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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mães e Filhas - Romance

Mães e Filhas
Evan Hunter
LIVRO I

Amanda

Neve.
Era noite, ainda, quando ouviu o raspar das pás nas áleas do campus. Sentou-se de um salto na cama, pensando: "Neve!", e, na sua alegria, quase chamou a
ocupante do leito que ficava na outra extremidade do quarto do dormitório. Porém, recordou-se de que Diane se mudara: a cama estava vazia. A palavra "neve" irrompeu
novamente no seu espírito; lançou para trás as cobertas e dirigiu-se pressurosamente para a janela. O soalho estava gelado. Dançando de um pé nu para o outro, limpou
o orvalho que cobria os vidros, a fim de espiar o campus. Neve. Ela continuava a cair num murmúrio abafado. Neve. As luzes da Universidade quase desapareciam sob
este vertiginoso turbilhão branco. A jovem sentiu o coração palpitar num súbito contentamento que iluminou o seus olhos com um sorriso vago e involuntário.
"Oh, que bom; está a nevar!", disse ela, em voz alta; então voltou, correndo, para a cama e puxou a coberta até ao queixo, cruzou os braços sobre o peito
e permaneceu, sorridente, no escuro, pensando em Minesota e nos hooques; via-se caminhando atrás do pai e da irmã quando saíam a fim de irem cortar a árvore de Natal;
o ar era tão frio que, ao fendê-lo com a mão, quase se ouvia tinir; a neve espessa abafava os passos ; sômente as grossas botas do pai a esmagavam, com um ruído
seco e regular. Deitada na cama, continuava a sorrir. Não sentia vontade de dormir. Pensava na neve que se amontoava contra a porta da cozinha, atrás do presbitério;
recordava-se da sensação de segurança que invadia a casa no momento das orações da noite, as chamas altas crepitando na -lareira de pedra, o odor da resina da madeira
nova a estalar. Mas nada de dormir. Contra os vidros, a alva nascia numa grisalha silenciosa, sem um raio de sol.
Bem desperta, saltou da cama e despiu ràpidamente o pijama. "Brrr!", fez ela. "Brrr!" Enfiou as roupas de baixo, num instante; sentia -por todo o corpo a
pele arrepiada pelo frio. Vestiu uma saia e a sua camisa mais grossa e depois desceu ao vestíbulo a fim de se lavar e de cuidar dos dentes. O dormitório achava-se
silencioso. Ela era o único ser vivo no mundo inteiro.
O compus, nesta manhã de Novembro, era uma gravura de cobre, em negro e branco, com os mais pequenos pormenores precisos, claros. Imaginou que os seus olhos
podiam ver -por milhas e milhas, para além do mundo baixo de tijolos que limitava o domínio da Universidade, distinguir a própria cidade de Talmadge e, para lá dela,
todo o Connecticut e a Nova Inglaterra, e terras exóticas para além do mar; os seus olhos não conheciam limites, nesta manhã. A neve jazia intocada sobre os espaços
descobertos do compus; ao longo de cada álea, fora amontoada em altos taludes. A paisagem parecia inteiramente 'plana e de -uma só dimensão, artificial. As árvores
nuas eram silhuetas negras erguidas contra o céu cinzento. Que singular! Um dia sem cor, este. Mesmo os tijolos vermelhos de alguns edifícios pareciam descoloridos.
A jovem deteve-se nos degraus baixos e largos do dormitório, os olhos percorrendo, lentos, num círculo, a -paisagem; depois, tirou uma das luvas de lã vermelha
e apanhou um -punhado de neve, que conservou na palma da mão até a sentir dolorida. Então, mordeu-a, sorriu, e lançou para longe o resto da neve. Limpou a mão ao
casaco e pôs-se a caminhar, rápida, através do compus, sentindo nos dedos as picadas da neve.
Passou por três capelas, experimentando não sei que remor-sos - bem, ela diria as orações da manhã enquanto estudasse - depois, prosseguiu, ladeou o antigo
com pus que dava para a Bua Fieldston, e, em seguida, voltou abruptamente para a direita, em direcção de Townsend, e passou diante da Biblioteca e da Faculdade de
Direito; os dois edifícios, cobertos com uma pirruca de neve, dir-se-iam advogados britânicos levantados para responderem a uma chamada à ordem. Estava ansiosa por
se encontrar defronte de um dos pianos, na sala de estudo. Tinha fome, mas podia servir-se duma chávena de café na máquina da cave do
Ardaecker. Não era capaz de suportar, nesta manhã, o rumor do botequim de estudantes. Não, nesta manhã gloriosa em que se sentia tão maravilhosamente viva.
"Adoro estar aqui", pensou, "mas sinto saudades da minha casa; porém, adoro estar aqui", e novamente a fascinou o milagre de se encontrar nestas paragens.
Lembrava-se da ocasião em que recebera pela primeira vez a brochura da Universidade de Talmadge e as assustadoras exigências do exame de admissão na Escola de Música,
a fim de obter o diploma de Composição. Conhecia contraponto modal? Sabia harmonizar corais no estilo de Bach? Apreensiva, lera detidamente a lista de tópicos exigidos
para o exame: os rudimentos da música, a percepção do ritmo e da tonalidade, modulação, acordes modificados, a composição de fugas a duas e trás partes e a de motetos
a três partes. Erguera subitamente os olhos para o pai e dissera: "Mas é impossível! Eles não devem estar no seu juízo perfeito!" Em seguida metera de novo o nariz
na brochura.
Haveria provas de leitura de partitura a duas, três ou quatro pautas, em diferentes claves, incuindo 'peças para tenor e oprano, provas de transposição,
harmonização de partituras cifradas ou não, um exame oral sobre a teoria da música. E, para coroar tudo, tinha de submeter 'pelo menos quatro composições originais,
uma das quais de carácter polifónico. "Estas composições devem ser enviadas para a Escola de Música de Talmadge o mais tardar em 1 de Março de 1941."
"Eles não devem estar no seu juízo perfeito", repetira.
Contudo, vencera todas as dificuldades, e ei-la aqui a principiar o seu terceiro semestre. Tinha a impressão de que estivera cá sempre. Fazia, realmente,
a menor ideia do que era a música antes da sua entrada em Talmadge? Como é que lhe fora possível passar nos exames de admissão? Por milagre, com certeza. Pelo poder
da oração. Respirou fundo e sentiu o ar gelado percorrer-lhe todo o corpo, enchendo-o de vida. Subitamente, sorriu. Este dia parecia possuir uma atmosfera de expectativa,
como se algo estivesse prestes a acontecer - oh, ela desejava tanto que um acontecimento inesperado e feliz se produzisse ao voltar da primeira álea! não seria maravilhoso?!
Mas estava convencida de que nada aconteceria.
Então, ouviu um ruído de passos na álea, alguns metros à sua frente. Durante um instante, detevse, e conteve a respiração.
Experimentava uma sensação singular, como se tivesse concluído um pacto com o Demónio. "Agora, ei-lo", pensou; imobilizou-se na expectativa de só Deus sabia que
malsã explosão do mal.
Quase desatou a rir quando descortinou Morton Yardley, que se aproximava.
- Morton! - gritou, aliviada. A sua voz reti'niu na quietude do compus, surpreendendo o jovem, que se 'deteve na álea e lançou por debaixo do capuz do mackinaw
um olhar circunspecto.
- Oh, és tu, Amanda - volveu ele.
- Olá, Morton - disse ela, sorrindo.
- Está muito frio - redarguiu o jovem.
Gostava de .Morton, que era um dos poucos rapazes do compus com quem se podia falar. Encontrara-o pela 'primeira vez na aula de Composições para órgão, 'de
Bach. Estudante de Teologia, seguia o curso de 'Música como voluntário. Era, na verdade, um organista excelente, não tão bom como seu pai, decerto; não obstante,
possuia um admirável sentido musical. Ele ficara embaraçado pela tonalidade de um dos prelúdios e ela passara um momento com ele, depois da aula, para lhe explicar
a dificuldade. Sentira por Morton, instantaneamente, uma grande simpatia, apesar da distância que punha entre si e os outros, como se 'tivesse já feito um voto pessoal
de pobreza e casti'dade. Ela raramente o via sem o mackinaw com o capuz. Morton trazia-o mesmo na Primavera, com o capuz levantado, como se, séculos atrás, tivesse
recebido ordens monásticas mas passasse sômente uma vida sem clausura. Quando o via, sentia sempre vontade de rir. Morton possuia um rosto redondo de querubim, ventre
bem atestado, olhos azuis cândidos e uma voz forte: todo o aspecto físico de um descuidado Frei Tuck. E, todavia, era um jovem singular. mente solene, solitário,
um asceta na 'pele de um obeso; caminhava vagarosamente, com o ar pensativo de um velho que falava aos pombos nas áltas de um 'parque. E, contudo, Amanda sentia
vontade de rir sempre que o via.
- O Inverno 'intimida a alma - disse ele, com um tom um tanto sombrio. - Está muito frio. Se, na verdade, o Sol é a vista de Deus, porque não a abriu Ele
hoje?
- Mas está um dia maravilhoso - replicou Amanda sorrindo.
- Sim, para ti, suponho - volveu Morton, que, notando o embaraço estampado no rosto da jovem, acrescentou: - Oh, não sabias ainda?
- Sabia o quê?
- Bem, não Importa.
- Sabia o quê, Morton?
- Não, não importa. preciso que me apresse. Estou já atrasado. Tenho de me dirigir sem demora para a capela.
Ela tomou- lh'e o braço e barrou.lhe o caminho.
- Que é que não sei ainda?
Um sorriso raro e secreto perpassou pelo rosto de Morton.
- Aonde vais agora?
- Ao Ardaecker. Que é que não sei e devia saber?
- Verás.
- não sejas cruel, 'Morton!
- Falarei logo contigo. A que horas vais almoçar?
- Á uma. Morton, que...
- Encontrar-nos-emos no botequim. Oferecer-te-ei uma chávena de café, sim?
- Muito bem, mas...
Morton enterrou o ca'puz na cabeça e começou a descer a álea com grave dignidade. Amanda viu-o afastar-se, as mãos nos quadris. Uma expressão de desapontamento
reflectia-se no seu rosto, uma momice que traduziria a emoção exagerada, embora honesta e sem rebuço, de um garoto de 7 anos, mas curiosa de surpreender nas faces
de Amanda, que tinha 19. A expressão esvaneceu-se. Ela continuou, por um momento mais, a seguir com os olhos a figura 'de Morton; depois voltou- se e prosseguiu
no seu caminho em direcção do Ardeacker Hall.

Desembaraçou-se da mala, que trazia ao ombro, tirou o casaco curto e arremessou- o para um dos bancos que bordavam uma parede 'da cave. Remexeu na bolsa,
encontrou uma moeda e colocou- a ràpidamente na ranhura da máquina de café. Enquanto bebia do recipiente de cartão, o vapor elevandse em redor do seu rosto, encam'inhou-
se com um passo preguiçoso para as vitrinas colocadas na parede, do lado oposto aos bancos.
Encontrava-se só' no edifício. Ouvia ressoar o vasto queimador de óleo colocado algures por trás 'dos solenes armários verdes 'com cadeados de segredo. As 'paredes
da cave estavam pintadas de um verde pálido, seco. Os três globos suspensos do tecto lançavam uma luz crua sobre o chão de cimento. Os tubos do aquecimento e os
respiradouros, no alto, estavam pintados do mesmo verde frio, e os canos de água achavam-se cobertos de amianto branco. Ela caminhava preguiçosa e vagarosamente,
sem se 'dar conta de que o seu inconsciente feminino acrescentava uma nota de doçura à cave lúgubre. Jamais pensara que fosse bonita, ou mesmo atraente. Por vezes,
ao contemplar o corpo nu ao espelho, sentia-se estupefacta pela sua exuberância, tão chocada como se tivesse visto um estranho desprovido de vestuário, e embaraçada
também.
Os rapazes de Talmadge não a achavam bonita, mas consideravam-na atraente. Os seus cabelos louros, que lhe caiam nos ombros, os olhos castanhos, a boca e
as curvas graciosas do corpo nada tinham de extraordinário; porém, era agradável olhá-la, devido ao seu ar incrivelmente doce. Um jovem caloiro tinha, sem dúvida,
feito a descrição mais exacta de Amanda durante uma discussão no botequim. Ao ouvi-la, Morton Yardley abandonou bruscamente a mesa. Especulava-se sobre o "potencial"
de Amanda quando um dos rapazes perguntou:
"- Já alguma vez tentaste beijá-la? É como se se invadisse a França."
"- Nunca me veio á ideia beijá-la", disse outro rapaz. "Na verdade, nunca pensei, sequer, em dormir com ela."
Morton, que comia uma sanduíche na outra extremidade da mesa, afundou a cabeça no capuz.
"- Sim, sim, nunca 'pensaste em dormir com ela?!", - volveu o primeiro rapaz.
"- verdade. Juro-o. Nunca com ela."
"- Então, que?"
"- Ela é a rapariga mais doce que jamais encontrei na minha vida. O que me tenta é dormir sobre ela."
Foi nesse momento que Morton pousou a sanduíche e abandonou a mesa.
Na sua inconsciência feminina, Amanda lançou o recipiente vazio para o grande cesto de papéis e examinou a primeira das três vitrinas. Encontrou as notícias
habituais, que se julgava possuirem interesse para os estudantes de música: uma reunião da Sociedade Gilbert e Sullivan; um novo prémio destinado a recompensar o
melhor trecho de violino e de violoncelo composto por um estudante; um recital de dança a efectuar no Teatro Universitário, em colaboração com a Escola de Arte Dramática;
uma tabela de 'propinas para utilizar as salas de 'estudo ("quinze dólares por hora é excessivo!", pensou ela); um ensaio da banda que 'tocaria antes de se iniciar
o jogo contra Yale, no sábado. Prometera a' Diane que iria? Desejava que Diane não tivesse aderido a uma irmandade, pois tornava agora muito difícil continuarem
a manter encontros regulares. Porém, o edifício em que residia actualmente ficava mais próximo da maior parte das suas salas de aula. Disse-se que faria por se não
esquecer de visitar Diane. Passou à segunda vitrina. Bla-bla, a porcaria do costume; restava ainda uma noticia acerca do baile 'de Halloween. A sua atenção foi atraida
por uma nota frenética escrita à mão.

IMPORTANTE! IMPORTANTE!

Perdi trés páginas de um tema de inglês que devo entregar na sexta-feira, dia 13 de Novembro!
Muito obrigada, muito obrigada, a quem o achar.
Agradeço que me deixem uma palavra:
Ardis Fíetcher, caixa n.o 160, dormitório Baker.

Amanda sorriu e dirigiu-se com um movimento gracioso para a terceira e últim'a vitrina. Era mesmo coisa da Ardis, a perda daquelas páginas. Se o que se dizia
dela fosse verdade, a Ardis teria perdido quase tudo o que possuira por volta 'dos 15 anos. não parecia haver grande coisa na última vitrina. Voltava-se, a fim de
se afastar, quando se deteve, alarmada: o seu nome acabava de lhe saltar aos olhos. Logo que se aproximou da vitrina, compreendeu que era a isto que aludira Morton.
Sentiu-se invadir por uma espécie de excitação antecipada. Com uma lentidão propositada, leu a nota, enquanto a possuía uma grande emoção.

UNIVERSIDADE DE TALMADGE

Escola de Música

9 de Novembro de 1942

Notícia para todos os candidatos em Composição. Assunto: composiçõesmusicais propostas para a festa do Natal

Os Drs. Finch e MacCauley classificaram agora todas as obras apresentadas: canções, baile e música de cena. Tem o prazer de anunciar que foram escolhidas
as seguintes composições, que serão incluidas no espectáculo:

Música de cena:
Introdução e prelúdio - Ralph Curtia
Pequena peça a executar antes da subida do pano - George NeIson

Canções:
Serena e Brilhante Francine Bourget
U. S. O. Blues Louis Levine
En cinem geeusen Morgen Margit Glúck

BaiLados:
O InvernO Amanda Soames
Embalagem surpresa Amauda Soames

Imóvel, diante do quadro, releu a notícia uma segunda vez, depois, uma terceira. "Os dois bailados são meus", pensou. "Este é um dia dos mais belos da minha
vida." E só, no silêncio da cave, começou a chorar.
- Devias ter-me prevenido, Morton - disselhe ela mais tarde.
- Quê? - perguntou ele. - Não te consigo ouvir.
Elevou a voz, para dominar o ruído produzido pelas conversas dos estudantes no botequim.
- Devias ter-me prevenido! - gritou. - Acerca da festa de Natal
- Para te destruir a surpresa? Oh, não.
Ele estava sentado defronte de Amanda, na longa mesa, e atirava a sopa de legumes para a espécie de caverna que o capuz formava.
- Gostaria de me encontrar num canto da cave quando leste a nota.
- Adivinha o que fiz, Morton.
- Diz...
- Pus-me a chorar.
- Porquê?
- Porque me sentia feliz.
- És completamente louca.
- É verdade, eis o que fiz Não o posso evitar. Choro fàcilmente.
- Já te 'dei os parabens?
- Não. E não penses que o não notei.
- Para bens. Tenho muito orgulho em ti. Café?
- Não. Não tens calor? Porque não baixas esse capuz?
- Sinto-me muito bem assim. D'iz-me: vais ao jogo de sábado?
- Não sei. Não me consigo lembrar se prometi ou não à Diane ir com ela. Porquê?
- Pensei que podíamos ir juntos - volveu Morton, sacudindo os ombros. - em New Haven. sabes, e arranjei um carro.
- Bem, combinado - declarou Aman'da. - Morton, não consegues imaginar? Os dois ballets São meus. Sabes quantos foram submetidos ao júri?
- Não. Quantos?
- não sei o número certo, mas basantes, com certeza. Morton, crês que tenho, na verdade, talento?
- Suponho que sim. Tens, tens, certamente.
- Quero dizer: verdadeiro talento. Crês que seja, na realidade, talento profissional? Diferente, claro, dos padrões do colégio.
- Ora, Amanda, como queres tu que eu saiba?
- Desejo conhecer a tua opinião.
- não faço ideia alguma da diferença entre um talento comum e um talento profissional. Que diferença existe, Amanda?
- Bem, um talento profissional...
- o que faz o público pagar, não? O público vai pagar para assistir à festa de Natal.
- não é a mesma coisa. As pessoas vão lá por tradição.
- À primeira vista, direi que se tu tens de perguntar se o u talento é ou não profissional, existem 'grandes razões para que o não seja.
- É uma perversidade o que me acabas de dizer.
- não foi minha intenção ser perverso.
- Bem, sempre quero uma chávena de café. Espera, Morton. Espera um minuto, apenas. Sabes o que sinto? - Por cima da mesa, inclinou-se para ele, os olhos
brilhantes - Tenho a impressão de que o dia acaba precisamente de nascer. Parece-me que aquela música não é senão o principio.
- Que queres dizer?
- Morton, não repetirás a ninguém o que te vou confessar?
- Prometo.
- Palavra de honra?
- Palavra de honra.
- Sinto que este dia vai ser o mais importante da minha vida.
- Como o podes saber?
- Sinto-o, precisamente. Dentro de mim.
- Muito bem - volveu Morton, e encolheu os ombros.
- não acreditas?
- Decerto que sim. - levantou-se - Creme e açúcar?
- Sim, uma de açúcar. 'Morton?
- Hem?
- Pareço-te tola?
- Nunca me pareceste tola, Amanda - respondeu ele com um ar sério afastando-se depois da mesa para se juntar á fila ao lado.
Amanda ficou só à mesa, escutando as vozes ao redor, frases soltas de conversas, 'os ruídos bruscos, o rumor produzido por bandejas e utensilios. Conhecia
os que a cercavam e todos falavam de coisas familiares. Experimentou, bruscamente, um certo orgulho. Era bom estar aqui, nesta cadeira, a esta mesa, neste botequim.
Sentiu mesmo uma súbita simpatia por Ardis Fletcher, que entrou a bambolear-se no botequim, pela porta do fundo, os cabelos vermelhos saltando sobre os ombros, o
busto moldado por uma camisola justa azul-pálida, um fio de pérolas em volta do pescoço, o caminhar ondulante. Ela levantou a mão no momento em que distinguiu Amanda,
aproximou-se da mesa balançando o colar de pérolas e gingando os quadris, deixando à sua passagem um rasto de olhares masculinos bastante interessados.
- Olá disse ela com ar fatigado; afundou-se numa cadeira e fez rolar os olhos azuis nas órbitas. Oh, que dia, que dia!
- Encontraste as páginas que perdeste? - perguntou Amanda.
- não, que diabo, eu. - Deteve-se. - Lamento muito. Esqueci-me de que não gostas de ouvir praguejar. Pensas que mas roubaram?
- Porque havia alguem de fazer tal coisa?
- não sei - volveu Ardi - É um tema muito bom, sabes?
- Estou certa disso.
- Provâvelmente, alguém roubou aquelas páginas. -- Ardis fez uma pausa. - Roubavam muitas coisas a Shakespeare, sabias?
- não.
- É verdade. E continuam ainda. Hoje em dia, metade dos enredos dos filmes são decalcados das suas obras. O artista não se pode defender no mundo de facínoras
em que vivem. - Bolou expressivamente os olhos azuis nas órbitas - Acabo de chegar de casa - disse ela. - Vasculhei todo o meu quarto, virei-o de alto a baixo. Encontrei
coisas que nem imaginava possuir, cartas recebidas durante as minhas férias no campo, há dois anos, vê lá tu. Mas as páginas, essas, nem uma. Dirigi-me á escola
e examinei todos os papéis velhos que encontrei pelas valetas. Então, para onde se sumiram, és' capaz de me dizer? Estou convencida de que os objectos 'inanimados
podem erguer-se e caminhar. Atendeste a tua chamada?
- Quê?
- A tua chamada. Havia uma chamada interurbana para ti.
- Quando?
- Há cerca de meia hora. Foi uma das raparigas que me disse. Pensei que tu...
- Interurbana? Donde?
- Terás de ligar para a telefonista 23 em Mincápolis. não...
- Oh, meu Deus! - exclamou Amanda. - Aposto 'que sei o que aconteceu. - levantou-se subitamente da mesa.
- Bebe o meu café!
- Quê?
- Morton - respondeu, e saiu.

- Mãe - disse ela ao telefone. A linha crepitou terrivelmente, ela foi obrigada a gritar. - Mãe, és tu?
Ouviu, débil e longinqua, a voz da mãe.
-- Amanda?... Sim, sou eu. Tenho tentado. - A voz extinguiu-se completamente.
- Oh, pelo amor de... Mãe? Mãe! - Furiosa, sacudiu o gancho 'do telefone de parede. - Telefonista? Telefonista!
- A telefonista, sim - 'di'sse uma voz.
- A chamada foi interrompi'da.
- M'as a ligação mantém-se ainda!...
- Que me interessa isso, se não consigo ouvir?
- Queira esperar um momento.
Nova série de estali'dos seguida de rumor proveniente de uma conversa cruzada: uma telefonista discutia com um soldado de Fort Bliss, que desejava uma ligação
para Nova Iorque. Depois, O rumor dissipou-se, ouvindo-se um estali'do e um zumbido. A voz da telefonista fez-se de novo ouvir. - A sua chamada está na linha. Queira
prosseguir.
- Mãe?
- Amanda? Que está' a acontecer com este telefone?
- Ela teve-o? - perguntou Amanda.
- Sim, querida.
- E está bem?
No vestíbulo, 'du'as jovens envolveram-se numa discussão. Amanda gritou:
- Estejam caladas, sim! Falo para muito longe!
- Oh, vai para o Diabo - retorquiu uma das jovens. Porém, baixaram a voz.
- Mãe, a Penny encontra-se bem?
- Sim, está óptima, querida.
- Que é que ela teve?
- Uma menina.
- Oh, que bom! - 'exclamou Amanda, sorrindo. - Uma rapariga. Mas encontra.se bem, a Penny?
- Sim, óptima. Tenho tentado falar-te desde as dez horas, Amanda. não te avisam quando recebes telefonemas?
- Estive nas aulas, mãe. Diz, como se chama ela? A menina.
- Katherine.
- um nome bonito.
- Sim.
- Agrada-me.
- Sim.
- Como está o pai?
- Oh, óptimo. Deixei-o na maternidade. Tive 'de voltar a fim de preparar a reunião paroquial 'desta noite. Como vão os estudos, Amanda?
- Oh, admirâvelmente. Mãe, 'escolheram dois dos meus bailados para a festa de Natal!
- Magnífico. não te chamam ao telefone quando recebes um telefonema, Amanda?
- Claro que sim! Encontrava-me na aula. Mãe, 'diz ao pai, sim?
- Digo-lhe o quê, querida?
- Dos meus bailados. Dos que foram escolhidos.
- Sim, sim, decerto.
- Mãe, o Frank já conhece a boa nova? Alguém o preveniu?
- Bem, querida, ele está em pleno Pacífico. Expedi.mos um cabograma, mas sabe-se lá quando o vai receber!
- A marinha não tem maneira de o fazer chegar râpidamente às suas mãos?
- Certamente que sim, Amanda. Mas não te esqueças de que se está em guerra. Vamos enviar esta noite uma carta ao Frank, prevendo o caso de o cabograma se
extraviar.
- Acho bem. Que tal parece ela? A menina.
- Como um bebé.
- E a Penny, como vai?
- Óptima. Fatigada, no entanto...
-- Fatigada? Foi difícil, mãe?
- não te preocupes, Amanda. És muito jovem para te preocupares com tais coisas.
- Bem, eu... - Calou-se.
- Amanda...
- Diz, mãe...
- Pensei que a ligação tivesse sido interrompida mais uma vez.
- não. Ainda me encontro aqui.
- De .toda a maneira, é tempo de nos dizermos adeus. É uma chamada interurbana, sabes?
- Pois, mãe. Diz a Penny que a adoro e fala dos meus bailados ao pai, não te esqueças.
- não me esquecerei.
- Ver-nos-emos no dia de Acção de Graças. Crês que a Penny esteja já em casa nessa altura?
- Estou certa disso.
- Bem. Okay, mãe. Então, adeus.
- Que Deus te abençoe, querida.
Ouviu-se um dique na linha, seguido por um zumbido. Amanda repôs o auscultador no gancho e ficou silenciosa durante um momento, com a mão pousada nele. Depois
voltou-se para o vestíbulo.
- Eh! - gritou ela. - A minha irmã acaba de ter um bebé.
Bem, ah, sim! Que giro! - ripostou a mesma jovem. Amanda desatou a rir e subiu a correr os três lanços de escada
até ao seu quarto. Abriu a porta de par em par e dirigiu-se para o calendário pendurado na parede, por cima da escrivaninha. Pegou num lápis negro e circulou imediatamente
a data: 10 de Novembro de 1942.
"Sim", disse ela, "Kate é um bonito nome." Pôs-se de novo a rir e mandou-se para cima da cama. Desembaraçou-se dos sapatos leves, rolou sobre as costas e
ficou a olhar para o tecto, sorrindo.
"A minha irmã teve um bebé", pensou. "Bem, que bebes tu?
A boa da Penny!"; Um bebé é a dádiva divina de Deus, dissera
a mãe uma vez. "Bem, ei-lo, Penny! Ei-lo, minha boa Penny!
Pergunto-me o que te teria custado. Provavelmente, sofre-se como
O diabo".
Sentou-se bruscamente na cama, um pouco como se tivesse pronunciado a palavra em voz alta e desejasse certificar-se de que ninguém a tinha ouvido. Mas como
supunha estar só, a presença da jovem de pé no limiar da porta fê-la estremecer.
- Oh, - exclamou Amanda.
- Olá! - disse a jovem. - Assustei-a?
- Sim.
- Lamento. não é minha intenção. Este é o 35?
- Perdão.. -
- o 35. É o número deste quarto?
- Sim, é.
Sentada no meio da cama, descalça, Amanda observava a jovem que se encontrava na soleira da porta. Ela trazia um casaco de caqui sobre uma saia de flanela
cinzenta. Puxado sobre a nuca, o colar do casaco fazia um fundo escuro à cabeleira castanho-arruivada. Parte do cabelo caía sobre a testa em franjas desordenadas,
mas o restante, penteado liso, caía numa cascata sobre a nuca. A jovem sorria. O sorriso, radiante, iluminava-lhe os olhos verdes, cintilava em todo o rosto. Ela
pousou a mala e a bolsa e, ainda a sorrir, examinou o quarto.
- É maravilhoso - disse. - Nunca esperei que fosse tão magnífico.
Começou a despir o casaco. Amanda observava-a em silêncio. Depois de tirar o casaco, a jovem lançou-o sobre a mala. Trazia um sweater de cachemira azul-escura
com pequenos botões de pérolas. Era delgada, tinha belos peitos e ancas largas, não devia passar dos 17 anos.
- Você é, com certeza, Amanda.qualquer.coisa - disse ela.
- Soames.
- Soames, é verdade. Foi a encarregada das acomodações que me enviou para cá. Dormitório Feminino: não é mesmo giro? Tem-se a impressão de se estar num serviço
de uma maternidade.
A jovem desatou a rir, e o riso era profundo, de garganta. Os olhos verdes continuavam a cintilar. Esquadrinhavam o quarto, sem nada deixarem escapar, numa
pesquisa contínua, sempre divertidos, sempre fulgurantes. Amanda, a principio atónita e um tanto aborrecida por esta intrusão, sentiu dissipar-se a sua contrariedade.
E, curioso, teve vontade de rir. Este rosto vivaz, este sorriso impudente, estes luminosos olhos verdes, exprimiam uma alegria contagiante.
- Vejamos: que é que tudo isto significa? - perguntou Amanda.
- A mulher do Dormitório Feminino não a avisou? E eu que pensava que fosse tão eficiente! Bem, creio que vou ser sua companheira de quarto. Se não se importa,
claro. Lamento ter chegado tão tarde, mas a minha mãe e eu tivemos uma pequena discussão. - A jovem fez uma careta. - Que diz então?
- Bem, eu... penso que sim. Quero dizer...
- Bom, creio que vai ser maravilhoso. Há por aí uma casa de banho? Tive de me reprimir durante horas. A do comboio era um chiqueiro.
- Sim - disse Amanda. - Ao fundo do corredor.
- Obrigada.
A jovem deteve-se no limiar da porta.
- Amanda Soames - pronunciou ela, para se familiarizar com o nome. - De que lado? Do direito ou do esquerdo?
- Do esquerdo. A segunda porta - indicou Amanda, com os olhos arregalados.
- Volto já.
A jovem desapareceu no corredor. Um segundo depois a cabeça dela aflorou no limiar da porta, arrebitada para um lado, os longos cabelos castanharruivados
pendentes molemente sobre um dos olhos, a boca com o sorriso atrevido, os olhos verdes cintilando.
- Chamme Gillian - disse ela. - É o nome próprio. Não é cómico? Ria agora para desopilar enquanto não volto.
A cabeça desapareceu de novo. Amanda ficou a olhar, espantada, para o limiar da porta, vazio. E subitamente a cabeça reapareceu como o gato de Alice no País
das Maravilhas, separada do corpo, na moldura da porta, sorrindo.
- Giliian Burke - disse a jovem.
E de novo o limiar ficou vazio.
O incidente que envolveu Gillian Burke produziu-se no Teatro Universitário pouco depois do feriado do dia de Acção de Graças.
O acontecimento surpreendeu Amanda; até esse momento conhecera sómente Gillian como companheira de quarto e não suspeitara deste aspecto mais profundo do
seu carácter. E depois de tudo se ter dissipado nunca soube realmente se o incidente fora a revelação de uma personalidade dissimulada ou constituíra uma exibição
da arte de representar intuitiva de Gillian. Não pôde ignorar que o acontecimento dera origem a que Gillian se tornasse, em menos de uma semana, uma vedeta do campus;
por vezes chegou a pensar se Gillian não desencadeara todo o incidente a fim de atingir um fim preciso. Mas Giilian não saíra também mais ou menos humilhada desta
história? Teria ela provocado tal sarilho? O caso era contraditório e enigmático. Mas assim era igualmente Gillian Burle.
Amanda não tardou a compreender que a convivência com Gillian se tornaria uma experiência diferente de qualquer outra que já tivera: refrescante, exaurível
e, de certo modo, aniquiladora.
A primeira barreira que as dividiu foi a da linguagem. Amanda pensou que era melhor resolver a questão imediatamente. Ela crescera num lar onde a palavra "Inferno"
era sempre proferida com letra maiúscula, não sendo usada senão nos sermões do pai e apenas para ilustrar os tormentos do enxofre e do fogo. "Cadela" era a fêmea
do cão. caneco" era um recipiente usualmente feito de lata. "Beijar" não significava outra coisa senão uma canção amorosa. GiIlian usava ainda outras palavras que
Amanda nunca ouvira pronunciar em sua casa, mas que suspeitava deverem encontrar-se garatujadas em portais e nos passeios de Mineápolis. Em qualquer caso, eram ofensivas;
decidiu, portanto, pôr um fim imediato ao fluxo de obscenidades.
Gillian acabara de voltar ao quarto, findo o jantar. Prontamente, deu weuter e desapertou o soutian.
- Uff! - disse ela. - "Desembaraçada finalmente destes malditos arreios.
- Como contraíste estes hábitos? - perguntou Amanda, que, sentada na cama, estudava uma lição de inglês.
- Que hábitos? - inquiriu Gillian. Dirigiu-se para a sua cama, baixou a coberta, ajeitou o lençol e sentou-se abruptamente.
- praguejas muito.
- Quê?
Gillian volveu os olhos para a companheira. Tirara a chinela direita e a peúga e estava a examinar o dedo grande. Olhou de soslaio para Amanda através da
cortina pendente dos seus cabelos castanho-arruivados.
- Praguejas bastante.
- Quem? - perguntou Gillian. Meneou a cabeça e sacudiu os cabelos para trás dos ombros. - Eu?
- Sim. Em cada duas palavras que proferes, uma é sempre grosseira.
- Nunca o notei - disse Gillian, e voltou a examinar o dedo.
- Bem, é verdade - tornou Amanda. - Praguejas bastante, sim.
O quarto mergulhou de súbito no silêncio. Amanda mordeu um lábio. Sentiu que ia travar-se uma discussão, O que não desejava. E, contudo, tinha de resolver
este caso. Do lado Oposto do quarto, Gillian examinava o .dedo grande de um dos pés; por fim, inclinou a cabeça como se tivesse compreendido do que se tratava e
reflectisse antes de responder. Descruzou as pernas, encostou-se ao espaldar da cama, apoiada nos braços, e - ainda inclinando a cabeça - disse:
- Bem, então o que é? Uma queixa formal?
- Sim, suponho. - respondeu Amanda.
Gillian permaneceu silenciosa. levantou-se súbitamente, dirigiu-se para a sua escrivaninha, pegou num livro e dirigiu-se, erecta, para a cama.
- Penso que devíamos resolver esta questão - disse Amanda. - Se queremos continuar a ser companheiras de quarto, penso que devemos resolver esta questão.
- Está resolvida - respondeu Gillian.
- Não vejo como.
- Que diabo queres que eu faça? Que rape a cabeça e entre
para um convento?
- Não, mas penso...
- Esta é a minha maneira de falar - redarguiu Gillian. - Sou eu. - Inclinou a cabeça enfâticamente. - Deverias compreender que preferiria mudar de quarto
do que de personalidade.
- Não vej.o que o facto de praguejares acrescente alguma coisa a- tua personalidade.
- Bem, e eu não vejo que o facto de murmurares todas essas preces acrescente alguma coisa à tua.
- Fui criada assim - disse Amanda.
- E eu fui criada numa atmosfera de grosseria.
-- Bem, isso não é resposta.
- Não, suponho que não é.- Pousou o livro. - Vou falar com a encarregada do dormitório. Creio que poderá arranjar-me outro quarto.
- Talvez fosse melhor fazê-lo.
- Está bem. Amanhã de manhã.
Silêncio novamente. Neste silêncio, Gillian despiu-se e enfiou o pijama.
- Lamento muito - disse Amanda. - E.... a verdade é que
não estou habituada a tal linguagem. - Fez uma pausa. - Ninguém em minha casa fala assim.
- Não estás em tua casa - replicou Gillian, e meteu-se na cama.
- Não, mas.. - Amanda franziu a testa. - Que queres dizer?
- Quero dizer que não estamos em Crackerbarrel Falls, Minesota, mas na Universidade de Talmadge, parte do grande e vasto mundo. E existe ainda um mundo mais
vasto para além de Talmadge. E mesmo que isto constitua um grande choque para ti, não deixo de dizer-te que existem milhões de seres decentes, tementes a Deus, neste
mundo, que não .são considerados almas perdidas só porque dizem "diabo", ou "maldito", ou...
- Basta, Gillian!
- Okay, a questão está arrumada. Mudarei de quarto amanhã. Mas encontras-te cá para te cultivares, Amanda. E isso devia incluir algo mais do que a Quinta
de Beethoven.
- Não vejo como...
- Sou um ser humano -- disse Giilian mansamente. - Vais encontrar bastantes pessoas entre o momento presente e o instante em que te enterrarem. E gostaria
de saber se irás pedir a todas que mudem de quarto.
- Não compreendo o que queres dizer.
Quero dizer que é uma maneira cómoda de viver, a que desejas. No entanto, se elas se mantiverem a mudar de quarto, podes estar certa de uma coisa, Amanda.
- De quê?
- O teu quarto jamais mudará.
- Talvez não deseje que ele mude.
- Esplêndido. Tens dezanove anos e tudo já bem regulado. Não se mexa em qualquer peça de mobiliário que Amanda pode tropeçar e cair.
- Não compreendo porque é que algumas palavras grosseiras
possam com.pletar a minha educação. Não é minha intenção tornar-me uma mulher de... ou... ou...
- Nem eu - declarou Gillian - Esqueçamos o caso. Avistar-me-ei com a encarregada na prôxima manhã. - Suspirou profundamente.
Ela não se avistou com a encarregada na manhã seguinte. Então, Amanda disse-lhe:
- Bem..., penso que estivemos ambas um pouco exaltadas, mas, já que sabes o que penso acerca do que conversámos, não serás capaz de fazer um pequeno esforço?
Quero dizer, não podias pelo menos tentar, Gillian?
A jovem sorriu. Os seus olhos verdes cintilaram subitamente.
- Tentarei - volveu ela.
Nesse ano andava em voga uma anedota sobre duas freiras que tinham ido ver uma das peças bastante frescas que se representavam na Broadway. Elas sentiram-se
chocadas no 1.o acto, aterradas no 2.o. Durante o 3.o acto, uma das freiras inclinou-se, na cadeira, e começou a tactear no soalho do teatro.
"- Que se passa?", perguntou a outra freira.
"- Deixei cair o raio do rosário.
A influência exercida por Gillian Burle não foi assim tão forte. E, contudo, Amanda apercebeu-se de que os seus ouvidos se iam acostumando ao calão. E embora
nem uma só vez usasse qualquer das palavras de Gillian, passou a aceitá-las como uma parte inata de Gillian, uma caracteristica essencial sem a qual Gillian perderia
algo da sua personalidade. Amanda não tardou a descobrir que, se ás primeiras impressões Gillian provocava certo constrangimento devido às suas maneiras, pouco depois
verificava-se uma aceitação gradual, e, por fim, a sua conduta acabava por parecer natural.
A desordem, por exemplo.
Amanda era uma jovem cuidadosa que, mal despia uma saia, a dependurava no armário; todas as manhãs, antes das aulas, fazia a cama; colocava os livros no
mesmo lugar, na escrivaninha, depois de terminadas as aulas; a sua vida era governada por uma rotina ordenada, eficiente. Gillian, por outro lado, parecia não ter
respeito pelas suas coisas, senso algum do tempo, paciência com a cadência regular do mundo que a rodeava. Os seus hábitos irritaram Amanda, ao principio. Esta,
uma estudante de música, vira os seus primeiros anos de estudo de piano estritamente medidos .pelo bater compassado de um metrónomo. Quando olhava para uma composição,
dava-se imediatamente conta da clave e da medida, e sabia que uma e outra continuariam constantes até que o compositor indicasse uma alteração. O universo da música
era rígido e inflexível. Numa medida a quatro tempos nunca poderia haver cinco seminimas - até que Gillian chegou.
A principio, Amanda sentiu-se completamente desorientada. Voltava ao quarto e encontrava o sweater de Gillian suspenso numa cadeira, a blusa na escrivaninha,
as cuecas e o soutian no chão, as meias pendentes dos puxadores das portas, os livros abertos ou fechados onde acontecia tê-los deixado cair, o rádio completamente
aberto, pedaços de guloseimas no soalho, diante do leito, a cama por fazer, a propria Gillian deitada toda nua, ou, como acontecera numa ocasião, coberta apenas
por um exemplar do The New York Times.
Amanda fez algumas observações acerca da desordem do quarto e Gillian prometeu tornar-se mais cuidadosa. Mas introduzir um pouco de ordem no mundo caótico
da vida de Gillian Burke era uma tarefa impossível. Amanda deu por si a cuidar das coisas da sua companheira de quarto: a dobrar os casacos de malha, a colocar as
chinelas muito juntas no fundo do armário, a fazer a cama de Gillian; porém, revoltava-se quando ouvia alguém falar da aparente desordem de Gillian.
Contudo, não importava quão negligente se mostrasse quanto aos seus pertences, Gillian jamais tocava em algo que fosse de Amanda. Quando lançava o soutian com desenvoltura
através do quarto, este nunca pousava na cama de Amanda. Quando deixava copos por lavar, ou caixas de biscoitos abertas, estas coisas achavam-se sempre no seu lado
do quarto. Nunca impôs a sua desordem à companheira, compreendendo Amanda que não era leal impor a sua ordem a Gillian. Assim, interrompeu os seus esforços. Compreendeu
que a falta de ordem de Giliian constituía, em si mesma, uma espécie de ordem, e que todos os seus pertences nada sofriam com isso. No meio daquele quarto, estava
certa de que Gillian nunca se deixaria tombar na sua cama cuidadosamente feita, de que nunca mudaria um simples alfinete do sítio onde o colocara. Os dois mundos,
bem distintos, conseguiam girar no céu sem perigo de colisão.
Compreendeu ainda que a aparente negligência de Gillian tinha muito pouco que ver com a verdadeira paixão da jovem pela limpeza e pela elegância. Jamais
conhecera pessoa alguma que se banhasse com tanta frequência como Gillian Burke. "Cleópatra tomava banhos de leite, sabias?", dissera Gillian. "Gostaria de a poder
imitar. Adorava imitá-la." A mais diminuta vermelhidão, a mais pequena e inesperada borbulha, eram estudadas de maneira absorvente por Gillian, diante do espelho
da porta do guarda-vestidos. Para Amanda, que não dava qualquer espécie
de atenção ao seu corpo, o interesse-da amiga parecia anormal, quase narcisistico. Via GilIian aproximar-se bruscamente do espelho e erguer os cabelos para o cocuruto
da cabeça e segurá-los com uma das mãos. "Achas que devo trazer o meu cabelo levantado no alto da cabeça? Faz-me parecer mais velha?" Ou punha as mãos nas ancas,
fazia uma careta à sua imagem no espelho e dizia: "Preciso de engordar uns quilos. As actrizes não devem ser tão magras." E uma vez em que se achava nua diante do
espelho disse de repente: "Olha, Amanda, uma dançarina javanesa", e flectiu um braço, uma perna, e meneou a cabeça em curtos moviment.os de dança; e naquele momento,
mesmo os próprios olhos pareciam oblíquos, à maneira oriental. E Amanda compreendeu imediatamente que Gillian considerava o corpo apenas outro dos seus utensílios.
Gillian desejava ser actriz, e o conhecimento do seu corpo, das suas possibilidades e das suas iimitações fazia parte da sua formação. Todavia, Amanda desejava que
ela perdesse menos tempo diante do espelho e menos tempo na banheira.
O corpo e os vestidos eram os dois edifícios inalteráveis no rasto do furacão pessoal de Gillian. O mistério da elegância da amiga confundia completamente
Amanda. Ela nunca compreendeu como Gilhan se arranjava. Não importa onde deixasse cair a saia no chão, aos pés da cama, sobre uma cadeira - quando a vestia na manhã
seguinte nunca apresentava uma ruga, um vinco. Parecia, de facto, que acabara de chegar da tinturaria do cam pus. Giliian levava muito tempo a vestir-se, em cada
manhã, em contradição com a rapidez com que se despia todas as noites. Tinha-se sempre a impressão de observar a lenta e penosa construção de um arranha-céus, destinado
a ser reduzido a escombros ao pôr do Sol. O resultado era sensacional. Gillian trazia com apurada elegância os seus fatos. A sua cintura era estreita; as saias,
graças ás ancas largas, caíam numa linha primorosa sobre as pernas bem feitas. Vestia os sweaters bastante soltos, como se negasse a sua exuberante e grácil feminilidade.
Passava boa parte do dia a aplicar baton na boca generosa, a alisar os cabelos longos, a frisar a franja. E ao pôr do Sol, bum!, a dinamite explodia, todo o edifício
se desmoronava, o arranha-céus meticúlosamente construído aluía por completo.
Tratava-se de um edifício sem fundações, compreendeu Amanda bem cedo.
- Não gosto de calcinhas - dissera Gillian. O oráculo pronunciara-se, mas Amanda não entendera o significado da sílaba délfica, pensara que a companheira
de quarto se referira simplesmente a calças. Devia ter compreendido que Giliian escolhia as suas palavras com o cuidado com que elegia o vestuário; ela não teria
dito "calcinhas" se se refrrisse a "cuecas". Gillian Burke não gostava de cuecas, e não as usava, portanto.
- Mas não apanhas frio? - perguntou Amanda.
Gillian piscou os olhos e sorriu.
- Tenho sangue quente - volveu ela.
As suas palavras possuiam um significado mais vasto do que deixavam entrever, subentendido que não correspondia a nada de real. Com efeito, apesar dos seus
hábitos ciclónicos, do seu vocabulário de marinheiro, a despeito do interesse que votava ás coisas físicas, Amanda estava persuadida de que a experiência autêntica
de Gillian era quase tão limitada como a sua. E este era, talvez, o único liame que permitia que vivessem juntas com semelhante harmonia.
A explosão que se produziu no pequeno teatro não correspondeu em nada ao que Amanda poderia esperar da sua companheira de quarto. Ou simplesmente talvez
Amanda não se encontrasse preparada para tal explosão. Passara em Minesota o dia de Acção de Graças e voltara a Talmadge com a notícia de que o cunhado, Frank, fora
morto numa operação nocturna ao largo de Guadalcanal. O telegrama do Departamento de Guerra fora breve e conciso, meramente compassivo, à maneira dos jornais. Mas,
ao coordenar as noticias acerca da batalha naval, Penny chegara à
triste conclusão de que o marido tombara antes de ter tomado conhecimento do nascimento da filha. E isto forneceu maior amplitude à tragédia - a morte do marido
tornou-se ainda mais crueL. No comboio, de regresso a Connecticut, Amanda chorara bastante, mas sentira-se surpreendida ao verificar que não chorara a morte do cunhado,
mas a dor da irmã, que seria obrigada a suportar o fardo da vida. Voltou à Universidade com um vazio que lhe fazia doer o coração.
Gillian, por outro lado, achava-se desbordante de energia, depois do feriado. Tratara sem demora de arranjar um papel no espectáculo de Natal; porém, concederam-lhe
uma pequena réplica, nada mais.
- Procedem desta forma porque sou uma caloira - disse a Amanda. - Os papéis mais importantes destinaram-nos àa do 2.o e do 3.o ano. Eu posso enterrá-las
a todas.
Mas, apesar destes comentários, estudou com paciência a parte que lhe coube e pareceu relativamente satisfeita. Um dia, porém, alguém a ouviu cantar durante
um ensaio, e decidiu ser ela a intérprete ideal de uma das canções do show. possuía excelentes dons de mímica e reproduzia de maneira impecável qualquer acento.
Assim, embora a sua voz fosse leve e um tanto desprovida de cor, o Dr. Finch, que dirigia o espectáculo, apercebeu-se de que era ela a indicada para a canção especial
que tinha em mente. Disse apenas a Giliian que acrescentava uma canção ao seu papel. Não precisou qual até ao dia da explosão. Amanda estava sentada na primeira
fila, na sala mergulhada na penumbra. Morton Yardley achava-se afundado na cadeira vizinha, o capuz levantado sobre a cabeça. Do fundo do teatro, o Dr. Finch chamou:
- Gillian! Gillian Burke!
- Um momento - respondeu Gillian dos bastidores.
- Onde está, menina Burke? - gritou o Dr. Finch.
- Aqui - disse ela, e surgiu no palco com um recipiente de cartão cheio de café quente, que bebia a pequenos goles. Trazia calças pretas e sweater da mesma
cor. A fila de projectores, por cima da sua cabeça, lançava-lhe sobre os cabelos um reflexo acobrieado.
- Que há? - perguntou ela, voltada para a penumbra da sala.
- Gostaria que experimentasse aquela canção, menina Burke - disse o Dr. Finch.
- Oh, ok! - respondeu Gillian.
- Pet - pediu o Dr. Finch ao pianista -, faça o favor de
dar a música à menina Burke. Sabe ler música, menina Burke?
- Não, não.
- Bem, então queira ouvi-la uma vez, por favor. Pete...
O pianista fez um gesto de .a.provação com a cabeça e começou a tocar. Gillian, sorvendo o café, instalou-se numa das cadeiras do palco, inclinou a cabeça
sobre um ombro e escutou. A canção tinha uma melodia agradável e evocava uma atmosfera de pastoral. Ela surpreendeu-se a murmurá-la, enquanto a música enchia todo
o teatro. Quando o pianista se deteve, o Dr. Finch perguntou:
- Gosta da canção, menina Burke?
- Adoro-a - respondeu Gillian. - Como se chama?
- Numa Certa Manhã - volveu o Dr. Finch.
- Posso ver os versos?
- Pete. - disse o Dr. Finch,. O pianista inclinou-se por cima da ribalta e entregou a folha da música a Gillian. Observando da terceira fila, na orquestra,
Amanda disse num sussurro:
- Ela é tão profissional!
- Quê? - replicou Morton.
- Gillian. Ela é bastante profissional. Dá a impressão de que tem passado toda a sua vida num palco.
- Oh, - respondeu Morton, e afundou o capuz na cabeça. Gillian examinava a folha que tinha nas mãos. Esteve calada durante longo tempo. Depois ergueu os
olhos e dirigiu a voz para o fundo do teatro. Não pôde distinguir o Dr. Finch, mas falou alto voltada para o sítio onde ele parecia estar.
- Pensei que a canção fosse Numa CeriMónia.
-Mas é - disse o Dr. Finch. - A "certa manhã", claro, é a de Natal.
- Hum... hum. - fez Gillian.
- Que é que a preocupa, menina Burke?
Gillian ficou um momento pensativa. Amanda, observando-a, notou que uma expressão curiosa lhe cruzava o rosto. Ela parecia estar perturbada... "ou calculava?
Amanda não sabia dizer ao certo.
- Mas não éo que se lê aqui! - exclamou Gillian, sempre voltada para o fundo do teatro. - Lê-se - a sua pronúncia era impecável, tendo-se em conta que ela
nunca estudara alemão na sua vida - An emem gewissen Morgen.
- Sim - explicou pacientemente o Dr. Finch. - Significa
"Numa Certa Manhã" em alemão.
Gillian fez um pequeno trejeito categórico com a cabeça.
- Estou-me nas tintas! - volveu ela. Dirigiu-se para a ribalta e devolveu a folha de música ao pianista.
- Quê? - perguntou o Dr Finch. - Perdão, o que...?
- Disse: "Estou-me nas tintas"! - replicou Gillian, mais alto desta vez. Pousou uma das mãos nos olhos, para os proteger da luz, e tornou: - Não me .consegue
ouvir bem? Estou-me nas tintas!
- Não compreendo - volveu o Dr. Finch, embaraçado, descendo o corredor do lado direito dela.
- Não a quero cantar - declarou Gillian.
- Porquê?
O Dr. Finch encontrava-se agora junto do piano, fitando Gillian. Um bando de rapazes surgira dos bastidores, observando-a nervosamente, não sabendo se deviam
rir ou não.
- alemã - disse Gillian.
- O quê?
- alemã, é alemã. Não é alemã?
- Sou, sim, mas... Não a quero cantar. Eis tudo. Não cantarei uma canção de Natal alemã, agora que os nazis estão a assar judeus em fogões! Eis tudo!
- Menina Burke, esta canção..
- Não a quero cantar - repetiu Gillian, e saiu do palco.
- Oh, meu Deus! - disse Amanda a Morton. - Ela não sabe o que está a fazer.
Levantou-se abruptamente do seu lugar e correu pelos bastidores à procura de Gillian; porém, esta já deixara o teatro. Conseguiu apanhá.la na rua. Gillian
caminhava com a cabeça inclinada para a frente, as mãos afundadas nos bolso do casaco.
- Gillian!
Ela deteve-se e esperou que Amanda se aproximasse. Depois começou novamente a andar apressadamente, mal a amiga se colocou a seeu lado.
- Por que .motivo fizeste aquilo? - perguntou Amanda.
- Não gosto de nazis.
- Alemão não é sinónimo de nazi.
- Oh, agora não é?!
- Não, não é. A canção foi escrita por Margit Gluck. Ela...
- Não me interessa o nome de quem a escreveu...
- Ela estuda cá. É uma refugiada! Evadiu-se de Viena, e o alemão é a sua língua nativa : escreve com muito brilho; não tiveste razão em fazer o que fizeste,
Giilian!
- Oh! - volveu Gillian num murmúrio.
- Sim, diabos te levem - respondeu Amanda. - Oh!

O jornal da Universidade divulgou a história no dia seguinte.
Contou exatamente o que se passara no pequeno teatro, e depois inseriu uma entrevista com Margit Glúck, compositora de An einem gewissen Morgen, na qual a menina
Glúck disse que se sentia "surpreendida e triste" pelo incidente. O Dr. Finch, num comentário célebre feito a um dos repórteres da Universidade, afirmou: "Os temperamentos
são .tradicionalmente ecitáveis nos períodos de ensaios. Estou certo de que isto não passa de um caso de má interpretação. A menina Glúck e a menina Burke opõem-se,
por índole e por formação, á mesma ideologia. A menina Burke reagiu emocionalmente, no fim de contas
como se espera de uma actriz, devo acrescentar."
Gillian Burke recusou falar a qualquer dos repórteres do campus. Porém, após a .publicação das entrevistas, dirigiu-se ao dormitório de Margit Glúck e pediu-lhe
desculpa. No fim do encontro achavam-se ambas debulhadas em lágrimas; um estudante atento registou a cena numa fotografia, cujo negativo enviou ao jornal. Uma nova
narrativa sobre o caso foi inserida na semana seguinte, acompanhada da comovente fotografia. Gillian e a menina Gluck desembaraçaram-se com certa dose de fortuna
de toda a questão, mas foi Gillian quem, na verdade, tirou mais vantagens do incidente. Demonstrara temperamento artístico e sincero patriotismo.
O Dr. Finch, que era uma autoridade respeitada, considerou-a "a actriz". Ela recusara a publicidade banal ao evitar qualquer dos repórteres do campus. Dirigira-se
com o maior recato possível e com toda a humildade à menina Glúck, pedind""lhe desculpa. Não foi por culpa de Giilian que alguém conseguira fotografar a comovedora
cena, mas a imagem e a nova narrativa deram mais amplitude ao caso do que a primeira história. A imagem provou, sem dúvida, que tratara "apenas de má interpretação",
que Gillian agira com bastante nobreza e humildade a fim de di sipar sem demora o mal-entendido. O espectáculo de Natal era uma grande festa estudantil; contudo,
a lotação esgotou-se no dia em que a narrativa foi dada à estampa. Gillian Burke tornou-se uma vedeta célebre do campus logo no seu primeiro mês na Universidade.
Amanda nunca soube se aquele momento de silêncio no palco correspondera a um cálculo. E jamais o perguntou a Gillian.

