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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A grande empresa - Faroeste Zane Grey

A Grande Empresa
Zane Grey

Um livrasso de Zane Grey, onde mostra a construção dos fios
condutores do telégrafo entre o Leste e o Oeste norte americano.
Para que tal aconteça, faz-se necessário a presença de um
nortista disposto a aprender os ofícios da lida texana, um trio de
Cawboys vaqueiros, sendo um um antigo ranger acostumado a lida daquele
território, com o manejo rápido de sua pistola, e claro, índios, muito
gado e também o que não poderia faltar nos contos de Zane Grey, um belo
romance aprumado na fumaça do cano do revolver.
Uma boa leitura.

Dedicado
A Um Simples bocado de fio


Pode fazer-se!
Não há ainda muito tempo, o Presidente Abraham Lincoln ergueu os olhos cavernosos para o seu amigo e
visitante, Hiram Sibley, director da Western Union Telegraph Company.
- Sibley, por maravilhosa que a tua ideia seja, a sua realização parece-me fantástica e visionária. No entanto, pedirei ao Congresso uma verba.
A ideia de Sibley era estender um fio telegráfico através
das Grandes Planícies e das Montanhas Rochosas até ao Pacífico. Muito antes de saber se o Congresso ou se os seus sócios aprovariam tal projecto, Sibley mandou chamar
o

seu engenheiro-chefe, Edward Creighton, que acabara de regressar de uma viagem de um ano à Califórnia.
- Olhe para este mapa - disse-lhe Creighton. - Aquela linha ali é a Trilha do Oregão. Segui-la-emos. Já falei com rancheiros, soldados, caçadores de búfalos
e cavaleiros da Pony Express. Falei também com os Mórmones. Há milhares de selvagens hostis, milhões de búfalos, centenas de

milhas de pradaria sem árvores para servirem de postes telegráficos. O trabalho afigura-se-me impraticável e impossível, mas pode ser feito!
O Congresso votou uma verba de apenas quatrocentos mil
dólares para auxiliar a construção da linha telegráfica, o que foi uma tremenda decepção para Sibley e Creighton.
Mas o trabalho vai realizar-se, vai construir-se uma linha
telegráfica que ligará o Leste ao Oeste: Hoje começou a estender-se o fino arame de ferro para Oeste de Omaha, com o próprio Creighton a dirigir.
I
Foi num dia do Verão de 1861 que, em Omaha, no Nebraska, me meti na diligência que partia para o Oeste, quase exauridos os meus recursos e a minha esperança.
Guardei na algibeira o recorte de jornal que me inspirara num momento em que muito precisava de inspiração. Aos vinte e quatro anos twdo quanto tentara falhara,
de tal maneira que havia muito duvidava se existiria, de facto, alguma coisa em mim.
Frequentara Harvard durante um ano, em virtude de meu pai desejar que tentasse o estudo das Leis, mas desistira; experimentara Medicina durante igual período
com idêntico resultado, pois embora me interessasse pela matéria não era capaz de ficar entre quatro paredes a estudar. Esses dois anos de frustração tiveram, contudo,
a virtude de elucidar-me, demonstrando-me que a ambição de meu pai e da minha família em colocar-me numa profissão ou, em última análise, no comércio, me influenciara
contra o que, na realidade, eu próprio desejava.
Precisava de afastar-me de Boston e da Nova Inglaterra, de ir viver para qualquer lado onde estivesse em contacto com a Natureza, de preferência para o Oeste,
onde seria livre. Minha mãe, que era escocesa, comparou-me a um dos seus irmãos, um montanhês que amava os montes, os rios e as lutas da sua terra natál.
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à parte o facto de ser alto, forte e activo de pés, não
possuía, que soubesse, quaisquer aptidões para uma vida de pioneiro no Oeste. No entanto era o Oeste que me atraía cada vez com maior intensidade.
Depois surgira a guerra entre o Norte e o Sul, que contribuíra para a minha perturbação. Meu pai era sulista de nascimento e firme nas suas convicções contra
os ianques. Não duvidava de que viesse a dar um bom soldado, pois há na vida dos soldados um quê de aventura: e de perigo que me atraem; mas, com os meus familiares
espalhados nos dois campos, tinha a sensação de encontrár-me entre o demónio e o mar alto.

Foi assim que a minha insatisfação e infelicidade me levaram
a iniciar a longa viagem para o Oeste.
Olhei à minha volta e verifiquei ser eu a única pessoa que se encontrava na diligência, pois nem o condutor ainda ocupava o seu lugar. Pouco depois,
porém, começaram a chegar os
passageiros.
Havia dois militares - um deles era sargento -, rapazes novos, robustos e curtidos pelo tempo, que tudo indicava recomporem-se de uma intimidade muito estreita
com a garrafa; um indivíduo de olhos vivos, que me pareceu rancheiro, e uma mulher alentada, evidentemente sua esposa; um passageiro que não vi bem e se instalou
ao lado do cocheiro; e finalmente um comerciante bem instalado na vida - a julgar pela qualidade do fato e pelo seu rosto rubicundo -, que se sentou ao meu lado.
Quando estávamos prestes a partir levantou-se um clamor de
vozes amigas, a desejár-nos boa viagem. Sem dúvida alguns conheciam este ou aquele passageiro, mas a algazarra que. se ouvia demonstrava que a partida da carripana
era um aContecimento para aquela gente. Tive a sensação de que nenhuma daquelas palavras me Adeus me era dirigida.
Vi o Platte River com o seu leito largo, composto de duas
correntes, lodos e rápidos, separadas por línguas de areia. Nas margens baixas alinhavam-se salgueiros e choupos-doCanadá, cobertos de folhas novas, de um verde
brilhante. Vi pela segunda vez o grande MIssuri, na plenitude do seu caudal, revoluteando nos fortes remoinhos da sua corrente pedaços de madeira, e, ao longe, um
vapor com rodas de pás na popa.
Não tardámos a deixar de ver o rio e a cidade e a rodar a
boa velocidade por uma estrada de piso duro, que Garecia estender-se no centro de várias outras estradas. Tratava-se, na realidade, de um espaço com cerca de cem
jardas de largura profundamente sulcado pelo interminável oceano de rodas que por ele tinham passado. Havia sulcos antigos e sulcos recentes de ambos os lados da
nossa estrada de piso duro.
Deduzi pouco depois encontrarmo-nos num ramo da Trilha Terrestre, ou seja a Trilha do Oregão, que fora durante anos o caminho de Independence, Missuri, para
o Oregão. Entraríamos na Trilha Principal em Grand Island.
O meu lugar ficava perto da janela, através da qual via
estenderem-se infinitamente as planícies cinzentas e uma corrente sinuosa. De vez em quando passávamos pelos ranchos e por gado espalhado, mas aproximávamo-nos do
deserto. Vi patos bravos na corrente, garças azuis nos baixios, tocas de ratos almiscarados a espreitar da água, um número cada vez maior de coelhos americanos e
um ou outro animal cinzento, de cauda espessa e aspecto caracteristicamente lupino.
Os meus olhos perdiam-se na paisagem cinzenta, sem se cansarem na sua monotonia, mas sem que me alheasse da conversa trocada ao acaso entre os passageiros.
Pouco depois o cavalheiro que se sentava ao meu lado referiu-se afavelmente ao tempo e à agradável viagem e acabou por perguntar-me aonde me dirigia.

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- Vou trabalhar na Western Union - respondi-lhe.
- Sim? !. Que coincidência interessante! Também vou para lá,
a fim de dar uma olhadela ao trabalho. Chamo-me Williamson.

- Prazer em conhecê-lo, senhor. Sou Wayne Cameron, de
Boston.
- Bem me pareceu! - replicou o homem, a rir -, É fácil
identificar os oriundos da Nova Inglaterra. Pois eu sou de Nova Iorque. Que espécie de emprego tem na companhia telegráfica?
- Nenhum. por enquanto; mas espero conseguir alguma coisa. - Não lhe será muito difícil. Agora custa-lhe arranjar
homens, por causa da guerra.
Entabulámos conversa e eu esforcei-me por tornar-me o mais agradável possível. Williamson disse-me, entre outras coisas, que se iniciara já o trabalho de
construção a partir da costa
do Pacífico, sob a orientação de um engenheiro chamado Gamble, a quem fora confiada a montagem da linha telegráfica. Este que
iria ao encontro dos homens de Edward Creighton, os quais quase haviam já levado o cabo de aço filiforme até Gotemburgo.
Passado um bocado o meu companheiro de viagem indagou:
- Cameron, está ao corrente da viagem de Creighton através das planícies e das montanhas, a fim de estudar as condições do terreno?
- Li qualquer coisa a esse respeito - respondi -, Acho que
foi heróico.
- Foi mais do que isso! Não conheço Creighton, mas alegro-me
por poder conhecê-lo brevemente. É, segundo tudo indica, uma pessoa maravilhosa. Algumas das linhas que montou no Leste não foram brincadeira nenhuma, mas esta ideia
da linha do Oeste ultrapassa todas as conjecturas!
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Ouvi Hiram Sibley falar da viagem de Creighton até à costa e, palavra, supera tudo quanto possa imaginar-se. Percorreu a cavalo seiscentas ou setecentas
milhas das regiões mais inóspitas, sozinho e sem ter a certeza da direcção, uma parte das quais - a travessia do Vale Humboldt - no Inverno. A ventania lançava areias
alcali para os olhos do cavaleiro solitário, a ponto de quase o cegar; por três vezes a pele lhe caiu do rosto e quando chegou a Carson City ia mais morto do que
vivo. Quase parece milagre que não tenha perecido! Mas a sua soberba constituição e a vontade in dómita que o anima hão-de ajudá-lo a ir até ao fim.
Voltei-me várias vezes para observar os fios telegráficos para os quais Wiliamson me chamara a atenção. Os postes amarelos e brilhantes e o fio simples que
se estendia para oeste pareciam-me tão pequenos, tão insignificantes, tão frágeis, comparados com a tremenda importância das comunicações rápidas entre o Este e
o Oeste! Mas cabia toda ali, naquele arame fino, a mensagem mágica do amigo ele Hiram Sibley, o inventor Morse!
Ao pôr do Sol chegámos a uma espaçosa casa rancheira, onde
passaríamos a noite.
Partimos de manhã cedo, de novo a caminho do Oeste pela Trilha de Oregão, umas vezes à vista do Rio Platte e sempre através de extensas pradarias, de rancho
para rancho. Em breve, disseram-me, não haveria mais ranchos.
Quando parámos naquela noite, desta vez num lugarejo onde
havia um armazém, um saLoon e umas quantas cabanas, convidei o cocheiro para tomar uma bebida comigo e depressa compreendi tratar-se de pessoa afável e interessante.
Como o passageiro que viajara ao seu lado ficava ali, roguei-lhe ansiosamente que me deixasse tomar o seu lugar.
Jim Hawkins - era assim que se chamava - conduzia diligências há dez anos, o que me fez pensar que seria uma
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verdadeira mina de informações e maravilhoso conversar com ele durante as longas horas da viagem.
No meio da noite, demasiado entusiasmado para conseguir dormir, ouvi o "honk-honk" estranho e melodioso dos gansos selvagens que voavam para o norte.
No dia seguinte iniciei a jornada empoleirado no banco do
cocheiro, sob o sol brilhante. A pradaria estendia-se para oeste tão cinzenta e monótona como nos dias anteriores, mas tornava-se imperceptivelmente mais desértica
e inabitável. Chamei a atenção do cocheiro para as nuvens de poeira que se erguiam no horizonte e para uma espécie de linha comprida e irregular que, ao longe, via
pela primeira vez.
- Parece-me que tem excelente vista, meu rapaz! Quando esses
olhos penetrantes aprenderem a reconhecer o que vêem, talvez lhe salvem alguma vez a vida. Aquilo é a sua primeira caravana, e nada pequena, não senhor! De agora
em diante e para lá do Forte Kearney verá muitas. Há-de reparar que, a não ser que sejam muitíssimo grandes, as acompanha sempre uma escolta de soldados.
- O sargento que viaja connosco disse-me que o trabalho de construção do telégrafo tem de continuar sob a protecção de dragões. É por causa dos índios?
- Em parte direi que sim - replicou o cocheiro. - Os Cheyennes estão outra vez a fazer das suas, mas não chegam aos calcanhares dos Sioux. Encontrá-los-á
a oeste do Forte Laramie, ao longo do Sweetwater e para cima, para os lados do South Pass. Esses diabos descem a cavalo das montanhas do rio Wind, atacam com os
Comanches e voltam para os seus montes, onde não há soldados que os encontrem. Todas as tribos de peles-vermelhas têm razão de queixa contra os brancos, o que não
admira. Um dia, talvez daqui por uns dez anos ou mais, quando os brancos começarem a dizimar os búfalos para lhes aproveitarem o couro, todos os índios dos Dakotas
até ao Rio Grande se juntarão para lutar como diabos que são! É que os búfalos são a sua riqueza, o seu sustento.
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- Mas li que existem milhões de búfalos - observei surpreendido. - Certamente que a caça ao búfalo por causa da carne e da pele não reduzirá o seu número
a ponto de pôr os selvagens em pé de guerra.
- Creio bem que reduzirá --- afirmou o cocheiro, meneando a
cabeça grisalha. - Os búfalos, os veados e, em geral, toda a caça, seriam eternos se fossem caçados apenas pelos índios. o branco além de ganancioso e falto de escrúpulos,
é destruidor. Conheci um índio velho que dizia terem os brancos maiores olhos do que barriga.
- É preciso tomar em consideração o progresso - protestei. -
A América tem de expandir-se, a maré do império espraia-se
para o Oeste. Primeiro vieram os missionários espanhóis, depois os negociantes de peles, depois os exploradores, depois
os pioneiros e os prospectores de quem agora temos o telégrafo. Tão certo como nna altura ser bem sucedida, haverá caminhos de ferro a cruzar o continente!
- Com certeza, filho. com certeza - concordou Hawkins. Isso é tão verdade como estarmos aqui sentados; mas não anula o facto de esta ser a terra do
pele-vermelha, do homem
corrompido pelo álcool, de ter sido e continuar a ser roubado até que se levante e lute contra o poder maior que o assoberba, lute até o que dele restar- ser repelido
para as regiões desérticas do Oeste. Qual será a opinião de Deus a tal respeito; não sei; mas a minha não é nada agradável.
A dissertação do velho cocheiro deu-me uma ideia absolutamente nova do índio americano.
Aumentámos a velocidade para alcançarmos a caravana e, antes de o conseguirmos aproveitei uma curva da estrada e contei os enormes carroções: eram cesenta
e três,
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puxados por juntas de bois e acompanhados, de ambos os lados, por homens a cavalo. Os veículos pareciam possuídos de vida própria e do espírito que dominava os pioneiros
que conduziam. Dir-se-iam enormes barcos montados sobre rodas e de velas castanhas. Aqui e ali, porém, havia-os que não tinham cobertura. Uns seguiam por um lado
da Pista do Oregão, outros pelo outro.
Quando os alcançámos Hawkins afrouxou a velocidade das parelhas, mas mesmo assim passávamos pelos carroções como se estivessem parados. Os enormes bois sacudiam
a cabeçorra baixa, para cá e para lá; o lugar ao lado do cocheiro estava geralmente ocupado por crianças e gente moça e, aqui e além, uma mulher.
Hawkins e alguns passageiros gritaram alegremente e os pioneiros retribuíram os seus votos de boa viagem, e boa sorte. Na abertura redonda da lona apareciam,
em quase todos os carros, uma ou mais raparigas novas. Quanto aos cavaleiros, eram homens robustos, vestidos com trajo tosco dos pioneiros. Acenei com o chapéu à
garotada.
Ao passarmos por um dos carros grandes reparei numa bela moça sentada ao lado de um cocheiro atlético e grisalho. Os nossos olhos encontraram-se por momentos,
mas tanto bastou para que ficasse convencido de que não os esqueceria tão cedo, nem ao brilho do seu cabelo ondulado. Acenei-lhe com o chapéu e ela sorriu
e levantou a mão enluvada. Depois perdi-a de
vista e os carroções foram sucessivamente tomando o lugar do seu. Continuei a olhar, mas o meu entusiasmo esmorecera. Passámos adiante, embora eu tivesse dado muito
para que a diligência seguisse a par daquele carroção, até ao fim do dia.
Nem sei o que senti ao pensar que existia uma rapariga de
quem podia ter gostado, mas que certamente não voltaria a ver. à medida que nos aproximávamos da vanguarda da caravana,
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os cavaleiros eram mais numerosos e uns seis ou mais seguiam à frente, com carabinas atravessadas nas selas.
Ultrapassámo-los finalmente e, mais uma vez, tivemos pela frente a interminável pradaria. Olhei ainda para trás algumas vezes, mas quando deixei de ver a
caravana suspirei e pus os olhos no caminho. Aquela rapariga interessara-me. Levaria tempo a esquecer o brilho dos seus olhos, o rubor que lhe subira às faces, o
brilho dos seus cabelos castanhos e o seu
amigável aceno de mão.
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II
Nada, nos dias que se seguiram, me pareceu tão emocionante como o encontro com a caravana. Grand Island, onde chegámos uma noite, pareceu-me igual a todas
aS outras paragens no Nebraska, com a única diferença de ter mais edifícios, mais luz e mais gente. Foi aí que entrámos na Trilha Principal do Oregão, mais profunda
e mais larga.
Parámos a seguir no Forte Kearney, onde deixámos os dois soldados, o qual me decepcionou por parecer apenas um quartel.
Seguimos para oeste de Kearney e, um dia, vi um ponto
mover-se ao longo da estrada e pequenas nuvens de poeira, mas tão distantes que não podia fazer ideia do que se tratava.
- Que é aquilo, cocheiro? -- indaguei.
- Se não me engano - respondeu depois de olhar demoradamente
-, é o Jed Schwartz, com quem costumo cruzar-me mais ou menos aqui. É cavaleiro da Pony Express.
A minha curiosidade aumentou. Ouvira falar no heroísmo dos
cavaleiros da Pony Express e eis que ia ter a dita de ver um! Na atmosfera rarefeita do Oeste os objectos parecem muito mais próximos do que na realidade estão.
Espantou-me a rapidez com que aquele ponto negro móvel cresceu até tomar a forma de cavalo e cavaleiro. Quando se aproximou mais, reparei que o cavalo galopava,
com a cauda e a crina ao vento,
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e o lenço do pescoço do cavaleiro brilhava ao sol e esvoaçava
atrás de si.
Hawkins chegou as parelhas para a direita, de maneira a deixar ao cavaleiro da Express a estrada livre. Passou por nós como o vento e, com demasiada rapidez
para que pudesse vê-lo claramente, acenou a mão enluvada a Hawkins e gritou-lhe uma saudação. O cocheiro respondeu do mesmo modo.
Voltei-me para ver o cavalo galopar estrada abaixo. Era um grande animal escorreito, veloz e forte que alargava a distância entre ele e a diligência de uma
maneira espantosa. Foi a minha primeira experiência com um cavalo rápido no Oeste, onde os cavalos são de importância capital.
Em resposta às perguntas ansiosas que lhe fiz, Hawkins
declarou-me:
- Creio que essa linha telegráfica que vai ajudar a construir será o fim da Pony Express. Alguns excelentes rapazes ficarão desempregados, mas suponho que
se darão por felizes por se retirarem com os escalpes no seu lugar. Transportam correio a cinco dólares a onça, obrigam os cavalos a correr loucamente de
estação para estação e mudam-nos mais
ou menos de dez em dez milhas - Levam oito dias de Saint Jo, no Missuri, à Costa. Conheci tipos formidáveis na Pony Express, mas o Jed Schwartz deve ser o melhor
de todos! É um cavaleiro valente e sem medo e, palavra, se visse como sabe servir-se das duas armas que usa!
- Gostaria de ser cavaleiro da Express Pony - disse, como se
falasse comigo próprio.
- Bem, agora já é tarde para isso - observou o cocheiro, que
me ouvira. - Mas descanse que encherá a barriga de cavalos e
tiros na Western Union, a não ser que muito me engane.
Hawkins era suficientemente falador para satisfazer até um
novato insaciável como eu. Fiz-lhe mil perguntas,
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mas reservei uma para quando me conhecesse melhor: como deveria comportar-me quando abandonasse a diligência na fronteira. Por enquanto ainda não tinha coragem para
lha fazer.
No dia seguinte encontrámos uma pequena caravana de carroções que transportavam postes telegráficos. Fiquei emocionado, pois sabia que nos aproximávamos,
finalmente, do nosso destino. Chegámos a Gotemburgo muito depois do anoitecer. A cidade parecia composta pelas mesmas luzes amarelas e baças, pela mesma estrada
poeirenta, pelas mesmas cabanas e tendas e altas frontarias de tábuas a que já me habituara.
- Filho, isto é uma terra muito influente - avisou-me Hawkins, com uma casquinada. - Não u aconselho a deixar de ver o que vale a pena ver-se, mas
tome cautela! Creio que o
acampamento dos homens da construção fica por aqui perto, o que deve tornar a cidade um bocado agitada, e certamente o tomarão por novato. Não tolere más-criações
a ninguém e, se tiver dinheiro e for ao antro de jogatina do Red Pierce, procure as meninas pintadas e afaste-se das mesas de jogo.
A estalagem onde os viajantes se acolheram não parecia
grande coisa vista do exterior, mas lá dentro era confortável, os quartos e as camas limpos e serviram-nos uma ceia a que fiz ampla justiça. Das duas raparigas que
serviam à mesa uma era decididamente bonita. Tinha uns olhos travessos dos quais tirava o maior partido possível e fazia-me lembrar a rapariga do carroção, que me
sorrira e acenara. Começava a parecer-me que quanto mais me afastasse dela maior seria o meu pesar.
Depois de cear apeteceu-me ir até à rua dar uma vista de
olhos. Quando ia a sair Wiliamson acercou-se e observou, satisfeito e entusiasmado:
- Bem, Cameron, chegámos! A fábrica de construção
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e o acampamento móvel de Creighton ficam a poucas milhas
daqui. A cidade está cheia de trabalhadores. Tentarei encontrar o Creighton e, se for bem sucedido, falar-Lhe-ei de si.
Agradeci-lhe, saí para o passeio de pranchas e tentei habituar a vista à escuridão opaca, escassamente iluminada pelos candeeiros amarelos. Diante da estalagem
estavam presos diversos cavalos de sela e encontravam-se vários veículos, entre os quais uma carruagem descoberta. alguns transeuntes, mas não tantos que justificassem
a barulheira que parecia vir da praça principal, do lado de baixo da rua.
Pouco depois dirigi-me para essas bandas e encontrei um grupo de homens, talvez mais de vinte - criadores de gado, vaqueiros. mas, sobretudo, pareceu-me,
operários.
Mais adiante deparou-se-me um grande edifício de aspecto tosco, construído de tábuas e tornado notório pela larga porta de onde a luz jorrava e pela qual
entravam e saíam homens. Sobre ela viam-se, numa tabuleta toscamente pintada, as palavras "Red Pierce".
Com o pulso a bater mais depressa, entrei na minha primeira
casa de jogo do Oeste. O que encontrei era de certo modo
diferente do que imaginara, mas não me senti decepcionado. Tratava-se de um enorme salão ao meio do qual pendiam três grandes candeeiros e que tinha, à esquerda,
um balcão comprido, onde grupos de dois e de três homens bebiam. riam e conversavam.
à direita, defronte do balcão, viam-se várias mesas ocupadas
por jogadores sentados e de pé. Ouvi o girar da roleta e o tilintar musical das moedas, mas se se erguiam vozes entre os jogadores, as dos bebedores abafavam-nas.
De súbito chegou-me aos ouvidos um jorro de música animada e
vi, ao fundo do salão, um grupo de homens em redor de uma clareira onde dançavam vários pares. àquela distância,
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com o rosto branco, os lábios escarlates e os braÇos nus, as raparigas pareciam atraentes.
Juntei-me aos espectadores que se encontravam ao pé das mesas de jogo, para ver um bocado, e quando me cansei dirigi-me para o extremo do salão, a fim de
observar os dançarinos. Só quando uma das raparigas me mirou com atenção dos pés à cabeça me ocorreu que devia tornar-me assaz notado entre aquela gente. O facto
aborreceu-me, mas lembrei-me das palavras de Hawkins e decidi aguentar firme. Depressa me arrependi de tal decisão quando, terminada aquela dança, uma das raparigas
me abordou. Palavra que não me lembrava de alguma vez ter sido olhado daquela maneira?
- Quer dançar? - perguntou-me a jovem, que tinha uma voz
bonita e francamente, não me parecia rapariga de salão de baile.
- Gostava - respondi timidamente -, mas sou um estranho
aqui, acabo de chegar e receio...
Ao ver-me hesitar, agarrou-me num braço e declarou:
- É um estranho, de facto, mas isso não tem importância, todos os dias chegam estranhos. Dancemos, verá que não tarda a sentir-se à vontade.
Estava prestes a render-me à sugestão, não sem agradáveis sensações, quando um jovem brutamontes, aparentemente sob a influência do álcool, a afastou rudemente
de mim.
- Vamos, Roby - disse com voz pastosa. - Que veneta te deu
para te agarrares a esse novato? Prometeste-me essa dança. Arrastou-a num rodopio, dando-me contudo tempo para
verificar que o fazia com grande desagrado da rapariga. Esta lançou-me outro sorriso que achei, pelo menos, tranquilizador. Não me importei muito com a interrupção,
pois, na verdade,
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apetecia-me pouco dançar, mas a alusão grosseira à minha qualidade de novato irritou-me e achei aconselhável ir-me embora. Quando ia a fazê-lo, porém, qualquer coisa
me deteve e disse para comigo próprio:
"Diabos me levem se vou! Já sei que tenho de passar por isto
e, portanto, o melhor é habituar-me".
Resolvi ir observar de novo os jogadores. Abordaram-me vários homens, que não eram certamente trabalhadores, que me mediram de alto a baixo com os seus olhos
penetrantes, como se com eles pudessem trespassar-se as roupas e ver-me o interior das algibeiras. Convidaram-me a tomar parte nos jogos, masdeclinei.
A certa altura mudei-me para detrás de outros espectadores
que se encontravam ao lado da mesa da roleta e, durante um
bocado, ninguém me molestou. Em seguida fui observar o jogo do poker, noutra mesa, na qual havia, à frente de cada jogador, moedas de ouro de vinte dólares e rolos
de notas. Ali, sim, jogava-se forte! E os três homens sentados com os jogadores, vestidos de negro, não eram, pela certa, operários.
De súbito a minha atenção, e a de todos os presentes: foi
atraída para uma luta que se travava na rua. Ouviu-se grande alarido, arrastar de botas, um tiro - e depois silêncio. Os jogadores recomeçaram a jogar e alguns homens
afastaram-se do balcão e foram ver à porta o que causara a desordem. Reuni-me a eles, mas já não descobri quaisquer vestígios do que
ocorrera.
Tudo indicav a serem comuns em Gotemburgo os casos como aquele, assim como era vulgar a maioria dos homens andarem armados. Perguntei a um dos curiosos se
não existiam representantes da autoridade na cidade e ele riu-se-me na cara. Não me agradou tal reacção e perguntei a mim próprio se não devia aceitar o conselho
do cocheiro e comprar uma arma.
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Pouco depois, quando me afastava das mesas de jogo, fui abordado por três homens, um dos quais era o brutamontes que afastára a rapariga de mim. Este disse
ao homem do meio - um indivíduo atarracado, de testa baixa, olhos salientes e aspecto furtivo - que eu era o tal tipo.
- Novo por aqui, hem? - perguntou-me o homem. - Que te
trouxe até cá?
- Isso é comigo - repliquei-Lhe concisamente.
- Ouve, forasteiro, não é bom para a saúde dos recémchegados, sobretudo novatos, serem indelicados com a gente da cidade.
- Não quis ser indelicado, respondi-lhe apenas no tom que
usou para comigo.
- Tresandas a ianque à légua, rapaz. E mesmo que não tresandasses, ouvia-se com certeza.
- Não nego que sou ianque - respondi, já a sentir o sangue a
ferver.
- E se pagasses as bebidas, hem? - sugeriu, com insolência.
- Não farei tal. Quando quiser pagar bebidas escolherei
aqueles com quem me apetecer beber.
- Ouve lá, novato - interveio o rufião moreno -, considero
isso um insulto, sobretudo depois de te teres adiantado com a minha miúda.
- Ou está bêbado ou é maluco - repliquei irritado. - Não me
adiantei com a sua miúda.
Então, sem mais nem menos, esbofeteou-me violentamente. Fiquei tão furioso e surpreendido com o ataque, que o atirei ao chão com um murro. Alguns jogadores
aperceberam-se do incidente, mas embrenharam-se no jogo sem lhe prestarem maior atenção, enquanto vários curiosos se riam. Pelo canto do olho, enquanto via o meu
agressor levantar-se devagar, notei que dois vultos entravam no salão e avançavam pelos lados, um alto e esguio e o outro baixo e de pernas arqueadas.
23
Afastaram-se do meu campo de visão, mas pressenti que estavam interessados na minha desordem com o trio e preocupou-me tê-los pelas costas. Não podia voltar-me,
porém, pois o homem do meio, aquele que primeiro me abordara, acabava de puxar o revólver e apontá-lo para baixo, quase para os meus pés.
- Novato, vais encomendar bebidas para nós e dançar um
bocado.
- Não farei uma coisa nem outra, mister! - Berrei.
- Oh, isso é que farás! Ora dança, mexe-te, se não queres
que te acerte na perna.
- Vá para o diabo! Isto não é um país livre. Que espécie de
homem é você para ameaçar-me com uma arma simplesmente porque não estou disposto a ser ridículo?
- Dança, novato! - ordenou com diabólica alegria, ao mesmo
tempo que a sua arma cuspia fogo para os meus pés.
Senti a queimadura de uma bala roçar-me acima do artelho e
fiquei atordoado, subitamente dividido entre a fúria e o terror. O indivíduo atraíra as atenções gerais e era evidente que continuaria a disparar para os meus pés.
Não sabia que fazer.
Não fazia a mínima ideia de que maneira deveria reagir, mas a difícil decisão foi-me poupada pela intervenção de uma voz
fria que pronunciou uma única palavra ríspida, a qual, no meu atordoamento, não compreendi. Ao mesmo tempo soou um tiro atrás de mim e, com um grito estridente,
o desordeiro deixou cair a arma e levou a mão ao ombro. Vi que lhe jorrava sangue por entre os dedos e que se transformava de súbito num homem diferente, cujo rosto
traduzia apenas dor e medo ilimitado.
Surgiram depois as duas figuras que pouco antes divisara
pelo canto do olho. O mais alto empunhava ainda uma pistola fumegante, com a qual apontava a porta, num movimento quase imperceptível.
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- Hombre, esta é a segunda vez que, hoje, me aborreces -
observou com voz suave e fria, de pronúncia acentuadamente sulista. - Toma cuidado com a terceira!
E de novo a pistola se moveu imperceptivelmente na dìrecção
da porta. Os três bandidos, se realmente o eram, depressa obedeceram à ordem implícita. Um deles apanhou a arma do chão e correram os três para fora do salão.
Acto contínuo o
silêncio que se estabelecera terminou e de novo se ouviram vozes e o girar da roleta.
Voltei-me então para o meu salvador, que metia no coldre a comprida pistola que usara. Os seus olhos extraordinariamente claros fitavam os homens do balcão,
alguns dos quais tinham protestado contra a sua intervenção.
- Muito obrigado, prestou-me um enorme favor - agradeci,
quando se virou para mim.
Tinha um rosto juvenil e liso, queimado pelo sol num tom dourado e possuidor de um encanto singular que o tornava quase efeminado. Foi o seu companheiro
quem primeiro falou:
- Aquele tipo deve tê-lo atingido; a sua perna está a tremer
um bocado. Deixe-me dar uma olhadela -, ajoelhou e passou as mãos pela minha perna esquerda. - Cá está um buraco nas calças. mas não sinto sangue. Foi de raspão,
pode considerar-se com sorte. Não seria para admirar se lhe tivesse partido algum osso. - Levantou-se, com o rosto vermelhusco franzido num sorriso. - Aposto que
foi a primeira vez que sentiu chumbo quente, hem?
- Foi, de facto - confessei, aliviado.
- Escapou por um triz. Geralmente os novatos pagam muito
mais caro a estreia.
- Amigos, eu sabia que era um novato, não nego, mas ignorava
como devia reagir à situação.
- Não reagiu muito mal - afirmou o mais baixo, cordialmente.
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- Nós vimos e ouvimos. Caramba, valente soco atirou àquele
tipo! Até tremi todo só de ver como ele o encaixou. Julga-se dono e senhor daquela rapariga do baile, Ruby, mas está muito enganado. Foi simpática comigo e ainda
muito mais simpática aqui com o Vance.
- Quer beber connosco, forasteiro? - perguntou-me o mais
alto.
- Com certeza, bem preciso! - Conduziu-me para o balcão onde
os homens se apressaram a arranjar lugar para nós, e pouco depois entreolhávamo-nos de copo na mão. Achei chegado o momento de apresentar-me.
- Chamo-me Wayne Cameron e sou de Boston. Vim para cá a fim
de trabalhar na linha telegráfica.
- Bem, Cameron, não precisa dizer-nos que é ianque - afirmou
o baixo, a rir -, Isso não é muito bom nestas paragens. Aqui o
meu amigo Vance Shaw, é um rebelde , até à medula e eu sou do Missuri, mas talvez nos entendamos, hem? Chamo-me Jack Lowden.
Aperteilhe primeiro a mão a ele e depois a Shaw.
Notei uma grande semelhança no aperto de ambos, mas uma diferença enorme nas suas mãos. A de Lowden era dura e calejada e apertou a minha com energia e cordialidade;
a de Shaw era esguia e macia, quase como a de uma rapariga, mas dava a sensação de ser de aço forrado de veludo.
- Suponho que são vaqueiros? - indaguei, enquanto bebíamos.
- Sim, simples vaqueiros no que diz respeito a disparar e a
cavalgar.
- Posso oferecer-Lhes agora eu uma bebida?
- Não, obrigado, uma chega - retorquiu Shaw. - sSaiamos daqui para fora. A Ruby já me viu e tenho o pressentimento de que aparecerá por estas bandas. Se
dança outra vez comigo terei de furar aquele fulano como deve ser.
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- Com os diabos, era isso que devias ter feito a noite passada! - exclamou Lowden. - Por que hás-de desdenhar tanto dela, não gostaste?
- Creio que sim - respondeu Shaw, pensativo. - Mais do que se deve gostar de uma rapariga de salão de baile. Mas tem só dezasseis anos, é ainda fresca e
inocente e tenho pena dela. Já te disse, Jack, que não gosto do ambiente. Há por aqui uma ovelha ranhosa e se me lembro mais tempo. Tu conheces-me, compincha; meto-me
sempre em encrencas.
- Talvez esta seja uma encrenca em que devas meter-te -
sentenciou Lowden. - Mas pronto, vamo-nos.
Saímos e parámos à direita da grande porta, envolvidos na luz que vinha lá de dentro. Convidei então os meus novos conhecidos para irem comigo até à estalagem,
a fim de fumarmos e conversarmos.
- Irei com prazer, mas fiquemos aqui mais um bocado respondeu-me Shaw. - Procuro alguém.
- Com os diabos, sócio, procuras esse hombre do Texas desde
que deixámos o Rio Grande! - exclamou Lowden, desdenhoso. Não o encontraremos aqui nem no Pólo Norte.
Ficámos à porta da casa de jogo e, enquanto os meus companheiros observavam as pessoas que passavam para baixo e para cima, aproveitei o ensejo para os observar
a eles com um interesse como não me lembrava de experimentar por alguém que tivesse conhecido antes.
Shaw era alto e esguio, mas ao vê-lo com mais atenção
pareceu-me um cavaleiro de magnífico arcaboiço; ombros largos, ancas estreitas, pernas arredondadas e músculos que,
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quando se mexia, se viam através das mangas e das pernas das calças. Vestia calças de ganga azuis escuras, muito usadas e manchadas de poeira, cheirava a couro,
a carne de cavalo e a fumo e usava botas altas, de tacão, muito estragadas.
O seu cinturão era negro, estreito, onde espreitavam pontas
brilhantes das balas, e o coldre, também escuro, apenas deixava ver a coronha preta da enorme pistola. O coldre e a arma desciam discretamente muito abaixo da anca
direita, e notei que o cinturão Lhe atravessava o ventre também abaixo do cinto que Lhe segurava as calças. Sobre a camisa usava uma espécie de colete fino, igualmente
escuro, e a aba larga do chapelão poeirento e cheio de buracos não lograva esconder-lhe os cabelos louros e encaracolados.
Apesar do seu aspecto impressionante o que mais me fascinava era o seu rosto. Visto de perfil tinha os contornos perfeitos de um camafeu, parecia melancólico; frio
e juvenil
mas, na sombra, dir-se-ia ocultar sob a pele lisa as rugas e
os estragos de uma vida de dissipação. Notei de novo que jamais vira olhos tão extraordinários. Devia ser tão formidável como parecia, pensei, preso da mais viva
e rara emoção.
possuía também um aspecto notável, embora Lowden contrastasse vivamente, e em todos os pormenores, com o companheiro. Era baixo, atarracado e robusto e tinha
braços compridos de mais em relação ao corpo e pernas arqueadas, denunciadoras do muito tempo que passavam a cavalo. Em repouso o seu rosto feio era áspero
e sulcado de rugas, mas os seus
olhos azuis tinham a mesma expressão dos de Shaw, embora menos acentuada.
Enquanto os estudava, cada vez mais resolvido a tentar tornar-me seu amigo, Shaw mantinha-se silencioso, mas o companheiro fazia de vez em quando observações
cáusticas a respeito de quem passava.
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De súbito a sua voz traduziu mais do que interesse casual:
- Compincha, olha para ali. Vês aquele vaqueiro que se aproxima? Vai encostar-se a nós! Com a breca, parece muito em baixo de sorte! Rasgado, sujo, com a
barba crescida e sinais de quem tem andado a dormir pelo mato.
Desviei imediatamente a minha atenção para o indivíduo tão impressionantemente descrito. Aproximava-se de facto de nós hesitante ao princípio, mas depois
com maior segurança, como se a maneira de o olharem lhe parecesse favorável. Devia ser da nossa idade, embora, o seu rosto encovado não permitisse avaliar com exactidão.
Tinha olhos negros, ardentes, nos quais notei uma sombra de esperança.
- Viva, vaqueiros - saudou, detendo-se na nossa frente. Desculpem dirigir-me a vocês, mas São os primeiros cavaleiros abordáveis que encontro.
- Viva - retribuiu Jack, com a habitual cordialidade -,
Claro que somos abordáveis!
Shaw fitou o recém-chegado, interrogadoramente.
- Querem comprar um grande cavalo? - perguntou-lhes o homem. - Qual é a dificuldade do vaqueiro que pretende vender o seu
cavalo? - indagou Shaw, com rispidez.

- Qual lhe parece que seja, camarada? - ripostou o vaqueiro com espírito, como se a resposta fosse óbvia. - Há dias que cavalgo e, acreditem, nesta velha
trilha os acampamentos e os ranchos são poucos e muito distanciados. Estou quase morto de fome!
- Bem, é razão de sobra - aquiesceu Shaw, pensativo. - Não
compraremos o seu grande cavalo, mas arranjar-lhe-emos comer. É só isso que procura?
- Obrigado, vaqueiro. Meu Deus, há tanto tempo que não
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procuro mais nada, que me esqueci se pode haver mais que procurar. Quase da mesma estaEnquanto aqueles dois homens, q asso em frente e tura, terçavam olhares, Lowden
deu um p intrometeu-se
- Vaqueiro, podias ter encontrado tipos piores do que nós,
sou eu que to digo. Fala se quiseres, se não quiseres não fales. Aqui o meu compincha é do Texas e este calmeirão é ianque, do Leste, mas supomos que seja um tipo
fixe.
- Não me importo de falar depois de comer e de beber
qualquer coisa - volveu o recém-chegádo.
- Desculpe se somos curiosos. Tome este dinheiro, há um bom
sítio para comer na porta ao lado. Vá e farte-se.

Ficaremos aqui ainda um bocado. se quiser voltar.
O vaqueiro aceitou o dinheiro com olhar agradecido e, sem
dizer palavra, correu para a porta do restaurante e entrou. - Que mosca te mordeu Vance? - inquiriu Lowden, cheio de
curiosidade.
- Porquê?
- Terá o leite da generosidade humana azedado no teu
peito?mas adquiriu um gosto.

- Não, Jack, suponho que não. Mas adquiriu um gosto amargo.
- Diabos te levem, estás a mentir? Cameron, que pensas
daquele camarada que nos abordou?
Assim solicitado, expus francamente a minha opinião, a qual
mereceu de Lowden um grunhido de satisfação.
- Estás a ver, compincha? O nosso novato ianque é vivo que se farta! Sim, senhor, aquele vaqueiro é um caso triste, muito triste. Não te pareceu que vai
no "piranço".
- Sim, tive essa impressão. Aquele vaqueiro matou alguém
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e não há ainda muito tempo: Mas não creio que seja mau rapaz.
- Nem eu, amigo. mas, sabes, nós, vaqueiros de coração terno, já nos enganámos algumas vezes. No entanto, esperemos mais um bocado para ver o que isto dá.
Calámo-nos, os vaqueiros recomeçaram a observar quem passava e eu acabei por fazer o mesmo. Parecia difícil ser aquilo a
que chamava racional na minha atitude para com os meus novos companheiros, a ocasião e o local. A intensa curiosidade que sentia não se coadunava com a indiferença
e o discernimento característicos da Nova Inglaterra, mas dir-se-ia que descobrira de súbito, em mim, instintos e sentimentos que sempre ignorara possuir. Tentei
avaliar cada homem que passava e classificá-lo como trabalhador, criador de gado, carroceiro,
jogador, etc. Havia agora tanta gente na rua como ao princípio da noite.
Pouco depois senti grande prazer ao ver aproximarse um par de índios. Estavam longe, porém, dos espécimes cheios de romanesca dignidade que a minha imaginação
criara. Envolviam o

corpo atarracado em cobretores, o cabelo preto caía-lhes até aos ombros e as suas feições trigueiras eram interessantes, mas não atraentes. Passaram sorrateiramente,
deslízando nos pés calçados de mocassins e mostrando sob as mantas as pernas arqueadas. Lowden observou, entre dentes:
- Imundos peles-vermelhas!
Não ví uma única mulher na rua durante a meia hora em que
ali permanecemos. Apetecia-me rever a rapariga do salão de baile, Ruby, mas de repente recordei-me da moça do carroção, cujo rosto inesquecível cada vez me intrigava
mais.
Nesse instante o vaqueiro desamparado da sorte saiu do
restaurante e veio ao nosso encontro, sem hesitar.
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- Ainda bem que esperaram, amigos. Agora sinto-me um homem
diferente!
- Sim, quando um esfomeado enche a barriga sente-se sempre
diferente. Já passei por isso.
Sugeri de novo que fôssemos para a estalagem, onde poderíamos tomar uma bebida, fumar e conversar.
- Onde está o seu cavalo? - perguntou Shaw ao vaqueiro.
- Deixei-o num caminho fora da cidade. É só um quadrado de
erva, mas chegará para passar a noite. Depois irei buscá-lo. Enquanto nos dirigíamos para a estalagem prestava mais
atenção aos meus companheiros do que aos homens com quem nos cruzávamos e aos lugares por onde passávamos.
Como o vestíbulo estava cheio, levei-os para o meu quarto -
um aposento grande e nu, apenas com quatro tarimbas, muito pouca mobília e um candeeiro que alumiava mal. Disse aos rapazes que se instalassem à vontade e fui procurar
outro candeeiro e alguma coisa que se bebesse e fumasse. O proprietário informou-me que mais ninguém ocuparia o quarto e eu respondi-lhe que, sendo assim, talvez
os meus amigos ficassem comigo aquela noite.
- Agora, amigos - declarei, ao voltar -, temos aqui bebidas
e tabaco. Espero que possamos travar conhecimento.
- Que conversa vem a ser essa? - indagou Lowden, secamente.
- Se percebesses alguma coisa da gente do Oeste, saberias que
já travámos conhecimento há muito tempo.
Falei-Lhes de mim, resumidamente, e conclui afirmando-me satisfeito, para não dizer grato, com a sua ajuda.

- Bem, Wayne - murmurou Shaw a sorrir pela primeira vez, o
que pareceu iluminá-lo, transformá-lo numa pessoa diferente -,
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se conseguir esquecer-me de que és ianque, creio que nos entenderemos.
- Com mil diabos, compincha, a guerra ainda não chegou cá -
exclamou Lowden. - E, quem sabe, talvez nem chegue.
- Chega, tão certo como a morte. Se fosses do Texas em vez
do Missuri já o terias percebido há séculos.
- Ouve, Shaw, quando contei a minha pequena história esqueci-me de dizer que a minha própria casa está dividida: minha mãe é ianque, o meu pai sulista. Os
negócios deste obrigaram-no a permanecer no Norte, mas o seu coração está no Sul, onde nasceu.
- Por Moisés! - exclamou Lowden. - Isso torna-te pelo menos,
meio rebelde.
- Bem, amigos, assim já é um bocado diferente - exclamou
Shaw. - Estou certo de que nos entenderemos. Agora, Jack, conta ao Cameron e a este nosso novo camarada o que estamos a fazer aqui.
- É fácil - afirmou Jack, expelindo uma grande baforada de
fumo. - Serei breve e claro: somos apenas um par de vaqueiros sem préstimo do Rio Grande. Não temos casa nem parentes, nem dinheiro nem namoradas - nada a não ser
a roupa que trazemos no corpo, as armas. e, não quero esquecê-lo, dois dos melhores cavalos jamais montados por vaqueiros. No Rio Grande a coisa esquentou para nós
e, como não tínhamos trabalho que rendesse dinheiro, pareceu-nos conveniente vir por aí fora cá para o norte. Partimos há meses e, palavra, esqueci o que aconteceu
pelo caminho. Em Panhandle ouvimos uns zunzuns acerca da linha telegráfica que vão construir através das planícies. É um trabalho dos diabos, e por isso aqui estamos.
- Amigos, o Jack sempre teve a pecha de passar por cima de
certos pormenores - interveio Shaw.

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- Devia ter dito que fomos corridos do Texas, embora nada mais
tenhamos feito do que furar um par de maus tipos de uma família antipática.
- Há quanto tempo aqui estão vocês, Vance, e que fizeram?
Que pensas do trabalho da Western - indaguei.
- Estamos cá apenas há uns dias, mas tanto bastou para termos encrenca com uns indivíduos mesquinhos, por causa da Ruby, e para percebermos que a montagem
da linha será uma obra formidável, uma coisa nunca vista. se conseguir ser levada a cabo. Já vi e já ouvi falar o tal Creighton e fiquei com a impressão de que é
um tipo de aço. É um indivíduo enorme, daqueles capazes de convencer seja quem for a ir para o inferno com ele.
- Tinha a mesma opinião - observei- Talvez consigamos que
nos empregue a todos.
- Isso será fácil - afirmou Jack -, descobrimos que o Creighton se tem visto e desejado para arranjar homens e encontrado bem maiores dificuldades para conservá-los.

Tenho as minhas dúvidas acerca do Vance e de mim. Nós
detestamos trabalhar, isto é, enterrar postes, andar é, cortar e serrar madeira e outras coisas semelhantes.

- Não te preocupes compincha - tranquilizou-o Vance -, o
Creighton não conseguirá montar a linha sem cavaleiros, caçadores, homens para combater os índios. Isso serve para nós e eu demonstrar-lho-ei num ápice.
- Bem, para três de nós parece estar o caso solucionado, -
observei olhando interrogadoramente para o quarto membro do grupo.
O homem conservara-se um pouco afastado e não tomara parte
na conversa, mas ao ouvir-me levantou-se e aproximou-se da luz. Os seus movimentos e o seu rosto transtornado denunciavam inquietação e nervosismo. Parecia-me que
devia ser um rapaz simpático se se barbeasse e limpasse a sujidade da viagem.
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e Se acalmasse a sua expressão de desvario e transtorno. Fitou
em cada um de nós o olhar febril, como se quisesse demonstrar que era capaz de encarar fosse quem fosse, e aumentou assim a simpatia que já me inspirava.
- Amigos - começou, com voz abafada -, atingiram-me em cheio, abaixo do cinto. Tive boa impressão de vocês logo à primeira vista, mas não sei se deva ou
não desembuchar. se não será melhor continuar a cavalgar para diante.
- Fala se quiseres, se não quiseres não fales, vaqueiro -
interveio Shaw. - Convido-te - e creio que posso fazêlo em nome de Cameron e do seu compincha Jack - a juntares-te a nós para ajudarmos esse carola do Creighton
a realizar a doidice que se lhe meteu na cabeça.
- Muito obrigado, Shaw - agradeceu o vaqueiro, comovido. -
Era isto que eu precisava, sou um não-presta-para-nada tão grande, que não resisto a meia dúzia de palavras bondosas. Meu Deus, como gostava de desabafar com vocês!
Se ao menos me atrevesse...
- Acho que já sabes com o que podes contar - interrompeu-o Shaw, num tom de voz vibrante. e eu compreendi pela expressão do seu rosto o que seria tê-lo por
amigo.
- Vejam isto! - exclamou o vaqueiro, quase com violência.

E, de cara para nós sob o clarão da luz, despiu o casaco,
desabotoou a camisa suja e rasgada num movimento brusco e

despiu-a também. Notei que possuía uma musculatura extraordinária, mas que estava excessivamente magro para o seu arcaboiço. Depois, com um ar de vergonha e tragédia
no olhar, murmurou:
- Não é nada fácil de fazer!
No mesmo instante voltou-se de repelão e mostrou-nos as
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costas; estavam transformadas numa massa de vergões e golpes negros e azulados, alguns ainda mal cicatrizados. Sustive a respiração, impressionado por compreender
que aquele rapaz devia ter sido terrivelmente espancado por alguém e que a vergonha e os motivos de tal tratamento haviam desencadeado a tragédia que se lhe lia
no rosto.
Não conseguia desviar os olhos dos vergões, alguns tão inchados que se erguiam cerca de três centímetros acima das costas. Nenhum de nós falou. Por fim voltou-se
de novo, respirou profundamente e enfiou depressa a camisa.
- Com mil raios, homem! - exclamou Jack, quase num guincho.
- Não admira que pareças estranho! Como diabo podemos impedir-
nos de perguntar onde arranjaste isso?
- Vaqueiro, o enforcamento não seria pior! - exclamou Shaw
por sua vez, com voz pungente.
Subiram-me várias perguntas aos lábios, mas não fui capaz de
exprimi-las.
- Camaradas, ainda bem que tive ganas de mostrar-lhes declarou o vaqueiro, aliviado. - Vejo pelas vossas caras que estão convencidos de que não mereci "isto";
de contrário não o teria mostrado.
- É assim que penso - afirmou Lowden. - Mas, com a breca,
amigo, também não nos terias mostrado se não tencionasses falar, pois não?
- Tens razão - admitiu o vaqueiro. - Ao princípio não percebi, mas agora sei que alivia falar. Cheguei a ter a impressão de que atabafava se não despejasse
tudo do peito. mas agora vou fazê-lo. Depois... veremos. Creio que devo afastar-me o mais que puder, mas no entanto, para bem ou para mal, gostaria de fazer uma
paragem onde possa de novo trabalhar, comer e dormir.
- O que nos mostraste e o que até agora disseste leva-nos a
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desejar que pares aqui, connosco - afirmou Shaw, sinceramente. - Quatrocentas ou quinhentas milhas é uma grande distância
nesta região; talvez seja longe bastante para ser seguro respondeu o vaqueiro. - Talvez mesmo tenha sido cobardia cavalgar até tão longe. Bem, mas escutem.
Aposto que vocês, texanos, nunca ouviram história como a minha. Chamo-me Darnell e estive poucos anos no Wyoming, na foz do rio Sweetwater, no lado ocidental
do território. É a melhor zona de gado de todo o Oeste, e aquela cidade mineira de South Pass, de que devem ter ouvido falar, tornou-se nos últimos tempos a mais
rica, mais brava e mais sarrenta cidade de sempre. Falar-lhes-ei dela mais tarde. A área do Sweetwater foi primeiro ocupada por pioneiros chegados em caravanas de
carroções, que viram as suas possibilidades e se instalaram para aproveitá-las e desenvolvê-las. Seguiram-se-lhe criadores de gado e rancheiros até cerca de cem
milhas de terreno ficarem ocupadas. Começaram agora a prosperar, mas aquela zona será tão rica em gado como o South Pass é em ouro. Entre os

criadores de gado, que eu saiba, existe apenas um texano. um excelente rancheiro, mas duro com os vaqueiros e eu prevejo que, na guerra que por força haverá entre
criadores e vaqueiros- será morto. Os ladrões de gado começaram também a trabalhar no Sweetwater. Virão a ter ali um óptimo campo de acção, mas só mais tarde.
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Todos os vaqueiros que começam roubam mavericks, o que se
tornou um hábito e faz perder a cabeça aos criadores, mas eu fui apanhado com a boca na botija. Aprisionaram-me e mantiveram-me amarrado e fechado durante dias.
só a pão e água. Como não disse o que queriam saber, porque isso envolveria a honra de uma mulher, os dois principaiç donos de gado da região levaram-me de noite
para os salgueiros
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que bordejam o rio, amarraram-me, despiram-me e acenderam uma fogueira para poderem gozar o espectáculo. A meia dúzia de homens que contrataram para se encarregarem
da sua tarefa usaram máscaras e não falaram, e por isso não pude reconhecê-los; mas os dois rancheiros não taparam a cara. Esticaram-me os braços com cordas e disseram-me
que se não os informasse do que queriam saber me espancariam até me deixarem quase morto. Ri-lhes na cara e mandei-os para o diabo. Cumpriram a sua palavra. Homem
após homem vergastaram-me, até se lhes partirem nas mãos as varas de salgueiro, de uma polegada de grossura. Mas não abri a boca! Pararam uma vez e deram-me outra
oportunidade de denunciar, mas só me ouviram dizer que, tão certo como Deus existir, os mataria aos dois!
Nova pausa e depois:
- Vergastaram-me de novo até o sangue esguichar para a cara
dos carrascos, os quais acabaram por se enojar tanto com o trabalho que não quiseram bater-me mais. Fecharam-me de novo, mas passados três dias consegui fugir. Roubei
um cavalo e cavalguei, em pêlo, para o vale do South Pass. Cheguei lá de manhã e as pessoas viram-me chegar e atravessar a cidade com as costas a sangrar, como uma
bandeira vermelha. Procurei dois vaqueiros que conhecia e que me emprestaram esta arma e esta roupa e me informaram que na cidade se realizava naquele momento, uma
reunião de criadores de gado. Perguntei se os dois rancheiros que jurara matar se encontravam entre eles. Encontravam. Os meus amigos disseram-me onde devia ir e
desejaram-me sorte. Cavalguei para a cidade, afastei uma multidão que se reunira diante do lugar onde se realizava a reunião e procurei os dois rancheiros. Disse
poucas palavras, mas bastaram: matei-os. fugi da cidade e desde então ainda não parei de cavalgar. melhor, não terie parado se não fosse para dar descanso ao cavalo.
Esqueci-me de dizer que os dois vaqueiros meus amigos me deram também uma sela. Não sei há quantos dias saí de South PasS, mas posso contar as poucas vezes que comi
alguma coisa. É a minha história, camaradas, e juro que é verdadeira.
Após um momento de pesado silêncio Vance Shaw disse friamente:
- Parece-me que vinha a calhar uma bebida.
Aceitámos a sugestão e a atmosfera pareceu desanuviar-se um
pouco.
- Preciso tanto de tomar ar como de beber - observou Lowden. - Darnell, e se fôssemos os dois dar uma vista de olhos ao teu
cavalo? Há aqui perto um estábulo de aluguer e esse cavalo merece ser alimentado como deve ser e uma boa cama.
- Se merece! Esquecera-me dele.
Ofereci então:
- Há aqui quatro tarimbas. Por que não ficam todos aqui esta
noite?
Concordaram logo, o que me alegrou. Eu e Shaw acompanhámos os outros dois até à rua e depois voltámos para dentro.
- Bem me parecia que acontecera àquele vaqueiro alguma coisa
terrível - murmurou o meu companheiro, pensativo. - Nunca vi tantos golpes e vergões num corpo humano! Caramba, como deve ter sofrido. tanto física como moralmente!
Os vaqueiros são uns tipos estranhos. Talvez não acredites, mas têm brio e orgulho. - E, sem esperar que fizesse qualquer comentário, prosseguiu: - Se conseguirmos
convencê-lo a ficar aqui connosco far-Lhe-emos um grande favor. e talvez também a nós próprios. Passou muito tempo sozinho, envergonhado ao ponto de supor que todos
os homens estavam contra si.
- Há uma coisa que me intriga, Claro que ainda não percebo
as coisas do Oeste.
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Ele disse que foi apanhado com a boca na botija a roubar. o que disse que era?
- Mavericks. Um maverick é um vitelo não marcado que se encontra na pradaria. Se o apanhares quando não está com a mãe isso não é roubar. Nós, vaqueiros,
não consideramos roubo laçar mavericks para nós próprios.
- Espancá-lo daquela maneira! Disse que não quis denunciar,
que estava envolvida a honra de uma mulher. Que te parece?
- Deus sabe que, por enquanto, não faço ideia. Mas tenho cá
a impressão de que há uma grande embrulhada no vale do
Sweetwater e que vamos estar envolvidos no caso. Falta muito tempo, porém, e talvez não vivamos até lá.
- Viveremos - respondi, decidido. - Tenho cá o pressentimento, como vocês costumam dizer, de que tudo correrá bem.
- É assim que se deve pensar - replicou Shaw. - Há bocado
vi-te tentar enrolar um cigarro à maneira dos vaqueiros e fizeste úma triste figura. Vou mostrar-te como é. Uma das coisas que assinalam um novato é a maneira como
enrola os cigarros.
E começou, cheio de seriedade, a ensinar-me a enrolar cigarros com a mão esquerda. Gabava-me de. não ser desajeitado, mas a verdade é que estraguei uma dúzia
de cigarros antes de apanhar o jeito. Depois fiz ao vaqueiro uma série de perguntas acerca do trabalho de construção da linha, à maioria das quais soube responder-me,
e por fim Jack Lowden voltou com Darnell.
- Fica sabendo, compincha, que este camarada de Wyoming tem um cavalo tão bom como o meu, e que não fica a dever nada ao teu - declarou Jack.
- Perdeste a cabeça? Range é o melhor cavalo das planícies!
- replicou Shaw, avespinhado. - Trouxeram-no para a cidade?
- Pusemo-lo na cavalariça. Coitado do Pés Alados, pareceu
bem satisfeito com isso! - respondeu-lhe Darnell.
- Pés ALados? Isso é um nome muito lisonjeiro, sem dúvida,
Voaremos.
- Não me arriscarei a que o meu cavalo seja vencido, e muito
menos a arranjar questões com vocês, amigos.
- Queres dizer que ficas connosco? - indagou Shaw.
- Seria parvo se não ficasse.
- Que julgas que tive de dizer-lhe para o convencer, hem,
compincha? - perguntou Jack.
- Não faço ideia. mas aposto que foi qualquer exagero.
- Disse-lhe que era estupidez passar a vida a cavalgar e
que, se te tivessem batido a ti, ficarias lá até matares todos
os tipos. Disse-lhe que, naturalmente, terá encrencas, mas que tem aqui três compinchas para o que der e vier. e que vale a pena ver o nosso novato esmurrar um tipo,
disse-Lhe que sou o camarada mais útil para ter por perto quando há barulho e, finalmente, que és o melhor atirador que o Texas já deu.
- Só isso? Receava que tivesses fanfarronado.
Até a expressão sombria de Darnell se modificou ao ouvi-lo.
- Companheiros, fico com vocês, mas juro que nunca Lhes
darei motivos para se arrependerem.
- Estamos certos disso - respondeu-lhe Shaw, com outro dos seus sorrisos simpáticos. - Agora toca a deitar. Estamos todos cansados e o Darnell, coitado,
parece um morto em pé. Amanhã é outro dia e muito haverá que fazer.
Pouco mais dissemos. Antes de apagarmos os dois candeeiros notei que os vaqueiros se limitavam a descalçar as botas, com esporas e tudo agarradas, antes
de se deitarem, Eu, porém, fiel aos hábitos antigos, despi-me, apaguei o último candeeiro e meti-me entre os lençóis.
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Mal me estendera percebi que os três rapazes já dormiam como
cepos, a respirarem devagar e regularmente. Só o Lowden ressonava um pouco. Quanto a mim, estava demasiado excitado para dormir.
Fiquei na escuridão fria, aconchegado e quente sob os cobertores a ouvir os ruídos leves que vinham do exterior. Agora que havia silêncio no quarto chegavam-me
aos ouvidos o tilintar de moedas e de copos, o virar da roleta, um sussurrar de vozes entre as quais distinguia um riso feminino, abafado e doce. Este último pormenor
desviou os meus pensamentos para outros horizontes.
Não contara com as mulheres nos cálculos que fizera acerca da minha vida no Oeste, mas isso não bastaria para as afastar do meu caminho. Havia qualquer coisa
de fascinante em Ruby, a pequena do salão. Não seria por ser tão jovem e bonita, mas talvez por ser infeliz e ter aquela vida. Pensei de novo na rapariga do carroção,
no seu olhar, nos seus cabelos castanhos ondulados, no acenar da sua mão, e disse para comigo que, se voltasse a encontrá-la, estaria perdido.
Ainda me custava a acreditar que estava ali, na fronteira,
já em contacto com indivíduos rudes, e que em breve encontraria índios e búfalos e teria de pôr à prova o meu valor. Não me saíam do pensamento os três novos camaradas
que dormiam e compartilhavam comigo a escuridão.
Oriundo da Nova Inglaterra e de uma família de elevados princípios morais e religiosos, não podia deixar de impressionar-me ter tão fàcilmente travado amizade
com homens que tinham matado outros homens, e perguntava a mim próprio se alguma vez teria de fazer o mesmo. O que se passara no salão de baile demonstrara-me que
para isso não precisaria de encolerizar-me muito mais do que quando esmurrara o rufião que me esbofeteara. Compreendi que tudo dependeria dos homens e mulheres que
viesse a conhecer, que havia necessidade de mais
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amizade, de laços mais fortes a unir-nos, de um freio a travar as nossas cóleras.
Tencionava conquistar e conservar a amizade destes três vaqueiros, custasse o que custasse, e prometi a mim mesmo ser reflectido e esforçar-me por estar
preparado para o que
pudesse acontecer.
Finalmente cerrei os olhos e o sono dissipou-me os pensamentos.
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III
O meu sono foi interrompido por uma voz desconhecida:
- Acorda, Wayne, meu velho; o dia nasceu e temos muito que
fazer.
Era Lowden e despertei quase instantâneamente. Sentei-me e atirei os cobertores para trás. O sol entrava pela ja nela e inundava o quarto, misturado com
um cheiro estranho e adocicado a que não conseguia habituar-me.
- Com mil raios! - praguejou Shaw, que tentava enfiar as botas com muita dificuldade. - Tenho de comprar peúgas e outro par de botas.
Lowden, em palmilhas de meias, foi depois acordar Darnell, surpreendendo-me com a delicadeza com que o fazia. Entretanto saí da cama e vesti-me depressa.
- Jack, agora que nos encontramos num hotel de luxo depois
de tantos meses - se é que alguma vez estivesse em algum. podias ir buscar água quente - sugeriu Shaw: - Precisamos de barbear-nos os dois e não faria mal nenhum
ao nosso novo compincha se se lavasse um pouco. Lembra-te de que vamos procurar emprego e de que o nosso apuradinho amigo ianque nos leva uma grande vantagem.
- Eu vou buscar a água - ofereci-me.
Na cozinha deram-me um jarro de esmalte, tão quente que mal
podia pegar-lhe. Quando voltei ao quarto os vaqueiros estavam todos acordados e dois fumavam.
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Darnell deu-me os bons dias, sentado na cama e perguntou-me se não tinha uma camisa a mais que lhe emprestasse.
- Concerteza que tenho, e peúgas também - Apressei-me a
abrir a mala para o servir.
- Eh, camarada, Também me fazia jeito uma dessas! - Exclamou
Lowden, descaradamente.
- Da melhor vontade, Jack. E aqui está um par de
peúgas para ti também, Vance. Quanto a botas é que lamento, mas só tenho um par. Como vêem são de atacadores e têm tacões baixos; não creio que vocês, vaqueiros,
possam usá-las.

