com Al Hillah e está resolvendo o
assunto, portanto não necessita de mim. Vou ser seu piloto.

- Mac, não posso lhe pedir que...
- Você não pediu. Eu me ofereci. Vamos lá. Se você não quiser
ficar para trás, é melhor se apressar.
Rayford não sabia como expressar sua gratidão a Mac. Assim que
ganharam altitude, Mac disse:

- Você pode pensar, orar, dormir ou conversar. Vou levar esta
lindeza aqui até San Diego. Não vejo a hora de rever aquele pessoal e
conhecer os novos. Meu palpite é que Chloe já está lá, aguardando sua
chegada.
- Eu estava pensando igual a você - disse Rayford. - Mas agora
estou tendo um pressentimento ruim, muito ruim. Se Buck e George não
encontrarem Chloe logo, ou se descobrirem que a CG a pegou, vamos ter
de tirar aquelas pessoas de lá.
-E levá-las para onde?
- Petra é o único lugar que me veio à mente.
- Chloe não vai dizer nada à CG. Se não a viram saindo do
esconderijo, não vão descobrir nada.
- Ela devia estar nas redondezas. Se ela não puder convencê-los
de que veio de outro lugar qualquer, com certeza eles vão vasculhar a
área.
Rayford segurou a cabeça com as duas mãos e procurou dormir.
Não conseguiu. Tudo o que ele podia fazer era orar. Chloe sempre foi a
garotinha preferida do papai. Ela adorava ir à escola, era curiosa,
decidida, obstinada. Foi a última pessoa da família a aceitar a Cristo, e
Rayford sabia que não leve participação alguma nisso. Ele a ensinara a


acreditar somente no que ela podia ver, cheirar e tocar.

Chloe sempre quis estar no meio da ação, e se alguém não a
colocasse lá, ela própria se encarregava de intrometer-se. Rayford
gostaria de censurá-la por isso, mas estava angustiado e com medo. Só
queria saber se ela estava em lugar seguro, na companhia de Buck e
Kenny. Ele sabia que, independentemente do que acontecesse, eles
voltariam a reunir-se um dia, e que isso ocorreria em menos de um ano.
Mas esse pensamento não o confortou.

Eles iriam para Cristo quando morressem, mas se sobrevivessem,
estariam com Ele aqui na terra por um período de mil anos. Porém, a
idéia de morrer ainda era algo temeroso. Aparentemente, os membros do
Comando Tribulação que morressem durante o ano seguinte seriam
mártires pela causa de Cristo, mas seus parentes e amigos chorariam por
eles, sentiriam saudades deles. E, pior ainda, Rayford não queria pensar
como seus queridos morreriam.

Talvez o sofrimento não durasse muito tempo, mas ninguém
gostaria de imaginar uma pessoa querida sendo submetida a torturas ou
agonizando.

Pai, Rayford orou, permite que o pior que possa acontecer seja
uma nova mudança para outro local. Não sou melhor que ninguém para
merecer um tratamento especial, para que protejas minha filha de
maneira sobrenatural. Tu não necessitas dela; não necessitas de nenhum
de nós. Mas nós nos entregamos a ti e confiamos que sabes o que estás
fazendo.

Jock era um homem alto e corpulento. Trajava uma farda que um


dia lhe serviu, mas agora estava tão apertada que lhe dificultava os
movimentos. Seus funcionários tiraram Chloe da pequena cela em que
ela se encontrava e a levaram para um cômodo um pouco maior, a sala
dele. Sentado diante de uma mesa de metal, Jock apontou para uma
cadeira, e Chloe sentou-se à sua frente.

Ele colocou uma pasta do tipo sanfona em cima da mesa e tirou o
paletó, deixando-o sobre o encosto da cadeira. Parecia exausto e soltou
um longo suspiro.

- Febe Evangelista. De onde você tirou esse nome? Chloe o
encarou. Ela notou um sotaque australiano e viu o número 18 em sua
testa. No dorso da mão direita havia uma tatuagem com o rosto de
Nicolae Carpathia.
- Você se importa se eu fumar?
Chloe ergueu as sobrancelhas e movimentou a cabeça
afirmativamente.

- Bem, eu não quero saber se você se importa ou não. Tenho
muito trabalho para fazer hoje, moça, e você está me atrapalhando.
- Vá direto ao assunto - disse Chloe.
- Ah!, ela fala - ele disse, tirando um pequeno charuto do bolso. Pensei
que você fosse uma daquelas que não gostam de falar. Bem, meu
serviço agora é você, e você não foi uma boa garota. Mentiu para meus
funcionários, não?

-Sim.

- Você quer dizer alguma coisa ou quer que eu conte o que nós
descobrimos?
Chloe encolheu os ombros.

- Não vamos extrair nada de você, vamos?
-Não.

- Demorou um pouco, mas conseguimos. Além de estarmos com
falta de pessoal, nossos sistemas estão com problemas e...
- Isso me corta o coração.
Jock pegou uma pasta.
- Pelo que descobrimos, imagino que isso seja verdade. Tenho
boas e más notícias esta manhã, Sra. Williams. Qual você prefere?
Então, era isso. Em poucas horas ela foi identificada pelas
impressões digitais e pela leitura feita em seus olhos.

-Você jamais vai me dar uma boa notícia.
- Não seja precipitada. Somos pessoas razoáveis, por mais que
você e seu pessoal pensem ao contrário e por mais que tentem
convencer aquele rebanho todo que segue um maluco chamado Ben-
Judá.
Tsion tem muito mais cérebro que dez homens da CG juntos.

- Tenho uma proposta a lhe fazer, senhora.
-Eu não quero ouvi-la.
- É claro que quer.
-Vou adivinhar. Minha liberdade em troca de algumas
informações?
- Você pode brincar de sabichona comigo, mãe, mas acho que
deveria me ouvir, porque a proposta que vou fazer tem relação com seu
bebê.
CINCO

O submundo do mercado negro em que Albie viveu compunha-se
de uma lista de operadores que, em sua maioria, eram conhecidos por


apelidos e iniciais. O próprio Albie havia escolhido para si o nome de sua
cidade natal, Al Basrah. As pessoas que necessitavam saber quem ele
era não tinham muitos problemas para obter informações a seu respeito.

Albie havia sido um dos três principais homens do mercado negro
do Oriente Médio. Depois de sua conversão, restaram apenas dois. E
com a morte de um deles, possivelmente levada a efeito pelo outro em
razão de um mau negócio, restou apenas um. E era aquele que Albie
precisava encontrar.

Ele nunca gostou de MM, ou Mainyu Mazda, mesmo nos tempos
em que fazia parte daquele grupo. Matar nunca foi novidade para Mainyu.
Era assim que ele mantinha sua reputação e autoridade. Se alguém
precisasse de alguma coisa, qualquer coisa, ele era a pessoa certa. Mas
pobre daquele que tentasse ludibriar ou passar aquele homem para trás.

Diziam que ele havia assassinado, com as próprias mãos, 12
pessoas - entre elas uma de suas esposas - por não cumprirem sua parte
em uma barganha. Ninguém se atrevia a calcular quantas mortes ele
perpetrara por intermédio de assassinos contratados.

Quem afirmava saber o número certo dizia que Mainyu
comemorava cada morte acrescentando a tatuagem de um MM no próprio
pescoço. Sua vida de assassino começou 20 anos antes quando ele
estrangulou um guarda em uma prisão do Kuwait.

A primeira tatuagem foi aplicada por ele próprio, usando uma
mistura de aparas de borracha das solas de seus sapatos, lascas da
pintura das grades da prisão e sangue. A aplicação foi feita com um clipe
de papel afiado, aquecido em um isqueiro. Ele tatuou o primeiro MM logo
abaixo do pomo de Adão.

A cada assassinato subseqüente, ele tatuava um MM de um lado
e de outro, portanto todos tinham condições de saber se o número de


pessoas mortas por ele era par ou ímpar.

Na última vez que Albie viu Mainyu, seu pescoço tinha um MM a
mais do lado esquerdo, e ele contou 12. As tatuagens recentes eram mais
nítidas e feitas por profissional. A que representava uma de suas esposas
tinha um leve toque feminino.

Albie propagou pelas ruas que queria ter uma conversa com
Mainyu. Depois de duas horas, alguém enfiou um bilhete por baixo de sua
porta contendo um endereço na área clandestina do comércio de rua da
ilha de Abadã, localizada no rio Chat el Arab, na região sudoeste do Irã.

Parecia que MM farejava dinheiro. A imensa refinaria de Abadã
era ligada aos campos petrolíferos do Irã por meio de oleodutos.
Evidentemente, Mainyu realizava seu comércio de mercado negro nos
arrabaldes da cidade.

Da mesma forma que todos os que não possuíam a marca de
lealdade a Carpathia, Albie só se aventurava a sair à noite. Ele e Mac
dividiam um flat em uma área abandonada de Al Basrah. O proprietário
não queria saber quem eram os inquilinos, nem se tinham a marca de
Carpathia, desde que o envelope estivesse recheado de dinheiro no
primeiro dia de cada mês.

Albie dissera a Mac que uma motoneta era o melhor veículo para
transportá-los de um lado para o outro pelo fato de ter um tamanho ideal
para ser guardada dentro de casa ou na mata, onde eles escondiam um
avião de pequeno porte.

Albie aguardaria o sol se pôr antes de aventurar-se a entrar em
uma balsa que o levaria com a motoneta para a ilha, onde ele encontraria

o endereço que ficava a uns 50 quilômetros de distância de sua casa.

Quando Jock, o grandalhão, resmungou que a hora do desjejum
de Chloe havia se esgotado, ela começou a salivar.

- Você já deve ter compreendido, madame, que não servimos
refeições a prisioneiros que não cooperam conosco. Ah!, talvez você
receba uma barra de cereal para mantê-la viva até o momento de sua
execução. - Ele deu uma batida de leve no arquivo. - Não posso ter
certeza enquanto não receber notícias da divisão internacional, mas tudo
isto aqui me faz pensar que assistiremos a um espetáculo. Você não
acha?
- Isso não é da minha conta.
- Mas seu bebê... como ele se chama?
Chloe nivelou os olhos com os de Jock e comprimiu os lábios. Ela
adorava pronunciar o nome de seu bebê. Kenneth Bruce Williams. Kenny
Bruce. Kenny B. Mas não diria nada àquele homem. Não havia nenhum
registro oficial do nascimento de Kenny, e a CG não tinha idéia se o bebê
era menino ou menina.

- Que mal pode haver se eu souber o nome dele?
- Febe Evangelista Filha.
Jock olhou para o teto.
- Sabe de uma coisa? Não achei graça alguma. Nem me causa
surpresa, porque estou acostumado a lidar com gente da sua laia. Dizem
que vocês são pessoas admiráveis, que perseveram até o fim, mesmo
sabendo que vão sair perdendo. Mas achei que você fosse uma pessoa
religiosa... Vamos lá, você não é religiosa? Achei que ficaria um pouco
preocupada com o destino de seu bebê. É uma menina? Que idade ela
tem?
- Olhe - disse Chloe -, você sabe quem eu sou, o que sou e o que

não sou. Sabe que não sou leal a Carpathia. Isso é punível com a morte,
portanto por que você não...

- Ei, espere um pouco, madame. Essas coisas ainda são
negociáveis. Não tire conclusões precipi...
-Não vou fornecer informação alguma para reduzir minha
sentença. Não estou interessada em passar a vida na prisão. Não vou
receber a marca mesmo que você prometa liberdade para minha família.
E todo mundo sabe que os que estão recebendo a marca agora também
são executados.
-Oh!, onde você ouviu isto? É terrível. E uma mentira também.
-Não acredito em você.
Jock recostou-se na cadeira e gritou:
-Nigel?
-Sim.
- Você poderia abrir a janela? Está muito abafado aqui. Um jovem
fardado entrou na sala e abriu uma janela deixando pesadas barras de
ferro à mostra. Não haveria meios de fugir dali.
- Considero justo mencionar o que tenho a lhe oferecer -
prosseguiu Jock. - Veja, sabemos muito mais coisas além de seu nome.
Sabemos que você abandonou a Universidade de Stanford seis anos
atrás. Sabemos que você é filha do primeiro piloto do potentado
Carpathia. Sabemos, e você também sabe, que seu pai se tornou
subversivo e que deve ter tramado o assassinato do potentado ou
participado dele.

- Seu marido também foi funcionário de Sua Excelência e agora
publica uma revista clandestina. Os dois têm fortes ligações com Tsion
Ben-Judá e Rosenzweig, o assassino traidor. E você, Sra. Williams, não é
nenhuma santinha. Não. Você dirige um mercado negro judaísta. Esse

mercado negro mantém vivos milhões de pessoas sem a marca, gente
que não tem o direito legal de comprar ou vender.

- Não, madame, você não tem direito a nada, a nenhuma troca,
nenhum favor, nada, nem mesmo para seu filho. Porque, acima de tudo,
você esteve envolvida em uma operação na Grécia onde se fez passar
por uma oficial da Comunidade Global.
- Como você sabe disto? - Chloe deixou escapar, sem pensar.
Haveria um espião no meio do Comando Tribulação? Ela nunca
desconfiou de ninguém.
-Só vou responder se você me contar algumas coisas.
- Para mim, tanto faz.
- Foi por causa da maravilha da tecnologia que faz a leitura da íris.
As câmeras normais de segurança, como aquelas que existem em
nossos escritórios em Ptolemaïs, foram capazes de fazer uma leitura de
sua íris e compará-la com uma anterior, quando você se matriculou na
Universidade de Stanford. Essa tecnologia tem pontos de referência em
número quatro vezes maior que as impressões digitais, e nunca houve
um erro sequer. Um sujeito do grupo de vocês matou uma pessoa de
nossa corporação naquele mesmo edifício, e perdemos o paradeiro dele.
Mas agora ele está vivendo nesta cidade, não é mesmo? A que distância
daqui? Muito longe do lugar em que você estava correndo?


Buck mal podia acreditar no que estava ouvindo. E aquelas
palavras partiam de Sebastian, que estava ali graças aos atos heróicos e
altruístas do Comando Tribulação, principalmente de Chloe.

- Não é fácil dizer isto, Buck - prosseguiu George. - Mas temos de

pensar que estamos pondo em risco a vida de 200 pessoas para salvar
apenas uma, e as probabilidades são quase nulas.

- Você está supondo que a CG a pegou - disse Buck.
- Ela pode estar em outro lugar qualquer. E mesmo que você
tenha razão, por que as probabilidades de agora são mais remotas do
que a sua, na Grécia?
- Eu sei, Buck. E não pense que quero ficar aqui sem fazer nada.
Mas existe uma grande diferença agora. O prisioneiro naquela situação
era um homem grande e forte, treinado para matar. Depois de tudo o que
Mac, Hannah e Chloe fizeram por mim, fiquei frente a frente apenas com
um de meus captores. Até mesmo naquela situação as probabilidades
eram remotas, e poderia ter dado tudo errado. Se eu falhasse,
comprometeria os três. Perderíamos quatro pessoas. Se invadirmos a
sede daqui, vamos pôr tudo a perder.
- E daí? Você acha que devemos deixar Chloe apodrecendo aqui
enquanto nos mudamos para Petra?


- Veja o que tenho em mente para seu bebê, Sra. Williams - disse
Jock -, caso você recupere o juízo e nos ajude um pouco. Acho que você
prefere que seu filho ou filha continue a ser educado da maneira
tradicional, como você e seu marido têm feito até agora. É claro que isso
vai contra os nossos objetivos. Queremos ver todas as crianças fazendo
parte da CG Júnior antes de se matricularem na escola. Mas, no seu
caso, estamos dispostos a fazer de conta que ele ou ela não existe, até
completar 12 anos.
- E quem vai educá-lo? - perguntou Chloe, piscando ao perceber

que a fome era uma tática excelente.

- Ah!, então estamos falando de um menino. Muito bem. Não quer
me dizer o nome dele? Assim, será mais fácil levarmos nossas
negociações adiante.
Chloe não respondeu. Aquilo não era nenhuma negociação. Ela
só precisava proteger Kenny por mais um ano, e a CG não poria as mãos
nele.

- Ora, vamos, Sra. Williams. Você é uma mulher inteligente. Sabe
que é muito valiosa para nós. Os judaístas têm sido um transtorno e, devo
admitir, um constrangimento para nós. Temos quase certeza de que seu
pessoal está por trás desse nosso probleminha em Nova Babilônia. Você
pode nos ajudar. Não sou tão ingênuo a ponto de pensar que você deseja
fazer isso, mas estou tentando apresentar-lhe um motivo. Você tem
muitas coisas para negociar conosco.
-Posso me levantar?
- Pode, mas devo avisá-la de que está trancada aqui. Sou três
vezes maior que você, mas só por brincadeira, digamos que você me
domine, que me jogue no chão, que quebre meu pescoço e me mate.
Mesmo assim, não vai sair daqui.
- Eu só quero movimentar um pouco o corpo, senhor.
- À vontade. E pode me chamar de Jock.
Ah!, agora você passou a ser meu melhor amigo.

-Ei, você quer comer alguma coisa?
-Claro.
- Eu também. O que deseja para o desjejum?
- Qualquer coisa. Não sou exigente.
- Mas eu sou. Gosto de coisas que entopem as artérias. Ovos,
bacon, lingüiça, torradas, panquecas com molho à beça. Você aceita?

Ele devia estar brincando. Chloe levantou-se com os braços
cruzados e virou-se para trás.

- Ora, vamos. Não consigo que você me chame pelo primeiro
nome. Não consigo que você me diga o que quer comer. Que tal? Vai me
fazer companhia? Vai querer o mesmo que eu?
- Eu já disse. Não sou exigente.
- Você também disse que estava com fome. Vou pedir o desjejum
para nós, viu, Chloe? Você se importa se eu a chamar de Chloe?
- A bem da verdade, eu me importo.
- Ah!, está bem, que seja assim. Você é a figura principal daqui.
Quero saber o que você deseja. Se o travesseiro de sua cela não estiver
macio, me avise. Ou avise a recepção.
Então, o jogo ia começar. Chloe o convencera de que não ia
cooperar, e ele agora se fingia de policial bonzinho. Ou não seria
fingimento? Jock passou por ela e chamou Nigel novamente. Chloe o
ouviu pedindo a comida que descrevera. Ele virou-se para ela.

- A comida servida aqui é a mesma que servimos nas celas,
Chloe, mas até os garçons estão sobrecarregados de serviço. Vamos
conversar enquanto aguardamos. Vejo que você não é uma pessoa
maleável. Eu não esperava que fosse. E não a respeitaria se fosse. O
acordo é o seguinte. Você sabe que não vamos libertá-la mesmo que nos
conte tudo. Como ficaríamos perante o público? Mas posso transformar
sua execução em prisão perpétua e mandá-la para uma penitenciária
onde você viveria em melhores condições. Eu lhe dou minha palavra.
Seria uma penitenciária de segurança máxima, é claro, mas seu filho
ficaria sob sua guarda até completar 12 anos.
O fato era que Kenny estava seguro com Buck, e se ela
conseguisse manter a sanidade, a situação não precisaria ser mudada.


Se ao menos ela pudesse alertar Buck para ele tirar todos do esconderijo
e levá-los para Petra!

Chloe sentiu uma leve tontura provocada pela fome.

- E esse acordo seria em troca de...?
- Receber a marca de lealdade seria o ponto principal. Sem isso,
nossa credibilidade iria por água abaixo. Com a marca, você continuaria a
viver em vez de morrer. Mas, se quiser ir para uma penitenciária melhor e
ter a guarda de seu filho, terá de nos contar o que sabe.
- Você deve estar achando que vou delatar meu pessoal.
- Estou, e sabe por quê? Porque você é uma mãe amorosa. Pensa
que seu pessoal não a entregaria em questão de minutos para não ter a
cabeça decepada pela lâmina da guilhotina? É melhor colaborar comigo.


Albie sentia um frio na espinha enquanto atravessava Abadã em
sua motoneta, com os olhos quase cobertos pelo boné. Al Basrah não era
um lugar melhor que aquele, mas Abadã talvez pudesse ser comparada a
Sodoma e Gomorra antes de Deus incendiar as duas cidades.

Nas ruas, eram praticadas todas as formas de pecado e
devassidão. O local que antes foi o lado mais sujo da cidade era, agora,
seu centro comercial. Filas e mais filas de bares, bandos de cartomantes,
prostíbulos, sex shops e clubes destinados a satisfazer a qualquer tipo de
perversão fervilhavam, oferecendo bebidas e mercadoria humana. O ar
estava impregnado de odor de haxixe. Vendia-se cocaína e heroína em
plena luz do dia.

Os soldados das Forças Pacificadoras e os Monitores de Moral da
CG costumavam fazer uma ruidosa batida policial duas vezes por semana


para manter as aparências. Mas com a redução do número de pessoal,
eles agora se concentravam em crimes contra o governo. Se alguém não
se curvasse diante da imagem de Carpathia três vezes por dia ou
deixasse de reverenciá-la, seria levado à prisão.

E se fosse pego sem a marca de lealdade? Tolerância zero. A CG
gostava de brincar com o povo dizendo que eles teriam uma última
chance. Quando uma alma profundamente agradecida se aproximava
ansiosamente do centro de aplicação da marca, era empurrada ou
arrastada, aos gritos, até a guilhotina para servir de exemplo.

Além da sujeira existente em Abadã, havia uma parte da cidade
que era pior ainda: o local onde Mainyu Mazda e seu bando exerciam seu
comércio. No mercado ao ar livre, onde as pechinchas e as trapaças
faziam parte do dia-a-dia, havia espeluncas camufladas, feitas de tábuas,
que consistiam apenas de paredes sem teto e uma porta com tranca. Um
encerado, jogado a um canto, poderia ser rapidamente preso a quatro
estacas para protegê-los da chuva.

Os homens do mercado negro e seus sequazes (um deles sempre
ficava de guarda do lado de fora) realizavam suas transações dentro
daquelas espeluncas, reunidos com pessoas que desejavam alguma
coisa, qualquer coisa, e estavam dispostas a pagar um preço alto para
consegui-la. Sem descer da motoneta, Albie desligou o motor e foi
arrastando o veículo com os pés pelos becos da cidade.

Em meio a bêbados dormindo havia também pessoas dementes,
mulheres de má reputação, homens e mulheres que vendiam
mercadorias das mais variadas espécies. Todos acenavam para o
homem franzino com roupa de couro que passava por eles arrastando a
motoneta.

Albie não olhava nem para a direita nem para a esquerda; seguia


seu caminho sem fitar ninguém nos olhos. Sabia aonde estava indo e
queria que todos soubessem. Não conseguia esconder certo orgulho ao
ver que seus negócios nunca chegaram a uma situação tão lastimável.
Evidentemente, o que Albie havia feito durante anos era ilegal, e não
havia justificativas para isso. Mas comparado ao que via agora, ele
trabalhara com dignidade. Construíra uma pista para aeronaves - sua
obra mais importante. E sua clientela era composta de homens de
negócio abastados e pilotos, bem como de gente de baixo nível e
trapaceira.

Porém, ele conhecia esse mundo e sua linguagem. Necessitava
da ajuda de um sujeito de má índole, mas que conhecesse pessoas
importantes. Precisava de alguém que mantivesse contato com o palácio
e soubesse onde seriam realizadas as reuniões em Al Hillah. Alguém que
pudesse informar onde estavam armazenadas as ogivas nucleares.
Alguém que, antes da chegada de Carpathia e seus asseclas, pudesse
entrar na sala de reuniões e instalar uma escuta clandestina ali, para
transmitir tudo em uma freqüência à qual apenas uma pessoa no mundo
teria acesso. Só Albie e seus companheiros sabiam quem era essa
pessoa: Chang em Petra.

Se dispusesse de um dia a mais, Albie poderia fazer esse serviço
com a ajuda de seus contatos, pessoas que apresentavam menos riscos,
menos problemas. Mas havia ocasiões na vida de um homem em que ele
precisava analisar suas opções e jogar o dado. E embora essa analogia
fosse estranha na nova vida em que ele levava, a ocasião havia chegado.

- Por favor, sente-se à mesa enquanto a porta vai ser aberta

brevemente, Chloe - disse Jock.

O aroma da comida era tentador, e ela sentou-se de costas para a
porta.

- Coloque aqui, Nigel, por favor.
Jock sentou-se de frente para ela, atirou um guardanapo a Chloe,
prendeu o seu, em grande estilo, acima do nó da gravata e abriu-o para
cobrir todo o seu peito e barriga. Chloe desdobrou seu guardanapo e
abriu-o sobre o colo enquanto Nigel ajeitava a bandeja abarrotada de
comida entre os dois.

Nigel colocou uma pilha de panquecas diante de Jock. Um jarro
com molho. Um prato com torradas, manteiga e geléia. Uma xícara
grande na qual ele despejou café fumegante, deixando o bule sobre a
mesa. Um prato enorme de ovos mexidos com bacon e rodelas de
lingüiça. Os talheres de Jock foram colocados ao lado do prato principal.

Em seguida, Nigel colocou uma faca, um garfo e uma colher
diante de Chloe. E ela continuou sentada ali, tendo apenas os talheres à
sua frente e o guardanapo no colo. Nigel pegou a bandeja vazia e saiu,
trancando a porta.

Jock esfregou as mãos e disse, mostrando os dentes:

- Não é uma maravilha? Nem sei por onde começar. - Ele puxou
os pratos para perto de si, pegou a faca e o garfo e ajeitou os ovos
mexidos para dar a primeira mordida. - Ah!, desculpe-me. Onde estão
minhas boas maneiras? Você quer agradecer a comida? Pedir a bênção?
Não? Então, eu mesmo faço isso. Obrigado, Excelência, pela delícia que
vou apreciar.
Jock enfiou um bocado enorme de ovos na boca, depositou-o na
bochecha direita para dar lugar a uma nova garfada de rodelas de
lingüiça, e falou com a boca cheia.


- Acho que Nigel se esqueceu da sua comida, não é mesmo,
Chloe? Ah!, mas está tudo bem. Você não está cooperando, certo? O
problema é seu.
O homenzarrão continuou sentado, lidando com a faca, o garfo e a
colher, lambendo os beiços, sorvendo o café com força e rindo.

- Tem certeza de que não quer um pouco? Não quer mesmo?
Está uma delícia. Mas o problema é seu. Se você cooperar, Nigel vai ficar
de olho em você, e aquela barra de cereal para dar energia será entregue
em sua cela, digamos dentro de uma hora, talvez duas, depois que você
desistir de lutar contra nós. E energia talvez não seja a palavra certa. A
barra de cereal vai servir para manter você viva até ser executada. Ela
apenas nutre, mas não proporciona energia. Mas você vai adorar comer
uma barra daquelas e aguardar ansiosamente por ela. Não vamos servir
bacon com ovos, e essas barras de cereais serão seu único alimento.


Albie parou diante de uma pequenina estrutura que parecia ser
feita de uma mistura de tábuas amarelas desbotadas com fios de arame e
pregos. A tranca ficava à mostra na porta, guardada por um homem alto e
magro que Albie reconheceu de anos antes. E, se Albie não estivesse
enganado, o nome do homem era Sahib, ex-cunhado de Mainyu. Excunhado
porque era irmão da esposa que Mainyu assassinara. Que
lealdade!

Albie desceu da motoneta e estendeu a mão. Sahib não estendeu
a sua e olhou-o de esguelha na escuridão.

- Está querendo vender essa moto? Veio ao lugar certo.
- Não. Quero falar com Mainyu, Sahib.

Ao ouvir seu nome, Sahib olhou firme para ele.

-Albie?
Agora o homem estava apertando sua mão. Ele levantou um
dedo, destrancou a porta e entrou. Albie ouviu uma conversa firme, em
voz baixa. Um desconhecido de olhar frio saiu dali e foi embora
apressado.

Sahib reapareceu e fechou a porta atrás de si.

- Aguarde dois minutos, Albie - ele disse, fazendo um gesto para
indicar que Mainyu estava falando ao telefone. - Cinqüenta Nicks para
tomar conta de sua moto.
-Vinte.
- Vinte e cinco.
- Combinado. Mas se ela não for encontrada do jeito que a deixei,
abro sua cabeça ao meio.
- Eu sei, Albie. Pagamento adiantado.
- Dez agora, quinze depois.
-Quinze agora.
Albie contou as notas. Ele esperava que haveria negociação, até
mesmo ameaças. O ruído de alguém limpando a garganta, vindo de trás
da porta, foi a deixa para Sahib permitir a entrada de Albie. Antes de
acompanhar Sahib, Albie avistou uma pequena mulher aparecer diante
deles, vindo de um cubículo a uns 30 metros dali.

- Espere - disse Albie. - Sahib, tome conta da moto.
- Eu disse que ia tomar conta. Ah!, ela é uma convidada que vai
participar da reunião.
A mulher jovem de olhos grandes e olhar severo, trajando um
manto da cabeça aos pés, tinha o número 42 na testa e carregava uma
sacola. Assim que Albie entrou, Sahib a empurrou para dentro, saiu e


trancou a porta.

Mainyu, iluminado por uma lâmpada movida a bateria, estava
sentado atrás de uma frágil mesa de madeira, tendo uma caneca diante
de si. Ao sorrir, ele exibiu uma fileira de dentes surpreendentemente
brancos.

- Albie, meu amigo, como vai? - ele disse, estendendo as duas
mãos.
- Vou bem, Mainyu. Mas devo insistir que meu assunto com você
é particular.
- Como sempre, claro. Por favor, sente-se.
Albie sentou-se em uma cadeira dobrável de metal enferrujado. A
mulher deu a volta na mesa, pegou uma caixa de madeira em um dos
cantos e sentou-se em cima dela, abrindo a sacola. Albie olhou para
Mainyu e ergueu a cabeça em direção à mulher.

- Ela? - perguntou Mainyu, com ar de pouco caso. - É uma artista
em tatuagens. Não tem ouvidos nem boca.
A mulher sorriu enquanto retirava seus instrumentos da sacola e
segurou a lâmpada diante de Mainyu para iluminá-lo melhor. Ele levantou

o queixo e, com a ajuda de uma mecha de algodão, ela aplicou um líquido
desinfetante em uma pequena área de seu pescoço onde uma tatuagem
igualaria os números de um lado com o do outro.
- Você sabe o que dizem sobre minhas tatuagens, não, meu velho
amigo?
Albie sorriu.

- Todo mundo sabe o que elas significam.
- Bem, verdade ou não, elas funcionam, certo?
-Sim. É verdade, Mainyu?
-Claro.

- Quem foi a ultima vitima?
- Você está perguntando quem vai ser?
- Como assim?
- Às vezes, eu providencio a tatuagem antes.


Mesmo contra a vontade, Rayford havia cochilado. E enquanto o
Gulfstream voava rumo aos Estados Unidos, ele começou a vasculhar
suas sacolas.

-O que está havendo, Ray? - perguntou Mac.
-Que horas são em Nova Babilônia?
-Perto de 22 horas.
- Então a manhã deve estar terminando em San Diego, e nada de
notícias. Buck prometeu ligar se eles tivessem descoberto onde Chloe
estava. Você se lembra do número principal do palácio?
-Eu nunca soube. E você?
-Sabia em épocas passadas.
- Deve ser fácil conseguir. Mas não há mais ninguém de nosso
pessoal lá, Ray. Você quer falar com alguém em Petra?
- Não. Você se lembra do que David ou Chang disseram? Que é
impossível rastrear esses telefones?
- Disso eu me lembro.
Mac passou a Rayford a combinação de símbolos e números por
meio dos quais ninguém poderia identificar de que local partiam as
chamadas via satélite feitas por aqueles telefones.

Rayford digitou o número da operadora internacional.
- Palácio da Comunidade Global em Nova Babilônia, por favor -

ele disse.

- Estou tentando completar a ligação - disse a telefonista -, mas lá
não há luz, portanto é provável que o senhor tenha de aguardar um
pouco.
-Obrigado.
- Você ligou para o Palácio da Comunidade Global em Nova
Babilônia. Por favor, tenha um pouco de paciência. Em razão de
problemas técnicos, pode ser que sua chamada não seja atendida
imediatamente.
E lá estava Rayford ouvindo novamente o "Salve Carpathia"
cantado pelo grande coral.

-Droga! - ele disse.
- Comunidade Global, para quem devo direcionar sua chamada?
-Krystall, por favor.
- No escritório do potentado?
-Claro.
- Senhor, já é noite aqui. Todos os escritórios estão fechados.
- Eu sei. Ligue para o apartamento dela, por favor.
- Posso saber quem deseja falar com ela?
- Eu mesmo digo.
- Eu preciso saber, senhor, caso contrário não vou acordar
ninguém a esta hora.
- Já que você precisa saber, diga a ela que é o tio Gregory.
-Um momento.
Mac olhou para Rayford, sem entender nada.
-Tio Gregory?
-É uma longa história.
- O vôo também vai ser longo. Não vejo a hora de saber do que se

trata.

- Tio Gregory? - disse Krystall, com a voz rouca por causa do
sono.
- Esta linha é segura? - perguntou Rayford.
- Acho que sim. Não sei. Você não é meu tio, é?
- Você sabe quem está falando.
- Você nunca me disse o seu nome.
- Você sabe que sou seu amigo.
- Só vou saber de verdade se você ajudar meu tio. Já transmiti seu
recado a ele.
- Já? Ele está acompanhando o site?
-Acho que sim.
- Pode acreditar em mim. Se seu tio fizer contato, nosso pessoal
vai conseguir tudo o que ele necessitar.
-Eu agradeço, mas por que você está ligando...
- Preciso de um favor.
- Eu sabia. Não posso...
- Peço que me deixe falar. Quando conversei com você, não tinha
idéia de que necessitaria de um favor. Eu preciso de uma informação que
só você pode me fornecer.
- Eu não posso fornecer infor...
- Trata-se de uma coisa relativamente simples - ele disse -, mas
não quero criar problemas para você.
- Ah! E qual é a diferença? Tanto faz. Ser obediente a ele também
não está resolvendo nada.
- Eu preciso saber se existe alguma notícia sobre a prisão de
alguém muito importante nos Estados Unidos Norte-americanos, uma
mulher jovem...

- Sim! Sim! Foi no final do dia, algumas horas depois do
encerramento do expediente. Ainda estávamos trabalhando por causa da
mudança amanhã à tarde. O Sr. Akbar chegou todo eufórico falando
sobre uma prisão em San Diego. A CG de lá prendeu alguém que tinha
ligações com os judaístas.
- Você sabe se eles estão planejando...
- É tudo o que eu sei. Verdade.
- Você não faz idéia do quanto me ajudou Krystall. Existe alguma
coisa que eu possa fazer por você?
-O que, por exemplo?
- Eu só gostaria...
- Se você puder me enviar um par de olhos... Não me lembro de
outra coisa mais importante.
SEIS

A artista em tatuagem calçou luvas de borracha e perguntou a
Mainyu Mazda, com sotaque indiano, se ele queria anestesia. O homem
recuou o corpo e olhou para ela.

- Eu nunca sei - ela disse. - Cabeça para trás, queixo levantado.
Albie sabia que seria bizarra uma reunião com aquele homem
nessa parte da cidade, mas nunca imaginou que teria de disputar espaço
com um procedimento dermatológico.

-Vá em frente, meu amigo - disse Mainyu, gesticulando. - Você
veio aqui para quê?
Albie inclinou-se para a frente, com os antebraços pousados na
mesa, e contou a MM sobre o serviço que necessitava ser feito


urgentemente em Al Hillah.

O aplicador de tatuagem movido a bateria emitia um clique alto e
rápido enquanto a mulher trabalhava. Mainyu estremecia o corpo mas
tentava animar Albie a prosseguir, balbuciando "hã, hã" e "hum".

Finalmente, ele disse:

- Um momento, Kashmir.
A mulher afastou-se e ficou segurando a agulha sob o brilho da luz
da lâmpada.

- Não é segredo para ninguém que você não é amigo do
potentado - disse MM.
Albie sorriu.

- Espero que seja segredo em alguns lugares.
- Por que não autoriza Kashmir a aplicar a marca de lealdade em
você? Escolha o número que quiser.
- Você sabe que não posso fazer isso, Mainyu.
- Ah! Sim. Agora você é judaísta e acredita em espíritos malignos.
-Espíritos malig...?
Mainyu fez um gesto de pouco caso.
- O seu pessoal não acredita que qualquer um que tenha a marca
de Carpathia vai para o inferno ou algo parecido?
- O mais importante de tudo é a quem nós somos leais. MM olhou
para Kashmir, recostou-se na cadeira e sorriu para Albie. Em seguida,
soltou uma sonora gargalhada.
- Você não vai começar a falar dessas coisas para mim, vai, meu
velho amigo? Estou achando que sim.
- Não, você já fez a escolha. Eu também gostaria de saber por que
você tem um 72 e não um 216.
-Você acha que sou amigo do regime internacional?

-Bem, eu...
-Acha que minha marca é autêntica? Você me conhece muito
bem.
Depois de dizer isso, ele cuspiu.

- Mas a punição para uma marca falsa é pior que a morte - disse
Albie.
- Tortura em público, eu sei - disse Mainyu. - Mas a CG não está
interessada em mim. Só quer saber como posso ser útil a eles. Se eu
fosse exibir a marca de alguém a quem sou leal, teria de ser o número 1..
O que dizem os nossos amigos mexicanos, Albie? "Preste atenção ao
número uno!". E se eu não fosse útil à CG, seria enviado para a planície
de Jezreel da mesma forma que outros milhões de pessoas. Que tipo de
negócio eu poderia fazer lá?
- De que forma você é útil à CG?
Kashmir limpou um filete de sangue que escorria no pescoço de
Mainyu.

- Sou um homem de negócios, Albie. Procuro obter lucro máximo
gastando o mínimo, e agora estou ganhando muito dinheiro.
-Você...
- Entrego desleais às Forças Pacificadoras. Claro que faço isso.
Você quer saber quanto ganho com esse tipo de negócio? Vinte mil Nicks
por cabeça. O preço é igual tanto para vivos quanto para mortos. Prefiro
mais entregar gente morta. Quando a vítima morre, não há mais perigo,
ela não pode mais fugir, não pode criar problemas. Um saco plástico de
tamanho correto evita qualquer tipo de sujeira no carro. Está entendendo?
-Então, você é um fornecedor de...
- Para a CG, sim, claro. Se o lema dos homens de negócios é
pouca despesa e alto lucro, que melhor coisa pode haver quando não

gastamos nada e ainda saímos lucrando? Eles estão dispostos a pagar
pelo que eu faço.

Albie gostaria de saber quantos judaístas foram vítimas de
Mainyu.

- Quer dizer que meu pedido apresenta um conflito de interesses
para você? - perguntou Albie.
- Claro que não, meu amigo! Desde que você tenha trazido
dinheiro. Não sou amigo da CG. Simplesmente faço negócios com eles.
Meu interesse é lucro.
- Eu não sabia quanto custava esse tipo de serviço.
- Ah!, sim, você sabia. Não faz muito tempo que abandonou seus
negócios. E é claro que não esperava que eu aceitasse seu pedido sem
ver todo o dinheiro na minha frente. Além de tudo, você está pedindo um
serviço urgente.
- Você tem gente para fazer isso, equipamento e...?
- Você sabe que tenho tudo. O serviço vai ser feito. Desde que
você tenha o dinheiro.
- Alguns anos atrás, um serviço como esse custava 20 mil Nicks -
disse Albie.

- Então, suponho que você trouxe mais, considerando a inflação e
a natureza urgente do pedido.
Albie hesitou.

- Claro que trouxe, e você não vai cometer o erro de me enrolar,
porque sabe que é muito fácil para mim descobrir quanto dinheiro você
tem.
-É verdade. Eu trouxe 30 mil Nicks.
-Hummm.
- Claro que é suficiente. Cinqüenta por cento a mais deve cobrir a

inflação e a pressa.

- Não é suficiente - disse Mainyu. - Quero mais 20 mil.
Albie imaginou que o negócio estava prestes a ir por água abaixo.
Eles estavam na fase da pechincha, e qualquer grosseria de um dos
lados indicaria falta de respeito.

- Eu só trouxe 30 mil e é tudo o que estou disposto a pagar.
- Hã-hã. E está tudo com você ou uma parte ficou na moto?
- Você sabe muito bem que eu não faria isso, Mainyu. Quem
deixaria dinheiro nestes becos aqui?
Mainyu riu.

-Sahib!
O homem alto destrancou a porta e entrou.
- Quanto nosso amigo está pagando para você tomar conta da
moto dele?
- Vinte e cinco.
- Quanto ele ainda está devendo?
-Dez.
Mainyu virou-se para Albie.
- Você tem 30 mil mais os dez que deve a Sahib?
-Sim.
-Mais algum dinheiro?
- Uns trocados para a viagem de volta.
- Quero ver os 30 mil.
Albie enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou um maço de notas
embrulhado em papel celofane.

-Agora quero ver os dez que você deve a Sahib.
Albie jogou uma nota de dez em cima da mesa.
-Agora os trocados.

Do bolso esquerdo, Albie tirou algumas notas e moedas.

- Acho que tenho mais 15 - ele disse.
Mainyu comprimiu os lábios e levantou a cabeça, arqueando as
sobrancelhas para Albie.

- Ainda faltam 20 mil.
- Eu disse que estava disposto a pagar somente 30 mil.
- Então temos um problema. O que vamos fazer quanto aos outros
20?
Albie lutou para conter o riso. Sempre foi difícil barganhar com
Mainyu.

- Você está falando sério? - perguntou Albie. - Não vai aceitar os
30? Quer que eu procure outra pessoa para fazer o serviço?
- Ah, não! E deixar escapar o que está diante de mim? Não!
- E então, negócio fechado?
- Já está fechado, meu amigo. Pouca despesa e lucro alto.
Cinqüenta mil e alguns trocados sem gastar quase nada.
-Cinqüenta?
- Kashmir, ligue para o palácio, por favor. Chame o Sr. Akbar.
Sahib? Lembra-se do que aprendeu comigo sobre negócios? Soluções
criativas até se chegar ao ponto em que o negócio se torne lucrativo?
Sahib assentiu com a cabeça.

-Sim, Sr. Mazda.
- Sua arma, por favor.
Sahib entregou-lhe um revólver .44.
Mainyu Mazda levantou-o e girou-o nas mãos.
- Meu velho amigo e eu estamos separados por 20 mil Nicks, e a
solução é ele próprio. Qual é a recompensa por cidadãos sem a marca,
Sahib?

-Vinte mil.
- Somados aos 30, lucramos 50. Nem sequer vamos ter de fazer o
serviço.
Ele apontou o cano da arma entre os olhos de Albie e puxou o
gatilho.

O local de sua cela, pensou Chloe, era muito estranho. Consistia
de uma espécie de gaiola em um canto de um cômodo maior. Uma
prateleira grande de metal projetava-se da parede. Sua cama, ela
imaginou. Em um lugar bem visível, havia uma combinação de pia com
instalações sanitárias. Mas ela se preocupava com o que não havia ali.
Nada era movível ou removível. Não havia assento no vaso sanitário,
nem cobertor ou travesseiro. Nenhum material de leitura. Nada.

Atordoada pela fome, Chloe arrastou-se até a cama na parede e
deitou-se de lado, de frente para a porta. A cama era sustentada por tiras
trançadas de metal de cerca de dez centímetros de largura, que poderiam
ter cedido se ela pesasse uns 50 quilos a mais. Nem mesmo o sempre
presente Nigel estava à vista.

O cômodo em que a cela se encontrava estava bastante
iluminado, e os raios do sol atravessavam as janelas e as grades. Mas
tinha um aspecto desagradável, com seus azulejos, piso de linóleo e
barras de aço - tudo pintado com a tradicional cor verde.

Chloe queria gritar, dizer a alguém que estava com fome, mas o
orgulho sobrepujava o desconforto. Ela se sentou rapidamente quando
ouviu a porta ser aberta. Um homem com uniforme de agente
penitenciário entrou apressado. Em seu cinto havia alguns frascos de


produtos de limpeza ao lado de um telefone celular. Ele carregava um
trapo e tinha outro no bolso traseiro.

- Oh!, oi - ele disse. - Eu não sabia que havia alguém aqui.
- Você não tinha meios de saber - ela disse, jogando um pouco de
charme.
- Como assim?
- Eu estava andando por aí. Tranquei-me aqui como se fosse uma
idiota.
Ele riu. Seu sorriso era radiante.

- E você também teve a má sorte de estar usando um macacão
parecido com o de uma detenta. Que tragédia!
-Pois é, veja só - ela disse.
- Pode ser que você foi trancada aqui porque não tem gosto para
se vestir, não?
-Pode ser.
- Bem, eu só vim pegar um balde. Sucesso para você.
-Obrigada.
Ele pegou um balde em um dos cantos em que havia um aparelho
de TV preso à parede por um suporte e virou-se para sair. De repente, ele
parou e deu meia-volta.

- Eles permitiram que você desse um telefonema, não?
- Ah! Claro. Estou sendo tratada como uma rainha. Liguei para o
Papai Noel.
O homem depositou o balde no chão e aproximou-se da cela.
Olhou para a porta por cima do ombro e disse em voz baixa.

- Eu estou falando sério. Esta é a única coisa desagradável aqui.
Quero dizer, as pessoas recebem o que merecem por não terem aceitado
a marca, como você. Não sou tão ingênuo a ponto de pensar que elas

não devem ser julgadas por isso, mas o que aconteceu com o direito de
dar um telefonema? Isto aqui ainda é a América, não?

-Não é a América que conheci.
- Também acho. Ei, você gostaria de ligar para alguém?
-O quê?
- Mas prometa que não vai contar a ninguém, para não me criar
problemas.
-O quê? Ligar no seu telefone?
- Claro. Este aqui. - Ele tirou o celular do cinto e virou-o de lado
para passá-lo entre as grades. - Mas só uma ligação, e tem de ser rápida.
Depois, você precisa esconder o telefone. Ou deixá-lo no chão, do lado
de fora da cela, como se ele tivesse caído sem eu perceber. Volto daqui a
pouco.
- Você está falando sério?
- Sim. Que mal há? Vá em frente. Divirta-se, belezinha. Eu já
volto.
As mãos de Chloe tremiam enquanto ela se dirigia a um canto, de
costas para a porta. Então, eles pensam que sou uma idiota? Esta coisa
não deve estar funcionando, e se estiver, não vai funcionar aqui. Mas
valia a pena tentar. Ela precisava falar com alguém. Não queria correr o
risco de ligar para a casa secreta, imaginando que aquilo não passava de
uma trapaça e que qualquer chamada poderia ser rastreada. Chloe
discou o número de seu pai. Ele já devia estar em Petra.

Rayford ligou para o palácio e despertou Krystall novamente.

- Estive pensando em seu pedido - ele disse.

-Meu pedido?
-O par de olhos.
-Não brinque comigo.
- Não estou brincando. A idéia não me sai da cabeça. Talvez eu
conheça um par de olhos que você poderia usar. Você se lembra daquele
dia em que trocamos algumas palavras? Pouco antes, alguém abriu a
porta, fechou-a novamente e saiu correndo. Lembra-se?
- Como eu poderia esquecer? Foi quando você quase me matou
de susto.
-Ele também é crente, e pode enxergar aí em Nova Babilônia.
-Continue.
- Eu poderia falar com ele, convencê-lo a ajudá-la depois que
todos tiverem partido. Ele tem condições de ajudá-la, de dizer onde as
coisas estão, fazer tudo por você.
- O que você está querendo?
- Deve haver coisas nos arquivos que eu preciso saber.
-Muito mais do que você pensa.
- Está vendo? Ele a ajuda durante alguns dias ou pelo tempo que
for necessário, e você lhe dá acesso às coisas que podem me ajudar.
Combinado?
-E qual seria o interesse dele?
- Deixe por minha conta. Vou ligar para ele agora para ver se
podemos acertar tudo. Não, vou ligar para ele amanhã. Não faz sentido
despertá-lo.
- Não faz. Mas por que eu sou a única pessoa que pode ser
despertada a esta hora?
- Sinto muito. - Rayford ouviu um bip sinalizando que havia alguém
ligando para ele. - Aguarde um instante, Krystall. - Ele verificou o

identificador de chamadas. O código de área era de San Diego, mas ele
não reconheceu o número. - É melhor eu atender. Se conseguirmos
acertar tudo, vou pedir que o sujeito ligue para você.

Rayford apertou o botão de chamada duas vezes, terminou uma
ligação e atendeu a outra.

-Aqui é Steele.
- Papai, sou eu.
-Chloe!
- Por favor, só escute. Você ainda tem aquele recurso de gravação
em seu telefone?
-Tenho, mas...
- Acione-o imediatamente. Faça isso. Já fez? Está ligado?
- Sim, mas...
- Sei que esta ligação está sendo rastreada e que seu telefone
não vai mais poder ser usado, mas eu não podia ligar para o restante do
pessoal. Estou em uma prisão da CG em San Diego, e eles estão
tentando negociar comigo para pegar o resto do pessoal. Diga a Buck e a
Kenny que eu os amo de todo o coração e que se não puder vê-los aqui
na terra, estarei aguardando por eles lá no céu. Papai, a culpa foi toda
minha. Eu estava correndo a uns 50 quilômetros de casa quando tudo
aconteceu. Quero apenas que você saiba que, por enquanto, estou bem.
Enquanto passo o tempo sentada aqui, fico me lembrando daquela
viagem maravilhosa que você, mamãe e eu fizemos ao Colorado quando
eu tinha cinco ou seis anos. Você se lembra?
- Mais ou menos. Chloe, preste atenção...
- Papai, não posso falar muito. É importante para mim que você se
lembre daquela viagem!
- Querida, aquilo foi há mais de 20 anos. Eu...

- Exatamente! Mas foi muito especial, e eu gostaria que todos nós
pudéssemos voltar para lá. Meu maior sonho é podermos ir todos para lá
agora, o mais rápido possível.
-Chloe...
- Não diga nada, papai. Você sabe que eles devem estar ouvindo.
Só quero dizer que amo todo o nosso pessoal. Peça que orem para que
eu seja forte até o fim. Não vou fornecer informação alguma. Nada. E,
papai, pense na viagem ao Colorado para que pensemos a mesma coisa,
na mesma hora. Eu amo você, papai. Nunca se esqueça disto.
- Eu também amo você, querida. Eu...
- Adeus, papai. E ela desligou.


- Você foi treinado para ser um homem de combate, George -
disse Buck -, mas não pára de falar em arrumar as coisas para sairmos
daqui.

- Só quero que você saiba, Buck, que não vou me ofender com
suas agressões verbais enquanto Chloe não voltar sã e salva. Depois
disso, você vai ver.
- Ah! sim. Ela vai fazer picadinho de você, George - disse Priscilla.
Buck devia ter achado graça. George não gostava nem um pouco
quando Priscilla tentava, em vão, melhorar o humor dele. Só que Buck
estava desolado. Seu sogro acabara de descobrir onde Chloe estava, por
meio de seu contato no palácio. Mas a sede da CG em San Diego não
era um lugar fácil de ser invadido.

- A melhor coisa que temos a nosso favor - disse Sebastian - é
que, assim que eles souberem quem ela é, vão querer mantê-la viva. Ela

é muito valiosa para eles.

Buck sabia que isso era verdade, mas a idéia de sua amada
esposa estar sendo considerada mercadoria de guerra deixava-lhe um
gosto amargo na boca.

No final da tarde, Ming levou Beth Ann Sebastian e Kenny para a
sala de operações. Ree levantou-se rapidamente e abraçou Ming. Buck
sabia que a situação de Chloe o abalara. Ele gostaria de saber se Ree
estava reconsiderando a idéia de se casar.

Beth Ann correu para o lado da mãe e, depois, para o lado do pai.
Kenny, com a testa franzida, correu em direção a Buck e sentou-se em
seu colo.

- Ele não dormiu - disse Ming.
Buck assentiu com a cabeça e encostou o rosto de Kenny em seu
peito.

- Está com sono, rapazinho? - ele perguntou.
Kenny movimentou a cabeça negativamente.
-Quero a mamãe.
-Ela vai chegar mais tarde.
O menino fechou os olhos. Buck olhou para Priscilla e mordeu o
lábio, incapaz de conter as lágrimas.

- Esta é a parte que vou passar a detestar - ele disse, apenas
movimentando os lábios e com o peito arfando.
Kenny despertou, mas Buck ajeitou a cabeça do garoto sob o
queixo e passou os dois braços ao redor dele, balançando o corpo. E
chorando.

Priscilla soltou-se de Beth Ann, que correu para perto do pai, e
aproximou-se de Buck.

- Não abandone a luta, Buck - ela disse. - Nenhum de nós vai

abandonar.


Chloe queria ligar para todas as pessoas que conhecia, mas tinha
quase certeza de que sua conversa foi ouvida pela CG. Tudo havia sido
fácil demais. O sistema de posicionamento global (GPS) no telefone de
seu pai deveria ter indicado à CG onde ele se encontrava. Ela imaginara
Petra, mas pelos sons que ouviu, ele estava no ar. Por quanto tempo seu
pai e Abdullah ficaram em Nova Babilônia? E por que ele estava
retornando somente agora? Ela não conseguia entender. Evidentemente,
alguém o informara sobre o desaparecimento dela. Talvez ele estivesse a
caminho de casa. Ela só esperava que ele conseguisse livrar-se do
telefone antes de aproximar-se da Califórnia. A última coisa que ela
queria era levar a CG diretamente à casa secreta.

Chloe esticou o corpo o mais alto que pôde e atirou o telefone
através de uma abertura na cela. Ele voou mais de dois metros antes de
cair no chão e espatifar-se.

- Que pena - ela disse -, isso acontecer depois que aquele homem
bondoso me entregou seu telefone.
O homem retornou em seguida, ainda trajando o uniforme mas
sem nada nas mãos. Nenhum balde, nenhum produto de limpeza,
nenhum trapo. E nenhum sorriso também. Ele ajoelhou-se para ajuntar os
pedaços do telefone.

- Obrigada por ter-me emprestado seu telefone. Foi uma ótima
idéia. Talvez você possa me trazer um bolo com uma serra dentro ou
avisar meu pessoal. Peço desculpas pelo estrago.
- Está tudo certo, boneca - ele disse, sem olhar para ela. -


Conseguimos o que precisávamos. Parece que seu pai está um pouco
distante da costa leste. Deve estar reabastecendo. Vamos alertar todos
os aeroportos prováveis. Você devia fazer um favor a si mesma, colaborar
com Jock. Ele é um sujeito legal. É verdade. Não estou dizendo que ele é
um santo, mas é realista. Você tem a informação que ele quer, e ele sabe

o que vai ganhar com isso.
- Sem dúvida, amigo. Diga a Jock que estou pronta para o que der
e vier. Vou fornecer todas as informações que ele quiser, agora que sei
que ele é um sujeito legal. Foi você quem me disse, e eu o conheço muito
bem para confiar plenamente em você.
- Pode bancar a espertinha o quanto quiser, garota. Você vai ver
aonde vai chegar. Ah!, a propósito, Nigel conseguiu sua barra de cereais.
Devo dizer a ele que você está com fome?
Chloe sentou-se na cama de metal. Estava morrendo de fome,
porém o orgulho era maior que o desespero.

-Não. Tive um maravilhoso desjejum. Estou completamente
satisfeita.
- Talvez queira ver algum programa na TV.
- Deixe para lá. Já ouvi propagandas suficientes para o restante
da vida.
-Mas está na hora do noticiário.
- Ah! sim a eminente CNNCG, sempre tão objetiva. Ei, basta! O
volume está muito alto!
Ele fingiu que não ouviu. Deixou o volume nas alturas e dirigiu-se
para a porta.

-Abaixe o volume, por favor!
- Não estou ouvindo nada - ele disse. - O som da TV está alto
demais.

Jock devia ter engendrado tudo. O noticiário das 17 horas estava
começando. A âncora Anika Janssen falava ao vivo de Detroit.

- Boa noite. A escuridão continua a atormentar a sede da
Comunidade Global Internacional em Nova Babilônia. Ela está confinada
aos limites da cidade e acreditamos ser um ato de agressão da parte dos
dissidentes contrários à Nova Ordem Mundial.
- O Sr. Suhail Akbar, chefe do Serviço de Segurança e Inteligência
da CG, conversou conosco por telefone há poucos instantes, diretamente
da capital isolada pela praga. Apesar do tumulto existente naquele local,
ele tem boas notícias para todos nós, e esta vai ser a reportagem
principal desta noite.
- Sim Anika - disse Akbar - depois de meses de cuidadoso
planejamento e cooperação entre as várias filiais da Comunidade Global
que visam ao cumprimento da lei, temos a satisfação de informar que
uma força-tarefa combinada de agentes das Forças Pacificadoras e dos
Monitores de Moral logrou êxito na captura de uma pessoa do alto
escalão do grupo de judaístas que está aterrorizando o mundo.
- Após meses de planejamento, a prisão foi efetuada hoje em San
Diego, antes do alvorecer. Prefiro não fornecer detalhes da operação,
mas a pessoa suspeita foi desarmada e presa sem nenhum incidente.
Seu nome é Chloe Steele Williams, 26 anos, ex-radical do campus da
Universidade de Stanford, em Palo Alto, Califórnia, de onde foi expulsa
seis anos atrás por ter ameaçado a vida dos funcionários da
administração.
- Obrigada, chefe Akbar. Posteriormente, ficamos sabendo que a
Sra. Williams é filha de Rayford Steele, que trabalhou como piloto do
Supremo Potentado da Comunidade Global Nicolae Carpathia. Ele foi
demitido do posto anos atrás por insubordinação e embriaguez durante os

vôos, e o serviço de inteligência da CG acredita que o ressentimento o
levou a transformar-se em terrorista internacional. Ele também participou
da conspiração para matar o potentado Carpathia e tem ligações com o
ex-estadista israelense Dr. Chaim Rosenzweig, atualmente líder dos
judaístas. Eles estão a serviço do rabino Tsion Ben-Judá, chefe dos
judaístas, o último foco de resistência à Nova Ordem Mundial.

- A Sra. Williams é esposa de Cameron Williams, ex-famoso
jornalista americano que também trabalhou diretamente para o potentado
antes de perder o emprego em razão de diferenças no estilo de
administração. Atualmente, ele edita uma revista clandestina impressa e
também divulgada pela internet, com circulação limitada.
- Williams, sua esposa e o pai dela são fugitivos internacionais
exilados, procurados por mais de 30 mortes ao redor do mundo. A Sra.
Williams dirige uma operação de mercado negro que é suspeita de
contrabandear mercadorias valiosas de diferentes países e vendê-las,
obtendo lucros exagerados, a pessoas que não podem comprar e vender
legalmente por terem se recusado a jurar lealdade ao potentado.
- O casal Williams, que amealhou uma fortuna no mercado negro,
tem um filho nascido, segundo dizem, após a Sra. Williams ter abortado
duas vezes. Uma filha mais velha morreu sob circunstâncias duvidosas. O
filho, a quem eles deram o nome de Jesus Salvador Williams, cuja foto
está sendo exibida, tem dois anos de idade. Pessoas relacionadas ao
casal dizem que a criança é a reencarnação de Jesus Cristo, que, um dia,
dominará Nicolae Carpathia e restabelecerá o cristianismo no mundo.
Chloe olhava firme para uma criança, que evidentemente não era
Kenny Bruce, com uma Bíblia no colo e trajando uma camiseta onde se
lia: "Morte a Carpathia!"