Havia em Honolulu grande número de raparigas, mas David Regin manteve-se fastidiosamente afastado delas. Encontrava nas prostitutas algo de impessoal, uma
espécie de precisão mecânica que fazia de um acto de amor uma coisa completamente fria. Além disso, embora nunca o admitisse, afastaram-no os filmes que vira no
campo de instrução, imagens que lhe perpassavam pelo espírito sempre que se sentia tentado por uma saia. O navio volta a Peari no principio do mês. Ostensivamente,
tratava-se de reparação na doca seca. Mas não havia nin'guém na tripulação que não soubesse que o HanTey se encontrava ali com uma missão bem definida: incorporar-se
numa flotilha de contratorpedeiros. Aos homens do Hanteey não os seduzia demasiado a perspectiva. Um navio de patrulha tinha, em média, três minutos de vida diante
de si, haviam-nos informado, e eles repetiram a história com o deleite de verdadeiros heróis. Apenas o tempo para uma prece de despedida. Assim, aproveitaram da
melhor forma possível a sua estada em Havai. David ia de tarde para Waikiki e nadava só. Por vezes encontrava na praia algumas enfermeiras e esposas de oficiais
estacionados em Pearl; observava-as nos seus elegantes fatos de banho e pensava nas raparigas que conhecia na terra natal, em Talmadge, especialmente em Ardis Fletcher
e nas coisas que tinham feito juntos. Certa vez, uma jovem wave aproximou-se dele, quando se encontrava deitado sobre a toalha, e pediu-lhe lume. Ele tinha consigo
o isqueiro Zippo e acendeu o cigarro da jovem. Esta mirou-o com um ar malicioso enquanto puxava algumas fumaças. Depois de tirar umas quantas baforadas, disse:
- Obrigada.
- Não tem de quê.
- Pertence a algum dos navios?
Tinha os braços cruzados sobre a cintura enquanto aspirava o fumo do cigarro. Não era bonita, na verdade, parecia demasiado magra no fato de banho azul,
e tinha dentes um tudo nada largos.
- Sim - respondeu David. - Ao Hantey.
- Está de volta ou prestes a partir?
- De volta.
- Donde?
- Tassafaronga.
- Suponho que participou nalguma operação disse a rapariga.
- Mais ou menos - respondeu David.
A jovem ficou calada, a aspirar o fumo do cigarro. Atrás dela, três rapazes que deslizavam em pranchas, na água, dirigiam-se para a praia. Os cabelos e os
olhos da rapariga eram castanhos, notou David. Os dentes demasiado largos, mas a boca bonita. Não parecia sentir-se nada nervosa, e, todavia, algo que se lhe reflectia
nos olhos dizia que este momento se estava a tornar bastante difícil para ela.
- Vi-o cá no outro dia - disse a jovem bruscamente. - Porque vem só?
- Porque gosto.
- então um solitário? - perguntou timidamente. Fez uma pausa. - É isso, então?
- Creio que sim.
- Bem - disse ela.
Novo silêncio, prolongado.
- Que idade tem?
- Dezoito anos - respondeu David.
Ela examinou-o com ar pensativo.
- Bem - disse, e de novo ficou calada. - Não quero perturbar a sua solidão.
Olhou para ele fixamente durante um momento, deitou o cigarro fora e começou a caminhar de regresso à sua toalha. David quase a chamou, mas depois decidiu
não o fazer.
Comeu, só, no Royal Hawallan, naquela noite. Ordenou que lhe servissem costeletas de porco e bebeu certa quantidade de leite; depois comprou na loja de lembranças
um lenço de seda com uma imagem da ilha e enviou à sua mãe, Júlia Regan, residente em Talmadge, Connecticut. Em seguida, regressou ao navio. Não sabia que horas
eram. Estavam a desmagnetizar o casco do barco e fora solicitado a toda a tripulação que depositasse os relógios em terra, pois a operação podia desarranjar-lhes
o movimento. David não compreendia muito bem do que se tratava. Estavam a passar um filme no ecrã, uma historieta com Joan Crawford. Foi mudar de roupa: vestiu o
trajo de bordo e depois voltou para assistir aos dois últimos complementos, pensando em Fletcher.
Em 6 de Dezembro partiram de Oahu para Nawiliwili, situada na ilha vizinha de Kauai. Supunha-se que ia haver aí, no dia seguinte, uma espécie de celebração
dedicada ao aniversário de Peari Harbor. Segundo o que se dizia, os indígenas de Nawiliwili apresentariam um luaw na praia em honra dos oficiais e dos marujos do
Hantley. Este género de rumor justificava-se geralmente: as informações emanavam dos operadores da cabina de rádio, que viam todas as comunicações, mesmo antes do
próprio capitão; mas, desta vez, estavam redondamente errados. Não se realizou luau algum na praia. Em vez disso, no dia seguinte, um grupo de jovens estudantes
liceais de 17 anos subiram a bordo, cerca das 11, a fim de visitarem o barco. Foi ordenado aos tripulantes que vestissem uma camisa durante a visita. Enquanto eles
se ocupavam a pintar o navio (os operários civis de Peari tinham deixado esta tarefa aos técnicos, aos marujos, que, desde os primeiros tempos da sua carreira na
marinha, haviam aprendido que a raspagem e a pintura eram males recorrentes), as jovens entraram a bordo, arregalaram os olhos diante dos canhões, dos lança-torpedos,
dos mastros, dos sinais luminosos, das bandeiras de transmissão e das cargas de profundidade. Os homens do Hantley saudaram as visitantes com notável comedimento.
Como perfeitos cavalheiros, continuaram com a pintura e a mergulhar os pincéis nas latas. Não se verificaram nem exclamações de admiração nem assobios. Mas trezentos
pares de olhos famintos devoraram os corpos jovens e frescos ocultos em saias finas e apertadas e blusas largas, enquanto trezentas linguas ávidas passaram sobre
os lábios, numa antecipação da noite. O rumor público anunciava um baile para aquela noite, no liceu local. Estas donzelas doces e jovens estariam lá presentes,
acrescentara o rumor. Impacientes, os tripulantes prosseguiram com a pintura.
Desta vez, o rumor público não era falso.
Os tripulantes do Hantley vestiram os seus uniformes brancos, puxaram o lustro aos sapatos, pentearam-se e visitaram o colega farmacêutico. Deram com o liceu,
ouviram a música que se tocava no interior e penetraram no local, como heróis conquistadores, prontos a celebrarem o dia de Pearl Harbor. No entanto, não se via
uma só jovem num raio de muitas milhas.
Em vez delas, aguardavam-nos os rapazes da localidade.
Aparentemente, as boas mães de Nawiliwili tinham sabido que se encontrava um contratorpedeiro na doca, ouvido as filhas falar da visita escolar efectuada
ao navio, calculado, e com muito boas razões, que os marujos invadiriam o recinto do baile naquela noite, e, avisadamente, conservaram as filhas em casa, a salvo,
no conchego da cama. Os marujos do Hantley culparam os rapazes locais deste acto de perfídia. Os rapazes locais atribuíram à presença dos marujos a deserção do elemento
feminino. Infortunadamente, alguns marujos tinham adquirido quase todo o stock da loja de bebidas antes de se dirigirem para o liceu. Quando se deram conta de que
seriam forçados a passar a noite sem a companhia das raparigas, começaram a beber. Meia hora depois principiou a luta. David safou-se no momento em que se iniciaram
as hostilidades. Fez-se conduzir de táxi à cidade e dirigiu-se para o cinema. Viu, sem conseguir reprimir um sorriso, As Virgens e Bali.
Regressou ao navio por volta das 23.40. Devereaux, um dos novos oficiais de comunicações, retirara a pistola calibre 45 da cintura e passara-a a Dinocchio,
o navegador da unidade. Ao reparar em David, Devereaux voltou-se e disse:
- Ora, parece que vens inteiro!
David subiu a prancha do portaló e saudou Dinocchio, que colocava a arma na cintura. Dinocchio respondeu indolentemente à saudação.
- Não foste ao baile, Regan? - perguntou Devereaux.
Este era um homem baixo, de cabelo negro, olhos castanhos e sorriso largo. Tinha sobrancelhas negras e espessas, que pareciam achar-se sempre ligeiramente
oblíquas, e falava com uma nuance de Barcasmo, como se 86 anos de existência lhe dessem direito a algo mais do que esta situação miserável como tenente a bordo de
um contratorpedeiro. Tal atitude era ainda reforçada pelo facto de que a vida a bordo do Juneau fora mais compassada e ao mesmo tempo também mais civilizada do que
esta.
- Sim - respondeu David.
- Como conseguiste escapar à zaragata? - perguntou Devereaux, as sobrancelhas oblíquas, um piscar de olhos castanhos.
- Parti quando começou, senhor.
- Belo rapaz - disse Devereaux, com admiração. Os seus olhos volveram-se para a doca. - Olha para ali. Eis um exemplo.
Dois marujos cambaleavam em direcção da prancha, de braço dado, embriagados. Os seus uniformes brancos estavam manchados de sangue; as blusas rasgadas, as
calças sulcadas de marcas produzidas pela relva. Cautelosamente, ajudaram-se a subir a prancha, levantaram os braços com que se seguravam um ao outro, para saudarem
a bandeira - a qual, diga-se, fora arreada ao pôr do Sol -, e em seguida Dinocchio, que os mirava com um desdém bostoniano.
- Requeremos permissão para subir a bordo, senhor - disse o primeiro marinheiro.
- Pois, pois, avança, Nelson, avança - volveu Dinocchio.
- Idem, senhor - disse o segundo marinheiro.
- Muito bem, muito bem - tornou Dinocchio, aborrecido. - Entrem e dispam esses trapos. Estais cheios de sangue, os dois.
- Senhor - disse o segundo marinheiro -, sabe qual é o melhor compincha que há em todo o mundo?
- Diz lá - volveu Dinocchio.
- Este gajo, o Nelson. Este gajo. O marinheiro de primeira classe Rishard Nelson. O melhor compincha do navio, da Marinha, de todo o mundo!
O marujo agitou o braço num gesto largo e quase tombou sobre a borda. Nelson amparou-o na queda e manteve-o direito.
- Não, senhor - disse Nelson para o amigo. - Não, senhor, tu és o melhor camarada que há no mundo.
- Não, és tu.
- Não, companheiro, tu és o melhor absolu... tamente!
O segundo marinheiro voltou-se para Dinocchio.
- Okay, senhor, assim, diga-me uma coisa, sim, senhor? Sim?
- Que é, Antonell?
Este sorriu.
- Senhor, porque devia o melhor camarada do mundo dar-me com uma garrafa de whisky na cabeça?
- Tomei-te por um gook - redarguiu Nelson.
- Não sou nenhum gook.
- Pensei que eras.
- Camarada, quase me rebentaste a cabeça. Sabes, amigo?
- Muito bem, já chega; vão deitar-se - disse Dinocchio -, antes que dê parte de vós dois.
- Dois camaradas como nós? - perguntou Antonelll, surpreendido. - Senhor, era capaz de dar parte de dois camaradas?
- Vamos, vamos, despachem-se.
Os marujos deram-se novamente os braços e seguiram, a cambalear, para a ré.
- Devias ver alguns dos outros - disse Devereaux. - O Arbuster regressou com um braço partido. Conhece-o? Um mestre artilheiro?
- Penso que sim, senhor - respondeu David. Hesitou um momento antes de acrescentar: - Bem, boa noite, senhor. Creio que me vou deitar.
- Um momento, Regan - disse Devereaux.
- Senhor?
- Podes dispensar-me um minuto?
- Sem dúvida, senhor.
- Vamos dar um passeio pela ré, fumar um cigarro.
- Sim, senhor - volveu David, embaraçado.
- Que navio! - disse Dinocchio na sua pronuncia bem clara de Boston. - Esta unidade é a última cidadela do brr-barismo em toda a esquadra do Pacífico.
- As coisas vão bem duras por toda a parte, Lou declarou Devereaux, arreganhando os dentes. E acrescentou: - Não te esqueças de que o velho quer que o despertem
logo que toda a tripulação se encontre a bordo.
Começou a caminhar com David em direcção da ponte da ré. As latas do lixo não tinham sido despejadas. Achavam-se empilhadas precisamente sobre a ponte e
exalavam um cheiro fétido.
- Escolheram bem o local, não é verdade? - comentou Devereaux, sorrindo. - Ora vamos dar uma volta por aí.
Ofereceu um cigarro a David e depois acendeu-lho. Os dois começaram a subir a amurada de estibordo. A noite estava belissima. As montanhas de Kauai' pareciam
furar um céu negro e vertiginoso.
- Há alguma novidade, senhor? - perguntou David. "O revólver", pensou ele. "Já está ao corrente."
- Não, Regan, não há novidade alguma. Quero apenas falar contigo.
- Acerca de quê? - perguntou David, apreensivo. Devia ser, com certeza, sobre o revólver. O Devereaux tomara, de uma maneira ou de outra, conhecimento do
desaparecimento do 45. "Porque não revelei o caso?", pensou David. "Devia ter revelado as coisas antes que este momento se pudesse verificar." Automáticamente. caíra
nas suas mãos pouco depois do embate nas ilhas de Santa Cruz; acontecera absolutamente por acaso: trazia a arma à cintura durante o exercício de tiro; ouvira tocar
a sineta para a refeição, e, distraído, levara-a consigo para a messe.
Depois procurara o ajudante de artilheiro que servia de instrutor; porém, não conseguira encontrá-lo; fora chamado para fazer o quarto e colocara a arma
no seu armário. Em seguida... bem, passara o momento propício e receara entregar a arma. Era propriedade do Governo e temia que o acusassem de a ter furtado. Demais,
reconfortava-o a presença da arma no armário, colocada em poder letal sob os lenços.
- Como deves compreender - disse Devereaux, sorrindo -, sou o oficial mais novo que presta serviço a bordo na divisão de comunicações. Têcnicamente, estou
para lá das quatro insígnias da divisão, mas a antiguidade no serviço parece conferir-lhes certos direitos, de modo que fui encarregado da tarefa um tanto detestável
de censurar o correio da tripulação.
- Ah, sim? - disse David, sentindo-se aliviado imediatamente. Não se tratava então da arma, mas de quê, então? Pensou nalgumas cartas que enviara à Ardis
Fletcher. Era acerca delas que o oficial queria falar consigo? As cartas...?
Devereaux desatou, de súbito, a rir.
- Sou professor de Inglês, profissionalmente, Regan. Ensino na Universidade da Califórnia. Claro, não agora, que me encontro a dar instrução sobre radar.
Devias ler algumas das cartas que me caem nas mãos. É inacreditável. Positivamente inacreditável.
- Sim, meu tenente - disse Regan. - Senhor, se as minhas cartas...
- Em especial, alguma de rapazes do Sul. Não que eu guarde qualquer ressentimento contra os nossos irmãos de Dixie, mas utilizam o idioma como se fosse uma
língua estrangeira. É coisa que não consigo conceber. Respeito o inglês. É a minha especialidade.
- Sim, senhor - disse David. Humedeceu os lábios. Eis a que se queria referir o Devereaux. Às cartas que enviara à Ardis. Empregara uma linguagem um pouco
forte, naquelas cartas. Bem, que diabo, escrevera-as à Ardis Fletcher e não a toda esta maldita esquadra do Pacífico! Começava a sentir-se irritado perante a ideia
de que as cartas endereçadas a uma rapariga, cartas pessoais, escritas a uma rapariga com quem se fora... bem intimo, pudessem ser lidas por este tipo, apenas porque
ele possuía uma barra prateada no ombro. Sabia, decerto, que a sua correspondência era censurada, mas até este momento o censor fora um ser sem rosto. Como podia
escrever outra carta pessoal sabendo que o Devereaux, com o seu danado sorriso de carneiro, a ia ler antes que seguisse para o seu destino?
- As tuas cartas são refrescantes, Regan declarou Deveraux de repente.
- Perdão...
- As tuas cartas.
- Sim, meu tenente.
- Oferecem-me autêntico prazer.
- Sim, meu tenente - repetiu David. E pensou: "Filho de uma cadela, tens-te divertido à grande a ler as minhas cartas pessoais, e, agora, vens dizer-me que
te ofereceram muito prazer. "- Sim, meu tenente - tornou ele com frieza.
- Oh! - declarou Devereaux. - Não quero dizer que...
- Que quer dizer, então, senhor?
- Não me interessou o conteúdo, Regan, mas apenas o estilo.
- Pensei que essas duas características eram inseparáveis - volveu David.
Devereaux estudou-o apreciativamente, por um instante. A noite estava serena. Podiam ouvir a água lamber os flancos de aço do navio.
- Já alguma vez tentaste escrever qualquer coisa diferente?
- O quê, senhor?
- Histórias? Um livro?
- Não, meu tenente.
- Nunca sentiste vontade de o fazer?
- Não.
- Mas devias tentar.
- Porquê? - perguntou David sem hesitar.
Devereaux encolheu os ombros.
- Penso que serias um bom escritor.
- Obrigado, meu tenente, mas...
- Regan, eu ensino literatura. Leio grande quantidade de trabalhos redigidos por estudantes. Penso que possuis autêntico talento. Lamento que suponhas que
me intrometo na tua vida privada ao ler a tua correspondência. Tenho de a ler, quer queiras, quer não. É uma das minhas tarefas. Não a solicitei. Encarregaram-me
dela. Quis sõmente dizer que se alguma vez decidires tentar a tua arte num conto ou em qualquer outra coisa, examiná-lo-ei com verdadeiro prazer e oferecer-te-ei
as minhas sugestões e a minha crítica, se achares que possuem algum valor.
- Obrigado, senhor.
Devereaux lançou o cigarro pela borda do navio. A ponta incandescente descreveu um arco antes de cair na água, para depois desaparecer.
- Senhor, perdoe-me, mas algumas destas cartas eram de natureza bastante pessoal.
- Decerto, Regan.
- E creio sentir-me um tanto embaraçado ao saber agora que as leu.
- Decerto.
- E obrigado, meu tenente, pelo interesse que testemunha, mas suponho que não gostaria de ser escritor.
- Porquê?
- Suponho apenas que não gostaria, eis tudo.
- Que faz o teu pai, Regan?
- Já morreu, senhor.
- Oh, perdoa-me. Que fazia ele?
- Era director artístico. Numa agência de publicidade.
- Bem - disse Devereaux. - É um trabalho bem criador.
- Sim, meu tenente.
- Pensava...
- Não, senhor, obrigado. É tudo? Sinto-me bastante cansado. Gostaria de me ir deitar.
- Decerto, Regan. Vai.
- Obrigado mais uma vez, meu tenente. - Inclinou a cabeça e começou a caminhar pela ré, na escuridão.
- Regan!
David deteve-se.
- Pensa bem no caso - disse Devereaux.

Quando Gillian Burke voltou a casa para passar as férias de Natal, as primeiras palavras da mãe foram: "Bem, como está a grande actriz?"
- Óptima, obrigada - respondeu râpidamente Gillian. - Foi-me oferecido um papel num show da Broadway. Vou substituir Helen Hayes.
- Fiz uma pergunta séria - volveu a mãe.
- Pareceu-me séria como o Diabo. Estou cansada, mãe. Passei as últimas duas horas e meia num comboio. - Fez uma pausa. - Quero ir para a cama.
- São apenas cinco horas!
- Há leis que regulem a hora a que uma pessoa deseje ir para a cama?
- Certamente que não!
- Então, se não te importas... Sinto-me exausta, e estão quase a chegar-me as regras. Assim...
- Pelo que vejo, a tua linguagem não melhorou, agora, que és uma estudante séria de drama - disse a mãe.
- Sou uma estudante séria - respondeu Gillian com calor. - E, mãe, penso que devias saber que não obterás absolutamente nada pondo-me a ridículo. Estou matriculada
na Talmadge e aí continuarei a estudar; assim, porque não te habituas ao facto de que...
- O teu pai estragou-te - redarguiu Virginia Burke.
- Supunha, antes, que ele tinha estragado a Mónica?
- Estragou-vos às duas. Nem sequer veio passar as férias a casa, a tua encantadora irmã.
- Ela está na Califórnia, mãe - disse Gillian, com ar de fadiga. - Quer que ela passe as férias inteiras num comboio?
- Existem aviões - volveu Virginia.
- Os militares regressam de licença a casa.
- Que me importam os militares? A Mónica é minha filha.
- Os militares são muito catitas - disse Gillian. - Vou para a cama. Desperta-me quando o papá chegar, sim?
- Muito quê? - perguntou Virgínia.
- Catitas - respondeu Gillian, e dirigiu-se para o seu quarto.
Não se deu ao trabalho de se despir. Tirou os sapatos leves - não quisera entregar-se à maçada de se ataviar para uma viagem de comboio, e em seguida meteu-se
debaixo dos lençóis; pouco depois, adormecia.
Quando despertou, o quarto achava-se imerso na escuridão. Ela deixou-se ficar por um momento na obscuridade, desorientada. Não tardou, porém, a lembrar-se
onde se encontrava. Bocejou, sonolenta, e ergueu os braços para o tecto.
"Bem, cá estamos", pensou. "De volta ao lar ancestral. Tudo é alegre e jubiloso, os negros cantam em coro, o perfume das magnólias introduz-se pela janela, as velas
estão acesas na longa mesa da sala de jantar, em baixo." carlett O'Hara estendeu os braços para o tecto e perguntou-se se devia vestir o novo vestido de organza
ou o de tafetá. Apesar de tudo, os gémeos Tarleton deviam vir, o que constituiria uma boa ocasião. Demais" falava-se numa possível guerra, gueera entre os Estados,
e ela desejava estar convenientemente vestida quando estalassem as hostilidades.
"A velha mansão", pensou Gillian.
Desceu da cama e dirigiu-se para a janela, levantou a persiana, fez correr os olhos pelo cume dos telhados do Bronx e mirou as luzes da elevada estrutura
da Woodlawn Road - Jerome Avenue, na distância. Afastou-se da janela, acendeu a lâmpada do toucador e viu as horas. A princípio pensou que o relógio estava parado.
Depois ouviú o tiquetaque e olhou mais de perto. 11. Não pedira que a despertassem quando o pai chegasse? Não satisfariam uma só vez, sequer, um pedido que fizesse?
Dirigiu-se para a porta e abriu-a. Apercebeu-se do som do rádio na sala de estar.
- Mãe? - chamou ela.
- Diz...
- O papájá chegou?
- Ainda não, querida. - disse Virgínia.
- Não vem cear a casa?
- Não, Gillian.
- E não telefonou?
- Não, querida.
- Bem, onde está ele?
- Não sei, Gillian.
Fechou a porta, apoiou-se nela, por um momento. Depois encolheu os ombros e decidiu ir tomar um banho de chuveiro. Começou a despir-se. Deteve-se diante
do espelho grande, colocado atrás da porta, examinando o corpo. "Eu era mais forte quando tinha quinze anos", pensou. "Estou a perder peso em todos os sítios onde
não é preciso." Encolheu novamente os ombros, reparou numa borbulha, junto do queixo, e, em seguida, dirigiu-se para a casa de banho.
O pai ainda não chegara a casa quando saiu do quarto de banho e alisou o cabelo. Na sala de estar, a mãe fazia malha e escutava o rádio.
- Ainda não chegou, hem?
- Ainda não - disse Virginia.
- Provàvelmente, atrasou-se.
- Penso que sim.
- É a estação em que se encontra mais ocupado - disse Gillian. - O Natal.
- Sim, eu sei.
Mirou por alguns momentos a mãe.
- Creio que vou dar um passeio - declarou.
- Acabas de tomar um banho de chuveiro, Gillian.
- Que tem que ver uma coisa com a outra?
- Secaste o corpo?
- Não. Gosto de passear ao frio, com o corpo húmido.
- Não sejas sarcástica, Gillian.
- Bem, mamã, certamente que sequei o corpo. Tenho então ar de idiota?
- É demasiado tarde para que uma jovem passeie pelas ruas sôzinha - disse Virgínia.
- Porque não vens comigo, mamã? - perguntou ela com súbita inspiração. - Está-se bem lá fora. Distendem-se os nervos.
Virginia ergueu os olhos para a filha. À luz velada do candeeiro de mesa da sala de estar, as duas, mãe e filha, eram bastante parecidas; possuíam o mesmo
cabelo castanho-arruivado, os mesmos olhos verdes, o mesmo rosto anguloso, a mesma conformação óssea; eram bastante parecidas, na verdade.
- Não - disse Virgínia. - Obrigada, Gillian. Quero acabar esta manga.
- Acaba-a amanhã. É assim tão importante?
- Prometi a Mónica ter o trabalho pronto no dia dos seus anos.
- Mas é em Fevereiro!
- Sossega - disse Virgínia, e calou-se.
- Ok! - volveu Gillian. Encolheu os ombros. - Ok. - Abandonou a sala, pensando: "O meu aniversário é em Janeiro." Coisa curiosa, mas não se recordava do que lhe
oferecera a mãe no último ano. Volveu os olhos para a sala. - Ok.
A mãe não levantou os olhos do trabalho.
- Muito bem, Gillian - disse ela.
Encontrou algumas das amigas no botequim e com elas tomou chocolate quente. Gillian falou-lhes de Talmadge. Uma das jovens afirmou que a Universidade do
estado de Ohio era óptima: a Marinha tinha lá uma base de treino e um certo número de bonitões recebiam aí instrução para oficiais. A jovem estava a estudar a fim
de seguir a carreira do professorado, e Gillian perguntou inopinadamente:
- Estudas para professora ou para mãe?
- Para professora, decerto.
- Dás a impressão de ires para Ohio namorar.
- Gillian, não és leal!
- Muito bem. Estou enganada, então.
- Posso arranjar todos os namoros que quiser aqui mesmo no Bronx!
- Bom. Porque não vais para o Colégio Hunter?
- Mas aí só recebem raparigas, Gillian.
- Oh, compreendo - volveu Gillian.
Nesse instante, o pai entrava no botequim. Era um homem alto, de cabelo ruivo, brilhante, e ombros largos, o rosto irregular, como se tivesse sido talhado
de pedra dura. Nunca trazia chapéu; parecia ter a cara sempre afogueada, e possuía uma maneira bem sua de levar uma pessoa à parede, quando falava. Dirigia uma sapataria
na Segunda Avenida, mas tomavam-no constantemente por detective. Quando era pequena, Gillian costumava dizer às outras garotas que o pai pertencia ao F. B. I.
- Olha o teu pai...
- Chiu - fez ela. Observou-o em segredo, quando ele se dirigia para o balcão, se servia de uma chávena de café e depois se instalava a uma mesa no fundo
do estabelecimento. A jovem sorriu.
- Desculpem-me - disse às raparigas. Levantou-se, com o sorriso ainda estampado no rosto, e dirigiu-se para a mesa onde se encontrava o pai. Uma vez defronte
da mesa, manteve-se de pé e em silêncio, até que o pai ergueu os olhos. Por um momento, não a reconheceu.
- Olá! - disse ela.
- Gillian - respondeu ele. - Como estás, querrida? - Exagerava o acento irlandês sempre que se sentia particularmente bem. Levantou-se e abraçou a filha.
Em seguida, beijou-a na testa. - Senta-te, Gilly. Quando chegaste? Que estás a fazerr na rrua a esta hora, minha sem-verrgonha. Querres que algum lobo te leve?
- Oh, papá - disse ela, sorrindo. Baixou a cabeça, um tanto embaraçada, porque o pai fazia-a sentir-se sempre uma rapariguinha, dissesse o que dissesse.
Uma vez mais lamentou não ter calçado os sapatos de salto alto. Envolveu com os dedos o punho maciço pousado na mesa. - Porque veio tão tarde, papá? Não sabia que
eu voltava hoje a casa?
- Sabia, querrida, sabia, mas estive ocupado com os negócios, e não me pude desembarraçar mais cedo. Desejas tomar uma chávena de café? Gilly, estás com
um parecer marra..vilhoso; a escola faz-te bem, pelos vistos. Já o tinha dito à tua mãe. Como vais, querrida?
- Óptima - volveu ela, sorridente.
- E os teus estudos, que tal?
- Óptimos.
- Muito bem. Ora deixa-me ir buscar-te uma chávena de café.
- Não, papá, obrigada. Prefiro antes conversar consigo.
- Vieste de comboio?
- Sim.
- Nenhuma das tuas colegas viajou de automóvel?
- Sômente uma rapariga do Bronx tem carro, papá; porém, ela é uma peneirenta. Preferiria vir a pé.
- Uma peneirenta, hem? - disse Meredith Burke, e desatou a rir com um riso ressonante cujos ecos enchiam quase todo o botequim vazio. Gillian riu também.
- Ora, paizinho...
- Eu sei, eu sei - disse Meredith. - Mas estás magnífica, Gilly. Os olhos cintilantes, a pele rosada. Viste a tua mãe?
- Certamente.
- Ainda está zangada?
- Não sei - respondeu Gillian, encolhendo os ombros.
- Bem, aquilo passa-lhe. Ela não sabe o que nós sabemos, não é verdade, Gillian?
- Mas quê, papá?
- Ela não sabe que serás uma grrande actriz, não é? Pensa que vais aprender todas aquelas lições e depois bater à porta dos produtores, ou lá onde é que
as jovens actrizes famintas vão; a tua mãe acredita que representarás apenas papéis sem importância em companhias itinerantes, que cantarás nos coros, etc. Eis o
que ela pensa. Mas nós sabemos, não é verdade, Gilly?
- Sim, papá.
- Claro que sabemos. - Inclinou a cabeça. Eu sei, Gilly. Eu sei. - Inclinou de novo a cabeça, em silêncio, e disse: - Gilly, sabes o que gostaria de fazer
neste momento?
- Quê, papá?
- Tenho vontade de entrar no bar da esquina, a fim de mostrar a minha filha, uma senhora já, aos meus amigos. Que dizes, Gilly? Já começaste a beber cerveja?
- Oh, papá, não tenho ainda dezoito anos - replicou ela, sorrindo. - Não me serviriam.
- E em Talmadge, Connecticut?
- Não, mas compramos cerveja na mercearia e levamo-la para o dormitório - volveu Gillian com um riso abafado.
- Servir-te-ão aqui - declarou o pai. - Vais ver que servirão a minha filha. Vem daí.
Levantou-se e ofereceu o braço a Gillian; ela passou a mão através do braço, sorrindo, e pensando de novo: "Devia ter calçado os sapatos de salto alto."

David entregou a sua primeira história a Devereaux alguns dias antes do Natal.
Tratava-se de uma narrativa sobre um homem que se afogava. Sentia-se um pouco embaraçado ante a ideia de a mostrar ao jovem oficial, especialmente depois
de ter jurado com tanta veemência aos deuses que não a escreveria. Mas um dia em que, apoiado a um lança-torpedos, contemplava o mar, começou a pensar no dia no
lago. De súbito, sentiu vontade de escrever esta história. Dactilografou a narrativa numa das máquinas de bordo e entregou-a a Devereaux no dia seguinte.
- Está toda em maiúsculas - disse. - As máquinas do rádio não possuem outro tipo.
- Não tem importância - volveu Devereaux. Olhou de relance para a primeira página. - Um Homem Afogando-Se, hem? É um título excelente.
- Sim, senhor. - David olhou, inquieto, para o original. - Meu tenente, penso que é melhor que ma devolva.
- Porquê?
-Bem... é bastante má.
- Deixa-me formular um juízo, sim?
- Bem, senhor, se deseja perder o seu tempo com...
- É o meu tempo, Regan. Não te importes.
- Contudo, meu tenente, é bastante má - insistiu David.
David tinha razão, descobriu Devereaux; a história não era apenas bastante má, mas péssima. De facto, faltava-lhe a mínima qualidade; era totalmente desprovida
de talento. Devereaux sentiu-se colocado diante de um dilema peculiar. Estava ciente de que se não tivesse animado David a escrever ficção o jovem continuaria a
redigir cartas sem complexos e repassadas de emoção à "menina Vulcão" de Talmadge, Connecticut, e jamais sonharia colocar tão alto as suas ambições. Mas Devereaux
alojara esta ideia no espírito de David, e eis o resultado daquela semente, um resultado pavoroso. Agora, que fazer?
Devereaux estava decepcionado. Mas mais ainda:
por uma razão que não podia compreender, considerou a inaptidão de David uma afronta pessoal, como se um cavalo em que fizera uma grande aposta se tivesse deixado
tombar antes de chegar à meta. Admitiu que David Regan não possuia a mais Infima parcela de talento. Sentiu-se, porém, fortemente irritado. Como pudera deixar-se
enganar desta maneira?
"Cometi um erro, eis tudo", reflectiu. "A coisa mais acertada seria dizer ao jovem Regan que cometi um erro. Ele não tem talento. Estava enganado. É a coisa
mais acertada a fazer, e é o que farei."
Mas não foi o que fez. Perversamente, continuou a acreditar que David o tinha, com plena consciencia, induzido numa falsa crença. Com a mesma perversidade
e de maneira bem inconsciente, persistiu numa linha de conduta que escapava ao domínio da sua vontade.
Fez vir David à sua presença três dias após o Natal, muito tempo depois de ter lido a história, algum tempo depois de a sua decepção inicial se transformar
num amargo ressentimento. Qualquer coisa não funcionava bem nas máquinas, e o capitão conseguira autorização para que o Hantley recolhesse à doca seca. Os dois encontraram-se
no Centro de Informações de Combate, na sala de radar. Uma pequena palmeira que os rapazes tinham trazido para bordo e decorado com pequenos enfeites de Natal achava-se
ao meio de uma mesa iluminada por baixo.
- Vem cá - disse Devereaux. - Dirigiram-se para a mesa que ficava perto da porta. Os operadores de radar deviam estar, por
princípio, de escuta à rádio quando o navio se encontrava num porto; mas esta missão fora anulada enquanto o barco se achasse na doca seca. Um receptor de
rádio estava colocado na estante, acima da mesa, e os auscultadores balançavam na extremidade dos fios. Devereaux retirou os auscultadores e
lançou-os para um canto da mesa. Acendeu a luz.
- Esta história é bastante boa, Regan - afirmou ele. - Porque decidiste escrever sobre um homem que se afogava?
- Não sei, senhor.
- Chama-me George - disse Devereaux, e depois perguntou-se porque pronunciara esta frase.
- Meu tenente?
- George. Chama-me George. Deixemo-nos de formalidades. Estamos cá com uma missão realmente valiosa, não é verdade? É um pouco mais importante do que manipular
os botões dos quadrantes de radar.
- Sim, senhor.
- George - disse Devereaux.
- George - repetiu David, hesitante. Humedeceu os lábios.
- Bom. Porque começaste a tua história desta maneira, David?
- Porque foi dessa maneira que... - David deteve-se. - Não sei, senhor. Surgiu-me assim.
- É uma história verdadeira, não é?
- Não, meu tenente.
- George.
- George. Não, George. Inventei-a.
- Quem é a personagem desta história, David?
- Ninguém que eu conheça, se... George.
- O teu pai?
David ficou calado.
- Sim, meu tenente - respondeu ele, mansamente.
Devereaux inclinou a cabeça.
- Muito bem. É uma boa maneira de se começar. Certo número de escritores utilizam experiencias pessoais como ponto de partida. Foi assim que ele morreu,
David. Afogado?
- Sim, senhor. Foi... foi assim que aconteceu.
- Compreendo. Bem, vou dizer-te o que gostaria que fizesses, David. Isto é, se realmente o desejares, se pensas que conseguiste a têmpera necessária.
- Que... que é preciso fazer, senhor?
- Gostaria que me rescrevesses esta história.
- Porque?
- Porque penso que a podemos vender.
- Vendê-la?
- A um magazine. Oh, não conseguirás muito dinheiro por ela, mas constituirá um princípio. Que dizes, David?
- Bem, George, eu... - Era mais fácil pronunciar o nome agora, um pouco mais fácil; porém, era ainda um tanto estranho. - Não sei, George. Vê realmente uma
possibilidade?
- Absolutamente - volveu Devereaux. - Agora, eis o que penso existir de errado nela.
Não expôs a David tudo o que, segundo ele, estava errado na história; nada se aproveitava, aliás; uma crítica rigorosa podia encher três volumes. Mas apontou
alguns defeitos a David, enquanto se perguntava porque não contava simplesmente a verdade ao jovem.
Ficou contente, quase deleitado, quando David lhe apresentou uma vez mais a história, com as revisões. Porém, a "nova" história estava pior do que o original.
Devereaux suspeitara-o mas o horror deste esti lo ultrapassava de longe a imaginação mais fantástica. Era terrível, autêntico lixo! Como poderia --ter-se deixado
enganar por aquelas cartas?
- É interessante - declarou a David. - Mas vou -dizer-te uma coisa, se não te importas, claro.
- Não; de que se trata, George?
-- Penso que ainda necessita de mais trabalho. Agora toma este trecho central...
David pegou no trecho indicado, e depois também no trecho final, e, por fim, era conveniente, num parágrafo do primeiro trecho; instalou-se na reserva de
material, defronte da sala de rádio, para começar as novas revisões. George Devereaux não fazia ideia alguma de quão penosa era a tarefa de rescrever a história,
mas, provàvelmente, não teria desencorajado David se o tivesse sabido. O esforço do jovem era cruciante. De certo modo, toda a fluidez demons-trada na redacção das
cartas o abandonava no momento em que se sentava diante da máquina de escrever. A máquina dos rádios tinha teclas não marcadas, e David, o olhar fixo nestes círculos
vazios, pensava, desesperado, que jamais registaria uma palavra no papel. Para principiar, era um mau dactilógrafo, e as teclas não marcadas complicavam bastante
mais a tarefa. Silenciosamente, esforçava-se o mais que podia para levar a cabo a sua missão, naquele minúsculo compartimento. Dizia para si próprio que a podia
realizar, que a realizaria, mas, ao mesmo tempo, compreendia que jamais terminaria a história, que não lhe era possível alcançar uma versão que satisfizesse Devereaux.
O sofrimento maior era o que lhe advinha do esforço produzido para se recordar.
Quanto mais se esforçava, mais a memória se tornava precisa. E,. paradoxalmente, quanto mais precisa se tornava a recordação mais difícil era passá-la ao
papel. Embora o dia do afogamento do pai, 9 de Setembro de 1939, estivesse sempre presente na sua mente, a recordação parecia prolongar-se para além dele, penetrar
numa tenebrosa distância, estender-se, com efeito, até ao Verão de 1938, mais de um ano antes do afogamento, de maneira que as orlas da memória eram vagas e brumosas,
e, todavia, dolorosas. Nem compreendia porque considerava a viagem de sua mãe à Europa uma parte essencial do afogamento, um prelúdio, e contudo as duas recordações
encontravam-se indissoluvelmente ligadas. A viagem à Europa parecia fluir, de modo inexorável, até ao Verão de 1939, até esse dia fatídico de Setembro, no lago Abundance,
Connecticut.
Nas fímbrias da memória a recordação achava-se nublada, como se a sua mente sobrepusesse duas revelações. As imagens confundiam-se até que desaparecia a
noção do tempo, a sequência lógica dos acontecimentos, até que o espírito era tomado de vertigem ante a ideia de escolher e catalogar; cada imagem conduzia inevitàvelmente
àquela outra imagem final de Setembro, o que vira através dos binóculos fixados sobre o lago; cada imagem parecia descrever um acontecimento distinto, separado,
sem ligação com outro qualquer, e, todavia, enovelavam-se para conduzirem a uma aterradora conclusão. Não sabia onde começava a história; sabia somente onde terminava.
Falava-se da doença da tia Mille. lembrava-se de ouvir referências ao caso por volta... sim, devia ter sido na Primavera de 1938, sem dúvida. Via a mãe,
alta e esguia no seu fato de banho verde, de pé, diante do telefone da cozinha. Sim, eles encontravam-se no lago, acabavam de abrir a casa; David recordava-se ainda
do odor dos pinheiros. A mãe puxara o cabelo castanho para trás de uma orelha a fim de ouvir melhor e inclinava a cabeça num gesto de aprovação. "Sim, Mille, sim,
compreendo." O sol recortava o perfil que David herdara. Ele lembrava-se do aroma dos pinheiros, dos murmúrios do lago. Depois, outra imagem: o fim de Junho, a casa
do lago que os esperava, a residência de Talmadge prestes a ser encerrada. No Verão, as coberturas sobre os móveis, a grande mesa de mogno da sala de jantar, o tinido
suave da prata, o rosto magro do pai inclinado sobre o prato. "- Arthur, trata-se dos pulmões dela." O tinir da prata, o brilho do candelabro sobre cristais cintilantes,
o ruído produzido por uma colher contra a porcelana branca. "- Ela quer ir para fora por uns dias, Arthur, para um clima seco." O pai volve subitamente os olhos
da sopa, atento. "- Ela pediu-me que a acompanhasse."
Julho, o Verao em todo o seu esplendor, as árvores vestidas com uma folhagem luxuriante. David joga o croquet no relvado, diante da casa do lago. O ruido
da raqueta contra a bola, e, em surdina, o murmúrio de uma conversa. O guarda-sol vermelho e azul, as cadeiras do jardim pintadas de vermelho e azul, o verde-vivo
do relvado e as árvores com a sua copa magnificente.
"-Vai haver uma guerra", murmurou Arthur Regan. "Porque deseja ela ir para a Itália, tendo tantos outros lugares?"
A voz de sua mãe, calma e insistente. No regaço, fazia rolar, entre as palmas das mãos, um copo coberto de vapor. A mãe nunca erguia os olhos, jamais elevava
a voz.
"- O clima, Arthur."
"- Ela pode ir para o Arizona."
"- É verdade. Mas deseja ir para a Itália."
"- Ela pode partir só, então."
"- Não, não pode, A'rthur."
"- Mas porque é que, em nome de Deus, é preciso que sejas tu a acompanhá-la?"
"- Ela está doente, Arthur."
"- Ela não está muito doente."
"- Ela sofre de um mal crónico nos brônquios, Arthur. "
"- Então que contrate uma enfermeira ou uma dama de companhia."
"- Ela é minha irmã. Não a deixarei partir só para a Europa."
"- Que diabo, Júlia... "
"- O rapaz."
"- Ora, o rapaz. Escuta-me: se rebenta uma guerra, encontrar-vos-eis no meio do Inferno."
"- Não rebentará guerra alguma."
"- Não?"
"- Não. Hitler e Mussolini podem ser loucos, porém não desencadearão uma ofensiva no Inverno."
"- Mas que podes saber..."
"- Creio que os generais inteligentes temem lançar ofensivas no Inverno. E a Mille e eu regressaremos antes da Primavera."
"- Vocês não regressarão antes da Primavera, Júlia, porque não irás para parte alguma. Ficarás aqui, em Talmadge."
"- Partiremos no primeiro dia de Agosto, Arthur. E regressaremos em Janeiro. Agora, deixa de proceder como uma criança."
O aeroporto de Nova Iorque, o bojo enorme e imponente do avião, as asas gigantes lançando sombras negras sobre o cimento da pista. A mãe e a tia sobem a
pequena escada de acesso ao aparelho e depois voltam-se para um último aceno. A porta do avião fecha-se, os motores começam a rugir bruscamente, as hélices giram,
fragmentos de jornais voam sobre a pista. Uma após outra, as imagens perpassam-lhe, terríveis, pela mente, no pequeno compartimento defronte da sala de radar do
Hantley. Imagens e sons, também. A chamada telefónica de Londres.
"- David? David, querido, és tu?"
"- Sim, mamã."
"- Como estás, querido?"
"- Óptimo, mamã."
"- Estás mesmo bem? Mal te consigo ouvir."
"- Estou óptimo, mamã."
"- David, assisti hoje ao render da guarda. David, gostaria que te encontrasses cá, comigo."
"- Como está a tia Mille, mamã? Voltarão cedo?"
"- Óptima, David. Deixa-me falar de novo com o teu pai."
Os postais de Paris. Esta, é a Torre Ei/fel. A Mille e eu almoçámos cá ontem. Pode contemplar-se, deste ponto, toda a cidade de Paris. Agora imagina, David:
mesmo as crianças falam francês. AI'!, ah! Tua mãe muito querida, Júlia. E os postais enviados no decurso da viagem para Roma: Eis Dion. Dizem que é uma Paris em
miniatura. Enviei alguns boiões de mostarda de um aroma maravilhoso. Da Suiça: Berna parece uma cidade-brinquedo. Tem maravilhosas estátuas medievais e um relógio
que faz tudo excepto explodir. Durante a travessia dos Alpes, para a Itália: Stresa faz-me lembrar o lago Abundance. Mal se sai do hotel, depara-se-nos a água. Da
península italiana: Tudo é seco e soalheiro; os campos lembram-nos as telas de Van Gogh; o sol é muito brilhante; amanhã estaremos em Milão. Roma, por fim: Nem consigo
acreditar! Uma cidade fabulosa, murada e branca, uma cidade dentro de outra, uma cidade sob outra. Ontem, percorri a própria estrada que César utilizava quando se
dirigia para o Fórum. Sentia em redor de mim os fantasmas dos assassinos. E, por todo o lado, estes maravilhosos Italianos, cujas caras são como livros abertos.
Voltarei muitas vezes a Roma. Encontramo-nos em Áquila, a duas horas da Cidade Eterna; o passeio é magnífico; pressinto o tempo nestas ruínas e na atmosfera; sinto
a presença da história. Oh, voltarei, muitas vezes.
Os primeiros flocos de neve desceram sobre Talmadge em fins de Novembro. Recordava-se de ter chorado, só, no seu quarto, porque a mãe não se encontrava em
casa para ver o modelo reduzido de avião que pusera em movimento. Contemplava os flocos de neve que caíam lá fora. Depois, novas imagens desfilaram em tropel na
sua mente, a toda a velocidade. "- David, iremos a Aquila passar o Natal!" Não conseguia acreditar nas palavras do pai, chorava e ria ao mesmo tempo, abraçado a
ele, sentia o seu espesso bigode no rosto e também as suas lágrimas. "- Vamos para Itália, David. E ela voltará connosco !"
Ela esperava-os no jardim da villa. Trazia um vestido amarelo e um chapéu de palha de abas largas, e, apesar da frescura do ar, apenas um casaco de malha
sobre os ombros. Parecia um pouco mais cheia, "redonda como uma perdiz", dissera o pai, apertando-a contra si. A mãe disse: "- David, estás um homem", e ele corou
e respondeu: "- Faço parte do grupo de handball da escola, mamã." Ela tomou-o nos braços e, bruscamente, ele sentiu-se feliz no jardim desta villa dos arredores
de Roma. Percorreram toda a Itália naquelas duas semanas. Contou os degraus da Praça de Espanha; visitou S. Pedro e passou os dedos pelos pés da estátua de bronze,
cujos artelhos se encontravam gastos de tanto serem friccionados. O Coliseu: "- Olha, David! Observa!"!", gritou a mãe; ele voltou-se abruptamente e viu três esquecidos
gatos de beco que erravam pelas ruínas; o Mausoléu de Adriano, o Castelo de Santo Ângelo, que se elevava do outro lado do Tibre dourado sob o sol brilhante do meio-dia.
Andaram por todo o lado, fizeram tudo o que se podia fazer. David comeu tortoni num café dos arrabaldes, enquanto a mãe e o pai beberricavam aperitivos.
Observou dois oficiais alemães, sentados numa mesa próxima, com a suástica, negra, desenhada na braçadeira branca; eles não pareciam prenunciar uma guerra quase
iminente. Os táxis negros desfilavam ao longo das ruas, as janelas dos hotéis e dos edifícios de apartamentos encontravam-se dissimuladas sob longas persianas. Áquila,
a 800 metros de altitude, sob um frio amargo; os esquiadores com as suas grossas camisolas, e o jardim iluminado pelo sol de Inverno; aí se sentavam para fugirem
ao frio, enquanto a mãe servia chá quente; o pai observava com os olhos azuis brilhantes, a tia Mille tossia discretamente sobre o lenço. Roma, um céu azul-claro,
uma cidade branca e dourada, uma cidade no coração de cidades, uma cidade sob cidades, e a promessa de que Júlia Regan os acompanharia quando regressassem a Talmadge.
David não conseguiu compreender porque deixaram Áquila sem ela. Não conseguiu compreender a razão por que teve de prolongar a sua estada na Itália.
Talmadge no Inverno. Janeiro e Fevereiro, os meses mais lúgubres. O lago Abundance coberto de gelo, os pares que patinavam. Uma vez, ele caiu e magoou uma
anca: acabara de chegar uma nova jovem à cidade; ele notara-a imediatamente; chamava-se Ardis Fletcher, e os rapazes diziam que se podia fazer certas coisas com
ela, que o pai era engenheiro. Março e uma súbita vaga de calor, as forathias conheceram uma floração precoce antes de se fanarem sob uma nova ofensiva de frio.
Júlia dissera-lhes que regressaria em 1"" de Abril. David circulara a data no calendário do seu quarto. 10 de Abril, 10 de Abril. Volta a casa, depressa, suplico-te.
Em Abril chegou um cabograma: A MILLE,
DOENTE, INCAPAZ DE VIAJAR. PARTIDA ADIADA. SEGUE CARTA. AMOR, JÚLIA.
Amor, Júlia. Os cabogramas possuíam uma margem azul. Nunca o notara.
A carta prometida chegou apenas na semana seguinte. Inesperadamente, a Mille piorara; começara a tossir muito e, de noite, a temperatura subia. Tinham consultado
um especialista e esperavam que se tratasse de coisa sem gravidade, passageira, nada de sério como uma pneumonia. Em todo o caso, era impossível considerar, de momento,
a viagem de regresso.
"Queridos, sinto bastante a vossa falta; compreendam e perdoem-me, é imperativo que eu fique com a Mille. Saibam que volvo para vós os meus melhores pensamentos.
Amor, Júlia.
Junho de 1939. Falava-se agora de guerra com mais persistência. O mundo estava convencido de que Hitler faria marchar o seu exército. As cartas continuavam
a chegar da villa de Áquila: duas por semana, uma para Arthur e outra para David. No fim de Junho, ele beijou Ardis: a boca dela era suave, doce, e mantinha-a entreaberta.
Todos aqui parecem persuadidos de que Hitler está a fazer bluff. De qualquer maneira, não me parece existir um clima de preparação de guerra, não importa o que pressentiste
pelo Natal. Sei que estás bastante preocupado, Arthur, mas acredite-me, querido: a Mille e eu não nos encontramos em face do perigo imediato. Ela melhora ràpidamente
e espero que possamos partir de regresso a casa em Julho'. Pôr-me-ei hoje em contacto com a companhia de navegação', quando me dirigir ao correio. Estou certa de
que poderei marcar passagens para a última semana de Julho, ou, o mais tardar, para a primeira semana de Agosto. Caríssimo, vivo aqui muito bem. Regressarei em breve.
Júlia Regan voltou a Talmadge em 28 de Agosto, três dias antes da marcha de Hitler sobre a Polónia. Mille, que a acompanhava, exibia um parecer notável após
a sua enfermidade; no entanto, vinha um tanto curvada, o olhar curiosamente oblíquo, como se a sua longa doença contivesse algo de vergonhoso.
David tomou as mãos da mãe nas suas, fitou-a e disse: "- Pareces diferente", e ela sorriu-lhe, um sorriso raro e tranquilo: "- Mas tu também, meu amor."
Tinha mil coisas para lhe contar: "- Viste o meu dedo? Está inchado. O caso sucedeu durante um desafio de baseball". Possuía um milhão de coisas para lhe mostrar:
as estranhas flores selvagens que floresciam na orla do relvado. "- Mamã, obtive um dezassete no meu exame de Geometria." Tantas coisas para lhe mostrar e tantas
para lhe dizer: "- O Tad Parker já se barbeia. Ele deseja ser actor, mamã." Havia um sorriso nos olhos do pai. Júlia Regan regressara a casa. Júlia Regan achava-se
de novo em casa.
A imagem confundiu-se, a perspectiva alterou-se, as moléculas da memória turbilhonavam como limalha de metal escuro num campo magnético, o negro contra o
branco; e do vértice emergia uma recordação penetrante e única, a lembrança precisa, impiedosa, desse dia único de Setembro, sim, esse dia de Outono no lago Abundance,
tão clara como cristal, aguçada como uma navalha, maldita.
Era um sábado, o dia 9 de Setembro.
Havia sol, sol brilhante, nesse dia, e um calor sufocante.
"- Porque não vamos para o lago?", perguntou ele.
"- Sim, é uma boa ideia."
O lago estava sereno, doce. Nem sequer a mais leve ondulação. Os pinheiros reflectiam-se na superfície. A mãe achava-se vestida de verde.
- Deixa-me tirar-te uma fotografia, mamã", disse o jovem.
"- Arthur, vem tu tambem."
"Não. Quero sair com o barco, para o largo."
"- Arthur... "
"- Disse: não."
Tristeza? Dor? Que cintilou bruscamente nos olhos da mãe? Oh, um brilho fugaz, que breve desapareceu. Ela sorriu para a máquina. Clique, ei-la.
David viu o barco afastar-se da doca. O lago estava manso e silencioso. Tão sereno! Quietude absoluta. Atrás do barco, uma esteira de espuma. Silêncio. Uma
ave pipilava algures na copa de um pinheiro, no meio do silêncio vibrante.
O barco era branco na água verde, onde se reflectiam as silhuetas dos pinheiros. O pai pusera um absurdo chapéu de palha vermelho que a mãe trouxera de Itália.
David viu o barco tornar-se cada vez mais pequeno à medida que o pai remava rumo ao meio do lago. O chapéu vermelho não era mais que um ponto minúsculo na distância.
De um pinheiro, a ave pipilou novamente, sem se mostrar. Do lago, outro pássaro respondeu.
"- Onde estão os binóculos, mamã?", perguntou David.
Ajustou as lentes aos olhos. Podia distinguir agora o barco, com clareza. O barco, o lago e o rosto do pai obscurecido pela aba larga do absurdo chapéu vermelho.
"- Que faz ele, David?"
"- Prepara-se para lançar a âncora, creio."
"- Porquê, se não levou uma cana de pesca?"
O calor do sol era intenso. Sentia-o na cabeça e nos ombros. O lago reluzia. A ave achava-se agora silenciosa. David distinguia claramente o pai, agora que
ele se baixava para levantar a pesada âncora, uma âncora demasiado grande para um barco tão pequeno. Ele hesitou um momento, a âncora nas suas mãos, sobre a borda.
Depois, os dedos abriram-se. A âncora desapareceu. No fundo do barco, a corda desenrolava-se ràpidamente, um círculo após outro, seguindo a âncora. De súbito...
De súbito...
"- Mamã!"
O pai era arrastado da borda.
"- Mamã, ele foi apanhado na... "
"- Quê? Que se passa?"
"- A corda! A corda! À corda!"
O grito demorou suspenso no silêncio, vibrante, uma só palavra cujo eco repercutia através do lago - a corda, a corda, a corda, a corda -, invadindo, em
vagas, os ouvidos. Crispou as mãos sobre os binóculos porque toda a realidade se achava prisioneira do círculo de visão, não existia coisa alguma autêntica excepto
nos tubos cerrados entre os seus dedos. A palavra, o grito, esvaeceu-se. Através dos binóculos, contemplava o lago, esperava o momento em que o pai voltasse à superfície,
esperava, esperava; ouvia o tiquetaque imperceptível do relógio de pulso, agora vigoroso no silêncio súbito e aterrador.
"- Papá!" Um brado cortante, desesperado.
Correu para a borda do lago. Lançara por terra os binóculos, e corria agora, o coração pulsando violentamente. Sentiu a água tocar-lhe as calças. "Trago
alpergatas", pensou, e mergulhou na água, e começou a nadar, imediatamente, com fúria, em direcção ao barco, rumo aos círculos ondulantes que se alargavam.
O barco estava longe, muito longe.
Chorava ao chegar junto dele. As lágrimas rolavam-lhe pelas faces, as pernas e os braços estavam bambos, e tremia de esgotamento, e repetia continuamente
para aquele absurdo chapéu vermelho que flutuava na água: "Papá, papá, papá..."