- Com muito prazer as usaria, confesso, mas não posso,
de facto - observou Jack. - Que julgas tu que me aconteceria se me escarrachasse num cavalo com botas dessas?
- Acaba de ocorrer-me, Jack, que não podemos partir

para esses trabalhos sem botas, luvas e uma quantidade de outras coisas - observou Shaw.
-Até que enfim abr ste os olhos - troçou o companheiro. -
Soube que assim seria desde que chegámos.
Quanto dinheiro temos?
- Tenho medo de ver.
- Darnell, creio que te juntaste à companhia lisinho,
hem? - indagou Lowden.
- Se me tivesses visto comer a noite passada não precisarias
de perguntar - respondeu-lhe o outro, lamentosamente.

- Amigos, eu ainda tenho algum dinheiro - anunciei. Não é muito, mas deve chegar para nos aguentarmos até recebermos qualquer coisa.
- Wayne, não restam dúvidas de que tens uma característica
dos vaqueiros! - exclamou Jack. - E apostava as minhas esporas em como não tardarás a adquirir outras.
Tirei a carteira e dividi igualmente entre os quatro o dinheiro que me restava, gesto que teve o condão de animar
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os meus companheiros. Lowden gracEjou, Shaw agradeceu-me em poucas palavras e Darnell pareceu demasiado comovido para falar. A seguir entregaram-se às suas abluções
e surpreendi-me com a rapidez com que o fizeram. Em poucos momentos estavam barbeados e com muito melhor aparência, ao ponto de Darnell nem parecer a mesma pessoa.
Depois do pequeno almoço saímos e eu senti-me como um garoto
protagonista de uma aventura emocionante. Perguntámos a um cocheiro quanto levaria para uma corrida ao acampamento dos trabalhos e ele respondeu-nos:
- Se procuram emprego é melhor falarem a Creighton aqui, pois ele está na cidade. A noite passada teve de despedir um grupo de inúteis, e por isso se vocês
querem trabalhar - mas trabalhar mesmo, hem? - com certeza que os contratará.
- Onde encontraremos Mr. Creighton? - perguntei-lhhe.
- Vi-o mesmo agora naquele armazém.
Dirigi-me para o armazém indicado, com os meus companheiros em fila atrás de mim, e procurei-o ansiosamente com o olhar. Entre um grupo de homens que lá
se encontravam a conversar estava Mr. Wiliamson, que veio apertar-me a mão.
- Alegra-me vê-lo, Cameron. Andámos à sua procura, sabe?
Disse a Mr. Creighton que tivera o prazer de viajar consigo e aqui está ele! Creighton, permita que Lhe apresente o jovem Cameron, da Nova Inglaterra, de quem lhe
falei.
Voltei-me e deparou-se-me um homem alégre, ainda jovem, de cabeça leonina e olhos faiscantes, que produziram em mim quase o mesmo efeito, quando me
fitaram. A julgar pela vestimenta
podia tratar-se de um simples mineiro.
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- Como está, Camerom? - cumprimentou-me, com um forte aperto
de mão. - Williamson recomendou-mo, e a julgar pelo que ouvi agrada-me.
Surpreendi-me por Williamson me ter elogiado, pois o nosso
conhecimento fora breve.
- Esses rapazes vêm consigo? -- perguntou-me Creighton.
- Sim, sir, procuram emprego como eu.
- Entrem todos. - Voltou-se para Wiliamson e os outros homens, pediu-lhes licença e conduziu-nos para um aposento pequeno, que tudo indicava ser um escritório.
- O Williamson disse-me que você, Cameron, estudou medicina antes de abandonar Harvard, e isso interessa-me. Não tenho entre os meus homens nenhum que perceba de
medicina ou de cirurgia, e desta última especialidade, principalmente, vamos precisar. Está contratado. Agora quero conhecer esses rapazes que vieram consigo. Vaqueiros
todos, ou não conheço o meu Oeste. Chame-os, um de cada vez.
Fiz sinal a Shaw, que se encontrava à porta, e ele aproximou-se com o seu passo lento e ritmado. Gostava sempre de vê-lo mas naquele momento, com o olhar
fixo em Creigh ton,

pareceu-me mais do que nunca impressionante. Apresentei-o.
- Prazer em conhecê-lo, Shaw, e espero poder contratá-lo.
Que sabe fazer que seja útil a um construtor apressado?
- Creio que nenhum trabalho desses que geralmente os seus operários fazem - respondeu o vaqueiro, imperturbável. - Mas faço uma ideia das dificuldades que
vai encontrar e posso demonstrar-lhe que precisará de mim e dos meus camaradas.

- É da planície?
- Nasci a cavalo, tenho passado a vida na planície, sei lidar com gado de todas as maneiras e feitios e conheço os búfalos.
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Creio que serei útil nos apertos em que vai ver-se com a sua gente.
- Já combateu os índios?
- Já, desde pirralho. Acho, Mr. Creighton, que Lhe seria útil como batedor e caçador. Precisará de homens a cavalo que andem de olho alerta por causa dos
índios, encontrem água nas regiões secas, arranjem carne. Também sei, e suponho que isso lhe interessará especialmente, onde há madeira.
- Madeira? Para os potes, não é? Acertou em cheio
rapaz! Está contratado. Falaremos de salário mais tarde: agora chame os seus amigos.
Não foi preciso dizer mais para que entrasse Lowden, a bambolear-se nas pernas curtas e atarracadas, seguido por Darnell, este muito direito, sombrio, com
o olhar febril e atento. Creighton apertou a mão a ambos e pareceu avaliá-los à primeira vista.
- Que sabe fazer? - perguntou a Lowden.
- Estou habituado a cavalgar com o Shaw, e isso é trabalho
que gosto de fazer. Sou habilidoso com uma arma na mão, mas não chego aos calcanhares do meu compincha. Ele não lhe disse que é o atirador mais rápido do Texas?
Fora disso, acho que não presto para nada.
- Está contratado - declarou Creighton, com uma gargalhada.
- E agora - prosseguiu, dirigindo-se a Darnell -, explique-me
lá por que não poderei construir a linha telegráfica da Western Union sem a sua ajuda.
- Mr. Creighton, julgo não precisar de dizer-lhe mais do que
isto: acabo de vir para estas bandas pela Trilha do Oregão, conheço o Vale do Sweetwater, a região do South Pass e as terras altas dos lados de Bridger tão bem como
qualquer cavaleiro de Wyoming. Como homem dos montes calculo que o seu pior bocado será entre Juleshurg, o rio Sweetwater e para oeste do South Pass.
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- Que quer dizer com isso do meu "pior bocado"?
- índios. Claro que não vão aceitar de bom grado este trabalho. Os sioshones do grande chefe Washakie, que é verdadeiramente amigo dos brancos, talvez o
ajudem, mas os Sioux, os Cheyennes, os Arapahoes e provavelmente outras tribos hostis, ensinarão à sua gente o que é o inferno na terra.
- SErá contratado também - declarou, de dentes cerrados, aquele homem que de súbito se tornara nosso patrão. - Procurem todos Ben Liligh, o meu capataz.
Está na cidade, suponho que na loja do ferreiro, e tem um carroção vazio que está a calhar para vocês. Seguirão directamente com a minha caravana para o
local dos trabalhos. Cameron, tenho no meu carro uns estojos médicos que ficam ao seu cuidado. Espero-os a todos amanhã de manhã. Contava que a linha chegasse até
aqui esta noite ou amanhã, mas surgiram vários contratempos que nos atrasaram. Estou à espera de uma caravana de carros com postes. Postes, postes, postes! Até a
dormir me perseguem!
E deixou-nos, sem mais palavras. Se os meus camaradas sentiam o que eu sentia, estávamos todos exaltados e, ao mesmo tempo, intimidados com aquela espécie
de maré de força que nos envolvera. Só quando saímos do armazém e fomos procurar Liligh nos apercebemos, a pouco e pouco, de que fôramos aceites por Creighton.
- Bem, tivemos sorte - declarou Shaw. - A ocasião merece uma
bebida, não achas, ayne?
- Também me parece que ficaria mais lúcido - respondi-Lhe. Entrámos no saloon mais próximo, tomámos a nossa bebida,
voltámos para a rua e pusemo-nos a caminho da loja do ferreiro. Ouvimos bater o malho, vimos uma chuva de faíscas e, logo a seguir, o ferreiro, um homenzarrão barbudo
de avental de couro.
Quando nos aproximámos vi sair de um dos carroções um homenzinho magro, grisalho e macilento. Usava uma camisa suja de pele de veado, com franjas e contas,
o que o diferençava dos operários que víramos até então. Tinha o chapéu velho, de abas largas, posto à banda e fumava cachimbo.
- Mr. Creighton mandounos apresentar ao seu capataz, Liligh
- anunciei.
Quando o indivíduo da camisa de pele de veado se voltou para
nós, compreendemos encontrar-nos perante outra personagem extraordinária. Iluminavam-lhe o rosto amarelado e magro dois olhos penetrantes que, ao fitarem-me, me
deram a impressão de que me sentiria reduzido à maior das insignificâncias se poucos homens mais me olhassem assim.
- Sou Liligh - respondeu-me com voz ríspida e seca, tirando
o cachimbo. - Mandou-os procurarem-me para quê?
Comecei a explicar-lhe, mas interrompeu-me:
- Ah, é isso! Bem, não há remédio. Já me vi e achei com toda
a espécie de trabalhadores neste maldito emprego, mas ainda
não tinha experimentado um ianque nem nenhum vaqueiro. Creio que não perderei nada em tentar com vocês, mas não morro de amores por ianques e desconfio muito, mas
muito, de vaqueiros.
- Só queremos uma oportunidade para demonstrar o que valemos
- repliquei-lhe secamente.
- Ouça, Mister Liligh - perguntou Shaw, em tom insolente e vagaroso - essa cicatriz que tem aí por cima da orelha não é o ponto onde um índio tentou arrancar-lhe
a cabeleira?
O velho fronteiriço - fácil era reconhecê-lo como tal estremeceu violentamente, como se o tivessem picado, e gritou, furioso:
50 51
- Tens razão, vaqueiro, e confesso que os teus olhos são
bons. Mas que queres dizer na tua?
- Bem, velhote, se eu e o meu compincha estivéssemos consigo
nesse momento, nada teria acontecido.
- Hum, hum! Lutam com os índios, hem? - replicou, mas observou mais atentamente o vaqueiro. - Parece que sabes o que dizes. Venham cá ver o vosso carro.
É tão bom que até o queria para mim. Foi construído de maneira a flutuar como um barco, basta tirar-lhe as rodas para atravessar um rio. As rodas são de "Osage"
laranja e carvalho branco, para durarem sempre. É todo de Madeira boa, de juntas duplas, não tem nós e está bem calafetado, como vêem. Lona nova. Aposto que os
peles-vermelhas não conseguem enfiar uma seta neste tabual! Um grande carroção da pradaria, rapazes, nem demasiado grande nem pesado. Os sujeitos imprestáveis que
cá estiveram antes roubaram tudo menos os cobertores e as tarimbas. Têm de arranjar um equipamento novo e completo.
- O quê, teremos de levar mantimentos e fazer a nossa comida? - indagou Shaw.
- Não, como seguem na caravana de Creighton não precisarão
disso. Temos um bom cuzinheiro. Podem meter as vossas coisas debai xo dos beliches e depois ir ao armazém comprar o que for preciso, que ficará na conta de Creighton.
Cameron, você que já está de lápis e papel em punho tome nota: espingardas e cartuchos suficientes, balas para as vossas pistolas, fatos de trabalho e, não esqueçam,
algumas roupas quentes e grossas. É verdade, algum de vocês é cocheiro?
- Bem, eu sou capaz de conduzir um par de parelhas declarou Lowden, em resposta a úm olhar de Shaw.
- Chefe, eu conduzirei - prontificou-se Darnell -, trabalhei
muito em fretes e para mim cavalos ou mulas é tudo o mesmo.
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- Bom. assim já vos entendemos --- resmungou Liligh. Pronto, vão comprar essas coisas e tragam-nas para aqui, assim como os vossos pertences, se têm alguns.
Arranjem o carroção como Lhes agradar e ficar mais confortável. Ferramentas, baldes, bacias, toalhas e sabão, ligaduras, sacos de lona para água, um cobertor extra
para cada um. Creio que não precisam de mais nada, a não ser do que quiserem comprar por vossa conta.
Corremos ao armazém para aviarmos o rol que Liligh indicara.
Os meus camaradas insistiram em que, antes de mais nada, comprasse para mim espingarda, cinturão e pistola. Puseram-me à cintura uma enorme cartucheira e eu perguntei-lhes,
ridiculamente, se ficava com aquilo posto, a cartucheira e a arma.
- Pois com certeza! - exclamou Lowden. - Para que julgas que
isto serve? Supões que se trata de um ornamento para usar em separado? Garanto-te que vais precisar da pistola, ianque!
- Só espero que não precise antes de eu o ensinar a tirá-la
depressa e a disparar - disse Shaw.
- Queres apostar em como precisará antes de o ensinares?
- Escuta aqui, compincha, o nosso amigo Cameron não nasceu num cavalo nem viveu desde pequeno entre pistoleiros. Portanto deixa-te de larachas acerca de
pistolas e tiros.
A quantidade de balas que compraram para mim pareceu-me a
carga mais pesada que transportara em toda a minha vida. Enquanto escolhiam mais espingardas e munições dirigi-me a outro caixeiro e escolhi uma série de coisas
que me pareceram de utilidade. Por fim disse aos rapazes que ia à estalagem buscar a minha bagagem e depois seguiria para o carroção.
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No caminho para a estalagem descobri outro armazém que não
tinha visto antes. Ia a afastar-me quando se me dirigiu uma jovem em cabelo que me fez pensar onde já a vira. Não precisei de olhá-la mais de duas vezes para avaliar
quanto era linda. Tinha cabelos ruivos, quase vermelhos, olhos azuis escuros, tez clara e cara bonita, apesar de muito magra.
- Parece conhecer-me, Miss.
- Sou Ruby, viu-me no salão do Red Pierce.
- Oh! - exclamei, surpreendido. - Esta manhã parece tão.
diferente. e mais nova. Como sabe o meu nome?
- Sei tudo a seu respeito - afirmou com um sorriso que a
tornou ainda mais linda. - Os factos e os mexericos viajam depressa nestas paragens. Interessei-me por si e depois, quando esmurrou o Hand Radford, fiquei tão satisfeita
que me apeteceu falar consigo.
- Então não é a pequena dele? - perguntei-lhe, olhando-a
fixamente.
- Sou a pequena de todos os homens. isto é, no que respeita
a dançar, a beber e ao resto do meu trabalho - respondeu-me
com amargura. - Mas detesto alguns deles, e sobretudo esse Radford. É um indivíduo brutal que se julga meu dono. É quase tão mau como o homem para quem trabalho.
- Quem é esse? - perguntei-lhe, cheio de interesse.
- Red Pierce, o proprietário do salão de baile e da casa de
jogo.
- Segundo me parece, não gosta do seu trabalho.
- Claro que não gosto! Você pode ser novato, mas não parece
estúpido.
- Engana-se, começo a descobrir que não sou tão inteligente
como supunha. É ainda muito jovem, não é, Ruby.
- Tenho dezasseis anos, mas sinto-me velha como os montes.
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- Há quanto tempo tem essa profissão!
- Há poucos meses, mas já me parecem anos.
- Onde é a sua casa?
- Não tenho casa.
- Lamento muito. E parentes, familiares?
- Tinha, ainda não há muito tempo - respondeu-me, cheia de
tristeza. - Foram todos mortos no massacre da Caravana Scot. Não ouviu falar no assunto? Os Cheyennes atacaram-nos à saída de Grand Island. Fui das poucas pessoas
que os soldados salvaram.
- Não sabia. Lamento, lamento muito, creia. É a segunda
tragédia de que tomo conhecimento, e ainda mal cheguei! Entremos um minuto no armazém - pedi-lhe. - Não fala como as pessoas do Oeste.
- Vim de Ioway. Mudámo-nos para lá do Illinois, onde nasci e
andei na escola.
- Mas como foi parar ao saLoon do Red Pierce? - admirei-me.
- Fui lá parar, mais nada. Tinha fome e não sabia para onde
ir.
- Tenciona continuar a trabalhar para ele?
- Só enquanto a isso for obrigada.
- Que quer dizer com isso? Pierce tem alguns direitos sobre
si?
- Bate-me. Se estivéssemos sozinhos no meu quarto mostrar-lhe-ia com que brutalidade.
- Não é preciso, acredito-a - apressei-me a responder,
estremecendo ao lembrar-me das costas de Darnell.
- Voltaria a bater-me se soubesse que Lhe disse - afirmou, ansiosa. - Matará qualquer homem que tentar afastar-me dele. Já matou um, até.
- Bem, eu, como sou novato, percebo pouco de tiros e mortes,
mas conhece os meus amigos Vance Shaw e Lowden.
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Se quer, de facto, deixar esse trabalho, duvido que Red Pierce
seja capaz de deter o Vance.
- Vance. sim, ele é formidável! Ficou de ir ver-me a noite
passada, ao salão, mas não apareceu. Creio que foi melhor assim, pois o Pierce viu-me dançar com ele, anteontem, e ficou ainda mais ciumento do que quando danço
com outros homens.
- Não me importo de dizer-Lhe que o Shaw confessou gostar de
si mais do que um homem devia gostar, e estou convencido de que se o pierce armasse sarilho enquanto ele dançasse consigo seria capaz de matá-lo.
- Vi-o ontem ao princípio da noite, na rua, e nem olhou para
mim - observou, com calor. - Se gosta de mim como você diz, por que não enfrenta o Pierce?
- Não sei, Ruby, mas não é por medo, com certeza. Aquele vaqueiro não tem medo de nada nem de ninguém. Aposto que já matou homens, mas mesmo assim nunca
conheci ninguém como ele.
- Sim, também gosto dele. tallvez por ser sulista. Os
sulistas respeitam as raparigas, sejam elas o que forem. Ou talvez não seja por ser sulista, talvez seja porque é ele. A verdade é que - mas não lho diga! - o amo...
- Ruby - interrompi-a, apressado -, não me diga mais nada,
por favor. Tenho de despachar-me, por causa do meu trabalho, mas antes gostava que me falasse mais desse tal Pierce.
- É um homem mau, rodeado de sócios maus - respondeu-me, também depressa. - Um deles, Black Thornton, é como se fosse a sua mão direita: foi o que disparou
para os seus pés. Pierce dirige um saloon e uma casa de jogo, mas como tem orientado os seus negócios a par com o trabalho de montagem da linha, desde Grand Island,
eu estou desconfiada de que ele e os seus homens têm outros imteresses, qualquer negócio escuro. Pelo que ouvi dizer, tencionam seguir para Oeste com a linha telegráfica,
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até South Pass, e têm grandes planos relacionados com a prospecção de ouro.
- Obrigado, Ruby, por quanto me disse. Ou me engano muito,
ou esta noite vai ver quatro amigos no salão de baile. Até lá, adeus.
A provar a minha excitação está o facto de que me dirigi
para a estalagem sem ver nem ouvir o que se passava na rua. Chegado ao meu quarto sentei-me na tarimba, a reflectir.
Ruby inspirava-me a maior simpatia. Mais, gostava dela, o
que, pensei, escandalizaria alguns concidadãos meus. Havia de falar com Shaw assim que o apanhasse sozinho, para ver se conseguia que o arrojado sulista de falas
lentas e frias a tivesse ainda em mais alta conta do que já tinha.
Encontrava-me com a bagagem quase arrumada quando chegou
Darnell, a tilintar as esporas.
- Pareceu-me melhor vir ajudar-te a levar as malas para o
carroção - declarou.
Ao olhar o seu rosto moreno e impassível percebi que o vaqueiro nutria especial simpatia por mim e senti invadir-me um calor de gratidão.
- Muito obrigado, camarada, as malas são, de facto, pesadas.
Já compraram tudo?
- Já, e também já arrumámos tudo no carro. Tive tempo para
procurar o Liligh e de dar uma olhada aos bois. São quatro animais novos, que me agradaram - e eu conheço bois! Numa viagem longa e difícil, sem pressas, não há
cavalos que os batam.
- Agora me lembro que és tu que conduzes o carroção. Como o
Shaw e o Lowden vão a cavalo, ficarei eu contigo, não é verdade?
- Pois ficas. No banco da frente, com uma espingarda

atravessada nos joelhos, para te treinares a atirar aos coelhos americanos. Só assim aprenderása acertar nos índios, que, montados nos seus velozes garranos, disparam
de debaixo do pescoço dos animais.
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Acredita no que te digo, não tardará muito que isso aconteça. - Thoopce! - gritei, levado por incontrolável impulso.

A exclamação surpreendeu-nos, tanto a mim como a Darnell.
Noutra ocasião sentir-me-ia envergonhado comigo mesmo, mas naquela pareceu-me naturalíssimo o meu comportamento.

- Perdeste o juízo? - perguntou-me o vaqueiro, a sorrir.
- Pega nessa mala, Darnell - ordenei. - Vê se os camaradas
se esqueceram de alguma coisa e depois segue-me. Vou pagar a conta.
Depois de deixarmos a estalagem, Darnell meteu por um beco para uma rua das traseiras, que era na realidade a planície, e dali chegámos num instante à loja
do ferreiro.
Achei o carroção muito mais atraente do que quando o vira pela primeira vez, apesar de então já me haver entusiasmado.
Aqueles vaqueiros sabiam transformar úm carroção numa casa
sobre rodas!
Haviam colocado algumas caixas atrás do banco do cocheiro, de cada lado, as quais serviam muito bem como armários, e pendurado um pequeno espelho sobre elas.
Os dois beliches que ficavam nesses lugares tinham sido puxados um pouco para trás e diante deles fora posta outra caixa, para servir de banco.
Sobre uma escrivaninha impro visada via-se um candeeiro com quebra-luz e os cobertores e outros artigos estavam distribuídos pelas quatro camas.
à retaguarda ficavam baldes, bacias e outros utensílios, assim como uma escada móvel, de três degraus, que descia do carro para o chão.
- Rapazes, foi para isto que saí de casa! - exclamei, entusiasmado. - Qual é o meu beliche?
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- Podes escolher o que quiseres - respondeu-me Shaw. - A não
ser que prefiras que os mudemos de maneira a dormires entre nós.
- Não te preocupes com ele, Vance - troçou Darnell. - Até já
quer lutar com os índios!
- Quero ter a minha oportunidade, Vance Shaw, e sofrer-lhe as consequências - declarei. - Escolho o beliche da direita, próximo do lugar do cocheiro.
- Tive uma ideia! - anunciou Darnell. - Por que não compramos uma daquelas barricas grandes de madeira e géneros para cozinhar? Aqui neste lado, atrás dos
beliches, há espaço para meia dúzia de prateleiras onde poderemos guardar provisões. Tenho cá um pressentimento de que haverá ocasiões em que estaremos longe do
carro-cozinha do acampamento.
- Bem pensado - concordou Shaw. - Em tais ocasiões bastar-nos-á caçar, e eu já tenho saudades de um bom e suculento bife da alcatra de búfalo!
A tarde já ia adiantada, mas Shaw e Lowden voltaram ao
armazém, a fim de fazerem as novas compras. Enquanto os esperávamos, tive de novo a impressão de que Darnell se sentia atraído para mim e desejava ser-me útil. Disse-me
que o simples acto de apontar uma espingarda era tão bom treino como disparar.
- Escolhe, por exemplo, uma mosca que ande por cima da lona
do carroção. Segue-a com a mira enquanto estiver pousada, depois pára e aperta o gatilho.
Pouco depois ouvi o chiar de rodas.
- Vem aí o Liligh - anunciou Darnell.
- Rapazes, nem tudo são más notícias - disse-nos à guisa de
saudação -, o patrão diz que não tem pressa de sair para a linha amanhã. o que é preciso é calma. Hoje avançámos tanto para oeste quanto os postes que tínhamos permitiram,
e depois abrimos covas para outros quase até aqui.
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É a primeira vez que Creighton fica detido: esperava duas caravanas de carros com postes, mas não chegaram, embora a que vem do sul deva estar quase a aparecer.
O chefe precisou de mandá-los buscar muito longe.
- Detido? - repeti, pensativo, lembrando-me da absoluta
intolerância do nosso patrão à demora.
Como reagiria quando nos encontrássemos nas planícies, onde não existem possibilidades de arranjar postes? Fiz essa mesma pergunta a Liligh, que me respondeu
com uma casquinada:
- Que fará o patrão? Fará muita coisa, com os diabos, podes
ter a certeza! Descansa que conseguirá que tiremos postes telegráficos de onde os não haja! A respeito do carroção, como se arranjaram?
- Venha ver.
- Onde porão o guarda-fato e o piano? - perguntou, depois de
inspeccionar o interior do veículo.
- Teremos de prescindir deles - respondi-lhe, a sorrir.
- Sim senhor, este é o carroção melhor e mais bem arrumado
que temos!
Neste momento chegaram Shaw e Lowden, carregados com fardos e embrulhos que deixaram cair, aliviados, na retaguarda do
veículo.
- Chefe, não se arranjará um barrilito para levarmos fora do
carro? - pedinchou Darnell.
- Para que diabo o querem vocês? Para o encherem de rum?
- Para a água - respondeu-lhe o vaqueiro. - Há lugares entre
esta cidade e Sweetwater onde teremos de fazer acampamento seco. Não haverá madeira para postes, nem lenha para queimar, nem caça para abater Deus sabe durante quantas
milhas.
- Já ouvi dizer isso milhões de vezes - volveu Liligh, agastado. - Mas obrigado pela ideia: poremos barris de água em todos os carros.
Lançou um jacto de tabaco mascado e saliva para uma pedra, a uns bons três metros de distância, e não errou a pontaria. Depois fixou os olhinhos estreitos
em Shaw e mediu-o de alto a baixo. Percebi que ia acontecer qualquer coisa.
- Shaw, encontraste alguém particular na cidade? - indagou. O vaqueiro olhou atentamente o capataz, como se o tom da sua
voz e a própria pergunta fossem significativos.
- Não posso dizer que tenha encontrado, chefe.
- Onde tinhas os olhos, rapaz? Não és um desses texanos que
andam sempre à procura de alguém?
- Agora já não. Deixei-me disso do outro lado do rio Vermelho.
- Isso é bom para ti. mas talvez não o seja para "ele". Agora tudo quanto tens de fazer é andares de olho alerta, não vá dar-se o caso de alguém te procurar
a ti. Já ouviste falar em Joe Slade?
- Não - respondeu o vaqueiro com laconismo - nunca ouvi. A
mim, contudo, pareceu-me que mentia, por qualquer motivo. Quem diabo é Joe Slade? O nome parece ruim.
- Bem, creio que, julgado pelos vossos padrões do Texas, o Slade não se classificaria como pistoleiro, o que não impede que seja um matador. Já tem cerca
de doze homens a seu crédito - ou descrédito. Bem sei que alguns eram más reses e mereciam
morrer, mas outros eram tipos decentes. O singular é que o Slade tem ocasiões em que parece um indivíduo agradável. e só quem tiver olhos o toma por assassino. Mas
quando tem um ressentimento contra alguém é o diabo! Estou a avisár-te, Shaw, assim como ao teu compincha, para não te intrometeres no caminho dele de maneira a
explicares a sua estranha natureza.
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- Obrigado pelo conselho, Liligh - agradeceu o vaqueiro, secamente. - Só gostaria de saber por que me escolheste a mim.
- Não quis ofender, Shaw. Conheço o meu Oeste e a sua gente,
quer sejam do Sul, quer sejam de outro lado qualquer. Claro que tu passarias despercebido a quase toda a gente menos a um velho sabido como eu, que conhece a fronteira
palmo a palmo. Entendido?
- Entendido. E não estou ofendido.
- O Slade chegou esta tarde com dezasseis carroções prosseguiu o capataz. - Tem estado a trabalhar para a Overland Company, não sei em que missão oficial,
e ouvi-o dizer que queria empregar-se na Western Union, para esta montagem. Aposto que quer de facto empregar-se, mas não para trabalhar. Bem, são horas de ir dizer
ao ferreiro as reparações que há a fazer nos carros.
Não me passou despercebida a troca de olhares entre Shaw e
Lowden.
- Que diabo me dizes a isto, compincha? - perguntou Lowden,
irritado. - Acho que o Liligh se portou com muita decência e não quis ofender, mas aquilo foi um aviso que te fez, e bem claro.
- Macacos me mordam se sei, Jack - resmungou o outro. Pouco me importa, de resto. Calculo, porém, que o Liligh falou com alguém do Texas que me conhece.
Pouco depois observei:
- Rapazes, está a fazer-se tarde e tenho uma fome de urso.
Que dizem a desembrulharmos o que trouxemos, arrumarmos tudo no carroção e irmos comer?
- Cá por mim, diga que está muito bem - respondeu Lowden,
com o seu sorriso alegre. - A propósito, camaradas, qual de vós vai ser o chefe do grupo?
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- É verdade, Jack, quem? Não podemos ser todos chefes.
- Se é necessário escolher um chefe, claro que deves ser tu
- afirmei, apontando Shaw.
- Eu? Mas eu por que carga de água? - protestou o vaqueiro.
- Apenas porque pareces ser o chefe.
- O que ele quer dizer é que passas o tempo a falar acrescentou Lowden.
- Nada feito - replicou Shaw, ignorando o dito do amigo. -
Sabem o que faremos? Cortaremos o baralho.
Puxou de um baralho de cartas ensebadas, acocorou-se e
começou a baralhá-las com notável destreza.
- Sentem-se, camaradas. Quero que fique entendido que este corte será absolutamente limpo, hem? Pronto, estão baralhadas. Agora corta, amigo. Isso. Podemos
dar. Cameron, tira a primeira carta.
- Porquê eu? Sou novato, não devo entrar na escolha. Não
saberia o que fazer se fosse escolhido.
- Está bem, mas tira de qualquer modo - insistiu Vance. Tirei cuidadosamente uma carta do meio do baralho, voltei-a
e vi que se tratava de um ás. Os meus amigos riram-se e
tiraram por sua vez: Shaw um duque, Darnell um valete e Lowden uma manilha.
- Pronto, está o caso arrumado - declarou Lowden -, Cameron, és tu o chefe do quarteto, e acho que calhou muito bem. Serás, pelo menos, consciencioso. Aqui
o Darnell tem demasiados momentos de melancolia para servir, o compincha Vance odeia o trabalho e, se fosse chefe, trataria de esquivar-se o mais que pudesse, e
eu está visto que não presto, pura e simplesmente. Mas nós sabemos o que nos espera, e portanto poderás tomar as tuas decisões depois de ouvires os nossos conselhos.

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Foi assim que me tornei, sem mais nem menos, chefe do nosso
pequeno grupo, categoria que me emocionava e assustáva simultâneamente. Aqueles rapazes eram difíceis de compreender. Não me passava pela cabeça por que motivo haviam
de sentir-se satisfeitos com o facto de me terem por chefe. Como havia eu de merecer a confiança que em mim depositavam? Dar-se-ia o caso de terem descoberto na
minha pessoa alguma coisa de que eu próprio ainda não tomara conhecimento? Seria aquilo o princípio do que fora procurar ao Oeste, após tantos anos infrutíferos
e desperdiçados? Teria finalmente encontrado o nicho a que pertencia?
Enquanto me esforçava por sobrepor a razão aos sentimentos, lembrei-me da conversa que tivera com Ruby, a dançarina, e achei que devia falar no assunto a
Shaw o mais depressa possível. Mas quando a oportunidade se ofereceu e lhe disse que queria discutir um assunto com ele, chamou os outros, embora lhe desse a entender
que era particular.
- O Wayne quer dizer qualquer coisa. Ora não há nada que diga respeito ao bem-estar de qualquer de nós que não possamos ouvir todos, pelo menos pela minha
parte.
Em breve me encontrava sentado no meu beliche, rodeado pelos
três vaqueiros. Comecei, com voz pouco firme e, suponho, expressão de grande seriedade:
- Quando, há pouco, os deixei para ir à estalagem, encontrei
a pequena do salão de baile, a Rudy.
Contei-lhes o resto da história da rapariga e, no fim, dei comigo a sugerir vagamente que devíamos fazer alguma coisa. Quando acabei, os meus amigos levaram
o seu tempo a reagir.
Shaw encostou-se à lona do carroção, com um cigarro entre os
lábios e os olhos fitos nos meus como punhais, no entanto, o seu rosto conservou-se impassível, o que não me permitia avaliar o que sentia.
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Darnell soltou uma gargalhadazinha estranha e, baixando a cabeça morena, resmungou entre dentes que as mulheres eram as culpadas de todas as encrencas. Jack
Lowden foi o primeiro a manifestar-se.
- Estás há dois dias na fronteira e já queres salvar uma
dançarina de salão! Com a breca, pergunto a mim mesmo o que farás quando deixares de ser novato!
- Jack, talvez eu tenha sugerido alguma coisa que, do vosso
ponto de vista, seja terrível, mas que havia de fazer?
Aminha atrapalhação era tão evidente, que calou Lowden.

Shaw expeliu uma grande baforada de fumo e disse na sua voz
arrastada:
- Amigos, eu sabia que ele ia sair-se com uma destas. Vamos
tomar uma bebida e depois comer.
Descemos do carroção e pusemo-nos a caminho, indo Lowden e
Darnell um pouco à frente. Agarrei no braço de Shaw e detive-o, até aumentar a distância entre nós e os outros.

- Escuta, Vance, eu não disse tudo - afirmei, depressa. -
Não quis denunciar a Ruby diante dos nossos companheiros sem primeiro te informar. A pobre miúda está apaixonada por ti, Vance.
- Como o sabes? - indagou, no habitual tom de frieza e
despreocupação.
- Adivinhei-o pela sua conversa, mesmo antes de mo

confessar. Disse-me que se apaixonou por ti porque... bem, não importa o que disse. Acreditei-a.
- Nunca te passou pela cabeça, camarada, que estas raparigas
dos salões de dança são espertas como o demónio?
- Admito -humildemente que sou um novato, Vance, mas no que respeita à natureza humana não sou tolo nenhum. Vida, tragédia e angústia são iguais,
aqui na fronteira ou lá em baixo, no
Este. Aquela rapariga não mentiu,
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Pierce pode tê-la obrigado a mercantilizar-se, mas comigo foi honesta. Compreendes o que quero dizer, meu amigo, vaqueiro do Texas?
- Bem, eu próprio já o calculava - confeou Shaw, atirando
fora o cigarro com um gesto rápido e apaixonado. - Percebi desde o princípio que teria de dar cabo desse Red Pierce. Mas vamos comer primeiro.
66
IV
Não sabia quais os planos de Shaw - se é que os tinha para tirar Ruby do salão de baile, mas estava resolvido a que ela de lá saísse, fosse como
fosse.
Repartira o meu dinheiro entre os quatro e, por isso, o que me ficara não chegava para a meter numa diligência para o Este e mantê-la o tempo necessário
até arranjar um lar. Ali, o
único lugar seguro que encontrava para ela era junto de nós. Mas como poderia uma rapariga partir num carroção fechado com três vaqueiros endemoninhados e um novato
interessado na montagem de uma linha telegráfica?
Encontrávamo-nos os quatro sentados, em fila, ao balcão de um modesto restaurantezinho. Vance estava ao meu lado e não falara desde que ameaçara friamente
dar cabo de Pierce, ameaça que, surpresa minha, não me chocara.
Sabia que não o dizia por dizer, pois havia nele qualquer coisa que tornava impossível duvidar das suas palavras: Quanto a mim, se não era culpado
do seu ódio por Red Pierce,
precipitara, pelo menos, os acontecimentos. Não podia voltar atrás, nem tão-pouco o desejava. Não me impressionava, sequer, a ideia de que Shaw ia matar Pierce,
pensava apenas que
gostaria de ser eu a fazê-lo.
Quando o chinês do restaurante pôs a comida na nossa frente, cessaram as conversas e começaram todos a comer com apetite, excepto eu. A fome que momentos
antes sentira passara-me.
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Não conseguia compreender como é que Shaw podia comer daquela maneira, na iminência de uma crise inevitável. Fingi que comia e, no fim, bebi meia chávena de café.
Quando saímos para a rua escurecia e o movimento habitual acalmara. Ao chegarmos junto da estalagem, Slad deteve-nos.

- Separemo-nos, amigos, e vejamos se ouvimos alguma coisa
que interesse. Quero esclarecer-me.
Separámo-nos. Entrei na estalagem, aproximei-me da lareira,

sentei-me de costas para o seu calor agradável e reflecti no conselho de Shaw. Devo ter parecido inofensivo e desinteressado, ali sentado a observar a multidão,
ocultando bem os meus sentimentos.
Pouco depois afastei-me da lareira e fui sentar-me num banco
de madeira comprido, já ocupado por dois homens que conversavam com um terceiro, o qual se conservava de pé.
- O Pierce partiu para Omaha na diligência da tarde informou este. - Terá de demorar-se algum tempo e, por isso, o negócio de gado que tínhamos em mente
não poderá realizar-se por agora.
- Bartlett, nunca tive fé nas compras de gado do Pierce -
observou um dos meus companheiros de banco.
- Podia dar-se a esse luxo porque ganha bom dinheiro no
saLoon. - garantiu o dito Bartlett.
- Mas que faria ele com uma grande manada?
- Ora, podia fazer o mesmo que nós queremos fazer. Os preços
do gado estão a subir e vocês bem sabem que há pouco entre esta terra e Ogallala, e nenhum, que eu tenha conhecimento, na região desértica até ao Forte Laramie.
Esta história da linha telegráfica impulsionou o negócio de gado. Segundo depreendi, o plano do Pierce era viajar com a caravana da linha e viver
dos operários até chegar a Wyoming.
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Viajando devagar, ser-lhe-ia fácil levar consigo uma manada e vendê-la por bom dinheiro no Sweetwater.
- Será a região de gado do futuro, digo-Lhes eu - afirmou um
dos outros. - Imaginar o Pierce a roubar gado. ainda consigo, mas mais nada.
- Hoje em dia não faltam ladrões de gado no Oeste. Roubam gado e vendem-no, não é verdade? Esperemos que o Pierce volte. Não nos interessa o que ele é, desde
que pague a pronto.
- Exactamente - corroborou o primeiro. - Vai um copo por
conta?
Senti-me subitamente aliviado ao pensar que, nesse momento, não haveria troca de tiros entre Shaw e Pierce. Logo a seguir, porém, e de maneira contraditória,
lamentei que o Pierce escapasse. Mas os meus pensamentos não ficaram por aí: pensei também, com sincera satisfação, que durante a sua ausência se poderia fazer alguma
coisa para afastar Ruby. Tive vontade de ir a correr procurar Shaw, mas, reconsiderei e achei melhor esperar por ele. Tinha tempo de saber que Red Pierce partira.
Deixei-me ficar onde estava, a olhar para a lareira e, de
vez em quando, à minha volta. A notícia de que uma grande caravana seguia para oeste, pela Trilha, e que levava consigo uma grande manada intrigava-me muito. Seria
possível que a rapariga que me acenara e sorrira se encontrasse nela? Quem seria e por que viajaria para oeste? Iria para o Oregão a fim de desposar algum jovem
e solitário pioneiro?
Parecia certo que, devido à demora causada pela escassez de postes, permaneceríamos em Gotemburgo, ou perto, e talvez, quem sabe?, a grande caravana nos
alcançasse. A rapariga não me saía do pensamento, e, embora fosse uma desconhecida total e apenas a tivesse visto de uma distância de algumas jardas,
comecei a tecer um romance à sua volta.
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Depressa sucumbira aos hábitos de rapidez do Oeste! Lembrei-me, no entanto, de que vira grandes abismos emocionais
vencidos em menos tempo do que leva a dizê-lo. Em poucos dias travara conhecimento com o amor, o ódio e a amizade em grau superlativo. Experimentara já dois desses
sentimentos, embora na terra de onde viera fossem precisos anos para ocorrer o que ali, naquela fronteira rude, acontecera em poucos minutos. Prometi a mim mesmo
tentar tudo para encontrar a rapariga, e tal oportunidade se me oferecesse.
Entregue aos meus devaneios mentais, esqueci-me do tempo. Pouco depois Darnell deu comigo e foi sentar-se ao meu lado:

- Viva, camarada - disse, alegremente -, Tenho estado a
observar-te dali e pareceste-me mais interessado em sonhar a olhar para a lareira do que em ver o que vai por aí.

- Agora assim era - confessei a rir -, Mas aposto que tenho
mais novidades para o Vance do que tu.
- Caramba, és um tipo danado para apostas. Olha, vêm ali o
Shaw e o Lowden, provavelmente à nossa procura.
Não perdi tempo e anunciei a partida de Pierce. Shaw não fez
qualquer comentário nem o seu rosto traiu se a notícia Lhe agradava ou não. Lowden, no entanto, deu a entender que quando é preciso matar um hombre, o melhor é arrumar
o assunto depressa.
- Bem, camaradas, temo que teremos de ir ver a Ruby - disse
por fim Shaw, com indiferença.
Saímos da estalagem e encaminhámo-nos para a porta iluminada da casa de jogo de Red Pierce. Shaw seguia à frente, mas como Tom e Jack ficaram para trás,
corri e coloquei-me ao seu lado.
- Vance, agora seria boa ocasião para tirar daqui a Ruby.
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- Compreendi-o assim que me disseste que o Pierce partiu,
Wayne.
- E já pensaste para onde a mandaremos, o que faremos?
- Primeiro tiramo-la daquele antro e depois preocupamo-nos com o resto. Não saias de ao pé de mim e conserva os olhos bem abertos. O Pierce partiu, mas a
cidade está cheia de tiPos ruins que são seus amigos. Pode acontecer alguma coisa.
Quando entrámos na casa de jogo pareceu-me ver menos fumo e
ouvir menos barulho do que da outra vez, embora a algazarra de vozes ao balcão e a música desafinada fossem de ensurdecer. Naquele momento a roleta estava parada
e nas mesas decorriam apenas três jogos. Na retaguarda do salão, para onde nos dirigimos, dançavam dois pares, nos bancos encostados à parede encontravam-se vários
homens e dois outros falavam com uma rapariga, em pé. Só quando esta saiu de trás do mais alto verifiquei tratar-se de Ruby. Se na véspera me parecera flamejante
e bonita naquela tarde, agora achava-a sem dúvida linda.
Viu-nos logo e estremeceu visivelmente, e eu tive a impressão de ver no olhar que nos lançou qualquer coisa que lá não existia antes. Sorriu e acenou-nos
com a mão.
Vance detivera-se um passo ou dois à minha frente, com Lowden à sua direita, e Darnell encontrava-se atrás de mim. Pressenti que pairava no ar qualquer coisa,
mas não soube o que era.
- É aquele tipo sem dúvida, Vance - murmurou Lowden. - Não
me parece muito teso, mas tu sabes como alguns indivíduos enganam.
- Claro que é ele - confirmou Shaw, friamente. - E tinha de
estar a fazer rapapé à Ruby! Bem, vejamos se a pequena nos apresenta. Afastem-se um pouco de trás de mim, camaradas.
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Era com Darnell e comigo, mas eu ainda não compreendia a situação. Percebi no entanto que o indivíduo que, segundo Shaw, fazia rapapé a Ruby ia passar um
mau bocado. Vestia bem, com elegância, e era um homem simpático, de aspecto suave e dos seus trinta anos. Tinha as faces escanhoadas, olhos afundados nas órbitas,
queixo de estranha configuração e lábios que estavam longe de denunciar fraqueza. Ruby disse-lhe qualquer coisa, de modo nervoso e apressado, e ele voltou-se e observou-nos,
enquanto nos aproximávamos devagar. Só então reparei que usava cinturão no qual brilhavam balas novas e à direita, quase oculto sob o casaco, um coldre.
Shaw parou a uns dois passos do grupo e nós imitámo-lo. eu com o coração na boca e a perguntar a mim mesmo o que iria acontecer.
- Olá, rapazes! - exclamou Ruby, com voz que o nervosismo
esganiçava.
- Boas-noites, Ruby - cumprimentou-a Shaw, serenamente, e todos nós fizemos o mesmo e tirámos o chapéu, como ele, com galantaria.
- Estes são vaqueiros, meus amigos que trabalham para a
Western Union - disse Ruby aos dois homens que estavam consigo. - Vou apresentá-los. Rapazes, este é Mr. Joe Slade. e Mr. Hall. E os meus amigos são Vance Shaw,
Mr. Cameron Wayne.
- Como estão? - cumprimentou Shaw, acentuando mais do que
nunca a sua pronúncia sulista.
Deu um pequeno passo em frente, mas não estendeu a mão. Não
sei qual era a expressão do seu rosto, pois estava obcecado pela de Ruby e por nos encontrarmos frente a frente com Joe Slade, o famoso assassino.
Senti a boca secar-se-me e a língua colar-se-me ao palato. e comecei a suar frio. Não era medo o que tinha, mas a reacção provocada por encontrar-me perante
outra situação
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da qual podia resultar morte, violência e o desmoronar da esperança. Não fazia a mínima ideia da atitude a tomar, limitava-me a observar Vance. Este observava por
sua vez o grupo, com frieza, sem dúvida à espera de ver o rumo que as coisas tomavam.
- Boas-noites, cavalheiros - replicou Slade, com afabilidade. - Convidei Miss Ruby para a próxima dança.

O seu sorriso agradável e os seus modos graciosos e
cavalheirescos pareceram desanuviar momentâneamente a atmosfera, pelo menos no que me dizia respeito.

- Já calculava - declarou Shaw, sem ficar atrás de Slade na
brandura da voz e das maneiras. - Faça favor, não me importo que a minha pequena dance com cavalheiros.
- Obrigado pelo cumprimento, Shaw - agradeceu o outro, com
uma pequena gargalhada.
Não representava, naquele momento era prazer genuíno o que
sentia.
- Vamos, Ruby. Tenho a certeza de que gostarei de dançar,
apesar de seres a pequena dele.
Ruby imobilizara-se como uma estátua encantadora depois de o
vaqueiro falar e parecia só o ver a ele. Os olhos fixos brilhavam-lhe extraordinariamente no rosto pálido, como uma expressão em que se misturavam a ansiedade e
a surpresa.
Fitava ainda Vance quando Slade a enlaçou e a arrastou para
a pista de dança. O homem demonstrou ser bom dançarino e Ruby
parecia leve como uma pena nos seus braços.

Enquanto os observava, ouvi Lowden murmurar:
- Compincha, que diabo dizes a isto?
- Nunca se sabe o que pensar acerca de certos tipos, Jack. Talvez Slade não seja tão mau como dizem, e nós não podemos consentir que nos leve a palma em
cortesia para com uma senhora.
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Neste momento fascinante tocaram-me num braço e ouvi uma voz
abafada murmurar:
- Olá, bonitão, sou Flo. Não queres dançar comigo?
Voltei-me de repente e vi a meu lado uma das outras raparigas do salão. Aparentava vinte anos e envergava um vestido que Lhe descobria grande parte do corpo
cheio. Pareceu-me muito atraente, e mais me pareceria ainda se não fossem os seus olhos, que não sorriam como a boca.
- Quero, sim, obrigado - respondi, satisfeito por ter trocado as botas por um par de sapatos.
Pouco depois rodopiava na pista com uma jovem cujo emprego consistia em mostrar-se sedutora com os homens. Como seria inútil tentar afastar-me dela, devolvi
a pressão do seu braço. e devo confessar que não obedeci apenas à influência do Oeste.
Ao passarmos perto de Ruby e de Slade observei-os de novo. O indivíduo tirava o maior proveito da oportunidade e eu perguntei a mim mesmo o que pensaria
Vance ao ver Ruby tão descaradamente abraçada, sobretudo depois do seu amável consentimento. Não me atrevi a olhar para ele, mas pressenti que do encontro com Slade
alguma coisa resultaria.
Os meus olhos encontraram-se com os de Ruby que pareceram
querer dizer-me que compreendiam os meus sentimentos. O sorriso que me lançou suavisou momentâneamente a expressão dura e triste do seu rosto.
- Palavra, forasteiro, podes ser novato, mas és um bom
dançarino - observou a minha parceira.
- Obrigado pelo cumprimento, Flo. Agrada-me que alguém aprecie parte da minha qualidade de ianque. Compreendes, eu dançava muito no Este.
- Como disseste que te chamavas? Ah, sim, tu não disseste e
eu não te perguntei.
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- Wayne Cameron. Sou de Boston e vim para o Oeste, a fim de
trabalhar na montagem da linha telegráfica.
- Não temos a sorte de aparecerem por aqui muitos rapazes do
Este parecidos contigo.
- Que queres dizer com isso de sorte?
- Bem. na maioria os do Este vêm para cá mandados pelos pais
ou por qualquer outra pessoa e por boas razões. e compreendes o que quero dizer. Recambiam-nos para aqui porque não os
querem lá.
- A propósito, sabes para onde foi o Pierce?
- Claro que sei: foi a Omaha procurar mais raparigas. O negócio está a render e a aumentar e ele pensa que valerá a pena acompanhar a turma da montagem da
linha com mais pequenas. Ora dize, não gostas mais de mim do que da Ruby?
Iludi a pergunta atrevida respondendo:
- O Shaw é que gosta da Ruby, ou melhor, creio que eles
gostam um do outro.
- Vou dizer-te uma coisa: o Pierce também gosta dela e ouvi-o afirmar que lhe desagrada o Shaw. O teu amigo que tenha cuidado.
- Tu também precisas de ter cuidado com o Pierce? Bate-te
como bateu à Ruby?
- A mim? É o bates! Se alguma vez se atrevesse enchia-lhe o
corpo de chumbo! - afirmou, furiosa.
Após mais um par de voltas a música terminou e nós parámos onde começáramos. Antes de nos reunirmos aos outros, porém, Flo agarrou-me e perguntou-me com
um olhar atrevido:
- Não gostavas de estar comigo, mais tarde?
- Obrigado, Flo - agradeci o mais naturalmente que me foi possível. - Eu... nós temos uma tarefa a cumprir esta noite. Tirei dinheiro da algibeira e meti-lho
na mão.
- O quê. Dás-me isto sem nos voltarmos a ver?
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- Não tem importância.
- Gostei de dançar contigo, Wayne, és um príncipe. Creio que
vou oferecer àquele vaqueiro teu amigo, o baixinho de olhos atrevidos, uma volta pelo salão. E, se precisares de ajuda a respeito da Ruby, conta comigo.
Quando nos reunimos aos outros, fitei ansiosamente Shaw, que estava defronte de Slade e de Ruby. Trocámos observações banais acerca do baile. e Flo lançou
um olhar vulcânico a Lowden, a quem disse:
- Eh, vaqueiro, gostava de dançar contigo da próxima vez. Serás capaz de endireitar as canetas o suficiente para não me rasgares as meias com as esporas?
- Menina, não fico atrás do meu amigo ianque! - fanfarronou
Jack. - Admito que as minhas pernas arqueadas não sejam muito elegantes, mas posso sentar nelas uma rapariga sem a deixar cair.
- Não me digas? - exclamou, atrevida. - Hás-de Pagar-me uma
bebida antes que me arrisque contigo.
Então Slade voltou-se para Shaw com o seu sorriso simpático
e enigmático.
- A sua pequena dança muito bem. Obrigado por me ter concedido o privilégio...
- Não tem de quê. Tenho dançado com muitas raparigas e nunca
encontrei nenhuma que lhe levasse a palma.
Slade fez-lhe uma vénia e dirigiu-se para o balcão, onde se
lhe juntou o indivíduo atarracado que reconheci como Black Thornton. Este lançou um olhar significativo para o nosso lado.
- Pareces fatigada, Ruby - observou Shaw, com solicitude.
- Estou morta em pé, Vance. Passei hoje um inferno com o
Pierce, antes de se ir embora.
- É pena. Queria dançar contigo e suponho que o meu amigo
Wayne também, mas desistimos. Leva-me para qualquer lado
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onde possamos falar em particular, pois tenho muito que dizer-te - pediu-lhe o vaqueiro, sem perder um pormenor do que à sua volta se passara, embora parecesse distraído.
- Vinde ao meu quarto.
- Acho bem. Wayne, tu vens connosco- e tu, Darnell, não
percas o Jack de vista. Evita que beba demasiado, o que significa que terás de afastá-lo daquela rapariga.
Ruby conduziu-nos para uma escada estreita e escura. Shaw
ajudou-a a subir e eu tacteei atrás deles. Havia uma luz fraca a brilhar algures, no patamar de cima, e eu fiquei com a
impressão de que o andar superior do edifício fora um sótão
agora dividido em quartos.
Depois de Shaw acender um candeeiro verificámos que o aposento para onde Ruby nos conduzia era tão nu e desconfortável como o resto do establecimento de
Pierce: cheio de tábuas toscas, cama com uma coberta encarnada, lavatório humilde, um espelho e uma cortina a um canto, onde Ruby guardava os poucos vestidos.
Shaw não perdeu tempo a atacar o assunto:
- Ruby, vou levar-te daqui - declarou, mal acendeu o candeeiro.
- Oh! - exclamou a rapariga, comovida, agarrando-lhe Ansiosamente o casaco. - Levar-me daqui. Para onde... como?

- Não sei exactamente para onde, mas mostrar-te-ei como.
- Ah, que maravilhoso! Mas... e quando Pierce voltar? Não desistirá de mim...
- Para o diabo com o Pierce! Estaremos na Trilha antes de
ele voltar, e se nos perseguir arrepender-se-á.
- Vance! Matá-lo-ás?
- Parece que está escrito, Ruby. Lamento que tenha partido.
- É mau e traiçoeiro, e os amigos não lhe ficam atrás.
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- Não te preocupes mais com isso - ordenou-lhe o vaqueiro, com certa impaciência. - Não te disse que ia levar-te daqui? Portanto é porque posso proteger-te
e somos capazes de haver-nos com o Pierce e a quadrilha quando calhar.