- O chefe Akbar informa que seus homens localizaram a célula

dos judaístas em San Diego, nos Estados Unidos Norte-americanos, onde
a Sra. Williams foi presa hoje. Os funcionários da CG de San Diego dizem
que ela já está "cantando como um passarinho, oferecendo todos os tipos
de informações sobre seus companheiros, inclusive a própria família, para
escapar da condenação à morte".

- Aqui está a repórter Sue West, da CNNCG de San Diego, com o
coronel Johathan "Jock" Ashmore. Sue?
- Obrigada, Anika. Coronel Ashmore, até que ponto essa prisão é
importante?
- Ela é inestimável - respondeu Jock, nervoso e espremido dentro
do paletó de sua farda, que não podia ser abotoado. - E a Sra. Williams
demonstrou ser uma típica terrorista que sabe quando é chegada a hora
de negociar. Quando ela soube que foi identificada e nós a informamos
sobre as acusações que lhe pesam, em questão de minutos ela começou
a fazer várias propostas para salvar a pele.
- O senhor tem autorização para nos dizer que propostas foram
essas?
-Não todas, embora ela já tenha se comprometido a matricular
seu filho na CG Júnior assim que for possível. Ela revelou o paradeiro de
um negociante de mercado negro do Oriente Médio chamado Al Basrah,
que adotou para si o nome de uma cidade iraniana.
- Creio que essa cidade fica no Iraque, coronel, mas prossiga.
-O quê?
- Al Basrah está localizada no Iraque, senhor.
- Que seja. De qualquer forma, esse sujeito se matou com um tiro
para não ser preso.
- Daqui a pouco vamos mostrar uma fotografia do falecido Al
Basrah - disse Sue West -, mas devemos advertir a todos que a foto está

bem nítida.

Chloe levantou-se e viu a foto sendo exibida. Era Albie com um
furo entre os olhos, e sem vida. Sua cabeça estava mergulhada em uma
poça de sangue. Era ele mesmo. Mas a foto seria verdadeira ou
montada?

- Jock! Jock! Nigel! Vá chamar Jock! - ela gritou. Os gritos
transformaram-se em soluços, mas ela continuou a exigir uma resposta. -
É verdade? Quero saber se é verdade! Albie está morto? Diga-me que
Albie não morreu!
Mas ninguém apareceu. Ninguém respondeu. Enquanto a TV
continuava ligada no volume máximo, Chloe foi escorregando até cair no
chão, gemendo:

-Deus, por favor! Não!
SETE

-Lembrei-me de um amigo na Flórida - disse Mac. -Em
Jacksonville. Um sujeito da cooperativa. Podemos reabastecer lá para
evitar locais muito visados.
- Vou colocar este telefone sob uma das rodas antes de
decolarmos - disse Rayford. - Se eles encontrarem uma mistura de metal
e plástico na pista, o que vão fazer com ela?
- Não seria melhor atirá-lo na água? Não vai levar mais de um
minuto para ele afundar no Atlântico.
- E como vou fazer isso, Mac? Abrir a janela e jogar o telefone
para fora?
- Não. Havia um artifício excelente que costumávamos usar em

meus tempos de militar quando queríamos atirar um objeto do alto. Você
prende o objeto no freio controlador da velocidade. Ele fica encostado no
solo, você sabe. Assim que ganharmos altitude, eu ativo o freio...

-Que abrirá o painel. Lindo.
- Sim - disse Mac. - Você levanta vôo, acelera, ativa o freio e o
telefone vai parar no fundo do mar azul.
-Não quero perder tempo voando por aí.
- Dê-me esse telefone. Eu faço isso. Não vai levar mais que um
minuto.
-Antes, preciso transcrever a gravação de Chloe. Ela estava
querendo me dizer alguma coisa, tenho certeza.
- Já está na hora de meu descanso, Ray. Assim que você decifrar
a mensagem de Chloe, troque de lugar comigo e eu vou estudá-la.


Chang havia chegado a Petra no meio da tarde, e Naomi
ofereceu-se para levá-lo a conhecer o lugar.

- Vou deixar um recado no centro de tecnologia para que eles nos
avisem quando receberem alguma notícia sobre Chloe - ela disse -, mas
só quero que você conheça o centro por último, está bem?
Ele encolheu os ombros.

- Abdullah pediu que levassem suas malas a sua nova casa, que
fica mais ou menos perto da dele. Ele vai acompanhá-lo para que você
possa arrumar suas coisas. Eu passo depois por lá para darmos o
primeiro giro por esse lugar.
Chang estava determinado a não ficar dependente de uma só
pessoa. Principalmente de Naomi. Ela ainda era uma adolescente. Ele já


tinha 20 anos. E, embora não houvesse dúvidas quanto à inteligência e
conhecimentos técnicos de Naomi, eles iam trabalhar juntos durante um
ano. Para que complicar as coisas?

Mas, mesmo assim... ela era muito bonita. Pele morena e belos
olhos escuros que se destacavam por causa de seus cabelos longos e
pretos. Para Chang, era difícil não ficar olhando para ela. Naomi tinha um
sorriso lindo e tímido e parecia muito simpática e prestativa. Ele nunca
havia tido uma namorada, apenas garotas pelas quais se interessou no
curso de segundo grau, mas que jamais souberam desse seu segredo.

Enquanto se dirigia à sua casa pré-fabricada em companhia de
Abdullah, Chang notou que o jordaniano parecia conhecer a todos e
queria que todos conhecessem o recém-chegado. Eles trataram Chang
como se ele fosse um rei, mas o rapaz estava tão envergonhado pelo fato
de portar a marca de Carpathia que cobriu a testa com um boné de beisebol.
Seu desejo era retirar o boné e curvar-se a cada cumprimento, mas
não podia.

- O nosso homem de dentro do palácio - era assim que Abdullah o
apresentava, e o povo o abraçava ou o cumprimentava com um aperto de
mão. Muitos o abençoaram.
Para Chang, aquilo era um prelúdio do céu.

- Eu gostaria de ter a oportunidade de conhecer o Dr. Ben-Judá e
o Dr. Rosenzweig - ele disse.
- Oh!, sinto muito - disse Abdullah. - Eu devia ter-lhe contado. Eles
pediram desculpas por não poder recepcioná-lo como gostariam. Estão
reunidos com os anciãos tratando do assunto do desaparecimento de
Chloe, e haverá uma reunião do conselho mais tarde. Você está
convidado para saborear o maná com eles amanhã cedo.
- Ótimo. Obrigado, Sr. Smith. Quero fazer uma pergunta ao Dr.

Ben-Judá.

- Creio que o pai de Naomi também gostaria de conhecer você.
Pela inflexão da voz de Abdullah, Chang imaginou que ele
estivesse insinuando alguma coisa, mas não mordeu a isca.

- Eu também quero conhecê-lo - ele disse.
Quando eles chegaram ao setor das casas pré-fabricadas,
trazidas e montadas por um grupo dirigido por Lionel Whalum, Abdullah
mostrou a sua em primeiro lugar.

- Você pode ver que gosto de ficar perto do chão. Eu me sento do
lado de fora, perto de uma fogueira, para comer o maná. Lá dentro,
durmo no chão. Se este não for o seu costume, não é necessário fazer o
mesmo que eu. Sua casa tem mais ou menos o mesmo tamanho do
apartamento em que você morava no palácio, mas, evidentemente, é
muito mais simples e tem menos mobília.
- É perfeita - disse Chang quando eles chegaram. Suas malas
estavam perto de uma cama de lona. Os computadores e as caixas de
arquivos haviam sido deixados perto da porta.
- Esta noite vou dormir como um homem livre, sem me preocupar
com nada, a não ser com o bem-estar de nossos companheiros.
- Vou deixá-lo sozinho para você desfazer suas malas. Se precisar
de alguma coisa, sabe onde fica a minha casa. Alguma pergunta?
- Apenas uma. Estou um pouco nervoso a respeito do maná.
Todos daqui gostam?
- Sim, gostam. E tenho certeza de que você também vai gostar.
Imagine só, receber alimento do Rei. Sim, o maná serve apenas para
sustentar, e tem a aparência de pão. Mas vem das cozinhas do céu.
Existe coisa mais gloriosa que isso? Recebemos uma porção pouco antes
do pôr-do-sol, portanto você vai saber se gostou ou não antes de se

encontrar com os doutores para o desjejum amanhã cedo.

Meia hora depois, quando já havia arrumado suas coisas do jeito
que queria, Chang ouviu uma batida na porta.

- Entre! - ele disse, mas ninguém entrou. - Está aberta! Nada.
Chang abriu a porta e viu Naomi.
-Entre, entre!
- Ah!, eu não devo - ela disse. - Em nossa cultura, isso é
impróprio.
-Sinto muito.
- Com o tempo, você vai aprender. Venha, quero lhe mostrar
Petra.
- Alguma notícia de Chloe? - ele perguntou assim que começaram
a caminhar.
Ela sacudiu a cabeça.

-O final não vai ser bom, você sabe.
- Este é o meu medo - ele disse. - Mas vamos esperar e orar.
Naomi contou que a cidade era tão grande que levaria dias para
conhecê-la inteira.

- Vamos ter um sistema de TV avançado perto do centro de
tecnologia. Primeiro vou lhe mostrar o Tesouro, depois alguns túmulos na
redondeza. São muitos. Por último, quero levá-lo ao lugar alto onde o
míssil caiu e a fonte ainda borbulha, fornecendo água diariamente para
mais de um milhão de pessoas. Se eu calculei bem o tempo, devemos
estar perto do pôr-do-sol, e poderemos saborear o maná com água diretamente
da fonte.
Chang não estava acostumado a essas caminhadas e subidas,
portanto ficou feliz quando cada um deles entrou em um veículo pequeno
de quatro rodas. Ele ficou deslumbrando diante da magnífica arquitetura


de Petra e gostaria de saber como alguém foi capaz de escavar
estruturas tão maravilhosas naquelas rochas sólidas.

Quando, finalmente, eles chegaram à crista do lugar alto, em que
a fonte caía em forma de cascata dentro de cisternas e aquedutos que
levavam a água para a área inteira, Naomi desligou o motor de seu
veículo e pediu a Chang que fizesse o mesmo.

- Você está com sede? - ela perguntou.
- Muita. Mas procuro me acostumar a não ficar preocupado com
alguém que esteja me olhando.
- Não acredito. Você quer beber água das minhas mãos? Chang,
normalmente esperto e petulante, apenas sorriu.
- Desde que sua cultura permita.
Ela se ajoelhou, lavou as mãos na correnteza e sacudiu-as para
secá-las. Chang fez o mesmo. Ela o levou até um local mais próximo do
centro da fonte.

- Pronto? - ela perguntou.
Ele assentiu com a cabeça. Naomi fez uma espécie de cuia com
as mãos e enfiou-as na água. Em seguida, aproximou-as do queixo dele.

- Rápido - ela disse, rindo. - Minha mão não é impermeável.
Ele abaixou a cabeça e sorveu um enorme gole. Sua garganta
estava seca. E embora a água estivesse apenas alguns graus mais fria
que o ar, parecia gelada. Ele riu, tossiu e disse:

-Mais.
Depois que ele tomou outro gole, ela disse:
-Agora é a minha vez.
Chang também fez uma espécie de cuia com as mãos e pegou um
pouco de água para ela beber.

- Satisfeita? - ele perguntou quando suas mãos ficaram vazias.

Naomi assentiu com a cabeça, e ele limpou com as mãos a poeira
que estava sob os olhos dela. Em seguida, abriu as mãos e passou-as
levemente pelos cabelos da moça.

Naomi fechou os olhos, levantou o rosto para receber os raios do
sol poente e abriu os braços com as palmas das mãos para cima.

- O maná está chegando, Chang. Receba seu pão diário que vem
do Deus do céu.
Chang deu um passo para trás, olhou para cima e estendeu os
braços. Dos céus, começaram a cair pedacinhos de pão macio, como se
fossem neve, que cobriram toda a área. Lá embaixo, a multidão de um
milhão de pessoas começou a sair de suas casas com jarros e cestos,
para recolher o alimento que comeria no jantar.

- Fazemos como está escrito na Bíblia - disse Naomi. - Pegamos
apenas a quantidade necessária, sem guardar nada, porque ele se
estraga. E se o guardarmos, demonstramos falta de fé em Deus para
supri-lo todos os dias.
Chang sentou-se ao lado dela e colocou o maná na palma da
mão.

- Você pede a Deus que abençoe o alimento que Ele próprio nos
manda? - ele perguntou.
Ela riu.

- Você gostaria que eu fizesse isso?
-Por favor.
Chang tirou rapidamente o boné assim que ela começou a orar.
Ao grande Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e ao Pai
de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, oferecemos
nosso humilde agradecimento por tudo o que nos


proporcionas.

Sua voz de menina era tão pura e doce, e suas palavras tão
perfeitas que o rosto de Chang se contorceu quando as lágrimas
começaram a brotar em seus olhos.

Obrigada pela proteção que deste à nossa missão

hoje e por nos permitires trazer Chang para cá. Que ele

possa encontrar paz renovada e descanso em ti.

Em nome de Jesus te pedimos que abençoes esta

dádiva que vem de ti.

Amém.

Com lágrimas rolando pelo rosto, Chang virou-se e recolocou o
boné. Sentou-se segurando o maná com uma das mãos, incapaz de
comer por causa do choro. Naomi tocou-lhe delicadamente no ombro.

-Deus o abençoe, Chang. Que Ele o abençoe.
Chang recompôs-se e enxugou o rosto com a mão livre.
- Não me espere - ele conseguiu dizer. - Coma sua porção de
maná.
- É o que vou fazer - ela disse meigamente. - Eu nunca me canso
deste alimento.
-Que gosto tem? - ele perguntou.
-Ah!, não sou eu quem deve lhe dizer. Não sei explicar. Chang
escolheu duas porções brancas e pequenas e levou-as à boca.
- E então? - ela perguntou.
Ele parecia ter emudecido e só conseguiu murmurar:
-Oh! Oh!

- É só isso que você tem a dizer?
Chang enfiou mais alguns bocados na boca.
-Oh!
- Pelo jeito, você aprovou.
- Senti gosto de mel. Claro, tem gosto de mel.
-Sim.
- O sabor é doce, parecido com o de bolo de mel. E são nutritivos.
Gostaria de comer mais, porém já estou satisfeito.
- Imagine só - disse Naomi. - Recebemos três porções por dia, e
elas são suficientes para nos sustentar durante 24 horas.
- É um milagre.
- Êxodo 16.31 diz: "Deu-lhe a casa de Israel o nome de maná; era
como semente de coentro, branco, e de sabor como bolos de mel."
- Estou impressionado - disse Chang. - Você decorou o Antigo
Testamento inteiro?
Ela riu.

- Quem me dera! Mas você sabe que nos tempos de minha
infância não o chamávamos de Antigo Testamento. Chamávamos de
Bíblia. Eu a estudava todos os dias. Continuo a fazer isso, mas agora é
diferente. Agora eu conheço Deus de verdade.
- Eu também costumo memorizar trechos da Bíblia - disse Chang.
- Mas nunca tive uma. Cresci ateu e leio a Bíblia na internet.
- Você decora os textos?
- Não é assim que todo mundo faz? Em suas mensagens diárias,
o Dr. Ben-Judá nos adverte a decorarmos trechos bíblicos.
-E quais você está decorando?
- O livro de João, no Novo Testamento. Estou no capítulo três.
Sou muito lento.

- Você já decorou até esse ponto? - ela perguntou. - Está muito
bom.
- Acho que sim. Mas não faça um teste comigo. Bem, pode me
pedir que recite o capítulo três, porque foi exatamente aí que parei, mas...
Chang não prosseguiu. Ele poderia ficar sentado ao lado de
Naomi a noite inteira, mas ela se levantou e sorveu outro gole da água da
fonte.

- Eu vou lhe mostrar mais uma coisa - ela disse, aproximando-se
de Chang e estendendo a mão para ajudá-lo a levantar-se. - Você prestou
atenção em minha roupa?
Ele encolheu os ombros e movimentou a cabeça afirmativamente.
Será que havia prestado atenção? Apenas lançara alguns olhares furtivos
para ela. Ele não sabia que nome dar àquela indumentária. Parecia mais
um manto que um vestido, semelhante aos trajes das mulheres dos
tempos bíblicos, conforme ele sempre imaginou.

- É a única roupa que uso aqui. Estou com ela desde o dia em que
chegamos.
-Parece nova.
- Eu a lavo todas as noites, e ela se renova a cada manhã, da
mesma forma que a misericórdia do Senhor.
- Outra passagem que você decorou?
- Sim. Esta é uma passagem que meu pai me ensinou depois que
sobrevivemos ao ataque das bombas.
- Você estava aqui naquela época?
-Fomos os primeiros a chegar.
-E como foi?
- Como se fosse um sonho, Chang. Às vezes, não consigo
imaginar que aquilo aconteceu.

-Qual é a passagem?
- Lamentações 3.22-24: "As misericórdias do SENHOR a causa de
não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;
renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o
SENHOR, diz a minha alma; portanto esperarei nele."
-É linda.
- Sim, muito linda. Bem, prometi a meu pai que voltaríamos ao
centro de tecnologia antes do pôr-do-sol. Fica perto do anfiteatro, portanto
vamos ter de nos apressar.
- Você vai terminar de me contar sua história? - ele perguntou.
- Claro. E eu quero ouvir a sua. Talvez amanhã, depois do
desjejum.
Para Chang, o centro de tecnologia era exatamente o que ele
esperava encontrar ali. O único fato inusitado foi ver a enorme rede de
computadores instalada em uma construção cavada nas pedras. Mas,
agora, ele estava muito mais impressionado com Naomi do que com
equipamentos de informática.

- Você é capaz de encontrar o caminho de casa sozinho? - ela
perguntou. - Aqui, nós nos recolhemos cedo e nos levantamos quando o
sol nasce.
- Acho que sim, mas prefiro não correr o risco - ele disse.
- Por ser meu primeiro dia aqui, ainda necessito de um guia.
-Vou encontrar alguém. Aguarde um instante.
- Naomi! - ele disse. - Estou brincando. É claro que sei o caminho.
Só queria que você me acompanhasse até lá.
- Em minha cultu...
- Já sei, não é apropriado. Que tal eu levá-la até sua casa?
- Isso seria aceitável e um ato de cavalheirismo de sua parte. Meu

pai está me esperando, e já estará escuro quando eu chegar. Ele vai
gostar de ver alguém me acompanhando.

Assim como Abdullah, o pai de Naomi tinha acendido uma
pequena fogueira do lado de fora da casa. Ele era um homem alto, de
silhueta arredondada e tinha barba crespa e espessa. Chang aproximou-
se timidamente, tirou o boné no escuro e curvou o corpo.

-Chang Wong - ele disse.
O pai de Naomi segurou-o pelos ombros e encostou a face direita
no rosto de Chang, e depois a esquerda.

- Eleazar Tiberias - ele disse, com voz grossa e firme.
- Talvez você conheça o meu lago.
Chang coçou a cabeça e olhou para Naomi, e esse gesto fez o pai
e a filha acharem muita graça.

- Já ouvi falar muito de você, jovem - disse o ancião.
- Sou grato por você ter cuidado de minha filha e espero conhecêlo
melhor.
No caminho até sua casa, Chang respirou fundo o ar fresco da
noite. A fogueira de Abdullah já estava se extinguindo, e a roupa de
Chang ficou impregnada de fumaça. Ele se sentia tão livre, tão feliz e tão
apaixonado que, por certo, não seria capaz de dormir.

Em casa, ajoelhou-se ao lado da cama, sem saber exatamente
como orar. Procurou lembrar-se do versículo citado por Naomi, mas só se
lembrava destas palavras: "Grande é a tua fidelidade", portanto repetiu-as
várias vezes enquanto se ajeitava na cama.

Através da janela aberta, ele contemplou o céu tão límpido que
parecia ser possível contar todas as estrelas do universo. Mas em pouco
menos de 60 segundos, ele não viu mais nada, a não ser Naomi em seus
sonhos.


Mac analisava os rabiscos de Rayford.

- Você transcreveu todas as palavras dessa conversa, não?
- Eu não sabia mais o que fazer - disse Rayford. - Está claro que a
dica está naquele assunto do Colorado.
- Você se lembra de alguma coisa de lá, Ray?
- Faz muito tempo, Mac. Foi uma daquelas férias de verão que a
gente costuma viajar com os filhos pequenos. Raymie ainda não era
nascido. Fomos só nós três.
- Sim, mas depois de falar sobre Buck e Kenny, Chloe diz que a
culpa foi toda dela. E essa história de estar correndo... ela não estava
falando sério, estava?
- A uns 50 quilômetros de casa? Não. Ela estava tentando
despistar a CG, é claro, mas eles não vão cair nessa.
- Ela promete que não vai entregar ninguém, e eu acredito
piamente nisso.
- Eu também. Eles não vai extrair informação alguma de Chloe.
- Aí ela diz que a viagem foi "muito especial, e eu gostaria que
todos nós pudéssemos voltar para lá". Mas você disse que só vocês três
foram.
- Correto. Então, o que mais pode ser? Será que ela quer que todo
o pessoal de San Diego vá para o Colorado?
- Não pode ser - disse Mac. - Ela diz que sabe que a CG está
ouvindo a conversa. Mas diz também que seu "maior sonho é podermos ir
todos para lá agora, o mais rápido possível". Em que parte do Colorado
vocês estiveram, Ray?

Rayford sacudiu a cabeça.

- Eu não me lembro. Você já esteve lá?
- Várias vezes - disse Mac. - Que cidades você visitou?
- Apenas Springs e Denver, acho.
- Você viajou na estrada de ferro com trilhos engrenados?
- Pikes Peak, claro.
-O lugar que tem aquelas enormes formações rochosas?
-Sim, o Jardim dos Deuses.
- Aquele lugar dos cowboys, o rancho?
- Flying W, uma autêntica cidade do velho oeste, com comidas e
trajes típicos, claro. Eu jamais deixaria de visitar.
-E a Academia de Força Aérea?
- Só passei por lá. Não tive tempo de visitá-la. Estávamos indo a
um concerto.
-Onde?
- Nos arredores de Denver. Um concerto ao ar livre. Parecia que a
subida não acabava nunca, e eu tive de carregar Chloe. Aquela altitude
me deixou com a respiração curta.
- Red Rocks [Pedras Vermelhas]?
- Sim! Exatamente. Ouvimos música country. Chloe adorou.
- Você ainda não entendeu, Ray?
-Entendeu o quê?
-O que ela queria lhe dizer?
- Não, mas acho que você já entendeu, Mac. Fale.
-Red Rocks.
- Foi o que eu disse.
-Hã-hã.
- Ah! Petra! A CG está tentando encontrar a casa secreta, e nós

temos de tirar o pessoal de lá e levar todos para Petra.

De manhã, Abdullah conduziu Chang até uma área perto do local
onde o conselho dos anciãos se reunia diariamente. O chão por todo o
caminho estava coberto de maná fresco, e muitas pessoas estavam
saindo de suas casas e recolhendo-o para o desjejum.

- Não vou lhe fazer companhia hoje - disse Abdullah -, porque a
Srta. Naomi necessita de mim no centro de informática. Ela gostaria que
você fosse até lá para ajudá-la, quando puder.
- Algum problema?
- Receio que sim.
Chang parou. Abdullah parecia muito tristonho e taciturno.
-O que houve?
- Prefiro não estragar seu desjejum, mestre Chang.
- Estragar meu desjejum? Estou indo ao encontro de meus heróis,
e aqui posso ir aonde quiser e fazer o que quiser, e, mesmo assim, você
me diz que existe uma coisa que pode arruinar meu dia?
- Por favor, vamos nos apressar. Não podemos chegar atrasados.
- Eu preciso saber Sr. Smith. Não me diga que a notícia se refere
a Chloe Williams.
- Ela está viva, por enquanto. A CNNCG está espalhando as mais
infames mentiras a respeito da Sra. Williams, mas todos imaginam que a
CG não vai executá-la enquanto estiver achando que vai ser capaz de
extrair informações dela.
Chang sacudiu a cabeça, enquanto continuavam a andar.

- Teria sido melhor se ela tivesse fingido estar prestes a abrir a

boca - ele disse -, pelo menos dar a entender que forneceria alguma
informação, do que deixar claro desde o início que não vai cooperar.

- Você conheceu a Sra. Williams?
-Claro que não.
- Mas tratou com ela por telefone e pela internet o suficiente para
conhecer...
- Conhecer a personalidade dela. Sim. Além de não dizer nada,
ela também vai gostar que eles saibam disso.
- Meu medo - disse Abdullah - é que isso reduza as chances dela
com a CG e, por conseqüência, reduza sua vida.
-Certamente o Comando Tribulação de San Diego está
planejando invadir o local para resgatá-la.
- Não sei. Pelo que conheço de Cameron, ele deve estar querendo
invadir o local sozinho. George Sebastian vai querer liderar essa missão,
e ele é o homem preparado para isso. Mas não será o mesmo que
surpreender um bando de amadores na mata, como eles fizeram na
Grécia. Você deve imaginar que a CG de San Diego está alerta a respeito
disso.
- Você não está me contando tudo, está, Sr. Smith?
- Prefiro que você tome conhecimento do restante da história no
centro de tecnologia. Mas acho que Naomi não está ansiosa por lhe
contar.
Chang parou novamente e colocou a mão no ombro de Abdullah.

- Perdoe-me a familiaridade - ele disse -, mas não me esconda
informação alguma. Por favor, eu preciso saber. Não quero chegar lá
despreparado.
Abdullah parecia estar analisando o chão. Parou e pegou um
punhado de maná, sem levá-lo à boca.


- A CNNCG disse que Chloe denunciou Albie e que ele cometeu
suicídio para não ser preso.
- Ora, vamos, Sr. Smith. Sabemos que isso não é verdade. Ela
jamais faria...
Abdullah segurou Chang pelo cotovelo e insistiu para que
continuassem a andar.

- Ninguém suspeita que Chloe tenha feito isso, e todos os que
conhecem Albie não acreditam que ele se matou.
- Então, qual é o proble...
- Há evidências de que Albie pode estar morto. Ele e o Sr.
McCullum eram amigos íntimos, conforme você sabe, e quando Mac
soube da notícia, procurou entrar em contato com Albie de várias
maneiras.
- Pode ter sido uma coincidência. Talvez estivesse longe do
telefone. Talvez...
- Ele nunca fica longe do telefone. Mac sempre conseguiu falar
com ele quando precisou.
- Mas Mac e o capitão Steele já devem estar em San Diego.
Talvez o problema tenha sido a distância e...
Agora foi a vez de Abdullah parar.

-Já estamos quase chegando. O Dr. Ben-Judá e o Dr.
Rosenzweig estão aguardando por você depois da próxima curva. O Sr.
Tiberias fará as apresentações e participará do desjejum. As refeições
são rápidas aqui porque comemos apenas um alimento acompanhado da
água da fonte.
- Obrigado, Sr. Smith. Vou continuar acreditando que Albie ainda
vai ligar.
- Muito bem, se é assim que você pensa... Alguém atendeu ao

telefone de Albie, mas não foi ele. Conforme você sabe, ele estava
trabalhando em uma missão perigosa e deve ter cometido o erro terrível
de ir sozinho. O homem que atendeu ao telefone disse a Mac que, se ele
quisesse saber notícias de seu amigo, deveria assistir ao noticiário. Nós
vimos e gravamos o noticiário, mestre Chang. Naomi vai lhe mostrar
depois do desjejum. Agora vá.

Às 21 horas em San Diego, Chloe estava deitada na cama de aço
de sua cela, chorando baixinho. Depois que o sol se pôs, a sala maior
mergulhou na escuridão, e agora a única claridade vinha da TV ligada no
último volume. Ninguém aparecera depois que o falso agente
penitenciário voltou para recolher o que sobrou de seu telefone. Ela
ouvira o noticiário mais de uma dúzia de vezes - somente porque não
tinha escolha - mas recusava-se a ver as imagens.

Chloe não se importava com as mentiras. Nenhum judaísta
acreditaria naquilo. E, se alguém acreditasse, Buck esclareceria tudo na
próxima edição de A Verdade. Mas Albie, pobre e precioso Albie. Ela
esperava que a notícia de sua morte fosse mentira e orou por isso, mas
como eles foram capazes de produzir uma imagem tão vivida de um
homem morto tão parecido com ele?

Ela não havia comido nada desde as 19 horas do dia anterior.
Dobrou os joelhos até encostá-los no peito e passou os braços em volta
das canelas. Balançando o corpo, ela tentava acalmar a dor no estômago.
Procurava consolar a si mesma imaginando a operação que George,
Buck e seu pai estariam planejando naquele exato momento.

Chloe procurou desviar os pensamentos de Kenny, porque a


saudade que ela sentia dele era tanta que seus braços chegavam a doer.
Será que o veria novamente? Como Buck estaria respondendo às
perguntas do filho a respeito da mãe? Quem cuidaria de Kenny quando
Buck estivesse ausente?

Ela gostaria de saber se o sono aliviaria a angústia da fome e se
seria possível dormir. Aprendera muita coisa com George e sabia que
qualquer tentativa de resgate teria de ocorrer quando a CG menos
esperasse, portanto isso poderia demorar dias, talvez muito mais tempo.
Ela teria de aprender a dormir. Precisava manter a sanidade apesar do
modo que estava sendo tratada.

Todos os vestígios dos direitos dos prisioneiros haviam
desaparecido desde a ascensão de Nicolae Carpathia. - Aqui estamos
nós, faltando um ano para o fim da história, e podendo ser morta em
minha cela por não ter a marca.

Sozinha, com fome, com saudade de seus queridos, chorando por
Albie, Chloe fechou os olhos no escuro, tapou os ouvidos e começou a
cantarolar baixinho para não ouvir o som que vinha da TV. E foi por causa
disso, ela imaginou, que só ouviu a chegada da agente penitenciária do
turno da noite quando a mulher já estava em pé perto de sua cela. Chloe
estremeceu e sentou-se rapidamente, aterrorizada diante da silhueta
volumosa.

OITO

O pai de Naomi cumprimentou Chang da mesma maneira da noite
anterior, encostando as duas faces no rosto dele. Chang curvou-se, mas
não retirou o boné à luz do dia.


-Um conselho ao sábio - murmurou o ancião Tiberias a seu
ouvido durante o abraço. - Em qualquer cultura, é grosseria não tirar o
chapéu na presença de um ancião.
- Perdoe-me, senhor - Chang disse suavemente -, mas se eu tirar
o boné vou revelar uma desgraça.
Eleazar Tiberias fechou os olhos e assentiu com a cabeça, como
se já conhecesse o problema de Chang.

-Eu entendo - ele disse. Em seguida, pegou um cesto repleto de
maná. - O Dr. Ben-Judá estará aqui dentro de alguns instantes, mas
antes quero apresentar-lhe o Dr. Rosenzweig. Venha, venha.
Chang acompanhou o homem até a casa dele e ficou surpreso
quando viu o pequenino Chaim Rosenzweig, que mais se parecia com
Albert Einstein do que com o famoso Miquéias que afrontara o potentado.
Aparentemente, fazia muito tempo que Rosenzweig chegara a Petra.
Seus cabelos estavam compridos e a pigmentação de sua pele já havia
retornado ao normal.

Rosenzweig levantou-se rapidamente, demonstrando muita
energia para um homem de sua idade.

-Então, você é Chang Wong, o gênio espião.
-Bem, eu...
- Não se faça de modesto, meu jovem amigo. Você tem sido
usado por Deus. E de maneira muito poderosa! Ah! Quantas
recompensas aguardam por você no céu. - Chaim segurou Chang pelo
braço e puxou-o para perto de si.
- Venha, vamos esperar o Dr. Ben-Judá do lado de fora. Eleazar,
faça companhia a nós, por favor. Conforme você sabe, o Dr. Ben-Judá é
o líder daqui, embora tenha sido meu aluno durante muitos anos. Ah! sim,
no mínimo 20 anos. Fui seu professor há muitos e muitos anos. É

verdade. Bem, Sr. Wong, seja bem-vindo, seja bem-vindo, seja bem-
vindo. É uma pena estarmos vivendo um dia triste por causa da morte de
um de nossos membros e da prisão de outro, mas nos sentimos felizes
por tê-lo em nossa companhia.

Ao longe, Chang viu a comoção causada pela chegada do Dr.
Ben-Judá. A seu lado, havia vários anciãos, e todos estavam vindo do
centro de tecnologia.

O Dr. Rosenzweig confidenciou:

- Aqueles homens não participarão de nossa reunião. Não são
guarda-costas. Não necessitamos de guarda-costas aqui, claro. Mas o Dr.
Ben-Judá é tão popular e querido que está sempre rodeado de anciãos,
por onde quer que ande. Todos querem um momento de seu tempo, mas
esses momentos estão se acumulando. Eles desejam expressar gratidão
e amor, porém o Dr. Ben-Judá tem muitas coisas para fazer e está
assoberbado.
- Para mim, é uma honra tomar um pouco do tempo dele - disse
Chang. - Assim como todos aqui, quero um momento de seu tempo.
- Ah! Confie em mim, meu jovem amigo. Eu o conheço muito bem,
e sei que ele está aguardando esta oportunidade.
Os anciãos dispersaram-se quando o Dr. Ben-Judá chegou.

- Lamento muito ter adiado esta reunião e, mesmo assim, ter
chegado atrasado - ele disse. - Mas não houve condição. Bem, quero ser
apresentado ao nosso morador mais recente.
Eleazar Tiberias riu alto quando o Dr. Rosenzweig disse:

-Ah!, creio que você já sabe quem ele é. Dr. Tsion Ben-Judá,
apresento-lhe Chang Wong.
O Dr. Ben-Judá evitou o tradicional cumprimento judeu. Curvou o
corpo da mesma forma que Chang, deu um passo a frente e abraçou o


rapaz com força.

- Sente-se, sente-se - ele disse. - Sente-se aqui entre mim e o Dr.
Rosenzweig. Anos atrás ele foi meu profe...
- Eu já contei a ele, Tsion - disse Chaim. - Vamos orar e comer.
Tsion inclinou o corpo na direção de Chang e falou em voz baixa,
mas fez questão que suas palavras fossem ouvidas por Chaim.

- Os idosos não têm muita paciência!
Tsion segurou a mão de Chang e a de Chaim ao mesmo tempo.
- Eleazar, por favor, vamos dar as mãos.
Depois que os quatro estavam de mãos dadas, o Dr. Ben-Judá
olhou para cima e Chang curvou a cabeça.

-Grande Pai, criador, mestre e amigo - ele começou a orar -,
neste momento em que iniciamos mais um dia que precede o glorioso
aparecimento de nosso Senhor e Salvador, nós abençoamos o teu nome.
Somos gratos a ti pelo nosso pão diário. Sentimo-nos humildes quando
nos lembramos de onde estávamos poucos anos atrás. O Sr. Tiberias, um
homem de negócios e dedicado religioso. O Dr. Rosenzweig, um estadista,
erudito e agnóstico. Eu, um estudioso da Bíblia, mas cego d
verdade. E o Sr. Wong, um jovem brilhante e ateu. Quem a não ser um
Deus bondoso nos daria uma segunda chance e nos redimiria mediante o
sangue de seu precioso Filho? Nós te louvamos em nome dele.
Tsion estendeu o cesto de maná a Chang, que pegou um pequeno
punhado. Os homens mais velhos pegaram porções generosas, e Tsion
disse:

- Quero mostrar-lhe como me sirvo de minha provisão diária. Sou
grato porque esta refeição não consome meu tempo, mas tenho de
admitir que sinto falta dos rituais que, antigamente, acompanhavam

minhas refeições. Em geral, as refeições aqui duram cinco minutos.

Ele colocou uma porção de maná na palma da mão direita, passou
delicadamente os dedos ao redor e formou um círculo com o polegar e o
indicador.

- Como se fossem amendoins, não é mesmo? - ele prosseguiu,
sorrindo. Em seguida, derrubou a porção inteira na boca. - Um punhado -
ele disse, mastigando -, e já estou satisfeito.
O Sr. Tiberias levantou-se, colocou as sobras dentro de um cesto
e atirou-as ao vento, e elas se espalharam pelo chão.

- Dr. Ben-Judá - perguntou Chang -, é verdade o que estão
dizendo sobre Albie?
- Que ele está morto? Acho que sim - respondeu Tsion. - Suicídio?
Não, nenhum de nós acredita nisso.
Após alguns instantes, Chaim disse:

- Tsion, nós precisamos ir.
- Ah!, senhor - disse Chang ao Dr. Ben-Judá -, eu hesitei em lhe
fazer uma pergunta porque fiquei sabendo que o senhor é muito ocupado
e que todos querem um pouco de seu tempo...
- Por favor, Chang. Temos uma grande dívida com você. Pergunte
qualquer coisa. Se eu souber a resposta, será um prazer.
- Eu necessito ficar a sós com o senhor. Por favor, não se ofenda,
Dr. Rosenzweig.
- De maneira alguma. O Sr. Tiberias e eu temos de preparar nossa
reunião.
Tsion conduziu Chang até a parte traseira de uma grande rocha.

- O que posso fazer por você?
Chang tirou o boné, deixando à mostra o número 30 em sua testa
e a linha fina e rosada onde o biochip da Comunidade Global havia sido


inserido. Ele viu um ar de piedade nos olhos de Ben-Judá.

-Confesso que é estranho, Wong, ver essa marca e o selo dos
crentes em sua testa.
- Não suporto olhar no espelho - disse Chang. - Não tenho
coragem de tirar o boné aqui. Sim, esta marca me manteve vivo e sim,
tive acesso a lugares aonde nenhum crente imaginou chegar perto. Mas
eu me sinto ridículo, detestável. Eu a odeio.
- Você foi obrigado a recebê-la, filho. Não teve escolha nem culpa
por...
-Eu sei de tudo isso, senhor, mas gostaria que ela desaparecesse.
É possível?
-Não sei.
- Senhor, eu leio seus ensinamentos todos os dias. O senhor diz
que, para Deus, tudo é possível. Por que Ele não faz esta marca
desaparecer agora?
-Não sei, Chang. Não quero prometer que Ele fará isso.
- E se eu acreditar que Ele fará? E se o senhor acreditar?
- Nós dois podemos ter fé, Chang. Porém, por mais que a gente
acredite, confie e estude, ninguém pode afirmar que conhece a mente de
Deus. Se você quiser que eu ore a Deus para que Ele a elimine, vou orar.
E creio que Deus pode e vai fazer aquilo que Ele deseja. Mas quero que
você prometa que vai acatar a decisão dele, seja ela qual for.
-Claro.
-Não diga isso precipitadamente. Sei que você deseja muito
retirar a marca, mas se Deus não atender a esse pedido, não quero ver
sua fé ameaçada.
- Vou ficar desapontado e sem entender o por que, mas vou
aceitar. O senhor poderia orar por mim?

O Dr. Ben-Judá parecia analisar o rosto de Chang. Comprimiu os
lábios e desviou o olhar. Finalmente, disse:

- Vou orar. Venha, sente-se aqui e espere. Por mais que você
deseje que esse assunto seja tratado reservadamente, prefiro orar com
os homens de Deus. Você se importa?
- Claro que não. Eu só não queria que eles me vissem com esta...
- Não há como evitar. Faz parte do preço a ser pago.
Chang assentiu com a cabeça, e Tsion afastou-se para chamar
Eleazar e Chaim. Quando chegaram, eles olharam tristemente para
Chang, que estava sentado em uma rocha, chorando. Tsion contou-lhes
rapidamente o problema e pediu que orassem com ele. Os três
aproximaram-se. Ben-Judá ficou no meio, Tiberias à sua esquerda e
Rosenzweig à sua direita.

Tsion colocou a mão esquerda na parte posterior da cabeça de
Chang e firmou o pulso direito em sua testa. Os outros dois seguraram as
mãos de Chang e colocaram as mãos livres sobre seus ombros. Chang
estremeceu quando aqueles três homens de Deus o tocaram suavemente
e sentiu-se amado por eles e por Deus. Seu corpo enrijeceu-se e, depois,
relaxou.

-Deus Criador - Tsion começou a falar de maneira tão suave que
Chang mal conseguia ouvir - reconhecemos que criaste este jovem. Tu o
conheces e o amas desde antes da formação da Terra. Tu, que és rico
em misericórdia, nos amaste mesmo estando nós mortos em nossos
delitos, nos deste vida com Cristo e com Ele nos ressuscitaste, e nos
fizeste assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus, para mostrar nos
séculos vindouros a incomparável riqueza de sua graça, em bondade
para conosco, em Cristo Jesus. Porque, pela graça somos salvos, por
meio da fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus; não de obras, para

que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em
Cristo Jesus...

-Agora, Chang Wong, sabemos que você não foi redimido
mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, mas pelo precioso
sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito. Por
meio de seu Filho, você deve crer em Deus. Ele ressuscitou a Cristo
dentre os mortos e o glorificou, para que sua fé e esperança esteja em
Deus. Nós estamos aqui reunidos em fé e cremos nisso. Oramos ao Deus
para quem nada é impossível, o Deus que nos poupou da mesma forma
que poupou Sadraque, Mesaque e Abede-Nego da fornalha do inimigo. E
Ele fez isso para mostrar que somos povo seu e que o fogo não tem
poder algum sobre nossos corpos; os cabelos de nossa cabeça não
foram chamuscados, nossas roupas não foram afetadas, e o cheiro do
fogo não passou sobre nós.
-Deus, de acordo com tua vontade, nós te suplicamos que retires
deste rapaz qualquer sinal do maligno.
Chang sentia o corpo frouxo, como se cada uma de suas pernas
pesasse cem quilos. Cada poro seu transpirava profusamente e ele sentia

o suor escorrer-lhe pelo rosto, braços e tronco. As mãos dos homens
estavam úmidas, mas eles continuaram imóveis e em silêncio.
No momento em que Chang sentiu que, se os homens o
soltassem, ele escorregaria da rocha, Tsion disse:

-Obrigado, cavalheiros.
Eles apertaram os ombros e as mãos de Chang e deram um
passo para trás. Agora, Chang estava amparado apenas por Tsion, que
continuava com a mão esquerda na parte posterior de sua cabeça e a
direita sobre sua testa. Em seguida, Tsion escorregou suavemente a mão
direita até juntá-la com a mão esquerda que estava atrás da cabeça de


Chang.

Chang abriu os olhos, piscou por causa da luz do sol e olhou firme
para o rosto do Dr. Ben-Judá, que também olhava para ele.

Tsion sorriu.

- Cavalheiros - ele disse -, o que vocês estão vendo?
Tiberias inclinou-se de um lado e Rosenzweig do outro.
- Louvado seja Deus! - exclamou Chaim.
Eleazar levantou a cabeça e deu uma sonora gargalhada. Sua voz
era forte e grossa.

- Só estou vendo o selo dos crentes! Tenho um espelho em casa.
Venha, Chang, você vai ver com os próprios olhos!


Rayford nunca vira Mac tão abatido. Ou tão resoluto.

- Se alguém matou aquele velho companheiro, vou ter de tomar
uma providência, Ray - ele disse. - Pense em alguma coisa que eu possa
fazer, que me dê a chance de descobrir tudo. Estou falando sério.
- Albie e eu também éramos bons amigos - disse Rayford.
- Eu sei. Parece que sempre o conheci, desde a infância.
- O que sua intuição está lhe dizendo, Mac? Que isso faz parte da
propaganda da CG ou que ele está morto?
Mac suspirou fundo.

- Bem, ele não se matou, de jeito nenhum, mas acho que eles o
pegaram.
Rayford usou o telefone de Mac para ligar para Buck a fim de
contar-lhe que eles estariam pousando por volta de 22 horas, horário de
San Diego.


-Celular de Buck. Ei, Mac, aqui é George.
- Bem, este telefone é de Mac, mas quem está falando é Rayford.
Como estão as coisas aí, George?
- Da forma que você imagina. Buck está arrasado. Queremos
evitar a todo custo que ele vá sozinho até a sede da CG.
- Vocês podem nos pegar às dez?
-Dez? A viagem foi rápida.
- Mais ou menos. Paramos só uma vez. Depois, tivemos de
desviar um pouco da rota para jogar meu telefone no mar. Leve Buck com
você. Talvez possamos ajudá-lo a acalmar-se.
-É melhor você convencê-lo a ir comigo. Ele não quer me ouvir e
não vai querer me acompanhar.
- Ele está aí?
- Está lá embaixo com Kenny. O menino não está conseguindo
dormir sem a mãe.
- Bem, diga a Buck que é uma ordem minha. Nós quatro
precisamos conversar assim que o avião pousar na pista. Alguém pode
tomar conta de Kenny?
- Claro. No momento, há um excesso de babás voluntárias aqui.
- Ei, você acha que é muito tarde para ligar para Lionel Whalum,
em Illinois?
-Não. Ele não dorme cedo. Qual é o problema?
- Descobri qual era a mensagem de Chloe. Ela está convencida de
que devemos tirar todo o pessoal de San Diego e levar para Petra.
-É o que eu receava - disse Sebastian.
- Lionel é o único sujeito que me veio à mente. Ele tem aeronaves
suficientes, contatos suficientes e experiência suficiente para fazer uma
coisa dessas... e rápido.

- Este lugar era tão perfeito.
- Todas as casas secretas que tivemos foram perfeitas até o
momento em que deixaram de ser secretas, George.
-Isso é verdade.
- Você me faria o favor de ligar para Lionel? Também preciso
entrar em contato com Zeke. Veja se ele está pronto para sair da toca e
nos ajudar em Petra.
- Em que você está pensando, capitão?
- Em uma atividade para Buck fazer para que ele não enlouqueça,
e em algo para mim e Mac. Algo que nos deixe sentir que estamos
fazendo alguma coisa por Albie.
-Espero fazer parte disso.
-Nós não sonharíamos em fazer qualquer coisa sem você,
George.


- Cansada dessa TV? -perguntou a agente penitenciária do turno
da noite para Chloe.
-Estou.
- Espero não ter perdido nada.
Chloe tinha visto o ajuntamento dos exércitos de todos os países
dos Estados Unidos Carpathianos, com exceção da cidade de Nova
Babilônia, que quase não foi mencionada no noticiário. Sob a iluminação
fraca que vinha da TV, Chloe viu que a mulher era negra.

- Sou Florence - ela disse, dirigindo-se à TV e desligando-a com
seu bastão. - Fui escalada para lhe dar alguma coisa para comer, desde
que você tenha se comportado bem. Você se comportou bem?

- Estou oficialmente com fome, se é isto que você está querendo
dizer.
- Não foi o que eu perguntei, mas tenho uma barra de energia no
bolso, se você quiser.
-Eu quero.
- Não levou muito tempo para você mudar de idéia. Ouvi dizer que
você foi muito arrogante e muito espertinha, como se não precisasse de
ninguém, não quisesse nada.
- Eu só quero continuar viva.
-Por quanto tempo? É melhor abrir o jogo e contar alguma coisa
que Jock possa usar ou, então, não vai tomar seu primeiro banho.
-E quando vai ser?
- Daqui a uma semana. Uma semana a partir de hoje.
- Eu vou ficar uma semana sem tomar banho?
-Use aquela pia à vontade. Que gosto tem aquela água?
- Não tem gosto de água.
Florence soltou uma gargalhada.
- Não é verdade. E você vai gostar dela. Vai ter de gostar. E vai
continuar viva por causa das 250 calorias por dia, mas não por muito
tempo.
- O que mais há por aqui?
- Ah! Você sabe, alguém vai gostar de você, vai querer tirar uma
casquinha. Você sabe do que estou falando.
Chloe riu. Era a única coisa que podia fazer.

- Você está achando graça? O que pretende fazer?
- Prefiro morrer - respondeu Chloe. - Antes, essa gente vai ter de
me matar.
- Você está dizendo isto agora. Mas não vai conseguir me matar.

Veja o meu tamanho e veja o seu.

- Uma de nós não vai sair viva daqui.
- Conversa fiada. Você vai cantar uma música diferente quando
não agüentar com o peso do seu corpo, quando estiver fedendo e alguém
tirar esse seu macacão.
- Eu vou avisar desde já, enquanto estou lúcida. Quero que você e
todos aqui saibam que vão se arrepender se tentarem alguma coisa
comigo.
-Acabou?
- Sim, e isso inclui Jock.
- Jock não vai fazer esse tipo de coisa e sabe quando deve olhar
para o outro lado.
- Quando ele olhar para trás, vai encontrar alguém morto. Alguém
daqui ou sua famosa prisioneira.
- Por que você não cede um pouco, moça? Conte alguma coisa a
Jock. Ele não vai fazer muitas perguntas. E você vai conseguir coisas que
ninguém jamais conseguiu. Entrar aqui sem a marca e continuar viva?
Você devia pensar um pouco. Está em posição de negociar.
- Eles já podiam ter me matado.
- Não pense que eu não gostaria de fazer isso.
- Você? Você não me conhece. Eu não quero matar você.
- Você acabou de dizer que ia me matar, moça, se eu entrasse na
cela.
- É verdade, mas só se você me fizesse alguma malvadeza. Aí, eu
teria de me defender.
- Eu desejo todo o mal do mundo para você. Ou você está do
nosso lado ou contra nós, querida.
- Eu estou contra vocês - disse Chloe.

- Disso eu já sei. Conte outra coisa.
- Quero saber de que forma vou receber essas 250 calorias.
- Você sabe. Da barra de energia.
- É só isso que vou comer?
- Só isso. Uma vez por dia.
- Ninguém consegue sobreviver com essa quantidade de calorias.
- Quem está dizendo é você. É claro que quanto mais coisas você
contar, talvez receba mais calorias.
-Talvez?
- Talvez, mas acho que não. Já que você não comeu nada hoje,
eu trouxe uma barra esta noite. Você só vai receber uma a cada 24 horas.
Mas você está sendo muito malcriada. Acho que vou devolver esta barra
a Nigel. Ele vai cuidar disso amanhã.
Chloe queria implorar que a mulher lhe entregasse a barra, mas
não faria isso. Ficaria em silêncio, esperando que Florence se divertisse
um pouco por estar encarregada de servir o alimento todos os dias.

- Se você ainda estiver acordada e parar de ser atrevida, vou
trazer uma barra lá pela meia-noite. Agora, se quiser ler alguma coisa ou
fazer maquiagem, pintar as unhas, seja lá o que for, vou deixar as luzes
acesas. E já que a TV está desligada, vou providenciar uma música para
você adormecer.
Oh! por favor, nada de luzes acesas e nada de música.

Florence caminhou com passos bamboleantes até a porta, com os
cotovelos apoiados no cinto de couro, que tinha tudo menos uma arma de
fogo - bastão, cassetete, molho de chaves, coldre vazio e, por um motivo
qualquer, um suprimento de projéteis. Ela acendeu as luzes, todas. Para
Chloe, o cômodo estava mais claro do que quando os raios de sol
atravessaram as janelas.


Isso não seria problema. Ela viraria o rosto para a parede. Apesar
do profundo arrependimento de ter-se privado de alimento por mais
algumas horas, ela conseguiria sobreviver.

Tentaria orar, pensar em seus queridos, recitar os trechos bíblicos
memorizados e aguardar a chegada do sono.

Mas, de repente, soou uma música, em volume mais alto que o
necessário. Alto demais. E, evidentemente, tratava-se do hino "Salve
Carpathia" que, pelo jeito, tocaria a noite inteira.

Buck lhe ensinara a adaptação feita por ele. Aquilo a distrairia por
alguns minutos. Como era mesmo? Ela começou a recordar-se e, em
seguida, a cantarolar baixinho:

Abaixo Carpathia, seu farsante, velhaco e indecente; Abaixo
Carpathia, que pensa enganar toda gente! Vou espernear e lutar até você
morrer; E no lago de fogo e enxofre você vai arder. Abaixo Carpathia, seu
farsante, velhaco e indecente!

Depois de olhar no espelho de Eleazar Tiberias, Chang correu ao
centro de tecnologia, onde saltou e gritou de alegria, exultando em
companhia de Abdullah e Naomi.

Após algum tempo, eles lhe mostraram o vídeo de Albie, que o
deixou triste. Apesar de ter saído recentemente do palácio, Chang ficou
atônito diante do atrevimento da CG de levar ao ar uma notícia contendo
uma mentira tão infamante sobre Chloe. Ele gostaria de saber se os
simpatizantes da CG acreditariam em tal besteira. Naomi, porém, lhe
mostrou vários e-mails vindos de judaístas do mundo inteiro comprovando
que muitas pessoas passariam a necessitar de confirmações e ser


lembradas de que o demônio é o pai da mentira.

- Os redatores desta seção - Naomi disse a Chang - estão
elaborando respostas contundentes para as perguntas mais comuns. Elas
serão transmitidas para os digitadores, que poderão escolher as mais
apropriadas e enviá-las imediatamente.
Naomi pediu permissão a um redator para imprimir uma lista
atualizada das respostas e mostrou-a a Chang.

A única parte da notícia que está correta é o nome e a idade de
Chloe e o fato de que ela é filha de Rayford e esposa de Cameron "Buck"
Williams. Embora seja verdade que Chloe estudou na Universidade de
Stanford, ela nunca foi radical nem expulsa. Abandonou o curso após o
Arrebatamento, mas suas notas alcançaram a média de 3,4 e ela
participou ativamente de assuntos relacionados aos estudantes.

Rayford Steele trabalhou, mesmo depois de convertido, como
piloto de Nicolae Carpathia e forneceu informações valiosas à causa dos
seguidores de Cristo no mundo inteiro. Ele nunca foi demitido e jamais foi
acusado de insubordinação ou de embriaguez durante os vôos. Demitiu-
se do cargo depois que sua segunda esposa foi morta em um acidente
aéreo.

Os judaístas não são, de forma alguma, os "últimos focos de
resistência à Nova Ordem Mundial". Muitas facções de judeus e
muçulmanos, bem como ex-grupos da milícia, principalmente dos Estados
Unidos Norte-americanos, ainda se recusam a aceitar a marca de
lealdade ao supremo potentado e são obrigados a viver na
clandestinidade por medo de perder a vida.

Cameron Williams foi, realmente, um famoso jornalista americano
que também trabalhou diretamente para o potentado, mas ele se demitiu,
e não é verdade que "perdeu o emprego em razão de diferenças no estilo


de administração". Quanto à revista clandestina impressa e também
divulgada pela internet, com "circulação limitada", essa afirmação é,
naturalmente, uma questão de ponto de vista. A Verdade circula entre as
mesmas pessoas que são doutrinadas diariamente pelo Dr. Tsion Ben-
Judá, cujo número chega a mais de um bilhão.

Rayford Steele, Cameron Williams e Chloe Williams não são
"procurados por mais de 30 mortes ao redor do mundo". O Comando
Tribulação reconhece uma morte perpetrada por Cameron Williams e
duas por Rayford Steele, as duas em defesa própria.

A Cooperativa Internacional de Mercadorias, dirigida pela Sra.
Williams, nunca contrabandeou mercadorias, nem as vende para obter
qualquer tipo de lucro. Simplesmente faz permutas para beneficiar seus
membros.

O casal Williams não amealhou fortuna alguma no mercado negro.
A bem da verdade, a cooperativa existe graças à generosidade de seus
membros.

A Sra. Williams nunca abortou nem perdeu uma criança. Ela
engravidou apenas uma vez, e dessa gravidez nasceu um filho, hoje com
três anos e meio de idade. O casal Williams jamais alegou que seu filho
fosse divino ou que tivesse poderes especiais, embora acreditem
sinceramente que Nicolae Carpathia é o anticristo e que Jesus Cristo
dominará Carpathia um dia e estabelecerá seu reino aqui na Terra.

Uma pessoa que teve um contato rápido com a Sra. Williams
depois de sua captura confirmou que ela está determinada a não negociar
com a CG, e esta é a política do Comando Tribulação. Além de não
oferecer nada em troca para evitar a sentença máxima, ela já provou
várias vezes no passado sua disposição de morrer pela causa de Cristo.

Não há prova alguma de que a Sra. Williams tenha fornecido


informações sobre o ativista do Comando Tribulação Al Basrah, nem
existem provas de que ele cometeu suicídio.

- Isso vai servir para alguma coisa? - perguntou Chang.
- Sim, para o nosso pessoal - respondeu Naomi. - Até mesmo as
pessoas que já conhecem a verdade querem ser tranqüilizadas. Os
outros estão preocupados com o agrupamento das tropas no vale de
Jezreel.
- O que está acontecendo em San Diego?
- Quase nada até a chegada do capitão Steele e do Sr. McCullum,
que deve ocorrer a qualquer momento. Estamos nos preparando para a
chegada de, pelo menos, 200 pessoas nos próximos dias. Elas poderão
nos contar alguma coisa. Você conversou com sua irmã recentemente?
- Não. Mas tenho pensado em ligar para ela, agora que tenho
novidades para contar.
- Ela também tem novidades para lhe contar.
- Que novidades?
- Ah!, não quero estragar a surpresa.
-Naomi!
- Não, não posso. Estou ansiosa por conhecê-la e não quero
cometer uma falha logo no início e trair a confiança dela.
- Ela lhe contou alguma coisa que deixou de me contar?
- Não exatamente. Mas minha função não permite que eu passe
informações que outras pessoas não devem saber.
- Por exemplo?
- Mensagens aos líderes. Em vez de pedirmos que eles venham
ao centro e as leiam diretamente na tela do computador, nós as
imprimimos e as entregamos pessoalmente.
- E foi numa dessas mensagens que você ficou sabendo alguma

coisa sobre minha irmã que ela não quis me contar?
Naomi assentiu com a cabeça.

- Bem, eu posso resolver isso rapidamente - ele disse, pegando
seu celular. - E quando você terá alguns minutos para mim?
- Pode ser agora - ela respondeu. - Mas tenho apenas alguns
minutos. O dia de hoje vai ser muito agitado.
- Você está me devendo uma história.
- A minha história, você quer dizer? A história diz respeito a meu
pai e a mim, mas, como não é longa, vou ter tempo para contá-la.
- Voltamos a conversar daqui a dez minutos - disse Chang,
digitando o número do telefone da irmã.
- Alô, Chang - disse Ming. - Perdoe-me por estar sussurrando,
mas estou tomando conta de Kenny Bruce, e só agora ele conseguiu
dormir.
- Eu só queria saber como você está e como vão as coisas aí.
- Tenho certeza de que você sabe.
-Sim. Tenho novidades para você.
-Conte-me, irmão.
- Deus eliminou a marca da besta de minha testa.
- Louvado seja Deus! Quero que me conte tudo! Estou ansiosa
para ver você novamente.
Ele contou o que acontecera.

- Foi maravilhoso demais, Chang. Que pena isso ter acontecido
em um dia tão triste.
- Sim, e você também tem uma novidade para me contar, não?
- Do que você está falando?
- Não faço idéia. Foi só um palpite.
- Ah!, Chang. Ree me pediu em casamento, e eu pedi ao Dr. Ben

Judá que realize a cerimônia quando chegarmos aí.

NOVE

- Vou fazer o reconhecimento da área - disse Buck -, para ver se
eles poderão aterrissar com segurança.
George, sentado ao volante do Hummer, olhou de esguelha para
Buck.