George Devereaux não demorou muito tempo a descobrir que detestava David Regan. Esta ideia não o surpreendeu. Aceitou-a com calma e reconheceu mesmo que
o detestara desde o começo das suas relações, uma coisa que se desenvolvera com firmeza ao longo dos meses. Tinha também consciência de que agira um tanto infantilmente
ao esperar que David satisfizesse padrões impossíveis, mas tal pensamento não o perturbava. Apesar de tudo, interrogou-se acerca do caso. Tinha 36 anos e já antes
se sentira decepcionado por muitos estudantes. Porém, se o rapaz não tinha talento, porque lhe impusera esta prova das constantes revisões? Por que motivo, ao verificar
que a sua primeira impressão se confirmara, persistia ainda em exigir-lhe novas correcções desta história pavorosa?
"Ele tem de ser castigado", pensou Devereaux.
Mas não podia deixar o assunto neste pé. Era um homem inteligente, instruído, e desejava saber porque teria David de ser castigado. Assim, reflectiu maduramente
na questão, e a resposta que por fim encontrou foi esta: "Ele tem de ser castigado porque tem de ser castigado. Tem de ser castigado porque me ludibriou. Mas já
fui ludibriado antes; já antes distingui um estudante de entre outros para chegar à conclusão de que ele nada valia. Então, por que tem este jovem de ser castigado?
Porque me estou a conduzir como uma criança? Ele tem de ser castigado, sim, admito-o; mas é preciso castigá-lo pelo erro que eu próprio cometi. Sim, eis a razão.
Há muito tempo já que não ensino. Talvez esteja a perder o treino, a minha garra. Talvez esta trampa das transmissões navais comece a embrutecer-me. Talvez já não
saiba distinguir uma história boa de uma má. Ele tem de ser castigado porque me permitiu compreender que o meu espírito está a embotar-se. Mas é absurdo!... "
Reconheceu este absurdo imediatamente.
Oh, não, decerto que não impunha ao rapaz a terrível prova de reescrever constantemente uma história acerca do afogamento do pai pelo simples facto de que
começava a duvidar do seu próprio valor profissional. Tratava-se de um raciocínio especioso, e George Devereaux era demasiado honesto para o deixar passar sem exame.
E, assim, enquanto as revisões prosseguiam, continuava a sondar os seus motivos pessoais com maior profundidade; por fim, concluiu que sentia a falta dos seus alunos,
eis tudo. E porque sentia a falta deles, elevara David Regan a uma posição com a qual representava todos os estudantes; tentava fazer dele a personificação de todos
os bons alunos que já conhecera. E era um papel que David não podia seguramente preencher.
Eis tudo; era essa a única razão. Sentia falta dos seus alunos.
E então começou a perguntar-se de qual dos seus alunos sentia falta, em particular. Acudiram-lhe à lembrança nomes e rostos, e rememorou certas histórias
excelentes que lhe tinham passado pelas mãos, nas aulas. Rrecordou-se dos maravilhosos quadrângulos do campus da Universidade e das jovens estudantes de swetar e
saia (que caras frescas!), que chegavam à aula com os livros debaixo do braço, que se detinham a cavaquear com os colegas, sempre com voses casuais próprias dos
muito jovens. Ardis Fletcher, o portão de entrada da Univer...
Interrompeu o desfile de imagens, dizendo, rápido, para si mesmo: "Tenho trinta e seis anos, uma esposa grávida e um filho de oito anos; esquece-a."
Mas este nome penetrou de novo na sua mente. Ardis Fletcher. E com o nome um fluxo de recordações, a visão mental daquelas caras doces e frescas que, na
sala de aula, ficavam suspensas perante cada palavra. Ardis Fletcher. Rostos tão inocentes! Ele agitava as sobrancelhas de maneira significativa, torcia os lábios
numa pequena careta enigmática e dirigia a lição a todas e a cada uma pessoalmente. "Dir-se-ia que ele nos faz confidências, não achas?", ouvira uma das suas alunas
murmurar. Ardis Fletcher. "Tenho trinta e seis anos, a minha mulher chama-se Abby, está grávida, tenho um filho de oito anos."
Compreendeu, sem surpresa - era espantosO como nenhuma destas recordações parecia chocá-lo:
aceitou-as com perfeita calma, como se tivesse tido sempre conhecimento delas -, compreendeu que talvez sentisse mais falta das alunas do que dos seus pares masculinos.
Bem, talvez se entretivesse a representar um pouco para as jovens, nas aulas; todavia, não deixava de ser bastante natural. Era humano, e encontrava algo de terrivelmente
gratificador naquelas caras gentis e bem frescas, naqueles olhos inocentes que procuravam os seus. Então, que haveria de surpreendente se se tornasse, por vezes,
um macho pretensioso, se assumisse o papel de ídolo das caloiras? A própria Abby dizia que ele tinha olhos lânguidos, o que não se coadunava com os seus actos, pois
jamais tocara em qualquer das jovens. Excepto uma vez. "E mesmo essa, no fora por minha culpa e nem sequer a toquei realmente." Apenas apoiara o braço na... "Oh,
mas tratou-se de uma coisa inteiramente casual, de uma carícia doce e gentil. Ela nem tomou, sequer, consciência do facto, protegida pela lá do sweatar... tão doce,
tão jovem... Sim, Sr. Devereaux, compreendo, mas supunha que a explicação incluia o segundo parágrafo, este... Era tão doce! Mas não a tocara, na verdade.
O nome esquecera-o. Não se assemelhava a Fletcher, sim, nada que se parecesse com Fletcher. Nem sequer era ruiva. Tinha cabelos negros, lembrava-se bem,
que caíam numa cortina, suspensos sobre um dos olhos, quando se debruçava sobre a secretária, tão gentil, contra o seu braço. Recordava-se bem, não era ruiva. Alice,
sim, eis o nome dela, Alice.
Ele suspirou e admitiu que, possivelmente, muito possivelmente, as cartas que Regan escrevera à jovem de Talmadge tinham-no feito recordar-se de uma vida
que amara: sim, decerto, o campus, as raparigas muito jovens e o ar balsâmico da Califórnia. Alice, sim, ainda Alice, todas aquelas coisas... As cartas de Regan
tinham evocado uma vida descuidada que outrora conhecera, eis tudo. E assim deixara-se naturalmente impressionar: as cartas eram bastante vividas, o rapaz possuía
um estilo muito bom. Não me interessa o conteúdo, Regan, mas sômente o estilo. Mas agora, face a esta declaração, perguntava-se se era verdade, e compreendia que
não era. "Devia ter agido", pensou ele, "mas ela era tão jovem, uma criança. Contudo, ela sabia O que fazia. Eu devia ter... Aquilo aconteceu por acaso... a pressão
contra o meu braço. Sim, devia ter agido, devia ter agido!"
Assim, sentado na sua cabina, olhava fixamente para o tabique cinzento e pensava. "Bom. Deixa o rapaz em paz. Não o punas." Que fazia ele? Atormentava um
pobre garoto de Connecticut? "Deixa-o em paz. Deixa-o em paz."
Mas estava ainda furioso.
Estava furioso porque descobrira uma verdade sobre si próprio, e esta verdade era um tanto penosa. E encolerizara-o ainda o facto de acreditar que David,
não importava quanta angústia provocassem as revisões, não devia experimentar um sofrimento igual ao que o torturava neste momento. Parecia-lhe uma terrível injustiça
que um garoto ainda com penugem no rosto pudesse possuir este fruto doce e maduro, Ardis Fletcher, de Connecticut. Parecia-lhe uma injustiça que estas relações,
que David provocara com as suas cartas, o deixassem relativamente indemne, enquanto ele, George Devereaux, experimentava tanto sofrimento. "Oh, que Inferno, encontro-me
no Pacífico há muito tempo", pensou. "Oito meses constituem um período bastante longo. Não penso com clareza, não. Amanhã direi ao Regan que aquela história é uma
porcaria tremenda, que deixe de me importunar com ela."
E talvez o tivesse feito, talvez tivesse falado com David, francamente, com simpatia, e dito que, por vezes, estas tentativas não resultam e que David não
devia tomar as coisas muito a peito. Oh, talvez ele tivesse reconhecido que o sofrimento que impunha a si próprio se tornava maior do que a perversa satisfação que
fruía com a punição de David, talvez tivesse esquecido este caso ridículo se o comandante do Hantley não o convocasse ao seu gabinete no dia seguinte.
- Sente-se, Sr. Devereauxdisse ele. - Fuma?
- Não, obrigado, senhor - respondeu Devereaux.
- Importa-se que eu fume?
- De modo nenhum, meu comandante.
Devereaux conhecia suficientemente as normas da Marinha para compreender que este palavreado cortês era o prelúdio de uma conversa desagradável. Não se achava
nada perturbado, nem sequer nervoso, porque já farejava a coisa. Um dos oficiais do Juneau era, de facto, um demagogo de primeira classe, o comandante do Hantley
jamais poderia alimentar a esperança de atingir as mesmas sublimes alturas de irónica eloquência. Assim, aguardava pacientemente, enquanto o comandante acendia um
cigarro, sacudia o fósforo e agitava a mão diante do rosto para afastar o fumo.
- Ora vamos ao caso - disse o comandante, com um sorriso amável. Devereaux esperava. Observava de maneira casual, sem um vislumbre de terror ou apreensão,
o comandante, como se assistisse a um filme, com indiferença e certo aborrecimento.
- Sei que era professor na vida civil, Sr. Devereaux. Não é verdade?
- Sim, senhor.
- Uma ocupação muito interessante - disse o comandante.
- Sim, senhor - respondeu Devereaux, compreendendo perfeitamente bem que o comandante não pensava de modo algum que o ensino era interessante. O comandante
presumia que a navegação no alto mar constituía a carreira mais aliciante, que o simples facto de comandar, qual herói, um navio de guerra, fazia da sua profissão
a mais bela do mundo.
- Ensinava literatura, não é verdade?
- Sim, senhor.
- Descobria Hemingways em botão, hem?
- Alguns dos meus alunos eram bas...
- Bom escritor, Hemingway - interrompeu o comandante. - Não concorda?
- Sim, senhor.
- E quanto ao Regan?
- O Regan, meu comandante? - exclamou Devereaux, momentâneamente embaraçado.
- Sim, o David Regan, operador de radar.
- Oh, sim, sim, Regan - volveu Devereaux.
- Quanto a ele...
- Bem... - Devereaux encolheu os ombros. Quanto a ele, senhor? Não compreendo.
- Afirmaram-me que estava a ensinar-lhe literatura.
- Quem disse... - Devereaux interrompeu-se de súbito. - Não a ensiná-lo, para ser exacto, senhor. Tenho-o ajudado a melhorar um conto que escreveu.
- É muito gentil da sua parte, Sr. Devereaux.
- Obrigado, meu comandante.
- Muito gentil.
- Obrigado, meu comandante. O rapaz...
- Mas evidentemente, Sr. Devereaux, existem na Marinha certos regulamentos que proibem a confraternização entre um oficial e um recruta. Claro, conhece-os
perfeitamente. Estes regulamentos baseiam-se na realidade prática da guerra naval, Sr. Devereaux. Apoiam-se no facto de que o poder do comando enfraquece quando
o superior mantêm relações demasiado amigáveis com o subalterno.
- Senhor, asseguro-lhe que...
- Compreendo muito bem, Sr. Devereaux, que tem consciência das suas responsabilidades como oficial da Marinha dos Estados Unidos. Porém, nunca confiei na
limitada inteligência dos recrutas e nunca confiarei. Detestaria ter de encorajar uma amizade que refreasse o poder combativo de qualquer membro da tripulação do
meu navio.
- Senhor, o Regan é bastante inteligente e reconhece as limitações de qualquer relação entre um oficial e um...
- Sim, tudo isso é muito bonito, Sr. Devereaux, mas alguém o ouviu chamar-lhe "George". Ora, Sr. Devereaux, é preciso que acabe com tal trato, de uma vez
para sempre.
- Senhor...
- Acontece que o Regan é um elemento bastante importante no dispositivo de combate deste navio, Sr. Devereaux. O seu posto de combate encontra-se na ponte,
é o nosso agente de ligação com o Centro de Informações e compreende todas estas novas informações que se vêem no radar, podendo traduzi-las ao Sr. Peterson, meu
imediato, sem qualquer dúvida ou hesitação. Ele é também capaz de analisar as informações e de as transmitir, por ordem da sua valia. Penso que não há necessidade
de insistir na importância do domínio perfeito da ponte para quem tem de comandar um navio em pleno combate.
- Compreendo, senhor, mas não consigo ver que mal existe em colaborar com ele num...
- Não quero que o Regan se desoriente, Sr. Devereaux. Não gostaria que ele, por exemplo, me começasse a chamar "Donald", que acontece ser o meu nome, nem
gostaria que ele se voltasse para o meu imediato e declarasse: "Fred, muitos duendes", ou lá o que é que esses rapazes do radar dizem. Não me agradaria que isso
sucedesse, Sr. Devereaux.
- Meu comandante, se me permite, está a reduzir a questão a um absurdo. Posso assegurar-lhe que o Regan jamais...
- Prefiro que me assegure, Sr. Devereaux, que estas aulas de composição terminarão imediatamente. Eis o que gostaria que me assegurasse, Sr. Devereaux.
Silêncio.
- Tem quaisquer perguntas a fazer, Sr. Devereaux? - perguntou o comandante.
- Nenhuma, meu comandante.
- Então, muito bem.
- Dá licença que me retire, senhor?
- Sim, faça favor, Sr. Devereaux.
De regresso à sua cabina, Devereaux quase abriu com o punho um buraco na divisória. Era a primeira vez que, na Marinha, recebia uma ordem que o enfurecia
completamente. Esta ordem parecia ridícula e injusta, arbitrá'ria e oposta a todos os preceitos democráticos. "Estamos na guerra para nos batermos contra os fascistas",
reflectia Devereaux, "e o mais fascista de todos encontra-se a bordo deste navio !" Nunca lhe ocorreu que o comandante lhe prestava um favor, que lhe oferecia uma
saída cómoda de uma situação que se tornara inexplicàvelmente complexa. Devereaux tornou-se um campeão da democracia. De um momento para o outro, Devereaux interessou-se
profundamente pelos direitos do comum marujo.
E este volta-face forneceu outro dilema a Devereaux. Com a maior naturalidade tornou David responsável pelas suas dificuldades e permitiu que a cólera atiçasse
o fogo do seu ódio.
A verdade é que Devereaux não se importava mesmo nada com o bem-estar de um marujo. Devereaux gozava inteiramente todos os privilégios conferidos pelo seu
posto e aceitava-os como direitos inalienáveis de um homem que possuía um diploma de licenciatura e que ensinava numa Universidade, na vida civil. Jamais se considerava
igual a outro membro da tripulação, não os achava mais dignos que um macaco. E embora admitisse que os operadores de radar possuíssem talvez o coeficiente de inteligência
mais elevado da Marinha, sabia, contudo, que nenhum operador de radar do Hantley, e talvez nenhum operador de radar de toda a esquadra, era mais inteligente, mais
culto, do que ele, George Devereaux. Não sabia absolutamente nada a respeito de David Regan, excepto que mantivera relações muito íntimas com uma rapariga chamada
Ardis Fletcher e que o pai morrera afogado num lago de connecticút. Aliás, não lhe interessava facto algum da vida do jovem. Mas de posse de tão escassas informações
estava certo de que a educação e o meio onde David fora criado não se assemelhavam aos seus, que o coeficiente de inteligência do jovem era indubitàvelmente mais
baixo, que David lhe merecia tanta importância como o homem que varria as ruas de Westwood.
E todavia a ordem do comandante aborrecera-o. Convenceu-se de que o interessavam os direitos dos marujos, mas sabia que a ordem dada se relacionava com os
regulamentos da Marinha, e estes mereciam a sua aprovação. "Mas que maldito é este caso com o David Regan", disse para si mesmo. Forçavam-no a penetrar nestas estúpidas
situações, onde se acreditava numa coisa e se professava outra, onde se era compelido a examinar em pormenor as motivações de todos os actos, e onde se era sempre
o vencido.
Na manhã seguinte, após o toque de alvorada, contou a David o que lhe dissera o comandante, e o jovem sugeriu imediatamente que esquecessem por completo
a conclusão da história.
- Não - volveu Devereaux. - Continua com as revisões. Deixa-as na minha caixa do correio, que eu lhes aporei algumas sugestões. Deixarei o original na cabina
do radar. Temos de acabar esta história, David'.
Dois dias depois de abandonar a doca seca, o Hantley recebeu ordem para participar num exercício em que se empenhavam também um cruzador e cinco outros contratorpedeiros.
Se se considerar o facto de que o Hantley participara em várias batalhas, não é de surpreender que a tripulação reputasse o exercício de uma espécie de pândega.
Havia, de facto, um leve ar festivo a bordo do navio no dia em que ele zarpou de Pearl a fim de participar num simulacro de combate.
David, na sua posição na ponte, sentia-se invadido por este sentimento de alegria geral. Era interessante estar-se envolvido num combate donde ninguém sairia
ferido. Ele transmitia ao oficial da ponte as informações fornecidas pelo radar, avaliava a importância e diferentes comunicações, traduzia mensagens de controle
de fogo e geralmente gozava o tempo suave e a brisa doce que soprava do largo. Como sempre, mantinha na cabeça os aparelhos de escuta de grande potência de som;
o micro achava-se fixado, por meio de correias, ao pescoço. E, como sempre, o auscultador esquerdo estava colocado sobre o ouvido esquerdo de modo que pudesse ouvir
as mensagens fornecidas. O ouvido direito achava-se descoberto, para que conseguisse escutar as ordens dadas na ponte. O posto de radar estabelecera contacto com
uma esquadrilha de Wildcats, que voava em apoio do grupo. George Devereaux era o oficial das comunicações que dirigia a esquadrilha e transmitia a respectiva posição
para a ponte. Três B-4 cedidos pelo Exército aproximavam-se dos navios, simulando bombardeiros japoneses. Devereaux fornecera aos Wildcats os vectores de intercepção.
Em intervalos regulares indicava a sua progressão. Entretanto, os navios estavam empenhados nalgumas manobras defensivas bastante complicadas contra o presumível
ataque de uma força de superfície imaginária, e os operadores de radar davam constantemente, à ponte, indicações de distância e de dimensão. A manobra estava prevista
de modo que cada navio do grupo mantivesse a sua posição em ligação com um navio-guia prêviamente designado. O comandante percorria a ponte, atento aos homens que
assinalavam as mudanças de pavilhão Efectuadas no cruzador; estas bandeiras comunicavam ao resto da esquadra os movimentos que se "iam executar. Logo que um movimento
era executado, O radar orientava-se sobre o contratorpedeiro-guia, indicava a distância e a posição, e pertencia ao comandante modificar ou manter a direcção 'ia
velocidade, conforme as informações obtidas pelo radar. E durante todo este tempo Devereaux continuava a seguir a marcha dos aviões de combate, vigiando o momento
em que eles entrassem em contacto com os B-24 que se aproximavam. Nesse momento poderia ouvir os pilotos de combate gritar:
- TaUho!
Mas tal momento chegou mais depressa do que ele previra, semeando a confusão.
O comandante voltou-se para David, a fim de conhecer a posição do contratorpedeiro-guia. Começou por dizer:
- Regan, obtém-me a posição relativamente ao Sugarfoot.
Tudo o que David conseguiu apanhar foi "Regan, obtém-me a po...", pois que, naquele momento, o aparelho de escuta do ouvido esquerdo disse qualquer coisa.
- Ponte, combate - declarou Devereaux. Tallyho! Tallyho! Três duendes, zero-quatro-dois, distância cento e cinco.
David, assaltado, à esquerda, pela voz vinda da cabina de radar, tentando apanhar as palavras do comandante pelo ouvido direito, descoberto, fez uma coisa
bem normal e natural, porém imediatamente mal interpretada pelo seu superior. Levantou uma das mãos como um polícia sinaleiro e acenou para o comandante a fim de
o fazer calar enquanto escutava com cuidado a mensagem urgente que chegava pelo aparelho de escuta. O comandante fechou a boca e olhou fixamente para David. Este
voltou-se, tomado pela febre da batalha imaginária.
- Os Wildcats comunicam contacto com o inimigo - disse. - Três duendes em zero-quatro-dois, distância cento...
- Sai da ponte, Regan - ordenou o comandante.
David piscou os olhos.
- Senhor?
- Sai da ponte! Imediatamente!
- Senhor? - repetiu David.
- Ouviste-me falar contigo há alguns instantes?
- Sim, meu comandante, mas...
- Mas quê?
- Senhor, o tenente Devereaux...
- Devereaux quê?
- Senhor - disse David -, OS Wiklcats, senhor. Eles identificaram... - Calou-se, reconhecendo de pronto que era fútil argumentar com um oficial, em especial
quando se tratava do comandante de um navio. Retirou os aparelhos de escuta, desapertou a correia do micro e ergueu os olhos para o comandante. -peço autorização
para deixar a ponte, senhor.
- Concedida - volveu o comandante.
- A quem... quem deseja que... entregue os auscultadores, senhor?
- Podes entregá-los ao imediato, Regan.
- Sim, meu comandante - disse David. Estendeu os auscultadores a Peterson, que os recebeu sem proferir uma palavra. David voltou-se de novo para o comandante.
- Senhor, para onde deseja que me dirija?
- O cruzador assinala: "Virar, um, resposta", meu comandante - gritou um dos homens.
O comandante fez recuar David e voltou-se para o homem do leme:
- À direita, quinze graus - disse ele.
- O leme está a quinze graus, meu comandante.
O comandante dirigiu-se ao marinheiro encarregado de transmitir as ordens à casa das máquinas.
- Máquinas avante, velocidade normal.
- Máquinas avante, velocidade normal, meu comandante.
- Vimos a zero-três-cinco, meu comandante.
- Sim.
- As máquinas respondem avante, velocidade normal, meu comandante.
- Muito bem.
- Firme no zero-três-cinco, senhor.
- Muito bem - repetiu o comandante. - Sr. Peterson, a posição em relação ao Sugarfoot. Diga para baixo que enviem alguém para o micro.
- Senhor - declarou David -, devo...
- Some-te da ponte! - bradou o comandante.
David inclinou a cabeça e desceu calmamente a escada.
Logo que voltaram a Peari, o comandante chamou Devereaux ao seu camarote. Mencionou-lhe, no mais ínfimo pormenor, o mau comportamento de David e explicou
que o Hantley aguardava nesse momento uma ordem do cruzador, que a posição em relação ao navio-guia era então essencial e que se o Hantley não tivesse executado
o movimento de comando pronta e convenientemente, ele, comandante do Hantley, teria feito figura de imbecil e incompetente aos olhos do almirante que se encontrava
a bordo do cruzador. Eis porque mencionaria a conduta de Devereaux no seu próximo relatório. Para finalizar, o comandante pediu a Devereaux que comunicasse a Regan
que se lhe apresentasse imediatamente.
David entrou na sala e perfilou-se diante da longa mesa. O comandante estava sentado numa extremidade, sisudo. Informou-o de que as suas ordens e perguntas
tinham precedência sobre quaisquer outras ordens e perguntas a bordo do navio. David fazia melhor se compreendesse isto sem demora. A fim de o ajudar a entender
o que afirmara, o comandante proibia a sua saída do navio durante um mês e pediria ao oficial superior de comunicações que velasse para que David fosse encarregado
de todos os quartos das 4 horas enquanto o navio estivesse no mar. No porto, além do seu quarto normal no posto de rádio, David tomaria o lugar do marinheiro encarregado
do quarto da noite na ponta. Ele retomaria, sob vigilância, o seu posto de combate e, na próxima vez que desse mostras de tão imperdoável negligência, seria de pronto
afastado das suas funções. E, acrescentou o comandante, David tinha sorte por a sua conduta não ser punida com um castigo em forma, o que, sabia, seria registado
na caderneta. David agradeceu a bondade do comandante e deixou a sala.
No dia seguinte, um oficial descobriu que faltava uma calibre 45.
O armeiro achava-se face à farmácia, na coxia central. Ninguém pensaria em proceder a um inventário das armas de pequeno calibre se o navio se encontrasse
a navegar em águas onde se desenrolavam batalhas reais. Mas como acabara de sair da doca seca, e a tripulação dispunha de tempo de sobra, o primeiro-oficial artilheiro
decidiu que era altura de começar, com um pouco de avanço, a grande limpeza da Primavera. Designou, assim, um segundo-tenente para dirigir as operações. Foi este
que descobriu que o número de armas existente não conferia com o número mencionado no registo de bordo. Na verdade, Arbuster, mestre artilheiro de 2.a classe, apercebera-se
da discrepância muito antes do segundo-tenente; porém, por negligência e patriotismo, decidiu nada revelar. O segundo-tenente, por outro lado, mostrava em tudo o
maior zelo, a fim de obter os gaLÕes de tenente. Comunicou o extravio da arma ao primeiro-oficial artilheiro, que, por sua vez, o comunicou ao imediato, que, por
sua vez, o comunicou ao comandante.
Um altifalante começou a berrar às 14 horas, em seguida ao almoço: "Atenção, atenção! Reunião a bombordo, a meio do navio! Reunião geral a bombordo, a meio
do navio!"
Os tripulantes do Hantley, habituados a ordens singulares, consideraram esta, na verdade, invulgar. Pousaram as latas de tinta, os utensílios de raspagem,
os esfregões de aço, e apresentaram-se no local Indicado, onde aguardaram, com certa inquietação, os acontecimentos. A maioria suspeitava que iriam zarpar novamente
para as ilhas. Nenhum deles, com a possível excepção de Arbuster, imaginavam o que os esperava.
O comandante apareceu às 14.05. Numa atitude um tanto dramática, colocou-se diante dos tubos lança-torpedos e mirou os homens agrupados no Deck principal.
Como era habitual, o comandante do HaNTLEY pronunciou um pequeno preâmbulo antes de chegar ao nó da questão.
- Como sabem - disse ele, e os homens ainda Não sabiam de nada -, a eficiência de um navio de combate depende mais de outros factores do que da perícia dos
homens que constituem a sua tripulação. Depende, também, da coragem, da confiança, do respeito. Cada homem que se encontra a bordo deste navio é um elemento vital
de uma equipa. É preciso que nos respeitemos uns aos outros, bem como a tarefa que cada um realiza, se não queremos que o navio deixe de ser uma máquina de combate
eficiente. O respeito é a palavra-chave. Respeito pelos marinheiros de 2.a classe, assim como pelo comandante desta unidade. Respeito.
O comandante fez uma pausa e inclinou-se sobre o
parapeito da coberta com um ar misterioso. Vestia
O uniforme bege, os "ovos mexidos" do seu posto
a brilharem por cima da pala do boné, a folha de
ácer, de prata, a cintilar no colar da camisa.
- Falta uma calibre 45 no armeiro - disse abruptamente.
Nova pausa.
- Sei que esta arma foi roubada - acrescentou num murmúrio.
Os tripulantes do Hantleye começaram a perguntar-se qual seria o significado de tudo aquilo. O comandante mantinha-se a sacudir a cabeça com um ar sagaz,
lá do alto, e os homens - nenhum dos quais teria considerado uma tal interpretação se o próprio comandante lhes não tivesse plantado a ideia na mente - compreenderam
de súbito o significado das suas palavras, proferidas num murmúrio. Aquele que roubara a arma tinha a intenção de disparar uma bala na cabeça do velho bastardo.
Esta ideia, agora que nela reflectiam, parecia excelente, perfeitamente razoável e válida. Começaram a desejar que o camarada que se apoderara da arma desferisse
este golpe. Imaginavam o comandante conduzido para terra num cesto. Ele continuava a sacudir a cabeça e os homens principiaram a sacudi-la também, fantasiando toda
a tripulação uniformizada, as peças de artilharia a salvar, enquanto desciam o cadáver do comandante para a lancha a motor. Comandante e tripulação sacudiam a cabeça,
e a fantasia marchava de mãos dadas com a ilusão. O comandante rompeu o encanto.
- Pedi aos oficiais de cada posto que procedessem a uma busca em todos os armários e gavetas a bordo deste navio. Ordeno-vos que vos apresenteis sem demora
nos vossos beliches; abri os vossos armários e aguardai a inspecção. É tudo.
Os homens dispersaram-se em silêncio. Não tinham muito que se dizer. Muitos deles começaram a pensar nas várias armas guardadas nos seus armários: as pistolas
japonesas que tinham comprado em Honululu ou a fuzileiros navais, nas ilhas de Santa Cruz, as Lugers que haviam adquirido aqui e ali, as Barettas italianas. Ao reflectirem
nisto, perguntavam-se como podiam lançá-las pela borda fora antes da inspecção dos armários, mas as perspectivas pareciam bem sombrias, em especial para David Regan.
Reconhecera de pronto que a pistola a que se referira o comandante era a arma de que se apoderara inadvertidamente e levara para a messe, finda a instrução
com armas de pequeno calibre, há já bastante tempo. E agora aquela pistola estava escondida debaixo dos lenços no seu armário no beliche da frente. Tentou chegar
lá antes de qualquer dos oficiais, mas ao entrar verificou que dois oficiais da divisão de comunicaÇÕes já ali se encontravam. Um deles era George Devereaux.
- Okay, senhores, comecemos com isto - disse Devereaux.
Os homens, praguejando em voz surda, colocaram-se de joelhos diante dos seus armários e retiraram as chaves do bolso, introduzindo-as no fecho. Uma vez abertos
os armários, aguardaram mudos e imóveis, enquanto Devereaux e um segundo-tenente chamado Phelps procediam à busca. David, depois de abrir o seu armário, empurrou
a automática para o fundo, colocando uma pilha de camisas sobre ela. Os oficiais pareciam um tanto embaraçados perante tal tarefa. David, de pé, ao lado do seu armário,
começou a desejar que fosse Devereaux e não Phelps a proceder à busca entre as suas coisas.
- Muito bem, Severino, queres retirar aqueles cigarros? - perguntou Phelps.
- Que está sob a cobertura desse colchão? - perguntou Devereaux.
Os oficiais passavam metodicamente, de uma cama a outra, conduzindo a busca de maneira casual, mas, todavia, com circunspecção. Phelps, de um lado, Devereaux,
do outro, alternavam-se. David sentiu, de súbito, que transpirava. Passou a mão pelos lábios.
- Onde arranjaste esta baioneta, Stein? - perguntou Phelps.
- No Canal, senhor.
- Desembaraça-te dela logo que termine a inspecção.
- Sim, meu tenente.
- Ora bem, Regan, afasta-te um pouco.
- Eu procuro aí, Phelps - interveio Devereaux.
- Já a encontrei.
- Pensava...
- Já a encontrei - repetiu Devereaux.
Ajoelhou-se diante do armário de David e começou a remexer com cuidado entre a roupa. Cometia, como um cavalheiro, a violação dos pertences de David. As
suas mãos detiveram-se numa caixa de charutos. Abriu-a, encontrou um monte de fotografias, e - embora nunca a tivesse visto na sua vida - reconheceu imediatamente
a jovem de Talmadge, Ardis Fletcher, na que estava ao de cima. Mordeu o lábio superior, empurrou a caixa para um canto e levou as mãos ao fundo do armário. Sentiu
um objecto duro e imobilizou-se. Fitou David, que enxugava o suor que lhe escorria para os lábios.
- Muito bem, como vai isso por aí? - perguntou uma voz da escada.
O marinheiro que se encontrava mais perto da escada gritou:
- A... ten... ção!
Deveraux pôs-se de pé, as mãos vazias, e voltou-se para o comandante, que descia a escada.
- Estejam à vontade - disse ele. - Já descobriram a pistola?
- Não, meu comandante - respondeu prontamente Phelps.
- Sr. Devereaux, têm examinado cuidadosamente estes armários?
- Sim, meu comandante.
O comandante dirigiu-se para o ponto onde se encontravam Devereaux e David, de pé, lado a lado. Deu uma olhadela para o armário de David.
- Onde aprendeste a arrumar o teu equipamento, Regan? - perguntou ele.
- Nos Grandes Lagos, senhor.
- Tanta desordem aí dentro, hem?
- Meu comandante, remexi todo este armário disse Devereaux.
- Ninguém lhe perguntou coisa alguma, Sr. Devereaux. - O comandante piscou os olhos, examinando primeiro Devereaux; depois David. - Afastem-se - disse.
- Sim, meu comandante.
O comandante ajoelhou-se diante do armário. Pegou num par de peúgas, repô-las no seu lugar, e então reparou na caixa de charutos.
- Que está ali dentro, Regan?
- Algumas... algumas fotografias, senhor.
- Abre-a.
- Sim, meu comandante.
David ajoelhou-se e abriu a caixa. As suas mãos tremiam.
- Estás nervoso, Regan?
- Um pouco, senhor.
- Porquê?
- Não... não sei, senhor.
O comandante observou o conteúdo da caixa, inclinou a cabeça e disse:
- Muito bem, tira-me essas blusas daí.
David pegou nelas e colocou-as sobre a pilha de camisas que encobriam a calibre 45.
- Que está por trás desses sapatos, Regan?
- Nada, senhor.
- Vi qualquer coisa aí por trás, Regan.
- Não, meu comandante, eu...
- Vi qualquer coisa, Regan.
- Oh, oh, sim, meu comandante. Um par de binóculos.
- Dá-mos.
David pousou os sapatos pretos sobre as blusas e alcançou os binóculos. Entregou-os ao comandante.
- São propriedade do Estado, Regan?
- Não, meu comandante. Comprei-os em Honolulu.
O comandante examinou-os e devolveu-os ao jovem.
- Muito bem, tira-me daí essas blusas.
- Sim, meu comandante.
- E as camisas.
- Sim, meu comandante.
Com as costas voltadas para o comandante, David fechou os olhos, por um momento, numa atitude nervosa, e depois pegou nas blusas.
- Vamos, Regan, rápido.
- Senhor... - começou Devereaux, mas deteve-se, hesitante.
- Diga, Sr. Devereaux.
- Senhor, passei uma busca a este armário e...
Devereaux hesitou de novo. David, com as mãos pousadas nas camisas que dissimulavam a calibre 45, ergueu os olhos para Devereaux. "Ele vai dizer-lhe", pensou.
"Ele vai dizer-lhe que encontrou a arma."
- Vamos, que tem para me comunicar, Sr. Devereaux? - inquiriu o comandante.
- Senhor, é meu dever informar que...
- O comandante está aí em baixo? - perguntou uma voz do cimo das escadas.
- Sim, está aqui, senhor - respondeu um dos marinheiros.
O comandante voltou-se quando Levy, o primeiro-oficial artilheiro, desceu as escadas.
- Que se passa, Sr. Levy?
- Creio que encontrámos a arma, senhor.
-Onde?
- Tem-na um marinheiro de 1.a classe. Alega que a comprou a um "cara de cão". A um soldado, senhor.
- Onde está ele?
- Num beliche da ré, senhor.
- - Vamos vê-lo então - disse o comandante. - Prossigam - acrescentou por cima do ombro, e subiu as escadas.
- Ele deseja que continuemos com a busca? - perguntou Phelps.
- Suponho que não - respondeu Devereaux. - Encontraram a arma.
- Acho melhor perguntar-lhe - volveu Phelps, que subiu a escada, no encalço do comandante.
Devereaux voltou-se para David. Num murmúrio ríspido, disse:
- Pega nessa arma e vai deitá-la pela borda fora.
- Agora, senhor?
- Já! Mexe-te!
- Sim, meu tenente.
David retirou a automática e escondeu-a debaixo da camisa. Trinta segundos depois arrmessava-a para a água, perguntando-se ainda que quisera Devereaux declarar
quando começou: "Senhor, é meu dever informar que... "
Devereaux, pelo seu lado, sabia perfeitamente o que estivera prestes a afirmar: "Senhor, é meu dever informar que encontrei a arma. Era minha intenção fazer
esta comunicação em particular, para não embaraçar o jovem Regan diante dos seus camaradas."
Eis o que estivera prestes a declarar.
A entrada de Sol Levy, com a notícia de que um marinheiro tinha em seu poder a arma, impediu-o de fazer esta comunicação. Como afirmara o marinheiro, a calibre
45 fora realmente comprada a um soldado; no entanto, o comandante considerou-a um objecto de propriedade do Estado e confiscou-a imediatamente. Na altura em que
a busca foi reiniciada já David se desfizera da pistola. Devereaux, ielizmente, não pudera desembaraçar-se do pensamento de que quisera denunciar David a fim de
salvar a sua própria pele.
Este pensamento era novo na sua mente; examinou-o com cuidado, ao mesmo tempo que considerava a aversão inata dos Americanos pelo delator. Era-lhe desagradável
ver-se no papel de trânsfuga. E, contudo, não podia negar, estivera quase a denunciar David, tê-lo-ia denunciado se não fosse a intromissão de Levy. "Qualquer um
teria feito a mesma coisa", pensou. "A questão é esta: ou Regan ou eu. Vejamos, que lhe devo eu? Tenho sômente deveres para comigo, George Devereaux." Contudo, a
ideia da denúncia frustrada não era de modo algum aprazível.
"Não o denunciei", reflectiu. "Porém, estive prestes a fazê-lo. Bem, talvez tivesse decidido o contrário no último instante. Talvez dissesse: "Senhor, é
meu dever informar que examinei cuidadosamente este armário e nada encontrei". Talvez o dissesse se Levy não tivesse descido a escada naquele momento. Talvez protegesse
Regan, apesar de tudo."
Mas sabia que a verdade não era esta, que teria denunciado Regan se não fosse interrompido. E sabia, tambem, que o contacto com David havia colocado à superfície
os piores elementos existentes na sua personalidade, reduzira, de certo modo, a imagem íntima que formava de si mesmo a um ser que nem sequer conhecia, e, o que
era pior, a um ser que desprezava.
"Tenho de o destruir", pensou.
A princípio, julgou que se referira à imagem revelada, à imagem que odiava, este ser que fazia coisas que George Devereaux jamais teria feito, esta criatura
pueril obsidiada por silhuetas de raparigas muito jovens, este homem vingativo que insistia em punir, este homem tímido incapaz de encarar o comandante, este homem
intolerante que papagueava princípios democráticos, este homem indesejável com espírito de delator.
E então compreendeu que não queria de maneira alguma destruir tal imagem. Desejava sômente destruir a origem de semelhante imagem, a única pessoa que o forçara
a observar esta característica detestável: David Regan. Inconscientemente, começou a urdir uma intriga contra David, continuando com as revisões; planos, mais planos
sórdidos. Parecia não encontrar maneira de o eliminar, de o reduzir a nada, de riscar David da sua vida.
Até que surgiu aquela noite em Peari.
David, que cumpria o castigo imposto pelo comandante devido ao incidente na ponte, fazia o quarto da noite. Estava de uniforme branco e trazia um cinturão
guarnecido de cartuchos carregados e uma espingarda de calibre 22. O oficial da ponte era um certo Sammener, que se descuidava quanto à disciplina. Compreendia que
nenhum espião japonês faria saltar pelos ares o Hantley enquanto o navio se encontrasse no porto, e, assim, não se importava que David se apoiasse na espingarda,
a colocasse ao ombro ou se servisse dela da maneira mais negligente que já testemunhara. Sammener não se importava, eis tudo. O oficial estava a cair de sono, detestava
quartos, e o segundo-mestre artilheiro que se achava com ele era um tipo imensamente chato do Midwestem que nada tinha para dizer. Assim, Sammener escreveu à mulher
e, depois, viu David, que, junto -da prancha do portaló, soltava, por vezes, imprecações surdas e fazia uma guarda deveras negligente. O comandante achava-se a bordo,
a dormir de modo que não havia perigo que ele surgisse e fizesse um barulho dos diabos.
- Que horas são? - perguntou Sammener ao segundo-mestre artilheiro.
- Zero-dois-cem, senhor - respondeu este.
- Em inglês.
- Duas horas, meu tenente.
- Obrigado. - disse Sammener, depois de um silêncio. - Escuta, vai buscar café para nós, sim! Caso contrário, não tardará que adormeça.
- Sim, meu tenente. Mas onde o irei procurar?
- Os operadores da rádio devem-no ter quente.
- Sim, senhor.
- Traz também para o marinheiro do quarto. - Colocou as mãos nas extremidades dos lábios e gritou: - Eh, tu aí! Queres café?
- Sim, meu tenente, muito obrigado - respondeu David.
- Óptimo. Como te chamas?
- Regan, senhor.
- Que fazes tu, Regan? És um operador de radar?
- Sim, meu tenente.
- Porque fazes então o quarto? - perguntou ele.
David exibiu um sorriso escarninho:
- Ideias do comandante, senhor.
- Ele é um homem cheio de ideias - resmungou Sammener. - Vai buscar o café, Mercer. Não demores. Estou quase a cair de sono.
O café chegou às 2.15. Sammener mandou o segundo-mestre artilheiro levar uma chávena a David; o jovem passou a espingarda para a mão esquerda e pôs-se a
beberricar o café quente. O café era bom. Estivera um pouco ensonado antes de chegar a bebida.
Tinha a impressão de que começara já há longo tempo, há anos, a fazer quartos de noite, e, contudo, iniciara-os há poucas semanas. Nunca mais se encontrara
bem lúcido. Noite após noite, odiava aquela mão que lhe batia no ombro e o despertava à meia-noite menos um quarto; vinha em seguida este período na doca, em que
via os camaradas voltar da pândega; não se deitava antes das 4, para ser acordado de novo às 6, a fim de principiar a sua tarefa quotidiana. Parecia-lhe que não
dormia o suficiente últimamente. Quase desejava que entrassem em combate. O comandante não prolongaria o castigo se o navio se encontrasse em...
- Ora, muito bem, David. Então a beber uma chávena de café!... - disse uma voz.
Regan voltou-se.
- Olá, George! - murmurou.
George Devereaux pôs as mãos nos quadris e examinou David, com o sorriso escarninho, as sobrancelhas oblíquas, os olhos castanhos cintilando. David sorriu
também.
- Meu tenente - volveu Devereaux.
- Hem?
- Meu tenente - repetiu o oficial, ainda de dentes arreganhados. - Creio que sou um oficial da Marinha dos Estados Unidos, e, como tal julgo-me com direito
ao respeito de um marinheiro, expresso pelo tratamento respeitoso de "tenente" e "senhor". - Devereaux fez uma pausa, ainda com os dentes arreganhados. - Respeito,
eis o que disse o comandante. Respeito é a palavra-chave.
- Tem muita razão - respondeu David, sorvendo o café. Sorriu quando afastou a chávena dos lábios.
- Tem absoluta razão, senhor - disse Devereaux.
- Tem absoluta razão, senhor - afirmou David, dando ênfase à palavra, com um sorriso trocista.
- É melhor assim - tornou Devereaux. Perdeu
o equilíbrio durante um instante, e cambaleou na doca antes de se agarrar à corda lateral da prancha em busca de -apoio; depois endireitou-se e fitou de novo David.
Este, bruscamente, deu-se conta do cheiro a w.htsky que exalava o hálito do oficial.
- Agora, desembaraça-te dessa chávena de café.
- Senhor?
-Pousa a chávena.
- Sim, meu tenente - disse David, trocista, perguntando-se que espécie de brincadeira era aquela com que Devereaux se entretinha; porém, sentia-se grato
a qualquer coisa que quebrasse a monotonia do longo quarto. Pousou a chávena na doca.
- tem... cuidado! - gritou Devereaux.
David rectificou a sua posição, sem deixar de sorrir.
- Que achas tão engraçado, Regan?
- Nada, senhor - volveu David.
- Tira esse sorriso da cara!
- Sim, senhor - respondeu David, fazendo, sem demora, uma cara exageradamente séria, os lábios cerrados, os olhos contraídos.
- É melhor assim - disse Devereaux, inclinando a cabeça. Estendeu as mãos para o lenço de David.
- Eis um nó bastante mal feito, Regan.
- Sim, senhor!
- E os teus sapatos precisam de graxa.
- Sim, senhor!
- E necessitas de cortar o cabelo.
- Não tenho ido a terra.
- Há um barbeiro a bordo, Regan.
- Eu sei. Mas não faz sentido que corte o cabelo quando estou castigado...
- Estás a pôr em dúvida o meu julgamento?
David sorriu de novo.
- Não, senhor!
- Que graça achas? - perguntou Devereaux.
David compreendeu que era o único que sorria; a cara de Devereaux estava bem séria.
- Nada, meu tenente - respondeu ele. O sorriso desvaneceu-se.
- Digo-te que os sapatos estão uma vergonha, que precisas de cortar o cabelo, e achas graça, não é verdade?
- Não, meu tenente, não acho - volveu David.
- Muito bem - disse Devereaux. - Corta o cabelo. Engraxa os sapatos.
- Sim, meu tenente.
- Muito bem - repetiu o oficial. Começou a
subir a prancha. Após saudar Sammener, exclamou:
- Olha, olha, quem está a fazer o quarto na ponte! O velho Jonah Sammener. Então, Jonah? Trouxeste algumas raparigas para bordo? Há por aí alguma
farra?
- Dás a impressão de vires de uma - respondeu Sammener secamente.
- Que estás a beber, Jon ah? Café? Toda a gente do quarto bebe café. Um belo ramalhete de sentinelas que temos a velar pela nossa vida enquanto dormimos
o sono dos justos.
Inclinou a cabeça e pareceu recordar-se da presença de David na doca. Dirigiu-se para a prancha e desceu-a ràpidamente, encaminhando-se para o local onde
se encontrava o jovem; este não se moveu.
- Penso que é do regulamento saudar-se um oficial que se aproxima, Regan - declarou Devere'aux.
David pôs-se em posição de sentido, a mão esquerda pousada no cano da espingarda, em saudação. Como resposta, Devereaux tocou a pala do boné. David continuou
em sentido. Deveraux manteve-se a examiná-lo. O sorriso escarninho dissipara-se por completo. Restava apenas o brilho dos olhos castanhos, duros, que fitavam, sob
as sobrancelhas oblíquas, o jovem.
- Pensava que te tinha dito para cortares o cabelo - disse Devereaux.
David, embaraçado, não respondeu.
- Falo contigo, Regan. Precisas ainda de cortar o cabelo.
- Senhor, estoú... de quarto.
- E um quarto bastante negligente, devo acrescentar.
- Eh, George, vem para bordo - gritou Sammener da ponte. - Estás a acordar todo o barco.
- Não te metas onde não és chamado, Jonah - replicou Devereaux por cima do ombro.
- Senhor - disse David, num murmúrio -, penso que talvez...
- Não importa o que pensas, Regan! - exclamou Devereaux. - Não me interessa o que pensas.
- Senhor, quis apenas dizer...
- Sim, que é que quiseste dizer? Regan? Gostaria bem de o saber. Revimos de tal modo essa história do homem que se afoga que já a deito pelos olhos. E não
sei ainda o que querias dizer. Não és capaz de te explicar? De uma vez para sempre? Não consegues, por amor de Deus, vazá-la num inglês claro e inteligível?
- Lamento, senhor - volveu David. - Tentei, porém...
- Não mostres tanto pesar. Lamento o suficiente por nós dois. Lamento ter lido as tuas cartas e cometido ainda o erro de pensar que podias, possivelmente
em mil anos, escrever um simples parágrafo de uma prosa pelo menos interessante. Não continues a dizer-me que lamentas, Regan.
- Lamento, meu tenente; porém...
- Repito-te que não me digas que lamentas.
David fitou Devereaux, perguntando-se por que motivo o caso se tornara tão sério. Alongou os olhos na direcção de Sammener, que lavara as mãos quanto ao
assunto e se achava descansadamente a beberricar o café na ponte.
- Que é que te fez crer que eras escritor, Regan? - perguntou Devereaux.
- Nunca pensei que o era, meu tenente. Foi o senhor quem...
- Não me contradigas! De que se tratava então, Regan? De um desejo ardente de publicar aquele acontecimento maguificente num jornal?
- Não, meu tenente, eu...
- Um homem que se afogava; um homem que se afogava; um homem que se afogava; quantas vezes se afogou ele desde que encetámos a revisão da história?
- Não sei, meu tenente. Fez-se certo número de revi...
- Que te faz supor que alguém se interessaria em ler uma história acerca de um doido tão estúpido que nem conseguiu evitar que o pé fosse apanhado pela corda
de uma âncora?
David sentiu o punho direito crispar-se sobre o cano da espingarda.
- não sei, meu tenente.
- Ninguém. Eis quem se interessaria. Ninguém. Um homenzinho insignificante sai num barco a remos e...
- Meu tenente!
- Que é?
- Meu tenente, eu preferia não discutir agora esta história.
- Olha, ele é sensível! - exclamou Devereaux com falsa solicitude. - O artista sensitivo. Se és tão sensível, Regan, porque decidiste escrever acerca de
um pascácio com tão pouca sensibilidade? Porquê?...
- Senhor, trata-se do meu pai - volveu David calmamente. Sentia uma cólera incontrolável ferver dentro de si. Tinha o punho crispado sobre o cano da espingarda.
Não queria gritar. Os seus olhos pestanejavam enquanto tentava conter a cólera.
- Oh, o teu pai. Oh, perdoa-me, Regan.
- Muito bem, senhor.
- Sim, o teu pai. Nunca imaginei que ele fosse o idiota que...
- Cale-se, Sr. Devereaux!
- saltou para um barco a remos e permitiu que fosse apanhado pela corda de uma âncora. Uma coisa dos diabos. Um doido danado, eis o que era esse homem, um
cretino...
O seu primeiro impulso foi erguer a espingarda e disparar.
Esforçou-se por se dominar e conseguiu-o, pois erguera a espingarda e quase puxara o gatilho; então decidiu brandir a arma; chegou a fazer o primeiro gesto,
mas lançou a arma fora e esmagou o punho direito na cara de Devereaux. Este foi projectado contra o portaló e David seguiu-o, os olhos cheios de lágrimas, o coração
ferido.
- É o meu pai - disse ele, e esmurrou novamente Devereaux, enquanto Sammener pousava a chávena do café e descia o portaló, a mão na calibre 45, que trazia
à cintura.
- Regan! - gritou ele. - Perdeste o juízo? Regan, pára com isso! - Segurou os braços de David e afastou-o de Devereaux. - Que tens, rapaz?
- Sinto muito, senhor - volveu David, tremendo, agora que compreendia o que fizera.
- - Que loucura, Regan! - exclamou Sammener. - É... é melhor que desças. Mercer, acorda... acorda o homem que se segue na lista dos quartos. Vamos, Regan, é melhor...
Devereaux ergueu-se e passou a mão pelo nariz. Olhou para o sangue que tinha nos dedos, sorriu diabôlicamente e disse:
- Espera um momento, Jonah.
- Ele perdeu a cabeça, George - volveu Sammener. - Suspendi-o e...
- Perdeu a cabeça, na verdade - respondeu Devereaux. - Penso que é melhor irmos despertar o comandante.

Em 7 de Abril, David Regan compareceu perante um conselho disciplinar; o seu caso foi, no entanto, declarado passível de conselho de guerra naval. Em 16
de Abril compareceu perante um tribunal composto por oficiais, no Juneau, e foi acusado de ter violado o artigo 90.0 do Código Uniforme da Justiça Militar, que decretava:
"Todo o individuo sujeito a este código que agrida um superior, o ameace com uma arma ou cometa qualquer género de violência contra ele, enquanto se encontra no
cumprimento do seu dever, será punido, se a agressão for cometida em tempo de guerra, com a morte ou com outro castigo que o conselho de guerra entenda aplicar-lhe."
O advogado encarregado da defesa de David acentuou que George Devereaux voltava para o navio depois de uma licença e não se encontrava, nesse momento, no
"cumprimento do seu dever"; mas foi 'recordado à defesa que um oficial se encontra no cumprimento do seu dever quando efectua uma acção ou serviço que lhe cabe realizar
conforme os estatutos, os regulamentos ou ordem de um superior, ou
o costume militar. Em geral, decidiu o tribunal, a disciplina, deve ser considerado como cometido contra um oficial superior por um indivíduo sujeito às leis militares,
e portanto dependente deste oficial superior, a quem cabe na altura do incidente manter a disciplina, deve ser considerado como cometido contra este oficial enquanto
ele se encontrava no cumprimento do seu dever
Fez-se notar ao tribunal que George Devereaux provocara o ataque e que estava embriagado na altura da agressão, mas a acusação manteve que o artigo 112.o
do código, que se refere à embriaguez em serviço, não podia ser aplicado nos períodos em que nenhum serviço é imposto pelos regulamentos ou por ordem superior, encontrando-se
os oficiais e as praças na situação designada "de licença", situação na qual se encontrava George Devereaux na altura da agressão.
Eles podiam ter infligido a David uma baixa desonrosa, a acrescentar a qualquer outro castigo que decidissem aplicar dentro dos limites especificados pelo
código. Mas, devido às circunstâncias atenuantes - o advogado de defesa referiu-se com obstinação à dualidade que permitia a George Devereaux "cumprir os deveres
do seu cargo" sempre que convinha à acusação, mas estar "de licença" desde que fosse útil à mesma -, David foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, sem
salário ou subsídio, mas esta pena não incluía uma baixa desonrosa.
Em 8 de Maio foi posto a ferros, a bordo de um transporte, e conduzido para um campo de trabalho da Marinha, em Camp Elliott, San Diego, onde começou a cumprir
a pena.
A bordo do Hantley, o comandante fez vir Devereaux à sua presença e fez-lhe um discurso florido cuja substáncia real se podia traduzir nestas palavras: "Eu
tinha-lhe dito."

As raparigas do Fi Sigma adquiriram, Deus sabe onde, um pára-quedas do Corpo Aéreo do Exército, e, depois de o tingirem de um vermelho berrante, suspenderam-no
do tecto do ginásio, onde formava uma cúpula rutilante.
As raparigas do Ómega psilon tinham manufacturado dúzias e dúzias de rosas artificiais, de longas hastes, que enfiaram em cordões que pendiam do tecto do
ginásio, de maneira que a sala parecia submersa sob uma avalancha de flores. O enorme pára-quedas de seda abrigava os dançarinos da chuva de papelinhos que caía
enquanto rodopiavam na pista ao ritmo da orquestra, instalada na extremidade do ginásio. O baile fora intitulado apropriadamente, embora talvez com certa fantasia,
de "Baile das Rosas".
O ritmo da orquestra vibrava através da sala, moía os dançarinos, abrasava os pés de Amanda Soames, que rodopiava em redor do ginásio com um vestido de tafetá amarelo,
surpreendida por se encontrar entre os braços de um estranho, sob o pára-quedas do Corpo Aéreo do Exército, adquirido, só Deus sabe onde, pelas raparigas do Fi Sigma.
As suas intenções, até às 6 horas, tinham sido perfeitamente respeitáveis. Ela trabalhara na sala de estudo, no segundo andar do Ardaecker, até perto das
5.30, sem prestar atenção ao sol brilhante de Maio que, indolente, penetrava através das janelas abertas. Sentada ao piano, marcava um acorde após outro, registando
cada nota no papel de música, com O lápis apertado entre os dentes, consoante ia batendo as teclas, fascinada pela tarefa que se impusera. Trabalhava duro, num ritmo
algo dramático talvez, por influência de Gillian Burke, e, até às 6 horas, as suas intenções tinham sido, sem dúvida alguma, puras.
- - Faz uma coisa de truz! - dissera-lhe Gillian.
- Um arranjo como os de Scriabine!
A amiga fizera grandes gestos com os braços, consciente do espelho que se achava por trás de si. Os seus conhecimentos sobre a música clássica nunca -deixavam
de surpreender Amanda. Gillían parecia ser uma admiradora incurável da música mais vul-gar; contudo, - era capaz de identificar as sinfonias
- - mais obscuras após ouvir apenas as primeiras notas, uma fantástica proeza de memória que nem sequer Amanda conseguiria emular. O seu sentido musical era também
sobrenatural. À primeira vista, Amanda considerara escandaloso tentar fazer um arranjo tão pretensioso sobre uma balada popular como Até Esse Momento. Todavia, começara
a reconhecer que tal obra teria "público", e admitira que seria eficaz, -e não esquecera sequer por um momento de que fora Gillian quem dissera: "Faz uma coisa de
truz!"
Às 5.30 regressou ao dormitório, dirigindo-se imediatamente para a casa de banho do piso térreo. Acabara de abrir a torneira do chuveiro quando Gillian irrompeu
pelo aposento, tirou o roupão e ocupou a cabina vizinha. Três minutos depois, tendo por fundo sonoro o silvo do vapor que subia de cada cabina, achavam-se a gritar
uma para a outra acaloradamente. Amanda começou a lamentar ter dei-xado o Ardaeck e a perguntar-se por que demónio regressara ao dormitório às 5.30.
- Disse ao Morton que ficava em casa esta noite, a estudar - gritou ela.
- Estás casada com o Morton? - volveu Gillian.
- Decerto que não!
- Estás noiva? Prometeram-se um ao outro?
- Não; porém...
- Parece-me bem que sim!
- Não, Gillian, mas...
- Apressa-te. Está a fazer-se tarde.
- Não queria que ele pensasse que lhe menti.
- Não mentiste. Telefona-lhe e diz que vais sair, se é o que te aborrece.
- Bem, não é isso, exactamente.
- Então, que é? - Gillian fechou a torneira e saiu da cabina. O cabelo pingava, empastado no crânio, os dedos tinham gotas cintilantes. Pegou na toalha e
começou a secar-se com vigor.
- E então, que diferença faz? Fazes favor, sais desse chuveiro?
Amanda fechou a torneira, tirou o gorro de banho e disse distraidamente:
- Para mim, faz diferença.
- Eis o teu roupão.
- Ainda não me enxuguei.
- Enxuga-te no quarto. Eles chegarão às oito.
- Não me interessa a que horas chegam, porque na.... Gilly, estou molhada! Não posso vestir um roupão quando... -, mas Gillian colocara-lho sobre os ombros
e empurrava-a para a porta. - Gilly! protestou ela, mas já se encontravam no corredor, Amanda envolta no roupão, Gillian conduzindo-a em direcção do quarto. Amanda
encaminhou-se imediatamente para a cama e sentou-se, cruzou as pernas sobre o roupão e exclamou: - Acabemos com isto, Gillian! Sei muito bem o que desejo fazer!
- Sim? Então diz-me o que é. Estás a molhar a cama toda.
- Importa-me lá a cama! Quero ficar em casa esta noite.
- Porquê?
- Tenho trabalho a fazer.
- Que trabalho?
- O arranjo. Já se passou quase uma semana...
- Pode esperar outra semana. Demais, podes acabá-lo em dez minutos, sabe-lo bem.
- Mas, não! De modo algum! Ainda nem sequer comecei a orquestração e não posso contar...
- Ora, és capaz de o fazer amanhã. Esta é a noite de sábado, Amanda. A noite dos namoros. Por toda a América, nas cidades, nas vilas, nas povoações, nas
cabas. Por amor de Deus, Amanda, é a noite dos namoros! Desde tempos imemoriais...
- Deixa-te de representar, Gillian. Não te posso suportar quando começas a dramatizar.
Gillian lançou-lhe uma toalha e disse:
- Enxuga-te. Não dispomos de muito tempo.
- Não vou.
- Tens de ir. Prometi-o ao Brian.
- O Brian é um macaco.
- Oh, mas bastante amoroso. Além disso, o teu par é o amigo, e não ele.
- O amigo é provàvelmente um macaco, também.
- O amigo é advogado.
- Tanto melhor para ele.
- E demais, nem é sequer amigo do Brian, mas do irmão.
- Do irmão de quem?
- Do Brian.
- Então como é que o Brian o conhece?
- Ele não o conhece. Estão ambos na tropa, este tipo e o irmão do Brian; o irmão do Brian pediu a este tal tipo que passasse por Talmadge, no caminho para
New Haven, a fim de visitar o Brian, e como este tipo teve a gentileza de o fazer, o Brian pensou que devia tentar arranjar-lhe uma rapariga com que saísse esta
noite. Assim, o menos que podes fazer...
- Não devo nada ao Brian. Ele é o teu namorado.
- Ele não é o meu namorado, mas alguém que vejo uma vez por outra.
- Mais uma razão para eu não...
- Por Deus, Amanda, pensas que te vamos conduzir para a cadeira eléctrica?
- Não me agrada a ideia de tu e o Brian combinarem encontros para mim. Ou... de me... de me colocarem nos braços ..... de soldados. Que pensa o Brian que
é.? Um.. um... um casamenteiro?
- Quem te pede que cases com este tipo? Alguém te pede que cases com ele?
- Não,
- Tudo o que te peço é que ajudes a tua companheira de quarto quando um soldado... um soldado, Amanda, um membro das forças .......
- Lá começas tu novamente.
-... que se bate numa guerra para preservar a liberdade, se dá à maçada de vir dos confins do.. Ele dirige-se para New Haven, aliás.
-... do Arizona, a fim de trazer um recado da parte do irmão o Brian. O mesmo que podemos fazer, Amanda...
- Que recado é esse?
- Como o posso saber, Amanda? Ele é muito pinoca, disse o Brian.
- Quem?
- Este tipo, Matthew Anson Bridges. Não é um nome maravilhoso?
- Não. Detesto pessoas com três nomes.
- Veste-te, Amanda.
- Não. Fico cá.
- Eis a tua roupa de baixo, Amanda.
- Eu nem sequer o conheço.
- Amanda, existe uma coisa chamada bZind te, um costume americano bastante comum e de maneira alguma degradante ou vergonhoso. Queres fazer o favor de vestir
as calcinhas e de não perderes tempo?
- Abomino a palavra calcinhas.
- Amanda, são quase seis e meia.
- Não tenho pressa, Gillian. - Fez uma pausa.
- E ele, que tal?
- Não o vi. Queres que te repita a descrição que o Brian fez dele?
- Já agora...
Gillian tomou, em seguida, a pose pesada de um gorila, os braços pendentes, o queixo saliente. Começou a passear-se pelo quarto, coçando alternadamente a
cabeça e o peito. Quando se voltou para encarar Amanda, os seus olhos tinham a expressão indistinta de um animal de espécie inferior.
- Uh... - fez ela. - Uh... ele tem cerca... .... de um metro e noventa, calçado. Amanda... uh... e cabelo negro, sim, e olhos castanhos e... uh. oh sim,
um bigode preto e...
- Um bigode preto! - gritou Amanda.
- Cito apenas o Brian - disse Gillian, endireitando o corpo e dirigindo-se para o guarda-vestidos.
- Ele é também capitão, adstrito ao comissário do Governo, e trabalha algures no Arizona. É bronzeado como um astro, disse o Brian.
- A idade?
- Vinte e seis - volveu Gillian, abrindo a porta do armário.
- Vinte e seis!
- - Ora bem, Que mal há que tenha vinte e seis? - perguntou Gillian, voltando-se, as mãos nas ancas.
- Vinte e seis?
- Sim, vinte e seis, vinte e seis. Que vamos fazer, enterá-lo?
- Vinte e seis e um bigode preto - volveu Amanda; fez uma careta, os olhos cintilando com nova vontade. - Não. Absolutamente, não. - Pegou no
roupão e enfiou-o sobre o twn e as cuecas. - Não Gillian. Lamento, mas não.
- Que vestido queres levar? - perguntou Gillian.
- Não vou.
- Que tal o amarelo? É uma cor que diz bem contigo.
- Não vou. Telefona ao Brian e...
Gillian lançou o vestido de tafetá amarelo para cima da cama de Amanda e dirigiu-se para a sua cómoda. Abriu a gaveta de cima, remexeu nela durante um momento
e depois disse:
- Não tens um par intacto?
- Gillian, não é minha intenção...
- Amanda, calça as meias e os sapatos e põe o vestido. Deixa de te comportares como ma pequena...
- Gilly, ele tem vinte e seis anos e...
- Sim, e usa um bigode preto. Demais, tem-se apoderado dos bens de viúvas e órfãos, irás àquele estúpido Baile das Rosas mesmo que tenha de te levar de rastos.
Sim!
Os olhos verdes cintilaram durante um momento; depois o sorriso travesso reapareceu no rosto de Gillian.
- - Vamos, Amanda - disse ela com gentileza. - Tem coração. Dei a minha palavra ao Brian.
Agora, rodopiando na pista, nos braços de Matthew Anson Bridges, Amanda foi obrigada a admitir que ele não parecia, apesar de tudo, tão horrivelmente velho.
E, na verdade, era maravilhosamente bronzeado como um astro. Tinha também uma maneira muito doce de falar, sem dúvida porque nascera na Virgínia, supunha ela. Nunca
conhecera um sulista, e, de certo modo, Matthew Anson Bridges - que estranho: não conseguia identificá-lo sômente pelo nome próprio, tinha de ligar os três, como
os ouvira, pela primeira vez -, Matthew Anson Bridges fazia-a recordar-se de todas as histórias que ouvira acerca do Sul lendário. Ela quase o podia imaginar montado
a cavalo, assegurando à viúva de um plantador que as suas tropas estavam sômente a perseguir janques - que nada devastariam nem procederiam a um acto de pilhagem.
E todavia ele não tinha a verdadeira pronúncia do Sul, mas apenas uma maneira doce de falar. Bem, supunha que todos os sulistas educados falavam assim. Ele dançava
muito bem, com uma das mãos, firme, pousada nas costas dela, para a guiar, e a outra apertando-lhe com muita leveza a mão esquerda. Nem parecia dançar. Os seus pés
davam a impressão de evolucionarem ligeiramente sobre a pista, sem, na realidade, a aflorarem. Tinha a sensação de que voava, mais leve que uma pena, nos braços
de Matthew Anson Brídges.
"Quando ouço aquela serenata in blue, Encontro-me algures num outro. ."
- Gosta de Glenn Milier? - perguntou Amanda.
mundo só contigo,
partilhando todas as alegrias... "
- Sim - respondeu Mattliew.
- Ele está no Exército também, não é verdade?
- Sim. No Corpo Aéreo.
- Gosta do nosso pára-quedas?
- É bonito.
- Ele é capitão, suponho, Glenn Miller.
- Sim.
"E enquanto dançamos pela noite fora.
Ouço-te dizer. . . "
- Passou-se alguma coisa?
- Não.
- Parece zangado.
- Não gosto de conversar quando danço - disse Matthew.
- Oh, perdoe-me.
- Está perdoada.
Rodopiava quase sem tocar o solo. "Ele não gosta de conversar quando dança. Bem, bem, bem, o tipo forte e sisudo, o Sr. Matthew Anson Bridges. Mas a verdade
é que ele dança bem. Está, provàvelmente, a contar os passos. Falar perturba-o, talvez, faz-lhe perder a conta." Amanda desatou a rir.
- Que há? - perguntou ele.
- Nada.
- Não gosto do riso sem motivo - volveu.
- De que gosta, Sr. Bridges?
- Chame-me Matthew, como toda a gente.
- De que gosta, Matthew?
- De louras melosas que dão a impressão de terem acabado de cair de um pessegueiro.
Ela fitou-o bruscamente.
- Terminou a dança - disse ele. - Gosto de Glenn Miller, e penso que a vossa orquestra de caloiros e o vosso vocalista imberbe assassinaram uma das mais
belas canções que ele jamais compôs.
- Huh?
-... a história do pessegueiro.
- Oh! Sim. Quer beber qualquer coisa?
- Não sei se me sinto lisongeada.
- Porquê?
Amanda riu.
- Os pêssegos são amarelos e vermelhos e cobertos de penugem.
- Mas também maduros e doces - disse Matthew. - Vamos.
-Aonde? À taça do ponche?...
- Penso que o Brian tem uma garrafa no carro.
- Bem...
- Que há?
- Gostaria de dançar ainda um pouco mais - volveu Amanda.
- A orquestra fez um intervalo.
- Sim, eu sei. Mas quando voltarem... Oh, eis a Gillian! Gilly!
Gillian, que trazia um vestido de seda azul-eléctrico, de um tom vibrante, tomou a mão de Brian e dirigiu-se para Matthew e Amanda.
- Olá! - disse ela. - Como se vão dando, vocês dois?
- Conversamos sobre fruta - disse Matthew, sorrindo para Amanda.
- Creio que é melhor safarmo-nos daqui - declarou Brian.
- Porquê? - perguntou Gillian.
- Não gosto de giliásios. Tresandam sempre a suor.
- Quero dançar ainda um pouco mais - replicou Amanda.
- Não existe por aí outro lugar onde pudéssemos ir dançar? - perguntou Matthew a Brian.
- Decerto. Existem centenas de lugares em Talmadge. Se nós...
- Quero ficar aqui - disse Amanda. - É um lugar encantador.
- Pensava que devíamos procurar um lugar onde nos sentássemos a uma mesa.
- Não, prefiro ficar aqui.
- A defesa abstém-se - afirmou Matthew, encolhendo os ombros.
- Você é advogado, segundo o que me disse o Brian - declarou Gillian, sorrindo levemente, os olhos verdes fixos em Matthew, envolvendo-o numa vaga de encantamento.
- Sim, é verdade.
- Deve ser fascinante.
- Pois. Desejava exercer a profissão.
- Mas não a exerce?
- Sou pouco mais que um amanuense - volveu Matthew, com um sorriso.
- Não é da Virgínia?
- Que é da Virgínia?
- A pronúncia.
- Nunca pensei que fosse assim tão evidente.
- Sou perita na matéria - disse Gillian. Aposto em como poderei mesmo determinar a cidade.
- Continue.
- Diga qualquer coisa mais. Diga: "Creio que devemos tomar o ferry para Newport News."
- Creio que devemos tomar o ferry para Newport News.
- Creio que devemos tomar o comboio para New Haven - parodiu Brian.
- Richmond - declarou Gillian.
- Não, com efeito - respondeu Matthew -, mas muito próximo. É notável. Brian informou-a, não é verdade?
- Não disse sequer uma palavra - jurou Brian.
- Ela é sobrenatural, eis tudo. Gilly, conta aquela história russa, sim?
- Não, agora não, Brian. Se vive na Virginia, que vai fazer a New Haven?
- Missão do Exército - respondeu Matthew.
-Irá lá ao teatro?
- Não tinha pensado nisso. Devo ir?
- Sim, decerto. Estão a representar uma peça maravilhosa no Baltimore. Pelo menos, suponho que ainda não acabou. Mas talvez já tenham voltado para Nova Iorque.
A peça intitula-se Filhos e Sós.
- Musical?
- Não, não, drama genuíno.
- Quem são os intérpretes?
- Geraldine Fitzgerald faz o papel de mãe - explicou Gillian. - E há um novo actor chamado... - Fez uma pausa. - Gregory... qualquer-coisa. não consigo recordar-me.
Ele é muito alto, tem cabelo negro, olhos sonhadores e um perfil bem desenhado.
- Tentarei ir lá - disse Matthew.
- A orquestra recomeça - declarou Brian. - Safamo-nos ou não daqui?
- Chiu! - fez Gillian. - Estão a tocar a nossa canção. - Piscou os olhos a Amanda conduziu Brian para a pista de dança.
- Que idade tem a sua amiga? - perguntou Matthew.
- Dezoito anos. - Um silêncio. - Já tem idade suficiente?
- Legalmente? Não é o que quer dizer?
- Como desejar.
- Prefiro louras melosas que caem de pessegueiros. Pensava já lho ter dito. Bem, vou à tal bebida. Acompanha-me?
- Não tenho sede - respondeu Amanda. Hesitou. - Mas sempre o acompanho.
- É preciso preveni-los da nossa saída?
- Porquê? Nós voltamos.
- Sim, decerto - volveu Matthew.
Tomou-lhe o braço e conduziu-a para fora do ginásio. A noite estava escura, quase sem luar. Encaminharam-se lentamente para o carro.
- Porque me perguntou a idade da Gillian?
- Por curiosidade. Ela parece mais velha. E contudo afigurava-se-me que era ainda uma garota.
- Que idade me dá?
- Bem, não sei.
- Adivinhe.
- Há duas coisas que nunca consigo adivinhar numa mulher: a idade e o peso.
- Eis uma sugestão: termino o segundo ano.
- Mas, vamos lá, de que me serve esse facto? Você poderá estar muito adiantada para a idade, e, por conseguinte, ser muito jovem, ou...
- Estou muito adiantada.
- Sim e é bastante jovem.
- E que entende por "bastante jovem?"
- Mais jovem do que Gillian.
- Realmente? Você não acredita nisso.
- Não, sei que não é verdade. Mas parece muito mais jovem do que ela.
- Porquê?
-Ora... - Encolheu os ombros - Eis o carro.
Abriu a porta. Ela hesitou.
- Vamos! - disse ele. - Entre.
- Declarei-lhe que não me apetecia beber.
- De uma maneira ou de outra, entre. Detesto beber só.
- Muito bem - fez ela. Entrou no carro. Matthew fechou a porta atrás dela. Imediatamente, a jovem apertou a saia em volta dos joelhos, mas o saiote de crinolina
não cedeu. A porta, do outro lado, abriu-se e Matthew sentou-se junto de Amanda, inclinou-se para a frente e puxou o tampo do porta-luvas.
- Eis-nos aqui - disse ele, pegando na garrafa. Desarrolhou-a e ofereceu-a a Amanda. - É verdade que não muda de ideias?
- Não bebo - declarou ela.
- É bem o que eu dizia.
- A propósito de quê?
- Da sua idade. Quantos anos tem, então, Miranda?
- Amanda - corrigiu ela. - Fiz vinte este mês.
- - Amanda, decerto.- Levou a garrafa à boca. - Feliz aniversário, Amanda. - Bebeu um pequeno trago, rolhou novamente a garrafa e repô-la no porta-luvas, que fechou.
- Não bebe mais?
- Não acha suficiente? Toma-me por um alcoólico?
- Bem, não,
- De certo modo, estas patetices de estudantes bolem-me com os nervos. Tinha necessidade daquele trago. Mas sinto-me fino, agora.
- Agrada-me ouvir essa afirmação. Lamento que o nosso baile pareça infantil aos seus olhos - disse ela um pouco vexada.
- E parece - admitiu Matthew.
- Mas, decerto, não somos cidadãos experientes que...
Bruscamente, ele beijou-a. Um dos seus braços moveu-se, lesto, ao longo do apoio do assento, a mão direita capturou o ombro direito da jovem. O braço esquerdo
de Matthew puxou-a, ao mesmo tempo, a si, a cabeça aproximouse da de Amanda, os lábios encontraram os dela, unindo-se-lhes, ávidos. A jovem afastou o companheiro
e recobrou a respiração.
- Então?!
- Então?! - fez ele imitando-a.
- Não repita a cena.
- Porquê?
- Eu... - Encolheu os ombros. - É melhor voltarmos.
- Não gosta da minha maneira de beijar?
- Não.
- Porquê?
- Não gosto, eis tudo. Vou regressar. Acompanha-me?
De súbito, a jovem encontrou-se uma vez mais nos braços de Matthew. A boca dele descia, lesta; ela sentia os pêlos do bigode do companheiro e de novo o afastou,
de novo teve de respirar fundo.
- Agora... já basta.
- Porquê?
- Porque não gosto. Não o conheço... o seu bigode... não gosto. Chega de ousadias.
- Não - volveu ele, e puxou-a a si. Ela encontrou-se a ceder ao calor da boca de Matthew, gentil, agora, não com tanto ardor como antes. Sentiu um suspiro
percorrer-lhe o corpo e retirou o rosto da face dele e enterrou-o no seu ombro. Disse numa voz débil:
- Não creio...
- Nem eu - volveu ele, e beijou-a de novo.
Não se importava já com o bigode, mal o notava agora. Ele afagou-a, e ela soltou um leve murmúrio; as mãos do companheiro acariciaram-lhe a face, os dedos
tocaram-lhe o côncavo da garganta, os lábios afloraram-lhe à orelha e, subitamente, a mão desceu à abertura do vestido e tocou a carne, introduziu-se sobre o soutien;
ela sentiu o seio prisioneiro desta mão e tentou retesar-se. Teve de súbito a impressão de que fora violada, que o seu próprio corpo não mais lhe pertencia. Sentiu
a boca dele no seu rosto, e uma vez ainda nos lábios. A língua explorava, a mão apertava o seio. Chocada, não foi capaz de reagír; trémula de indignação, sentia
as mãos de Matthew correrem sobre o seu corpo. Por fim, ela empurrou-o com vigor e afastou-se para a outra extremidade do carro, e, sem nada dizer, abriu a porta
e desceu. Voltou-se. Teve a impressão de que o frio lhe invadia o peito, agora que a mão de Matthew não a acariciava. Sentiu-se despida, convencida de que toda a
gente podia ver o seio desnudado. Voltou-se e, com muita frieza, disse:
- Boa noite, capitão Bridges.
Afastou-se do carro, quase correndo, e ouviu-o dizer: "Boa noite, Miranda", persuadida, certa de que ele sorria.

Gillian não voltou antes das 2 da madrugada. Amanda aguardava-a, sentada na cama, encostada às almofadas, vestida com um pijama azul de algodão, os cabelos
louros atados por uma fita azul sobre a nuca.
- Olá! - disse Gillian.
-Olá!
Gillian dirigiu-se para a cama e deixou-se cair pesadamente.
- Estou exausta.
Ficou imóvel durante cerca de cinco minutos, embora Amanda pensasse que adormecera. Depois mexeu-se, sentou-se no leito e tirou os sapatos de salto alto
sem sequer lhes tocar com as mãos. Em seguida encaminhou-se para a cama de Amanda e disse:
- Queres abrir-me o vestido, sim?
Amanda fez descer o fecho. Depois, Gillian lançou o vestido de seda para os pés da cama, tirou as restantes peças de vestuário, apagou a luz, deitou-se,
nua, e puxou as cobertas até à garganta.
- Gillian?
- Humm?
- Não queres perguntar-me nada?
- Acerca da tentativa do Matthew, não é verdade?
- Da tentativa? - Amanda franziu as sobrancelhas. - Como?... - Inclinou-se levemente para a frente. - Ele... ele contou-te?
- Não, imagino. Porque deixariam o baile tão de súbito se não para isso?
- Mas a verdade é que ele nada fez.
- Muito bem. Tenho sono, Amanda. Falaremos amanhã.
- Muito bem.
O quarto achava-se profundamente obscurecido. A Lua encontrava-se quase oculta, as persianas estavam corridas, e Amanda, sentada na cama, fitava a escuridão
e não sentia senão um desejo: falar com Gillian sobre o que se passara. Contudo, esperou, esperou, até que se persuadiu de que Gillian adormecera. Depois murmurou
sem convicção:
- Gillian?
- Humm?
- Ele disse-me que tu parecias mais velha.
- Humm.
- Foi realmente um erro ter ido com ele ao baile.
- Humm.
- Um soldado. E com vinte e seis anos.
- Humm.
- Gillian, ele beijou-me.
- Que interessante, Amanda. Dorme.
- Os rapazes costumam beijar-te?
- Sim. Humm.
- Consentes?
Amanda fez uma pausa. Silêncio.
- Gillian?
- Humm?
- Nada. Não importa.
No lado oposto do quarto, nua na cama, com as cobertas puxadas até à garganta, Gillian sentiu subitamente que a sonolência a abandonava. Escutou a respiração
da amiga, na obscuridade. O quarto tornou-se, de repente, muito pequeno, e ela sentiu-se invadida por uma vaga de ternura. E no mesmo instante pensou: "Oh, meu Deus,
porque tenho de ser eu mesma?", e continuou deitada, na escuridão, por mais alguns momentos. respirava irregularmente, quase tentada a fingir que estava de facto
adormecida: todavia, do outro lado do quarto chegava-lhe este apelo incerto, tenso, um apelo que, como o fio de um novelo, se desenredava cautelosamente na obscuridade
e a procurava. E sentiu-se muito, muito velha.
- Amanda...? - disse ela.
- Hem?
- Que fez ele, querida?
- Tocou-me, Gilly. O seio.
- Ficaste assustada?
- Sim.
- Gostaste?
- Não. Desci do carro.
Silêncio.