- Oh, não sei que dizer! - murmurou, com voz rouca. - o
Wayne contou-te o que eu lhe disse? Ele teve pena de mim. é o que sentes também? Queres mandar-me outra vez para o Este? Não tenho casa, nem amigos, nem dinheiro.
Ou pretendes conservar-me como tua pequena?
- Casarei contigo assim que encontrarmos um padre, Ruby.
- Não podes. não podes fazer isso, Vance! - protestou com
fervor. - Não sou... não sirvo para tua mulher. Viverei contigo, trabalharei para ti o mais que puder. mas não casarei contigo. isso não!
- Talvez esteja enganado a teu respeito, rapariga. Não me
tens amor?
- Tenho, tenho!
- Ainda bem, pois prendi-me de todo por ti assim que te pus
os olhos em cima. Ruby, já estive apaixonado por uma quantidade de raparigas - um par de dançarinas de salão. já há muito tempo, algumas señoritas mexicanas. uma
índia e, sobretudo, pela filha de um rancheiro em cujo namorado tive de dar um tiro-: mas, ao recordar tudo isso, durantr estes dois dias e estas duas noites em
que não dormi, fiquei a saber que nunca amei nenhuma como te amo a ti. Por isso, querida, não posso fazer outra coisa senão casar contigo.
A resposta de Ruby foi a coisa mais bela e comovedora que já
vi nas relações entre homem e mulher: encostou-se a Vance e ter-se-ia deixado cair de joelhos se ele não a agarrasse. Não podia falar. Afastou-se, deixou pender
os braços ao longo do corpo e fitou-o com tal adoração que Lhe desapareceram do rosto todos os vestígios de tragédia que a vida neles imprimira.
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Perguntei a mim mesmo o que sabia eu de amor e de drama. Aquele destroço das planícies representava para mím, naquele momento, a beleza suprema, a expressão
dos seus olhos feria-me
e eu agradeci a Deus se acaso ajudara a salvá-la.
De súbito Ruby desatou a chorar e escondeu a cara no peito
do vaqueiro.
- Camarada - disse-me aquele -, temos de safar-nos daqui e
de pensar no que devemos fazer.
Ruby estava transformada. espantada mas radiante, incapaz de
despregar os olhos das faces do vaqueiro.
- Ruby, tens alguns pertences, algumas roupas que queiras
levar? Tudo menos essas finuras que costumas usar no baile!
- Pouco tenho, além de uns dois vestidos simples. Quando me
salvaram do ataque dos índios só tinha a roupa do corpo.
- Guardaste-a? - perguntou-Lhe Shaw.
- Guardei.
- De que consta?
- Um par de calças azuis, de rapaz. uma blusa, um velho chapéu de abas e um par de botas, Era o que usava na caravana.
- ƒptimo! - exclamou o vaqueiro. - Podemos disfarçar-te com
essa vestimenta. Mete depressa na mala o que quiseres levar e safemo-nos.
Poucos minutos depois descíamos a escada. Ruby apontou-nos
uma porta que dava para as traseiras do edifício e não tardámos a encontrar-nos sob o céu estrelado, na noite fria. Era tudo simples. Eu transportava a mala da rapariga
e Shaw ajudava-a enquanto nos afastávamos do edifício e nos dirigíamos para a parte baixa da cidade.
à frente deles, ouvia a voz sussurrante de Shaw e as respostas excitadas de Ruby, mas não percebia o que diziam. Esforçava-me por encontrar uma solução,
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pois sabia que Shaw não desistiria do emprego e que a única alternativa qe se nos apresentava era a de levarmos a pequena connosco, embora isso parecesse praticamente
impossível.
80
V
Continuava às voltas com o insolúvel problema quando chegámos ao carroção, que se encontrava a pouca distância da loja do ferreiro. Ardia uma fogueira, já
quase extinta, mas não se via vivalma. O único barulho que me chegava aos ouvidos era o do bulício da cidade.
- Acende a luz, camarada, e passa-me o casaco grosso que comprei - pediu-me Vance. - Está em cima da minha cama. Toma, Ruby, veste isto e senta-te ao pé
do lume enquanto eu e o Wayne arranjamos lugar para ti.
- Lugar? - repetiu a jovem. - Onde? Tenho medo de dormir ao
ar livre e morreria gelada.
- Bem, vai ser um bocado irregular, mas teremos de nos remediar o melhor possível até acharmos solução capaz observou Shaw, na sua voz arrastada.
Levou-a para junto da fogueira e arranjou-lhe onde sentar-se ao lado das brasas amodorradas. Depois voltou para ao pé de mim. Entreolhámo-nos à luz das estrelas.
Havia ousadia nos seus olhos e dos seus lábios saiu uma gargalhada trocista, certamente por causa do espanto que lia nos meus. Voltou-se para a figura franzina sentada
um pouco adiante e murmurou:
- Compincha Wayne, meteste-me num diabo de uma camisa de
onze varas!
- Também me parece, Vance. mas não me arrependo.
- lance cavalheiresco. hem? Que raio dirão o Jack e o Darnell? E o velho Liligh? E, Creighton, o que fará.
- Só Deus sabe, Vance. Eu estou meio atordoado. Mas se alguma vez fiz alguma coisa de que me orgulhe, foi ajudar-te a salvar aquela rapariga. E agora, que
decidimos?
- Compincha, levaremos Ruby connosco - respondeu-me apenas. - Claro camarada, estava só a arreliar-te quando disse que
me tinhas metido numa camisa de onze varas. A verdade é que, se já não me tivesses agradado antes, esta noite conquistarias a minha profunda amizade. Bem,
mas vamos ao problema.
Felizmente o carroção é grande e poderemos puxar três dos beliches e algumas caixas para trás e deixar a parte da frente para a Ruby. Dar-lhe-ei o meu beliche e
dormirei deste lado, no chão, pois há alguns cobertores a mais e uma pele de búfalo. O oleado novo vai fazer um jeitão, pois cortar-lhe-emos um bocado que servirá
de cortina entre o nosso lado e o dela. Simples, hem? Vamos então fazer as mudanças e pensar nas coisas que não são tão simples.
Pusemos mãos à obra e num instante ficou tudo pronto. Eu estava tão espantado com tudo aquilo, que nem sabia cque dizer. Não fazia ideia de quanto tempo
conseguiríamos ocultar Ruby, mas pensava que, quando tal não acontecesse, ela já estaria longe de Gotemburgo e de Red Pierce, e isso alegrava-me.
Tanto eu como Shaw, parecíamos garotos entregues a uma hrincadeira, enquanto arrumávamos as coisas, e ficámos contentes com o resultado. Em seguida juntámo-nos
a Ruby, perto das brasas. Os seus olhos, ao clarão do lume, eram extraordinariamente eloquentes. Observámos ambos o imperturbável vaqueiro, suponho que maravilhados
os dois.
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Shaw enrolou um cigarro, meteu-o entre os lábios, levantou
uma brasa com um cavaco e acendeu-o. Chupou fumo várias vezes, em pequenos haustos, depois demoradamente e, por fim, expeliu uma enorme nuvem de fumo que por momentos
lhe ocultou o rosto.
- Escuta, garota - confessou -, vai tudo correr às mil maravilhas, não tens nada a recear. Mete bem na tua cabecinha que tomarei conta de ti. E não duvido
de que os meus camaradas me ajudarão o mais que puderem. Temos de disfarçar-te. De manhã vestes as roupas de rapaz de que falaste, e eu lembrei-me de que, quando
era um milhão de anos mais novo, tinha habilidade para transformar um rapaz branco num mexicano. Far-te-ei tão preta como qualquer mexicano! Esses bonitos caracóis
é que nem todos os Pierces e capatazes do Oeste me obrigariam a cortar, por isso, terás de puxá-los para cima e de escondê-los sob o chapéu. Ensinar-te-ei também
a falar como se fosses um mexicano, coisa em que sou igualmente perito. Não te afastarás do carroção durante uns tempos, excepto para um passeio à noite depois de
escurecer, e quando for preciso dizer quem és explícaremos que és um pobre órfão mexicanu abandonado pela última caravana. Que te parece, querida?
- Parece uma história - murmurou Ruby, sonhadora.
- E tu camarada Wayne, que achas?
- Acho bem - respondi, embora experimentasse certo cepticismo. - Estaremos longe desta cidade antes de o Pierce voltar e talvez nunca mais o vejamos. Agora
vou deixá-los sós um bocado e procurar os rapazes.
Afastei-me um bocado do par e caminhei ao longo de uma fila de árvores, à beira da pradaria. De vez em quandu olhava para trás, para os dois vultos negros
sentados junto do lume. Havia qualquer coisa de tão grande em Shaw, que me sentia como que inchar por dentro quando pensava nele.
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Nas minhas relações com ele e com os outros dois companheiros, acabaria, sem dúvida, por assimilar algumas, caractrísticas dos vaqueiros, e era disso que
precisava. Darme-iam, com certeza, exemplos dignos de serem seguidos.
Quando voltei para junto da fogueira, Tom Darnell voltara da
cidade e Ruby desaparecera. Ouvi ainda as últimas palavras de Shaw acerca da rapariga e a sua pergunta a respeito do que pensava do caso.
- As mulheres fazem sarilho aos homens, sobretudo a nós, vaqueiros - respondeu-Lhe Darnell, pensativo. - Não sei se os vaqueiros se apaixonam mais profundamente
do que os outros homens, nem porquê, Mas assim parece, pelo menos. Não deve haver vaqueiro que tenha sofrido mais por amor do que eu, mas se estivesse na minha mão
não mudaria nada do que aconteceu. Creio que a vida ao ar livre e os longos dias e noites solitários passados por esses ermos tornam um tipo mais susceptível às
mulheres e mais precisado delas. Acho que o que vais fazer por essa rapariga é maravilhoso, e estou contigo inteiramente. Não podíamos proceder de outro modo. Sou
um tipo esquisito quando se trata de pressentimentos e já tive dois desde que estou nesta cidade. O primeiro foi quando os vi à porta do saLoon de Pierce. Pensei
logo que me entenderia com vocês. O segundo foi agora mesmo: procedes bem com a Ruby e será para teu benefício.
- Estás a ouvi-lo, Wayne? - perguntou-me Shaw- em tom brincalhão que não escondia quanto estava comovido. - É um vaqueiro filósofo! Já viste alguma coisa
parecida?. Tom, fico-te muito agradecido! Bem. o melhor é recolhermo-nos.
Lembrei-me, então, de Lowden e perguntei por ele.
- A última vez que o vi andava atracado àquela rapariga de
olhos negros.
- Creio que não há perigo - observei. - Ainda não lhes disse
mas parece-me que a Flo está do nosso lado.
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- O Jack é asim, não terá remédio! - exclamou -, Não iremos
procurá-lo nem esperaremos a pé por ele, mas haverá uma forma se se embriagar. Este nosso emprego não permite que se beba muito, sobretudo agora Que temos de olhar
pela Ruby.
Dei algumas voltas em redor do lume, sem voltar a fitar as
brasas quase extintas, o murmúrio do vento nas árvores próximas e o tremeluzir das grandes estrelas brancas. Quando voltei ao carroção o silêncio era total. Shaw
estava deitado no chão entre os beliches, todo envolvido em cobertores com excepção das botas, que não descalsara.
Sentei-me na minha cama e, para começar-, tirei apenas as botas e o casaco. o frio cortante que fazia serviu-me de desculpa. Da estrada que conduzia à cidade
vinha um zumbido baixo e firme. e da pradaria a algazarra do que parecia uma matilha de cães selvagens a ladrar. Nunca ouvira ladrido mais estranho nem mais aguádo
do que aquele, que dir-se-ia aumentar o carácter bravio da pradaría. Reconheci-o, pelo que lera,
como sendo o ladrar dos coiotes, e fiquei emocionado, até que o sono me venceu.
Qualquer coisa me acordou, já perto da madrugada. um som que ouvi em redor do carroção. Antes que se repetisse senti uma pressão nos pés e, erguendo-me sobre
um cotovelo. vi Shaw levantado. com o cano da arma a brilhar sinistramente ào brilho das estrelas. Reparei que apoiava também as mãos nos pés de Darnell e compreendi
que pretendia, assim. recomendar-nos silêncio. Em seguida o ruído repetiu-se e identifiquei-o como um andar cauteloso. Não se tratava de nenhum animal, mas de alguém
com botas calçadas e que resmungava a meia voz consigo próprio. Shaw empurrou-me para baixo e segredou-me ao ouvido:
- É aquele parvalhão do Jack. Deve estar meio bêbado e vai
tentar esgueirar-se pela frente do carro, para não nos acordar.
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- Mas assim assustará a Ruby -- segredei por minha vez.
- Ela não deve ser tão fácil de assustar. Esperemos, vai ser
divertido.
Darnell apoiou-se também num cotovelo, tenso e alerta, mas tranquilizou-se quando nos viu. Sem dúvida pensava o mesmo que Shaw. Compreendi, pela luz acinzentada
que iluminava a retaguarda do veículo e permitia ver distintamente Darnell, que o dia estava prestes a nascer.
Ouvi em seguida Lowden tentar subir para o banco do carro. Era tarefa difícil de levar a cabo em silêncio, mas o vaqueiro devia estar suficientemente sóbrio
para experimentar. Arquejou, resmungou uma ou várias vezes e, depois, espantou-se com a cortina estendida atrás do banco.
- Com mil raios, que diabo vem a ser isto? Aposto um milhão.
em como me enganei no carro!
Nesse momento Ruby acordou e soltou um grito que, embora não
fosse alto nem angustiado, nem significativo de verdadeiro terror, demonstrava que estava assustada.
- Vance, Vance, acorda! - chamou. - Um vagabundo embriagado
tenta entrar no carroção.
Uma exclamação abafada, um arrastar de botas e um baque
surdo elucidaram-nos da catástrofe que sobre Lowden se abatera.
Não te assustes, querida, estamos todos acordados respondeu Shaw. - Também ouvimos o bêbado, é o Jack.
Em seguida endireitou-se e saltou para fora do carro.
- Anda cá - chamou. E ouvi Lowden soltar uma espécie de
relincho.
Resolvi saltar também e fi-lo a tempo de ver Shaw agarrá-lo pela gola e dar-lhe um tremendo pontapé no traseiro, que o atirou de pantanas.
- Meu Deus, compincha, és tu? - perguntou Jack. - Ou serei
eu que estou zonzo?
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- A única coisa que estás é bêbado - replicou-Lhe shaw.
- Que diabo... que raio de negócio.? Se não estou bêbado nem
maluco... tens uma mulher no carro.
- Caluda, fala baixo - ordenou-Lhe o companheiro. peremptório. - Claro que temos uma mulher no carro. É Ruby, que pertence agora ao nosso grupo.
- Macacos me mordam? Não há dúvida, estou con delirium
tremens! Desculpa, compincha, mas como diabo querias que adivinhasse?
Shaw levou-o para a retaguarda do carro, onde Lowden estacou, com ar burlesco e envergonhádo.
- Trepa, companheiro inútil, e dorme um bocado. Rapazes, é
quase dia, mas parece-me que podemos dormir outra soneca. Assim que acordarmos acenderemos uma fogueira, iremos ao armazém buscar provisões e comeremos e beberemos
uma chávena de café aqui.
Claro que fui o único que não voltou a pregar olho. Pasmava-
me a facilidade com que aqueles vaqueiros adormeciam, por assim dizer quando lhes apetecia. Vi a luz baça clarear, o dia romper no oriente e o céu iluminar-se súbita
e resplandecentemente, ao nascer o sol. Quando vira eu, em toda a minha vida, o sol nascer assim?
Saltei do carro, com as botas e o casaco, e depois de me vestir e calçar fui procurar lenha para acender a fogueira. Não foi tarefa fácil, pois a que havia
era pouca e distante. Regressei com toda quanta consegui reunir e encontrei Shaw e Darnell a pé, a prepararem-se para sair.
- Ruby - chamou o vaqueiro através do oleado -, estás acordada?
A rapariga respondeu-Lhe afirmativamente, com doçura.
- Deixa-te estar aí até eu voltar - recomendou Shaw. - Vou
buscar umas coisas para te transformar num mexicano e comprar comida.
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Em seguida voltou-se para mim:
- Bons-dias, compincha. Vejo que me saíste um bom apanhador
de lenha? Aquece água quando tiveres o lume aceso.

Afastou-se com Darnell e eu pensei que talvez fosse conveniente acordar Lowden, para que se levantasse antes de eles voltarem. Surpreendi-me por vê-lo despertar
com tanta facilidade como de costume, apesar de ter dormido tão pouco.
- Chefe, que diabo se passou a noite passada? -
perguntou-me.
Enquanto chapinhava num balde de água e penteava os cabelos
eriçados, contei-Lhe resumidamente o que acontecera até àquele momento.
- Não me importo de o compincha Vance me ter dado um pontapé
daqueles - observou, esfregando o sítio onde o apanhara -, mas não tolero que me chamem vagabundo bêbado. Nem sou vagabumdo nem estava bêbado? A noite passada fiquei
a fazer uma ideia do Pierce e do seu bando. coisa que não aconteceria se estivesse bêbado, não te parece?
- Desculpa, Jack - pediu Ruby, do interior do carro, mas a sua voz soava como se reprimisse a custo uma gargalhada. - Que havia eu de pensar? Tropeçaste
mesmo no meu beliche!
- Está bem, Ruby, não se fala mais nisso - respondeu-lhe
Jack, outra vez bem disposto. - Só te peço que digas uma palavrinha a meu favor àquele demónio do meu compincha.
Pouco depois Shaw e Darnell chegaram, carregados com embrulhos que depositaram num bocado de lona.
- Bons-dias, camarada - disse Shaw alegremente a Lowden. Preparem o pequeno almoço enquanto eu trato da Ruby. Aposto em como nenhum de vocês a reconhecerá.
O cheiro do toucinho e do café era tão agradável, que esqueci o pequeno drama que se desenrolava dentro do carro.
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Mas quando shaw chamou não perdi tempo a voltar-me. O vaqueiro descera do veículo e Ruby preparava-se para imitálo. Claro que eu sabia tratar-se dela, mas o seu
aspecto era muito diferente do da rapariga que conhecera.
Agora era um rapaz esguio que vestia calças azuis muito coçadas e casaco escuro, e que usava um velho chapéu cinzento, com as abas descaídas para ocultar-lhe
os cabelos.
Só assim já fazia uma grande diferença da Ruby de pouco
antes, mas a sua cara estava simplesmente irreconhecível. Tinha-a pintada ou manchada de muito escuro e, palavra, parecia de facto um jovem mexicano. e simpatiquíssimo
ainda por cima!
Aproximou-se do lume, junto do qual estavam dispostos vários pratos apetitosos, sobre um oleado. Lowden interrompeu o acto de deitar o café e fitou-a com
incredulidade. E Darnell ficou também imóvel.
- Camaradas, apresento-lhes o nosso ajudante mexicano. que se chama Pedro - declarou Shaw, devagar. - Podem todos dar-lhe ordens quando alguns dos outros
tipos estiverem por perto, mas quando estivermos sós não se esqueçam de que falam com uma menina que será a futura Mrs. Shaw!
Era impossível identificar a expressão de Ruby, mas apesar
do disfarce compreendia-se que denunciava timidez. Shaw mandou-a para o carro, dizendo-Lhe que Lhe levaria o pequeno almoço, e depois todos começámos a comer com
apetite.
Quando chegávamos ao fim começaram a aparecer outros trabalhadores que vinham da cidade para os carros próximos, todos com o ar de quem tinha que fazer.
O último a chegar foi Liligh, que nos disse:
- Bons-dias, vaqueiros. Despachem-se a comer, atrelem os
bois e preparem-se para seguir-me. Quem é o chefe do carroção?
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- Somos quatro chefes, mas Wayne Cameron é que dará as
ordens.
Poucas horas depois saímos de Gotemburgo para Leste, no nosso carro da pradaria a que eu chamava estalagem improvisada sobre rodas e que Lowden baptizara
de "B'Gos".
Ocupei o lugar ao lado de Darnell, no banco alto do cocheiro, e Ruby seguia atrás de nós de joelhos, a espreitar. Devo dizer que Ruby não
podia estar mais emocionada com a sua nova aventura- do que eu com a minha. Estava finalmente empregado na construção da linha de comunicação através do
deserto.
à nossa frente seguiam três carroções, um dos quais era o de
Liligh, e nós mantinhamo-nos afastados dele apenas o suficiente para fugirmos à poeira que levantava. Tinham aberto buracos para os postes telegráficos em todo o
caminho que ia da cidade para o ponto da Trilha onde Creighton parara com os homens. O arame fora já estendido no chão, e ao lado de cada buraco encontrava-se um
isolador e a pequena taça de vidro verde que conteria o fio. Quando chegassem os postes, a linha ficaria montada como por magia. Percebi que nos aproximávamos do
rio e quando, percorridas várias milhas, chegámos ao cimo de uma encosta suave, vimos extensões de água e de areia que se estendiam ao longo de uma fila de salgueiros
verdes. Os meus olhos fixaram-se numa espécie de mancha constituída por carroções cobertos de lona branca, bois que pastavam, fumo e poeira
- era o acampamento do pessoal da construção. De ambos os
lados estendia-se a pradaria. bela apesar da monotonia das extensões ermas e infindáveis. à distância confundia-se tudo
numa neblina parda, ao longo do horizonte. Não se via um único monte.
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Finalmente, ao aproximarmo-nos do acampamento, Shawveio espreitar sobre o meu ombro e observar o terreno que se estendia na nossa frente.
- Cerca de dez carros - murmurou. - Quer dizer que só ali se
encontra o pessoal do Creighton e nenhuma das suas outras caravanas de carros.
- Olha um pouco mais para o sul, Vance - aconselhou-o Darnell. - Verás uma quantidade de carroções, de bois e de cavalos. Aquilo, sim, é uma grande caravana.
- Sim, agora reparo. De facto está ali acampada uma caravana.
Olhei imediatamente na mesma direcção. Estaria a rapariga
com quem, estupidamente, me permitia sonhar, aquela que desejava encontrar custasse o que custasse, naqueles carros?

- Onde se encontrará a caravana do Slade acerca da qual
ouvimos falar? - perguntei, voltando com esforço ao ambiente que me rodeava.
- Os carroções dele estàvam na cidade. Tom, desvia um pouco
para fora da trilha, na direcção daquele belo maciço de salgueiros, pararemos aí. Não será bem no acampamento de Creighton, mas também não ficaremos muito longe.

- Vance, que farei enquanto aqui estivermos? - perguntou
Ruby, baixinho. - Esconder-me-ei debaixo da cama?
- Claro que não. No entanto, quando estiverem homens perto será aconselhável não te mostrares muito. Não te preocupes, Pedro, facilitar-te-emos as coisas.
- Compincha, acho que um de nós deve ficar nas proximidades
do carro, para fazer companhia ao Pedro - sugeriu Lowden, maliciosamente.
- Tens razão, Jack - concordou Shaw, sem se aperceber da malícia do companheiro. - Sempre que possível um de nós deve estar perto dela.
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Parámos na margem do rio, próximo do salgueiral, à beira de um declive baixo do fundo do qual a água corria sobre um leito de areia branca. Shaw aconselhou-me
a procurar Creighton e a informar-me do que devíamos fazer, acrescentando que se me demorasse iria procurar-me.
Despi o casaco e, após uma hesitação momentânea, desabotoei
o cinturão e pousei-o também no chão. O gesto não passou
despercebido aos olhos de lince de Lowden, que observou:
- Eh, chefe, não abandone nunca a ferraria!
Mas eu afastei-me a rir, convencido de que o seu conselho, naquele momento, não passava de brincadeira. Dirigi-me para o grupo de carros e, quando lá cheguei,
vi homens ocupados em reparações, a olear rodas e a fazer outras coisas que não compreendi de momento de que se tratava.
Reparei num carro cheio de bobinas de fio telegráfico e, a um lado, um veículo diferente dos outros e que calculei imediatamente ser o carro-cozinha, como
Darnell dizia. Ardiam ainda duas fogueiras, à roda das quais um homem baixo, forte e de ar bonacheirão lavava louça, ajudado por um negro. No chão viam-se tachos,
panelas e fardos, assim como sacos que tinham servido de assentos. Mais adiante vi um carroção grande e bonito, coberto de lona branca, e lá dentro, à roda de uma
mesa, vários homens sentados.
Caminhara apressadamente até ali, mas sem deixar nunca de ter profunda consciência da cor e do movimento, do bater dos martelos e das vozes ásperas dos homens,
do cheiro a fumo de lenha e, na pradaria, dois grupos de bois que pastavam. O homem do rosto prazenteiro indicou-me onde poderia encontrar Mr. Creighton. Ao aproximar-me
verifiquei que um dos homens
sentados em redor da mesa era Creighton, mas que os outros, além de Liligh, eram estranhos. Inclinei a cabeça e declarei:
- Mr. Creighton, venho apresentar-me para trabalhar.
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Chegámos atrás do carroção de Liligh e os vaqueiros estão prontos para começar.
- Viva, Cameròn - cumprimentou-me Creighton, cordialmente. O Liligh disse-me que vocês estão todos ansiosos por começar,
o que é bom sinal. Sunderlund, este é Wayne Camerom, um rapaz
do Leste e estudante de Harvard que veio ajudar-me a construir a minha linha telegráfica... Cameron, este é Jeff Sunderlund,
do Texas. Tem uma grande caravana a caminho do vale do Sweetwater, no Wyoming, onde vive um irmão seu que negoceia em gado.
Cumprimentei um homem simpático, que me estendeu a mão e falou com a pronúncia que aprendera a reconhecer e a estimar nas minhas relações com Shaw. Tinha
cabelos e pele clara, embora levemente bronzeada, olhos azuis penetrantes e bondosos e um rosto forte e sério a que os bigodes caídos, compridos, e
acastanhados, davam uma nota triste. Fui igualmente apresentado a outros dois texanos, Bligh e Stevens, associados de Sunderlund na grande caravana e na manada de
quatro mil cabeças que conduziam para Woyoming. O quarto homem era Liligh, que me falou com a secura habitual:
- Cameron, puxa um caixote e toma uma bebida connosco...
- Agradeço, obrigado.
- Mr. Creighton falou-me dos vaqueiros que vêm consigo observou Sunderlund - e eu gostaria de conhecer especialmente o que veio de Wyoming.
- Refere-se a Darnell - elucidei. - É um rapaz interessante,
que estou certo Lhe dirá tudo quanto quiser saber acerca do Vale do Sweetwater.
- Seria um favor - afirmou o simpático texano. - Ultimamente
temos ouvido falar de maneiras desencontradas dos índios e dos búfalos, e gostaríamos de saber a verdade. Já é um problema conduzir uma pequena manada de bois do
Texas até aqui,
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mas quando se trata de quatro mil cabeças um homem nem consegue dormir!
- Faço ideia, Mr. Sunderlund. Os meus amigos virão cá ter
daqui a pouco, mas se tem pressa irei buscá-los...
- Obrigado, Cameron, mas podemos esperar. Está-se bem aqui,
à sombra.
- Mr. Creighton, empanámos aqui? - perguntei, cheio de
ansiedade.
- Empanados? ! Nem pensar nisso! - respondeu-me o patrão, com vivacidade. - Um dos meus batedores informou-me esta manhã de que o meu irmão James vem a caminho
com seis carros de postes telegráficos, e eu espero-o de um momento para o outro. Está a chegar também uma caravana com provisões, de Omaha, as quais terão de bastar-nos
até Forte Laramie. Aguardo também a chegada de meu irmão John, dentro de poucos dias, com uma caravana vinda do Norte. Quanto às caravanas que foram procurar os
postes, alcançar-nos-ão mais cedo ou mais tarde. Ao princípio desta noite teremos a linha levantada até Gotemburgo.
- Grandes notícias, essas! - exclamei, sinceramente: - Estou
desejoso por afastar-me dessa cidade, já tive uma briga e, se
não me precato, terei outra.
- Tê-la-ás em toda a parte, Cameron, e a maior de todas será
no deserto - afirmou Creighton, com um sorriso que minimizava a asserção. - Tivemos um mau compasso de espera, mas não creio
que se prolongue muito mais e, de qualquer maneira, seguíremos em frente com a carga de postes que o meu irmão trouxer, e deixaremos ficar alguns homens para repararem
os estragos causados à Western Union, pela manada aqui do nosso amigo sulista.
- Estragos?! - admirei-me. - Que estragos?
- Cameron, foi a coisa mais idiota que possa imaginar-se! -
explicou-me Sunderlund, pesaroso. - Fiquei capaz de morrer.
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Não me surpreenderia se a manada se tivesse espantado, mas os malditos animais derrubaram milhas de postes telegráficos esfregando os traseiros contra eles!
- Alguma vez imaginaria tal coisa? - perguntou-me Creighton,
a sorrir. - Isto demonstra que, tudo quanto seja susceptível
de acontecer, acontecerá para retardar e obstruir o andamento do meu trabalho. Nada o deterá, porém.
Olhei para fora e vi Shaw aproximar-se, com o seu passo firme e decidido. Sem casaco a sua figura parecia ainda mais imponente, graciosa e bela, a condizer
com as feições perfeitas do rosto tostado e inteligente. Trazia como sempre a arma pendente do coldre e dava-me a impressão de que seria difícil tentar escapar dele.
Sunderlund, que estava de costas para a abertura do carro, só olhou por cima do ombro quando Shaw estava já a poucos passos. Mal o fez, porém, soltou uma
exclamação abafada e levantou-se de um salto. Shaw, eternamente alerta, apercebeu-se dos movimentos inesperados e estacou, a provar mais uma vez que ninguém conseguiria
apanhá-lo de surpresa. Começava a recear o resultado do encontro quando Sunderlund exclamou, cheio de entusiasmo:
- Vance! Se não és tu, estou doido varrido!
- Oh, velho filho da mãe! - exclamou por sua vez o vaqueiro,
sem a habitual lentidão.
As suas feições transformaram-se bruscamente, pareceram
iluminadas por uma luz nova, o olhar tornou-se-Lhe menos penetrante e duro e a boca abriu-se-Lhe num sorriso que jamais lhe vira.
- Estou contentíssimo por encontrá-lo aqui, coronel: contentíssimo e surpreendido.
- O mesmo acontece comigo, vaqueiro. Perguntava a mim mesmo
se te encontraria nalgum lado, desejava sinceramente encontrar-te, rapaz. Este país é grande, mas o mundo continua a ser pequeno!
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Avançaram um para o outro e trocaram um forte aperto de mão. O homem mais velho levantou o braço esquerdo e passou-o pelos
ombros do vaqueiro, a confirmar a alegria que sentia. O espectáculo que ofereciam, a olhar-se nos olhos um do outro, aumentou o meu respeito por Shaw. Era, sem dúvida,
a pessoa mais surpreendente que jamais conhecera? Dir-se-ia que a agitação e o romance o perseguiam para todo o lado.

- Como explica que o encontre aqui, meu velho? - indagou o
vaqueiro, quando finalmente se separaram.
- Tenho uma caravana lá em baixo e uma grande manada de

bois. Apresento-te dois sócios que, embora não os conheças, te conhecem a ti: Tom Bligh e Jim Stevens, do Brazos inferior. Vamos a caminho do Wyoming.
- Wyoming - repetiu Shaw, muito sério. - Trouxe a família
consigo?
- Com certeza. Levantámos a tenda e deixámos o Texas. Foi
duro, mas o Texas está em baixo de forma e, quando a Guerra Civil terminar, estará arruinado.
- É mau! Não calcula quanto lamento... Talvez devesse ter
ficado por lá, mas tornou-se demasiado "quente" para mim.
- Partiste cedo de mais, Vance, tenho boas notícias a dar-
te. Depois de partires, esclareceu-se tudo acerca do Stanley. O facto de o matares, em vez de ser um crime,:foi um benefício
para a comunidade. Levava vida dupla e tu foste dos poucos a descobrirem que era o chefe do mais perigoso bando de ladrões que a fronteira jamais conheceu. Ficaste
absolutamente ilibado e tenho a certeza de que serias bem recebido no Texas... No
entanto, vou tentar levar-te comigo para o Wyoming.
- Boas notícias, coronel, palavra! Mas que aconteceu? Quem
descobriu a verdade acerca do Stanley?
- Ficámos a dever isso à lealdade dos teus amigos,
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do Ranger, Siddell e Harding. Pressentiram, ou souberam não sei como, que o Stanley não era o que aparentava. Além disso, com Stanley morto e Duke Wells no comando,
o bando começou a fazer tropelias. Siddell e Harding souberam por portas travessas as suas intenções e, ajudados por mais alguns rangers, armaram-Lhe uma emboscada.
Travou-se luta sangrenta da qual os rangers saíram todos feridos, mas vivos, depois de terem destroçado a quadrilha.
Duke Wells viveu o suficiente para confessar a patifaria do stanley, e hoje, Vance, se já não o eras antes, és um herói na fronteira do Rio Grande!.
- Com a breca, como as coisas acontecem! Estou contente e o meu compincha Jack também não o ficará menos, quando souber. Coronel, a sua família veio toda
consigo?
- Toda, vaqueiro, até a Kit. Afinal não casou com o Bert Knowles. Creio que acabaram porque o rapaz não se cansava de dizer que eras mau hombre. Quando a
verdade se descobriu a Kit não o poupou. Palavra, vai ficar encantada por te ver. A Kit é impetuosa, como sabes, mas con sidero-a suficientemente leal para confessar
os seus erros e sofrer-Lhes as consequências.
- Sim... bem... não sei. A mim também me podem acontecer
coisas, coronel... Bem, mas acerca da sua ida para o Wyoming. Para que ponto vai?
- Vale Sweetwater, Vance. Conheces a região?
- Tenho ouvido falar muito a seu respeito - retorquiu o vaqueiro, sorumbático. - Sei que há por lá um Jim Sunderlund que apostaria ser seu irmão.
- E é, Vance. Tive notícias suas duas vezes - o anù passado,
mas nos últimos meses nada soube dele. Disse-me que o Sweetwater é a melhor terra de gado do Oeste e que se eu conseguisse chegar lá com uma grande manada ficaríamos
ricos num instante. Sou sócio do seu rancho: Anda, se sabes alguma coisa acerca do Sweetwater, desembucha depressa.
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- Bem, coronel, lamento dizer-lhe que me constou que aquilo por lá está feio. Deve ser, de facto, uma região magnífica,

vai muita gente para lá e há grandes manadas na foz do rio, mas prepara-se uma guerra entre os criadores de gado e os vaqueiros.
- Uma guerra?! - exclamou Sunderlund, surpreendido. - Entre criadores e vaqueiros? Vance, não acreditaria em tal coisa se não fosses tu a dizer-ma! Que se
passa, homem?
Quanto a mim, estava tão interessado na conversa como os outros quatro homens, que Shaw e Sunderlund pareciam ter esquecido. A certa altura Creighton tossiu
e disse qualquer coisa, mas como não mostraram tê-lo ouvido calou-se de novo.
- É a história de gado mais incrível que já ouvi!

- Também me parece. Mas explica-te.
- O caso é novo, até para o Texas... - Vance hesitou, fez
menção de continuar, mas depois pareceu mudar de ideias: Coronel, o senhor não voltará para trás e o que eu ouvi não passa ainda de conversa. Encontrar-nos-emos
lá os dois, pois quando acabar a montagem da linha voltarei para o gado. Talvez a guerra de que Lhe falei nunca chegue a dar-se. Falemos de
coisas mais alegres.
- Tens razão, Vance, não atravessarei pontes antes de as encontrar... Quais são as tuas condições para ires comigo? Pagarei o que quiseres! Dar-te-ei metade
do meu lucro nos bois do Texas - quatro mil cabeças numa manada!e a Kit ficará com certeza contente.
- Lamento, meu velho, mas não posso aceitar. Contratei-me
para trabalhar com Mr. Creighton e, juntamente com o meu camarada Lowden, formei um grupo com Cameron
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e um vaqueiro do Wyoming chamado Darnell. Foi por este que
soube o que vai por Sweetwater.
- Vance, gostaria de falar com o rapaz. És capaz de mandá-lo
ter comigo?
- Com certeza, coronel, e ainda bem que a sorte pôs o Darnell no nosso caminho, pois melhor do que ninguém poderá esclarecê-lo acerca do que se passa.
Shaw inclinou a cabeça a todos nós, como se pedisse desculpa
do que acontecia, e afastou-se apressadamente ao longo da margem do rio.
- Sunderlund, quem é este jovem vaqueiro? - indagou Creighton, vivamente interessado.
- Vance Shaw? Nem numa semana conseguiria contar-lhe tudo a
seu respeito! Pertence a uma velha família texana e seu pai foi roubado e assassinado há anos, por ladrões de gado. Vance era o vaqueiro que melhor cavalgava e melhor
atirava em todo o Texas! Durante algum tempo fez parte dos Rangers texanos e eu comparo-o a Borvie e a Travis, que perderam a vida no ålamo. Pode parecer-Lhe jovem,
mas tem trinta anos, o que no Texas é uma vida inteira. Trabalhou para mim três anos, matou o meu pior inimigo, lutou contra os Comanches no meu rancho e ele e os
seus homens salvaram a vida a todos nós. Não, se começásse a falar-Lhe do Vance Shaw nunca mais acabaria!
- Bem, isso quer dizer que o vaqueiro é uma boa aquisição
para o meu trabalho - declarou Creighton, comovido.
Pouco depois disse-me qe subisse a pequena encosta que havia
defronte do acampamento e visse se descobria sinais da caravana do seu irmão James.
Enquanto me afastava através da erva áspera, reflectia no que ouvira. Fascinava-me sobretudo o facto comprovado de que Vance Shaw era cem por cento o herói
da minhha fantasia. Jamais sonharia, sequer, travar amizade com indivíduo mais notável.

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Não constituira novidade ouvir dizer que era o que os texanos chamam pistoleiro, mas os elogios de Sunderlund tornavam-no ainda maior a meus olhos. E ia trabalhar
a seu lado, lutar a seu lado, conhecê-lo em todos os pormenores imprevisíveis da batalha que iríamos travar! E a tal rapariga, Kit Sunderlund? Devia ser a que eu
esperava encontrar. Sentia nos ossos que era inevitável que assim fosse. Mesmo que existissem dez raparigas na caravana, a que me acenara seria, sem sombra de dúvida,
a que estivera sentimentalmente ligada ao meu amigo vaqueiro, ligação que - tudo o indicava - Sunderlund encarara favoravelmente. Mas que acontecera quando Shaw
a reencontrasse?
Apaixonara-se por Ruby e, se eu conhecia alguma coisa do coração humano, era amor sincero o que Lhe inspirava a beleza da jovem, a sua solidão e o seu desejo
fervoroso de fugir da vida para a qual uma cruel partida do destino a atirara. As perguntas que mentalmente fiz a mim mesmo obtiveram todas resposta negativa: fossem
quais fossem as relações que, porventura, tivessem existido entre Shaw e Kit Sunderlund, estava certo de que o meu amigo não abandonaria Ruby.
Entretanto chegara quase ao cimo da elevação de terreno, à
direita da caravana de Sunderlund, de onde pude ver claramente o vale e, nele, um grande grupo de carroções, reunidos num
enorme círculo e, em volta, inúmeros bois e cavalos a pastarem.
Mais em baixo, ao longo da estrada do rio e muito para além
do acampamento, descobri uma fila de postes telegráficos, hirtos e direitos, unidos por um fio que brilhava ao sol. Depois, durante um intervalo, os postes apareciam
deitados no solo, uns, e outros em diversos graus de elevação, e mais adiante distingui vagamente que todos se encontravam caídos.
99
Por fim, no limite do meu campo visual, vi o que conclui tratar-se de um grupo de homens a trabalhar, provavelmente nos reparos da linha. Desviei o olhar para sul
e foi com tremenda emoção que descobri uma caravana composta por oito carros, dos quais um apenas coberto de lona, a arrastar-se como uma enorme cobra. Os veículos
vinham carregados de postes telegráficos. Corri para o acampamento, a fim de dar a boa-nova a Creighton.
O seu rosto iluminou-se com um sorriso radiante,
agradeceu-me e declarou que poria toda a gente a trabalhar tão logo os carros chegassem. Dirigi-me, em seguida, para o nosso carroção e encontrei Lowden e Ruby sentados
à sombra, a descascarem batatas para o jantar.
- Afinal, Jack, pareces encantado da vida, e eu a julgar que
detestavas tarefas mesquinhas como essa! - trocei. - Ruby.... quero dizer, Pedro, também pareces mais animado!
- Nunca esperei voltar a ser tão feliz - respondeu-me a
rapariga, baixinho.
- Onde diabo estiveste metido, chefe? - quis saber o vaqueiro. - Tenho estado preocupado contigo. Vi-te a falar com aqueles tipos, mais o Shaw, e quando
este veio e arrastou o Darnell consigo, sem me dizer sequer uma palavra, achei o caso estranho. Quem vinha a ser aquele matulão alto com quem o Vance falava? Daqui
pareceu-me texano.
- Sei que se chama coronel Sunderlund, Jack, e que o Vance
tem muito que contar-te.
Jack praguejou, surpreendido:
- Sunderlund?! Ah, sim, o Vance terá, com certeza, muito que
contar! Ele disse se ia para algum lugar em particular, quero dizer, para longe daqui?
- Jack, pelo que deduzi, as notícias que o coronel Sunderlund deu ao Vance foram boas.
- Referes-te àquela bronca de Bronsville? Descobriu-se a
verdade? - perguntou-me, ansioso.
100
- Descobriu, e para crédito de Vance.
- Oh, o velho filho da mãe! Podia ter perdido um par de
minutos a dizer-mo, depois de ter cavalgado mil milhas com ele, meio esfomeado, meio afogado e alvo de tiros uma dúzia de vezes!
Compreendi que, sob a agitação de Lowden, se escondia a alegria profunda de saber o amigo ilibado de qualquer coisa que muito se parecia com crime.
- Sunderlund trouxe... a família... as mulheres? perguntou, com os olhos vivos postos em mim.
- Sim, creio que sim - respondi, tentando conservar-me
calmo, compreendendo o significado da sua pergunta.
- E o Vance sabe?
- Ele e Sunderlund mencionaram uma rapariga chamada Kit...
- Irra, eu bem sabia que aquele tipo não pode viver sem encrenca! Julgava que os índios com os quais teremos de lutar, as fugas de búfalos, os fogos das
pradarias e as tempestades que nos esperam pela certa, bastariam, mas não: faltava ainda Kit Sunderlund e, comparado com ela, o resto não é nada. E se descobre o
que se passa com a Ruby, como inevitavelmente acontecerá, mais cedo ou mais tarde? Apre!
101
VI
Jack daqui a meia hora teremos de estar todos a trabalhar. Apetecia-me fazer-lhe um milhão de perguntas, mas decidi não
me arriscar.
- O quê?! Eu e o Vance a cavar buracos e a levantar postes?
Nem penses nisso! Prefiro combater contra os índios.
- Jack, já sei que vocês, vaqueiros, detestam cercas e,
sobretudo, abrir buracos para elas, mas isto é diferente. Aposto que, antes de chegarmos ao fim, até tu abrirás buracos e gostarás! E quase apostava também
que o Liligh se empenhará
em fazer-nos trabalhar a valer. Vá, despachemo-nos com o jantar para não termos de trabalhar com o estômago vazio. Ou me engano muito ou chegaremos a Gotemburgo
antes de escurecer.
Em menos de uma hora Creighton, o seu carroção e várias
outros voltaram para a cidade. O nosso carro foi o primeiro a seguir a caravana de James Creighton, à medida que os veículos rodavam para oeste, ao longo da linha
telegráfica, a caminho da cidade. Sempre que viam um buraco aberto no chão, os homens do último carro atiravam um poste.
Em breve, sob a direcção dominadora de Liligh, trabalhávamos
afanosamente. Quatro turnos de trabalhadores levantavam cuidadosamente os postes e metiam-nos nas covas,
103

nós enchíamo-las de terra e calcávamos com força, Darnell conduzia o nosso carroção, Ruby mantinha-se oculta e um companheiro robusto do grupo de Liligh juntara-se-nos,
para completar o quarteto. Chamava-se Sullivan e era um irlandês jovial.
Com surpresa minha, Shaw calçou umas luvas e ajudou-nos
cheio de boa vontade. Só Lowden se queixava, embora me começasse a parecer que os seus protestos eram mais uma "pose" do que um hábito verdadeiro de carácter. Tra
balhava tanto como qualquer de nós, e o trabalho era duro e moroso.
Cansei-me de contar postes, que pareciam intermináveis.
Quase me custava a acreditar que se utilizassem apenas cerca de vinte cinco por milha. O sol escaldava, a poeira sufocava e a força de que me gabara durante
os meus tempos de estudante
estava a ser submetida a rude prova. Ao fim de uma hora tinha a roupa encharcada de suor, sentia o corpo a arder e a
garganta seca, de sede, mas, se a carne era fraca, o espírito era forte, e eu punha no trabalho alma e coração.
Apesar do rude labor, a tarde passou depressa, e antes de escurecer levantámos o último poste, à entrada da cidade, e decidimos acampar ali mesmo.
Quando me sentei no chão de pernas cruzadas, à maneira dos meus companheiros, pensei que nunca tivera tanta fome na minha vida nem nunca nada me cheirara
tão bem como a comida fumegante. Ruby serviu-nos, denunciando com a rapidez dos seus movimentos e o brilho do olhar a felicidade que sentia. Vance manteve-se silencioso
como de costume, mas reparei que olhava frequentemene para ela.
Enquanto comíamos, u mensageiro veio avisar-nos de que no dia seguinte o acampamento não se levantaria, para que a caravana e a manada de Sunderlund nos
fossem à frente. Não obstante a notícia ser decepcionante para mim, não deixou de ser um alívio no que dizia respeito às dores que tinha no corpo cansado.
- Está escrito - resmungou Lowden -, que não saire mos desta
cidade enquanto não tivermos encrenca.
Darnell observou que a linha telegráfica acabaria por alcançar a caravana, pois Sunderlund, com todos aqueles carros e bois, não faria mais de cinco
ou seis milhas diárias.
Depois de escurecer andei um bocado para trás e para diante,
a fim de desentorpecer os músculos, doridos, o que consegui em
certa medida. Vance e Ruby afastaram-se para o rio, que ficava perto, e deixaram-me só. Não tardei a deitar-me, com a impressão de que pela primeira vez na minha
vida dava o exacto valor a uma cama para me estender.
O sol ia alto e batia-me na cara quando Darnell me sacudiu,
devagar, e mandou levantar, para tomar o pequeno almoço.

- Isso é fácil de dizer, Tom, mas como conseguirei levantar-me? - resmunguei.
No entanto, depois de lavar-me e de andar um pouco senti-me
melhor.
Durante a refeição, Shaw perguntou-nos:
- Por que diabo estão tão macambúzios esta manhã ?

- Com a breca, compincha, custa-me dizer-to... - gemeu
Lowden, tristonho.
- Mas a mim parece-me que não temos outro remédio. -
acrescentou Darnell.
- Pois desembuchem - ordenou o vaqueiro, secamente.
Depois de hesitar um bocado, Lowden perguntou:
- Não podes mandar a Ruby, quero dizer, o Pedro, ver se
chove?
- Lá poder, posso, mas não mandarei.

104 105
A Ruby está metida nisto connosco e portanto o que há a dizer
deve ser dito diante dela.
- Está bem, não deixas de ter razão. Trata-se do Slade...
Não nos enganámos a seu respeito. É muito bom quando está sóbrio, mas se bebe é um daqueles tipos que vêem tudo vermelho e têm de espalhar vermelho por toda
a parte. Ontem matou um
dos seus guias e, pelo que me constou, sem qualquer motivo além do seu mau humor. Talvez o outro não fosse também boa peça, mas não deixou de ser um assassínio.
O que, porém, nos doeu, a mim e ao Tom, foi saber que o Slade se alambazou a respeito da Ruby. A nós, sulistas, não agradam essas conversas sujas acerca de qualquer
mulher, e muito menos de uma rapariga que está connosco e de quem todos zelamos. E é tudo, compinchas...Pedro, não precisas de te inquietar por cáusa disto...
- Como queres que não me inquiete? - perguntou-lhe Ruby. -
Quer dizer que vai haver luta, não é verdade? E talvez... talvez...
- Não haverá luta nenhuma - replicou Lowden.
- Eu bem lhes disse o pressentimento esquisito que tive ao vê-lo de roda da Ruby - observou Shaw, devagar. - Enganei-me quando supus que neste trabalho do
telégrafo nos libertaríamos dos incidentes vulgares da vida de fronteira, vejo agora que é impossível.
- Assim é que é falar, camarada - afirmou Lowden. - Temos o
dia por nossa conta, vamos à cidade e arrumemos o assunto. Esqueci-me de dizer que, ontem, no antro do Pierce, perguntei pela Ruby e alguém respondeu-me que ela
desaparecera. Perguntei depois à Flo, mas a rapariga piscou-me o olho e disse-me que a colega estava doente. É esperta e não nos trairá.
106
- Shaw, se não te faz diferença, ficarei no acampamento -
sugeriu Darnell, mal-humorado.
- Acho que será melhor vires, camarada - respondeu-lhe o outro, pensativo. - A Ruby pode ocultar-se no carro, e nós não nos demoraremos.
A serenidade dos vaqueiros permitiu-me avaliar melhor ainda
a têmpera do seu espírito implacável e ardente. Falavam
naturálmente em ir ao encontro de um assassino, como se isso fosse um acontecimento banal, do dia a dia. A própria Ruby me surpreendia, pois também a ela animava
o mesmo espírito. Não demonstrou ansiedade especial nem medo quando Shaw se despediu dela e lhe disse que não se demorava.
- Separar-nos-emos e o Jack irá consigo - decidiu o vaqueiro, mal chegámos à rua poeirenta de Gotemburgo. - Não tenciono procurar Slade em nenhum desses
armazéns ou saloons, a não ser que a isso me veja obrigado. Se o encontrar na rua,
muito bem, mas é quase çerto que não. Tom, tu vais com o Wáyne aos saLoons, aos armazéns, a toda a parte, e se o encontrarem dizem-lhe que está aqui um homem que
o julga demasiado cobarde para vir enfrentá-lo à rua.
Separámo-nos e entrámos na cidade por lados opostos. Eu estava tão excitado que me esquecia das dores musculares, e Darnell não se sentia com disposição
para falar. Entrámos na estalagem - eu certamente com passo muito hirto -, vimos no vestíbulo e no saloon, saímos e entrámos na estação da diligência, sem encontrarmos
vestígios de Slade. Em seguida descemos a rua e procurámos em vários restaurantes e armazéns.
Por fim entrámos no estabelecimento de Pierce. Pela porta
aberta notámos que estava cheio de fumo e de Algazarra,
107
como à noite. De súbito, os olhos do meu companheiro faiscaram:
- Lá está o maldito homem! - murmurou. - Ali, a jogar naquela mesa perto da roleta. Caramba, parece irreconhecível! É singular o que o álcool pode fazer
a um tipo... Talvez neste momento não esteja embriagado, mas esteve.
Entrámos, devagar, e eu senti a garganta contrair-se-me e o coração começar a bater-me mais depressa. Irritei-me por isso. Nunca mais aprenderia a ver as
coisas como elas eram e a aceitá-las friamente?
- Tom, e se me deixasses ir eu dar-lhe o recado? - sugeri.
- A ideia não é grande coisa... Se o Slade é tão reles como
parece, é capaz de te furar só por Lhe falares.
- Tolice! Não sou do Oeste, sou um novato ianque e o homem
seria doido se me fizesse mal apenas por lhe dar um recado.
- Seja, mas irei contigo e podes crer que estarei entre ti e
o Slade. Aproximemo-nos da mesa devagar, observemos o jogo e
quando te der um toque fala ao Slade, mas alto, para que todos os presentes ouçam.
Acercámo-nos da mesa de jogo. Eram quatro os jogadores e Slade estava voltado para nós, com a cabeça baixa sobre as cartas. àquela distância reconhecia-se
facilmente, embora não parecesse o homem que antes vira. Os cabelos despenteados caíam-lhe para a testa, tinha a cara enegrecida e a barba crescida. Parámos atrás
dos jogadores e observámos o jogo por momentos, depois Darnell desviou-se para a direita de Slade e eu conservei o meu lugar.
O meu Companheiro fez-me, então, um sinal quase imperceptível, e respirei fundo antes de começar, em voz alta:
- Cavalheiros, desculpem interromper o vosso jogo...
108
Aguardei um instante. Os quatro homens levantaram bruscamente a cabeça, mas eu só vi a cara de Slade. Os seus olhos eram janelas sombrias da sua alma diabólica.
- Que pretende, ao intrometer-se? - perguntou-me, irascível.
- Slade - gritei, aproveitando a deixa - lá fora espera-o um homem que declara que você é demasiado cobarde para sair e enfrentá-lo.
Slade regougou, produzindo um som parecido com o de um vulcão prestes a entrar em erupção. O rosto tornou-se-lhe feroz, negro de fúria, a violência com que
ergueu o braço direito espalhou cartas e fichas pela mesa e fez com que a cadeira arrastasse no chão. Entretanto, o silêncio tornara-se absoluto, toda a gente ouvira.
Slade puxou da enorme pistola, bolsando palavras ininteligíveis e ameaçadoras nas quais distingui apenas os nomes de novato e de ianque. Mas, antes que apontasse
a arma, Darnell agarrou-lhe no pulso e, com um ímpeto formidável, levantou-lhe a mão acima da cabeça e lá lha manteve.

- Que ia fazer, assassino imundo? - perguntou-Lhe, com voz
sibilante. - Matar um homem a sangue-frio só por ter-lhe dado um recado? Isso provaria que é um cão cobarde.
Os outros três jogadores levantaram-se e um deles tirou a
arma da mão de Slade.
- Ele tem razão, Joe - declarou em voz alta:. - Não podes

fazer tal coisa aqui, linchar-te-iam. Acalma-te, não cedas à cólera dessa maneira. Sou teu amigo, Joe, e falo para teu bem.
Dárnell largou então o braço de Slade e, voltando-se para
mim, arrastou-me do local, onde parecia ter ganho raízes.
109
Encontrava-me preso de uma cólera cega e de um instante para o outro seria capaz de saltar sobre Slade, atirá-lo ao chão e crivá-lo de pontapés até deixá-lo meio
morto. Darnell arrastou-me para fora do saloon e só então fui capaz de respirar de novo fundo.
- Meu Deus, Tom:, o tipo ia dar-me um tiro! Aquilo não é
homem, é uma besta sedenta de sangue!
- Safámo-nos de boa, camarada! - exclamou Darnell. - Sim, senhor, deste-lhe bem o recado! Em breve se saberá em toda a cidade que o Slade foi desafiado...
e se responder ao desafio veremos o Shaw furá-lo.
- Meu Deus, Tom, olha para ali! - Exclamei apavorado, - Que
está o Shaw a fazer no meio da rua?
- De acordo com as regras do desafio para uma luta a tiro,
passeará para trás e para diante até o Slade sair. Anda, safemo-nos da frente do edifício.
Afastámo-nos cerca de cinquenta passos e parámos a observar. Os frequentadores do estabelecimento de Pierce começavam a sair e a dirigir-se uns para um lado,
outros para o outro. Os seus gestos, assim como as suas palavras excitadas, anunciavam aos transeuntes que alguma coisa ia passar-se.
Shaw desceu pelo meio da rua até cinquenta passos da loja de Pierce, e depois parou. Era maravilhoso vê-lo assim imóvel, alto e esguio, com o lado direito
voltado na direcção de onde esperava o inimigo e o braço caído ao longo do corpo.
- Olha, o Jack está do outro lado da rua - segredou-me
Darnell. - Acenará a Shaw se vir Slade sair.
Após alguns momentos de expectativa, Shaw recomeçou o seu passeio, desta vez para o outro lado. Os condutores dos carros e outras pessoas que não
tinham estado no saloon depressa
compreenderam o que ia acontecer. Os que estavam perto de Shaw afastavam-se, para não ficarem ao alcance das balas, e os do nosso lado paravam no passeio, perto
dos edifícios.
Tudo parecia a postos para um dos famosos duelos de fronteira - para aquilo a que o Oeste chamava "um ajuste de contas". O ruído de arrastar de botas e de
vozes excitadas desvaneceu-se, substituído por um silêncio que parecia interminável. Mas Slade não surgia.
Ouvi de súbito um grito e um bater de ferraduras, à nossa
esquerda, ao mesmo tempo que Darnell exclamava:
- Meu Deus, olha os cavalos que aí vêm! Corre!
Vi uma parelha de cavalos enlouquecidos que arrastavam pelo meio da rua uma carruagem leve, de rodas altas. Guiava-os uma rapariga, a qual puxava desesperadamente
as rédeas e tentava detê-los, num esforço inútil. Os gritos dos curiosos assim o demonstravam. Instintivamente, dei um passo para diante e saltei a grade de amarração,
para a rua. Darnell gritou-me que tivesse cuidado, mas saltou também.
De súbito, quando o carro se aproximou, reconheci a jovem do carroção, que me acenara e sorrira. Saltara com a intenção de fazer qualquer coisa, mas ao vê-la
esqueci-me de todas as precauções, mergulhei para diante e desatei numa corrida que me permitiria acompanhar os cavalos quando chegassem ao meu lado.
Medi o instante com exactidão, agarrei num salto a rédea do cavalo mais próximo, com ambas as mãos, e puxei com todas as minhas forças. Fui arrastado, mas
obriguei o animal a ajoelhar
e teria detido a parelha se o outro cavalo não prosseguisse na
corrida desenfreada. Mas de qualquer modo reduzi-lhes a velocidade.
Darnell passou como um relâmpago a meu lado e saltou para a frente dos animais, com a intenção de agarrar a rédea da cabeçada do segundo cavalo. Puxou para
trás com toda a sua força e gritou:
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- Não podemos fazê-los parar. A rapariga que salte!
Larguei a rédea, tropecei e desatei a correr de novo, desta
vez a par do banco do carro.
- Salte! - gritei. - Apanhá-la-ei. Salte!
A rapariga levantou-se e atirou-se pelo ar, atingindo-me em
cheio no peito. Apanhei-a e caí, mas reduzi o impacto da sua queda. Rolei na poeira e a jovem ficou meio atravessada sobre o meu corpo. Consegui pôr-me de
pé, ajudei-a a fazer o mesmo e
voltei-me no momento em que diversos homens iam em auxílio de Darnell e logravam deter os animais um pouco adiante. Fitei então a rapariga.
- Meu Deus, se não fosse você! - exclamou, parecendo ignorar
que por pouco não partira o pescoço.
- Está... ferida? - foi tudo quanto consegui gaguejar.
- Não, graças a si. Eu é que devia perguntar-Lhe se não está
partido em dois! - replicou, observando-me com os seus francos olhos azuis. - Um engraçadinho qualquer atirou uma pedra aos animais, e como o ås é um bocadinho rebelde,
assustou-se. No entanto, tê-lo-ia dominado se uma das rédeas não se partisse.
Era, de facto, a rapariga da caravana. Ficámos a olhar um
para o outro e a verdade é que me esqueci do lugar onde nos encontrávamos e do que acabara de suceder. Tinha na minha frente os mesmos cabelos castanhos, agora a
caírem-Lhe sobre o rosto, os mesmos olhos, embora de um azul mais escuro do que supusera, e a mesma expressão que tanto me impressionara. Era alta e, ao sacudir
instintiva mente a poeira da blusa, sem desviar os olhos de mim, verifiquei que tinha formas graciosas e perfeitas.
- Sou um homem de sorte... - murmurei sem saber como. Compreende, nunca a esqueci, tenho pensado constantemente em si, Miss.
112
- Sunderlund, Kit Sunderlund., Mas quem tem sorte sou eu.
- Não me referia a Este quase acidente...
- Não tem menos desembaraço de língua do que os vaqueiros texanos, pelo que ouço! Mas... também me lembro de si. Não é vaqueiro... nem do Oeste.
- Sou um novato ianque de Boston e espero que o facto de ser
ianque não nos impeça de sermos amigos, Miss Sunderlund.
- Pela maneira de proceder não se parece muito com um novato
- declarou com um sorriso terno e um brilho no olhar que
serviram para aumentar a minha sujeição. - Reconheço um homem do leste quando o vejo, sabe? Nasci no Texas, mas estudei em Filadélfia. Não é você o jovem estudante
de Harvard da Western Union?
- Sou, sou Wayne Cameron.
- Vem aí meu pai. Quererá agradecer-lhe, com certeza... e eu
também, mais tarde. Esta noite ficamos no hotel e, amanhã, reunir-nos-emos à caravana. Irá visitar-me?
- Irei? Com certeza, obrigado! Não sei que dizer, nem como,

mas este encontro foi a coisa mais maravilhosa da minha vida. - Da minha também - confessou.
Depois voltou-se e foi ao encontro do pai. Sem dúvida, Sunderlund assistira a tudo, pois parecia assustadíssimo.

- Não estás ferida, pois não, Kit?
- Não, pai, graças a este jovem.
- Agradeço-lhe, Cameron, mas sei que os agradecimentos não
bastam. Vi tudo... estava à espera na multidão, à espera do que sabe... Foi preciso coragem para fazer o que fez! A parelha é pesada e veloz. Também quero agradecer
ao seu amigo Darnell.
- Ele merece mais agradecimentos do que eu, pois a mim nunca
me ocorreria dizer à sua filha que saltasse.
113
- Do que não há dúvida é de que foi um momento de sorte para
os Sunderlunds - afirmou,cortêsmente. - Até logo... Ficaremos todo o dia na cidade. Anda, Kit, afastemo-nos daqui.
O sorriso estonteante e prometedor que a rapariga me lançou
ao afastar-se com o pai deixou-me aparvalhado. Teria sido aquele encontro a consumação dos meus sonhos? Algo tremendo me acontecera!
Se tivesse encontrado aquela rapariga em Boston, embora não
me restassem dúvidas de que me impressionaria do mesmo modo, creio que conservaria a minha compostura, ainda que perdesse o coração. Mas depois de a ver romanticamente
no carroção, de me ter deixado subjugar gradualmente pelo Oeste e de a ter encontrado de novo naquela rude cidade fronteiriça, num momento em que pudera ajudá-la,
sabia de ciência certa que não resistiria, que me enamorara sem remédio, com loucura.
Encostei-me ao gradeamento, com os pensamentos confusos,
esquecido do que me rodeava.
De súbito ocorreu-me o verdadeiro motivo que ali me trouxera. A multidão dispersava, dois trabalhadores puxavam a parelha já calma e Darnell aproximava-se
de mim.
- Bem, o nosso camarada transformou o grande matador num cachorro cobarde aos olhos de todos os homens desta cidade. Não há mais nada -a fazer, Shaw e Lowden
foram-se embora, creio que a caminho do acampamento. Vamo-nos também.
- Tom, viste aquela pequena cair-me nos braços e atirar-me
ao chão? - perguntei, atordoado.
- Claro que vi. Agarraste-a bem, apesar de teres dado um
trambolhão, e a julgar pela tua cara ela deve ter-te dado outra espécie de choque...
- Acho que sim. Tom, ela chama-se Kit Sunderlund e é filha
do negociante de gado com quem falaste.
114
- Diabo! Então o Jim Sunderlund do Sweetwater é seu tio e
ela vai viver com o pai naquele vale... Meu Deus, é duro!
- Duro? Porquê? - indaguei, sem perceber.
- Bem, é difícil explicar-te exactamente o que quero dizer... É demasiado bonita para ir cair no meio daqueles vaqueiros e rancheiros famintos de mulheres.
- Sim, desse ponto de vista a ideia não parece tranquilizadora - murmurei, pensativo. - Os nossos camaradas viram-nos salvá-la? O Shaw conhece-a, foram amigos
no Texas. O pai dela foi o que deu a entender, ao passo que o Lowden insinuou que o Vance esteve apaixonado por ela.
- Com certeza, como querias que não estivesse? Mas acho que

o caso da Ruby é mais fundo. Numa rapariga como a Ruby existe
qualquer coisa que atrai o sentimento de protecção do homem. Quando chegámos ao fim da rua alcançámos Shaw e Lowden. Não
notei qualquer diferença no primeiro, mas o segundo parecia respirar alívio por todos os poros. Mimoseou Slade com uma série de epítetos impossíveis de citar.
- Vance, tiraste o pio ao fanfarrão do Slade - observei.