- Não havia ninguém na área quando saímos do esconderijo, não
vimos pessoa suspeita alguma no caminho e ninguém nos seguiu. Nos
últimos 800 metros, rodamos em estrada de terra e acendemos os faróis
apenas para saber se estávamos no rumo certo. Buck, a pista aérea é
muito mais segura do que já foi.
Buck suspirou fundo e sacudiu a cabeça.

- Desde quando eu passei a ser cauteloso? O militar é você.
- Existe cautela e prudência, e há paranóia - disse Sebastian. - Sei
que eles pegaram Chloe, mas não estavam vigiando ninguém. A culpa foi
dela. Sinto muito, mas seu sogro disse que ela reconheceu a culpa. E
essa história de Chloe ter se aventurado a sair...
-Mas por que ela saiu? Eu vi os caras. Ela também deve ter visto.
E eles a pegaram.
- Eles deviam estar fazendo uma simples verificação de rotina.
Você mesmo disse que pareciam entediados.
- Mas agora não estão mais entediados, estão?
- Não, Buck, agora eles não estão entediados. Vou estacionar no
final da pista. Se quiser andar um pouco pela mata até a chegada deles,
fique à vontade.

-Você não vai me acompanhar?
- O chefe é você. Se quiser que eu o acompanhe, tudo bem. Mas
você disse claramente: "Vou fazer o reconhecimento da área." Bem,
estou deixando que você faça o reconhecimento da área.
-Venha comigo.
- É uma ordem?
-Estou pedindo como amigo.
- Isso não é justo, Buck. Não tente me convencer.
- Ora, vamos. E se eu descobrir alguma coisa? Você nunca se
perdoará.
-Você é mesmo um caso perdido.
Buck sabia que Sebastian tinha razão. A verdade é que ele estava
fragilizado e precisava fazer alguma coisa. Estava pronto para invadir a
sede da CG em San Diego, disparando uma rajada de metralhadora, para
resgatar Chloe.

- Você sabe que Rayford deve estar pronto para ir atrás de Chloe -
disse Buck, enquanto eles caminhavam pela mata, com fardas de
camuflagem, cada um carregando uma Uzi do lado.

- Mas ele e Mac passaram quase 16 horas no ar, provavelmente
revezando-se no comando. Esses caras vão precisar descansar um
pouco.
- Mac já ficou sabendo do que houve com Albie. Deve estar ligado
e pronto para partir.
- Ele vai querer voltar a Al Basrah para descobrir o que realmente
aconteceu. De qualquer forma, Buck, se planejarmos uma invasão,
quando vamos fazer isso? E quem vai levar nosso pessoal para Petra
nesse meio tempo?
- Pensei que Rayford fosse encarregar Lionel disso.

- Lionel vai organizar e fornecer o necessário, claro. Mas temos de
liderar essas pessoas e providenciar para que tudo funcione.
Buck deu um tapa em um mosquito.

- O que estamos fazendo? Não há nada aqui. De quem foi a idéia?
Você ouviu o barulho de um jato?
-Não. Já que estamos aqui, vamos fazer alguma coisa.
-Você quer procurar alguma coisa para fazer?
- Não quero perder tempo, só isso. Não podemos nos afastar
muito da pista de pouso.
De repente, Buck foi envolvido por uma nuvem de insetos. Ele
soltou a Uzi, deixando-a dependurada no cinto, e começou a bater na
cabeça e no rosto com as duas mãos.

-Vamos dar o fora daqui - ele disse.
Quando os dois saíram da mata, estavam mais ou menos no
ponto intermediário da pista.

- Agora vamos ter de caminhar até o fim da pista quando eles
chegarem - disse George.
- Vamos já para lá - disse Buck. - Você pode ocupar seu tempo
me ajudando a planejar o ataque.
-Na sede da CG?
-Onde mais?
- O que você sabe sobre aquele lugar?
- Como assim? Acabamos de passar por lá. Você viu.
- Buck, nenhum de nós entrou lá. Sei que o prédio tem quatro
pavimentos e um porão, mas não sei se os prisioneiros ficam no porão.
Você sabe?
- Não, mas lembro que havia grades nas janelas debaixo.
- Tudo bem. Isso ajuda. Mas quanto mais você sabe, mais certeza

tem de que não sabe nada.

- O que deve haver dentro daquele mostrengo?
George parou.
- Muito bem, preste atenção. Vou dar minha opinião sobre a sede
da CG em San Diego. Sei que é uma das maiores dos Estados Unidos
Norte-americanos, mas não tenho idéia de quanta gente trabalha lá. Você
tem?
-Não.
- Só sei que ela tem quatro pavimentos e um porão, mas não sei
onde ficam as celas. Você sabe?
-Não.
- Imagino que eles tenham celas separadas para homens e
mulheres, mas não tenho certeza. Você tem?
-Não.
- Bem, se tiverem celas separadas, os homens e as mulheres
ficam no mesmo pavimento ou em pavimentos diferentes?
-Não sei dizer.
- Você está vendo que não sabemos nada, Buck? Absolutamente
nada. Uma operação militar, principalmente um ataque de surpresa, é
complicada e exige planejamento meticuloso. Temos um único objetivo
que é tirar Chloe viva de lá. Mas, para isso, precisamos infiltrar alguém lá.
- Não podemos infiltrar ninguém lá!
- Então, como vamos fazer, Buck? Pense, homem. Pense no que
precisamos saber antes de invadir o local. Será que a CG separa os
prisioneiros mais importantes dos comuns? E se separa, onde eles ficam?
- Está certo. Você já deu sua opinião.
- Eu nem comecei ainda, Buck. Vocês de fora acham muito bonito
o treinamento militar, mas não sabem metade da história. É preciso ter

bom senso. Além de sabermos exatamente onde Chloe está, temos de
saber qual é o caminho mais curto para entrar e sair. Temos de saber que
portas e janelas são menos vigiadas. Temos de saber quanta munição
vamos ter de levar. Buck, você sabe o que isto significa? Sabe o que
determina a quantidade de munição que devemos levar?

- O tamanho e a resistência das portas e janelas?
- Mais ou menos. Mas o problema é o pessoal de lá, companheiro.
Quantos vão cruzar nosso caminho e que armas estarão empunhando?
Se você me dissesse que Chloe está no canto nordeste do segundo
pavimento e quantos homens da CG eu teria de enfrentar para chegar lá,
se me dissesse quantas pessoas estão vigiando e que tipo de armas elas
têm, eu seria capaz de planejar uma missão para você. Caso contrário,
vamos ficar rodando no mesmo lugar, fazendo suposições e levando
adiante uma missão que, provavelmente, será um fracasso total.
Eles chegaram ao final da pista e sentaram-se na grama, no
escuro.

- E como deve ser feita uma invasão desse tipo?
George colocou a arma no colo.
- Nunca é fácil, mas existem pré-requisitos. Nos velhos e bons
tempos, quando as pessoas não eram identificadas por uma marca, a
gente podia infiltrar alguém em determinado lugar. Alguém que tivesse
um grande conhecimento do prédio, talvez acesso às plantas, ao
planejamento do piso e aos sistemas de encanamento, eletricidade e
ventilação.
-Eu me sinto de mãos atadas, George. O que vamos fazer?
Buck avistou as luzes de pouso antes de ouvir o ronco dos
motores do Gulfstream. Ele sinalizou com uma lanterna possante que a
área estava livre. Em poucos minutos, o avião estava no chão e


escondido, e Rayford e Mac desembarcando.

Os quatro cumprimentaram-se com um aperto de mão, sem dizer
nada. Em seguida, Buck e Rayford se abraçaram. Nenhum deles
demonstrou emoção, mas o abraço foi mais apertado e mais longo do que
nas vezes anteriores. Eles transferiram as bagagens para o Hummer,
mas, antes de entrarem no carro, Mac disse:

- Eu me sinto 20 anos mais velho. Será que temos de sentar em
outro lugar apertado imediatamente?
-Não temos pressa - disse Rayford. - Estique as pernas.
- Eu não me importo de retardar um pouco a volta para casa -
disse Buck. - Não vimos atividade alguma da CG hoje, mas com certeza
eles vão bisbilhotar por lá mais tarde.

Rayford disse:

-Você não está imaginando que Chloe conseguiu despistá-los
quando disse que estava a uns 50 quilômetros de casa?
Buck riu.

- Acho que não, mas você sabe que ela deve ter tentado. Na
verdade, vai ser interessante ver que lugar eles vão vigiar esta noite. Com
isso, vamos ter uma idéia de onde eles a pegaram.
- Agora você está raciocinando - disse George. - Vamos ter uma
idéia do tempo que eles vão necessitar para descobrir o esconderijo e do
tempo que precisamos para sair de lá.


- Eu não devia ter me afastado muito de lá - disse Naomi, sentada
ao lado de Chang perto de um pilar que fazia parte do pórtico da Tumba
das Urnas. - Se eu tivesse alguém como você para me substituir no

trabalho, eu poderia ir mais longe ainda.

- Com quem? - Chang perguntou, e ela riu. - Falando sério, estou
curioso para conhecer sua história.
- Eu adoro essas lembranças, Chang, apesar de minha história ser
triste. Meu pai era um homem de negócios, proprietário de um
restaurante, com várias filiais na área que contorna o Estádio Teddy
Kollek. Você conhece Jerusalém?
-Não.
- Ele era honesto e bom e todos gostavam dele, o respeitavam.
Isso é muito importante na minha cultura.
-Na minha também.
- Acho que a reputação de uma pessoa é importante em qualquer
cultura. Para meu pai, era um orgulho ter um número tão grande de
amigos e um negócio lucrativo. Ele proporcionava tudo o que minha mãe
e eu necessitávamos. Também era um homem muito religioso e
transmitiu esses princípios à família. Íamos à sinagoga todos os sábados.
Conhecíamos as Escrituras. Amávamos a Deus. Creio que meu pai sentia
orgulho disso, mas não um orgulho no mau sentido. Você entende o que
estou dizendo?
Chang assentiu com a cabeça.

- Cerca de oito anos atrás - ela prosseguiu -, quando eu tinha 11
anos, minha mãe adoeceu. Câncer. Câncer no... bem, perdoe-me. Sou
tímida demais para mencionar o local. Ainda não nos conhecemos o
suficiente para eu lhe contar certas coisas.
- Está tudo bem.
- Ela ficou muito mal. Meu pai foi bom demais para ela. Tinha
dinheiro e podia contratar alguém para ajudá-la em tempo integral. Mas
não fez isso. Contratou uma pessoa por meio período e reduziu suas

horas de trabalho pela metade, para poder passar as tardes e as noites
com ela. Meu pai foi um exemplo maravilhoso para mim, e eu passei a
querer ser mais prestativa ainda. Nós amávamos minha mãe, e meu pai
dizia que considerava um privilégio poder servi-la da mesma maneira que
ela nos serviu durante tantos anos. Ele a fez sentir-se feliz, apesar do
sofrimento.

- Parece que ele é um homem maravilhoso.
- Ah!, ele é, Chang. Sempre foi. Pouco depois de meu 12º
aniversário, o estado de saúde de minha mãe piorou e ele precisou
interná-la em um hospital. Ela foi desenganada pelos médicos. Mas meu
pai não acreditava na palavra "desenganada". Ele acreditava em Deus.
Disse aos médicos e a qualquer pessoa que quisesse chorar
antecipadamente a morte dela que nós lhes provaríamos o que ia
acontecer. O "nós" incluía sua filhinha. Mas como poderíamos provar
alguma coisa? Apenas orando. Deus faria sua obra e minha mãe seria
curada.
Chang notou angústia na voz de Naomi, e ela se calou.

- Está bem - ele disse. - Termine a história em outra ocasião.
- Não - ela disse, enxugando os olhos. - Parece que tudo
aconteceu recentemente. Vou terminar. Quero terminar. Uma noite, quase
madrugada, meu pai chegou do hospital muito aborrecido. Eu não o
acompanhava ao hospital à noite, somente à tarde. Eu lhe perguntei: "Pai,
o que houve? A mamãe piorou?", e ele respondeu: "Não, mas penso que
ela pode piorar por minha causa."
- Aquilo me assustou. Ele nunca discutiu com minha mãe, jamais
disse uma palavra maldosa sobre ela, pelo menos na minha frente. Minha
mãe disse alguma coisa a meu pai, e ele imaginou que ela estivesse
delirando por causa da medicação que estava recebendo. Ela chorou e

disse que isso não era verdade, que ela acreditava no que havia lhe
contado. Eu perguntei: "O que foi, papai, o que foi?" Ele começou a
chorar e disse que levantou a voz para ela, que a mandou parar de falar
bobagens.

- "Eu fiz sua mãe chorar", ele me contou, chorando, chorando alto.
"Magoei a mulher que amo de todo o coração, que está morrendo diante
de meus olhos." E eu perguntei: "Mas, papai, a mamãe também o
magoou. O que ela disse?" Ele respondeu: "Ela me disse: 'Jesus é o
Messias'. Eu quis saber onde sua mãe tinha ouvido tamanha heresia,
mas ela não respondeu. Tinha medo de que eu criasse problemas para
alguém, e confesso que eu faria isso!"
- Eu não sabia o que pensar. Levei um susto quando meu pai
repetiu as palavras dela. Ele disse à minha mãe que me proibiria de vê-la
novamente caso ela continuasse a acreditar nessa bobagem, mas aquilo
só serviu para me fazer chorar. Naquela mesma noite, fomos chamados
para comparecer ao hospital. Disseram que se quiséssemos vê-la viva,
deveríamos ir imediatamente.
- Meu pai chorou durante todo o percurso, culpando-se por ter sido
rude com ela. "Eu fui o causador disso tudo!", ele repetia sem parar.
Suplicou a Deus que poupasse a vida dela, fez promessas. Nunca vi meu
pai tão arrasado. Estávamos ao lado de minha mãe quando ela morreu.
Suas últimas palavras foram dirigidas a nós. Digo nós, Chang, porque ela
me fitou nos olhos e, em seguida, fitou os olhos de meu pai, e disse: "Vou
para junto de Deus. Estudem as profecias. Estudem as profecias."
-Puxa!
- Eu não aceitei Jesus da maneira que você imagina. A conclusão
lógica seria esta: meu pai e eu fomos para casa, estudamos as profecias
e passamos a acreditar no que minha mãe acreditava. Mas não

aconteceu dessa maneira. Meu pai ficou tão angustiado que se revoltou
contra Deus e deixou de estudar as Escrituras. Paramos de orar.
Paramos de ir à sinagoga.

- Ele ainda me amava e cuidava de mim, mas tentava sufocar o
sofrimento no trabalho. Seus amigos não podiam fazer nada, apenas
sentir pena dele, porque meu pai não era mais o mesmo homem de
antes.
- Eu não conseguia esquecer as últimas palavras de minha mãe,
mas meu pai proibiu-me de estudar qualquer trecho da Bíblia,
principalmente as profecias. Fiquei triste, muito triste, porque minha vida
mudou radicalmente com a perda de minha mãe e com a mudança
drástica ocorrida na vida de meu pai. Todas as vezes que eu mencionava
que Deus poderia nos ajudar, que encontraríamos conforto na sinagoga
ou que a Bíblia nos forneceria respostas, ele não queria ouvir.
- Eu tinha 13 anos quando ocorreram os desaparecimentos. Aquilo
chamou a atenção de todo mundo, até de meu pai. Assustados demais,
voltamos a recorrer a Deus, voltamos à sinagoga, voltamos a ler as
Escrituras. Comecei a estudar as profecias. Apesar de minha pouca
idade, passei a compreender aquilo que minha mãe compreendeu
quando alguém lhe disse aquelas palavras. Meu pai não queria admitir,
mas acho que ele também passou a compreender.
- Quando ouvimos falar que o conhecido estudioso da Bíblia, o Dr.
Tsion Ben-Judá, ia aparecer na TV, em rede internacional, para
apresentar suas conclusões a respeito do Messias com base nas
profecias bíblicas, assistimos ao programa juntos. No dia seguinte, todos
estavam comentando sobre o problema que o Dr. Ben-Judá criou para si
quando declarou que o Messias já tinha vindo ao mundo, mas meu pai e
eu ficamos empolgados demais com o que ouvimos. Ele encontrou um

Novo Testamento, e começamos a estudá-lo todas as noites.

- Quando chegamos à história do judeu chamado Saulo, que se
tornou Paulo, meu pai ficou muito entusiasmado. Enquanto líamos cada
vez mais depressa e trechos cada vez mais longos, passamos a acreditar
que Jesus era o Messias e que Ele poderia perdoar nossos pecados.
Memorizamos 1 Coríntios 15.1-4: "Irmãos, venho lembrar-vos o
evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda
perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como
vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo vos
entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia,
segundo as Escrituras."
- Meu pai e eu queríamos fazer tudo o que Paulo havia feito.
Aceitar aquela verdade mediante a qual Paulo disse que poderíamos ser
salvos. Não sabíamos o que dizer ou fazer. Simplesmente oramos e
contamos a Deus que acreditávamos naquelas palavras e queríamos
aceitá-las. Depois de algumas semanas de leitura foi que
compreendemos o que havíamos feito e o que aquilo tudo significava. Um
dia, meu pai encontrou, no final do Novo Testamento, um guia para a
salvação, mencionando que devíamos aceitar, crer e confessar.
Estudamos a parte que se chama estrada para a salvação, aqueles
versículos que falam que todos nós pecamos e carecemos da glória de
Deus, que o salário do pecado é a morte, mas que o dom de Deus é a
vida eterna por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor.
Chang continuou no mesmo lugar, olhando para ela.

- As histórias nunca são iguais - ele disse. - Já ouvi muitas
histórias sobre pessoas que se converteram, e cada uma é diferente da
outra. Quero dizer, todas chegam ao mesmo lugar, mas quase sempre

começaram por ocasião dos desaparecimentos. No seu caso, a
responsável por tudo foi sua mãe.

- Não vejo a hora de voltar a vê-la, Chang. E não vai demorar
muito.


Chloe não sabia se estava cochilando ou desmaiada quando
Florence voltou à meia-noite, fazendo muito barulho. Ela enfiou a barra de
energia, com toda força, entre as grades da cela e deixou-a cair no chão.
Chloe queria agarrar a barra, rasgar a embalagem e devorá-la de uma só
vez, mas o orgulho ainda era maior. Ela se virou para olhar, mas não saiu
do lugar.

- Seu jantar, querida - disse Florence. - Recomendo um vinho
branco para acompanhar, do tipo água de torneira.
Chloe só se movimentou depois que ela saiu. Comeu metade da
barra, que não tinha gosto de nada. Mas aprendera que o tempero mais
saboroso era a fome. Embrulhou a outra metade, determinada a reservála
para o desjejum. Mas as poucas calorias que acabara de ingerir
serviram apenas para estimular seu apetite. Ela aguardaria meia hora e
comeria o restante.

Embora Chloe ainda estivesse fraca, a barra serviu para saciar um
pouco a fome e ela conseguiu cochilar.

Sonhou primeiro com sua família. Buck e Kenny estavam perto o
suficiente para que ela pudesse sentir o cheiro deles, mas não podia
alcançá-los, nem tocá-los, nem beijá-los. A seguir, as expressões dos
rostos deles se modificaram, demonstrando horror e repulsa ao vê-la.
Teria ela a marca na testa? Estaria terrivelmente feia? Eles fizeram uma


careta e lhe viraram as costas. Ainda sonhando, Chloe correu até um
espelho e descobriu que estava sem cabeça. Desmaiou de susto e,
quando caiu no chão, despertou.

Sentou-se no catre, com as mãos no rosto, balançando o corpo.
Aquilo ia ser mais difícil do que ela imaginara. Mas não se deixaria
enganar e, mesmo sob tortura, não forneceria nenhuma informação à CG.

Ela apenas orou pedindo a Deus que, se não fosse libertada de
alguma forma - e essa missão seria praticamente impossível -, sua
execução fosse rápida.

- Tomei uma decisão muito difícil, Buck - disse Rayford. Eram
duas horas da madrugada no esconderijo. Rayford estava em seus
aposentos conversando com Buck, que passaria a noite ali. Ming se
transferira para a casa de Buck e Chloe para que Kenny pudesse dormir
em sua própria cama. Sebastian e um jovem companheiro estavam no
posto de vigia.
- Eu não vou querer ouvir qual é a decisão, vou? - perguntou
Buck.
- Provavelmente não. Mas, por um motivo ou outro, Deus me
colocou nesta posição. Embora eu seja tendencioso e tenha quase os
mesmos interesses que você, necessito assumir a liderança deste caso.
Mac está dormindo. Quando ele estiver completamente descansado,
seguirá para Wisconsin a fim de pegar Zeke. Ele vai deixá-lo em Petra
para começar a trabalhar em nossa próxima missão.
Buck abaixou a cabeça.

- Nossa próxima missão não será aqui?

- Ouça, Buck. Mac vai esclarecer o assunto em Al Basrah e se
mudará para Petra. Quando ele estiver a caminho de lá, vou lhe pedir que
ligue para Otto Weser, o sujeito de quem lhe falei. Otto está no palácio e
talvez tenha condições de descobrir o que está acontecendo em Al Hillah.
A assistente de Carpathia sabe que Nicolae está planejando uma reunião
em Bagdá com os dez chefes de Estado do mundo inteiro. Acreditamos
que será nessa ocasião que ele ajuntará os efetivos militares de todas as
outras regiões com os exércitos que já estão se enfileirando em Israel.
- Sinto muito, pai, mas no momento não estou nem um pouco
interessado no que está acontecendo longe daqui. Parece que todas as
atenções estão voltadas para as atividades de lá. Enquanto isso,
deixamos Chloe perecendo aqui.
- Buck, nós dois estamos sem dormir há muito tempo. Acredite em
mim. Tenho chorado, orado e me preocupado tanto quanto você, o que
é...
-Duvido.
-...muito desgastante. Preciso descansar, e você também.
-Pai, não vou conseguir dormir.
- Eu não estou falando em dormir. Tire essa roupa, deite-se e
estique o corpo, coloque os pés para cima. Descanse um pouco, mesmo
que não consiga desligar. Precisamos de você inteiro, Buck.
- Com isso, você está querendo me dizer que não vou
acompanhar George esta noite.
- Não vou permitir que George vá, Buck. Não queremos prejudicálo
de maneira alguma. Ele reuniu um grupo que pode seguir o rastro dos
homens da CG se eles aparecerem esta noite. Só queremos saber que
área eles estão começando a vasculhar. Tenho a impressão de que
nosso pessoal já começou a aprontar-se para sair daqui. Lionel já

providenciou os aviões e os pilotos. Temos de estar preparados para
partir a qualquer momento.

Buck inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.

- Eu confio em você, pai, e sei que deseja o melhor para Chloe.
Mas não estou entendendo. Quando vamos começar a investigar a sede
da CG, descobrir como entrar lá ou como encontrar alguém que conheça
tudo sobre o local?
- Nós dois podemos tentar chegar o mais perto possível de lá,
amanhã à noite. Se George estiver livre, vamos levá-lo.
- Estamos perdendo tempo. Rayford endireitou o corpo e suspirou.
- Minha prioridade é preservar os recursos de que dispomos. E
isso inclui o elemento humano. Nossas mentes nos dizem que ainda
temos vigor físico, mas se começarmos a nos desgastar desta maneira,
vamos ficar mais lentos, vamos agir com precipitação e pouca eficiência.
Confie em mim, Buck. Quero ver Chloe fora de lá tanto quanto você, mas
ela não é a única pessoa sob nossa responsabilidade.
- Mas eu quero ser informado imediatamente assim que o grupo
de George descobrir alguma coisa sobre...
- Não. E tem mais. Dei uma ordem para que ninguém nos perturbe
até a metade da manhã, a não ser em caso de emergência.
-Pai!
- O fato de você saber de alguma coisa e não poder agir não vai
servir para nada. Chega de conversa. Vamos descansar um pouco.


Ao meio-dia, quando o sol estava a pino, Chang preferia trabalhar
internamente, da mesma forma que todos moradores de Petra. Ele


descobrira, por meio de erros e acertos, que podia ter acesso a tudo o
que se passava em Nova Babilônia, a partir de Petra. O problema era que
todos os executivos haviam partido para Al Hillah.

Depois que o plano de instalação de uma escuta clandestina no
palácio fracassou, ele foi encarregado de descobrir um meio que
permitisse a Otto Weser passar-lhe as informações. Para conseguir isso,
foi necessário saber que equipamentos o pessoal deixou no palácio e se
os tais equipamentos permitiriam que as conversas fossem ouvidas em
Petra.

Chang preocupava-se por estar demonstrando abertamente seu
interesse por Naomi. Queria passar o tempo todo ao lado dela. Decidiu
não fazer conjecturas e não sair de perto de seu computador na hora do
almoço. Estava com fome, mas podia aguardar o maná da noite.

Ele ficou emocionado quando Naomi aproximou-se timidamente
com um cesto na mão.

- Ei, trabalhador! - ela disse. - Não quero que morra de fome.
-Oi - ele disse.
- Eu trouxe alguns bolos de mel para você.


O hino "Salve Carpathia" passara a fazer parte da rotina de Chloe.
Ela calculou que deveria ser quatro horas da madrugada. Tentara tapar
os ouvidos enquanto cochilava, mas quando o sono chegou, suas mãos
escorregaram. Foi por isso que ela ouviu a porta ser aberta e prendeu a
respiração.

Pelo som dos passos pesados e do tilintar das chaves, ela
imaginou que fosse Florence. O que aquela mulher queria?


Chloe percebeu que ela estava perto da cela e sentiu cheiro de
comida. Cheiro de hambúrguer com todos os ingredientes. E o som de
líquido sendo sorvido por um canudinho. Para Chloe, aquilo parecia ser o
néctar dos deuses.

Ela se virou lentamente e, sob a iluminação fraca, viu Florence
sentada no chão e encostada na cela. Chloe apoiou-se em um cotovelo e
respirou fundo.

- Está acordada? - Florence perguntou.
-Penso que sim.
- Quer que eu desligue aquela música?
-E se eu quiser? Você vai se importar?
-Não me provoque novamente.
- Se você quer saber mesmo se quero, minha resposta é sim,
quero que desligue a música.
- Eu não sou uma pessoa tão má quanto você imagina - disse
Florence.
Ela colocou perto da cela a metade do hambúrguer que havia sido
mordido, metade da bebida e um copo alto de papel, com tampa. Em
seguida, caminhou em direção à porta. A música parou.

Quando Florence retornou, Chloe disse:

-Obrigada.
- Hã-hã - ela resmungou, sentando-se no chão novamente. - Estou
comendo um hambúrguer.
-Eu sei.
- Eu trouxe uma coisa para você.
-Não acredito.
- Está vendo? Por que você é assim o tempo todo? Será que uma
pessoa não pode ser gentil com a outra?

- Como eu gostaria que isso fosse verdade.
- Bem, seu desejo foi atendido, se é que você gosta de chocolate.
- Quem não gosta?
- Que tal um chocolate batido com leite?
- Eu ainda devo estar sonhando, certo? A música foi desligada e
agora me oferecem um chocolate no meio da noite. O que aconteceu com
você?
- Eu já disse. Não sou tão má assim. Ninguém é.
Conheço alguém que é.

- Se for verdade que você vai me oferecer um chocolate, só posso
lhe dizer que fico muito agradecida.
- Eu também sou mãe.
-Verdade?
- Hã-hã. O nome dele é Brewster. Está com quase três anos.
-Você tem uma foto dele?
-Tenho! Você quer mesmo ver?
-Claro.
- Espere um pouco. Não posso acender as luzes quando estou
sozinha com você.
Ela terminou o sanduíche, deixou o chocolate no chão e afastou-
se para jogar o resto no lixo. Chloe queria tanto aquele chocolate que
chegou a tremer. Será que poderia conquistar a simpatia daquela mulher,
de mãe para mãe?

Florence saiu e acendeu as luzes. Quando retornou, a porta foi
trancada pelo lado de fora. Chloe já sabia que aquilo fazia parte da regra.

O copo com o chocolate não poderia passar pela malha
entrelaçada da cela, portanto se a porta da cela fosse aberta, a outra teria
de ficar trancada. Mas aquilo fez Chloe pensar que Florence mentiu


quando disse que estava sozinha. Caso contrário, como faria para sair
dali?

- Se eu destrancar esta cela, o que é totalmente contra as regras,
você não vai abusar de minha bondade e fazer alguma coisa contra mim,
vai? Sou maior e mais forte que você, mas mesmo que queira...
- Sim, eu sei. Jock já me contou. Nós duas estamos trancadas.
-Exatamente.
- Se eu ficar bem comportada e pegar o chocolate, e se você me
trancar aqui nesta cela, como vai conseguir sair?
- Eu toco a campainha, e eles me deixam sair.
- Quer dizer que não estamos sozinhas.
- Bem, não, não depois que eu tocar a campainha.
- E se eles virem que você me entregou alguma coisa?
- Aí eu vou ficar encrencada. Por isso, se você quiser o chocolate,
é melhor ser rápida.
-Eu quero.
- Fique onde está. Não se levante quando eu abrir a porta, se não
eu tranco de novo.
Florence destrancou a cela, entregou o chocolate a Chloe, e
trancou-a novamente. Foi a primeira vez que Chloe notou um sinal de
emoção no rosto de Florence. Ela parecia nervosa, talvez assustada.
Talvez entusiasmada por estar fazendo uma boa ação quando não
deveria.

Chloe sorveu avidamente o chocolate e não ficou desapontada. O
líquido ainda estava gelado, espesso, saboroso e, aparentemente, com
uma quantidade exagerada de chocolate. Ou substancioso, conforme ela
costumava dizer, rindo, às amigas quando alguma comida tinha um sabor
muito acentuado.


Florence continuava em pé, observando-a.

- Puxa vida, moça. Veja o que está fazendo com seu estômago
vazio. É melhor ir mais devagar.
- É o que vou fazer. Não quero congelar meu cérebro. Florence
riu.
- E não se esqueça de me mostrar a fotografia de Brewster - disse
Chloe.
- Ah! Vou mostrar. Assim que você terminar.
Por que não agora? Foi a pergunta que Chloe fez a si mesma
enquanto sorvia mais um pouco do líquido. O açúcar e a cafeína a
manteriam acordada, mas não havia acontecimento especial algum
aguardando por ela de manhã. Talvez Jock aparecesse e saboreasse o
desjejum na frente dela.

- Jock - disse Chloe, rindo sem motivo.
-O quê? - perguntou Florence.
-Ovos na minha frente.
- Do que você está falando?
- Jock. Jack. Jick. Jeck...
-Hein?
Chloe estava zonza. O copo começou a escorregar. Ela procurou
segurá-lo com a outra mão para firmá-lo, mas o líquido caiu no chão e
espirrou. Ela ainda teve tempo de lembrar-se de que aquilo era a maior
tragédia que poderia ter acontecido e começou a chorar.

Seus olhos queriam fechar. Ela se forçou a mantê-los abertos e
levantou o queixo para tentar enxergar Florence, que continuava no
mesmo lugar, observando-a. Florence tocou a campainha. A outra porta
foi aberta. Nigel e Jock entraram, empurrando uma maca.

- Vou limpar tudo - disse Florence, destrancando a cela.

- Excelente trabalho, Flo - disse Jock. - Adorei quando você disse
que tinha um filho.
- Ora, meu bem, essa gente facilita nosso trabalho quando está
com fome.
DEZ

Buck foi despertado no meio da manhã por uma batida leve,
porém insistente, na porta do quarto de Rayford. Ele esticou o braço e
abriu-a, sem levantar-se do sofá-cama.

- Imaginei estar acordando seu sogro - disse Sebastian.
Foi nesse momento que Buck despertou completamente.
- Que horas são? - ele perguntou.
-Quase dez horas.
- O que houve? O que seus homens encontraram?
- Buck, tenho de obedecer à hierarquia.
- O quê? Você está brincando comigo? Não pode me contar o que
está acontecendo com minha esposa?
- Eu me reporto a Rayford, Buck. E você também.
- Você sempre sai ganhando, George. Sabe de uma coisa? - Buck
levantou-se do sofá-cama e bateu na porta de Rayford. - Sebastian está
aqui e tem notícias para lhe dar, pai. Abra a porta.
Rayford apareceu, com ar sonolento.

- Ei, rapazes - ele disse. - Vocês conseguiram dormir?
- Da mesma forma que você - respondeu Buck. - Agora vamos ao
que interessa.
Buck ajeitou os lençóis e os cobertores entre o assento e o


encosto do sofá, fechou-o e sentou-se. Rayford também se sentou.

-Meu subordinado está aguardando no corredor -disse
Sebastian. - Queria ter certeza de que vocês estavam apresentáveis.
- Mande-o entrar - disse Rayford. - Aqui estamos nós em trajes de
dormir.
George abriu a porta.

-Razor! - ele chamou. - Pode entrar.
Razor era um rapaz hispânico, de pouco mais de 20 anos, com
aparência de militar. Ele fez continência a todos, e Buck dispensou o
protocolo, dizendo:

- Vamos, vamos. Somos só nós. O que você descobriu?
- Senhores, eu estava no posto de vigia, conforme todos sabem, e
notei atividade no detector de movimento por volta das três horas. Uma
pessoa do nosso grupo de três é mulher, portanto pedi a ela que
verificasse o periscópio na residência do casal Williams, porque havia
uma mulher sozinha lá... bem, com um bebê, e eu não queria passar por
cima das regras...
- Estamos entendendo, Sr. Razor - disse Buck. - Por favor,
prossiga.
- Sim, senhor. Ela verificou e relatou atividade do inimigo a uma
distância de dois quarteirões do esconderijo. Também obteve permissão
da Sra. Toy para que eu entrasse na casa.
Buck olhou de relance para Rayford, sacudiu a cabeça e fitou o
chão. Por tudo o que é mais sagrado...

- Observei pessoalmente uma atividade semelhante e reuni meu
pessoal. Saímos com fardas de camuflagem, rostos pintados de graxa e
armas automáticas leves e possantes. Nosso objetivo era observar,
chegar perto o suficiente para ouvir a conversa deles, se possível... e, se

necessário, defender o esconderijo ou atrair o inimigo para uma área
neutra, para dar aos ocupantes daqui...

- Tempo de fugir - complementou Buck. - Sim, e daí, o que
aconteceu?
-Observamos dois pelotões da CG examinando a área.
Aparentemente, eles haviam começado cerca de dois quarteirões a oeste
e estavam seguindo naquela direção.
- O que significa que eles estavam se afastando em vez de
aproximar-se daqui?
- Sim, senhor, mas as notícias não são tão boas assim.
Observamos a direção que os homens seguiam e a velocidade de seus
passos e conseguimos ficar lado a lado com eles. Os dois que me
acompanhavam, caminhando escondidos no meio de arbustos, foram
capazes de ouvir o que os homens diziam. Chegaram à conclusão que o
objetivo daquela missão era recomeçar no ponto em que eles pararam e,
dali em diante, vasculhar uma área mais ampla que leva ao local em que
a Sra. Williams foi capturada. Eu calculo, Sr. Williams, que o ponto em
que eles pararam é o mesmo que o senhor e o Sr. Sebastian observaram
24 horas antes.
- Estou orando para que você tenha seguido os homens até o tal
ponto - disse Buck.
- Seguimos, senhor. Também ouvimos aqueles homens dizerem
que amanhã à noite, na mesma hora, eles vão fazer o percurso de volta e
passar por onde começaram, o que inclui o esconderijo novamente.
Achamos que eles vão levar a tarefa até o fim e, se for possível, devemos
sair daqui antes das duas horas de amanhã.
- Você já informou as pessoas certas? A mudança está sendo
providenciada?

- Sim, senhor, mas ainda não terminei. Perto do local onde a Sra.
Williams foi capturada, nosso pessoal encontrou a Uzi dela e a máscara
de esquiar.
- O que você acha disto, Buck? - perguntou Sebastian.
-Que ela as escondeu.
- Mas nós também... pelo menos meus comandados... ouvimos
dois homens da CG conversando sobre o que iam fazer com ela.
Buck não conseguiu conter-se.

- Por favor, recruta Razor, conte-me o que ouviu sobre o que eles
vão fazer com minha esposa.
- Pela conversa deles, ela vai ser transferida, senhor.
-Quando?
- Dentro de uma hora, senhor. Entendemos que a transferência vai
ser feita antes que Carpathia comece a convocar as tropas desta região.
- Vamos voltar ao assunto "dentro de uma hora", Razor - disse
Buck. - Em uma hora a partir de agora ou daquele momento?
-Daquele momento, senhor.
- Está bem, mas, por favor, pare com esse "senhor". Sei que você
foi militar, mas eu não fui, e isso está me deixando maluco. Você está me
dizendo que Chloe foi transferida às quatro horas desta madrugada?
-Sim, senh...
-Para onde?
- Pelo que meu pessoal conseguiu entender, senh... isto é, Sr.
Williams, eles disseram "algum lugar perto do leste".
- Algum lugar perto do leste. - Buck levantou-se, abriu as duas
mãos e olhou para Rayford e George. - Eles a levaram para algum lugar
perto do leste, o que deve ter sido feito por avião... - Buck olhou para seu
relógio. - ...seis horas atrás.

- Diga-me uma coisa, Razor, nenhum de vocês pensou em ir até a
sede da CG para ver se seria possível abortar a transferência?
-Não, senhor.
- Ninguém pensou que se tratava de uma emergência, que valia a
pena chamar o Sr. Steele ou Sebastian ou eu?
- Quando ouvimos a conversa, senhor... perdão... a transferência
já devia estar sendo feita.
- Você supôs.
-Sim, foi uma suposição.
- No único momento em que, provavelmente, eles estavam mais
vulneráveis, tirando uma mulher da cela, levando-a para fora do edifício,
caminhando ao ar livre até um veículo que a conduziria ao avião...
estávamos todos dormindo.
- Peço que me desculpe, senhor, mas em meu julgamento não
havia nada que pudesse ser feito. Já era tarde demais quando ouvimos a
conversa e, ah, o horário em que a operação seria feita.
Buck não conseguia ficar parado. Andava de um lado para o outro,
olhando com ar de expectativa para os três.

- Dormimos no ponto - ele disse. - Tivemos uma boa oportunidade,
mas estávamos descansando.
- Por favor, Buck - disse Rayford, mas Buck não se acalmava.
- Algum lugar perto do leste - ele repetiu, imitando Razor. - Isso
reduz nossas chances, não? Talvez se começarmos a caminhar na
direção leste, poderemos alcançá-los, não?
- Obrigado, Razor - disse Sebastian. - Se não houver mais nada a
relatar, pode ir.
- Obrigado, senhores - disse Razor.
- Ah! Sim, obrigado por nada - disse Buck.

-Eu lamento muito, senhor, se...
-Ora, pode ir - disse Buck.
Rayford fez um sinal com a cabeça para dispensar o rapaz, que
disparou porta a fora.

- Buck - disse George -, provavelmente ele tomou a decisão certa.
Correr até lá de madrugada, na esperança de chegar a tempo de fazer
alguma coisa, sem ter um plano...
- Pelo menos poderíamos ter feito uma tentativa, não?
- Buck chutou uma cadeira que foi parar na cozinha e bateu na
mesa e no armário. - Acho que se eu quiser ver minha esposa
novamente, vou ter de arregimentar um comando de um homem só.
- E ser morto - disse Rayford. - Você já desabafou. Agora chega.
- Não vou parar enquanto não tiver Chloe de volta.


Chloe havia caído da cama de metal, em cima do chocolate
esparramado no chão. Incapaz de impedir a queda, ela bateu com a
cabeça no ladrilho. Permaneceu deitada desajeitadamente sobre uma
perna, com a cabeça zonza e lutando para não dormir. A substância
misturada ao chocolate devia ser um tranqüilizante muito forte porque ela
queria apenas dormir o sono profundo dos drogados. Aquilo a fez
lembrar-se de como se sentiu depois do parto, quando Kenny nasceu.

Florence destrancou a cela e ajoelhou-se para limpar a sujeira.
Rolou o corpo de Chloe e puxou-a pelo pé para que as duas pernas
ficassem esticadas. Segurou o corpo de Chloe com uma das mãos
enquanto limpava o chão. Quando a soltou, Chloe rolou no chão e ficou
deitada de costas.


Seus olhos se fecharam e sua respiração passou a ser profunda e
regular, mas ela orava desesperadamente.

-Deus, eu preciso continuar consciente. Preciso ouvir. Ajuda-me a
ouvir.
- O chão já está seco? - Jock perguntou.
- Só mais um instante - respondeu Florence.
- Coloque o lençol no chão, Nigel, e segure-a pelos tornozelos.
Chloe sentiu as mãos de Jock em suas axilas e as de Nigel
segurando-lhe os pés.

- Em três! - disse Jock, e eles a levantaram do chão com a ajuda
do lençol e a colocaram na maca. Chloe ficou feliz por estar com os olhos
fechados. Ela não tinha equilíbrio e sentia que poderia cair da maca a
qualquer momento.
- Para o caminhão imediatamente.
A maca rodou atravessando a sala maior, passou pela porta e
parou. Chloe ouviu as portas do elevador sendo abertas. Ela foi
empurrada para dentro, e o elevador subiu um andar. Em seguida, ela
estava do lado de fora do edifício. Não conseguia abrir os olhos por mais
que tentasse. Com o corpo descoberto, ela sentiu o ar frio, mas alguma
coisa a impedia de tremer. Queria encostar uma perna na outra e
massagear os braços com as mãos, mas não podia se movimentar.

-Senhor, por favor. Eu preciso ficar acordada.
- Um carro fúnebre? - perguntou Nigel. - De quem foi a idéia?
- Minha - respondeu Jock, rindo. - As pessoas não vão olhar se
pensarem que há um morto dentro.
-Você vai com ela até lá? - perguntou Florence.
- Vou - respondeu Jock, e Chloe notou orgulho em sua voz. - É
meu dever ir até o fim.

- Quando vai ser? - perguntou Florence.
Chloe sentiu o veículo rodando.
- Ainda não sei. Eles vão querer extrair o máximo de informações
dela. O passo seguinte é o soro da verdade.
- Isso sempre funciona, não?
-Geralmente.
Não desta vez, Chloe pensou, Deus, não permitas que eu diga
algo que tu não desejas.

Ela estava imóvel, dos pés até a cabeça, mas Deus parecia ter
atendido ao seu pedido de manter-se consciente. Podia ouvir, podia sentir
cheiro. Não podia tocar nem ver, mas sentia o ar fresco da madrugada.

Aquela foi a viagem mais suave da qual ela se lembrava, uma
viagem que durou menos de uma hora. De repente, a maca foi retirada do
carro fúnebre, rodou uns cem metros e foi levantada do chão para subir
por uma escada, que ela imaginou ser a de um avião. E quando os
motores começaram a funcionar, ela sabia que estava certa.

Chloe ouviu as felicitações e despedidas de Nigel e Florence. Em
seguida, Jock e, pelo jeito, outro homem a deitaram em vários assentos
que tinham os braços levantados. Os homens amarraram-lhe o tronco e
os joelhos com os cintos de segurança dos assentos.

Pelo som das vozes, Chloe imaginou que eles deviam estar
sentados na fileira à sua frente. Ela teve a impressão de que havia ali
apenas os três mais os pilotos de um Jumbo. Não conhecia outra
aeronave com tantos assentos enfileirados para permitir que alguém se
deitasse com o corpo esticado.

- Quanto tempo vai demorar este vôo? - perguntou um homem
com sotaque espanhol.
- Eu calculo quatro horas, Jess - respondeu Jock.

- Depois, vamos ter de rodar cerca de 80 quilômetros a partir do
sudoeste. A área inteira de Chicago está contaminada por radiação,
portanto vamos ter de seguir para o norte, sempre que possível.
A conversa passou para assuntos triviais, e Chloe sucumbiu ao
sono.

Buck sabia que estava sendo inconveniente, mas não conseguia
conter-se. Enquanto todos os moradores do esconderijo se preparavam
para a grande mudança, ele questionava o pessoal. Alguém havia
trabalhado na sede da CG antes de se converter? Alguém conhecia um
homem ou mulher que tivesse trabalhado lá? Existe alguma conexão,
alguma pista, alguma notícia? Alguém poderia falar com uma pessoa que
tenha condições de fornecer informações sobre o paradeiro de Chloe?

Ele procurou ligar para a sede por meio de um telefone seguro,
fingindo ser um funcionário da CG Internacional. Ninguém acreditou.
Talvez Ming lograsse êxito. Buck rascunhou algumas frases para ela
usar, enquanto ele brincava com Kenny. Também não funcionou.

Finalmente, Rayford encontrou Buck e lhe disse:

- Faça o que quiser, mas esteja pronto para partir com o pessoal.
- Eu vou fazer uma viagem mais curta, chefe - disse Buck. - Será
que um dos homens de Lionel poderia me deixar em algum lugar perto do
leste?
Rayford negou com a cabeça e começou a afastar-se.

- Ei, pai - chamou Buck -, seu quarto está destrancado?
- Está. E vazio. Só deixei suas coisas lá.
- Vou pegá-las imediatamente.

A caminho do quarto de Rayford, Buck cruzou com Razor no
corredor.

- Senhor - disse o rapaz, fazendo continência instintivamente.
- Ei, filho, espere um pouco. Eu lhe devo um pedido de desculpa.
-Não, está tudo bem. Eu entendo que o senhor está passando por
um problema sério.
- Existe um motivo, mas isso não serve como justificativa. Quero
que me perdoe. Perdi o controle.
- Entendo, senhor. Não pense mais nisso.
-Bem, obrigado. Posso lhe fazer uma pergunta?
-Pois não.
- Por que você tem esse nome?
Razor (em inglês, razor significa navalha) corou e abaixou a
cabeça.

-Acidente com um snowmobile, aquele veículo que desliza na
neve.
-O quê!? Acha que vale a pena me contar?
- Foi na primeira vez. Em Minnesota. O lugar não é muito parecido
com o México, o senhor sabe. Eu não vi o arame farpado. Quase morri. O
arame prendeu-se no meu capacete e fez um estrago nele, mas não
decepou minha cabeça. Chegou a arrancar o capacete quando me
abaixei e passei por baixo. As pessoas que estavam assistindo disseram
que o arame se enrolou no capacete, mas não se partiu. Enquanto eu
corria para bem longe, o arame funcionou como um estilingue e atirou o
capacete de volta. Ele bateu na minha nuca, e eu desmaiei.
- Mas você está aqui. E, apesar de toda a minha grosseria, estou
feliz por você estar aqui conosco.
Depois de ouvir aquela história maluca, Buck começou a pensar


insistentemente em decapitação. Seu maior medo era perder Chloe, é
claro, mas ele se preocupava com o sofrimento que seria imposto à sua
esposa. Buck não suportava imaginar que ela pudesse estar sendo
ultrajada, sofrendo maus-tratos, torturada - não queria sequer considerar
todas as possibilidades. Não o confortava o fato de saber que, mesmo
que ela fosse martirizada, ele voltaria a vê-la em menos de um ano. O
que aquilo significaria para Kenny?

E, para piorar as coisas, ele começou a pensar no tipo de morte a
que Chloe seria submetida. Morte é morte, e a maneira de morrer não
fazia diferença alguma, ele sabia. Mas, se ela fosse morta e se a CG
fizesse disso um espetáculo público como certamente faria, ele não
suportaria assistir à cena. A idéia de ver sua querida esposa morrendo de
maneira tão horripilante e grotesca lhe causou náuseas.

Não havia dúvida de que ela permaneceria firme na fé até o fim.
Ele ouvira histórias semelhantes e chegou a ver seu velho amigo Steve
Plank afrontar Carpathia e glorificar a Deus antes de morrer. Buck
também sabia que, se Chloe tivesse o mesmo fim, ela receberia um novo
corpo no céu. Mesmo assim, rejeitava a idéia de que a pessoa que ele
mais amava pudesse morrer da pior maneira imaginável.

Se, agora, ele não estava conseguindo livrar-se desses
pensamentos, como seria se aquilo acontecesse realmente? Ele resolveu
falar com Rayford.

- Estou muito ocupado - disse seu sogro -, e você também deveria
estar. Não espero que você se esqueça de Chloe; eu também não
consigo me esquecer dela. Mas você deveria ser mais produtivo.
- Eu sei. Só preciso de um minuto seu.
Buck contou a Rayford os pensamentos que o atormentavam.
Para sua surpresa, os lábios de Rayford começaram a tremer. Sua voz


ficou embargada.

- Eu também estou pensando a mesma coisa, Buck, mas não
queria lhe contar.
- Sério? Em tudo o que pode acontecer a ela?
- Exatamente. O sentimento de um pai é diferente, você sabe.
Imagine como se sente a respeito de Kenny. Eu estava presente quando
Chloe nasceu. Parece que foi ontem. Ela era uma garotinha vermelha,
rechonchuda, que chorava o tempo todo e só parava quando era enrolada
em um cobertor ou colocada de encontro ao peito da mãe. De repente,
ela se transformou na criatura mais linda do mundo. Fazíamos tudo por
ela, qualquer coisa para protegê-la. E isso nunca mudou. Ela cresceu e
se tornou uma linda mulher. E, apesar de todos os ferimentos e cicatrizes
em seu rosto, eu ainda a vejo daquela maneira.
- Eu também.
- Portanto, Buck, sei o que você está pensando. Temos de ser
fortes e tentar não remoer essa idéia. Não sei mais o que fazer.


Chang estava acompanhando Naomi até a casa dela à noite.

- Amanhã, eu quero lhe mostrar uma coisa em meu computador -
ele disse. - Descobri que a solução encontrada pelo chefe de produção da
CNNCG para a praga da escuridão foi tatear o caminho até a sala de
controle e encontrar o botão que permite que a rede internacional seja
acessada, por meio de controle remoto, por três ou quatro afiliadas mais
importantes.

-Genial - disse Naomi. - Não é mesmo?
- Ah! Fiquei impressionado. E estou empolgado. Também posso

acessá-la e ser mais rápido que as afiliadas, usando o sistema que David
Hassid instalou em Nova Babilônia.

-Estou ansioso para ver.
- A capacidade é ilimitada, Naomi. Quando Cameron Williams
chegar aqui, vamos trabalhar juntos e contra-atacar as mentiras
veiculadas pela CG, e isso pode ser feito imediatamente.
- Não há nada que eles possam fazer para impedir?
- Que eu saiba, não. Só se eles instalarem uma rede totalmente
nova. Talvez eles pensem que vão ter tempo, mas o fim está mais
próximo do que eles imaginam.


- Então, você tirou a pior carta do baralho, hein, parceiro? - disse
Mac.
- Sinto muito, Sr. McCullum - disse Ree -, mas não conheço essa
expressão.
- Bem, sem entrar em detalhes, significa que o pior serviço ficou
com você.
Eles haviam estudado a área através do periscópio uma hora
antes e constataram que poderiam retirar o Hummer do estacionamento
sem ser detectados.

- Levar o senhor até o avião? Não há problema. Eu gosto de fazer
isso. Só gostaria de voar com o senhor até Wisconsin. Pilotei um
Gulfstream apenas uma vez e gostei.
- Se essa foi sua única experiência, prefiro que não seja meu
piloto. Você entende o que estou dizendo?
Em pouco mais de três horas, Mac pousou em Hudson,


Wisconsin, onde foi recebido pelo grandalhão Gustaf Zuckermandel Jr.,
mais conhecido como Zeke.

- Eu gostaria que o senhor conhecesse o pessoal de Avery - disse
o rapaz de 25 anos. - Mas o sujeito que me trouxe de carro já retornou.
Levamos uma hora para arrastar minhas tralhas até um arbusto.
Mac o acompanhou ao local onde estavam suas caixas e baús.

- Você tem certeza de que quer transportar todas estas coisas até
o avião em plena luz do dia, Zeke?
- Se o senhor quiser aguardar até escurecer, para mim não há
problema, mas não há necessidade. A CG se esqueceu desta parte do
país. Não vi ninguém das Forças Pacificadoras desde que cheguei aqui.
Enquanto eles colocavam a bagagem no avião, Mac disse:

- Você não pensou duas vezes antes de sair daqui? Deve ter feito
muitos amigos.
- Pensei várias vezes, mas acho que a gente deve ir para onde foi
chamado. Fui convocado para ficar aqui, e agora estou sendo chamado
para lá. Que seria de um sujeito jogado para as traças como eu se
ninguém se lembrasse dele?
-Você é o melhor criador de disfarces e falsificador de
documentos que já conheci, e fiquei sabendo que você fez grande
sucesso aqui.
-Ah! Isso não é verdade. O senhor não conhece os fatos
verdadeiros, Sr. McCullum. Não havia mais nada para eu fazer aqui em
matéria de disfarces e falsificação de documentos, porque ninguém
necessitava disso. Resolvi, então, envolver-me em estudos bíblicos,
aperfeiçoar minha leitura, essas coisas. Logo em seguida, o líder me
convocou. Eu nunca fui professor ou pregador, mas fiz o melhor que
pude. E gostei. Gostei de ter uma ocupação. Aquele título de assistente

de pastor me foi dado por bondade.

-Foi uma honra, não?
-Sim, eu gostei.
- Espero que se sinta honrado, porque esse título é muito
significativo.
- Vou sentir falta de todos, mas devo lhe dizer que estou querendo
chegar a Petra e conhecer o lugar. E ver novamente o Dr. Ben-Judá, Dr.
Rosenzweig e todos os outros, bem...
- E você vai ter um trabalho muito importante.
xx- Eu gostaria que o senhor me contasse.


Chloe passou a maior parte do tempo dormindo durante as quatro
horas de vôo. Quando o efeito das drogas passou, ela voltou a si. E
estava com fome. Uma barra de energia e alguns goles do líquido que ela
ingeriu antes de sentir o efeito do narcótico foram seu único alimento
desde as 19 horas da noite anterior, quando foi seqüestrada. Aquilo seria
uma boa desculpa para fingir que estava inconsciente.

- Que horas são aqui? - perguntou o companheiro de Jock quando
o avião pousou.
- Perto de meio-dia, e estou com fome - disse Jock. - E você?
- Eu também.
- Vou oferecer alguma coisa à prisioneira. Fingir que sou um tira
bonzinho. Injetar um pouco de soro da verdade. Ver se ela começa a
cantar.
- Ela é um passarinho difícil de cantar, não?
- Você nem imagina, Jess. Até agora, estou cantando o coro de

"Aleluia" sozinho.

- E se ela não falar? Quanto tempo você vai esperar?
- Quando a gente não consegue extrair nada nas primeiras 48
horas, a coisa fica cada vez mais difícil.
- A fome não ajuda?
-Para mim, ajudaria, mas acho que já fizeram isso com
prisioneiros de guerra. Aqueles que sobrevivem ao primeiro round de
tortura física e psicológica não falam, por mais que a gente insista.
Enquanto Chloe estava sendo transportada através do túnel de
acesso ao terminal, Jock disse:

- Aquela prisão nunca abrigou uma detenta antes de tomarmos
posse dela. A nossa prisioneira vai ficar numa solitária. É a única maneira
de mantê-la separada do restante da população carcerária.
Chloe foi deitada no banco traseiro de um espaçoso veículo
utilitário, com tela de arame nas janelas e nenhuma maçaneta interna.
Jock a algemou.

- Ela vai voltar a si logo - ele explicou. - Um pouco de cuidado
nunca é demais.
Quando eles pararam no caminho, Chloe procurou imaginar uma
forma de fugir. Jock disse:

- Vou buscar comida. Fique aqui com ela.
Chloe sentou-se.
- Preciso ir ao banheiro.
Jock olhou firme para ela.
- Está falando sério?
-Claro.
- Não temos uma policial para acompanhá-la. Você vai ter de usar
o banheiro masculino, e um de nós vai ficar a seu lado.

-Esqueça.
- Você quer que eu compre uma daquelas fraldas para adultos?
- Quanto tempo falta para chegarmos ao destino?
-Meia hora.
-Eu espero.
Enquanto Jock não voltava, Chloe procurou puxar conversa com o
homem para quem ela não olhara até aquele momento. Ele tinha um 0 na
testa, o que significava que era dos Estados Unidos Sul-americanos. Sua
pele era surpreendentemente escura, e ele tinha dentes perfeitos.

- Você me faz lembrar meu marido - ela disse.
-Sério?
- Sim, só que ele não é tão feio assim.
O homem achou graça e virou-se para ela.
- Você é muito engraçadinha - ele disse. - Por que está me
hostilizando?
- Você é um dos que vão me matar. Acho que não vou ser capaz
de lutar com você, machucá-lo, portanto...
-É verdade.
- Jock chamou você de Jess.
- Sim, meu nome é Jessé - ele disse.
- Hum. Nome em homenagem a Jesus. Esse é o seu nome
verdadeiro? Jesus? - Chloe pronunciou o nome em espanhol.
- A bem da verdade, sim, e tenho uma irmã chamada Maria.
-Ela também é carpathianista?
-Claro.
- Que decepção o seu homônimo deve estar sentindo!
Jock trouxe a comida e tirou as algemas de Chloe. Os homens
começaram a devorar o lanche deles. Chloe continuou sentada atrás da


grade que a separava do banco dianteiro. Ela orou em voz alta:

-Senhor, obrigada por este alimento. Peço-te que me ajudes a
comê-lo lentamente para eu não passar mal, e que elimines qualquer tipo
de veneno que Jock possa ter colocado aqui. Dá-me força para resistir às
tentativas de Jock ou Jessé de me obrigarem a falar o que não devo. Oro
em nome de Jesus. Amém.
ONZE

- Eu gostava muito de Albie - disse Zeke, enquanto Mac pilotava o
avião, cruzando o Atlântico. - Ele era um homem bom.
- Você tem razão, Z - disse Mac. -E nunca vou entender o que
aconteceu, mas penso que ele fez uma tremenda bobagem para ser
morto daquela maneira.
- Não parece ser do feitio dele. Você, o capitão Steele e o restante
do pessoal sempre respeitavam as idéias dele.
- Mas todos nós somos humanos. Quem sabe ele abaixou a
guarda por alguns segundos, ficou confiante demais? Ele estava
determinado a ter a vida comum que sempre teve. Mesmo quando nós
dois concordamos que eu deveria ir a Petra e transportar Rayford de volta
para os Estados Unidos, Albie insistiu que queria levar sua pequena
missão até o fim. Eu também tive culpa. Nós dois achamos que se tratava
de um assunto que precisava ser feito... e rápido. Agora, veja o que
aconteceu.
- Rayford disse que isso foi um baque para Tsion e Chaim.
- Para todos nós. Já passamos por muitos sofrimentos, mas nunca
é fácil. Eles estão planejando realizar um pequeno culto em memória de
Albie em Petra, assim que todo o pessoal de San Diego chegar lá.