Ela sabia o que se ia seguir. Na cama, perscrutando a escuridão, pensava: "Devo ter cuidado; ela é muito nova; devo ser gentil, oh, ela é tão jovem, meu
Deus!"
- Gilly, tu... Gilly, consentes? Os rapazes? Que te acariciem?
Gillian respirou profundamente.
- Sim, Amanda.
- Todos?
- Não - volveu. - Nem todos.
- Mas... Não gostas, não é verdade?
"Ora, eis-nos no ponto delicado. Chegámos a ele, por fim. Como posso dizer a Amanda que sim, que gosto, como posso dizer que não a Amanda e esperar que ela
me compreenda? Oh, meu Deus, porque terei de ser eu, porque não está a mãe aqui, porque não estão as nossas mães junto de nós quando mais precisamos delas?"
- Gilly? Gostas?
- Sim.
- Mas, Gilly, é tão... tão Intimo! Quero dizer, tão pessoal, Gilly; realmente não gostas, não é verdade?
- Sim, gosto.
- Gilly, Gilly, apetece-me chorar.
- Não.
Amanda ficou calada na escuridão negra como breu.
- Nunca cheguei a esse ponto, Amanda - disse Gillian.
- Nada te perguntei.
- Mas afirmo-te, nunca cheguei.
- Muito bem.
- Mas desejá-lo-ia, se tivesse vontade.
O quarto encontrava-se de novo imerso no silêncio. Mas continha bastantes coisas, esta quietude. Um pouco de juventude e de inocência, dissimuladas e quase
a deliciarem-se; um pouco da jovem e um pouco da mulher; uma cintilação de amizade familiar e um pavor de estranheza, de modo que as duas jovens, nesta noite de
Connectítut, se sentiam mais próximas uma da outra do que se estivessem ligadas por laços de sangue, sentiam-se unidas pela solidão e pela penumbra da noite, pelo
silêncio do quarto e pelo imperceptível arfar produzido pela respiração regularmente espaçada. Durante estes momentos, no quarto silencioso, achavam-se mais próximas
do que irmãs, mais próximas do que mãe e filha, e compreendiam-se sem falar.
Instantes depois, Gilhan suspirou e disse:
- Creio que vou deixar Talmadge, Amanda.
- Que... que disseste?
- Talmadge. Creio que não voltarei no Outono. Não aprendo grande coisa aqui. Estou demasiado distanciada em relação aos outros.
- É uma escola maravilhosa. Não queres dizer que...
- É apenas uma escola, Amanda. É somente aparência. Há tanto que fazer no mundo real!
- Não entendo o que queres dizer.
- Eu própria não compreendo. Tenho apenas a sensação de que aprendi aqui tudo o que podia aprender, que esta escola está tão longe do teatro, do verdadeiro
teatro, como... como a Sibéria, por exemplo, E não disponho de muito tempo. Não me posso permitir desperdiçá-lo aqui com um bando de garotos tolos que não fazem
outra coisa senão exercícios irreais. Não sentes o mesmo, Amanda?
- Não, nunca.
- Há tantas coisas por esse mundo fora, Amanda! Compreendes o que quero dizer? Nunca imaginaste que existem por esse mundo além tantas coisas para ver e
aprender? Amanda, nunca passaste por um edifício de apartamentos e olhaste para as janelas iluminadas e te perguntaste quem vive lá? E não te sentiste algumas vezes
tão triste por não os conheceres, por saberes que jamais os conhecerias? Amanda, sinto vontade de chorar quando penso em todas as pessoas que existem neste mundo
e que nunca chegarei a conhecer. Em Talmadge, só, meu Deus. Em Nova Iorque, milhões de pessoas caminham apressadas pelas ruas, ocupadas cada uma com o seu mundo
pessoal. E não as conhecerei jamais, não terei ocasião de lhes dizer "olá!" ou mesmo de lhes sorrir quando passar por elas. E depois, penso na China, e pergunto
que impressão se sente quando se é chinesa, e queria saber falar chinês, italiano, russo, e queria saber ler todos os livros que existem e escutar toda a música
e conhecer todas as pessoas, descer as ruas e dizer "olá!" a toda a gente, abraçar todos os seres humanos como se eles fizessem parte da minha família e ficar muito
contente por os ver, como se não nos víssemos há longo tempo, gostaria que tivéssemos toda a espécie de coisas para nos dizermos e não fôssemos estranhos como o
são quase todas as pessoas. Não sentes assim, Amanda? Não desejas conhecer os outros seres humanos?
- Não. Nunca...
- Nunca, Amanda? Nunca?
- Mas, Gillian, não se pode conhecer toda a gente. É impossível
- Não, eu sei, eu sei que é impossível. Mas eis porque... não vês, Amanda? Eu... Penso que há por esse mundo alguém que se me assemelha e que jamais conhecerei.
E isto entristece-me. Ele está aí, em qualquer parte, e não sei quem é e se chegarei jamais a conhecê-lo. Mas penso que se nos conhecêssemos um ao outro, se pudéssemos
conhecer-nos um ao outro, talvez fôssemos tão ricos... Nunca sentiste assim? Compreendo que é tolice, mas tenho a certeza de que ele existe. Que é francês ou possui
qualquer outra nacionalidade, que talvez passe por ele na rua e nem sequer nos diremos "olá!" ou sorriremos, que não nos reconheceremos. E ele, Amanda, é o tal,
o único, o ente que realmente devo conhecer. Estremeço quando penso nisto. Fico completamente aterrorizada. Sonho que terei de viver a minha vida e morrer sem jamais
conhecer esta outra pessoa, que também viverá a sua existência e morrerá sem jamais me conhecer, jamais.
- Mas porque é necessário que deixes a escola, Gillian? - perguntou Amanda. - Não compreendo porque, se partires...
- Tenho de me afastar deste lugar falso e não mais fingir que quero ser actriz. Não vês como nos podemos iludir, Amanda? Não vês como esses cretinos do jornal
da Universidade se tomam por grandes repôrteres quando não escrevem senão patetices, ninharias sem substância, sem valor, pelos padrões do mundo real? Amanda, ninguém
se importa com o que acontece na Universidade. Não é autêntico. Não, não possui realidade.
- Que te faz pensar que o mundo a tenha? - perguntou Amanda.
- Sei que a tem.
- Mas como?
- Se. Ninguém faz da existência uma brincadeira, lá fora. Trabalha-se, come-se, vive-se. Desejo viver, Amanda. Penso... Amanda, não te sentes importante?
- Qe queres dizer?
- Importante. Importante, sômente por estares viva e seres uma jovem... uma mulher. Eu... Amanda, sei que é importante ser-se mulher. Quero dizer, sei que
te sentiste ofendida quando o Matthew te tocou esta noite. Bem, isso não me faria impressão alguma, ficaria muito lisonjeada. Sinto-me feliz quando me desejam. Gosto
de ser como sou, gosto de pensar que alguém anseia acariciar-me. E é tão excitante que um homem me afague, pois que sou mulher. Agrada-me bastante a minha condição
de mulher, Amanda. E penso que é importante. Eis porque tenho de abandonar este pequeno universo medíocre, de ir por esse mundo fora e ver o que está a acontecer...
viver, porque ser-se mulher é isso. Porque... Amanda. Quero ter bebés. Dezenas de bebés. Quero encontrar esse ser que ainda não conheço, oh, quero encontrá-lo. Não
desejo que passe por mim e não me reconheça. Quero ter dezenas de bebés, dele.
E quando o encontrar, desejo ser realmente mulher. Quero recebé-lo em mim quando me tornar de facto mulher, quando ele puder encontrar em mim a imagem da mulher
que desejou. Amanda, dar-lhe-ei tudo O que possuo, e ele oferecer-me-á tudo o que tem,
como homem.
Gillian calou-se por um momento.
- É preciso que deixe Talmadge - disse docemente.
- Compreendo.
- Há muito que fazer.
- Sim.
- Estamos em Maio. Chegará Junho e o fim do semestre. - Fez uma breve pausa. - Não voltarei.
- Sim.
- Amanda, na.... não tenhas tanto medo. Não receies tanto a vida.
- Sim, Gillian.
Novo silêncio.
- Boa noite, querida - disse Gillian. - Oh, que sono
- Boa noite, Gillian. - E quase de modo inaudível, Amanda acrescentou: - Sentirei muito a tua falta.

A cidade de Talmadge, Connectitut, tornava-se muito diferente durante o Verão, e Júlia Regan, que sempre detestara a cidade, abominava-a mais naquele intervalo
horrível. Verdadeiramente, a transformação nunca ocorria antes de os exames finais terminarem na Universidade e os estudantes começarem a partir para casa. Era então
que a cidade mergulhava no seu torpor colonial e se tornava uma espécie de localidade indolente e ronceira, com áceres gigantes que lançavam sombras nos amplos passeios
da rua principal, com os campanários gémeos da Primeira Igreja Congregacional dominando a colina e a cidade, branco contra ú céu azul, e longe, na distância, a Universidade
adormecida. Os cidadãos de Talmadge tinham muito orgulho na Universidade, e, contudo, soltavam um profundo suspiro de alívio quando vinha Junho e podiam recuperar
a cidade e observar a lenta mudança letárgica que então se operava. Com efeito, a transformação começava no Memorial Day, ou, pelo menos, os primórdios desta transformação.
Pois era nessa ocasião que a cidade principiava a relembrar a sua história e o seu carácter rural e a desfazer-se da etiqueta de "cidade universitária", a qual,
infelizmente, destacava a segunda palavra. E, em cada ano, era o Memorial Day que marcava oficiosamente o começo da metamorfose, e foi o Memorial Day que Júlia Regan
acabou por odiar como símbolo de tudo o que era decadente e ridículo em Talmadge.
aquele Memorial Day de 1948 ela seguia, no pátio da escola, na companhia de amigas e vizinhos, os preparativos para a parada anual que iria desfilar em direcção
à Câmara Municipal. Três viaturas dos bombeiros achavam-se alinhadas no pátio, lado a lado. Sobre a capota de cada uma estavam impressos, em letras douradas, os
dizeres: DEPARTAMENTO DE INCÊNDIOS DE TALMADGE Conn. As viaturas, resplandecentes, pareciam tornar o sol mais intenso. Tinham sido polidas especialmente para a parada,
e
o cobre reluzente e a pintura rutilante, que fulguravam ao sol da tarde, despediam raios ofuscantes que entonteciam a cabeça de Júlia.
O departamento de bombeiros voluntários de Talmadge era composto em 9(" por cento por nativos da cidade e em 10 por cento por trânsfugas de Madison Avenue.
Este grupo fraternal, cujos membros jamais eram convidados para assistir, juntos, às mesmas reuniões de Talmadge, tinham todavia por missão extinguir os incêndios
dentro da mais estreita camaradagem. circulavam pelo pátio nos seus uniformes azuis mal talhados e pareciam muito pouco à vontade, possivelmente esperançados em
que um súbito alarme viesse pôr termo ao seu embaraço. Júlia Regan, apoiada contra a parede, sentia os seus segredos turbilhonarem na mente e observava um grupo
de escuteiros totalmente ineptos evolucionarem para trás e para diante defronte das viaturas vermelhas e douradas. O chefe dos escuteiros tinha têmporas grisalhas
e um uniforme um pouco justo e berrava ordens à maneira de um oficial severo. Júlia desejava que ele se calasse e perguntava-se, talvez pela décima quinta vez, porque
se dava à maçada de assistir a estas cerimónias ridículas, numa cidade irrisória. Procurou a sombra do muro de tijolos do edifício da escola. Era uma mulher de 39
anos, de longos cabelos castanhos penteados em carrapito sobre a nuca. De olhos fechados, escutava os murmúrios de comando do chefe daquela tropa fandanga e ouvia
a cadência caótica dos pequenos escutas demasiado zelosos. E pensava: "Ele está morto."
- Olá, Sra. Regan! - disse uma voz perto dela.
Júlia abriu os olhos, sorriu por automatismo mesmo antes de saber quem se lhe dirigia.
- dá a impressão de que a parada vai ser excelente - declarou Ardis Fletcher
- Sim - respondeu Júlia. - Dá, na verdade. - Sorriu com languidez. Era o sorriso que reservava às mulheres, um sorriso que tentava traduzir uma certa fragilidade
em directa contradição com o seu aspecto físico. Ela era alta e esbelta, possuía um perfil belo e enérgico, e o sorriso que dedicava às amigas quadrava melhor à
irmã, Mille. E, contudo, os resultados que obtinha não pareciam desprovidos de êxito. A despeito da sua solidez de corpo, considerava-se Júlia a mulher mais delicada
e gentil de Talmadge, apesar de um pouco caprichosa. Os homens tinham, quanto a ela, uma opinião um tanto diferente. Júlia aprendera muito cedo na vida que não era
necessário a uma mulher mostrar-se prontamente acessível a todos os homens, mas dar uma impressão de afabilidade. O sorriso que dedicava aos homens continha uma
vaga esperança de intimidade, prometia àquele que a soubesse tocar uma mulher ardente e apaixonada; era um sorriso misterioso que se diluía lentamente e que, apesar
de todo o sensualismo que traduzia, não deixava de ser o sorriso de uma senhora. E assim, para sua honra, os homens de Talmadge consideravam-na uma bela viúva -
caprichosa, é certo -, que podia possivelmente, sim, possivelmente, e apenas com a mais infinita delicadeza e paciência, ser possuida. O sorriso que ofereceu a Ardis
Fletcher era o sorriso-para-as-
-mulheres; todavia, foi desperdiçado em Ardis, que, aos 19 anos, não estava interessada em coisa mais subtil do que as formas do seu corpo, ele próprio quase tão
subtil como um tornado. Se lhe fosse possível, Ardis, com os seus cabelos ruivos flamejantes e os olhos azuis esplendentes, a saia curta e o swete'r que lhe fazia
sobressair o peito, completaria o ofuscante fulgor das viaturas dos bombeiros, os escuteiros e a banda da escola, que acabava de alinhar ao lado das viaturas, numa
cintilação de tuba, cometa e trombone.
- Tem recebido notícias do Davey? - perguntou Ardis.
Júlia vacilou ante o emprego deste diminutivo do nome do filho e notou que Ardis não fitava as mulheres com quem falava; os seus olhos vagueavam pelos homens
interessantes da multidão em festa. Júlia sentia um dos segredos subir-lhe à garganta: o facto de que David, o seu único filho, não se encontrava já no Pacifico,
mas numa prisão da Marinha em San Diego, Califórnia. Um condenado. O seu David era um condenado.
- - Sim - respondeu ela com voz baixa e firme. - Reli ainda ontem uma carta dele. Está óptimo.
- Não me tem escrito últimamente - volveu Ardis. Baixou o sweter, sentindo que não estava.
Júlia voltou-se quando a rapariga chamada Gillian se afastava das viaturas e atravessava, a correr como uma 'garota, o pátio da escola. Era esbelta, trazia
sweater e saia, os seus cabelos louros esvoaçavam por trás do pescoço, e tinha um curioso sorriso de satisfação nos lábios.
- Cá vou, Amanda - gritou na direcção do Ford. Passou diante da banda perfilada e meteu pela estrada de macadame, onde o sol se espelhava, o Verão cintilava
silencioso e dourado.
Uma borboleta tocou o pulso de Júlia. Ela baixou os olhos e ouviu a rapariga chamada Gillian dizer para os outros estudantes instalados no Ford:
- 'Nunca tinha visto tão de perto um carro dos bombeiros.
Júlia voltou-se de novo para seguir com os olhos a rapariga que entrava no Ford. E pensou: "Ela move-se com tanta graciosidade, é tão encantadora!" Então,
a banda começou a tocar Sê gentil para com os teus amigos palmipedes. Júlia procurou râpidamente onde se sentar no relvado que bordava a estrada. A parada começou:
as viaturas dos bombeiros arrastavam-se num passo de caracol pelo macadame pegajoso, seguidas pelos voluntários, erectos e orgulhosos; depois caminhava, inclinado
para a frente, como se para resistir a um vento imaginário, o comandante dos escuteiros. Estes marchavam com o vigor de forasteiros ignorantes. As pequenitas da
escola, ladeadas por três matronas de busto firme, inclinaram a cabeça diante de Júlia, enquanto caminhavam, orgulhosas, em fila; vinha em seguida a banda municipal,
de azul e branco, calças e camisas, blusas e saias, soprando nos metais, batendo nos bombos. Por fim, os habitantes da cidade, aglomerados, vibrantes de gritos e
soltando aclamações, e a jovem Gillian, debruçada na janela do Ford, os olhos brilhantes, o rosto iluminado por um secreto prazer. "Segredos", pensava Júlia, "segredos;
terei certamente de fazer qualquer coisa, terei de fazer qualquer coisa agora; é preciso que veja alguém amanhã; sim, terei de fazer qualquer coisa." O desfile passara.
A parada terminara. O Ford pôs-se em marcha, aos arrancos, e dirigiu-se para o Município. O povo de Talmadge, Connecticut levantou-se da berma da estrada: escovaram
as calças, as saias, e começaram a subir a colina, seguindo a música distante da banda da escola, como guerrilheiros arrastando um canhão através da Espanha.
O comandante reformado da Armada achava-se a meio do discurso no momento em que Júlia entrou no Município. Ela perguntou-se se o filho espancara um comandante.
Creio, mãe, que deviamos esperar algum tempo antes de confessar ia quem quer que seja, que me encontro de 'volta aos Estados Unidos. Depois direi, muito simplesmente,
que fui destacado para patrulhas na costa, aqui em Camp E'Uiott. Penso que será o melhor, não acha? "Porque é que os infortúnios chegam sempre em série?", perguntou-se
ela; decerto que teria de fazer qualquer coisa agora; não podia, na verdade... Não, teria de fazer qualquer coisa. Amanhã. Amanhã veria. Juntou-se aos concidadãos
de Talmadge e aos estranhos de Talmadge, que giravam por ali, de calças de flanela e óculos escuros, que faziam caretas para exprimir que se sentiam superiores a
todas estas frioleiras patrióticas e sentimentais, mas que, ao mesmo tempo, indicavam, por meio de trejeitos contraditórios, a alegria que o possuía perante tal
sentimentalidade patriótica, agora que a nação se empenhava numa guerra pela democracia, ou lá o que era desta vez. Júlia baixou a cabeça e sentou-se numa pedra,
junto do carvalho gigante; a pedra tinha uma placa que explicava que as forças de Hessian aviam sido escorraçadas de Talmadge, Connecticut, em 1799, pelo exército
continental, e que a casa do pároco fora incendiada pelos ingleses em retirada. Ela ouviu zumbir qualquer coisa na erva de um verde viçoso e viu a sua primeira abelha
de Verão. Depois, apercebeu-se da presença da rapariga chamada Gillian, apoiada na árvore, escutando com atenção as palavras do comandante reformado da Armada, os
braços cruzados sobre o sweter branco.
As espingardas da Legião Americana fizeram uma descarga e depois o melhor trompetista da cidade fez-se ouvir enquanto o fumo das espingardas se dissipava
sobre o relvado da Câmara Municipal; em seguida surgiu o eco, das traseiras do edifício da escola, e alguém murmurou, com graça, que no ano próximo iriam escutar
o eco do eco, produzido por um terceiro trompetista nas colinas da cidade vizinha. Júlia viu a jovem Gillian franzir momentâneamente as sobrancelhas e voltar-se
para fazer calar
o autor da piada. Manteve-se a mirar a jovem. As notas distantes do segundo trompetista estavam ainda suspensas, como o fumo das espingardas, no ar viscoso da tarde,
incertas, confusas, um tanto aumentadas pelo calor e aumentando este por sua vez, lembrando a todos que o Verão não tardaria a chegar. Ela mirava a rapariga chamada
Gillian e viu-lhe luzir um fio de transpiração no lábio superior. A jovem escutava as notas produzidas pelo segundo músico oculto atrás da velha escola; escutava
com a cabeça baixa, como se meditasse; depois levantou a mão direita com um gesto casual e passou-a levemente pelo lábio. De súbito, Júlia Regan sentiu vontade de
chorar.
Compreendeu que este momento ficaria para sempre na sua memória, encerrado numa ampulheta eterna e indestrutível, com o som da trompeta subindo no ar calmo
e silencioso, com o fio de transpiração luzindo no lábio da jovem, de cabeça inclinada, numa atitude de profunda atenção, a mão fina levantada num gesto inconsciente,
maquinal, tão fa miliar a Júlia, um gesto que, de certo modo, lhe lembrava, numa vaga brusca e penosa de recordações, a sua juventude, a sua própria juventude. Mirou
a rapariga chamada Gillian até que aquele momento se desvaneceu. Ali, sentada na pedra com uma placa histórica, permaneceu, por mais algum tempo, a mulher de 39
anos - Júlia Regan, de nome - cuja vida fora uma longa sucessão de segredos. E o eco esvaeceu-se por fim no sol dourado da tarde.

Oh, o Verão decorria! E decorria, apesar de tudo, como todos os Verões, lânguido e indolente. Embora os soldados morressem nas praias do Pacífico, houvesse
racionamento de açúcar e gasolina e fosse difícil conseguir pneus novos para carros velhos, o Verão de 1943 escoava-se. Tempestades estivais estalavam e desfaziam-se
com súbita fúria, o povo lia ansiosamente os jornais, a fim de saber como se comportavam os "rapazes", e verificou-se uma transformação na face da América: viam-se
uniformes por todo o lado. Em Norfolk, Virgínia, era difícil notar-se outra coisa que não fossem panamás brancos na rua principal, numa tarde qualquer depois das
3.30; o Corpo Aéreo do Exército ocupou numerosos hotéis de Miami Beach e 4-F tornara-se uma legenda que fazia acudir à memória cenas de pancadaria nos bares. Porém,
o Verão decorria, e, apesar de tudo, encontravam-se ainda vestígios de paz e a guerra continuava a parecer bem longínqua.
Nas praias da América os gira-discos faziam ouvir as canções populares: "Nada faças antes de teres notícias minhas, Eles são ou demasiado jovens ou muito
velhos". As garotas estendiam-se na areia em todo o esplendor dos seus corpos bronzeados, frescos e jovens, com dentes de um branco alvissimo e pernas bem direitas;
trauteavam a música dos discos, torciam palhas em garrafas vazias de Coca-Cola e escutavam o rumor distante das ondas que quebravam na areia. A guerra parecia muito,
muito longínqua. Os parques de diversões arranjavam maneira de as grandes rodas nunca cessarem de girar, encontrava-se gasolina no "mercado negro" e os proprietários
dos talhos tornavam-se mais ricos e mais obesos vendendo carne à socapa a clientes privilegiados. Uma vez por outra alguém estremecia ao ver uma estrela dourada
na janela de um vizinho ou indignava-se ao saber que um transporte americano fora metido a pique, que ninguém escapara e que o filho de um amigo ou de um parente
se encontrava a bordo. Mas as reuniões paroquiais prosseguiam, continuava a dançar-se, as raparigas e os rapazes usavam popas no cabelo - era a moda -, o nó Windsor
tornou-se popular, as saias eram mais curtas e talvez a moralidade também, certas viúvas de guerra procuravam encontrar uma segunda adolescência metendo-se na pândega
com raparigas cuja atitude era: Beija-me, minha querida"; uma revista burlesca montada por Mike Todd e intitulada A Estrela e a Jarreteira fazia furor na Broadway.
E o Verão decorria. A guerra não era, apesar de tudo, o inferno de que se falara. De facto, para os Americanos (na América - que aguardavam cartas rabiscadas em
fossos lamacentos da Sicília por homens que rastejavam como vermes, por homens que se cerravam uns contra os outros enquanto os bombardeiros Stuka deixaram cair
as suas cargas do céu e os tanques se recortavam no horizonte - a guerra era deveras apaixonante.
Viam-se filmes como A Sentinela do Reno, que inspirava o mais profundo ódio contra esses bastardos nazis, como Assim o Exército, que suscitava amor pelos
"nossos valentes rapazes", ou como Casablanca, que fazia o êxito de uma canção intitulada Enquanto o Tempo Passa. As pessoas viam passar o tempo, riam e amavam o
mais que podiam. Em cidades estranhas raparigas desconhecidas encontravam soldados desconhecidos, e, de uma maneira geral, a vida tornava-se um pouco mais dissoluta
e frenética. De facto, a guerra - se não se queria ir ao
fundo das coisas, se não se queria mergulhar no mais fundo das reacções humanas, se não se queria explorar bem o âmago destes lugares-comuns de "a guerra é repugnante",
de "a guerra é inglória", de "a guerra é indecente" e de "ninguém deseja estas destruições e estes morticínios insensatos" -, a guerra, apesar de tudo, era uma coisa
bem singular.
E, de uma maneira ou de outra, o Verão decorria.

- -Ela está novamente a chorar - disse Penny. - Não posso suportá-la quando chora.
Os gritos da criança vinham da janela aberta do primeiro andar da casa de madeira de Otter Falis. Penny, sentada ao lado da mãe e da irmã, colocou as mãos
sobre os ouvidos e suplicou:
- Mãe, obriga-a a calar-se!
- Não lhe fará mal chorar um pouco - volveu Priscilla Soames. - Ela tem de aprender, mais cedo ou mais tarde, que não lhe pegarão ao colo todas as vezes
que...
- Mãe, obriga-a a calar-se! - exclamou Penny, exasperada.
Amanda, sentada nos degraus da varanda, voltou-se para fitar a irmã.
- Eu vou lá - declarou.
- Não! - ordenou Prisci lia. - Fica onde estás, Amanda.
- Que direito tem ela de chorar? - perguntou Penny. Amanda continuou a fitá-la, e, de súbito, perguntou-se quando cessara Penny de ser sua irmã, quando se
tornara sômente uma estranha, magra e macilenta, que se queixava constantemente do seu bebé, que já não fazia sequer uma confidência a Amanda, e parecia errar pela
velha casa de madeira metida no seu mundo próprio, um universo silencioso e colérico.
- Que direito tem ela de chorar? Sou eu a única que devia chorar. A única!
- Penny...
- Obriga-a a calar-se, mãe.
- Penny, se tu...
- Vou-me embora. Vou para a cidade. Não posso continuar aqui sentada, a ouvi-la gritar todo o dia.
- Penny, vou pegar-lhe ao colo - disse Amanda com doçura, e levantou-se; Priscilla repetiu com severidade:
- Fica onde estás, Amanda!
Amanda sentou-se e ergueu os olhos para a janela do primeiro andar. Penny levantou-se bruscamente e deu uma palmada na coxa; o gesto era estranho; a principio,
pareceu que ela iria alisar a saia, mas Penny tornou exagerada a execução de tal propósito e terminou com uma palmada que ressoou na tarde de Verão. Na igreja, o
pai começara a tocar o órgão e Amanda apercebeu-se do ruído produzido pelas agulhas de fazer malha que a mãe agitava como um metrónomo meticuloso que batia num ritmo
certo, em harmonia com as notas do órgão, que flutuavam redondas e cheias pelo relvado, abafando os gritos da criança no andar de cima.
- Tenho de sair daqui - disse depois Penny. Desceu os degraus a correr, e Amanda viu-a atravessar o relvado num passo decidido e entrar na garagem. Ouviu
o velho chevroet funcionar: Penny retirava o carro da garagem e descia a álea, os longos cabelos louros caídos sobre os ombros. O carro perdeu-se na distância. Os
sons do motor desvaneceram-se. Subsistia agora apenas o choro de Kate, a música do órgão e o ruído compassado das agulhas. Depois, a criança calou-se. As notas do
órgão rolavam da igreja. As agulhas persistiam no seu ruído compassado. Priscila Soames balançava-se na cadeira de balouço e Amanda continuava sentada nos degraus
da varanda, as mãos colocadas sobre os joelhos.
Priscilla não olhava para as agúlhas ou para a camisola castanha que confeccionava e destinava à Cruz Vermelha. Em vez disso, tinha os olhos fixos na relva
e nos gaios azuis pousados no ramos do velho ácer. Mais tarde, Amanda, ao evocar a cena, lembrava-se de que o rosto da mãe se mostrara inexpressivo durante toda
a discussão, e tentou recordar-se se nele vira quando quer que fosse uma expressão, por mais estranha que fosse. Não o conseguiu. Era um rosto sempre plácido, sempre
repousado. Perguntou-se uma vez - muitos anos mais tarde, encontrava-se já casada - se o rosto da mãe permanecia calmo e inexpressivo mesmo no orgasmo. E então,
decerto, perguntou-se se a mãe experimentara alguma vez o orgasmo. Mas deu-se conta, nesse momento, de que exprimia, assim, parte do ressentimento inconsciente que
alimentava desde aquele dia em que, na varanda, em Otter alls, as agulhas batiam compassadamente e as notas do órgão vogavam sobre a relva.
O cabelo da mãe era louro, bordado de madeixas brancas; as feições, longas e finas; os olhos, azuis. Eles seguiam o movimento oscilante dos gaios sem um
agitar dos cílios, desprovidos de emoção.
- Em breve voltarás para a escola, Amanda - disse ela. A voz era lisa, tão lisa como as planícies do Midwest, onde tinham nascido.
- Sim - respondeu Amanda. Apercebeu-se de que os dedos do pai hesitavam numa passagem difícil, sorriu e pensou: "Não, paizinho, é um si bemol." Ergueu o
rosto para o sol, contente por Kate ter deixado de chorar, e perguntando-se onde teria ido a Penny e quando voltaria.
- Estás no terceiro ano, não é verdade, Amanda?
- Sim.
- Que esperas fazer, filha?
- Como?
- Que esperas fazer?
- Não compreendo.
- Da tua vida.
- Oh, eu..
Amanda calou-se por um instante. Nunca pensara uma vez sequer no que esperava fazer da sua vida. Sempre considerara como conclusão natural uma carreira de
compositora. Um tanto inspirada pelo entusiasmo de Gillian, imaginava com certa obstinação que escreveria um dia música ligeira destinada às comédias da Broadway.
Mas nunca dedicara a essa possibilidade um pensamento definitivo, jamais decidira o seu futuro após terminar o curso em Talmadge. Imaginava que as coisas aconteceriam
simplesmente sem intervenção consciente da sua vontade. Teria, decerto, de deixar Talmadges e as coisas seguiriam um curso. Voltou a olhar para a mãe, mas os olhos
de Priscilla achavam-se ainda pousados nos gaios.
- Penso escrever música - disse.
- Compreendo - respondeu Priscilla.
- Supunha que sabia.
- Não, não sabia.
- Bem... - Amanda fez nova pausa. - Eis o que estudo: composição.
- Oh, sim, é verdade.
- Composição. - Amanda franziu a testa. - Os meus estudos não têm outra finalidade. Escrever música. - Hesitou: não desejava entrar em pormenores; contudo,
apercebeu-se bruscamente de que tinha, talvez, subestimado a inteligência da mãe. Talvez a mãe não compreendesse, na realidade, o conteúdo total das suas palavras.
Talvez necessitasse de traduzir... - A composição é a arte de escrever música, sabes - disse, hesitante.
- Sim, sei - volveu Priscilla. Deixou cair uma malha e os seus olhos afastaram-se por momentos dos gaios, a fim de pôr em ordem o trabalho. Depois pousou
de novo a vista no ácer.
- Bem - disse Amanda, e encolheu os ombros, a testa ainda franzida. Escutava o ruído monótono das agulhas. De súbito, desejou que Gillian se encontrasse
aqui, neste momento, para tudo explicar à mãe, para lhe falar acerca das coisas que ansiava ver e fazer, da maneira como sucedera naquela noite, alguns meses antes.
E todavia compreendia que Gillian não a podia ajudar agora. Gillian saira da sua vida, tinham-se dito adeus no fim de Junho e, provâvelmente, não tornaria a vê-la
mais. Sentada em silêncio, pensou: "Bem, que pensas que vou fazer da minha vida? Escreverei música? Porque supões que volto à escola?"
- Que género de música tencionas escrever? - perguntou Priscilla, como se tivesse lido os pensamentos da filha.
Amanda encolheu os ombros.
- Música séria? Como Bach? Beethoven?
- Bem, nada de tão ambicioso; suponho - volveu Amanda, encolhendo de novo os ombros.
- Então que género, Amanda?
- Penso... Talvez música ligeira.
- Compreendo. Para o teatro, não é assim?
- Sim, é verdade. Para o teatro.
- Compreendo.
As agulhas batiam ainda, enchendo a tarde de Verão.
- Amanda - inquiriu Príscilia pausadamente - que te faz pensar que possuis talento?
Não estava certa de ter entendido com clareza a mãe, parecia-lhe que a mãe dissera...
- Quê? - perguntou.
- Que te faz pensar que possuis talento? - repetiu Priscilla.
- Não... não sei. Consegui entrar na Universidade, não é verdade? E eu...
- Sim, decerto que conseguiste, querida. Tocas piano maravilhosamente.
- Bem, então...
- Possuis talento, Amanda?
- Mãe, creio que não te compreendo - disse Amanda. As palavras exasperantes ressoavam-lhe ainda na cabeça, e ela perguntou-se porque estava assim furiosa.
Mas conteve a cólera e continuou sentada nos degraus da varanda, enquanto a cadeira da mãe balouçava, os gaios palravam no ácer e as agulhas tiniam como uma metralhadora
longínqua.
- Tocas piano maravilhosamente - disse Priscilla -, e para uma jovem constitui óptima oportunidade tirar um curso numa escola excelente como a de Talmadge.
Mas, Amanda, se não te importas que te fale com a maior franqueza, a franqueza que apenas uma mãe pode empregar com a filha, não penso, na verdade, que tenhas génio
ou coisa semelhante.
- Bem, não... suponho que não. Porém...
- E parece-me uma pequena presunção... nota, não disse "impossível"... mas "uma pequena presunção" que uma jovem considere... Pergunto-me, Amanda, se possuis
o talento nessário para este género de carreira. Eis tudo, querida... Pergunto-me, muito simplesmente. E, como é natural, inquieto-me, pois não desejaria ver-te
desperdiçar a vida na perseguição de um objectivo ilusório. Ou, mais do que ilusório, impossível. Claro, não digo que é impossível. Inquieto-me, eis tudo, Amanda.
Esperava que encontrasses um belo rapaz e...
- Sim, mas estudo composição - disse Amanda, um tanto aturdida.
- Sim, eu sei, querida.
- Não compreendes? assim que posso...
- Sim, eu sei, querida, e aperceber-te-ás de que a tua educação não foi desperdiçada, posso afirmá-lo. Qualquer marido ficaria encantado se tivesse uma esposa
capaz de...
- Mãe, mas estudo para que possa...
- Creio que te devias perguntar, Amanda, se possuis talento.
- Eu...
- Tens agora idade suficiente para seres franca contigo própria, filha.
Amanda inclinou a cabeça e não respondeu.
- Compreendes o que digo? - perguntou Priscilla.
- Sim - volveu Amanda. A sua voz denunciou um vislumbre de impaciência.
Os olhos de Priscilla afastaram-se súbitamente dos gaios e pousaram na filha.
- Bem - disse ela. - Sinto-me contente porque compreendas.
- Sim - repetiu Amanda. - Compreendo.
Fitaram-se. Amanda pensou: "Vou feri-la." Mas reflectiu de súbito: "Perdoa-me, meu Deus", e baixou os olhos. Dentro de casa, a criança começou de novo a
chorar.
- É a Katherine - disse Priscilla. - Acordou.
- Vou pegar-lhe ao colo - declarou Amanda. Levantou-se, sacudiu a saia e dirigiu-se para a porta.
- Não - disse Priscilla. - Deixa-a tranquila.
- Vou pegar-lhe ao colo - retorquiu Amanda sem volver os olhos para a mãe. Afastou o anteparo, entrou na casa mergulhada numa penumbra fresca e subiu ao
quarto de Penny. Sentada, no meio do pequeno leito, Kate chorava com toda a força dos seus pulmões, as faces rosadas manchadas de lágrimas.
- Oh, que há, queridinha? - disse Amanda. Tomou a criança nos braços e pô-la no ombro. - Que tens, meu amor, que é que te incomoda? Muito bem, meu amor.
És uma pequenina querida. Vês, não é nada. Não chores mais, não? - Passou docemente a palma da mão pelas costas da criança e encostou a cabeça loura de Kate à sua.
Pensava:
"Possuo talento?" E odiou a mãe por ela a ter obrigado a fazer esta pergunta a si mesma; mas sacudiu o ressentimento que experimentara, pensando: "As intenções da
mãe são boas." - Então, meu amor, sorri à tia Mandy, oferece à tia Mandy um grande sorriso, muito bem, minha queridinha, minha pequenina querida. - E apertou bruscamente
Kate contra si, perguntando-se uma vez mais: "Possuo talento?"
Fez-se a mesma pergunta inúmeras vezes durante aquele Verão. Por fim, decidiu que a mãe tinha razão. Tocava piano maravilhosamente, sim, e escrevera algumas
composições das quais sentia bastante orgulho, mas tal facto não indicava, na verdade, que possuía os requisitos indispensáveis para encetar a carreira musical.
Não fora o que Gillian insinuara naquela noite, ao falar dos padrões falsos da Universidade e das exigências do mundo real? A mãe não repetira simplesmente o que
Gillian dissera? E, contudo, se Gilhan se encontrasse ali, se pudesse discutir este caso com ela, ficaria ....... Mas não, Gillian e a mãe afirmavam a mesma coisa.
Era óbvio: não possuía talento, talento autêntico.
Fez frente a esta súbita certeza, e o Verão decorria. Apesar de tudo, devia sentir-se aliviada. Era bom não ter de se interrogar acerca de uma coisa daquele
género. E, contudo, oh!, e, contudo, se a mãe tivesse pronunciado sômente outras palavras... Essa era a parte que feria, oh!, se a mãe tivesse dito so'mente: "Amanda,
querida, vai escrever a tua música, vai escrever a tua maravilhosa música." Oh!, se a mãe tivesse somente afirmado isto... E, todavia, era bom ver dissipada toda
a incerteza.
Oh. se o resto tivesse desaparecido ao mesmo tempo... Não sabia o que era o "resto". Teria isso qualquer relação com o desejo da mãe de que ninguém pegasse na criança
ao colo quando ela chorava? Teria relação com aquele terrível ruido das agulhas e com o tom com que a mãe falara: "Que esperas fazer, filha?" - sem se referir ao
seu nome, sem dizer "Amanda", mas "filha", como se aquela palavra negasse de certo modo o parentesco?
Fez face à sua vida. Volveu os olhos para o futuro e fez face à sua vi'da, com a convicção de que algo se esvanecera agora, de que algo lhe faltava. Sentia
no fundo de si mesma o peso doloroso da sua tristeza. Antevia o regresso a Talmadge, mas não da maneira como sempre acontecera: não era mais a impaciência febril
da garota que comprava uma caixa de lápis e um caderno de apontamentos na loja da esquina, nem a emoção que parecia vibrar no ar de Outono. Alguma coisa se perdera,
e não se podia furtar à certeza, de que fora a sua própria mãe que lha roubara.
Mas o Verão decorria.

Quando a mãe entrou no apartamento, Gillian estava sentada, de perna traçada, numa das cadeiras da sala de estar, e lia Gassner. A mãe trazia os braços carregados
de embrulhos e mostrava no rosto uma expressão singular, como se tivesse sido atropelada por um autocarro.
- Olá! - disse Virgínia alegremente. - Olá! - Pousou a mala e os embrulhos na mesa do vestíbulo, tirou o chapéu, arranjou o cabelo e perguntou:
- Atendeste alguma chamada, Gillian?
- Não.
- Queres uma chávena de café? Vou fazer um pouco.
- Acabo de beber leite.
- Oh! Bem, creio que tomarei uma chávena. Mas que lindo dia o de hoje! As árvores começam a mudar de cor, Gillian. É como uma pintura.. Oh, que dia magnífico!
A mãe saiu da sala de estar, e Gillian ouviu-a cantarolar enquanto enchia a cafeteira, na cozinha. Gillian volveu os olhos para o limiar da porta, vazio,
encolheu os ombros e pegou novamente no livro. Um momento depois a mãe voltou, sentou-se com a chávena nas mãos e começou a saborear o café, sorrindo de uma maneira
um tanto idiota. Gillian olhou-a de soslaio por cima do livro, encolheu uma vez mais os ombros e voltou à leitura.
- Gillian, adivinha o que me aconteceu?
- Que foi?
- Não és curiosa?
- Decerto que sou.
- Eu saía precisamente da Casa Alexandre. Tu sabes, fica à esquina da Fordham Road e do Grande...
- Mamã, eu sei onde fica a Casa Alexandre. Quase que nasci nesta...
- Perdoa, querida - interrompeu Virgínia com alegria. - Perdoa, perdoa. - Quase cantava as palavras.
- Bem, dizes sem cessar coisas deste género. Ontem perguntaste-me se me lembrava da tia Mary. Ora, como podia eu ter esquecido a tia Mary, que conheço desde
muito pequena? Sei que tenho passado muito tempo na escola....
Interrompeu-se, pensando: "É melhor que aborde imediatamente este assunto." Sentiu-se uma vez mais possuída pelo medo e pelo sentimento de culpa. Tinha a
certeza de que os pais supunham ainda que ela regressaria a Talmadge no dia 15. Mentira ao dizer que efectuara a matricula por carta e mentira quanto aos seus planos,
dissimulara o facto de que fizera já um depósito sobre um apartamento em Greenwich Village... Bem, não é reaalmente na Village, mas nas imediações... Para falar
verdade, na extremidade limite da Village, ou, para ser mais exacta, quase à borda da água; mas seria o seu apartamento, e tinha-se sorte em se obter qualquer coisa
nestes dias. Contudo, mentira, e não conseguia arranjar coragem para dizer à mãe e ao pai que não voltaria a Talmadge, que se matricularia numa verdadeira escola
de arte dramática, que iria instalar-se na cidade, a fim de estar mais próxima do sector dos teatros. Era isto, sobretudo, o que provocaria a explosão, o facto de
que deixava a casa.
- Perdoa as minhas pequenas manias - disse a mãe, ainda num tom alegre, tão alegre que Gillian estava agora convicta de que ela fora atropelada por um autocarro
e tinha os miolos avariados.
- Decerto - respondeu.
- Bem, eu ia a sair da Casa Alexandre quando tropecei neste homem, tropecei literalmente nele, Gillian. Um dos meus embrulhos caiu no passeio. Não continha
grande coisa, apenas uns pares de meias que comprei para a Mónica. Ela deve ter vindo passar o Verão a casa, não achas? Que necessidade tem de seguir este curso
de férias?
- Creio que deseja terminar os estudos o mais ràpidamente possível - disse Gillian, paciente.
- Porquê? Qual é o motivo de tanta pressa? - Virgínia encolheu os ombros, como se não tivesse vontade de falar de assuntos desagradáveis. O sorriso exultante
insinuara-se-lhe de novo nos lábios. - Adivinha quem era, Gillian?
- Quem era, hem?
- O homem que me fez deixar cair o embrulho.
- Diz...
- O Barry Murdock.
- Não conheço.
- O Barry Murdock - repetiu Virgínia, e esbugalhou os olhos como se esperasse que Gillian reconhecesse imediatamente o nome.
- Bem, quem é o Barry Murdock?
- Ora, ele pretendeu-me, Gillian - volveu Virgínia, baixando os olhos. Por um momento Gillian pensou que a mãe quisera dizer: "Ele desejou-me." Depois, compreendeu
que este Barry Murdock pretendera apenas casar com Virgínia. Lembrou-se de ter ouvido a mãe mencioná-lo já. Fez um pequeno gesto de aprovação e ergueu uma vez mais
o livro.
- Ele ainda é muito belo disse Virgínia com ar sonhador. - Apanhou-me o embrulho.
- Agradeceste?
- Claro que sim. Tomámos juntos um aperitivo.
- Não sabia que bebias - volveu Gillian, interessada agora.
- Oh, tomei apenas um pequeno whisk com água.
- Pois. - Gillian fez uma pausa, estudando a mãe. - Onde?
- No Thwaite. Tu sabes, na auto-estrada.
- Sim. E foram lá de carro?
- Hum...
- Tu e esse Barry Murdock?
- Sim. - Virgínia fez um silêncio. - Ele nunca casou.
- Que pena...
- Disse-me que jamais encontrou outra rapariga como eu.
Gillian inclinou a cabeça. Perscrutava a mãe.
- Eu era bastante bonita, sabes?
- Sim - respondeu Gillian.
- E esbelta. Decerto, após ter duas filhas... Bem, não vos posso censurar por isso. Mas era bastante bonita, Gillian. O teu pai assim pensava. E o Barry,
claro.
- Porque não casaste com ele, mamã? - perguntou Gillian num tom acerbo, aborrecida, sentindo que esta conversa era desrespeitosa para com o pai.
- Oh, não sei. O teu pai possuía muito encanto e amava-me profundamente nesse tempo. - A mãe inclinou a cabeça. Gillian notou uma vaga tristeza nesse movimento.
Virgínia encolheu levemente os ombros. O rosto fulgurou uma vez mais, Gillian observava-a, experimentando uma sensação estranha, algo que não desejava sentir mas
que, não obstante, a invadia.
- Já alguma vez te falei no passeio de barco? - perguntou Virgínia.
- Não, nunca.
- Quando o Barry me lançou à água?
- Não.
- No caminho para a montanha do Urso?
- Não.
- Oh, foi terrível, terrível! - continuou Virgínia. - Eu tinha feito a merenda. Pertencíamos todos a este clube, o Barry, o teu pai e eu. Era uma espécie
de clube irlandês - todos os associados eram irlandeses - e intitulávamo-nos O Raete. Efectuamos juntos todo o género de excursões e piqueniques, dançávamos, fazíamos
mil e uma coisas. Foi num destes passeios que conheci o teu pai, Gillian. E o Barry, claro.
Gillian desejava dizer à mãe que deixasse de dizer "E o Barry," daquela maneira estranha; dava a impressão de que o tal Barry Murdock parecia mais importante
que Meredith Burke. E não queria continuar a ouvir a história da mãe; não a queria conhecer.
- Bem, ele disse que me amava, sim, mas que tal facto não o obrigava a gostar das sanduíches de frango que eu fizera. Declarou-me que ia lançar o cesto com
a merenda pela borda fora e que morreríamos ambos de fome, a não ser que o alimentasse com beijos. Todos riram, Gillian, excepto o teu pai, cujo namoro recusara;
ele achava-se instalado num lado do barco, numa daquelas cadeiras de madeira desdobráveis; tinha um olhar sombrio, bem irlandês, como se estivesse pronto a desafiar
todo o mundo, incluindo o Barry Murdock. Oh, ele estava furioso nesse dia, até cheguei a pensar que lhe ia dar um ataque. Bem, nós lutávamos, moviamo-nos para trás
e para diante, eu e o Barry; ele tentava arrancar-me o cesto da merenda e eu tentava segurá-lo na cabeça. Como se tivesse alguma possibilidade contra os seus longos
braços! Por fim, ele apoderou-se do cesto e, ao fazer o gesto de 6lançar pela borda fora, enquanto eu o sustinha também, deu-me um empurrão, a brincar, claro, e,
não sei como, eis que caí com o cesto na água. Comecei a gritar, em altos berros, segundo me lembro, pois pensei que podia ser apanhada pela hélice, o que não queria:
não tinha mais de vinte anos. Ambos se lançaram à água, a fim de me socorrerem, Gillian, o teu pai e o Barry Murdock, e nadaram juntos na minha direcção. Ouvi-os
discutir sobre qual dos dois me iria salvar a vida, quando eu era uma óptima nadadora: aprendera o crw ainda muito jovem. Tinha a roupa colada ao corpo.
Virgínia Burke fez uma pausa, absorta nas suas recordações.
- Permiti que o Barrv Murdock me salvasse. Deixei que me enlaçasse pela cintura e me elevasse na água. Lançaram-nos uma bóia e guiaram-nos depois para o
barco, enquanto o teu pai, o pobre, flutuava, furioso como o Demónio. Podiam distinguir-me o corpo através de tudo o que trazia vestido, Gillian. Oh, sentia-me tão
embaraçada!...
A jovem olhava para a mãe. Não queria ouvir mais. Não desejava imaginar a mãe como rapariga, não a desejava ouvir como se fora uma rapariga. Preferia pensar
de Virgínia Burke como sua mãe, a mulher de seu pai, e não como uma jovem ruborizada, de roupas ensopadas, toda a tremer na coberta deste barco, enquanto o Barry
Murdock a despia com os olhos. Não quero ouvir mais!
- Eles emprestaram-me um par de calças brancas - que um dos rapazes tinha de reserva - e alguém me emprestou uma camisola de lã, o teu pai, creio. A camisola
era demasiado larga, certamente, e todas as minhas roupas de baixo estavam numa sopa. Podes imaginar a figura que eu fazia, naquele momento, com tudo em liberdade,
sob a camisola. Tu sabes, Gillian, eu era...
- Mamã! - atalhou a jovem com vivacidade.
- Ele era muito belo - disse Virgínia. - O Barry Murdock... Ainda é. - Novo silêncio. - Pediu-me que me encontrasse com ele.
- Bem, espero que...
- Claro, respondi que não. Disse-lhe que era casada e tinha duas filhas crescidas. Claro, respondi que não. Pensaria ele que um pequeno aperitivo me faria
toldar a cabeça? "- Ginny", perguntou-me, Ginny, tu ama-lo?" Volvi: "- Sim, Barry, naturalmente que o amo; éo pai das minhas duas encantadoras filhas." O Barry afirmou-me...
Estendeu a mão por cima da mesa, no Thwaite... Os carros passavam a toda a velocidade na auto-estrada, Gillian, só Deus sabe para onde se dirigiam todos. Estendeu
a mão por cima da mesa, cobrindo a minha, e perguntou: "- Ele ama-te, Ginny? Ginny, ele ainda te ama?", e eu sorri, Gillian.
- Bem, porque é que não... Bem, porque é que não...?
- Que há a dizer, Gillian? Que há a dizer acerca deste Meredith Burke que terminou aquele passeio de barco desferindo um murro no nariz do Barry Murdock?
Que se pode dizer sobre o homem que passa fora de casa mais tempo que...
- Mamã, não quero...
- Que resta para dizer do meu Meredith Burke e da sua pequena contabilista loura? Que resta para dizer, Gillian?
Ela fez uma pausa e sorriu, mas a vivacidade que a sua voz e o seu rosto exprimiram antes desvanecera-se, e o sorriso patenteava uma lassidão confidencial
que despertava na filha o desgosto por esta exposição tão íntima. Já não se tratava de uma jovem que tremia sob as roupas encharcadas, mas de uma mulher, infinitamente
paciente, infinitamente sofredora.
- "Ele ainda te ama, Ginny? Ginny, ele ainda te ama?", perguntou o Barry, com a mão pousada na minha. E a mão era tão quente! Eu sorri, e ele afirmou que
gostaria de se encontrar comigo, de novo. Eu, claro, respondi que não. - Virgínia estremeceu de súbito. - Está frio aqui, não achas? - perguntou ela. - Naturalmente,
devia já haver aquecimento. Não concordas que devíamos possuir aquecimento em Setembro?
Gillian olhava fixamente para a mãe, fascinada. Não sabia que atitude tomar. Experimentava certo ressentimento, pois não solicitara esta confissão brusca
e Intima e sentia cólera também, porque nada desejava saber sobre o pai e a sua contabilista ou sobre o motivo que o retinha todas as noites até tarde na cidade.
Mas sentia ao mesmo tempo que um curioso liame a unia à mãe, sentia-se mais próxima de Virgínia do que nunca, nos seus 19 anos. E todavia, por uma espécie de paradoxo,
tinha a impressão de que não era sua filha, mas sõmente outra mulher, como se ambas se encontrassem, por acaso, na sala de provas de uma casa de modas e estivessem
parcialmente nuas, estranhas, uma perante a outra, defronte de espelhos diferentes. Este resplendor fugaz era arrepiante. Olhava para a mãe e via apenas uma mulher
desconhecida com rosto e figura vagamente familiares, e, no entanto, totalmente estranhos. O cabelo, a cor dos olhos, o sorriso lãnguido, pertenciam, sem dúvida
alguma, a uma mulher que conhecera há muito, muito tempo. Mas a mulher tinha um pequeno sinal no rosto. Esta marca existira sempre? Havia rugas nas orlas dos olhos
da estranha. O lábio superior não era perfeitamente simétrico. Gillian distinguia certa debilidade no queixo da mulher. Continuava a perscrutar a mãe como uma câmara
movendo-se para captar um grande plano pessoal, mas friamente impessoal, uma câmara movendo-se cruel e rápida, a fim de devorar a face vulnerável de uma estranha
pálida e triste. Manteve-se a fitar a mãe sem a reconhecer, e, todavia, descobria os íntimos segredos de que nunca se apercebera antes.
Virgínia levantou-se e suspirou. Ergueu a chávena do café e saiu com passo pesado da sala.
- Espera! - exclamou Gillian. A mãe voltou-se. Gillian hesitou, prestes a dizer qualquer coisa. Quase estendeu a mão. Mas tudo o que declarou, afinal, foi:
- Não voltarei a Talmadge.
Virgínia inclinou a cabeça.
- Muito bem.
- Vou procurar uma escola em Nova Iorque.
- Muito bem.
- Aluguei um apartamento na Village.
Virgínia não respondeu, por um instante sõmente. Depois inclinou de novo a cabeça e disse:
- Muito bem. - Parecia agora muito velha. - Já falaste ao teu pai?
- Ainda não.
- Ele quererá saber - concluiu Virgínia, e deixou a sala.

A carta encontrava-se sobre a ampla mesa do vestíbulo do dormitório quando Amanda regressou da aula das 5 horas. O campus estava coberto por uma leve toalha
de neve. Ela retirou as galochas diante do espelho e dirigiu um olhar de relance para a pilha de cartas que se achavam em cima da mesa; depois, começou a percorrê-la.
Ficou por um momento aborrecida porque a carta não fora separada das outras e colocada na caixa. Na sua qualidade de terceiranista, julgava-se com direito a algumas
gentilezas e privilégios. Mirou o sobrescrito azul-pálido e a marca do correio de Nova Iorque, e em seguida examinou a caligrafia, impaciente e apressada, do endereço,
antes de o voltar, a fim de olhar para o remetente. Não encontrou nome algum, mas apenas uma morada, uma morada desconhecida. Porém, deu-se imediatamente conta de
que a carta era de Gillian Burke. Subiu ao quarto, sentou-se na cama e começou a ler.

Querida Amanda

Sei que pensas que me devo encontrar morrta, mas não é exacto, embora me ache bastante fatigada, quase exausta. Não é fácil mobilar um apartamento - mobilar,
dz
ela - ou acostumar-me a uma rotina nova:
tudo me levou mais tempo do que esperava, e é, na verdade, muito mais fatigante do que pode parecer à primeira vista.
Mas eis-me, por fim, completamente instalada, ou, pelo menos, melhor que posso, por uns tempos. Mas nada consegui sem muita canseira, acredita. E como sempre
acontece com tudo na vida, a oposiÇão veio donde menos a esperava. Pensei que a minha mãe fizesse um barulho danado quando revelasse os meus planos, mas éla encarou
o caso com tanta calma como Lee ao render-se em A mattox. Foi o meu pai quem fez um chinfrim dos demónios quando lhe disse que ia sair de casa. Ele quis saber porquê
e eu respondi que tinha quase 19 anos e devia tratar da minha vida como ser humano e como mulher. Ah, isto, escrito, dá' a impressão de ser tão estúpido! Mas, na
verdade, penso que defendi de maneira excelente as pretensões da mulher americana de emancipação. Esta defesa, infelizmente, não pareceu impressionar o papá. Ele
quis saber com quem é que eu ia viver, e volvi-lhe que sózinha. Ele replicou: "Por quanto tempo'?" O meu pai é um homem muito, muito doce, e sempre pensei que ele
considerava como seus os assuntos da filha. Porém, e de uma maneira imprevista, vi-o reagir como um velho puramente irlandês" preocupado com coisas como a virgindade,
etc. Fechou-se, melindrado, durante alguns dias; mal me falou, chegando a escrever uma carta que enviou por via aérea à minha irmã Mónica, que se encontra na Califórnia,
pedindo-lhe (encontrei a carta) que fizesse voltar o juízo aos miolos da Gillian - eu, claro.
Bem, não podia ter batido a pior porta, pois a Mónica, na resposta, disse que tencionava ficar na Califórnia após concluir o curso. Tal declaração atirou
por terra o pobre papá, que começou a dissertar, com prosódia irlandesa, sobre a ingratidão das filhas e acerca dos ratos que abandonam um navio mal o vêem afundar-se.
Tudo muito lisonjeiro para a Mónica e para mim; falo dos ratos, claro. Devo dizer que a Mónica se comportou como uma cadela. Ela não acaba o curso antes de Junho,
e odeia adiar as suas deliciosas noticias até essa altura, sabendo o sarilho em que eu estava metida. Mas não o fez. Assim, o papá surgiu com o irmão, que dirige
uma loja de tintas em Long Island, pensando que eu me deixaria impressionar pelos conselhos de um homem mais velho e mais experiente do que ele. Este tal tio chama-se
Lonnie Burke; eu e a minha irmã já o detestávamos quando éramos pequenas, e costumávamos chamar-lhe "tio ceroulas compridas", porque ele as usava tanto no Inverno
como no Verão mostrando-as sempre pela dobra das calças. Era este então o homem que me ia convencer a ficar no velho lar. O "tio ceroulas compridas" pregou-me um
sermão e advertiu-me dos perigos que corria uma jovem vivendo só numa cidade perversa como Nova Iorque, especialmente agora, que está repleta de miUtares vindos
de todo o mundo. Prezaria eu muito pouco a minha virgindade?, eis o que me perguntou. (Assim, nem mais nem menos, Amanda.) Assegurei-lhe que a prezava bastante,
na verdade, e que não tencionava abrir um bordel em West Side. Isto ofendeu-o imenso e fê-lo safar-se sem perda de tempo para Hempstead, ou sei lá para .onde ele
vive.
O meu pai cedeu, por fim, porém demasiado contrafeito, segundo me pareceu. Disse-me que não me daria sequer um centavo para mobilar o apartamento ou para
me alimentar e vestir. E afirmou ainda, num gracioso volta-face, que eu podia regressar a casa quando quisesse que não se falaria mais no caso. Agradeci-lhe a sua
gentileza e depois pedi emprestados duzentos dólares à minha mãe. Comecei então a comprar o que necessitava. Percorri a Terceira Avenida, e a única coisa de que
realmente me orgulho é de uma grande cama de cobre que adquiri por cinquenta e seis dólares. não pude resistir-lhe. Claro, a cama não é feita de cobre, apenas o
espaldar e os pés. Porém, é uma grande cama de casal, e tenho todo o espaço para dar voltas e reviravoltas, o que adoro fazer. No apartamento disponho de dois quartos
e de uma espécie de sala de estar que serve também de cozinha. Coloquei um pequeno divã no segundo quarto e adquiri um velho sofá a Bowery por doze dólares; estou
certa de que .ele se achava repleto de vérmina e de piolhos, mas desinfectei e arejei-o durante três semanas antes de o trazer para o apartamento. Um rapaz que conheço
fez-me, de uma porta velha, uma mesa para café. Não aprecias estas pessoas tão prestáveis que conseguem fazer toda 'a espécie de mobiliário de trastes velhos e carunchosos
para os quais ninguém encontra utilidade? Mas ele foi verdadeiramente encantador, e trouxe-me alguns cartazes, que dependurei nas paredes. o género de cartazes que
dizem: "Bocas tagarelas fazem afundar navios", mas' c'est la guerre, Amanda, e ,os meus cartazes fornecem toda a espécie de conversas apaixonantes - não que eu tenha
muito tempo para desperdiçar com a vida de sociedade, pois o meu horário está devidamente preenchido.
Inscrevi-me num pequeno curso de arte de representar de que é professor um velhote russo cantador. Ele é muito resmungão e fala como se murmurasse. Que coisas
tem ele para dizer? Ensina segundo o que se denomina o "método Stanislavski", e é como se um universo novo se tivesse aberto diante de mim. Sempre pensei que representar
era uma coisa 'muito natural, muito simples, mas ele ensinou-me que é necessário conhecer-se muito antes de nos julgarmos realmente bons. Creio que aprendi mais
em três semanas aqui do que em dois semestres em Talmadge. A minha aula efectua-se á noite. De manhã, dou uma volta, como um cachorro quente e dirijo-me para o Ma.
Tenho lá um emprego, na secção de discos. Trabalho da 1 até ao encerramento, e, aos ábados, durante todo o dia. uma verdadeira casa de doidos, agora que se aproxima
o Natal; mas, em geral, é agradável; claro, tenho de reembolsar a mamã e é-me preciso dinheiro para as despesas com a comida e o resto. Nas noites em que não há
aula vou ao Y, um clube feminino da Rua 92, onde faço parte de um pequeno grupo de amadores. Estamos agora a ensaiar o Hamlet. Interpreto o papel de Ofélia sabes,
a tal que fica um pouco maltratada. Como podes depreender, o horário é bastante apertado, mas agrada-me.
Ora, eis o motivo por que te escrevo: organizo uma festa na sexta-feira á noite, véspera de Natal; trata-se de uma espécie de reunião de amigos e de celebração
da data, ao mesmo tempo. Não sei quando começam as férias de Natal em Talmadge - o ano passado foi no dia 21 -, mas ocorreu-me que te devias encontrar em viagem
para Minesota e que podias passar em Nova Iorque na noite de Natal. Gostaria tanto de te ver! Lembras-te do Brian? Ele vem, e estarão presentes alguns garotos de
Nova Iorque que, penso, adorarias conhecer. Todos são muito bem, muito fugosos, etc. Uns amores. Deve ser uma óptima festa. Posso alojar-te nessa noite, durante
uma semana, ou para sempre, se quiseres; no entanto, se poderes apenas vir assistir à festa e apanhar depois (comboio ou o avião; de uma maneira ou de outra, vem,
peço-te. Gostaria muito de te ver, Amanda. Parece que estamos separadas há séculos e sinto bastantes saudades tuas.
Junto, segue uma pequena nota com o meu endereço neste distinto bairro e indicações sobre o modo como cá chegar. O autocarro pára, por assim dizer, defronte
do meu apartamento, ou, melhor, a 2 ou 3 quilómetros, mas talvez prefiras experimentar os táxis de Nova Iorque, de que me falam com grandes encómodos - um prazer
que me poderei proporcionar qualquer dia. Espero, de todo o coração, que ganhemos a guerra, pois não me agrada nada aprender kabuki; estou muito velha para isso.
Como aguardo a tua visita, dispenso-me o cuidado de te desejar um Feliz Natal agora.

Com afecto

Gilly."