- Parece que sim, mas não convém estar muito convencido
disso. Que aconteceu no saLoon? Quando te vi sair estavas branco como um lençol.
- Deste por isso, Vance? - indaguei, surpreendido.
- Podes ter a certeza. Vi todas as caras que estavam na rua,
posso garantir que não me escapou nada.
Enquanto Darnell explicava o que fizemos, perguntei a mim mesmo se Shaw vira também a parelha desenfreada e quem a conduzia.
- Irra, esse Slade é o pulha mais pulha que já conheci! -
praguejou Lowden.
115
- Garanto-lhes, rapazes - continuou Darnell -, que se não
tivesse agarrado o Slade, o Wayne teria dado cabo dele ali mesmo! Palavra, nunca vi ninguém tão furioso!
Assim falando, chegámos ao nosso carro.
- PedroRuby - chamou Shaw alegremente - estamos de volta,
inteirinhos! Nada aconteceu, pelo menos a mim... mas ou me engano muito ou o nosso amigo ianque não pode dizer o mesmo...
Ruby foi sentar-se no extremo do carroção, com os pés
pendurados a balouçar. Para um observador casual seria apenas um jovem mexicano muito simpático, mas os olhos que fitou em Shaw estavam dilatados e ansiosos e expri
miam qualquer coisa que me feriu e que traía a angústia por que passara. O seio arfava-lhe sob a blusa azul e as mãos morenas e pequeninas tremiam-lhe. Conseguiu,
porém, murmurar que se alegrava por Shaw haver regressado são e salvo.
- Camaradas, talvez fosse boa ideia afastarmo-nos da cidade,
ao longo do rio, e irmos acampar algures, entre os salgueiros - sugeriu Vance.
- Acho... bem - gaguejei. - Creio que poderei voltar a pé à
cidade, esta noite.
- Para quê, idiota? - indagou Shaw. - Se continuas a arriscar-te, ainda acabas por ser ferido nesta cidade.
- Mas tenho de vir, Vance, comprometi-me com... com aquela rapariga. Não viste os cavalos desenfreados? Não reparaste que o Tom e eu detivemos a parelha
e... e que a rapariga saltou
para os meus braços e me atirou ao chão?
- Claro que vi, e o Jack também, mas estávamos demasiado
longe. Meu Deus, compincha, pareces fadado para a má sorte! Como se o mal fosse pequeno, ainda a rapariga que salvaste tinha de ser Kit Sunderlund!
Fitei com firmeza o meu camarada texano, esforçando -me por
dominar a perturbação que me ia no peito,
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pois o seu olhar e o tom da sua voz faziam-me pressentir qualquer coisa sinistra e calamitosa.
- Sim, Vance, aquela rapariga era Kit Sunderlund.
Lowden, com a expressão mais esquisita que jamais lhe vira,
exclamou:
- Meu Deus, Vance, de que maneira terrível as coisas

acontecem à tua volta!
- Anda cá! - ordenou Vance, agarrando-me. - Vem comigo para
poder meter-te nos eixos!
Arrastou-me para longe do campo auditivo dos outros e, quando me obrigou a voltar-me para o olhar, murmurei:

- Vance, com todo o devido respeito pelo teu estado de
espírito, não vejo motivo para todo este mistério acerca do facto simples de ter um encontro com Kit Sunderlund, a não ser que estejas ainda apaixonado por ela.
- Que diabo tem isso a ver com o que quero dizer-te? Mas se ainda tens sombra de senso, escutar-me-ás - replicou, um pouco cáustico - Não te deixes vencer
pelos teus pruridos de ianque,sou teu amigo. Camarada, tens o aspecto e as falas de um homem que perdeu a cabeça e o coração, conheço os sintomas.
- Estás a atingir-me debaixo do cinto, Shaw! Os teus olhos
de vaqueiro são demasiado vivos. Lembras-te de te ter dito que, há dias, ao viajar pela Trilha, vi uma rapariga num carroção? Pois bem, apesar de vê-la tão de passagem,
fui atingido em cheio... E hoje... Raio de sorte, nunca me senti tão apaixonado na minha vida!
- Já o receava, camarada - afirmou Shaw, muito sério, sem deixar de apertar-me o braço. - É duro dizê-lo, mas embora não seja minha intenção desrespeitar
Kit Sunder lund, sou teu amigo e quero dar-te um conselho. Kit desde os quinze anos que é a bela de Santone, e tem agora vinte. Era a mais bonita rapariga do sul
do Texas, e ainda por cima rica e de excelentes famílias... Mas é uma namoradeira nata.
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Tem tido mais namorados, mais pobres diabos presos pelo beicinho, do que qualquer oútra rapariga que conheço ou de quem tenha ouvido falar. Fui um deles. Trabalhei
para o pai durante três anos. Não está mais na sua mão, tem de proceder sempre de maneira a fazer com que os rapazes a amem, embora se limite a sorrir e a ser alegre,
É a sua natureza, há nela algo de intenso e ardente. Apesar de todas as oportunidades que tive, apenas lhe peguei na mão umas duas vezes e a beijei uma. numa ocasião
em que endoideci, arranquei-a da sela e tive de beijá-la ou morrer. Com mil raios, nunca mais o esquecerei! Ficou furiosa que nem um vespão.
- Vance, não encontro em nada do que me disseste motivo para
lamentar ter-me apaixonado por ela. Até agora só lhe teceste cumprimentos, embora afirmasses que é namoradeira.
- Pois não, amigo, e aí é que está o mal - replicou-me
Vance, com firmeza. - Não consigo ver Kit apaixonar-se por nenhum homem e é isso que me assusta: que tu te apaixones profundamente e que ela não te corresponda.
Sei que, consciente ou inconscientemente, arrasta os homens na sua esteira. Nós, sulistas, somos todos iguais, mas temu que um tipo do leste, como tu, se deixe prender
de tal modo que arruine a sua vida. E este trabalho em que nos encontramos não serve para homens de coração partido.
- Vance, compreendo muito bem tudo isso, mas protesto: mesmo
que o meu coração esteja preso, isso não significa que Kit Sunderlund o parta.
- O diabo é que não significa! Vi muitos rapazes decentes
despenharem-se no inferno por amarem Kit Sunderlund.
- Colocas-me numa situação difícil, Vance. Sabes, nos poucos
minutos que falei com Kit, fiquei com a impressão de que sentia por mim o que sinto por ela.
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- Oh, meu Deus, camarada! Deves estar desvairado, amigo! Nem
a Kit podia ser tão rápida.
- Posso dar desconto ao seu aspecto e aos seus gestos, embora Deus saiba quanto foram eloquentes, mas o que ela disse é que me convenceu.
- Bem, e o que foi que ela disse?
- Não ouso trair a sua confiança. Estou perturbado com os teus argumentos, Vance. Conhece-la e és suficientemente amigo para tentares poupar-me a possíveis
desgostos, mas conseguiste também despertar-me intensa curiosidade por ela. Parece-me que o mais sensato, dadas as circunstâncias, é esnerar. Se me
perdi, de facto, de amores por Kit Sunderlund, muito bem. Entregar-me-ei a esse amor e tentarei a sorte com ela ao longo da Trilha. A linha telegráfica e a caravana
seguirão para Oeste, provavelmente perto uma da outra.
- Com a breca, camarada, fazes-me sentir envergonhado mormurou Shaw, como quem está repeso do que disse. - Não sou profeta e talvez me tenha enganado, quis
apenas pôr as cartas na mesa, tal qual como me vieram parar às mãos. Vamos, voltemos para o carro, a fim de prepararmos as coisas para partirmos. Ainda podes reflectir,
claro, mas parece-me que já sabes bem o que queres.
Voltámos, sem trocarmos mais palavras, e começámos os preparativos para a partida. Apercebi-me de que Lowden me deitava olhares cépticos e de que ele ou
Darnell tinham posto Ruby ao corrente do que se passara, pois os seus olhos seguiam-me com doçura e compreensão. Pouco depois estava tudo pronto e Lowden apareceu
com os três cavalos pertencentes aos vaqueiros.
Tão atordoado me sentia, que mal olhei para os três magníficos animais, os mais belos que jamais vira. Voltámos para oeste, tendo o cuidado de viajar pelo
exterior da cidade e de seguir as marcas deixadas pelas rodas de alguns dos
nossos carros.
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Darnell conduzia os bois, como de costume, e Ruby ocupava o lugar a seu lado. Shaw e Lowden cavalgavam na frente e a montada de Darnell ia presa à retaguarda do
carro. Deitei-me num dos beliches e tentei ver claro dentro de mim. Não conseguia compreender a atitude de Vance. Ter-me-ia dado um conselho de amigo ou - oxalá
me enganasse! - Quereria dizer-me, à sua maneira de vaqueiro, que continuava apaixonado por Kit?
Quando deixámos para trás a longa fila de cabanas e os edifícios de altas frontarias de madeira, comecei a procurar sentimentalmente a carruagem e a parelha
de fogosos cavalos pretos que, ao entrarem na minha vida de maneira tão inesperada, me haviam deixado, tinha a certeza, transformado. Não tardámos a entrar na Trilha
e, então, os meus olhos já só viam, acima do horizonte, a poeira e o fumo de Gotemburgo.
Nas melancólicas reflexões que fazia acerca de Kit Sunderlund, parecia-me existir um contraste flagrante entre o que acontecera e o que Shaw me contara.
Restava-me suficiente bom senso para compreender que o meu primeiro contacto com o Oeste me aguçara tremendamente a sensibilidade. As minhas reacções às circunstâncias
não podiam, por isso, ser normais, pelo menos até que os reveses, as privações e a catástrofe me transportassem das nuvens para a realidade. A minha obsessão romântica
era difícil de vencer.
Quis que falasse por si mesmo o facto de que decidira desistir de visitar Kit Sunderlund e me afastava da cidade. Mas era inútil tentar convencer-me que
não sofria. Nunca amara
tanto! Recordava frequentemente o que sentira quando ela saltara da carruagem para os meus braços, atirando-me ao chão, as sensações experimentadas no curto instante
em que o seu corpo estivera sobre o meu, e depois, quando me levantara
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e a levantara comigo, a maneira como se apoiara a mim, como
fitara os meus olhos com uma expressão de espanto e de alegre reconhecimento. Não compreendia nem podia esquecer aquele momento, assim como não esquecia que só ficara
amargurado depois de Shaw haver minado a ideia exaltada que dela fazia.
No entanto, no âmago do meu coração, existia uma espécie de
instinto, a crença rebelde que me dizia ser Shaw apenas um namorado repudiado e que, por isso, a sua opinião era desfavorável. Talvez houvesse agido com sensatez
ao desistir de ir visitá-la, mas essa decisão causava-me um desgosto profundo e a convicção de que o romance mal começado não terminara. Devo ter permanecido deitado
muito tempo, a emergir devagar da tristeza que me invadira e a reconciliar-me com a minha sorte.
A paragem do carro anunciou-me que chegáramos ao novo acampamento. Shaw e Lowden tiravam a sela aos cavalos, e eu aproximei-me para admirar de perto as maravilhosas
montadas. Fiquei impressionado. Olhavam-me com tanta inteligência e cepticismo como sE fossem seres humanos. O de Shaw era um alazão forte e de raça pura, que contrastava
vivamente com o de Lowden, um animal pequeno da planície, castanho mosqueado, mas tão robusto e musculoso que chegava a parecer grande.
- Não Lhe toques, amigo, pois tentará matar-te - avisou-me
Lowden.
- O quê, não são mansos? - admirei-me. - Não quero aprender
a montar um cavalo que seja bravo.
- Não te aconselho a aprenderes com o meu ou com o do Jack,
mas o Tom diz que o dele é manso.
- Se o cavalo do Tom é manso, amo-o! - observou Lowden, com
sarcasmo.
- De qualquer maneira acabarás por descobrir por ti próprio
- resmungou Shaw. - Quando passámos pelo Liligh e o seu grupo,
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umas milhas atrás, disse-nos que fôssemos ter com ele, a cavalo, para trabalharmos.
- Então passámos pelo extremo dos trabalhos de construção?
- Claro que passámos. Estão lá emperrados por qualquer
motivo. Wayne, não olhaste para o caminho, homem?
- Olhei, mas não vi nada.
- Vês aquele fumo lá em baixo, para os lados do rio? É a caravana do Sunderlund, estão ali acampados. Creio que não são mais de cinco milhas.
- Pelo que me diz respeito, cinco milhas ou mil são a mesma
coisa - repliquei secamente.
- O Tom ficará aqui, no acampamento, pois tem que fazer no carroção e nós levaremos qualquer coisa que trincar e iremos trabalhar. De agora em diante será
trabalho e inferno. a tal ponto que não distinguiremos um do outro.
Olhei para o fumo da caravana de Sunderlund e pensei que, para mim, não haveria trabalho que chegasse para fazer-me esquecer a dor e a ansiedade que me inundavam
o coração.
Naquela noite, estávamos sentados à roda da fogueira.
Creighton mandou-me chamar para registar, à minha maneira de
amador, uma mensagem de emergência que esperava do Este e que se relacionava com postes telegráficos e homens. E também com homens do mesmo país que guerreavam entre
si.
- Amigos - disse tristemente quando mais tarde, voltei -, a Guerra Civil alastra. Travam-se grandes batalhas e os tipos do Norte, como eu, matam tipos do
Sul, como vocês, e vice-versa.
Estabeleceu-se um silêncio pesado, quebrado apenas pelo
estalar da fogueira e pelo vento que agitava suavemente a relva.
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Foi Darnell quem o quebrou:
- Creio que nós, aqui, devíamos tomar partido uns contra os
outros e resolver o assunto.
- Boa ideia - concordou Lowden. - Pedro, de que lado ficarás? Quero ficar do mesmo lado que tu.
- Sei que para todos vocês devo ser Pedro, mas, agora, quero
ser Ruby.
- Que queres dizer com isso? - indagou Shaw.
- Quero dizer que sou do lado das mulheres, do lado que não
quer guerra.
Ao recordar um intervalo de dias e semanas de trabalho
imenso e dor insuportável, parece-me que decorreu uma eternidade desde o nosso primeiro acampamento à saída de Gotemburgo e o que fizemos perto de Ogallala. Esse
período ficou-me na memória apenas porque, no acampamento de Ogallala, Sunderlund passou com a filha no carro e parou a perguntar por mim. Eu, porém, vira-os vir
e afastara-me do acampamento, decidido a manter-me fiel à minha resolução de não a ver, pelo menos por enquanto. Mesmo à distância, no entanto, o seu rosto encantador
cavou mais fundo o meu desespero.
Trabalhara até ali de tal maneira, que o trabalho já não tinha para mim qualquer emoção ou agrado. Talvez me houvesse entregado a ele com excessiva ansiedade,
com cegueira, esquecido de que devia poupar energias e forças na medida do possível. Os homens de Creighton detestavam acima de tudo abrir buracos, pois, por estranho
que pareça, na maioria, as covas para os postes colocados naquela infindável extensão de milhas abri-as eu. Quando o dia de trabalho terminava havia sempre outras
tarefas que se prolongavam até cair exausto: Se fosse apenas o esticar do fio, o abrir dos buracos e o erguer dos postas, não teria sido um pesadelo tão grande,
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mas além do trabalho havia outros, demasiado numerosos para poder enumerá-los. A linha telegráfica tinha de avançar quase em linha recta, e a pradaria que, ao olhar
casual, parecia plana e sem obstáculos, provava ser, afinal, um desafio e uma armadilha. Era preciso atravessar depósitos aluvianos fundos e secos, e pântanos que
no tempo húmido não tinham fundo, vadear correntes impetuosas e, sempre, procurar lenha para a fogueira e encontrar postes telegráficos onde não existiam.
Como se o trabalho manual não bastasse, não se passava um
dia em que não me chamassem para tratar de um trabalhador ferido. Ao princípio orgulhava-me da confiança de Creighton em mim e do contentamento que afirmava sentir
por estar consigo, mas com o passar do tempo os cuidados médicos que de mim exigiam tornaram-se um pesado fardo. Cortes e esfoladuras
superficiais, queimaduras e escoriações, eram fáceis de tratar, mas começaram a surgir braços e pernas partidos, ferimentos provocados por balas - um dos quais total
- febre, disenteria e toda a espécie de doenças graves, o que representava tremenda responsabilidade para os meus limitados conhecimentos médicos. às vezes, apesar
de extenuado, a preocupação não me deixava dormir.
Mas servia-me sempre de Creighton como exemplo. Era infatigável, invencível, um verdadeiro condutor de homens. Se éramos forçados a parar num dia, redobrava
o trabalho no outro. No entanto era alegre, simpático, paciente, generoso, sempre chefe acima de tudo. Esforçava-me por emulá-lo, mas o insucesso desmoralizava-me
bastas vezes.
Um dia, ao sol-posto, tive uns minutos de repouso e sentei-me a recordar o acampamento em que vira pela última vez Kit Sunderlund. Embora as semanas parecessem
intermináveis, em virtude do trabalho e das provações, na realidade pouco tempo decorrera. Olhei as minhas roupas esfarrapadas:
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as botas cambadas, as calosas palmas e o roshado quase negro das costas das minhas mãos, apalpei o restolho que me crescia no queixo e não consegui lembrar-me da
última vez que me barbeara, passei as mãos pelas pernas, que se tinham tornado mais magras e duras como ferro, e maravilhei-me com as modificações que o trabalho,
a dor e as preocupações podem provocar num homem.
Não queria que o Oeste - com toda a sua beleza, a sua aridez, a sua grandiosidade crescente, as suas catástrofes e tudo quanto podia suceder durante um empreendimento
da envergadura daquele em que me achava envolvido - matasse em mim o desejo ardente e ansioso de fazer parte dele.
Olhei os meus camaradas, entregues às tarefas do acampamento, e envergonhei-me da minha passada indiferença, do desencorajamento e da exaustão que me haviam
afastado do entusiasmo e da lealdade do nosso primeiro enconttro. Não obstante a minha letargia, porém, haviam-se-me tornado cada vez mais queridos. Tudo isso me
convenceu, enquanto descansava na penumbra, de que tinha uma magnífica oportunidade de merecer a confiança de Creighton e alcançar a nobreza simples dos meus camaradas
do Oeste.
Acampáramos numa elevação de terreno sobre o rio, mais ou menos a meio caminho entre Ogallala e Julesburgo. Agosto chegava ao fim, o tempo estava quente
e seco e uma neblina avermelhada encobria o sol no ocaso.
A fragrância do toucinho, do café e dos biscoitos quentes
recordou-me vivamente que eram horas de jantar. Não estava ainda pronto, com certeza, pois não me tinham chamado. Era-me agradável e doce observar Ruby. Parecia
um rapaz e enganaria algum espectador desinteressado, mas aos meus olhos não escapava a feminilidade e o encanto que a envolviam como uma aura. Não podia passar
por Shaw sem demonstrar-Lhe de qualquer maneira o seu afecto e provar-lhe que o centro da sua nova vida era ele.
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Ao observála, forçoso me era desejar ardentemente que uma mulher me quisesse assim também. Mas como esse pensamento me recordava Kit Sunderlund, apressava-me
a afastá-lo.
Várias vezes no decorrer da última meia hora vira Shaw
deter-se no seu trabalho, levantar a cabeça com aquele gesto de falcão tão característico dele e olhar para o norte. No entanto parecia mais sentir do que ver qualquer
coisa. Havia fosse o que fosse que o atraía através das planícies, pormenor que Lowden também notou.
- Compincha, que é que te come? - perguntou-lhe.
- A mim nada me come, Jack, eu é que comia qualquer coisa.
Estou cheio de fome. Por que perguntas?
- Porque estou farto de te ver parar e olhar para lá do rio,
como costumavas fazer quando pressentias perigo para a manada, desconfiavas que andavam Comanches perto ou qualquer bagatela do género.
- Jack, velho compincha, o teu sentido do perigo parece
ter-se embotado aqui no norte. Se fosses tão arguto como costumavas, terias percebido que o que se passa diz respeito ao meu nariz.
Lowden, que se encontrava ajoelhado ao pé da fogueira a ver
se os biscoitos estavam cozidos, levantou-se devagar e inquiriu:
- Nariz? Demónio, que cheiras tu?
- Volta-te e fareja.
Lowden apressou-se a seguir o conselho, enquanto Darnell o observava cheio de interesse e Ruby parava, ansiosamente, ao lado de Shaw. Eu próprio me voltei
para norte, com curiosidade, e aspirei a brisa fresca que me bateu na cara, mas nada mais senti além da fragrância seca da pradaria, a que me habituara.
- Raios! - exclamou Lowden. - Fumo! Fumo, com a breca!
Cheira-te, Tom?
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- Não, camaradas, mas isso não quer dizer nada, o meu olfato
não é muito bom. Ficou assim desde que um cavalo me pisou.
- Esperava que me dissesses tratar-se de fogo proveniente de
alguma fogueira de acampamento, Jack - murmurou Vance.
- Lamento, mas não digo - respondeu-lhe apenas Jack, afastando-se na direcção do rio.
A minha curiosidade transformou-se em intenso interesse. Qualquer coisa corria mal, aqueles homens cheiravam fumo, e o fumo significava perigo. Apurei os
sentidos e pareceu-me que o vento aumentava quase imperceptivelmente e que, se na realidade não me cheirava também, embora pouquíssimo, a fumo, o imaginava.
Reuni-me a Lowden, na margem do rio, e pouco
depois Shaw juntou-se-nos. Ficámos silenciosos
durante um bocado, até que Ruby veio enfiar o braço no de Vance.
- O que é? - perguntou-Lhe, num murmúrio angustiado.
- Cheguei a ter esperança de que não precisaria de dizê-lo,
mas na última meia hora compreendi que era inevitável. Desde o começo da tarde que não me agradam o aspecto das nuvens e o peso do ar, que me parecia empurrado para
o sul. Só há meia hora notei o cheiro a fumo.
- Este fumo não é bom. - afirmou Jack. - Estamos no pior local, desde Ogallala - uma espécie de baixada de onze milhas rio abaixo, e Deus sabe quantas rio
acima. A erva e restolho são bastos e secos como isca. Não, não é nada bom!
- Rapazes, desembuchem! - pedi, assustado. - Que se passa?
- Fogo na pradaria! - exclamou Shaw. - E fogo que se apanhar vento norte a atiçá-lo será o inferno para nós. Receio que é isso mesmo que vai acontecer, mas
precisarei talvez,
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de mais meia hora para ter a certeza. Entretanto, o melhor é irmos comer.
Voltámos para junto da fogueira, que Jack alimentou com bocados de mato. Sentámo-nos no oleado, silenciosos e famintos. Comi de cara voltada para o norte
e com todas as faculdades alerta. Os coiotes tinham começado o seu alarido, mas a sinfonia de uivos e ladridos parecia mais pungente do que de costume. De súbito,
do outro lado do rio e não de muito longe, chegou até nós um latido agudo, de certo modo semelhante ao de um cão de caça, mas mais selvagem, um uivo longo, melancólico,
de gelar o sangue nas veias.
- Que foi aquilo? - perguntei, com a chávena do café na mão.
- Um lobo, meu amigo ianque, e posso dizer-te que nada
alegre - respondeu-me Shaw, muito sério.
Notei que o vaqueiro comia mais depressa do que de costume. E fFoi então que a brisa se tornou mais forte, se transformou
bruscamente num vento rijo, frio e implacável, que gemia por entre os salgueiros, abanava com fúria as abas de lona do carroção, atiçava o fogo e espalhava faúlhas
por toda a parte. Acompanhava-o um cheiro seco e penetrante de mato queimado. Shaw acabou de beber o café, levantou-se e mais uma vez se voltou para o norte.
- Camaradas, é inútil esperar contra toda a esperança -
afirmou, resoluto. - Jack e Tom, limpem isto e depois vão buscar os cavalos e os bois e atrelem-nos. Wayne, tu vens comigo informar o Creighton. Trata-se de fogo
na pradaria e de nortada, e nós estamos no caminho de ambos.
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VII
Estugámos o passo na escuridão, abotoámos os casacos e levantámos as golas. O vento norte estava frio. Seguimos a estrada durante um bocado, e depois ziguezagueámos
através das abertas da relva e dos arbustos até chegarmos ao acampamento dos trabalhos, naquela noite muito maior do que era costume: encontravam-se reunidos pelo
menos cem carroções e trezentos homens. Os grupos sentados em redor das fogueiras pareciam não suspeitar, sequer, do perigo que os ameaçava.
Creighton escrevia no seu carro, sob uma luz forte.
- Olá, rapazes - cumprimentou, quando o chamámos. - Subam. Mas Estás pálido, Cameron, e tu, Shaw, pareces prestes a puxar da arma.
- Quem me dera, patrão, que não acontecesse nada pior do que
ter de puxar da arma - replicou o vaqueiro -, Temos nortada em cima de nós.
- Sim, de facto começava a sentir um pouco de frio. Mas isso
não se pode dizer que seja má notícia, pois não?
- É que tem pela frente um fogo da pradaria, patrão.

- Hã?! Isso é diferente. De que proporções, Shaw?
- Não posso avaliar, patrão, mas mesmo na melhor das hipóteses será perigoso. Esta extensão ao longo do rio tem muita erva e mato e arderá como pólvora,
com a nortada a atiçar. Será um fogo danado, Mr. Creighton.
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- Vai ser uma novidade. De mais a mais com o Liligh ausente. - Não pode perder tempo a chamá-lo, temos de fazer qualquer
coisa já.
- Compreendo, Shaw, mas o quê? Fala.
- Antes de mais nada aconselho-o a recolher tudo, a atrelar todos os carros e a mandá-los para o leito do rio, que é muito largo neste local. A água corre
principalmente do lado norte e há línguas de areia que secaram e aguentarão os carroções. Já tive de fazer isto mesmo no Texas, quando conduzia levas de gado. Felizmente
que só temos a pequena manada de abate, pois seria impossível impedir uma fugida. Com os bois e os machos atrelados aos carros, talvez consigamos sustê-los. É uma
sorte que o espaço entre as margens do rio seja largo, de contrário, teríamos de abandonar tudo e de tentar apenas salvar a pele.
- O caso parece, de facto, sério - murmurou Creighton,
levantando-se e pegando no casaco. - Felizmente que tenho um homem das planícies como tu no pessoal. Podes calcular o tempo que o fogo levará a alcançar-nos?
- Ainda não. Mas o céu começa a pôr-se encarnado para as
bandas do norte. Acho que é conveniente andar depressa, sir.
- Isso basta, Shaw. Volta para o teu carro e transforma-o em
barco. Tu vens comigo, Cameron, para darmos as ordens aos homens. É pena o Liligh não estar.
Desci do carro atrás de Shaw e vi-o dirigir-se apressadamente para o rio. Creighton enfiou o casaco e ficámos imóveis durante um momento, a observar o estranho
clarão avermelhado que se avistava ao norte, agora quase a atingir o zénite. O vento tornara-se mais forte e mais frio e trazia consigo um cheiro acre, que me irritava
o nariz.
- Não podemos perder tempo, rapaz - disse-me Creighton.
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- Repete as ordens aos homens que estão lá em baixo, enquanto
eu me encarrego destes mais próximos.
Ouvi-o ainda gritar ao primeiro grupo reunido em redor de uma fogueira: um oficial do exército na iminência de sofrer um ataque inesperado não procederia
com maior vigor e autoridade. Banhado pela luz das chamas, com os cabelos agitados pelo vento e as labaredas reflectidas nos olhos parecia um homem nascido para
mandar e exigir obediência. Afastei-me a correr, parei junto do primeiro grupo que encontrei e gritei por meu turno:
- Ordens de Creighton! Fogo na pradaria! Os cocheiros devem
ir buscar os bois e as mulas e atrelá-los, enquanto os restantes arrumam tudo nos carros o mais depressa possível!

Ao afastar-me tive a satisfação de verificar que as minhas
palavras concisas produziam os necessários efeitos. Passado pouco tempo transmitira as ordens do chefe a todos os homens que se encontravam daquele lado do acampamento,
salientando que urgia proceder com rapidez. Em seguida parei, para tomar fôlego, e pusme a caminho do nosso carro, junto do rio.
Tom e Jack atrelavam os bois, os cavalos estavam presos ali
perto, selados e prontos, e Shaw encontrava-se na margem, a olhar para longe.
Fui ter com ele, informei-o de que transmitira as ordens do
patrão e perguntei-lhe se a situação piorara.
- Diabos me levem se tenho a certeza, Wayne! Mas estou assustado, palavra que estou! Se houvesse por aqui alguma elevação de terreno, montaria a cavalo e
iria até lá certificar-me, mas é tudo plano. Não te parece, no entanto, que o clarão se tornou mais brilhante?
- Sim, o encarnado é mais luminoso e está mais espalhado.
- Tenho a impressão de que as coisas pioram.

131
Vejo a tua cara com mais nitidez do que há pouco, e com um brilho vermelho. Olha para o rio. Vêem-se perfeitamente as línguas de areia, as poças e o grande lençol
de água, lá adiante. Temos de abater um pouco esta margem, pois é muito íngreme para o carro descer. Vai buscar pás e diz aos rapazes que venham ajudar-nos quando
tiverem acabado de atrelar.
Pouco depois cavávamos todos afanosamente, a fim de darmos

uma inclinação suave e segura à descida e facilitar a passagem do veículo. Darnell, de machado em punho, cortava os rebentos das árvores novas e os ramos mais saídos.
Obstinadamente, não me voltei para norte enquanto não terminei a tarefa que me competia. Só então olhei, com Ruby ao meu lado agarrada ao meu braço, e pela primeira
vez me senti invadir por um temor respeitoso. O céu cobria-se de um vermelho estranho, que parecia ter apagado todas as estrelas.
- Wayne, já assisti a um par de fogos da pradaria, mas
nenhum num lugar como este - disse-me a jovem -, É mau.
- Mas, Ruby, onde está o perigo? Aquelas línguas de areia estão a trinta metros deste lado e a noventa do outro, o fogo não pode alcançar-nos ali.
- Oh, não compreendes! - exclamou. - O vento arrastará o fogo e as chamas alterosas atingirão enormes alturas. isto se a ventania for forte. Mas não
é belo? O céu avermelhado
reflecte-se na água, as próprias línguas de areia estão encarnadas. Olha aquela fila de salgueiros, além. Brilham como se já ardessem! E mais além, a linha negra
e irregular do horizonte com aquela cor viva atrás de si! Wayne, o vento escalda-me as faces. começo a ter medo.
- Podes estar muito assustada, mas o medo não te impede de
ser poética - respondi-lhe.
132
- Aí vêm os rapazes com o carroção e os cavalos, saiamos do
caminho. Anda, Ruby, se encontrarmos poças de água ou de lama, transportar-te-ei.
Mas, escolhendo com cuidado o caminho, chegámos à língua de
areia sem incidentes. Constava de uma extensão de quase meio acre de areia e cascalho comprimidos, em cuja orla a água corria. Pareceu-me que tivéramos sorte e perguntei
a mim próprio o que se passaria com os outros carros. Depois voltei-me para ver como se arranjavam os meus camaradas.
Shaw vinha à frente, montado no seu cavalo e a puxar os
outros dois. Ouvi-o dar instruções a Darnell, que conduzia os bois, e vi que Lowden os acompanhava a pé. Ao chegarem ao fim da descida a parelha enterrou-se até
aos joelhos, mas isso não atrapalhou os robustos animais, que continuaram a abrir caminho mesmo assim. Quando, porém, o pesado veículo chegou à zona de areia solta,
as rodas afundaram-se até aos eixos e deixáram de rodar.
- Jack, monta a cavalo e desenrola o laço! - ordenou Shaw. -
Temos de ajudar a arrancar o carro daquele buraco.
Observei então, com interesse, como os vaqueiros prendiam os laços ao veículo e ajudavam os bois a tirá-lo daquele lugar. Conseguiram-no por fim, à custa
de tremendos esforços, e em breve, carro, provisões e animais se encontravam connosco, em segurança, na língua de areia sólida.
Shaw desmontou e, com a ajuda de Jack, prendeu os cavalos às rodas do carroção. O primeiro observou que estaríamos bem ali,
a não ser que houvesse um ciclone. Já não era, no entanto, tão
optimista acerca dos outros carros, opinião que Lowden compartilhava. Víamos ainda as fogueiras arderem no acampamento grande, onde ia enorme actividade, mas, ao
que parecia, nenhum veículo começara a dirigir-se para o rio.
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- Se não se despacham, vai haver sarilho com alguém observou Shaw.
- Nós temos o melhor local destas proximidades - afirmou
Jack. - Ainda cá cabiam mais dois ou três carros.
Que dizes, compincha?
- Está bem, vai depressa dizer a Mr. Creighton que traga
para aqui o seu e mais dois, um dos quais deve ser o dos mantimentos.
Lowden não perdeu tempo e não tardou a desaparecer, a caminho de terra. Shaw observou então que ia acender uma fogueira, pois apesar de irmos, talvez, sentir
calor de rachar, por enquanto o frio cortava. Mandou-me pegar numa pá e levantar uma parede de areia atrás do único maciço de salgueiros que havia na pequena ilha,
enquanto ele e Tom iam a terra procurar lenha.
Ruby desceu do banco do carro e foi para junto de mim, sentindo-se provavelmente solitária e assustada. A sua cara bonita, manchada de escuro graças às artes
de Shaw, cada vez brilhava mais. O fogo não devia estar muito longe.
- Wayne - murmurou timidamente -, lembrei-me agora de que,
outro dia, na Trilha, te vi sair do acampamento quando o Sunderlund e a filha chegaram. O Vance também viu. Por que o fizeste?
- Bem, Ruby, não é uma longa história.
- Nunca pensei que pudesses ter medo de qualquer rapariga -
disse baixinho, como se falasse consigo. própria.
Contei-lhe então francamente como vira Kit Sunderlund pela primeira vez, que pensara tratar-se de amor à primeira vista, que essa desconfiança se confirmara
no dia em que a salvara e que me sentira no sétimo céu até Vance me arrastar para terra com as coisas que me dissera.
- Mas, Wayne, ele é um vaqueiro! - protestou. - Será um príncipe, o melhor rapaz do mundo, mas não deixa de ser um vaqueiro, e os vaqueiros não percebem
nada de raparigas.
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Disse-me que estivera apaixonado pela Kít e que sabia não ter a mínima possibilidade de sorte com ela.
- Ruby, és uma jóia de pequena por me falares assim afirmei, comovido -, sabendo que o Vance andou doido por ela. Não tens ciúmes, mas desconfio que o Vance
os teve de mim.
- Não acredito, Wayne. Mesmo que a amasse mais do que a mim,
é demasiado nobre para isso. Preferiria morrer a demonstrar zelos - afirmou, com convicção.
- Confesso que seria agradável encontrar uma brecha no carácter cheio de virtudes desse vaqueiro. Bem, gostaria de saber o que teria acontecido se naquela
noite não faltasse ao encontro com Kit Sunderlund. e daria muito para adivinhar como procederei se alguma vez voltar a encontrá-la.
- O mais certo é encontrares, Wayne, a caravana não pode
estar muito à nossa frente.
Os vaqueiros voltaram, cada um com um braçado de lenha com a
qual Shaw acendeu a fogueira. Apesar do quebra-vento de areia, as chamas ergueram-se, altas, e voaram faúlhas por todos os lados. Com a conversa nem me apercebera
de que tinha as mãos quase dormentes de frio. O calor da fogueira soube-me por isso bem. Aprendia que no estéril Leste as pessoas ignoravam o que era sentir fome,
exaustão e frio, para não falar em medo.
- Tom, pega num balde e enche-o de água, antes que fique
toda suja - ordenou Shaw. - Wayne, vai também buscar sacos de lona.
Enquanto enchíamos os recipientes, verifiquei pela reflexão do céu na água que estava quase tão claro como se fosse dia, embora a luz se apresentasse avermelhada.
Shaw endireitou-se, com um balde na mão, olhou atentamente para as bandas do norte e depois voltou o ouvido para o vento.
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- Está muito mais claro - murmurou -, e tenho o nariz entupido. Ainda não ouço nada, mas o vento sopra forte e se aumenta de intensidade temos o fogo em
cima de nós em menos de um ai! Quem me dera que Creighton e os outros comecem a deixar o campo! Nota o que eu digo, Tom: se não se despacham perderão
alguma coisa.
Voltámos para o carro e cobrimos cuidadosamente os baldes. A ventania era agora tão forte, que tínhamos de gritar para nos ouvirmos uns aos outros. Pouco
depois, um estalar de mato na margem e o grito de um cocheiro aos bois indicou-nos que se aproximava um carro. Chegou finalmente à ladeira e, com a ajuda de Lowden,
alcançou a nossa ilha e instalou-se na ponta inferior. O homem conduziu a parelha até a água lhes chegar aos joelhos.
A partir desse momento, gritos de outros homens e estalar de
arbustos atestaram que mais carros se aproximavam do rio. Vimos um a cerca de quinze jardas de nós, do lado de baixo, ter dificuldades para não se enterrar na areia.
Do lado de cima, carro após carro entrava no rio, ficando uns na água e outros, mais afortunados, em línguas de areia.
Tínhamos claridade suficiente para vermos tudo distintamente, mas o clarão vermelho dava às coisas um aspecto estranho e irreal. Aproximou-se outro carroção,
que ocupou a parte superior da nossa ilha.
Quando voltei de novo o olhar para o norte, não consegui
desviá-lo do espectáculo que se me oferecia.
A paisagem modificava-se. O céu adquirira a cor das chamas,
o que significava a aproximação do incêndio que o temporal
ateava. Acima do rugir do vento, o estalar do mato, o amontoar dos bois na margem, o gemer das rodas, o chiar dos carros e as vozes roucas e excitadas dos homens
demonstravam que era difícil entrar no rio o necessário para ficarem em segurança.
- Vento a cerca de quarenta milhas - gritou Shaw.
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Não se pode dizer que seja muito, mas para nós é demais. O pior é que se torna cada vez mais forte. E se está frio, meu Deus!
Rubi parecia fascinada pela proximidade da tragédia. Agarrava-se ao meu braço, de olhos fixos, a chorar, a chorar. Pouco depois, em toda a extensão onde
o negro do horizonte se fundia com o escarlate do céu, ergueram-se nuvens de fumo que arrancaram gritos das gargantas dos vaqueiros. A rapidez com

que subiam espantava-me e dava uma ideia da força do vento. Em poucos momentos um quarto do céu vermelho ficou oculto
pelas nuvens, que cresciam como cogumelos gigantescos, maravilhosamente belas nas suas cores de amarelo, negro e branco. A todo o instante esperava ver as labaredas
irromperem.
Na base dessas nuvens surgiu uma linha brilhante, que se
intensificou, e Jack, que se empoleirara em cima do nosso carro, soltou um grito prenunciador de alguma coisa terrível que os meus olhos ainda não viam.
- Já vejo, Vance! - exclamou. - Vai ser o diabo, amigo!
Creio que, se não nos metemos à água, estamos prontos!
- Não! - gritou Shaw, voltado para norte, com o rosto magro
e sério de um vermelho luminoso. - Apanharemos um escaldão e
ver-nos-emos doidos com o gado, mas aqui as nossas vidas estarão salvas.
Tom trepou para a grande roda ao lado do banco do cocheiro e, agarrado ao arco da lona, soltou várias exclamações de espanto, se não de medo. E eu que supunha
não haver nada que metesse medo aos vaqueiros! Tinha a pele toda arrepiada e o peito oprimido por uma comoção com que aprendera a familiarizar-me na fronteira.
- Thoopee! - berrou Lowden, do topo do carro.
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Um instante depois, como por magia, vi em toda a línha do
horizonte erguerem-se as pontas arqueadas das chamas, num espectáculo que tinha qualquer coisa de sobrenatural. Os saltos constantes das labaredas demonstravam a
força implacável do vento e do fogo. Tão depressa os olhos as divisavam pela primeira vez, erguiam-se muito acima. do solo, num jorro de luz infernal. Só então compreendi
o que significava um incêndio na pradaria.
Era uma monstruosa parede ígnea, de chamas que avançavam a velocidade furiosa e incrível, constantemente atiçadas pelo soprar do vento. Maravilhosa e inacreditável
era a maneira como o fumo jorrava para o céu, se transformava em nuvens que cresciam e formavam uma imensa cortina de infinitas tonalidades, um dossel que subia
e avançava para nós com terrífica celeridade.
Shaw reuniu-se-nos e gritou, com voz vibrante:
- Não tarda que esteja em cima de nós! Ouçam-me aquele
rugido!
Apercebi-me, de facto, de um som abafado e estranho, que crescia de volume enquanto o escutava. Nunca ouvira nada que se lhe assemelhasse. A parede de fogo,
coroada pelas línguas vermelhas e irrequietas das labaredas, não estava a mais de meia milha de nós e aproximava-se vertiginosamente. Naquele
momento as chamas encontravam-se à altura do meu campo visual, embora aqui e ali irrom pessem de súbito em saltos feéricos. O mato mais espesso e mais grosso e a
erva que ladeava o rio aumentariam, sem dúvida, o alcance das labaredas.
Agora, sob a intensa luz que tudo banhava, a margem oposta parecia mais próxima, e o perigo residia, para nós, na possibilidade de as flamas nos alcançarem
e envolverem, caso em que estaríamos perdidos. Mesmo que mergulhássemos nas águas o calor ser-nos-ia fatal. Tinha esperança, no entanto,
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de que as labaredas não se aproximassem a ponto de tornar
insustentável a nossa posição.
Distinguia já pequenos bocados de madeira incandescente e milhões de centelhas a voarem baixo, diante do vento, os quais certamente atravessariam o rio e
pegariam fogo ao mato da outra margem. A parede de fogo, as labaredas bifurcadas e o crescente rugir aproximavam-se implacavelmente e mantinham-nos como que fascinados
e emudecidos.
Sentia as mãos pequenas de Ruby apertarem-me o braço como
tiras de aço. O espectáculo atingira o máximo da sua grandiosidade apavorante quando o fogo se ateou na erva espessa e no restolho da beira-rio. Ouviu-se uma tremenda
explosão e imensos jorros de fumo, faúlhas e chamas subiram no ar, de mistura com um rugido sibilante e avassalador, como jamais imaginara possível. Vi bandos de
pássaros em voo desordenado e centenas de coelhos americanos e de outros animais, alguns deles coiotes e antílopes, fugirem como fantasmas no meio da claridade sobrenatural,
saltarem a margem e desaparecerem. Reparei que alguns antílopes nadavam na
extensão avermelhada do rio.
Era uma magnífica, diabólica e estarrecedora tempestade de
fogo que ocultava por completo a terra e chegava a meio do rio. O fumo envolvia-nos já e ocultava uma torrente de lascas de madeiras incandescentes que voavam nas
asas do vento. à nossa roda caíam brasas tão grandes como as minhas mãos. Os bois agitavam-se sob as cangas e os vaqueiros esforçavam-se por acalmar os cavalos assustados,
que tinham sido protegidos com cobertores e oleados.
A vaga de calor alcançou-nos, por fim, como se nos ressequisse. Ruby caiu de joelhos diante do carro e eu, com as pupilas a arder, esforcei-me por olhar
um pouco mais, para ver o espectáculo pavoroso do fogo chegar à beira de água e ficar
obscurecido por nuvens de poeira e de fumo. Tapei a cara em brasa com o lenço e ajoelhei-me,
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aterrorizado, mas sem deixar de ouvir o frenético rugir da nortada e do incêndio.
Medidos pela minha angústia e pelo meu terror, os momentos culminantes da tragédia pareceram-me infinitamente longos e torturantes. A pouco e pouco, porém,
o ruído diminuiu, atravessou o vazio que havia entre nós e a margem e aumentou de intensidade pelas nossas costas. Compreendia que o vento que trouxera o fogo o
levava agora para longe de nós.
Ouvi de novo os homens gritarem. Abri os olhos, des tapei o rosto e mais uma vez prestei atenção ao que me rodeava. O pavoroso rugido afastava-se, o que
predominava agora na ilha era obscuridade e fumo. Tornara-se difícil respirar e na margem mais próxima os salgueiros mostravam ainda os ramos estendidos, em brasa.
Aqui e ali, no chão, ardiam pequenas fogueiras. A onda devastadora passara, deixando atrás de si pouco que servisse de pasto às chamas.
Rio acima e rio abaixo os homens afadigavam-se e gritavam, roucos, atiravam água para os carros que ardiam, esforçavam-se por segurar os bois enlouquecidos,
deitavam ao rio objectos ou postes telegráficos incandescentes.
Shaw, que trabalhava desenfreadamente, gritou-me que acordasse e apagasse o fogo que consumia o topo da lona do nosso carro. Agarrei num balde, corri para
a água, e vi Lowden agarrado aos bois, que não tinham escapado à loucura geral.

- Atira água para cima deles, compincha! - gritou-me.
Fiz-lhe a vontade, com a rapidez de que fui capaz, e os animais aquietaram-se ao apagarem-se as brasas que lhes queimavam o dorso. Enchi de novo o balde
e corri para o

veículo, em cima do qual Darnell apagava à pancada os pontos que ardiam.
- Aqui! - gritou-me. - Deita alguma aqui. Não te importes
comigo, também preciso. Devo estar transformado em cinza! Despeja aqui e corre, vai buscar mais.
Shaw, que lograra tranquilizar o seu cavalo, pegou noutro balde e ajudou-me, enquanto Jack continuava agarrado aos bois. Depressa apagámos os focos de incêndio
do interior e à volta do carroção, e depois tomámos fôlego e observámos o que se passava nas proximidades. Corremos em auxílio do cocheiro do carro abaixo do nosso,
que gritava desesperadamente por socorro.
O par de horas que se seguiu foi um autêntico pesadelo. Numa
extensão de duzentos metros rio acima, os veículos estavam em muito mau estado, com grande parte das lonas totalmente queimadas e o conteúdo avariado. Tinham ficado
na margem muitos carregamentos de postes telegráficos, que haviam pegado fogo. Creighton bramia, inconsolável, e esforçava-se por pôr os homens a trabalhar em todos
os lados ao mesmo tempo, a fim de extinguirem os focos de incêndio. Parecia não se importar com os carroções inutilizados, mas mostrava-se agradecido sempre que
conseguía mos salvar-lhe alguns dos preciosos postes.
à meia-noite apagáramos todos os fogos e tínhamos os cavalos
e os carros a salvo, na praia. Deixámos o nosso na
ilhotazinha, mas desatrelámos os bois e tirámo-Lhes as pesadas cangas. Ruby não deixara apagar a fogueira que acendêramos ao princípio, e admirei-me de que, depois
do calor de fornalha que nos torrara, me soubesse bem aproximar-me dela. Sentei-me a aquecer as mãos dormentes e mais admirado fiquei ao ver Ruby
rir-se de mim:
- Estás bonito! Roupa rota, as mãos e a cara mascarradas.
Oh, fazes um vistão! Wayne, podes tratar-me das queimaduras das costas?
- Claro que posso, Ruby. Mas deixa-me primeiro tomar fôlego
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e lavar as mãos. Aposto que não és a única com queimaduras
para tratar.
O vento forte arrastara o fumo e só em poucos lugares se viam ainda algumas brasas quase extintas. Era de novo noite, as estrelas tinham voltado a brilhar
e a nortada, embora continuasse a soprar, tornara-se menos violenta. O espectáculo belo e apavorante de pouco antes parecia ter sido um pesadelo, mas as minhas próprias
queimaduras demonstravam-me que fora um facto.
Tratei de Ruby à luz da fogueira, o melhor que me foi possível. Tinha uma queimadura grande no meio das costas, que na minha opinião deixaria uma cicatriz.
Pus-Lhe óleo e salva e liguei-a com tiras de linho macio.
- Tens umas costas maravilhosas, brancas e macias como
veludo, mas creio que vão ficar marcadas.
- Bem me importo! Nunca mais voltarei a exibi-las nuas, acabei de vez com o negócio do baile. Muito obrigada, Dr. Wayne, pelos seus amáveis serviços, mas
deixe-me dizer-lhe que por nada queria que me consertasse as pernas se as partisse!

- Grande ingrata! Sempre gostaria de saber porquê!
- Porquê? Porque não és nada delicado, aí tens!

- Deves ter razão - aquiesci, pesaroso - mas as minhas
próprias mãos estão queimadas e por isso custa-me mexê-las bem, Para não falar no cansaço.
Estava escrito, porém, que não haveria descanso para os
fatigados. Quase todos tinham queimaduras e pequenos

ferimentos que precisavam de ser cuidados e apareceram a reclamar os meus serviços, um a um. Ruby deitou-se, mas os rapazes ficaram a pé e ajudaram-me o mais que
puderam, sobretudo mantendo a fogueira acesa, para eu ter luz e não gelarmos.
O carro de Creighton não escapara ileso e precisava de vários remendos na tela, e o próprio chefe tinha uma perna muito queimada.
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Na sue ansiedade para salvar os preciosos postes telegráficos, caíra sobre um carvão em brasa e queimara-se com gravidade abaixo do joelho. Enquanto o tratava não
deixavam de aparecer homens a dar-lhe notícias, e quando acabei o penso e lhe fiz uma observação acerca da catástrofe limitou-se a sorrir e a dizer:
- Apenas um incidente nos trabalhos de montagem da Western
Union, meu rapaz. Tu, porém, foste de grande utilidade.
Shaw acompanhou-me de carroção em carroção, e tantos eram os homens feridos que rompia já a madrugada quando regressámos ao nosso acampamento.
- Camarada, é melhor tentarmos dormir um bocado, pois tão certo como estarmos aqui o Creighton querer-nos-á a trabalhar ao nascer do sol, como se nada acontecesse.
Apesar das dores que me atormentavam, a extrema fadiga ajudou-me a adormecer imediatamente e o sol nascera havia muito quando acordei. Os rapazes cozinhavam
o pequeno-almoço. A paisagem enegrecida e nua que nos rodeava por todos os lados
encheu-me de espanto. O espectáculo desvaneceu-me definitivamente a sensação de que se tratara tudo de pesadelo. No entanto, estávamos alegres.
- Acredita, querida, que não foi mau teres-te relacionado
com o fogo - disse Shaw a Ruby, com o seu humor frio. - Para onde irás, um dia, será sempre como a noite passada.
- Referes-te ao inferno, vaqueiro sem coração? - replicou a
jovem. - Pois fica sabendo que não me faltará companhia. Tu e os teus compinchas, com excepção talvez do Wayne, estarão comigo e tentarão conservar-se frescos.
- Não creio que o Wayne se salve - volveu Shaw, com uma careta. - Segundo todos os indícios, está destinado ao inferno como todos nós.
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- Se queres que te diga - interveio Lowden - teremos todos o
nosso inferno aqui e, depois, o céu por recompensa.
Dirigi-me ao novo acampamento, a fim de pedir a Creighton
ordens, mas encontrei-o atarefadíssimo e deduzi pelo estado dos carros e dos bois que seria impossível recomeçar o trabalho de construção naquele dia. Liligh não
aparecera e ignorava-se por isso o que lhe acontecera e aos seus homens. Tudo indicava que os fios e os postes já montados no caminho do fogo haviam sido destruídos.
Ao regressar falei com Herb Lane, o qual foi de parecer que o patrão formaria uma caravana com todos os carros e homens em
bom estado e os mandaria reparar a linha.
Preparava-me para mudar de roupa, pois a que vestia estava em frangalhos, quando um mensageiro veio ordenar-me que me apresentasse imediatamente no carro
de Creighton, com a caixa dos socorros.
- Aposto dez contra um em como vais ter de tratar de Liligh
e dos seus homens - garantiu-me Shaw, com secura. - Tenho
também o pressentimento de que a caravana do Sunderlund precisará de ti, pois viajavam sem médico. Se os carros deles estavam no caminho do fogo, devem encontrar-se
em estado lastimoso...
- Vance, parece-me que não chegarei para tanto - repliquei,
pensativo. - Claro que irei se Creighton mo ordenar, mas não me falta aqui que fazer.
Ruby aconselhou-me, maliciosa:
- Wayne, faz-te esperto e finta a rapariga dos olhos cor de
violeta!
Corri pelo chão enegrecido para o novo acampamento de Creighton e, antes de chegar ao carroção do chefe, vi uma carruagem de rodas altas e uma parelha de
fogosos cavalos negros que facilmente reconheci.
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Shaw não se enganara. Encontrei Creighton a falar com o cocheiro da carruagem, o qual estava ainda sentado no seu lugar.
- Cãmeron, veio um pedido urgente de auxílio da caravana de
Sunderlund. Alguns homens sofreram queimaduras graves e sobretudo a filha do meu amigo precisa dos seus serviços. Vá e faça o que puder por eles. Este mensageiro
encontrou Liligh no caminho e verificou que ele e os homens não sofreram muito com o fogo. Quando voltar procure-o e depois dê-me notícias.
Aquiesci em poucas palavras, subi para a carruagem e pus a maleta debaixo do banco. Encontrava-me dividido entre o desgosto e irreprimível excitação.
Miss Kit Sunderlund está ferida e chamaram-me para tratá-la
- pensei para comigo.
Partimos. A parelha de cavalos pretos parecia disposta a
vencer as milhas velozmente.
- Tivemos uma noite má, por aqui. - observei, para abrir
conversa. - Como se aguentou a caravana de Sunderlund?
- Passámos o pior bocado desde que partimos do Texas respondeu-me o cocheiro, que era um jovem robusto com mais características de cocheiro do que de vaqueiro.
- O nosso acampamento erguia-se dez milhas a jusante do rio, a contar daqui, e alguns dos carros encontravam-se em má posição, mas a maioria estava em terreno nu.
O vento soprava com fúria e o fogo metia medo, mas a relva e o restolho eram pouco bastos. De contrário não teríamos escapado vivos.
- Não foram para o rio com os carros, como nós?
- Alguns homens assim fizeram e saíram-se bem, apenas com
algumas lonas queimadas. Os carros que ficaram no mato e encalhados na areia é que sofreram mais.
- E os cavalos de Sunderlund e a grande manada de gado?
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- O gado fugiu como o demónio e desapareceu, e foi preciso
um homem para aguentar cada cavalo. Esta manhã partiram cinquenta cavaleiros para rodear as reses, embora tenha poucas esperanças de que o consigam. Antes de o fogo
chegar ao rio, um dos nossos batedores anunciou que um grupo de índios Cheyennes, segundo julgava - andava perto do acampamento. Estamos quase na área deles e hoje
em dia os Cheyennes mostram-se hostis com os brancos.
- Cheyennes! - exclamei. - Como se já não tivéssemos
complicações suficientes!
- É verdade. Ouvi o Sunderlund dizer que estava satis feito
por o gado ter fugido. de contrário teria morrido todo queimado. Temos uma boa quantidade de tipos entendidos em gado na caravana e se a manada não se afastou muito
talvez consigam reuni-la.
- São muito graves os ferimentos de Miss Sunderlund? atrevi-me finalmente a perguntar, embora o desejasse desde que partíramos.
- Não sei, doutor. Estava no carroção - tem um carroção só
dela, todo arranj ado convenientemente -, deitada e acompanhada pela criada. Mas Sunderlund deu-me pressa.
Remeti-me a um silêncio meditativo e preocupado. Desejava
sinceramente que a rapariga não tivesse mais do que queimaduras superficiais. A cerca de cinco milhas do nosso acampamento vi os cárros de Liligh e os seus homens
a trabalhar. Lembrei-me de que a sua missão consistiria em trabalhar à nossa frente, esticando fio e abrindo buracos. Os homens viram-nos passar e Liligh acenou-me.
Daquele ponto em diante a devastação causada pelo incêndio começou a diminuir.
Depois de corrermos algumas milhas mais, distingui uma longa
fila de carroções cobertos de branco e boa quantidade de bois na planície, a pastarem, embora não me parecesse que o pasto abundasse.
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Pouco depois encontrava-me na presença de Mr. Sunderlund e
de vários dos seus sócios, que já conhecia.
Não me restaram dúvidas acerca do bom acolhimento que me dispensaram. Sunderlund deu-me um aperto de mão e informou-se conscienciosamente de como resistira
a caravana de Creighton. Depois de o pôr ao corrente do que sofrêramos, declarou-me que a sua gente não sofrera ferimentos graves, mas que perdera
mantimentos, alguns carros e todo o seu gado.
- E Miss Sunderlund? - indaguei. - Como está ela?
- Venha comigo ao seu carro. Kitty tem um pé muito queimado. Depois de o fogo nos ter ultrapassado, andou por aí às escuras a tentar ajudar e entalou
o pé entre uns ramos que ainda
estavam em brasa. Não conseguiu tirá-lo logo e só passados momentos ouvimos os seus gritos e pudemos ajudá-la. Ficar-lhe-ei muito grato se a tratar, Cameron.
O carro junto do qual me conduziu não era tão grande como o
seu, mas mais pretensioso, mais bem tratado. Percebi imediatamente que o cocheiro não mentira acerca da casa de rodas de Miss Sunderlund. Subia-se para a entrada
tapada com cortinas por um plano inclinado, e uma criada negra, forte, apressou-se a responder ao chamamento de Mr. Sunderlund. Este mandou-me subir, agradeceu e
afastou-se.
O carro tinha vários compartimentos. No do centro, confortavelmente, para não dizer luxuosamente, mobilado, encontrava-se Kit, metida na cama e com a cabeça
apoiada em almofadas. Da cobertura leve emergia um pé desajeitadamente ligado. O seu rosto, que eu recordava bronzeado, estava pálido, e nos seus olhos cor de violeta
havia uma expressão de dor. Envergava uma vestimenta branca qualquér,
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com mangas até aos cotovelos, e o seu aspecto fez com que o coração me batesse mais depressa.
- Bonsdias, Miss Sunderlund! - cumprimentei-a alegremente,
depositando a maleta numa cómoda. - Espero que não esteja muito queimada.
- Tenho muitas dores, mas quero que compreenda que não fui eu que o chamei - e o tom de irritação e de altivez da sua voz surpreendeu-me e magoou-me.
- Deve saber que foi seu pai que me pediu que a tratasse -
respondi-lhe. - Não sou médico, mas tentarei ajudá-la.
- Obrigada. Claro que foi amável em vir. Só queria que soubesse que não o chamei. Marta, abre as cortinas para entrar mais luz, e fica perto pois o doutor
pode precisar de ti.
- Só precisarei de uma panela de água quente.
Depois, sem olhar para a rapariga, abri a maleta e tirei as ligaduras e os remédios necessários. Puxei um banco estofado e murmurei, no tom mais profissional
que me foi possível arranjar:
- Agora tratarei desse pé.
Kit Sunderlund puxou um pouco mais para cima a coberta, expondo o pé direito e o tornozelo bonito. Foi-me impossível não a olhar e por isso não me passou
despercebida a expressão de dúvida e de desdém dos seus olhos cor de violeta. Não seria humano se não me sentisse magoado, mas comecei a trabalhar calmamente.
Tirei a ligadura, o que provocou alguns protestos exagerados, e verifiquei que a queimadura era no dorso do pé, superficial e sem gravidade, mas com certeza
muito dolorosa. Tinham-se pegado à carne viva fios da ligadura, os quais fui obrigado a extrair cuidadosamente, com água quente, tarefa impossível de realizar sem
a magoar. A certa altura perguntou-me, com falso ar de doçura:

- Em Harvard estudou Medicina boa para os cavalos? Ignorei o comentário, mas por momentos esqueci-me de
trabalhar com delicadeza, o que de resto era difícil, devido ao estado em que tinha as mãos.
- Está a magoar-me! - gritou. - Bruto! Para que demora tanto
tempo? Vai ficar aí todo o dia?
- Miss Sunderlund, avisei-a de que não era médico repliquei com a dignidade que me foi possível. - Estou a trabalhar o mais delicada e rapidamente que posso.
Aliás não desejo prolongar a operação. Tem um bonito pé e um tornozelo bem feito, faz uma bonita figura no seu boudoir sobre rodas, mas francamente isso não significa
nada para mim. Tive tanta vontade de vir como você de chamar-me.
- Não pode despachar-se e pôr-se a andar daqui para fora? -
gritou, muito corada.
- Despachar-me-ei se estiver quieta e deixar de fazer comentários desnecessários acerca do meu trabalho.
- Mas está a magoar-me!
- Claro que estou a magoá-la, a queimadura é grande. Durante um mês não poderá calçar sapato nem bota neste pé - declarei, com certo exagero. - É uma criança
incapaz de suportar uma dor?
- Mr. Cameron, é tão rude e grosseiro de palavras como de
aspecto e acções!
- Que esperava, rapariga? - perguntei-lhe furioso. - Lutei
com o fogo até à meia-noite e tratei de feridas até de madrugada.
- Muito nobre da sua parte, Mr. Cameron, mas não me parece
que esteja a ajudar-me muito - replicou, sarcástica.
- Oh, cale-se! - ordenei, de cabeça perdida. - Começo a
acreditar no que ouvi a seu respeito.
A afirmação pareceu atrapalhá-la um pouco.
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Untei o ferimento, liguei-o Convenientemente, voltei-me para a cómoda e comecei a guardar as minhas coisas, ao mesmo tempo que recomendava, em tom natural:
- Pronto, daqui a bocado sentirá menos dores. Aconselho-a a
não tirar a ligadura durante um ou dois dias e a não andar sobre o pé.
- Meu pai pagar-lhe-á o incómodo e o tempo que perdeu, Mr.
Cameron.
A observação fez-me rir. Não havia dúvida de que a rapariga estava furiosa comigo o que me parecia muito pouco razoável. Felizmente o rubor que sentia na
cara impediu-me de olhá-la, coisa que ansiava por fazer, e portanto não me deixei trair. Demorei-me propositadamente a arrumar as coisas e depois entreguei a panela
da água quente à criada.
- Por que não cumpriu o compromisso que tomou comigo, no dia
em que nos conhecemos? - indagou, num tom que transformava a pergunta num desafio.
- Por que lhe parece que foi, Miss Sunderlund?
Desta vez olhei-a. As rosetas tinham-lhe abandonado as faces, que estavam de novo pálidas, e havia nos seus olhos brilhantes um fulgor de luta. Senti curiosidade
pelo que me parecia um exagero da sua parte, pois dava importância demasiada ao incidente, e pensei que, afinal, talvez tivesse desejado tanto ver-me a mim como
eu desejara vê-la a ela.