-Quando eles vão chegar?
- Ah! A primeira leva deverá chegar amanhã, por volta das três da
madrugada. Você e eu estamos 13 horas na frente deles. Assim que eu
deixar você lá, sigo para Al Basrah e pego as minhas coisas e as de Albie
que ficaram em nosso apartamento. Não podemos deixar pista alguma.
Depois, volto para Petra e pego um avião maior, porque vou ter de
transportar Otto Weser e todo o seu pessoal para lá.
- O capitão Steele me contou sobre esse homem. Pelo que estou
entendendo, você vai levar toda aquela gente para Petra por causa de um
trecho da Bíblia que diz que o povo de Deus deve ser tirado da Babilônia
antes que Ele a destrua, é isso?
-Exatamente.
Z olhou para o oceano, cerca de 12 quilômetros abaixo.
- Como deve ter sido quando as águas se transformaram em
sangue?
-Não dá para imaginar.
- Ei, Mac, você acha que Rayford deve confiar na secretária de
Carpathia?
- Pelo jeito que ele contou, acho que sim. Você também não
acha?
- Não confio em ninguém que não seja crente. E se ela estiver
preparando uma armadilha para pegar você e esse tal de Otto?
-Que pensamento agradável!
- Você mesmo disse que um pouco de cuidado nunca é demais.
- Bem - disse Mac -, precisamos saber o que está acontecendo
em Al Hillah e o que vamos ter de enfrentar depois disso. Não temos
outro recurso.
Uma hora mais tarde, Zeke vasculhou uma de suas sacolas e tirou


um livro de dentro. Ele parecia compenetrado.

- Eu não lia bem quando você me conheceu em Chicago.
- Eu ia dizer que...
- Mas agora que estou lendo melhor, acho que vou poder fazer
outras coisas, você sabe, coisas mais científicas.
- Por exemplo?
- Estou imaginando que vocês vão me pedir para criar novos
disfarces e identidades para um monte de gente.
- Correto. Todos os nossos antigos codinomes e disfarces já foram
descobertos.
- Encontrei este livro em uma biblioteca abandonada, do outro
lado da divisa do Estado de Minnesota. Aqui, há coisas de que eu nunca
ouvi falar. Novas maneiras de mudar a cor da pele e dos olhos, tudo.
Imitar cicatrizes e manchas. Quantas pessoas vão precisar disso?
- Penso que cinco - disse Mac. - Acho que Ray vai querer
disfarces para mim, para ele, Buck, Sebastian e Smitty.
- Sério? Só isso? Eu trouxe um exagero de coisas.
- O que você trouxe?
- Tudo o que sobrou quando saímos de Chicago. Uniformes da
CG com todos os tipos de patentes, documentos de identidade e de
outros tipos, roupas para homens e mulheres. Vai ser fácil. Quero dizer,
isso leva tempo, mas eu imaginei que fossem dez ou 12. O mais difícil de
todos é o Sr. Sebastian, mas já bolei uma idéia para ele.
-Qual e?
Zeke colocou o livro no colo, aparentemente para poder gesticular
com as duas mãos.

- O problema com pessoas grandes é que, por mais que a gente
queira, nunca pode diminuir o tamanho delas. Uma pessoa miúda pode

ficar maior se a gente colocar enchimentos e outras coisas por baixo da
roupa delas, mas não é possível tirar alguns quilos de quem é corpulento.

- Mas, veja - prosseguiu Zeke -, posso dar uma nova aparência a
George, a aparência de um homem bem mais velho. Aí, o tamanho dele
não vai fazer diferença. Ele pode ficar com jeito de um velho, sem que
ninguém perceba que recebeu treinamento militar. Posso dar uma
bengala a ele, óculos. Fazer com que fique parecido com aqueles sujeitos
de meia-idade que envelheceram depressa demais. Corto aquele cabelo
loiro, aplico fios brancos, coloco algumas rugas no rosto. De repente, em
vez de parecer um sujeito de mais ou menos 30 anos, grandalhão e em
perfeita forma, ele vai aparentar ter o dobro dessa idade, abatido por
estar mal alimentado, com o corpo um pouco curvado, talvez sofrendo de
diabetes, problemas nos joelhos, nos pés. Eu coloco um pouco de
enchimento na frente e nas costas dele, para que ande com passos
miúdos. Assim, ele não vai representar ameaça para ninguém.
- Brilhante. E o que você vai fazer comigo?
- O maior problema com você é seu sotaque sulino. Você é capaz
de imitar outros sotaques? De um ianque ou um inglês?
- É mais fácil imitar um inglês do que um ianque, com certeza.
- Então, vou dar um jeito de você ficar parecido com um inglês.
Com terno de tweed e tudo.


A suposição de Chloe quanto ao local para onde estava sendo
levada foi confirmada quando Jock conversou, pelo rádio, com alguém à
frente e, pouco depois, o veículo em que ela viajava foi cercado por
batedores da CG em motocicletas e viaturas. Eles escoltaram a famosa


prisioneira às instalações que, um dia, foram conhecidas como Centro
Correcional Stateville, em Joliet, Illinois.

O local era uma casa de horror, em estilo gótico, que um dia
abrigara uma penitenciária estadual e, agora, se transformara em uma
das maiores prisões internacionais da CG, para homens e mulheres. A
população carcerária feminina dali era imensa e só perdia para o Presídio
de Reabilitação Feminina da Bélgica (PRFB).

A primeira coisa que Chloe notou foi o número enorme de
caminhões da imprensa atravancando a entrada. Havia câmeras de todos
os lados apontadas para o veículo em que ela viajava. Assim que o
veículo passou pelos caminhões, Chloe olhou para trás e viu uma
multidão de fotógrafos e jornalistas no imenso pátio, lutando para
conseguir uma posição privilegiada.

Nos últimos dois anos e meio, o pátio de Stateville tornara-se
famoso. Os prisioneiros só recebiam permissão para permanecer naquele
lugar em duas situações. Quando eram levados a passar diante da
gigantesca estátua de bronze de Carpathia três vezes por dia, onde
paravam em grupos de 30 a 50 e se ajoelhavam para adorá-la, ou quando
eram levados para lá a fim de serem executados. O pátio tinha sete
guilhotinas separadas por cerca de dez metros uma da outra e
posicionadas de maneira a receber a luz do sol desde o alvorecer até o
crepúsculo.

Jock parou o veículo no meio do pátio.

- Olhe para lá, meu bem - ele disse. - Aquelas lâminas são afiadas
todas as noites, mas nenhuma jamais foi limpa. Não são esfregadas, não
são lavadas, não recebem protetores contra ferrugem.
- E você está vendo aquelas ranhuras de cada lado, por onde as
lâminas maiores descem? Nos tempos em que éramos mais bonzinhos,

elas eram lubrificadas depois de serem usadas. Não são mais. Agora, as
lâminas descem com dificuldade pelas laterais, algumas vezes emperram,
ficam enrascadas, demoram a cair. Mas são suficientemente pesadas.
Mesmo quando não descem de uma vez, elas afundam pelo menos uns
dez centímetros na hora em que atingem o pescoço de alguém.

- Nos velhos tempos, a lâmina não era tão eficiente assim, para
tristeza nossa. A regra era colocar a cabeça lá e esperar a lâmina cair.
Se, por um motivo ou outro, ela não matasse a pessoa, bem... o castigo já
havia sido aplicado. E não pense que era raro isso acontecer. Muitas
pessoas ficavam andando por aí com ferimentos graves no pescoço.
- Mas agora, se a lâmina não matar na primeira vez, ela é
levantada para descer de novo. Duas, três vezes, até completar o serviço.
E, conforme eu disse, aquela lâmina enferrujada e empastada de sangue
é afiada todas as noites.
Cerca de seis metros adiante de cada guilhotina havia uma mesa
franzina de madeira, também cinza e gasta pela exposição ao sol e ao
vento. Atrás de cada uma, viam-se duas cadeiras de espaldar alto, ao
estilo das encontradas no Banco da Inglaterra, que não combinavam com

o local. O vento não desgastara sua madeira vermelha polida.
- Os processadores e os aplicadores da marca costumam sentar-
se ali - ele disse. - Os condenados ficam enfileirados.
Assim que as informações sobre eles são registradas e nós
confiscamos seus pertences pessoais, eles recebem um cesto de
plástico, do tipo daqueles usados em lavanderia, e o entregam ao
executor ou à executora. Ele ou ela o coloca do outro lado, onde a lâmina
despenca. A cabeça cai no cesto e o corpo continua no lugar onde a
pessoa se ajoelhou. Os condenados à prisão perpétua fazem o
recolhimento. Vamos, eu vou lhe mostrar.


-Peço que me poupe disso.
- Ora, você vai gostar.
Jock afastou-se.
-Algeme esta mulher, Jess.
Jessé se virou e abriu a grade.
- Estique os braços.
-É melhor me dopar outra vez - disse Chloe.
-O quê?
- Você acha que vou me deixar ser algemada para que vocês me
levem para um lugar que eu não quero ir?
Jock abriu a porta traseira do carro.

- Espere, Jock! - gritou Jessé. - Ela ainda não está algemada.
-O que está...?
Para Chloe, Jock estava querendo aparecer diante das câmeras
quando entrou rapidamente no veículo pela porta traseira. Chloe
continuou sentada com as mãos fechadas entre os joelhos.

- Você gosta de ser difícil, hein? - ele disse.
Jock agarrou os pulsos de Chloe e a forçou a levantar as duas
mãos juntas, para que Jessé colocasse a algema. Assim que ela foi
algemada, Jock saiu do veículo, puxando-a pelas algemas e arrastando-a
para fora. Com os braços esticados para a frente, ela bateu a cabeça na
porta, arranhou os joelhos no chão do carro e, depois, no terreno. Jock a
forçou a ficar em pé.

Chloe estava toda machucada, mas se sentia feliz por ter dado
tanto trabalho a eles. Talvez outra pessoa não resistisse e caminhasse
docemente em direção à morte. Ela não. Jock a segurou pelo cotovelo e a
conduziu para perto da máquina mortífera do centro.

- Ela vai ser toda sua amanhã, se você não cooperar hoje. O mau

cheiro a sufocou. Os dois homens taparam a boca e o nariz com um
lenço. Chloe, desta vez misericordiosamente algemada com as mãos
para a frente, dobrou os braços e cobriu o nariz com os dedos.

- Conforme você pode ver - disse Jock -, nós não lavamos a
plataforma nem o chão. Por que deveríamos fazer isso?
Para Chloe, a área ao redor das guilhotinas enfileiradas, que
ocupavam um espaço de mais de 50 metros, tinha a aparência de um
matadouro. O chão ao redor era preto, empastado de sangue.

- Você está vendo aquela caçamba ali? - perguntou Jock. Bem
atrás da máquina do centro, talvez a uma distância de 30 metros, havia
uma caçamba enorme, cujo tamanho era cerca de metade de um vagão
para transporte de carga. Ele não tinha tampa.
- Um coletor pega o cesto e joga a cabeça lá - prosseguiu Jock. -
Dois coletores arrastam o corpo para o mesmo lugar. Você está vendo
aquelas trilhas pretas que começam nas guilhotinas e terminam na
caçamba? Você sabe o que elas significam.

Chloe sabia muito bem. Procurou prender a respiração, mas Jock
continuava a puxá-la pelo braço, impedindo-a de tapar o nariz com as
mãos. Ela orou para que ele não a forçasse a olhar dentro da caçamba.

-Ela é esvaziada uma vez por semana - ele disse.
A CG mantinha a imprensa afastada, mas o pessoal gritava de
longe.

- O que é aquilo no macacão dela? Está sujo de terra?
Chloe, mortificada, gritou:
-Chocolate!
Jock se virou e a espancou na testa com as costas da mão.
- Não fale com ninguém, a não ser conosco, entendeu?
-Eles me drogaram com um choco...!

Jock se postou atrás dela e cobriu-lhe a boca com a mão. Quando
Chloe quis mordê-la, ele fincou o joelho nas costas dela, fazendo-a perder

o equilíbrio.
- Jess, me dê a fita adesiva.
- A situação não precisava ter chegado a este ponto, senhora -
disse Jessé, pegando um rolo de fita adesiva no bolso da jaqueta.

- Pensei que não fosse necessário.
Jock esticou o braço para pegar um pedaço da fita, deixando livre
a boca de Chloe.

- A verdade é uma só! Eu fui drogada! Eles...
Jock passou a fita tão apertada sob o nariz de Chloe que provocou
um inchaço imediato no lábio superior dela. Quando ele apertou a fita
contra as bochechas, ela não pôde mais movimentar a mandíbulas, e
muito menos falar.

Deus, Chloe orou silenciosamente, ajuda-me a ser forte. Eu não
quero fraquejar. Não quero ser surrada nem levada a falar alguma coisa
por medo. E, se eu tiver de morrer, permite que eu fale antes. Ajuda-me a
lembrar-me de todos os versículos que memorizei. Por favor, Deus,
permite que eu fale tuas palavras.

Jock e Jessé forçaram-na a atravessar o pátio em direção a uma
porta de aço na parede de um dos conjuntos de celas. A porta ficava no
nível do chão, mas ela supôs que teria de descer uma escada de acesso
à cela solitária no porão.

Eles pararam a uns dez metros da porta. A imprensa estava do
outro lado, a mesma distância.

- Ela contou mais alguma coisa? - perguntou uma mulher.
-Ah! Sim - respondeu Jock.
Chloe movimentou negativamente a cabeça, com muita firmeza.

- Um pouco de cada vez - ele prosseguiu. - É claro que tivemos de
dizer a ela que não existe mais clemência em troca de, ah, favores
físicos, como havia antigamente. Ela só poderá ajudar a si mesma se
contar a verdade. Tenho certeza de que chegaremos lá. Ela já nos
forneceu outras pistas sobre o esconderijo judaísta e a cooperativa de
mercado negro. Já extraímos mais informações dela do que de qualquer
outra pessoa. Como vocês sabem, ela entregou o Sr. Al Basrah, o
principal subversivo do Oriente Médio, e ele já está morto.
Chloe continuou a sacudir a cabeça, mas sabia que não
apareceria na CNNCG naquela noite.

- Por ora, basta, turma. Temos mais alguns pré-requisitos para
que a Sra. Williams seja condenada à prisão perpétua, e não à morte,
mas nossas execuções diárias aqui serão realizadas amanhã, às dez
horas. Não esperamos ter o mesmo número de condenados de ontem,
quando todas as máquinas trabalharam por quase meia hora, mas a
última contagem é de 35, ou seja, cinco em cada máquina.
A imprensa começou a dispersar-se, mas Jock e Jessé
continuaram em pé ao lado de Chloe.

- Vou terminar meu discurso de guia turístico, madame, e você vai
ter de me ouvir até o fim - disse Jock. - Os dias mais felizes de minha vida
foram passados neste pátio, vendo essa gente receber o castigo que
merece. Sinceramente, fiquei desapontado quando fui transferido para
San Diego, mas a chefia me garantiu que havia um grupo enorme de
judaístas naquela cidade. Disseram que eu poderia transportá-los para cá
se conseguíssemos arrancá-los de lá. Esperamos que você seja apenas
a primeira.

Mac estava satisfeito por ter a companhia de Zeke naquele vôo
tão longo. Apesar de ter pouco estudo, o jovem era inteligente e curioso.
Tinha sempre uma pergunta a fazer ou histórias para contar.

- É difícil inventar um disfarce para Abdullah, porque seus traços
são muito evidentes. Ele não tem facilidade para mudar de sotaque, por
isso acho melhor manter sua aparência de homem do Oriente Médio, mas
um pouco diferente de um jordaniano. Rayford é bem fácil, porque posso
inventar qualquer tipo para ele. Buck é o mais difícil de todos por causa
daquelas cicatrizes no rosto. Mas digamos que posso transformar vocês
cinco em pessoas totalmente diferentes. O que vocês vão fazer?
- Ainda não sei ao certo, Z - respondeu Mac. - Dizem que
Carpathia está convocando os dez reis. Ele chama esses homens de
potentados regionais, mas nós sabemos o que vai acontecer, não?
-Eu sei.
- Se Otto tiver êxito em Nova Babilônia, vamos descobrir o local da
grande festança antes que ela comece, para instalarmos as "escutas" lá.
Não devemos tentar impedir os eventos proféticos, mas será muito bom
saber exatamente o que está acontecendo.
- E aquela secretária de Carpathia?
- Krystall? Se eles pedissem minha opinião, eu diria que devemos
convencê-la de que sabemos o que vai acontecer em Nova Babilônia e
tirá-la de lá.
-Para Petra?
Mac sacudiu a cabeça.
- Por mais que a gente queira pensar de outra forma, Deus
separou aquela cidade de refúgio apenas para seu povo. É muito triste
dizer isto, mas ela tomou uma decisão, tomou partido e aceitou a marca.

Se nós a tirarmos de Nova Babilônia, ela não vai morrer no meio daquela
confusão, quando Deus julgar a cidade. Mas, de qualquer maneira, ela vai
morrer antes do Glorioso Aparecimento. E quando ela morrer, não vai
gostar da vida eterna que vai ter. Mas isso não significa que não devemos
ser amigos dela e ser gratos por sua ajuda. Ou que não lamentemos por
ela ter esperado tanto tempo para conhecer a verdade.

- Eu ainda tenho dúvidas se podemos confiar nela – disse Zeke.


O horário para a partida de San Diego foi antecipado para a meia-
noite, em parte porque os preparativos estavam adiantados e em parte
por questões de segurança. Ninguém sabia ao certo quando a CG
iniciaria a próxima ronda para vasculhar o local.

Buck estava no estacionamento conversando por meio de um
walkie-talkie com Ming, que se encontrava em seu apartamento cuidando
de Kenny e manipulando o periscópio. Quando ela disse que o terreno
estava livre, Buck ordenou que os veículos carregados seguissem para a
pista aérea, onde os aviões e os pilotos providenciados por Lionel
Whalum estariam aguardando. Às 18 horas, Ming o chamou.

- Buck, Chloe está na TV.
-Kenny está vendo?
-Vou levá-lo para o quarto dele.
Buck retornou rapidamente a seu apartamento e, quando chegou,
Rayford já se encontrava ali. O noticiário mostrou Chloe tentando
comunicar-se com a imprensa e Jock golpeando-a na testa. Buck ficou
furioso, principalmente quando eles colaram uma fita adesiva na boca de
Chloe. Ele já estava acostumado às mentiras proferidas pela CG, mas


não suportava ver sua esposa sendo agredida.

- O que você está achando disto, Ray? - ele perguntou. Rayford
sacudiu a cabeça.
-Estou procurando entender.
Uma das repórteres disse:
- Aqui em Louisiana todas as prisões são terríveis, mas nenhuma
chega aos pés da prisão de Angola. A terrorista internacional Chloe
Williams se arrependerá do dia em que provocou a CG até o ponto de ser
enviada para cá. A guilhotina será um refresco comparada ao trabalho
forçado que ela terá de enfrentar pelo restante da vida.
- Angola, Louisiana! -exclamou Buck. - É para lá que eu vou.
Quero levar Sebastian e Razor, e você também há de querer ir, é claro,
pai. Quem mais você acha que devemos...
- Calma, Buck - disse Rayford. - Nós não vamos a Louisiana.
-O quê? Você mandou três pessoas importantes à Grécia para
resgatar George, e agora vai permitir que a CG faça o que quiser com
Chloe?
-Ela não está em Louisiana.
- Você acabou de ouvir!
- Pense um pouco, Buck. Eles querem que a gente acredite que
ela está em Louisiana. Eles a tiraram de San Diego para impedir uma
invasão. E jamais anunciariam para onde ela foi levada.
Buck sabia que Rayford estava certo.

- Mas ela está em uma prisão, não? Eles não estão disfarçando
isso.
-Claro que não.
- Ray, eu não posso ir para Petra e deixar Chloe aqui. Se eu ficar
em algum lugar perto do leste, pelo menos vou ter uma chance de...

- E como você vai descobrir onde ela está?
- Eu jamais me perdoaria se partisse para um lugar seguro e
deixasse Chloe morrer sozinha. Não sei como você pode fazer isso.
-Eu não estou querendo fazer isso.
- Ora, vamos, pai, estamos juntos nessa missão. Não seja
teimoso.
- Quero ligar para Krystall para saber se ela ouviu alguma coisa. O
problema é que, lá, são quatro horas da madrugada, e ela acha que não
há ninguém que possa fornecer alguma informação. As pessoas que
sabem de alguma coisa estão em Al Hillah, e não temos acesso a elas.
Krystall vai chamar a atenção se começar a fazer perguntas sobre Chloe.


Chloe não ficou surpresa por ter sido deixada sozinha no meio da
noite em Illinois. Ela estava com razão a respeito da solitária. A escada
dava acesso ao porão, e ela foi conduzida para uma pequena cela sem
cama, sem pia, sem instalação sanitária, sem cadeira, sem banco, sem
nada. E também sem luz e sem janela. A fita adesiva havia sido retirada
de sua boca, e quando a porta resistente de metal foi fechada, ela ficou
na mais completa escuridão.

Uma portinhola quadrada na porta foi aberta, preenchida pelo
rosto de Jock.

- Vou deixar você descansar um pouco - ele disse -, e eu também
vou descansar. Pense em tudo o que pode me contar para seu próprio
bem, porque quando eu voltar, vamos ver se haverá necessidade de uma
injeção para você abrir a boca. Esta cela é resultado das besteiras que
você fez hoje. E você não vai gostar daqui se sofrer de claustrofobia ou

tiver medo do escuro.

Chloe sofria de claustrofobia e tinha medo do escuro, mas não
admitiria isso. Temia entrar em pânico ou enlouquecer, porém quando
ouviu os passos de Jock se afastando, ela foi tomada por uma sensação
de paz.

-Obrigada, Senhor - ela disse. -Eu necessito de ti. Estou disposta
a morrer, mas não quero te envergonhar. Preciso de ti para não sucumbir
ao soro da verdade. Não permitas que eu diga alguma coisa nem que
prejudique alguém. Torna-me forte para que eu não me preocupe muito
comigo. Ajuda-me a manter a lucidez, a concentrar-me em minhas
prioridades. E sê com Kenny, Buck e papai.
Ao pensar neles, um soluço subiu-lhe à garganta. Chloe encostou-
se na parede e abaixou-se até o chão frio.

-Deus, por favor, faze-me lembrar dos trechos da Bíblia que
queres que eu tenha na memória neste momento. Não permitas que a
fome, o cansaço ou o medo obscureçam minha memória. Tu sabes quem
eu sou e quem eu não sou. Eu só quero ser aquilo que tu desejas. Tu
sabes muito bem que estás lidando com uma pessoa imperfeita.
Ela se deitou de lado sem sentir palpitações decorrentes da
claustrofobia ou da escuridão. Aquilo era prova de que Deus ouvira sua
oração. Ela começou a lembrar-se de versículos bíblicos, desde o
começo da Bíblia. Porém, quando sua mente falhou, ela entrou em
pânico.

-Senhor, revigora minha mente. Não permitas que eu esqueça.
Quero citar tuas palavras quando estiver frente a frente contigo.
Seus pensamentos começaram a ficar desordenados. Como eu
vou me lembrar? E se minha memória se apagar?


-Senhor, por favor - ela orou.
De repente, surgiu uma luz. Estaria ela sonhando? A luz a fez
piscar. O cômodo sujo e cheirando a bolor estava tão claro que ela teve
de proteger os olhos. Uma visão? Um sonho? Uma alucinação?

Em seguida, uma voz. Citando seus versículos favoritos. Ela os
repetiu, palavra por palavra.

- É tua resposta, Senhor? Tu citarás os versículos para que eu os
repita? Obrigada! Obrigada!
Uma batida forte na porta.

- Silêncio aí dentro!
- Sim, paz, continua onde estás. Aquela voz veio de um dos
cantos!
Chloe tirou as mãos dos olhos e avistou uma figura, sentada, com
um dedo nos lábios.

- És tu, Senhor? - ela perguntou, sem fôlego.
- Ninguém pode ver a Deus e continuar vivo - ele sussurrou.
-Então, quem és?
-Ele me enviou.
-Louvado seja Deus.
-Sim, por favor.
-Alguém mais pode ver-te?
- Amanhã. Antes disso, não.
-Vais me fazer lembrar das promessas de Deus?
-Sim.
- Tua presença me faz querer cantar.
-À vontade.
-Canta comigo.
- Não estou aqui para cantar, mas para falar. Você canta.

Chloe começou a cantar.

- "Em Jesus confiar, sua lei observar; oh, que gozo, que bênção,
que paz! Satisfeito guardar, tudo o que Ele ordenar, alegria perene nos
traz."
- Silêncio aí dentro!
Chloe cantou mais alto.
- "Crer e observar, tudo o que Ele ordenar! O fiel obedece ao que
Cristo mandar."
-Se eu tiver de abrir esta porta, você vai se arrepender
amargamente!
- "Que delícia de amor! Comunhão com o Senhor..."
Aquele cântico provocou batidas na porta, como se alguém
estivesse usando um bastão, e Chloe riu alto.

- Eles não estão gostando de minha voz - ela disse a seu novo
amigo.
- Ou das palavras - ele disse, e Chloe riu mais alto ainda.
- Você aí, está maluca?
- Não! Você tem algum pedido a fazer?
- Só quero que você pare com essa cantoria!
- Sinto muito! - E ela voltou a cantar. - "Firme nas promessas do
meu Salvador, cantarei louvores ao meu Criador; cada dia alegro-me no
seu amor, firme nas promessas de Jesus."
- Muito bem! - A portinhola foi aberta com força.
O cômodo escureceu novamente.
- Você tinha uma luz aí?
-Claro! A luz de Deus.
- Estou falando sério! Você tinha uma luz aí?
- Somente a luz da presença dele.

- Se Jock voltar e descobrir que você tem alguma coisa aí, vai se
arrepender.
- Arrepender de fazer uma surpresa para ele? Acho que não. Você
sabe cantar? Cante comigo. "Firme nas promessas do meu Salvador..."
O guarda fechou a portinhola com força.

DOZE

Rayford tinha apenas uma idéia do que Buck devia estar sofrendo.
Talvez os sentimentos de marido fossem diferentes dos de pai. Mas ele
não estava com certeza disso.

- Vamos fazer o seguinte - ele disse ao genro. - Lionel me arrumou
um avião de dois lugares. É rápido, mas carrega pouco combustível.
Vamos ter de reabastecer no caminho, talvez em Cypress. Primeiro,
temos de ajudar todo o pessoal a sair daqui. Depois, se tivermos de ficar
aguardando na pista, para mim tanto faz. Voamos para algum lugar do
meio-oeste, ou do sul. Onde você achar que vai ficar mais perto de Chloe.
-E fazer o quê?
- Podemos levar aquela pequena TV via satélite e manter contato
com Mac, Otto e Krystall, para ver se conseguimos alguma pista - disse
Rayford.
- Você quer estar no mesmo continente quando ela morrer, é isso?
- Bem, hã, não...
-Pai, pense um pouco. Eu não sei pilotar avião. Você não tem um
co-piloto. Nenhum de nós é militar. Se você conseguiu um avião de dois
lugares, só para duas pessoas, não vamos poder trazer Chloe conosco.
Rayford sentou-se e segurou a cabeça com as mãos.

- Não sei mais o que fazer, Buck. Não quero sair daqui enquanto
ela estiver presa. Mas não sabemos onde ela está, não podemos levar
uma tripulação conosco.
- Para onde você acha que devemos ir?
- Que tal Wisconsin, onde Zeke estava? Ele me contou que a CG
nunca aparece por lá. O lugar é central. Assim que soubermos onde ela
está, poderemos partir rápido.


Jock conduziu Chloe a um cômodo mal iluminado, cerca de cem
passos da cela solitária.

- Hoje somos só nós dois, madame. Nada de brincar de policial,
nada de luzes nos olhos, nada de pressão.
Porém, quando Chloe viu o lugar em que deveria sentar-se - uma
cadeira de aço presa ao chão e com tiras de couro nas pernas e braços -
ela disse:

- Não, só nós dois, não, Jock.
- Como assim?
- Você sozinho não vai conseguir me amarrar naquela cadeira.
-Acho que vou conseguir, mas você não vai gostar.
- Você vai se arrepender de tentar fazer isso sozinho. E não vou
ficar amarrada de jeito nenhum, a menos que seja à força.
- Que tal tentarmos um jeito mais fácil? - ele perguntou. - Que tal
conversarmos um pouco para ver se você precisa mesmo ser amarrada?
-Sem soro da verdade?
- Sim, se você cooperar.
- Estou dizendo desde já que não vou cooperar.

- Será que não vou conseguir convencer você a pensar mais um
pouco, ser simpática, ajudar a si mesma?
- Não. E tem mais. Preciso usar o toalete das senhoras. Antes
disso, não vou me sentar nesta cadeira e muito menos ser amarrada.
Jock suspirou fundo e a acompanhou até o fim do corredor.

- Conforme você pode imaginar - ele disse -, não existem janelas
neste tipo de prisão. O único caminho para sair é o caminho da entrada, e
eu vou ficar aqui esperando.


Mac estava conversando por telefone com Rayford enquanto
sobrevoava o Atlântico no meio da noite.

- Quando Weser vai estar no palácio?
- Por volta de oito horas, horário de lá.
- Estou achando que a prioridade máxima é Chloe.
-Correto.
- E depois os planos de Carpathia.
-Exatamente.
- Vou tentar falar com Weser daqui a meia hora, quando ele já
estiver lá. Ligo para você assim que souber de alguma coisa.


Chloe saiu do banheiro sujo da prisão de Stateville e avistou Jock
acompanhado de três guardas - uma mulher e dois homens.

- Então, Jock, não seríamos só nós dois? - ela perguntou.
- Poderia ter sido. Quando você estiver amarrada naquela cadeira

e muito infeliz, vai ver sua cara no espelho. Pelo menos você me avisou
antes, não me fez perder tempo com conversa boba para depois eu ter de
amarrá-la na cadeira, sem ajuda de ninguém.

Enquanto Chloe atravessava o corredor, a mulher agarrou sua
mão direita e torceu-a para trás; um dos homens fez o mesmo com a
esquerda. Ela pensou em protestar; havia deixado claro a Jock que não ia
cooperar. Assim que eles entraram na saleta, o terceiro guarda curvou-se
e levantou-a do chão pelos tornozelos. A dor provocada pela distensão
dos músculos de seus ombros a fez gritar de dor, mas, em questão de
segundos, ela estava amarrada na cadeira.

Os guardas saíram, deixando uma seringa hipodérmica com Jock.
Ele fechou a porta e se aproximou de Chloe.

- Última chance - ele disse. - Você não vai contar a verdade sem
isto?
O pulso de Chloe começou a bater aceleradamente até o
momento em que ela viu seu amigo da cela solitária sentado na cadeira
de Jock.

- Eu não vou contar a verdade de jeito algum - ela disse.
- Ah! Isto aqui já derrotou gente mais forte que você - disse Jock.
Ele começou a inserir um receptáculo em uma das veias do
antebraço de Chloe. Fez isso com tanta precisão que ficou claro que tinha
experiência. Chloe não sentiu qualquer dor, e ele prendeu o receptáculo
no lugar com muita destreza. Em seguida, inseriu um tubo que ia até a
lateral da mesa dele.

Jock sentou-se, e o novo amigo de Chloe ficou em pé atrás dele.
Ela conteve-se para não rir, olhando para ele por cima da cabeça de
Jock.

-Para quem você está olhando? - ele perguntou.

- Você não o conhece - respondeu Chloe, já que ele queria a
verdade, havia um pouco de verdade nessa resposta.
Jock inseriu a seringa no tubo.

- Quando eu empurrar o embolo, vou injetar 15cc de soro em suas
veias. Isso vai lhe dar uma sensação de tranqüilidade. Você deve saber
como essa coisa funciona. Ela neutraliza a substância química em seu
cérebro que a impede de ser totalmente sincera. É exatamente isto que
eu quero de você: que seja sincera.
- Eu não vejo a hora de ouvir o que tenho a dizer.
- Diga o suficiente. É isso que vai fazer a diferença entre a vida e a
morte para você.
- Ora, Jock, penso que há alguém aqui que necessita mais do soro
da verdade que eu.
- Você está duvidando de mim?
- Você sabe muito bem que, mesmo que eu conte tudo, vou
morrer.
-Necessariamente não.
- Você é um mentiroso. Eu sei disto, e esta é a verdade. Se eu
não estiver enganada, você ainda não me injetou nada.
- De fato, mas chega de conversa. Vou começar.
O amigo de Chloe fez um gesto atrás de Jock como se fosse um
diretor musical. Ela começou a cantarolar em voz baixa:

- "Chuvas de bênçãos teremos, é a promessa de Deus, tempos
benditos trazendo chuvas de bênçãos dos céus."
- O soro não age assim tão rápido, por isso o que você está
cantando não é verdade.
- "Chuvas de bênçãos, chuvas de bênçãos dos céus! Gotas
benditas já temos, chuvas rogamos a Deus."

-Você é afinada.
- Obrigada. A canção também é linda.
Dali a poucos minutos, Chloe sentiu o efeito do soro. Era uma
estranha sensação de bem-estar, de confiança, e ela se sentia livre para
dizer qualquer coisa. Mesmo que não soubesse tudo, queria ajudar
aquele homem e responder às suas perguntas. Nada de mal aconteceria
a ela, e tudo ficaria bem.

Mas ela sabia que não. Olhou por cima da cabeça de Jock.

- Por quanto tempo ficarás aqui comigo? - ela perguntou.
- Pelo tempo que for necessário - respondeu o homem invisível.
- Hã? - disse Jock - Pelo tempo que for necessário. Já descansei
um pouco. Posso ficar aqui até quando você quiser.
- Garanto que não pode.
-Então, tente.
Chloe sorriu.
-Creio que você vai achar que quero demais.
- Como está se sentindo?
-Tranqüila.
- Ótimo. É um bom começo. Qual é o seu nome?
- Chloe Steele Williams, e sinto orgulho dele.
-Qual é o nome de seu pai?
- Rayford Steele.
-E de seu marido?
- Cameron Williams. Eu o chamo de Buck.
-Você tem um filho?
-Tenho.
-Qual é o nome dele?
- O nome dele é muito especial para Buck e para mim, porque ele

tem o nome de dois amigos e compatriotas muito queridos, que já
morreram.

-E qual era o nome deles?
- Se eu responder, você vai saber o nome de meu filho.
- E por que eu não devo saber o nome de seu filho?
-Quanto menos você souber sobre ele, mais dificuldade vai ter de
encontrá-lo.
- Eu já lhe disse que não vamos fazer mal algum a seu filho.
-É mentira.
- De qualquer forma, você mencionou o nome dele para seu pai
pelo telefone. É Kenny.
Jock empurrou o embolo novamente. Talvez fosse psicológico,
mas Chloe sentiu um impulso de falar. Aquilo era estranho, mas a droga
parecia forçá-la a contar a verdade, mesmo que as respostas não fossem
as que Jock desejava.

O rosto dele estava mais corado do que o normal. Estaria ela
deixando-o furioso? Tomara que sim.

- Você faz parte de um grupo subversivo que se opõe ao governo
da Comunidade Global e a seu supremo potentado, Nicolae Jetty
Carpathia?
-Sim.
- É verdade que vocês não acreditam que o potentado é um ser
divino?
- Sim, e tem mais. Nós acreditamos que ele é o anticristo da
Bíblia.
-Você está ciente de que a afirmação que acabou de fazer é
punível com a morte?
- Sim. Também estou ciente de que Deus deseja a verdade, que a

lei de Deus é a verdade, que Jesus é a verdade e que, se você conhecer
a verdade, ela o libertará.

De onde vieram essas palavras? Obrigada, Senhor.

- Você faz parte de uma facção judaísta que tem um grupo
enorme morando em San Diego, Califórnia?
- Você está me perguntando quem eu sou?
- Estou perguntando se você faz parte de uma...
- Sou seguidora de Cristo, o Filho do Deus vivo. Ele é mais
poderoso do que eu, e não sou digna de desatar as correias de suas
sandálias.
-O quê?
-Você não ouviu o que eu disse?
- Os judaístas ou uma facção dos judaístas chamada Comando
Tribulação têm alguma coisa a ver com a escuridão que tomou conta de
Nova Babilônia?
- Isso foi obra do próprio Deus.
- Você ou o grupo que representa deseja destruir o governo deste
mundo?
- Ele já está destruído. Só que muita gente ainda não sabe.
- O governo da Comunidade Global está destruído?
- Esse fato se tornará conhecido de todos.
- Você adora a imagem de Nicolae Carpathia pelo menos três
vezes por dia?
-Jamais.
- Você vai me contar onde estão seus companheiros ou me
fornecer alguma pista que nos leve a capturá-los? Estou falando
principalmente de seu pai, de seu marido, do Dr. Tsion Ben-Judá e do Dr.
Chaim Rosenzweig.

-Prefiro morrer a contar.
Jock aplicou o restante do soro e aguardou cinco minutos,
cutucando as unhas. Chloe cantou:

- "Preciosa a graça de Jesus, que um dia me salvou. Perdido
andei, sem ver a luz, mas Cristo me encontrou."
Jock levantou-se e olhou para a porta, respirando pesadamente.
Em seguida, dirigiu-se para perto de Chloe, retirou o tubo e o receptáculo
e a desamarrou.

- Pronto? - ela perguntou.
-Não, mas eu apliquei a dose máxima. Nunca vi coisa
semelhante. Vamos ficar sentados e conversar por alguns minutos. Se a
última porção da droga fizer efeito e você recuperar o bom senso, é só
me dizer.
- Vamos conversar sobre você, Jock. Por que esse entusiasmo tão
ardente por Carpathia?
- Ah!, não, você não vai conseguir. Quero que me deixe em paz.
Acredite no que quiser. É impressionante. Vou lhe dizer o que penso.
Gente mal orientada, mas impressionante. É esse o problema dos
religiosos extremistas.
- É isso o que somos? - ela perguntou.
-Claro.
- Você está nos confundindo com gente que mata em nome da fé,
não é isso?
- Vocês são tão extremistas quanto eles, madame.
- Nós não matamos pessoas que não concordam conosco. Não
erguemos estátuas de nosso Deus por aí nem exigimos, por lei, que todos
se curvem e façam bajulações diante delas três vezes por dia. Nós
apresentamos a verdade, mostramos o caminho às pessoas, exortamos

que conheçam a Deus. Mas não obrigamos ninguém.
Jock sentou-se pesadamente na cadeira.

- Você já se deu conta de que vai morrer amanhã?
- Esse pensamento já me passou pela cabeça.
- E não está preocupada?
- Claro que estou. Estou apavorada.
- Você nunca mais vai ver seu marido, seu filho, seus parentes e
seus amigos.
- Se eu acreditasse nisso, a história seria bem diferente.
- Já entendi. Sonhos e quimeras. Um dia, vocês vão ficar
flutuando em volta das nuvens, tocando harpa e usando mantos brancos.
- Espero que você esteja certo a respeito da harpa, e não dos
sonhos e quimeras.
Jock sacudiu a cabeça.

- Você sabe que vamos mostrar tudo ao mundo pela TV.
- Espalhar mais mentiras sobre mim?
- Vamos dizer o que é necessário para livrar a nossa cara.
- E, no meu caso, vocês precisam livrar a cara porque essa
operação foi um enorme fracasso, não?
-Poderia ter sido melhor.
- Poderia? Não poderia ter sido pior! O que vocês conseguiram?
- Bem, quando descobrirmos onde o restante dos covardes está
escondido, vamos conseguir alguma coisa.
- Você os chama de covardes porque estão escondidos ou quer
dizer que eles são covardes como eu? Você me acha covarde?
- A bem da verdade, não.
- Vou ter direito a dizer minhas últimas palavras amanhã?
- No seu caso, não vamos permitir. Você vai tentar pregar um

sermão, atacar Carpathia, tentar salvar as pessoas.

- Em resumo, eu só vou poder dizer minhas últimas palavras se
fizer tudo o que a Comunidade Global deseja.
-Mais ou menos.
-É o que nós veremos.
-Nós? Nós quem?
Chloe levantou-se e notou que seu amigo havia desaparecido. Ela
prosseguiu corajosamente.

- Jock, você já pensou que o dia está chegando, muito antes do
que você pensa? O dia em que todos terão de prestar contas a Deus e a
seu Filho?
- Você acredita nisso?
- "Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim
se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus" (Rm 14.11).
-Bem, querida, eu não vou fazer isso.
- Sinto muito, Jock. Cada um de nós prestará contas a Deus.
-Meu deus é Carpathia. E isto me basta.
- E quando Jesus vencer?
- Ele vai vencer?
-"Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o
nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se
dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua
confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Fp 2.9-11).
- Espero que isto tudo lhe dê algum conforto quando você estiver
debaixo do sol quente amanhã cedo, sentindo aquele cheiro, vendo
cabeças rolando e sabendo que a próxima será a sua. Talvez eu não seja
um interrogador tão bom quanto pensava, ou você pagou muito dinheiro
para ser treinada e assim resistir ao soro da verdade. Mas não existe

nada melhor para deixar a mente mais clara do que saber que você está
na fila da guilhotina e vai ser a próxima. Vou estar de olho em você
amanhã, moça. Aposto que vai tremer, gemer e implorar por uma chance
de se salvar.

O relógio marcava 8h30, horário do palácio, e ainda faltavam sete
horas para Mac chegar a Petra. Ele digitou o número de Otto Weser, que
Rayford lhe dera, e identificou-se.

- Ele ressuscitou - disse o alemão.
- Cristo ressuscitou verdadeiramente - disse Mac. - Você tem
alguma novidade para mim?
- Eu preciso lhe dizer que a Srta. Krystall tem sido uma
preciosidade para nós. Gostaria que ela estivesse do nosso lado. Ela me
deixou ouvir a conversa de um homem chamado Suhail Akbar, chefe do...
- Eu sei quem ele é, Sr. Weser. Com todo respeito, vamos ao que
interessa.
- Carpathia encarregou aquele homem e seu pessoal de duas
coisas. Primeira, providenciar a instalação do governo em Al Hillah, e
segunda, preparar uma verdadeira Oktoberfest para os líderes do mundo
inteiro em Bagdá, daqui a seis meses.
-Não vai ser em outubro?
- É apenas um modo de dizer. Vai ser igual ao que vocês ianques
chamam de um mega-evento, com toda pompa e circunstância,
bandeiras, cartazes, show de luzes, bandas, dançarinos, tudo. Se a
escuridão terminar em Nova Babilônia, o governo volta para cá. Mas,
mesmo que isto aconteça, a festa será mantida em Bagdá.

- Exatamente onde? Você sabe?
- Em um edifício novinho em folha, Sr. McCullum. No lugar em que
estava localizado o Museu do Iraque, antes da guerra. Deve ser um
evento de alto gabarito, com acomodações de luxo, sala para reuniões e
muita ostentação. Existem apenas dez chefes de Estado, mas, pelo jeito,
além das reuniões particulares com seu gabinete, Carpathia também quer
algumas festividades abertas ao público. Mas para o povo dele, Carpathia
está se referindo às reuniões com os subpotentados como uma solução
final para o problema dos judeus.
- Para um alemão, isso deve ser parecido com o que está escrito
em seus livros de história, não, Sr. Weser?
- Francamente, nossos livros de história não são iguais aos que os
outros escrevem sobre nós, mas entendo o que o senhor está querendo
dizer. Já percorremos essa estrada antes.
- Alguma notícia de Chloe Williams?
- Krystall diz que ela está na Prisão de Angola, em Louisiana.
- Ela está se baseando nos noticiários que vimos ou tem
informações de dentro do palácio?
-Vou perguntar a ela.
Depois de alguns instantes, Otto voltou a falar.
- As duas coisas. Ela diz que ouviu o noticiário e que ouviu
também o pessoal do Serviço de Segurança e Inteligência conversar
sobre Chloe, dizendo que ela está lá. A última notícia é que ela vai ser
executada às 10 horas, horário central.


- Temos de partir e levar George e alguns homens conosco,

Rayford - disse Buck.

- Esta história ainda não faz sentido para mim - disse Rayford. -
Por que a CG divulgaria onde ela está?

- Talvez para preparar uma armadilha para nós.
-Então, é menos provável que ela esteja lá.
- Você acha que eles estão desconfiados de Krystall? - perguntou
Buck.
- Que deram uma informação falsa só para testá-la?
- Vamos ver o que Sebastian acha disto.


Chang estava sentado diante de seu computador, no centro de
tecnologia, desde antes do alvorecer. Quando Naomi chegou, ela se
postou atrás dele e pousou suavemente as mãos sobre seus ombros.

- Tropas, tropas e mais tropas - ele disse. - Se as tropas da Grécia
sozinhas poderiam dominar Israel, imagine só as tropas de todos os
Estados Carpathianos juntas. E isto é apenas o começo.
- Quais são as últimas notícias sobre a esposa do Sr. Williams?
- Tudo o que consegui extrair das informações recebidas no
palácio procedentes de Al Hillah foi que Chloe está em Louisiana e que
será executada às 18 horas, nosso horário.
-Oh! Não.
- E isto não é o pior, Naomi. Eles divulgaram a notícia pela
televisão internacional, mas nunca dizem a verdade. Se quisessem
ludibriar o Comando Tribulação, poderiam ter deixado Chloe em San
Diego. Rayford e Buck estão atarefados tirando o pessoal de San Diego e
acho que não sabem o que fazer. Espero que consigam enxergar uma

saída. Pelo que sabemos, Chloe está a uma hora de San Diego. A CG só
precisa que ela esteja em algum lugar onde uma afiliada da CNNCG
possa fazer uma transmissão ao vivo.

Naomi puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Chang.

- Acho que você vai fazer de tudo para interferir nesse noticiário,
não?
- Não quero que o mundo veja isso de jeito algum.
-Mas nós vamos querer que o mundo veja e ouça o que Chloe
tem a dizer.
- Claro. Eu só quero dar um jeito de tirar a cena do ar no momento
em que eles perderem a paciência com ela.


Rayford constatou que Sebastian concordava com ele.

- A CG não vai informar onde ela está de jeito nenhum - disse
Sebastian. - Seria uma gafe tremenda.
-E então, como nós ficamos? - perguntou Buck. - É melhor saber
o pior do que não saber nada.
- Quero ver se Krystall está pronta para assumir o risco - disse
Rayford. - Vou ligar para ela.
Quando a ligação foi completada, Rayford disse:

- Preciso lhe fazer uma pergunta muito importante para mim.
- Já forneci tantas informações sobre seu pessoal que poderia ter
sido executada.
- Vou lhe passar uma informação que prolongará sua vida.
- Do que você está falando?
- Você costuma visitar o site do Dr. Ben-Judá, certo?

-Eu já lhe disse que sim.
- Então sabe que ele tem informado por antecipação e mostrado
trechos da Bíblia, profecias sobre todas essas pragas e julgamentos que
estão se abatendo sobre a terra.
-Sim, é de arrepiar os cabelos.
- É de arrepiar os cabelos, mas tudo isso é verdadeiro, e sabemos
o que vai acontecer em Nova Babilônia. Só não sabemos exatamente
quando.
- E o que vai acontecer aqui?
- Deus vai destruir a cidade inteira no espaço de uma hora.
-Oh!, meu...
- Deus vai tirar o povo dele daí... pessoas como Otto e seus
amigos... para salvá-lo da morte. Você também precisa sair.
-Para onde eu devo ir?
- Para qualquer lugar, menos ficar em Nova Babilônia.
- Você tem certeza de que isso vai acontecer?
- Se não acontecer, será a primeira vez que uma das profecias
não se cumprirá. Veja, Krystall, não posso prometer que você será
protegida só por ter saído de Nova Babilônia. O restante do mundo
também sofrerá, mas talvez não de maneira tão trágica e rápida quanto
em Nova Babilônia. Sua única esperança é sair daí.
- Todos esses exércitos que Carpathia está enviando para Israel
também fazem parte das profecias? - perguntou Krystall.
- Você já ouviu falar em Armagedom? É isso. Mas o fim de Nova
Babilônia será antes.
- E o que você vai querer de mim depois de me dar esse alerta?
- Quero que ligue para alguém. Alguém que saiba das coisas. E
quero que você inclua Chloe Williams na conversa. Diga a essa pessoa

que assistiu ao noticiário, ou coisa parecida, e que está apenas curiosa. É
verdade que ela vai ser executada? Onde? Você me faria este favor?

- Você não está acreditando que será em Louisiana? - ela
perguntou.
- Acho isso muito difícil de engolir.
- Não prometo nada, mas vou ver o que posso descobrir.


- O que você vai fazer esta noite, Jock? - perguntou Chloe quando
ele a levou de volta à cela solitária.
- Dormir como um bebê. Amanhã será um grande dia. Vamos
contar ao mundo que você cantou como um canarinho, mas que, no fim,
recusou a marca e não prometeu lealdade a Carpathia. Bem que nós
forçamos.
- E você será o herói da história.
- Talvez promovido. Despachado para a divisão internacional.
- E onde você vai trabalhar?
- Por que está interessada em saber? Você não pode contar a
ninguém nem fazer alguma coisa.
-E que mal faz você me contar?
Jock aprumou a cabeça e olhou para ela.
-Dizem que vou trabalhar no vale de Jezreel.
- Sério? O que está acontecendo lá?
- Não tenho autorização para dizer.
-Mas você sabe?
- Bem, sim, claro que sei.
-Parabéns.

-Obrigado.
-O céu é o limite, não?
-Acho que sim - ele disse.
- Quer que eu lhe dê uma pequena informação?
-Agora é um pouco tarde, mas quero saber.
- Nova Babilônia nunca mais voltará ao normal.
- Você diz isto com muita certeza.
- Tanta certeza quanto estou em pé aqui - disse Chloe.
- Duvido que você esteja certa, mas não vai poder constatar. Eu
vou.
- Eu não teria tanta certeza assim.
- Até amanhã cedo, madame.
Chloe sentou-se na cela escura e perguntou em voz baixa:
- Ainda estás aqui comigo?
- Sempre - foi a resposta. - Até à consumação do século.
Chloe prostrou-se no chão e orou o restante do tempo, incapaz de
dormir. Ela cantou, citou versículos da Bíblia, louvou a Deus e ouviu.
Ficou a maior parte do tempo ouvindo. E Ele confortou seu
coração.

TREZE

- Nunca mais vou permitir que isto aconteça - disse Buck.
O dia começava a amanhecer, e eles estavam em pé, do lado de
fora do jato de dois lugares, em uma região remota do oeste de
Wisconsin, monitorando um rádio e uma TV em miniatura e aguardando o
chamado de Krystall.


- Mesmo se tivéssemos descoberto que Chloe estava a meia hora
de St. Paul, não teríamos condições de fazer nada. Estamos sem carro,
sem disfarces, sem documentos de identidade. Nunca mais, pai, eu
prometo.
Aparentemente, Rayford não tinha nada a dizer, e Buck condoeu-
se dele.

- Não sei o que mais poderia ter sido feito - prosseguiu Buck. -
Mas eu preferia não estar parado aqui, esperando alguma coisa
acontecer.

- Eu não entendo por que Krystall ainda não ligou - disse Rayford.
- Ela teve o dia inteiro para fazer isso. - Ele consultou seu relógio. - A
tarde já chegou à metade em Nova Babilônia.
- É melhor não pensarmos que eles estão desconfiando dela, que
grampearam seu telefone ou algo parecido. Aí, eles vão notar tudo sobre
Otto, descobrir que sabemos onde a grande reunião vai ser realizada,
descobrir tudo.
- Não sei - disse Rayford. - David e Chang sempre afirmaram que
a CG não grampeia os próprios telefones.
- Entendo que todos em Al Hillah estão em reunião o dia inteiro e
que não há ninguém que possa contar a verdade a Krystall sobre o
paradeiro de Chloe, é isso? Você devia ter dado um prazo a ela. Será que
ela faz idéia de que precisamos saber disto antes da execução?
- Ela não trabalha para nós, Buck. Ela tem sido uma dádiva de
Deus.
- É interessante usar esta expressão para alguém que possui a
marca da besta.

Mac deixou Zeke em Petra por volta das 14 horas. Abdullah, que
já havia providenciado uma aeronave maior para Mac, encarregou-se de
ajudar Zeke a instalar-se em sua nova moradia.

- Planejo entrar e sair daquele apartamento o mais rápido que
puder - disse Mac. - Depois, pego Weser e seu grupo e volto para cá. Eu
gostaria de terminar tudo antes que a CNNCG leve ao ar o caso de
Chloe. Não quero assistir à cena em que ela vai ser morta, mas quero ver
as preliminares.


Envolvida na mais completa escuridão, Chloe não tinha idéia da
passagem do tempo. De vez em quando, ela encostava a orelha na porta
de aço para ouvir o que se passava no conjunto de celas solitárias. Até
aquele momento, nada.

Ela imaginou que o tempo de espera para a execução deveria ser

o mesmo que aguardar para falar com o diretor do colégio ou enfrentar
um castigo iminente, só que multiplicado por um milhão de vezes. E,
mesmo assim, ela se sentia relativamente calma. Seu coração estava
pesaroso em relação a Buck, não apenas pela falta que ele sentiria dela,
mas pelo esforço que ele teria de fazer para explicar o acontecido a
Kenny.
Kenny era muito criança, e não haveria necessidade de muitas
explicações, ela sabia disto. Mas as perguntas do dia-a-dia, a falta que
ele sentiria da mãe, a triste realidade de que ninguém poderia amá-lo da
mesma forma que ela... tudo isso era muito desgastante.

Chloe sentia a presença de Deus, embora não estivesse vendo o


mensageiro que aparecera na noite anterior. Seus músculos estavam
doloridos por causa das posições em que ela se colocava para orar e
quando tentava acomodar-se melhor. A fome era um problema que ela
conseguira afastar da mente. Em breve, ela dizia a si mesma, estaria
jantando na mesa de banquete do Rei dos reis.

O mais gratificante de tudo era que Chloe tinha poucas dúvidas e
muito mais segurança à medida que as horas passavam. Ela colocara
todos os ovos em um só cesto, conforme costumava dizer. Se estivesse
errada, paciência. Se tudo aquilo não passasse de uma grande
encenação, ela havia engolido a história inteira. Mas, para ela, os dias de
questionamentos e receios não mais existiam.

Já presenciara muita coisa, passara por muitos sofrimentos. Já
vira, como todas as pessoas do planeta, que Deus era real, que Ele
estava no controle de tudo, que Ele era o arquiinimigo do anticristo, e que
Ele seria o vencedor final.

No início de sua vida espiritual, Chloe se mostrava um tanto
presunçosa, principalmente quando as pessoas a criticavam ou
zombavam dela por causa de sua crença. Ela aprendera a não se alegrar
com o sofrimento alheio, mas não podia deixar de sentir uma satisfação
interior por saber que um dia provaria a todos que estava certa.

Porém, pela misericórdia de Deus, aquela atitude já não existia.
Quanto mais ela aprendia, quanto mais sabia, quanto mais via exemplos
de outros crentes demonstrando compaixão pela condição deplorável das
pessoas perdidas, mais Chloe amadurecia na fé. Esse amadurecimento
era manifestado na tristeza que ela sentia pelas almas das pessoas, no
desespero para que elas conhecessem a verdade e aceitassem a Cristo
antes que fosse tarde demais.

Ela não sabia o que fazer com seus sentimentos de amor,


preocupação e simpatia pelas pessoas que já haviam recebido a marca
de Carpathia e estavam condenadas ao castigo eterno. Não havia mais
esperança nem possibilidade de ajudá-las, mas ela sentia pena delas.

Lampejos de humanidade em Florence, em Nigel, em Jessé, em
Jock... o que aquilo significava? Ela não podia esperar que pessoas
incrédulas vivessem como crentes, portanto não sabia como julgá-las -
apenas as amava. Mesmo assim, não havia mais nada a fazer.

Embora não conseguisse compreender que ainda houvesse
pessoas incrédulas no mundo, Chloe sabia que isso era verdade. Talvez
fossem aquelas pessoas que ela tentaria convencer quando Deus
forçasse a CG a permitir que ela dissesse suas últimas palavras. Era
difícil entender como alguém que presenciou todos os acontecimentos
dos últimos seis anos ainda não houvesse percebido que as únicas
opções eram Deus ou Satanás - ou pior, apesar de conhecer as
alternativas, optara por Satanás.

Mas, sem dúvida, esta era a dura realidade. Ming lhe contara que
os muçulmanos eram contra Carpathia porque não queriam abandonar
sua crença. Alguns judeus praticantes que não acreditavam que Jesus
era o Messias também rejeitavam Carpathia como deus deste mundo.

George conhecia alguns militares que se recusaram a prometer
lealdade a um ditador, embora não confiassem em Cristo para receber a
salvação.

Seria possível que depois de tanto tempo ainda houvesse pessoas
espiritualmente descompromissadas, que simplesmente não queriam
tomar uma decisão? Chloe não podia imaginar, mas sabia que isso era
verdade. Algumas preferiram correr atrás de seus objetivos, de suas
concupiscências.

Chloe pensou nos outros prisioneiros de Stateville que morreriam


naquela manhã. Muitos eram portadores da marca de Carpathia, mas
outros não. Será que ela, a prisioneira mais famosa, seria a última da fila?

-Clareza, Senhor - ela disse. - É tudo o que eu peço. Tu já me
prometeste graça e força. Permite apenas que minha mente funcione
melhor do que funcionaria nestas circunstâncias.


Mac vasculhou sua sacola e encontrou seus trajes de homem
embriagado. Ninguém se daria ao trabalho de procurar a marca de
Carpathia debaixo do gorro de meia de um homem malcheiroso, sem eira
nem beira. Foi o único jeito que Mac encontrou para atrever-se a sair à
rua durante o dia.

Ele encontrou sua motoneta no mesmo lugar onde havia deixado -
no arbusto perto da pista aérea - e dirigiu-se à periferia de Al Basrah.
Deixou a motoneta presa por corrente antes de entrar cambaleando na
cidade.

Mac foi cumprimentado por vários bêbados verdadeiros. Ele agia
como se estivesse andando a esmo, mas tinha um roteiro em mente. E
quando chegou a um quarteirão de distância do apartamento que morou
com Albie, ele entrou em uma viela, onde não havia ninguém. Correu o
restante do caminho e ouviu vozes quando começou a subir a escada.
Mac parou e sentou-se no patamar superior da escada. Havia dois
homens em frente ao apartamento dele e de Albie.

- Você não pode ficar aí, velho! - gritou um deles. - Dê o fora.
Mac resmungou alguma coisa, abaixou a cabeça e começou a
roncar.
Os homens riram.


- Estou achando - disse um deles em voz baixa - que ele vai
chegar depois que escurecer. O MM quer esse cara vivo.
Mac reconheceu o apelido.

- Consegui dois homens para vigiarem a entrada uma hora antes
do pôr-do-sol. Você tem certeza de que ele não vai chegar mais cedo?
- Ele não tem a marca, homem! Quem se arriscaria a andar por aí
durante o dia sem a marca?
Quando os homens se afastaram e Mac teve certeza de que o
caminho estava livre, ele se levantou rapidamente e abriu a porta do
apartamento. O local estava vazio. Nenhuma mobília. Os pertences deles
haviam desaparecido. Agora, o local servia apenas como armadilha para
ele.

Mac desceu correndo a escada, pegou sua motoneta, dirigiu-se
rapidamente para a pista aérea e seguiu para Nova Babilônia. Já havia
combinado com Otto para que ele levasse seu pessoal até a pista do
aeroporto de Nova Babilônia.

- É melhor o pessoal entrar no avião antes que alguém nos veja -
ele dissera.