"Há música por todo o lado", pensou Amanda, real ou sõmente imaginária. Escutava ritmos, melodias, aonde quer que fosse, o que quer que fizesse:
o ruido sólido, sonoro, da porta do táxi, o chiar abafado da porta do edifício, a vibração aguda da campainha, a cadência regular dos seus sapatos de salto alto
sobre os degraus que conduziam ao último andar,
o tamborilar hesitante dos seus dedos na porta de Gillian, e depois a porta que se abria e o som de música verdadeira no interior do apartamento, uma música moída
por um velho fonógrafo, uma música tão melancólica como aquela que se ouve na praia, no Verão, e por fim a música subtil e radiosa do brusco sorriso de Gillian.
Ela trazia um vestido preto com um colar branco, e os cabelos de acaju, penteados numa só massa de um lado da cabeça, tomavam reflexos de cobre à luz das
velas que iluminavam o apartamento. Os seus olhos bailavam, o sorriso cintilava, radiante, e ela estendeu as mãos e disse, numa voz muito doce:
- Amanda.
Tombaram, sem uma palavra, nos braços uma da outra, separaram-se para se olharem, começaram a rir, singularmente embaraçadas, depois abraçaram-se de novo,
e entraram no apartamento.
- Não trouxeste mala? - perguntou Gillian. - Não passas cá a noite?
- Reservei um quarto no Waldorf - declarou Amanda. - Não quis incomodar-te.
- Incomodar-me? A mim? Oh, Amanda! - E estreitou-a uma vez mais, apertadamente. - É tão bom ver-te! Tens um aspecto marra-vilhoso. Senta-te, Amanda. És a
primeira a chegar. Podemos falar um pouco.
Amanda lançou um olhar curioso em redor do apartamento. Não a tinham impressionado as fábricas da vizinhança, as latas do lixo empilhadas no vestíbulo e
os penetrantes odores de comida que invadiam os patamares. Lembrara-se da desordem que Gillian introduzira no quarto do dormitório e espe rara encontrar no apartamento
as marcas bem evidentes de uma vida descuidada.
O apartamento estava pintado com um azul demasiado pálido para se lhe chamar neutro. Cortinas azul-escuras dissimulavam as portas dos armários, faziam sobressair
o matiz mais claro das paredes e davam uma impressão de regularidade geométrica. Das paredes pendiam os cartazes de que Gillian falara e diversos programas a preto
e branco anunciando peças estreadas recentemente na Broadway.
O sofá comprado na Bowery, e que Amanda imaginara um horror fétido e carunchoso, fora forrado com um tecido de um laranja brilhante e constituía o centro visual
da sala inteira. A mesa de café, que se achava diante do sofá, feita, pelo amigo de Gillian, de uma porta velha, fora paciente e amorosamente polida. Reflectia o
laranja vibrante do sofá, a luz trémula das velas, e quase atraía uma pessoa a sentar-se.
Viam-se ainda na sala altos tamboretes que Gillian provâvelmente comprara por pintar e que se agrupavam com graciosidade como aves pernaltas negras e brancas.
Num canto, uma gaiola antiga, bem trabalhada, abrigava uma ave verdadeira, um periquito que fora sem dúvida escolhido porque a sua plumagem se harmonizava com a
cor dos cortinados. As barras da gaiola reenviavam a luz vacilante de uma pequena árvore de Natal colocada no canto oposto. Uma ampla mesa coberta de garrafas
de whisk, esplendendo os reflexos ambarinos da luz, achava-se encostada à parede, perto da árvore.
O conjunto produzia uma impressão de ordem e calor. O calor era uma coisa que se podia esperar:
estava-se no lar de Gillian. Mas a ordem, sim, era uma surpresa completa. Amanda sentiu que acabara de penetrar num Mondrian que deixara se ser frio e matemático
e pulsava de vida intensa e estuante.
- Gostas do apartamento? - perguntou Gillian.
Amanda compreendeu porque vira a amiga calada durante o exame que fizera à sala. Voltou-se para Gillian e tomou-lhe as mãos e apertou-as com vivo prazer.
- encantador, Gillian - disse.
- Dá-me o teu casaco.
- Sim.
-A bolsa?
- Não, eu guardo-a.
Falavam baixo. Encontravam-se sozinhas no apartamento, mas conversavam num tom leve, como se receassem despertar um dorminhoco com sono ligeiro. Gillian
pendurou o casaco no armário da entrada, afastando para o lado a longa cortina azul.
- Senta-te, Amanda - disse ela. - Que tal a viagem de comboio?
- Não foi muito má. Diversos militares. Na sua maioria marinheiros. Penso que vinham da base de submarinos de Nova Londres.
- Tens um aspecto óptimo, Amanda.
- Obrigada. Tu também.
- Queres que ponha música de Natal?
- Sim.
- Lembras-te do espectáculo de Natal no ano passado? An cinem geuissen Morgen? - perguntou Gillian, a rir, dirigindo-se para o gíra-discos.
- Sim, lembro.
- Como vai Talmadge?
- Na mesma.
- Nada de emocionante por lá?
- O mesmo de sempre.
Gillian colocou uma rima de discos no prato e depois dirigiu-se para a mesa ampla.
- Queres tomar uma bebida antes da chegada dos outros?
- Pois sim, mas uma dose pequena - respondeu Amanda.
- Scotch? Canadiano? - perguntou Gillian, examinando as garrafas que se encontravam em cima da mesa.
- Scotch. Com soda.
Ela serviu as bedidas e trouxe-as para a mesa de café.
- Esta é a mesa de que te falei.
- É bonita.
- Quando começaste a beber?
- Oh, mas eu não bebo, na realidade - volveu Amanda, sorrindo.
Gillian examinou-a por um momento.
- Pareces diferente.
-Sim? Como?
- Não sei. - Encolheu os ombros e sorriu. - Imagino que estás mais velha.
- Tenho quase vinte e dois, Gilly.
- Achas-me muito nova? - preguntou Gillian.
- Nunca dás essa impressão.
- Não é verdade - disse Gillian, um tanto triste. - Nem sequer a mim mesma.
- Conta-me as novidades. Como vai a tua música?
- Bem, continuo a trabalhar.
- Escreveste alguma coisa de novo?
- Bem, sabes, o costume. Nada de especial.
Gillian inclinou a cabeça. A sala estava imersa numa suave quietude. Do fonógrafo, uma voz roufenha entoava Noite silenciosa, noite feliz.
- Tenho de comprar uma agulha nova - disse Gillian.
- Aquela é má para os discos - declarou Amanda.
Caladas, uma vez mais, escutavam a música.
- Onde arranjaste os programas? - perguntou Amanda.
- Deu-mos um rapaz que conheço. Na aula do conde.
- Do conde?
- Sim, o meu professor. O russo. Falei-te dele na minha carta, não é verdade? Era conde antes de todos aqueles vermelhos se apoderarem do país. Sabes o que
ele me contou, Amanda? Histórias autênticas sobre Catarina, a Grande.
- Mas como as pode saber ele? Aconteceram há tanto tempo!
- Conhecimento da corte - volveu Gillian com ar sério. - E foram transmitidas de geração em geração. Consegues imaginar que se faça a coisa com um cavalo?
Amanda desatou a rir, e, de súbito, a tensão dissipou-se.
- Mal posso imaginar que se faça com um homem - disse ela, rindo ainda.
- Mudaste - volveu Gillian, rindo também - Nunca terias dito isto há seis meses.
- Talvez não - retorquiu Amanda. Terminou a bebida e pousou o copo.
- Ainda és virgem? - perguntou Gillian, baixando a voz.
- Sim. - Amanda fez uma pausa. - E tu?
- Também. Não é desagradável? Sinto-me uma inválida. Queres outra bebida?
- Está bem. - Seguiu Gillian, até à outra mesa. - Pouco, por favor.
- Oka Amanda, gostas realmente do apartamento?
- Creio que é encantador.
- Falas com sinceridade?
- Sim.
- Por vezes penso que devo ser um pouco tola, sabes, por ter saído de casa e viver para aqui. É um bairro terrível, este, Amanda. Fico profundamente aterrorizada
quando chego muito tarde, dos ensaios. Encontram-se a deambular por aí toda a espécie de personagens suspeitas. - Amanda desatou de novo a rir com espontaneidade.
- É verdade o que te digo, Amanda. Creio que a minha senhoria tem o vício dos estupefacientes ou coisa que o valha. Mostra sempre uma expressão estonteada nos olhos,
mesmo quando lhe pago a renda. - Entregou o copo a Amanda. - E uma espécie de clube de vadios reúne-se na esquina da rua. Não rias! Encontro-me em perigo constante
a cada momento do dia e da noite. Mas não rias, minha boba, que me fazes derramar o whis.
- Sinto-me tão contente por estar cá! - disse Amanda bruscamente.
- Sim, não é bom? - volveu Gillian. - Amanda, porque demónio te dirigíste para um hotel?
- Não sei - respondeu Amanda. - Estou quase indisposta, e tu sabes como me torno nesses momentos: enervada, de mau humor. Não queria ser-te pesada.
- Mas essa não é a verdadeira razão, claro.
- Não - disse Amanda depois de um silêncio. - Tive receio.
- Que já não gostássemos mais uma da outra?
- Sim.
- Mas ainda gostamos - volveu Gillian com simplicidade.
- Sim - e sorriram.
- Amanda, não te comprei um presente de Natal.
- Não comprei um presente para ti, também.
- Ia fazê-lo, mas pensei: Suponhamos que a Amanda não me compra nada? Ela ficará embaraçada."
Amanda riu e volveu:
- Eis exactamente o que se passou comigo.
- Bom, quem necessita de presentes? Sinto-me bastante satisfeita por estares cá. Sabes, não tenho ninguém com quem falar em toda esta cidade. Queres
acreditar? Nasci em Nova Iorque e sinto-me uma estranha. - Gillian sacudiu a cabeça num gesto de desânimo. - Fala-me de ti, Amanda. Fala-me de Talmadge. Cai por
lá muita neve?
- Não muita.
- Sempre adorei aquele lugar. É pena que não tivesse aprendido grande coisa em Talmadge.
- O Morton Yardley... Lembras-te do Morton?
- Sim. Que se passa com ele?
- Foi mobilizado e protestou.
- Que queres dizer?
- Ele quando protesta fá-lo com consciência. Levaram-no "'e lá, Gilly.
- Para onde? Que significa "levaram-no de lá?"
- Não sei. Para um presídio militar, creio. Falei com o Morton antes de ele partir, Gilly. Confessou-me simplesmente que não era capaz de matar outro ser
humano. "- Consegues compreender, Amanda?", disse ele. "Não me podia sentir responsável pela morte de outra pessoa. Não sou cobarde, Amanda, mas não podia matar."
Ele fez-me chorar, Gilly. Sempre gostei muito do Morton. - Deteve-se e a cabeça pendeu-lhe sobre o ombro. - Sabes o que descobri?
- Diz...
- Sei o motivo pelo qual o Morton usava constantemente aquele capuz. Gilly, ele estava a tornar-se calvo, o pobrezinho. E tem somente vinte anos! Sentia
uma vergonha terrível da cálvície, e, assim, trazia sempre aquele estúpido capuz. Oh, Gilly, apetece-me chorar quando penso nele. O Morton é tão triste! E faz-me
tão triste!
- Ama-lo, Amanda? - perguntou Gillian.
- Sim - respondeu ela sem hesitação. - Oh, não dessa maneira. Não, nunca podia amar o Morton dessa maneira. Mas amo-o com uma ternura especial, e creio que
o amarei sempre. Ele foi a primeira pessoa que conheci em Talmadge, sabes?
- Não sabia.
- Sim, Gilly, espero que o tratem bem. Não consigo imaginar o Morton dentro de uma cela. E tu?
-Também não.
Ficaram caladas um momento. Depois, Amanda disse:
- Recordas-te da Ardis Fletcher? A rapariga do wecister?
- Sim.
- Casou-se. Todas as raparigas afirmavam que ela já tinha... Bem, mas não sei.
- Com quem casou ela?
- Com um rapaz do restaurante do Cruzeiro. Charlie qualquer-coisa. Abandonou a escola e vive agora na cidade, perto da fábrica de armamento. Vi-a uma vez.
Está grávida. Assim, talvez seja verdade o que afirmavam as raparigas. Oh, e o Sr. Connerly, lembras-te dele?
- Não.
- O professor de Filosofia. Foste alguma vez à aula de Filosofia?
- Não.
- Aquele tipo baixo, de cabelo branco, que vestia sempre coletes de xadrez. Recordas-te, Gilly?
- Creio que não o conheço.
- Bem, ele enfeitiçou-se com uma das raparigas, prometeu-lhe uma nota alta se ela... Bem, tu sabes.
- E ela acedeu?
- Não, não, denunciou-o. Ele foi destituído.
- Bah! - fez Gillian. Agitou as sobrancelhas.
- Talvez não devesse ter deixado Talmadge!
A campainha da porta retiniu subitamente.
Gillian ergueu os olhos.
- Ei-los! - Levantou-se e pousou a mão sobre a de Amanda. - Se não tiver oportunidade mais tarde - disse -, Feliz Natal. - E foi abrir a porta.

Havia música por todo o lado, real ou imaginária.
Música no retinir constante da campainha, no tinir suave do gelo nos copos e no sussurro encantador das conversas ligeiras; o contraponto de risos; a porta
que se abre, o ruído dos passos no soalho, os pés sacudindo o frio do Dezembro nova-iorquino; as raparigas bonitas com os seus vestidos de festa, os rapazes com
fatos escuros e laços, outros, mais velhos, de uniforme; música de sons e de cor; música ainda no líquido que ondulava suavemente no copo de Amanda. Ela nunca bebera
tanto na sua vida, mas não se importava, esta noite. Sentia-se quente, protegída e amada, e assim deixava encher o copo, bebia o que ele continha e ria com os outros:
eram todos gente maravilhosa, os amigos de Gíllian. Ela dançava, e encontrava sempre um outro copo à sua espera. Gracejava com muito espírito, sentia-se senhora
de uma beleza feiticeira e tinha muito orgulho na sua boa amiga Gillian e no seu encantador apartamento e em todas estas pessoas maravilhosas que conhecera.
A um canto da sala, junto da árvore de Natal, dois marinheiros e uma rapariga de vestido vermelho cantavam o Adete Fidelis, e as suas faces tinham qualquer
coisa de
angélico, recortadas pelo luzir das velas pousadas na pequena mesa junto da árvore.
O gira-discos tocava belas canções, Holiday for strings, de David Rose, Já 'Ouvi Es Canção, tocada pelo trompette de Harry James, Olhos de Estrelas, cantada por
Kitty Kallen e Bob Eberle, com a orquestra de Jimmy Dorsey. Os cânticos de Natal entoados junto da 'árvore pareciam fundir-se com a música de dança, embora os pares
que rodopiavam no soalho ao ritmo da música não se impressionassem com os cantos; aceitavam-nos como tema secundário, como aceitavam a música das conversas e dos
risos à sua volta.
O rapaz que conversava com Amanda falava-lhe com certa animação das dificuldades que encontrava para conseguir um papel num espectáculo da Broadway. Ela
escutava-o com uma expressão de interesse apaixonado. Os seus olhos não deixavam os lábios do rapaz, inclinava, com simpatia, a cabeça, uma vez por outra, sem realmente
o escutar. Mas não se sentia aborrecida. Fechava-se apenas num quente casulo que vibrava com uma secreta música. "Creio que estou um pouco embriagada", pensou, e
escutava o jovem como que fascinada, sem ouvir sequer uma palavra do que ele dizia.
- E eles pedem-nos imediatamente o cartão sindical. Bem, quando se lhes diz que se não possui o cartão sindical, volvem-nos: "- É pena, mas não o podemos
utilizar." Se não nos podem utilizar, como havemos de arranjar o tal cartão para que nos possam utilizar? Compreende o que quero dizer?
- Hum..., sim, perfeitamente - respondeu Amanda. - Não parece justo, lá isso é verdade.
- Não é mesmo nada justo - protestou o jovem. - Necessitamos de experiencia para conseguir o papel, mas não conseguimos o papel sem experiencia. Não é de
maneira alguma justo, não acha?
- Com certeza - concordou Amanda, sorrindo.
- Quer outro copo?
- Sim, obrigada.
O rapaz pegou no copo dela e Amanda apoiou-se contra a parede, observando, bem humorada, Gillian, que falava com um marinheiro no lado oposto da sala. Depois
notou que os olhos do marinheiro pousavam em si, e viu Gillian voltar-se e fitá-la. Compreendeu que o marinheiro perguntara a Gillian quem ela era. Gillian tomou
o marinheiro pela mão e conduziu-o através da sala, para se deter diante de Amanda, que se encontrava ainda apoiada à parede; ela sentia os olhos fecharem-se e escutava
a música à sua volta. A voz de Gillian fundiu-se com a música.
- Amanda, este é o Rudy. Está a morrer de desejo por te conhecer, mas é tímido.
- Olá, Rudy! - disse Amanda, sorrindo. - Não seja tímido.
- Você é a rapariga mais bonita que já vi em toda a minha vida - volveu Rudy. Era um rapaz atarracado, de cabelos castanhos encaracolados e olhos azuis.
Cortara-se ao barbear-se, e tinha u pedaço de adesivo colado ao queixo pesado.
- Oh, obrigada, Rudy! - respondeu Amanda, com um ar sonhador.
- Quer dançar?
- Mais logo. Foram buscar-me uma bebida.
- Vive em Nova Iorque? - perguntou Rudy.
- Não. Em Minesota.
- Fica muito longe.
- Oh, sim.
Música por toda a parte, a campainha da porta retinia novamente e o ruído dos sapatos de salto alto de Gíllian ressoou quando ela se dirigiu para a porta.
- Brian Olá! Meu Deus, que é que vos atrasou tanto?
Um coro de vozes respondeu. Os que entoavam os cânticos de Natal romperam de súbito com Deck the Halis. Amanda pensou: "Alguém canta ali num tom muito baixo."
A porta fechou-se de novo e uma voz juntou-se à salsada harmoniosa do cântico e do fonógrafo, uma voz conhecida, com um sotaque sulista.
- Bem, bem, não é a Miranda?
Ela voltou a cabeça e reconheceu, em primeiro lugar, o Brian. Não anunciara a Gillian que ele viria de New Haven? Depois viu o rapaz mais velho, de uniforme,
ao lado do Brian; tinha as mesmas feições; sem dúvida era o irmão; em seguida, o uniforme do terceiro rapaz, bem, não um rapaz, um homem, que se aproximava dela,
repetindo:
- Ora, ora, não é a Miranda?
- De facto, não é - disse ela sem embaraço -, mas a Amanda.
- Sim, sim, a Amanda, decerto. Como está, Amanda? Feliz Natal, Amanda.
Gillian dirigíu-se para eles ràpidamente.
- Recordas-te do Matthew Bridges, não é verdade? - perguntou ela, apreensiva.
- Recordo-me do capitão - volveu Amanda.
- O major - corrigiu Matthew. - O capitão é agora major.
- Matthew Anson Briciges - disse Amanda. - Parabéns, major Bridges.
- As suas felicitações são um pouco tardias replicou Matthew, sorrindo sob o bigode de banda.
- Fui promovido em Junho.
- Por acção nos parques de estacionamento das Universidades? - perguntou Amanda, afastando-se com um passo vivo, dirigindo-se para os braços de Rudy. - Vamos
dançar, Rudy - disse ela.
- Decerto - respondeu Rudy, um tanto espantado pela súbita mudança. Puxou-a a si no momento em que começaram a dançar, mas Amanda afastou-o gentilmente.
- Ora, ora, Rudy murmurou.
- Você é tão bonita, Amanda
- E você também - respondeu ela. - Todos são bonitos. Mas se me aperta tanto não conseguirei respirar. Pois bem, não quer que eu deixe de respirar, pois
não, Rudy?
- Não, de maneira alguma - volveu ele.
- Temos a mesma opinião. Assim... bem... É melhor. Agora é muito melhor. Mas você é tão forte, Rudy - disse ela, e fez uma careta a Gillian, sobre o ombro
do par. Então viu Matthew Anson Bridges a mexer uma bebida e voltar-se em seguida para fazer correr os olhos pela sala, o mesmo sorriso estúpido nos lábios. Os olhos
dele capturaram os da jovem, que se sentiu súbitamente embaraçada. Não afastou os olhos. Não, a princípio. De um extremo ao outro da sala, fixava-o, desafiando-o,
a recordar-se da sua vergonha, desafiando-o a comportar-se como o garoto que ele certamente era, com aquele sorriso escarninho sob o ridículo bigode preto, desafiando-o
a recordar o vergonhoso segredo que ambos partilhavam; ele acariciar a-lhe o seio, ele conhecia o contacto do seu mamilo rijo, estendido. Ela sentiu-se corar e pensou
de novo: "Devo estar um pouco embriagada", baixou os olhos e entregou-se à música - Alvino Rey, não era? -, os pés seguindo os passos desgraciosos e prosaicos do
par, uma das mãos colocadas com firmeza contra o peito dele, forçando-o a guardar a distância.
De súbito, ele afastou-se dela. A princípio não compreendeu o que se passara. Mas ergueu os olhos e viu a boca sorridente e o maldito bigode negro, e desejou
desaparecer. Rudy grunhiu e franziu a testa diante de Matthew e acabou por abandonar a pista de dança. Pouco depois, Matthew perguntou: "Permitme?", e tomou Amanda
nos braços. Cingiu-a com vigor pela cintura. Ela sentia-se apertada contra o peito dele; um objecto muito duro martirizava-a. "Ah, esta maldita medalha de campeão
de tiro", pensou, e quis desembaraçar-se. Porém não era Rudy, este homem, mas sim Matthew Anson Bridges. Levantou a cabeça e, com muita cortesia, com muita mansidão,
disse:
- Por favor.
- Por favor o quê, Amanda?
- Por favor, deixe-me.
- Não gosta de dançar?
- Não gosto de luta! - volveu a jovem num tom seco.
A pressão abrandou imediatamente. Fitou-o e viu que ele ainda sorria.
- Obrigada. - Ficou calada durante alguns momentos. - Isto dá-lhe prazer, major?
- Que é que me dá prazer?
- Atormentar-me. - E mal pronunciou esta palavra compreendeu o seu erro.
- Oh, atormento-a? - perguntou Matthew com inocência. - Como, Amanda?
- Sabe muito bem a que me refiro. Tem grande orgulho no seu talento para me importunar. Bem, se não se importa, major, preferia não dançar consigo.
Tentou desembaraçar-se, mas ele não o permitiu.
- Ah, mas eu gosto de dançar consigo, Amanda.
- Para minha infelicidade.
- Sim, decerto. - O braço dele aumentou a pressão em redor da cintura.
- Se me puxar de novo contra essa medalha, gritarei.
- Oh, perdoe-me.
- Ainda não entrou em combate? Não acha que já é tempo de o enviarem para o Japão ou para qualquer outra parte?
- Na verdade - redarguiu Matthew -, pedi para ser transferido. - Baixou a voz. - Parto para a Europa no dia de Ano Novo.
- Ainda bem - volveu Amanda com frieza.
- Não diga a ninguém. É um segredo militar.
- Decerto que não desejaria ver o seu navio afundar-se - volveu ela, sarcástica.
- Eu sei. Eis porque é melhor ser-se prudente. Contudo, sigo de avião.
- Bem, creio que tem muita pressa em fazer as malas; assim, se não se importa... - E de novo tentou libertar-se, mas o braço dele continuava a pressioná-la.
- Imagino que a guerra terminará em breve disse ele.
- Óptimo - volveu ela, de dentes cerrados.
- Sim - prosseguiu Matthew. - Uma vez que me encontro na Europa, ninguém me poderá resistir por muito tempo.
- Oxalá não tenha uma surpresa, major.
- Jamais fosse o que fosse me surpreendeu - replicou ele. - Claro, não posso prometer resultados imediatos. Vou sõmente a Londres.
- Bem, felicidades. Talvez o enviem para a Itália, onde se combate agora.
- E, para as raparigas italianas. - Matthew sorriu. - Porém, não falo italiano.
- Não sabia que era indispensável.
- Ajuda, segundo me disseram.
- Penso que não estamos a falar sobre a mesma coisa, major.
- Amanda - retorquiu ele -, estamos a falar exactamente sobre a mesma coisa. - Fez uma pausa.
- Não me esqueci, Amanda.
- Não quero falar nisso.
- Não esqueci a sua boca e...
- Eu disse que...
- a suavidade da sua pele. Você é a mais doce... Esbofeteareei essa maldita cara! - exclamou ele. As palavras que proferiu surpreenderam-na; jamais pronunciara
palavras tão enérgicas. Fez um esforço desesperado, desprendeu-se dos braços dele e dirigiu-se para a mesa, onde o aspirante a actor a aguardava com a bebida. Pegou
no copo e quase o esvaziou de um trago. Sentia atrás de si a presença de Matthew Anson Bridges sorrindo.
- Outro - pediu ela ao actor.
Rudy surgiu súbitamente e disse:
- Eu vou buscá-lo, Amanda.
Jamais soube quantos copos esvaziara depois daquele. Mas para onde quer que se voltasse encontrava o sorriso estúpido de Matthew Anson Bridges; os seus olhos
seguiam-na por todo o lado, e ela perguntou-se porque estaria ele ali, a estragar-lhe uma das mais belas noites de Natal que já vivera.
- Lamento muito - explicou Gillian. - Convidei apenas o Brian, mas ele trouxe o irmão e o Matthew. Acredita-me, Amanda, não sabia.
Certamente, Gillian não soubera, mas a desculpa não dissipou a imagem sorridente de Matthew Anson Bridges, que flutuava por toda a sala, não importa quanto
ela bebesse. Estava certa de que nunca bebera tanto ou conversara tanto ou dançara tanto na sua vida, e estava ainda persuadida de que a sua mente se toldara por
completo, mas que não mergulhara naquele primeiro entorpecimento. Bebia agora por ódio, por um desejo de vingança, como se tivesse, a todo o preço, de provar a Matthew
Anson Bridges que podia eliminar o rosto dele do seu campo de visão. Sabia que não devia beber tanto. Não desejava despertar atordoada na manhã do dia de Natal,
em especial porque tinha de fazer uma longa viagem de comboio para Minesota. Mas continuou a beber e continuou a dançar, e reconheceu de pronto que Rudy era um lapuz,
incapaz de alinhar quatro palavras. Porém, a voz dele mantinha-se a zumbir aos seus ouvidos, sem cessar. Quando principiou a achá-lo interessante, apercebeu-se de
que estava bastante embriagada, que não tinha tino; porém, mesmo assim, não se sentiu de maneira alguma mal, mas sômente aturdida. Não conseguiu recordar-se em que
momento começou a sala a rodopiar, mas rodopiava agora, o periquito fazia cabriolas na gaiola, o rosto de Matthew Anson Bridges bailava, bailava, o bigode negro
agitava-se, enquanto ele conservava com uma morena de vestido verde e observava Amanda por cima do ombro da companheira. E a voz de Rudy continuava a zumbir aos
seus ouvidos. "Oh, meu Deus, estou embriagada", pensou.
- Sabe o que fazemos? Emitimos um pequeno rnng, compreende? É exactamente, como soa: rn-i-t-r-n-n-g. E atravessa a água, compreende?
- Hum..., sim muito interessante - disse Amanda, a cabeça pousada no ombro de Rudy, enquanto dançavam.
Acompanhavam-nos muitos pares. Ele ia de encontro a ela, de encontro aos outros pares, Amanda desejava que ele deixasse de fazer aquilo, mas achava-se aturdida
de mais para lhe dizer que não prosseguisse.
- E quando atinge um alvo como um submarino, por exemplo - continuou Rudy, os lábios colados ao ouvido de Amanda-, quando atinge um alvo assim, emite um
eco, e pode saber-se, então, pelo ruído do eco, o que atingimos: se um peixe, se um submersível ou o que quer que seja, compreende? Esta onda sonora propaga-se até
atingir qualquer coisa, compreende? Assim, vê? - E vibrou-lhe um golpe no estômago. Amanda tentou dizer: "Oh, acabe com isso", mas as palavras não tomaram forma.
- Assim, vê? Compreende?
- Hum... - fez ela, e inclinou a cabeça. "Que vertigem !"
- Compreende? - tornou ele, repetindo a operação.
- Hum..., sinto uma vertigem, Rudy.
- Muito bem, querida, apoie-se em mim - disse Rudy. - Agora não vai esquivar-se, pois não? Precisa de mais uma bebida, Amanda. Eis o que lhe faz falta.
Ela grunhiu e sacudiu a cabeça.
- Gilly - murmurou. - Onde está a Gilly?
- Oh, está a fazer uma omeleta na cozinha, Amanda. Agora, venha, tome mais um copo para aclarar as ideias, ok?
- Não, não quero.
- Sim, para aclarar as ideias.
- Sinto uma vertigem.
- Decerto, eu sei. Vamos, queridinha, vamos, calma. Trataremos de si
Ela fez um movimento exagerado com a cabeça e sentiu o braço vigoroso de Rudy envolver-lhe a cintura enquanto ele a conduzia para a mesa, do outro lado da
sala. Abria caminho através dos outros, projectando-se sem cessar contra ela, as ancas tocando-se. Ela ouviu o ruido do líquido.
- Música - disse.
- Sim, queridinha - respondeu ele. - Aqui. Bebamo-lo puro, desta vez. Aclarar-lhe-á as ideias.
Ela inclinou a cabeça num gesto afirmativo e sentiu que Rudy lhe colocava o copo na mão e que lhe guiava depois a mão até à boca. A borda do copo magoou-lhe
bruscamente os dentes; fez uma careta e a cabeça vacilou-lhe:
- Beba - disse Rudy.
Sentiu uma porção do liquido correr-lhe pelo queixo. Nasci do anjo, cantava alguém. O wisk traçava-lhe na garganta um caminho de chamas. "Uh! uh!, que forte!",
pensou. "Aclara-me as ideias." O braço de Rudy cingia-se de novo pela cintura. As luzes da árvore de Natal possuiam um brilho ofuscante.
- Uup - fez ela, e perdeu o equilíbrio. - Perdoe-me. A vertigem. O sofá era um pilar horizontal oscilante, de fogo alaranjado.
- Vamos, querida, é melhor deitar-se - disse Rudy. Os outros, ainda, e ela esbarrava neles... "Pare com isso", pensou, "tire a mão. Gritarei, sabe?" Esbarrou
agora na parede. Meteram pelo corredor.
- Uup, desculpe - disse para a parede, e então embateu na parede do lado oposto. Qualquer coisa lhe comprimia os seios; qualquer coisa rígida lhe envolvia
as costas, lhe comprimia os seios. "O soutien está-me muito apertado", pensou. Uma porta abriu-se; ela viu a larga cama de cobre de Gillian, coberta de sobretudos
- não era uma cama de cobre, na verdade, mas sõmente o espaldar e os pés. A porta fechou-se, o quarto estava escuro; sentiu-se avançar, cambaleando, aspirou o cheiro
dos sobretudos, do monte de sobretudos; depois o contacto com o tweed.
- Aqui estamos, querida; estenda as pernas, assim. Recline-se, pouse a cabeça na almofada. Muito bem, durma.
Ela fechou os olhos; o quarto estava imerso em profunda escuridão; respirou fundo e perdeu bruscamente a consciência.
- Amanda?... - murmurou Rudy.
Ela não respondeu. 'Tinha os olhos cerrados, a boca aberta.
- Amanda?..
De súbito, ele beijou-a na boca aberta e calada; em seeguida lançou um olhar por cima do ombro da jovem, para a porta. Caminhou com rapidez no escuro e procurou,
com a mão, o ferrolho, fechou a porta e voltou para a cama. Desabotoou a blusa de Amanda e puxou-lhe o vestido até às ancas, emocionado pelo contacto com a pele
sedosa. Beijou-a de novo. Ela não se mexeu. Nada sentia. A mão ávida, crispada, levou até mais longe a exploração. Ela permanecia estendida sobre o leito, entre
os sobretudos e os abafos, imóvel, branca e vulnerável. Um ruído à porta fez estremecer Rudy. Alguém experimentava o puxador. Voltou-se para a escuridão, os olhos
dilatados. A seu lado, Amanda respirava pesada e irregularmente, a boca aberta. Ele agachou-se junto dela, como para a proteger. O puxador foi experimentado uma
vez mais. Uma batida à porta. Ele não respondeu. Começou a acariciá-la, mais tranquilo. Ela estava imóvel, a boca aberta, os olhos cerrados. No outro lado da porta,
silêncio, silêncio calculador, meditativo. Silêncio. Rudy continuava agachado.
Ouviu-se um ruído súbito. A porta cedeu. O ferrolho soltou-se sob a violência de um pontapé. Uma esteira de luz crua penetrou no quarto, aflorou a cama.
A silhueta de um homem, no limiar da porta. A sua mão estendeu-se para o interruptor. As lâmpadas do tecto acenderam-se bruscamente, iluminando a cama, a rapariga
inconsciente e o marinheiro agachado ao lado dela.
Matthew, de pé, no limiar da porta, examinava o quarto. Inclinou a cabeça, uma vez só. Fechou a porta de mansinho e disse, em voz baixa:
- Afasta-te dela.
- Quem... quem é você?
- Afasta-te dela, marinheiro!
- Feche a luz. Não vê...?
- Vejo - volveu Matthew. Deu quatro passadas no quarto e pegou o marinheiro pela frente da blusa; então fez recuar o punho direito e despediu-o com violência.
Um directo esmagou o nariz do marinheiro, pondo-o a sangrar.
- Que diabo de bicho o mordeu? - perguntou Rudy, num tom lamuriento, palpando o nariz.
- Sai daqui - disse Matthew. - Sai antes que te mate.
- Quem diabo é você? - inquiriu Rudy, empalidecendo à vista do sangue. - O namorado dela, ou quê?
- Sim - volveu Matthew.
A afirmação foi tão categórica que Rudy recuou imediatamente, para a porta. Lançou um último olhar para a cama, depois fitou Matthew e disse:
- Filho de uma cadela!
Em seguida, meteu célere pelo corredor, não sem ter fechado a porta com estrondo atrás de si. Matthew, ao lado da cama, olhava zombeteiro para Amanda, a
blusa desabotoada, a saia puxada até à cintura. Mirou-a durante longo tempo. Depois fez descer a saia e cobriu a jovem com o seu próprio sobretudo.
Fechou a luz e saiu do quarto.

Gillian despertou às 4 horas da madrugada. Dormira também na ampla cama de casal. Uma coberta fora colocada sobre ela. Os sobretudos já não se encontravam
ali.
- Eh, dorminhoca - disse Gillian.
- Sim. - respondeu Amanda.
- Queres voltar para o hotel, ou preferes ficar cá?
- Cá.
- Queres que te dispa?
- Não. Dispo-me eu mesma.
- Muito bem. Senta-te na cama.
- Que horas são?
- Quatro.
- O meu comboio parte ao meio-dia. Já se foram todos?
- Sim.
- Que horas são?
- Acabo de te dizer. Quatro. Perdeste um bom prato de ovos mexidos.
- Hummm... - Sentou-se na cama e esfregou os olhos.
- Já estás semidespida - disse Gillian.
Amanda sorriu, sonolenta.
- Oh, como eu sinto a cabeça! - Tirou a blusa e perguntou: - Tens um pijama a mais?
- Sim.
- Lamento ter adormecido.
- Não te incomodes - volveu Gillian.
- Penso que... - Fez uma careta. - Com os demónios, sim. Fazes o favor de me passar a minha bolsa, Gilly?
Gillian dirigiu-se para a porta; porém, deteve-se.
- Oh, o Matthew pediu-me que te desse as boas-
-noites. Disse que te telefonaria.
Gillian encolheu os ombros.
- Creio que gosta de ti.
- Bem, eu não gosto dele - replicou Amanda.
- Gilly, queres fazer o favor de te despachares? Realmente, eu...
- Sim, sim - redarguiu ela, e saiu do quarto.

Ele tentou ligar para Amanda no dia seguinte.
Gillian, tonta de sono, atendeu a chamada.
- Está?
- Gillian?
- Sim.
- Matthew Bridges.
- Sim?
- Posso falar com a Amanda, por favor?
- Não.
- Porquê?
- Quero dizer, ela não se encontra cá.
- Oh! Bem, onde se encontra então, Gillian?
- Em parte alguma em Nova Iorque. Partiu para casa. Tomou o comboio do meio-dia
- Oh!
- É importante?
- Creio que não. Quis apenas saber que tal ia ela.
- Bem, desligue - disse Gillian. - A propósito, que horas são?
- Duas e meia.
- Prometi à minha mãe ir visitá-la às duas.
- Não conhece por acaso o número da Amanda?
- Não, não conheço. - Gillian fez uma pausa.
- É importante, Matthew?
- Não, não! que... Onde vive ela?
- Em Minesota.
- Sim, mas onde?
- Numa cidade chamada Otter Falls.
- Otter Falls? Muito bem.
- É útil, esta informação?
- Sim. Muito obrigado, Gillian. E Feliz Natal.
Ele desligou e começou a vasculhar os bolsos, à procura de trocos. A cabina estava situada numa extremidade de um bar da Avenida Madison. Através das portas
de vidro, cerradas, podia ver uma tenente da WAC que tomava uma bebida, as pernas cruzadas. Espalhou as moedas no rebordo e ia ligar para a interurbana quando se
lembrou das horas. Amanda não se encontraria ainda em casa, não, sobretudo se tinha apanhado o comboio do meio-dia. Recolheu as moedas, abriu as portas da cabina
e dirigiu-se para o bar. Repunha os trocos no bolso quando a WAC disse:
- Pouca sorte, major?
- Suponho que sim - respondeu Matthew, sorrindo. Compreendeu nesse instante que a conquistara. Observou-a com um ar distraído, sem impaciência, sem febre,
apenas com a certeza de que iriam passar juntos o dia e talvez a noite.
Ela era uma morena de feições correctas, de cabelo encaracolado, olhos castanhos e boca generosa. Parecia ter pouco mais de 20 anos. Correspondeu ao sorriso
de Matthew e consultou o relógio.
- Bem - disse ela. - Conceder-lhe-ei outros cinco minutos.
- Essa pronúncia faz-me lembrar o velho lar - declarou ele.
- É de lá? - - respondeu a jovem.
- Sim.
- Donde?
- Glen City.
- Oh - Não conhecia a cidade. - Sou de Charilotsville.
- Já lá estive - volveu Matthew, com um sorriso preguiçoso. A WAC consultou novamente o relógio, mas sem dar a impressão de ter pressa.
- Chamo-me Matthew Bridges - disse ele.
- Eu, Kitty Newell - Sorriu. - Devemos fazer a saudação militar?
Passaram a tarde no zoo do Parque Central; dePois, Matthew conseguiu adquirir, numa agência, dois bilhetes para o Okluhoma. Jantaram no Sardi's, viram o
espectáculo e fizeram em seguida uma paragem no Billy Rose's, onde beberam um copo de despedida. Quando saíram, eram quase 2 horas da madrugada.
Matthew chamou um táxi e perguntou:
- Onde mora?
- Estou a utilizar-me do apartamento de uma amiga - respondeu Kitty. - Ela foi passar fora uma semana. Esquiar.
- Levá-la-ei lá.
Instalaram-se no assento de trás. Kitty tomou-lhe o braço e colou-se a ele.
- A noite foi esplêndida - disse ela.
- Também acho. É uma vergonha que acabe tão cedo.
- Sim.
- Gostaria que parássemos algures? Para um último copo?
- Não - volveu ela. - Mas penso que existem algumas garrafas no apartamento. Podemos beber lá.
O apartamento ficava situado num edifício burguês da Rua Sessenta e Um, Este. Ela abriu a porta, acendeu as luzes e perguntou:
- Gosta?
- É muito interessante - respondeu Matthew. - A sua amiga deve ser rica.
- O marido trabalha na Time-Life - redarguiu Kitty, como se esta fosse uma explicação suficiente.
- O bar é ali. Luxuoso, hem?
- Muito. - Ele dirigiu-se para o bar. - Conhaque, está bem?
- Sim, óptimo.
Matthew trouxe dois copos, que fizeram tinir.
- Você tem olhos curiosos, sabe? - disse ela.
- Ah, sim?
- Pois. Não deixou de me fitar durante todo o dia.
- Não me dei conta.
- Dei eu - volveu ela. - Que belo aquele segundo-tenente não ter apareci do...
- Magnífico. - Pousou o copo e inclinou-se para a beijar.
- Não, ainda não - disse ela. - Não antes que o deseje tanto que não possa evitá-lo.
- Desejo-a muitíssimo agora.
- Temos toda a semana à nossa frente. Não é necessário apressarmo-nos.
Mais tarde, quando ela se despiu, Matthew sorriu e disse num gracejo:
- Você não está já de uniforme.
Ela riu e volveu:
- Humm, não sabia. - Abriu os braços. - Que tal sou?
- Muito bela.
Oh, mentiroso, mentiroso adorável. Mas tenho umas pernas bem bonitas. Não acha que tenho umas pernas bem bonitas?
- Extraordinárias.
- Deseja-me muito?
- Sim.
- Também o desejo muito. Agora, sim. Agora, sim. - Desatou bruscamente a rir, com um riso sensual, e disse: - Alegra-me muito que você seja de Virgínia.
Ele permaneceu muito tempo deitado com as mãos sob a nuca, os olhos fixos no tecto do apartamento desconhecido. Kitty dormia a seu lado, os pequenos seios
trémulos colados ao braço de Matthew. De súbito, ele sentiu-se só. Não tinha nada que o ligasse a esta rapariga, ou às suas práticas amorosas; ela demonstrara uma
experiência consumada. Ele tinha 27 anos e encontrava-se numa cidade estranha no dia de Natal. Sentia vontade de chorar. "- Alegra-me que você seja de Virgínia",
dissera Kitty, e estas palavras ficariam por muito tempo gravadas na sua memória, ainda depois de a lembrança do corpo dela se ter desvanecido. Não era um sulista
sentimental. Cortara todos os liames que o prendiam a Glen City no dia em que partira para a Universidade. Mas perguntava-se agora, como um homem cuja infância tivesse
sido rica de contactos humanos, de rumores animados, se se podia sentir só numa cidade estranha e num apartamento desconhecido no dia de Natal, só com uma rapariga
que o sensibilizara profundamente quando dissera: "Alegra-me muito que você seja de Virgínia."
Nunca conseguia evocar a sua cidade natal sem O invadir um sentimento de ternura, embora soubesse que jamais lá voltaria. Lembrava-se da velha casa com persianas
azul-pálidas e da súbita frescura que se sentia mal se penetrava nela; e das vozes. Havia sempre vozes: a casa dos Bridges parecia encontrar-se constantemente em
preparativos para a celebração de uma festa qualquer. A sua infância fora uma roda viva de reuniões de família e de festividades, de férias passadas com alegres
parentes, tantos que nem sabia o número exacto, de criadas atarefadas com a lida da casa, cozinhando, servindo à mesa. Lembrava-se do cheiro a óleo de linho, do
aroma doce das magnólias, um quadro comum no Sul; a casa achava-se cercada delas e o perfume introduzia-se pelas janelas abertas e as flores cobriam o solo com um
tapete de nácar rosa e branco. Brincava com os primos debaixo das magnólias, oh, tantos, tantos primos!; eles apanhavam as pétalas caídas e deixavam-nas tombar por
entre os dedos enquanto os tios e as tias se reuniam em grupos no alpendre da frente, com as suas roupas brancas de Verão, e tomavam bebidas geladas, sob o fundo
azul-pálido das persianas. Óleo de linho, as flores de magnólia e o delicado perfume da lavanda de sua mãe ou o odor próprio do linho engomado.
E as tias que tinha de beijar. Elas tomavam-no sempre nos braços e, depois, ele ficava embaraçado porque lhe deixavam sempre marcas de bâton no rosto. A
tia Matilde dizia: "- Matthew, minha pomba, tens o Demónio nos olhos. Sally, mantém este rapaz fechado por aí!" A mãe sorria com delicadeza e, uma vez, piscara-lhe
os olhos. O tio Jeff chegava e partia, entre Glen City e o Arizona - era um jogador, dizia-se. Aparecia, como por milagre, em cada dia de Acção de Graças, e tornava
a partir após o dia de Ano Novo. Ensinara Matthew a jogar aos dados. Havia a prima Birdie, sempre nervosa, que tocava piano e trazia constantemente uma peça amarela:
vestido, fita ou sapatos. "- Sinto-me nua sem um bocadinho de amarelo", declarava. Dizia-se que casara com um ianque em Nova Orleães, mas que o cccasamento falhara.
Ela costumava tocar todas as canções populares. A família aglomerava-se em torno do piano e cantava com animação. "- Conheces esta, Birdie?", e os seus dedos finos
deslizavam pelas teclas.
Parecia que estavam sempre a rir naquela casa, ou a contar histórias. A família assemelhava-se a um exército; ele amava vê-la reunida. Havia o avô Brid-es,
com o cabelo branco como a neve, que se referia ainda aos ianques como "estes bastardos arrivistas", e que, sabia Matthew, tinha por conta uma rapariga em Hopewell.
"- Não deves fumar, Matthew" - dizia sempre o avô Bridges, com um charuto na mão. "- Faz mal ao fígado e aos pulmões. Atenção, filho, digo-te isto para teu bem."
A sua pronúncia era tão espessa que se podia cortá-la à faca.
- O papá é um sulista profissional", - dizia a mãe de Matthew, e o velho volvia, depois de agitar as sobrancelhas brancas. - A propósito, quando é que está pronto
esse assado?" - como era bela e abundante a comida servida na velha casa. - "- Não existe nada melhor, não só os frangos acabados de sair do forno, ou os assados
ressumantes de sumos vermelhos como sangue, ou as batatas doces, os nabos, as ervilhas verdes e brilhantes e os pãezinhos quentes. As tias, por seu lado, pareciam
possuir as suas
próprias especialidades culinárias. A tia Chrístine,
com o seu saboroso pão de trigo, tostado e dourado no exterior e que, mal se trincava, era macio que nem uma delícia, enquanto a quentura se escapava
numa súbita lufada de vapor. A tia Isabel, que fazia ilhas flutuantes com morangos e enormes icebergues de creme branco batido. A tia Lo, que deixava
boiões de compotas de laranja sempre que vinha de Tallahassee. Cada uma trazia qualquer coisa, cada uma dava qualquer coisa, como se uma oferenda de amor; não se
tratava de presentes de obrigação, como as dádivas falsas de famílias vulgares. "Espero que te agrade o merengue, Sally", dizia a tia Marta M., e o tio Rufus beijava
a mãe no rosto e afirmava: "- Ela passou quatro horas na cozinha, ontem, Sally; a casa parecia um alto forno." E a tia Marta M. volvia:
"- Ora, Rufus, bem sabes que adoro fazer doce." Era uma família de beijoqueiros; Matthew amava-os a todos, individual e colectivamente, mesmo o Simmie, que tinha
uma doença de pele e mentia frequentemente sobre as transacções comerciais que efectuava no Oeste. Ele gostava da atmosfera caloorosa da família, das histórias da
família, das suas pequenas manias, dos seus pequenos segredos, como ter uma tia chamada Marta M., e outra chamada Marta L., e dois primos com o nome de James, tratando-se
um por Jimbo e o outro por Jamey; chamava-se à avó Anson "M. Designação que todos os parentes sabiam significar "mãe querida", mas que as visitas não conheciam.
Amava, também, saber que a família constituía uma vasta rede que tinha como limites Sacramento, a oeste, e Allentown, Pensilvânia, a norte, e as histórias que cada
um tinha para contar sempre que todos se reuniam.
Lembrava-se de se ter sentado um dia, debaixo da mesa da sala de jantar, com a prima Rita. Chovia, e os adultos conversavam e riam na sala de estar. A toalha da
mesa isolava os dois, como numa caverna; Matthew ouvia a chuva bater na janela da sala de jantar e o estore balouçar. A prima, com cabelos negros escorridos e franjados
e olhos azuis, murmurou na obscuridade: "- Bem, trouxeram-na da fazenda porque os rapazes faziam coisas com ela, Mattthew De olhos dilatados, perguntou: "- Que coisas,
Rita?" E Rita corara bruscamente. Tinha 13 anos, um ano mais que Matthew. "- Bem, não sei se a tua mãe quer que saibas já de tais coisas."
A mãe morreu em Agosto. Recordava-se do funeral: chapéus-de-chuva pretos, mas não chovia. Não era como nos filmes. Lembrava-se da sensação de desapontamento
que experimentara. O sol brilhava intensamente naquele dia, em Glen City; fazia calor, e os chapéus-dchuva protegiam-nos dos ardores solares; a poeira saltava para
as pernas negras dos homens que transportavam o caixão e o pai chorava; as lágrimas misturavam-se com a poeira, no seu rosto, manchando-o. Matthew não chorou. Pensava
sômente: "Não deviam trazer chapéus quando não chove."
O perfume da lavanda flutuava por toda a casa silenciosa. Ouviu o pai chorar na biblioteca. Entrou. A porta, lubrificada com óleo de linho, abriu-se sem
ruido. A casa estava imersa em profunda quietude. Não se lembrava de qualquer outra vez que a visse mergulhada em maior silêncio. O pai voltara a cabeça para que
Matthew não lhe pudesse ver as lágrimas. "- Quero ser advogado", disse o jovem. "Como o pai." Este inclinou a cabeça e não respondeu, o rosto manchado pela poeira
das ruas da cidade no trajecto para o cemitério. Matthew perguntara-se se a mãe fora para o Céu.
Parecia que a família era menos numerosa agora. A casa não retumbava com cantos e risos. Sim, tinha-se a impressão de que não havia tantos tios e tias, primos
e primas como antes. A velha casa continuou imersa no silêncio e mesmo o perfume da lavanda se esvaeceu tempo depois. Não restou senão o aroma do óleo de linho,
o perfume das magnólias e o cheiro do suor das criadas. A família não contava já. Agora eram as raparigas que ocupavam a sua solidão. Lembrava-se do dia em que começara
a aprender coisas sobre raparigas. Sim, recordava-se desse dia, tinha ele 16 anos.
Sentado na poltrona, os ombros descaídos, a cabeça curvada, o pai parecia um velho aos 54 anos. Matthew ficou diante dele, de pé, com o su'eater branco da
escola marcado a laranja e negro com as iniciais de Glen City, direito que adquirira por fazer parte da equipa de natação, os ombros largos, o rosto fresco, com
o vigor da juventude. Encararam-se.
"- Ainda queres ser advogado?", - perguntou o pai.
"- Ainda, senhor."
"- Então tenho de prevenir-te da reputação que granjeaste nesta cidade."
"- Não sei a que se refere, senhor."
"- Tu sabes a que me refiro, Matthew."
"- Não, senhor, não sei."
"- Não me venhas com a "senhoria" por tudo e por nada, filho", disse o pai. "Fiz a mesma coisa quando tinha a tua idade, nesta mesma sala, e o meu pai provàvelmente
procedera da mesma forma quanto ao meu avô, de modo que uma longa linha de Bridges se acostumaram a este género de tratamento e não o sentem."
"- Bem, senhor, eu..."
"- Tenho, nesta cidade, um amigo chamado Orvule Kennedy, pai de uma jovem cujo nome é Hellen Kennedy; suponho que este nome te diz qualquer coisa. Com efeito,
eu e o Orville temos partilhado o mesmo escritório de advocacia nos últimos vinte e cinco anos; tens conhecimento deste facto, filho?"
"- Sim, senhor."
"- Bem, o Orville disse-me que tu, meu honrado filho, que possuis a mania da "senhoria", costumas encontrar-te regularmente com a filha, e deixas a pobre
rapariga num estado de grande esgotamento. É verdade, filho?"
"- Não sei se ela está esgotada ou não, senhor."
"- Refiro-me às alegadas intimidades entre vós, filho, e não ao estado de saúde dela."
"- Conheço a Hellen muito bem, senhor."
"- Sim, no sentido bíblico, creio. Acontece que o Orville é meu amigo. E meu sócio."
"- É pena."
"- Que queres dizer com "é pena"?
"- É pena que ele seja seu amigo. E sócio. Mas não sei que tenha isso que ver com a Hellen. Ela gosta de mim."
"- Parece evidente", - volveu o pai com secura.
"- Sim, senhor, também me parece que sim."
"- Mas acaba com isso."
"- Porquê?
"- Para começar, o meu sócio Orville não gosta. A Hellen é séria e tu não."
"- Eu..." -
"- Não o negues. Se não fosse a Hellen, seria a filha de outrem. Ela é uma óptima rapariga, filho, e não se comportaria assim se não gostasse de ti. Eis
a primeira razão. A segunda, é que a reputação que tens granjeado não te vai ajudar absolutamente nada quando iniciares a tua carreira. Assim, acaba com isso."
"- Não, senhor."
"- Como?"
"- Não tenciono instalar-me no vosso escritório e não tenciono acabar com a Hellen ou com qualquer outra rapariga."
"- Como?
"- Sim, senhor."
"- Talvez não me tivesses compreendido."
"- Compreendi, senhor."
"- Não te estou a fazer um pedido, filho."
Matthew fitou o pai e declarou:
"- Tenho dezoito anos."
"- Que queres dizer com isso?"
"- Pensei que o pai gostaria de saber."
"- Sei muito bem que tens dezoito anos e sei também que foste admitido em Harvard e que partirás para Boston no Outono. Portanto, ainda cá ficas no Verão;
espero que o teu comportamento seja impecável a partir de hoje. E que diabo tinhas em mente quando afirmaste que não tencionavas instalar-te no nosso escritório?"
"- Não, senhor."
"- Não senhor, não senhor, o quê?"
"- Senhor, não tenciono exercer a profissão em Glen City."
"- Porquê?
"- Creio que não gosto da cidade, senhor."
"- Porquê?"
"- Bem, penso que seria preciso estar aqui até à meia-noite para enumerar todas as minhas razões."
"- Não tenho pressa. Podes dispor do tempo que quiseres", - volveu o pai.
"- Tenho um encontro combinado", - respondeu Matthew.
"- Com a Hellen?"
"- Sim, senhor."
"- Porque não gostas de Glen City?"
"- É uma cidade muito pequena."
"- É uma boa cidade."
"- É demasiado fria."
"- Os Invernos aqui são suaves como..."
"- Refiro-me às pessoas."
"- O povo é afável."
"- Não. A cidade transformou-se. Não é o que era dantes."
"- Como era dantes, Matthew?"
"- Quente, excitante e... viva. Sim, suponho que viva."
"- Crês encontrar melhor ambiente noutra parte?"
"- Posso procurar, senhor."
"- Estou velho", disse o pai de Matthew, bruscamente, sem razão aparente. O filho fitou-o por um momento e depois dirigiu-se para a porta.
"- Tenho de ir. Estou atrasado."
Abriu a porta.
"- Sinto falta dela, Matthew", declarou o pai. "Não deves pensar que não sinto falta dela também, Matthew."
O pai morreu em Agosto, no mesmo mês que levara a mãe. Morreu com um cancro e enterraram-no ao lado de Sally Brídges, no pequeno cemitério da cidade, num
dia soalheiro e poeirento. Matthew viu os tios e as tias pela última vez, no funeral. Todos pareciam diferentes nesse momento: estranhos, corteses ("Estamos desolados,
Matthew, profundamente desolados. Compreendemos bem a tua dor"), estranhos, corteses, com corteses sorrisos de compaixão. O tio Jeff envelhecera e não parecia o
mesmo hómem cheio de vida. Havia rugas em redor dos seus olhos. Os primos de Matthew eram adultos agora. A Rita estava bastante bonita, maravilhosa, mas não tanto
como naquele dia em que, debaixo da mesa da sala de jantar, os cabelos negros escorridos caindo sobre as costas, os olhos azuis bem abertos, contara, num murmúrio,
a intriga amorosa que desabrochara no seio da família. Estranhos, todos estranhos, que acolhera com uma calma notável, sem uma lágrima. Não, nem uma lágrima no rosto
de Matthew Anson Bridges. Mesmo quando a Birdie, com um vestido negro de luto carregado, abriu a bolsa de seda preta e retirou um lenço amarelo, ele não chorou.
Não queria chorar. Estavam todos em volta da sepultura aberta enquanto faziam descer o caixão à terra seca e pedregosa: uma família reunida pela última vez. A tia
Christine deixou tombar uma flor na cobertura negra e luzidia do caixão. A terra começou a cair na sepultura. Matthew manteve-se de cabeça baixa, os olhos secos.
Um pouco mais tarde eles dispersaram-se como folhas mortas levadas por um vento forte. Compreendeu que não mais os veria.
Detestou Harvard e, contudo, amou-a. Os seus sentimentos quanto à escola eram muito semelhantes aos que votava a Boston. Escolhera Harvard devido à sua reputação;
sabia bem que era snobismo, mas sucumbira à tentação de se poder intitular "um homem de Harvard", e, todavia, sabia também que Harvard possuía a melhor Faculdade
de Direito do país. Detestava a escola porque ela exibia o seu snobismo como uma gravata vistosa sob um fato imaculado, sem parecer dar-se conta de que esta fachada
brunida e sem rugas não tinha mangas. Sentia o mesmo em relação a Boston. Amava passear-se pelos Comuns e atravessar o vasto rectângulo onde os pombos assustados
se lançavam num voo súbito, batendo as asas com grande ruído, mas abominava a estupidez dos encontros no Plaza pela simples razão de que toda a gente se reunia aí,
embora preferisse os encontros no metro. Amava as raparigas de Boston e o seu ar empertigado mas insinuante; porém, detestava a sua expressão sofisticada e a sua
insuportável pretensão ao cosmopolitismo. Amava as calçadas da cidade e as ruas onde ainda subsistiam os velhos pavios de gás equipados agora com lâmpadas eléctricas,
mas abominava a maneira como os Bostonianos se gabavam da sangria de século e meio atrás. Amava o rio Charles, que serpenteava, dourado, sob o sol invernal, amava
os renques sobrepostos das largas janelas que reflectiam a luz. Amava a sordidez da Praça Scollay e os teatros burlescos, cujos espectáculos eram mais picantes do
que quaisquer outros que já vira, mas detestava o espírito de contradição revelado pela disposição citadina que proibia que uma rapariga totalmente nua movesse um
músculo enquanto se encontrasse em cena. Na pronúncia dos Bostonianos escutava a energia vital da cidade, e a pronúncia tanto distinguia a debutante como a rapariga
de vida fácil, de nariz voltado para cima e saracoteio provocante. Acabou por conhecer Boston por intermédio das suas mulheres; as irlandesas dos bairros periféricos,
nos bares, e as judias requintadas da alta burguesia de West Newton, e as jovens da sociedade de Beacon Hill. Para si, elas assemelhavam-se todas, mas, ao mesmo
tempo, eram inexplicàvelmente diferentes: eram todas civilizadas, e muito bem. Contudo, simultâneamente selvagens; amava-as e detestava-as a uma vez, da maneira
como amava e detestava a escola.
"- Toda a gente, neste maldito lugar, fala pelo nariz", - dissera uma vez a uma rapariga na Rua Pinckney. Lá fora, a chuva lavava os pavimentos. O Inverno
em Boston. A cidade parecia morta. Matthew imaginava John Adams passeando-se por estas ruas. A cidade possuía uma particularidade: não se podia separá-la da sua
história.
"- Cheguei por fim a esta conclusão", - acrescentou ele.
"- Que conclusão, Matthew?"
"- Descobri porque toda a gente tem a mesma voz. Veja-se este velho professor de dicção, que tem uma sinusite, ou, melhor, um desvio da membrana nasal, que
o obriga a falar pelo nariz. Mas todos os nossos bons sabichões de Harvard, desejosos de imitarem o velho bastardo, adoptaram esta monstruosa deformação e reconheceram-na
como a pronúncia que convém ao homem de boa educação. Garanto-te, Betty, que daqui a vinte, a cinquenta anos, serei capaz de distinguir um licenciado de Harvard
no próprio momento em que o ouvir, pois que, do primeiro até ao último, falarão pelo nariz em vez de o fazerem pela boca."
Betty desatou a rir e murmurou:
"- Escutemos a chuva."
"- Está a criar-se uma geração de faladores pelo nariz", - declarou Matthew. "A boca de Harvard acabará por se tornar um órgão atrofiado, como o sexto dedo
do pé. Os de Harvard começarão a comer pelo nariz e a beijar pelo nariz, como os Esquimós."
"- Não amas a chuva?"
"- Por fim, a boca desaparecerá completamente da cara dos tipos de Harvard. Não restará, sob o nariz, senão pele lisa e reluzente. Emitirão uma espécie de
uivo através das narinas alargadas e tudo o que dirão terá um cheiro a muco."
Detestando as raparigas de Harvard e amando-as também, entrou na Faculdade de Direito em 1939, com a terceira nota mais alta da sua classe. Não fizera nem
um único amigo íntimo no campus, não se filiara em clube algum e não criara uma única amizade na Faculdade. Mais tarde, pensaria em Boston como numa mulher, sobretudo
porque só lá conhecera mulheres. Perguntou-se certa vez porque não se ligara mais com as pessoas com quem se dera. Então, acudira-lhe à mente a imagem de Birdie
tirando aquele lenço amarelo da bolsa de seda preta, e sentiu vontade de chorar, sem saber porquê. Pensou: "Que inferno!"
Neste momento, na cidade de Nova Iorque, no dia de Natal, deitado na cama com as mãos atrás da nuca, escutava a respiração suave de Kitty Neweli e pensava
de novo em telefonar a Amanda. Desejava ouvir a voz dela. Era singular, mas tinha a impressão de que a conhecia melhor do que a qualquer outra pessoa no mundo. Mas
não se mexeu e, por fim, acabou por adormecer.
Na véspera do Ano Novo decidiu definitivamente telefonar à jovem. Ligaria para as Informações e discutiria com a telefonista até que ela desencantasse o
número de Amanda em Otter Falls. Dirigia-se para o aparelho quando Kitty entrou no quarto. Ela trazia sômente um saiote, cuja cintura elástica puxara sobre os seios,
de modo que parecia uma camisa de dormir que chegasse um pouco abaixo das ancas.
- Então - disse ela -, vamos pinar, sim?
- Porquê?
- É a véspera do dia de Ano Novo. Temos de ficar levantados até tarde.
- Muito bem - anuiu ele.
- Mas não fazemos exercício agora.
- Prometo.
- Necessitamos de repouso.
- Eu sei. Que é isso que trazes vestido?
- A última criação, meu querido - respondeu Kitty. - Espero que gostes.
- É um pouco ousada - volveu Matthew.
- Na verdade, é.
- E reveladora.
- Pensas que sim?
- E bem provocadora, com os diabos!
Kitty largou uma das suas gargalhadas sensuais, voltou-se como uma dançarina e ergueu bruscamente o saiote por trás e, rindo ainda, correu para a cama. Às
11.30 juntaram-se à mole da Broadway. Tinham acordado às 10 e bebido metade de uma garrafa de Scotch antes de saírem para a rua. Não regressaram ao apartamento antes
das 4.30, e o avião de Matthew devia descolar às 9. Ele pôs Kitty na cama e sentou-se numa poltrona, junto da janela, para observar o romper do dia em Nova Iorque.
Era a primeira vez que via o nascer da aurora na cidade. Às 7 pensou em Amanda e decidiu de novo telefonar-lhe, mas compreendeu que, em Minesota, se estava ainda
a meio da noite. Vestiu-se com rapidez, sem despertar Kitty. Antes de sair, sacudiu-a docemente.
- Eh!... - disseele.
- Vais partir, Matthew? - perguntou ela ensonada.
- Sim.
- Toma cuidado contigo, por favor.
- Sim. Faz o mesmo, quanto a ti.
- Matthew?
- Diz...
- Foi agradável, não é verdade?
- Sim, Kitty. Muito.
Essa noite passou-a já em Londres.

Pensou constantemente em Amanda durante todo o tempo em que esteve na Inglaterra. Quase fez uma chamada transoceânica no dia em que descobriu o motivo por
que se encontrava na Europa, no dia em que soube que os Aliados preparavam uma invasão maciça da costa francesa, um ataque denominado em código "Operação Overlord".
Deu-se conta de que, mesmo que lhe telefonasse, não poderia referir-se aos planos de desembarque, e perguntou-se então porque tivera vontade de comunicar com ela.
"Bem, Matthew", disse de si para si, "sabes, sem dúvida, que existe a possibilidade de seres morto."
Sim, admitiu, encontrar a morte era uma possibilidade distinta, mas não viu relação entre este facto e a doce e loira Amanda. Não viu, na verdade. Supôs
que uma ou outra das suas tias ficaria, algures, ligeiramente desolada se recebesse um telegrama da Secretaria da Guerra, mas sabia, sem sombra de dúvida, que para
a pequena Amanda Soames tal eventualidade não teria grande importância. Então, porque experimentava este desejo de telefonar a fim de lhe comunicar que dentro em
breve se encontraria metido no meio de uma guerra a valer?
Oh, porque pensava ele com tanta constância na pequena Amanda Soames, já que ela declarara peremptôriamente que não era capaz de suportar a sua presença?
Bem, não pensava nela assim com tanta frequência. Tratava-se de um exagero. Mas a imagem da jovem insinuava-se uma vez por outra na sua mente, uma imagem bem nítida,
e esta imagem era sempre a colhida no quarto de Gillian. Porque a vigiara tão estreitamente naquela noite, porque se apercebera por instinto do que ia fazer o marinheiro,
porque os seguira pelo corredor, porque impedira que o marinheiro realizasse o que desejara, porque se sentira o anjo da guarda de uma rapariga que o desprezava?
Era por isso que este caso parecia totalmente estúpido: Matthew Anson Bridges, que conhecera inúmeras mulheres mais ou menos encantadoras desde aquela primeira vez
em que, na colina que dominava a cidade, se estendera na relva com Sue Ellen ("- Não as rasgues, Matthew! Custaram-me um dólar e meio"), Matthew Anson Bridges, que
as conhecera a todas, foi incapaz de conquistar e de afastar da sua mente Amanda Soames, que não conhecera de modo algum. Então, porque persistia nesta ideia tão
idiota?
"A promessa", pensou.
Sim, a promessa. Compreendera por intuição o que experimentaria com Amanda, oh, esta inocente doçura de mel, a imensa e preciosa promessa do que podia ser
Amanda Soames, que seria, quando ela se entregasse espontâneamente e sem pudor. Era o que o obsídiava, esta promessa. Mas não a promessa apenas de um par nos prazeres
do amor. Oh, não. Desejava mais de Amanda Soames; mais, mais. A promessa ia para além de um momento fortuito no leito, prolongava-se num mundo encantado de calor
e de risos.
Tinha uma coisa como certa. Sabia que, se sobrevivesse à invasão da França e à marcha sobre a Alemanha, se subsistisse após todas as provações, possuiria
um dia Amanda Soames. Ela entregar-se-lhe-ia um dia, completamente, espontânea, bem consciente do que fazia. Matthew desejava que a guerra terminasse muito em breve.
Desejava que a invasão começasse. Queria voltar à doce Amanda porque, de um modo que não conseguia compreender com clareza, Amanda Soames se tornara a mulher da
sua vida. Jamais lhe escreveu e jamais falou dela fosse a quem fosse. Não obstante, ocupava constantemente os seus pensamentos, sim, com os diabos, constantemente;
lá longe, na Pátria, ela esperava-o.
Estava com ele quando Matthew atravessou o Canal, nos princípios de Junho, e desembarcou na praia Omaha, se lançou sobre a areia e ouviu os gritos de terror
dos camaradas apanhados pelas armadilhas e os obstáculos de Rommel e pelo fogo cruzado das metralhadoras dissimuladas nas colinas. Acompanhou-o ao longo de mil sacrifícios
e durante a tomada de Bayeux e mais tarde ainda quando se bateram através do campo inundado até à floresta de Certoym e à cidade de Carentan. Esteve com ele no decorrer
de intermináveis combates, dia a dia, para ganhar algumas polegadas de solo francês, esteve com ele na marcha para o Sul, enquanto caía cidade após cidade: La Haye-du-Puits
e o fogo surdo dos tanques alemães Tiger, Coutances, Avranches, Agosto e o cerco de Falaise e a triunfante libertação de Paris. Depois, o avanço regular sobre o
Reno ("- Chacina todos esses canalhas alemães que vires pela frente", disse o coronel), Ubach e a mais violenta barragem de artilharia alemã que jamais vira. Tinha
as botas encharcadas e os pés doloridos, devorados por feridas.. Não havia então lugar algum onde um homem secasse os pés? "Amanda, tenho constantemente os pés molhados,
penso sem cessar em ti, amor, Matthew." As cartas que jamais enviara e nunca escrevera. A ferocidade da súbita ofensiva alemã nas Ardenas. O Natal diante de Bastogne,
onde se tentava desfazer a pressão sobre a 7.a divisão aerotransportada, envolvida num cerco. Noite silenciosa, noite de festa. Recordou-se da última noite de Natal
e do corpo dourado de Amanda na grande cama de cobre, Janeiro, Amanda. As cidades alemães caíam râpidamente, uma após outra, a França e a Bélgica eram apenas memórias
agora, fazia um frio cortante. "Odeio os nazis, Amanda, odeio-os todos." Amanda "Desejo-te, Amanda." A Primavera e, de súbito, o ar mais doce. Um malmequer crescia
na lama. "Gostaria de passear contigo pelo Centro Rockefeller, gostaria de ver as tulipas." O dia V, o dia V! Bebeu à saúde da jovem numa taberna sórdida e semidesmoronada,
pensando: "Amanda, vou voltar à' Pátria. Amanda, com a breca, vou voltar à Pátria."