- Nunca na minha vida tive maior vontade de cumprir um
compromisso tomado com uma rapariga - afirmei.
- E como julga que o senti? - indagou, desdenhosa.
- Não sei o que sentiu, mas imaginei-o. Ouso afirmar que o encontro romântico daquele dia não passou de um incidente na

sua vida, mas para mim teve tremendo significado. Quando a vi pela primeira vez no banco do carroção fiquei profundamente impressionado e incapaz de esquecê-la,
comecei a esperar
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e a crer que ainda nos encontraríamos outra vez. E a má sorte
quis que assim fosse! Ao saltar para os meus braços em Gotemburgo e ao atirar-me para a poeira do caminho, compreendi que me apaixonara por si à primeira vista!
- E demonstrou-o muito bem - replicou, trocista. - Mas ignorou a oportunidade que lhe ofereci e agora fala como se não passasse de um vaqueiro.
- Bem, se aprendi a pensar e a falar como um vaqueiro,
confesso que me sinto orgulhoso.
- Que Lhe disse Vance Shaw a meu respeito? - perguntou-me, sentando-se na cama e deixando a coberta revelar um pouco mais da sua beleza, o que teve o condão
de aumentar a minha perturbação.
- Disse-me muitas coisas.
- Faço ideia, por isso escusa de rebaixar-se a repeti-las.
Se soubesse o que são vaqueiros compreenderia como uma rapariga tem de proteger-se.
- O facto de os vaqueiros serem volúveis, ou pior, não justifica que brinque com os seus sentimentos. Shaw disse-me que fazia com que a amassem, mas sem
a mínima intenção de corresponder-lhes.
- É verdade, Mr. Cameron. Gostava de todos os vaqueiros. Mas
sempre esperei vir um dia a conhecer um, ou qualquer outro jovem, que me fizesse gostar a sério. E que aconteceu quando o encontrei? Verifiquei que era ainda pior
do que os vaqueiros.
- Que quer dizer, Kit Sunderlund? - indaguei, deixando a
curiosidade sobrepor-se à cólera.
- Não é tão inteligente nem tão subtil como parece à primeira vista. Pode ser de Boston, ter a educação mais refinada do Leste e haver estudado em Harvard,
mas é ainda mais desprezível do que os vaqueiros, até mesmo mais do que o Shaw.
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- Posso perguntar-lhe porquê? - inquiri com serenidade,
embora fervesse interiormente.
- Pode perguntar e eu responder-lhe-ei! - Uma onda escarlate
subiu-lhe do pescoço às têmporas e os seus olhos assemelharam-se a dois diamantes duros e azuis. - Quando fui procurá-lo ao vosso acampamento, com meu pai, e não
o encontrei, fiz uma descoberta: viajava com vocês uma rapariga disfarçada de rapaz! Vi-a! Estava na retaguarda do carroção, meio despida, e apressou-se a esconder-se,
mas eu vi-a! Era uma rapariga, e uma rapariga nova e bonita. Vivia com vocês todos no carro, e ou você a compartilhava com os seus amigos vaqueiros, ou eles consigo!
- Viu, então, a Ruby! E pensa uma coisa dessas! - Falei num
tom desdenhoso como o dela, mas que devia no entanto traduzir sincero espanto.
- Sim, é isso que penso! É capaz de negar?
- Para quê? Parece servir-se das suas prerrogativas femininas e eu não consigo divisar o cavalheirismo sulista que caracteriza os texanos.
- Mas eu sou uma sulista sentimental e não poucas vezes essa fraqueza me custou caro. O que não sou é idiota! Se o facto de

ter visto essa dançarina de salão no vosso carro não bastasse para elucidar-me, bastaria saber que disseram a meu pai, em Gotemburgo, que você mostrara grande interesse
por Ruby e a tirara da espelunca onde trabalhava!
- É verdade, Miss Sunderlund, tirei-a de lá e orgulho-me
muito disso. Gostaria também de informá-la de que essa rapariga é muito mais decente do que você, muito mais digna. Bons-dias.
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VIII
Na minha fúria e amarga decepção quase saltei do carro.
Corri para a carruagem que me esperava, sem ver Mr. Sunderlund, e disse ao cocheiro que me levasse imediatamente para o acampamento dos trabalhos de construção.

Que rapariga diabólica aquela! Na minha opinião, era absolutamente injusta nas acusações que fazia, mas apesar do ressentimento e da cólera que me sufocavam
não conseguia esquecer os seus olhos escuros e altivos, a beleza que a fúria acentuara e a intimidade dos momentos que com ela acabava de passar.
A viagem de regresso ao acampamento de Creighton pareceu-me curta, sem dúvida devido ao meu estado de espírito. Verifiquei que o patrão punha carros em andamento
e que, como dissera, a catástrofe da noite anterior fora apenas outro obstáculo vencido.
Shaw andava de um lado para o outro perto do nosso carroção e certamente me vira muito antes de eu a ele. Ao apear-me, os
seus olhos mediram-me de alto abaixo e tive a sensação de que um jorro de luz forte pusera a nu as minhas emoções. Contei-lhe sem perda de tempo, mas minuciosamente,
quanto se passara no acampamento de Sunderlund. Não fez qualquer comentário, mas a sua garganta estremeceu num movimento convulsivo e os risolhos fitaram-se para
lá do rio.
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Furioso, o único sinal de agitação que o traiu foi a maneira como me apertou o braço.
Começámos imediatamente a trabalhar com mais meia dúzia de carros na reparação da parte oriental da linha que o fogo avariara. Embora imperiosa e concisa,
a ordem de Creighton demonstrou-nos que considerava o nosso grupo capaz de trabalhar sem um encarregado. Não podia dispensar um homem para essas funções de vigilância,
declarou; deixava o assunto ao nosso critério.
Claro que trabalhámos ainda com maior afã, para merecermos a confiança que em nós depositava. Durante três dias lutámos com fios torcidos e postes calcinados,
acampando ao longo do caminho, onde quer que a escuridão nos alcançasse. No quarto dia concluíramos a missão e viajámos para oeste, saindo assim da zona enegrecida
pelo incêndio. à noite reencontrámos Creighton.
Prosseguimos para oeste com a velocidade possível, chegando a erigir postes numa extensão de sete milhas por dia.
Cruzámo-nos na pradaria com um destacamento de trinta dragões do Forte Laramie, os quais nos informaram de que havia um levantamento de Cheyennes e Sioux no Wyoming.
O sargento
Kinney comunicou-nos ainda que a caravana de Sunderlund nos levava cerca de vinte milhas de avanço e que apenas haviam conseguido reaver umas poucas centenas de
reses. Lamentei o coronel Sunderlund, pois imaginava que o golpe devia ter sido duro para ele.
Trabalhávamos desde o romper do dia até ao cair da noite, mas o trabalho estava longe de ser monótono, sobretudo desde que encontráramos a primeira manada
pequena de búfalos e víramos os primeiros cavaleiros índios, magros e selvagens. Evitavam-nos, mas espiavam-nos de cima de altos penhascos. às vezes comunicavam
entre si com sinais de fumo, e eu perguntava-me que se passaria na mente daqueles peles-vermelhas que não pareciam nada amigáveis.
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à noite dispunhamos os carros num círcule no interior do
qual acendíamos as fogueiras e cozinhávamos, e de noite ficavam homens de sentinela.
Os dias multiplicavam-se em semanas e a linha telegráfica estava quase a chegar à fronteira do Colorado. Julesburgo, com a sua fama pouco tranquilizadora,
ficava a poucos dias. Não
seria capaz de citar o muito que esquecera, tanto tinha sido, mas algumas coisas haviam-se-me vincado na memória inesquecível - Matara o meu primeiro búfalo? e sentia-me
orgulhosíssimo da sua pele maravilhosa de um preto e castanho brilhante. Üm dos mais agradáveis incidentes até então verificado fora, quanto a mim, a ocasião em
que provara bife de alcatra de búfalo. Nunca saboreara carne mais saborosa e tenra, com um gosto a caça imperceptível.
Vira também o primeiro índio em flagrante delito de derrubar
um fio telegráfico, e atirara sobre ele, falhando propositadamente mas obrigando-o a fugir. Sabia que o meu aprendizado da fronteira terminaria no dia em que matasse
um homem, índio ou branco, e embora não tivesse o mínimo desejo de fazê-lo compreendia que seria inevitável e resignava-me.
Sentia-se agora um calor tremendo a meio do dia, o que
tornava o labor contínuo quase insuportável; mas nós seguíamos sempre para a frente. De vez em quando, Creighton mandava-me pregar pregos aguçados em redor dos postes,
a cerca de metro e vinte do solo, para evitar que o gado os derrubasse. Darnell acompanhava-me com o pesado saco dos pregos e as ferramentas, e eu transportava
as espingardas. Agora não íamos a lado
nenhum sem as armas.
Todos os dias víamos cavaleiros índios, que continuavam a
evitar-nos. No entanto, faziam um grande desvio e aproximavam-se da linha telegráfica que íamos deixando para trás.
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Observava-os pelo binóculo e percebia que con sideravam o fio esticado e os postes qualquer coisa em que havia mistério e perigo. às vezes um ou dois
desmontavam, sentavam-se ao lado
dos postes e aí permaneciam durante muito tempo, o que nos intrigava sobremaneira. Por fim Darnell decifrou essa charada dizendo-me: "Diabos me levem se os estúpidos
peles-vermelhas não estão à escuta do vibrar dos fios!"
Falei no caso a Creighton e sugeri-lhe que talvez nos fosse possível explorar a credulidade e o primitivismo dos índios se arranjássemos maneira de relacionar
o fio telegráfico com o Grande Espírito.
Quando decidiam exercer violência contra a linha, o que acontecia amiúde, amontoavam detritos de búfalo em volta do poste e lançavam-lhes fogo, o que raramente
produzia qualquer dano. Depois tentavam derrubá-los com os tomahawks. Claro que levavam muito tempo a cortar as vigas verdes com o pequeno machado, mas logravam
arrastar o fio para o chão. As mensagens, porém, continuavam a transmitir-se, a não ser que cortassem o fio - o que acontecia vezes suficientes para Creighton arrepelar
os cabelos e ter um carro de reparações, escoltado por soldados, sempre à retaguarda. Os peles-vermelhas mostravam ainda o seu ressentimento e espírito destruidor
prendendo o fio com os compridos chicotes e puxando-o para baixo. Liligh afirmava que esses pequenos bandos de selvagens eram batedores que procuravam búfalos e
só nos ameaçaria um perigo real quando encontrássemos um grupo grande de índios. Alguns destes selvagens errantes eram gatunos que, à noite, se introduziam num ou
noutro carro e roubavam quanto Lhes vinha à mão, apesar dos guardas. Eram demónios vermelhos, magros e escorregadios que, como cobras, rastejavam pela relva curta
sem fazerem barulho nem restolhada.
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Quando nos aproximávamos do Colorado, passaram por nós duas caravanas; uma com cerca de sessenta carros, que era o número normal, e outra com o triplo. Esta,
vista de longe a cortar a planície como uma serpente colossal, oferecia um espectáculo impressionante.
O seu significado era tremendo: milhares de homens e mulheres do Sul e do Este haviam-se deixado cativar pela esperança de encontrarem melhor vida no Oeste
e, com o espírito de pioneiros que Lhes era inerente, tinham arrancado as raízes e metido pelas planícies sem fim. Era o começo de um grande império no Oeste.
Sunderlund fora o único pioneiro que encontráramos a visionar serem as planícies do Oeste que subiam para as Montanhas Rochosas o futuro paraíso do gado
que deixaria a desejar quantos ficavam para trás. Mas Sunderlund tinha um irmão em Wyoming e por ele soubera que o gado ali prosperava excepcionalmente.
Quando falei a Shaw neste assunto disse-me:
- Soube sempre que assim era; imaginei-o antes de aqui chegarmos. Quando vi a abundância de erva compreendi que alimentaria milhões de cabeças de gado. Por
que não? Há milhões de búfalos que, com o tempo, serão substituídos por reses. Vai travar-se luta acesa entre peles-vermelhas e brancos antes que tal suceda, mas
será inevitável. Virão pioneiros e caçadores, estes para reunirem peles, e os búfalos desaparecerão. O Tio Sam terá de combater os índios desde os. Comanches, na
minha terra, até aos Pés Negros, de Montana. E repito-te uma coisa que já disse várias vezes: quando largar este trabalho da Western Union dedicar-me-ei à criação
de gado em grande escala!
Ao anoitecer de um sufocante dia de Verão, de novo com falta
de postes, e com os homens, os machos e os bois necessitadíssimos de repouso, acampámos nas margens do South Platte River, em Julesburgo, Colorado.
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Estava já demasiado escuro para poder avaliar que espécie de lugar era Julesburgo, mas o local onde acampáramos nem mesmo com a escuridão parecia agradável.
Tudo quanto via da cidade eram algumas luzes amarelas e trémulas. Sentei-me junto da fogueira, até esta se transformar num amontoado de brasas vermelhas. O ar estava
tão frio que, apesar de já habituado às temperaturas baixas das grandes altitudes, tive de vestir o casaco e senti a falta das labaredas. Havia muito que os coiotes
se ouviam, ali perto. Eram animais curiosos, astutos e rapinantes, que, à noite, se aproximavam muito dos acampamentos. Ouvia-lhes as passadas macias e cautelosas
e habituara-me inteiramente aos seus ladridos penetrantes e encadeados. Mas o grito dos lobos da pradaria era diferente: um uivo ávido e selvagem. Traduzia sangue
e tragédia, mas tinha um ritmo e uma beleza singulares: assemelhava-se a um grito penetrante e rouco, a um uivo interminável, parecido com o do sabujo, prolongado
e repetido com uma melancolia
arrepiante.
Como sempre que tinha uma hora de repouso e meditação, lembrei-me de Kit Sunderlund. Como me parecia distante, agora! Esquecera já as suas injustas suspeitas
e recordava apenas a sua beleza. Podia ter amado aquela rapariga, pensei, muito mais do que amara alguém em toda a minha vida.
Levantei-me ao nascer do sol, na manhã seguinte, acordado por Darnell, e senti-me repousado e bem disposto, apenas com algumas escoriações e um ou outro
músculo dorido. Mentalmente estava de novo alerta e quase tão feliz como ao princípio da aventura.
Os rapazes tomavam o pequeno-almoço e Ruby, que me saudou
com um sorriso luminoso, atarefava-se com passos ligeiros entre o carro e a fogueira. A manhã estava fria e clara e o ar parecia morder a carne. Ao lavar-me no rio
compreendi o que Darnell queria dizer ao falar em "água
da montanha".
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Resolvi celebrar a nossa chegada a Julesburgo com o corte da barba emaranhada, o que consegui graças a muita paciência. Ruby recompensou-me do cuidado com
um dos seus simpáticos cumprimentos:
- COm a breca, Wayne, Como és diferente com a cara rapada!
Magro, sem arranhões com a pele da cara clara onde tinhas a barba e tostada nos outros pontos, vais ter um sucesso com as raparigas, se cá houver algumas.
- Obrigado, beleza. Parte do teu disfarce também desapareceu
e esta manhã pareces excepcionalmente bonita.
Enquanto almoçávamos, Liligh fez a ronda dos carros, a fim
de dar as instruções para aquele dia.
- Bem, rapazes, cá estamos em Julesburgo. Faltam rodas, há uma quantidade de carros para reparar e a cidade está ameaçada pelos peles-vermelhas. O Shaw e
o Lowden vão a cavalo fazer uma batida de inspecção; o Cameron e o Darnell ficam a reparar o carroção. Chegar cá sabe bem, mas depois já não é tão bom.
Fiquei absolutamente desiludido com o que me rodeava, pois não sei porquê convencera-me, sem motivo aparente, de que Julesburgo devia ser qualquer coisa
que valia a pena ver-se. Mas a pradaria era hostil e árida, o rio uma torrente lamacenta e túrgida, rodeada por atrofiados choupos -do-canadá e salpicada
ao longo das margens por caravanas de carros, e a
grande Julesburgo propriamente dita não passava de uma série de cinco edifícios toscos e tristonhos, com as altas fachadas de tábuas apreensivamente voltadas para
oeste.
Apesar de decepcionado, fui com Tom à cidade, visitei a improvisada estação telegráfica, parei na Overdand Truil and Pony Express Station e entrei no armazém,
tão tosco no interior como no exterior, onde comprei tabaco e alguns géneros, além da única caixa de chocolates existente para oferecer a Ruby.
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Procurámos Slade e como não o encontrássemos perguntámos por ele. Informaram-nos de que estava ausente na Trilha Overland, para os lados de Denver. Senti-me
aliviado. Sabia que se Slade e Shaw se encontrassem haveria sarilho e não via vantagem
nenhuma em o meu amigo correr riscos. Encontravam-se na cidade muitos homens e soldados, na maior parte provenientes da nossa caravana e alguns da que acampara na
outra margem do rio. Conversavam e bebiam em grupos, falando sobretudo de índios.
Depois de vermos o pouco que havia a ver e de considerarmos
que quanto menos ouvíssemos falar da possibilidade de sermos escalpelados melhor para nós, regressámos ao acampamento de Creighton e ao nosso próprio carro onde,
depois de oferecermos a Ruby, cerimoniosamente, a caixa de chocolates retardados,
tirámos o casaco e nos entregámos às tarefas que nos haviam sido destinadas. Tivemos que fazer todo o dia.
Shaw e Lowden regressaram ao pôr do Sol, depois de atravessarem um círculo de cinquenta milhas em redor do acampamento. Tinham visto considerável número
de búfalos a oeste de Julesburgo, mas nem sombra de índios, o que era inesperado e pouco tranquilizador, sobretudo porque haviam notado sinais de fumo em todas as
escarpas distantes - alguns dos quais tinham observado com os binóculos.
Shaw disse como interpretara esses sinais a Creighton e a
Liligh, mas não se dignou fazê-lo em nosso benefício.

Achava-o demasiado sério para o meu gosto. Os seus olhos
tinham um brilho de aço, excepto quando fitavam Ruby. Nunca me esquecera da expressão que lhes vira no dia

distante em que, em Gotemburgo, esperara que Slade aceitasse o seu desafio e lutasse.
- Estou preocupado, companheiros - disse de súbito.
- Vamos ter luta aqui, tão certo como Deus estar no céu!
Cerca de vinte milhas ao sul do acampamento encontrámos,
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eu e o Jack, uma depressão profunda com água no fundo. Era um sítio formidável para caçar, cheio de veados, antílopes, ursos, alces e, até, dois enormes ursos pardos.
O Jack teve de disparar sobre um deles, e deixámos por lá muitos sinais da nossa passagem. No lado mais íngreme da depressão havia uma quantidade de abetos pequenos,
aos quais me referi no relatório que fiz ao patrão. Um dos chefes de carro - um tal Beal - ouviu-me, veio atrás de mim e pediu-me que lhe indicasse onde ficava esse
lugar. Depois, sem pedir permissão ao Liligh nem a ninguém, foi à procura dos abetos. Aposto dólares contra cêntimos em como não voltará.
Estava explicada a sua preocupação. Esforcei-me por acolher as desagradáveis notícias com a fleuma dos meus companheiros, mas o nosso jantar decorreu mais
silencioso do que era costume. O poente surgiu numa orgia de tons purpúreos, brancos e dourados, dando um pouco de beleza e de cor à melancólica
paisagem.
Liligh visitou-nos pouco depois e pediu a Shaw que repetisse
o que dissera a Creighton e acrescentasse quaisquer
observações ou opiniões que então houvesse omitido. O vaqueiro fez-lhe um relato circunstanciado que tornou o capataz ainda mais sério do que já era.
- Obrigado, rapaz; isso ajusta-se com o meu próprio palpite.
Creio que tivemos muita sorte até aqui, mas a partir de agora vamos amargar.
- É isso mesmo - aquiesceu Shaw. - Gostava de saber como vai
o patrão aceitar o facto de ter de suspender os trabalhos.
- Não vai suspender coisa nenhuma, vaqueiro. Não te esqueças
de que a linha deve estar levantada e a funcionar antes de começar a nevar, nem de que em Wyoming o frio começa muito cedo. Não diremos ao patrão o que pensamos.
- Mas, com a breca, existe ainda uma coisa chamada bom
senso!
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Se não aconselhamos Creighton a prosseguir com calma, é muito possível que a linha não passe daqui!
- Talvez uma boa refrega com os peles-vermelhas quebre um
pouco a monotonia. Estamos bem armados e jogaremos pelo seguro. Não há necessidade de alarmar Creighton, mas acho que devem juntar o vosso carro aos outros e ficarem
de sentinela.
- Tem razão, Liligh, todas as cautelas serão poucas. Ia
fazer isso mesmo por minha própria iniciativa.
Quando o capataz nos deixou tornou-se evidente que a sua
visita causara impressão desfavorável em Shaw.
Pouco depois disse-nos que nos recolhêssemos, pois faria o
primeiro turno de sentinela. Adormeci imediatamente. Com excepção de um pequeno intervalo em que acordei e ouvi o uivar solitário dos coiotes, só dei por mim já
o sol nascera: os três vaqueiros tinham dividido entre si os turnos de sentinela, sem me acordarem. Protestei veementemente por não ter feito o meu turno, mas Shaw
replicou-me com secura:
- Camarada, podes ser um mocetão simpático com a barba
rapada, mas já o não serias tanto sem cabelo.
- Sim, compreendo; ainda sou novato. Nesse caso, a partir de agora, todas as noites ficarei de guarda com um de vocês, até aprender.
- Boa ideia - concordou o vaqueiro.
Passámos a maior parte do dia a trabalhar no carro e depois de realizadas as tarefas rotineiras empenhámo-nos em torná-lo tão inexpugnável quanto possível.
Aumentámos-lhe mais de trinta centímetros nos lados e nas extremidades, mas em vez de madeira ou metal usámos bocados de couro seco de búfalo, que Lowden comprara
no armazém. Era quase tão duro como o ferro e um homem ajoelhado atrás daquela barricada ficava protegido das balas e das setas.
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Alguns componentes da caravana disseram-nos que se encontravam na cidade muitos índios" de ar hostil e olhos matreiros, sendo vários Utes, que então eram
considerados amigos, e outros Arapahoes. Shaw não gostou nada da notícia e resolveu ir ver com os seus próprios olhos. Acompanhei-o, mas os peles-vermelhas já tinham
partido. No dia seguinte voltaram, porém, e em número maior.
Terminadas as tarefas matinais, fomos a Julesburgo e vi pela primeira vez índios a pouca distância, embora continuasse sem
saber distinguir os Utes dos Arapahoes. A única coisa que percebi foi que o seu aspecto não tinha nada de tranquilizador. O dia estava quente e os índios andavam
praticamente nus: usavam apenas tangas e perneiras e mocassins de pele de veado, e transportavam as suas mantas e armas. Tinham o corpo magro, musculoso e de um
tom vermelho escuro, cara que me fazia lembrar o focinho dos lobos, às vezes enrugada como pergaminho, e olhos negros, hostis e astutos. Muitos usavam o cabelo comprido.
Nenhum exibia ornamentos complicados na cabeça, mas várias tinham faixas amarrados na testa com uma pena espetada. Enquanto estivemos na cidade passaram o tempo
nas proximidades da cabana onde o telegrafista trabalhava, evidentemente fascinados com os estalidos metálicos do aparelho. Deduziam que se tratava de receber ou
expedir qualquer mensagem, mas não compreendiam como. Outra coisa que os preocupava era o ruído produzido pelos fios telegráficos, que para eles tinha qualquer relação
com a vida.
- A situação é esta - explicou-me Shaw, pensativo. - Todos
aqueles peles-vermelhas são hostis e traiçoeiros como os comanches e apaches que tenho conhecido; não passam de espiões. Aposto a minha pistola e o meu cavalo em
como se encontra um grande grupo deles escondido algures, à espera do momento oportuno para praticar qualquer patifaria.
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- Suponho que o sargento Kinney também não gostoú do seu
aspecto.
- Nem o sargento nem o Liligh. Anda, vamos procurá-los a
ambos.
Ao meio-dia todos os índios haviam desaparecido. Tinham montado nos seus garranos selvagens, em pequenos grupos, e partido em direcções diferentes. Preocupávamo-nos,
não sem motivo, com a sorte do carroção que, sem ordens específicas, fora em busca de postes telegráficos.
Finalmente encontrámos o sargento Kinney com Liligh e vários
chefes dos carros.
- Liligh, que pensa da partida dos índios da cidade? -
indagou Shaw.
- Não sei - replicou com secura o capataz. - Nada mais podemos fazer do que esperar e confiar que as coisas não sejam tão más como parecem. Estive a conversar
com o sargento acerca da situação e gostaria de saber a tua opinião de texano. Que aconselhas?
- Aí vai, chefe: mande todos os carros para a cidade, arrume-os o mais juntos que puder entre as casas e solte os bois no mato ao longo do rio. Sugeriria
ainda que o sargento colocasse metade dos seus soldados em cada casa das extremidades da rua e que os outros homens ocupassem os. seus lugares entre os carros e
as restantes casas. Assim seria preciso um grupo muito grande de índios para nos fazer mossa! Mas devemos esperar o pior quanto ao carroção que foi procurar postes.
Por outro lado, se conheço peles-vermelhas, aqueles de nós que andam espalhados pelas proximidades da cidade arriscam-se a ficar pelados.
- De acordo, vaqueiro - aquiesceu Liligh. - Tinha acabado de
expor a minha ideia ao sargento, a qual não andava longe da tua. Agora vai fazer uma batida com o Herb Lane e os teus rapazes, e mantenham-me os olhos bem abertos.
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Não se afastem muito! Levarão parelhas de machos, e como os índios não poderão surpreendê-los na planície, terão uma boa vantagem para retrocederem se os virem.
Ao meio da tarde os nossos dois carros, chefiados por Herb
Lane, estavam cerca de cinco milhas afastados da cidade. Quatro homens a trabalharem por turnos abriam um buraco para poste num instante. Shaw cavalgava a um lado
e Lowden a outro, e conseguiam abranger cerca de uma milha - e às vezes duas -
em qualquer direcção, à procura de possíveis vestígios de índios.
A tarde estava tão quente e sufocante que eu tinha de trabalhar de torso nu e o suor escorria-me pelo corpo queimado. No oeste acastelavam-se nuvens tempestuosas
e víamos pequenas faíscas riscar o céu, mas tão longe que não ouvíamos o ribombar do trovão. As terríveis tempestades acerca das
quais noshaviam precavido começavam a formar-se, lentamente. Darnell, excepto quando conduzia de um poste para outro, mantinha-se de pé no banco e perscrutava o
horizonte com o binóculo. Por isso nenhum de nós olhava para a pradaria enquanto trabalhava, embora todos esperássemos que acontecesse qualquer coisa antes de o
sol se pôr.
Não nos espantámos, por isso, quando Darnell gritou:
- índios! Ali, a oeste! Subam, temos de safar-nos!
Estremeci violentamente e olhei na direcção indicada, mas não vi nada. Enquanto o vaqueiro e Lane voltavam as parelhas para o lado do acampamento, atirámos
as ferramentas para os carros e saltámos por nossa vez, pegámos nas carabinas e pusemos os cinturões. Os carros arrancaram e a precaução de substituir os bois por
machos foi então da maior utilidade.
Havia quatro homens em cada carro, indo no nosso,
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além de mim e de Darnell, Edney e Cliff Nelson, dois duros " do Missuri que inspiravam confiança. Como nenhum dos veículos tinha lona, podíamos olhar para todos
os lados à vontade. Foi com tremendo entusiasmo que olhei para a retaguarda e vi levantarem-se várias nuvens de poeira, mas não vinenhum cavaleiro.
- Tens a certeza de que viste índios, Tom? - perguntei.
- A certeza absoluta - respondeu-me, puxando as rédeas com força. - Estes estúpidos animais estão com vontade de tomar o freio nos dentes, o que talvez não
seja mau.
Não estás a olhar bem, Wayne, é mais para o sul. Agora vêem-se perfeitamente. olha! Lá vem o Jack, como uma fúria, ao longo do rio!
Vi Shaw correr como uma seta no seu cavalo vermelho e atrás
dele, não consegui calcular a que distância, um grupo de cavaleiros selvagens. Sim, mesmo áquela distância de várias milhas pareciam selvagens em toda a acepção
da palavra, recortados a negro contra a linha do horizonte e com as caudas e as crinas dos cavalos a esvoaçar ao vento.
Era um espectáculo surpreendente. Não receava por Shaw, que tinha uma montada velocíssima, mas compreendia que os índios nos alcançariam. Desviei o olhar
para o lado do rio e vi Lowden vir ao nosso encontro. Estava a menos de uma milha e, com a breca, como galopava!
Perscrutei a margem e a planície atrás dele, à procura de
possíveis perseguidores, mas não encontrei nenhuns.
Olhei de novo para Shaw e admirei-me por verificar que os
selvagens haviam mudado de direcção e avançavam a direito para os carros, com uma velocidade espantosa. Shaw dirigia-se também para nós.
Eu e os dois homens do Missuri, que íamos no sebundo carro empunhámos as espingardas, apurámos o olhar e esperámos pelo ataque que não tardaria a abater-se
sobre nós.
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Darnell era um excelente condutor e a estrada razoávelmente boa, apenas com um ou outro buraco, de modo que as parelhas galopavam a toda a velocidade. De
vez em quando, ao surgir um mau troço de caminho, Darnell gritáva-nos que nos agarrássemos, mas mesmo assim tínhamosdificuldade em nos aguentar sem cair.
Os momentos seguintes foram para mim singularmente impressionantes. Lowden mudara de direcção e galopava ao encontro de Shaw, que por sua vez atalhara caminho
de maneira a colocar-se entre os selvagens e os carros.
- Olhem, fumo! - gritou Edney, de dedo estendido. - Começou o baile; alguns peles-vermelhas têm espingardas! Mais um favor
que ficamos a dever aos comerciantes.
Bolas de fumo branco erguiam-se acima dos índios e eu distinguia pequenas nuvens de poeira que subiam do solo, muito atrás dos vaqueiros, no ponto onde as
balas acertavam.
- Por este andar levamos o grupo de índios para o acampamento! - gritou Nelson, entusiasmado.
- Se eles disparam, por que não ripostam os vaqueiros? -
admirei-me.
- Estão muito longe, suponho - respondeu-me Edney. - Isto
para o Shaw é uma velha brincadeira. Aposto que, quando disparar, verás qualquer coisa!
Não faço ideia de quanto tempo durou aquela interminável perseguição, sem mudança apreciável além de os cavaleiros se aproximarem mais dos carros; pareceu-me
uma eternidade, mas provavelmente foram escassos minutos. Quando os vaqueiros se encontravam a poucas centenas de metros de nós e os índios talvez um quarto de milha
mais além, mudaram todos, mais uma vez, de direcção. Os índios desviaram-se para a nossa direita, em fila, Shaw e Lowden fizeram o mesmo e avançaram paralelamente
a nós.
Contei catorze cavaleiros na fila indiana, agora suficientemente perto para distinguirmos a cor dos seus corpos
167
e todos os pormenores físicos dos cavalos e dos homens.
Alguns tinham arcos e flechas, mas a maioria estava armada
da espingardas, que não cessavam de disparar. Surpreendia-me a maneira como conseguiam carregar as armas a uma velocidade daquelas. Os vaqueiros continuavam, porém,
sem responder, e só o fizeram quando os selvagens ficaram paralelos a nós e
começaram a acercar-se. A distância era grande e pelo que pude ver, os tiros erraram o alvo, mas a modificação que se operou foi extraordinária.
De repente, os garranos pareceram livres de cavaleiros. Teriam os peles-vermelhas caído? Esfreguei os olhos, para
afastar a espécie de nevoeiro que me dificultava a visão, e compreendi o que se passara: cada cavaleiro deixara-se escorregar para o lado exterior da montada e cavalgava
a uma velocidade daquelas, só com uma perna à vista, atravessada na garupa. Assim não ofereciam nenhum alvo às balas dos
vaqueiros. Estes continuavam a cavalgar entre os selvagens e os carros, posição que evidentemente estavam dispostos a conservar. Seria um espectáculo maravilhoso,
não fora o seu terrível significado.
De súbito os índios começaram a disparar por debaixo do
pescoço dos garranos e as balas levantavam nuvenzinhas de poeira à frente dos vaqueiros que significava que estavam já ao alcance de tiro. Chegara o momento de perigo
para os vaqueiros, se não para nós. Darnell soltara as rédeas aos machos, que quase tinham alcançado o carro da frente. Víamos perfeitamente Julesburgo e os carroções
metidos nos espaços entre as casas, a menos de duas milhas de distância. Notei que os vaqueiros se desviavam mais para junto de nós, a fim de evitarem ser atingidos,
e que tinham outra vez deixado de disparar.
Os índios estavam já suficientemente perto para se lhes verem as cabeças negras e os braços sob o pescoço dos cavalos. Continuavam a disparar daquela posição,
com uma firmeza incrível.
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Mais cedo ou mais tarde acabariam por acertar num cavalo ou num vaqueiro. Os homens do carro da frente abriram fogo, mas sem resultado, pelo menos de que
nos apercebêssemos. Os selvagens estavam visivelmente empenhados em cercar-nos e os vaqueiros mantinham a sua posição, embora acercando-se mais de nós. Os atacantes
cruzaram a trilha, galoparam pela margem do rio, passaram-nos pela frente e por detrás e retomaram a posição primitiva à nossa direita, mas mais perto. Já nem quatrocentos
metros nos separavam deles! E os vaqueiros encontravam-se a menos de metade dessa distância.
Pouco depois estremeci ao ver Shaw levar a espingarda à
cara. Apesar de assustado, não pude impedir-me de maravilhar-me com o quadro oferecido por ele e pelo cavalo. Não disparou logo, mas quando o fez vi um cavalo índio
mergulhar para diante e atirar para a frente um vulto negro e selvagem. Possivelmente a bala trespassara o pescoço da montada e atingira o cavaleiro. Ouvi o estalido
da espingarda de Lowden acima das descargas dos peles-vermelhas, mas não conseguia desviar os olhos fascinados de Shaw, que continuava a disparar. Novo cavalo
foi a terra e, nos três tiros
seguintes, mais outro. Contei os cavaleiros e verifiquei que dos catorze restavam dez. Lowden também tinha um no seu activo. Os selvagens afastaram-se então, para
saírem do alcance de tiro dos nossos rapazes, mas continuaram a galopar paralelamente a nós.
- Teriam com certeza dado cabo do pessoal senão fossem os vaqueiros - observou Edney. - Desta vez escapámos. Eh, que vem a ser aquilo na cidade?
- Ataque índio! - gritou Darnell. - São muitos e se nos vêem
chegar nem a pele se nos aproveita!
Mas quando nos aproximámos verificámos que, felizmente para
nós, o recontro se travava no extremo oposto da cidade.
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Através da poeira e do fumo distingui cavalos índios a correr de um lado para o outro, mas não vi um único soldado nem nenhum dos nossos homens.
Com as parelhas num galope furioso percorremos a distância que nos separava da cidade antes que os nossos perseguidores
índios pudessem reunir-se ao grupo principal e cortar-nos a passagem. Shaw e Lowden alcançaram-nos e o primeiro gritou-nos:
- Depressa, metam-se atrás da casa mais próxima!
Com os solavancos dos carros e a barulheira infernal que nos
rodeava, nada vimos do combate travado na cidade enquanto Darnell não parou bruscamente, quase me atirando ao chão. Só então me apercebi da algazarra de gritos dos
selvagens, misturada com a descarga das espingardas.
Do meio da poeira e do fumo surgiu Liligh, com fogo no olhar, a cara mascarada de pólvora e um fio de sangue a manchar-Lhe um dos lados da cabeça.
- Um desatrela enquanto os outros ficam de guarda! - gritou
acima da barafunda. - Soltem os machos e tratem dos cavalos. Lutem de trás ou de dentro dos carros e olho vivo, pois do outro lado está um milhão de índios.
- Despachem-se, rapazes! - gritou Shaw, com a carabina numa das mãos e as rédeas do cavalo na outra. - Vou procurar Ruby.
Com sete homens desembaraçados e um impulsionado pelo medo,
o que nos fora ordenado ficou pronto num abrir e fechar de
olhos. Como o nosso carroção não era fácil de alcançar, por enquanto, ocultámo-nos os sete atrás dos dois carros e espreitámos de ambos os lados, com as espingardas
em acção. Apercebi-me de que o tiroteio era intermitente, umas vezes em rajadas cerradas e outras espaçadas, e de que o barulho ensurdecedor provinha sobretudo do
infernal grito de guerra dos selvagens.
Com as costas voltadas para a última casa e os carros na nossa frente, espreitámos à procura de um índio que nos servisse de alvo.
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Mas não aparecia nenhum daquele lado. Reparei que, por entre o fumo, voavam objectos brilhantes que se embebiam no solo: setas dos peles-vermelhas.
Pouco depois Shaw reuniu-se-nos de novo, parecendo terrivelmente preocupado.
- A Ruby não está no carroção - disse-me ao ouvido, com voz
rouca. - Suponho que se tenha acolhido a uma das casas. Não vi soldados nem nenhum dos nossos homens, mas notei que corria para os lados do rio uma caravana que
não estava cá quando partimos. Não me agrada nada. Mas, com os diabos, temos de ser espertos se não queremos ficar todos sem escalpe. Estão por aí muitos índios,
furiosos como vespões.
- Que fazemos? - perguntaram Lowden e Darnell, juntando-se-nos.
- Que fazemos? Ocultamo-nos aqui e atiramos a qualquer índio
que apareça.
Agitado como me sentia, compreendi que os meus camaradas estavam todos càlmos e serenamente decididos, e achei que devia esforçar-me por imitá-los. Mas dentro
de mim travava-se terrível conflito. Chegara o momento de prestar provas, um momento que viera tão de súbito que nem tivera tempo de preparar-me. Nesse instante
pareceu irromper do fumo e da poeira uma multidão de peles-vermelhas aos guinchos e aos saltos, uns de espingarda ao ombro, outros de arco esticado e outros ainda
de tomahawks em riste. Eram vultos, hediondos, pintados, fantasmagóricos, que não estavam quietos um segundo.
Ouvi os meus camaradas disparar e fiz também pontaria.
Falhei várias vezes, mas quando por fim acertei e vi o índio espojar-se no chão, com movimentos convulsivos, de uma parte da natureza que até aí ignorava ergueu-se
um grito involuntário e dilacerante. Fitei o selvagem até se
imobilizar. Matara-o! Soltei uma exclamação abafada, mas não me arrependi.
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De súbito, ainda mal avaliava as emoções que me invadiam,
senti um impacto contra a roda do carro e, apavorado, vi uma seta enterrar-se--me na coxa. Deitei-lhe as mãos, instintivamente, e puxei-a. Saiu com facilidade, com
a ponta coberta de sangue. Atingira-me depois de passar de raspão pela roda. A dor e o seu significado transformaram-me e senti um desejo irreprimível de correr
para o meio daqueles diabos vermelhos e, servindo-me da espingarda como de um cacete, abatê-los à pancada. Mão de ferro, porém, arrastou-me para trás do carro.
- Acabaram os teus dias de novato, compincha! - gritou-me Shaw ao ouvido. - Agora luta e tem cuidado, não te exponhas.
A fúria de gritos e tiros, de poeira e de fumo, que ao
princípio me parecera um autêntico pandemónio aumentou em volume, mas passei a reagir de modo diferente. Ajoelhei e, a espreitar atrás do veículo, atirei a quanto
índio me passou ao alcance da mira. Os tiros que partiam dos nossos dois carros eram firmes e contínuos e já se viam peles-vermelhas caídos por todos os lados naquele
ponto da barricada. Vi os restantes fugirem, protegidos pelo fumo, para o outro lado da cidade, de onde partia a maior parte dos gritos e do tiroteio.
Houve um período em que todos os sons da batalha aumentaram,
se dilataram num crescente espantoso, e depois, de súbito, ficaram reduzidos apenas aos gritos roucos dos brancos e ao disparar das suas armas. Esperámos, ocultos
na nossa barricada, preparados para tudo.
- Foram repelidos, camaradas - gritou Shaw. - Já não se ouvem detonações nem o assobiar das setas. Com a breca, pelo menos alguns de nós estamos vivos! A
coisa estava quente, por um bocado.
- Estão a fugir para os cavalos, com os feridos! - gritou
Edney, do outro carro.
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- Olhem que não eram tão poucos como isso, hem?! Devem ficar
com uma doce recordação deste dia, mas para nós, se não tivermos mortos nem feridos, será divertido.
- Feridos?! - exclamou Lowden. - Que chamas àquela seta espetada na minha perna? Desviei-me também de uma bala, mas ela deve ter-me atingido, pois sinto-a
debaixo da pele.
- A mim nada me tocou - declarou Shaw, que tinha a espingarda no chão e carregava as duas pistolas, que despejara.
Imaginei a razia que fizera, pois raramente falhava um tiro. Aventurámo-nos a sair do esconderijo, com cuidado. Vi Edney
bater na cabeça de um índio que tentava levantar-se do chão, onde outros jaziam. Com o cessar do fogo as nuvens de poeira e de fumo dissiparam-se e pudemos observ
ar as casas e as barricadas de carros entre elas. Apareceram como por encanto soldados e homens da construção, todos de armas na mão e evidentemente à procura de
índios porventura ainda vivos. Juntámo-nos a eles e quando o fumo se dissipou totalmente verifiquei com alívio que os pelesvermelhas não haviam deitado fogo às casas
ou aos carros, como chegara a recear. Liligh veio também ao nosso encontro.
- Como estão vocês, rapazes? Não parecem muito feridos.

- Parece-me que perdemos a parte pior - observou Shaw.
- Foi uma luta rápida, mas violenta. Os selvagens atacaram primeiro o armazém e aposto em como encontraremos lá trabalho sangrento.
- Liligh, não viu por acaso o nosso rapaz, o Pedro? -
indagou Shaw.
- Sim, vi, mas não me lembro onde.
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- Que carros eram aqueles que vi a caminho do rio, quando
chegámos?
- Pertencem a uma caravana que entrou antes do ataque. Pedi-lhes que formassem os seus carroções com os nossos e lutassem, mas não voltei a pôr-Lhes a vista
em cima.

- Correram para o rio, vi-os no instante em que entrámos na
cidade.
Segundo todos os indícios, a luta fora breve e sangrenta. Liligh disse-nos que os peles-vermelhas eram muitos e que depois de terem contornado a cidade duas
ou três vezes haviam atacado pela ponta sul dos carros e das casas. Tinham perdido a vida quinze soldados, a maior parte no armazém ou perto
dele, e cinco homens de Creighton, um deles do nosso grupo. Ao retirarem, os atacantes haviam levado consigo todos os seus feridos e grande parte dos mortos.
Um mensageiro de Creighton veio pedir-nos que nos dirigíssemos à estação da Pony Express. O patrão fora atingido num ombro por uma bala que lhe produzira
um ferimento doloroso, mas não grave. Saudou-nos com expressão sombria.
- Lamento o que nos aconteceu, rapazes. Cameron, vejo que
também foste ferido, pois estás cheio de sangue. Se podes trabalhar, vais ter muito que fazer! Segundo o Liligh, poucos são os que não têm qualquer ferimento.
- O meu é apenas um arranhão, chefe - afirmei. - Assim que
encontrar a maleta e ligar a perna, tratarei de si.
- Esperarei; há homens mais gravemente feridos do que eu e
que devem ser tratados primeiro.
Corri para o nosso carro e chamei Ruby, mas não obtive resposta. O coração parou-me no peito, como me acontecera no momento de ser ferido, entrei no veículo
e encontrei-o vazio. Compreendi porém que a ocasião não era própria para desfalecimentos. Desinfectei a ferida da perna, liguei-a e fui buscar a maleta dos socorros.
174
No chão do carro estava um bilhete. Apanhei-o e verifiquei
que era dirigido a Shaw. Fui depressa procurá-lo onde o deixara com Jack e Tom, sem me atrever a pensar se seria portador de boas ou de más notícias. Sabia apenas
que o bilhete era para Vance e que este devia lê-lo sem demora.

- Toma, é para ti - disse, estendendo-lho.
Leu-o num instante e ficou lívido, da cor da cinza. - Amigo Wayne. lê-o aos rapazes - murmurou com voz
entrecortada.
Devagar, dolorosamente, li:

"Vance: Não podia casar contigo hoje, como me pediste. Devia ter-te dito antes que já sou casada. Por isso parti com uma caravana. Adeus. Ruby".

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IX
Se não fosse a necessidade imperiosa de cuidar dos feridos, teria sofrido muito por via do meu ferimento na coxa e também pela reacção provocada pelo sangue
humano que derramara. Mas até a angústia que me causava o desaparecimento de Ruby e a pena que tinha de Shaw tinham de ser relegadas para segundo plano perante a
enormidade da tarefa que me estava reservada.
Fora de facto uma luta extraordinariamente sangrenta, como
Liligh afirmara, e poucos eram os homens de Creighton que dela haviam saído ilesos. Vance Shaw, porém, parecia invulnerável, certamente porque sabia defender-se
quando lutava. Mas quanto mais dolorosa não fora para si a perda de Ruby do que qualquer ferimento que porventura houvesse sofrido!
Havia dois feridos de muita gravidade: Jenkins, um dos cocheiros, atingido no ventre e que parecia perdido, e um outro, com uma artéria seccionada, que consegui
tratar. Não descansei um minuto durante aquela interminável noite, nem eu nem o fiel Darnell, que me seguia com uma lanterna e me auxiliava em tudo quanto podia.
Não era nada animador o facto de o sargento Kinney e os sobreviventes do seu comando preverem um regresso dos selvagens, que felizmente não se verificou naquela
noite.
Parei na cabana do telegrafista para saber se fora ferido, e
o homem deu-me a má notícia que recebera pelo tráfego
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militar acerca de uma caravana que se dirigia para oeste e que fora atacada pelos peles-vermelhas vinte cinco milhas para além de Julesburgo. Avisados de um possível
ataque, os chefes da caravana haviam solicitado uma escolIa militar.
Ao tomarem conhecimento do facto, os índios tinham reunido
um bando várias vezes maior do que o número de brancos e, antes de serem repelidos por estes, mataram muitos cidadãos e soldados. Os sobreviventes haviam retirado
para o posto militar, que ficava apenas a duas milhas, e estabelecido contacto com Julesburgo e o exterior.
å meia-noite estenderam um fio de emergência da linha principal para um poste temporário que haviam levantado e cujo topo adornaram com uma bandeira esfarrapada
e uma seta índia a apontar sinistra e determinadamente o oeste. Depois os sobreviventes enterraram junto da base do poste um papel assinado por todos aqueles que,
segundo as palavras do operador telegrafista, haviam comunicado com o Leste graças ao telégrafo. Mostrou-me uma cópia da triste mensagem:
"Durante este terrível ataque perderam a vida quinze soldados e cinco cidadãos, cujos restos estão enterrados aqui perto. Enquanto este poste se mantiver
erguido os fios murmurarão um triste requiem sobre as sepulturas dos valentes mortos".
à luz do dia não fui capaz de olhar os selvagens sem vida que jaziam por toda a parte. Nus, ensanguentados, malignamente ferozes até na morte, ofereciam
um espectáculo aterrador. Durante a manhã Kinney mandou transportar os corpos para a pradaria, a fim de serem sepultados, e durante o resto do dia, sem comer e quase
sem beber, percorri os carroções até ter a certeza de ter feito pelos meus doentes tudo quanto me era possível.