Os homens e mulheres sob a responsabilidade de Otto, em
número de 30 ou pouco mais, tentaram agradecer individualmente a Mac,
mas ele se limitou a sorrir e continuou guiando-os até o avião. Ele não se
sentiria tranqüilo enquanto não chegasse a Petra. Depois, com uma nova
identidade fornecida por Zeke, ele estaria pronto para qualquer
traquinagem que Rayford pudesse ter imaginado.

Otto estava inquieto atrás do grupo.

-Assim que tudo estiver pronto - disse Mac -, podemos partir.
-Mac, não podemos partir ainda.
-Por quê? O que houve agora?

-Ela está morta.
-Quem?
-Krystall.
- Como assim?
- Vá até lá e veja. Depois que estive aqui esta manhã, voltei para
nosso esconderijo e ajudei todos se aprontarem para ir a seu encontro.
Quando cheguei aqui, eu disse a meu pessoal que aguardasse sua
chegada e que você seria a única pessoa capaz de enxergar o suficiente
para poder pousar. Voltei para agradecer a Krystall, e foi então que
descobri.
- Como você sabe que ela está morta?
- Não sou médico, mas havia um cheiro forte como se alguém
tivesse atirado alguma substância lá dentro. Ela estava no chão, com o
telefone tocando. Eu a deixei ali. Verifiquei o pulso dela. Vá até lá e veja.
- Sr. Weser, não temos tempo. Se ela está morta, está morta, sinto
muito. E isso talvez tenha acontecido porque Rayford a colocou no meio
de toda essa confusão. Mas não há nada que eu possa fazer por ela, e
podemos prejudicar esta missão se você e eu sairmos daqui e deixarmos
todo o seu pessoal aguardando no avião.
- Você acha que eles estavam desconfiando dela? Que enviaram
alguém para matá-la?
- Eu não sei como poderiam fazer isso se não estão enxergando
nada.
- Achei que talvez eles tivessem encarregado alguém que
conhece o palácio, e essa pessoa tateou o caminho até lá, conversou
com aquela mulher para ter certeza de que ela estava lá e, em seguida,
atirou um gás venenoso ou algo parecido dentro do apartamento dela.
- Pode ser. Isso explica por que Rayford não recebeu notícias

dela. Você já o avisou?

- Eu deveria, não? Mas não sabia o que fazer. Fiquei muito
aborrecido.
- Vamos subir a bordo. Eu ligo para Rayford.


Buck aguardava impaciente enquanto Rayford conversava com
Mac e cobriu os olhos com a mão.

- O que foi? - ele perguntou.
Rayford fez um gesto pedindo um pouco de tempo, e os joelhos
de Buck fraquejaram.

- O que foi? Chloe está morta?
- Ainda não, Buck - respondeu Rayford, ajoelhado na grama. -
Mas isso poderá acontecer.
Rayford relatou os fatos.
Buck sentou-se, dobrou as pernas e encostou os joelhos no peito.

- Não posso acreditar que estou parado aqui no meio do nada,
aguardando minha mulher morrer, sem sequer saber onde ela está.
O rosto de Rayford estava branco como cera.

- Deveríamos ter ido para Petra.
-Mas e se alguém...
- Ninguém que saiba de alguma coisa vai nos contar, Buck. É hora
de levantarmos acampamento.
- Desistir, você quer dizer.
- Sim, Buck. - Rayford levantou-se e disse com voz embargada. -
Estou desistindo. Agora ela está nas mãos de Deus. Se Ele deseja
poupá-la por um motivo qualquer, acho que decidiu fazer isso sem nossa


ajuda.

Enquanto Rayford subia a bordo, Buck levantou-se e apoiou as
mãos abertas na fuselagem do avião, com a cabeça baixa.

- Chloe - ele disse com a voz rouca pela emoção. - Onde quer que
você esteja, saiba que eu a amo.


Após uma longa noite de oração, Chloe passou por um cochilo.
Foi despertada, sem saber quanto tempo depois, por um inconfundível
toc-toc-toc da hélice de helicóptero. Mais de um. Talvez três. Ela
imaginou, apenas por alguns instantes, que alguém chegara para tirá-la
dali.

No íntimo, ela sabia que seu marido e seu pai, e talvez outros
companheiros do Comando Tribulação, iriam até o fim na tentativa de
libertá-la. Porém, sabia também que, sem um milagre, eles não teriam
meios de saber onde ela estava. Aquilo havia sido o ponto alto de sua
transferência.

Teriam eles descoberto alguma coisa? Ela nunca cessava de
maravilhar-se diante dos recursos disponíveis para seus companheiros.
Deveria preparar-se para fugir, caso eles invadissem o local para resgatála?
Saberiam eles mais coisas que ela? Conheceriam a arquitetura e a
planta da prisão, onde ficavam as solitárias, em que cela ela se
encontrava? E em quantos eles estariam? Teriam condições de dominar

o pessoal da CG?
Suas perguntas foram respondidas em seguida, quando seu
amigo reapareceu e deixou a cela tão iluminada quanto se fosse meio-
dia.


- Posso saber qual é o teu nome? - ela perguntou.
-Pode me chamar de Calebe.
- Eu não vou ser resgatada hoje, vou, Calebe?
- Você será libertada, mas não da maneira que está pensando.
-Libertada?
- Hoje você estará com Cristo no paraíso.
Ao ouvir aquelas palavras, Chloe ajoelhou-se no chão.
- Eu não consigo esperar - ela disse. - Vou sentir uma enorme
saudade de muitas pessoas queridas, mas não será por muito tempo.
Como eu anseio estar com Jesus!
Além dos helicópteros, Chloe ouvia apenas barulhos fortes do lado
de fora e nenhum do lado de dentro do edifício. Veículos. Marteladas em
objetos de metal. Gritos. Sons semelhantes ao de uma construção em
andamento. Apesar de seu preparo psicológico, ela começou a ficar
nervosa.

- Quero ser uma filha de Deus exemplar - ela disse, esforçando-se
para controlar as emoções.
-Deus a manterá em perfeita paz se seus pensamentos
permanecerem nele.
- Obrigada, Calebe. Mas, de repente, estou me sentindo frágil
demais.
Finalmente, Chloe ouviu sons no interior do conjunto das celas
solitárias. Uma batida rápida na porta de aço. A portinhola foi aberta. O
rosto de Jock apareceu.

- Como se sente esta manhã, moça? Pausa para ir ao banheiro.
- Aguarde um minuto, por favor.
-Ora, que garota difícil!
Ela olhou desesperadamente para Calebe.

- "Deixo-vos a paz", diz o Senhor Jesus Cristo - foram as palavras
de Calebe. - "...a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo.
Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize" (Jo 14.27).
Chloe bateu na porta de aço.

-Estou pronta.
Um guarda abriu a porta. Quando Chloe saiu, avistou Jock
trajando um uniforme azul com botões dourados, todo enfeitado. Ela
também ficou frente a frente com uma mulher que trajava um blazer da
CNNCG e carregava uma maleta de couro.

-Ora, ora - disse a mulher a Chloe. - Assim não está bom. Quero
que me avise quando eu puder entrar no banheiro com você. Ei, Jock,
providencie um macacão limpo para ela.
-Você vai me vestir para a morte? - perguntou Chloe.
- Com toda pompa, minha querida - respondeu a mulher. - A pena
será cumprida, mas vamos deixar claro que você não foi maltratada.
- Estou vendo - disse Chloe, enquanto a mulher a acompanhava. -
Arrancada de minha família, passando fome, sendo drogada,
atravessando metade do país de avião, recebendo uma injeção do soro
da verdade e presa a noite inteira numa cela solitária... é esta a sua idéia
de um tratamento justo?

- Eu sou apenas uma artista em maquiagem. Quando estiver
pronta, me chame.
-Para quê?
- Vou arrumar seu cabelo, fazer uma maquiagem leve em você.
-Não se preocupe.
- Ah! , é minha obrigação.
- Você não tem escolha? - Chloe perguntou.
- Se ao menos você estivesse apresentável... mas, olhe para

você.

- Mas eu tenho escolha. Posso ter a aparência que desejar.
- É o que você pensa. Mas não é assim.
Chloe se viu de relance quando passou pelo espelho. Seu aspecto
era horrível. Ela estava com o rosto oleoso e sujo, e os cabelos
emaranhados. Que situação bizarra! Quando foi a última vez que alguém
me embelezou? E agora ela estava recebendo um tratamento grátis,
quando a aparência era a última coisa que lhe passava pela mente.

- Não demore - gritou a mulher. - O pessoal da TV tem um horário
de programação, você sabe.
Chloe sacudiu a cabeça. Pessoal da TV. Eles esperavam que até
mesmo uma condenada à morte fizesse parte de sua equipe.

- Estou deixando um macacão limpo em cima da pia! Troque de
roupa e me avise quanto estiver pronta!
Chloe trocou de roupa, mas não disse nada. Quando ela saiu, a
mulher reclamou:

- Você ficou de me avisar quando estivesse pronta!
-Eu não.
- Vamos entrar lá novamente para que eu possa usar o espelho.
- À vontade. Eu não preciso de espelho.
- Ora, vamos! Eu tenho de aprontar você.
- Eu já estou pronta.
- Pare! Espere! Fique onde está!
Chloe encarou a mulher.
-Você não está vendo o absurdo que está cometendo? Não basta
me condenarem à morte? Vocês precisam fazer um espetáculo disto?
- Eu recebo ordens e tenho de cumpri-las.
- Então, faça o que tem de fazer, aqui e agora.

A mulher curvou-se, colocou a sacola no chão e pegou um pente e
uma escova. Penteou com força o cabelo de Chloe. Em seguida, usou um
lenço de papel umedecido para limpar o rosto dela e passou um pouco de
blush em suas faces. Quando ela pegou o rímel, Chloe disse:

- Não. Chega. Nada de rímel, nada de batom. Vamos parar por
aqui.
-Você é uma moça muito bonita.
Chloe ergueu uma sobrancelha.
- Muito obrigada. Este vai ser o ponto alto de minha manhã.
Que pensamento reconfortante! Minha cabeça vai ser a mais linda
da caçamba.

Quando Chloe apareceu diante de Jock, ele perguntou:

- Eu preciso algemá-la, amarrá-la?
-Não.
- É assim que se fala, garota. Ela olhou firme para Jock.
- Não é nada pessoal - ele disse. - Só estou cumprindo o meu
dever.
-Providencie, então, para que eu tenha direito a dizer minhas
últimas palavras.
-Se dependesse de mim...
Ela se virou e o encarou.
-Depende de você, Jock, e você sabe disto. As pessoas que
poderiam dizer o que você pode ou não fazer estão a quilômetros de
distância daqui. Assuma a responsabilidade pelo menos uma vez, por
favor. Tome uma decisão. Anuncie que vou falar e deixe que eu fale. Eu
vou morrer e você vai receber uma promoção. Qual é o problema?
Jock desviou o olhar. Conduziu-a escada acima e para fora do
edifício.


O sol da manhã estava brilhante. Ela protegeu os olhos. A
imprensa dominada por Carpathia estava toda presente. Havia palanques
armados e, aparentemente, o público tinha sido convidado. Chloe gostaria
de saber qual era a finalidade de todo aquele tumulto até o momento em
que percebeu que ela era a atração principal. O povo estava aplaudindo e
dando vivas.

Os outros prisioneiros, na maioria homens, já estavam em suas
respectivas filas, aguardando atrás das mesas. Alguns se mexiam no
lugar nervosamente. Outros pareciam pálidos demais. Havia oficiais
sentados diante de cada mesa, uma delas reservada para o aplicador da
marca. O que aquilo significava? A esta altura, até aqueles que já haviam
recebido a marca teriam de enfrentar a guilhotina. Estariam imaginando
que a marca lhes daria alguma vantagem na vida após a morte que
Carpathia oferecia?

Em volta de cada guilhotina, Chloe avistou alguns prisioneiros
sentados, com as pernas cruzadas, usando uniformes de brim escuro.
Aqueles homens, Chloe imaginou, deviam ser os condenados à prisão
perpétua que Jock descreveu como coletores. Eles dariam um fim aos
restos mortais. Todos pareciam entusiasmados, sorrindo, caçoando um
do outro.

Jock a conduziu ao fim da fila diante da mesa do meio.

-Bem, é isso aí - ele disse.
Chloe notou um tom de justificativa na voz dele.
- Você ainda pode...
- Você deveria ter feito uma aposta ontem - ela disse.
- Como assim?
- Você tinha certeza de que, neste momento, eu faria um último
apelo, imploraria.

- Esta você ganhou - ele disse. - Você é uma mulher estranha.
Chloe estava ciente dos holofotes presos em postes altos, das
gruas que sustentavam as câmeras e seus operadores, dos técnicos com
fones de ouvido correndo de um lado para o outro e das pessoas olhando
para seus relógios.

Na fila diante da mesa à sua direita, Chloe viu um homem de
meia-idade ostentando a marca de Carpathia - o que significava que ele
havia sido condenado por outro crime capital - cair de joelhos no chão,
tremendo e chorando. Ele agarrou as pernas da calça do homem à sua
frente, que queria pousar a mão em seu ombro, com ar de
constrangimento.

Uma senhora idosa, na fila seguinte àquela, estava em pé com as
mãos no rosto, balançando o corpo. Talvez orando, Chloe imaginou. Em
todas as filas havia judeus, identificados com a Estrela de Davi
reproduzida por meio de estêncil, ou usando solidéus, alguns feitos de
retalhos de tecido; outros, de cartolina. Todos estavam abatidos, com
escoriações na pele por terem sido surrados, debilitados pela fome e
tostados pelo sol.

Por meio de pesquisas feitas por Buck e de informações recebidas
de David Hassid e Chang procedentes de dentro do palácio, Chloe sabia
que Carpathia queria que os judeus fossem torturados até o limite de
suas forças, porém a morte só deveria ocorrer diante do público, no
momento em que fossem decapitados.

Já fazia certo tempo que Chloe vinha se alarmando, da mesma
forma que muitas pessoas, com a degradação dos programas de TV que
pioravam a cada dia. Alguns canais exibiam, 24 horas por dia, as mais
terríveis perversões, e não havia limites para nada. Mas quando as
pesquisas revelaram que os programas de TV mais vistos durante a


semana inteira eram as execuções públicas, Chloe constatara que havia
um lado mais perverso ainda, para o qual a sociedade estava derivando,
e esse lado já vinha sendo mostrado.

A sede de sangue era, aparentemente, insaciável, chegando a tal
ponto que os programas mais populares de execuções ao vivo eram
aqueles que duravam uma hora e mostravam replays em câmera lenta
das mortes mais horripilantes. Quando as guilhotinas apresentavam
problemas e as lâminas emperravam, as vítimas eram deixadas ali,
mortalmente feridas e gritando, mas sem morrer... Era isso que o público
queria ver, e quanto mais, melhor.

Cada execução era precedida de um relato detalhado dos delitos
praticados pelos recalcitrantes. A lógica era a seguinte: quanto mais
sórdido o passado, mais sofrimento era imposto à vítima. Chloe conhecia
os tipos de histórias que circulavam sobre ela, mas não tinha idéia do que
diziam sobre os verdadeiros culpados.

Chloe viu Jock retornar e dirigir-se à plataforma onde havia um
microfone. Um homem - aparentemente o apresentador - pediu silêncio
ao povo, aguardando o aviso de alguém. Em seguida, pediu aplausos
enquanto lia um texto que mencionava as qualificações de Jock Ashmore.

Ele disse que Jock era o um dos principais investigadores da
Comunidade Global, responsável sozinho pela captura e prisão de Chloe
Steele Williams, a terrorista anti-Carpathia de maior periculosidade que
havia sido detida até aquela data. O povo aplaudiu aos gritos.

- Obrigado - Jock começou a dizer. - Hoje vamos realizar 36
execuções: 21 por assassinato, dez por recusa a receber a marca de
lealdade, quatro por crimes contra o Estado, e uma por todas estas
acusações e outras tantas.
O povo aplaudiu, gritou, vaiou e assobiou.


- Para mim, é uma satisfação dizer que, apesar de Chloe Steele
Williams não ter concordado em receber a marca de lealdade a nosso
supremo potentado, ela nos forneceu informações detalhadas sobre seus
companheiros no mundo inteiro, o que nos ajudará a erradicar de vez os
judaístas que estão fora de Petra e a pôr um fim na cooperativa de mercado
negro.
O povo aplaudiu freneticamente.

- Falaremos mais dessa mulher quando ela se tornar, hoje, a 36ª
paciente da Dra. Guilhotina.
Depois que o povo finalmente se acalmou, Jock prosseguiu:

- Esta manhã, começaremos pela fila sete com um homem que
assassinou sua esposa e dois filhos pequenos.
Chloe olhou de relance para um monitor de TV que mostrava uma
cena terrível dos corpos mutilados dos meninos.
Deus, dá-me força, ela orou silenciosamente. Permite que eu me
mantenha concentrada em ti.

Uma mulher bem à frente de Chloe, pálida, de aspecto doentio e
sem a marca de lealdade, virou-se de repente para ela e perguntou:

-Você é Chloe Williams?
Chloe assentiu com a cabeça.
- Eu não quero morrer e não sei o que fazer!
Obrigada, Senhor.

- Se a senhora sabe quem eu sou - disse Chloe -, sabe de que
lado estou.
-Sim.
- Sua única esperança é depositar sua fé em Cristo. Reconheça
que é pecadora, que está separada de Deus. A senhora não pode salvar
a si mesma. Jesus morreu na cruz pelos seus pecados e, se a senhora

acreditar nisto, diga a Deus e peça-lhe que a salve por meio do sangue
de Cristo.

- Mesmo assim, eu vou morrer?
- A senhora vai morrer, mas estará com Deus.
A mulher ajoelhou-se e cruzou as mãos, clamando a Deus. Um
guarda apontou para um dos coletores e, depois, para a mulher. O
homem levantou-se de um salto e correu na direção dela. Quando ele
estava prestes a agarrá-la, Chloe abaixou o ombro e investiu contra ele.

O cotovelo dela atingiu a boca do homem e empurrou sua cabeça
para trás. Ele caiu no chão, gritando e cuspindo dentes e sangue. A
mulher continuou a orar. Finalmente, levantou-se. O homem fez um novo
movimento em direção à mulher, mas Chloe apontou para ele, o que o fez
fugir em disparada.

- Eu orei - disse a mulher -, mas continuo apavorada. Como sei se
deu certo?
- Deixe-me olhar para a senhora - disse Chloe. Ela viu o selo dos
crentes em sua testa. - O que a senhora está vendo em minha testa?
- Um sinal, como se fosse em 3D. Ela esticou o braço para tocá-lo.
- Eu também vejo o mesmo sinal na senhora - disse Chloe. -
Somente os filhos de Deus são selados com esse sinal. Não importa o
que vai lhe acontecer hoje. A senhora pertence a Deus.

O povo gargalhou quando os coletores tentaram arrastar o
primeiro homem para a guilhotina, puxando-o pelos cabelos. Ele fincou os
pés no lugar, chutou e gritou. Em seguida, começou a cair e teve de ser
forçado a ficar em pé. O homem se contorceu e lutou de tal maneira que
foram chamados dois coletores extras para segurá-lo no lugar. Quando o
executor assegurou-se de que os coletores haviam se afastado, ele
puxou a corda para descer a imensa lâmina.


A lâmina enferrujada, enegrecida de sangue, enroscou
ligeiramente no momento de atingir o pescoço da vítima. Chloe
estremeceu quando ela afundou apenas alguns centímetros. O homem
fez um movimento brusco, pulou para trás e agrediu os coletores que
tentavam dominá-lo.

Depois de conseguir livrar-se deles, o homem girou o corpo e
começou a cambalear, esguichando sangue para todos os lados. Os
coletores se protegeram, rindo e ridicularizando dele quando o executor
bateu com força na lâmina para endireitá-la e levantou-a novamente.

Dois coletores agarraram o homem e forçaram-no a ficar na
posição correta. A corda foi puxada novamente e, desta vez, a lâmina
completou o trabalho. Pela reação demonstrada pelo povo, aquela era a
maneira perfeita de iniciar o dia.

-A seguir - disse Jock -, executaremos os primeiros dez da fila
daqueles que se recusaram a receber a marca, com exceção de nossa
convidada de honra, é claro. Deixaremos o melhor para o fim.
Antes que ele pudesse prosseguir, Calebe apareceu no meio do
pátio, com todo seu esplendor, entre Chloe e Jock. Ele parecia ter uns
quatro ou cinco metros de altura. Seus trajes eram tão brancos que,
quando Chloe se virou para ver a reação do povo, ficou claro que a luz
ofuscara os olhos de todos.

Eles gritaram e ficaram imóveis. Chloe viu Jock virar-se para ver o
que havia deixado o povo tão apavorado. Ele caiu, segurando o microfone
e com os olhos arregalados, aparentemente incapaz de se mexer.

Quando Calebe falou, o chão tremeu e um vento fez levantar uma
poeira. Chloe tinha certeza de que todos queriam fugir dali, mas não
podiam.

- Eu vim em nome do Deus Altíssimo - ele começou a dizer. - Ouvi

a minha voz e prestai atenção às minhas palavras. Aqueles que me
desprezarem, estarão em perigo. "Rendam graças ao SENHOR por sua
bondade e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!" (Sl
107.8).

- "Pois dessedentou a alma sequiosa e fartou de bens a alma
faminta. Os que se assentaram nas trevas e nas sombras da morte,
presos de aflição e em ferros, por se terem rebelado contra a palavra de
Deus, e haverem desprezado o conselho do Altíssimo" (Sl 107.9-11).
- "Então, na sua angústia, clamaram ao SENHOR, e ele os livrou
das suas tribulações. Tirou-os das trevas e das sombras da morte, e lhes
despedaçou as cadeias" (Sl 107.13,14).
- Assim diz o Filho do Deus Altíssimo: "Eu sou a ressurreição e a
vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê
em mim não morrerá, eternamente" (Jo 11.25,26).
- Mas ai daqueles que não derem atenção à minha admoestação
neste dia. Assim diz o Senhor: "Se alguém adora a besta e a sua imagem
e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do
vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e
será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na
presença do Cordeiro" (Ap 14.9,10).
- "A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e
não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da
besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome"
(Ap 14.11).
QUATORZE


Sentado no meio do centro de tecnologia de Petra, Chang
finalmente compreendeu o significado de não desgrudar os olhos da tela
da TV, conforme diziam os ocidentais. Ele estava preparado para
interromper a transmissão, tirá-la do ar antes que alguém visse a
execução de Chloe.

Contudo, a aparição daquele mensageiro de Deus, advertindo os
indecisos para que não recebessem a marca e suplicando que
aceitassem a Cristo, era algo que o mundo necessitava ver e ouvir mais
uma vez.

Nos últimos meses, o mundo inteiro foi informado sobre o
aparecimento de anjos nos locais da aplicação da marca e das
guilhotinas. Era difícil acreditar em alguns desses relatos, mas Tsion Ben-
Judá explicou que eles se encaixavam perfeitamente no amor e bondade
de Deus.

Chang olhou de relance para o local onde os anciãos estavam
sentados na frente de um telão. Um pouco adiante deles, centenas de
digitadores aguardavam instruções.

O sol do fim de tarde lançava raios oblíquos através da porta, a
uns 30 metros de Chang, e ele se comoveu às lágrimas ao ver a chegada
do maná. Proporcionando alimento para seu povo escolhido, protegendo
e emocionando Chang, confortando Chloe e enviando mensageiros para
anunciar o Evangelho eterno... Deus era o supremo obreiro das mil e uma
funções.

Um telefone tocou e Naomi atendeu. Pela leitura labial, Chang
entendeu o que ela disse quando se aproximou de Tsion.

- Buck quer falar com o senhor.
- Cameron, meu amigo! Como deve estar sendo difícil para você...
Não, lamento muito, filho. Não conheço fato algum em que o portador do

Evangelho eterno tenha interferido na sentença... Sim, é claro que Deus
pode realizar um milagre, mas eu o advirto a estar preparado para
qualquer resul...

Rayford questionou a decisão que tomara de estar em pleno vôo
durante a transmissão. Ele acionou o piloto automático e ficou só
observando, mas temia o momento que estava prestes a chegar e se
perguntava quando recobraria a confiança em si mesmo para reassumir o
controle da aeronave.

Bem, ele pensou, não havia escolha. Talvez esta fosse a melhor
terapia. Se não quisesse ver Chloe, Buck e ele próprio morrerem no
mesmo dia, precisava manter o equilíbrio mental.

Pobre Buck! Falando ao telefone com Tsion e, aparentemente,
não ouvindo o que esperava. Rayford queria consolá-lo, mas Buck era o
tipo de pessoa que só aceitava uma palavra de conforto depois de
terminada a crise. Naquele momento ele estava argumentando com
Tsion. Quando o mensageiro de Deus olhou para a multidão paralisada e
viu os nove indecisos restantes, ajoelhados, chorando, Buck pressionou
Tsion.

- Deus enviou seu mensageiro para lá, doutor! Por que é tão difícil
interferir? Por que Ele não a tira de lá e nos devolve? Você sabe que Ele
pode fazer isso! Ele também podia ter nos avisado onde ela estava. O
que eu fiz ou deixei de fazer para merecer tão pouca consideração?

Chang voltou a olhar a tela para ter certeza de que não havia
perdido nada, mas ainda podia ouvir Tsion aconselhando Buck com toda
sinceridade.

- Cameron - disse Tsion -, é sua emoção que está falando. Você
sabe muito bem que este período inteiro, o período da Tribulação, não se
refere a nós individualmente. Deus tem um plano grandioso. É o auge da
batalha entre o bem e o mal que tem atravessado milênios. Ele está
reconciliando seu povo consigo. Devemos ser gratos por termos sido
incluídos. Ele tem um cenário maior em mente, que também é uma prova
de seu amor eterno para conosco. Confie nele, meu amigo. Confie nele
sejam quais forem as circunstâncias.


Chloe sentia como se já estivesse no céu. O brilho de Calebe a
impedira de presenciar a morte horrenda da primeira vítima. Ela viu Jock
levantar-se com dificuldade e limpar a poeira do uniforme.

- Por favor, pessoal, ninguém deve sair daqui. Temos notícias
dessas aparições em outros locais, embora esta seja a primeira visita que
recebemos aqui. Trata-se de um truque perpetrado pelos espiritualistas
que fazem parte do grupo dos rebeldes. Talvez devêssemos perguntar ao
intruso se podemos prosseguir com nossa programação.
Ele se virou e olhou para Calebe, fingindo mais medo do que
realmente sentia. Chloe percebeu que ele não conseguira convencer a
multidão de que aquilo era real.

- Por gentileza, senhor - disse Jock, com a voz destilando
sarcasmo -, podemos continuar?
A voz de Calebe, muito mais alta agora, ecoou nos muros da


prisão.

- Você foi julgado e considerado culpado por seus crimes contra o
Deus Altíssimo. Está condenado à morte por ostentar a marca do
demônio. Não há nada que você possa fazer para fugir de seu destino.
Você beberá do vinho da cólera de Deus por ter adorado a besta e sua
imagem e recebido sua marca. Será atormentado com fogo e enxofre
diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. E não terá descanso,
nem de dia nem de noite.
- Tudo o que o Senhor Deus pensa certamente acontecerá, e o
que Ele decide jamais mudará, porque está escrito em sua Palavra:
"Jurou o SENHOR dos Exércitos, dizendo: Como pensei, assim sucederá,
e como determinei, assim se efetuará" (Is 14.24).
Jock encarou Calebe com as sobrancelhas erguidas. A seguir,
olhou para a multidão e encolheu os ombros.

- A pergunta é simples... - ele disse, e o povo riu nervosamente. -
Entendo que esta é uma indicação de que podemos prosseguir, porque...
prestem atenção... se ele estiver certo e nós estivermos na mira de Deus,
esse mesmo Deus poderá acionar o gatilho quando quiser. Mas vejam
quem está morrendo aqui hoje. Quem? Vocês estão entendendo? Quem
está morrendo? Quero que me respondam!

Ninguém respondeu.

- Esse tal povo de Deus! - disse Jock. - Aqueles que o adoram em
vez de adorar o deus verdadeiro e nosso supremo potentado, Nicolae J.
Carpathia! Vamos, minha gente, não se intimidem diante de fantasmas
enormes, luminosos e transparentes. Ah, sim, ele é uma figura
assustadora. Mas só conseguiu interromper um programa de TV e...
vejam bem... torná-lo melhor ainda! Será que tudo isto não passa de uma
encenação ou coisa parecida? O inimigo aparece para brandir a espada,

mas ele não mudou nada! Vocês estão aqui para ver cabeças sendo
cortadas, e é o que vão ver. Essas pessoas podem chorar, orar e suplicar

o quanto quiserem, mas vão morrer!
Chloe se emocionou ao constatar que, dos nove indecisos que se
levantaram, seis tinham o selo dos crentes na testa. Devia ter acontecido
alguma coisa no íntimo deles, porque levantaram as mãos e sorriram,
mesmo sabendo que morreriam. Os outros três estavam desolados, e
Chloe supôs que eles fizessem parte dos que tinham o coração
endurecido. Talvez tivessem desejado mudar de idéia, mas demoraram
demais.

Apesar de toda a sua empáfia, Jock devia estar mais temeroso de
Calebe do que deixara demonstrar ou queria cumprir à risca a
programação da TV.

- Vamos esquecer essas coisas por alguns instantes, está certo? -
ele disse. - Quero que sete dos dez que não têm a marca de Carpathia
fiquem na frente de cada guilhotina, todos ao mesmo tempo. Já! Vamos!
Coletores, comecem a trabalhar! Executaremos todos de uma vez e
retornaremos à programação. Se ainda existe alguém que deseja receber
a marca, que diga agora.

A mulher na frente de Chloe e os seis que receberam o selo de
Deus na testa não saíram do lugar. Os outros três arrastaram-se até o
local onde se encontravam os aplicadores da marca.

Dois coletores agarraram os sete restantes que não possuíam a
marca de Carpathia, inclusive a mulher na frente de Chloe. A mulher
virou-se e as duas se abraçaram.

- Seja forte e confie em Deus - disse Chloe.
A mulher foi arrastada até a guilhotina do meio. Nenhum dos sete
lutou, esperneou ou teve de ser forçado a ajoelhar-se e colocar o pescoço


no lugar.

- Vamos executar três de uma vez! - gritou Jock.
O povo, embora assustado diante da presença daquele
desconhecido, de tamanho descomunal e brilhante, começou a vibrar
antecipadamente.

Chloe abaixou a cabeça e fechou os olhos, determinada a não
presenciar a execução dos filhos de Deus. Porém, mesmo com os olhos
fechados, ela notou alguma coisa diferente. Levantou a cabeça e viu que

o brilho de Calebe havia tomado conta do pátio inteiro. A claridade era tão
intensa que ninguém conseguia enxergar nada. Aquilo provocou um
estrago nas câmeras de TV, e os operadores e técnicos começaram a
gritar pedindo ajuda, implorando a Jock que aguardasse.
- Não vamos retardar nossa programação por causa deste truque
do inimigo! - disse Jock. Em seguida, contou até três. O som aterrador
das lâminas pesadas ecoou, e o povo aplaudiu. Mas a luz intensa não
permitiu que ninguém presenciasse as mortes, nem o pessoal dali nem os
que estavam assistindo o espetáculo pela TV no mundo inteiro.


Chang recostou-se na cadeira e analisou a tela. A seguir, fez um
sinal para que Naomi se aproximasse.

- Você viu isto? - ele perguntou. - Se o anjo fizer o mesmo com
Chloe, não vamos precisar interromper a transmissão. Ele fará o serviço
para nós.
- Ele desapareceu - disse Naomi. - Veja.
Ela estava certa. O pátio da prisão parecia ter voltado ao normal.

As execuções prosseguiram na meia hora seguinte, de acordo com o
programado, cada morte precedida das mesmas preliminares:
representações gráficas dos crimes dos condenados.

Após o desaparecimento de Calebe, a reação do povo retornou ao
normal: assobios, vaias, gritos e aplausos. Os coletores estavam sujos de
sangue e de poeira. Pareciam embriagados de emoção por estar
realizando aquela tarefa.

Chloe, em pé sob o sol quente por mais de uma hora, evitou olhar
para aquele cenário de horror. Enfraquecida pela fome, ressequida pela
sede e zonza por estar em pé, ela lutou para controlar as emoções. Orou

o tempo todo suplicando a Deus que lhe concedesse uma oportunidade
de falar em seu nome e que ela fosse capaz de expressar o que tinha em
mente.
Chloe sentiu a falta de Calebe. Enquanto ele esteve ali, ela
parecia estar recebendo o brilho da glória e sentindo a presença de Deus.
Agora, sabia que Deus estava a seu lado, mas era necessário ter mais fé
ainda. Ela procurou concentrar-se no pensamento de que, dentro de
alguns instantes, estaria na presença do Deus Todo-Poderoso e se
emocionou diante da idéia de que, em breve, se ajoelharia aos pés de
Jesus.

Mas, naquele momento, ela estava em pé sob o forte calor do dia,
recebendo poeira de todos os lados. Notou os olhares de simpatia dos
funcionários que haviam aplicado a marca nos condenados. Eles já
estavam acostumados a isso, tinham visto a "convidada de honra" ser
ridicularizada e humilhada, como se a decapitação não fosse suficiente.

Mais de 30 minutos depois que Calebe o interrompera, Jock se
mostrava envaidecido. Ele se dedicara à tarefa e, conforme Chloe
imaginava, podia antecipar o gosto da promoção e já se via nos


corredores do poder em Al Hillah em companhia do potentado.

Ainda de frente para o povo, Jock pegou um microfone sem fio e
começou a caminhar em direção a Chloe.

- E agora chegou o momento pelo qual tanto aguardamos - ele
anunciou, e o povo o aplaudiu.
Quando chegou perto de Chloe, ele tocou em seu ombro e a virou
de frente para a platéia. Continuou ali com o braço ao redor dela. Embora
enojada, Chloe surpreendeu-se com a gentileza dele. Com os dedos
esticados e a mão aberta, ele a amparava, segurando-lhe o ombro. Ela
queria desvencilhar-se e cuspir nele, mas sabia que estava sendo vista
pelo mundo inteiro e aquela era sua última oportunidade de causar
impacto e conduzir muitas pessoas a Cristo.

- É nosso costume conceder a um prisioneiro famoso o direito de
proferir suas últimas palavras - disse Jock. - Mas, neste caso, eu estou
em dúvida. O que vocês acham?
Alguns gritaram:

- Acabe logo com isso! Mate essa mulher! Queremos ver essa
linda cabecinha dentro de um cesto!
Outros batiam palmas e gritavam:

-Permita que ela fale!
Jock olhou para a diretora de TV, e Chloe viu a mulher sinalizar
que havia tempo para ser preenchido.

- Eu não sei - ele disse. - Devo ou não devo? O povo começou a
gritar novamente.
- Enquanto pensamos no assunto - ele prosseguiu -, vamos ver o
teipe dos crimes que estamos punindo hoje.
As vaias e os gritos recomeçaram quando as telas de TV
mostraram uma história totalmente falsa, atribuindo todos os tipos de


maldades a Chloe, aos judaístas, ao Comando Tribulação e à
Cooperativa Internacional de Mercadorias.

Chloe surpreendeu-se ao ver que ela e seus companheiros foram
responsabilizados por grande parte das pragas e julgamentos que tinham
vindo do céu nos últimos seis anos.

Finalmente, as acusações falsas contra ela, seu pai e seu marido
foram exibidas, acompanhadas da fotografia falsificada de um menino de
dois anos ao qual ela, supostamente, dera o nome de Jesus e declarara
que ele era a encarnação de Deus.

- Além de tudo - disse Jock -, esta mulherzinha mudou
completamente de atitude quando ficou sabendo que ia morrer. Para
proteger sua família, particularmente seu filho deus que assumiu a figura
humana, ela cantou como um canarinho atrás das portas fechadas. Ela
nos forneceu tantas informações que temos de admitir que Chloe Steele
Williams nos ajudou sobremaneira a eliminar os últimos vestígios da mais
significativa rebelião que a Nova Ordem Mundial já enfrentou.
O povo vibrou aos gritos.

-Podemos afirmar que ela disse o suficiente! Talvez tenha
fornecido informações mais que suficientes! Talvez seja melhor
permitirmos que ela fale! O que vocês acham?
Mais aplausos, batidas de pés no chão, gritos.

-A Sra. Williams entregou seus amigos, parentes e companheiros
de conspiração, mas se recusou a prometer lealdade ao verdadeiro deus
deste mundo, o ressurrecto Nicolae Carpathia.
Vaias tomaram conta do pátio.

- E agora Sra. Williams - ele disse virando-se para ela -, creio que
estamos prontos para prosseguirmos com a sentença, a menos que
esteja pronta para mudar de idéia.

Chloe esticou o braço para pegar o microfone, mas Jock o
segurou com força.

- Ah, ah, ah! - ele disse. - Nada de privilégios, a não ser que você
esteja disposta a aceitar a marca de lealdade ao trono do líder da
Comunidade Global.
Ela, porém, continuou com o braço esticado, e agora estava com
as duas mãos no microfone.

- Estamos presenciando um momento histórico, não é mesmo,
pessoal? -disse Jock. - Você está entendendo, Sra. Williams, que, se
pegar este microfone, está aceitando receber a marca de Carpathia?
Chloe pegou o microfone. Jock virou-se para o povo com os
braços esticados para a frente e recebeu uma enorme ovação.

- Jock, você me garantiu que, se dependesse de sua vontade, eu
poderia dizer algumas palavras. Depende de você?
Jock quis pegar o microfone.

- Eu não disse isso! Você só vai poder falar se receber a marca.
Calebe apareceu atrás de Chloe e levantou um dedo, fazendo um
gesto negativo para Jock.
Jock ficou paralisado e tombou para trás, com o braço ainda
esticado para pegar o microfone. O povo riu ao ver Jock com o rosto
vermelho, transpirando e sem poder se mexer.

Chloe virou-se para a platéia e falou meigamente.

- Certa vez, um mártir famoso disse que lamentava ter apenas
uma vida para entregar. É assim que me sinto hoje. Na cruz, morrendo
pelos pecados do mundo, meu Salvador, Jesus, o Cristo, orou: "Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23.34).
- Vocês querem saber qual é minha preferência pessoal? Minha
escolha? Eu gostaria de estar com minha família, com pessoas que amo,

com meus amigos, até o glorioso aparecimento de Jesus, que vai voltar.
Mas este é o meu quinhão, e eu o aceito. Quero expressar meu amor
eterno a meu marido e a meu filho. E um agradecimento eterno a meu
pai, que me levou a conhecer a Cristo.

- Um famoso estadista missionário, que morreu como mártir,
escreveu certa vez: "Não é tolo aquele que dá o que não pode manter
para ganhar o que não pode perder." Ele estava falando de sua vida na
terra comparada à vida eterna com Deus. Minha natureza humana não
deseja uma morte igual às que vocês presenciaram 35 vezes hoje. Mas,
para ser franca, em meu espírito, estou aguardando ansiosamente a
chegada desse momento, porque estar ausente do corpo é estar presente
com o Senhor. O próprio Jesus disse a seu Pai na hora da morte: "Nas
tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23.46).
- E agora, "...segundo a minha ardente expectativa e esperança
[...] em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como
sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer
pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim o viver é Cristo, e o
morrer é lucro. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o
desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor"
(Fp 1.20,21,23).
- E para meus companheiros que lutam pela causa de Deus no
mundo inteiro eu digo: "Tende em vós o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não
julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se
esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de
homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz" (Fp 2.5-8).
- "Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o

nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se
dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua
confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Fp 2.9-11).

-"Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do
que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera
em nós..." (Ef 3.20) "e para vos apresentar com exultação, imaculados
diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus
Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de
todas as eras, e agora, e por todos os séculos" [Judas 24,25].
- Buck e nosso querido filhinho, saibam que eu amo vocês e que
os estarei aguardando do lado de dentro do Portão Leste.
Chloe se curvou e colocou o microfone no peito imóvel de Jock.
Sem precisar de escolta, ela caminhou até a base da guilhotina do meio.
Quando ela se ajoelhou e colocou a cabeça debaixo da lâmina, o brilho
de Calebe ofuscou os olhos das pessoas do mundo inteiro. Chloe ouviu
apenas a corda ser puxada e a descida da lâmina mortal afiada que a
conduziu à vida eterna.

INTERLÚDIO

Quinze horas mais tarde, Buck desceu penosamente do avião de
Rayford, exausto por causa da longa viagem e com os olhos turvos,
porém ansioso demais para carregar o filho nos braços.

Abdullah os aguardava com um carro na pista, nos arredores de
Petra. Ele havia levado Ming, que carregava o menino. Buck pegou
Kenny e o apertou com força de encontro ao peito, derramando lágrimas
nas costas do filho.


Enquanto os cinco se dirigiam para Siq, a entrada estreita de
acesso a Petra, Abdullah informou o pessoal de lá, pelo rádio, sobre o
horário previsto da chegada deles.

- Espero que não se importe, Buck - ele disse -, mas o. Dr. Ben-
Judá gostaria de realizar o culto em memória de Albie e Chloe assim que
você e Rayford chegarem lá.
Buck ficou atônito diante da multidão que os aguardava. Centenas
de pessoas haviam se reunido no lugar alto, de onde era possível ouvir o
som forte da correnteza do riacho. O pessoal abriu caminho para que os
amigos mais próximos de Buck e Chloe se reunissem à frente da
multidão. Com um pouco de dificuldade por ter os braços de Kenny
enroscados com força em seu pescoço, Buck sentou-se na parte plana de
uma rocha e contemplou a cena.

Tsion e Chaim estavam em pé no meio, aguardando o povo se
acomodar. Formando um meio círculo, de frente para Buck, Kenny e
Rayford, estavam George e Priscilla Sebastian e Beth Ann. Ao lado deles,
Buck avistou Ree Woo e Ming Toy de mãos dadas. Também estavam
presentes Lionel Whalum e sua esposa, Felicia, acompanhados de Leah
Rose e Hannah Palemoon, todos recém-chegados de Illinois.

Buck fez um sinal com a cabeça para cumprimentar Zeke, em pé
perto de Abdullah e Mac. Um pouco mais adiante, Buck avistou Chang
sentado em uma rocha com sua nova amiga Naomi, ambos
demonstrando estar à vontade um com o outro. Buck notou o olhar de
Eleazar Tiberias, pai de Naomi, vigiando a filha.

Tsion levantou a mão pedindo silêncio. Começou a falar em voz
baixa, mas Buck teve a impressão de que todos podiam ouvi-lo apesar do
ruído da correnteza.

- Hoje, eu trouxe comigo minha Bíblia pessoal. Conforme vocês

devem saber, os anciãos daqui, o Dr. Rosenzweig e eu estamos
estudando constantemente a Bíblia, comentários e dicionários bíblicos,
procurando encontrar uma explicação para o que está acontecendo
nestes últimos dias.

- São buscas de cunho acadêmico. Ao mesmo tempo em que elas
têm relação com a vida cotidiana daqui, também são exercícios
devocionais muito úteis. Diariamente, vemos em cada página as mãos do
próprio Deus trabalhando para cumprir sua vontade em nosso meio e
neste mundo.
- Mas hoje eu trago a Palavra de Deus que, além de fazer parte de
minha biblioteca teológica, é o livro que tenho estudado desde alguns
anos antes do Arrebatamento.
Conforme vocês sabem, minha vida mudou quando descobri que
Jesus era o Messias que eu tanto aguardava. Essa descoberta não se
deu apenas por causa do Arrebatamento, mas porque eu também tinha
sido encarregado de estudar as profecias referentes ao Messias.

- Para fazer esse estudo, tive de comprar um exemplar do Antigo
e do Novo Testamentos, o que me causou, na ocasião da compra, um
enorme constrangimento.xx Eu não queria ser excomungado por meus
colegas nem por meu Deus.
- Tomei conhecimento da verdade antes que o Arrebatamento a
comprovasse para mim; logo a seguir, aceitei o verdadeiro Messias e
passei a acreditar nele. De repente, este livro - Tsion ergueu a Bíblia -
passou a ser o meu pão diário. Esta Bíblia, um livro que na época era
necessário apenas para pesquisas de textos e que comprei com o rosto
corado de vergonha, passou a ser o bem mais precioso que possuo.
-Quando minha família foi trucidada, eu me apeguei
desesperadamente a ela para continuar a viver. Minha Bíblia tornou-se

um símbolo material, um talismã como alguém diria, da Palavra de Deus
que me fez conhecer Jesus, o Cristo, o Messias, o Filho do Deus vivo, o
Cordeiro que foi imolado para levar consigo os pecados do mundo. Li,
certa vez, a história de um grande teólogo cuja Bíblia pessoal se lhe
tornou tão preciosa que às vezes ele se via acariciando-a, como se fosse
um filho, uma filha ou um cônjuge. Aquilo me pareceu estranho, mas
passei a entender o significado da Bíblia e a identificar-me com ela.

- Eu amo este livro! Eu amo esta Palavra! Eu amo seu autor e amo
o Senhor que ela representa. E por que estou falando da Palavra de Deus
hoje, neste dia em que estamos com o coração pesaroso demais,
lembrando-nos de dois companheiros tão queridos?
- Porque Albie e Chloe eram pessoas da Palavra. Oh, como eles
se deliciavam com a carta de amor de Deus endereçadas a ambos e a
nós! Albie era o primeiro a dizer que não tinha estudos, que mal sabia ler.
Ele cursou apenas a faculdade da vida; aprendeu a caminhar sozinho
pelo mundo e se tornou, rapidamente, uma pessoa astuta e sarcástica.
Porém, sempre que se lhe apresentava uma ocasião, quando podia
sentar-se para estudar a Bíblia, ele tomava notas e fazia perguntas,
assimilava seus ensinamentos. A Palavra de Deus foi fundamental em
sua vida. Mudou seu modo de ser. Ajudou-o a transformar-se no homem
que foi até o dia de sua morte.
- E Chloe, nossa querida irmã, foi um dos membros fundadores do
pequenino Comando Tribulação que, hoje, é tão grande. Todos os que a
conheceram adoravam sua personalidade marcante, seu intelecto, sua
coragem. Que grande esposa e mãe ela foi! Jovem, porém muito
dinâmica, ela transformou a Cooperativa Internacional de Mercadorias em
uma empresa que manteve vivos milhões de pessoas do mundo inteiro,
pessoas que recusaram a marca do anticristo e perderam o direito legal

de comprar e vender.

- Nas várias casas secretas em que morei nos últimos seis anos,
convivi com Chloe e sua família. Era comum encontrá-la lendo a Bíblia,
memorizando versículos, e empenhando-se em transmiti-los a outras
pessoas. De vez em quando, ela me entregava sua Bíblia e me pedia que
conferisse se os versículos decorados estavam corretos, palavra por
palavra. E ela sempre queria saber o significado exato de cada um. Não
lhe bastava conhecer o texto; ela queria que ele se tornasse vivo em seu
coração, em sua mente, em sua vida.
- Para aqueles que sentirão uma falta terrível, profunda e dolorosa
de Chloe até o dia em que a veremos novamente em glória, eu ofereço o
único conselho que me manteve a mente sã quando minha querida
família foi arrancada de mim de maneira tão cruel. Segurem firme na mão
imutável de Deus. Apeguem-se à sua Palavra. Apaixonem-se novamente
pela Palavra de Deus. Agarrem as promessas da mesma forma que um
cãozinho agarra as pernas da calça do seu dono com os dentes, sem
soltá-las jamais.
- Buck, Kenny e Rayford, não compreendemos o que aconteceu.
Não somos capazes de compreender. Somos seres finitos. A Bíblia diz
que o conhecimento é tão passageiro que um dia desaparecerá,
"...porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando,
porém, vier o que é perfeito...", e, oh!, meus amados, o que é perfeito está
vindo, "...então, o que é em parte será aniquilado" (1 Co 13.9,10).
-"Quando eu era menino, falava como menino, sentia como
menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das
cousas próprias de menino. Porque, agora, vemos como em espelho,
obscuramente; então, veremos face a face..." (1 Co 13.11,12).
- Vocês ouviram a promessa, o "então"? Que maravilha podermos

nos regozijar com os entãos da Palavra de Deus! O então está se
aproximando, meus queridos! O então está se aproximando.

Tsion sentou-se e abriu a Bíblia no colo.

- Enquanto choramos, não como fazem os idólatras, a perda de
nossos amados irmãos em Cristo, quero encerrar este culto com as
palavras do salmista: "Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus
santos. SENHOR, deveras sou teu servo, teu servo, filho da tua serva;
quebraste as minhas cadeias. Oferecer-te-ei sacrifícios de ações de
graças e invocarei o nome do SENHOR" (Sl 116.15,16,17).
-"Cumprirei os meus votos ao SENHOR, na presença de todo o seu
povo, nos átrios da Casa do SENHOR, no meio de ti, ó Jerusalém. Aleluia!"
(Sl 116.18,19).
- "Louvai ao SENHOR [...] louvai-o, todos os povos. Porque mui
grande é a sua misericórdia para conosco, e a fidelidade do SENHOR
subsiste para sempre. Aleluia!" (Sl 117.1,2).
-"Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque a sua
misericórdia dura para sempre" (Sl 118.1).
- "Diga, pois, Israel: Sim, a sua misericórdia dura para sempre" (Sl
118.2).
QUINZE

Seis anos e cinco meses e meio dentro da Tribulação

Ree e Ming casaram-se em uma cerimônia simples, realizada por
Tsion, alguns dias após o culto em memória de Albie e Chloe. O
relacionamento de Chang e Naomi havia florescido, mas eles foram


aconselhados a adiar o noivado para depois do Glorioso Aparecimento.

Rayford havia reorganizado o Comando Tribulação ao longo de
vários meses. Mac, Abdullah e Ree tornaram-se os pilotos principais.
Lionel Whalum, depois de meses voando de um lado para o outro,
apresentou-se como voluntário para assumir a direção da cooperativa,
tendo Ming como assistente e Leah e Hannah como colaboradoras.

Chang idealizou um plano brilhante para "grampear" a reunião
internacional dos chefes de Estado da CG em Bagdá. Pelo fato de ter
acesso diário ao computador principal de Nova Babilônia, ele descobriu
que Leon Fortunato havia encarregado alguém de transmitir, por controle
remoto, os registros das atividades diárias do governo para fins de duplicação
e divulgação.

A grande oportunidade surgiu quando Chang descobriu que o
governo estava abrindo concorrência para contratar a instalação de um
serviço de som para o grande evento, no salão de conferências. Ele
contou seu plano a Naomi.

- É espetacular - ela disse -, e acho que o capitão Steele também
vai gostar. Seria bom você trocar idéia com ele logo, não?
No final de uma noite, Chang convidou Rayford para ir ao centro
de tecnologia.

- Meu plano é este - ele disse a Rayford. - A identidade de Ree
Woo nunca levantou suspeitas, e o nome dele não é conhecido pela CG.
Formulei um dossiê mencionando que ele estudou numa faculdade de
tecnologia e é proprietário de uma pequena empresa de engenharia de
som na Coréia do Sul, chamada Woo e Associados.
- Presumo que essa empresa não existe.
- Claro. Como o senhor pode ver, registrei Ree como um cidadão
leal bem conceituado da Região 30, com uma longa lista de clientes

satisfeitos. Se alguém cruzar estas informações com as dos clientes, eles
confirmarão tudo. Já sei quais são os preços dos concorrentes para a
instalação do som, por isso posso fazer uma oferta mais baixa para que
Woo ganhe a concorrência.

-E daí?
- Incluí vários avisos dizendo que ele prefere ter uma equipe
pequena e trabalhar rapidamente à noite, para que outros sons não
interfiram nos ajustes que devem ser feitos. Não será difícil instalar o som
na sala principal e trabalhar com a CNNCG. Posso ensinar Ree e você
como fazer isso em um dia ou dois. Vamos dizer à CG que o trabalho vai
demorar o dobro do tempo normal, para que vocês possam ter acesso ao
principal salão de conferências, onde sabemos que Carpathia e seu
gabinete planejam reunir-se com os potentados regionais. Vai ser um
pouco complicado instalar uma escuta clandestina lá, mas posso ensinar
a vocês como fazer isso.
- Eu adoraria fazer esse serviço pessoalmente - Chang prosseguiu
-, mas Zeke teria muito trabalho para me deixar irreconhecível perante as
pessoas com quem trabalhei durante tanto tempo. Minha idéia é ensinar
Buck e George como fazer a instalação. Enquanto você e Ree instalam o
sistema de som básico no salão grande, eles poderão entrar na sala de
reuniões e deixar tudo pronto.
- Ree é o único que tem a aparência de coreano, Chang. Buck,
George e eu somos muito corpulentos.
- Isso é fácil. De qualquer forma, a equipe de trabalho terá de ser
aprovada antecipadamente, por isso não haverá problemas em incluir
todos vocês com as aparências e nacionalidades que Zeke escolher para
cada um. O Sr. Woo vai explicar que está usando uma equipe
internacional de alto gabarito para fazer o melhor trabalho possível.

- Gostei da idéia, Chang. Precisamos reunir todo o pessoal
envolvido, principalmente Zeke. Ele terá de confeccionar uniformes da
empresa e providenciar disfarces e documentos para todos.
Tudo correu às mil maravilhas. Zeke foi um artista e transformou
George e Rayford em dois homens bem mais velhos. Buck precisou
receber um tom rosado nas bochechas para ficar semelhante a um
australiano. Todos passaram rapidamente a estudar eletrônica. Buck
aprendeu tudo com facilidade, porque, na opinião de Chang, necessitava
muito se concentrar em um novo trabalho.

Na época, houve um contratempo que se tornou útil, conforme
Rayford descobriu posteriormente. A única representante do gabinete da
CG responsável pela entrada da empresa Woo e Associados no salão de
conferências era uma mulher que não foi contemporânea de Rayford e
Buck quando eles trabalharam para Carpathia.

Ela não desconfiou de nada, e os dois se tranqüilizaram por estar
lidando com uma pessoa estranha. Os demais membros do governo
continuavam escondidos em Al Hillah, mas a mulher deixou escapar que,
quando o salão estivesse pronto para as reuniões, o governo se mudaria
para lá dentro de algumas semanas.

Rayford ficou impressionado com a habilidade de Ree em fingir
que era um especialista em eletrônica. Ele havia aprendido os jargões
com Chang e fez questão de impressionar a mulher responsável pelas
chaves. Ela raramente trabalhava após o expediente, e, pelo fato de toda
a equipe de Woo portar crachás e bonés da empresa cobrindo-lhes a
testa, eles nunca foram abordados por ninguém, e o serviço transcorreu


sem imprevistos.

Chang contara com a colaboração de Lionel para conseguir as
peças para a instalação do som, e a equipe da Woo e Associados levou
todo o material necessário para captar a transmissão de cada emissora
afiliada que faria a cobertura da grande reunião. Também instalaram
vídeo transmissores em metade das luminárias.

Ree Woo e seus associados terminaram o trabalho antes do
tempo, e a CG depositou, eletronicamente, o pagamento total via internet.

-Agora estamos na folha de pagamento de Carpathia - Chang
disse a Rayford.


O gabinete de Nicolae mudou-se de Al Hillah para a mansão perto
do salão de conferências de Bagdá e, em questão de dias, os chefes das
dez regiões seguiriam para lá. Certa noite, Rayford disse a Buck:

- Faz meses que o mundo não ouve um pronunciamento de
Carpathia. Agora, pelo menos vamos saber o que esse sujeito tem em
mente.
Carpathia adotara uma atitude discreta desde que a escuridão
tomou conta de Nova Babilônia. O governo encontrava-se em um
verdadeiro caos e muitos funcionários haviam morrido. O potentado
conseguira pouco sucesso para arregimentar suas tropas em Israel.
Rayford imaginou que Nicolae devia estar constrangido e humilhado por
não ter sido capaz de contra-atacar a última praga.

- É aí que ele se torna mais perigoso ainda, não? - disse Buck. -
Quando tem tempo para pensar e arquitetar seus estratagemas. Pode
apostar que ele está ruminando alguma coisa espetacular.


Carpathia fez uma alusão a essa "alguma coisa" na primeira vez
que Chang teve acesso à sala de reuniões, quando estavam presentes
apenas Nicolae e seus homens de confiança. Chang gravou a conversa
para ser ouvida posteriormente por Rayford.

- Tenho novidades - disse o potentado. - E ela é tão dinâmica e
maravilhosa que mal posso aguardar para contá-la a vocês. Mas não
posso dizer nada agora. Vocês terão de esperar a chegada de nossos
colegas do mundo inteiro. Quero apresentar um trio a todos vocês. Eles
nos ajudarão a atingir nossos objetivos.
- De onde vem esse trio, Excelência? - soou a voz clara de Viv
Ivins.
- Por enquanto, é segredo.
- Oh!, divindade, por que o senhor gosta de brincar conosco? -
perguntou Leon.

- Fique feliz por eu estar brincando com vocês, meu amigo. As
forças rebeldes se arrependerão amargamente do dia em que sonharam
opor-se a mim.


Certa noite, Rayford estava prestes a retirar-se para seus
aposentos quando recebeu um recado que Tsion queria vê-lo.

- Ele está disposto a vir ao encontro do senhor - foi o que lhe
disseram.
-Oh!, não, eu irei até lá.
Quando Rayford chegou, Tsion começou a dizer:
- Antes de fazer meu pedido, quero que você saiba que estou a
seu dispor. Os anciãos e eu sabemos muito bem que, quando você está

em Petra, é o chefe do Comando Tribulação, e eu sou simplesmente...
como posso dizer?... o capelão do grupo.

- Estou satisfeito por você ter abordado este assunto, Tsion,
porque eu também tinha a intenção de conversar com você sobre sua
deferência em relação a mim. Isso me deixa desconfortável. Eu não
considero Petra como quartel-general do Comando Tribulação. Sim, sinto
que Deus colocou o manto de liderança sobre mim para comandar esse
grupo, mas você foi o escolhido por Ele para liderar seu povo, que agora
é composto de um milhão de pessoas. Você não deve sentir-se na
obrigação de dar satisfações a mim. Você tem os anciãos e seu colega
Chaim, e sei que o Senhor o conduz por meio deles. Para mim, está tudo
bem. Na verdade, prefiro que seja assim.
Tsion esticou o braço e apertou o ombro de Rayford.

- Eu agradeço muito a sua confiança, capitão Steele. Mas você
não deve subestimar suas responsabilidades de líder. Eu pretendia pedir-
lhe um conselho sobre minha nova mensagem que será levada ao ar
internacionalmente.
Rayford estava perplexo.

- Suas mensagens são transmitidas diariamente via internet, não?
- Claro. Mas, de vez em quando, Deus coloca em meu coração
uma mensagem que, conforme acredito, é do desejo dele que ela seja
dirigida tanto a crentes quanto a incrédulos. E, embora eu saiba que o site
está disponível para todos e que muitos incrédulos o acessam
involuntariamente, se pudéssemos mais uma vez entrar ilegalmente nas
ondas de transmissão internacionais, eu ficaria muito grato por essa
oportunidade. Creio que Deus me transmitiu uma mensagem que deve
ser ouvida até mesmo pelo deus deste mundo e seus bajuladores.
Quando o povo ouve a verdade de Deus pregada nas redes de TV de

propriedade de Carpathia, bem, é como levar o Evangelho até as
profundezas do inferno.