Agora vinham, depois não vinham. Amanda desejava que eles tomassem uma decisão firme. Que confusão! Como se todos os problemas se precipitassem no mês de
Julho, como num funil, onde se detinham na parte mais estreita. A entrega dos diplomas era, naturalmente, o grande acontecimento, e a maior parte dos outros problemas
pareciam daí resultar: o livro de curso, o distintivo da Universidade, a toga e a beca, os convites. Então, porque não se decidiam eles? Decerto que Minesota ficava
muito longe de Connecticut, mas nem todos os dias uma filha se graduava. Explicara um cento de vezes que teria de reservar os seus lugares, pois que a cerimónia
se efectuava ao ar livre e as cadeiras de que se dispunha não eram muitas. A maioria dos estudantes tinham famílias numerosas, dissera-lhes, e não era justo que
reservasse lugares que não seria ocupados. Não compreendia as hesitações dos pais. Nem tão-pouco as de Penny. Era então porque tinha de se deixar a criança aos cuidados
de uma vizinha? Não, não conseguia compreender, e a última carta da Penny nada fizera para esclarecer a situação. Bem pelo contrário, apenas a tornara mais confusa.
Penny escrevera:

Minha querida Amanda,

Como é maravilhoso viver o dia do final de curso, ter 22 anos e penetrar, sem responsabilidade alguma, num mundo novo...
Estou sentada no relvado e a Kate corre pela erva. Ela rola na terra e tem o rosto todo sujo, mas, pelo menos, não chora. Desejava bastante assistir à cerimónia
da tua graduação. Consegues imaginar que a Kate fará 3 anos em Novembro? Como o tempo passa! Revejo-te na tua cadeira alta, tinha eu 5 anos. Erguias-te e eu dizia:
"Senta, Mand!" E tu volvias-me: "levanta, Mand!" Lembras-te? Creio que não. Tenho-me recordado de certo número de coisas idiotas ultimamente. Suponho que a mãe costume
escrever-te. É tão bom haver de novo contacto! Este Inverno foi longo e' aborrecido.
Que pena nao voltes para casa depois de receberes o diploma! Porém, estou certa de que passarás óptimos momentos no campo. Onde disseste que era? Torrington?
Fica em Connecticut? E quais são exactamente as funções de uma conselheira musical? Bem, não importa, o essencial é que faças alguma coisa da tua vida, e, este,
é um bom começo. Sempre tocaste piano maravilhosamente. Lembras-te da primeira vez em que o Frank me veio visitar? Tocavas piano na sala de estar e eu descobrira
uma malha caída no meu último par de nylons Oh, que aborrecimento! Surpreende-me não o ver voltar. Mas o' certo é que jamais v'oltará. A cerimónia da entrega dos
diplomas efectua-se ao ar livre?
Oh, minha querida Mandy, desejo-te toda a felicidade do mundo. És tão querida! Já alguma vez to disse? Sei que não te agradam as efusões sentimentais, mas
o Frank e eu falámos muitas vezes em ti em termos calorosos. A cerimónia decorrerá ao ar livre? Que maravilhoso deve ser, todas de branco!
Irás de branco, não é verdade? Como gostaria de me encontrar aí! Mas sabes bem que será difícil deixar a Kate. A menina é muito pequena e eu sou a mãe dela.
É muito curioso ser mãe, Mand. Um dia hei-de explicar-te. Quando casares, talvez. Mas então terás filhos teus, não é verdade? E não precisarás de conselhos de uma
irmã velha e decrépita. Sabes? Sinto muitas saudades tuas e das nossas conversas. Últimamente recordo-me com tanta clareza das coisas! Por vezes fico sentada durante
horas a rememorar certos episódios e tudo me surge com tamanha nitidez que me parece que estão de novo a desenrolar-se. Por vezes conto à Kate o' que tu e eu fazíamos,
mas, claro, ela é ainda uma criança, e é muito diferente do que termos realmente alguém a escutar-nos. O Frank era um bom ouvinte. Lembras-te dele? Por vezes tenho
a impressão de que sou 'a única que se recorda do Frank. E a Kate, decerto, porque ela nasceu então. Tu compreendes o que quero dizer. um nascimento é uma coisa
tão íntima! Estou certa de que ela se recorda. Mas mais ninguém.
Be, vou levar a Kate para dentro, a fim de que durma a sesta, agora. Sabes, ela ainda dorme de tarde. Mand querida, por favor não te inquietes. Creio que
a mãe e o pai irão assistir á cerimónia. Trata-se apenas de os persuadir de que tudo correrá bem em casa enquanto se encontrarem ausentes. Tu conhece-los: preocupam-se
pela mínima coisa. Tive uma ligeira constipação um destes dias. Penso que não poderei ir. Mas veremos, Amanda. Estarás encantadora, nesse dia, eu sei.
Tua irmã,

Penny.

Amanda releu a carta no seu quarto inundado pelo sol de Junho. Estava sentada na borda da cama, os cabelos louros banhados pela luz cintilante. Trazia um
roupão azul e mordiscava o lápis, a cabeça inclinada sobre a carta. Por fim, colocou o bloco no regaço e escreveu: "Querida Penny." Porém, pousou imediatamente o
lápis e releu a carta da irmã pela terceira vez. Era bem o estilo de Penny, mas, ao mesmo tempo, não era. A carta parecia formular um cento de perguntas que não
exigiam resposta, parecia aludir a certos assuntos sem na verdade os abordar, parecia divagar sem chegar a parte alguma. Não obstante, fora a Penny que, sem dúvida,
escrevera a carta, mas, por outro lado, dava a impressão de ter sido redigida por uma estranha. "Tenho-me recordado de certo número de coisas idiotas últimamente.
Suponho que a mãe costuma escrever-te." Sim, a mãe escrevera, mas não falara das recordações idiotas da Penny; porém, a que espécie de coisas se referia ela? Teriam
as duas frases ligação? A referência à mãe teria alguma coisa que ver com a declaração precedente? Ora vejamos: que existe de tão inqui tante em recordar coisas
idiotas? Decerto que ninguém dissera que algo não corria bem... mas... eis... era essa a impressão que sentira ao ler a carta... ela dava a entender que... mas não,
era uma carta perfeitamente inocente, uma lengalenga terna. Todavia, Amanda sentia-se inquieta. E o facto de que não conseguia descobrir as raízes desta inquietude
só aumentava a sensação que experimentava. Pousou o lápis e dirigiu-se para a janela.
Ouviu o telefone retinir no andar de baixo e pensou nesse momento: "É melhor fazer uma chamada para casa. Talvez as coisas não corram bem por lá." Encaminhava-se
para a porta quando ouviu uma voz chamar: "Amanda Soames! Telefone !" Apertou o cinto do roupão e entrou de pés nus no corredor. Desceu a correr os três lanços de
escada que conduziam à sala de recepção. levantou o auscultador, puxou para trás da orelha a madeixa que lhe tapava o ouvido e disse:
- Está?
- Amanda?
- Sim.
- Bom, sempre o consegui.
- Que é que conseguiu? - perguntou, aborrecid - Quem fala?
- Ganhei a guerra.
- Oh, que interessante! quem...
- Matthew Bridges.
Um silêncio prolongado.
- Amanda?
- Sim?
- Quero dizer-lhe uma coisa.
- Vá, explique-se.
- Amo-a.
- Quê?
- Amo-a.
- Que disse? Importa-se de me dizer
- Amo-a.
- Oh, não seja ridículo.
- Encontro-me em Nova Iorque. Dirigir-me-ei para Talmadge logo que consiga alugar um carro.
- Porquê?
- Para a ver, evidentemente.
- Não se incomode.
- Procurá-la-ei às oito.
- Não posso sair - mentiu ela. - O regulamento.
- Não me intruje, Amanda. É finalista.
- Muito bem, então. Não o desejo ver.
- É pena. Tenho inúmeras coisas para lhe dizer.
- Não quero ouvir seja o que for que...
- Oito horas. Ponha um vestido bonito.
Desligou.
- Agora escute... - começou ela, mas a ligação fora interrompida. Mirou o auscultador. "Ele é maluco", murmurou. Encolheu os ombros. "Ele é maluco de verdade."
E, mal proferira estas palavras, corou; furiosa, repôs o auscultador no descanso e correu para o quarto. Atirou a porta com violência e dirigiu-se para a cama; sentada
na borda do leito, com as mãos enclavinhadas uma na outra, no regaço, pôs-se a olhar para a porta fechada.
Às 8 horas precisas bateram.
- Está aberta - disse.
Uma caloira de saia e sweater empurrou a porta e encostou-se à ombreira, sorrindo:
- Alguém pergunta por ti, Amanda. Um militar.
- Obrigada - volveu ela. - Fazes o favor de lhe dizer que descerei dentro de um minuto?
- Ele tem o peito coberto de condecorações - declarou a caloira.
- E no cabelo não tem fitas? - respondeu Amanda, lançando um olhar furioso para a rapariga.
- Fecha a porta, sim?
Dirigiu-se para o espelho e examinou-se. "Bem", pensou, "cá o temos." Ele viera realmente. E agora, que fazer? "Bem, desceremos a escada, fitá-lo-emos com
um sorriso glacial e diremos: "- Foi muito gentil da sua parte dar-se à maçada de vir cá, major Bridges. Provàvelmente, talvez seja agora o coronel Bridges ou mesmo
o general Bridges. Foi muito gentil em se ter dado ao incómodo de cá vir, general, mas receio que tenha apenas cedido a um impulso gratuito. Para lhe ser franca,
não sinto vontade alguma de perder um minuto sequer na sua companhia, e lamento muito que as nossas relações do passado lhe tenham dado a ideia do contrário. Que
me lembre, na verdade, não lhe ofereci o mais leve encorajamento, e não tenciono oferecê-lo agora. Assim, se me permite..." Bem, era isto mesmo o que lhe ia dizer,
era esta, exactamente, a maneira de esclarecer as coisas. Alisou as pregas da saia branca, puxou a blusa, arrepanhou levemente as faces e desceu.
Ele não a viu entrar na sala. Estava sentado no sofá, na outra extremidade face à porta, como se embaraçado por esperar uma rapariga no dormitório de uma
Universidade. "Todas estas patetices de estudantes bolem-me com os nervos", dissera uma vez no carro do Brian. "Bem, é pena, general Bridges, mas ninguém lhe pediu
que viesse cá. Ele parece mais velho", pensou Amanda, "não, parece apenas mais maduro; mas tem as têmporas grisalhas !" E pela segunda vez na sua vida perguntou-se
o que era a guerra; a primeira fora quando da morte do cunhado; agora perguntava-se o que a guerra fazia aos homens; porém, afastou da mente este princípio de compaixão
curiosa Ao aproximar-se, notou que ele trazia uma folha dourada de ácer no colar. "Ainda é major", pensou, e teve a sensação de que obtivera o primeiro triunfo.
Ele ergueu-se bruscamente, como se se apercebesse da presença da jovem, num movimento rápido e ágil do fundo sofá. Não se recordava que ele fosse tão alto. Parecia
mais magro e mais endurecido; reparou nas fitas das condecorações pregadas no dólman e perguntou-se onde as teria ele ganho. Depois, disse de si para si: "Importa-me
lá bem!" De súbito, ele sorriu, a boca um pouco de través sob o mesmo estúpido bigode negro. "Por que diabo não o corta ele? Se me tentar beijar, ferro-lhe um bofetão
que o deixarei inanimado."
- Olá, Amanda! - disse Matthew docemente.
- Olá! - respondeu ela; esperou que a sua voz fosse fria, distante e acerada; porém, ao notar a intensidade dos olhos dele, desviou a vista.
- Parece uma noiva.
- Ah, sim? - volveu ela com secura.
- Sim - disse ele. - Vamos, então?
- Major - começou ela, com uma voz lenta e distinta. - Realmente, não sei o que...
- Matthew - interrompeu ele.
- Como?
- Matthew.
- Matthew - recomeçou ela. - Realmente, não sei o que tem em mente ou que estranha obsessão se apoderou...
- Conversaremos no carro - replicou ele; tomou-a pelo braço e conduziu-a para a porta. O instinto de Amanda recomendava-lhe que se afastasse imediatamente,
porém encontravam-se outras raparigas na sala, observando-a. Assim, caminhou, rígida, ao lado dele, em direcção da porta da frente; desceram os degraus baixos e
largos e penetraram na álea; uma vez aí, ela tocou-lhe suavemente com o cotovelo e declarou:
- Não vou a parte alguma consigo, major Bridges. - Penso que deve compreender isto
- Matthew - volveu ele. - Então porque se vestiu?
- Queria que me apresentasse diante de si de roupão?
- Teria sido muito interessante.
- Estou certa que sim. Boa noite, major Bridges. - Voltou-se, a fim de seguir para o dormitório. Ele pegou-lhe no braço e fê-la girar, colocando-a face a
face consigo. Ela sentia a pressão dos dedos de Matthew na sua carne.
- Magoa-me - disse com frieza, e compreendeu que proferira a sua queixa num tom que evidenciava a sua impotência feminina. "Ora, não importa", pensou, e
repetiu: - Magoa-me. Deixe-me partir.
- Não.
- preciso que ameace sempre esbofeteá-lo?
- Oh, isso há-de passar-lhe.
- Largue-me o braço.
- Deixará o meu coração?
- Oh, já basta de disparates! Mal me conhece!
- Conheço-a muito bem, Amanda Soames - disse ele, libertando bruscamente o braço da jovem, fitandoa bem nos olhos. Ela ergueu os olhos para Matthew. Por
um momento, acreditou-o, convencida da absoluta firmeza da voz dele, confundida pela segurança que demonstrava.
- Não me agrada, sequer - redarguiu ela, sem desviar os olhos.
- Agradar-lhe-ei um dia.
- Não se continuar a comportar-se como um homem das cavernas... Não devia ter cá vindo. Porque o fez?
- Queria vê-la.
- Porquê?
-Porque a amo.
- Oh, acabe com tais disparates. Não sou criança nenhuma.
- Então reconheça que é verdade.
- Porquê?
- Porque nunca menti.
Ela acreditou também nesta confissão. De testa franzida, dirigiu-se, ao lado dele, para o carro, um Ford vermelho conversível, com a capota descida. Matthew
abriu a porta, a fim de lhe dar entrada, e ela deslizou pelo assento. Amanda esperava que ele a beijasse no momento em que entrasse no carro; porém, Matthew voltou
apenas a chave da ignição e perguntou:
- Que tal se formos jantar a New Haven? Sugiro uma refeição italiana.
- Muito bem.
- Crê que sentiremos muito vento se conservarmos a capota descida?
- Não. A noite está maravilhosa.
- Você é uma rapariga encantadora, Amanda.
- Oh, por favor.
- Trouxe comigo a sua imagem por toda a Europa e agora...
- A minha imagem?
Ele bateu na testa.
- Aqui. E você é ainda mais bonita do que eu imaginava. Sou o homem mais feliz do mundo.
Ela sentiu-se de súbito bastante perturbada. Não desejava encorajar uma conversa deste género, mas sempre que lhe pedia que mudasse de assunto ele fazia
simplesmente observações sobre o mesmo tema. Por outro lado, se ficava calada, ele considerava o seu silêncio uma aprovação e tornava-se cúmplice contra vontade
desta espécie de jogo que ele jogava só. Assim, decidiu falar de outra coisa.
- Onde esteve você?
- Sentiu saudades minhas?
- Não. Mas onde esteve?
- - Porém, eu senti saudades suas - disse ele. - Dia e noite.
- Eu não sabia sequer que você se encontrava vivo antes de me telefonar esta manhã.
- Receou que eu tivesse morrido em combate?
- Nunca pensei em tal.
- O pensamento foi muito penoso?
- Você torce deliberadamente tudo o que digo.
- Sou advogado, minha querida - volveu Matthew, sorrindo.
- Tento fazer-lhe compreender que não pensei uma só vez em si depois do nosso último encontro naquela noite de Natal.
- Ah, recorda-se então da última vez que me viu?
- Naturalmente! Porém, você não tinha nada que ver...
- Telefonei-lhe na manhã seguinte, mas acabara de partir. Falei com a Gillian.
- Não acredito!
- Mas é verdade! Amanda, afirmei já que nunca minto.
- Não me esquecerei desse facto. Porque telefonou?
- Como é óbvio, para falar consigo.
- A que propósito?
- A fim de lhe confessar que a achava muito bonita. Na verdade, estive prestes a ligar para Minezota.
- Porque não o fez?
- Dar-lhe-ia prazer?
- Não - redarguiu ela.
- Então ainda bem que não telefonei.
- É curioso, mas a Gillian nunca me mencionou tal coisa.
- Oh, vê-a ainda?
- Sim, sempre que me encontro em Nova Iorque. Porquê?
- Perguntei apenas.
- Acha-a atraente, não é verdade?
- Ela é muito atraente... Tem ciúmes?
- Decerto que não!
- Mas tem - volveu ele. - Que tal vai ela?
- Óptima - disse Amanda. - Você parece interessado.
- Estou somente interessado em si, Amanda.
- Creio que devia sentir-me lisonjeada.
- Atenção! Você está à beira de uma confissão.
- Que quer dizer?
- Bem, é evidente que não se sentiria lisonjeada se qualquer gorila se tivesse apaixonado por si. Assim, já que tal acontece em relação a mim, posso automàticamente
concluir...
- Um bom advogado não deve jamais procurar conclusões apressadas - replicou ela.
- Onde ouviu um disparate desses?
- Li algures.
- Um bom advogado deve sempre intervir inopinadamente a fim de tirar conclusões. No momento em que uma testemunha faz uma revelação curiosa ele deve, sem
demora, tentar abalá-la.
- Não sou uma testemunha, graças a Deus.
- Contudo, considero as suas revelações bastante curiosas.
- Você é um bom advogado?
- Bom, não. Excelente. Porquê? Preocupa-a o meu futuro?
- Claro que não.
- Aliás, não vale a pena. O futuro não me causa preocupações. Antes de morrerem, os meus pais cuidaram de me deixar de que viver com largueza.
- Bem, não me interessa absolutamente nada o seu futuro - disse ela com ar distraído.
- Não corremos o risco de morrer de fome, Amanda.
Ela fez por ignorar o significado desta declaração.
- Claro, se não chegarmos muito depressa a New Haven.
Um silêncio.
- Sabe? Vou abrir um escritório em Nova Iorque logo que seja desmobilizado.
- Quando?
- Dentro de poucos meses, creio. Tenho os pés em péssimo estado. O mal das trincheiras. Uma junta médica encarregar-sá do meu caso.
- Então não o enviam para o Pacífico?
- Não. Dar-me-ão baixa ao activo; e, como disse, vou abrir um escritório, a fim de começar a exercer imediatamente a profissão.
- Deve ser uma coisa apaixon ante.
- Sim. Ver-nos-emos todas as noites.
- 'Não me encontrarei nas proximidades de Nova Iorque - volveu Amanda, rindo.
- Onde estará então?
- Em Torrington.
- A fazer o quê?
- Aceitei um emprego como conselheira num campo de férias. Durante o Verão.
- Nesse caso, virei todos os fins-de-semana. E quando o Verão terminar...
- Quando o Verão terminar voltarei para Minesota.
- Não, não voltará, Amanda.
- Oh, mas sim. Vivo em Minesota.
- Costumava viver em Minesota.
- Ainda vivo em Minesota.
- Ficará no Este, Amanda.
- Claro - replicou ela, exasperada. - Está satisfeito? Quer que concorde com todas as coisas loucas que diz?
- Sim.
- Então muito bem. Não voltarei a Minesota, ver-nos-emos todas as noites e farei as cortinas do seu escritório. De acordo?
- É uma atenção delicada.
- Matthew, gostaria que não proferisse mais dis...
- Onde deseja viver quando casarmos? Prefere a cidade?
- Casarmos?!...
- Há pessoas que afirmam que os subúrbios são melhores para as crianças, porém...
- Crianças?! Nós nem sequer... Mal nos...
- Você é a minha noiva, Amanda - disse ele.
- Quem é a sua noiva?! Perdeu o...
- Você é a minha noiva. Não se esqueça. Se olhar para outro homem, quebrarei as pernas a tal infeliz.
Ela ficou calada por alguns momentos. Depois declarou:
- Quer fazer o favor de me conduzir de volta ao dormitório? Por agora, já basta. Quer fazer o favor...
- Não.
- Nesse caso, pare o carro, que voltarei a pé.
- Não.
- Matthew, pare este carro, por favor!
- Muito bem - volveu ele, e, de súbito, guinou para a direita, atravessou a orla cimentada da estrada e estacou na relva.
- Porque fez isto? - perguntou ela.
- Acedi ao que me pediu.
- Podia ter-nos causado a morte.
- De uma maneira ou de outra, viver sem o seu amor é estar morto.
- Deixe de falar assim!
- Porquê?
- Porque somos... não somos... nada do que você parece supor. E eu... eu não quero feri-lo, mas fala como se...
- Porque não quer ferir-me?
- Porque não gosto de ferir ninguém!
- Oh, você é...
- você é... Oh, que importa? Deixe-me descer.
- A porta está à sua direita - disse Matthew.
Amanda hesitou.
- Realmente, não pode acabar com esta conversa?
- Não. Amo-a.
- Mas...
- Você é a minha noiva.
- Não pertenço a ninguém. Por favor... vai fazer-me chorar. Por favor...
Matthew tomou-a docemente nos braços; ela ficou colada a ele, silenciosa, exausta, a mão na banda do dólman do companheiro. Não se mexeu quando ele a beijou
na testa.
- Tem fome? - perguntou Matthew.
- Sim.
- Eu também.
- Oh, cale-se - volveu Amanda.
- Porquê?
- Cale-se.
- Muito bem.
Ela repousava, imóvel, nos braços de Matthew. A noite estava quente, as estrelas pareciam pontos de luz fixa no espaço. Poucos momentos depois, a jovem afastou
o corpo e disse:
- Vamos jantar.
- Acredita que a amo?
- Não sei em que acreditar.
-Amanda...
- Não falemos por agora, Matthew. Sim? Tenho bastante fome, na verdade, e você fez-me zangar; neste momento, não sei o que pensar e preferia que não reatasse
a mesma conversa. Por favor, se... se... se você... - Não conseguia proferír mais uma palavra. - Se ....... experimenta por mim tais sentimentos, respeite, por favor,
os meus desejos. Alcancemos o restaurante, jantemos e conversemos sobre... sobre baseball ou outra coisa. Tenho o cabelo desarranjado?
- Você é muito bela - volveu ele.
Amanda voltou-se para Matthew no momento em que ele punha o carro em andamento. Muito docemente, respondeu:
- Obrigada.

Ela viu o filme muitos anos mais tarde. Milhares e milhares de instantâneos ligavam-se, a fim de mostrarem o processo da floração de uma planta, desde o
botão estreitamente fechado à flor desabrochada. Quando viu o filme, pensou: "Eis como tudo se passou. Eis como casaste." Mas fez recuar este pensamento: não queria
destruir uma recordação. Mesmo, já o não era, mas somente uma visão fluida, algo que uma jovem inocente vivera um dia.
Mas fora assim que tudo se passara, e ela sabia-o. Uma após outra, as imagens sucediame râpidamente no écran; nenhuma possuía qualquer importância em si
mesma, a diferença era imperceptível de uma para outra. Todavia, cada imagem separada era essencial ao desenrolar ininterrupto da sequência, cada volver imperceptível
contribuía para uma mutação de profunda intensidade dramática: a justaposição da lembrança de um inesquecível botão e de uma flor bruscamente desabrochada sob o
sol da manhã. "Eis como as pessoas se casam", pensou ela.
As únicas recordações bem nítidas eram apenas as da tarde em que ele telefonara e as da noite que se seguiu. Tudo o que se sucedera depois parecia gradual,
tão inexorável, tão inevitável, como aquela flor que descobria as suas pétalas para acolher a carícia do sol. A princípio, fora terrível. Discutiram, altercaram,
e Amanda voltou muitas vezes ao seu leito aniquilada pela crueldade de Matthew, chorando de desespero, jurando não mais voltar a vê-lo. Devia ter regressado a Minesota
em vez de aceitar o emprego no campo. Porque persistia ele em vir em cada fim-de-semana? Porque se deixara enredar por uma criatura tão impossível? Mas ele telefonava
a meio da noite, despertavam-na e ela dirigia-se, sobre a relva coberta de orvalho, ao escritório do campo, envolta no roupão, a fim de responder à chamada. Escutava
a voz que se desfazia em desculpas e volvia: "- Creio que é preferível não nos tornarmos a ver, Matthew;" por sua vez, ele respondia: - Amo-te, Amanda"; ao que ela
replicava: "- Sim, mas é impossível." E ele retorquia: "- Adoro-te, Amanda." E no fim-de-semana seguinte Matthew voltava com um braçado de flores. "- Apanhei-as
por acaso na estrada." A mentira era evidente, pois ele jamais chegava de mãos vazias. Dir-se-ia que Matthew acreditava que a sua presença não constituiria só por
si uma dádiva suficiente, que o amor que afirmava tinha necessidade de uma prova tangível. Discutiram interminAvelmente ao longo de todo aquele Verão. "- Não te
posso suportar", gritara ela certo dia. "- Odeio-te, odeio-te!" Mas continuou a vê-lo.
Devia ter regressado a Minesota no Outono. Mas aceitou um emprego numa escola de música, e viu Matthew quase todas as noites. Juntos, partiram à descoberta
da cidade e, ao mesmo tempo, acabaram por se descobrir um ao outro. Porém, nada houve de especialmente memorável nas suas actividades: percorreram a Quinta Avenida
em autocarros de dois andares, foram aos Cloisters, tomaram o ferryboat para Staten Island, fizeram o que fazem todos os turistas, os movimentos singulares dos estrangeiros
que tentam uma vida nova, com a indiferença com que experimentam um casaco chegado do alfaiate. Mas partilharam tudo - embora mais tarde ela não conseguisse recordar
o que tinham partilhado. O ateu da esquina da Broadway com a Rua Cinquenta e Sete, com a padiola coberta de panfletos anti-religiosos? "- Como vão os negócios?",
perguntara-lhe Matthew. "- Assim, assim", respondera o homem.
- A religião organizada ainda possui grande aceitação." Matthew sorrira num ar de motejo e dera-lhe uma palmada no ombro. "- Contudo, você acabará por vencer",
assegurara. "- Tenha fé." E Amanda desatara a rir, ao abrigo da aba voltada do casaco, enquanto Matthew a conduzia ràpidamente para longe do homem barbudo, atónito.
Simples incidente, ela sabia, e sem importância. Mas os incidentes acumularam-se para formarem por fim um tesouro comum de experiencias e certezas:
"- Recordas-te daquela ocasião?" As recordações traduziam-se por uma espécie de taquigrafia pessoal, embora uma palavra-chave, uma pequena frase, uma simples réplica,
um gesto, fossem suficientes para libertar o mecanismo da memória e ressuscitar a própria experiencia, uma experiencia que amavam
porque pertencia sômente aos dois, forasteiros maravilhados numa cidade tão vasta como o mundo.
Recordações sem importância. E a convicção tácita
de que cem mil outros faziam exactamente as mesmas coisas, trocavam idênticos olhares, se tocavam as mãos e os lábios, sussurravam segredos, se confessavam
naquela primeira doce vertigem de amor.
O Inverno não queria abandonar a cidade:
-ganhou um rosto bem determinado - pérfido,
obstinado, miserável. Agora, que a guerra terminara,
agora, que se fruia o sabor da vitória, ela quase imaginara que não haveria mais Inverno. Porém, ei-lo, pertinaz, inclemente, e ela esperava com impaciência
a Primavera. E quando esta, por fim, chegou, aumentou a intensidade dos sentimentos de Amanda por Matthew, deixando-a um tanto aturdida. A própria cidade, que sempre
parecera um pouco irreal, tornou-se o cenário gigantesco e balsâmico que faziavultar a personalidade de Matthew, o homem, o
camelot, em que pelejava bravamente e com galanteria, ornado com as cores de Amanda. Ela amava a maneira como Matthew caminhava, os passos longos e graciosos,
o sacudir infantil da cabeça, a energia reflectida em todos os seus movimentos, o modo miraculoso como transformava os pensamentos em acção, sem a mais ligeira hesitação
ou dúvida.
Acabou por conhecer todos os seus gestos e esperá-los com um leve estremecimento de impaciência na expectativa.
Começou a perguntar o que faria ele quando estava só. A curiosidade que experimentara em relação aos homens em geral cristalizou-se em Matthew.
O seu novo escritório no Edifício Flation transformou-se num local de mistério e de encantamento, o antro para onde o homem da sua vida recuava para
realizar as suas proezas masculinas. Imaginava-o a ler o The New York Times, em cada manhã, atrás da secretária; depois via-o dobrar o jornal e pô-lo de
lado, pousando-o com aquele pequeno gesto de impaciência que lhe era peculiar; via-o beber uma chávena de café (ele segurava a chávena com ambas as mãos) ler um
processo, ditar à secretária. Imaginava-o no tribunal - ele defendera já três causas com êxito - a caminhar diante da tribuna dos jurados
enquanto reduzia, com grande eloquência, a elucubração do adversário a uma banalidade estúpida.
A sua voz profunda, vincada com um leve acento do Sul, ressoava na sala, e imaginava as senhoras do júri fixando nele os olhos fascinados e pensando: Oh,
como é belo!"
No decurso das suas fantasias procurava o homem no que ele tinha de mais secreto, procurava o Matthew que nao lhe pertencia, o Matthew que vivia só num
mundo de homens. Desejava abraçar também esta figura solitária, trascender o conceito do par Matthew-Amanda, para penetrar no mundo que era apenas de Matthew. Neste
universo, via Matthew barbear-se em cada manhã, via-o debruçado sobre o espelho, a esticar talvez a pele da cara - magoava-se quando se cortava? Imaginava Matthew
de pijama, sem o casaco, ela sabia. O seu peito era rijo e as calças do pijama flutuavam, soltas, sobre o abdómen liso. Perguntava-se o que sentiria ele. Quando
dançavam, quando a puxava bem a si. Desejava com veemência tocá-lo agora, fitâ-lo, experimentar o contacto com o seu corpo. Tinha muitas perguntas a fazer, e sabia
que as faria sômente a Matthew, que não aceitaria senão as respostas dele.
Mas esta convicção, e todas as recordações de um passado complicado, feito de terríveis discussões, de sondagens hesitantes, de lágrimas, de frustração e
de espontâneos acessos de alegria, das minúsculas recordações partilhadas, tinham-se amontoado de modo imperceptível para constituírem uma fabulosa trama em que
eles eram os únicos conspiradores; viviam um presente em que se mesclava, a uma vez, a Primavera e a imagem de um Matthew triunfante numa cidade que ainda vibrava
numa atmosfera de vitória; divisava um futuro onde construía uma eternidade com Matthew a seu lado; de tudo isto, de todos estes instantâneos da flor que desabrochava,
não tinha Amanda consciência bem nítida. O desenrolar dos acontecimentos parecia-lhe inteiramente natural. Foi assim que um homem e uma mulher se apaixonaram. Foi
assim que se casaram. E se, mais tarde, as recordações lhe pareceram fluidas, foi porque cada imagem separada era quase idêntica à precedente. Se a jovem que respondeu
ao telefonema de Matthew no dormitório da Universidade era um botão estreitamente fechado, a que o desposou um ano depois na igreja de seu pai, em Otter Falls, Minesota,
era seguramente a flor desabrochada no último e triunfante instantâneo - mas continuou inconsciente da transformação real, e, para ela, estas recordações ficariam
para sempre envoltas num véu de bruma.
De pé, ao lado de Matthew, escutava, nervosa, o pai. Sentia uma trémula alegria, tinha desejo de chorar. Mas era preciso escutar, pois casava-se, desposava
Matthew.
- Algum de vós dois conhece um motivo que possa impedir a vossa união pelos laços do matrimónio? Ou encontra-se entre os presentes alguém que possa testemunhar
uma justa causa que não permita a união legal destes dois seres? Qe fale agora ou guarde para sempre o silêncio.
A igreja estava imersa em profunda quietude. Algures, atrás de si, Amanda ouvia Penny chorar. De cabeça baixa lançou um olhar furtivo, sob o véu branco,
para Matthew.
- Matthew Anson Bridges, recebes esta mulher como legítima esposa, a fim de viveres com ela segundo a santa lei do matrimónio? Juras amá-la, honrá-la, guardá-la,
como é dever de um homem fiel, na saúde, na doença, na prosperidade e na adversidade, e, renunciando a todas as outras, conservares-te a seu lado enquanto viverem?
- Sim - disse Matthew num tom brusco.
- Amanda Soames, recebes este homem como teu legítimo esposo, a fim de viveres com ele segundo a santa lei do matrimónio? Juras amá-lo, honrá-lo, como é
dever de uma mulher fiel, na saúde, na doença, na prosperidade e na adversidade, e, renunciando a todos os outros, conservares-te a seu lado enquanto viverem?
Amanda engoliu em seco. Olhou para o pai, inclinou a cabeça e disse por fim:
- Sim.
- Pois como um e outro consentiram no matrimónio - disse o pai - e afirmaram diante dos presentes, em virtude da autoridade em mim investida pela Igreja
e pelas leis deste estado, declaro-vos agora marido e mulher. E que Deus abençoe a vossa união.
Matthew ergueu o véu de Amanda. As suas mãos eram doces, ternas, sob o véu. Ela sentiu as faces descobertas e ergueu o rosto para ele. Tinha lágrimas nos
olhos. Os lábios de Matthew tocaram os dela; ele beijou-a doce, levemente. Depois, Matthew afastou os lábios para murmurar:
- Amo-te, Amanda.
De súbito, ela envolveu-o nos seus braços, estreitou-o apertadamente. Ouviu a música do órgão e sentiu-se feliz, feliz. Tomou com mão firme o braço do marido
e, sorrindo à irmã, à mãe, à sobrinha, subiu a nave central até ao pórtico, onde o sol entrava abundantemente pelas largas portas abertas.
Matthew ergueu o véu de Amanda. As suas mãos eram doces, ternas, sob o véu. Ela sentiu as faces descobertas e ergueu o rosto para ele. Tinha lágrimas nos
olhos. Os lábios de Matthew tocaram os dela; ele beijou-a doce, levemente. Depois, Matthew afastou os lábios para murmurar:
- Amo-te, Amanda.
De súbito, ela envolveu-o nos seus braços, estreitou-o apertadamente. Ouviu a música do órgão e sentiu-se feliz, feliz. Tomou com mão firme o braço do marido
e, sorrindo à irmã, à mãe, à sobrinha, subiu a nave central até ao pórtico, onde o sol entrava abundantemente pelas largas portas abertas.

LIVRO II

Gillian

David Regan voltou a Talmadge, Connecticut, num dia quente da Primavera de 1947. Tinha 22 anos, mas sabia que parecia contar mais de 80. A sua imagem, reflectida
nas janelas da pequena estação, não o surpreendeu. Recordava-se de que uma manhã, em Camp Elliot, vira súbitamente o rosto ao espelho, ao barbear-se, antes do toque
de reunir. Quase olhara por cima do ombro, a fim de reconhecer quem se encontrava por trás de si" até que compreendeu que olhava para a sua própria imagem. Debruçara-se
sobre o espelho, os olhos dilatados, o coração pulsando com violência no peito. Depois palpou o rosto, como um cego explorando uma estátua. Em seguida afastou-se.
Agora, David tirou um cigarro do bolso e sentiu a mão tremer ao acendê-lo.
- Quer que transporte a mala, senhor? - disse uma voz a seu lado.
David apagou o fósforo e voltou-se. Um dos motoristas de táxi de Talmadge estendia a mão para a sua ligeira bagagem.
- - Deixe-a onde está! - volveu num tom breve. Não preciso de ajuda.
- Pensei que talvez quisesse um táxi.
- Não. Vou a pé - disse ele.
David pegou na mala e começou a descer a rua principal. A cidade parecia não ter mudado muito. Houvera uma guerra na Europa e no Pacífico, lançaram-se bombas
atómicas sobre duas cidades japonesas e transformara-se a história do mundo, mas Talmadge, ataviada com os seus adornos de Primavera, parecia exactamente a mesma;
as flechas da Universidade, ao longe, a atmosfera sonolenta da rua principal, as mulheres de calças, com os seus carrinhos de provisões. "Os lugares jamais mudam",
pensou. "Só as pessoas se modificam."
Tentou experimentar um sentimento qualquer, enquanto descia a rua. Procurou recordar a sua infância, aqui vivida, lembrar-se dos livros que comprara na Casa
Hurley, o Batman - o Sup'erman; tentou imaginar a cidade defendida contra as neves do Inverno, Jack Armstrong na rádio, todas as tardes, The Shadows, aos domingos
às 5.30, a pesca no lago.
O lago, ah, o lago... Afastou este pensamento.
Se ao menos pudesse experimentar qualquer emoção...
Tinha a impressão de que esperara este momento durante metade da sua vida. Passara a adolescência a imaginá-lo, o instante em que voltasse a Talmadge, respirasse
a plenos pulmões o ar livre, descesse a rua principal da sua cidade natal sem aquele P nas costas e nas calças, P de prisioneiro. A Marinha punha etiquetas em tudo.
Traz-se a especialidade na manga, o posto no colar e aquele P de prisioneiro gravado como um estigma na carne, nas costas e na almofada mole e cinzenta da mente.
Acabou-se. Tudo pertence ao passado. Esquece. Mas não conseguia sentir emoção alguma.
Tinha a dolorosa necessidade de experimentar uma emoção qualquer. Os olhos, o nariz, os ouvidos, esperavam com impaciência algo que desencadeasse a emoção
que o fizesse sentir que voltara a casa. Mas nada lhe aflorava ao coração. Desceu silenciosamente a rua principal. Na colina, os sinos da Primeira Igreja Congregacional
disseram as horas. "Recordo-me dos sinos, oh, meu Deus, recordo-me dos sinos?" Mas nada sentiu até ao momento em que passou diante da secretaria de recrutamento
naval; então, possuiu-o apenas o impulso terrível de cuspir para a vitrina. Apressou o passo.
Encontrou-se defronte do portão de sua casa. O relvado estendia-se verde e viçoso até à velha residência. As cadeiras do relvado estavam pintadas de fresco.
Escutou o pipilar dos pássaros pousados nas árvores. Uma mulher cantava, algures na casa. "A mãe", pensou. Mas nada sentiu.
Abriu o portão, mirou o fecho, por instantes. Atravessou o relvado e dirigiu-se para a porta das traseiras. Olhou através do anteparo. De pé, diante do telefone,
ela cantava. Marcava um número e cantava; recordou-se de um dia longínquo em que a vira ao telefone falando com a tia Mille. Mas esta lembrança nada significava
para si. Ficou com uma face colada ao anteparo, observando a mãe. Ela parecia um pouco mais velha, mas coisa alguma pudera causar dano à harmoniosa estrutura do
seu rosto, a idade não a conseguira destruir. "Ela é ainda muito bonita", pensou. Contemplava-a como se fosse um secreto amante, mas não sentia nem amor nem ódio,
nada. Observava esta mulher alta e delgada que acabara de marcar um número e colocava o auscultador sob os cabelos castanhos, contra o ouvido. David afastou o anteparo,
produzindo certo ruído.
Ela ergueu os olhos no momento em que o filho entrava na cozinha. Disse ao telefone: "Está? Fala a Júlia." Depois voltou-se para o mirar. "Sim", volveu ela
à interlocutora, as pálpebras erguidas, uma interrogação no rosto. David compreendeu que a mãe não o reconhecera. Um leve sorriso irónico bailou-lhe nos olhos.
"Sim", repetiu ela, impaciente, ao telefone: "Espera um minuto, Mary, há alguém..." Foi então que o olhou, verdadeiramente, desta vez.
- David? - disse. - David?
Colocou o auscultador no descanso. Já se refizera da primeira surpresa. Existia fosse o que fosse que pudesse desconcertar a mãe por mais de um segundo?
Observou-a atravessar a cozinha para vir ao seu encontro. Viu-a modificar cuidadosamente a expressão, substituir a surpresa por um princípio de sorriso, enquanto
os seus olhos examinavam o rosto do filho e rejeitavam o que viam, ajustando a nova imagem à que conservava na memória. Ficou maravilhado ao vê-la efectuar tal transformação
nos poucos passos necessários para atravessar a cozinha. O sorriso que a mãe lhe ofereceu era grácil e feminino, como se ele fosse um admirador fiel que chegasse
demasiado cedo, mas que, não obstante, recebia o melhor acolhimento. Sentiu o que a cena tinha de falso, teatral, mas condenou o seu cinismo e tentou pensar: "Por
Deus, é a minha mãe", mas nada experimentou ainda desta vez. Durante um curto momento a segurança de Júlia quase se desvaneceu ante a indiferença glacial do filho.
De mãos estendidas, pronta a apertá-lo contra si, deteve-se, embaraçada, e fez recuar um braço. Porém, pareceu tomar consciência de que a outra mão fora demasiado
longe para que pudesse interromper o seu arroubo. Desajeitadamente, com o braço semilevantado, terminou o gesto, passou a mão pela cabeça do filho, que trazia os
cabelos cortados quase rentes, e disse:
-David, pareces um nazi!
Ele perguntou-se se a mãe vira a cicatriz no cimo do crânio, bem visível sob os cabelos curtos. Notara ela que estes cabelos estavam agora quase brancos?
Ao fazer-se esta pergunta recordou-se subitamente de Mike Arretti, em Camp Elliot, o pesado bastão que se abatera sobre o seu crànio, o sangue que borbotara logo
e lhe inundara o rosto, que lhe correra na testa, para os olhos, e Mike Arretti, que o observava sorrindo quando ele tombou sobre os joelhos.
A mãe soltou uma risada breve, nervosa, antes de reencontrar a sua segurança e um vigor novo. Este era o seu filho; ele quase ouvia as palavras; este era
o seu filho e devia acolhê-lo com a maior alegria. Assim, abraçou-o fortemente contra ela e disse:
- Estás em casa.
Ele sentiu que isto era uma réplica de teatro, mas respondeu:
- Sim, mãe, estou em casa.
Perguntou-se quando iriam baixar a cortina do 1.o acto. "Mas talvez seja tudo sincero, talvez seja eu o único actor em toda esta peça bem montada do regresso
do filho pródigo."
Ela estreitava-o. O gesto pareceu-lhe artificial. Iria ela dizer "- Deixa-me olhar-te?" Oh, Deus, esperava que a mãe não o dissesse.
- Estou contente - declarou ela simplesmente.
Ainda bem que nada mais dissera. Censurou-se por a ter subestimado. Mas não conseguia compreender a sua própria atitude, esta impressão de ser um espectador
em vez de um participante na acção.
- Porque não me preveniste? Ter-te-ia aguardado com uma fanfarra.
Sorriu, pois era o que a mãe esperava.
- Quis fazer uma surpresa - volveu.
- Fazer-me uma surpresa? Quase desmaiei quando atravessaste aquela porta.
Ela afastou uma mecha de cabelo sem deixar de O examinar; o que via parecia agradar-lhe. Pelo menos, exibia uma expressão satisfeita, o que contradizia aquele
primeiro momento de surpresa penosa, ao reconhecê-lo. "Não me intrujas, mãe", pensou. "Estás a fitar um estranho."
- Queres uma chávena de chá? Que tal a viagem? Foste desmobilizado? Ficarás em casa para sempre?
- Sim. E quero uma chávena de chá.
- Pareces fatigado, David.
- E estou.
- A viagem foi longa?
- Muito longa, mãe.
- Mas ficas em casa para sempre?
- Sim.
Ela inclinou a cabeça. Mostrava-se agora sinceramente feliz. Talvez se habituasse a ele. Talvez lhe parecesse já menos estranho.
- Feriste a cabeça? - perguntou ela.
Os dedos de David tocaram a cicatriz num gesto maquinal. Encolheu os ombros.
- Oh, sim.
- Mas estás bem agora?
- Sim, óptimo.
- Pareces fatigado - repetiu.
- Dê-me uma chávena de chá.
- Vou pôr a chaleira ao lume.
Seguiu-a com os olhos.
- Como está o meu quarto? - perguntou ele, de súbito.
- O teu quarto?
- Sim. Como... como está? - Encolheu os om bros.
- Tal como o deixaste, David.
- Gostaria de ir lá acima - Lançou-lhe um olhar prudente. - Queria mudar de roupa. Despir este uniforme.
- Mas... mas, David... - Parecia perturbada.
- Que há? - perguntou David.
- Bem, eu... eu dei as tuas roupas antigas - disse ela. - No Verão passado. À Cruz Vermelha. - Abriu os braços num gesto de desolação. - Oh, perdoa-me, querido.
Pensei... pensei que já não te serviam.
- Oh! - volveu ele. Fez uma pausa. - Todas?
- Sim. - A mãe mordeu um lábio. - Oh, David, lamento muito, crê-me.
-- - Não tem importância. - Encolheu os ombros. - Queria apenas ver-me livre deste uniforme.
- Sim, devia ter imaginado isso. Podes ir à cidade mais logo e comprar algumas roupas. Não achas que será melhor?
- Decerto. - Começou a tamborilar os dedos no tampo da mesa. Júlia encontrava-se junto do fogão observando a chaleira. - Como vai a Ardis? - perguntou David.
- A Ardis Fletcher?
- Hum... Sim.
- Casou-se, sabias?
- Oh!
- Sim.
- Não, não sabia Surpreendeu-me ter deixado de escrever.
- Sim, casou-se.
- É engraçado como... - Calou-se.
- Creio que o chá está pronto - disse Júlia. Pousou duas chávenas na mesa e encheu-as. - Açúcar? - perguntou.
- Não, obrigado.
- Costumavas servir-te de açúcar.
- Sim, mas lá... - Deteve-se bruscamente.
Começaram a tomar o chá. A tarde declinava.
- Lembras-te da villa em Áquila, David?
- Sim, muito bem.
- Era tão encantadora! Passou-se tanto tempo!...
- Sim.
Ela suspirou:
- Bem, estás em casa.
- Mãe... - disse ele.
- Diz, querido.
- Mãe, porque... - Pousou a chávena. - Mãe, pensei que tornasse a ir ver-me... depois da única visita que me fez...
- Como, querido?
- Quando eu estava em Camp Elliot. A mãe foi uma vez e depois... bem, os outros rapazes... Sempre pensei que voltasse. A viagem era longa, decerto, porém...
- Encolheu os ombros.
Júlia abriu mais os olhos.
- Mas, David, sabes bem que a tia Mille tem estado muito doente.
- Sim - volveu ele. Encolheu de novo os ombros.
- Creio que te falei deste assunto nas minhas cartas.
- Sim, recordo-me.
- A Califórnia fica muito longe, querido. E a tia Mille tem-me sômente a mim neste mundo. Compreendes, não é verdade? Esperei que compreendesses, David.
- Oh, decerto - respondeu ele. - Surpreendi-me apenas. - Humedeceu os lábios e fez um gesto afirmativo com a cabeça. "Bem", pensou, "esta é a segunda vez
que a tia Milhe serve de pretexto." Ergueu a chávena.
- O caso foi assim tão terrível, David querido? Queres falar nele?
- Não resta nada de que falar. Tudo pertence agora ao passado.
- Sim, e tudo vai mudar, já que te encontras em casa.
- Creio que sim.
Júlia dirigiu-lhe um sorriso maternal.
- O Parker passou por cá há alguns dias. Perguntou por ti.
- Oh, como está ele?
- Óptimo. Estuda numa escola de arte de representar, em Nova Iorque. Ainda deseja ser actor, ora imagina!
- Bem, nada vejo de mal nisso - replicou.
- Voltas aos estudos?
- Creio que sim.
- Em Talmadge?
- ...... Penso ir para Nova Iorque, a fim de frequentar uma escola qualquer.
- Compreendo - volveu Júlia. - Que vais estudar, então?
- Não tenho ainda a certeza.
Júlia ofereceu-lhe um caloroso sorriso.
- Sempre imaginei que... Bem, David, sempre...
- Não! - exclamou ele, notando que a sua veemência assustara a mãe. - Não - repetiu mansamente.

A sala do teatro estava mergulhada numa obscuridade quase total. Apenas uma lâmpada se encontrava acesa, no centro do palco. Gillian, que se achava nos bastidores,
volveu um novo olhar para o texto que lhe fora entregue alguns minutos antes. Uma jovem loura bem arranjada ocupava a cena. Ela perguntou ao director se podia sentar-se
no chão enquanto lia o seu papel. Conseguiria, desta maneira, senti-lo melhor, declarou. O director respondeu que podia sentar-se ou ficar de pé, como entendesse.
A loura afundou-se imediatamente, como uma massa mole, junto da lâmpada de trabalho, e iniciou a leitura. Gillian esforçava-se por não escutar. Concentrou-se no
texto que tinha nas mãos, percorrendo-o com o polegar, procurando descobrir as réplicas mais importantes, para tentar adivinhar o que lhe iriam pedir que lesse.
Súbitamente, recordou-se de uma ocasião, tinha ela 8 anos, em que correra afogueada para casa a fim de dizer à mãe que lhe haviam dado um papel de rã numa peça a
representar na escola.
"Vou fazer a rã!", gritou. "- Vou fazer a rã!" Oh, se tudo fosse tão simples agora! Se...
- Muito obrigado - disse uma voz. - A que se segue, se faz favor.
Ela ergueu os olhos do texto e fechou-o. "Ora", pensou, "cá vamos nós. Boa sorte. Gillian." Com 22 anos, parecia possuir aquele ar de ilusória experiencia
que exibiam neste Outono as raparigas que em Nova Iorque procuravam seguir uma carreira. Mas a suavidade natural do seu corpo, a frescura das feições, distinguiam-na
das suas contemporâneas, que adquiriam fàcilmente um aspecto duro e brunido. Tinha rosto longo e exibia certa maturidade; era bonita, possuía olhos verdes e cintilantes,
uma boca geDerosa, um nariz finamente torneado. Penteava o cabelo como sempre o usara, uma franja cor de acaju caindo-lhe para a testa, o resto da cabeleira, cuidadosamente
lisa, puxada para a nuca. Entrou no palco com uma energia propositada que, não obstante, nada roubava à sua feminilidade. Tinha um andar quase felino, um passo alongado,
gracioso, bastante pessoal. "Sou Gillian Burke", pensou. "É pegar ou largar. Desejo fazer a rã na peça."
- Olá! - disse uma voz da plateia - Como está?
- Óptima, obrigada - volveu Gillian. Não viu ninguém, mas absteve-se de defender os olhos com a mão e não pestanejou. Dirigiu a vista para o que lhe parecia
ser o meio da sexta fila e deu à voz um tom natural, como se os seus interlocutores estivessem sentados defronte dela, a uma mesa.
- Como se chama a menina? - perguntou uma segunda voz, hesitante, que parecia apalpar o terreno. "É o autor da peça", pensou.
- Gillian Burke - respondeu.
A primeira voz perguntou num tom autoritário:
- Porque escolheu esse nome?
"Deve ser o director."
- Tenho-o desde que nasci - retorquiu.
- É um nome pouco comum - volveu o director.
- Sim, eu sei - disse, sorrindo. - Mas imagino que está colado a mim.
Apercebeu-se de qualquer coisa que parecia um riso abafado. Impossível determinar se procedia do autor ou do realizador. Súbitamente tomou consciência da
lâmpada de trabalho. Aproximou-se um pouco dela e levantou a cabeça, de modo que a luz lhe mcidisse sobre o nariz e as maçãs do rosto.
- Fale-nos um pouco do que tem feito, menina Burke - solicitou o director.
Ela exibiu um sorriso incerto. Era o momento que sempre detestara. Sabia que o que fizera não os interessava verdadeiramente. Se tivesse feito algo de importante,
já teriam conhecimento do facto. Formulavam-lhe a pergunta para a obrigarem a falar de referências insignificantes que não passavam de uma repetição da vida profissional
de mil outros figurantes. A intriga da história não era importante, apenas contava a personagem principal. E esta era Gillian Burke. Estudá-la-iam durante todo o
tempo em que ela falasse. Há muito que conhecia esta fase das audições. Decidira que aos pormenores da sua carreira minguava interesse, e juntara a esta convicção
a certeza intuitiva de que as pessoas gostavam mais de conversar do que de escutar. Assim, todas as vezes que lhe formulavam esta pergunta - e formulavam-na sempre
- ela tentava apresentar a sua resposta sob a forma de um diálogo, de preferência a um monólogo, fazia que o inquiridor participasse na acção, criando uma aparência
de troca recíproca mais animada do que um recitativo. No entanto, abandonara esta técnica no momento em que um director lhe dissera: "Temos um pouco de pressa, aqui,
menina Burke, e não dispomos de tempo para ninharias. Quer falar-nos de si ou temos de renunciar a isso?" A partir daquele momento obrigoue a apresentar as informações
sem divagar. A sua enumeração devia permitir a esta gente, sentada na sala obscura, uma oportunidade de a estudar antes de ela começar a ler, de formar uma opinião
sobre a sua voz, o seu rosto, a sua experiencia, o seu comportamento, permitir-lhes, talvez, decidir se o papel se ajustava ela, antes mesmo que Giliian abrisse
o manuscrito. A jovem começou o recitativo.
- Trabalho há quatro anos com Igor Vodorill. Pertenço igualmente a um grupo que montou espectáculos clássicos no Clube dos Jovens, da Rua Noventa e Dois;
Shakespeare sobretudo, embora tivéssemos representado também Marlowe e Jonson. Os meus melhores papéis neste grupo foram a Ofélia de Hamlet e Goneril do Lear. Tomei
parte numa tournée de Verão em...
- Podia falar um pouco mais alto) por favor, menina Burke? - solicitou uma voz do fundo do teatro.
Esta era nova. Talvez de um produtor.
- Sim, certamente - respondeu ela. - Tomei parte numa tournée a Westport e Stockbridge, com as peças do costume nestes espectáculos estivais, mas representei
dois segundos-papéis em peças inéditas que aí se estrearam.
- Quais? - perguntou o director.
- Uma comédia chamada Martha Passeia-Se e um melodrama intitulado Chama Nocturna.
- Nenhuma atingiu a Broadway, não é verdade?
- Não - respondeu Gillian, acrescentando um sorriso -, mas não foi por minha culpa.
Pareceu-lhe ouvir outro riso abafado, nas primeiras filas.
- Participei igualmente em algumas emissões radiofónicas.
- Comerciais?
- Não. Papéis dramáticos.
- Primeiros ou segundos?
- Segundos.
- Dispõe de um cartão?
- Sim. É do AFTRA.
- Fez televisão?
- Não, até este momento. Penso... Bem, o meu agente crê que me pode conseguir alguma coisa no Kraft. Tenho uma entrevista aprazada na próxima sexta-feira
- acrescentou depois de um silêncio.
- Porque deseja este papel, menina Burke?
- Penso que ele me ajusta. - Fez uma pequena pausa antes de volver com vivacidade: - Não, não é exacto. Não faço a menor ideia se ele se me ajusta. Desejo
o papel porque sou uma boa actriz.
- Que a faz crer isso, menina Burke?
- Sei-o.
- Informaram-na?
- O papel dar-me-ia talento se eu não o possuísse?
- Não, suponho que não - volveu o director.
Ela surpreendeu um sorriso na voz deste.
- Quer ler agora? Página 23 do 1.o acto, a réplica que começa assim: Posso falar de certos assuntos sem os conhecer realmente." Vê, menina Burke?
Gillian abriu-o manuscrito, aproximou-se da luz e encontrou o diálogo.
- Ei-la.
- Quer começar, por favor?
Ela teve a impressão de que lia bem, com uma força contida. Quando terminou a tirada, fechou o manuscrito e aguardou, os olhos voltados para a sala obscura.
O teatro estava imerso no silêncio.
- Aaah!, menina Burke - disse por fim o director -, quer agora passar à página 17 do 3.o acto-? A réplica que começa desta maneira: "Sim, mas Phyllis era
sempre tão doce, tão solícita..."
- Ei-la - disse Gillian.
- Queira começar, por favor.
Ela sentia que as suas mãos tremiam ligeiramente. Esperava que este tremor não lhe afectasse a voz. Tentou imaginar que não se encontrava no teatro, lendo
para um director e para um autor e só Deus sabia para que outras pessoas interessadas na peça. Pôs na leitura todo o seu talento. Depois fechou o manuscrito e, de
novo, ergueu os olhos para a sala obscura.
- Queira descer para a esquerda, por favor - disse o director.
Gillian engoliu em seco, endireitou os ombros e -atravessou o palco.
-- Agora, volte em direcção à luz.
Ela obedeceu.
-- Que idade tem, menina Burke? -
- Vinte e dois anos.
- A altura?
- Um metro e sessenta e três - respondeu.
- Queira descalçar os sapatos, sim, menina Burke?
- Quê?
- Os sapatos. Não se importa de os descalçar?
- Não, de modo nenhum. - Sem se baixar, desembaraçou-se deles.
- Agora, queira descer de novo para a esquerda.
- Sem os sapatos?
- Sim, se faz favor.
Ela inclinou a cabeça num gesto de aprovação e avançou na direcção do proscénio.
- Muito obrigado, menina Burke. Quem é o seu agente? - perguntou o director.
- Marian Lewis.
- Obrigado - volveu o director. - A que se segue.
As palavras quase lhe escapavam dos lábios. Sentia-se turbilhonarem dentro de si, prestes a formularem-se. "onseguirei este papel? Conseguirei este papel?"
Sentiu-se dessecada, em seguida. Permanecia de pé na penumbra, na extremidade do palco, imóvel, os olhos voltados para as filas de poltronas vazias.
- Terminou, menina Burke, obrigado - disse o director.
Ela inclinou a cabeça num gesto maquinal, apanhou os sapatos e entrou nos bastidores, formulando-se as mesmas perguntas que sempre se dirigia. "Gostaram
de mim? Fizeram-me ler duas réplicas. Devia-lhes ter agradado. Talvez telefonem a Marian logo que eu saia do teatro. Porque me pediu ele que descalçasse os sapatos?
Aposto que sou demasiado alta. Quem teriam escolhido para o principal papel masculino? Um homem baixo? Talvez haja uma cena onde a heroína esteja de pés nus. Devia
ter observado mais de perto. Mas ele perguntou-me a altura! Mas, que diabo, quem vai representar o papel masculino? Podiam não ter gostado de mim. Não, ter-me-iam
dito alguma coisa, ter-me-iam pedido para ler outra passagem. Demais, perguntaram-me quem era o meu agente. É bom sinal. Oh, meu Deus, talvez, talvez...?"
No exterior do teatro, meteu a mão na bolsa e retirou uma pequena agenda. Folheou as páginas referentes ao mês de Novembro, deteve-se na página marcada com
um grande 20 e leu algumas linhas garatuj ad as.

Audição, Booth, 45 Oeste, 3 h.
F. A. 0.4-6.
Amanda. Folga do Michael, 6.15.
Aula 7.

Consultou o relógio. Eram 15.50. Se apanhasse um táxi, poderia chegar ao F. A. O. talvez cerca das 16. A corrida custar-lhe-ia pelo menos sessenta e cinco
cêntimos. E dez cêntimos de gorgeta... Não, quinze era o mínimo absoluto, embora os motoristas esperassem sempre gorjetas reduzidas das mulheres. Talvez pudesse
desperdiçar, quanto muito, dez cêntimos. Não, tinha de contar, pelo menos, com oitenta cêntimos para a corrida. Significava que a sua primeira hora de presença no
armazém lhe renderia sessenta cêntimos líquidos, um cêntimo por minuto; mas que lucro, este! A menos que tomasse o risco de apanhar o autocarro e chegasse novamente
tarde. Não, despedi-la-iam, pela certa. O que precisava era de estabelecer com mais cuidado o horário quotidiano. Mas que fazer quando surgia uma audição? "Pergunto-me
se me confiam o papel... A Amanda pagará a conta no restaurante? Mas nem sequer disponho de tempo para jantar com ela. Tenho de levar uma sanduíche para a aula.
Pergunto-me se me confiam o papel..."
Chamou um táxi.

Não conseguia concentrar a atenção no que lhe dizia Amanda. Pensava sem cessar no telefone e perguntou-se se eles se tinham posto em contacto com Marian.
Ao sair do armazém, telefonara, mas Marian estava em comunicação com outra linha e Dotty, a telefonista, pedira a Gillian que fizesse nova chamada às 18.80. Faltavam
cinco minutos e, sentada defronte de Amanda, a uma mesa redonda, escutava as conversas corteses que vinham do bar, tentava fixar a atenção no que lhe dizia Amanda,
sem deixar de pensar na audição daquela tarde, no facto de lhe terem pedido que descalçasse os sapatos, que dissesse a sua altura e que caminhasse um pouco no palco.
Claro, estes pormenores deviam revestir-se de qualquer significado. Não haviam pedido às outras raparigas que fizessem o mesmo.
.... Mas o novo escritório do Matthew é em Wall Street, o que o obrigará, pelo menos, a mais meia hora no regresso. Penso que a ideia não lhe agrada, mas
tento convencê-lo. - Amanda sorriu e ergueu o copo.
Era surpreendente este ar de elegância que ela agora possuía, pensou Gillian. O casamento parecia tê-la transformado de modo espantoso: não só a maneira
como se vestia, mas também o seu rosto e o corpo. Ela exibia nova consciência de si própria, como se tivesse encontrado um refúgio seguro onde se instalara com alegria.
Trazia um vestido negro muito simples, de mangas compridas e provido de um capuz, se bem que não se entrevissem senão alguns fiapos dos seus cabelos louros. O jens
de lã, justo até à cintura, alargava-se em seguida até formar, na bainha, um vasto círculo. Calçava botas de pele de leopardo. Um casaco estava pousado com negligência
nas costas da cadeira, juntamente com a sua bolsa. A abertura do vestido revelava uma larga medalha de ouro. Gillian examinou-a e sentiu-se levemente deslocada,
como se involuntàriamente tivesse dado entrada num tempo diferente, no qual permanecia a mesma, sem modificação alguma, enquanto em redor de si tudo avançasse para
uma meia-idade vagamente entrevista. "A Amanda teria, na verdade, mudado até este ponto?", perguntou-se ela. "Ou dever-se-á tudo ao casamento?" Mas tinha a impressão
de se achar na presença de uma jovem chique e elegante, diante da qual se sentia uma tímida adolescente.
Gillian deitou uma mirada rápida para o relógio, que estava por cima do bar, e depois para a cabina telefónica. Um homem gordo, sorridente, debruçava-se
sobre o bocal, quase o tocando. "Vamos, despacha-te", pensou ela. "Dentro de dois minutos e meio tenho de fazer uma chamada."
- Crês que perdi o juízo, Gillian - perguntou Amanda -, querendo viver em Talmadge?
- Não, é uma cidade encantadora - respondeu a jovem.
"Pergunto-me se me confiam o papel", reflectia ela. "Devia ter-lhes agradado. Caso contrário, não teriam perdido tanto tempo comigo. E ouvi-os rir acerca
de certas coisas que disse. Gostaram de mim desde o princípio, antes mesmo de ter iniciado a leitura."
- Sempre gostei muito de Talmadge - disse Amanda. - E fica apenas a uma hora e meia de Nova Iorque.
- Quando o comboio de New Haven chega à hora.
- Oh, decerto. Vou lá passar com o Matthew este fim-de-semana. Sômente para dar uma vista de olhos.
- Não deve ser desinteressante.
- Gostarias de vir connosco?
- Sim, ficaria encantada - volveu Gillian. - Mas trabalho aos sábados e tenho, no domingo, um ensaio no clube.
- Oh, que pena!
Gillian aprovou com a cabeça e voltou novamente os olhos para a cabina telefónica. "Despacha-te", pensou ela. "Sai daí. Preciso de telefonar!"
Afastou a cadeira para trás.
- Perdoa-me, Amanda, mas prometi telefonar ao meu agente.
- Mas, decerto. Queres mais uma bebida?
- Sim, óptimo. Agora, desculpa-me.
Levantou-se e deixou a mesa. Deu-se conta de que dois homens, no bar, se voltaram para a mirar no momento em que começou a caminhar. Dirigiu-se para a cabina
telefónica e olhou fixamente o gordo através das portas envidraçadas. Consultou o relógio uma vez mais. Eram 18.30. "Oh, que aborrecimento", pensou. O gordo continuava
a sorrir ao telefone. "Oh, coisa untuosa, vais passar toda a tarde aí dentro? A cabina ficará impregnada com o teu cheiro." Cruzou OS braços sobre o peito e começou
a bater no soalho com a biqueira do sapato, fitando o gordo com um olhar de descontentamento. "Bem, calma", disse para si mesma. "Com certeza, não telefonaram sequer.
Provàvelmente, não lhes agradei."
A porta da cabina abriu-se. O gordo dirigiu-lhe um sorriso de desculpa. Depois de responder com um sorriso glacial, ela penetrou, rápida, na cabina. Meteu
a moeda na ranhura, marcou o número, fechou as portas, para as reabrir logo em seguida.
- Agência Lewis - disse uma voz.
- Dot, é a Gillian.
- Um momento, Gilly. Ligaste para a telefonista assistente?
- Não. Porquê?
- A Marian Lewis tentou comunicar contigo.
- Há qualquer coisa? - perguntou Gillian.
- Não sei. Um instante. Está livre agora.
Gillian aguardou com impaciencia. À mesa, o empregado pousava diante de Amanda mais duas novas bebidas.
- Gilly? És tu, minha querida?
- Marian, por amor de Deus, eles telefonaram?
- Telefonou quem, minha querida?
- A gente do Teatro Guild. Quem querias...?
- Oh, não, meu amor. Como decorreram as coisas?
- Eu...
- Gostaram de ti?
- Penso que sim. Perguntaram-me quem era o meu agente.
- E informaste-os?
- Certamente! Marian, quando fazes perguntas dessas sinto desejos de...
- Amorzinho... - disse Marian docemente.
Breve silêncio.
- Não telefonaram - repetiu Mari.an. - Talvez amanhã.
- Sim, é provável - volveu Gillian.
- É essa entrevista com a Kraft?
- Sim.
- Na sexta-feira?
- Sim.
- Deves avistar-te com o produtor-realizador, um homem chamado Stanley Quinn. Sabes onde é?
- Sim.
- Às quatro horas.
- Marian, às quatro horas devo estar no armazém.
- Mas isto é importante.
- Comer também o é, por Deus!
- Queridinha - disse Marian docemente.
- Não posso perder o emprego. Combina o encontro para uma hora mais cedo.
- Não é maneira de se falar, Gilly.
- Oh, decerto. Mas a quantas audições crês tu que já fui nestes dois ultimos anos, desde que me representas, Marian? - Fez uma pausa. - Esta noite terei
de ir à aula. Se houver qualquer coisa, liga para a minha telefonista assistente.
- Muito bem.
- A minha audição foi a melhor de todas, Marian.
- Estou certa disso, meu amor.
- Perguntaram-me a altura.
- E tu revelaste-a?
- Por Deus, Marian...
- Sim, queridinha. Desculpa-me.
Silêncio.
-- Tornar-te-ás uma grande estrela, Gillian.
Novo silêncio.
- Telefonar-te-ei amanhã - disse Gillian. No caso de...
- Muito bem, amorzinho. Boa noite.
- Boa noite.
Gillian desligou. Maquinalmente, verificou se a moeda descera na ranhura. Depois dirigiu-se para a mesa.
Pela primeira vez, em dois anos, sentia-se muito cansada.