178
Creighton perscrutava o horizonte, para sul, na esperança de
ver aparecer o carroção desaparecido.
Quando, ao anoitecer, regressei, cambaleante, ao nosso carro, estava prestes a desfalecer, mas não só de exaustão. Tom e Jack tiraram-me as botas, meteram-me
na cama, pensaram-me o ferimento, que infectara, e deram-me uma bebida quente. Depois ficaram ao meu lado, um ou ambos ao mesmo tempo, no período em que estive quase
delirante.
Adormeci por fim e só acordei já a manhã ia alta. Além da
perna muito dorida e hirta, parecia sentir-me bem. Levantei-me, contra a vontade dos meus companheiros, mas estava tão fraco que tive de meter-me outra vez na cama,
de onde lhes pedi notícias.
- Não há muito que dizer - começou Lowden. - A opinião do
agente e de todos os da cidade é que o ataque dos índios foi contra Creighton e os seus trabalhos. A linha telegráfica a leste daqui foi abatida, mas será reparada
durante o dia e logo à noite, e depois o patrão poderá telegrafar. Apre, ainda vamos ver a grande coisa que é a linha telegráfica! A melhor notícia foi o regresso
dos carros que partiram há três dias. voltaram todos menos Beal e dois carros com três ou quatro homens. Seria esperar de mais contar que o Beal e o seu grupo se
safassem também. Enfim, seja como for, Wainwright chegou com quatro veículos cheios de belos e fortes postes telegráficos, e até parece que o Creighton não teve
complicação nenhuma!
- Mas não deviam ir procurar Beal? - indaguei, preocupado.
- Claro que sim! - concordou o vaqueiro. - Eu, o Tom e o Vance vamos selar os cavalos e fazer isso mesmo, a não ser que queiras que um de nós fique contigo.
Garanti-lhes que podiam ir todos, pois sentia-me bem. No entanto, apesar do meu estado de enfraquecimento, só com muita dificuldade consegui descansar e
passar pelo sono umas duas horas.
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Levantei-me quando acordei, e tive a satisfação de verificar que me sentia muito melhór e que os meus tormentos físicos e mentais não me haviam provocado
febre nem quaisquer outras consequências graves.
Visitei de novo os meus doentes e cheguei à conclusão de que, afinal, não era tão mau médico como supunha. Estavam-me todos gratos e até Creighton mo demonstrou.
Os vaqueiros voltaram ao fim da tarde, com os cavalos poeirentos e suados. Desmontaram junto do carro do pa trão e demoraram-se lá um bocado. Tom foi o primeiro
a dirigir-se para o nosso carroção e não precisei de perguntar-lhe a sorte de Beal e dos seus homens. Sob a poeira e a sujidade que lhe empastavam o rosto havia
uma sombra de tristeza. Tirou a sela e as rédeas ao cavalo e ficou a esfregá-lo enquanto fui
buscar-lhe um balde de água.
Quando voltei do rio já encontrei Shaw e Lowden. Vance ainda mostrava no olhar semicerrado o ardor do seu espírito, mas havia na maneira como falava alguma
coisa forçada, que não era natural. Informou-se a meu respeito e dos meus doentes e acrescentou:
- Creio que ganhaste as tuas esporas, rapaz... Já percebeste
com certeza que tivemos um encontro com os índios.
Se estivesses connosco terias avaliado a diferença que um cavalo veloz faz entre a vida e a morte. Encontrámos o carro de Beal todo queimado e apenas três
homens, nus, escalpelados e mutilados. O quarto deve ter-se afastado, pelo menos dos
carros, mas com certeza foi perseguido e morto. Não o encontrámos. Um grupo de selvagens que estavam acampados perto farejaram-nos e vieram por ali abaixo como uma
matilha de lobos. Esperámos até estarem ao alcance de tiro e depois fugimos a disparar. Foi muito mau para eles. Como não podiam atingir-nos nem aos nossos cavalos,
alguns tentaram cercar-nos e passar-nos à frente, mas então aumentámos o galope e
afastámo-nos.
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Na manhã seguinte partimos sob as ordens estritas de Creighton, fortalecidos com quatro carroções e enfraquecidos pelos homens que perdêramos, assim como
várias juntas de bois. Não faltava um único macho. As caravanas de John e James Creighton, que haviam partido em diferentes direcções à procura de postes telegráficos,
teriam de encontrar-se connosco no caminho, pois o levantamento da linha prosseguiria. Verificaram-se alguns protestos da parte dos homens, mas os que estavam mais
gravemente feridos ficaram num carro preparado para eles, e os outros, aleijados ou não, tiveram de trabalhar como se nada houvesse acontecido. Ao meio-dia tínhamos
postes levantados numa extensão de cinco milhas para além do ponto onde fôramos surpreendidos pelos índios. A minha tarefa continuava a ser a de pregar pregos nas
traves, para impedir o contacto prejudicial dos animais da pradaria. Parecia-me um trabalho absurdo e sentia-me sempre ridículo quando os vaqueiros me sorriam misteriosamente.
Quando cheguei com Darnell ao fim da linha, onde já se
encontravam Shaw e Lowden a cavalo, ficámos todos surpreendidos com o espectáculo que se nos ofereceu: o patrão, em mangas de camisa e com uma mancha sangrenta no
ombro, corado e a transpirar sob o sol escaldante, cavava um buraco só com um braço. Creighton era asim: nunca pedia a um homem que fizesse ou tentasse qualquer
coisa que ele próprio não fosse capaz de fazer. Faltavam-nos homens, mas o trabalho tinha de prosseguir.
Naquela noite acampámos pela última vez nas margens do South Platte River. A partir daí o caminho seria para nóroeste, de regresso ao Nebrasca e seguindo
a Lodge Pole Creek.
Pouco depois do jantar recebemos a perturbante notícia de que um dos dois carros destruídos pelos índios estava cheio
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de mantimentos e que, por isso, passaríamos a comer por ração. Até então, sobretudo quando abatíamos algum búfalo,
comêramos bem, não nos faltando farinha para fazermos biscoitos ou pão, toucinho fumado, café e açúcar. Tínhamos até manteiga enlatada! Agora ver-nos-íamos privados
de razoável quantidades desses alimentos e não tardaríamos a ser obrigados a recorrer ao pemmican, carne seca de búfalo reduzida a pó e
conservada em sacos de pele. Era um prato de substância e que me agradava quando misturado com farinha e fervido. Havia também penole, ou seja pipocas moídas e misturadas
com açúcar e canela. Bastava juntar-lhes água para se ter um alimento que
satisfazia e fortalecia. Como vegetais usávamos várias ervas às quais fora extraído o suco e o restante seco num forno.
Este resíduo adquiria quatro vezes o volume vulgar, depois de cozinhado, e era saboroso e nutritivo. No entanto, o facto de passarmos a rações reduzidas não nos
preocupou muito, pois sabíamos que em breve encontraríamos búfalos.
Outra coisa nos inquietava: se não chovesse, teríamos fálta de água na longa jornada através daquele canto do Nebrasca e pelas terras áridas do Wyoming até
ao rio Laramie. Liligh ouvira dizer que Lodge Pole Creek, que seguiríamos até ao próximo afluente, secava por vezes no Verão.
Na manhã seguinte, antes de nos afastarmos do grande rio, Liligh mandou-nos encher todos os barris, odres e receptáculos que pudessem levar água, e aconselhou-nos
a poupá-la até passarmos as terras más.
A algumas milhas do rio, no terreno que subia acima do leito do ribeiro, deparou-se-nos a região mais árida que até então encontráramos. Marcavam a trilha
ossos esbranquiçados de gado, búfalos e outros animais, num aviso sinistro do que a fome e a sede podiam produzir.
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Só encontrámos água três dias depois de deixarmos o South
Platte, e não conseguimos avançar mais de três ou quatro milhas por dia.
Animou-nos a mensagem que recebemos de que John e James Creighton haviam chegado a Julesburgo com dois carregamentos de postes e vinham ao nosso encontro.
De Forte Kearney saíra também, para se nos juntar, outro destacamento de dragões. Creighton ordenou que os soldados reparassem quaisquer estragos da linha que encontrassem
durante a viagem.
Certo dia recebemos a visita de um grupo de índios, graves
mas não hostis. Liligh explicou-nos que eram sioux de uma tribo que não entrara ainda abertamente no caminho da guerra. O seu chefe, Falcão Negro, era inteligente
e sisudo e sabia
algumas palavras de inglês. No entanto, à imagem dos seus homens, também ele se deixou absorver pelos sons do telégrafo. Aconteceu que, nesse momento, chegou de
Julesburgo a informação de que na cidade se encontravam índios, alguns Ogallalas entre os quais se contava um chefe famoso. Creighton telegrafou a pedir o seu nome
e responderam-lhe que a sua tradução era Nuvem de Guerra. Ao perguntarem a Falcão Negro se o conhecia, replicou com um "Ugh"! gutural e uma expressão que
denotava interesse e admiração. Creighton, Liligh e um dos homens das planícies conhecedores de índios convenceram Falcão Negro a ditar uma mensagem para Nuvem de
Guerra, com a intenção de demonstrar-lhe, pela resposta que se obtivesse, a utilidade e a honestidade do telégrafo. A mensagem enviada foi mais ou menos esta:
"Nenhuma chuva. Tudo seco. Sol queima erva. Onde há búfalo?
E a resposta de Julesburgo:
"Virá chuva. Muitos búfalos. Nuvem de Guerra saúda seu irmão
sioux"
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Por muito admirado que ficasse, o chefe índio não se deixou
convencer totalmente. Como além de inteligente era astuto, mandou outra mensagem relacionada com o paradeiro dos seus guerreiros, coisa que os brancos ignoravam.
A resposta, nada tranquilizadora para os brancos presentes, foi:
"Cavalo ferro muitos guerreiros. Dança de guerra em Rocha
Branca que Sobe Alto".
Estas palavras convenceram os siouz da magia do fio, e convenceram-nos a nós de que íamos ter mais complicações com os índios. Mas Falcão Negro ficou aparentemente
convencido de que Creighton podia invocar o poder do Grande Espírito para enviar palavras através do ar e afirmou com insistência que a tribo sioux protegeria a
linha telegráfica. Mandaria notícia a todas as tribos de que o Chefe Branco não queria fazer mal com os seus arames e postes espalhados pelas planícies e recomendar-lhes-ia
que o protegessem. Creighton ficou contentíssimo, como se aquela fosse a melhor notícia que até aí recebera, e nós também.
- Estes sioux são sinceros - afirmou Liligh.
- Se acreditam que não queremos fazer-lhes mal nem exterminar os búfalos, protegerão de facto a linha telegráfica. Para eles representa a voz do Grande Espírito,
mas... - fez uma pausa plena de significado. - Bem, quem me dera a linha concluída e patrulhada por dragões!
Desse dia em diante, à medida que avançávamos, acompanhavam-nos sempre índios. Conduziam-nos para locais onde havia água ou diziam-nos onde poderíamos encontrá-la,
o que constituía um grande auxílio num momento em que as nascentes eram poucas e separadas por fatigantes milhas e dias de marcha sob um calor escaldante. às vezes
tínhamos de dar água aos bois nos baldes, para evitarmos que fossem caindo pelo caminho.
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Os dias tornavam-se mais quentes, a pradaria mais árida e nós mais magros devido ao trabalho extenuante, à insuficiência de alimentos e ao sol. Cruzámo-nos
com um cavaleiro da Pony Express, vindo do Oeste, que nos transmitiu notícias perturbadoras: Sunderlund e a sua caravana tinham sido obrigados a parar para repelir
os índios. Além disso, o coronel pedira que nos informasse que metade da sua manada fora roubada por ladrões de gado que o seguiam desde o Texas, e não perdida
em consequência da fuga dos animais. Shaw
demonstrou desusado interesse pelas palavras do cavaleiro, desejoso de saber quem era o chefe do bando texano. Perguntei a mim próprio se suspeitaria de Red
Pierce.
Uma noite, depois de acamparmos, tentávamos refrescar-nos
quando Lowden nos disse que a caravana de Sunderlund se encontrava apenas a cerca de oito milhas de distância.
- Bem, Wayne - observou Darnell -, creio que esta noite irás
à frente, para falares com Mr. Sunderlund.
- Se lhe falares, não te esqueças de dar cumprimentos meus à
filha. - interveio Jack.
- Sei que estão a mangar comigo, mas a verdade é que, se a caravana está mesmo a oito milhas de distância, irei lá esta noite!
Shaw, que até então se mantivera calado, chamou-me de parte:
- Wayne, sei que és tu o chefe deste carroção, mas o chefe
esta noite sou eu e não consinto que vás ver Kit Sunderlund.
- Tencionarás ir tu próprio? - perguntei, abespinhádo, com a
aparente determinação de Vance em afastar-me de Kit.
- Não!
E, sem mais palavras, foi selar o cavalo. Fui atrás dele, já
mais calmo.
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- Tu deves ser o melhor amigo que tenho no mundo. Por que
não vamos os dois dar um passeio, esta noite?
- Não, Wayne, tenho de ir dar uma volta de vigilância. Até
logo.
Montou e afastou-se, deixando-me a pensar no motivo que o
levara a falar-me de novo naquele assunto.
Estava uma noite muito bonita e muito calma, mas para mim foi tremenda. Por um lado estava ansioso por ir ver Kit, mas por outro não tinha coragem de desobedecer
ao Shaw. Teria este alguma razão específica para não querer que lá me dirigisse? Iria ele próprio falar-Lhe? Não, não acreditava que Vance fosse ver Kit depois de
recusar acompanhar-me. A cabeça andava-me à roda, mas no meio da confusão das minhas ideias uma surgia com nitidez: ia naquele momento ver Kit Sunderlund e
a
dolorosa acusação que me fizera estava esquecida como se
nunca a houvesse pronunciado!
Quando selava o cavalo de Darnell, este observou:
- Camarada Wayne, fazes isso como se durante toda a tua vida
nunca tivesses feito outra coisa! É estranho como as mulheres podem transtornar um homem!
Lowden explicou-me como encontraria o acampamento e pouco depois cavalgava por uma pequena elevação entre dois vales. A lua acabava de surgir no leste, de
uma cor avermelhada, e uma brisa quente e seca varria a planície. Deixei a rédea solta a Pés Alados, pois tinha a sensação de seguir uma pista de gado ou de índios.
Os pensamentos voavam-me de um assunto para outro, mas voltavam sempre a Kit Sunderlund.
Encontrei a caravana de Sunderlund no fim da pequena elevação por onde seguira. Observei os carros, as dez ou mais fogueiras que ardiam alegremente e descobri
o carro de Kit.
186
Pés Alados mordia o freio, ansioso por descer, e mais uma
vez lhe soltei a rédea.
O veículo da jovem estava parado sob um choupo-do-canadá, um
pouco afastado dos outros, mas no interior do acampamento. Ouvi vozes, quando me acerquei, e depois, com enorme espanto e desgosto, vi a montada de Vance Shaw com
a brida caída, na retaguarda do carroção. Recortadas contra o clarão da fogueira distingui as si Lhuetas do alto vaqueiro e de Kit, apoiada ao seu peito.
Pareciam fascinados, Shaw, que noutro momento qualquer teria ouvido Pés ALados a um quarto de milha de distância, não se apercebera ainda da minha presença.
Compreendi que devia retroceder e afastar-me o mais depressa possível, mas um sentimento que não soube dominar cegou-me a toda a razão e levou-me a interpelá-los
furiosa mente, a acusar Shaw de me mentir, sem permitir a nenhum deles que me interrompessem.
Depois voltei-me para Kit e declarei:
- Vance e eu éramos amigos, Miss Sunderlund e eu tinha
esperanças de que... enfim, esperanças de que você me
compreenderia.
Com o mundo a ruir à minha volta, saltei de novo para o cavalo, agarrei às cegas nas rédeas e, quando Pés Alados arrancou a todo o galope, ouvi Vance suplicar:
- Camarada Wayne. espera! - mas segui para a frente.
187
X
Um dia, na hora de mais intenso calor, parámos à vista da
Chimney Rock, um dos marcos mais ansiosamente procurados ao longo da Pista do Oregão e que não ficava longe da fronteira do Wyoming. Era uma rocha de aspecto indistinto
e espectral, em forma de chaminé, que se erguia acima da névoa do horizonte como se quisesse furar o céu.
Apesar disso e da sua cor vagamente acinzentada e fantasmagórica, parecia bela, uma miragem das terras altas depois dos dias intermináveis de infindável
planície. Encontrava-se a cinquenta ou sessenta milhas de distância, mas era como se estivesse a mil, pois os carros de Creighton estavam paralisados e pela primeira
vez não podiam ir para a frente. Os homens encontravam-se exaustos do trabalho duro sob o sol escaldante, debilitados e famintos por via da dieta
magra, a que faltava a carne, e tão cheios de sede que pareciam cuspir algodão. Tinham os lábios feridos, as faces a perder a pele, a íris queimada do calor. Os
bois e os machos não bebiam havia dois dias e restava-nos apenas um pouco de água para enganar a sede dos homens.
Todos os dias, ao entardecer, surgiam nuvens no horizonte e ouvia-se o ribombar distante e abafado do trovão, mas mais nada.
Creighton mandou chamar Liligh, os vaqueiros e alguns dos homens do Oeste que seguiam na caravana. O aspecto du nosso chefe traduzia tanto como o nosso a
longa provação
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que tinha sido a travessia das terras áridas a partir de Julesburgo. Estava magro, o sol esbranquiçava-lhe o cabelo castanho e tinha a cara, salvo fronte e boca,
negra e ressequida do sol. Mas nada conseguira transformar-Lhe o olhar de águia invencível, que parecia mais acentuado ainda.
- Homens - começou -, nesta jornada através das planícies
fui eu a tomar as decisões e a responsabilidade.
Compreendo que estejamos aqui paralisados por momentos ou horas, por mais tempo talvez, mas o meu cérebro não aceita, nega-se a aceitar, que não possamos
prosseguir. Sei que é preciso avançar e que será isso que faremos, mas agora, neste momento não podemos avançar.
- Não podemos retroceder, nem avançar - afirmou Liligh -, atingimos o limite. Obrigar os bois e os muares a prosseguirem sem água seria matá-los no caminho.
Se não chover...
- Não digas se! - berrou o chefe. - Quantas vezes te recomendei que dissesses quando? Shaw, com todo o devido respeito aos homens do Oeste mais velhos do
que tu, recorro a ti. És jovem, a tua visão não foi ainda toldada pelo insucesso nem pela derrota. Que faremos...
- Bem, sir, quanto a mim, parece-me que devemos parar aqui,
como Liligh aconselha. Discordo dele quando diz que não podemos avançar com os animais e ver o que existe para lá daquela elevação de terreno, mas... Talvez não
me acredite, patrão, mas cheiro chuva.
- Cheiras chuva? - repetiu Creighton, incrédulo.
- Sim, sir, cheiro chuva - afirmou o vaqueiro, em voz forte
e vibrante. - Fui sempre capaz de cheirar chuva e é o que me
acontece agora. Esta espécie de sexto sentido nunca me enganou. Não tento sequer explicá-lo, nem i so interessa. Vivi sempre ao ar livre e aprendi que alguns homens
vêem coisas quando ainda são invisíveis para todos os outros.
190
Conheci índios cuja vista alcançava mais longe do que a de qualquer homem branco. Os meus sentidos também são apurados, sou capaz de ouvir uma fuga de búfalos a
uma distância inatingível por qualquer homem que tenha conhecido, e cheiro a chuva.
- Encorajas-me, vaqueiro. Homens, pararemos aqui até acontecer qualquer coisa. Desatrelem e fiquem o mais confortáveis possível, vocês e os animais.
- Está bem, chefe - respondeu Liligh, cuspindo tabaco mascado para a areia seca e olhando Shaw com um olhar difícil de identificar.
- Tomaste sobre os teus ombros uma grande carga, vaqueiro
texano nariz-de-lobo. mas diabos me levem se não me agrada confiar em ti! Estamos quase desfeitos, camaradas! Vamos à vida.
As palavras de Liligh ficaram a ressoar-me aos ouvidos. Como confiávamos todos naquele vaqueiro! Até eu, apesar da amargura que me inundava o coração, era
obrigado a admirá-lo.
Enquanto eu e Darnell desatrelávamos os extenuados bois e os
soltávamos, Vance e Lowden tiraram a sela aos três cavalos e conduziram-nos para a sombra do carroção. Em seguida procurámos todos um ponto onde o sol escaldante
nos poupasse. Era um alívio descansar, mas quando chegou a hora mais quente do dia tornou-se-nos difícil respirar ou mover e o golo de água que bebemos inundou-nos
a pele ressequida de humidade.
Enquanto olhava para sul na esperança de distinguir algum
sinal, por pequeno que fosse, de mudança de tempo, os meus pensamentos arrastaram-me para aquela noite em que o mundo ruíra à minha volta. Ou não teria razão para
pensar assim? Não existia entre mim e Kit Sunderlund nenhum compromisso que me permitisse objectar ao que porventura ela fizesse ou escolhesse. O que perturbara
o meu equilíbrio fora o facto de encontrar lá Shaw, da sua aparente traição à amizade estreita
191
que julgava ezistir entre nós. Que quisera dizer-me quando me mandara esperar? Poderia justificar a sua presença no acampamento de Sunderlund depois de afirmar-me
que não iria lá?
Não voltáramos a tocar no assunto. Nos dias seguintes vira-o
olhar-me muitas vezes de maneira estranha, mas não me dissera nada e não fora capaz de falar-lhe no caso. Exteriormente comportávamo-nos como se nada tivesse acontecido,
inteiramente entregues à tarefa de estender o fio telegráfico através do deserto. Agora encontrávamo-nos perante um problema de sobrevivência.
Aquela tarde foi diferente de todas quantas recordo. Não
estava mais calor, mas o ar oprimia, tornara-se mais sufocante. A imobilidade da imensa pradaria impressionava. Não se via um animal nem uma ave. O que a princípio
me parecera neblina azul, no sul, foi a pouco e pouco tomando a forma de nuvens, de nuvens que não se viam mover, mas que alastravam pelo céu e, apesar da hora,
escureciam a terra. Gradualmente espalharam-se até para além do zénite, e o centro mais escuro, quase purpúreo, intensificou-se e começou a trovejar. Ao princípio
a trovoada estava longe e mal se ouvia, mas foi-se aproximando até ficar quase sobre nós.
- Compincha, tão certo como eu estar aqui, vamos ter uma daquelas terríveis tempestades magnéticas! - afirmou Shaw a Lowden. - Claro que nunca assisti a
nenhuma nesta região, mas bem sabes que nos disseram que eram muito más.
- Se são tão más como as de Panhandle, vamos tê-la e bonita! - exclamou o outro.
- A mim tanto me faz - interveio Darnell. - No Wyoming as tempestades também são más, mas prefiro morrer fulminado a esticar seco de sede.
- Amigos, posso não perceber do assunto,
192
mas digo-lhes que vai chover! - acrescentei por meu turno.
- Ah! - exclamou Shaw, levantando-se bruscamente. - Vêem o
que eu vejo?
Lowden, que se levantara logo após ele, gritou:
- índios, com os diabos! E não são poucos! Que raio quererão
agora?
- O quê, ainda não percebeste? - indagou Vance, com desdém.
- Cavalgam sob o fio para decidirem onde vão fazer uma das
suas sujas partidas.
Peguei no binóculo e empoleirei-me no banco do cocheiro.
Liligh aproximou-se a correr e gritou-nos:
- Atenção às ordens do patrão! Vem aí um grupo de peles-vermelhas, com certeza com alguma fisgada. Creighton diz que os deixemos fazer o que quiserem, pois
não estamos em condições de sustentar uma luta. Que diferença farão agora uns quantos postes telegráficos atirados ao chão, hem?! Nada de tiros, a não ser que nos
ataquem. Estendam oleados de carro para carro, a fim de recolherem a água da chuva.
- O quê, velho manhoso, também acha que vai chover? gritou-Lhe Shaw.
- Claro que sim, nariz-de-furão, claro que vai chover!
- Rapazes, já notaram que o sol se escondeu atrás daquela nuvem e que o ar não está tão quente? - perguntou-nos Vance.
- Pois escondeu, mas eu acho que ficarei à sombra mais um
bocado! - volveu Lowden.
- Então, camarada ianque, não nos dizes o que vês? prosseguiu Shaw, desta vez dirigindo-se-me.
- Devem ser quarenta ou cinquenta índios, ou talvez mais. Já
se vêem bem. Pararam a meia milha, precisamente antes da linha telegráfica curvar para este lado. Nunca vi índios assim, Tenho a certeza de que não são Sioux nem
Araphoes.
193
- Têm o ar escanzelado e famélico dos Craws - observou Shaw.
- Se são Craws não podemos esperar coisa boa - asseverou
Darnell. - No entanto, não me parece que venham atacar.
- Parece-me ver um chefe a arengar ao grupo - elucidei. -
Reuniram-se à volta dele. Olhem, alguns desmontaram dos
garranos e sacodem o poste telegráfico. outros puxam o fio. Thoopee! Estão a derrubar os postes e o fio! Servem-se dos machados para cortar o arame. conseguiram!
Alguns retrocedem a galopar como o vento. Seguem-nos outro grupo, talvez de uma dúzia, e arrastam os postes. Parece-me que estiveram a tirar os isoladores. Eh, rapazes,
ali mais adiante há ainda outro grupo que eu não vira. Encontram-se a cerca de uma milha e desviam-se da linha telegráfica. Com a breca, camaradas, arrastam tudo
com eles! Alguns vão a pé, com o cavalo pela arreata, e agarrados ao fio.
- Essa é, por certo, uma nova mania dos índios! - exclamou
Shaw.
- Naturalmente meteu-se-Lhes na cabeça que se cortarem um bocado de arame e fugirem com ele nos impedem de conseguir que o Grande Espírito envie mais
mensagens! - troçou Lowden.
Pouco depois uma longa fila de índios, uns montados e outros
a pé, tinham-se apoderado de uma boa milha de fio e
arrastavam-no pela pradaria, um pouco para norte.
Verifiquei que todos os selvagens, quer montados quer a pé, tocavam no fio telegráfico, uns com as mãos e outros com os laços. No silêncio intenso e peculiar
daquele momento chegaram-nos aos ouvidos os seus gritos sinistros.
Estranho procedimento aquele! Eram autênticas crianças.
Talvez tivessem agido de brincadeira, para se divertirem, embora não me inclinasse muito para isso.
194
Que pensaria Creighton ao ver que uma milha inteira da sua linha telegráfica fora cortada e levada para longe?
Um trovão forte desviou a minha atenção e, ao baixar o binóculo, verifiquei que enquanto observáramos os selvagens se operara uma grande modificação nas
condições atmosféricas. As nuvens avançavam para nós, muito baixas, de um negro cor de tinta, e uma parede cinzenta, móvel, obscurecia aquele lado da pradaria. Era
chuva, e eu gritei de contentamento. Outros a tinham visto antes de mim e estendiam afanosamente oleados entre os carros.
Pela parte que me tocava e aos meus camaradas, o recolher da chuva podia esperar, um pouco, pois continuávamos interessados nos índios. Eu estava interessado,
também, na atmosfera cada vez mais pesada e sombria, na estranha luz ambarina que parecia envolver tudo e na aproximação da nuvem cor de tinta que as faíscas cortavam
em ziguezagues luminosos. Os gritos dos homens enquanto trabalhavam e os vivas com que saudavam a tempestade iminente substituíam o silêncio total de pouco antes.
De súbito um enorme relâmpago quase nos cegou, seguido imediatamente por um trovão de rebentar os tímpanos. Por momentos a minha vista ressentiu-se da violência
do clarão, mas compreendi que a faísca caíra mais perto dos índios do que de nós. Mal o avaliara, porém, quando o raio de luz azul e branco rastejou pelo chão com
incrível rapidez, deixando um rastro de centelhas eléctricas. A faísca atingiu o cabo telegráfico que os índios arrastavam e o som sibilante que produziu, como de
metal a fundir, percorreu a distância toda do fio, numa sucessão de explosões.
Por momentos o lívido clarão branco obscureceu a fila de
selvagens, mas no instante seguinte verifiquei que tinham todos caído. Os garranos sem cavaleiros galopavam enlouquecidos pela pradaria.
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Perguntei a mim mesmo se teriam morrido, mas de súbito vi-os levantarem-se um a um e, cambaleantes, hesitarem um instante, como que a
recuperarem consciência do que acontecera, e desatarem a
fugir como codornizes assustadas.
Shaw soltou uma gargalhada estrondosa:
- Que dizem a isto, camaradas? O Grande Espírito lançou uma
faísca sobre o fio telegráfico que os peles-vermelhas roubaram! Aposto que nunca mais se aproximarão da linha! Thoopee! yi Yi!
- Não há dúvida de que o Senhor está com Creighton.
- gritou Lowden.
Eu, porém, estava ainda demasiado atordoado e im Pressionado com a grandiosidade do fenómeno para achar graça à situação. Tinha mais vontade de agradecer
a Deus o milagre de estarmos vivos.
- Lá vem a tempestade, rapazes - gritou Shaw -, e vai ser de
respeito.
No mesmo instante o céu abriu-se numa chuva de faíscas e do chão pareceram jorrar bolas de fogo, dos sítios onde os raios caíam, as quais saltitavam pela
pradaria, como enormes novelos brancos de algodão. O estalar das cordas de luz, o ribombar do trovão, o brilho terrível que iluminava a paisagem, o cheiro acre a
enxofre, a sinistra irrealidade que tudo envolvia, o cataclismo de sons ensurdecedores - tudo isso me atirou para o banco do cocheiro, ao qual me agarrei meio desfalecido,
com todos os sentidos esforçados para além do seu limite.
Estava quase tão escuro como se fosse noite, mas os clarões
dos relâmpagos eram tão fortes que a luminosidade cegante e a penumbra se verificavam quase simultâneamente. De onde me encontrava podia ver o curral feito de cordas
onde os homens tinham encerrado as muares. Shaw dissera-me que sob tempestades magnéticas como aquela,
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estes animais quase enlouqueciam de terror: Por incrível que pareça, viam-se bolas de fogo percorrerem o dorso dos machos, brincarem-lhes com as crinas curtas e
saírem-Lhes das orelhas. Na maior parte os animais mantinham-se com as patas abertas e a tremer como se fossem cair.
A nuvem negra quase nos atingira já. Dir-se-ia uma cortina
de tinta a deslizar perto do chão, e, embora devesse estar mais alta, não parecia a mais de trinta metros de altura. Darnell correu para mim e gritou-me ao ouvido
qualquer coisa que não ouvi, mas quando o vi saltar Para dentro do carroção ainda tive tino suficiente para o imitar. Um momento depois a temPestade magnética ultrapassara-nos
e as nuvens pejadas de chuva, empurradas pelo vento, obscureceram ainda mais a atmosfera e, ao despejarem sobre nós a água que carregavam, quase abafaram o rugir
do trovão.
Shaw e Lowden estavam deitados nos seus beliches, a fumar calmamente, Darnell sentara-se na cama e eu estava ajoelhado à entrada do carro, a espreitar para
fora. Não sei se alguém falava, tinha a impressão de que nem os meus pensamentos conseguia ouvir. O coração dilatava-se de gratidão, rezáramos para que chovesse
e eis que chovia tanto que a água parecia querer inundar a planície e expulsar-nos dela. A tempestade pusera fim à seca, enchera os poços, engrossara as torrentes
e fora a salvação de Creighton. A fé do chefe merecia tal recompensa.
A chuva torrencial durou menos de meia hora, em seguida a
obscuridade desapareceu e a luz voltou. Ao sul Por entre as nuvens sombrias, viam-se já retalhos azuis. A tempestade terminou por fim, deixámos de ouvir o assobiar
das faíscas e o ribombar dos trovões, e - custava a acreditar! - o sol rompeu de novo, gloriosamente brilhante, mas menos impiedoso no seu calor brutal.
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Quando saímos do carro todos os homens e soldados trabalhavam já. Apesar de termos acampado em terreno alto, havia água com centímetros de altura por toda
a parte. Na depressão que ficava abaixo de nós, e que antes estivera seca, rugia agora uma torrente enlameada. O céu e o sol reflectiam-sa nos inúmeros lagos e poças.
Quase duvidei dos meus olhos ao ver que a salva e a erva tinham perdido o tom murcho e pardacento e exibiam já uma leve tonalidade purpúrea e verde. Os oleados
estendidos entre os carros estavam todos
cheios de água, e a pouca distância, à esquerda do acampamento, os bois bebiam em pequenos regatos e começavam até a mordiscar a escassa vegetação.
- Então, quem é o melhor profeta desta caravana, quem é? -
brincou Shaw.
- Podes ser muito bom, compincha, mas também tens muita
sorte - observou Lowden. - Sabes bem que disseste todas aquelas tretas ao Creighton só para ele não perder o nervo. Mas eu, sim, eu sabia que ia chover.
- Rapazes, depois desta chuvada não será natural aparecerem
búfalos? - indagou Darnell.
- Com certeza, mais cedo ou mais tarde. E, caramba, como me
apetece um rico bife!
- Vêm aí o Creighton e o Liligh - murmurei. - Que terão agora? Irra, aposto em como vai mandar-nos já cavar buracos!
- Não penses nisso, já lá vai metade da tarde. Olha para
sul, a umas dez milhas daqui.
- O quê?! Macacos me mordam se não é um comboio de carros! -
exclamou Jack, contente.
- Tens fracos olhos, Jack, a não ser talvez para as pequenas. São dois comboios!
Não experimentei menos alegria do que os meus camaradas e
senti-me feliz por tudo começar de novo a correr bem para Creighton. Talvez fosse apenas imaginação minha,
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mas a pradaria adquirira cor, estendia-se até à linha do horizonte com uma beleza suave, clara e ondulante. Perto de nós, a Trilha do Oregão, agora a brilhar á luz
do sol, seccionava essa beleza e descia, sinuosa, ao encontro das caravanas.
Ao fim da tarde verificava-se grande movimento no acampamento. Creighton mandou abater dois dos bois que estavam feridos e que complicariam o nosso progresso,
o que era uma promessa de carne fresca durante vários dias. Surgia, porém, o problema da lenha para arder. Não se avistava nenhuma e poucos detritos de búfalo restavam
nos carros que tinham procurado na trilha este peculiar, mas satisfatório, combustível.
Na manhã seguinte, muito cedo, os trabalhos de construção recomeçaram com toda a intensidade. Não tardámos a verificar que fôramos demasiado optimistas ao
supor que os nossos desastres tinham terminado, pois assim não era.
Todos os dias Chimney Rock se erguia à distância, como se o número de milhas que nos separava dela permanecesse imutável. Embora o trabalho ao longo deste
trecho fosse provavelmente o mais extenuante, não tinha a sobrecarregá-lo a ansiedade e o desespero dos dias em que nos atormentava a falta de carne e de água.
Continuava a não haver sinais de búfalos ou de índios. Nem um único cavaleiro selvagem no horizonte desde a tempestade magnética! Quando interrogávamos Shaw
a este respeito, meneava sinistramente a cabeça, mas não fazia comentários. Notei que se voltava vezes sem conta na sela, para olhar para sul. Liligh rejeitava a
ideia de os búfalos terem passado por outro lado, pois aquela trilha larga que cobria o extremo ocidental do Nebrasca e o extremo oriental do Wyoming servia de caminho
obrigatório a esses animais, ninguém sabia há quanto tempo, talvez há centenas ou milhares de anos.
199
- Sentir-me-ia mais tranquilo se a manada grande passasse
por nós - afirmava o velho capataz.
Chegou outro dia quente e abafado, durante o qual fizemos extraordinários progressos. NaQuela noite conseguimos também acender uma fogueira melhor do que
de costume, embora a bem dizer não fizesse falta, pois a temperatura estava amena. Sentávamo-nos todos em redor do lume, pouco faladores, o que indicava estarmos
cansados e desejosos de nos deitarmos. Nestes raros momentos de repouso não conseguia fugir ao aguilhoar de uma recordação que parecia provir de distante época passada.
O rosto triste de Shaw, fixo no lume e vincado pela amargura das suas próprias recordações, não me ajudava a esquecer Kit Sunderlund. Não, não a esquecia. Várias
vezes constara no acampamento que a caravana de Sunderlund seguia a pouca distância de nós, voltada para o oeste, e essa certeza perturbava o teor rude dos meus
dias aventurosos. Não só me perseguia a recordação da rapariga, como também a certeza de que voltaria a encontrá-la. Não me permitia sequer imaginar qual seria o
papel de Shaw, a dar-se esse reencontro.
De súbito reparei que Shaw se voltava uma vez mais para o
sul e ficava imóvel como uma pedra. Devia escutar qualquer coisa. Vira-o fazer o mesmo inúmeras vezes e outras tantas tentara ouvir eu próprio o quer que fosse que
lhe despertava a atenção, mas sem resultado. A noite estava invulgarmente silenciosa. Ouviam-se pequenos sons e murmúrios de vozes vindos dos outros carros, mas
para além do acampamento tudo era silêncio ou pelo menos assim me parecia.
O vaqueiro levantou-se e afastou-se de nós, quase até ao
limite do círculo de luz, mas eu pude vê-lo de lado, com a cabeça um pouco inclinada, numa atitude tensa, de escuta.
200
- Que diabo.? - indagou Lowden baixinho, tirando o cigarro
da boca e levantando-se.
- O Vance deve estar a escutar qualquer coisa respondeu-lhe Darnell, no mesmo tom abafado. - Com certeza que está a ouvir. Que será, Jack? índios?
- Não, com a breca! - respondeu-lhe o outro. - O Vance nunca
procede assim quando há índios por perto.
- Que será então? - perguntei por meu turno, mas não obtive
resposta.
Mantivemo-nos como estávamos, muito direitos a observar
atentamente o vaqueiro, até que este abandonou de repente a sua atitude de estátua e correu para nós:
- Búfalos! - anunciou, com voz vibrante. - É uma fuga, tão
certo como estarmos aqui! E encontramo-nos mesmo no caminho deles!
- O quê?! - exclamei. - Búfalos?
- Tens a certeza, camarada? - indagou Lowden.
- Absoluta! Já os ouvira muito antes de certificar-me de que
vinham direito a nós.
- Espera, deixa-me ouvir, não sou tão mouco como julgas -
declarou Jack, afastando-se na escuridão.
Esperámos todos, com a respiração opressa, e a mim pareceu-me que até o próprio ar ficara sobretudo carregado de ansiedade. Passados vários minutos, Jack
regressou, com as esporas a tilintar.
- Não ouço nada, camarada, nada! - declarou. - Não há vento,
nenhuma vibração no ar. mas se tens a certeza é melhor não perdermos tempo.
- Também me parece, pois talvez o que nos sobra nem chegue
já. Cameron, vai procurar depressa o Liligh, Jack e Tom vão buscar os bois. Eu tratarei dos cavalos.
Corri à procura de Liligh, alarmado com a atitude e a voz seca do vaqueiro e perguntando a mim próprio que mais nos estaria reservado.
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Se a principal manada de búfalos ia surgir e o nosso acampamento ficava no seu caminho, a situação era de facto séria. Encontrei Liligh perto do seu carro, a conversar
com os seus homens em redor da fogueira, e disse-lhe, sem fôlego:
- Chefe, venha depressa comigo, o Shaw quer falar-lhe imediatamente!
- A mim? - indagou o velho, com uma careta. - Para que me quer esse maldito vaqueiro? Que espécie de perigo lhe cheira agora?
Mas, embora resmungasse e protestasse, não perdeu tempo a levantar-se e a seguir-me. Arrastei-o tão depressa, que Liligh praguejou e exigiu que lhe dissesse
o que se passava.
- Chefe, o Shaw ouve búfalos! Falou que vão passar e afirma
que o acampamento está na sua trajectória.
- Raios e coriscos! Eu bem dizia que a manada não podia ter
passado por outro lado!
Quando chegámos ao carroção Shaw atrelava os três cavalos às
rodas.
- Liligh, receio ter ouvido uma manada imensa de búfalos em
correria - anunciou, sem perder tempo. - Há dias que tal receio me perseguia, com insistência. Posso estar enganado, queira Deus que esteja, mas afaste-se um pouco
do acampamento, volte o ouvido para o sul. e não se esqueça de suster a respiração e o bater do coração, pois de contrário não ouvirá nada.
- Como diabo queres que pare o bater do coração, vaqueiro? -
protestou Liligh, que no entanto se afastou rapidamente. Segui-o, mas a certa distância, e quando me vi sozinho no
escuro voltei o ouvido para o sul e tentei deter todo o funcionamento interno do meu ser.
Mas, para meu grande desespero, o coração batia-me como um
martelo e ouvia o sangue correr-me nas veias.
202
A grande abóbada estrelada do céu parecia cobrir-nos numa
atitude de alerta, o silêncio e a solidão eram intensos, amplificados sem dúvida pela minha imaginação, ouvia-se a respiração suave, quase imperceptível da natureza,
ou o que seria, talvez, um zumbido apagado de insectos, havia melancolia na grande e misteriosa quietude, em toda aquela terra escura da pradaria. Mas, por muito
que escutasse com toda a intensidade dos meus sentidos, não lograra ouvir nada de desusado.
Segui Liligh, quando este voltou para junto da fogueira. Shaw levantou a cabeça do que estava a fazer e vi-lhe as brasas reflectidas no olhar.
- Então, chefe? - indagou, com ansiedade.
- Maldita sorte! - exclamou o capataz. - Quando é que alguma
vez te enganaste, índio texano de uma figa? São os búfalos, não há dúvida, e se não me engano há milhões deles naquela manada.
- Também creio. Mal temos tempo de nos prepararmos.
- Claro que já assisti a muitos casos - prosseguiu Liligh,
apressado -, mas nesse ponto vocês, texanos, devem ser mais entendidos do que nós, nortistas. Qual é a tua ideia? Desembucha depressa.
- Trata-se de uma ideia, apenas. Diga ao Creighton o que se passa e dê o alarme no acampamento, reuna as muares e os bois, forme os carros em cunha, com
a ponta aguçada para a frente, coloque-lhes adiante dois dos carroções mais velhos e prepare baldes de petróleo para os regar, mande dois homens de cada carro para
a frente, com espingardas e fartura de balas, aos dois homens que ficarem em cada veículo ordene que tentem deter o gado. O resto sabe você. Depressa!
Liligh afastou-se aos berros. Não tardou a desencadear-se no
acampamento uma actividade tremenda: vozes roucas,
203
arrastar de botas, tilintar de arreios metálicos, homens a correrem para a pradaria munidos de lanternas, a gritarem uns com os outros, Lowden e Darnell com os bois,
chiar de rodas, e pouco depois, com uma rapidez que me pareceu incrível, a deslocação dos carros, alguns empurrados por uma dúzia de homens, outros puxados por muares,
e o alude de bois para o interior do acampamento. Ajudei o mais que pude, sempre a correr de um lado para o outro e agudamente consciente da azáfama que me rodeava.
A breve trecho Shaw gritou-me ao ouvido:
- Pega na carabina, enche as algibeiras de balas e vem
comigo. O Jack e o Tom tentarão suster o nosso gado.
O vaqueiro tinha uma lanterna numa das mãos, a carabina na
outra, dois cinturões de balas à cintura e, a julgar pelo chumaço do seu casaco, mais munições nas algibeiras. Deu ainda algumas instruções a Tom e a Darnell e depois
afastou-se, seguido por mim. Se não era um verdadeiro pandemónio o que reinava no acampamento, não sei que nome dar-lhe.
Na maioria os homens e os soldados sabiam o que significava
aquilo. Uma grande parte deles assistira já a algures. Trabalhavam por isso com o desespero dos homens em perigo. Deixavam um grande espaço na retaguarda da enorme
cunha formada pelos carros, evidentemente para os bois e para os muares, embora grande quantidade de juntas de bois tivessem sido atreladas aos veículos. Entretanto
a lua surgira e iluminava a pradaria. O mugir do pouco gado que nos restava aumentava a confusão.
Homens e soldados, armados com espingardas e pistolas, dirigiam-se para a frente, em grupos de dois e de três,
falando todos excitadamente. Pelo que me era dado avaliar na escuridão, a cunha de carros, depois de concluída teria pelo menos cem metros de comprimento. Finalmente
chegámos ao vértice do triângulo.
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Este tinha a largura de dois carros, que se mantinha numa extensão de duas filas, depois passava para três carros, a seguir para quatro, e assim sucessivamente
até à base larga do fim. A quinze metros da ponta da cunha viam-se dois grandes carros cobertos de lona branca, evidentemente destinados a ser sacrificados pelo
fogo. Vi homens passarem com baldes e cheirou-me a petróleo.
Encontravam-se reunidos nesse ponto cerca de cinquenta homens e soldados, a falarem ruidosamente. Shaw parecia, pelo contrário, nada ter que dizer e eu hesitava
em interrogá-lo. Não vi Liligh, mas notei a presença de Wainwright, Widing, Nelson, Edney e outros indivíduos do Oeste com quem trabalhávamos. Tinham o rosto sério
e determinado, e enquanto falavam estavam voltados para a pradaria, sem dúvida com o ouvido tão atento como o meu. A algazarra atrás de nós foi diminuindo, sinal
de que à medida que a cunha chegava ao fim deixava de ser preciso gritar. Tudo se fazia crer que haveria tempo de terminar a cunha antes de começar o assalto dos
búfalos.
Shaw fez-me sinal para que o seguisse. Deixámos o grupo de homens e dirigimo-nos para os dois carros a que seria lançado fogo.
- Avancemos uns passos, para eu poder ouvir outra vez os
bicharocos - disse-me quase ao ouvido.
Avançámos cinquenta passos e parámos. No mesmo instante ouvi um ribombar distante e abafado, de certo modo semelhante a uma trovoada distante e para mim,
sem dúvida, um som que fazia parar o coração.
- Estás a ouvir? - perguntou-me Shaw com aquele qualquer coisa na voz que me fazia sempre estremecer interiormente. Calculei mal, são muito mais do que supunha.
Galopam enlouquecidos, num susto total: Estão mortalmente assustados. É engraçado como uma manada de búfalos se assusta com tão pouco! Creio que é por serem muitos
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e a loucura se espalhar por todos. Deita-te e encosta o ouvido
ao chão. Será uma novidade para ti, acredita. Entretanto voltarei para trás e direi aos homens que deitem o petróleo nos carros e se preparem para disparar depressa.
Obedecendo ao vaqueiro, tirei o chapéu, deitei-me e encostei o ouvido ao chão, com força. Foi como se o encostasse a um
búzio colossal e ouvisse através dele o estranho murmúrio do mar. Era asim, mas diferente em muitos sentidos. Dificilmente poderia chamar-lhe um bramido, mas assemelhava-se
à trovoada não a uma trovoada de elementos, mas a uma trovoada de vida. Sim, era vida, uma enormidade inconcebível de vida, um pulsar imenso sem uma paragem infinitesimal
entre as pulsações.
Esforcei-me por concentrar as minhas faculdades e avaliar se
o som aumentava ou não, e em breve tinha a certeza de que
tanto o volume como a intensidade se aceleravam. Shaw voltou, tocou-me com a bota, e quando me levantei disse-me ao ouvido:
- Já não falta muito, camarada. Espero que tudo corra pelo
melhor, mas às vezes é tão impossível separar os búfalos como

detê-los. Faz o que eu fizer e reza as tuas orações. Espraiei o olhar pela vasta pradaria e pareceu-me ver
distintamente, à fraca luz do luar, uma extensão de cerca de meia milha. Distinguia os postes telegráficos erectos como
sentinelas negras ao longo dessa distância, mas para além dela tudo parecia opaco e fantasmagórico. No estado de espírito em que me encontrava, fácil era à minha
imaginação conjurar todas as fantasias, mas esforcei-me sinceramente por dominar-me e conservar-me calmo, e exteriormente consegui-o, sem dúvida.

Os dois carros regados de petróleo irromperam em chamas e
iluminaram uma grande zona à nossa volta.
206
Os rostos dos homens já não estavam negros e Em cabelo,
pálidos e com o olhar ardente fito na pradaria, olhavam apenas

numa direcção. Shaw mandou-os retroceder e colocou-os de cada lado dos dois primeiros carros. Se a manada se dividisse ao encontrar esses obstáculos, os búfalos
passariam de cada lado dos homens e da cunha, se não se dividisse. Shaw colocou-me junto de si, do lado do centro, e empunhou a espingarda, dizendo-me num grito
que soou como um murmúrio:
- Dispara quando eu disparar e não pares!
Compreendi, pela maneira abafada como a sua voz soou, que a manada estava quase sobre nós, embora ainda não ouvisse nada. Quando tirei o relógio para, à
luz do luar, ver as horas, as mãos tremiam-me tanto que mal distingui os ponteiros. Eram oito e meia. Depois olhei para a frente, transfigurado, com os pés firmemente
presos ao chão, convencido de que ia viver o momento supremo da minha vida.
Vi então qualquer coisa na pradaria enluarada. Qualquer coisa preta que se movia, que era como o fluxo torrencial de um oceano atrás do qual havia a força
conjugada de inúmeras vagas. O fogo, que atingia agora o topo das coberturas de lona, produzia um clarão mais brilhante. A vaga negra engoliu o espaço banhado
de luar e reconheci a frente hirsuta de uma
manada de búfalos em fuga. Alargava-se em linha recta e estendia-se de ambos os lados até onde a minha vista alcançava, e certamente por milhas e milhas mais.
Apercebi-me de que oscilava nos pés, de que o solo se tornara instável e estremecia debaixo de mim. Logo a seguir senti uma pressão tremenda e avassaladora
e compreendi que não ouvia já o estrépito inconcebível daquela avalancha de animais: ensurdecera-me. Não havia nenhum som. Compreendi-o porque quando Shaw levantou
a espingarda para dar o sinal,
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para dispararmos todos, não se seguiu descarga nenhuma à língua de fogo e de fumo que jorrou, dos canos das armas.
Imitei Shaw, a tremer como varas verdes, e despejei
rapidamente a câmara da espingarda na frontaria daquela muralha negra salpicada de miríades de chifres e de ferozes olhos verdes. Mas, apesar de trémulo e inseguro,
conseguia disparar e olhar.
De súbito o centro da linha avançada pareceu vacilar sob um
choque tremendo, desintegrou-se, enormes vultos negros e hirsutos ergueram-se no ar, caíram e escorregaram e outros tomaram os seus lugares, como por magia, até
que uma pilha cresceu sobre os carros em chamas, fazendo voar milhares de centelhas avermelhadas. As minhas facul dades, o meu sangue, quase o meu próprio coração,
ficaram imobilizados com aquele primeiro choque e com a insuportável ansiedade, até que tive a certeza de que a manada bifurcara e o revolto mar negro passava pelos
dois lados da cunha. Então quase desmaiei. Era demasiado para um novato !
Ao ver Shaw recarregar a espingarda fiz o mesmo, com os dedos dormentes. A de Vance vomitava fogo antes de eu acabar de carregar a minha. Encontrávamo-nos
no âmago de qualquer coisa tão supremamente terrível, que me transformei num autómato e passei a reagir como uma máquina. Disparava metodicamente, regulando o tiro
e a recarga por Shaw e pelos outros homens. Os meus olhos eram assaltados por uma fúria de acção, por um sorvedouro imenso e ilimitado de búfalos em louca disparada.
A certa altura, quando quis carregar a espingarda, verifiquei que esgotara todas as munições de uma algibeira e recorri às da outra. Inseri os cartuchos,
um a um, com os
dedos a tremer, e voltei a disparar. O clarão dos carros em chamas esmorecera e a luz era pouca. Só o fumo dos veículos luzia ainda. A poucos metros erguia-se uma
coluna de fumo que se fundia na abóbada opaca de poeira. A minha visão tornou-se baça, por via do cansaço, do terror ou da atmosfera pouco límpida, e durante muito
tempo os olhos arderam-me e tive a impressão de ter à minha frente um véu de neblina. A grande pilha de búfalos caídos de cada lado dos carros crescia à esquerda
e à direita, alargando a barricada de corpos mortos na frente da nossa cunha.
Voltar a ouvir pareceu-me irreal e inacreditável, mas os meus ouvidos estavam cheios de um estampido estentóreo, que pouco a pouco diminuiu. Ao mesmo tempo
que recuperava o ouvido, comecei a sair do estado de automatismo sob o qual actuara, a terra já não me tremia tanto sób os pés e os homens deixaram de disparar.
As nuvens de poeira tornaram-se menos espessas e apercebi-me do braço de Shaw sob o meu, provavelmente a amparar-me. O estampido tornou-se cada vez menor, vinha
agora da nossa retaguarda e em grau decrescente. O horrível oceano negro que se bifurcava na nossa frente e
corria impetuosamente de cada lado ultrapassou-nos, a terra sob os meus pés deixou de tremer, voltou a ser uma superfície sólida, e as nuvens de poeira dissiparam-se,
como se fossem sugadas por um vácuo provocado pela manada em fuga. Terminara o perigo. De novo ouvi vozes e, à pálida luz do luar, vi o
rosto de Shaw, negro de poeira e de pólvora. O rosto dos outros homens assemelhava-se ao seu.
- Bem, camarada, foi duro aguentar uma manada como esta! exclamou o vaqueiro, apertando-me o braço com dedos de aço. Foi o pior que já vi, mas dividimo-la
e estamos vivos! Orgulho-me de ti, companheiro, foste valente. Não reparaste, mas alguns tipos perderam a genica ante a violência da carga. Bem, o que interessa
é que, de agora em diante, não faltarão bons bifes de búfalo!
208 209
Meia hora depois, os mais sôfregos grelhavam alcatra nas
brasas dos dois carros, alegremente.
Mas nenhum dos do nosso grupo se lhes juntou. Regressámos ao nosso carroção a pensar que iriam mandar-nos desfazer a cunha e ocupar a posição normal.
Tal não aconteceu, porém, e eu
arrastei-me para a cama e adormeci antes mesmo de me tapar. Nessa noite não sonhei nem acordei, e na manhã seguinte o Tom teve de sacudir-me , para acordar-me. Chegou-me
às narinas o cheiro suculento dos bifes, mas nem isso acelerou os meus movimentos.
No entanto, depois de comer com apetite, senti-me outra vez
como novo.
Logo a seguir à refeição fui observar o campo de batalha. Havia uma enorme pilha de búfalos diante da cunha dos carros, com a altura de cinco ou mais feras
no centro e a descer em ladeira de cada lado! Tornava-se evidente que nem os carros em chamas nem os tiros teriam bastado para dividir a manada se não fosse o insuperável
obstáculo dos búfalos mortos. E Que enormes e magníficos animais eram! Alguns dos machos maiores tinham o cachaço, as enormes cabeçorras e as frentes cobertas de
pêlo negro comprido, basto e hirsuto. Os Quartos traseiros eram acastanhados. Alguns trabalhadores aproveitavam-se da oportunidade para obterem peles, e eu pedi
a dois homens que esfolavam vários animais para levarmos connosco que me arranjassem duas peles bonitas.
- Parece que os bicharocos deram cabo da nossa linha
telegráfica - observou Lowden.
- Pelo que vejo, serão precisos mais de dois dias para
reparações - acrescentou Shaw.
- Oxalá nos escolham para ficarmos atrás a tratar disso -
disse por minha vez.
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- Ná... - duvidou Shaw. - O chefe há-de querer-nos à frente.
- Reparei que o fio não só caiu, mas desapareceu - observou
Darnell.
- Bois, e a esta hora encontra-se em Jericó.
- Queres dizer Wyoming, compincha. Está uma bela manhã, clara, até a Chimney Rock se vê bem. Wayne, quanto falta agora para lá chegarmos?
- Não mo perguntes a mim - protestei. - Parece acerca de
cinco milhas.
- Diabo, está mais longe agora do que há dez dias! replicou Jack, brincalhão.
Liligh deixou três carros e uma dúzia de homens no acampamento, com o encargo de fazerem as reparações necessárias e reunirem-se-nos depois com a carne de
búfalo e as peles. Aos restantes ordenou que se apressassem para partirmos.
- Camarada, ontem, depois de adormeceres, aconteceu uma coisa engraçada - disse Darnell. - Ouvimos todos e ficámos encantados. O Creighton veio para os nossos
lados, à procura de Liligh, e quando o encontrou ordenou-lhe:
"- Liligh, leve alguns homens e vá ver quantos postes estão caídos" - O capataz estava sentado, meio morto de cansaço como qualquer podia ver, mas ao ouvir
a ordem do patrão levantou-se como se o tivessem picado e replicou:
"-Para que diabo, patrão? Não haverá menos postes caídos agora do que de manhã, e nessa altura talvez até haja mais".
"- Quero saber quantos! - berrou Creighton.
"- Bem, Mr. Creighton, não sei como vamos descobri-los esta noite" - afirmou o capataz, muito seguro e calmo. - "Claro que não me arriscaria a mandar os
homens fazer isso agora,
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seria o mesmo que arriscar a minha vida.
"- Contratei-o, a você e a todos, para trabalharem a qualquer hora e toda a noite, se fosse preciso, - continuou o patrão, furioso.
"- Quando avançarmos mais nesta pista não teremos descanso
nenhum, nem de dia nem de noite!
"-Assim será, chefe, assim será. Mas então já alguns de nós descansaremos tranquilamente nas nossas sepulturas ao longo da solitária pradaria". - Estas palavras
devem ter acertado no ponto fraco do patrão, pois ele gaguejou e pareceu sufocar, deitou um olhar de meter medo ao capataz e foi-se embora.

- Caramba, Tom, Creighton é, sem dúvida, um con dutor de
escravos! - exclamei, com ênfase- Mas creio que possui uma espécie de visão que nos falta a nós, pois só um homem assim seria capaz de um trabalho destes.
- Sim, o patrão é formidável - concordou Darnell. Entretanto íamos a caminho, com os carroções espalhados ao

longo da planície e todos os homens com uma tarefa a cumprir e a cumpri-la efectivamente. Encontrámos pequenos grupos de
búfalos pachorrentos, que não nos prestaram atenção especial e seguiram para diante. Eram, sem dúvida, animais tresmalhados
da manada grande.
Agradava-me muito observá-los. Seguia com Tom no último carroção, e enquanto ele conduzia, parando de poste em poste, eu saltava e pregava os pregos afiados
na madeira. Notara que vários búfalos se tinham esgueirado para olharem com curiosidade um ou outro poste e, ao vê-los encostarem-se a eles, lembrava-me da equipa
de reparações que ficara para trás e não me preocupava. Sabia perfeitamente, graças à atitude
misteriosa de Shaw e ao sorriso malicioso de Lowden, que ainda teríamos muito que ver com os búfalos.
212
O trabalho prosseguia dia a dia, razoavelmente, e começámos
a aproximar-nos de Chimney Rock. A pradaria subia sempre,
embora só agora o declive começasse a notar-se. Passei muitos momentos a olhar a rocha alta e esguia que servia de marco na Trilha do Oregão, a lembrar-me de outro
marco maior, a Independence Rock, algures ao longo da Trilha do Wyoming, e a desejar ver pela primeira vez as Montanhas Rochosas.
Todos os dias passavam por nós grupos de búfalos tresmalhados, umas vezes em maior, outras em menor quantidade. As trovoadas tinham cessado, ou parado temporariamente,
e isso favorecia o nosso progresso. O deserto adquirira uma cor mais fresca e mais verde e havia flores por toda a parte, com predominância de berrantes girassóis
que pareciam surgir do chão como por magia. A água continuava a ser abundante e raro era o dia em que não tínhamos de vadear uma torrente. Mas a região continuava
estéril de vida, com excepção dos búfalos.
Ao fim de um dia de bom progresso, Liligh mandou-nos acampar
perto de uma nascente. Como o jantar não estava ainda pronto, afastei-me um pouco para observar os búfalos através dos binóculos. Fiquei petrificado ao vê-los derrubar
os nossos postes telegráficos enquanto pastavam pachorrentamente e avançavam na nossa direcção.
O seu método favorito de proceder parecia ser encostarem-se
ao poste e coçarem os costados com os pregos aguçados que durante tantas milhas, tantos dias e tantas semanas, me esfalfara a pregar. Um enorme macho hirsuto aproximava-se
de um poste, olhava-o de alto abaixo como se dissesse: "Bem, tenho de tratar desta coisa!", e depois esfregava-se contra ele. Sentia os pregos e o caso ficava arrumado:
a lama empastada que tinham no lombo, para não falar nos parasitas de que podiam estar infestados, tornava o contacto das pontas afiadas uma delícia!
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De onde estava via a poeira voar-lhes de cima do couro. Quando um macho enorme se entregava a essa deliciosa operação, outro via-o e imitava-o imediatamente.
Como os pregos estavam pregados a toda a roda do poste, chegava a ver-se três monstros hirsutos no coça-coça, enquanto outros esperavam a sua vez. Claro que, como
era inevitável, os postes acabavam por cair.
Os olhos de lince de Liligh não tardaram também a aperceber-se do que se passava, e as pragas com que amaldiçoou os pobres animais tornaram até o ar mais
pesado. Mandou os vaqueiros, com o meu binóculo, cavalgarem cinco ou dez milhas e avaliarem a extensão dos danos. Depois, levando-me consigo
por nenhuma razão aparente a não ser, talvez, a de o encorajar moralmente, dirigiu-se ao carroção de Creighton. Encontrámos o
patrão atarefadíssimo com os seus telegrafistas.
- Chefe, lamento incomodá-lo, mas os búfalos estão a fazer o
diabo a sete com os nossos postes telegráficos - começou o capataz.
- Não me mace. Não vê que estou ocupado? - berrou Creighton.
- Claro que vejo, mas isso acontece com todos nós - replicou
o velho, irritante. - Só quero saber o que vamos fazer.
- Fazer, homem? ! Mas acerca de quê?
- Estava a falar naqueles malditos búfalos.
- Enxote-os!
Deixámo-nos ficar, impassíveis.
- Por que não obedece às minhas ordens? - gritou o chefe.
- Porque não podemos, com os diabos! É que são apenas cerca
de dez mil, compreende? Temos de deixá-los dar cabo de tudo, como estão a fazer.
- Dar cabo de tudo? !
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- Estão a abater os nossos postes telegráficos.
Neste momento chegou Shaw.
- Vem cá, Shaw - chamou-o Creighton. - Talvez tu fales
claro. Que se passa com os búfalos e os postes?
- Bem, chefe, acabo de fazer uma inspecção ao longo da linha. - respondeu-lhe Shaw, laconicamente, e não sei porquê tive a impressão de que o vaqueiro se
divertia. - HavIa cerca de vinte cinco milhas de postes derrubados.
- Vinte cinco milhas! - repetiu o chefe, incrédulo. - Porque
não me disseram? Fala, vaqueiro!
- Está bem, patrão, falarei, se me deixar. Seguia-nos uma
grande manada de búfalos, que hoje nos ultrapassaram e que derrubaram os postes coçando-se nos pregos que mandou o Cameron pregar.
- Céus! - exclamou Creighton. - Isso é uma catástrofe!
Búfalos a coçarem as costas? Onde já se ouviu semelhante coisa? A coçarem as costas nos pregos! Vinte cinco milhas de postes! Meu Deus, por que não me informaram?
- Mas disseram-Lhe, chefe. Ou melhor, disse-lho eu - volveu o vaqueiro, com extrema serenidade e sem uma contracção sequer
do rosto.
Creighton fitou-o, escarlate. Desatou a disparatar. incoerentemente, e a andar de um lado para o outro. Afastaram-se todos do seu caminho e por fim as suas
palavras tornaram-se suficientemente claras para se perceber o seu significado:
- Vinte cinco milhas de postes derrubados! Seis dias de
trabalho para toda a caravana! E tudo porque apeteceu aos danados búfalos coçar as costas! Tudo porque eu ordenei que se pregassem pregos nos postes! Belo engenheiro
saí! Devia confinar-me a abrir buracos para os barrotes, mais nada. Como se já não tivesse tido aborrecimentos bastantes neste maldito trabalho! Isto é o máximo!
Vinte cinco milhas! Pregos!
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E disseram-me. aconselharam-me! - Voltou-se para o sufocado
capataz e gritou-lhe, rouco: - Liligh, dá-me uma carrada de pontapés, com força!
E, transtornado pela cólera, pelo desgosto e pela vergonha,
o nosso chefe voltou o traseiro para o capataz. Este porém
ficou imóvel, de queixo caído.
- Patrão, perdeu a cabeça, não posso fazer tal coisa.
- Alguém terá de fazê-lo. alguém deverá fazer ainda pior!
Shaw, desmonta desse cavalo e aplica-me tu os pontapés!
- Oh, terei muito gosto! - afirmou Shaw, com um sorriso que
valia a pena ver.
Saltou do cavalo e aplicou tamanho pontapé no patrão, que o
estrondo pareceu produzido por um tambor! Creighton estendeu-se ao comprido, rojando a cara e as mãos pela poeira.
Percorriam-me convulsões às quais tinha medo de sucumbir,
enquanto Darnell e Lowden se agarravam à barriga, como se estivessem prestes a explodir. Os restantes homens encontravam-se divididos entre o medo e o riso. Então
Shaw atirou-se para o chão e rebolou-se, a soltar berros numa voz estrangulada e estranha. Durante um longo momento vimos, paralisados, Creighton levantar-se, sujo
dos pés à cabeça, e limpar a poeira do rosto suado com um gesto violento e colérico.
- Vaqueiro dos diabos - trovejou - não te mandei matar-me!
Estás despedido!
Shaw sentou-se, esperou um momento até se acalmar e depois
declarou, em voz rouca:
- Bem, patrão, o senhor ordenou-me que o fizesse... e sem
dúvida estava a precisar.
- Mas tu... tu... aproveitaste-te da minha confusão,
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e da minha cólera! - gritou o chefe, a gaguejar, mas com
indícios de começar a dominar-se.
O vaqueiro levantou-se devagar e disse, na sua voz arrastada:
- Está bem, patrão, estou despedido, e isso significa que,
pela primeira vez, você perdeu as estribeiras.
- Perdi as estribeiras, eu? - repetiu Creighton, de novo
sufocado pela ira.
- Claro, patrão, o senhor. E isso é mau, pois como raio vai
acabar este trabalho sem mim?
- Saian todos da minha vista, grandes idiotas! - berrou Creighton, como se não pudesse suportar-nos mais. - Todos menos tu, Shaw. Tu vens comigo, pois temos
de conversar!
- Ah! - exclamou o vaqueiro, com o seu sorriso malicioso e
comunicativo. - Assim, sim, já está mais de acordo comigo e eu não me importo de obedecer.
Creighton passou o braço sobre o ombro do vaqueiro e afastou-se com ele.
217
XI
A tão desejada Chimney Rock erguia-se finalmente acima de
nós! Admirei-a do acampamento, a cerca de cinco milhas de distância, alta e grandiosa, banhada pela luz do sol-pôr, que a tornava escarlate no topo e cor
do ouro na base. Após tantas
semanas - tantas semanas que pareciam anos! - de pradaria árida e plana, a alma sentia-se como que liberta ao admirar aquele marco da trilha.
Na manhã seguinte, antes do sol nascer e à luz transparente
da alvorada, pareceu-me uma grande sentinela branca que guiava os viajantes para lugar seguro e para a água pura que havia
perto. Naquele dia colocámos as cinco milhas de postes telegráficos num estado de espírito que se assemelhava muito a uma celebração, esquecidos da dureza do trabalho.
A conformação da Chimney Rock, mesmo sob a sua própria sombra, continuava a ser impressionante. Um cone em forma de vulcão, de rocha cinzenta, subia até
formar um vértice agudo, do qual saía a haste rochosa que dava o nome ao marcho: chaminé. Naturalmente que, para os comerciantes de peles, para os caçadores e para
os emigrantes, o singular significado da Chimney Rock estava mais no que representava do que no seu esplendor como fenómeno físico. Desde que pela primeira vez se
avistava, ao longe, representava para os viajantes o fim da terrível aridez e o começo das extensas e onduladas estepes,
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que conduziam às Rochosas.
Acampámos à sua sombra numa tarde em que o céu se mostrava enevoado e a temperatura amena. O acampamento era de novo pequeno e composto por relativamente
poucos homens, pois Creighton fora caçar com alguns. Era a bem dizer a primeira vez que me lembrava de o patrão aproveitar o tempo com uma distracção. Shaw e Lowden
tinham partido a cavalo, por sua própria iniciativa, sem dúvida para subirem a um ponto alto e observarem a região, e Darnell entregava-se a várias tarefas junto
ao carroção. Notava que Tom se tornara mais silencioso e pensativo desde que nos aproximáramos das terras altas do Wyoming. Já não me importava com a espécie de
protecção imposta que exercia sobre mim, pois embora a princípio me irritasse salvara-me várias vezes de riscos graves. Aprendera, por isso, a considerar os seus
cuidados para comigo sob uma nova luz. Liligh encontrava-se no acampamento, assim como Edney, Houser, Bob Wainwright, Hall Whiting e Cliff Nelson. Um outro grupo
de homens partira com o encargo de desenrolar uma bobine de fio ao longo da trilha.
Sentia-me inexplicavelmente nervoso e vigilante, facto que atribuía à ausência de Shaw e de Lowden e ao pequeno número de homens que se encontravam no acampamento.
Foi por esse motivo, sem dúvida, que descobri um grupo de cavaleiros avançar em direcção a nós, pela trilha acima.
Lembrei-me de Shaw afirmar que conseguia sempre distinguir à primeira vista um grupo de malfeitores, por muito distantes que estivessem. Não era por coincidência
que os indesejáveis da fronteira tinham predilecção por cavalos e vestimentas negras. Os que se aproximavam de nós eram cerca de oito,
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com vários animais de carga na sua frente.
Não gostei do ceu aspecto, mas hesitei em informar Liligh. Este, quando os avistou já muito próximo, ficou imóvel, a observá-los atentamente. Depois, sem
perder a calma, mandou-me chamar Edney, Wainwright e os outros.
- Não vejo o Shaw nem o Lowden, onde estão?
- Foram não sei onde, chefe - respondi-lhe.
- Claro! Por que diabo esses vaqueiros de má morte nunca estão presentes quando preciso deles? Aposto o que quiserem em como estes tipos não vêm com boas
intenções. De qualquer modo, seja qual for o seu jogo, o meu será ganhar tempo.
Já vira uma Quantidade de indivíduos ruins desde que me encontrava na fronteira, mas nenhuns com tão mau aspecto como
aqueles. Pararam a umas sessenta jardas, mais ou menos, e alguns desmontaram para segurarem os animais de carga. Em seguida dois a cavalo aproximaram-se de nós,
um dos quais era um homem robusto e de barba negra, que usava o grande chapéu de tal maneira desabado que os seus olhos pareciam apenas dois pontos negros e luminosos
no rosto agressivo. O que mais me saltou à vista foi o facto de trazer uma espingarda atravessada na sela e duas pistolas, uma de cada lado do corpo.
O seu companheiro era um indivíduo mais novo, alto, magro e
de rosto macilento - texano, se os meus conhecimentos na matéria não me enganavam. O primeiro voltou-se na sela e chamou os outros, com voz alta e áspera:
- Camaradas, ainda aqui há alguma da minha madeira, não a
usaram toda.
Tais palavras surpreenderam-me e Liligh praguejou entre dentes. Wainwright e os outros aproximaram-se, curiosos e aparentemente despreocupados, pois não
vinham armados.
221
- Eh, tipos da Western Union - berrou o barbudo -, onde está
o patrão?
- Se se refere a Creighton, neste momento não se encontra no
acampamento - respondeu-lhe o capataz, friamente. - Mas não se demorará. Entretanto, sou eu que mando.
- Bem, não temos tempo para parlamentar. Segui este pessoal
desde Julesburgo.
- Sim? Pois não nos seguiu muito depressa - volveu Liligh,
cáustico. - Que deseja?
- Vejo que ainda têm cinco carroções de postes e devem ter
utilizado mais vinte. Esta madeira foi cortada da minha propriedade em Julesburgo e quero que ma paguem.
- Ouça, está bêbado ou doido?
- Acho que pode decidir por si próprio, embora isso não faça
muita diferença. Estou aqui para receber o preço da minha madeira.
- Isso é ridículo! - exclamou Liligh, com calor. - Esta madeira foi cortada muito longe de Julesburgo, mas mesmo que assim não fosse, ninguém poderia pedir-nos
dinheiro por ela. Nunca tal se ouviu!
- Ouviu agora o que eu disse! - replicou o outro, em tom ameaçador. - Vim procurá-los para me pagarem a minha madeira, e não estou disposto a perder
muito tempo.
- Ah. então é um assalto!
- Chame-lhe o que quiser , senhor super-intendente!
-Uma nova espécie de assalto, hen? - riu-se Liligh. Ladrões de madeira nas planícies, onde não existem direitos de propriedade. Bem, essa é das boas!
O homem da barba preta observou Liligh um momento, depois
desviou para nós os olhos astutos e, por fim, para o acampamento e para a zona vizinha.
- Junte cinco mil dólares e passe-os para cá, depressa -
ordenou, com rispidez.
222
Receei que Liligh sufocasse ao tentar cuspir o tabaco, gaguejar e praguejar ao mesmo tempo. O capataz avaliava a situação e compreendia que estávamos em
maus lençóis. O companheiro do chefe do bando trazia igualmente a espingarda atravessada na sela, assim como todos os outros homens, e não
restavam dúvidas de que seriam capazes de reforçar as suas exigências à força de tiros.
Não se tratava de uma questão de coragem da parte de Liligh,
o velho capataz era valente e capaz de lutar pelo mais pequeno
motivo. Mas tornava-se evidente não ser de tomar em consideração uma luta, pois não só estávamos desarmados, como éramos poucos. Liligh sabia com certeza onde Creighton
guardava o dinheiro, visto ficar com o acampamento a seu cargo quando o engenheiro se ausentava, e sabia também que o patrão preferiria ceder às exigências dos ladrões
a arriscar-se a que um único dos seus homens fosse ferido. O dinheiro era a última coisa a tomar em consideração naquele trabalho da Western Union. No entanto, para
Liligh, a pílula custava a engolir.
- Não julgue que me engana! - afirmou, decidido -, sei
perfeitamente que é um bandido e que aqueles toros são tanto seus como de qualquer - sobretudo nossos, que tivemos o trabalho de os cortar e transportar. Suponha
que não estou disposto a pagar-lhe os cinco mil?
- Não seria muito inteligente da sua parte - respondeu o outro, com uma gargalhada cruel. - Se se arma em teso, damos cabo de vocês antes que possam causar-nos
dano, portanto, o melhor é pagar depressa. Creio que o seu patrão não gostaria nada de ver aqueles cinco carros de postes desaparecerem em fumo!
Aquilo decidiu Liligh. O velho capataz cambaleou, como se tivesse levado um pontapé no peito, num esforço tremendo para sufocar a fúria que o invadia. Parecia
não haver nada a fazer nem maneira de prolongar a discussão.
223
Pelo meu lado, refizera-me do espanto e, embora colérico também, pensava desesperadamente numa maneira de intervir. Estava resolvido a persegui-los de espingarda
pronta, se nos roubassem e fugissem.
Mas no momento em que, lívido e a espumar pelos cantos da
boca, Liligh ia ceder, ouviu-se um galopar veloz atrás do nosso carroção e, quase instantâneamente, Shaw e Lowden estavam ao nosso lado, depois de fazerem parar
os cavalos tão depressa que voara cascalho por todos os lados.
Vi o cavaleiro magro estremecer violentamente e ouvi-o dizer
em voz baixa e ríspida ao outro:
- Bill, aí está o teu velho amigo. o ranger Shaw. Bem te
avisámos acerca deste negócio!
Shaw pareceu avaliar a situação num golpe de vista e perguntou, com voz fina e cortante:
- Que diabo vem a ser isto, Liligh?
- Um assalto, Shaw. Este tipo afirma que cortámos os nossos postes de madeira que lhe pertencia e Quer cinco mil dólares. Mandou-me entregar imediatamente o dinheiro,
pois de contrário haverá luta. Nunca vi atrevimento maior!
Shaw voltou-se para os homens montados, e embora pudesse ver-lhe apenas o perfil, correcto e firme contra a luz dourada da tarde, avaliei o seu olhar pelo
efeito que produziu nos dois salteadores. Estes mantinham as montadas imóveis e seguravam com força as espingardas atravessadas no arção da sela, como se lhes tivesse
surgido pela frente alguma coisa terrível e perigosa.
- Viva, Bill Peffer - saudou o vaqueiro, num tom que me arrepiou. - Diz-se que é impossível ensinar habilidades a um cão velho, e de facto cá estás tu a
roubar, como sempre!