- E as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja -disse
Rayford, citando um versículo bíblico.
- Excelente. E então, o que você acha? Podemos fazer isso?
Quando?
-Em primeiro lugar, Tsion, você não necessita de minha
permissão.
- Considere, então, que eu estou lhe transmitindo uma informação.
- Tudo bem. Você deve saber que os melhores técnicos de
informática do mundo estão aqui. Chang é o principal, mas Naomi
também trabalha lá, e eles montaram uma equipe capaz de fazer
qualquer coisa. Trabalham para você da mesma forma que trabalharam
para mim, portanto se necessitar de alguma coisa deles, basta pedir.
- Você tem um ótimo entrosamento com eles, Rayford. E comigo.
Prefiro ter você como intermediário.
- Como você quiser. Só quero dizer, Tsion, que o que vamos
fazer, seja lá quando for, é pirataria. É ilegal.
- Você tem algum problema em fazer isso?
- Absolutamente nenhum. Nem preciso pensar duas vezes.
Estamos em guerra, e estou preparado para usar os meios que forem
necessários para conquistar alguma vantagem. Em minha opinião, isso
não precisará ser planejado. Chang montou um sistema tão aperfeiçoado
que basta apertar um botão para aquele pessoal sair do ar e nós
entrarmos. Você só terá de dizer quando e dar a ordem.
- Bem, penso que devemos fazer isso no momento oportuno,
quando a maioria do povo estiver assistindo. Talvez durante um
pronunciamento oficial de Carpathia ou durante um dos programas mais

populares.

- Você sabe quais são esses programas.
- Não precisa me lembrar. Imagino que possa ser a qualquer hora.
Que tal amanhã, ao meio-dia de nosso horário?
-Combinado.
-Vou reunir todo o pessoal, porque me sinto duplamente
fortalecido quando tenho uma platéia ao vivo.
- Uma platéia de um milhão de pessoas? Eu não posso sequer
imaginar. As câmeras serão instaladas e Chang estará no comando de
tudo.


No dia seguinte, Tsion se sentia estranhamente nervoso. Havia
muita gente recém-chegada a Petra, e ele nunca sabia o que esperar da
multidão. Os anciãos oraram por ele e o animaram.

Chaim fez a apresentação de Tsion. E, quando ele apareceu para
falar e o mestre Chang fez um sinal de que a transmissão estava sendo
feita ao vivo internacionalmente, Petra irrompeu em aplausos.

Era exatamente isso que Tsion temia. Embora ele tivesse pedido
silêncio e tentado transferir ao Senhor aquele extravasamento de
emoções, apontando para cima, o povo não se acalmava. Rayford devia
ter notado a situação desconfortável e embaraçosa em que Tsion se
encontrava, porque se aproximou do rabino e falou em seu ouvido:

- Eles estão apenas demonstrando gratidão e amor a você, Tsion!
Estão agradecidos demais pelo que você tem feito a eles. Aceite essa
demonstração de gratidão e amor e ela cessará.
- Mas capitão Steele! Em Isaías 42.8, Deus é claro! Ele diz: "Eu

sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a
outrem."

- E eu digo que estas pessoas não estão tentando glorificar você.
Estão simplesmente lhe agradecendo por você as ter levado até Ele.
Tsion queria acreditar que Rayford estava certo, mas não podia
aceitar aquela reação do povo. Preferia que a terra o engolisse naquele
momento. Ele abaixou a cabeça e olhou para o chão durante alguns
minutos até o povo se cansar de aplaudi-lo.

Chang voltou rapidamente ao centro de tecnologia assim que a
transferência foi feita e se deliciou ouvindo o caos em Bagdá.

- O que está havendo? - gritou alguém. - Como isto pôde
acontecer? É impossível!
Outra pessoa ordenou à equipe de controle que desligasse todas
as afiliadas.

- Não podemos - foi a resposta. - Todos os nossos sistemas
sofreram interferência.
E não foi apenas o milhão de pessoas em Petra que, naquele dia,
ouviu a mensagem de Deus por intermédio de Tsion. O número de
telespectadores no mundo inteiro chegou a bilhões.

- Deus incutiu em meu coração uma mensagem que, conforme
acredito, Ele gostaria que eu compartilhasse com vocês - Tsion começou
a dizer. - Não vou fazer uso de meias palavras nem dourar a pílula,

porque estamos atravessando o período mais perigoso da história da
humanidade. Conforme todos nós sabemos, estamos chegando aos
últimos seis meses de vida que nos restam. A batalha dos séculos, que
tem sido travada desde o início dos tempos, está prestes a alcançar seu
apogeu.

- O rei maligno deste mundo, o anticristo, está cuspindo sua raiva
e vingança principalmente sobre o povo escolhido de Deus. No mundo
inteiro, homens e mulheres inocentes estão sendo torturados o tempo
todo. Que crime que cometeram? Cometeram o crime de ser judeus.
Alguns acreditam que Jesus é o Messias; muitos não. Por um motivo ou
outro, eles recusaram a marca de lealdade a Nicolae Carpathia e estão
pagando por isso todos os dias.
-Vocês têm presenciado tudo, desde o início, e conhecem o
prazer com que o demônio vê seu plano sendo levado a efeito.
- Muitos anos atrás, eu comecei a provar a verdade da Palavra de
Deus quando lhes falei, antecipadamente, sobre os julgamentos e
flagelos que seriam lançados à Terra, fatos claramente profetizados há
centenas, talvez milhares, de anos. Vimos a concretização da profecia de
um cavaleiro sobre um cavalo branco, prometendo paz, mas trazendo
uma espada. A seguir, veio o cavalo vermelho, a Terceira Guerra Mundial
que, por sua vez, trouxe o cavalo preto da fome, e, depois, o cavalo
amarelo da morte. De maneira subseqüente, houve o martírio de muitos
santos antes do terremoto da Ira do Cordeiro.
- Aqueles seis julgamentos foram profetizados nas Escrituras
Sagradas, e o sétimo anunciou os sete julgamentos seguintes. Granizo e
fogo caíram sobre a Terra. A seguir, a montanha incandescente foi
atirada ao mar. O absinto envenenou as águas. Logo depois, o sol, a lua
e as estrelas perderam um terço de sua luminosidade. Gafanhotos

demoníacos atacaram aqueles que não foram selados por Deus, e, em
seguida, a humanidade foi atacada por um exército de cavaleiros
satânicos, em número de 200 milhões, que exterminaram grande parte da
população. O 14º julgamento anunciou os últimos sete, cinco dos quais já
foram enviados.

-Milhões de pessoas sofreram com as úlceras. O mar se
transformou em sangue, e o mesmo aconteceu com os rios. O sol
queimou o povo com seu calor e destruiu um terço da vegetação da
Terra. A escuridão que tomou conta de Nova Babilônia tem sido
justificada, analisada e recebido explicações sem fundamento. Mas
ninguém pode contestar o fato de que ela é tão abrangente e penetrante
a ponto de fazer as pessoas morderem a língua por causa da dor que
sentem.
- Muita gente tem especulado quanto tempo ela vai durar. Eu lhes
digo que não há nada na Bíblia que indique que ela se abrandará antes
do fim. Foi por causa dessa escuridão que o rei deste mundo mudou o
local de seu reinado, talvez pensando que chegará o dia em que ele e
seu povo poderão voltar para lá, mas eu afirmo que isso jamais
acontecerá. Haverá mais dois julgamentos antes do glorioso
aparecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus o Cristo.
- Ouçam o que eu digo! As águas do rio Eufrates secarão! Alguém
poderá zombar disso hoje, mas se surpreenderá quando acontecer e se
lembrará desta profecia. O último julgamento será um terremoto que
arrasará o mundo inteiro. Esse julgamento trará granizos tão grandes que
matarão milhões de pessoas.
- Todos os dias alguém me pergunta como o povo pode
presenciar todas essas coisas e, mesmo assim, escolher o anticristo em
vez de Cristo? Este é o enigma dos séculos. Para muitos de vocês, é

tarde demais para mudar de idéia. Talvez enxerguem, agora, que
escolheram o lado errado desta guerra. E se prometeram lealdade ao
inimigo de Deus aceitando sua marca, é tarde demais.

- Se ainda não receberam a marca, talvez também seja tarde
demais, porque demoraram muito tempo. Vocês exorbitaram e fizeram
Deus chegar ao limite de sua paciência.
- Mas pode ser que ainda há uma chance para vocês. Para saber
se ela existe, orem para aceitar a Cristo, digam a Deus que reconhecem
que são pecadores e que estão separados dele, e que admitem que sua
única esperança está no sangue de Cristo, derramado na cruz por vocês.
- Lembrem-se disto: se não aceitarem a Cristo e não forem
poupados do próximo julgamento, este sofrimento pelo qual estão
passando neste momento será eterno. Se aceitarem a Cristo e se seus
corações não estiverem endurecidos, não mais sofrerão pelo restante da
eternidade.
- Para aquelas pessoas do mundo inteiro que já são meus irmãos
e irmãs em Cristo, exorto que sejam fiéis até a morte, porque Jesus disse:
"Não temas as cousas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para
lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova [...] Sê fiel
até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.10).
- Que promessa maravilhosa! Cristo lhes dará a coroa da vida.
Será uma emoção indescritível ver Jesus voltar novamente, mas oh!, que
privilégio morrer por amor a Ele.
- A boa nova é que eu creio que o inimigo, quer ele admita ou não,
sabe que seu tempo é limitado. Isto também faz parte das profecias.
Apocalipse 12.12 diz: "Por isso, festejai, ó céus, e vós os que neles
habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de
grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta." Para que vocês não

duvidem de minhas palavras, lembrem-se de que tudo o que esse homem
tem feito foi predito. Apocalipse 13.5-8 diz: "Foi-lhe dada uma boca que
proferia arrogâncias e blasfêmias e autoridade para agir quarenta e dois
meses; e abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o
nome e difamar o tabernáculo, a saber, os que habitam no céu. Foi-lhe
dado, também, que pelejasse contra os santos e os vencesse. Deu-se-lhe
ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação; e adorá-la-ão
todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram
escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do
mundo."

- Vocês podem ter o seu nome escrito no Livro da Vida! Esta é a
boa nova.
- Agora, preciso dizer-lhes que também existem más notícias. A
ira do demônio se intensificará, em ritmo frenético, de agora até o fim.
Haverá cada vez mais exigências para que todos o adorem e recebam
sua marca. Para vocês que compartilham minha fé e estão dispostos a
ser fiéis até a morte, lembrem-se da promessa de Tiago 5.8 que diz que
"...a vinda do Senhor está próxima".
- Oh!, você que é crente, compartilhe sua fé e viva intrepidamente,
para que outros possam receber a Cristo pela fé e serem salvos. Pense
nisto, meu amigo. Você pode orar para conduzir outras pessoas que
ainda não conhecem a verdade. Você pode ser aquele que vai levar a
última alma a Cristo.
- Em 2 Pedro 3.10-14, lemos: "Virá, entretanto, como ladrão, o Dia
do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os
elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas. Visto que todas essas cousas hão de ser assim
desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e

piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do
qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os elementos abrasados se
derreterão. Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus
e nova terra, nos quais habita justiça. Por essa razão, pois, amados,
esperando estas cousas, empenhai-vos por serdes achados por ele em
paz, sem mácula e irrepreensíveis."

- Eu os exorto a imitarem nosso Senhor e Salvador e a dizerem
com Ele: "Devo cuidar das coisas de meu Pai."
- Alguns têm questionado, legitimamente, como um Deus amoroso
e misericordioso pôde ser capaz de lançar essas pragas e julgamentos
horríveis à Terra. E eu lhes pergunto: o que mais Ele poderia ter feito
depois de tantos milênios procurando livrar homens e mulheres de uma
falsa sensação de segurança e levá-los a buscar sua misericórdia e
perdão?
- Pensem no quanto Deus tem sido misericordioso. Ele arrebatou
sua Igreja antes do início da Tribulação. Enviou duas testemunhas
sobrenaturais para pregarem em Jerusalém e comunicarem seu amor.
Derramou seu Santo Espírito em poder, conforme prometeu por
intermédio do profeta Joel, para convencer a humanidade da necessidade
de aceitar a Cristo em vez de servir a Satanás e a seus demônios.
- Selou 144 mil evangelistas judeus para irem por todo o mundo e
alcançarem o que a Bíblia chama de "grande multidão que ninguém podia
enumerar" com o poder redentor do Filho de Deus. Enviou três anjos de
misericórdia para ajudarem o povo a decidir-se por Cristo. E prometeu
advertir a humanidade, de maneira sobrenatural, antes de destruir a
Babilônia.
- E o mais importante de tudo é que, em sua misericórdia, Deus
ainda permite que o povo escolha seu destino eterno: aceitando Jesus

Cristo como Senhor e Salvador ou acreditando em Satanás.

- A notícia mais espetacular que posso lhes transmitir hoje é que
Deus nos capacitou a usar as mentes brilhantes e a tecnologia com as
quais fomos abençoados aqui. Qualquer pessoa que se comunicar
conosco, via internet, receberá uma resposta pessoal inclusive tudo o que
é necessário para saber como aceitar a Cristo.
- Sim, eu sei que o rei deste mundo proibiu que o povo visite
nosso site, mas podemos assegurar a todos que esse site é seguro e que
sua visita não será rastreada. Temos milhares de conselheiros na internet
com capacidade para responder a qualquer pergunta e conduzir vocês a
Cristo.
- Temos também equipes de resgate que poderão transportar para
cá as pessoas que estão sendo perseguidas por amor a Cristo. Este é um
tempo perigoso, e muitos serão mortos. Muitas pessoas que amávamos
perderam a vida porque estavam em busca da justiça. Faremos o que for
possível, até o fim, para continuarmos a lutar pelo que é certo. Porque, no
final, venceremos e estaremos com Jesus.


Perto do final da mensagem de Tsion, Rayford atravessou a
multidão e dirigiu-se ao centro de tecnologia. Postou-se atrás de Chang,
enquanto o jovem ria, assistindo à frustração em Bagdá e nas emissoras
afiliadas do mundo inteiro.

Quando notou a presença de Rayford, Chang disse:

-Ouça isto.
Ele clicou uma gravação feita na sala de reuniões quando Nicolae
estava exigindo saber quem deveria ser despedido ou morto por causa do


vexame ocorrido com a TV.

-Onde está Figueroa?
- Ele não foi visto desde que partimos de Nova Babilônia,
Excelência.
- Onde estão os funcionários dele? Aquele garoto asiático. O
jovem escandinavo.
- O asiático desapareceu. O escandinavo morreu por causa do
calor, lembra-se?
- Não tenho condições de saber quem morreu por causa dessas
pragas. Quem é o responsável pela TV agora?
- A responsabilidade foi transferida para as afiliadas. Não se pode
fazer nada em Nova Babilônia.
-Eu sei, Leon! Quero que alguém se encarregue de pôr um fim
nisto. O que o povo vai pensar?
Fortunato pigarreou.

- Com todo o respeito, Alteza, o povo deve estar fazendo a mesma
pergunta que o pessoal de seu gabinete. Eles estão perguntando: "Todas
essas coisas que estamos sofrendo não foram preditas? Será que existe
alguma verdade em tudo isto? Quem é Carpathia?"
- Eles querem saber quem é Carpathia? - perguntou Nicolae, com
um tom mais alto na voz. - O meu gabinete está querendo saber?
-Sim, senhor.
- E quanto a você, Leon? Quem você diz que eu sou?
- Eu sei quem o senhor é, e eu o adoro.
- Você está insinuando que existem pessoas de minha confiança
que não sabem?
- Só estou repetindo o que ouvi, majestade.
- Talvez seja tempo de contar a eles, Leon. Talvez seja tempo de

saberem quem eu sou, se é que ainda não sabem.

Chang imaginou que não conseguiria dormir. Ele e Naomi
caminharam juntos até a casa dela, com passos cada vez mais lentos à
medida que se aproximavam.

-Que época maravilhosa estamos vivendo! - ele exclamou.
- Você está falando sério? - ela perguntou. - Se eu pudesse
escolher, teria conhecido Jesus antes, para ser levada com Ele no
Arrebatamento.
- É claro, se tivéssemos tido escolha.
- Nós tivemos.
-Ah!, sim.
- A bem da verdade, Chang, penso que o melhor tempo para viver
será após o Glorioso Aparecimento. Além de estar com Jesus em uma
época de paz na Terra, vou viver com você durante mil anos.
Chang ficou confuso diante daquele pensamento. Parou e segurou
as mãos dela nas suas.
- Eu gostaria de saber como vou estar quanto tiver 1.020 anos -
ele disse. - Um velhinho chinês todo enrugado, eu acho.

- Para mim, você será sempre bonito. Eu vou ser uma velhinha
judia com muitos filhos com idades desde 500 anos até 900 e alguma
coisa.
Sob a luz do luar, Chang segurou o rosto dela com as duas mãos.

- Estou muito agradecido por ter conhecido você.

Buck estava deitado em sua cama de lona, de frente para o quarto
de Kenny, com os braços doloridos por estar segurando a Bíblia no alto
para poder lê-la. Ele queria estudar tudo o que encontrasse sobre a
batalha que se aproximava.

Rayford prometera que o encarregaria de ir a Jerusalém. A
princípio, Buck ficou desapontado, imaginando que toda a ação ocorreria
nos arredores de Petra ou no vale de Jezreel. Mas pelo que sabia,
aquelas áreas serviriam apenas de palco para os exércitos do mundo. A
maior parte do conflito se daria em Jerusalém.

E era lá que ele queria estar.

DEZESSEIS

Rayford surpreendeu-se ao notar que a situação estava piorando.
No momento em que ele imaginava que Carpathia não poderia fazer mais
nada para intensificar seus atos maldosos, o centro de informática
começou a receber uma enxurrada de relatórios deixando claro que
Nicolae aumentara a pressão no mundo inteiro. Mais perseguições, mais
torturas, mais decapitações.

O apelo de Tsion ao povo para entrar em contato com os
conselheiros em Petra, via internet, havia produzido um número
incalculável de pedidos, tornando-se necessário que os anciãos
preparassem mais conselheiros. Naomi e Chang treinaram mais
professores, que arregimentaram um número maior de pessoas para dar
mais velocidade aos computadores.

Fazia um bom tempo que Tsion pregava que o mundo estava


caminhando a passos largos rumo ao Armagedom, mas Rayford nunca
havia sentido isso. Agora, ele realmente aguardava com ansiedade o dia
em que veria seu Salvador face a face e voltaria a reunir-se com sua
querida família e amigos. Porém, ainda havia muita coisa a ser feita. Mac,
Abdullah e Ree recrutaram pilotos e aeronaves do mundo inteiro para
transportar o povo para Petra.

Houve dias em que Rayford teve dúvidas se eles seriam capazes
de atender à demanda. O único pré-requisito para uma viagem grátis ao
porto seguro era o selo dos crentes. A opinião geral era de que as
pessoas sem a marca de Carpathia seriam perseguidas ou executadas.

O que mais impressionava Rayford, enquanto ele estudava a
Bíblia diariamente, era que o fim da estranha profecia de Apocalipse
16.10,11 - aquela que mencionava a praga em Nova Babilônia - provara
ser verdadeira aos seguidores de Carpathia do mundo inteiro: "Derramou

o quinto [anjo] a sua taça sobre o trono da besta, cujo reino se tornou em
trevas, e os homens remordiam a língua por causa da dor que sentiam e
blasfemaram o Deus do céu por causa das angústias e das úlceras que
sofriam; e não se arrependeram de suas obras."
Como era possível, Rayford se perguntava, que depois de todas
aquelas pragas e julgamentos a grande maioria do povo ainda não
tivesse mudado de idéia?

Chang havia devolvido o controle da televisão internacional à
Comunidade Global. E, pelos pronunciamentos de Carpathia, ficou claro
que ele estava se vangloriando de "finalmente ter a TV sob seu controle".

- A próxima vez que ele disser isso - Chang contou a Rayford -,

vou mudar imediatamente a transmissão para este comercial que criamos
na semana passada.

A gravação mostrava um clip do último discurso de Tsion que foi
levado ao ar e encerrava com uma voz que dizia: "Os pronunciamentos
do potentado só serão permitidos com a benevolência de Tsion Ben-Judá
e de seus amigos em Petra."

Chang testou, durante vários dias, a "escuta" instalada por Buck e
George na sala de reuniões particular de Bagdá. O trabalho foi tão bem
feito que ele conseguiu a proeza de coordenar o vídeo com o áudio, ouvir
as falas e até mesmo acompanhar os passos de Carpathia até a
cabeceira da mesa. Dois vídeos instalados em local oculto possibilitavam
acompanhar qualquer pessoa que estivesse na sala.

A chegada dos dez potentados regionais do mundo inteiro foi
levada ao ar pela CNNCG. Buck não se lembrava de tanta pompa e
circunstância desde o dia em que Carpathia ridicularizara as Estações da
Cruz em Jerusalém.

Desfiles, bandas marchando pelas ruas, show de luzes, bailarinas,
avisos e pronunciamentos. As arquibancadas construídas ao longo das
ruas estavam lotadas de pessoas humildes saudando o cortejo dos
representantes de cada região antes da chegada do potentado.

Finalmente, os dignitários e alguns milhares de bajuladores,
aquinhoados com ingressos para adentrar o recinto, foram conduzidos à
sala principal do novo salão de conferências, onde Carpathia anunciaria,
em grande estilo, um novo e empolgante capítulo da História mundial.

O reverendíssimo pai do Carpathianismo, Leon Fortunato, foi


incumbido de fazer a nobre apresentação, é claro. Vestido com trajes de
gala, ele usava na cabeça um barrete turco de feltro vermelho, cujo topo
era enfeitado com uma borla de fios alternando tons dourados e
prateados, que brilhavam ao refletir as luzes do auditório inteiro. O novo
manto roxo e amarelo cintilante tinha seis listras de brocado em cada
manga.

Fortunato foi tão subserviente e bajulador em sua apresentação
que qualquer outra pessoa teria se sentido terrivelmente constrangida,
menos Carpathia. Enlevado diante da adoração de seus súditos, o
anticristo fingia humildade, lutando para conter o riso.

-Obrigado, obrigado, obrigado a todos vocês - disse Carpathia,
com os braços estendidos para a frente. - Vocês estão sendo generosos
demais com este humilde servo de origem modesta, ao qual foi imposta
uma responsabilidade que ele jamais imaginou. Porém, por meio de um
lampejo do divino, ele descobriu que era o verdadeiro deus, chegando a
ponto de ser capaz de ressuscitar a si mesmo.
- E vocês... sim, cada um de vocês... têm facilitado minha tarefa,
apesar da esmagadora oposição e obstáculos que encontro de todos os
lados. Cada região tem sido bem servida por subpotentados dinâmicos
que se uniram em tempos de crise e ajudaram a transformar este mundo
fracionado em uma verdadeira comunidade global.
Carpathia foi interrompido um sem-número de vezes por aplausos
frenéticos. Nesses momentos, ele parecia mergulhar no brilho de sua
glória.

- Esta talvez seja a ocasião mais significativa e esclarecedora da
História de nosso mundo. Apesar da perda de grande parte de nossos
cidadãos e funcionários do governo em razão das pragas implacáveis às
quais nossos inimigos insistem em dar o nome de "julgamentos do céu",

eu convoquei uma reunião com os principais líderes do mundo inteiro.
Amanhã, em uma reunião altamente confidencial e particular, detalharei
meu plano maravilhoso e legitimamente inspirado, que nos levará, de
uma vez por todas, a alcançar nosso objetivo de uma verdadeira
harmonia global.

- Nossos inimigos caluniadores tiveram muitas oportunidades de
enxergar o caminho errado que seguiram e juntar-se à nossa família
internacional. Acreditei durante muito tempo que eles simplesmente
compreenderam mal o nosso objetivo e não se deram conta dos
benefícios que teriam se permanecessem ombro a ombro conosco.
Imaginem só o que poderíamos ter alcançado se tivéssemos todos ao
nosso lado!
- Bem, esse dia em breve chegará, meus amigos. Faremos um
esforço conjunto para recrutar os inimigos e torná-los nossos
trabalhadores braçais ou os erradicaremos de nosso meio e ficaremos
apenas com os cidadãos leais... cidadãos leais que compartilham um
objetivo e propósito em comum: a verdadeira utopia, o paraíso na Terra.
- Não tenho dúvida de que todos, até mesmo nossos opositores,
concordam que temos agido de maneira justa. Temos sido pacientes.
Temos tentado. Mas o tempo de tolerância se esgotou. Vocês notaram
que a paciência terminou? Eu admito isso espontaneamente. Chegou a
hora da decisão: ou passar para o nosso lado ou ser eliminado. Prometo
a todos os cidadãos leais de nossa Comunidade Global que, daqui a seis
meses, todos os que se opõem à paz serão destruídos. Vocês viverão na
mais completa paz no mundo maravilhoso com o qual sempre sonharam.
Todos os representantes dos subpotentados das dez regiões,
quando entrevistados pelos repórteres da TV, responderam mais ou
menos da mesma maneira:


- Trata-se de um privilégio sem precedentes. Eu daria tudo para
poder participar da reunião particular que se seguirá a esta.
Quando as cerimônias terminaram, a transmissão também
cessou. Porém, a melhor parte viria no início da manhã seguinte, por
ocasião da reunião dos potentados. Conforme todos da Comunidade
Global supunham, essa reunião também seria particular por ser realizada
a portas fechadas.

Porém, um seleto número de pessoas do Comando Tribulação
assistia a tudo, como se estivesse presente na sala. Reunido ao redor de
um telão de TV, nas profundezas das cavernas de Petra, um grupo
escolhido a dedo por Rayford observava cada momento, graças ao
milagre da tecnologia e às manobras do perito Chang.

Sentado atrás do grupo, Chang manipulava os controles. Rayford
estava entre Buck e George, tendo por companhia Tsion e Chaim. Todos
informariam o acontecido aos outros membros do Comando Tribulação
que trabalhavam na cooperativa e no transporte aéreo do pessoal.

Enquanto a sala em Bagdá estava sendo ocupada pelos
convidados, Rayford pediu a Chang que mostrasse uma imagem
panorâmica do local.

- Queremos ver quem está lá - ele disse. A grande mesa de
reuniões tinha espaço para três pessoas nas extremidades e seis de cada
lado. Diante de cada lugar havia um microfone e o nome do ocupante,
menos os nomes dos três na extremidade mais distante. Apenas dois
lugares foram reservados na cabeceira da mesa: um à esquerda para
Carpathia, que ainda não havia chegado e outro para Leon Fortunato, que
batia nervosamente seu enorme anel de rubi no primeiro dos dois
luxuosos notebooks de couro à sua direita.
À esquerda do lugar de Carpathia estavam sentados, na


seqüência, os potentados dos Estados Unidos Africanos, Estados Unidos
Europeus, Estados Unidos da Grã-Bretanha, Estados Unidos Sul-
americanos, Estados Unidos Norte-americanos e Viv Ivins.

Cada um usava um traje ou acessório característico de sua
respectiva região, que iam desde o dashiki colorido do potentado africano,
passando pelo sombrero e bombacha dos sul-americanos até o chapéu e
as roupas bordadas dos cowboys norte-americanos.

Viv Ivins trajava seu tradicional conjunto azul-claro, que quase se
confundia com a cor de seu cabelo. Usava um enorme broche de
diamante pela primeira vez, e sua blusa era tão branca que chegava a
prejudicar a imagem no vídeo.

A direita de Fortunato, acompanhando o outro lado da mesa,
estavam os potentados dos Estados Unidos Carpathianos, Estados
Unidos Russos, Estados Unidos Indianos, Estados Unidos Asiáticos,
Estados Unidos do Pacífico e Suhail Akbar.

Estes potentados também estavam vestidos com trajes regionais.
O mais chamativo de todos era um quimono preto e prateado usado pelo
líder asiático. Suhail trajava o uniforme formal das Forças Pacificadoras
da Comunidade Global, complementado por um quepe da marinha com
uma reluzente trança dourada.

As três cadeiras na extremidade da mesa oposta a Carpathia e
Fortunato estavam ocupadas por três homens que, para Rayford,
pareciam três manequins. Todos usavam ternos pretos abotoados e
gravatas pretas. Nenhuma jóia, nenhum adereço na cabeça, nada mais.
Sentados com as mãos cruzadas sobre a mesa, eles não se
movimentavam e não olhavam nem para a direita nem para a esquerda.

- Eu não reconheço aqueles três, Tsion - disse Rayford. - E você?
O rabino fez um movimento negativo com a cabeça.

- É muito estranho, mas eles nem sequer piscam. Os demais
estão lançando olhares furtivos para eles. Você acha que são pessoas de
verdade? Não seriam figuras recortadas de cartolina?
- Chang - disse Rayford -, você é capaz de focalizar os três?
Chang os focalizou e disse:
- São pessoas de verdade. Tenho uma gravação do momento em
que eles se sentaram. Querem ver?
- Desde que a gente não perca a entrada de Carpathia.
- Isso não vai acontecer.
Chang voltou a fita, mostrando os três tomando assento. Eles
pareciam ser um só; os gestos e movimentos eram idênticos.

- Por qual porta eles entraram? - perguntou Rayford.
- Eu perdi essa parte. Aparentemente, eles surgiram do nada.
- Está bem, vamos voltar às imagens ao vivo.
Um rápido toque de campainha fez Fortunato dar um salto e enfiar
a mão no manto, como se estivesse desligando um pager. Ele se
levantou rapidamente, endireitou o manto e retirou o barrete.

- Senhoras e senhores - ele disse -, por favor levantem-se para
receber seu supremo potentado, Sua Alteza, Sua Majestade, Sua
Excelência, nosso senhor e rei ressurrecto, Nicolae Carpathia, o primeiro
e o último, mundo sem fim, amém.
Com exceção dos três homens misteriosos, que continuaram
imóveis, todos se levantaram e descobriram a cabeça. Um militar de farda
azul abriu a porta e Carpathia entrou. Nesse exato momento, Fortunato
ajoelhou-se espalhafatosamente. Nicolae trajava um terno preto com finas
listras brancas, camisa branca e gravata azul-turquesa.

Enquanto Leon permanecia ajoelhado, com o rosto no chão
protegido pelas duas mãos e o traseiro levantado, deixando à mostra uma


ampla parte de seu corpo coberta pelo manto, Nicolae parou um pouco
atrás de sua cadeira e permitiu que o grupo se aproximasse dele, um por
vez.

Eles se curvaram e apertaram a mão do potentado entre as suas.
Muitos beijaram-lhe a mão ou o anel; outros ajoelharam-se rapidamente à
semelhança de Leon, murmurando palavras de devoção e deferência. Em
seguida, retornaram e ficaram em pé atrás de suas cadeiras.

Quando a bajulação terminou, houve um silêncio constrangedor.
Aparentemente, Leon seria o próximo a falar, mas ele não se deu conta
disso. Carpathia pigarreou.

Leon ergueu a cabeça e levantou-se repentinamente, prendendo a
barra do manto na ponta do sapato. No momento em que ele endireitou o
corpo, todos ouviram claramente o tecido sendo rasgado. Leon tropeçou,
caiu por cima da cadeira de rodinhas de Carpathia e quase derrubou o
seu senhor e rei ressurrecto, o primeiro e o último, mundo sem fim,
amém.

Fortunato agarrou a mão de Nicolae e levou-a aos lábios,
chegando quase a desequilibrar Carpathia. No último instante, ao
perceber que agarrara a mão errada, Leon segurou a outra mão e beijou
ruidosamente o anel do potentado.

-Sua Excelência, senhor - ele disse puxando a cadeira de
Carpathia com uma das mãos e fazendo um gesto amplo com a outra,
para que o potentado se sentasse.
- Obrigado por tão grande gentileza, reverendo - disse Carpathia,
sentando-se. - Senhoras e senhores, podem sentar-se.
Leon havia deixado a cadeira do potentado um pouco distante da
mesa, e Carpathia teve de apoiar-se na beirada e inclinar o corpo para a
frente. Percebendo a gafe, Fortunato empurrou rapidamente a cadeira,


forçando Carpathia a encostar o peito na mesa.

Enquanto Leon abria atabalhoadamente um dos notebooks de
couro e o colocava diante de Sua Majestade, Carpathia afastou-se para
ficar a uma distância mais confortável da mesa.

Nicolae agradeceu a presença de todos, como se eles estivessem
ali de livre e espontânea vontade, e disse:

- Vamos ao trabalho. Vou iniciar lembrando a todos vocês que
esta reunião não é democrática. Não viemos aqui para votar, nem vocês
estão aqui para fornecer-me subsídios. Se houver alguma coisa que
vocês acreditem que eu necessite saber, podem dizer. Se tiverem algum
problema com minha liderança ou alguma pergunta sobre o que tenho
feito ou sobre os planos que revelarei hoje, lembrem-se do que aconteceu
com os três ex-potentados do sul que foram substituídos por terem
morrido antes do tempo.
- Alguma pergunta? Penso que não. Vamos prosseguir.
- Senhoras e senhores, chegou o momento em que necessito
contar com a confiança de vocês. Devemos estar todos unidos a fim de
vencermos a batalha final. Olhem nos meus olhos e prestem atenção,
porque o que vocês ouvirem hoje é verdade e ninguém daqui terá
problemas por acreditar em cada palavra minha. Eu sou eterno. Eu sou
de eternidade a eternidade. Eu estava presente no início e permanecerei
eternamente.
Nicolae se levantou e começou a caminhar lentamente ao redor
da mesa enquanto falava. Nenhum dos presentes o acompanhou com o
olhar. Todos pareciam catatônicos.

- Eis o problema - ele disse. - Aquele que diz ser Deus não é
Deus. Reconheço que ele me precedeu. Quando fui formado do limo e da
água, ele já existia. Mas, sinceramente, ele surgiu da mesma maneira que

eu. Só por ter me precedido, ele quis que eu pensasse que ele criou a
mim e a todos os outros seres semelhantes a ele nos vastos céus. Eu
sabia muito mais coisas. Quase todos nós sabíamos.

- Ele quis nos dizer que fomos criados para ser servos dedicados.
Nós tínhamos um trabalho a fazer. Ele disse que havia criado os
humanos à sua imagem e que nós deveríamos servi-los. Se eu tivesse
chegado em primeiro lugar, teria dito a ele que eu o criei e que ele seria
meu colaborador nas demais criações.
- Mas ele não criou nada! Nós, todos nós... vocês, eu, os outros
exércitos celestiais, homens e mulheres... todos nós viemos do mesmo
lugar. Mas não! De acordo com ele, não foi assim! Ele estava em
companhia de outro ser evoluído como eu e disse que aquele era seu
filho predileto. Esse filho era o especial, o escolhido, o unigênito.
- Eu sabia desde o início que se tratava de uma mentira e que eu,
ou melhor, todos nós estávamos sendo usados. Eu era um anjo
inteligente e cintilante. Tinha ambição. Tinha idéias. Mas tudo aquilo
representava uma ameaça ao mais velho. Ele dizia ser o Deus criador,
sim, o criador da vida. Assumiu a posição de favorecido. Exigiu que a
Terra inteira o adorasse e lhe obedecesse. Eu tive a audácia de perguntar
por quê. Por que não eu?
- Se eu provoquei uma insurreição? Claro que sim. E por que não?
Por que dar preferência ao mais velho, se todos nós tivemos a mesma
origem? Existe espaço para todos, mas se alguém deveria ter primazia,
esse alguém seria eu! Cerca de um terço dos outros seres evoluídos
concordaram comigo e ficaram do meu lado, me prometeram lealdade.
Os outros dois terços eram fracos, fáceis de serem dominados. Eles
ficaram do lado do tal pai e do tal filho.
- Se eu sou o anticristo? Bem, se ele é o Cristo, eu sou o

anticristo! Sim! Sou contra o Cristo que foi falsamente coroado pelo
pretenso criador. Eu subirei ao céu; eu exaltarei meu trono acima das
estrelas de Deus. Eu subirei acima das alturas das nuvens; eu serei
semelhante ao Altíssimo.

- Só porque ele chegou primeiro e eu tive a audácia de desafiá-lo,
fui expulso de lá! Onde está a justiça nisso? Somos inimigos mortais
desde então. Nós três: o pai, o filho e eu. Ele chegou a convencer os
seres humanos que ele os criou! Mas isso não pode ser verdade, porque
se ele os tivesse criado, os seres humanos não teriam livre-arbítrio. E se
ele me criou, eu não teria sido capaz de rebelar-me. Tudo isso não faz
sentido.
-Assim que passei a compreender melhor, comecei a gostar de
minha condição de proscrito. Fui atrás dos seres humanos, daqueles que
ele gostava de dizer que lhe pertenciam, os mais fáceis de mudarem de
opinião. A mulher com o fruto! Ela não queria obedecer. Foi simples.
Bastou uma sugestão para levá-la a fazer o que ela realmente queria. A
propósito, aquilo aconteceu perto daqui.
- E os dois primeiros irmãos... que facilidade! O mais novo era fiel
àquele que dizia ser o único e verdadeiro Deus, mas o outro... ah!, o outro
queria o mesmo que eu. Um pouco de alguma coisa para si mesmo.
Antes que vocês me perguntem, estou provando categoricamente que
essas criaturas não são produtos da criatividade do anjo mais velho. Após
algumas gerações, eu faço com que os seres humanos fiquem tão
confusos, tão egoístas, tão cheios de si que o velho deixa de afirmar que
eles foram feitos à sua imagem.
- Eles se embriagam, brigam, blasfemam. São teimosos, são
infiéis. Matam uns aos outros. Os únicos que não consegui atingir são
Noé e sua família. Claro, o grande criador decide que o restante da

História depende deles e extermina os demais com um dilúvio. Com o
passar do tempo, aproximei-me de Noé, mas ele já havia recomeçado a
povoar a Terra.

- Sim, eu vou admitir. O pai e o filho têm sido meus inimigos
ferrenhos ao longo das gerações. Eles têm seus favoritos: os judeus. Os
judeus são a menina dos olhos do velho, mas este é o seu ponto fraco.
Ele tem um apreço muito grande por esse povo, e é exatamente esse
povo que causará a destruição dele.
- Meus exércitos e eu quase conseguimos erradicá-los algumas
gerações atrás, mas o pai e o filho intervieram, devolveram a terra que
lhes pertencia e nos frustraram mais uma vez. O destino tem insistido em
brincar conosco, meus amigos, mas, no final, nós prevaleceremos.
- O pai e o filho documentaram suas intenções em um livro,
achando que estavam fazendo um favor ao mundo. O plano completo
está escrito lá, desde enviar o filho para morrer e ressuscitar... e eu
também provei ser capaz disto... até profetizar este período inteiro. Sim,
milhões de pessoas acreditaram nessa grande mentira. Até agora, tive de
reconhecer que o outro lado levou vantagem.
- Porém, duas grandes verdades causarão a ruína deles. Primeira,
eu conheço a verdade. Eles não são maiores nem melhores do que eu ou
do que qualquer outra pessoa. A origem deles é a mesma que a de todos
nós. Segunda, eles não devem ter percebido que eu leio. Eu li o livro
deles! Sei o que estão tramando! Sei o que vai acontecer em seguida, e
sei até o lugar!
- Deixem que eles apaguem as luzes da grande cidade que eu
tanto amava! Ah!, como ela era linda quando abrigava o centro do
comércio e a sede do governo, quando navios e aeronaves enormes
levavam mercadorias do mundo inteiro para lá. Agora, ela está às

escuras. E o que vai acontecer se ela for destruída? Eu a reconstruirei,
porque sou mais poderoso do que o pai e o filho juntos.

- Deixem que eles façam a terra tremer até ser completamente
arrasada. Deixem que eles atirem pedras de gelo gigantescas dos céus.
Eu serei o vencedor final, porque li o plano da batalha que eles
prepararam. O velho planeja enviar o filho para estabelecer, aqui na
Terra, o reino que ele profetizou mais de 300 vezes naquele livro. E ele
até diz onde o filho chegará! Senhoras e senhores, teremos uma surpresa
aguardando por eles.
- O filho e eu temos lutado para conquistar as almas de homens e
mulheres desde o início. Se vocês e eu reunirmos os exércitos do mundo
inteiro e agirmos em conjunto na mesma área, poderemos nos livrar, de
uma vez por todas, daquelas forças que têm impedido nossa vitória até
agora.
- O tal Messias ama Jerusalém muito mais do que qualquer outra
cidade do mundo. Ele a chama de Cidade Eterna. Bem, vamos ver se ela
é eterna. Foi lá que ele supostamente morreu e voltou a viver.
- Essa estranha afeição pelos judeus resultou no que ele chama
de aliança perpétua de bênçãos. Se nós, os governadores da Terra,
reunirmos todos os nossos recursos e atacarmos os judeus, o filho terá
de vir para defendê-los. Será nesse momento que voltaremos nosso olhar
para ele e o eliminaremos. Com isso, teremos controle total da Terra, e
estaremos prontos para tirar do pai o domínio que ele tem do universo.
Depois de ter dado duas voltas ao redor da mesa, Nicolae sentou-
se em sua cadeira, parecendo exausto.

- Está escrito na Bíblia deles - Carpathia prosseguiu. - E eles
afirmam que nunca mentem. Sabemos exatamente o lugar onde ele
estará. Vocês estão do meu lado?

- Estamos, Excelência - disse o sul-americano -, mas onde é esse
tal lugar?
- Vamos reunir todo o nosso pessoal e nossos tanques, aviões,
armas e exércitos na planície do Megido. Essa área localizada no norte
de Israel, também conhecida como planície de Esdralom ou planície de
Jezreel, fica a cerca de 30 quilômetros a sudeste de Haifa e a cem
quilômetros ao norte de Jerusalém. No momento certo, despacharemos
um terço de nossos exércitos para destruir a fortaleza em Petra. Desta
vez, farei isso sem usar armamentos nucleares. Vamos derrotá-los
facilmente, talvez no lombo de um cavalo.
- O restante de nossos exércitos marchará rumo à tal Cidade
Eterna e derrubará aqueles muros infernais, destruindo todos os judeus.
E é lá que estaremos, reunidos com nossos exércitos vitoriosos vindos de
Petra, para surpreendermos o filho, com força total, quando ele chegar.
Fortunato movimentou a cabeça como se estivesse maravilhado
diante da brilhante estratégia.

- Perguntas para Sua Excelência? - ele disse. - Alguém tem
perguntas a fazer?
O potentado dos Estados Unidos Asiáticos levantou a mão
timidamente.

- Eu não sei qual é a opinião do restante do grupo - ele disse -,
mas nosso exército composto de centenas de milhões de militares é
conduzido por muitos generais independentes, e será difícil agrupá-los.
Seus contingentes e pelotões sofreram muitas baixas por causa das
pragas, das úlceras e de muitos outros sofrimentos inacreditáveis. Metade
da população sob meu comando está morta ou desaparecida. Como
vamos fazer para persuadir esses exércitos e seus líderes a nos
seguirem?

Vários movimentaram a cabeça, concordando com a pergunta.

- Eu não vou recuar diante desta pergunta, meus amigos - disse
Carpathia. - Antes, porém, de lhes dizer como realizaremos essa missão,
vou contar qual será a primeira ordem para seus líderes militares.
Conforme vocês se lembram, quando assumi o poder havia quase sete
anos, recolhi 90% do armamento de todos os governos do mundo. Esse
armamento está guardado em um local secreto que resolvi revelar neste
instante. Ao redor e dentro de Al Hillah, a menos de cem quilômetros
daqui, temos vários arsenais imensos onde estão armazenadas armas
com poder de fogo suficiente para destruir o planeta.
- É desnecessário dizer que não queremos nem precisamos
destruir o planeta. Simplesmente queremos que seus soldados tenham
armas em maior número do que necessitam para eliminar os judeus e
destruir o filho de quem sou adversário há tanto tempo. Portanto, assim
que eu lhes contar como vamos arregimentar seus líderes militares, a
próxima missão de vocês será levá-los a Al Hillah, onde o Sr. Suhail
Akbar, nosso diretor do Serviço de Segurança e Inteligência,
providenciará para que recebam todos os armamentos de que
necessitam.
- Daqui a quanto tempo? - perguntou o potentado indiano.
- O prazo é de menos de seis meses, senhoras e senhores,
portanto comecem hoje. Eu já enviei as tropas dos Estados Unidos
Carpathianos para Israel há meses. E quando nosso exército da
Comunidade Global estiver posicionado, quero ver todos os arsenais de
Al Hillah vazios. Entendido?
- Entendido - respondeu o potentado russo. - Mas, da mesma
forma que meus colegas, estou ansioso por saber como vamos
convencer as tropas e os líderes desanimados, enfermos e feridos.

- Reverendo Fortunato - disse Carpathia, levantando-se. Leon se
aprumou rapidamente, empurrando sua cadeira para trás. - Senhoras e
senhores, chegou a hora de apresentar-lhes meus três coadjuvantes de
maior confiança. Tenho certeza de que vocês gostariam de saber quem
são os três sentados na extremidade da mesa.
- Estamos querendo saber por que eles não piscaram desde que
nos sentamos - disse o potentado britânico.
Carpathia riu.

- Os três não pertencem a este mundo. Eles usam ternos somente
quando é necessário. Na verdade, são seres espirituais que estão comigo
desde o início. Faziam parte dos primeiros que acreditaram em mim e
viram a mentira que o pai e o filho estavam tentando perpetrar no céu e
na terra.
- Leon - disse Carpathia, e ambos se dirigiram à outra extremidade
da mesa, cada um por um lado. - Com licença, Sra. Ivins.
Ela se levantou e afastou sua cadeira do caminho.

- Com licença, diretor Akbar - disse Leon, e Suhail fez o mesmo.


Rayford deu um salto quando Tsion gritou, chamando a atenção
de todos.

- Chang, focalize esta imagem! Está escrito em Apocalipse 16.13
e 14!
O ângulo da câmera mudou, e o pessoal que estava assistindo em
Petra viu claramente, pelo novo ângulo, Nicolae e Leon atrás das três
criaturas aparentemente sem vida, na extremidade da mesa.

O anticristo e o falso profeta inclinaram o corpo, um do lado
esquerdo e outro do lado direito, apoiando os cotovelos na mesa e
olhando dentro dos olhos das criaturas robóticas. Da boca de Nicolae e
Leon foram expelidos três espíritos medonhos e asquerosos,
semelhantes a rãs - um da boca de Leon e dois da boca de Nicolae - que
saltaram dentro da boca dos três.

Os três pareceram adquirir vida.

Nicolae sorriu.

- Queremos vê-los de frente, Chang - gritou Buck, e Chang fez os
ajustes necessários.


Agora, os três tinham uma surpreendente semelhança com
Carpathia. Recostaram-se casualmente nas cadeiras, sorrindo,
cumprimentando todos os potentados com um movimento de cabeça. A
princípio, os líderes demonstraram um ar de espanto e susto, mas, logo a
seguir, olharam com simpatia para os estranhos bem-apessoados.

- Por favor, quero que conheçam Astarote, Baal e Locusta
[Gafanhoto Devorador]. Eles são os espíritos mais convincentes e
persuasivos que tive o prazer de conhecer. Agora, todos nós vamos nos
ajuntar e impor as mãos sobre eles, para encarregá-los desta tarefa de
tão grande significado.

Os três recuaram suas cadeiras para que os potentados, Viv,
Suhail, Leon e Nicolae fizessem um círculo ao redor deles e tocassem
suas cabeças com as mãos.

Nicolae disse:

- Agora, vocês três devem ir até os confins da terra e reunir o povo
para a batalha final em Jerusalém, onde destruiremos, de uma vez por
todas, o pai e esse tal Messias. Convençam cada pessoa, em todos os
lugares por onde andarem, de que a vitória é nossa, que estamos certos
e que, juntos, podemos destruir o filho antes que ele assuma o controle
deste mundo. Assim que ele se for, seremos os líderes incontestáveis do
mundo, sem sofrer oposição alguma.
- Outorgo-lhes o poder de operar sinais, curar enfermos, dar vida
aos mortos e, se necessário, convencer o mundo de que a vitória é
nossa. Agora vão em poder...
Astarote, Baal e Locusta desapareceram em meio a um violento
relâmpago que se abateu no centro da mesa de reuniões e escureceu,
temporariamente, o monitor de TV em Petra. Quando a imagem retornou,
um forte estrondo fez Chang arrancar os fones de ouvido.

Nicolae e Leon retornaram a seus lugares e ficaram em pé atrás
das respectivas cadeiras. Os potentados, Viv e Suhail fizeram o mesmo.
Enquanto eles aguardavam calmamente, Nicolae disse:

- Adeus a todos vocês. Eu os verei daqui a seis meses na planície
do Megido no grande dia, quando a vitória estiver a nosso alcance.


Buck ficou atordoado, mas voltou rapidamente a raciocinar com
clareza.


- Quero que alguém leia a passagem que Tsion mencionou! - ele
pediu.
- Está exatamente aqui - disse Chaim. - Vou ler Apocalipse 16.13
e 14: "Então, vi sair da boca do dragão, da boca da besta e da boca do
falso profeta três espíritos imundos semelhantes a rãs; porque eles são
espíritos de demônios, operadores de sinais, e se dirigem aos reis do
mundo inteiro com o fim de ajuntá-los para a peleja do grande Dia do
Deus Todo-poderoso."
- Leia também os dois versículos seguintes, Chaim - disse Tsion.
- O primeiro cita as palavras de Jesus: "Eis que venho como vem
o ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes, para
não andar nu, e não se veja a sua vergonha. Então, os ajuntaram no lugar
que em hebraico se chama Armagedom."
DEZESSETE

Rayford pediu a Buck e a George que encontrassem uma nova
sala de reuniões, em algum lugar de Petra que não atraísse a atenção de
curiosos.

- Ela precisa ter tamanho suficiente para acomodar umas 20
pessoas, no máximo - ele disse, embora soubesse que apenas metade
desse número compareceria.
Reunido com Tsion na pequenina sala de estar da casa do rabino,
ele disse:

- Quero que você transmita alguns ensinamentos a meu pessoal
de primeira linha. Todos eles já sabem o que se passou em Bagdá, e
todos têm perguntas para fazer sobre o que isso significa e qual será a

função de cada um. Ninguém deseja ficar protegido aqui enquanto o
restante do mundo vai para o inferno.

- Eu compreendo tudo isso, Rayford, e fico feliz por poder ajudá-lo.
Hoje de manhã, transferi a Chaim todas as responsabilidades
administrativas e doutrinárias sobre os remanescentes que estão aqui.
Rayford olhou para Tsion, sem acreditar no que ouvia.

-Você fez o quê?
- Eu também não quero ficar aqui.
- O que você está dizendo?
- Se eu posso transmitir ensinamentos a seu pequeno grupo de
militares de primeira linha, também quero fazer parte dele. Quero
aprender a lutar, usar armas, defender-me, manter vivos meus
companheiros e meus concidadãos judeus.
Rayford levantou-se, caminhou até a janela sem tela e olhou para
a imensidão do céu.

- Estou estarrecido - ele disse.
- Não pense que não consultei o Senhor sobre esta decisão.
- Não lhe basta ser rabino, professor, pregador? Agora quer
também ser soldado?
- Ouça, Rayford. Eu me identifico com o Senhor, meu Messias.
Não posso ficar sentado aqui enquanto o anticristo e seus exércitos do
mundo inteiro aquartelam-se ao redor de Jerusalém. Não vou ficar parado
vendo judeus inocentes serem mortos. A Bíblia diz que um terço dos
judeus remanescentes aceitarão o Messias antes do fim. Isso significa
que muitos, muitos mais do que já o aceitaram, necessitam ser
alcançados. Quero pregar em Jerusalém, Rayford. É o que estou
tentando lhe dizer.
- Você será morto.

- Prefiro acordar no céu uns dias antes e juntar-me ao exército que
virá com o Messias, sabendo que morri lutando, a ficar sentado aqui em
Petra assistindo tudo pela TV.
- Não sei se posso permitir isso.
- Se o Senhor permitiu, acho que você não tem escolha. Ora,
Rayford, sente-se. Não quero seguir para lá ingenuamente, seguir para lá
despreparado. Já cheguei à casa dos 50, mas não sou velho. Sei que não
sou jovem, mas estou em forma. Se Mac McCullum pode fazer tantas
coisas na idade que tem, é claro que eu também posso. Sei que minhas
mãos são macias como as de um intelectual, mas quanto tempo vai
demorar para que elas fiquem calejadas e eu aprenda a lidar com uma
arma?
-Vejo que você está falando sério.
- Ninguém vai me dissuadir. Estou mais que disposto a transmitir
ensinamentos a seu grupo sobre tudo o que sei que vai acontecer. Mas
meu preço é ser aluno do Sr. Sebastian.
Rayford sentou-se e balançou a cabeça de um lado para o outro.

- Talvez você não seja um velho caduco, mas é muito teimoso.
- Teimosia também não faz parte dos atributos de um guerreiro?
- Ah! Agora você é um guerreiro.
- Espero ser.
-Você consultou os anciãos?
-Se eu os informei? Sim. Se eles ficaram felizes? Não. Se eles
orarão por mim? Sim. Se eu me importo com a opinião deles? Só se a
resposta deles for sim.

Buck não podia acreditar.

- Sou forçado a admirar a coragem dele. Nunca vou me esquecer
da noite em que ele e eu conversamos pela primeira vez com as duas
testemunhas no Muro das Lamentações. Foi antes de eu saber que o Dr.
Ben-Judá era crente. Eu também era novato no assunto, mas reconheci a
passagem registrada em João 3 e a conversa que Jesus teve à noite com
Nicodemos. Foi comovente.
- E eu nunca vou me perdoar se permitir que Tsion saia daqui e
acontecer alguma coisa com ele - disse Rayford.
- Ele é um homem durão. Afrontou Carpathia em um programa de
TV internacional, dizendo que Jesus era o Messias. E, depois que sua
família foi trucidada, sei que ele gostaria mais de carregar uma Uzi do que
uma Bíblia. Ele poderia ser muito valioso ao grupo de militares. É o único
que sabe pregar e ensinar. Dou meu voto a ele.
- Não estou pondo o assunto em votação.
- Você já conseguiu um voto. Alguém votaria contra?
-Talvez eu - disse Rayford.
- Você é mais covarde que ele.


Mac achou graça quando soube da história. Foi totalmente
favorável a que Tsion aprendesse a ser um soldado e fosse com eles
para Jerusalém. Ele freqüentou as aulas de Tsion na sala de reuniões
particular todas as semanas dos meses seguintes e aprendeu muito
sobre a batalha final, muito mais do que podia imaginar. Ele via um brilho
nos olhos do rabino e sabia, apesar das apreensões de Rayford, que
Tsion estava decidido a ir.


Uma noite, Tsion começou a aula lendo Judas 14,15:

- "Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo
depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas
miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os
ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e
acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram
contra ele."
- Vocês entenderam isto, meus amigos? A palavra que ele repete
tantas vezes? Cala fundo dentro de nós quando um profeta de Deus se
refere aos ímpios quatro vezes em uma mesma sentença, não é mesmo?
Esses inimigos nossos são inimigos de Deus. Eles vieram para roubar,
matar e destruir tudo o que é de Deus. Mas Jesus diz em João 10.10 e
11: "Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. Eu sou o
bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas." Oh!, que maravilha
ser um pastor chamado para dar a vida pelas suas ovelhas!
- Muitos de vocês têm me perguntado de onde extraí a idéia de
que um terço do povo escolhido de Deus se voltará para Ele antes do fim.
Abram suas Bíblias em Zacarias 13. É o penúltimo livro do Antigo
Testamento. Nos versículos 8 e 9, o profeta menciona o Remanescente
de Israel: "Em toda a terra, diz o SENHOR, dois terços dela serão
eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela. Farei passar a
terceira parte pelo fogo, e a purificarei como se purifica a prata, e a
provarei, como se prova o ouro; ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei;
direi: é meu povo, e ela dirá: O SENHOR é meu Deus."
- Mas, conforme já lhes disse antes, chamar este último conflito de
Batalha do Armagedom não é correto, porque esse lugar é apenas o
palco que abrigará os exércitos do mundo. Os verdadeiros conflitos
ocorrerão aqui em Petra, ou perto daqui, uma vez que Deus provou que

esta cidade é impenetrável, e em Jerusalém. Para ser mais preciso, o
último conflito deveria chamar-se Batalha do Grande Dia do Deus Todo-
Poderoso.

Buck levantou a mão.

- Tenho ouvido você dizer isto há anos e ainda não entendi a
seqüência dos fatos. Como essa seqüência se dará?
Tsion riu.

- Os estudiosos têm debatido esta questão desde que o mundo é
mundo. Descobri que a única maneira de compreender seria deixar minha
Bíblia e todos os meus livros e comentários abertos e procurar fazer uma
lista dos vários estágios dos eventos.
- Em minha opinião, oito eventos ocorrerão após o sexto
Julgamento das Taças, que secará as águas do rio Eufrates. A propósito,
esse evento possibilitará que os reis do leste transportem seus
armamentos de guerra diretamente à planície do Megido, por terra seca,
poupando o tempo que demoraria para transportá-los por mar ao redor
dos continentes. Não existe comprovação bíblica para esta próxima
afirmativa, porém, em minha humilde opinião, trata-se de uma armadilha
preparada pelo Deus Todo-Poderoso. Deus vai atrair esses governadores
e seus exércitos diretamente para o lugar que Ele deseja.
-Independentemente disto, assim que as águas do Eufrates
secarem, veremos o ajuntamento dos aliados do anticristo. A seguir, creio
eu, virá a destruição de Babilônia. Isaías 13.6-9 diz: "Uivai, pois está perto
o Dia do SENHOR; vem do Todo-poderoso como assolação. Pelo que
todos os braços se tornarão frouxos, e o coração de todos os homens se
derreterá. Assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles dores e ais, e terão
contorções como a mulher parturiente; olharão atônitos uns para os
outros; o seu rosto se tornará rosto flamejante. Eis que vem o Dia do

SENHOR, dia cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em
assolação e dela destruir os pecadores."

- Puxa! - exclamou Buck. - Não sei se quero estar lá para ver isso.
- Você estará em Jerusalém nessa época, Buck – disse Rayford.
- Eu também - disse Tsion. - Depois da destruição de Babilônia
virá a queda de Jerusalém, o que incentivará as tropas aliadas do
anticristo. Elas se reunirão com seus compatriotas aqui neste lugar, que a
Bíblia chama de Bozra. Imediatamente a seguir, virá o que eu chamo de
regeneração nacional de Israel.
- Em Romanos 11.25-27, o apóstolo Paulo escreve: "Porque não
quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos
em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja
entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo, como
está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as
impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus
pecados."
- A seguir, virá a boa nova - disse George. - Pelo menos foi o que
entendi quando li a passagem.
- Exatamente - disse Tsion. - O Glorioso Aparecimento. Jesus
Cristo vem em um cavalo branco com um exército de 10 mil santos.
Independentemente do que o anticristo pensa que vai acontecer, seu fim
está próximo.
- Vocês querem ouvir uma metáfora bizarra? Quando João fala
disto em Apocalipse, ele diz o seguinte nos versículos 19 e 20 do capítulo
14: "Então, o anjo passou a sua foice na terra, e vindimou a videira da
terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus. E o lagar foi pisado
fora da cidade, e correu sangue do lagar até aos freios dos cavalos, numa
extensão de mil e seiscentos estádios."