O curso de arte dramática orientado por Igor Yvanovitch Vodorin funcinava num sótão da Sexta Avenida. À esquerda da entrada do edifício havia uma pequena
livraria, cuja montra continha os últimos best sellers, assim como uma exposição discreta de fotografias ligeiras. Gillian olhou para os títulos dos livros e em
seguida observou as fotografias, fascinada. Na pequena loja judaica, à direita da entrada, comprou uma sanduíche de carne de vaca fumada e um tónico, e depois penetrou
no edifício. A escadaria que conduzia ao sótão era íngreme e mal iluminada; contudo, como já a galgava há quase quatro anos, não tinha dificuldade em se orientar
nela no meio da escuridão mais completa. Eis o que quase aconteceu, agora. Lia um manuscrito enquanto subia os degraus; atingiu o patamar como por instinto, voltou
à direita, para entrar num pequeno vestíbulo, onde dependurou o casaco; seguidamente, penetrou na vasta sala pejada de canos que constituía o próprio estúdio. Ao
atravessar a sala, a fim de se ir sentar junto da parede, alguém disse: "- Olá, Gilly !" Ela inclinou levemente a cabeça e murmurou uma resposta, sem levantar o
nariz do manuscrito. Sempre absorta, sentou-se, desembrulhou a sanduíche, colocou entre os lábios as duas palhas da garrafa de soda e, com os olhos ainda fitos no
texto, continuou a decorar o papel.
O seu método era simples. Lia uma frase e repetia-a mentalmente amiudadas vezes até que a soubesse de cor. Em seguida apreendia pelo mesmo processo a frase
seguinte e repetia as duas frases uma após a outra. Nunca conseguira compreender porque não experimentavam determinados colegas a menor dificuldade em aprender um
papel. De facto, não podia entender por que motivo os que possuíam má memória desejavam ser actores. Mas uma coisa era certa: conhecera muitos actores que nem sequer
conseguiam recordar-se das palavras da Bandeira Estre.ada e que procuravam sem cessar novos processos mnemotécnicos que lhes facilitassem o trabalho. Suportava dificilmente
as inépcias neste domínio. Votava um profundo respeito pelos autores e pelo texto. Ficava furiosa quando alguém lia mal uma linha.
Lembrava-se de ter criticado uma vez a interpretação de um estudante; seguira-se uma longa discussão. Este rapaz fizera uma cena de The Eve of Saint Mark.
Gillian comentou o maneirismo particularmente detestável que o fazia, com muita constância, pôr os cabelos em ordem, e disse depois:
- O texto exacto é: "A hospedeira, à porta, com uma silhueta indistinta, conversa."
- Foi o que eu disse.
- Não. Disse: "A hospedeira, à porta, com uma silhueta interessante..."
- Que diferença faz? - O rapaz encolheu os ombros.
- Imagino que deve ter uma certa importância para Maxwell Anderson. E provàvelmente para T. S. Elliot, que ele cita.
- Tentei, sobretudo, viver a personagem - volveu o rapaz. - Não compreendo porque uma só palavra...
- Marion, a personagem, não é homem capaz de deformar uma citação - redarguiu Gillian.
Igor, que assistira, sem uma palavra, à conversa, disse súbitamente:
- Decerto que ele é um homem culto, e a falta é imperdoável. Mas teria apresentado a mesma objecção, menina Burke, se a personagem não fizesse uma citação
poética?
- Sim, teria - replicou Gillian. - Numa peça, é o texto que conta.
- Aaah! - fez Igor, abrindo muito os olhos aproximando-se de Gillian. - Num livro, talvez, sim. Mas não numa peça. Nesta, é preciso dar vida às palavras.
E é o actor que as anima, menina Burke.
- As suas próprias palavras ou as do autor? - perguntou Gillian.
- Não quer confiar ao actor latitude alguma, não é verdade? - retorquiu Igor. O professor encontrava-se agora bem junto dela, a cabeça cabeluda inclinada
para diante, a mão ossuda pousada na camisola castanha, os olhos azuis, brilhantes, cravados no rosto de Gillian. Falava um inglês que aprendera na Rússia e refinara
numa dúzia de países estrangeiros, mas escrupuloso e miraculosa mente destituido de pronúncia. - Gostaria de prescrever ao actor limites bem definidos, não é verdade?
- Sim, no que se refere à linguagem de uma peça e ao seu significado.
- Mas o actor traduz o significado de uma peça recitando um texto de cor?
- Começa por aí.
- Espero, contudo, que temos o direito de completar o texto por meio de gestos. Não é assim?
- Decerto. Falo, porém, sobre a linguagem de uma peça.
- A linguagem e a acção são uma e a mesma coisa. Constituem sômente os utensílios destinados a exprimir ideias.
- É exacto - volveu Gillian. - As ideias do dramaturgo. Não as do actor.
- Menina Burke, espero que não queira dizer que um actor é apenas uma harmónica.
- Não. Digo sômente que a missão do actor consiste em fazer falar a sua personagem da maneira como o autor a ouvia falar na sua mente enquanto escrevia a
peça.
- Compreendo. Assim, se pudéssemos adaptar à mente deste autor um sistema de transmissão sonora, não teríamos necessidade de actores, não é
verdade? Um actor é uma harmónica, afinal.
- Não, não é. Mas se não seguir o texto tal como está escrito, porque precisamos da peça? Porque não lemos simplesmente a lista dos telefones?
Toda a classe se pôs a rir e Gillian apercebeu-se de que marcara um ponto. Igor deteve-se ao lado dela, sorriu, afagou a cabeça da jovem e disse com doçura:
- Decerto que necessitamos das peças, menina Burke, e é importante aprender o texto com exactidão. Seria um velho louco se tentasse convencê-la de que os
actores são dramaturgos. Não o somos. Embora deva admitir que alguns de nós são melhores autores do que um bom número daqueles que pretendem esse título.
A classe riu de novo. Gillian, encantada, fez outro tanto.
- Mas, menina Burke, quer conceder-me um simples ponto? Quer reconhecer, talvez, que um bom actor, um grande actor, é capaz de introduzir no texto qualquer
coisa que o autor jamais ouviu na sua mente? Uma nuance no sentido, uma subtileza de expressão, um gesto inventado que, bruscamente, colocará uma ideia em plena
luz? E assim, através deste elemento novo que introduz no texto do autor, acrescentará qualquer coisa à criação, dará à ideia um significado mais profundo? Quer,
menina Burke, conceder a um velho o direito à sua pequena opinião inteiramente parcial? E agora passemos, por favor, à cena seguinte.
Ela conhecia bem a sua técnica. Conhecia-a desde os primeiros dias. Ele contradizia-a agressivamente, tomando, muitas vezes, uma posição em que não acreditava,
a fim de a fazer falar, de a obrigar a um raciocínio que a conduzisse a uma conclusão que parecesse provir dela mesma. A jovem sabia-o, mas isso não a impedia de
se lançar em todas as discussões com a mesma audácia, o mesmo ardor. E ela amava o velho pelo que ele lhe ofertava: um conhecimento seguro do seu ofício e um orgulho
sempre maior na profissão que escolhera.
- Gillian? - disse a voz.
Ergueu os olhos do manuscrito aberto sobre o regaço. Tad Parker, um dos alunos do curso, estava de pé, diante dela, com um braço no ombro de outro rapaz.
Gillian pousou os olhos no rosto de Tad, no seu sorriso hesitante, na camisa geralmente suja que ele trazia para a aula, na placa de identidade do Exército que trazia
na camisa. Depois fitou o outro rapaz.
- Já está digerido? - perguntou Tad.
- Oh, sim - respondeu ela. - Revia, apenas.
O segundo rapaz não cessara de a mirar. Sentia os seus olhos nela, olhos de um azul gelado que pareciam incapazes de traduzir uma emoção; e notou um rosto
que tinha qualquer coisa de vagamente ameaçador, cabelos curtos e grisalhos... Ele não era velho, não, não devia contar mais de 25 anos... A cicatriz, mal dissimulada
pelo cabelo, a sua atitude rígida, erecto ao lado de Tad... E os olhos que não a deixavam, com um pavor de ameaça, mas também com uma espécie de ardente súplica.
- Convidei um amigo para assistir aos nossos ensaios - disse Tad. - É meu conterrâneo.
Gillian inclinou a cabeça e depois sorriu.
- David, apresento-te a Gillian.
- Muito prazer - disse o rapaz.
- Encantada - respondeu Gillian.
- Escuta, se tens trabalho, não te importunamos - declarou Tad. Deu uma palmada no ombro de David e conduziu-o para a fila de cadeiras situadas por trás
de Gillian. Sentaram-se lado a lado, e Gillian voltou ao manuscrito. Quando Igor entrou, alguns instantes mais tarde, ela não ergueu os olhos.
O professor deu uma volta pela sala, dirigindo um gesto, algumas palavras, a cada um dos alunos, e chegou por fim ao lugar onde a jovem estava sentada.
- Menina Burke, então?
Gillian sorriu.
- Boa noite, Sr. Vodorin..
- A audição? Que tal? - perguntou ele, com interesse.
Gillian encolheu os ombros.
- Nada de estenografia teatral, por favor - disse igor. - Agradou-lhes?
De súbito, ela tomou consciencia de que Tad e o amigo, o rapaz a quem chamara David, se encontravam sentados por trás de si; provàvelmente, não perdiam uma
palavra da conversa.
- Suponho que gostaram de mim - volveu, um tanto embaraçada. - Contudo, não telefonaram.
- Talvez amanhã, então.
- Talvez.
- Paciência - disse Igor, com doçura, colocando-lhe uma das mãos no ombro. Retirou um relógio de ouro do bolso, inclinou a cabeça a fim de o consultar e
disse:
- Está na hora de começarmos a aula.
Gillian foi sentar-se no fundo do sótão, numa cadeira dobrável, cerrou os braços em torno de si, como se tiritando, observou os outros estudantes que faziam
as suas cenas. Igor insistira em que cada um trabalhasse só, e ela tivera verdadeira dificuldade em encontrar um monólogo algures, não numa peça de Shakespeare.
Passara três tardes na Biblioteca de Arte Dramática da Rua Cinquenta e Oito, Este, antes de se decidir por um fragmento de Drean Gir. Mesmo esse não a satisfizera
inteiramente, mas o tempo escoava-se, e a data na qual devia apresentar os textos aproximava-se. Agora observava os seus colegas estudantes declamarem monólogos
que a aborreciam, e perguntava por que motivo exigira Igor uma tarefa tão elementar. Não participou em nenhum dos colóquios críticos que se seguiram a cada representação.
Quando, por fim, Igor a chamou, ela levantou-se, atravessou com ligeireza a sala, até ao estrado, subiu, voltou-se para a classe e declarou:
- Eis uma passagem de Dream Gir de Elmer Rice. Sou Georgina. Minha mãe acaba de me chamar ao bastidor da direita, para me ordenar que deixasse de sonhar
acordada. As suas últimas palavras foram: "São quase nove horas!"
Gillian avançou até ao centro do estrado. Respirou profundamente e começou o monólogo.

GEorGINA

Muito bem, mãezinha. Estou quase vestida.

Talvez a tua mãe tenha razão, Georgina. Talvez seja tempo de deixares de sonhar, de deixares de te distrair com ninharias, imaginando-te uma criatura excepcional,
dotada de uma vida psicológica estranha e fascinante.

(Ela r'eti'ra o roupão e coloca na cabeça um gorro de banho lavando-se outra vez)

Oh, meu Deus! Fria como gelo... Agora, está melhor.

(Ela canta Night and Day, com vigor. Depois, o chuveiro cessa de funcionar e ela 'reaparece envolta numa toalha de banho. Passa por trás da casa de banho, as costas
para os espectadores, esfregando-se com energia)

Contudo, honestamente, devo admitir que, comparada com a modéstia das raparigas que se encontram, em geral, sou, na verdade, bastante complexa, Inteligente e instruida,
sim; e capaz de manter uma conversa.

(Num tom indignado, porque acaba de ver, por cima do ombro, amanda a mirá-la.)

Oh, por amor de Deus! Realmente, vê-se gente!...

(Cerrou uma cortina diante de uma janela a imaginar Obscuridade. A sua voz sai da penumbra)

E, fisicamente, nada tenho de que me envergonhar. Possuo uma pequena silhueta encantadora e as minhas pernas são muito bem feitas. Decerto que o meu nariz é um pouco
bizarro, mas o meu rosto tem carácter... Claro, não é uma dessas caras sem expressão que se vêem nas capas dos magazines.

(Com um sus pi'ro.)

Oh, parece que nunca durmo o suficiente.

(A lúz volta no momento em que ela faz subir a cortina imaginária. Tem agora sapatos, meias e combinação. Senta-se à mesa do toucador, face ao tampão liso, e alisa
os cabelos.)

Se ao menos pudesse não estar desperta durante horas, a imaginar todas as coisas apaixonantes que poderiam suceder mas jamais me acontecem... Bem, talvez seja este
o dia em que tudo vai realmente começar. Talvez Wentvorth e Jones aceitem o meu romance. Há um mês que o têm em seu poder e todos os outros mo devolveram passados
quinze dias. Parece, na verdade, prometedor.

Igor, de pé, no fundo do sótão, viu Gillian hesitar por um momento, perder o tom do monólogo. Ela pareceu readquirir o domínio de si mesma no espaço de dez
segundos, mas Igor apercebeu-se de que passara uma brusca expressão de perplexidade pelo rosto da jovem, e franziu a testa no momento em que ela reatava de novo
o discurso. Vodorin franziu ainda mais a testa quando se deu conta de que Gillian não voltara completamente ao papel, que não reencontrara a personagem complexa
a que dera expressão.
"- Seria maravilhoso!", continuou Gillian. "Com um romance publicado, seria decerto alguém."
Deteve-se. O silêncio prolongou-se. Igor avançou lentamente do fundo da sala. Teria ela esquecido o texto? Não. Era uma coisa que nunca acontecia a Gillian
Burke. E então compreendeu que ela sabia o texto bastante bem, que escutava cada palavra à medida que lhe saía da boca. A jovem suspirou e prosseguiu, depois.
"-Críticas... Críticas em todas as rubricas literárias..."
Nova pausa. Ela passou a mão pelos lábios.
"- Os cheques, com os direitos, chegando."
Um silêncio mais, terrível, como se, de súbito, compreendesse as palavras que pronunciava, como se as deixasse, de súbito, penetrar até ao âmago de si mesma.
"- As mulheres tocando-se com o cotovelo umas às outras... no... no Schrafft e... e... murmurando... e... murmurando: "Não olhes agora, mas aquela rapariga,
ali (aquela que traz um chapéu muito chique), e-... é... é Georgina Allerton, a... a..."
Deteve-se de novo. Voltou-se para a classe.
- Tenho muita pena - disse -, mas dói-me bastante a cabeça. - Desceu do estrado.
Igor acercou-se de Gillian no momento em que ela entrava no vestiário.
- Onde vai? - perguntou ele.
- Para casa.
- Porquê?
- Dói-me a cabeça.
- Uma actriz não vai para casa quando tem um papel a representar.
Ela ergueu os olhos para o fitar bem no rosto.
- Igor - disse lentamente, e era a primeira vez em quatro anos que o tratava pelo nome próprio -, Igor, não tenho papel algum para representar
Ele tomou-a pelos ombros.
- Tem um palco, um público, um papel para desempenhar. É o suficiente.
- Igor, tenho um estrado vacilante, um bando de garotos e uma personagem interpretada no ano passado na Broadway por Betty Field. Eis tudo o que possuo.
Não é o bastante, Igor. Suplico-lhe, deixe-me ir para casa.
- Chorar?
- Sim, por Deus, talvez chorar. Não me é permitido chorar? Ou é contra o regulamento?
- - Mas, sim, Gillian, tem o direito de o fazer - volveu Igor. - Inquieta-me apenas vê-la só. Se quer chorar, não é preciso partir.
- Obrigada - disse ela, inclinando a cabeça. - Obrigada, Igor. Mas... eu... eu prefiro ir para casa.
- Vestiu o casaco e depois fez correr a vista em redor do vestiário, ausente, aturdida. - A minha mala... Creio que a deixei lá dentro.
- Gillian? Voltará amanhã à noite?
Ela hesitou durante longo tempo antes de responder. Depois fez um gesto de aquiescência com a cabeça e reentrou no sótão, a fim de procurar a mala. Dirigiu-se,
pressurosa, para a cadeira que tomara. Tad achava-se junto do estrado, prestes a entrar em cena. David estava só, na fila por trás da cadeira vazia de Gillian. Os
seus olhos pousaram na jovem no momento em que ela entrava e seguiram-na. Gillian fitou-o e ele voltou-se, embaraçado. Sem uma razão aparente, ela disse para David:
- A minha mala?
- Como?
- Deixei-a aqui.
- Oh!...
- Sim. Desculpe-me.
Retirou a mala, que se encontrava em cima do tampo da cadeira, Ele fitava-a novamente. Gillian mirou-o, por sua vez, sem compreender.
- Sim? - disse. O rapaz sacudiu a cabeça. - Que há?
- Foi... foi muito bem - respondeu ele. A voz era timida, quase assustada.
- Obrigada.
- Na cena que representou.
- Sim.
Ele continuava a fitá-la. Humedeceu os lábios e pareceu querer falar. Então, algo o fez desviar os olhos. Afundou-se na cadeira, sem nada dizer. Ela mirou-o
ainda um instante, inclinou a cabeça e dirigiu-se ràpidamente para a porta. Tad começara já a sua cena. Igor achava-se de pé, junto do estrado, um braço sobre o
peito, o outro cotovelo sobre o braço, o queixo na mão. Ela atravessou a sala nos bicos dos pés e começou a descer a interminável escadaria. A meio caminho ouviu
uma voz, atrás de si.
- Menina?
Voltou-se. Era David. No patamar, a pouca distância dela, ele olhava-a com um ar solene, mordendo o lábio inferior.
- Chiu - disse Gillian. - O Tad está a desempenhar a sua cena.
- eu não sei o seu apelido.
- Burke... Mas porque o quer saber?
- Eu pensei que... que poderia talvez telefonar-lhe.
- Porquê?
Ele sacudiu os ombros.
- É judeu? - perguntou Gilian.
- Porquê?
- David parece-me sempre um nome judeu.
- Sim - disse ele bruscamente. Lançou os ombros para trás. Dava a impressão que tomara uma decisão: não lhe telefonaria, nem lhe dirigiria mais a palavra.
- Sou judeu. Tem qualquer importância?
- Não. Porque havia de ter?
- Muito bem, não sou judeu.
- Bem - volveu ela com um olhar curioso.
- Posso... Posso acompanhá-la a casa?
- Não - respondeu a jovem vivamente.
- Posso telefonar-lhe?
- Não sei. Creio que não.
- Porquê?
- Não sei.
- O seu nome está na lista?
- Sim.
- Telefonar-lhe-ei.
- Tenho de ir agora.
- Telefonar-lhe-ei.

Não se encontrava ainda há dez minutos em casa quando o telefone retiniu. Pegou no auscultador e disse:
- Está?
- A menina Burke?
- Sim.
- Fala David.
- Quem?
- David Regan. - Hesitou. - Conhecemnos há pouco. No sótão.
- Oh, sim.
- Vejo que chegou a casa sem novidade.
- É verdade.
- Acordei-a?
- Não.
- Há meia hora que tento ligar para aí.
Um longo silêncio.
- Pensei que talvez pudéssemos tomar uma chávena de café juntos. - disse ele.
- Quer dizer, agora?
- Sim. São pouco mais de onze horas. Pensei...
- Ia meter-me na cama - interrompeu Gillian.
- Oh, bem, é pena. Pensei simplesmente que...
- Lamento.
- Oh, não tem importância.
Novo silêncio.
- Posso vê-la amanhã à noite? - perguntou David.
- Que dia é?
- Sexta-feira.
- Tenho aula.
- Então no sábado.
- Como é que o seu cabelo se tornou assim grisalho? - perguntou Gillian.
- O quê?
- O seu cabelo. Como...
- - Oh. Na Marinha. Em Camp Elliot. - Hesitou. - Estive lá prisioneiro.
- Porquê? Que fez?
- Agredi um oficial.
- Mas porquê?
- Ele disse qualquer coisa de que não gostei
- Que foi?
- A propósito do meu pai.
- Bem, penso então que ele o mereceu.
- Sim, também penso o mesmo. Posso vê-la no sábado?
- De acordo - anuiu Gillian.
- ÀS sete e meia, está bem?
- Óptimo.
- O seu endereço, por favor? - perguntou ele com vivacidade. Ela informou-o. David repetiu-o quatro vezes antes de explicar: - Não trago um lápis comigo.
- Não o esquecerá?
- Decerto que não.
Silêncio, uma vez mais.
- Não conhecia ainda alguém chamado Gillian.
-- É um nome idiota.
- Não, agrada-me.
- Ele dá-me sempre vontade de rir.
- Estou contente porque não seja Lillian. E podê-lo-ia ter sido, sabe?
- Suicidar-me-ia se o fosse.
- Nesse caso, não a teria conhecido.
- Bem, então... até sábado.
- Sim, às sete e meia.
- Boa noite, David.
- Boa noite, Gillian.

A peça era apresentada por um grupo de arte dramática do City College no pequeno teatro que se elevava sobre o campus do Hunter Coliege. David comprou, na
sexta-feira à tarde, dois bilhetes a um estudante da Universidade de Nova Iorque que os adquirira a um finalista de Farmácia, de Fordham. Ele foi buscar Gillian
às 19.30; beberam um copo no apartamento dela e em seguida tomaram o metro para a Avenida Lexington. Embora fosse a noite de sábado, eram dos raros passageiros do
comboio: a maior parte das pessoas desceram na Broadway. Esta solidão parecia, mesmo, matar todas as possibilidades de conversa. Cada assunto abordado dava origem
a algumas réplicas que acabavam por se dissipar com um gesto feito com a cabeça ou com uma outra palavra breve, murmurada. O comboio prosseguia a sua rota, com grande
ruído, e os dois achavam-se sós, lado a lado, na carruagem quase vazia, cada um perguntando-se se era coisa conveniente sair-se com um estranho. David começou a
censurar-se por não possuir automóvel. Gillian afirmava a si própria, num comentário antecipado, que devia ser pavorosa a representação de Ibsen por um grupo de
estudantes.
- O que há de ma'ra-vilhoso nele - disse Gillian - é que ainda resiste de uma maneira surpreendente.
- Boston, não é verdade? - perguntou David.
- Quê?
- Este "marravilhoso."
- Não, não é.
- Repita.
- Marravilhoso.
- Então, é irlandês.
- Sim. Terrível, não lhe parece?
- Não, encantador.
A conversa morreu uma vez mais. David desejava ardentemente um cigarro. Estava certo de que ia começar a nevar logo que chegassem à rua. Pensou ter deixado
os cigarros em casa. Mas não. Trazia-os consigo. tacteou o bolso, à procura dos bilhetes. Quando o ébrio entrou no comboio, na paragem da Rua Cento e Quarenta e
Nove, compreendeu que ia haver contratempo. Estava certo disso. Era uma noite propícia.
O ébrio instalou-se defronte deles. Fazia um frio excepcional, para um mês de Novembro, mas ele não trazia senão um casaco desportivo sobre uma fina camisa
branca. Logo que se sentou, sorriu-lhes. Depois agitou os 'dedos para saudar Gillian.
- Como está, menina? Chame-me Ismael.
- Olá, Ismael! - disse Gillian, sorrindo.
- Na 'realidade, o meu nome é Charlie - volveu o ébrio.
- Olá, Charlie!
O Charlie repetiu a sua pequena saudação e piscou um olho.
- Não faça caso - disse ele. Volveu a sua atenção para David. Fitou-o longamente, antes de declarar: - Mister, tem os cabelos grisalhos.
- Eu sei, obrigado.
- Obrigado - redarguiu Charlie. - Daqui a alguns anos estarão todos brancos.
- Suponho que sim - disse David, sorrindo. Voltou-se para Gillian: - Fazem-me parecer muito velho? - perguntou.
- Mas eu não sei que idade tem! - exclamou a jovem.
- Vinte' e três.
- Não, dá a impressão de ter poucos mais.
- Você parece ter cinquenta e seis - disse o Charlie. - Como se tornaram assim grisalhos?
- Na Marinha.
- Sim?! - O Charlie levantou-se do seu lugar, e, com um passo incerto, foi instalar-se ao lado de Gillian. Debruçou-se diante dela para dizer a David:
- Também estive na Marinha. - Examinou David durante um momento e depois voltou à carga: - Ele não tem ar de marinheiro, hem, menina?
- De modo algum, Charlie - respondeu Gillian.
- Não? Então de que tem ele ar?
- Tem uma aparência muito docinha - tornou Gillian.
- Ora muito bem - disse o Charlie. - Não me prestem atenção.
- Esteve na prisão durante muito tempo? perguntou Gillian a David.
- Quatro anos.
- Devia ter sido terrível. Não falemos mais nisso.
- Eh, não façam caso - repetiu o Charlie. - Continuem a conversar como se eu não estivesse aqui. - Inclinou a cabeça com energia. - São casados?
- Não - respondeu Gillian.
- Parabéns. Têm filhos?
-Três - afirmou David.
- Rapazes ou raparigas?
- Um pouco de cada coisa - declarou Gillian.
- É o que há de melhor - aprovou o Charlie. - Onde vão agora?
- Para o Norte.
- Têm sorte - disse o Charlie -, pois acontece que esta linha atravessa a cidade, se o querem saber.
Escutem: não me prestem atenção. Continuem a conversar. Contentar-me-ei em escutar. Entendido? Vá, prossigam; não me importo que me interrompam.
Gillian pôs-se a rir e perguntou:
- Como é que conheceu o Tad Barker, David?
- Somos da mesma cidade.
- Você não é nova-iorquino?
- Não. De Talmadge, Connecticut.
- Fala a sério?
- Claro que sim - interveio o Charlie. - Não conhece então o seu marido?
- Já esteve em Talmadge? - perguntou David.
- Nunca ouvi falar de tal terra - respondeu o Charlie.
- Dirigia-me a esta senhora.
- Oh. Aceito as suas desculpas - disse o Charlie, baixando a cabeça.
- Vamos passar daqui a momentos perto do lugar onde eu vivia. - Virou-se de novo para David.
- Gosta da Universidade de Nova Iorque?
- A princípio, não gostava. Para falar com franqueza, ainda não tenho a certeza de gostar. Todos os outros dão a impressão de saber o que querem, e eu não,
creio. A maior parte dos tipos são antigos combatentes, compreende, e...
- Como a geração perdida - disse Gillian, inclinando a cabeça.
- Não exactamente. Não lhe parece que eles exageram um pouco com os seus problemas de readaptação?
- Oh, penso que eram uns amores. Nos cafés de Paris evocavam caçadas na Floresta Negra e falavam dos romances que iam escrever. Tudo isso é muito doce e
um pouco triste.
- Eu devia, talvez, abandonar a Universidade e procurar um café de Paris - volveu David. Tornar-me uma espécie de parasita.
- Não - 'retorquiu Gillian.
- Causa-lhe medo?
- Não, mas... bem, não creio que você se devesse tornar um parasita.
- Porquê?
- Há muitas coisas para fazer. Ninguém tem o direito de' se tornar um parasita.
- Pois - declarou o Charlie. - Ela pôs o dedo na ferida. Coma, beba e seja feliz. - Voltou-se para ler o nome da estação onde chegara o comboio. - Onde estamos
nós?
- Na Avenida Burnside - informou Gillian.
- Tanto melhor - redarguiu o Charlie -, porque não faço a menor ideia onde fica a Avenida Burnside.
David consultou o relógio.
- Vamos chegar atrasados - disse.
- Não me importa - disse Gillian. - Não temos necessidade nenhuma de lá ir, sabe? Não preferiria antes conversar?
- Sim, decerto, mas...
- Porque não nos apeamos na Estrada Fordham? Podíamos passear um pouco e beber um copo em seguida. Agradar-me-ia que o fizéssemos.
- Sim?
- É verdade, David.
- Muito bem. Então... - Procurou os bilhetes no bolso do casaco e estendeu-os por cima do regaço de Gillian ao Charlie.
- Muito obrigado, senhor - disse este com dignidade -, mas não sou mendigo.
- Estes bilhetes são para um espectáculo - explicou David. - Gostaríamos que os aproveitasse.
- Muito obrigado, mas não se ralem por minha causa.
- Aceita-os como um presente?
- Obrigado - repetiu o Charlie, pegando nos bilhetes. - Para onde são?
- Para um espectáculo.
- Oh, muito bem. Onde me encontro eu?
- Apeie-se na Estrada Kingsbridge e dirija-se para o Hunter Coilege.
- Obrigado. Estamos em Brooklin?
- Não. No ronx.
- Deus seja louvado - disse Charlie. - Se nos achássemos no Bronx, perder-me-ia completamente. Sabe quem descobriu o Bronx?
- Não. Quem foi?
- Exactamente. É um cavalheiro, senhor. Obrigado. Não se ralem por minha causa - disse ele. Estendeu-se no banco e adormeceu imediatamente.
- Gosto de si - declarou de repente Gillian. David não compreendeu porque escolhera ela este momento para fazer tal declaração.
Apearam-se na Estrada Fordham e dirigiram-se para este, para o Grande Concurso. Ele comprou-lhe uma chriotte 'ruse, e, mais tarde, uma compota de maçã. Por
fim, encaminharam-se para o Parque Poe. Gillian designou-lhe a casa do poeta e sentaram-se num banco, na penumbra. David recitou duas estrofes do Corvo, que aprendera
de cor no liceu. Começaram a falar sobre poemas de que ambos gostavam e ele evocou uma professora que tivera na escola primária que o obrigara a aprender de cor
a Carga da Brigata Ligeira; no momento em que teve de recitar, sentiu-se aterrorizado porque ela era uma mulher monstruosamente enorme, um pouco vesga e surda de
um ouvido, pelo que era preciso berrar os versos, dos quais, aliás, não estava bem certo. Gillian, por seu turno, falou-lhe de uma das suas professoras, que esfregava
o nariz das alunas no quadro enquanto tentava explicar um problema de álgebra. "Multiplicas isto por aquilo", disse ela certa vez para Gillian, os dedos segurando
os cabelos da jovem, esfregando-lhe o nariz pelo quadro, de um símbolo algébrico para utro. Começaram a falar dos jogos a que se dedicavam em crianças e a contar
histórias pitorescas da infância.
Soou a meia-noite. Não se tinham dado conta de que era tão tarde. Atravessaram a rua, entraram num botequim e perguntaram ao empregado se sabia fazer grogs.
Ele respondeu-lhes:
- Supõem que estão na Inglaterra?
Tiveram de se contentar com u'his'ky sour, Quando se encontraram diante da casa de Gillian eram 2 horas da madrugada. Ensonada, ela apoiou-se contra a porta
e disse:
- David, passei uma noite marravilhosa.
- Não fizemos grande coisa - volveu ele, como desculpa.
- Oh, ..... sim.
- Posso vê-la amanhã, Gillian?
- Sim.
- É domingo. Poderemos passar todo o dia juntos. Se o desejar, claro.
- Sim, desejo.
- Bom. Tinha receio...
- Sim?
- Tinha receio de que não o desejasse - disse ele, encolhendo os ombros.
O vestíbulo estava imerso no silêncio.
- Gostava de a tomar nos meus braços, Gillian.
- Oh, tome-me nos seus braços.
- Gostava de a beijar.
- Beije-me.
Ele apertou-a nos braços durante um momento, docemente, depois acariciou-lhe os cabelos. Por fim, os seus lábios desceram ao encontro dos de Gillian. Ela
apertou David contra si antes de pousar a cabeça no ombro dele e murmurou:
- Gosto da maneira como beija.
Ele tomou o rosto da jovem entre as mãos e afastou-lhe os cabelos das orelhas, prendendo-os por trás da cabeça.
- Oh, não, suplico-lhe - disse ela. - Não faça isso. Não...
Ele libertou os cabelos.
- Mas... beije-me novamente.
Beijou-a. Ela estreitou os braços à volta do pescoço dele. Depois largou-o bruscamente e disse:
- David, penso... - Sacudiu a cabeça. Afastou-se, abriu a mala e procurou a chave. Abriu a porta, de par em par. Ia de novo voltar-se quando os braços de
David a envolveram pela cintura. De pé, atrás dela, beijou-a na garganta. Gillian voltou-se, entre os braços dele, encontrou os seus lábios e, sem uma palavra, penetraram
no apartamento, que era apenas iluminado pela luz fosca da lâmpada do patamar. David fechou a porta, com uma das mãos. Na penumbra, estreitaram-se nos braços um
do outro. Ela ergueu a cabeça para aproximar os lábios da boca de David e murmurou:
- Desejei toda a noite que me beijasses.
- Sim, senti esse desejo também.
- Falámos de mais - sussurrou ela.
- Ainda não dissemos metade das coisas que temos para nos dizer.
- Oh, sim. Tenho desejo de tudo te dizer. Nunca senti nada deste género, antes.
- Nem eu.
- Tenho medo. Creio que nada devíamos começar.
- Porquê?
- Não sei. Não sei. Oh, David, beija-me.
Na obscuridade, os lábios de David mergulharam nos dela, entreabertos. Ele apertou-a contra si. Gillian murmurou:
- Não acredito neste género de coisas, e tu?
- Acredito em tudo o que acontece.
Algures, no apartamento, ouviu o tiquetaque de um relógio. A voz de Gillian chegou-lhe no silêncio da noite, incerta, quase imperceptível.
- David... David, desejas que eu seja tua?
- Sim.
- É a primeira vez que me entrego - disse ela. Fez uma pausa. - Acreditas?
- Sim, decerto.
- Estou a tremer. Sentes?
- Sim.
- David, não o faças, a não ser que...
- A não ser que...?
- Não sou uma rapariga fácil, David. Suplico-te...
- Comecei a amar-te no primeiro instante em que te vi.
- Oh, David, oh, David, pedir-te-ei o que não devia. Assusto-?
- Não, pede-me o que julgues certo, o que precises. Tudo, Gillian.
- Vem comigo - disse ela. - Depressa, vem. - Tomou-o pela mão e conduziu-o lentamente, corredor fora, em direcção ao seu quarto.

A cidade era como nova.
A neve deste fim de Dezembro amontoara toneladas de brancura sobre as ruas, transformara-a numa feérica tundra onde se interrompera toda a circulação. Este
novo renascimento era acompanhado de um grande silêncio: solas de borracha sobre a neve, o turbilhão silencioso e indolente dos flocos nas luzes ambarinas, o silvo
abafado dos radiadores atrás das janelas cobertas de geada. A cidade parecia nova e limpa sob o frio mordente que cortava as faces, aguçava os dentes. Com a novidade
e a frescura das vozes, cujo eco se espelhava pelas ruas quase desertas, e das crianças, que deslizavam ao longo de novas rampas brancas. A neve caía em silêncio.
Derretia-se ao contacto com os rostos. Ela colava-se, inacreditâvelmente bela, no tu'eed de uma manga, um instante sômente antes de se derreter e de desaparecer;
como por magia, reaparecia alguns centímetros mais além, como uma nova estrela que se ia extinguindo no azul da lá.
David caminhava na neve, puxando atrás de si um pequeno trenó e respirando a plenos pulmões o ar glacial. Pedira emprestado o trenó ao filho da senhoria;
prometera devolvê-lo em bom estado, explicara ao miúdo a importância essencial de um trenó para se celebrar este dia em que Deus conseguira limpar a cidade como
jamais algum presidente de município o fizera; por fim, encerrara a discussão colocando diplomàticamente uma moeda numa pequena mão fria.
A neve turbilhonava à sua volta, pegando-se às pálpebras, traçando tractos húmidos sob a gola do seu sobretudo. Uma vez por outra, detinha-se para cobrir
as orelhas com as mãos, envolta em luvas de lá, e retomava o caminho na neve que lhe subia aos joelhos, ansiando chegar ao apartamento de Gillian antes do fim da
tarde. Deixou o trenó no vestíbulo do prédio, subiu a escada com um passo pesado, por causa das galochas. Gillian abriu a porta logo que ele bateu.
- Meu Deus, que se passou? - perguntou ela. - Não tenho feito outra coisa senão telefonar para tua casa...
- Nada circula - volveu ele ofegante. - Nem autocarros, nem táxis. Vim a pé.
- Desde a Primeira Avenida?
David inclinou a cabeça num gesto de aprovação.
- Nunca se viu nada de semelhante, Gillian. A cidade está...
- Estive prestes a telefonar para a Polícia. Há duas horas que me disseste que partias.
- E é verdade. Tudo branco, Gillian. As ruas, as casas, o céu, até os fios telefónicos...
- Toma-me nos teus braços.
Ele apertou-a contra si, sentindo no rosto a face quente de Gillian.
- Olá! - disse ela.
- Olá - volveu ele.
- Brr. Fazes-me frio.
- Veste o casaco. Vamos descer.
- Oh, não, não!
- Trouxe um trenó.
- Onde o arranjaste?
- Convenci o miúdo da minha senhoria a emprestar-mo. Dei-lhe uns cobres.
- Trouxeste-o desde...
- Sim. Vamos, veste o casaco.
- Muito bem, muito bem, não te exaltes - respondeu ela. Atraiu-o ao interior do apartamento e fechou a porta. - Vá, chega-te junto do fogão. Tira as luvas.
O teu sobretudo está encharcado. Aquece as mãos. Queres que faça café?
- Não. Veste o casaco.
- Um chocolate bem quente? Demorará apenas...
- Gillian, não tardará a cair a noite!
- Oh, muito bem, então.
Ela inclinou a cabeça, empertigada, com um ar indignado, e dirigiram-se para o quarto. Com um sorriso, David descalçou as luvas de lã e estendeu as mãos
para o radiador, que sibilava. Pela janela da sala de estar seguiu a dança dos flocos de neve. Ouviu Gillian atravessar o corredor e voltou-se. Ela vestira um fato
de esqui forrado com pele de carneiro. Trazia capuz. Sorridente, encostou-se à parede do corredor, uma das mãos na anca.
- Tu gostar desta bonita jovem esquimó?
- Estás pronta? - disse ele, rindo.
- A jovem esquimó cheirando a gordura de foca. Gostar?
- Oh, desçamos depressa, antes que caia a noite.
- Não gostar que a jovem esquimó beije com nariz?
- É melhor pores um cachecol à volta do pescoço
- Muito barato. Gostar?
- Vai buscar um cachecol.
Gillian agitou as sobrancelhas.
- Dez peles de foca toda a noite. Muito barato. - Num murmúrio, acrescentou: - a noite árctica muito longa.
David apertou-a contra si e perguntou:
- Quem é o teu agente?
- Marian Lewis.
- Muito obrigado, mas...
- É inútil telefonar-nos. Nós fá-lo-emos - disseram os dois ao mesmo tempo, desatando a rir.
Ela tomou-o pelo braço e disse:
- Onde arrumaste o trenó?
- Lá em baixo, no vestíbulo.
- Pergunto-me porque me deixo tais loucuras.
- Onde está o teu cachecol?
- Não preciso dele.
- Faz frio lá fora.
- Jovem esquimó muito resistente.
Sairam do apartamento. A rua achava-se silenciosa sob a neve voando. O céu tinha uma cor de cinza. O mundo inteiro encontrava-se adormecido.
- David, estamos sós no universo - murmurou Gillian. - Tu e eu, apenas.
Ela tomou-lhe a mão.
Como crianças, descobriram a neve.
Fevereiro. O dia de S. Valentim. Ele enviou-lhe catorze postais; o primeiro chegou no dia 1. Cada um era um pouco maior que o precedente, e o último, gigantesco,
recebeu-o no dia 14. Ela pregou-os todos com punaises na parede branca, junto da porta. Por cima dos catorze postais escreveu com tinta vermelha: DAVID AMA-ME!
Quando a veio buscar naquela noite, ele observou:
- Deste cabo da parede!
- Tu deste-me cabo da vida!
- Ah, sim! Como?
- Não consigo ter uma só ideia minha.
- Porque utilizaste tinta vermelha?
- Porque é gritante. Se possuísse uma escada muito alta, escreveria a mesma coisa na fachada do prédio.
- Porque não alugas um cartaz em Times Square?
- E se mandasse colar tiras de papel em todas as gares ferroviárias de Nova Iorque a Washington: "David ama-me"? Creio que o farei.
- É verdade que ele te ama.
- Como?
- Com um amor do tamanho do mundo.
- O suficiente para me levar a jantar?
- Bem, quanto a isso é que já não sei.
- Posso tentar convencer-te?
- Como?
- Comprei-te um presente. Para o dia de S. Valentim.
Voltou-se bruscamente e entrou no quarto. David ouviu-a abrir uma gaveta da cómoda. Quando voltou, ela trazia uma pequena caixa nas mãos. Estendeu-lha.
- Que é?
- Abre-a.
Pegou na caixa e, colocando-a na palma de uma das mãos, começou a desapertar a fita.
- Isto faz-me nervoso - disse ele.
- Porquê?
- Não sei. Mas, sim. Não necessito de presentes teus, Gillian. És o mais belo presente que já recebi.
- És muito gentil, David - murmurou ela, súbitamente embaraçada.
- Amo-te.
Ergueu a tampa. Sobre a almofada de algodão achava-se um pequeno alfinete de gravata. Um circulo de ouro encerrava um minúsculo mosaico italiano feito de
delicadas lascas de mármore. Representava uma mosca, um escaravelho ou qualquer insecto fantástico com asas vermelho e ouro e olhos de um verde brilhante, destacando-se
num fundo azul; tudo se combinava hábil e meticulosamente. Ele mirou o alfinete e, em seguida, tomou Gillian nos braços.
- Gostas? - perguntou ela.
- Adoro-o.
- É um alfinete de gravata.
- Sim, eu sei.
- Feito na Itália.
- Eu sei.
- Oh, tu sabes tudo, não é verdade? Tão espertinho que ele - Depois de uma pausa, Gillian disse: - Escolhi um insecto porque estou louca por ti, e estar
louca é ter aranhas nos miolos! Sabes isto, também?
- Que espécie de insecto é este? - perguntou ele, examinando de novo o alfinete.
- Creio que um vespão verde - volveu Gillian um pouco surpresa.
- Sério?
- Sim, meu querido - disse Gillian, com doçura.
- É o insecto do amor.

Como era maravilhoso ser acariciado por ela e acariciá-la, por sua vez. Os dedos de David iam à descoberta, seguiam-lhe o duro contorno do queixo, os pomos
altos e fechados, e reencontravam, de súbito, na penumbra, a surpreendente doçura da sua boca. A epiderme lisa do pescoço descia ràpidamente até à concavidade da
garganta, e ele sentia pulsar o sangue sob a pele; os ombros luziam, brancos como marfim polido, frágeis sob a mão. Em seguida acariciava os seios, doces, os globos
largos e cheios, o cetim que se transformava num círculo largo e granuloso sob as carícias de David, os botões duros e lisos. Uma curva delicada, sob os seios, conduzia
a mão para a pele acetinada do adbdómen, para a carne elástica das coxas, para uma humidade secreta e profunda, para o último regalo. Oh, como era maravilhoso acariciá-la,
o corpo cálido, fremente e doce!
Gillian era uma multidão. Tinha mil faces, encarnava mil personagens, e ele amava-as todas, esperava as suas aparições como um habitué familiarizado com
o repertório de uma companhia. Gillian, a dama, vestida com um tajileur impecável, os cabelos alisados, o vermelho imaculado do rouge nos lábios, as pálpebras negras
acentuadas pelo lápis gorduroso, as costuras dos braços direitas como estas, os saltos altos martelando a linguagem da eterna feminilidade. Gillian, a criança, de
olhos grandes num rosto interrogador, de lábios levemente entreabertos, enquanto escutava em silêncio e temor; o corpo contorcido nas posições inverosímeis dos muito
jovens, o espírito pleno de magia, de bruxedos, de fadas e príncipes montados em cavalos brancos. Gillian, a sedutora, cujos olhos dardejavam para os homens; que
apreciava os assobios dos lobos que acompanhavam os seus meneios provocativos; que, sem sombra de pudor, dava à sua voz as nuances mais acariciantes quando combinava
um encontro ao telefone; que, um dia, desencadeou a cólera de David ao encetar uma conversa com um adolescente de blusão negro, no hall de um pequeno teatro. Gillian,
a louca, que o beijava inesperadamente, onde quer que se encontrassem, no autocarro, no restaurante, num banco da Catedral de S. Patrício, em que se tinham refugiado
um dia para escapar ao frio cruel; que lhe tomava, de imprevisto, a mão e se lançava numa corrida frenética pelo passeio da Broadway; que, certa vez, numa tabacaria
da Rua Cinquenta e Sete, se dirigiu ao balcão, colocou a mão na bolsa e disse ao proprietário: "- Nem um gesto. É um ataque á mão armada!" Gillian, a actriz, que
dissertava com paixão sobre Stanislavsky e o seu método; que saiu de uma representação teatral profundamente absorvida pelos problemas da técnica e da encenação;
que tentava em David uma múltipla variedade de tons e de gestos; que tomava de súbito a posição curvada de uma velha e se dirigia para ele saltitando sobre muletas
imaginárias; cujas mãos se moviam emotivamente quando tentava expor uma teoria subtil. Gillian, a desinibida, que por vezes se metia na cama com o apetite insaciável
de uma ninfomaníaca, que experimentava nele todos os artifícios femininos; que ensaiava todos os recursos do amor como fizera com os chapéus de Primavera. Gillian,
a terna cortesã, que se lhe entregava com doçura e pudor; que emprestava ao acto de amor uma ardente devoção, quase religiosa. Gillian, a financeira, que somava
as suas contas como um contabilista e mantinha em dia o livro onde anotava os encontros com a precisão de um relógio. Gillian, a hábil cozinheira; Gillian, a criança
abandonada; Gillian, o tirano; Gillian, a sensível; Gillian, rindo, chorando, adormecida sob um lençol que lhe deixava a descoberto a curva dos seios, os cabelos
de acaju espalhados na almofada, um sorriso inocente nos lábios. Gillian, a mulher.
Na outra extremidade do quarto, o vento de Fevereiro fazia tremer os vidros da janela. Por trás deles, o espaldar da cama de cobre, frio como gelo. Quando
falavam, as suas bocas deixavam escapar brancas nuvens de vapor. Ao longo da noite, possuíraos um humor folgazão, como se fossem rituais de um número de comédia.
Eles introduziam agora o mesmo humor nas suas folias amorosas, sentindo-se lassos e desapaixonados, rindo-se deles mesmo e um do outro, totalmente absorvidos num
amor que transcendia a simplicidade do próprio acto; davam pouca importância à sua lassidão, consumando casualmente um acto necessário ao seu humor do momento, um
acto sem valor, mas que os ligava tão sôlidamente como se colados por argamassa.
- Sinto-me gelada - disse ela.
- Vou ligar o radiador.
- Despertarás todos os inquilinos.
Bruscamente, ela pôs-se a cantar.
- E tu a dizeres-me que despertarei todo o prédio - disse David.
- Sinto-me lírica. - Abafou uma gargalhada e recomeçou a cantiga.
- Ao menos canta qualquer coisa apropriada.
Breve silêncio no quarto. Um novo golpe de vento açoitava a janela; todos os vidros tremeram. Gillian inspirou fundo e entoou:
Tenho- te...
David desatou a rir.
- Eh, atenção ao que fazes! - disse ela. --Aquece-me.
- Cantas admiràvelmente.
- Tenho a impressão de que vais ter isto toda a noite - volveu ela, rindo com a cabeça pousada no ombro de David. - Não me sinto excitada. E tu?
- Não.
- Continuemos, assim mesmo.
- Não.
- Queres que cante novamente?
- Sim. O que nos falta é um fundo musical.
- Creio bem que sim. É do que necessitamos - disse ela.
Riram os dois.
- Ora bem, um ar sério, queri'do.
- De acordo, estou sério.
Mas desataram a rir uma vez mais. - Pára de rir, por um momento - disse ela. - Tenho a impressão de que me falta a sedução.
- Sinto muito, mas és muito atraente... Como disseste que te chamavas?
Gillian riu e mordeu-o no ombro.
- Vou cantar - anunciou.
- Muito bem, canta.
- Que queres que cante?
- O que desejares. Canta, que te acompanharei batendo no radiador.
- Oh, deixa em paz este pobre radiador - disse ela, e romperam num riso explosivo.
Amaram-se assim, entre duas gargalhadas, toda a noite, e observaram surpreendidos a aurora que acariciava tmidamente a janela coberta de orvalho.

Ela trazia um enorme pluver de um vermelho garrido; afundada na única poltrona confortável do quarto de David, parecia incendiar toda a divisão. De pé, diante
do lavabo, ele preparava os cocktails, enquanto conversavam.
- Mas como podes tu identificar-te completamente com uma personagem, David? Compreendes? Não é suficiente dar uma impressão superficial.
- Não sei. No que me diz respeito, gostaria de ver um dia uma peça onde uma personagem entrasse em cena e dissesse: "- Chamo-me John Doe. Tenho vinte e oito
anos, estudo na Universidade Metodista do Sul, e isto é tudo o que sabereis a meu respeito. O resto acontecerá no decurso da peça. Assim, prestai-nos atenção."
- Mas não é o bastante. As pessoas não vivem apenas no presente. Possuem passado, David, e tudo o que lhes sucede na vida, num período anterior, influencia
o que lhes acontece depois. Não consigo ler uma réplica e considerá-la uma declaração completa. É preciso que saiba o motivo por que a minha personagem se encoleriza
num momento preciso, o que lhe foi dito ou feito para desencadear esta cólera. E uma vez que o descubra, é preciso que procure mais além, porque nada, David, nada
nasceu hoje.
- Creio que dás um relevo extraordinário ao que é, essencialmente, uma arte de segunda ordem.
- Oh, não! Oh, não! Vejamos - disse Gillian, estendendo as pernas para o chão.
- Li uma vez um artigo sobre uma actriz célebre - replicou David. - Não sei qual, se Helen Hayes, se Katharine Cornell, uma das verdadeiramente muito grandes.
Ela tinha uma cena final na qual se não via outra coisa que uma das mãos. E, repara, sômente o movimento desta mão era suficiente para obrigar o público a desfazer-se
em lágrimas. E quando se lhe perguntava o que fazia, nos bastidores, o resto do corpo, enquanto a mão provocava uma tal emoção dolorosa, ela respondia que, durante
toda a cena, conversava com os maquinistas.
- Isso não prova que...
- Prova que a emoção não é necessária à ilusão da emoção. Ela poderia ter jogado xadrez nos bastidores enquanto a mão fazia irromper as lágrimas do público.
- Bem, quanto a mim, não posso trabalhar dessa maneira. É preciso que saiba. É preciso que compreenda a minha personagem inteiramente.
- É impossível. Ninguém pode conhecer outrem por completo.
- Mas não falamos de personagens reais; David, mas de personagens teatrais.
- Exactamente! E elas são apenas representações de personagens reais. Tu crias uma ilusão. E esta ilusão nunca pode ser total. Se o fosse, então... Vejamos,
Gillian, porque não disparar realmente sobre o actor que está em cena quando o texto exige que alguém seja abatido?
- David, é idiota. Se tu estás...
- De modo algum. Já foste atingida por um tiro de pistola?
- Não, nunca. Que é que isso...
- Então, como podes saber o que se experimenta num momento desses?
- Não posso. Mas sei o que é o sofrimento, e, se conheço bem a minha personagem, sou capaz de te dizer como reagirá à dor. Serei capaz de sofrer perfeitamente
quando esta bala imaginária me atingir.
- E porque consideras isso uma interpretação dramática? Se sofres realmente, então não representas o sofrimento. E se a peça está dois anos em cartaz, chegarás
ao fim demolida por completo.
- Ámen - disse Gillian.
- Quê?
- Que uma peça em que intervenha se mantenha dois anos em cartaz.
- Queres uma azeitona ou uma cebola no teu cocktail?
- Cebola. Seis.
- Porque não cinco?
- Bem, cinco - volveu ela, sorrindo. - É difícil viver-se contigo.
David deixou cair cinco cebolas no cocktail de Gillian, colocou uma azeitona no seu e aproximou-se da jovem com as duas bebidas.
- Vamos beber à saúde de quê, Gillian?
- À tua e à minha. À nossa.
- É tudo?
- E ao porvir - acrescentou ela com doçura.
Agradava-lhe a maneira como ela entrava num restaurante. No momento em que transpunha a porta tornava-se uma curiosa combinação de gourmet e de uma pobre
pequena faminta. Os seus olhos cintilavam com um novo resplendor, um sorriso espontâneo iluminava-lhe os lábios, cada inspiração parecia trazer-lhe a promessa de
saborosas delícias. Ao mesmo tempo, puxava os ombros para trás, erguia a cabeça bem direita, caminhava com a solene dignidade de uma princesa, lançando sobre a sala
um olhar de imperial desdém que todo o resto do rosto contradizia, tanto apetite fazia transparecer. Mesmo neste momento, vestida com calças e uma velha trincheira,
as faces molhadas pelos chuviscos de Abril, neste pobre restaurante chinês da Oitava Avenida, ela trazia um ar de feliz impaciência, a promessa de um festim fantástico
entre cintilantes convivas.
- O odor é agradável - disse a David.
- Tenho fome; e tu?
- Sinto-me desfalecer de voraz apetite.
O empregado aproximou-se deles e conduziu-os a uma mesa. Estendeu-lhes a carta e perguntou:
- Querem beber?
- Gilly?
- Não.
- Não, obrigado - disse David.
O empregado fitou-os durante algum tempo antes de se afastar.
- Já alguma vez notaste como estes criados chineses parecem bruscos e taciturnos? - pergutou Gillian. - Na verdade, não são uma coisa nem outra.
simplesmente a sua maneira de falar; sacodem as palavras, sem um sorriso, embora tudo o que digam tenha o ar de uma sentença de morte.
- Nunca o notei.
- Sim. Escuta quando ele voltar. Se voltar! Não lhe agrada a ideia de que não bebamos. E pensa que somos completamente malucos por termos saído com um tempo
destes.
- Ele também saiu, não achas?
- Não, ele está dentro do restaurante.
- Nós também!
- Compreendes muito bem o que quero dizer.
- Demais, o tempo é excelente, em comparação com o que tivemos em Dezembro.
- Adorei Dezembro.
- Li no Times que será inscrito nos anais oficiais sob a designação de "tormenta de 1947". Que dizes a isto?
- Que hei-de dizer? - retorquiu Gillian. - Podemos contar o facto aos nossos filhos. Dá-me a impressão de viver no tempo dos pioneiros. Então, que é feito
dele? Se não me apresentar depressa qualquer coisa de comer, começarei a atirar os pratos.
- Não almoçaste?
- Não.
- Porquê? Por Deus, Gilly...
- Não me fales nesse tom, David Regan! Tive uma audição.
- E porque te impediu tal facto de almoçar?
- Levantei-me às dez horas, desci para procurar o correio. Encontrei na caixa o último número do Thectre Arts, e deu meio-dia antes de me ter apercebido.
Assim, bebi um sumo de laranja e café, vesti-me e saí. A audição terminou cerca das três. Então, tive de me apressar, a fim de chegar a horas ao armazém. Eis porque
não almocei.
- Apanhaste o papel?
Não. Procuravam uma loura.
- Não poderás pintar o cabelo?
- Para quê? - redarguiu ela, franzindo a testa. - Não te agradam os meus cabelos?
- Adoro-os. Mas penso que para obter um papel...
- Ninguém me fez sugestão alguma. Além disso, gosto dos meus cabelos tal como são. David, estou a tornar-me impaciente, irritável. É melhor escolhermos depressa
a refeição.
Pegou na carta e disse:
- Eles têm cá estes maravilhosos camarões. Sabes, acompanhados com bacon. Queres?
- Sim - anuiu David. - E um pouco de cidra,
- Está bem?
- Nada de costeletas de porco?
- Sim, também.
- Deste modo, teremos dois pratos de carne de porco.
- Quem nos proibe de termos dois pratos de carne de porco?
- David, podemos mandar vir três, se quiseres.
- Perfeitamente.
- Perdoa-me. Estou a morrer de fome. Diz para nos servirem, sim?
Consultou novamente a carta.
- E frango, que tal?
- Muito bem.
- E sopa? Têm-na de won-ton frito. Experimentas?
- Muito bem.
- Okay: sopa, costeletas na grelha, camarões com bacon e frango. Não está mal, hem?
- Esqueceste o caroliin.
- David...
- Que é?
- Detesto o char-shu-din.
- Mas eu gosto.
Ela fitou-o gravemente durante um momento.
- Queres, por acaso, discutir? - perguntou ela.
- Não, penso que não.
- Sinto-me muito cadela... Por favor, chama o criado. Tenho tanto fome que quase desfaleço. Chama o criado, sim?
Ele assim fez. Gillian apoiou a cabeça no espaldar da cadeira.
- Já escolheram? - inquiriu o empregado, secamente.
- Sim - respondeu David. - Desejamos sopa de won-ton frito e...
- Os won-tons estão bem crostados? - perguntou Gillian com voz desmaiada.
- Sim - bradou o empregado.
- Bom.
- Costeletas grelhadas - continuou David. E... uh...
- Camarões - murmurou Gillian.
- Sim, e...
- Frango no espeto - disse Gillian, inclinando-se para a frente. Sorriu e acrescentou: - E esse maldito char-shu-din.
David ofereceu-lhe, por sua vez, um sorriso também.
- Traga depressa chá e qualquer coisa para comer; a senhora está morta de fome - disse ao empregado.
- Deseja arroz frito?! - bradou de novo o homem.
- Gillian...?
- Sim, está bem.
O empregado deixou-os para voltar um momento depois com um bule de chá quente e uma tigela de arroz. O chá fez voltar imediatamente a cor às faces de Gillian.
Bebeu duas chávenas e pôs-se, tranquila, a mastigar o arroz.
- Oh, agora sinto-me melhor. Perdoa-me, David. - Ele estava de testa franzida. A jovem fitou-o com um olhar perplexo.
- Que tens?
- Nada.
- Aposto que sei exactamente no que pensas.
- Dizlá.
- Estás a chegar à clássica conclusão masculina.
- Que queres dizer?
- Mostro-me irritável, mordaz e um pouco murcha. Estou certa de que tomas tudo isto como os sintomas flagrantes...
- De quê, Gilly?
- Da gravidez.
Ele sacudiu a cabeça.
- Não pensava, de modo algum, em tal coisa.
- Oh, mas sim! A ideia assusta-te?
- Não.
- Ficarias descontente?
- Não.
- Mas não me amarias tanto se eu ficasse gorda e inchada, não é verdade?
- Amar-te-ia não importa como.
- Então não te sentirias descontente se eu estivesse grávida?
- Não.
- Bem, não estou - disse Gillian.
David inclinou a cabeça.
- Estás aliviado, não?
- Afirmei-te que não pensava o que supunhas.
- Então em quê?
- No char-shu-din. Gosto deste prato.
- Mas nós mandámo-lo servir, não é verdade?
- Sim.
Silêncio.
- David...?
- Diz...
- Fui ontem ao médico.
- Porquê?
- Para ser submetida a um exame geral. Interrompeu-se.
- Pensei... - Encolheu os ombros.
- Delicioso, este chá. Reparaste no criado? Tudo o que diz tem o ar de uma intimativa.
- Sim, é verdade.
- Que há, David?
- Desejo deixar a Universidade. Para arranjar um emprego.
- Bem, que vês de tão terrível nisso?
- Porque não pediste que beber?
- Porque não me apeteceu.
- Não é verdade. Procedeste assim apenas porque sabias que, se cada um de nós tomasse um cocktail, a conta importaria em mais um dólar e meio. E não tens
a certeza de que eu me possa permitir essa despesa.
- É uma ideia absolutamente disparatada, David. Demais, não chegaria a um dólar e meio.
- Um dólar e vinte, pelo menos.
- Nesse caso, poderíamos ter ficado em minha casa. Tenho lá que comer.
- Bem, é preciso arranjar um emprego.
- Faz o que quiseres.
- Estou farto de receber a minha pequena mesada, como um colegial. E nada tenho aprendido. Não me interessa já prosseguir os estudos. É preciso arranjar
um emprego.
- David, se é o que desejas vá, procura-o! - volveu ela com secura.
Mas compreendeu súbitamente que ele não dissera tudo, apercebeu-se de que não era com ela que discutia, mas com qualquer coisa dissimulada no seu âmago.
E perguntou-se como se sentiria alguém que não possuísse objectivos autênticos; os seus sempre lhe pareceram bastante claros. Talvez as suas relações se tivessem
transformado neste instante fugitivo. Talvez, sentada defronte dele e contemplando-o, agora, que a chuva fustigava a vitrina do restaurante, compreendesse que, na
sua qualidade de mulher, de mulher que amava David, lhe seria exigida alguma coisa mais. Esta ideia causou-lhe medo, certo medo. Inexplicâvelmente, sentiu-se uma
estranha na vida dele, tinha a impressão de que amava um homem que não conhecia. Ei-lo diante de si, à mesa, mergulhado no seu silêncio e como que fechado numa concha
que quase podia tocar com um dedo. Tinha de encarar agora uma alternativa: sentia ou não o desejo de penetrar aquela concha? Era o que lhe causava medo De súbito,
sentiu-se ameaçada. Se avançasse naquele solo inexplorado, se se lançasse à descoberta deste homem que pretendia amar, se se tornasse para ele mais do que representava
agora, experimentaria a singular sensação de que, no caminho, perderia a sua própria identidade. Bruscamente. sentiu vontade de fugir.
O empregado chegara com a sopa. Gillian levou a colher aos lábios. A mão tremia-lhe.
Ela observava-o furtivamente, pensando: "Que queres tu de mim? Que te posso dar mais que já não te tenha dado?"
Mas ela sabia. E quando estivesse ligada no altar do sacrifício, quando David bebesse o sangue do seu coração e nele encontrasse sustento, quando David se
descobrisse algures no labirinto do seu corpo, da sua alma, da sua confiança, da sua fé, que restaria então de Gillian Burke? Em silêncio, sopesou o seu amor.
Com uma voz nervosa, disse:
- Conheces a história de Orson Bean sobre os dois chineses que vão a um restaurante americano?
- Não.
- 'É bem engraçada. Sabes como inicia o acto?
- Não, não sei.
- Ele surge e declara: "- Como estão? Chamo-me Orson Bean, Harvard, 42." Faz uma pausa e acrescenta: "- Yale, nada." - Gillian riu e fitou David, que continuava
calado e pensativo. - É na verdade bem engraçada. - disse ela, encolhendo os ombros. - Penso que não imitei bem. - Levou a colher aos lábios. A mão tremia-lhe ainda.
Bruscamente, ele estendeu o braço por cima da mesa e tomou-lhe a mão. A colher tombou com ruído sobre a mesa.
- Sabes? - disse David -. És a única pessoa no mundo que significa alguma coisa para mim.
O momento decisivo passara. Talvez tivesse passado naquela noite em que se conheceram no sótão de Igor.
Ela cobriu a mão de David com a sua e sorriu. Docemente, disse:
- É preciso que te encontremos um emprego.