- Shaw, esta madeira é minha. vão pagar-ma.
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- Claro que vamos pagar-ta, mas não com dinheiro fácil,
miserável ladrão de vacas!
Seguiu-se um momento de intenso silêncio, que me pareceu o período de terrível calmaria que antecede uma borrasca. Lowden, que se encontrava um pouco atrás
de Vance, escorregou da sela - facto de que me apercebi pelo canto do olho, pois sentia-me incapaz de desviar a atenção dos dois protagonistas daquele drama inesperado.
- Conheces este tipo, Vance? - perguntou Liligh. - Pela tua
conversa, assim parece.
- Se o conheço! - respondeu o vaqueiro, com desdém. - É um
hombre reles que meti na cadeia de Brownsville por roubar gado. Fugiu da prisão, depois de matar o xerife, e eis que venho encontrá-lo aqui, na fronteira do Wyoming!
- Calma, espera um minuto, vaqueiro! - pediu Liligh, de mão
levantada. - Creighton preferiria com certeza que eu pagasse a ficar com alguns homens feridos.
Mas, a julgar pela expressão ameaçadora e gelada com que
fitava o assaltante, Shaw nem o ouviu.
- Peffer, uma das coisas que não consegui suportar no serviço dos rangers foi precisamente ter de prender tipos reles como tu em vez de matálos! Devia ter-te
"furado" quando tive essa oportunidade.
- Shaw, não arranjes encrenca aqui! Vamo-nos embora declarou Peffer, com voz rouca e gotas de suor a escorrer pelo rosto lívido.
Tremia da cabeça aos pés e parecia encolhido na sela. De repente, num gesto irresistível, levantou a espingarda que tinha atravessada na sela. Infelizmente
para ele, apontou na direcção errada.
Rápido como um raio, Shaw saltou da sela e, quando reapareceu por detrás do cavalo, a sua arma vomitou lume e fumo. Um dos dois cavaleiros soltou um grito
mortal.
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Não reconheci qual foi, mas o mais robusto estrebuchou. na sela, levantou os braços, largou a carabina, e caiu no chão, onde ficou a contorcer-se.
O segundo cavaleiro, que também tentara o mesmo gesto interrompido pelos tiros de Shaw, caiu da sela como um saco vazio e nunca mais se mexeu. Os cavalos
fugiram enlouquecidos, ao mesmo tempo que o homem barbudo se estendia, enterrava as esporas na areia e ficava imóvel.
Lowden surgiu ao lado de Shaw e correu para a frente, com uma arma em cada mão, a disparar contra os outros assaltantes. A distância era grande e
aparentemente os seus tiros não
surtiram efeito, mas a sua intenção e o grito selvagem que soltou levaram-nos a voltar os cavalos e a partir a galope, arrastando atrás de si os animais de carga.
Acabou tudo tão depressa que mal me apercebi dos pormenores.
Shaw, com a pistola ainda a fumegar, aproximou-se dos dois corpos estendidos. Pouca atenção prestuu ao magro, mas empurrou para trás o chapéu do segundo e olhou-o
longamente. Depois voltou-se, meteu a arma no coldre e caminhou para junto do seu cavalo, que se mantivera imóvel apesar do tiroteio. Fiquei a pensar no que iria
no seu cérebro.
- Chefe - disse a Liligh -, acho que devia tratar ladrões de
madeira como se tratam os ladrões de gado.
- Sim, já vi como vocês, texanos, procedem. Por mim acho
bem, mas só desejo que não saias deste acampamento quando
preciso de ti. Apanhei um calor!
Ao chegarmos às terras altas do Woming, eu pelo menos, românticamente como de costume, convenci-me de que os nossos trabalhos iam continuar de maneira muito
diferente e mais feliz. Mas embora a região fosse mais pitoresca e as árvores, os pássaros, os animais selvagens e a vegetação colorida nas terras baixas, ao longo
dos rios, contrastassem impressionantemente com a monótona aridez do deserto,
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o trabalho continuou a ser u mesmo, com dias de dureza
incalculável, sobretudo porque atingíramos extrema exaustão física e mental. A linha telegráfica avançava agora a subir e cada porção de terreno nos trazia obstáculos
novos. Não nos faltava lenha nem carne fresca para comer, mas em contrapartida éramos obrigados a estar alerta contra possíveis ataques dos índios e tivemos de procurar
postes telegráficos onde eles não existiam. A única companhia que encontrávamos, de quando em quando, eram cavaleiros da Pony Ezpress, os quais nos davam notícias
que mais nos valera não conhecer. A guerra latente entre criadores de gado e vaqueiros do Vale Sweetwater tornara-se realidade, e tudo quanto nos constava acerca
de South Pass servia para fortalecer-nos a convicção de que a linha seria mais difícil de montar naquele lugar do que em qualquer outro.
Os selvagens tornaram-se mais ousados e travámos várias escaramuças com eles. Uma noite em que os vaqueiros tinham ido procurar alguns bois roubados ou tresmalhados,
deixando-me sozinho no carro, tive uma experiência que foi um autêntico pesadelo. Após um dia de trabalho mais duro do que de costume, deixei-me vencer pelo sono,
apesar dos meus esforços para manter-me acordado. Não creio que tenha sido um ruído o que me acordou, mas qualquer coisa estranha e terrível que não sei explicar
perturbou o meu repouso. Estava lua cheia e a luz filtrava-se pela lona do carro, iluminando o seu interior. Abri os olhos e fiquei horrorizado e quase paralisado
ao ver o vulto negro de um índio debruçado sobre o meu leito, de machado erguido, numa imagem sinistra e apavorante. Talvez o violento salto que me percorreu o corpo
fosse instintivo, mas o certo é que quando rolei para fora do catre o machado
abateu-se sobre a almofada onde a minha cabeça repousara naquele mesmo instante. Como se pegasse numa deixa naquele drama da meia-noite, agarrei na pistola e matei
o índio.
Enquanto arrastava o corpo quente e mole para fora do carro,
estremecendo ao sentir o sangue do selvagem manchar-me as mãos, louvei o bom senso que me fizera deitar-me com a arma no cinto. Depois disso não consegui dormir,
pois era ainda demasiado novato para tal. Esperei que os rapazes voltassem escondido debaixo do carro, com a espingarda na mão, a espreitar através dos raios das
rodas e com o ouvido atento a todos os ruídos da noite.
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Assim decorriam os nossos dias e noites, marcados por incidentes que não constavam do programa do trabalho da montagem da linha. Esta, no entanto, erguia-se
dia a dia, semana a semana, implacavelmente.
Mas quando chegámos ao Rio Laramie correu de boca em boca
que ficaríamos ali detidos, pois o rio estava em cheia. Enquanto acampávamos ao princípio da noite fria, um dos nossos homens veio dizer-nos que do outro lado se
encontrava parada uma diligência e vários carros de fretes, e que naquela mesma margem, a pouca distância da nossa, se encontrava a caravana de Sunderlund.
Naquela noite passei muito tempo a andar de um lado para o outro, sob as estrelas, a ouvir o rugir da enxurrada e a deixar-me sucumbir pouco a pouco às doces
esperanças e aos receios que me assaltavam, agora que me encontrava de novo próximo de Kit Sunderlund. Shaw e os outros dois vaqueiros tinham ido não sei onde e
eu achei melhor deitar-me, pois demoravam-se. Não tardei a adormecer, apesar da minha perturbação.
Na manhã seguinte fomos chamados antes do nascer do sol: o
nosso demoníaco e grande chefe Creighton ordenara que atravessássemos o Rio Laramie. Liligh, que conhecia estes rios do norte, levantava as mãos ao céu e entregava-se
a uma raiva impotente. Embora os homens parecessem carrancudos
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e resignados ao que porventura acontecesse, a verdade é que
não me apercebi de qualquer oposição às ordens do chefe. Depois do pequeno-almoço, enquanto Tom e Jack traziam os
cavalos e os bois, Shaw foi comigo observar o rio. Aproximámo-nos do acampamento de Sunderlund onde a intensa actividade parecia significar ter a chegada de Creighton
com os seus soldados e homens incitado o coronel a tentar também a travessia. A manada de gado texano era uma sombra do que fora.
Pouco depois parámos na margem do Rio Laramie. Não fazia
ideia da altura que o caudal normal atingia, mas agora era alto e impetuoso, com uma corrente lamacenta e rápida, cheia de remoinhos, de bocados de madeira e de
lixo. No entanto julgara-o mais largo. Parecia que, do outro lado e um pouco mais abaixo, a corrente alargava e passava sobre o que deviam ser baixios, pois saíam
da água galhos e troncos de árvores, assim como tufos de salgueiros. Distinguíamos, na margem oposta, colunas de fumo azulado, carros e bois e muares a pastarem
na relva.
- Está a subir - disse Shaw, depois de observar o caudal. -
Acho que será melhor atravessarmos imediatamente, pois talvez este sej a daqueles rios que têm uma enchente sempre que há uma trovoada na foz. No Texas vi uma vez
uma parede de água com três metros de altura surgir de repente de uma curva do rio e barrar-nos a passagem a nós, vaqueiros, e ao gado.
- Vance, supunha que a travessia era tremendamente perigosa
- murmurei, pensativo.
- Perigosa? Pois com certeza que é! Ainda não te habituaste
ao perigo? Nunca vi muares nem bois que não soubessem nadar, embora ocasionalmente apareça uma vaca ou um bezerro que se atrapalhe e vá ao fundo. O perigo, aqui,
é a velocidade da corrente e a possibilidade de arrastar os carros para além daquele ponto, por onde seria fácil passar a vau.
229
Enquanto estudávamos a situação, juntaram-se-nos Liligh,
Wainwright e Edney.
- Que te parece, Vance? - perguntou o capataz.
- Ora, chefe, vamos passar e pronto. A caravana do Sunderlund é que talvez se veja aflita. Creio que gostariam de

uma ajuda nossa.
- Sim, o coronel pediu, de facto, ajuda, e Creighton blasonou que passaria o pessoal com armas e bagagens e, ainda por cima, a manada! Como se já não fosse
suficientemente difícil sem essa complicação!
- Conseguiremos. Acho que devíamos entrar o mais acima possível, para podermos deslizar para jusante e sairmos ali, naquele ponto menos fundo. Creio que
vou atravessar a cavalo com o Jack, só para ver como é o fundo e a que altura está. A corrente é veloz. Enfim, na minha opinião devemos atravessar imediatamente
e aconselhar o Sunderlund a fazer o mesmo.
Menos de uma hora depois os carros subiam o rio para o ponto
cerca de cem metros acima do acampamento de Sunderlund, onde pararam à espera de ordens. Quando Tom e eu chegámos, ficámos no meio da caravana e a algumas dezenas
de metros da margem do rio.
Perturbou um pouco o meu equilíbrio verificar que se encontravam à volta dos nossos muitos carros de Sunderlund, mas resisti à tentação de olhar e voltei-me
para o rio. Mais acima dos carros encontrava-se o gado do coronel, que para ali fora levado em forma de cunha, com o vértice para diante.
Os cavaleiros que ladeavam a manada pela esquerda, pela
direita e pela retaguarda, deviam ser uns doze, sem contar com Shaw e Lowden que cavalgavam à frente. Era evidemte que seriam os nossos vaqueiros a conduzir o gado
para o outro lado.
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Não denunciavam qualquer hesitação e os animais também não pareciam assustados.
Quando os tiros e a gritaria começaram a ouvir-se na retaguarda, as reses avançaram e empurraram as da frente para o rio. Escorregaram e caíram na
água, levantando grandes
esguichos, algumas desapareceram para surgir mais adiante, com o focinho de fora. Lowden fazia nadar o cavalo acima da ponta
da manada, e Shaw o dele um pouco mais atrás.
Pus-me em pé no banco do cocheiro, para ver melhor. Apesar de já me haver habituado ao perigo, não conseguia dominar a minha agitação. Antes de a retaguarda
da manada chegar à margem, os animais da frente iam a meio do rio e a descer, um pouco abaixo do local onde me encontrava. A corrente arrastava-os com força. Os
vaqueiros comtinuavam a disparar e a gritar e em breve todas as reses estavam no rio, desfeita já
a cunha, mas aguentando valentemente o puxar da corrente.
Era um espectáculo bonito. Vi uma longa fila de bois sair da água e surpreendi-me com a facilidade com que tudo decorrera. Duzentos metros abaixo do ponto
onde me encontrava, Shaw e Lowden deixaram as águas profundas e avançaram a vau, com os animais atrás. Não me restavam dúvidas de que os chefes da manada seguiam
os vaqueiros, pois estavam também habituados a travessias daquelas.
No que me pareceu um espaço de tempo surpreendentemente
curto, o gado estava todo na margem oposta. Quando sa encontravam todos em terra os vaqueiros cavalgaram para um ponto distante, onde entraram de novo na água.
O regresso já não foi tão fácil, pois devido à inclinação
íngreme da margem do nosso lado tiveram de dirigir-se para o local de onde a manada partira. Foi um espectáculo emocionante, sobretudo porque tive o prazer de o
ver realizado com felicidade.
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Afinal a travessia do gado decorreu em muito melhor ordem e com muito maior precisão do que decorreria a dos carroções. A excitação, a pressa e a algazarra
complicaram tudo. Os primeiros carros a tentarem entrar na água, adornaram e as duas juntas de bois desapareceram da vista.
O chão dos veículos afundou-se cerca de meio metro, mas pouco depois veio à superfície e flutuou, ao mesmo tempo que os bois reapareciam e nadavam, incitados
por um homem de cada lado, montado num macho. Dava a impressão da que não encontravam qualquer dificuldade.
- Camarada, não tenho muita confiança em dois dos meus bois
- disse-me Darnell. - Como já me deram que fazer na água acho
melhor nontares a cavalo e seguires ao nosso lado, para no caso de os bois enguiçarem ou se afundarem eu poder agarrar-me ao rabo do cavalo e tu puxares.
Não faças essa cara, Wayne, o meu cavalo é formidável! Na água o perigo não é grande. Simplesmente não podemos confiar só nos bois e no carro.
- Está bem, Tom. Não me agrada muito a perspectiva, mas... Fui à parte de trás do carro soltar o cavalo de Tom, enrolei
a corda e saltei-lhe para cima, demasiado consciente da
opressão que me apertava o peito e das pancadas apressadas do meu coração.
Montara várias vezes aquele cavalo, acostumara-me a ele e sabia que gostava de mim. Era grande e forte e, pelo que lhe dizia respeito, sentia-me seguro;
receava apenas encontrar-me perante uma situação que não soubesse resolver.
Pensei no entanto que se tratava simplesmente de uma nova aventura, que escapara de outras muito mais perigosas e que precisava apenas de coragem e de reflexos
rápidos para me sair airosamente.
Segui Tom, que dirigiu devagar o carro para o ponto da
partida, onde reinava a confusão e a algazarra.
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As muitas rodas e cascos que haviam pisado a descida tinham-na tornado menos íngreme e de mais fácil acesso.
Quando tomei o meu lugar à direita de Tom tínhamos três carros à nossa frente, todos a preparar-se para partir, separados talvez doze metros uns dos outros.
Enquanto não era preciso iniciar parte das juntas de bois, outras só com pancada avançavam.
O espectáculo dos três carros a entrar na água foi, mais uma
vez, uma coisa digna de ver-se. Os pesados veículos enpurraram os animais para o rio e, como no primeiro caso, a frente afundou-se até ao lugar do cocheiro, com
uma grande chuva de salpicos. Por momentos sustive a respiração, mas os bois vieram de novo à superfície e os carroções flutuaram. O focinho e os chifres dos animais
saíam da corrente remoinhante e os cocheiros seguravam nas rédeas, em pé, e deixavam de
gritar. Em seguida a corrente apanhava-os e arrastava-os rio abaixo, com uma velocidade superior àquela com que se afastavam da margem.
à frente deles flutuavam outros veículos, juntos uns e muito
afastados outros, mas lutando todos para chegarem às águas baixas. Não me parecia que tivessem dificuldades.
Edney, WainWright e Herb Lane alinharam ao lado de Darnell. - Sigam-me em fila indiana, pouco juntos - gritou Herb Lane
aos nossos homens. - Não é conveniente irmos em grupo, o rio está a encher e tem muitos destroços. Vamos!
Uns atrás dos outros, os grandes veículos deslizaram pela
ladeira e entraram na água. Darnell foi o último, não muito longe de Wainwright, e eu não tive de incitar a minha montada. O animal entrou na água, a uma
ordem vibrante do dono, e ficou
apenas com o nariz de fora, fazendo-me mergulhar até acima da cintura. Ao princípio foi um choque para mim, mas mal o senti erguer-se e cortar a corrente com o peito,
233
o nervosismo transformou-se em entusiasmo. Aquele cavalo
gostava de água e sabia nadar! Precisei de segurá-lo com força, para impedi-lo de passar à frente de Tom.
- Tens apenas de tomar cuidado com a madeira flutuante gritou-me Darnell. - Se vires alguma correr na tua direcção inclina-te e afasta-a, mas se fores com
atenção poderás evitá-la facilmente.
Passado pouco tempo ultrapassámos a linha de folhagem da margem e estávamos embrenhados no rio. Tudo parecia correr bem, no que nos dizia respeito. Darnell
preocupara-se com a junta de bois da frente, mas por enquanto portavam-se à altura. Mantive-me a par de Tom, sentindo-me já à vontade no cavalo. à nossa frente seguiam
os três carros de Creighton, havia depois um espaço em branco e, a partir daí, os carroções espalhavam-se por aqui e por ali.
Ao olhar rio acima notei que a corrente parecia ter engrossado e que havia agora mais madeira flutuante do que quando iniciáramos a travessia. Rodhei para
a margem e verifiquei que os carros alinhavam apressadamente, com toda a gente a gritar e a gesticular. Dir-se-ia que estavam todos mais alarmados do que antes,
talvez devido ao engrossar do caudal. Falei a Tom no caso e ele respondeu-me recear que o ponto máximo da enchurrada se aproximasse e que os carroções que não passassem
imediatamente tivessem dificuldades.
Os carregamentos de postes estavam alinhados na margem, à espera de oportunidade para atravessarem, e atrás deles uma barafunda de bois e carros - carroções
dos soldados, três ou quatro de Creighton e os restantes, em maior número, da caravana de Sunderlund.
- Cuidado com aquela árvore flutuante! - gritou-me Tom. -
Alguns dos ramos devem estar submersos, e se algum te apanha será odiabo.
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Tratava-se de uma árvore pequena, aparentemente morta, pois não tinha folhas nos ramos, que rolava na água. Aproximou-se muito de mim, e depois um dos seus
ramos prendeu-se no fundo e parou momentâneamente, o que bastou para que eu e Tom saíssemos do seu caminho.
Começava a recear que não acertássemos na zona de ágúas baixas, agora já próxima, mas tranquilizei-me ao ver Herb Lane alcançá-la e os bois começarem a afastar-se
a vau. Wainwright seguiu-se-Lhe de perto, e quando o carro de Edney ia a meio dos baixos a junta da frente do carro de Tom encontrou pé, retesou-se, mergulhou, firmou
os traseiros potentes e tirou a segunda junta e o carro das águas profundas. O meu cavalo não tardou também a encontrar pé, facto que saudou com um relincho de satisfação.
Passámos a vau até à margem e, uma vez em terra firme, Darnell parou para deixar descansar os bois e olhar para a outra margem.
- Belo espectáculo, hem Wayne? - gritou-me. - Se aquela
balbúrdia de carros conseguir atravessar sem novidade, será um milagre. Não sei como é que os cocheiros do Sunderlund ainda estão tão verdes depois desta longa viagem,
mas a verdade é que estão. Talvez nunca tenham encontrado no caminho rios com enchentes como aqueles de que o Shaw nos falou.
- É, de facto, um espectáculo! - concordei.
O que me admirava mais era o contraste entre o silêncio da
chegada e a barulheira da partida. Na margem oposta, onde me parecia que se amontoavam muito depressa e muito chegados uns aos outros, era tal a barafunda de gritos
e berros, que os ouvia perfeitamente onde me encontrava, a uma distância tão grande.
- Bem, camarada, tenho de pôr-me a andar daqui - declarou
Tom, pegando nas rédeas. - Aquele carro da fremte cai-me em cima se não me despacho.
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- Também acho, Tom, vai-te embora. Mas... e eu? Que devo
fazer?
- Acho que deves ficar aqui, um pouco abaixo do ponto onde saímos, pois talvez possas ser útil a alguém. Não te preocupes com o Pés Alados, esse cavalo deve
ser parente de algum pato e tomará conta de ti!
Quando Tom meteu pela estrada enlameada que levava à floresta, e o carro seguinte se aproximou, dirigi-me para um ponto mais abaixo e guiei o cavalo para
a faixa de areia, até se encontrar frente à corrente impetuosa. Não sabia de que utilidade poderia ser se um carro fosse arrastado para além daquele ponto, mas estava
empenhado em descobri-lo, se essa necessidade surgisse.
Dali podia observar à vontade a procissão que descia o rio,
assim como verificar que o caudal aumentara entre trinta e sessenta centímetros desde que iniciáramos a travessia. Os vários troncos que haviam encalhado no baixio
tinham sido arrastados e a água subira muito entre a vegetação e os salgueiros. Em seguida a madeira flutuante aumentou em quantidade.
Vi uma grande árvore - um choupo-do-canadá a julgar pela
ramaria verde - rolar no meio da corrente, rio acima, para além do ponto de partida. Os cocheiros teriam de evitar mais aquele perigoso obstáculo. Um a um os carros
desceram o rio, em fila indiana, os bois encontraram-se e içaram-nos, saíram da água e seguiram pela encosta suave até à floresta. Depois começaram a chegar a dois
e dois e a três a três, calculando as respectivas posições de maneira a não falharem o baixio.
Em poucos minutos todos haviam abandonado a margem oposta e
uma flotilha de carroções cobertos de lona branca descia suavemente o rio. Fez-me lembrar as proezas dos primeiros pioneiros, que tinham desbravado o desconhecido
Oeste sem terem nada por onde guiar-se.
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com todos os veículos na água, - entre trinta a quarenta, cessara a algazarra que caracterizara o êxodo. Só se ouvia um ou outro grito ou tiro ocasional.
Apercebi-me de que acima do ponto onde estava, se encontrava um grupo de espectadores, alguns deles índios montados, todos profundamente interessados na travessia.
Olhei de novo para o outro lado e vi a grande árvore vinda mesmo no meio dos carroções. Atingiu alguns, mas felizmente passou adiante. A certa altura, dois
soldados fizeram mergulhar as montadas, agarraram a árvore e puxaram-na ou retardaram o seu avanço até a corrente a afastar do caminho do carro que pusera em perigo.
Este procedimento, porém, foi prejudicial ao carro que vinha atrás e ao do lado exterior, ou seja o mais avançado na corrente. Os quatro bois deste último não pareciam
aguentar-se muito bem.
Precisamemte neste momento houve um congestionamentto entre os carros de trás, mais próximos da margem, e os soldados e vários homens montados apressaram-se
a seguir para esse ponto, sem dúvida para ajudarem os cocheiros a libertarem os bois emaranhados. A situação parecia grave, mas calculei que, quer se soltassem uns
dos outros quer não, o grupo de carroções flutùaria até ao baixio.
No entanto o pequeno carro do exterior não conseguiu esquivar-se à árvore, a qual se lhe alojou firmemente contra as rodas. Vi o tronco do choupo-do-canadá
espreitar por detrás do veículo, e que me deu a impressão de ser suficientememte longo para que o seu peso fizesse girar a árvore e a soltasse assim do carro. Mas
tal não sucedeu e o veículo saiu do
alinhamento com o baixio onde se encontrava. Dentro de poucos momentos - se não se libertasse da árvore - seria arrastado para as águas profundas e tumultuosas que
rugiam para lá da curva do rio.
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Incitei Pés Alados para dentro de água, sem fazer a menor ideia da atitude a tomar. Pensava apenas que tinha de alcançar o carroção e salvar o cocheiro
antes que a corrento o levasse.
Aproximei-me o suficiente para verificar que o condutor era um negro que puxava as rédeas com quantas forças tinha e dizia palavras incoerentes aos bois. Uma fracção
de segundo depois fiz a espantosa descoberta de que ao lado do negro se encontrava Kit Sunderlund, lívida e de olhos arregalados.

Uma onda de sangue quente percorreu-me o corpo, os pensamentos baralharam-se-me e, por momentos, fiquei como que paralisado. Até que ela me viu e reconheceu,
agitou freneticamente ambas as mãos e murmurou uma palavra doce e trémula que não consegui perceber, mas que me pareceu um apavorado pedido de socorro.
Esporeei Pés Alados e em breve me encontrei a par com o veículo, e afastado dela cerca de quinze jardas ou mais. Voltei então o cavalo e descemos com a corrente,
aprocimando-nos gradualmente do carro. A junta de bois da frente, quase submersa, e a segunda, nada podiam fazer com aquela enorme árvore alojada contra as rodas.
Descobri então, com um estremecimento de pavor, que já só a ponta do focinho da segunda junta saía da água e que a parte da frente do carro se afundava,
ao mesmo tempo que a retaguarda se erguia. Foi nessa posição que veículo e bois ultrapassaram o baixio e deslizaram para a curva do rio.

As águas revoltas, com enormes ondas enlameadas, iam do meio
da corrente até à margem oposta, e se o carroção fosse apanhado por elas estaria, evidentemente, perdido. Acreditei, todavia, que conseguiria salvar o cocheiro e
a rapariga. O perigo, para mim, consistia em aproximar-me demasiado da árvore entalada nas rodas e, assim, prender o meu cavalo nos seus ramos. Por isso tentei passar-lhe
para diante, ao mesmo tempo de que me acercava.
- Agora, Sambo - gritei ao negro, com todas as minhas forças
-, salta do carro, agarra a rapariga e nada até eu poder apanhá-los. Não me atrevo a aproximar-me mais, pois um dos ramos pode prender-me o cavalo.
O negro largou as rédeas e, quando se endireitou para ajudar
a jovem, tinha a água pelos joelhos. No mesmo instante o carro
estremeceu violentamente, o tronco embateu nele com grande estrondo e atirou o cocheiro e a rapariga para a água.
Submergiram ambos, vieram à tona um pouco afastados e
tornou-se evidente não ser o negro bom nadador. Kit, pelo seu lado, nadava o suficiente para evitar chocar com o carro e com os bois, mas corria o grande risco de
ser atingida por algum dos ramos que giravam à sua volta. Compreendia que precisava de agarrá-la imediatamente e, por isso, esporeei Pés Alados na sua direcção.
Quando estendia os braços para apanhá-la, um dos ramos girou debaixo de água, não me atingiu por um triz, e bateu em Kit. Consegui no entanto agarrá-la e,
conduzindo o valente animal para fora da zona em que se arrisccava a colidir com os bois ou com o veículo, arrastei-a para ponto seguro. Pés Alados afastava-se com
boa velocidade quando qualquer coisa deteve o seu progresso. Pensei que um dos ramos nos apanhara finalmente, mas voltei-me e descobri que o negro se agarrara à
cauda do cavalo e não a largava. Assim que icei a cabeça e os
ombros da rapariga para cima dos meus joelhos e nos pusemos a caminho de terra, livres enfim do carro e da árvore, senti que me abandonava a mão de gelo do medo
que até aí me sufocara.
De súbito ouvi um grande estrondo e, ao oLhar para trás, vi
que a corrente apanhara o tronco da árvore que paralisava o carro e a soltara. O veículo endireitou-se, com a segunda junta de bois ainda a nadar, e saiu por sua
vez da corrente.
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Mais cedo do que ousara esperar, Pés Alados encontrou fundo
e, com um tremendo impulso e um relincho, levou-nos para terra. Desmontei quando a água me dava pela cintura e tomei Kit nos meus braços. Tinha sangue numa têmpora,
mas estava consciente. Já em terra pu-la no chão verificando que não devia estar gravemente ferida, pois mantinha-se de pé, embora com a minha ajuda. Pés Alados
seguiu-nos e o negro saiu também da água, são e salvo.
Um pouco adiante, a valente segunda junta de bois arrastava para a margem os companheiros afogados e o carroção. Notei que encontravam pé, pois as cangas
e os cachaços elevaram-se, mas o carro, com a parte da frente submersa, encalhou.
- Tivemos sorte, Sambo - observei. - Ainda podes salvar o
carro. Corre lá acima e traz homens para te ajudarem.
E comecei por meu turno a subir a pequena encosta, amparando
a jovem.
- Bem, a coisa esteve feia - arquejei -, mas safámo-nos!
Sente-se bem? Não está ferida?
- Eu... eu... creio que estou viva! - murmurou baixinho, agarrada ao meu braço. - Houve qualquer coisa que me atordoou. e depois engoli uma quantidade...
daquela água imúnda.
- Caramba, que sorte não ter sido pior! - exclamei. - Venha,
não está a andar muito bem.
- Creio... creio que tenho de descansar um pouco - titubeou,
ao mesmo tempo que caía de joelhos.
Inclinei-me para ela, a ampará-la, mas Kit largou-me e deitou-se na relva. Ajoelhei ao seu lado e, ao fitar aqueles olhos negros, dilatados, que me olhavam
com uma expressão intensa e inexplicável, senti-me dividido entre o medo de que estivesse ferida e a consciência aguda da sua beleza e desamparo e do facto maravilhoso
de a haver çalvado.
240
- Wayne Cameron. salvou-me outra vez a vida! - murmurou.

- Assim parece - respondi, o mais despreocupadamente que
pude. - Isto é que eu apanhei um hábito de me encontrar perto quando você está em perigo, hem?
- Não brinque! - implorou-me. - Esta... esta segunda vez é
demais!
- Está enervada, é natural. Mas não se preocupe, querida..
- Querida? - repetiu com aqueles enormes olhos negros sem me
largarem.
- Bem... sim, claro - gaguejei. - Sou um daqueles infelizes
que... enfim, que nunca se curam de... de...
Não sabia como acabar a frase, com os olhos dela postos em mim. A verdade é que estava fora de mim, embora não tanto que me esquecesse do seu estado.
- De quê? - perguntou-me, com mais energia.
- Não tem importância, Kit. Agora tenho de levá-la daqui,
está toda molhada.
- Wayne... de quê?
- Bem, se insiste aí vai: do encanto irresistível de uma
rapariga que pensou coisas más de mim.
- Oh, perdoe-me, por favor! - suplicou. - O Vance Shaw procurou-me a noite passada e o que me disse... Oh, nunca esquecerei! Fez-me sentir tão pequena, tão...
Perdoe-me, Wayne, deixe-me explicar.
- Bem, Kit Sunderlund, pensarei no assunto - respondi-lhe, muito sério. - Mas agora não fale mais, tenho de levá-la para a caravana. Vejamos, tem
um golpe e uma contusão na têmpora,
mas o aspecto não é mau e a cicatriz não se verá.
- Como se agora a minha beleza tivesse alguma importância!
241
- tem, a beleza é uma alegria eterna, não se esqueça! Deixe-
me ajudá-la a subir para o cavalo.
Sentei-a de lado na sela e, depois de certificar-me de que se seguraria, peguei nas rédeas e segui em ziguezague através dos salgueiros e dos choupos, com
o coração alvoroçado.
Guiando-me pelo barulho, encontrei facilmente o caminho para
a sua caravana, assim como Sunderlund, que atravessara o rio
sem novidade e procurava freneticamente a filha. Cortei cerces as suas extravagantes demonstrações de gratidão e indiquei-lhe o ponto onde Sambo devia já
estar a tentar desencalhar o
carro. Depois parti com Pés ALados, contente por poder afastar-me.
Quando cheguei de novo à margem, o último terço dos carros
vinha ainda no rio, mas tudo indicava que concluiria a travessia sem dificuldade. Para meu grande alívio, os quatro carroções de Creighton cheios de postes telegráficos
tinham chegado ao baixio. O meu primeiro impulso foi retroceder para tirar a limpo em que pé haviam ficado as minhas relações com Kit Sunderlund, mas cruzei-me com
Tom e Shaw. Tom soltou um grito de alegria e agarrou-me, enquanto o vaqueiro me amaldiçoava entre dentes. Depois apareceu também Creighton, encharcado, roto, sujo,
mas radiante.
- Tenho andado a procurar-te, Cameron. Felizmente os postes atravessaram todos, e essa era a minha maior preocupação. Não falta ninguém, mas vários homens
estão feridos e, por isso, é melhor despachares-te com a caixa dos socorros.
Acharia muito mais agradável, para não dizer emocionante, deixar-me ficar na margem a ver os carros atravessarem o rio e subirem para terra do que tratar
dos que tinham ficado feridos na travessia, mas ordens são ordens, e mesmo que não fossem teria sacrificado a minha sede de emoção ao cumprimento
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do dever. Na verdade sentia-me, até, agradecido por poder cumpri-lo.
Estive até ao pôr do sol a tratar de todos os feridos, felizmente sem gravidade. Quase todos os carros de Creighton haviam atravessado sem prejuízos e o
mesmo acontecera com a caravana de Sunderlund.
O veículo de miss Sunderlund tinha sido puxado para terra
sem que a sua casinha de rodas sofresse danos materiais, a criada negra fora encontrada desmaiada no interior do carro e a junta da frente morrera afogada.
Até parecia impossível que,
em semelhantes circunstâncias, o carroção se salvasse.

Quando acabei o meu trabalho fui ver o fio telegráfico já
estendido através do rio e preso a um poste, e perguntei a Darnell como tinham conseguido passá-lo. Explicou-me que Shaw
voltara a atravessar o rio montado no seu cavalo e levando o dele, Darnell, pela arreata. Ao chegar ao outro lado, atara uma ponta do fio à sela do seu cavalo, falara-lhe
docemente, montara no de Darnell e mergulhara na corrente, seguido pela sua inteligente montada. Creighton ficou tão satisfeito com o êxito total, que içou uma das
suas bandeirinhas americanas no topo do primeiro poste telegráfico a oeste do Laramie e gritou, com a sua voz de trovão:

- Avante para o Forte Bridger!
243
XII
Afastara-me do nosso acampamento para procurar Mr. Creighton quando Vance Shaw me alcançou. Sorriu-me, tendo nos olhos um brilho que lá não via há muito
tempo, e disse-me:
- Vi-te tirar a Kit Sunderlund do rio, esta manhã. Santa
Maria, que sorte têm certas pessoas!
- Sorte? Como podes chamar-lhe sorte, a não ser que queiras
dizer má sorte?
- Bem, Wayne, acontecer uma coisa dessas logo a seguir à conversa que tive com ela, é demasiado bom para ser verdade! exclamou. - Sim, porque aquela altiva
dama ficará para sempre de joelhos na tua frente!
- Maravilhoso, do teu ponto de vista.
- Bem, a Kit há muito estava a pedir isto mesmo, mas não
deixa de ser formidável. Verifiquei que está terrivelmente apaixonada por ti.
- Vance, não venhas com essas conversas! O que eu quero saber, de uma vez por todas, é se tu estás apaixo nado por ela.
- Eu, apaixonado por ela?! Não, com a breca! - os seus olhos
olhavam para longe, para qualquer coisa que ficava para além do horizonte, com uma expressão de intensa tristeza.
245
Seguiu-se um silêncio pesado e eu acabei por perceber que fora um idiota chapado e que Shaw não amava Kit Sunderlund, mas Ruby.
- Vamce, conta-me o que disseste à Kit - pedi.
- Esqueci-me, sabes? Mas fi-la passar um mau bocado respondeu, voltando a fitar-me.
- Está bem, se não queres não digas. Mas não te parece que
deves, pelo menos, uma explicação ao teu amigo no vato?
- Bem, Wayne, só o Lowden sabe o que se passa, mas vou contar-te a ti também. No Texas estive tão apaixonado pela Kit Sunderlund, que nem via! Talvez ela
tivesse culpa, e talvez não tivesse, macacos me mordam se sei! Mas agora, as vezes que a procurei, foi apenas porque resolvi meter o nariz no que te
diz respeito. Compreendes, conhecendo-a e conhecendo-te, fiz o possível para mantê-los afastados até ter a certeza absoluta de que sentia por ti o mesmo que sentes
por ela, e não o que sentiu por mim, no Texas. Camarada, podem dizer-te o que te disserem acerca dos motivos por que deixei o Texas, mas acredita que a verdade é
só uma: parti por sua causa.

- Tudo isso está muito bem - murmurei, esforçando-me por
parecer despreocupado. - Mas como explicas que a encontrasse nos teus braços, na outra noite?

- Bem, ianque, afinal ainda tens muito que aprender. Fazes
demasiadas perguntas. No entanto, vou dar-te a resposta. Um segundo antes de chegares acabava de dizer a Kit que, embora já não fosses novato do que dizia respeito
ao Oeste, o eras ainda, e muito, no coração. Parece que, precisamente por te amar, gostou de ouvir-me dizer isso, e o que viste foi a sua maneira de agradecer-me.
No teu lugar, amigo, esperaria pela lua cheia que iluminará a pradaria e procuraria Kit sem perda de tempo! É que, meu valente compincha ianque, bastar-te-á abrir
a boca para teres nos braços aquela maravilhosa rapariga!
246
Afastei-me de Vance Shaw, meio atordoado. Talvez fosse uma sorte não ter encontrado logo os carros de Sunderlund, os quais estavam a alguma distância dos
nossos, rio acima, perto da margem. Os negros lavavam a louça à volta de uma grande fogueira e Sunderlund conversava e fumava com os sócios. A recepção que me fizeram,
ele e os seus amigos, foi das mais cordiais:
- Bem, Sunderlund, se quér que lhe diga, tivemos todos muita
sorte - afirmei, em resposta às suas palavras de gratidão. Segundo Creighton, tratou-se apenas de mais um acidente de um obstáCulo vencido. Enfim, mas eu vim cá
para saber como está Kit Sunderlund.
- óptima, ninguém diria que esteve prestes a afogar-se! -
exclamou o coronel, satisfeito.
- Mr. Cameron, por que não vem certificar-se com os seus próprios olhos? - perguntou Kit, do carro, com voz alegre e quente.
Transpus os poucos passos que me separavam da extremidade do veículo, e encontrei-a sentada, banhada pela luz da lua e pelos reflexos da fogueira. Apesar
dos extravagantes pensamemtos que comstantemente me ocorriam a seu respeito, foi uma revelação para mim vê-la assim vestida de branco e inundada de luz.
- Oh! - exclamei. - Se foi capaz de pôr-se tão bonita, é
porque com certeza está bem, esquecida do susto que apanhou.
- Bem? - repetiu, com certa agressividade. - Isso é relativo. Se quer dizer que estou feliz... é verdade.
- Agrada-me muito. Receava que se sentisse abalada, pois
levou pelo menos uma pancada na cabeça e deve ter sido um choque.
- Choque! Se foi! Tenho estado aqui, esperançada em que
aparecesse para poder falar-lhe. Disse que pensaria, lembra-se?
247
- E pensarei, se vestir um casaco e der um pequeno passeio
comigo. A noite está bonita, menos fria do que é costume e quase tão clara como se fosse dia.
Pouco depois Kit saiu do carro, emvolta num comprido casaco escuro e com uma touca na cabeça. Deu-me o braço e começámos a caminhar ao longo do rio. Os seus
passos eram firmes e seguros, o que me fez reflectir que devia ser uma rapariga robusta, para passar por tão grande susto sem perder a compostura.
Sentia-me muito embaraçado, pois tinha a impressão de estar
na companhia de uma estranha - de uma estranha alta e encantadora, com o perfil bonito banhado de luar e madeixas de
cabelo castanho agitadas pela brisa. Gostaria de ser capaz da falar, mas mantinha-me calado, mudo. Sabia que aquela hora ia ser um momento crucial da minha vida
e esforçava-me por sufocar as minhas loucas esperanças o mais sensatamente que me era possível.
Percorremos considerável distância sem trocarmos uma palavra e parámos num local pitoresco, sob um grande choupo-do-canadá,
porque um tronco caído nos obstruía a passagem.
- Não devia trazê-la para tão longe, Kit - murmurei. - Mas
pode sentar-se aqui, este lugar é seco.
Mas Kit não fez menção de sentar-se e ficou a olhar-me,
banhada de luar, sem me largar o braço.
- Não estou tão enervada como quando lhe falei lá em baixo
na margem do rio, depois de me salvar, e por isso tenho menos coragem. - múrmurou, com certa hesitação.
- Não precisa de ter coragem para me dizer seja o que for.
- Engana-se, necessito de mais coragem do que imagina afirmou, sem desviar de mim os olhos escuros. - Podemos ter muito que dizer um ao outro, mas primeiro
preciso de dizer-lhe eu qualquer coisa.
248
De explicar-lhe e pedir-lhe, de novo, perdão.
- Está bem, se insiste. Não me importo de confessar-Lhe que, tempo atrás, me agradaria muito tal situação. Agora nada tenho a perdoar-lhe, para ser
feliz basta-me estar consigo.
- Não aumente o meu tormento. Dois motivos explicam a minha
fraqueza. Toda a minha vida lidei com vaqueiros, que são uns marotos encantadores. Meu pai diz que o Texas não seria o que hoje é sem os vaqueiros. São grandes lutadores,
como já deve ter aprendido, mas não têm moral. Habituei-me a que me procurassem depois de estarem com qualquer outra rapariga e me falassem de amor, me jurassem
eterna devoção e me pedissem em casamento. Vance Shaw procedeu assim muitas vezes, no entanto, apesar da devassidão do seu carácter gostei muito, muito dele. quase
o amei. Vance é cavalheiresco e excelente rapaz, mas não podia compreender-me. Espero que você me compreenda, Wayne.
- Eu compreendo-a, Kit, mas estou convencido de que julgou
mal o Vance. Continue, porém, e acabe o que tem para dizer.
- Essa foi uma das minhas fraquezas. A outra... a outra foi
uma coisa que ignorava possuir: o ciúme. Compreendi quase à primeira vista que você era o homem para mim. Posso confessar-Lhe mais tarde, se quiser, o que senti.
tudo o que senti, mas tive ciúmes. Quando o acaso quis que espreitasse para o vosso carro e visse aquela rapariga de olhos grandes quase despida - bonita, sem dúvida,
muito bonita, mesmo -, deixei-me consumir por uma paixão escaldante, terrível. Imaginei que estivesse apaixonado por aquela linda bailarina, para minha eterna vergonha,
confesso que imaginei mais, até. A noite passada o Vance fez-me ver não só o meu horrível erro,
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mas também que sou uma desprezível ciumenta. Era o Shaw, afinal, quem a amava. Que louca fui!
- Bem, Kit, se falar a aliviou, ainda bem. Claro que o Vance
tencionava casar com a Ruby. O singular nessa rapariga era que na sua situação desesperada apelava para o instinto de virilidade que existe em todos nós. A sua beleza,
a sua juventude, a sua personalidade e, acima de tudo, a sua triste situação, impressionaram-nos a todos. Seria capaz de fazer

tudo por ela! Avalio o que vai no coração do Vance por isto apenas: desde que Ruby partiu tornou-se um homem diferente.
- Wayne, só espero que me defenda como o defende a ele -
murmurou docemente. - E agora, estou perdoada?
- Kit, estava perdoada antes de falar - afirmei, beijando-lhe a mão.
- Então que mais havia?
- Não a compreendo, simplesmente.
- Que foi que me chamou na margem do rio?
- Oh, foi apenas um descuido, natural naquele momento.
Acredite, Kit, a situação foi terrível para mim.

- Mas se foi um descuido... - começou.
- Não quis dizer que fosse um descuido em sinceridade, acho
apenas que não devia ter sido tão familiar ao dirigir-me à altiva beleza sulista!
- já recebi muitas vezes esse tratamento, mas quase nunca com meu consentimento e nunca com a emoção que senti quando Lho ouvi a si.
- Posso perguntar que emoção foi essa? - perguntei-Lhe com
voz rouca, esforçando-me ainda por manter-me calmo.
- Amor...
A resposta foi espontânea e irresistível.
- É uma querida rebelde!
- Se sou uma rebelde... estou vencida.
250
E então, como se os mesmos pensamentos e impulsos nos guiassem, encontrámo-nos nos braços um do outro. Para mim os seus beijos foram o epítome de toda a
beleza e maravilha deste grande Oeste, perdi a noção do tempo e do lugar, da lua que se reflectia no rio, do murmúrio das águas, do uivar dos coiotes, do vento a
sussurrar entre os choupos. Quando despertámos do abençoado transe, o olhar extasiado de Kit demonstrou-me que se passara o mesmo com ela.
- Querida, acho que devemos regressar ao acampamento, onde
creio que será melhor dizer ao seu pai e pedir-lhe o consentimento.
- Wayne, tem o consentimento garantido! - afirmou, a rir. Meu pai diz que você é um ianque que ele admira. Mas, no fim de contas, não deverá pedir-me, primeiro,
a mim?
- Mas, Kit, julguei que não era preciso. Depois de tudo o
que lhe disse... julguei que tinha percebido que estava a pedir-lhe que casasse comigo.
- Não, querido, não percebi bem. Uma rapariga tem de ser pedida... Aceito-o, Wayne, e... sinto-me indizivelmente feliz! Oh, se soubesse as horas que passei
acordada, a torturar-me por sua causa!
- Não pode ter sofrido mais do que eu. Estamos, então noivos?
- Claro que estamos, cavalheiro, e não me esquecerei! Tem um
anel?
- Não, minha senhora, não tenho. E lamento dizer-lhe que,
nesta terra incivilizada, não faço ideia onde poderei arranjá-lo.
- Aqui tem este -- disse-me com doçura. - Era de minha mãe.
Use-o até poder dar-me um -, e enfiou-me o anel no dedo pequenino, onde coube à vontade. - Agora voltemos para o acampamento. Direi ao meu pai. Teremos muito que
falar.
251
Em breve estaremos no Vale Sweetwater! Querido, quando acabar o trabalho na Western Uníon vá procurar-me lá.
O forte Laramie ocupava uma posição pitoresca e dominante na
margem norte do Rio Laramie. Era um edifício grande, grosseiro mas solidamente construído de boa madeira, com uma torre alta, na frente, e dois bastiões nas extremidades.
Quando olhei o forte pela primeira vez vi os soldados a patrulharem a plataforma existente em redor desses bastiões, de espingarda ao ombro, de sentinela. Montes
verdes desciam até à margem do rio, num belo contraste com a monótona pradaria que percorrêramos durante tanto tempo. Na retaguarda, na encosta do monte, havia um
acampamento de Sioux, com as tendas altas e cónicas, quase brancas, a brilhar ao sol. Acampámos bem afastados do forte, e Sunderlund, com a sua grande caravana,
acampou ainda mais longe, rio abaixo.
Este forte - o maior e mais famoso da fronteira - fora erigido em 1841. Era uma paragem principal da Trílha do Oregão e ainda local de encontro de
tribos índias e caçadores.

Ao fim do dia, quando o nosso trabalho terminou e o Forte
Laramie ficou telegraficamente ligado ao Leste, os oficiais e soldados quiseram demonstrar a sua gratidão a Creighton e aos seus homens e improvisaram uma celebração.
Barnes, o cavaleiro da Pony Express que travara amizade com os vaqueiros e comigo, chegou nesse dia e jantou connosco.