- Pensem nisto! Quando Jesus e seu exército santo finalmente
exterminarem os aliados do anticristo, o massacre será tão grande que o
sangue derramado no vale central de Israel atingirá a altura dos freios de
um cavalo. Que altura é esta? Creio que 1,20 metro ou mais.
- E o que significa uma extensão de 1.600 estádios?
- Gostei de sua pergunta, George - disse Tsion -, porque eu já
estudei isso. Significa cerca de 295 quilômetros, a distância aproximada
de Armagedom a Edom.
- Mas até agora vimos seis eventos - disse Buck. - Haverá mais
dois?
- Sim. O final da batalha se dará no vale de Josafá, que é
basicamente a área que vai daqui até o sul de Jerusalém, a oeste do mar
Morto. Pelo fato de Petra ser um lugar protegido, todos os exércitos do
anticristo só poderão lutar fora daqui.
- E, finalmente, a vitória de Jesus subindo o monte das Oliveiras.
Quero estar lá para ver.
- Você estará - disse Rayford. - Se estará vivo, esta é outra
história.
DEZOITO
Seis anos e onze meses dentro da Tribulação

Faltando apenas algumas semanas para o apogeu dos eventos
finais, Rayford já se acostumara à idéia de que Tsion partiria para
Jerusalém.

- Minha concordância não significa que eu apoio sua decisão,
certo, Tsion?
- Eu sei muito bem. Mas talvez eu o conheça melhor que você

mesmo. Depois de toda esta conversa, você ficaria desapontado se eu
desistisse.

- Desapontado? Aliviado. Eu sinto que vou ter de responder
perante Deus pelo que acontecer a você.
- Confie em mim. Vou deixar você fora disto.
- Quero ver suas mãos, meu velho.
- Eu já lhe disse. - Tsion esticou as mãos. - Não sou tão velho
assim.
- Mais velho do que eu, e está há muito tempo sob meu comando -
disse Rayford. - Esses calos são impressionantes. George e Razor me
contaram que você está começando a acertar o alvo com aquela Uzi.
- Não entendo como alguém não consegue acertar. Ela dispara
tantos projéteis em tão curto espaço de tempo que, para mim, é o mesmo
que usar uma mangueira de jardim. Se eu errar o alvo, é só movimentá-la
para a frente e para trás que eu acerto.
- Falando sério, doutor, o que você planeja fazer? Ficar em algum
lugar e pregar com uma arma dependurada no ombro?
- Sim, se for necessário. Rayford, nós nos conhecemos há muito
tempo e podemos ser francos um com o outro. Eu sinto um impulso muito
grande de fazer um apelo a meus compatriotas para que eles entreguem
suas vidas ao Messias, e não posso acreditar que meu físico será um
empecilho para mim. Eu preciso estar lá; eu preciso pregar. Não quero
usar disfarce algum. Acho que a CG deixou de se preocupar comigo.
- Você está falando sério? O líder internacional dos judaístas...
- Este é um termo que eles usam em relação a nós. Eu, pelo
menos, não o uso.
- Mas, Tsion, todo mundo conhece você. Se eles acharam que
minha filha era uma presa muito preciosa, imagine se você for pego.

Tsion meneou a cabeça negativamente.

- Se Deus incutiu essa idéia de uma forma tão enraizada em meu
coração, talvez Ele esteja me dizendo que serei protegido de maneira
sobrenatural.
-Bem, Ele vai ou não vai proteger você?
- Eu só sei que preciso ir.
- Estou enviando Buck com você. Prometi uma missão para ele
em Jerusalém. Não posso imaginar uma tarefa de mais ação do que essa
que vocês vão realizar.
- Eu me sentiria honrado se Buck fosse meu guarda-costas. Ele
recebeu treinamento militar como George?
- Ninguém daqui recebeu. Mas George está empenhado em
outras tarefas, você sabe.
- Sim, defender o perímetro daqui. Ele me contou. Minha pergunta
é a seguinte: se os limites da cidade são intransponíveis, por que não
deixamos o perímetro de lado?
- Porque o povo está buscando refúgio aqui o tempo todo, e eles
só se sentem seguros quando entram.
- Mas eles estão seguros no ar. Como você explica isso?
- Eu deixei de questionar as coisas de Deus, Tsion. Estou
surpreso por você estar questionando.
-Ora, Rayford, você acabou de cair em uma de minhas
armadilhas. Você sabe que eu adoro citar a Palavra de Deus.
-Claro.
- Quando você falou em questionar as coisas de Deus, eu me
lembrei de uma de minhas passagens favoritas. Ironicamente, o versículo
justifica minha ida, apesar do perigo.
-Estou ouvindo.

-Romanos 11.33-36: "Ó profundidade da riqueza, tanto da
sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os
seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois,
conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem
primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por
meio dele, e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a glória eternamente.
Amém."
-Impressionante.
- Esta passagem, meu amigo, antecede o primeiro versículo do
capítulo 12, que é minha justificativa: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas
misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional."
-Só espero que seja um sacrifício vivo, Tsion.


De acordo com as conclusões de Chang, Carpathia acreditava na
profecia sobre o rio Eufrates, cujas águas secariam, porque ele havia
aprovado que fossem colocados equipamentos sensíveis no rio para
registrar informações que eram transmitidas ao computador central da CG
e avaliadas pelos técnicos. Chang, é claro, monitorava tudo em Petra.
Depois de quase quatro semanas, quando o evento ocorreu, ele tomou
conhecimento antes da CG.

- Aconteceu! - ele gritou, em pé diante de seu computador.
Todos deram um salto e olharam para ele. Naomi veio correndo.
- Havia água no rio Eufrates um minuto atrás, e agora ele está
completamente seco. Podem apostar que amanhã este fato estará nos
noticiários. Haverá alguém em pé no leito seco do rio, para mostrar que é

possível andar sem medo da lama ou da areia movediça.

- É fantástico - disse Naomi. - Isto é, eu sabia que ia acontecer,
mas não parece que Deus resolveu fazer tudo isto de uma só vez? Esse
rio não tem 800 quilômetros de comprimento?
-Tinha.
Os vôos de reconhecimento de Mac e Abdullah sobre a área
mostraram que os armamentos foram retirados dos arsenais de Al Hillah
até deixá-los completamente vazios. Após alguns dias, imensas colunas
de soldados, tanques, caminhões e armamentos começaram a dirigir-se
para o oeste, vindos de regiões distantes como Japão, China e Índia.

- E aqui - Chang contou a Naomi - está a chance que Tsion
aguardava, quer ele saiba disto ou não. Veja só.
- Chang imprimiu uma ordem expedida pelo próprio Suhail Akbar,
instruindo os homens das Forças Pacificadoras da Comunidade Global e
os Monitores de Moral que abandonassem todas as tarefas atuais e se
deslocassem para o Exército da Unidade Mundial Um da CG. "Seus
superiores também receberam esta ordem, e vocês se reportarão a eles
dentro de 24 horas na área demarcada ou terão de enfrentar as conseqüências
por deserção."
- Como ficarão as ruas? - Naomi perguntou.
- Não posso imaginar, meu amor. Os loucos passarão a dirigir o
hospício. Mas isso significa que as pessoas sem a marca de Carpathia
poderão sair dos esconderijos.
- Se elas tiverem coragem. Ainda existe um prêmio pela cabeça
delas. Os cidadãos leais as matarão e amontoarão os corpos, esperando
o fim da guerra para receber a recompensa.
- Eles ficarão desapontados.


- Eu preciso partir o mais breve possível - disse Tsion a Rayford. -
Qual é o meio mais rápido para Cameron e eu chegarmos a Jerusalém?

- De helicóptero, eu suponho, se conseguir encontrar um piloto.
- O que você está fazendo neste momento?
- Hã? Bem, acho que nada. Alguma coisa mais?
Tsion riu.
- Eu não posso esperar. Já coloquei alimentos e uma muda de
roupas em uma sacola. Se Cameron atendeu ao meu pedido, deve ter
feito o mesmo. Quem pode me dizer se há um helicóptero disponível?
- Encontre-se comigo no heliponto daqui a meia hora.


Priscilla Sebastian fez um esforço enorme para distrair Kenny
Bruce enquanto Buck procurava desvencilhar-se do abraço do filho.

- Vou voltar logo - disse Buck. - Preciso viajar com o tio Tsion.
Kenny não disse nada. Apenas agarrou-se com mais força ao
pescoço de Buck.

- O vovô vai nos levar, mas volta logo, está bem? Você vai ficar
alguns dias com ele enquanto eu estiver viajando.
Kenny soltou-se um pouco do abraço e olhou para Buck.

- O vovô?
- Isso mesmo.
- Vou passear de avião?
-Claro que sim.
-Quando?

-Logo. Assim que ele voltar.
-Eu quero ir com você.
- Não há lugar. Agora, seja um bom menino e vá brincar com Beth
Ann. O vovô vai voltar logo. Está bem?
-Tá bem.


Mac estava trabalhando com Otto Weser e George planejando a
saída dos crentes de Nova Babilônia, assim que a ordem chegasse para

o povo de Deus deixar o local. Ninguém, nem mesmo Tsion, sabia como
esse aviso sobrenatural seria dado ou se alguém de fora de Nova
Babilônia o ouviria.
- Sei que existem algumas células lá - disse Otto. - Deixei
instruções com um dos líderes, uma mulher, para me ligar assim que ela
receber o aviso. Não sei mais o que fazer. Vou dizer a eles que nos
encontrem na pista aérea do palácio e espero que tenhamos uma
aeronave com tamanho suficiente para tirar todo o pessoal de lá.
-Não podemos fazer mais do que já estamos fazendo - disse Mac.
Naomi os interrompeu.
- Querem dizer adeus a Tsion? Todos estão se reunindo para a
despedida.
- Ele já está partindo?
Ela contou o motivo a Mac.
- Tsion nunca deixa a idéia esfriar, não é mesmo? Ele, George e
Otto acompanharam Naomi a um lugar descampado perto do heliponto,
onde havia centenas de milhares de pessoas aglomeradas.
- As notícias voam por aqui, não, Otto?

- Sr. McCullum, muitas pessoas daqui estão chorando. Ele só vai
a Jerusalém, não é mesmo? A distância não pode ser de mais de cem
quilômetros. E, com certeza, ele vai voltar.
- As pessoas estão chorando, Otto, porque não sabem se ele vai
voltar.
Rayford retardou o momento de ligar o helicóptero para que Tsion
pudesse ser ouvido. O rabino tirou um lenço branco do bolso e acenou
para o povo enquanto Buck subia a bordo.

- O pessoal daqui vai cortar seu pescoço se você voltar sem ele,
Rayford - disse Buck.
- E eu planejo estar de volta dentro de uma hora ou menos.
-Eu preferiria não voltar sem ele - disse Buck.
- Pessoal! Pessoal! - gritou Tsion. - Estou emocionado diante da
bondade de vocês. Orem por mim, para que eu tenha o privilégio de levar
muito mais almas ao reino. Faltam poucos dias para a batalha, e vocês
sabem o que isso significa. Aguardem e estejam vigilantes. Preparem-se
para o Glorioso Aparecimento! Se eu não voltar até lá, nós nos
reuniremos em breve.
- Vocês estarão em meus pensamentos e em minhas orações, e
sei que estarão me acompanhando em pensamento e com orações.
Obrigado mais uma vez! Vocês estão nas boas mãos de Chaim
"Miquéias" Rosenzweig. Adeus a todos!
Tsion continuou a acenar enquanto entrava no helicóptero.
Rayford viu lágrimas nos olhos do rabino enquanto ele atava o cinto de
segurança.


- Alguma coisa deve estar passando em sua mente - disse Naomi,
enquanto ela e Chang caminhavam de mãos dadas.
Ele acabara de transmitir ao helicóptero de Rayford um esquema
de Jerusalém com os vários locais de pouso que poderiam ser usados.
Chang encolheu os ombros.

- Às vezes, eu me sinto feliz por estar protegido aqui e poder
dormir em paz, o que não acontecia no palácio, mas, outras vezes, penso
que escolhi o caminho mais fácil. Todos estão se preparando para a
batalha.
- Oh! Chang. Não diga isto. Você dedicou anos de trabalho na
linha de frente. E, de qualquer forma, sabe muito bem que é muito mais
importante aqui no centro do que lá fora, atirando em alguém ou
recebendo tiros. Não sei o que faríamos sem você.
- Vocês estavam indo muito bem antes de minha chegada.
Naomi soltou a mão de Chang e colocou as duas mãos nos
quadris, olhando firme para ele.

- Você tem memória curta, Chang Wong. Como pode esquecer
que eu passei muitas horas do dia no computador com você, embora
estivéssemos a mais de 800 quilômetros de distância um do outro? Eu
não teria chegado a lugar algum sem a sua ajuda, e é assim que me sinto
agora.
- Tudo está funcionando a contento aqui. Eu poderia me ausentar
por algumas semanas.
-Eu não estava falando profissionalmente, Chang. Pode me
chamar de egoísta, mas estou feliz por você não ter se aventurado a sair
daqui. O meu pai me ama, mas não da maneira como você me ama.
-Espero que isso seja verdade. Ela sorriu.
- Eu gosto de ficar ao lado dele, apesar de saber que é raro uma

jovem de minha idade dizer isto. Mas prefiro estar com você. Lembre-se,
quero sobreviver para ficarmos juntos durante mil anos. Não vamos
arriscar isso por causa de um peso em sua consciência.

- Você acha que eu não seria um bom soldado.
- A bem da verdade, eu acho, Chang. Sei que você tem a metade
do tamanho de Sebastian e usa muito mais a razão do que Buck Williams.
Mas acredito que a personalidade e o caráter de uma pessoa são
produtos da pressão que ela sofre, e tenho visto você trabalhar sob
pressão. Com um pouco de treinamento, você poderia ser capaz de
vencer os obstáculos.

Rayford estava analisando as transmissões de Chang e tentando
discutir com Buck o melhor lugar para pousar o helicóptero. Buck,
atarefado vasculhando sua sacola, disse:

- É você quem vai decidir, Ray. Acho que não existe um lugar
menos perigoso que outro.
- Lembre-se que toda essa gente da CG deverá estar no Megido
amanhã - disse Rayford. - E não hoje. Talvez eles queiram efetuar a
prisão de uma personalidade famosa.
- Não concordo com você - disse Buck. - Eles receberam a ordem
de abandonar todas as tarefas atuais e se deslocar para o lugar onde
precisam estar. Não conheço homem fardado algum que não cumpra as
ordens recebidas.
- Eu só preciso que você me leve ao Muro das Lamentações,
Rayford - disse Tsion. - Quero estar pregando quando descer deste
helicóptero.

- Você não poderia ter escolhido um lugar mais perigoso.
- O perigo não é importante neste momento, capitão. O tempo é.
O Dia do Senhor está chegando. Não devemos ficar parados enquanto o
inimigo ataca.
- Para você, é fácil dizer isto, Tsion.
- Não é, a menos que eu esteja em terra firme. Agora, por favor,
faça o que estou pedindo.
Rayford avistou o Monte do Templo. Estava apinhado de gente.

-Droga! - ele disse.
- Eles vão se afastar de lá - disse Tsion. - Confie em mim. Comece
a descer, e eles sairão do caminho. Por favor.
DEZENOVE

O desaparecimento instantâneo das águas do rio Eufrates foi útil
apenas para os reis do leste, que transportaram suas armas direto para
Israel através do leito seco.

O restante do Crescente Fértil deixou de ser fértil. A irrigação
cessou, as usinas hidrelétricas foram desligadas e as fábricas, fechadas.
Em resumo, tudo o que dependia da força motora do grande rio entrou,
imediatamente, em fase terminal.

A previsão feita por Chang estava correta. Os noticiários da
CNNCG mostravam os repórteres em pé no meio do leito seco do rio.
Porém, todos aqueles pronunciamentos mirabolantes do tipo "não posso
acreditar que estou em pé aqui, neste mesmo lugar que, se fosse ontem,
eu estaria a 30 metros abaixo da superfície" não serviram para alegrar
milhões de pessoas que dependiam do Eufrates para viver.


Buck não se surpreendeu ao constatar que Tsion estava certo.
Quando Rayford pousou o helicóptero em uma área livre no Monte do
Templo, centenas de pessoas iradas se espalharam, levantando as mãos
fechadas em direção a ele.

Buck pegou sua sacola e escondeu a Uzi nas costas, sob a
jaqueta. Saltou do helicóptero e correu à procura de abrigo embaixo de
um arbusto perto do Muro. Ao olhar para trás, viu Tsion fazendo o mesmo
e surpreendeu-se diante da agilidade do guerrilheiro recém-treinado.

Eles se ajoelharam para recuperar o fôlego e viram Rayford
levantar vôo. A figura do helicóptero desaparecendo ao longe desviou a
atenção do povo. Buck olhou ao redor.

- Foi aqui que eu vi as duas testemunhas subindo ao céu três
anos e meio atrás - ele disse.


A velha curiosidade voltou a perseguir Rayford. Ele não conseguia
livrar-se dela. Era impossível chegar tão perto do Armagedom - a uma
distância de pouco mais de 110 quilômetros, segundo seus cálculos - e
não sobrevoar o local. Seria uma loucura, ele sabia.

Talvez encontrasse um congestionamento aéreo pela frente.
Porém, a possibilidade de ver de cima tudo aquilo sobre o qual tinha
ouvido, lido e orado o atraía como se fosse um ímã. E se a conseqüência
fosse mergulhar em um abismo da mesma forma que uma jangada
despenca de uma cachoeira, valeria a pena correr o risco.


- Veja, Cameron - disse Tsion. - Veja todos aqueles homens sem
a marca! Eles estão andando com ar de orgulho, sorrindo uns para os
outros, como se estivessem desafiando a CG.
As Forças Pacificadoras da Comunidade Global e os Monitores de
Moral haviam sumido dali. Mas a guerra pairava no ar. Pelo
comportamento dos judeus devotos no Monte do Templo, ficou claro que

o terror tomara conta do local. Os judeus sabiam onde a CG estava e
sabiam também que, em breve, se tornariam alvo de Carpathia.
- Os anciãos estão diante do Muro - disse Tsion -, orando
fervorosamente e com plena liberdade, como não acontecia tempos atrás.
Meu coração está quebrantado por eles. Os mais jovens estão
conversando, planejando, procurando armas. Estão determinados a
defender esta cidade, da mesma forma que eu.
- Mas a cidade vai ser destruída, Tsion. Você mesmo disse isto.
- Apenas temporariamente, e quanto maior for o número de
pessoas que conseguirmos manter vivas, maior será o número que
entrará no reino de Deus. É esta a minha preocupação principal.


Mac não sabia ao certo o que fazer com Otto Weser. Otto era um
bom sujeito, sem dúvida, mas pensava à maneira de um amador. Talvez
tivesse sido um madeireiro bem-sucedido na Alemanha, mas Mac não
queria ter Otto como seu superior durante um combate.

- Você não percebe, McCullum - Otto estava dizendo -, que se

estivermos pisando em solo firme na pista aérea do palácio quando o
aviso sobrenatural for dado, estaremos mais que preparados para fazer o
pessoal subir a bordo e sair de lá?

- E se não ouvirmos o aviso ou os crentes não conseguirem
chegar à pista aérea? Vamos ficar sentados vendo a cidade desabar ao
redor de nós.
- Mas, como crentes, nós não seremos protegidos?
- Pense, homem! Se os crentes estivessem protegidos, por que
Deus haveria de pedir que seu povo saísse de lá antes de destruir o
local?


- Eu não quero esperar mais, Cameron. Vou até o Muro e começar
a pregar.
-Mas e se...
- Não há mais tempo para pensar - disse Tsion. - Estamos aqui
com um objetivo, e vou até o fim. Você vai me dar cobertura? Vai me
acompanhar? O que vai fazer?
- Vou com você. Ninguém notará minha presença assim que você
começar a falar.
Tsion cobriu a cabeça com um solidéu e entregou outro a Buck.

- Não faz sentido sermos apedrejados por infringir os costumes
daqui - disse Tsion. - Estamos nos dirigindo a um lugar santo.
Eles esconderam as sacolas entre uma árvore e uma cerca de
ferro pintada de preto. Usando roupas folgadas de lona e com as Uzis
presas ao corpo, eles rastejaram para sair do meio das árvores e
correram em direção ao Muro.


- Ei, velhote, 200 Nicks por essa arma!
- Eu ofereço 300! - disse outra pessoa.
- A arma não está à venda! - gritou Tsion. - Venham ouvir o que
tenho a lhes oferecer!
A área diante do Muro das Lamentações estava apinhada de
judeus com trajes tradicionais, ansiosos por enfiar suas orações nas
fendas entre as pedras. Muitos começavam a orar antes mesmo de
chegar perto do Muro. Provavelmente, o local esteve deserto no dia
anterior. E qualquer pessoa com trajes religiosos, mesmo tendo a marca
de Carpathia, teria sido enviada a um campo de concentração ou
executada.

Assim que Buck e Tsion começaram a abrir caminho para chegar
ao Muro, os homens olharam firme para eles e resmungaram. Tsion
gritou, sem hesitação:

-Homens de Israel, ouçam-me! Eu sou um de vocês! Tenho
notícias para lhes dar!
Ficou claro que o povo imaginou que as notícias seriam sobre o
ataque iminente, porque todos começaram a se ajuntar. Tsion subiu em
um lugar um pouco mais alto para poder ser visto e ouvido.

-Lutaremos até a morte! - alguém gritou.
- Eu sei e também vou lutar até a morte! - disse Tsion. -Vocês
estão vendo que tenho a cabeça coberta e que não há marca alguma em
minha testa ou em minha mão.
Os homens o aplaudiram.
- Muitos de nós morreremos neste conflito - prosseguiu Tsion. -
Estou disposto a entregar minha vida em favor de Jerusalém!

- Nós também - gritaram vários judeus em uníssono.
-Precisamos de armas!

-Precisamos de informações!
- Vocês precisam - ecoou a voz de Tsion - do Messias!
Os homens gritaram. Muitos riram. Outros murmuraram.
Não era exatamente isto o que esperavam ouvir.
- Muitos de vocês me conhecem! Sou Tsion Ben-Judá. Tornei-me
persona non grata quando falei ao mundo inteiro sobre minhas
descobertas depois de ter sido encarregado de estudar as profecias
referentes ao Messias.
Muitos se lembraram e aplaudiram. Embora discordassem
claramente das conclusões de Tsion, eles pareciam admirá-lo.

- Minha família foi trucidada. Eu fui exilado. Minha cabeça foi
colocada a prêmio.
- Então, por que você está aqui, homem? Você não sabe que os
demônios da Comunidade estão voltando?
- Eu não tenho medo deles, porque o Messias também está
voltando! Não zombem! Não virem as costas para mim!
A maioria continuou a olhar para Tsion.

- Prestem atenção ao nosso Texto Sagrado. O que vocês acham
que isto significa?
Tsion leu Zacarias 12.8-10:

-"Naquele dia, o SENHOR protegerá os habitantes de Jerusalém; e
o mais fraco dentre eles, naquele dia, será como Davi, e a casa de Davi
será como Deus, como o Anjo do SENHOR diante deles. Naquele dia,
procurarei destruir todas as nações que vierem contra Jerusalém. E sobre
a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito
da graça e de súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram;
pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele
como se chora amargamente pelo primogênito."

- Explique para nós o que isto significa!
- Deus está dizendo que tornará os mais fracos de nós em
pessoas fortes como Davi. E Ele destruirá as nações que investirem
contra nós. Meus queridos amigos, seremos atacados por todas as
nações da Terra!
- Nós sabemos. Carpathia não fez segredo disto!
- Deus, porém, diz que finalmente "olharão para aquele [Eu] a
quem traspassaram", e que choraremos por Ele como se chora a morte
de um primogênito. O Messias foi traspassado! E Deus se refere ao
traspassado usando a palavra "aquele [Eu]"! (itálicos acrescentados). O
Messias também é Deus.
-Amados, meus estudos exaustivos sobre as centenas de
profecias referentes ao Messias levaram-me a uma única conclusão
lógica. O Messias nasceu de uma virgem em Belém. Ele viveu sem
pecado. Foi falsamente acusado. Foi assassinado injustamente. Morreu,
foi sepultado e ressuscitou depois de três dias. Estas profecias são
suficientes para apontar Jesus de Nazaré como o Messias. É Ele que
está vindo para lutar por Israel. Ele vingará todos os erros que foram
perpetrados contra nós ao longo dos séculos.
-O tempo é curto. O dia da salvação está aqui. Talvez vocês não
tenham tempo para estudar as profecias. O Messias é a promessa de
Deus para nós. Jesus é o cumprimento dessa promessa. Ele está vindo.
Preparem-se para a chegada dele!


O helicóptero de Rayford não era a única aeronave que
sobrevoava a planície do Megido. Mesmo tendo de fazer um esforço


enorme para desvencilhar-se do tráfego aéreo, ele não conseguia desviar
o olhar do solo. Ele subiu até a uma altura de onde pôde avistar o vale
inteiro, de cerca de 900 hectares.

A poeira parecia levantar-se a mais de mil metros à medida que os
tanques, caminhões para transporte de pessoal, lançadores de mísseis,
tropas da cavalaria e infantaria aproximavam-se da área. Rayford nunca
vira tantas pessoas aglomeradas em um mesmo lugar. Parecia que um
exército de milhões de soldados estava se posicionando na imensa área
reservada à concentração de todos os exércitos do mundo.

Ele também podia enxergar o movimentado porto de Haifa, onde
imensos navios formavam filas enormes, à espera de desembarcar
armamentos e tropas.

Militares e equipamentos de todas as regiões abarrotavam o local.
Apesar da imensidão da área, parecia que não havia lugar para mais
nada. E, mesmo assim, os exércitos continuavam a chegar.

A princípio, Buck pensou que Tsion estivesse ofendendo a
multidão de judeus piedosos. Muitos ordenaram que ele calasse a boca;
outros se afastaram. Mas alguns pediram silêncio e chamaram outras
pessoas para ouvirem a mensagem de Tsion. A aglomeração foi
aumentando cada vez mais, apesar do barulho e da confusão.

Tsion parecia ter as forças renovadas. Ele começou a citar trechos
bíblicos e explicar o que significavam, sem aguardar a reação do povo.
Sua mensagem passou do diálogo ao monólogo. O povo tinha os olhos
cravados nele.

- Sim, os exércitos do mundo estão chegando. Enquanto falamos

aqui, eles estão se dirigindo para o norte, com o objetivo de destruir
Jerusalém e nos matar. Mas eu lhes peço que "Não temais os que matam

o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer
perecer no inferno tanto a alma como o corpo" (Mt 10.28). Sim, vocês
sabem de quem estou falando. O Messias está vindo! O Messias vencerá!
Estejam preparados para sua chegada!
-Se quiserem saber como se preparar para a vinda dele, reúnam-
se aqui à minha esquerda e ouçam o que o meu colega tem a lhes dizer.
Por favor! Venham agora! Não demorem! Este é o momento! Hoje é o dia
da salvação.
Buck estava atônito. Não se preparara para falar, mas, quando viu
os judeus reunidos a seu redor, olhando com ar de expectativa, ele
murmurou uma oração desesperada, e Deus lhe deu as palavras.

- Quando vocês, povo judeu, entenderem que Jesus é o Messias
aguardado há tanto tempo - disse Buck -, não estarão se convertendo de
uma religião para outra, não importa o que outras pessoas digam. Vocês
encontraram o Messias, só isso. Tudo o que vocês estudaram e ouviram
durante a vida inteira é o alicerce para aceitarem o Messias e o que Ele
tem feito por vocês.
Buck passou a falar do plano de salvação, pedindo àqueles
homens famintos e sedentos que confessassem a Deus que Jesus era o
Messias.

- Ele não virá apenas para vingar Jerusalém, mas para salvar a
alma de vocês, perdoar seus pecados, conceder-lhes a vida eterna com
Deus.

- Naomi! - Chang gritou. - Venha ver isto.
Carpathia estava sendo entrevistado pela CNNCG.
Pelas imagens mostradas, ele ainda não se encontrava no
Armagedom. Montado em um enorme cavalo preto, ele empunhava uma
espada muito larga e comprida, cujo peso teria derrubado da sela um
homem de menor estatura. Ele calçava botas de couro de cano alto e ria

o tempo todo.
- Temos o poder absoluto e a mais moderna tecnologia em nossas
mãos - ele gritou à repórter que segurava o microfone com o braço
esticado para alcançá-lo. - Meus meses de estratégia terminaram, e
elaboramos um plano infalível. Isso me possibilita encorajar as tropas,
estar presente no campo de batalha, sentir-me fortalecido, ser um
símbolo visual para que todos se lembrem de que a vitória está próxima
e, em breve, a teremos em nossas mãos.
- Aproxima-se o momento, meus irmãos e irmãs da Comunidade
Global, em que reinaremos vitoriosos. Eu retornarei para reconstruir meu
trono como rei vencedor. Finalmente, o mundo será unificado! Comecem
a regozijar-se desde já!


A notícia de que Tsion Ben-Judá estava diante do Muro das
Lamentações pregando aos judeus começou a correr de boca em boca, e
um número cada vez maior de pessoas afluía ao local.

- A Bíblia profetiza o que vai acontecer brevemente! - ele disse. -
Ouçam mais uma vez as palavras de Pedro: "Virá, entretanto, como
ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso
estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as


obras que nela existem serão atingidas. Visto que todas essas cousas
hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo
procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do Dia de
Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão. Nós, porém, segundo a sua
promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça"
(2 Pe 3.10-13).

- Esta é a promessa, a promessa que estamos aguardando! Por
quantas gerações temos orado pedindo a paz? Brevemente, após o
conflito, teremos a paz eterna!
- O Messias retornará como o Rei dos reis. Ele prometeu voltar,
vencer Satanás e instalar seu reino milenar aqui, restabelecer Israel e
fazer de Jerusalém a capital eterna!
- Depois que um número aproximado de um bilhão de seguidores
do Messias foram levados desta terra nos desaparecimentos ocorridos
sete anos atrás e que foram profetizados mais de dois mil anos antes,
muitos judeus e gentios aceitaram Jesus Cristo como o verdadeiro
Messias.
-Nosso profeta Joel predisse os dias que estamos vivendo.
Ouçam as palavras das Sagradas Escrituras: "E acontecerá, depois, que
derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas
filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões;
até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito
naqueles dias. Mostrarei prodígios no céu e na terra; sangue, fogo e
colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue,
antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. E acontecerá que
todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte
Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, assim como o

SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR
chamar" (Jl 2.28-32).

- Vocês são o povo remanescente de Israel. Aceitem o Messias
hoje! Ouçam a continuação da profecia de Joel e vejam se elas não
refletem os dias em que estamos vivendo! "Eis que, naqueles dias e
naquele tempo, em que mudarei a sorte de Judá e de Jerusalém,
congregarei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá; e ali
entrarei em juízo contra elas por causa do meu povo e da minha herança,
Israel..." (Jl 3.1-3).
- Esse imenso conjunto de exércitos do mundo inteiro que o
governador maligno deste mundo chama de Exército da Unidade Mundial
Um se deslocará da área de concentração e atravessará o próprio vale de
Josafá, mencionado pelo profeta Joel. Quando eles descobrirem que a
cidade de refúgio não poderá ser destruída, a luta se dará naquele vale.


Rayford precisava voltar. Não havia nada que ele pudesse fazer
enquanto sobrevoava o ajuntamento dos exércitos do anticristo. Ele sabia
que a grande concentração se dividiria naquela área em dois terços e um
terço, e que o um terço iniciaria sua inexorável marcha rumo a Petra.

Pelos seus cálculos, levaria quase um dia para o exército
percorrer a distância até lá e começar o ataque. Contudo, em questão de
horas, os dois terços com destino a Israel já deveriam estar travando a
batalha.


Buck estava respondendo perguntas, orando com o povo e
procurando ouvir as palavras de Tsion, que parecia ter mais fôlego ainda.

- O Dia do Senhor está diante de nós - ele estava dizendo. - E se
houver aqui alguém que ainda duvide, quero lhes contar o que as
profecias dizem que acontecerá depois que os exércitos do mundo
estiverem reunidos no Armagedom. E, conforme todos nós temos
conhecimento, é o que eles estão fazendo agora. Quantos de vocês
sabem que as Forças Pacificadoras e os Monitores de Moral foram enviados
para lá? Estão vendo? Muitos daqui sabem. Não temos ilusões. Eles
estão se reunindo neste momento, planejando nossa destruição.
- E as Sagradas Escrituras dizem que quando eles se reunirem lá,
o sétimo anjo derramará sua taça no ar. Vocês sabem o que isto significa
homens de Israel? A extinção das águas do rio Eufrates foi o sexto
Julgamento das Taças que Deus derramou sobre a terra, o 20a
julgamento desde o Arrebatamento.
- O sétimo Julgamento das Taças será o último, e vocês sabem o
que ele representa? A Bíblia menciona que, quando essa taça for
derramada, sairá "grande voz do santuário, do lado do trono, dizendo:
Feito está" (Ap 16.17). São palavras semelhantes ao pronunciamento do
imaculado Cordeiro de Deus na cruz, quando Ele bradou: "Está
consumado."
- "E sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu grande
terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra" (Ap
16.18).
- Eu quero adverti-los, meus compatriotas. Esse terremoto atingirá
o mundo inteiro. Pensem nisto! A Bíblia diz: "Todas as ilhas fugiram, e os
montes não foram achados" (Ap 16.20). Os montes não foram achados!
Os montes do mundo inteiro desabarão até ficarem no nível do mar!

Quem sobreviverá a essa catástrofe?

- A profecia continua dizendo que "...também desabou do céu
sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de
um talento..." (Ap 16.21). Amados, um talento pesa cerca de 30 quilos!
Quem já ouviu falar de granizos desse tamanho? Homens e mulheres
morrerão esmagados por eles! E as Escrituras dizem que "...os homens
blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande..."
(Ap 16.21). Bem, eu devo dizer que o flagelo será grande demais!
Arrependam-se já! Façam parte do exército de Deus, não do exército do
inimigo.
-Vocês sabem o que acontecerá aqui, exatamente aqui em
Jerusalém? Será a única cidade do mundo poupada da destruição
devastadora do maior terremoto que o homem já conheceu. A Bíblia diz:
"E a grande cidade", ou seja, Jerusalém, "se dividiu em três partes, e
caíram as cidades das nações" (Ap 16.19).
- Agora, meus irmãos, vem a boa notícia. Jerusalém se tornará
mais bonita, mais eficiente. Será preparada para ocupar a função de nova
capital no reino milenar do Messias.
A multidão no Monte do Templo foi aumentando à medida que a
notícia da pregação de Tsion continuava a se espalhar. Centenas e, logo
a seguir, milhares de pessoas choravam alto e se ajoelhavam
arrependidas diante de Deus, aceitando Jesus Cristo como o Messias,
firmando um compromisso com o Rei dos reis.

Apesar de exausto, Buck continuava a responder às perguntas,
atônito ao ver que tantos judeus, arraigados à sua religião durante muitos
séculos, finalmente estavam compreendendo que Jesus Cristo cumpriu
todas as profecias do Antigo Testamento referentes à vinda do Messias.

A voz de Tsion continuava a ecoar:


- Como saberemos quando estas coisas terminarão? Antes, virá a
destruição de Babilônia. Sim, a destruição de Babilônia! Ouçam: "E
lembrou-se Deus da grande Babilônia para dar-lhe o cálice do vinho do
furor da sua ira" (Ap 16.19).
- Será terrível! Medonho! A paciência do Deus amoroso e
misericordioso chegou ao limite por causa daquela cidade perversa, e Ele
não refreará sua ira. A praga da escuridão não foi suficiente para
satisfazer à sua ira. Ele permitirá que ela seja atacada e saqueada,
destruída em questão de uma hora. Essa calamidade vai ser tão grande
que sua repercussão será sentida no mundo inteiro, porque todas as
nações prantearão a morte da cidade que, um dia, foi a capital do mundo.


Sabendo que havia pouco tempo e conhecendo a promessa que
Buck fizera a Kenny, Rayford conversou, via rádio, com Petra e pediu que
Abdullah levasse o menino ao heliporto. Lá, ele fez um rápido sobrevôo
com Kenny, subindo e descendo algumas vezes. Kenny adorou o
passeio.

Rayford ficou satisfeito por Kenny não ter feito perguntas acerca
do pessoal que George e Razor estavam arregimentando lá embaixo, ao
redor da cidade de pedra. Comparado ao que Rayford vira ao norte de
Jerusalém, estava claro que as tropas de Petra, compostas de alguns
milhares de combatentes, não teriam chance alguma sem uma
intervenção sobrenatural.

Rayford passou as duas horas seguintes com Kenny. Em seguida,
saiu para inspecionar o trabalho que George e seu grupo estavam
fazendo.


- Mac, venha rápido - disse Otto. - Há uma colega minha ao
telefone, e ela está tão assustada que quase não consegue falar.
Quando Mac chegou aos aposentos de Otto, ouviu a mulher
tentando relatar o que acontecera.

- Não sei quanto tempo nos resta - ela disse, com a respiração
ofegante -, mas chegou a hora de sairmos daqui.
- Como a senhora ficou sabendo? - Mac perguntou.
- Um anjo - ela respondeu.
-Tem certeza?
- Brilhante, reluzente, branco, grande, muito grande. Era um
homem, pelo menos este era. O brilho dele foi tão intenso que fez
desaparecer a escuridão desta cidade. Aqui, está claro como se fosse
meio-dia.
-O que ele disse?
- Ele falou em voz tão alta que todos aqui ouviram, e eu nunca vou
me esquecer de cada palavra. Ele disse: "Caiu, caiu a grande Babilônia e
se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo
e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as
nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se
prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se
enriqueceram à custa da sua luxúria" (Ap 18.2,3).
- Estamos a caminho daí. Leve todos para a pista aérea do
palácio. Se a senhora conhecer outros grupos de crentes, mande-os para
lá também.
-Ainda não terminei, senhor.

- Como assim?
- Ouvi outra voz do céu que disse: "Retirai-vos dela, povo meu,
para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes
dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao céu, e
Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou" (Ap 18.4,5).


- Eu não tenho homens suficientes para fazer um círculo ao redor
deste lugar - disse Sebastian.
Rayford evitou olhar para George.

- Não sei o que dizer. Pelo que li, não vamos resistir.
- Não quero que homens e mulheres sofram, capitão. Eu gostaria
de escolher apenas alguns.
- Pense um pouco, George. É aqui que Jesus deve chegar
primeiro. Poderemos estar entre os primeiros que presenciarão o Glorioso
Aparecimento.
- É difícil dizer isto a um exército tão pequeno, que tem um homem
para cada mil do inimigo. Talvez eles estejam no céu antes de Jesus
partir de lá.


Por não ter idéia do que encontraria em Nova Babilônia, Mac
convocou Lionel, na última hora, para trazer um jato grande, calculando
que, com duas aeronaves, seria possível tirar até 200 pessoas de lá.

Quando eles pousaram na pista do palácio, o local tinha um
aspecto sinistro. A escuridão desaparecera, mas as pessoas feridas que


se achavam dentro dos limites da cidade não sabiam o que fazer. Depois
de tanto sofrimento e de terem vivido no escuro durante muito tempo, elas
estavam completamente desnorteadas e não haviam encontrado o rumo
certo. A maioria ainda mancava ou andava com dificuldade.

Porém, mais de 150 crentes aguardaram, com enorme
entusiasmo, a chegada dos aviões de resgate. Eles carregavam seus
pertences em sacos e caixas e estavam ansiosos para subir a bordo,
possibilitando que a operação fosse feita com rapidez e facilidade. Mac e
Lionel, com os aviões lotados, estavam de frente para a pista de
decolagem quando dois exércitos invasores atacaram.

Enquanto Mac ainda sobrevoava o espaço aéreo de Nova
Babilônia, uma coluna de fumaça negra subiu em direção ao céu. Ele
circundou a área por uma hora, acompanhado de Lionel, e os
passageiros presenciaram a completa destruição daquela que, um dia, foi
uma grande cidade.

No espaço de uma hora, todas as casas e edifícios desabaram, e
Mac sabia que seus moradores estavam mortos. Quando os exércitos
misteriosos, que haviam invadido pelo norte e noroeste, se afastaram,
deixaram a metrópole inteira em chamas. No momento em que Mac
rumava para Petra, não se via mais nada em Nova Babilônia, a não ser
cinza e fumaça.

Confuso, Chang observava a chegada dos noticiários da CNNCG
sobre a luta que se travava dentro das fileiras do Exército da Unidade
Mundial Um. Aparentemente, as forças armadas de Carpathia tiveram de
contra-atacar as nações que haviam se embriagado de poder e ambição


quando receberam o armamento estocado em Al Hillah.

A maioria dos aliados de Nicolae se reuniu para esmagar a
resistência. Quando todos se ajuntaram no Armagedom, já haviam sido
persuadidos, pelos demônios, por Carpathia ou pelas realidades da
guerra, a cerrar fileiras contra o povo de Deus.

O número imenso de tropas expandiu-se além do vale do Megido
e espalhou-se pelo norte, sul, leste e oeste, passando por Jerusalém
rumo a Edom. Algumas estimativas davam conta de que apenas um
exército contava com uma quantidade inimaginável de mais de 200 mil
combatentes.

As imagens aéreas captadas por uma aeronave da CNNCG
somente conseguiam mostrar cerca de um milhão de soldados por vez,
sendo necessário que dezenas e dezenas de outras imagens separadas
fossem levadas ao ar.

Chang notou que o pânico começava a tomar conta do povo em
Petra.

Aqueles que viram os noticiários imaginavam que jamais seriam
capazes de enfrentar um exército tão poderoso. Os que não viram foram
informados pelos que viram, e a notícia se espalhou por todo o
acampamento. Muitos correram para os lugares altos de onde podiam ver
as nuvens de poeira e uma multidão de homens, animais e armamento
atravessando lentamente o deserto.

Chaim aproveitou a ocasião para reunir o povo, pouco antes da
chegada do maná noturno.

- Meus queridos irmãos e irmãs no Messias. Tenham bom ânimo.
Não se intimidem. Tenho recebido notícias maravilhosas de Jerusalém,
onde nosso irmão Tsion está pregando o Evangelho de Jesus Cristo com
grande ousadia. Estou feliz por poder lhes dizer que os resultados têm

sido ótimos.

- Faz apenas dez minutos que conversei com o exausto e
atarefado Cameron Williams. Ele me contou que milhares de judeus estão
se arrependendo de seus pecados e se voltando para Cristo, aceitando
Jesus de Nazaré como o Messias.
- Louvado seja o Senhor Deus Todo-Poderoso, criador do céu e
da terra!
Aparentemente encorajado e animado, o povo chorou e levantou
as mãos.

- Não ignoramos o que vai acontecer - prosseguiu Chaim. - Nova
Babilônia foi completamente destruída em uma hora, em cumprimento às
profecias. Agora, existem apenas dois eventos no calendário profético,
meus amigos. O primeiro é?
O povo respondeu aos gritos:

-O sétimo Julgamento das Taças.
-E qual é o segundo?
-O Glorioso Aparecimento.
Chaim concluiu:
- Nós servimos ao grande Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o
libertador de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Sobrevivemos às
fornalhas de fogo do anticristo e fomos libertados do laço do
passarinheiro. Não tenham medo. Permaneçam firmes e inabaláveis, e
vejam a salvação do Senhor que Ele lhes concederá. Em breve, vocês
nunca mais verão o inimigo que estão vendo hoje. O Senhor lutará por
vocês, e vocês terão paz duradoura.

VINTE


Já era noite em Jerusalém e, mesmo assim, o povo continuava a
afluir ao Monte do Templo. Ao notar que Tsion estava fraco e cansado,
Buck afastou-se sorrateiramente e dirigiu-se ao local onde havia
escondido as sacolas, para levar um pouco de alimento ao rabino. As
sacolas, porém, haviam desaparecido. Ele correu de volta ao local onde
Tsion Continuava a falar, mas ele próprio sentiu-se zonzo por causa da
fome.

- Preciso de comida para alimentar o rabino! - ele gritou.
- Eu estou bem! - Tsion disse e continuou a pregar.
- Por favor, alguém tem algum alimento? Um petisco Qualquer.
Pão, fruta.
- Que tal cinco pães e dois peixes? - gritou alguém, e todos riram.
Um senhor idoso atirou uma maçã para Buck. Outros lhe
entregaram uma fatia de pão quente e crocante. Alguns doaram um
pedaço de queijo. Um deles cedeu duas laranjas.

- Ajudem-me a persuadir este professor obstinado a fazer uma
pausa! - disse Buck.
Muitos dos que ali estavam insistiram para que Tsion, ao menos,
se sentasse. Ele concordou.
Agora, falando mais em tom de professor do que de pregador,
Tsion assimilava as perguntas e mordiscava os petiscos entre uma
resposta e outra. A multidão não parava de crescer.

- Eu não tinha idéia de que estava com tanta fome - disse Tsion,
olhando para Buck. - Muito obrigado, meu amigo.
Alguém lhe entregou um copo d'água, e ele sorveu o conteúdo
com avidez.


De repente, um dos presentes levantou as duas mãos para
silenciar o povo, e todos se aquietaram. O ronco de um exército em
movimento tornou-se audível. Buck sentiu a vibração por todo o corpo.

- Precisamos levar o rabino a um abrigo - disse alguém.
- Vamos nos reunir um pouco mais adiante.
Tsion fez menção de protestar, mas a multidão já estava saindo,
em massa, do local. Ele e Buck acompanharam o povo até uma enorme
construção de pedra, com capacidade para acomodar mil pessoas com
facilidade. Cerca de metade do povo ajuntou-se perto da entrada da
construção.

- O que vamos fazer quando o inimigo chegar? - perguntou um
deles.
- Temos mais gente que o exército de Gideão.
- Só poderemos fazer o que estiver a nosso alcance - respondeu
Tsion. - Não sei se vocês têm idéia do que estou fazendo aqui hoje, mas
saibam que quero conduzir o maior número possível de compatriotas
judeus ao reino do Messias, antes que seja tarde demais. E, por causa
disto, meu maior desejo é que todos permaneçam vivos, se possível. Se
vocês concordam com minha missão, espalhem-se pela cidade e
convidem todos os que assim o desejarem para cerrar fileiras conosco. O
inimigo começará a atacar Jerusalém e levar seu povo para o cativeiro,
mas acredito que seu principal objetivo é a Cidade Velha. Poderia haver
maior orgulho para Carpathia do que pensar que pode invadir este lugar
santo e estabelecer seu quartel-general aqui?
- Se formos atacados antes que vocês retornem, contem a todos o
que ouviram. Não há necessidade que venham até aqui para proferir a
oração de fé e tornar-se um participante do reino do Messias.
Alguém gritou:


- Melhor ainda será trazer para cá os que já tomaram a decisão,
todos carregando uma arma!
-Bem - disse Tsion. - Sim.
Já era uma rotina. Quando passava a noite com Rayford, Kenny
só adormecia depois que se deitava, com o corpo esticado, em cima do
peito do avô. Rayford tinha de equilibrar-se na pequenina cama do
menino e chamá-lo para perto de si. Kenny subia e se deitava com a
cabeça logo abaixo do queixo de Rayford.

Rayford lutava contra o cansaço. Não queria dormir enquanto
Kenny estivesse fazendo perguntas, cantando, orando.

- A mamãe está no céu - disse Kenny.
- É verdade. E nós sentimos saudades dela, não?
-Eu sinto.
- Eu também.
- Logo eu vou ver a mamãe.
- Logo, logo mesmo, Kenny. - Rayford sabia que Buck havia
mostrado o calendário ao filho.
-Amanhã?


- Talvez. Ou depois de amanhã. Ou daqui a alguns dias.
- Onde fica o céu, vovô?
- Com Deus.
- E Deus está com a mamãe?
-Está.
-E Jesus?
- Jesus também.

-Quero que eles venham aqui.
-Logo.
Rayford havia combinado com Priscilla Sebastian para que ela
fosse tomar conta de Kenny antes do alvorecer, quando ele precisava
reunir-se com as tropas no perímetro de Petra.

Não demorou muito para que Kenny parasse de falar e de se
mexer. Sua respiração tornou-se regular e profunda. Rayford orou pelo
neto e aguardou alguns minutos antes de esgueirar-se lentamente da
cama.

Em seguida, Rayford deitou-se em sua cama, do outro lado do
quarto, e olhou para o menino. Como Irene ficaria emocionada com o
neto! Se Kenny tivesse nascido em outro período da História, começaria a
freqüentar escola dentro de um ano. Rayford gostaria de saber que tipo
de escolas haveria no reino milenar.

Ele também se perguntou como isso funcionaria. Será que ele,
Buck e Kenny envelheceriam enquanto Irene, Raymie e Chloe
continuariam com a mesma idade de quando foram para o céu? E quanto
a Amanda? Ele receava que aquele encontro com sua esposa fosse
constrangedor, mas será que situações desse tipo teriam alguma
importância quando todos estivessem na presença de Jesus?

Por ter estado ocupado demais durante muito tempo, Rayford não
se dera ao luxo de imaginar essa cena. Qual seria a sensação de
presenciar o Glorioso Aparecimento e estar fisicamente com Cristo?
Rayford estava mais emotivo do que quando era jovem. Com freqüência,
a simples lembrança da mudança que Cristo operara em sua vida o
deixava com a voz embargada.

Imaginar o imaculado Filho de Deus se preocupando com ele a
ponto de morrer por seus pecados... ainda era difícil aceitar esse


sacrifício. E como seria maravilhoso ter a oportunidade de agradecer ao
Filho de Deus, adorá-lo face a face. Durante mil anos. E, depois, por toda
a eternidade. Rayford ainda não imaginara como seria o céu.

Pouco antes do amanhecer em Jerusalém, um senhor chamado
Shivte e seus dois filhos, ambos com mais de 40 anos de idade, levaram
Buck e Tsion a casa deles. Os três homens eram fortes, corpulentos e
falavam em voz baixa.

Assim que abriu a porta ao ouvir a batida em código do marido, a
esposa de Shivte empalideceu e quase desmaiou de emoção.

- Louvado seja Deus! Louvado seja Deus! - ela exclamou. - Você é
Tsion Ben-Judá! E vocês!
Ela olhou primeiro para o marido e depois para os filhos.

- Vocês têm o selo de Deus na testa! Será que agora conseguem
ver o meu?
Eles sorriram e confirmaram com um movimento de cabeça,
abraçando-a, um após o outro.

- Não tenho palavras para expressar o meu agradecimento - disse
Tsion. - Nossos pertences desapareceram, e não temos abrigo nem
comida.
- Nós não temos um quarto para lhes oferecer - disse a esposa de
Shivte. - Mas temos cobertores e um pouco de comida.
- O Senhor os recompensará - disse Tsion.
- Ele já recompensou - ela disse. - A recompensa foi ver meu
marido e meus dois filhos entrando por esta porta. É uma honra receber
os servos de Deus em nossa casa.

- Conte-me como foi que a senhora aceitou o Messias - disse
Tsion.
- Miquéias - ela disse, depois de sentar-se pesadamente.
Buck e Tsion se entreolharam.
-Esperei muito tempo para receber a marca de Carpathia. Eu não
queria. Meu marido e meus filhos também não queriam. Eles ficavam
escondidos aqui durante o dia para não serem vistos pela CG. Mas eu
achava que um de nós teria de receber a marca para poder comprar e
vender e nos manter vivos. Eu estava disposta a receber a marca, mas a
idéia de adorar aquela estátua me provocava vômito. Perdoe-me.
- Por favor, prossiga.
- Eu estava no Monte do Templo, planejando levar minha decisão
adiante, mesmo crendo intimamente no verdadeiro Deus. Eu não sabia
mais o que fazer. Preocupava-me com minha alma eterna, mas
acreditava estar entregando minha vida em favor de minha família. Em
meu pensamento, não poderia haver ato mais nobre. Na época, eu não
compreendia que estaria vendendo minha alma ao demônio. Ninguém de
minha família seria merecedor disto.
O marido e os filhos sorriram.

- Naquele dia, rabino, eu estava na fila. Não sei quantas pessoas
tinha entre mim e o aplicador da marca. Mas, ao notar um tumulto por
perto, eu saí da fila. Fiquei em pé atrás da multidão, observando tudo. Vi
os tiros que não mataram o homem de Deus. Voltei correndo para casa, e
estes três homens vão ter de admitir que zombaram de mim. Eles haviam
gostado do plano de um de nós, ou melhor, eu, receber a marca para
podermos comer. Como faríamos dali em diante?
- Eu os aconselhei a saírem na escuridão da noite para procurar
alimento. Eu queria obter mais informações a respeito do homem de

Deus. Um jovem amigo nosso tinha um computador, e descobrimos o seu
site. Foi assim que passei a acreditar que Jesus era o Messias. Fui
desprezada por minha família. Meu marido e meus filhos eram judeus
praticantes a ponto de resistir a Carpathia, mas não estavam preparados
para aceitar o Messias.

- Tentei de tudo, orei, pedi e implorei. Finalmente, concordamos
em não tocar mais no assunto. Eles me deram um ultimato e eu já estava
cansada de ser rejeitada e ridicularizada. Mas eu ainda podia orar. E
Deus responde às orações. Você está aqui, e eles estão aqui, com o selo
de Deus.


Sem conseguir dormir, Rayford resolveu conversar com Buck.
Caminhou pé ante pé até o outro cômodo para não despertar Kenny e fez
a ligação. Depois de perguntar por Kenny, Buck lhe contou as novidades.

- Incrível - disse Rayford. - O que Tsion está dizendo sobre os
próximos acontecimentos?
- Ele espera um ataque antes do alvorecer. Talvez aí também.
- Estamos pensando a mesma coisa, Buck, mas, para nós, essa
luta será em vão.
- Temporariamente, você quer dizer.
- Claro, mas não vejo vantagem em arriscar a vida de tantas
pessoas quando elas poderiam permanecer aqui dentro e...
- ...e aguardar a chegada de Jesus?
-Exatamente.
- Ora, vamos, pai. Quem deseja ficar parado aguardando? Eu
quero que Ele me encontre trabalhando. E você?

- Eu também, mas você deveria estar aqui para ver o número de
pessoas que vão circundar a cidade. Cerca de duas mil, eu calculo. E
também temos Otto e alguns companheiros. Nenhum deles sabe manejar
uma arma. Ree, Ming, Lionel, Hannah e Zeke não são verdadeiros
soldados. Mac, é claro, e Smitty podem cuidar de si mesmos. Não tenho
dúvida alguma quanto a Razor e George. A menos que George tente ser
um herói. Ele é um perfeito militar, Buck. Você precisaria ver o esforço e a
dedicação desse rapaz. Parece que ele acha que seus homens têm o
dever de carregar tudo nas costas. Mas, de repente, ele percebe que tem
poucos soldados de verdade sob seu comando, e seus olhos perdem o
brilho.
-Vocês ainda têm as DEWs, aquelas armas de energia
direcionada, e as calibre 50, certo?
- Temos, mas lutar contra armas nucleares? Ora, nem pensar.
- Façam algum estrago. Vocês precisam retardar o ataque do
inimigo até a cavalaria do Calvário chegar aqui.
-O quê?
- Pensei nisto outro dia. Jesus vai surgir do céu montado,
literalmente, em um cavalo. É o que Tsion diz. Dez mil santos virão com
Ele. A cavalaria do Calvário.
- Você está tendo tempo demais para pensar.
- Ei, Rayford?
-Diga.
- Nós podemos ouvir os exércitos chegando. E vocês?
- A maneira como esta cidade está disposta não permite. Talvez
quando estiverem mais perto. Com certeza poderão ser vistos dos
lugares altos. Sinistro demais. Se eu não ficar sabendo de mais detalhes,
vou dar um jeito de sair daqui.

- Tudo isto é mais ou menos parecido com uma bola que chega
atrasada quando já sabemos o resultado do jogo, você não acha?
- Talvez - disse Rayford. - É o tipo de coisa que só uma mente
como a sua é capaz de imaginar.
-Acho que devo dizer muito obrigado.


Incapaz de dormir, Chang dirigiu-se ao centro de tecnologia e
sentou-se diante de seu computador. Eram mais ou menos quatro horas
da madrugada. Enquanto acompanhava indolentemente a transmissão da
afiliada da CNNCG de Haifa, ele ouviu uma notícia sobre o
desdobramento das tropas.

- O supremo potentado Nicolae Carpathia não fez segredo algum
de sua estratégia - dizia a repórter. - Na verdade, parece que ele sabe
exatamente o que vai acontecer. Conversei com ele ontem à noite em seu
bunker, localizado perto do mar da Galiléia.
- Veja - disse Carpathia -, temos uma vantagem tão espetacular
no que diz respeito a força humana, poder de fogo e tecnologia que não
estamos preocupados com o que vamos encontrar pela frente. Não
escondi de ninguém que temos dois objetivos principais que deverão
atingir a mesma meta. Queremos sitiar a cidade de Jerusalém, onde
reside a maioria dos judeus renitentes. E queremos eliminar Petra de uma
vez por todas. É ali que o tal povo "Remanescente" está escondido,
assustado como criancinhas.
- Eles sabem que estamos chegando. Eles verão nossa chegada,
mas pouco poderão fazer quanto a isso.
-O senhor imagina que não haverá baixas?

- Ah! Sempre há baixas - disse Carpathia, como se estivesse
comovido. - Mas meu povo sente-se honrado em oferecer sua vida a mim
e à Comunidade Global. Todos serão recompensados. É claro que existe
a possibilidade de não haver perda de vidas humanas ou ferimentos em
relação a nosso pessoal. Isto é, desde que o inimigo veja o que tem pela
frente e conclua que não há esperança. Seria prudente que houvesse
uma rendição incondicional, e, evidentemente, eu aceitaria essa rendição
demonstrando o máximo respeito por eles.
- Sério? Que acordos o senhor faria neste caso? Carpathia riu
tanto que não conseguiu responder.


O dia ainda não havia clareado, e Rayford já estava em pé,
vestido e de arma em punho.

Ele abriu a porta antes de Priscilla bater.

- Vou ficar aqui até Kenny acordar, Rayford, se você estiver de
acordo.
- Perfeito. Obrigado, Priss. Fique à vontade.
- Ray? Você tem certeza de que meu marido virá para casa esta
noite?
-Sim, se depender de mim.
- Sua resposta não foi muito convincente.
- Bem, achei que sua pergunta foi séria. A resposta séria é que
não existem garantias. Espero que ele se esforce ao máximo para eu
voltar para casa.
-Ele se sente na obrigação de cuidar de todo mundo - disse
Priscilla, sentando-se.

Rayford parou ao lado da porta aberta.

- É o preço da liderança. Ele se apresentou como voluntário para
esse posto de comando.
-Como se houvesse escolha.
- Para mim, não havia, Priscilla.
- Eu só estava dizendo que...
- Eu sei. Às vezes, um sujeito como eu, tentando vigiar um homem
que sabe o que está fazendo, só serve para atrapalhar. Você sabe, é
claro, que mesmo que...
- Não diga isto, Rayford. Muitas esposas tentam se consolar
dizendo que seus maridos irão para o céu, ficarão um ou dois dias lá,
talvez menos, e depois vão voltar. Isso não ajuda.
-É verdade.
- Eu sei. Mas não é o fato de viver sem ele que me preocupa
neste momento. É vê-lo ferido, sofrendo, morrendo aos poucos.