- Tenho muito que lhes dizer, rapazes - declarou, quando nos
sentámos em redor da fogueira. - South Pass é um vespeiro, vocês vão ver-se aflitos quando lá chegarem. Se não têm cuidado e não se afastam da cidade depois de escurecer,
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assim como dos antros de jogo, roubar-lhes-ão tudo quanto tiverem e provavelmente ainda Lhes darão uma pancada na cabeça: Ouvi opiniões contraditórias acerca da
conta em que a Western Union é tida em South Pass: a maioria das pessoas com quem falei consideram a montagem do telégrafo uma ideia grandiosa, que ajudará a tranquilizar
o Oeste, mas constou-me que também há quem seja contra o telégrafo, por motivos que não consigo imaginar. Deus sabe as encrencas que vão ter para passarem o Sweetwater
e o Pass sem terem de preocupar-se com o branco, mas tenho o pressentimento de que também terão de contar com ele.
As outras notícias que Barnes nos transmitiu encheram-nos,
porém de alegria: Brigham Young e os seus jovens mórmones levavam rapidamente o fio da Western Union para Leste, na direcção do Forte Bridger, e a equipa que trabalhava
a leste de Carson City, na direcção da Cidade do Lago Salgado, também progredia esplêndidamente. Era uma corrida, para ver quem terminava primeiro.
- Deixem-me repetir-Lhes, vaqueiros, e tu também, Cameron,
que se o que ouvi é verdade, o negócio de gado no Wyoming ocidental vai ser uma grande fonte de riqueza: Claro que não se tirará ouro das ruas, como em South Pass,
mas haverá uma fortuna para cada um de vocês!
Durante vários dias, depois de partirmos de Forte Laramie, avistei paisagens de colorida beleza através de um véu rosado. A luz ambarina que parecia
pairar como um véu transparente
sobre os vales, os altivos montes cor de púrpura, as escarpas agrestes e cinzentas e os rios brilhantes, que deslizavam por entre margens orladas de choupos-do-canadá
verdes e dourados -
toda esta beleza me pareceu consequência feliz do meu amor. Mas ao trabalhar do romper do dia ao cair da noite,
253
extenuantemente, pelo rio acima, compreendi que os meus sentimentos talvez exagerassem a beleza, mas que ela existia, estava ali. e aumentava à medida que progredíamos
para oeste.
Quanto mais subíamos no interior do Wyoming, mais frias se
tornavam as noites. Era a geada que, de manhã cedo, dava às folhas tons dourados, escarlates e castanhos, emprestando todos os dias maior colorido à paisagem. Acabámos
com a carne de búfalo que nos restava, excepto a que fora transformada em pemmican, e substituimo-la por carne de veado e de antílope e, até, de urso. Cheguei à
conclusão de que um bocado de lombo de urso novo era pitéu tão saboroso como um bife de alcatra de búfalo.
Foi nesta região que a nossa jornada decorreu melhor. Chegámos quase sem darmos por isso a Independence Rock, o
mais famoso marco da Trilha do Oregão, e saudámos o aparecimento do Sweetwater com grande gritaria.
Ao subirmos para acampar num belo ponto do rio
perto do local onde a trilha contornava uma esquina agreste " da grande rocha, fomos atacados de surpresa por um bando de
Cheyenes. Lutámos a coberto dos nossos carros, e a esplêndida pontaria dos nossos homens, sobretudo dos vaqueiros, depressa deu ao bando de selvagens a lição que
mereciam. Mantivemos guarda dupla durante toda a noite, mas os índios não voltaram.
Na manhã seguinte, ao nascer do sol, quando os vigias de
Liligh garantiram que os Cheyennes haviam partido, subi, com Tom, ao cimo de Independence Rock. Era uma pilha de granito cinzento, com o aspecto de um mosaico de
rochas reunidas irregularmente, que se elevava pelo menos a trinta jardas acima do solo. Daí desfrutei do excelente panorama do Sweetwater, um rio claro que serpenteava
pelo vale acima, assim como da impressionante vista da região agreste através da qual montáramos a linha telegráfica.
254
- Oh, Tom - exclamei, suspirando profundamente. - É grandioso!
- Bem, camarada, é bonito, mas estás a olhar na direcção
errada. Espreita para ali.
Seguindo o seu dedo estendido, desviei o olhar para noroeste e para cima, para onde julgava ser o céu. A atmosfera matinal
era extremamente límpida e transparente, e quando ví uma maravilhosa linha branca, acidentada, recortar-se no horizonte, terminar numa brecha larga e erguer-se de
novo, pura e cortante contra o azul do céu, imaginei observar uma série de nuvens ampliadas. Nunca vira, porém, nuvens como aquelas. Abaixo dessa linha escarpada
havia uma cadeia negra em ziguezague, terminando ambas na brecha a que me referi, para recomeçarem na direcção do sul. Comecei a compreender não se tratar de nuvens.
- Camarada - disse o meu amigo, com uma voz que parecia vir
de muito longe -, estás a ver pela primeira vez as Rochosas. Aquela é a Wind River Range, a cadeia de montanhas mais bonita do Oeste. A brecha, além, é o Pass de
que tanto tens ouvido falar, por onde passaram os primeiros caçadores e exploradores. South Pass, a cidade mineira, fica abaixo desta ponta do lado direito. Ali,
vês os picos brancos erguerem-se
de novo, mas na direcção sul.
O espectáculo era tão maravilhoso, tão grandiosos os montes
da cadeia principal das Montanhas Rochosas, que fiquei sem fala. Desviei a custo o olhar das alturas e voltei-o para baixo, para o fundo da Rocha, onde vi os carroções
brancos, as muares e os bois a pastarem, as colunas de fumo azul que subiam para o céu e o rio claro a brilhar entre as margens douradas e escarlates. O Vale Sweetwater
serpenteava por entre os montes cor de pürpura para confundir-se, muito ao longe, numa neblina azul escura, para além da qual as duas grandes cadeias de montanhas,
divididas pela passagem
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que entre elas se abria, se erguiam para o céu infinito. Quando desci da rocha e me encontrei de novo em terra firme,
quase não podia acreditar no que vira. Tom deu-me nova prova da realidade do presente, ou seja de que me encontrava num local que seria eternamente histórico, ao
chamar-me a atenção para as inscrições talhadas nas superfícies lisas da rocha. Por toda a parte onde havia espaço para gravar um nome ou uma data, havia inscrições.
Algumas eram indubitàvelmente muito antigas, outras, em menor quantidade, mais recentes. Todos os viajantes que passavam por Independence Rock e tinham tempo, lá
deixavam para sempre o seu nome.
Regressei imediatamente ao carro e, com um machado e um dos célebres pregos "coça-búfalos", gravei na pedra as minhas iniciais e as da minha namorada, acrescentando
depois as dos meus camaradas. Ri de mim próprio, acusei-me de sentimentalista, mas não esqueci que a emoção enriquece as experiências da vida.
De todos os nossos acampamentos, aquele foi o que mais nos custou a abandonar. Até Creighton disse desejar que os outros acampamentos por onde ainda passaríamos
fossem como aquele. Mas embora o caminho pelo Sweetwater parecesse paradisíaco, o trabalho de abrir buracos, erguer postes e atulhar de terra e rocha as covas abertas
continuava a ser moroso e duro. Sentíramos sempre qualquer coisa a espicaçar-nos, mas esse qualquer coisa transformara-se agora no trabalho já realizado: quase oitocentas
milhas de linha telegráfica montada e a receber mensagens! Trabalhei possuído por essa certeza inspiradora e pela recordação da encantadora rapariga que conquistara,
e tão grande era a influência desses pensamentos que os dias passavam como se não existissem.
De tal maneira me deixava absorver pelos meus sonhos,
256
enquanto cumpria os meus deveres, que perdi uma emocionante descoberta, para a qual Darnell me chamou a atenção: o Sweetwater estava cheio de trutas, algumas do
tamanho do meu braço! Como adorava pescar, todas as noites, após o trabalho, perseguia gafanhotos, atirava-lhes acima o meu chapéu e usava-os como isca para as trutas
grandes. Parecia outro sonho, mas a verdade é que todas as vezes que lançava um destes enormes gafanhotos no Sweetwater se verificava um clarão dourado e vermelho,
um remoinho na água, e apanhava uma grande truta glutona.
De toda a viagem, estes dias passados ao longo do Sweetwater, foram tão maravilhosos que nem os trabalhos mais duros poderiam estragá-los. Para mim ficaram
inesquecíveis. A beleza, a cor, a natureza bravia, os celvagens recortados em
silhueta nos penhascos, os sinais de fumo, a interminável e sempre diferente maravilha - recompensavam-me largamente de quanto sofrera e eram a realização dos meus
sonhos.
257
XIII
Por mim, não avaliei a distância de trilha que nos faltava
percorrer para alcançarmos o Rio Verde ou o Forte Bridger, onde esperávamos encontrar os mórmones que trabalhavam para o Leste, mas não pude impedir-me de ouvir
os homens de Liligh discutirem o assunto. Darnell tornava-se mais silencioso e atento à medida que mos aproximávamos do cenário da sua ruína e onde certamente
o aguardariam complicações. A sua devoção
por mim, porém, nunca enfraquecia. Era uma amizade diferente da que me dedicavam os vaqueiros, ao ponto de eu recear que Tom me considerasse uma espécie de herói.
A Trilha de Oregão subia sinuosa e gradualmente pela longa
encosta. O levantamento dos postes e dos fios levava agora mais tempo por milha, mas para compensar esse óbice o nosso chefe obrigava-nos a levantar de madrugada,
com um frio de rachar, e a acampar só quando a escuridão já não nos permitia avançar mais.
Os dias tornavam-se mais curtos, mas as horas de claridade
proporcionavam-nos o melhor tempo de toda a viagem. O sol continuava a brilhar, com uma temperatura agradável, e ao meio-dia chegava mesmo a ser quente. Mas desaparecia
cada vez mais cedo atrás dos picos escarpados e orlados de prata, e a partir desse momento o frio aumentava, quase de minuto para minuto. A nossa grande esperança
e intenção era atravessar o South Pass e descer o espinhaço do desfiladeiro
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antes do Inverno, o que parecia possível com o andamento que levávamos. Com o correr dos dias fomos deixando para trás a luz ambarina da região baixa, a qual foi
substituída por uma luz austera e sem cor, que se animava apenas com a maravilhosa transformação do poente. Quando os últimos raios de sol desapareciam, espalhava-se
pela encosta um negrume frio que trazia consigo o vento da noite, que gemia por entre as coberturas de lona dos carros. De noite a abóbada do céu adquiria um azul
profundo, salpicado do branco gelado das estrelas. Era belo, mas eu preferia as altitudes mais baixas.
Agora trabalhávamos menos sós do que desde o começo da
aventura. Só uma caravana pequena nos ultrapassou, mas todos os dias passavam carros de carga, diligências, homens montados com animais de carga e, naturalmente,
os cavaleiros da Pony Express.
Parecia-me que a maioria dos meus camaradas dirigia o olhar esperançoso para o Pass, mas o meu sonhador anelo pelo futuro levava-me a fitar demoradamente
a encosta que descia até ao Vale Sweetwater, com a fita ondulante e refulgente do rio a deslizar por entre as margens douradas. Era ali que estava o meu coração
e parecia-me que, mesmo que nunca tivesse conhecido Kit Sunderlund, seria lá que gostaria de viver.
Subimos devagar a encosta, como uma serpente grotesca, a
estender incansavelmente a linha telegráfica. Havia já algum tempo que víamos o fumo amarelo e negro da grande britadora
que assinalava as minas de ouro de South Pass. Estávamos a uma semana de trabalho duro desse objectivo quando, certa manhã, Vance Shaw regressou à caravana, após
a viagem diária de inspecção que fazia à nossa frente.
Desta vez desmontou ao lado do nosso carroção,
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onde eu e Ton trabalhávamos mais ou menos perto de outros homens.
- Más notícias, camaradas, notícias que me deixaram espantado. Jack, vai buscar o Liligh e o Herbe Lane, mas não fales no que acabo de dizer. Se o patrão
te vir e fizer perguntas, não te dês por achado.
Darnell baixou a cabeça e vi o rosto ensombrar-se-lhe. Ansiava por crivar Vance de perguntas, mas desisti. Pouco depois Jack voltou com Liligh e o encarregado
da caravana de carros, Herb Lane. Os seus olhos denotavam curiosidade, mas a sua atitude não traía qualquer ansiedade, embora não fosse de bom augúrio o facto de
o cavaleiro do Texas os mandar chamar.
- Bem, homens, reunam-se à minha volta, de modo natural, e
ouçam-me - começou Shaw, acendendo devagar um cigarro. - Ainda esta manhã pensava que tudo corria muito bem, mas agora surgiu um obstáculo: Talvez não tenha importância,
talvez vocês, camaradas, se riam dos meus receios, mas a verdade é que me provocou um dos meus pressentimentos e eu odeio-os, pois batem sempre certos.
- Muito bem, Shaw, deixa-te de rodeios e desembucha! -
ordenou Liligh.
- Viram-me voltar pela trilha, não é verdade? Tinha ido
seguir uma pista deixada por cavalos que há algum tempo me traz desconfiado. De manhã cedo retrocedi ao longo da linha e encontrei um poste caído - não abatido a
machado, mas serrado -, com um fio cortado e um isolador a menos. Achei o caso estranho, pois até agora nunca nos abateram postes desta maneira. Era, portanto, trabalho
do branco. Vi marcas de botas na poeira, feitas a noite passada e de diferentes tamanhos: marcas de botas que não são de cavaleiros, têm cardas grandes, que são
novas para mim. Pareceu-me que quem quer que as deixou trazia dois cavalos de sela e um de carga.
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Bem, segui-lhe a pista mais cinco milhas para a retaguarda da linha e encontrei outro poste abatido, exactamente da mesma maneira, e outras cinco milhas adiante,
mais ou menos, um terceiro. Como as marcas dos cavalos não seguiam mais para Leste, achei que não valia a pena prosseguir. Os sinais entravam na trilha vindos do
lado de cima da encosta e segui-os até uma mata a cerca de uma milha e, daí, a uma pequena clareira onde dois homens com um animal de carga acamparam a noite passada
e partiram de manhã cedo. Alimentaram os animais com grão, o que me pareceu muito estranho.
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Daí entrei de novo na trilha, ultrapassei os nossos carros
e segui para diante, até perder a pista que seguia. Quando o
orvalho secou na relva tornou-se-me difícil e moroso continuar a fazê-lo. Claro que podia segui-los se tivesse tempo, pois
achar pistas é a minha especialidade. Fiquei muito admirado com tudo isto e gostaria de saber a vossa opinião.
- Bem, isso ajusta-se com as minhas próprias suspeitas,
acerca das quais nunca falei ao patrão. Só pode significar uma coisa: alguns brancos, por motivos que ignoramos, pretendem impedir o envio de comunicações telegráficas
nossas para o Leste.
- Foi o que supus - aquiesceu Shaw, expelindo argolas de
fumo.
- Quem poderia querer causar contratempos desses ao Creighton? - indaguei.
- Tom, tu que conheces esta região, talvez faças uma ideia -
sugeriu Shaw.
- A mim parece-me muito provável que seja obra de certos
patifes de South Pass.
- É alguma coisa, mas não explica o caso.
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- Agora não faz muita diferença - afirmou Liligh -, pois Creighton não dispõe de nenhum telegrafista e diz que, embora pudesse tentar o envio de mensagens,
não seriam perfeitas. No entanto, de um dia para o outro deve chegár o telegrafista que vem na diligência, e então, se a linha estiver cortada e impedir a transmissão
de mensagens importantes, será um bico de obra.
- Talvez seja melhor não nos preocuparmos muito enquanto não
verificarmos se a maroteira prossegue esta noite ou amanhã sugeriu Herb Lane.
- Também me parece, embora seja esperar contra toda a esperança - concordou Liligh. - Entretanto mandarei um carro fazer as reparações necessárias, sem o
Creighton saber.
- Concordo que será melhor não dizer ao patrão, se pudermos
evitá-lo - afirmei, convencido. - Dirá que é outra picada de mosquito, mais um acidente da montagem, mas muitas picadas de mosquitos podem deixar um homem doente,
assim como muitos acidentes destes são capazes de abatê-lo. Creio que já todos notaram como Creighton se tornou nervoso e magro e perdeu mais peso que qualquer de
nós. Fisicamente tem trabalhado tanto como os homens, mas sobrecarrega-o ainda a responsabilidade mental e moral. É maravilhosa a maneira como aguenta, no entanto
não é nenhum super-homem e devemos poupá-lo.
- De acordo - aquiesceu Liligh. - Shaw, tu, os vaqueiros e o
Cameron vigiam a retaguarda ao longo da linha, de noite, e tentam descobrir alguma coisa. Depois informam-me do resultado.
O trabalho prosseguiu como até aí, com o chefe na ignorância
do novo atentado. Tom acordou-me à meia-noite e, a pé, envoltos nos casacões grossos e armados de espingardas, percorremos cerca de cinco milhas para a retaguarda,
sem ouvirmos nem vermos nada que nos causasse suspeitas.
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Voltámos ao acampamento e acordámos Shaw e Lowden. Estes foram buscar os cavalos, envolveram-lhes as patas em trapos e prepararam-se para partir.
- Ainda faltam algumas horas para começar a clarear - disse
Shaw. - Percorremos cerca de dez milhas, espiar e escutar à noite é a nossa especialidade. Mas se temos de haver-nos com espertalhões conhecedores da região, vai
ser trabalho duro.
Afastaram-se na noite fria e melancólica, sem se ouvir o
barulho das ferraduras. Fiquei um bocado com Tom ao pé do
lume, a aquecer as mãos e depois deitámo-nos. Quando acordámos era dia claro e soalhento, e a encosta relvada e os maciços de salva brilhavam, brancos de orvalho.
Tomávamos o pequeno almoço quando os vaqueiros voltaram, tendo tomado a precaução de surgir do Oeste e cada um deles com o corpo de um antílope atravessado
na sela. A carne fazia jeito, sem dúvida, mas era evidente que pretendia dar a impressão de que tinham ido caçar. Tiraram a sela aos cavalos e almoçaram sem
fazer comentários.
Pouco depois Liligh, Lane e Bob Wainwright, que tinham reparado a linha na véspera, procuraram-nos cheios de curiosidade.
- Então, índio escanzelado, que novidades tens? - indagou
Liligh.
- A mesma coisa, mas pior - respondeu-lhe Shaw, a enrolar um
cigarro.
- Pior? Mas pior como? Não podia ser pior!
- Os camaradas Tom e Wayne percorreram a pé várias milhas à
retaguarda do acampamento e não encontraram nada. Depois saí eu e o Jack, com as patas dos cavalos entrapadas, e percorremos devagar, parando muitas vezes para escutar,
cerca de quinze milhas. Também não vimos nem ouvimos nada. Ao regressarmos, tínhamos já percorrido cinco milhas e começava a romper o dia, encontrámos três postes
derrubados, com os fios cortados e os isoladores tirados, exactamente como ontem. Havia entre eles intervalos de várias milhas. Depois do último poste serrado a
pista dos cavalos seguia para norte, mas até um Comanche se veria aflito para descobri-la. De resto, creio que não seria inteligente da nossa parte mostrarmo-nos
interessados em segui-los. Estes tipos são peritos e devem observar-nos de qualquer esconderijo.
- Três postes abatidos e os fios cortados em três lados! -
exclamou Liligh, com sarcasmo. - É apenas isso? Cheguei a pensar que tivessem abatido todos os postes!
- Não perca as estribeiras, Liligh - respondeu Wainwright. -
Que são uns tantos postes abatidos todas as noites para tipos como nós?
- São muito! - afirmou Liligh. - Ontem foram precisas oito
horas para reparar os estragos, e hoje ainda serão precisas mais. O chefe não tarda a querer enviar mensagens, e como raios julgas tu que o fará? Sobretudo agora,
que não queremos que saiba.
- O caso parece não ter remédio, mas nós tentaremos por todos os modos resolvê-lo. Talvez esta noite ou na próxima eu e o Jack encontremos os engraçados,
e então vão ver quanto
Lhes custa!
Mas a sorte estava contra os vaqueiros. Durante mais três
noites seguidas percorreram a trilha, enquanto eu e o Tom fazíamos o mesmo, a pé, durante metade da noite, mas sem resultado. Havia sempre postes serrados, cada
noite um a mais do que na anterior. Durante esse período aproximámo-nos quinze milhas da zona mineira e, na quarta noite, acampámos no lado do monte para além do
qual ficavam as primeiras minas conhecidas por Atlantic e que eram uma sucursal das de South Path, poucas milhas mais distante. Por incrível que parecesse, encontrávamo-nos
a um dia ou dois de outro dos nossos grandes objectivos.
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Não era menos excitante pensar que estávamos quase a passar pela mais famosa, sinistra e fabulosamente rica de todas as minas de ouro.
Entretanto, já quase todos os homens da caravana estavam ao corrente das depredações feitas na linha telegráfica. Só Creighton continuava na ignorância,
pois milagrosamente conseguíamos ainda ocultar-lho. Mostrava-se tão feliz que nenhum de nós tinha a coragem de dizer-lhe que, mesmo que tivesse telegrafista, nos
últimos quatro dias a Western Union não conseguiria transmitir quaisquer mensagens.
Naquela noite, segundo nos contaram de manhã, Shaw e Lowden haviam vigiado todo o terreno agreste ao norte da pista e descoberto, numa mata frondosa, uma
pequena fogueira. Aproximaram-se como índios, tentaram apoderar-se dos dois homens que junto dela se encontravam, a fim de descobrirem quem estava por detrás do
corte dos postes. Travara-se porém, luta e dela resultara a morte de um dos homens e a fuga do outro para a floresta.
Ao regressarem, os vaqueiros descobriram mais três postes
serrados, presumivelmente por outra equipa de malfei tores cuja pista, como puderam verificar à luz do dia, não condizia com a dos dois homens. Estas notícias encheram-nos
de consternação e os vaqueiros não conseguiam esconder a cólera. Shaw afirmava que não se tratava de um caso da pouca monta, levado a cabo por alguns patifes para
satisfazerem as suas conveniências, mas que existia uma organização grande nos bastidores.
Naquele dia levámos o fio telegráfico por cima do monte quase até a Atlantic e acampámos à beira da trilha, no cume. O dia de trabalho fora curto, avançáramos
apenas três milhas, e isso deu-me tempo para me interessar pelas minas de ouro.
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Vista do cimo do monte, era um lugar notável e diferente do quanto imaginara. à minha frente estendia-se uma ravina larga e profunda ao lado da qual
serpenteava a trilha, que
atravessava uma corrente tumultuosa e ziguezagueava pelo outro lado acima, numa ladeira íngreme. Aqui e ali viam-se maciços de abetos e a meio da descida erguiam-se
inúmeras e estranhas cabanas de feitios diferentes ìntercaladas de tendas. Mais abaixo, as cabanas tornavam-se maiores e, finalmente, davam lugar a enormes e toscos
edifícios de madeira, todos com a frente voltada para o vale.
Paralelo à torrente branca e revolta e às árvores que a ladeavam, abria-se um imenso fosso que subia a ravina até ao sopé da montanha. Era neste fosso, nas
suas margens e por toda a parte à sua volta, que se viam homens de um lado para o
outro, tantos, tão coloridos nas suas camisas vermelhas e aparentemente a trabalharem com tanto frenesi, que se assemelhavam a um exército de formigas. Ali estava,
sem dúvida, uma amostra do que eram as minas do ouro do South Pass.
Olhar para baixo deixava-me sem respiração. Pensar que aquele lugar estava apenas a dez milhas do Vale Sweetwater e do rancho de Kit Sunderlund! Vi também
a estrada de que me haviam falado e que seguia a corrente através da ravina, saindo pela parte mais baixa.
Regressei ao carroção e não me cansei de falar aos meus camaradas nas minas de ouro. Tentava dizer-lhes o que pareciam, excitadamente, quando Darnell nos
chamou a atenção para a chegada do cavaleiro da Pony Express. Era o nosso amigo Barnes, que desmontou para entregar correio a Creighton. Conversaram uns momentos
e, depois, Barnes correu ao nosso
encontro.
- Que raio se passa com aquele tipo? - perguntou Shaw, levantando-se. - Já vi muitos indivíduos com aquela expressão,
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de facto excitado, mas aposto as esporas em como não traz más notícias - asseverou. - Eh, vaqueiros, cheguem-se cá todos! chamou Bar nes, ao chegar junto de mim.
- Estou cheio de pressa e não terei tempo para repetir o que quero dizer-lhes. Shaw, não sei se o assunto te diz mais respeito a ti do que aos outros, mas escuta.
Na minha viagem para oeste pela South Pass, há três ou quatro noites, vi aquela pequena, a Ruby, com a qual um de vocês andava de amores.
Os vaqueiros pareceram fulminados e eu soltei uma exclamação
sonora.
- Conheci-a antes de vocês, em Grand Island - prosseguiu o
cavaleiro, com os olhos postos em Shaw. - Era uma garota simpática e digna de pena. Agora vi-a em South Pass e ela também me viu, mais: reconheceu-me. O rosto iluminou-se-Lhe,
acenou-me, mas nesse momento alguém a puxou para fora da janela. Sim, puxou! Não me olhes dessa maneira, vaqueiro, tenho a certeza do que digo. Não só a vi perfeitamente,
como ela me reconheceu.
Por estranho que pareça, foi para mim que Shaw se voltou neste momento pungente, talvez por saber da intensa simpatia que a rapariga também me inspirava.
Fechou os olhos e as lágrimas jorraram-lhe por entre as pálpebras cerradas, ao mesmo tempo que espasmos convulsivos lhe transformavam o rosto e os seus dedos
me apertavam o braço como se fossem de aço.
- Sabia que trazias boas notícias, Barnes, não me enganei! -
exclamou Lowden. - Quase se pode dizer que salvaste este pessoal, homem! Mas onde foi que viste Ruby?
- Não sei ao certo, Lowden, é esse o mal. Ia a toda a velocidade, pois gosto de exibir-me na cidade, e vi-a de relance, ao passar velozmente. Tentei lembrar-me,
mas sei apenas que estava quase a meio da estrada que vai da estação da Express àquela fila de casas todas apertadas
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umas nas outras, na rua onde corre o ribeiro. Era num andar de cima, não esqueçam. Hoje, ao passar por lá outra vez, olhei com atenção o primeiro andar da grande
casa de jogo e vi meia dúzia de janelas: todas podiam ser aquela onde vi Ruby. No entanto vi-a, compete a vocês encontrá-la. Boa sorte e adeus.
Shaw recompôs-se imediatamente. Era a primeira vez que traía
os seus sentimentos na minha frente, e a maneira como o fez permitiu-me avaliar o significado que para ele tinham as notícias de Barnes.
- Compincha, creio que temos de esquecer os fios telegráficos durante um bocado - declarou concisamente.
- Jack, vai buscar os cavalos e sela-os.
Pouco depois afastavam-se os dois encosta abaixo, na direcção das minas de ouro.
- Caramba, Tom, não podemos ficar aqui sentados! - exclamei.
- Que faremos?
- Acho que devemos segui-los. Por mim não me importo, com estas barbas, ninguém me reconhecerá em South Pass. Vou buscar o cavalo, tu vais nele e
seguirei a pé.
- Não, iremos os dois a pé, se não arranjarmos outra maneira
de lá chegar.
- Passam carroções entre os dois acampamentos, podemos
vê-los agora a subir o monte. Talvez seja melhor irmos devagar. teremos tempo para pensar.
- Tens razão, Tom. Estou tão contente por saber onde a Ruby
se encontra, que nem consigo pensar como deve ser. Anda, vamos.
- Está bem, mas leva a arma. Se o meu pressentimento bater certo, precisarás dela. Mete um punhado de balas na algibeira esquerda do casaco.
Começámos a descer no momento em que Shaw e Lowden chegavam ao cimo da encosta oposta e cavalgavam pelo cume do monte,
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recortados contra a nuvem de fumo amarelo que vinha da mina.
- Camarada, já viste muita acção na fronteira, mas o que vais encontrar aqui talvez seja diferente - avisou-me Darnell. - Não percas a cabeça; ouve
o que te disser ou observa-me.
- Palavra que não me lembro de me sentir num estado destes!
- confessei. - Não estou assustado, nem excitado, nem Louco,
como vos dizem; sinto apenas uma espécie de expansão interior. - Bem, camarada. aconselho-te a que serenes e desças das
nuvens.
Descemos rapidamente a encosta e não tardámos a chegar às primeiras cabanas. Algumas mal chegavam para um homem se mover lá dentro, mas dos telhados de todas
saía o canudo da chaminé.
Ultrapassámos uma fila larga destas cabanas e chegámos a uma
rua de razoável largura. onde começavam os edifícios maiores e mais cómodos. Por cada loja e armazém havia vários saLoons, todos com dísticos fantásticos pintados
ou pregados sobre as portas.
Mais abaixo, no ponto onde a rua voltava para atravessar as
pontes sobre o fosso e o rio, havia casas ainda maiores, algumas pintadas e verdadeiramente pretensiosas. Uma tinha o nome de Repouso do Mineiro, e a seguinte, muito
maior, o de Mina de Ouro. O último edifício desse lado parecia um armazém de boas proporções.
Viam-se vários homens, alguns deles mineiros, mas a multidão
que víramos do cimo do monte trabalhava na mina.
Lembrei-me de entrar no armazém e fazer uma pergunta.
- Prefiro ficar cá fora, a ver quem passa - afirmou Darnell. Entrei e abordei um homem de meia idade e ar importante, que
devia ser o comerciante.
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- Pode dizer-me se sabe alguma coisa acerca de um tal Coronel Sunderlund, que acaba de instalar-se no Vale Sweetwater, num rancho próximo daqui?
- Tenho o prazer de informá-lo de que Sunderlund esteve aqui
várias vezes, a última das quais ontem.
- Esta rua vai ter ao seu rancho?
- A direito! Não tem nada que errar, o rancho está bem à
vista, no ponto em que a estrada entra no vale.
- Muito obrigado. Quanto tempo se leva para lá chegar?
- O Sunderlund leva menos de uma hora, mas aquela parelha
preta que ele tem é rápida como um raio!
Voltei para junto de Tom, entusiasmado com a ideia de estar tão perto de Kit e de que talvez a visse em breve, se se oferecesse oportunidade. Conversámos
um bocado, ao mesmo tempo que olhávamos quanto se passava à nossa volta, sem perdermos
nenhum pormenor. Pouco depois apareceu um carro vazio, mandámos parar e o cocheiro convidou-nos alegremente a subir. Sentei-me nuns sacos e Tom encostou-se ao banco
do cocheiro, que crivou de perguntas.
A tarde ia a meio e o sol estava já muito quente. A subida
por aquele lado da ravina era menos íngreme e, de vez em quando, grupos de pinheiros impediam-nos de ver o vale. Ao chegarmos ao topo, porém, verificámos que, tão
longe quanto a nossa vista alcançava, trabalhavam mineiros
activos como abelhas. Não havia um único espaço ao longo do rio em que não estivessem dois ou três homens de cada lado metidos na água. Olhar para eles causava-me
arrepios. Quando chegámos ao cimo do monte verificámos que a estrada percorria cerca de uma milha de terreno plano e, depois, conduzia a outro fosso, aparentemente
muito mais largo.
A grande britadora de ouro atraiu-nos imediatamente a atenção total, com as grandes nuvens de fumo amarelo e negro que dela saíam. Não se assemelhava a nada
do que
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vira no capítulo de altos fornos ou de moinhos, parece apenas uma confusão de vigas e traves, grandes tanques redondos e construções quadradas com canos grandes
e pequenos a correr em todas as direcções. Ouvimos o estrépito da maquinaria muito antes de chegarmos e pouco depois vimos homens a andarem de um lado para o outro,
atarefados.
Para lá da britadora a estrada descia e curvava para a esquerda, contornando um cotovelo do monte ondc se erguiam numerosas cabanas como as que víramos em
Atlantic. à direita abria-se um grande vale de forma triangular, literalmente coberto com as habitações dos mineiros. Algumas eram estranhas, outras engraçadas,
outras ainda frágeis, mas davam todas a impressão nítida de serem apenas abrigos provisórios. Mais adiante havia outro rio, onde também formigavam homens.
Ao transpormos a curva, o cocheiro informou-nos de que ali
era South Pass. Surgiu aos meus olhos espantados nada mais, nada menos, do que como uma cena de ópera cómica, em grande escala. Tinha duas ruas largas e duas filas
de edifícios de todas as cores imagináveis, algumas até azuis ou cor-de-rosa. A rua e os passeios estreitos, de madeira, estavam
congestionados de vultos em movimento. Nun dos lados viam-se veículos enfileirados, rua abaixo, Notei muitos letreiros pintados, mas estava longe e não consegui
lê-los.
- Há ali uma cavalariça, se quiserem alugar um carro -
informou-nos o cocheiro. - Aquele edifício de pedra cinzenta, na encosta do monte, é o banco, e aquela grande casa, à esquerda, o armazém geral, onde podem comprar
tudo, no outro lado, à esquina, fica o melhor hotel. Esta estrada volta ali e estamos na velha Trilha do Oregão outra vez, atraveSsa o ribeiro e sobe. Suponho que
vocês querem divertir-se, hem?
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- com certeza, se encontrarmos um lugar onde se jogue suficientemente fraco para convir às nossas bolsas.
- Há por aqui jogos de toda a sorte, mas, aviso-os, a maior parte deles são desonestos. Afastem-se dos antros lá de baixo. os mais embonecados são os piores.
Agradecemos ao homem e apeámo-nos defronte do armazém. Os degraus largos que contornavam o edifício proporcionavam-nos
melhor ponto de observação do que o hotel do outro lado da rua, e por isso os escolhemos para primeiro pouso. Olhámos para todos os lados, esperançados em encontrar
Shaw e Lowden. Passava muita gente na rua, na maior parte mineiros com os seus fatos grosseiros e coloridos. Notámos, porém, que havia uma grande variedade de pessoas
e, para nossa surpresa, bom número de mulheres.
Fitava cada transeunte com um olhar rápido, que não registava nada, com pressa de que acontecesse qualquer coisa, nem sabia bem o quê. Não creio que fosse
nervosismo, mas a verdade é que não me ajudava nada imaginar Shaw no meio da rua congestionada, com a pistola a cuspir fogo e fumo. Imaginei-o a correr pela
rua abaixo, com Ruby nos braços, seguida por
Lowden a manter os perseguidores em respeito com as duas pistolas.
No momento em que vi uma rapariga amorenada parada à porta do armazém, a olhar-me com olhos assustados, compreendi que o que esperara começava a acontecer.
A rapariga reconheceu-me, avançou impulsivamente e depois
parou e olhou à sua volta, com nervosismo, como se receasse ser vista. Era Flo, a rapariga do salão de Gotemburgo, com quem eu dançara.
- Olha, Tom, a Flo! - murmurei, acotovelando Darnell.
- Tens razão, é a rapariga que era amiga da Ruby.
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Talvez o nosso pressentimento não fosse mau, afinal de contas. Dirigi-me para junto da jovem, seguido por Tom.
- Olá, Flo! - saudei-a, com ansiedade. - Lembra- de nós?
- Lembro. Você é Wayne Cameron, e reconheço também o seu
amigo vaqueiro - respondeu-me. - Há semanas que esperava vê-los aparecer por aqui.
- Graças a Deus, Flo! Isso deve querer dizer que ainda é
nossa amiga. O cavaleiro da Pony Express, Barnes, disse-nos que vira a Ruby aqui, em South Pass. O Shaw e o Lowden andam a procurá-la, assim como nós.
- Entrem no armazém. Arrisco a vida se me vêem a falar com
vocês.
Conduziu-nos para dentro do estabelecimento, onde havia um pequeno espaço entre o balcão e os fardos de mercadorias que proporcionava uma espécie de esconderijo.
Fitámo-la e tirámos as nossas conclusões ao vermos o seu ar apreensivo e ao ouvirmos o tom abafado da sua voz. Nem a pintura conseguia disfarçar-lhe a palidez. Parecia
mais velha e menos bonita do que da primeira vez que a vira.
- Ouçam - começou -, Rúby foi obrigada a sair de júlesburgo
na noite do ataque dos índios, por Red Pierce e os seus homens, e trazida para Oeste num carroção. Esteve aí na cidade até há poucos dias, depois Pierce levou-a
para Atlantic. Temna agora naquele novo saloon e casa de jogo chamado Pepita de Ouro. É o primeiro à esquerda, depois de atravessada a ponte.
- Está lá prisioneira? - perguntei, num murmúrio abafado.

- Mais ou menos. Tentou fugir várias vezes, mas o Pierce
guarda-a ciumentamente.
- Maltrata-a?
- Sim, tem-lhe batido, mas ela resiste-lhe. Disse-lhe que sabia que vocês deviam passar por aqui e salvá-la. o Pierce apaixonou-se por ela e tem-se visto
aflita para o afastar.
Aconselhei-a a enganá-lo, a ganhar tempo de qualquer
maneira, e até agora é o que tem feito.
- Mas Ruby deixou um bilhete a dizer que era casada e eu
pensei que fosse com Pierce - observei.
- Não, não é casada. Deixou esse bilhete para o Shaw no dia

do ataque dos índios porque a tal a obrigou um membro da quadrilha do Pierce que o Shaw não conhece.
Seguiu-lhe a pista, mandado pelo Pierce e jurou-lhe que mataria o vaqueiro pelas costas, enquanto ele lutava contra os índios, se Ruby não escrevesse o bilhete.
Foi ele que ditou, pois ouvira-os falar em casamento.
- Então, amigo, chegámos a tempo - murmurou Darnell. - Mas,
Flo, diga-nos mais umas coisas. Você foi a resposta às nossas preces, O Pierce também tem algum estabelecimento nesta cidade?
- Acho que sim. O saloon Quatro Ases é a segunda melhor cása
de jogo. Pertencia a Emery, um indivíduo que foi emforcado há pouco tempo no Vale Sweetwater.
- Diga-nos mais coisas - pedi, ansioso. - O Pierce está
neste momento aqui?
- Está, Encontra-se numa casa de jogo particular, mas só os
seus homens o conhecem por Red Pierce. Aqui é Bill Howard.
- Então o negócio é o mesmo: saLoon, jogo e raparigas?
- Não se iluda, Cameron. O saloon e o jogo não significam
quase nada para ele, Pierce tem ideias maiores. Ainda a noite passada o ouvi falar com os seus homens, um dos quais, o seu braço direito, Black Thornton. Tem em
vista um grande "negócio", mas ignoro exactamente o que seja. Desconfio apenas de que deve tratar-se de assalto ao banco
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e talvez de roubo em grande escala aos mineiros, Querem fazer
uma "limpeza" e depois seguir para oeste, para as minas da Califórnia. O Pierce deve ser um figurão dos grandes na suas "expecialidades". É ladrão e assassino, ou,
se não mata ele próprio, paga a quem o faça.
- Estamos na pista certa, Tom - sussurrei. - Grande negócio!
Uma limpeza! Flo, será possível que o Pierce esteja relacionado com o corte sistemático da linha telegráfica que se tem verificado há dias?
- E se tem, para quê, Flo? - acrescentou Darnell, a ranger
os dentes.
- Simples como o A. B. C: ouvi-os falar, o Pierce disse que não se importava de que a linha telegráfica passasse por aqui, mas só depois de feito o seu "grande
negócio".
- Mas porquê? - perguntámos ao mesmo tempo, embora ambos
soubéssemos a resposta.
- Não lhe convém que chegúem a Forte Laramie mensagens
telegráficas a pedir a vinda para cá de soldados. Alguns homens importantes da cidade tentam arranjar um xerife, a fim de haver lei e ordem.
- Aí tens a resposta, Darnell! - exclamei. - Flo, Deus a
abençoe. Não esqueceremos a ajuda que nos deu.
- Estás a perder tempo, camarada. Flo, explique-nos como
poderemos encontrar Ruby.
- Sei exactamente onde se encontra. Sobre a Pepita de Ouro
há um grande sótão que foi dividido em quartos.
Nunca lá estive, mas uma das raparigas esteve e contou-me. Quando se entra no saloon há uma escada e uma porta, à
direita. Sobe-se a escada até um vestíbulo estreito, com quartos dos dois lados, e parece-me que o de Ruby é o último da esquerda, pois a tal rapariga disse-me que
ela pode estar deitada e tocar com a mão nas telhas do telhado.
De qualquer maneira, não lhes será difícil encontrála.
Boa sorte. e não se esqueçam de mim.
276

- Claro que não esquecerei - respondeu Darnell, num tom que
me surpreendeu.
Saímos do armazém e, por consentimento tácito, seguimos para a rua que levava a Atlantic. O cérebro de Darnell trabalhava
mais depressa do que o meu, pois declarou que antes de mais nada precisávamos de uma carruagem e de uma parelha de cavalos. Não podíamos perder tempo à procura de
Shaw.
xx
Alugámos um carro ao barbudo dono da cavalariça, e em breve
trotávamos pela encosta acima, com Darnell às rédeas. Havia uma pele de búfalo no segundo banco e eu abri-a sobre os joelhos, pois o sol batia nos picos das montanhas
e o ar estava frio.
Entrámos na cidade, atravessámos a ponte, passámos pelo grande armazém e parámos junto da grade que havia defronte da Pepita de Ouro. Lá dentro ouviam-se
os sons discordantes da música, do chiar da roleta, do tilintar dos copos e de gargalhadas grosseiras.
- Uma última palavra, companheiro - disse-me Darnell, ao
ouvido -, temos sorte, pois parece estar pouca gente. Entra atrás de mim e toma atenção no que eu fizer. Tenho cá o pressentimento de que haverá tiroteio antes de
sairmos.
Quando entrámos pela porta larga do saLoon vimos uma grande
sala mobilada de novo, vários mineiros ao balcão e alguns jogadores na roleta. Não se via mais ninguém. Entrámos, sem que ninguém nos prestasse atenção. Lá estava
a porta, à direita, e as escadas íngremes. Em breve as subíamos, cautelosamente. Devia haver uma luz em cima, pois não estava escuro. Chegados ao corredor, fomos
em bicos de pés até à
última porta da esquerda: O coração ameaçava sair-me pela boca quando, a um sinal de Tom, bati. Ouvimos qualquer coisa, mas não percebi o quê.
- Ruby - chamei em voz baixa, incapaz de impedi-la de tremer
-, estás aí?
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Ouvimos novo ruído, pés suaves a deslizar pelo chão e depois
uma voz que pareceu esgotar-me todo o sangue do coração:
- Sim, sou Ruby e estou aqui. Quem é?
- Sou o Cameron e o Darnell está comigo - respondi-lhe, com
os lábios na fechadura. - Viemos buscar-te, a Flo informou-nos.
A exclamação incoerente que seguiu as minhas palavras, apesar de abafada, traduziu uma alegria quase intolerável.

- Oh, Wayne, Wayne, eu sabia que vocês haviam de
encontrar-me! Masestou fechada, presa. Não posso sair! - Desvia-te para um lado, afasta-te da porta!

Recuei para a parede oposta e atirei todo o meu peso contra
a porta. Foi fácil, pois a fechadura não era forte. à segunda
tentativa a porta soltou-se da fechadura e dos gonzos e bateu com estrondo no chão do pequeno quarto. O balanço que tomara atirou-me pelo aposento dentro, en quanto
Tom guardava a porta. Ruby estava branca como um lençol e os seus grandes olhos pareciam poços sem fundo. Agarrei-a e trouxe-a para o corredor.
- Companheiro, temos de despachar-nos - segredou-me Darnell,
com a pistola na mão. - Lá em baixo ouviram o estrondo e o mais certo será termos sarilho. Vem atrás de mim.
Correu para o cimo da escada e, ao segui-lo, vi um homem moreno começar a subi-las. Dispararam os dois ao mesmo temPo e eu ouvi as balas baterem na carne.
Acima do clarão vermelho dos tiros vi a cara de Black Thornton. O bandido soltou um
grito, largou a arma que caiu com estrépito no andar de baixo e tentou amparar-se à parede. mas Darnell desceu, deu-lhe um
pontapé e fê-lo cair com tal violência que o edifício tremeu. Mantive-me atrás de Darnell, como me recomendara.
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No salão ouviam-se gritos e arrastar de pés pesados. Quando
o meu amigo passou por cima do corpo do morto, notei que
cambaleava. Fora atingido, também! Mas, sempre na minha frente, levou a mão esquerda atrás e puxou-me para o salão, fazendo-me passar também sobre o morto. As passadas
pertenciam a um homem que eu conhecia, o mesmo com quem lutara no saloon
de Gotemburgo. Empunhava uma pistola e tinha uma expressão de surpresa no rosto.
- O quê?... - começou, e disparou um momento depois de
Darnell.
Mas o vaqueiro cambaleava e fez pontaria baixa. Largou-me, apoiou-se à porta, mas conservou-se deliberadamente na minha frente, usando o corpo como escudo
para proteger Ruby. O segundo bandido continuou a disparar e as balas produziam um som de arrepiar ao acertarem em Darnell.
- "Fura-o", camarada - gritou-me, com voz estrangulada. Entretanto eu passara a rapariga para o braço esquerdo e
empunhára a arma, por isso depressa me desviei de Darnell e disparei contra o homem, o qual largou a pistola e levou ambas as mãos ao peito. Caiu de borco, com um
grito terrível, na nossa frente. Darnell caiu também, logo a seguir, e a sua última palavra foi:
- Foge!
Corri pela porta fora, coloquei Ruby no banco da frente e,
soltando as rédeas, saltei para o lado dela e meti pela estrada que descia para a ravina. Poucos metros andáramos quando partiram os primeiros tiros da porta do
saloon, mas serviram apenas para levantarem um pouco de poeira, ao baterem no chão à nossa volta. No instante seguinte estávamos fora de vista, atrás da margem.
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XIV
Percorremos o que me pareceram milhas sem encontrar outro veículo, A parelha de barnes estava repousada e obedecia ao meu comando, avançando velozmente.
Fosse o que fosse sobre rodas que me perseguisse, não levaria a melhor, mas perto da Pepita de Ouro existiam com certeza cavalos de sela e esses podiam alcançar-me
antes de chegar ao vale. No caso de ser perseguido por homens montados, estava decidido a travar luta com eles, sem deixar de fugir.
Ocorreu-me demasiado tarde que devia ter levado Ruby para o acampamento, mas metera-se-me na cabeça que o rancho Sunderlund era melhor refúgio para a rapariga
e para lá seguia.
A estrada era razoavelmente boa apenas com um ou outro buraco. A certa altura, um solavanco maior atirou a jovem inconsciente do banco para o chão, e quando
a olhei pareceu-me dar sinais de recuperar os sentidos. Agarrei as rédeas com a mão dìreita ao mesmo tempo que, com a esquerda, a cobria com a pele de búfalo que,
felizmente, se encontrava no veículo, pois
o vento cortava. Olhei para trás, com uma opressão a
sufocar-me, mas ninguém se avistava.
A parelha parecia voar e obrigava-me a segurar as rédeas com
toda a força, para manter um passo certo. Se me perseguissem, largar-Lhes-ia as rédeas e então deixá-los-ia correr quanto quisessem.
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mas por enqúanto tinha toda a conveniência em evitar acidentes. Mais adiante voltei a olhar para trás, mas com o mesmo resultado. Percorrera já cerca de cinco milhas
para além das minas de ouro e a curva da estrada aproximava-se. Ao transpô-la vi na minha frente outra grande extensão de recta, que terminava com um alargar e achatar
dos lados da ravina e um vazio que devia ser o vale.
Duas vezes mais me voltei, nas próximas milhas. Ao certificar-me de que não era seguido, pensei em Darnell, na maneira como sacrificara a sua vida por Ruby,
na obstinação com que pusera o próprio corpo a servir de escudo entre ela e as balas. No mesmo instante Ruby mexeu-se aos meus pés e chamou-me. Debrucei-me sobre
ela e afirmei-Lhe que conseguíramos fugir e que era quase certo estarmos salvos.
- Mas Tom... que lhe aconteceu? - soluçou.
- Não penses nisso, Ruby - pedi-lhe, com voz trémula.
- Onde está o Vance?
- Foi com o Jack procurar-te a South Pass. O Barnes avisou-nos de que te vira à janela e eu tive a sorte de encontrar Flo, que nos informou do teu paradeiro.
Como eu e o Tom não ousássemos esperar pelos rapazes, corremos sozinhos para Atlantic.
- Aonde me levas, Wayne?
- Para o rancho Sunderlund, no vale. Tomarão conta de ti até
podermos ir buscar-te. Tu estás bem, Ruby?
- Sim, creio que sim. Sinto-me... atordoada. Podes tapar-me
os pés? Estão gelados.
Curvei-me e entalei-lhe a pele de búfalo debaixo dos pés e em redor da cabeça. Estava melhor ali deitada, sobretudo no caso de me perseguirem e atacarem.
Não voltou a falar e eu dediquei toda a minha atenção aos cavalos.
Não resisti, porém, à tentação, por várias vezes, de olhar
para Ruby, para admirar-lhe o rosto pálido,
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os grandes olhos escuros e os cabelos brilhantes. Uma vez sorriu-me, com um sorriso tão triste e tão terno, tão cheio de gratidão e de esperança, que nãe me atrevi
a olhar outra vez.
Entretanto quase alcançara o vale sem ser perseguido por
carros ou cavaleiros. De novo o pensamento de Tom Darnell me assaltou, e de novo o repeli. Era um pensa mento insidioso, que me roubava as forças.
A estrada fez outra curva e depois desembocou no Vale Sweetwater: Não estava com disposição para apreciar as belezas do cenário, mas impressionei-me, embora
sem emoção. Uma ou duas milhas para o interior do vale, que era plano e de uma tonalidade purpúrea, uma grande fila de salgueiros e de choupos-do-canadá assinalava
o rio. As suas copas e a grande escarpa alcantilada que se erguia adiante, coroada por uma casa branca, reflectiam os últimos raios de sol. Para lá do monte tudo
era ainda briLhante e claro.
Ao aproximar-me do rio apercebi-me da existência de uma
ponte de madeira que o atravessava e prolongava a estrada para a esquerda, pela encosta acima. Em breve a transpunha e
verificava que o Sweetwater era ali mais pequeno e mais claro na sua cor ambarina do que muitas milhas abaixo. A meio da encosta pastavam cavalos e gado, mas a casa
rancheira só a vi depois de subir a escarpa. Atravessara uma estrada que dava para o norte e para o sul antes de meter pela ladeira.
Foi com tremendo alívio que vi, ao aproximar-me da habitação, vários cavalos com as selas caídas e uma carruagem muito semelhante àquela que conduzia. Encontravam-se
também vários homens reunidos, os Quais pareceram muito interessados com a minha chegada. Um deles era o coronel Sunderlund.
Quando parei bruscamente, Sunderlund reconheceu-me e veio ao
meu encontro.
283
- Olha, o Cameron! Que diabo o traz por cá? Está pálido e...
- Não se assuste, coronel, estou bem - interrompi. - Trago
uma rapariga aqui no carro. Deve lembrar-se, é a namorada do meu amigo Shaw. Houve uma luta em que o Darnell foi morto. Quer fazer o favor de chamar a sua filha?
Venho pedir-Lhe que fique com a Ruby até Vance a vir buscar.
- Mataram o Darnell? Aquele simpático e jovem va queiro? Que
pena! Fez bem em vir, Cameron, a Kit terá prazer em receber a pequena. Leve-a para dentro.
Saltei do carro, aconcheguei melhor Ruby na pele e tirei-a de debaixo do banco. Sunderlund chamou a filha e, quando me voltei para me encaminhar para a habitação
vi úma varanda a todo o comprimento e várias portas. Sunderlund parou diante da última, que se abriú imediàtamente para dar passagem a Kit. Subi os degraus do alpendre
e aproximei-me dela, com o meu fardo, ouvindo Sunderlund falar muito depressa e as exclamações da filha.
- Foi o diabo, Kit - murmurei. - Lembras-te de Ruby, a namorada de Shaw? Aqui a tens. Peço-te que olhes por ela e a acolhas até eu encontrar o meu amigo
e virmos buscá-la.
O contentamento de Kit era maior do que o seu espanto, mas
os seus belos olhos azuis brilhavam de malícia quando exclamou:
- Wayne Cameron, sempre a salvar raparigas! És um verdadeiro
cavaleiro do Oeste! Desta vez foi a tua amiguinha Ruby.
Havia uma notazinha de sarcasmo na sua voz bem tim brada,
uma sombra de orgulho e ciúme no seu olhar.
- Kit! - protestei. - Mataram o Darnell, sacrificou a vida pela Ruby, e o Shaw anda por South Pass, com más intenções. Tenho de partir...
284
- Oh, Wayne! - exclamou impetuosamente, com um encantador
sorriso que transformou tudo. - Fiquei apenas surpreendida, conheces-me, sabes como sou. Traz a Ruby, terei muito prazer em olhar por ela.
Transportei a jovem para uma sala cheia de luz e de colorido e deitei-a num sofá. Sunderlund entrou também e colocou-se
solicitamente ao lado da filha, enquanto todos fitávamos o rosto pálido da minha protegida.
- Agora estás em segurança, Ruby - murmurei. - Eu tenho de
correr para South Pass, a fim de encontrar o Shaw e o Lowden e de informá-los de que estás salva.
- Obrigada... Wayne - gaguejou, quase incapaz de falar. -
Diz ao Vance... que esperei por ele... que fui fiel...
- Claro, Ruby. A Flo disse-me por que escreveste o bilhete.
Explicarei tudo ao Vance.
Afastei-me, mas Kit deteve-me à porta. Beijei-a, apertei-a a
mim um segundo e disse-lhe que voltaria em breve, provavelmente antes de os trabalhos da montagem da linha terminarem. Depois larguei-a e afastei-me, com Sunderlund
atrás de mim.
- Coronel, há alguma maneira de chegar a South Pass sem
passar por Atlantic?
- Há. Meta pela estrada da esquerda, logo a seguir à ponte.
São só quatro milhas e o caminho é muito melhor. Mas leve o Wilson consigo, ele conduzirá e chegarão mais depressa. Irei buscá-lo amanhã a South Pass e vê-lo-ei
a si também. Quero estar nas minas de ouro quando o Creighton chegar cá com o fio!
Antes de me afastar no carro voltei-me e tive a agradável surpresa de ver a Kit à porta, com um braço sobre os ombros de Ruby. A primeira atirou-me um beijo
e a segunda acenou-me, depois deixei de vê-las.
Durante a rápida jornada, sob o vento cortante, fiz inúmeras
perguntas ao vaqueiro do Sunderlund,
285
mais para esquecer os meus pensamentos do que para informar-me acerca de South Pass e do Vale. Mas aprendi mais naquele curto espaço de tempo do que aprenderia de
qualquer outra maneira.
Enquanto percorríamos a longa ladeira que levava a South
Path e atravessava a ponte, pedi a Wilson que parasse à porta da cavalariça.
- Talvez lá me digam alguma coisa.
O homem saudou-me com muito mais efusão e cordialidade do que julgava merecer, mesmo se ele já soubesse da luta travada na Pepita de Ouro. As suas primeiras
palavras demonstraram-me que não só estava informado acerca do Darnell, como também de Shaw e de Lowden.
- Esses vaqueiros subiram a encosta ao escurecer e deixaram
esta cidade num lindo estado! South Path, apesar de ser o que é, nunca teve muitos visitantes como Shaw e Lowden! Encontrava-me lá em baixo ao dar-se a grande barafunda,
mas perdi a primeira parte, quando pintaram o diabo em metade das tabernas da cidade. O que eles queriam era que os jogadores falassem, lhes dissessem onde se encontrava
um tipo chamado Red Pierce, que ocultava determinada rapariga, mas não a encontraram. O homem a que chamavam Red Pierce era, afinal, Bill Howard, um sujeito que
eu conhecia muito bem há semanas, desde que abriu um grande estabelecimento na cidade.
O homem tomou fôlego, antes de continuar:
- Estava nos Quatro Ases quando aconteceu... Howard, ou Pierce, estava no maior saLoon da cidade e, palavra, nunca ouvi tamanha zaragata! Homens a gritar,
armas a disparar, cadeiras, mesas, fichas de poker e moedas a tilintar. Quando cheguei, um grupo de jogadores afastáva-se dos dois vaqueiros de olhos de fogo que
mantinham Howard no chão. Dois dos seus homens estavam mortos, mas Howard vivia ainda, embora já com vários tiros nos braços, numa perna e sei lá mais onde! Shaw
exigia-lhe que lhe dissesse onde escondera a rapariga e ele jurava que estava em Sua casa, a **pepita de Ouro, em Atlantic. Contaram-me depois que dizia a mesma
coisa desde que levara o primeiro tiro, mas Shaw não acreditava. Aquele vaqueiro foi o indivíduo mais bravo, mais frio, que jamais pisou um saloon de South Pass,
e olhe que todos os duros do Oeste já o fizeram! Logo depois de eu chegar ouvi-o dizer ao
Howard que o deixaria em paz se dissesse a verdade. O desgraçado, a arquejar e meio sentado sobre o próprio sangue, com ambos os braços partidos e pendentes, repetiu
a mesma história. Não sei se o vaqueiro o acreditou ou nã, mas deixou-o em paz. Quando saí dos Quatro Ases e vim para aqui, estavam a montar os cavalos, pois tinham-mos
deixado para lhes dar comida e água. Partiram pela encosta acima, e não sei mais nada.
- Bem, vamos a Atlantic e ao acampamento dos trabalhos de
construção - decidi.
A história do homem causara-me mais alívio do que horror e
demonstrara-me que precisava de encontrar Shaw quanto antes.
- Acho que vou com vocês, se não se importam - propôs o nosso informador, que se instalou no banco de trás depois de concordarmos.
- Wilson, vai devagar por esta ladeira íngreme, mas aumenta
a velocidade quando chegares ao cimo - aconselhou.
Depois de passarmos a ravina e atravessarmos a ponte, vimos
um grande grupo de homens diante da Pepita de Ouro, tão absorvidos no quer que fosse que nem deram pela nossa chegada. Disse a Wilson que parasse fora do círculo
de luz, apeei-me e declarei que ficava a tomar conta dos cavalos enquanto eles iam ver se havia mais notícias.
286 287
No caso de ser preciso tomar qualquer iniciativa drástica queria estar de pé, protegido pela escuridão: Wilson e o cavalariço demoraram-se pouco e, quando voltaram,
entrámos todos outra vez para o carro e partimos.
- O Shaw e o Lowden estiveram aqui ao começo da noite, apontaram as armas aos frequentadores mas não atiraram em ninguém. Descobriram imediatamente que a
rapariga já lá não estava e encontraram o cadáver do vosso camarada, que atravessaram numa sela e levaram consigo.
A certeza da morte de Darnell quebrou totalmente a minha resistência, sentei-me na pele de búfalo a tremer de desgosto e tristeza. Mal me recompusera
ainda quando chegámos ao
acampamento. Ardiam fogueiras, alegremente, ro deadas por grupos de homens. Liligh veio ao meu encontro, agarrou-me num braço e disse-me que os vaqueiros acabavam
da enterrar Darnell, na berma da trilha.
- Creighton já tomou conhecimento desta desgraça? perguntei-lhe.
- Sim, mas foi quase o último a sabê-lo. A notícia espalhou-se como fogo de palha.
- E que disse ele? Receio... espero que não nos despeça.
- Despedir? Meu Deus, ainda não aprendeste a conhecer o patrão! Berrou como um toiro, mas em louvor de todos vocês!
- Falaram-lhe do corte dos postes? Que o bando de Red Pierce
o fazia para impedir a transmissão de mensagens?
- Creio que foi isso que o levou dos diabos e que aumentou a sua apreciação por vocês, rapazes. Até mandou talhar uma pedra para assinalar a sepultura do
Darnell.
Procurei Wilson, entreguei-lhe mensagens para Sunderlund, para Kit e para Ruby e disse-Lhe que regressasse a South Pass, como o coronel recomendara.
288
Depois dirigi-me para o nosso carro e para a pequena fogueira
à roda da qual os dois vaqueiros fumavam. Levantaram-se para me receberem, silenciosos, com uma simplicidade a que a força dos seus apertos de mão emprestava significado.
- Vance, levei a Ruby... para o rancho do Sunderlund. A Kit olhará Por ela - titubeei, com voz trémula. - A Ruby está bem e será protegida até ires
buscá-la -, e dei-lhe o recado da
rapariga.
- Camarada, acho que nunca agradeci a minha sorte a Deus respondeu-me serenamente -, mas vou começar por agradecer-lhe ter-me dado um companheiro como tu.
Agora conta-nos a luta que travaram e em que o Tom encontrou a morte.
Contei-lhes tudo, profundamente comovido.
- Foi uma pena que o Jack e eu não estivéssemos convosco -
completou o vaqueiro. - Teríamos vencido esses tipos e tu sabes muito bem que se dá um tiro num homem quando ele tira a arma, já não pode atirar com muita precisão.
Pouco depois afastei-me do círculo de luz projectado pela fogueira e parei junto do monte de terra fresca que era a sepultura de Tom Darnell. Ficava ao longo
da Trilha do Oregão, numa escarpa alta e deserta, solitária e desolada, onde o vento uivava por entre os arbustos e a salva, acima da qual se erguiam as altas montanhas
e as estrelas tremeluziam, impiedosamente.
Naquele momento não apreendi em absoluto a verdade assombrosa de que Tom Darnell sacrificara a sua vida por Ruby, uma dançarina de salão, e por mim. Já avaliava,
porém, que o seu gesto fora grandioso e belo e, não sei porquê, sentia-me engrandecido por ele. Estes vaqueiros selvagens e ardentes nunca tinham sido compreendidos
pelos homens do Leste, mas devia haver na sua vida dura e soli tária uma característica de grandiosidade pouco comum.
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Darnell afeiçoara-se-me desde o princípio, puxara muitas vezes para os seus ombros o fardo que eu devia transportar, e agora partira para sempre, deixando-me
a recordação de que nenhum homem jamais tivera amor maior.
Na manhã seguinte, quando tomámos o pequeno almoço, Creighton apareceu de súbito junto de nós e disse-nos:
- Shaw e Cameron, quero que tenham este dia livre.
Vance fitou-ma e perguntou-me:
- Então, Wayne, não compreendes as ordens que te dão? Tu e
eu vamos partir imediatamente para o rancho Sunderlund!...
E fomos, pois muito tínhamos que combinar acerca do nosso
futuro e do das jovens que amávamos.
Quando chegámos, Kit correu para mim e Ruby para Shaw, mas eu e Kit não nos abraçámos. Ficámos em frente um do outro, meio embaraçados, sentindo ambos que
aquele momento pertencia sobretudo à reunião de Shaw e Ruby.
Depois de beijar Ruby com fervor, Shaw voltou-se para mim e
interpelou-me:
- Wayne velho novato, não compreendes que temos de Voltar
para a linha telegráfica? E voltar para o Creighton!
- Que pressa é essa, Vance? Há séculos que não vês a Ruby!
- Caramba, amigo, estou a ver que tenho de levar o resto da
minha vida a explicar-te tudo! Quanto mais depressa voltarmos para o trabalho, mais depressa o arame chegará a Forte Bridger e mais depressa casaremos.
- E falaste tu em obedecer a ordens...
Naquele mesmo dia a Western Union atravessou a ravina sob os vivas dos homens das minas Atlantic, subiu o monte e desceu para South Path.
Nessa noite percorri horas sem fim a única rua de South Pass, mas não entrei em nenhum dos saloons nem nas salas de jogo, nada mais fiz do que olhar.
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Encontrei Flo. Estava triste com a morte de Tom Darnell, mas o desaparecimento de Tom Pierce e do seu bando libertara-a,
assim como libertara Ruby. Contou-me que havia um jovem mineiro que queria casar com ela, um rapaz honesto que tivera sorte na mina.
- Não sou digna do Jim - confessou-me, - eu sei-o, mas ele
não é da minha opinião.
Na manhã seguinte Creighton e a sua caravana deixaram South
Pass para realizarem a última etapa do seu trabalho. Fui eu que conduzi o nosso carroção. O céu estava carregado, o vento que soprava dos picos cortava e fomos apanhados
por uma tempestade de neve antes de atravessarmos o planalto do desfiladeiro.
Por ironia do destino, foi talvez um carroção carregado da
postes que evitou uma tragédia: fizemos uma grande fogueira com eles e deixámo-la arder toda a noite, enquanto a tempestade rugia.
De manhã o vento amainou, a neve deixou de cair e o sol
brilhou, rutilante, sobre um mundo branco.
No dia seguinte chegámos à região da salva cor de púrpura,
onde a linha podia progredir de novo com rapidez.
Vencêramos o Inverno. Cobrimos as últimas cento e cinquenta
milhas em dezasseis dias, incluindo o Rio Verde.
Finalmente o velho e histórico Forte Bridger surgiu ante nós, com as suas paredes de pedra quase ocultas no bosque de choupos-do-canadá e os braços do Rio
Preto a serpentear pela frente e pela retaguarda do forte, onde sabiaque os mórmones nos encontrariam.
Passámos quatro dias inquietos no Forde Bridger, à espera de que os mórmones completassem a sua missão para a Western Union. Shaw e eu éramos os mais inquietos,
ansiosos por partirmos para o Sweetwater e para tudo quanto ele para nós representava.
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Pareceram decorrer séculos desde que vimos o primeiro poste da divisão do leste da construção da linha telegráfica espreitar no horizonte até ao momento
em que os mórmones passaram o fio pelo vale. As mãos grandes de Creighton tremiam quando subiu ao nosso último poste e ligou os fios. É impossível descrever a expressão
do nosso chefe. Que momento aquele para ele! A sua missão estava cumprida!
Mas houve ainda outro atraso, outro compasso de es pera antes que a alegria pudesse ser total: a equipa que trabalhava a leste de Sacramento, na direcção
da Cidade do Lago Salgado,
não podia avançar.
Esperámos mais quatro intermináveis dias, eu e Shaw a mordermos o freio, por assim dizer. Entretanto construíra-se um pequeno abrigo provisório e o nosso
telegrafista passava as horas sentado diante dos instrumentos, à espera da palavra final. Esta chegou, por fim, ao entardecer. Ficámos todos imóveis e silenciosos
enquanto Creighton esperava o momento de
interceptar, de passagem, a primeira mensagem telegráfica transcontinental de Stephen J. Field. Juiz Supremo da Califórnia.
Enquanto aguardávamos, Creighton enviou uma mensagem para sua esposa, em Omaha. O rosto iluminou-se-Lhe quando o telegrafista traduziu para código as palavras
ansiosamente escritas. Deu o papel a Shaw, para o ler, e eu senti um nó na garganta ao ouvi-lo:
"Forte Bridger, 17 de Outubro de 1881. Para Mrs. Edward
Creighton, Omaha, Nebraska.
Como esta é a primeira mensagem transmitida pela nova linha desde a sua chegada à Cidade do Lago Salgado, permite que te saúde. Dentro de pou cos dias dois
esposos estarão unidos.
Assinado: Edward Creighton
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Finalmente o anunciado telegrama passou por Forte Bridger. O telegrafista apontou-o e entregou-o ao nosso chefe. A nossa tarefa estava, enfim, completada.
Com voz trémula, Creighton leu em voz alta, para todos nós:
"A Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos: Na ausência temporária do governador do Estado, solicitaram-me que lhe enviasse a primeira mensagem a
ser transmitida pelos fios da linha telegráfica que liga o Pacífico aos estados do Atlântico. O povo da Califórnia deseja felicitá-lo pela realização desta grande
obra. Confia em que ajude a fortalecer as relações que ligam o Este e o Oeste à União e deseja, nesta primeira mensagem através do continente, exprimir a sua lealdade
à União e a sua determinação de permanecer fiel ao seu Governo nesta época de provação. O povo californiano considera esse Governo com afecto e apoiá-lo-á nas horas
boas e más.
Assinado: Stephen J. Field, Juiz Supremo da Califórnia".
A voz de Creighton não falhou, embora várias vezes desse
essa impressão.
Quase imediatamente chegou outra mensagem, esta do Prefeito Teschermacher, de San Francisco, para o Prefeito Wood, de Nova Iorque City:
"O Pacífico manda as suas saudações ao AtlânticO. Que estes
dois oceanos sequem se meia jarda da terra que entre eles fica a pertencer a outros além do nosso país unido."
- Este maldito silêncio em to mais ruidoso do que qualquer
fuga de gado que jamais ouvi! - segredou-me Shaw. - E muito mais agradável para os ouvidos, também!
Naquele momento de elevação e alegria, não seria capaz de falar, mesmo que encontrasse alguma coisa digna de ser dita. De súbito senti tocarem-me no ombro,
voltei-me e vi o pai de Kit Sunderlund.
- Cavalheiros - disse a Shaw e a mim - muito tive de andar para chegar a tempo desta pequena cerimónia! Tê-la-ia perdido se não fosse a demora de oito dias
a que foram forçados. mas

não creio que nenhum de vocês esteja interessado em ouvir a tagarelice de um velho como eu. Agora que tudo isto terminou, não quererão vir ao forte? Há qualquer
coisa que quero mostrar-lhes.
Acompanhámo-lo, maquinalmente. Por motivos que não sei explicar, não nos surpreendeu a presença do coronel. Também não fazíamos ideia de qual seria a surpresa
anunciada.

Apesar do adiantado do ano, havia flores amarelas por toda a
parte, na cerca, o ar estava perfumado e o sol brilhava frouxamente, como o sol de Outono no Leste.
De pé, junto do poço, encontravam-se dois vultos. Shaw parou, como se tivesse levado um tiro, e eu olhei, mas não quis crer nos meus olhos.
Os dois vultos correram para nós e abraçaram-nos. Eram Kit e
Ruby.
- Oh, Wayne, queríamos ver a ligação dos fios, mas queríamos
também surpreendê-los! - exclamou Kit.
Ouvi falar baixo perto de mim, vozes que pareciam de Vance e de Ruby, com a diferença de que a dele tinha qualquer coisa que nunca lhe ouvira.
- Não posso acreditar! - consegui tartamudear.
- O pai não queria que nos metêssemos a caminho, por causa das tempestades, mas não havia nada que nos segurasse em casa! - afirmou Kit.
294
De súbito apareceu Creighton, acompanhado da sua voz de
trovão:
- Wayne! Vance! Tenho-os procurado por toda a parte. Parabéns!
Apertou a mão a todos e prosseguiu:
- Agora que terminámos a linha telegráfica, tomem nota das
minhas palavras: seguir-se-á o caminho de ferro! Mas, segundo aqui o seu amigo coronel, vocês estarão muito ocupados a criar gado. Eu próprio vou fazê-lo, ajudado
por Sunderlund. Com o Vance e o Cameron no negócio, não precisarei de preocupar-me! - E deixou-nos.
- É mesmo do Edward Creighton! - exclamou Vance. Telégrafo, caminhos de ferro, gado! O seu trabalho nunca está acabado.
- Olhem, rapazes - disse Kit, apontando a longa fila de
postes telegráficos sobre cujos fios o sol brilhava.
- Olhem até onde puderem - disse por minha vez, como se falasse comigo só -, e depois lembrem-se das muitas tortuosas milhas que não vêem e das dificuldades
que encontrámos para acontecer o que hoje aconteceu.
- Sim - concordou Vance -, tiros, fogos, trovoadas, fugas de
gado, índios e tudo o mais, só para que um simples bocado de fio se unise a outro simples bocado de fio!
FIM
8 de Outubro de 1998

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