Buck, Tsion e seus hospedeiros tomaram um café forte e amargo.
Buck nunca havia experimentado um café desse tipo. Lá fora, ainda
estava bastante escuro. A esposa de Shivte começou a chorar baixinho,
tentando disfarçar.

-Cameron -sussurrou Tsion -, eu gostaria que você
acompanhasse Shivte.
- Espere um pouco. Vim até aqui para ser seu guarda-costas, de
ninguém mais.
- Faça-me este favor. Eu me preocupo com ele. A arma desse
homem é muito antiga. Os filhos dele acreditam que os invasores virão do

noroeste e tentarão atravessar a Porta de Damasco.

- Baseados em quê? - perguntou Buck.
- O Exército da Unidade poderia atravessar qualquer uma das
portas, mas a Porta de Jaffa e a Fortaleza estão muito bem guardadas
por inúmeras tropas rebeldes.
- Além disso, eles poderiam tentar arrombar qualquer uma das
portas, e a mais provável, em minha opinião, é a Porta Dourada. A
prioridade deles é o Monte do Templo, não?
- Não sei, Cameron. Só quero que me faça este favor. Leve o
homem à Fortaleza. Assim que ele estiver instalado lá, vá ao meu
encontro. Eu estarei com os outros dois perto da Porta de Damasco.
Buck preferia seguir sua intuição e ir direto à Porta Dourada, mas
estava ali por causa de Tsion, e faria esse favor ao amigo. Ele não sabia
de onde partira o palpite dos dois irmãos. Se dois terços das tropas de
Carpathia estavam se concentrando em Jerusalém, não haveria
necessidade de muitos homens para tomar posse da pequenina Cidade
Velha.

Buck, Tsion e os outros três homens ouviram tiros assim que
atravessaram a porta. Tsion e os irmãos correram para o lado noroeste.
Buck e Shivte, para o oeste. Os rebeldes espalhavam-se por toda parte,
gritando o que sabiam. O inimigo ocupava a Estrada para Jaffa.

A Porta de Damasco estava cercada. O Museu Histórico Yad
Vashem das vítimas do holocausto havia sido destruído. A Universidade
Hebraica, a Biblioteca Universitária e Nacional dos Judeus e o Museu de
Israel ardiam em chamas.

A Cidade Velha seria o próximo alvo.
Havia milhares de pessoas mortas e muitas capturadas. Se os
boatos fossem verdadeiros, Buck sabia que ele e Shivte se encontravam


no pior lugar possível. Em essência, eles estavam encurralados dentro
dos muros da Cidade Velha.

Rayford ficou impressionado com a estratégia de Sebastian,
apesar de ambos saberem que as táticas de nada mais valiam diante de
uma situação tão inusitada.

O terço das tropas de Carpathia destinado a Petra carregava
todos os tipos de armamentos do arsenal do potentado. Uma tropa
montada de, no mínimo, 200 mil homens aproximava-se lentamente pelos
flancos do pequeno exército de Sebastian, cercando completamente a
cidade.

- Tenho poucas DEWs - George disse a Rayford. - Se eu
soubesse que eles iriam iniciar a batalha montados em cavalos, eu teria
pedido a Lionel que me conseguisse mais armas.
-O que os cavalos têm a ver com isso?
- Os cavalos não possuem escudos, e os cavaleiros não têm como
se proteger. Você está vendo a lentidão com que eles estão vindo?
Rayford pegou o binóculo e avistou milhares de cavaleiros
aproximando-se. Eles estavam a um quilômetro e meio das tropas de
Petra.

- Pelo jeito, eles não têm pressa alguma - disse Rayford.
De repente, George pareceu animado.
- Vamos atacar primeiro e ficar em posição privilegiada, pelo
menos temporariamente.
-Como?
- Aqueles cavalos são treinados para não se assustar com tiroteio.

Poderíamos fazer alguns disparos com as armas calibre 50 na direção
deles para provocar um pequeno tumulto. Talvez derrubar alguns cavalos
e alguns cavaleiros. Mas aposto que eles ainda não aprenderam a lidar
com uma DEW. Você está pronto para entrar em ação?

-Claro.
- Tenho apenas cem DEWs, mas fui esperto o suficiente para
entregá-las ao pessoal que está cercando a cidade. Preciso que elas
fiquem espalhadas em intervalos regulares, contornando todo o topo da
cidade. Você pode cuidar disto?
- Sem dúvida. E depois?
- Diga ao pessoal que aguarde meu comando. Se dispararmos as
DEWs e conseguirmos atingir um lugar qualquer próximo a cem cavalos
ou cavaleiros, vamos provocar uma debandada. Os cavalos ficarão
desnorteados por uns tempos.
-Brilhante.
- Só se funcionar. O problema é que temos de fazer isso antes
que eles saibam realmente onde estamos. Podemos pôr esses homens
para correr para que eles vejam como é bom ter alguém no calcanhar
deles.


Buck acomodou Shivte dentro da Fortaleza repleta de gente, onde
muitos jovens assustados também haviam decidido esconder-se. Buck
ouvia o que se passava na Estrada para Jaffa, mas os invasores não
tomaram conhecimento da Porta de Jaffa pelo mesmo motivo que ele
havia imaginado. Por que ter trabalho dobrado?

Pelos cálculos de Buck, a Porta de Damasco localizava-se a uns


400 metros dali. Essa distância talvez parecesse mais longa em razão da
dificuldade que ele encontraria para atravessar a aglomeração de
rebeldes assustados e furiosos. E, evidentemente, ele perdera Tsion e os
dois irmãos de vista.

- Senhor, vem rápido.


Rayford pegou rapidamente um veículo de tração nas quatro
rodas, especial para rodar em terrenos acidentados, e se dirigiu ao lugar
alto mais próximo. Apesar de estar motorizado e munido de um walkietalkie,
ele levou quase meia hora para espalhar, em intervalos regulares,
as cem DEWs entre os combatentes.

Assim que George expedisse a ordem, eles disparariam feixes
invisíveis de energia direcionada contra o inimigo. Esses feixes tinham o
poder de esquentar o tecido macio do corpo, além do ponto de tolerância,
em menos de um segundo. E se o cavaleiro ou o cavalo não se desviasse
do feixe, ficaria com o corpo queimado.

Pelo fato de Petra estar cercada por duas brigadas de tropas
montadas, os disparos das DEWs provocariam uma enorme confusão e
desnorteariam o inimigo. A estratégia era atingir apenas os cavalos. Eles
fugiriam em disparada, levando os outros cavalos a fazerem o mesmo.

Não havia dúvida de que alguns cavaleiros seriam atingidos,
principalmente nas pernas. A reação deles seria espernear e fugir dali
também. Se o feixe atingisse o corpo do cavaleiro, ele gritaria e soltaria
as rédeas. George era um gênio, pensou Rayford.


- A Porta do Monturo está cedendo! - gritou alguém. - Vamos
matar essa gente do Exército Mundial Um!
Buck orou para que isso não fosse verdade. A Porta do Monturo
era a porta do sul mais próxima do lado ocidental do Muro. Era o caminho
mais longo para se chegar ao Monte do Templo, e foi por isso que Buck
supôs que a Porta Dourada, no lado leste, seria a primeira escolha do
Exército da Unidade. Se o exército atravessasse a Porta do Monturo,
poderia tentar destruir o Muro das Lamentações, para conseguir o
objetivo desejado.

Impossibilitado de falar com Tsion por telefone e sem condições
de encontrá-lo sozinho ou com os irmãos na Porta de Damasco - que, no
momento, parecia estar cercada -, Buck correu em direção à Porta do
Monturo, que ficava a um quilômetro e meio de distância.

Ao longo do caminho, ele ouviu boatos e palavras de medo. Se
parte daquilo fosse verdade, não demoraria muito para que metade da
grande cidade de Jerusalém fosse sitiada. Seu objetivo era permanecer
vivo até a chegada das pessoas do bem.

Rayford calculou que faltava pouco menos de 15 minutos para o
sol despontar em Petra quando ele informou George que as armas de
energia direcionada estavam em seus respectivos lugares e aguardando
sua ordem.

- Antes de iniciarmos, quero ter certeza de que os alvos estão
onde eu gostaria que estivessem - disse George.
- Só existe um meio de fazer isso com a rapidez de que você

necessita - disse Rayford.

- Com um veículo de tração nas quatro rodas?
- O percurso é longo demais. Vai ser necessário contornar o
perímetro inteiro, pelo alto.
-Helicóptero?
-Acertou!
-Se você quiser arriscar.
- Eles não vão acreditar que somos nós - disse George. - Quem
seria tão idiota a ponto de se expor desta maneira?
-Você.


Buck havia corrido uns 800 metros e ofegava quando avistou as
tropas do Exército da Unidade de Carpathia chegando pelo outro lado.
Agora, ele estava desesperado para encontrar Tsion e tirá-lo da Cidade
Velha.

Os rebeldes, alguns atirando por cima dos ombros, passaram
correndo por ele, tentando escapar com vida, mas Buck notou que os
homens da CG não estavam disparando suas armas. Eles movimentavam
um colossal aríete que, aparentemente, derrubaria com facilidade o Muro
das Lamentações.

Aquilo seria uma tragédia. Como um local sagrado como aquele,
destinado a orações durante milênios, poderia ser destruído em tão pouco
tempo?

De repente, todos os rebeldes que passaram correndo por Buck
retornaram. Seus gritos ecoavam:

- O Muro das Lamentações não! O Muro não! Vocês é que devem

ser sacrificados! Lutaremos até a morte!

A notícia se espalhou pelo Bairro Judeu e pelo centro da Cidade
Velha. Em pouco tempo, as centenas de pessoas transformaram-se em
milhares.

Buck juntou-se ao grupo de rebeldes. Eles acusavam a CG,
disparavam armas, atiravam pedras, lutavam corpo a corpo. Conseguiram
dominar o pessoal que movimentava o aríete e correram de volta à Porta
do Monturo.

Com a chegada de mais rebeldes, os judeus afugentaram o
Exército da Unidade, pelo menos durante aquele breve entrevero.
Passaram o aríete por cima da Porta do Monturo, acossaram o exército e
conseguiram fechar a porta com o aríete do lado de dentro.

Os gritos de alegria aumentaram da mesma forma que crescia a
confiança dos rebeldes. Um grande grupo foi designado para guardar a
porta, ao passo que outros foram enviados para a Porta Dourada e a
Porta do Leão, no lado leste.

O celular de Buck soou.

- Tsion! Onde você está? Tentei falar com você!
- Meu telefone quebrou. Estou usando um emprestado. É verdade
que os rebeldes afugentaram o exército da Porta do Monturo?
- Sim! Estou aqui agora! Onde vamos nos encontrar?
- Você conhece a Igreja da Flagelação?
-Perto do Bairro Muçulmano?
- Sim, a oeste daí! - disse Tsion. - Rápido! Eu me perdi dos dois
irmãos.

- Você sabe que sempre fomos protegidos no espaço aéreo ao
redor daqui - disse Rayford, assim que começou a levantar vôo com o
helicóptero.
- Prefiro não testar - disse Sebastian. - Só quero que você suba
reto para que eu tenha uma visão de 360° e possa ver se os cavalos
estão no lugar que eu quero. Em seguida, desça reto.
-Oh, não! - exclamou Rayford. - Está vindo!
-O quê?
Um míssil estava riscando o céu na direção do helicóptero.
Rayford procurou desviar, mesmo sabendo que de nada adiantaria. Os
helicópteros não tinham mobilidade nem velocidade para esquivar-se de
um míssil.

-Minha idéia não deu certo, George. Sinto muito.
- Fique longe da cidade, Ray!
Rayford havia tido a idéia de descer em um lugar alto, mas se o
míssil o seguisse, poderia machucar ou matar mais pessoas além deles
dois.

Ele inclinou o helicóptero e sobrevoou o local onde as tropas de
Petra estavam posicionadas, mas aquilo só serviu para que ele ficasse
frente a frente com o míssil.

- Sinto muito, Priscilla - Rayford murmurou, fechando os olhos
quando a ogiva foi de encontro ao helicóptero.


Buck não entendeu como conseguiu chegar ao local de encontro
antes de Tsion, apesar da diferença de idade entre eles. Buck calculou
que Tsion devia estar a uma distância duas vezes menor que a dele.


Entrou na igreja lotada, mas nada de Tsion. Aquilo estava se tornando
cansativo.

-Porta de Herodes! - gritou alguém.
Centenas de rebeldes dirigiram-se à porta no extremo norte da
cidade. Era impressionante ver a indignação nos olhos deles quando seus
antigos lugares santos eram ameaçados. Tsion devia estar lá. Buck não
conseguiu pensar em outra opção.

A Porta de Herodes ficava a uns 200 metros da igreja, mas, desta
vez, não havia correria. Buck se viu pressionado por todos os lados pelos
rebeldes. Talvez fosse melhor assim. Ele estava exausto e seu pulso
batia de maneira incontrolável.

Não tinha meios de ligar para Tsion, porque o telefone do rabino
não estava funcionando. A única coisa que ele poderia fazer era dobrar
os joelhos de vez em quando e dar um salto para conseguir enxergar por
cima da multidão.

Porém, quando avistou Tsion Ben-Judá, ele não gostou da
situação em que o rabino se encontrava.

VINTE E UM

O helicóptero sacudiu e continuou na rota.

- Pensei que fôssemos morrer - disse Rayford. - Eu nunca me
acostumo a isto.
-Para onde ia aquele míssil?
- Em nossa direção, como é normal.
-Não vejo nada de normal nisto - disse Sebastian. Ele
esquadrinhou o horizonte. - Veja lá!

Rayford avistou uma coluna de fumaça preta a cerca de um
quilômetro e meio ao sul de Petra.

- Eles devem ter atingido o próprio pessoal! - disse George,
pegando seu rádio. - Cão Grande 1 chamando perímetro sul, câmbio.
- Aqui é Mac, Cão. O que foi aquilo?
- Não nos atingiu. Qual foi o estrago?
- Encontramos um dos carros de transporte deles um pouco
adiante da fileira de cavalos. Deve ter havido algumas baixas. Eles
parecem bastante preocupados.
- Espere até eles descobrirem que foram atingidos pelo fogo
amigo. Atenção todos os operadores das DEWs! Abram fogo
imediatamente! - George ordenou.
Em questão de segundos o círculo negro formado por cavalos e
cavaleiros ao redor de Petra se desintegrou, e os animais dispararam em
todas as direções.

- Uma verdadeira obra-prima, George - disse Rayford. - Excelente.
- A carne daqueles cavalos deve ter ficado bem passada. Ei, Ray,
será que eu ouvi você mencionar o nome de minha mulher quando a
ogiva estava vindo de encontro a nós?
-Sentimento de culpa.
- Como assim?
- Eu disse a ela que tomaria conta de você na medida do possível.
- A idéia de tomar conta de mim foi sua?
- Na medida do possível. Que tal levantarmos vôo novamente para
ver se eles atiram em nós mais uma vez? Quem sabe vamos poder pegar
um pouco de munição do pessoal do outro lado?
- Não achei graça, Rayford.


Todas as vezes que Buck saltava na tentativa de localizar Tsion,
ele via o rabino sendo levado nos ombros dos zelotes. Ele queria gritar
para que eles o colocassem no chão, mas ninguém o ouviria no meio
daquele tumulto. O que estavam planejando fazer? Conduzi-lo à morte?

Talvez o considerassem um herói ou estivessem imaginando que,
se conseguissem colocá-lo diante da massa humana, Tsion poderia
transmitir ânimo às tropas. De qualquer forma, isso era uma loucura.

Buck abaixou o corpo e forçou o caminho com os ombros até
chegar mais perto de Tsion.

- Ei! - ele gritou. - Ei! Coloquem o rabino no chão!
- Ele nos conduzirá à vitória!
-Ele é nosso líder!
- Vejam, ele está sob minha responsabilidade, e vocês vão
conduzi-lo à morte!
Buck agarrou o tornozelo de Tsion, o que forçou os homens a
reduzirem o ritmo dos passos. Eles soltaram Tsion, e o rabino começou a
cair de cabeça no chão. Buck mergulhou por baixo dele para suavizar a
queda, e agora ambos estavam sendo pisoteados.

No entanto, isso foi providencial, porque as tropas do Exército da
Unidade haviam escalado o muro acima do Portão de Herodes e abriam
fogo. Os rebeldes caíram ao redor de Tsion e Buck, batendo a cabeça no
chão e espirrando sangue por todos os lados.

Buck passou os braços ao redor da cabeça de Tsion e protegeu a
sua, à espera do tiroteio. Ao ouvir o zunido de balas ricocheteando e a
explosão do pavimento a seu redor, Buck preparou-se para receber os
tiros mortais que atingiriam a cabeça, o pescoço ou a espinha deles.


Mas eles foram poupados.

Quando o tiroteio cessou, Buck arrastou Tsion pelos pés até o
legendário tanque de Betesda, onde muitas pessoas foram curadas.

- Eu não fui atingido, Cameron! Não preciso ser curado!
Mesmo a poucos milímetros da morte, o rabino ainda conseguia
brincar.

Rayford e George pousaram o helicóptero, pegaram o veículo de
tração nas quatro rodas e estavam se dirigindo a toda velocidade ao
posto de comando de George.

-Eles vão revidar - disse Rayford.
- De que forma? E o que vamos fazer?
- Eles devem ter uma série de lançadores de morteiros. Quero ver
se os cavaleiros vão conseguir convencer os cavalos a retornarem. Se
não conseguirem, será o caos. O segredo é mantê-los fora do Siq. Não
quero ver nenhum deles entrando neste lugar.
-Você deve estar achando que Carpathia aprendeu a lição.
Imagine quanto dinheiro ele gastou para vir nos pegar aqui - disse
Rayford.
- É verdade, mas todo comandante militar pensa que é melhor que
qualquer outro, portanto o comandante desta ofensiva vai ter de aprender
por conta própria.
- As DEWs e o míssil deveriam ter ensinado alguma coisa a ele.
- Deveriam - disse George. - Mas garanto que ele vai tentar de
tudo antes de desistir.
- Qual seria a estratégia mais consistente que eles usariam contra

nós?

- Um número muito grande de homens. Quando eles começarem
a vir para cá, vamos ter de nos proteger dentro da cidade.
- Onde temos sido protegidos até agora.
- É verdade. Mas bater em retirada não faz parte de meus planos
de guerra. Deus nos protegeu daquele míssil, mas você não achou
divertido atacar aquela gente com as armas de energia direcionada?


Uma jovem acenava freneticamente da entrada de uma pequena
gruta perto dos tanques. Buck levou Tsion até ela.

- Aqui há espaço para mais duas pessoas - ela disse. Enquanto
eles entravam na gruta, Buck ouviu vozes de umas 20 pessoas lá dentro.
-É o rabino? - alguém perguntou.
- Estou aqui - disse Tsion.
-Louvado seja Deus. Quando o Messias virá?
- Na verdade, eu esperava que Ele tivesse chegado cinco minutos
atrás. Ou talvez seja melhor dizer que Ele devia estar me esperando.
- Quero acreditar que Ele está vindo para nos resgatar.
- Sim, desde que vocês estejam preparados - disse Tsion.
- Eu estou. Quero estar vivo quando Ele chegar.
- Eu também - disse Tsion. - Mas nós não escolhemos o melhor
lugar para estar vivos, não?
- Que história é esta do Messias? - alguém resmungou.
-Faz séculos que estamos esperando que Ele venha nos
resgatar.
Tsion começou a doutrinar aquelas pessoas o mais rápido que


podia. Três homens aterrorizados e a jovem oraram para aceitar Jesus
como o Messias, mas o cético não orou.

- Só vou acreditar - ele disse - quando Ele vier.
- Bem-aventurados aqueles que não viram e creram - disse Tsion.
O tiroteio cessou repentinamente. Buck espiou por trás da jovem.
O que estava acontecendo? Será que o Messias havia retornado para
salvá-los?

Os homens mais moços saíram correndo, gritando:

- Nós vencemos! Nós vencemos! Eles estão batendo em retirada!
As portas estão livres!
- Esperem! É uma armadilha! Não acreditem nisto! Eles estão se
reagrupando!
Os companheiros de Buck e Tsion se amontoaram, olhando ao
redor, com as armas em punho.

- Não estou gostando disto - um deles disse. - Eles têm bombas
que podem nos destruir. O que estão fazendo?
-Brincando conosco.
- Devíamos partir para a ofensiva! Abram as portas e ataquem!
Vamos matá-los enquanto estão se retirando.
- Eles não estão se retirando. É uma armadilha. Eles querem que
a gente abra as portas. Devemos nos reagrupar enquanto eles também
estão se reagrupando. Vamos ficar preparados.


A calmaria também tomara conta de Petra, e Rayford recebeu
uma ligação de Mac McCullum.

- Você e Razor poderiam abrir mão de minha presença por alguns

instantes, George? - perguntou Rayford. - Mac quer que eu vá até lá para
ver uma coisa.

Usando o veículo de tração nas quatro horas, Rayford levou meia
hora para chegar lá. Mac estava estudando o inimigo através de um
binóculo possante.

- Você sabia que eles estão nos vendo, Ray, da mesma forma que
podemos vê-los? O que estão esperando?
Mac entregou o binóculo a Rayford e disse:

-Parece que eles conseguiram controlar a maioria dos cavalos.
Deve ter havido uma enorme confusão lá. E eu sei, Ray, que nossas
DEWs causaram a debandada. Mas por que eles estão andando em
ziguezague? Não consigo entender.
Rayford analisou o inimigo a distância. Os cavalos estavam
agitados por causa das queimaduras. Aparentemente, os cavaleiros não
conseguiam controlar os animais.

-Isto me faz lembrar um versículo, Ray. Um que Tsion nos
ensinou. Como era mesmo?
- Eu não me lembro. Quer perguntar a ele? Eu preciso mesmo
saber como ele e Buck estão.


O silêncio era mais que sepulcral. Buck e Tsion aproximaram-se
do muro perto da Porta de Herodes. Buck atendeu ao telefone e passou-o
a Tsion.

- Sim, aqui também - disse Tsion. - Tenho um estranho
pressentimento de que se trata de uma calmaria antes da tempestade.
Cavalos? Sim. Em Zacarias 12.4 está escrito: "Naquele dia, diz o

SENHOR, ferirei de espanto a todos os cavalos e de loucura os que os
montam; sobre a casa de Judá abrirei os olhos e ferirei de cegueira todos
os cavalos dos povos." Saiba, Mac, que está acontecendo o mesmo aqui.

Assim que Tsion desligou o telefone, o povo quis saber com quem
ele havia conversado. Ele lhes contou.

- Vamos verificar - disse um deles. - O rabino acredita que o
Exército da Unidade está cego ou louco.
- Pode ser - disse Tsion. - É a única explicação que encontrei para
o que está acontecendo.
Alguns jovens se apoiaram uns nos outros e começaram a subir.
Dois chegaram ao topo do muro.

- Não estou vendo nada! Acho que eles se esconderam.
- Rabino! Queremos que o senhor continue a nos doutrinar.
Buck olhou para Tsion, que encolheu os ombros.
- Foi para isto que vim. Se eles querem ouvir, quero pregar.
Assim que ele começou a falar, os curiosos se aglomeraram
novamente. E, enquanto observava e ouvia, Buck emocionou-se ao
pensar no privilégio de estar ali naquele momento. A sensação era a de
que ele veria Jesus a qualquer momento. E Chloe.
Ouvir o homem de Deus falar na cidade de Deus e no tempo de Deus -
que privilégio indescritível. Assustado? Claro que ele estava. Querendo
saber se Jesus viria realmente, conforme Ele prometeu? Sem sombra de
dúvida. Buck não conseguia esperar. Ele não podia esperar.

Quando retornou para o lugar onde George se encontrava,
Rayford não tinha idéias para apresentar.


- Não me pergunte - ele disse. - Se você quiser disparar as armas
calibre 50, dispare.
- Eu sei que poderíamos matar cavalos e homens desta distância
e tirar alguns veículos deles de circulação - disse George. - Mas sei
também que eles abririam fogo contra nós. Não estou preocupado com a
parte interna da cidade. Acho que estamos muito vulneráveis aqui fora no
perímetro.
- De que adianta partir para a ofensiva quando sabemos que não
podemos vencer?
- Concordo. Mas detesto ficar parado aqui, esperando as coisas
acontecerem. Precisamos fazer alguma coisa.
- Dispare uma ou duas 50. Muita coisa vai acontecer.


Um dos jovens que estavam no muro interrompeu Tsion aos
gritos.

- Eles estão segurando um megafone enorme. Talvez queiram
negociar.
- Não queremos negociar com o demônio - disse Tsion, e o povo
deu uma gargalhada.
- Talvez ele esteja propondo uma trégua!
- Uma trégua - disse Tsion - é digna do caráter do homem que se
senta do outro lado da mesa.
- Atenção, povo de Jerusalém! Quem fala é seu supremo
potentado!
- Uuuh! Uuuh! Nosso único potentado é o Deus de Israel!
- Silêncio! Ouçam o que ele tem a dizer!

- Por favor, cidadãos, ouçam. Eu venho em paz.
- Não! Você vem com armas!
- Ora, vamos raciocinar juntos!
- Ouçam! Silêncio! Prestem atenção ao que ele vai dizer!
- Eu vim oferecer perdão. Estou disposto a assumir um
compromisso. Não desejo nenhum mal a vocês. Se estiverem dispostos a
me servir e ser obedientes a mim, comerão os frutos bons da terra; mas
se vocês se recusarem e se rebelarem, serão devorados pela espada. Eu
me livrarei de meus adversários e me vingarei de meus inimigos.
Estenderei minha mão contra vocês e os expurgarei completamente.
- Mas não precisa ser assim, cidadãos da Comunidade Global. Se
abaixarem as armas e me acolherem em sua cidade, garanto-lhes paz e
segurança.
- Este será o sinal de vocês para mim. Se depois de contar até
três, ninguém disser nada durante 15 segundos, vou entender que vocês
estão dispostos a atender aos meus pedidos. Um único tiro para o ar
durante esse período será o sinal de que vocês se opõem a mim. Mas eu
os advirto, metade de Jerusalém já está sitiada. A cidade inteira poderá
ser destruída facilmente na próxima hora. A escolha é de vocês. Vou
contar até três.
Antes que Carpathia dissesse o primeiro número, milhares de tiros
foram disparados para o ar, inclusive pelas armas de Buck e Tsion.

A tentativa do inimigo de controlar os cavalos e cercar Petra não
estava funcionando. Rayford postou-se na beira de um precipício e
observou através do binóculo que um número cada vez maior de veículos


da Unidade estava se preparando para o combate.

No horizonte, só se via poeira e fumaça, e a enorme quantidade
de munições e equipamentos parecia uma volumosa massa agitada e
negra, tomando conta de sua visão e escoando-se lentamente diante dele
como se fosse a lava de um vulcão.

- Vou permitir que eles avancem somente até esse ponto - disse
George. - Depois, voltaremos a atacar com as DEWs e as calibre 50.
- Parece que vamos impedir a chegada de uma onda gigantesca
com tacos de beisebol - disse Rayford.


Quando os tiros cessaram em Jerusalém, o silêncio sinistro
retornou. O Exército da Unidade Mundial Um não atacou imediatamente,
mas Buck gostaria que isso tivesse acontecido. A tranqüilidade era
inquietante.

Ele temia que o próximo som fosse o ronco de um trem cargueiro
que as vítimas dos tornados sempre mencionam, só que dessa vez seria

o prenúncio da chegada de uma imensidão de saqueadores que faria
Jerusalém virar pó.
Mas se isso fosse necessário para prenunciar a chegada de
Jesus, bem... que viesse.
O fato estranho era que o povo queria ouvir cada vez mais as
palavras de Tsion. Buck ficou impressionado com a disposição do rabino.

- Não é tarde demais! - gritou Tsion. - Aceitem o Messias já!
Arrependam-se e serão salvos!
Muitos fizeram isso.

Agora, até mesmo Sebastian parecia alarmado. O exército de
cavalos, homens e armamentos que avançava em direção a Petra era
grande demais. À medida que se espalhava, se separava e se ajuntava
novamente, ele formava uma muralha, impedindo que se visse o
horizonte, a areia do deserto, as pedras.

Parecia que uma nuvem de gafanhotos estava tapando a luz do
sol. Nenhum ser humano teria imaginado a magnitude do exército do
inimigo. Eles haviam conseguido reagrupar-se, vencer a loucura e a
cegueira, livrar-se da estagnação. E continuavam avançando.

Eles se espalharam e contornaram a cidade inteira de Petra,
preenchendo lentamente cada espaço até onde a vista podia alcançar.
Embora as linhas de frente ainda estivessem cerca de um quilômetro e
meio do perímetro, o imenso exército parecia não ter fim.

Era impossível enxergar onde terminavam aquelas colunas e mais
colunas, formadas por milhões de homens, cavalos e equipamentos que
continuavam a aproximar-se cada vez mais.

E quando eles se posicionaram nos lugares certos, simplesmente
pararam e aguardaram. Ninguém entendeu por quê. Porém, mesmo
quando estavam parados, não havia espaço algum entre eles, nenhuma
abertura naquele exército sem fim.

- Aquilo, Rayford - disse Sebastian - é apenas uma parte do
exército deles. Se disparássemos todos os projéteis de nossas armas e
todos eles fossem fatais, não abriríamos espaço algum naquela fortaleza.
- O que você acha de aproximarmos deles a uma distância de uns
800 metros para ver se conseguimos fumar o cachimbo da paz com
alguém?

- Você anda vendo TV demais, capitão.
- Falando sério, que tal dispararmos mais uma seqüência de
feixes direcionados? Quem sabe conseguimos afugentá-los por algum
tempo.
- Se eu achasse que eles cairiam como pedras de dominó, até
poderia concordar. A verdade é que eles não têm espaço para recuar,
porque colidiriam com as próprias tropas. Você acha que podemos pôr
milhões para correr?
Rayford meneou a cabeça negativamente.

- Eu não me importo com o que poderia acontecer a eles. Talvez
eles não estejam muito ansiosos por aproximar-se de nós.
- Mas, Ray, o número deles é grande demais.


Tsion ainda estava falando quando um som semelhante ao de
uma bomba sacudiu a área, e o povo espalhou-se à procura de proteção.

Em instantes chegou a notícia de que um segundo aríete havia
penetrado na Cidade Velha. Desta vez, o Exército da Unidade desistira de
atacar as portas e destruíra o muro nordeste da Cidade Velha, mais ou
menos no meio do caminho entre a Porta do Leão e o ângulo nordeste.

Centenas de judeus rebeldes correram em direção ao local. Para
espanto de Buck, Tsion correu atrás deles, sem sequer argumentar. Buck
não teve escolha a não ser acompanhá-los e correu atrás de Tsion no
meio do tumulto.

Quando o alcançou, a batalha estava no auge, mas,
surpreendentemente, os judeus pareciam ter adquirido o domínio mais
uma vez. Eles estavam fazendo o exército recuar, e o combate corpo a


corpo para tomar posse do aríete quase foi vencido pelos rebeldes
novamente.

No momento em que eles estavam acossando o exército contra o
muro, vários homens da linha de frente da Unidade viraram-se e abriram
fogo com armas automáticas e super-potentes, um lançador de granadas
e algo que, para Buck, parecia uma bazuca.

Ele se juntou ao grupo de rebeldes para contra-atacar, e a invasão
foi brevemente dominada. Mas ele ficou horrorizado ao ver mais de cem
israelenses mortos ou feridos a sua volta. Talvez ele próprio tivesse
chegado perto demais do tiroteio.

O buraco no muro parecia ser seguro o suficiente naquele
momento, portanto Buck virou-se para pegar Tsion e levá-lo de volta ao
tanque de Betesda. O rabino, porém, estava ajoelhado desajeitadamente,
com os pés embaixo do corpo. Sua Uzi havia escorregado do ombro e
ficou dependurada. A tira estava perto de seu cotovelo.

Buck segurou o ombro da jaqueta de Tsion para ajudá-lo a
levantar-se, mas quando o puxou, o rabino rolou sobre um dos joelhos e
caiu no chão.

-Tsion! Levante-se! Precisamos ir!
Mas Tsion já não era o mesmo.
- Você está bem? - interpelou Buck, virando o rosto de Tsion de
frente para ele.
-Acho que não, amigo.
-Você foi atingido?
- Receio que sim.
-Onde?
-Não tenho certeza.
- Você é capaz de movimentar-se?

-Não.
- Posso ajudá-lo?
- Por favor. Tente.
Buck não teve tempo de pensar em ser delicado. Pegou a arma de
Tsion e prendeu-a no ombro esquerdo. Em seguida, posicionou-se atrás
da cabeça do rabino e passou as duas mãos sob os braços dele.

Conseguiu levantá-lo e foi andando de costas, arrastando o amigo
pelas ruas. Felizmente, o tiroteio havia cessado, pelo menos
temporariamente.

Buck sentiu cãibras depois de arrastar Tsion por cerca de 200
metros, mas não queria parar enquanto eles não estivessem em
segurança naquela pequena gruta no tanque de Betesda.

Continuou a olhar para trás tentando ver se o caminho estava
livre, mas quando voltou a virar a cabeça, viu um espesso rastro de
sangue deixado por Tsion.

Buck parou para descansar e verificar as condições de Tsion.
Abriu a jaqueta do rabino e viu de onde o sangue jorrava. Se Tsion
tivesse sido baleado no coração, já estaria morto. Mas perdera muito
sangue, que escorria perto do esterno, pela barriga, sob a jaqueta, pelas
pernas e pela rua.

Tsion estava pálido, e seus olhos teimavam em querer virar para
trás. Buck aproximou-se e ouviu sua respiração fraca.

- Não me abandone, amigo - Buck disse.
- Deixe-me partir, Cameron. Encontre um abrigo. É triste demais
morrer nas ruas de minha amada cidade.
- Você não vai morrer, Tsion. Vai viver para ver a vitória, está
certo?
-Eu gostaria.

-Não basta querer! Coopere comigo!
Buck tirou a jaqueta e a camisa, enrolou a camisa e a enfiou no
ferimento. O orifício era quase do tamanho da mão fechada de Buck.

- Preciso levá-lo até o abrigo - ele disse. - Você agüenta ser
arrastado mais alguns metros?
- Não estou sentindo mais nada, Cameron. Vá sozinho. Por favor.
- Não vou deixá-lo aqui.
- Vamos, vamos. Não vou ficar aqui por muito tempo. Nós dois
sabemos disto.
-Vou levá-lo ao abrigo.
-Não faça isto por mim.
- Estou fazendo por mim.
Buck sabia que de nada adiantaria. A camisa saltou para fora,
deixando espirrar uma golfada de sangue. Tsion gemia. A vida dele
parecia estar se esvaindo. Seus olhos estavam úmidos e sem brilho, e os
lábios, azuis. Seu corpo começou a tremer.

Buck conseguiu levá-lo ao abrigo e procurou estancar o sangue
novamente, mas Tsion fez um movimento fraco com as mãos em sua
direção. Finalmente, conseguiu segurar uma das mãos de Buck e puxou-

o para perto de si.
- Não faça mais nada. Por favor. É tarde demais.
-Eu não quero que você morra aqui, Tsion!
-Aproxime-se de mim - ele murmurou. - Preste atenção.
Agora a voz dele estava rouca, e as palavras eram sussurradas
entre uma respiração entrecortada e outra.

- Eu posso repetir... as palavras de Paulo: "Quanto a mim... estou
sendo já oferecido por libação... e o tempo da minha partida é chegado...
Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé... Já agora... a

coroa da justiça... me está guardada... a qual o Senhor... reto juiz, me
dará naquele Dia; e não somente a mim... mas também a todos quantos
amam a sua vinda" (2 Tm 4.6,7,8).

- Tsion, não! Não me abandone!
- Cameron... por causa de Jesus... minha esposa e filhos... para
sempr...


Sebastian havia ordenado outra seqüência de disparos com as
DEWs, e Rayford teve de admitir que foi bom demais ver a linha de frente
do exército invasor recuar por causa da dor intensa que sentia. O efeito
pôde ser visto a quilômetros de distância.

Razor deixara as armas calibre 50 preparadas para a
eventualidade de um contra-ataque, o que não ocorreu. Aquilo só serviu
para tornar a situação mais estranha ainda. A cidade de refúgio, que
abrigava um milhão de pessoas, assemelhava-se a uma ervilha no meio
de um oceano de inimigos que pareciam aguardar para esmagá-la.

O celular de Rayford soou, e no visor apareceu o nome de Buck.

-Pode falar.
Buck disse com voz rouca: - Ele se foi.
-Tsion?
- Atingido no peito. Não pude fazer nada.
- Você precisa voltar para cá, Buck. Vamos enviar alguém até aí.
- Ninguém conseguirá entrar aqui, e não posso abandonar Tsion.
- Buck! Pense um pouco. Ele está morto. Detesto isto, mas,
conforme você mesmo disse, não havia mais nada a fazer. E, agora,
muito menos.

- Ninguém pode entrar aqui, e não tenho como sair.
- Você está bem?
- Eu não imaginava que isto pudesse acontecer, francamente.
- Fique com o celular à mão. Não podemos cometer tolice alguma
agora. Estamos muito perto do fim.


Buck cruzou os pés de Tsion na altura dos tornozelos. Fechou a
jaqueta sobre o ferimento mortal e juntou as mãos de Tsion, entrelaçando
seus dedos em cima do peito. Alisou o cabelo do rabino, fechou-lhe os
olhos e fitou seu rosto pela última vez.

- Você quase conseguiu, amigo - ele disse.
Em seguida, cobriu o tronco e o rosto de Tsion com a própria
jaqueta.
Empunhando as duas Uzis, ele se dirigiu para a Porta de Herodes,
onde dois jovens rebeldes pareciam estar levando vantagem. Não era o
lugar mais seguro, e ele não estava seguindo o conselho de Rayford para
não cometer nenhuma tolice. Mas Buck não sabia o que fazer.

Mac estava ao telefone do lado de fora da cidade.

- Rayford, se eu pedir a Sebastian que empreste você para nós,
será que ele vai concordar?
- Provavelmente ele vai ficar feliz por se ver livre de mim. Vou
perguntar a ele.
-Para quê? - perguntou Sebastian.

-Mac! Sebastian quer saber para quê.
-Não quero dizer.
- Esta não é uma resposta que ele vai aceitar. Você sabe disto.
-Devo dizer a verdade a ele?
- A verdade nunca dói.
Mac sussurrou:
- Preciso conversar com alguém. Smitty está a uns 200 metros a
oeste daqui, e Otto está me deixando maluco. Além do mais, falo sério,
poderíamos fazer uso de nosso efetivo aqui. Por exemplo, eu poderia
usar um veículo de tração nas quatro rodas para verificar minhas tropas,
do leste e do oeste. Há muito mais tropas de Carpathia aí do que temos
aqui?
- O número delas é infinito, Mac.
- Estou confiando que Jesus chegará logo. Mas, nesse meio-
tempo, você poderia vir até aqui?
VINTE E DOIS

Chegar ao topo do muro da Cidade Velha, especialmente pela
Porta de Herodes, não era tarefa fácil. Buck não se sentia velho, mas os
dois rebeldes que chegaram antes dele eram, no mínimo, 15 anos mais
jovens. Os dois fizeram um movimento afirmativo com a cabeça em sua
direção e apontaram para um local ao longe.

As tropas do Exército da Unidade estavam se ajuntando na
Estrada para Jericó, na Estrada para Suleiman e no jardim onde, segundo
a tradição, localiza-se o túmulo de Jesus. Os soldados da infantaria
enfileiravam-se até onde a vista de Buck podia alcançar - desde o Museu


Rockefeller à sua direita, passando pela Igreja de Santo Estêvão, depois
pelo jardim, chegando até Hel Ha Handasa.

Buck e os dois rebeldes estavam plenamente visíveis, mas o
inimigo parecia satisfeito por permitir que eles permanecessem ali. Buck
gostaria de saber se Cristo retornaria apenas quando o cerco à cidade
estivesse no limite máximo ou se Ele surgiria a qualquer momento. Sua
esperança era que o povo Remanescente em Petra só tomasse
conhecimento da morte de Tsion depois do Glorioso Aparecimento.

Ele se preocupava com as tropas enfileiradas atrás do Museu
Rockefeller. Pareciam mais tranqüilas, mais furtivas que as outras. E
eram mais difíceis de ser vistas. Ele detectou movimento, mas não havia
agitação. Seria necessário prestar atenção àquela área.

Buck olhou para cima. Ele esperava que, quando Jesus chegasse,
uma nuvem cobriria o céu, o sol escureceria e a terra entraria em
polvorosa.

Tudo aquilo poderia acontecer em um piscar de olhos, e quando
Buck começou a concentrar-se no assunto, a atmosfera parecia prestes a
estalar de tensão.

- Vá em frente - disse Sebastian a Rayford - e segure a mãozinha
de Mac. Às vezes, ele parece uma pessoa rabugenta. Mas ele que espere
um pouco. No caminho, faça uma visita a Chang. Para não ter de dar
muitas voltas para chegar lá, você poderá subir e entrar, e depois descer
e sair.
- Do que Chang está precisando?
- De um pouco de estímulo. Pela maneira com que aquele rapaz

tem conversado comigo nos últimos dias, ficou claro que ele prefere estar
em ação do lado de fora, e não dentro no centro de tecnologia. Diga que
ele é muito importante para nós, essas coisas. É claro que isto é verdade,
você sabe.

O caminho sugerido por Sebastian era mais acidentado do que
Rayford esperava. Ele já se acostumara a dirigir o veículo de tração nas
quatro rodas, mas o terreno era traiçoeiro. Precisou usar o breque e as
marchas pesadas mais do que nunca e, por duas vezes, se viu no meio
de formações rochosas impossíveis de atravessar. Foi necessário deixar
no ponto morto, afastar e tentar um novo caminho.

Quando chegou ao centro de tecnologia, ele estava exausto e feliz
por poder descansar um pouco.

Dentro da Cidade Velha, as conversas sussurradas e os
planejamentos pareciam estar em pleno andamento.

Buck notou vários grupos, especialmente de jovens rebeldes,
seguindo em direção aos muros. Ele gostou do lugar em que estava
colocado e do que podia avistar dali, mas não tinha certeza se havia sido
uma boa idéia deixar as linhas de frente no alto, circundando a volta
inteira. E quanto mais ele observava, mais claro se tornava que alguém
tomara aquela decisão.

Ainda havia uma boa tropa de combate no centro da cidade, mas
era composta de homens mais velhos e algumas mulheres. Os principais
combatentes, os adolescentes e os que tinham pouco mais de 20 anos
estavam se posicionando no alto do muro.

Um pensamento ocupava o tempo todo a mente de Buck. Havia


certa vulnerabilidade nisso, algo como se fosse tudo ou nada. Ele gostava
da idéia de ter opções, mas não podia fazer nada. Não estava
encarregado de defender o local inteiro.

Chang já se conformara com sua função, mas gostou do fato de
Rayford ter encontrado tempo para passar por ali e de seus comentários.

Naomi aproximou-se, e os três sentaram-se diante do monitor de
Chang.

-Todos nós acreditamos que o Milênio começará logo - disse
Rayford. - Talvez amanhã. Por isso, é importante que o povo daqui não
saiba o que aconteceu com Tsion.
-Tsion?
- Ele foi baleado e morreu.
-Não!
Rayford contou as notícias que ouvira de Buck. Naomi cobriu o
rosto com as mãos. Chang procurou consolá-la, mas estava muito
emocionado também.

- Buck está bem? - ele perguntou.
-Até agora, sim, mas eles estavam em um local muito perigoso,
onde Buck ainda se encontra.
-É possível tirá-lo de lá?
- Não vale a pena correr o risco. Ele é auto-suficiente. Da mesma
forma que todos os demais, ele está trabalhando para manter os judeus
vivos e, é claro, manter-se vivo também, até a chegada do evento que o
mundo tem aguardado há milhares de anos.
Chang apontou para a tela, e eles assistiram ao mais recente


noticiário da CNNCG.

-O supremo potentado da Comunidade Global, Nicolae J.
Carpathia, reuniu o maior exército da história da humanidade. Conforme
as tomadas aéreas mostram, o Exército da Unidade Mundial Um consiste
de soldados, cavalaria, material circulante e munições de todas as partes
do mundo. O exército de milhões e milhões de combatentes cobre as
planícies de Israel desde a planície do Megido no norte até Bozra em
Edom no sul e se estende de leste a oeste, ocupando toda a área que um
dia foi conhecida como Terra Santa.
- As tropas de infantaria recebem apoio de todas as bases aéreas
até Chipre, dos porta-aviões no mar Mediterrâneo e dos navios de
transporte de tropas no Golfo de Suez e no Golfo de Acaba, na região do
mar Vermelho.
- A esta hora, um terço dos exércitos de Carpathia já cercou Petra,
em Edom, no sul da Jordânia, esconderijo dos judaístas rebeldes. O
chefe do Serviço de Segurança e Inteligência da Comunidade Global,
Suhail Akbar, diz que Tsion Ben-Judá está escondido naquele local.
Embora o objetivo do Exército da Unidade seja destruir completamente a
cidade, é importante que o líder seja capturado vivo.
- Os outros dois terços do Exército da Unidade estão preparados
para tomar a cidade de Jerusalém. O potentado Carpathia informou que
quase metade da cidade já foi ocupada e que não levará muito tempo
para que a Cidade Velha seja dominada.
-No início do dia, o potentado concedeu uma entrevista à
imprensa, montado em um cavalo, e disse que estava otimista quanto ao
resultado.
O rosto de Carpathia apareceu na tela.

- Estamos confiantes de que estes sejam os dois últimos redutos

rebeldes no mundo - ele disse -, e assim que eles forem completamente
derrotados e nossos inimigos dispersados, realizaremos o sonho
acalentado há tanto tempo: um mundo inteiro vivendo em paz e harmonia.
Não existe lugar para rebeliões em uma verdadeira comunidade global.
Se nosso governo não foi benevolente ou não deu prioridade aos
cidadãos, talvez tenha sido por causa da dissensão. Todos nós, porém,
sempre tivemos em mente criar uma utopia para a sociedade.

- É realmente lamentável que a situação tenha chegado a este
ponto, que seja necessário um derramamento de sangue para atingirmos
nossos objetivos. Mas faremos o que tiver de ser feito.
Alguém perguntou:

- O tamanho de seu exército global não parece um exagero?
- Excelente pergunta - disse Carpathia em voz macia.
O couro da sela rangeu quando ele se ajeitou em cima do cavalo.
-Nenhum esforço em prol da paz mundial é inútil.
Surpreendentemente, as facções rebeldes provaram ser valentes.
Decidimos, nos altos escalões, não dar nenhuma chance a eles desta
vez. Usaremos tudo o que for necessário, tudo o que estiver a nosso
alcance, para o sucesso desta empreitada.
- Será que existe alguma verdade nos rumores de que o senhor se
armou até os dentes por achar que a oposição receberá um apoio
inesperado, que talvez o Deus desses rebeldes intervenha em favor
deles?
Carpathia soltou uma risadinha.

- Eu não acredito em contos de fadas, porém, mesmo recebendo
ajuda sobrenatural, eles jamais venceriam nossa estrutura militar. Com
nosso pessoal, mesmo desarmado, poderemos vencer qualquer guerra,
porque temos condições de suprir continuamente nossos exércitos. E

estamos equipados com a melhor e a mais moderna tecnologia.

- Por que não vencer esta guerra de uma vez? Qual o motivo da
demora?
- Eu sou um homem de paz. Sempre acredito que a diplomacia e a
negociação devem ter prioridade. A porta para este acerto de contas de
maneira pacífica está sempre aberta. Eu esperava que os inimigos da paz
fossem persuadidos pelo tamanho de nossos exércitos e estivessem
dispostos a negociar conosco. Mas nossa paciência está se esgotando.
Eles parecem decididamente desinteressados em qualquer tipo de
solução razoável, e estamos preparados para usar todos os meios
necessários. Portanto, agora é apenas uma questão de tempo.
Ao meio-dia, quando o sol estava a pino, Buck sentiu fome e
desceu apressadamente do muro ao ver que os voluntários haviam
trazido alimentos para os combatentes.

Depois de comer fruta, pão e queijo, ele subiu novamente no
muro. Aparentemente, o exército também havia feito uma pausa para
almoçar.

Buck gostaria que os rebeldes tivessem armas mais poderosas.
Talvez um ataque de surpresa provocasse algum estrago nas fileiras do
inimigo. De outro lado, um gigante adormecido era um gigante mais dócil,
e talvez fosse melhor deixar as coisas como estavam.

Ele detestava a idéia de ficar aguardando o ataque, mas, com as
linhas de frente posicionadas no alto do muro, pelo menos o ataque não
seria de surpresa.

Rayford começou a descer pelo lado de trás de Petra. Para ele,


descer estava sendo pior que subir. Por ter permanecido mais tempo do
que planejara com Chang e Naomi, ele supôs que Mac devia estar
aguardando sua chegada e que George devia estar pensando que ele já
havia chegado.

O local em que ele se encontrava permitia uma boa visão do
exército a cerca de um quilômetro e meio de distância. Estava esticando o
braço para pegar seu celular e tranqüilizar Mac quando notou que algo
estranho acontecera. As linhas de frente estavam recuando novamente,
sinal de que George devia ter iniciado outra seqüência de disparos com
as armas de energia direcionada.

Porém, desta vez, apesar do caos provocado pelas DEWs, o
Exército da Unidade não se acovardou. Rayford ouviu os estrondos dos
disparos em represália, como se fossem trovões prenunciando a chegada
de uma tempestade que atingiria um círculo de centenas de quilômetros
de diâmetro.

Seus conhecimentos sobre munições lhe diziam que os exércitos
de Carpathia deviam estar um pouco mais longe, porque usavam
canhões de morteiros e atiravam em ângulos altos. Ele calculou que as
bombas cairiam perto do perímetro de Petra.

Ele estava enganado. Talvez os canhões fossem maiores do que
os tradicionais de cano curto e sem estrias. As bombas passaram voando
pelo perímetro e começaram a cair ao redor dele.

Quando uma delas explodiu à sua frente, Rayford quase foi
lançado para fora do veículo. Agarrado ao volante com a mão livre, ele viu
seu telefone ser atirado a uma distância de uns cem metros e cair no
precipício rochoso.

O veículo estava sem controle. Rayford se deslocara do assento e
estava suspenso no ar, apenas com as duas mãos agarradas ao veículo.


Quando ele voltou a sentar-se com força, o veículo desgovernouse
e rolou de lado. A única opção, agora, era continuar se equilibrando,
mas, de repente, essa opção também deixou de existir.

Quando o veículo colidiu novamente com alguma coisa no
caminho, as mãos de Rayford se soltaram do volante e ele foi atirado
para fora. Enquanto rolava no terreno acidentado, ele viu o veículo
despencar no vale depois de se espatifar completamente contra as
rochas.

Rayford teve tempo de lembrar-se de não tentar impedir a própria
queda. Protegeu os braços e as mãos e fez o possível para relaxar o
corpo, lutando com todas as forças contra seu instinto natural de contrair
os músculos.

O declive era acentuado demais, e Rayford estava despencando a
uma velocidade tão grande que não conseguia controlar-se. O melhor que
ele podia esperar naquele momento era cair em um lugar macio.

A explosão ensurdecedora de uma bomba a uns três metros à sua
direita, forçou-o a rolar de lado. Ao bater a têmpora de encontro a uma
pedra pontuda, Rayford ouviu um som de água corrente enquanto rolava
em direção a um arbusto espinhoso. Por mais terríveis que fossem os
espinhos, deviam ser mais suaves do que a pedra contra a qual ele
colidira.

Finalmente, Rayford foi capaz de equilibrar o peso do corpo
quando caiu de costas nos espinhos. Foi, então, que ele se deu conta do
que significava aquele som de água corrente. A cada batida acelerada de
seu coração, o sangue que jorrava da têmpora espirrava a uma distância
de quase dois metros.

Ele apertou a palma da mão contra a cabeça e sentiu o jato de
sangue. Apertou-a com mais força para ver se o estancava. Mas sabia


que estava correndo um grande perigo - um perigo mortal.

Ninguém sabia exatamente onde ele se encontrava. Sem telefone
e sem meio de transporte, ele nem sequer se deu ao trabalho de verificar
seus ferimentos, porque eram insignificantes comparados ao orifício em
sua cabeça.

Ele precisava conseguir ajuda - e rápido - ou morreria em questão
de minutos. Os braços de Rayford apresentavam cortes profundos, e ele
sentia dores lancinantes nos joelhos e em um dos tornozelos.

Quando esticou a mão livre para levantar a perna da calça, ele se
arrependeu de ter feito isso. Havia um pedaço de pele dependurado em
seu tornozelo e, aparentemente, uma parte do osso havia sido arrancada.

Será que ele conseguiria andar? Deveria tentar? Não seria
possível rastejar, porque a distância era muito grande. Ele aguardou que
sua pulsação se acalmasse para readquirir o controle emocional.

Mac e seu pessoal estavam a mais de um quilômetro e meio de
distância, e ele não podia vê-los. Não havia meios de retornar. Ele virou o
corpo e ficou de cócoras, segurando o ferimento com uma das mãos,
para não sangrar até morrer.

Rayford quis ficar em pé.

Conseguiu apoiar-se somente em uma das pernas, justamente
aquela cujo tornozelo estava em frangalhos.

Provavelmente, havia fraturado o osso da canela da outra. Ele
quis saltar, mas o declive era muito acentuado e o forçou a inclinar o
corpo para a frente.

Novamente descontrolado, ele tentava pular com uma perna só
para não cair e ganhar velocidade a cada salto. Sem tirar a mão da
têmpora, ele tomava cuidado para não ir de encontro a outra pedra ou
coisa parecida.


Senhor, este seria o momento mais apropriado para retornares.

Chang pressentiu que algo estava para acontecer. Ele foi bem-
sucedido quando interceptou os sinais dos satélites geo-sincrônicos que
auxiliavam as comunicações entre os milhões de tropas, que agora
estavam prestes a se movimentar. Os homens que ocupavam postos de
comando precisavam saber disto.

Ele ligou para George.

- Aguarde um avanço das tropas daqui a 60 segundos.
-Já caíram algumas bombas aqui - gritou George. - Você acredita
que haverá mais?
- Sim, eles estão se aproximando.
- Rayford passou por aí?
- Sim, e faz pouco tempo que saiu. Está indo falar com Mac.
- Obrigado. Ligue para Mac, por favor. Vou informar os outros.
Chang ligou para Mac e informou-o também sobre o avanço das
tropas.

- Ei - disse Mac -, não consigo falar com Sebastian, e Ray já devia
ter chegado aqui.
- Ele está a caminho.
Em seguida, Chang ligou para Buck.
-Aguarde um avan...
Mas a ligação foi interrompida. Ele discou novamente. Nada.

- Eles estão vindo! Eles estão vindo!
Assim que seu celular soou, Buck ouviu um jovem rebelde
gritando e avistou um objeto de fogo passando por cima do Museu
Rockefeller e vindo em sua direção.

Ao ver as tropas do Exército da Unidade movimentando-se para
todos os lados, ele pegou o celular e o segurou de encontro ao ouvido no
exato momento em que a bomba atingiu o muro bem à sua frente e
espatifou-se no chão, do lado de fora.

Buck reconheceu a voz de Chang pouco antes de a bomba abrir
um rombo no muro. Pedras e estilhaços espirraram com força por todo o
seu lado direito, destruíram seu celular e derrubaram uma das Uzis. Ele
sentiu que algo terrível acontecera em seu quadril e no pescoço no
momento em que perdeu o equilíbrio.

Um dos jovens perto dele foi atirado para o ar e estatelou-se no
chão. O muro começou a desabar no momento em que Buck estava
determinado a subir novamente. Ele passou a mão no pescoço e sentiu
uma golfada de sangue. Mesmo não sendo médico, ele sabia que algo
havia cortado sua artéria carótida. O problema era grave.

Enquanto o muro desmoronava, ele saltou com a cabeça erguida
para permanecer na posição vertical, mas precisava manter uma das
mãos no pescoço. A outra Uzi escorregou por seu braço esquerdo, e
quando ele quis fincá-la em algum lugar para apoiar-se nela, a arma caiu
para o outro lado. Ele estava sem armas, sem forças para permanecer
em pé e mortalmente ferido.

E o inimigo estava se aproximando.


Rayford conseguiu evitar a queda com a mão que estava livre,
sem atrever-se a tirar a outra da têmpora. Seu queixo sofreu o mesmo
impacto que a parte inferior da palma da mão quando ele escorregou a
um ângulo de cerca de 45°.

Não havia mais condições de andar.

Dali em diante, ele só conseguiria rastejar e tentar permanecer
vivo.

Os pés de Buck prenderam-se na fenda de uma rocha em estado
precário, e a parte superior de seu corpo tombou para a frente.

Ele ficou dependurado de cabeça para baixo no muro em ruínas
acima da Cidade Velha. Seu quadril fraturado também sangrava, e o
sangue escorria até sua cabeça.

Mesmo dentro do centro de tecnologia de uma cidade feita de
pedra, Chang sentia a vibração dos milhões de soldados avançando
sobre Petra.

Ele clicava aqui e ali, apertava botões e tentava ligar para outras
pessoas. Por quanto tempo Deus permitiria que isto continuasse antes de
enviar o Rei vencedor?

Lutando para não ficar inconsciente, ele tentava mover-se


cuidadosamente, com uma das mãos à frente, a outra ocupada. Cada
centímetro tornava o ângulo mais inclinado, o caminho mais instável.

A cada batida do coração, a cada golfada de sangue, a cada dor
lancinante, ele se perguntava de que adiantaria tudo aquilo. Qual a
importância de permanecer vivo? Para quê? Para quem?

Vem, Senhor Jesus.

A tontura aumentava, a dor era insuportável. Aparentemente, um
dos pulmões estava perfurado. A respiração tornou-se ruidosa,
agonizante, descompassada.

O primeiro sinal do fim foram as batidas descontroladas de seu
coração. Rápidas, falhando, depois trêmulas. Perda exagerada de
sangue. Pouca irrigação no cérebro. Insuficiência de oxigênio. A
sonolência sobrepujou o medo. A inconsciência seria um grande alívio.

E, assim, ele se deixou levar. O pulmão estava prestes a estourar.
O coração bateu descompassado e parou. O sangue que pulsava tornou-
se uma poça.

Ele não via nada, mesmo estando de olhos arregalados.

-Senhor, por favor.
Ele ouviu o inimigo aproximando-se. Sentiu a aproximação. Mas,
de repente, não sentiu mais nada. Sem sangue para correr nas veias,
sem ar para respirar, ele perdeu as forças e morreu.

EPÍLOGO

Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a
lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os
poderes dos céus serão abalados.


Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todos os
povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as
nuvens do céu, com poder e muita glória.

Mateus 24.29,30

Fim do Volume 11

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