Era certo que Matthew não tinha grande desejo de se mudar para o campo. Desde o fim de Novembro, depois de feita a primeira viagem de exploração a Talmadge,
ele declarara, com o seu tom mais firme:
- Não vejo, Amanda, porque nos devemos juntar à horda de aves migratórias que fogem da cidade. Acontece que gosto de Nova Iorque. Considero-a apaixonante,
interessante e prática. Demais, cresci numa pequena cidade e creio que não me agrada refazer a experiencia.
- Também cresci numa pequena cidade - volvera Amanda.
- Eu sei. Eis porque não compreendo como possas...
- Mas, verdadeiramente, Talmadge não é uma pequena cidade.
- Uma cidade é grande ou é pequena. Não existe meio termo. Talmadge é uma pequena cidade, Amanda. E pior ainda, uma cidade universitária. Como se pode suportar,
na maior parte do ano, um bando de devoradores de peixinhos vermelhos?
- Matthew, os estudantes não comem já peixes vermelhos.
- Mas devem decerto devorar qualquer outra coisa.
- Isso interessa apenas a eles, não achas?
- Sim, é verdade. Mas a minha ocupação é a advocacia. E ser-me-ão necessárias duas horas cada dia para ir de Talmadge ao meu gabinete. E outro tanto para
voltar.
- Não, uma hora e meia.
- Mais o percurso desde a Grand Central.
- Não tens mais do que te instalar noutro local. Disseste que pensavas entrar para uma firma de juristas.
- Mas não imediatamente, Amanda.
- Podias fazê-lo já, se o quisesses.
- Sim, mas não quero.
- Bem, não tomemos ainda uma decisão - volVera Amanda.
Dissera a mesma coisa em Fevereiro, depois de terem visitado sete casas em companhia de uma agente de imóveis, que falava com acento germânico e trazia um
lápis espetado em cunha, sobre a nuca. Esta mostrara-lhes quatro casas de estilo colonial, duas villas modernas e a versão abastardada de uma mansão do Sul que,
pretendia ela, fora copiada, segundo Monticelio. Mostrara-lhes também hectares e hectares de terreno de pousio, cheio, afirmava com orgulho, de noveleiro e cardiais,
e que era verdadeiramente dado a dois mil dólares por acre. No carro, de regresso, Matthew declarara:
- Não tenho confiança naquela mulher.
- Não tens confiança em alemão algum - redarguira Amanda.
- Não confio em alemães que me mostram terreno pantanoso a dois mil dólares o acre. Os noveleiros e os cardiais! Serão provàvelmente víboras e crocodilos.
- Que tal achaste a Monticello?
- Soberba! Mas não te pareceu que os alojamentos dos escravos eram um pouco estreitos?
Amanda volvera a rir:
- Não tomemos ainda uma decisão.
Estava-se agora em Abril, e os subúrbios de Talmadge debatiam-se na sua crise da estação. O céu achava-se plúmbeo, as árvores nuas, um vento glacial assolava
a paisagem ondulante. Mas o açafrão, os junquilhos, os jacintos, tinham irrompido já da dura crosta da superfície do solo e o verde garrido dos botões dos lírios
bordava os velhos muros de pedra de Connecticut. As forsythtas abriam-se timidamente: o amarelo era pálido, e viam-se ainda em pequeno número; não mostravam o dourado
vivo que as fazia cintilar quando o tempo se tornasse suave. Aqui e ali, uma flor de magnólia brotava, ousada mas prudentemente, do botão penugento, as pétalas ainda
apertadas no seu pudor rosa e branco. Os relvados exibiam um tapete incerto, onde o castanho esmaecido se mesclava com o verde novo. Pouco antes de nascer, a Primavera
hesitava diante das últimas rajadas ásperas do Inverno. A terra tinha um ar de desolação e expectativa.
Amanda apaixonou-se pela casa logo ao primeiro olhar que lhe lançou. A data estava gravada na viga que coroava a porta, e ela imaginou com clareza o senhor
colonial observando o trabalho do carpinteiro enquanto este se apurava na inscrição de cada número na madeira. Seguiu o agente de imóveis até ao pequeno vestíbulo,
viu a curva da escada que levava aos pisos superiores, a balaustrada polida. Largas tábuas com veios cálidos e vivos cobriam o soalho, conduziam à vasta sala de
estar, à enorme chaminé de pedra com o seu forno incrustado numa parede, o grande caldeiro de ferro suspenso de um gancho negro. Os tectos, de madeira, eram baixos.
Sentiu uma emoção primitiva tomar-lhe o peito enquanto subia a escada que dava acesso aos aposentos; teve a impressão de que conhecia a curva do
corrimão, experimentou uma imediata intimidade face a esta casa, como se lá houvesse vivido durante anos e a ela regressasse após longa ausência.
Os quartos davam para um pequeno jardim e um campo ondulante. Havia um regato, um pomar de macieiras e uma árvore enorme, cuja silhueta torturada parecia
pintada contra o céu.
- Quero-a - murmurou ela a Matthew.
- Provàvelmente tem térmites.
- Mesmo que tenha ratos...
- Veremos - disse Matthew.
Discutiram com o agente. Amanda sentiu-se flutuar numa gigantesca nuvem, mas Matthew mostrou-se prudente e suspicioso. Para secreto prazer de
Amanda, tomou a sua voz de homem de leis e começou a formular perguntas sobre impostos, hipotecas, os privilégios que podiam obter sobre a propriedade. Havia
fábricas na cidade?, perguntou. A que distância da estação de caminho de ferro se
encontrava a casa? As escolas municipais eram boas? Quais eram as propinas? Por fim, chegou-se aos problemas puramente materiais e perguntou porque
havia uma grande mancha de humidade numa das paredes da cave: o escoamento das águas não se fazia bem? O ângulo nordeste da casa não seria terrivelmente
fustigado pelo vento no Inverno? Quem residia na casa vizinha? A cidade acolhia com afabilidade os recémchegados? Por fim, agradeceu o tempo que lhes consagrara
e regressaram em silêncio a Nova Iorque, Matthew alinhando números mentalmente, Amanda perguntando-se onde colocar o piano na sala de estar.
Quando chegaram ao apartamento, Amanda subiu imediatamente; Matthew arrumou o carro e recolheu a correspondência. Quando se juntou à mulher, esta tinha
já tirado o vestido e os sapatos. Sentada na sala de estar, olhava para a parede com um largo sorriso.
- Será encantador - disse ela.
- Ainda nada decidimos.
- Oh, mas vamos ocupá-la, não é verdade, Matthew?
- O agente disse que a tinham alugado para o Verão.
- Sim, mas ficará livre em Setembro.
- Quem sabe os estragos que lhe causarão esses locatários estivais ....
- Matthew, fizemos já os nossos projectos para o Verão. O Outono é uma bela estação para se fazer uma mudança. Porque falaste sobre as escolas?
- Porque não havia de falar? Deve-se sempre tocar no assunto.
- Podemos ter filhos, não é? - disse ela, sorrindo.
- Tens aqui uma carta de Minesota - declarou Matthew.
Lançou o sobrescrito para o regaço de Amanda, depois fez deslizar a mão sob a combinação da mulher, tocando a carne da coxa.
- Vamos começar já... a criar uma família? - disse ele.
- Não, quero ler a carta. É da Penny?
- Parece a caligrafia dela. Ainda és a mais doce...
- Eh, retira a mão daí - ordenou Amanda, num tom ameaçador. - És fresco - acrescentou, e abriu o sobrescrito. - Queres que a leia alto?
- Decerto - suspirou Matthew.
- "Minha muito querida irmã" - começou Amanda. - "Que interessante estares gorda, que interessante estares gorda."
- Quê?
Amanda sacudiu os ombros.
- "Que interessante estares gorda!" - repetiu ela, embaraçada. - Que supões que quer ela dizer?
- É tua irmã - volveu Matthew, encolhendo os ombros.
- Deve tratar-se de uma graça, certamente. É provável que a explique.
- Bem, vou tomar um duche - disse Matthew.
- Oh, senta-te durante um minuto. - Prosseguiu a leitura.
- "Sou garras."
- Sou quê?
- "Sou garras."
Amanda interrompeu-se e ergueu os olhos para Matthew.
- Continua - afirmou ele, franzindo a testa.
- "Tu é melhor manteres-te atenta, farás bem em ser cautelosa. Não deverá fazer calor em Novembro quando eles morrem."
- Tu inventas, não? - perguntou brutalmente Matthew.
- Não, oh, não. Eu... Matthew...
- Lê.
- Matthew, tenho medo!
- Lê!
- "Não deverá fazer calor em Novembro quando eles morrem" - repetiu Amanda.
A sala encontrava-se agora silenciosa. A voz de Amanda não era mais do que um murmúrio, e não ergueu os olhos para Matthew enquanto seguia as garatujas de
Penny.
- "Amanda, querida, não crês que devias trazer uma fita amarela em memória do meu marinheiro, que está tão longe? Ora, Amanda, porque não me escreves? Estou
tão farta de chorar... Tu não ajudas? Tu costumavas auxiliar-me a limpar a casa nos sábados de Novembro, mas não queres. A mãe não me deixa conduzir o carro. Diz-lhe
que me dê as chaves, senão como-a toda inteira. Ama o galo voador, o marinheiro vestido de azul. Saudades, Penélope."
As mãos de Amanda tremiam. Ergueu os olhos para o marido, sem ousar mover a cabeça.
- Matthew, temos de...
- Sim. Iremos amanhã.

Nada parecia ter mudado, a não ser Penny. A mãe não dava a impressão de ser mais velha e o pai ainda exibia aquele sorriso curioso que descobria um dente
de ouro no canto superior direito da boca; mesmo a pequenita Kate, que contava agora 5 anos, não parecia ter crescido grande coisa. A casa era sempre igual, o relvado,
o ar de Minesota, nada mudara a não ser Pe'nny.
- Olá, Amanda! - disse ela. - Divertiste-te?
Amanda fitou a irmã bem nos olhos e apertou-a com vigor contra si. A família via de novo Matthew.
O pai de Amanda conduziu-o à garagem para lhe mostrar as suas novas ferramentas eléctricas. Kate manchara o vestido com os dedos cheios de tinta. Penny levou a criança
para cima, a fim de lhe mudar a roupa, a mão sobre a nuca da menina, cujos longos cabelos louros fluíam entre os seus dedos enquanto a fazia subir a escada.
Amanda e a mãe ficaram no jardim, que a Primavera ainda não tocara. Priscilla Soames mostrava-se calma e sensível, de uma calma exasperadora, ao caminhar
com Amanda, debruçando-se uma vez por outra para examinar um novo rebento; porém, seguia a maior parte do tempo com as mãos afundadas nos bolsos do casaco de lá
castanha.
- Que tem ela? - perguntou Amanda.
- Nada. A tua irmã está bem.
- Recebi uma carta que...
- A tua irmã dispõe de bastante imaginação.
- Esta carta não era produto da imaginação.
- Não? Que era então, minha filha?
Priscilla ergueu as sobrancelhas e examinou Amanda com frieza.
- Era a carta de uma...
- Amanda interrompeu-se. Depois, com maior vivacidade, prosseguiu:
- Era a carta de uma louca.
- Ora, Amanda...
- Sabias que ela me tinha escrito?
- Não. Mas se recebeste uma carta que te pareceu deprimente, não devias...
- mais do que depressão.
- A tua irmã tem dias sombrios. Quem os não tem? E é obrigada a carregar um fardo mais pesado que a maioria de nós. Com a ajuda de Deus..
- Mãe, isto nada tem que ver com a ajuda de Deus. A carta da Penny...
- Gostaria que não falasses assim do Senhor disse Priscilla. - Não sei o que aprendeste no Este, mas esta é ainda a minha casa, filha, e não quero ouvir...
- Desejo saber o que se passa quanto à Penny.
- Mas absolutamente nada. O marido morreu, eis tudo. Ela amava-o profundamente. Quando ele...
- Mas já decorreram seis anos, mãe!
- Sim, mas a dor estabelece limites de tempo?
- A dor? Por amor de Deus, quando cheguei ela tinha um ar de...
- Se blasfemas o nome do Senhor...
- Ora, importa-me lá bem o nome do Senhor! - gritou Amanda.
Bruscamente, Priscilla fez um volta-face e começou a caminhar em direcção de casa. Amanda apanhou-a por um braço:
- Vamos terminar esta conversa, mãe - disse
ela de dentes cerrados. Priscilla encarou-a com um olhar frio, sem responder.
- Compreende-me - tornou Amanda.
- Não grites.
- Que é que se passa quanto à Penny? Chamaste um médico, mãe?
- Ela é capaz de te ouvir.
- Está lá em cima, com a pequenita. Nada ouvirá.
- De uma maneira ou de outra, tenho horror aos gritos.
- Chamaste um médico para a observar, mãe?
- Para quê, se ela de nada sofre?
- Que me tentas esconder, mãe?
- Foi para isto que te deslocaste de Nova Iorque? Era preferível que tivesses ficado lá com o teu marido e os teus amigos. A Penny de nada sofre.
- Não a via há dois anos; porém, a primeira coisa que me perguntou foi: "Divertiste-te?", como se eu chegasse de um baile. Mas ela nada tem.
Amanda fez uma pausa antes de prosseguir:
- Porque não consentes que ela conduza, mãe?
- Temos somente um carro e o teu pai necessita dele.
- Todavia, nunca lho recusaste, antes.
- A paróquia do teu pai é maior agora. Demais...
- Quê?
- Nada.
- Diga!...
- A tua irmã teve um pequeno acidente na cidade, há algumas semanas. Pensámos que seria melhor, até que ela... - Priscilla encolheu os ombros.
- O teu pai achou que seria melhor que ela não conduzisse.
- Que género de acidente?
- Um acidente sem gravidade.
- Então porque não consentem que ela conduza?
- Amanda, não me agrada o tom com que me falas.
- Perdoe-me, mãe, estou um pouco nervosa. Que espécie de acidente?
- Atropelou alguém.
- Quê?
- Não vás imaginar um acidente terrível, Amanda. A mulher nem sequer sofreu uma beliscadura. Mas pensámos que seria preferível...
- Onde aconteceu isso? O acidente?
- Na velha Estrada Courtney.
- Que fazia ela lá?
- Passeava, apenas.
- E a mulher?
- Seguia a pé, Amanda. Pela beira do caminho.
- E Penny atropelou-a? Mas é a estrada mais larga de Otter Falls!
- Creio que sim.
- Que fez ela para...?
- Não sei, Amanda.
- Atropelou-a de propósito?
- Certamente que não!
- Sim ou não?
- Não! - disse Priscilla, lançando à filha um olhar irritado. - És tão rude em Nova Iorque? Pareces ter-te esquecido das tuas maneiras, Amanda. Suponho decerto
que os teus amigos...
- A Penny precisa de um médico.
- Mas não! Ela é tão sã de espírito como... - A expressão que ia proferir assustou Priscilla. Cerrou prontamente a boca.
- Sim - volveu Amanda.
Priscilla continuou calada.
- Vou chamar um médico - declarou Amanda.
- Não, não farás nada desse género. Esta é ainda a minha casa. A tua fica em Nova Iorque.
- Mas a minha irmã vive aqui.
- É um pouco tarde para que penses nela.
- Que quer dizer?
- Sabe-lo muito bem.
- Não.
- Então sugiro-te que faças por ignorar tudo
- Não! Que quer dizer?
- Quiseste viver em Nova Iorque, Amanda. Muito bem, fica por lá. Achamo-nos muito capazes de cuidar de nós. E Penny também.
- Não compreendo.
- Compreendes-me perfeitamente, filha. Nunca tivemos dificuldade em nos entendermos.
- Sim - redarguiu Amanda, inclinando a cabeça.
- Sim, compreendo perfeitamente.
-Muito bem. Agora, vou voltar. Começa a fazer frio...
- Que se passou, mãe? Destruí os projectos que traçaste em relação a mim? Devia regressar a Otter Falls para casar com o dono do talho da esquina? E para
tocar piano, para ele, de maneira magnífica, todas as tardes?
- Não fiz projecto algum em relação a ti, Amanda.
- Foi isto, então, o que se passou? - tornou Amanda, com amargura. - Bem, estou desolada. Estou terrivelmente desolada, mãe, por eu mesma ter escolhido a
minha vida. Mas a Penny continua a ser minha irmã! E não vais pretender que ela se encontra bem, como pretendias que eu fosse para a Universidade apenas para aprender
a tocar piano, não é verdade, mãe?
- A Penny é minha filha - replicou Priscilla com frieza.
- Eu também.
As duas palavras ficaram suspensas na atmosfera da tarde. Priscilla não respondeu. Amanda fitou demoradamente a mãe e disse por fim:
- És fria como pedra.
- Obrigada, minha filha.
- És uma cadela sem coração - disse ainda Amanda, feliz por pronunciar tais palavras, por as lançar ao rosto da mãe.
Uma gargalhada rompeu a atmosfera de Abril. Amanda não a ouviu sômente: ela atingiu o seu peito como um punho fechado. Voltou para casa. O riso estridulava
de novo, sempre mais agudo, histérico; traspassava as janelas abertas do andar superior. Amanda sentiu os olhos alargarem-se, o sangue abandonou-lhe as veias, deixando-a
gelada. O riso ressoou terceira vez, estridente, adejando na tarde que tombava já, indo dissipar-se em ecos abafados. "A casa", pensou Amanda. "Penny", lembrou-se.
E gritou alto: "A pequenita! Ke...!"
Largou a correr pelo relvado. Mil vezes, quando menina, fizera este mesmo caminho; conhecia cada pedra, cada folha de erva. Mas nesta tarde a terra resistia-lhe,
parecia querer retê-la. O riso, uma vez ainda, rompeu no silêncio. Amanda subiu, correndo, os degraus da entrada, tentou voltar o puxador da porta, mas não o conseguiu.
Apertou com vigoro puxador, que parecia deslizar-lhe da mão. A porta abriu-se bruscamente, e Amanda viu-se projectada no vestíbulo. Surpreendeu no espelho o reflexo
do seu rosto sobressaltado, deformado pelo medo, os olhos num esgar. "Onde?", pensou. Precipitou-se para a escada, tropeçou no tapete, quase caiu. Ouvia agora outra
coisa além do riso diabólico: Kate gritava. Amanda, apoiada no corrimão, subiu a saia e pulou os degraus dois a dois. Por último, perdeu um sapato, mas atravessou
o corredor a correr em direcção ao quarto de Kate.
Elas estavam sentadas no soalho, no meio do quarto, a mãe e a filha. Penny ria. Segurava numa das mãos uma mecha dos longos cabelos louros da criança e,
na outra, uma tesoura. Cortou, com um movimento vivo, a mecha e, de dedos separados, deixou-a tombar sobre o tapete já pejado de cabelos. A pequenita arfava, soluçando,
contemplando a mãe, observando a tesoura que se aproximava uma vez mais do seu rosto. As lágrimas desciam pelas faces miúdas, os olhos exprimiam terror e espanto.
- Penny! - gritou Amanda.
A irmã voltou-se; não tinha expressão, mas um semblante vago, perdido. Sorrindo com um ar ausente, disse:
- Estou a cortá-los.
- Dá-me a tesoura, Penny - ordenou Amanda, estendendo a mão.
O sorriso esvaeceu-se nos lábios de Penny. De sobrancelhas franzidas, ergueu-se. Junto dela, Kate chorava.
- Penny - disse docemente Amanda, mas a sua voz continha agora uma inflexão de terror. Este terror pareceu, de súbito, percorrer a distância que separava
as duas irmãs: qualquer coisa iluminou os olhos de Penny. De punho crispado sobre a tesoura, investiu. Amanda viu as pontas afiadas das duas lâminas e, na expressão
da irmã, o inimaginável horror de um olhar totalmente átono. A tesoura faiscou, na direcção do peito de Amanda. Ela conteve o punho de Penny e conseguiu deter o
movimento; porém, o braço da irmã possuía um vigor sobrenatural. Penny lançou, brusca e violentamente, o punho esquerdo no rosto de Amanda. Com choque, a jovem encontrou-se
estendida no tapete, ao lado de Kate. Sentiu a boca cheia de cabelos, que se lhe colaram também ao rosto, aos lábios, enquanto Penny avançava sobre ela; a demente
tinha agora um sorriso mecânico, controlado, frio como a morte.
- Penny!
Ela fez recuar a tesoura, pronta para investir.
- Penn!
A irmã começou a rir, o mesmo riso agudo, histérico, que irrompera pela janela e perturbara a quietude do jardim. Lançou-se sobre Amanda, as lâminas da tesoura
em riste, numa fúria quase cega, e rasgou a manga da blusa, feriu o braço de Amanda, a quem um só pensamento obsidiava: "É a minha irmã, é Penny, é Penny." Mas de
súbito a sua mão reagiu espontâneamente: uma terrível bofetada atingiu Penny numa das faces e fê-la vacilar. Amanda continuou a bater, uma vez mais, ainda outra,
enquanto Penny ria, ria sem parar, sem se poder deter. Por fim, o riso transformou-se em soluços, a tesoura caiu-lhe dos dedos e ela tombou no soalho ao lado de
Amanda, lançando-se-lhe nos braços. Ficaram assim durante longo tempo, sentadas no meio do quarto de Kate, Penny chorando, abraçada a Amanda, que lhe acariciava
os cabelos, soluçando tambem, enquanto a pequenita de 5 anos as fitava, os olhos abertos de espanto.
No dia seguinte conduziram Penny à clínica psiquiátrica do hospital de Mineápolis. Fez a viagem instalada no assento da parte de trás do carro, muda e sombria,
os olhos fitos na paisagem. Sõmente abriu a boca uma vez, para gritar palavras incoerentes, antes de mergulhar no seu tenebroso silêncio. No hospital, relataram
ao psiquiatra de serviço os acontecimentos do dia anterior. Ele escutou com paciência, sem nunca desviar a vista de Penny, sentada, rigida, na cadeira colocada ao
lado da secretária do médico, fixando no chão o olhar mortiço. Quando ele se lhe dirigiu, ela não respondeu. O psiquiatra não tomou quaisquer notas; limitou-se a
info'rmações superficiais, como a idade de Penny, o estado, o número de pessoas que constituíam a familia, coisas que qualquer clínico poderia perguntar em face
de um caso de sarampo. Declarou a Amanda que gostaria de manter Penny em observação e que no decurso da semana seguinte um assistente psiquiátrico se apresentaria
sem dúvida em Otter Falls a fim de se entender com os pais da doente. Entretanto, não deviam alarmar-se. Talvez se tratasse de uma perturbação temporária.
Conservaram Penny na clínica durante trinta dias. Amanda permaneceu em Minesota durante o período em que a doente esteve em observação. Matthew teve de regressar
a Nova Iorque, mas escreveu diàriamente à mulher; ela respondeu-lhe a todas as cartas, à noite. Antes de adormecer, orava pela irmã. Certo dia, entrou na igreja
onde se casara e começou a tocar órgão. Supunha estar só com os raios de sol que se filtravam através dos vitrais. Mas, quando terminou o prelúdio de Bach, ouviu
a voz do pai:
- É magnífico, Amanda - disse ele, estreitando-a com doçura pelos ombros.
Durante a estada de Penny na clínica, um assistente psiquiátrico visitou quatro vezes a casa dos Soames. Era um jovem muito simpático, que tudo escutava
com paciencia, tomando grande número de notas. Quando Amanda lhe pediu notícias sobre Penny, sorriu com gentileza e respondeu que nada sabia, mas que estava convencido
de que ela se encontrava em boas mãos. Nos fins de Maio, voltaram à clínica e vira o psiquiatra que se encarregara do caso. Era um homem alto, desengonçado, que
parecia não caber na cadeira onde se sentava, por trás da secretária. Quando retirou os óculos, pareceu muito mais novo e curiosamente desarmado diante do assunto
de que devia falar. Sem emoção, mas com gentileza e com o mínimo possível de palavras, explicou que Penny era uma esquizofrénica do tipo paranóico e que seria necessário
um período de hospitalização e de terapêutica intensivo. Amanda escutou o diagnóstico e o prognóstico num silêncio aterrado. Priscilla, sentada calmamente numa cadeira
de espaldar direito, declarou:
- Não enviarei a minha filha para um hospital.
- Ela encontrava-se gravemente doente Sra. Soames - volveu o médico.
Amanda teve, naquele momento, a sensação de que ele já conhecera mil cenas deste género. Surpreendeu nos olhos do psiquiatra uma expressão de sofrimento
e desejou que ele colocasse de novo os óculos.
- Ela já esteve assim - disse Priscilla.
- Não creio, Sra. Soames.
- Como o poderá saber? Ela é minha filha.
- Sim, mas é minha doente. - Iclinou-se para ela, agitando levemente as mãos grandes. - Tivemos de a manter numa camisa de forças nos últimos dois...
- Camisa de forças?! - interrompeu Priscilla. Uma das suas mãos deixou a mala pousada no regaço, como se fosse agredir o médico. A mão agitou-se num gesto
vago e Priscilla, voltando-se para Amanda, pareceu recordar-se de que não encontraria do lado da filha nem ajuda nem consolação. Então voltou-se para o marido, muito
pálido e aturdido.
- Ela tornou-se extremamente violenta - afirmou o médico. - Não teríamos...
- Não acredito.
- Sra. Soames, creia. Há duas semanas, ela quis estrangular uma das enfermeiras da sala.
- Não acredito. Não acredito no que ele diz.
O médico colocou os óculos. Procurou uma posição confortável na cadeira, muito pequena para si.
- Gostaria de lhe poder dizer outra coisa. Gostaria de lhe dizer que ela está melhor, que está bem.
- Sacudiu a cabeça. - Mas não é verdade - prosseguiu. - Perdeu todo o contacto com a realidade, Sra. Soames. Suja-se, recusa comer... Há alguns dias que somos obrigados
a alimentá-la por meio de injecções intravenosas. Ela tem uma necessidade absoluta desta hospitalização. Não posso declarar outra coisa, Sra. Soames. Quero que ela
seja hospitalizada.
- Não a enviarei para um hospital.
O médico suspirou. Este suspiro não traduzia nem impaciencia nem fadiga, mas uma quase tristeza.
- Nós podemos insistir num internamento legal.
No silêncio do gabinete, as palavras ressoaram como uma bofetada.
- Então, é o único recurso que vos resta - disse Priscilla.
- Preferíamos não o utilizar. Se é a senhora que
a faz internar, pode, não importa em que momento, pedir que lha entreguem. Se formos obrigados a recorrer ao internamento legal, ela não poderá voltar
à vida normal sem que o director do hospital recomende a sua libertação.
- E quando fizer o pedido - perguntou Priscilla com um tom sarcástico - deixá-la-ão sair automàticamente?
- Depende do hospital.
- É bem o que pensava. Não a quero internar. Por quanto tempo... deverá ela ficar encerrada? - perguntou ela, após um silêncio.
- Não sei dizer-lhe, Sra. Soames. Até à cura. A nossa intenção não é encerrá-la numa prisão, mas prestar-lhe auxílio. Pode confiá-la a uma clínica particular,
se pensa que um hospital público...
- Que há de mal quanto aos hospitais do Estado? - perguntou vivamente Priscilla, num tom suspicaz.
- Nada. Mas certas famílias preferem um estabelecimento particular.
- Quanto custa uma destas clínicas?
- Isso varia. Duzentos, trezentos dólares por semana.
- Não podemos despender tal quantia.
- Os estabelecimentos públicos...
- Meu marido não é banqueiro, é pastor.
- Os estabelecimentos do Estado são muito bons, Sra. Soames.
- Sim? São tão bons como o vosso hospital, onde, depois de terem observado uma jovem durante algumas semanas, acabam por declarar que ela é uma louca incurável?
- Nunca afirmei...
- Não enviarei a minha filha para um hospital!
- E fá-lo-ia se ela sofresse de tuberculose?
- É diferente. O senhor afirmou-me que a minha filha está louca! - gritou Priscilia.
- Eu nem sequer conheço essa palavra, Sra. Soames. Disse simplesmente que a sua filha está gravemente doente. Digo que a queremos ajudar. Se recusar, teremos
de recorrer ao internamento legal.
- Muito bem, procedam como vos agradar redarguiu Priscilla, erguendo-se.
Dois psiquiatras assinaram os papéis necessários ao internamento de Penny e assistiram à audiência que se desenrolou perante um juiz do Tribunal Superior
de Mineápolis. Em 6 de Junho de 1948, Penny foi confiada ao Hospital de Sandstone, Minesota.
Antes de regressar a Nova Iorque, Amanda teve uma conversa com um dos médicos. Sentados no gabinete, falaram calmamente de Penny, como amigos.
- Existe uma possibilidade de ela se curar? - perguntou Amanda.
- Não vejo motivo por que não exista - respondeu o psiquiatra. - Tem-se repetido com certa persistência que os doentes mentais são incuráveis, Sra. Bridges,
de modo que receio que o leigo experimente, face a estes casos, uma impressão de total desespero.
O facto é que sessenta a setenta e cinco por cento das psicoses agudas são curáveis.
- Compreendo - disse Amanda.
- E mesmo quando não conseguimos obter uma cura completa podemos esperar sempre uma modificação considerável num sentido favorável. Cuidaremos com o maior
desvelo da sua irmã, Sra. Birdges. Tenha confiança. Faremos todo o possível para a ajudar.
- Mas como? Ela... ela recusa-se a comer, ela...
- Temos obtido excelentes resultados com certas drogas. Uma vez que a consigamos serenar suficientemente, uma vez que comecemos a falar com ela, que estabeleçamos
um meio de comunicação, uma vez que possamos compreender a sua doença, então podemos esperar que ela a compreenda e se compreenda a si mesma. O que é necessário
é conduzi-la à realidade, ao ambiente normal, como oposição à irrealidade da doença mental. Isto não pode ser realizado de um dia para o outro, Sra. Bridges. Mas
uma doença mental não se desenvolve, do mesmo modo, de um dia para o outro.
- E este tratamento ajudá-la-á? - perguntou Amanda. - Quando lhe conseguirem falar? Quando ela vos falar? Poderá ajudá-la?
- Trata-se, em primeiro lugar, de estabelecer comunicação - disse o psiquiatra. - Se o conseguirmos todas as esperanças são possíveis.

(Jamais escrevi às pessoas que conhecia, Gillian, pois que o endereço nas costas do envelope indicaria com clareza que eu estava preso e não de convalescença
num hospital de Marinha.
Chamavam àquilo um campo de retreinamento naval, mas a denominação não enganava ninguém. A minha mãe era a única que sabia onde eu me encontrava e escrevia-lhe,
ao que me lembro, uma vez por semana. Ela dissera a toda a gente em Talmadge que eu fazia parte de uma patrulha costeira em Camp Elliot. Suponho que acreditaram
na história. Ninguém se me referiu fosse ao que fosse. Tu és a única pessoa do mundo, além da minha mãe, que sabes que estive preso. E afirmei-to cinco minutos depois
de te ter conhecido. Creio que isto constituirá uma prova do que sinto por ti.
Comecei a cumprir a pena em Maio de 1943. Ao fim de dois anos, subscrevi um pedido de libertação. Estava prestes a ganhar a minha causa quando um dos elementos
que compunham a comisão de revisão do processo se lembrou de que eu agredira um oficial. A comissão decidiu que deveria cumprir a pena por inteiro. Talvez as coisas
se passassem de modo diferente se eu tivesse matado uma velha dama de Seattle. Mas, compreendes, agredira um oficial. Então, o meu pedido foi recusado. Passara já
dois anos na prisão, mas não era ainda o suficiente
Dois teriam bastado, Gillian. Mas não aos olhos dos oficiais da comissão. Comecei a pensar nos anos que me esperavam, três anos ainda de clausura, enquanto,
no exterior, a vida continuava, as pessoas riam, jogavam às cartas, bebiam cerveja ou aqueciam as mãos junto de radiadores. Livres. Quase enlouqueci. Quase pensei:
"Quem se importa comigo, Santo Deus? Se passar aqui o resto da vida, quem fará caso das minhas dores?" Mas pouco depois lançaram as bombas atómicas e a guerra terminou.
Então, antegozei o sabor da liberdade. Afigurou-se-me que não existia razão alguma mais para me manterem em clausura, pois a guerra acabara. Iriam libertar-me, sentia
nos lábios o gosto da liberdade. Assim, sob a minha alma desceu um véu de tranquilidade e tornei-me o preso modelo, que esperava, ao fim de três anos fazer um novo
pedido de libertação.
Foi neste período que conheci Mike Arretti.
Ele encontrava-se em Camp Elliott há já bastante tempo e teria de aí permanecer ainda não sei quantos anos mais. Era marinheiro das companhias de transmissões
e detivera-se em Nova Orleães com uma raparíga cujo marido fazia parte de um comando de treino na Inglaterra. Ela tinha um miúdo de 6 anos e uma casa no bairro francês.
O Mike partira de San Diego, em cujo porto se encontrava o seu navio, a caminho de Easton, Pensilvânia, a fim de visitar a mulher. Tinha duas semanas de licença
e tencionava passá-las com ela. Mas o encontro com a rapariga de Nova Orleães modificou-lhe os planos. Ele instalou-se em casa da jovem, na companhia dela e do filho,
e excedeu a licença em oito dias. Uma bela manhã, ao despertar, fez um cálculo rápido e chegou à conclusão de que o navio devia aparelhar no dia seguinte rumo ao
Pacífico.
Não via possibilidade de o apanhar, quer de comboio, quer de auto-stoP. Assim pôs-se a telefonar para todas as companhias de transportes aéreos. Uma delas
disse-lhe que o podia conduzir a Dallas e daí a Los Angeles por cento e um dólares e oitenta e sete cêntimos, enquanto outra o conduziria de Los Angeles a San Diego
por dez dólares e vinte e oito cêntimos, com todas as taxas incluídas. A viagem completa demoraria cerca de sete horas, o que lhe permitiria chegar a tempo de apanhar
o barco.
Mas deparava-se-lhe apenas uma dificuldade: o Mike não possuia sequer um centavo, e o mandado de delegação de soldo que a jovem aguardava ainda não chegara.
Portanto, nenhum deles tinha com que pagar a viagem. O Mike dirigiu-se aos serviços sociais das Forças Armadas, que o reenviaram para a Cruz Vermelha, que o mandou,
por sua vez, para a Casa dos Marinheiros Mas nenhum destes organismos parecia decidido a fornecer-lhe o dinheiro para a viagem de regresso.
Desesperado, telefonou à mulher, em Eeaston, e disslhe: "- Querida, estou envencilhado em Nova Orleães e preciso de cento e vinte dólares para voltar a San
Diego. Queres, por favor, mandarmos por vale telegráfico?"
A mulher perguntou-lhe o que fazia ele em Nova Orleães e o Mike respondeu que fora enviado para lá a fim de seguir um curso de aperfeiçoamento. Telefonava
da escola onde recolhera depois de o resto do grupo ter partido. Mentiras em que a mulher teria acreditado se o pequenito de 6 anos não entrasse nesse momento na
sala e pedisse para falar à mãe. O Mike tentou afastar o miúdo do telefone, dizendo-lhe que não era a sua mãezinha que se encontrava na outra extremidade da linha,
mas o pequeno continuou a gritar. "-Quero falar com a mãezinha! Quero falar com a mãezinha!" A mulher do Mike ouviu perfeitamente as palavras da criança. Não estando
ao corrente das questões militares, sabia contudo muito bem que não se deixa que garotos corram à sua vontade e peçam para falar às mãezinhas em escolas de transmissões.
Ela não sabia exactamente que curso de aperfeiçoamento seguira o marido, mas compreendia que o que se passava nada tinha que ver com qualquer espécie de sinalização
luminosa. Assim, disse-lhe que fosse para o Diabo e desligou.
O Mike tinha necessidade deste dinheiro como só o podia ter um homem que corria o risco de ser ) acusado de deserção em tempo de guerra. Desceu à cidade, encontrou
uma casa de penhores encerrada, forçou uma janela para lá se introduzir e apoderou-se de cento e cinquenta dólares da caixa. Beijou a mulher do "comando" e aplicou
ao garoto o mais valente tabefe da sua vida. Poderia ter-se juntado ao barco sem um instante sequer de demora em Dallas.
Mas tal não aconteceu. A Polícia Militar filou-o no dia seguinte. Foi acusado de deserção e de roubo. A segunda acusação seguira-o de uma costa à outra, depois de
a mulher do "comando" ter notificado a Polícia de Nova Orleães da pequena aventura do Mike. Ele não deveria, sem dúvida, ter batido no miúdo diante da mãe.
Assim, ei-lo em Camp Elliot a cumprir uma pena de uns vinte anos. Podia esperar ser posto em liberdade e desembaraçar-se da Marinha aí por volta dos 88 anos.
Tornámo-nos bons amigos. Ele era um belo conversador e eu gostava de o ouvir. Passámos bastante tempo a discutir o que faríamos quando pusessem termo à nossa clausura.
Foi uma amizade aparentemente sólida, a nossa, até ao dia em que a comissão examinou o meu segundo pedido, em Dezembro de 1945, e me informou de que fora aceite;
seria reintegrado no serviço activo em Maio do ano seguinte.
Então, Gillian, apoderou-se de mim uma espécie de febre. O mundo inteiro parecia aguardar a minha chegada. E, como é natural, a primeira pessoa a quem contei
a boa nova foi ao Mike. Ele ouviu-me em silêncio, inclinando a cabeça; depois, disse:
"Então vais deixar-me, hem, amigalhaço?"
Respondi qualquer coisa deste género: "- Não te preocupes, Mike; sairás daqui um dia qualquer, quando menos o esperares", ou uma outra frase igualmente idiota,
dirigida a um homem que tinha tantos anos de clausura à sua frente. O Mike contentou-se em inclinar a cabeça uma vez mais.
"- Vais deixar-me", repetiu, como se eu cometesse uma grande injustiça para com ele.
"- Ora, meu velho. Não sentes prazer em face desta notícia? Vou-me daqui, rapaz Vou-me embora!"
E o Mike continuou a sacudir a cabeça, olhando-me fixamente sem proferir palavra.
Encontrava-me já com um pé de fora quando a coisa aconteceu. Não tinha mais de dez dias à minha frente.
Estávamos em Maio, Gillian. Fazia bastante calor. Creio que nunca levantaste uma picareta, e portanto não sabes quão pesada ela se torna quando a erguemos
e a deixamos cair durante horas. Suponho que não podes imaginar a maneira como o pó da pedra se nos infiltra nas narinas e sob o vestuário, este pó que cada golpe
de picareta faz subir, como se fora vidro pulverizado; introduz-se nas tuas narinas, sob a camisa, e obriga-te a coçares-te; penetra-te nos olhos, até que não sabes
distinguir as lágrimas do suor. Nesse dia, eu e o Mike mourejávamos lad a lado. Tínhamos as grilhetas nos pés; não era costume, mas o local onde nos encontrávamos
ficava a certa distância da prisão, e havia somente um guarda para doze pessoas, armado com uma espingarda e um bastão.
Labutávamos lado a lado e as picaretas iam e vinham com este movimento maquinal, que não é trabalho, mas esforço. O guarda encarregado do nosso grupo tinha
uma voz de papagaio. De cinco em cinco minutos bradava: "- Vamos, rapazes, despertai! E- preciso fazer pedras miúdas destas pedras grandes !" Lançava esta frase
como se fosse uma boa piada. De cinco em cinco minutos a sua voz rompia a bruma da poeira: "- Vamos, rapazes, despertai. . ." Doze homens desferiam a picareta contra
a pedra e o pó suspenso no ar sufocava-nos. Mal se distinguia o homem que se encontrava a um metro de nós, mas de cinco em cinco minutos ouvia-se esta voz que traspassava
a bruma: "- Vamos, rapazes, despertai! É preciso fazer pedras miúdas destas pedras grandes!"
Bruscamente, a meu lado, elevou-se uma outra voz.
A de Mike.
Ela vociferou:
"-Vai para o Diabo, imbecil !"
Voltei-me para ele e, de súbito, produziu-se um profundo silêncio, Gillian; neste silêncio o guarda perguntou: "- Quê?" A sua voz era calma. Não parecia,
de modo algum, Perturbado. Fez a pergunta como se não tivesse ouvido com clareza o que fora dito e pedia que o autor da intervenção a repetisse.
E, no meio da nuvem de poeira, o Mike respondeu:
"- Vai para o Diabo, bastardo imundo!"
O guarda dirigiu-se para nós. As picaretas detiveram-se. O pó tombava. Ficámos a fitá-lo, as grilhetas nos pés, o rosto sulcado de poeira, de suor e de lágrimas,
a garganta ressequida, os olhos ofuscados Pelo sol, agora, que a nuvem espessa se dissipara. O sorriso do guarda desvanecera-se, mas ele não parecia, ainda assim,
encolerizado. Dava a impressão, sõmente, de que se encontrava um pouco vexado, como um cómico de music-hall importunado por um ébrio. Achava-se junto de nós, a espingarda
pendente do ombro, a palma da mão pousada no punho do bastão pendurado à cintura. Com a maior calma, inquiriu:
"- Qual de vós falou?"
Ninguém respondeu. Eu tremia dos pés à cabeça, Gillian. Faltavam-me dez dias para sair em liberdade. Mas via-me passar dois anos mais naquela pedreira..
Via todos os meus esforços reduzidos a nada. Ali, em pleno sol, mordia os lábios, crispava a mão no cabo da picareta a fim de reprimir o grito: "- Foi ele, o Mike
Arretti, quem falou!"
Com paciência, o guarda esperava.
"- Bem, rapazes, que têm para me dizer?", Perguntou ele. Silêncio. "- Hem, que têm para me dizer?" - Todos continuámos calados.
Comecei a chorar, Gillian. Não fazia ruído. Nenhum dos homens reunidos à volta das pedras distinguia o meu choro. Demais, eu tinha o rosto coberto de suor
e de lágrimas, que faziam colar a poeira. Mas começara a chorar sem ruído. na expectativa de que o Mike falasse, de que dissesse a verdade. Aguardava.
"- Ora bem", tornou o guarda, "a coisa mostra um mau cariz, não acham?" - Esperou um momento, depois, lentamente, voltou-se para mim e volveu: - Que dizes,
Regan? Quem é o espirituoso, Regan?"
Não respondi.
- Vamos, Regan", declarou o guarda. "Tu sabes quem é o autor da imprecação. Não mo queres indicar?"
Não respondi ainda. O guarda tinha os olhos fixos em mim. As lágrimas rolavam-me pelas faces, mas mantive-me calado. O guarda sacudiu a cabeça e depois voltou-se,
parecendo-me que se dirigia para o seu banco, colocado à sombra, junto do pequeno emissor-receptor. Foi então que o Mike me impeliu.
Fê-lo com todas as suas forças, e fui projectado para a frente. Mike puxou o pé para trás a fim de esticar a grilheta que nos unia. Vacilei e senti-me tombar.
Tentei retomar o equilíbrio, agarrando-me ao guarda. Pensei que ia cair de ventre para o solo, Gillian, e despedaçar a cabeça nas pedras. Agarrei-me, então, ao vestuário
do guarda, que se voltou, célere, de olhos esbugalhados, a mão direita no bastão. Ele ergueu o bastão e eu tentei dizer: "-Não!", tentei gritar: "-Não! Estou a cair!
Quis sõmente...", mas ele abateu o bastão sobre mim. Apenas uma vez, um golpe seco na base do crânio. Senti a cabeça estalar. Encontrava-me de joelhos, pegado a
ele, quando senti o sangue borbotar da fronte para os olhos. Voltei-me e fitei o Mike Arretti. Através do sangue, vi, de pé, apoiado na picareta, sorrindo, sorrindo,
Gíllian, O guarda agrediu-me uma segunda vez, no ombro, com um golpe que me paralisou o lado direito. Desfaleci sobre a poeira.
Podia ter sido pior. Poder-me-iam ter colocado no segredo, deixar-me apodrecer naquela maldita prisão. Ou recusar tomar em consideração outro pedido. Não
saí naquele mês de Maio, mas a verdade é que me trataram com decência. Fiz novo pedido em Dezembro, e seis meses depois deixei, finalmente, Camp Eliiot. Em Maio
de 1947. O Mike Arretti custou-me um ano de clausura.
Vi-o no pátio de recreio dois dias antes de ser
enviado para a ilha do Tesouro, a fim de se proceder
à minha desmobilização. Ele sorriu-me, Gillian, o
grande filho de uma cadela.)

David conseguiu o seu terceiro emprego na biblioteca pública situada num ângulo da Rua Quarenta e Dois e da Quinta Avenida. Ao contrário dos empregos precedentes,
este parecia agradar-lhe. Reconhecia, naturalmente, que se tratava apenas de uma ocupação temporária, mas sentia-se como em casa na pequena sala onde trabalhava,
com O sol penetrando pela janela em ogiva, aberta sobre o Parque Bravant, uma janela toda rodeada de pedra, como se pertencesse a uma antiga catedral. Os livros
que lhe passavam pelas mãos eram, por vezes, antigos, amarelados. Recebia manuscritos esmaecidos pelo tempo, desenhados com uma caligrafia estranha. Manuseava os
livros com doçura e-respeito. Só, na pequena sala da torre, experimentava um senso profundo de continuidade ao ver a História desfilar diante de Si, entre as páginas
dos livros e dos manuscritos poeirentos. Uma das suas funções, entre outras, consistia em marcar com o selo oficial da biblioteca as novas aquisições. Todo o volume,
toda a brochura, todo o manuscrito que chegava até ele, era imediatamente numerado. na página que seguia à do título e, de novo, na página 97, se o texto a ultrapassava.
Um mês depois da entrada de David ao serviço, e por altura da obtenção do primeiro aumento, Gillian percorreu todas as lojas da Sexta Avenida a fim de encontrar
uma medalha militar japonesa e o libretto de O Mikado. Ela retirou a página 97 e a que se seguia ao título e escreveu nesta:

8/10/48

Banzai!
Em comemoração do aumento, da parte da muito fiel, humilde e digna serva,

Gillian

No domingo, foram celebrar o acontecimento ao Parque Central. Almoçaram na Taberna da Relva e passearam em seguida, ao acaso, pelas áleas, indolentemente,
deixando apenas que a sua fantasia os conduzisse. Detiveram-se junto do obelisco de Cleópatra, onde Gillian leu, pela primeira vez, a tradução dos hieróglifos, o
que a fascinou.
- Aquilo são unhas de lagostas? - perguntou ela, ao observar os ornamentos metálicos da base do obelisco.
- Caranguejos, suponho - volveu David.
- Foram provàvelmente acrescentados mais tarde.
- Não, creio que faziam parte do monumento original.
- Há caranguejos no Egipto?
- Há caranguejos em toda a parte. Os caranguejos representam uma das formas mais antigas da vida animal.
- Que erudição! - exclamou Gillian. - Que se passou? Recebeste ontem um livro sobre crustáceos, hem?
Caminharam em direcção a oeste, até ao Jardim Shakespeare; alguém quebrara o vidro que protegia a inscrição explicativa da origem do jardim. Encontraram-se
diante de uma velha casa castanha que parecia ter sido transplantada de qualquer povoado escocês. Uma garota achava-se sentada na soleira da porta a ler um pequeno
livro ilustrado. De imprevisto, descobriram o lago, e Gillian desatou a rir ao ver centenas e centenas de pessoas passeando nos barcos.
- Não compreendo - disse ela, com uma surpresa fingida. - Um dia tão bonito e ninguém tem vontade de remar - Meteram por uma álea sinuosa. Sob uma moita,
encontraram um botão de orquídea. Gillian apanhou a flor e colocou-a na palma da mão.
- Eis aqui uma história - disse ela. - Que
supões que fazia ela sob esta moita?
- Era aí que estava a sua proprietária, na noite passada.
- Um baile de estudantes - tornou Gillian. - Vieram cá depois do baile.
- Não se efectuam em Agosto, Gillian.
- É verdade. Então celebraram qualquer coisa. Uma festa de anos. Um aniversário. Vieram passear-se no parque, discutiram, e ela lançou a orquídea para debaixo
desta moita.
- Já, continua - disse David, com uma horrível pronúncia germânica. - Muito bem. Fala-me agora das tuas associações.
- A tua pronúncia é terrível - afirmou Gillian. - Penduremo-la numa árvore.
- A minha pronúncia?
- Não, David. A flor. Vamos!
Desenrolaram o fio que unia o caule da flor ao feto e fixaram em seguida, com o mesmo fio, a orquídea no ramo frondoso de um elmo. A árvore elevava-se na
berma da álea e a única corola púrpura parecia brotar como por magia da extremidade de um dos ramos.
- Und engora doktor, observemos - disse Gillian.
- E imaginas que a tua pronúncia é melhor do que a minha, hem?
- Não, mas falo com certo estilo!
Sentaram-se numa pedra, a alguns metros do elmo, e pareceram desinteressar-se da orquídea e dos passantes. Três rapazes de blusões apertados e pallovers
italianos foram os primeiros a reparar na flor. Um deles riu, aspirou o perfume da planta, bateu com o cotovelo nos companheiros, aspirou novamente, e todos os três
continuaram o seu caminho, rindo.
- Sabes o que é que eles pensaram que fosse a flor? - perguntou Gillian.
- Não, diz...
- Pensa um pouco.
- Temos outros clientes - anunciou David.
Duas jovens haviam-se detido para melhor observarem a flor. Aproximaram-se com prudência e imobilizaram-se a certa distância.
- Atenção - disse a primeira. - É possível que se trate de uma partida. Não lhe toques. Podes picar-te.
A segunda aproximou-se um pouco mais da corola purpúrea. Examinou as pétalas antes de estender a mão hesitante.
- Não lhe toques! - gritou a primeira.
A outra palpou t'imidamente a corola e retirou, rápida, a mão.
- Picou-te? - perguntou a primeira enquanto se afastavam. - Diz, Mary: picou-te?
Gillian e David vigiaram a orquídea durante uns bons vinte minutos. Por fim, um velho que vestia calças de fantasia e trazia chapéu de coco deteve-se diante
da árvore, notou a flor, ergueu as sobrancelhas num trejeito de apreciador, retirou a orquídea do ramo, colocou-a na botoeira e afastou-se com um passo desenvolto,
cantarolando.
- A maior parte dos passantes nem sequer repararam nela - disse Gillian com ar triste.
- É a vida.
- És muito observador? - perguntou ela, séria.
- Reparei em ti, não é verdade?
- Mas não notaste que me penteei de maneira diferente do costume?
- Não - volveu ele surpreendido.
David voltou-se para a jovem a fim de a examinar mais de perto.
- Verificava, apenas - disse ela. - Nunca me penteei de outra maneira.
- Tens cabelos magníficos. És maravilhosa, Gillian.
- Oh, sim - replicou ela.
- Porque pensas sempre que brinco quando afirmo que és boa?
- Porque sei que o não sou - respondeu a jovem, com súbito embaraço. - Mas é óptimo que penses assim. Bastante agradável, David.
Quando entraram no apartamento, Gillian pegou num lápis e num papel.
- Que vais fazer? - perguntou David.
- Desenhar o meu hieróglifo egipcio.
- Porquê?
- Se Cleópatra possuía um, porque não hei-de ter o meu?
- Muito bem, continua. Quanto a mim, vou ouvir a parte final do desafio dos Yankees.
- Detesto bbaU - redarguiu Gillian. - Esse jogo interessa apenas aos rústicos.
Ele protestou; ela encolheu os ombros e continuou a desenhar, a língua entre os dentes, as sobrancelhas franzidas. Uma vez terminado o desenho, Gilhan tentou
mostrá-lo a David, mas, como decorria uma fase apaixonante da partida, ele fez -lhe sinal para que se detivesse até que a animação decaísse; então examinou o trabalho.
- Onde encontraste isto? - perguntou ele com um ar de dolorosa surpresa.
- Mas, senhor, é um produto da minha inspiração - volveu Gillian, encetando logo o papel de aprendiz. - Eu estava simplesmente sentada lá, senhor, quando
pousaram este rolo de papiro sobre a minha escrivaninha. Mirei a página que se segue à do título, mas nada encontrei, e a página 97 estava obliterada por penas de
ibis. Pensei que devia chamar sem demorar a vossa atenção, senhor.
- Fez muito bem - retorquiu David com um ar severo. - Esta pequena, como se chama ela? Temos de a despedir imediatamente.
- Qual, senhor?
- A que suprimiu a página 97...
David pareceu reflectir.
- Íris, não? Írisqualquercoisa?
- Ah, compreendo, senhor. Íbis. Pena de Ibis. Fazia strip-tease antes de começar a trabalhar na biblioteca, senhor. Colocámo-la nos abastecimentos. É muito
bem aviada.
- Perfeitamente - disse David. - Tem uma ideia da importância desta descoberta?
- E, na verdade, importante, senhor?
- Menina Bourke, não saberei...
- Burke, senhor.
- Oh, é verdade. Burke. Menina Burke, não saberei exprimir-lhe até que ponto é importante.
- Tente, senhor.
- Sente-se nos meus joelhos, menina Barnes, que eu...
-Burke, senhor.
- Sim, decerto. Burke. Sente-se aqui, menina Byrd, que vou dizer-lhe tudo.
Gillian enroscou-se no regaço de David e passou-lhe a mão em volta do pescoço.
- Hum, onde estava eu?
- Falava do rolo de papiro.
- Oh, sim, é verdade. Obrigado, menina Bikes.
- Burke.
- Burke, Burke. Nunca consigo recordar-me deste nome. É um facto que me perco sempre quando me é necessário pronunciar os nomes italianos. Perdoe-me, menina
Buggs. O rolo de papiro. É papiro de pevide ou papiro de cebola?
- Não reparei, senhor. Mas é um pouco de cada coisa, penso.
- Em todo o caso, deve ter um belo sabor quando servido com presunto.
- Descobriste-o numa escavação, David Regan?
- Não, minha querida. As últimas expedições em que participei efectuaram-se na Austrália em 1912. Descobri o crânio de uma zulu Notàvelmente conservado.
- É também muito bom - volveu Gillian.
- Quê, minha filha?
- Zulu. O crânio zulu. Faz strip-teese de uma maneira marravilhosa. Menos imaginativo que Pena de Ibis, mas notàvelmente conservada.
- Oh, decerto, decerto. Ela...
- És feliz? - perguntou de súbito Gillian. - David, és tremendamente feliz?
- Sou mais feliz do que jamais na vida - respondeu ele.

Tentaram estabelecer contacto com Penny, com a ajuda de drogas.
Começaram pelo grupo dos barbitúricos ácidos:
injecções intravenosas de amital de sódio, alternadas com a administração de doses por via oral, rectal e intramuscular. Ela desferia uivos todas as vezes que sentia
a agulha. Arranhava, esgaravatava; era preciso conter-lhe os braços e as pernas, mantê-la imóvel enquanto a seringa hipodérmica lhe penetrava no braço. Médicos e
enfermeiras começaram a temer o momento em que era necessário retirar a camisa de forças a Penny Randalph, a fim de a prepararem para a injecção. A narcose parecia
não actuar sobre ela senão de maneira reduzida e por momentos. Penny ainda recusava comer. Continuava a cuspir em todos os que se aproximavam, a gritar obscenidades
ao pessoal e a alguns doentes. No instante em que lhe retiravam a camisa de forças, a fim de lhe introduzirem a agulha na veia, ela tornava-se agressiva. Uma vez
conseguiu arrancar a seringa das mãos do médico, quebrou-a na mesa e tentou cortar a garganta com uma lasca de vidro.
Em princípio de Setembro, quando Matthew e Amanda se mudaram para a casa de Talmadge, o corpo clínico do hospital tentara já sobre Penny o verona, a hycine
e acabava de passar ao nucleinate de sódio. Quando se deram conta de que nada dava resultado, quando tiveram de reconhecer que não se fizera progresso algum nesta
procura de contacto que desejavam tão desesperadamente, abandonaram por completo as drogas. No dia seguinte solicitaram a presença de Priscilla Soames a fim de lhe
pedirem autorização para utilizarem o electrochoque.
Priscilla não sabia que fazer mais.
A jovem que visitava uma vez por semana não era certamente a sua filha, a Pennv que conhecera. Todavia, teria o direito de submeter esta criatura desgraçada
ao electrochoque três vezes por semana, talvez mais? Podia fazer isto à sua própria filha? Apesar de tudo, ela não era realmente a sua filha. Não reconhecia mais
pessoa alguma e era irreconhecível: de certo modo, o seu rosto transformara-se, o rosto do ser que Priscilla conhecera e amara tornara-se o de uma estranha. Não
sabia que fazer. Voltou-se para Deus, como fizera bastantes vezes no passado, e orou, a fim de obter o seu conselho. Os clínicos do hospital tinham afirmado que
os tratamentos de electrochoque podiam ser úteis à filha, podiam conduzi-la àquele ponto onde era possível, pelo menos, falar-lhe. "Não conseguiremos ajudá-la a
não ser que estabeleçamos a comunicação", haviam declarado. E Priscilla comunicava agora com o seu Deus e rogava-lhe que lhe indicasse um caminho.
Empregava para orar as fórmulas consagradas, uma linguagem que desenvolvera a partir da infância, um idioma altamente estilizado, que considerava único conveniente
para uma entrevista com o Senhor. Utilizava esta linguagem convencional; porém, orava de coração aberto. Se alguma vez Priscilla Soames revelou verdadeiramente o
que se passava no seu íntimo, não foi a ninguém senão a Deus.
"Senhor Jesus", orava ela, "derrama sobre mim a Tua piedade. Necessito do Teu socorro, ó Deus. Suplico-Te. Tenho frio. Estou só. Necessito do Teu auxílio.
Não permitas que a perca. Jamais protestei contra o sofrimento. Mas não posso suportar o pensamento desta perda. Nunca desejei ser mãe, Tu sabe-lo. Recordas-Te das
minhas orações. Recordas-Te do terror do meu coração. Mas dei-lhe filhas, embora saiba que, na verdade, era um filho que ele desejava. Perdoa-me, não é minha intenção
julgar. Tenho sido uma boa mãe. Não falo dos meus sacrifícios, se bem que os tenha experimentado. Não falo dos meus sacrifícios. Suplico-Te sômente que me guies.
Ajuda-me, suplico-Te, ajuda-me.
Tenho frio. Estou só.
Sou uma mulher fria. Sei-o, Senhor. Sou assim. Oh, meu Deus, jamais retive o pé de um bebé nas minhas mãos para lhe beijar os dedos. Sou fria. Sei-o. Ele
nunca o disse. Ele é por vezes tão simples como uma criança, nunca se queixou, mas sei que tem consciência da minha frieza. Sei que sente em mim este núcleo de resistência
que jamais se verga, que nunca cede. O amor é divino, eu sei, o amor é divino. Ele é tão bom para mim... É tão gentil... Mas é um homem de Deus e eu sou fria.
Eu devo, eu quero, é preciso que toque outro ser humano. Ajuda-me, oh, suplico-te, ajuda-me. Não posso perdê-la, a ela também. Perdi a minha filha mais jovem.
Como os seus cabelos eram dourados! E o seu sorriso. Os seus olhos iluminavam-se, ela precipitava-se nos meus braços e eu apertava-a contra o coração. Eu dizia:
"Mandy", mas este diminutivo era estranho nos meus lábios. Eu dizia:
"Amanda", ou, "minha filha", friamente. E os braços sentiam, os olhos enevoavam-se, mas, oh, o ouro dos seus cabelos, beijar o topo da sua cabeça, apertá-la no meus
braços e beijá-la livremente, sem vergonha, o topo da cabeça. Sou tão fria!
Tenho sido fria para com ele desde o princípio. Ele era alto e orgulhoso, com os livros debaixo do braço. "- Sou estudante de Teologia, menina Bailey"; pronunciava
as palavras num tom propositadamente distante. "- Sou estudante de Teologia." E eu olhava-o com respeito e admiração, mas dizia-me já: "Não o ames, não ames este
homem."
Eu era bem jovem, nesse tempo.
Ela mordeu-me um dia. Penélope. Ela mordeu-me o seio. Como fiquei surpresa! Senti a marca dos seus dentes minúsculos. Ri. E, em seguida, pus-me a chorar.
Coloquei-a no berço. Não quis que ela me visse chorar.
Meu Deus, ajuda-me, suplico-Te, suplico-Te.
Ela é minha filha. Eu sei, eu sei, ela é minha filha, não devia ter Permitido que a apartassem de mim.
Por vezes não me reconheço a mim mesma, Senhor. Ouçme falar e não conheço a pessoa que fala. Olho esta mulher que fala, não a reconheço. E não tem filhas.
Juro-Te, juro-Te que não tentei recriar-me nas minhas filhas. Juro-Te. Não interferi na sua vontade. Ela queria tocar piano, mas não havia dinheiro. Tu sabes,
não havia. Mas demos-lhe lições, ela tocava tão bem, eu sentia-me rebentar de orgulho quando ela tocava, mas nunca o disse. Contentava-me em a olhar, escutava-a,
mas não lhe acariciava os cabelos. Não interferia. Não queria recriar duas Priscillas Soames. Elas eram muito jovens, tão jovens, doces como a chuva, muito jovens,
uma e outra, as minhas filhas, as minhas pequeninas. Queria que fossem elas mesmas.
Nada.
Nada agora.
Uma filha que me disse na cara tudo o que eu apenas ousava dizer-me a mim mesma, só. As suas palavras, bem claras, retiniram nos meus ouvidos, ecoaram nos
meus ouvidos, claras, precisas. Perdi-a, então. Não tenho já uma filha chamada Amanda.
Penélope.
Ajuda-me, Senhor. É preciso que lhes deixe fazer todas aquelas coisas? É preciso? Mas se ela é incapaz de falar, como poderão prestar-lhe auxílio, se não
fizerem aquele tratamento? Minha filha, deixa-me tocar a tua mão.
Oh, meu Deus, eu corria outrora com os pés nus na erva. Eu colhi um dia uma margarida."

Gillian viu o pai por acaso e apenas de longe. Um vento frio de Outubro soprava pela cidade, nesse dia, assaltava os olhos, fazia-os chorar. Ela baixou as
pálpebras e não ficou bem certa de que aquele homem alto, de cabelo ruivo, fosse na verdade o pai. Ou afirmou a si mesma que não era. Contudo, soube que se tratava
de Meredith Burke, soube-o sem dúvida possível. Observou-o sem surpresa, como observava uma personagem um pouco 'ridícula num filme. Ele tomara o braço da jovem
de uma maneira tão galante que Gillian quase desatara a rir. Fê-la atravessar o passeio, conduzi-a na direcção da estátua de Prometeu, que dominava os restaurantes
e o recinto de patinagem. Ele não viu Gillian, e ela fingiu não o ver, mas recordou-se, de súbito, com clareza, das palavras da mãe: "Que se 'pode dizer do eu Meredith
Burke e da pequena contabilista loura? Pois, Gillian, que se 'pode dizer?" Não havia nada a dizer, na verdade. Ela observous sem um vislumbre de emoção e pensou
que eles constituíam um belo par, o pai com os cabelos de um vermelho carregado, a cabeça da jovem inclinada na sua enquanto caminhavam, uma cabeça de um louro natural,
brilhante, belo. "Como ela é jovem !", pensou Gillian. "Ele parece tão velho a seu lado
Sentiu-se curiosamente abandonada. Observava o pai, mas, de maneira inesperada, examinou os passantes; queria saber se eles, também, tinham visto Meredith Burke
e a sua pequena contabilista, se os tinham olhado com a mesma atenção com que os observara a filha; depois condenou-o por ter escolhido um local tão pouco discreto
como o Centro Rockefeller. Afastou-se ràpidamente em direcção da sombra e do anonimato da Rua Quarenta e Oito.
No dia seguinte telefonou-lhe para a sapataria. A princípio, ele não reconheceu a voz da interlocu tora.
- Fala a Gillian. A sua filha.
- Gilly! - gritou ele, numa voz que fez vibrar o telefone. - Mas que surpresa!
- Como vai, papá?
- Bem, muito bem. E tu?
- Óptima, obrigada.
- É marravilhoso, Gilly. É tão bom ouvir a tua voz!
- Papá, que planos tem quanto ao almoço de hoje?
- Porquê? Que se passa, Gilly? Alguma dificuldade?
A voz dele traira uma bizarra inquietude. Ela Perguntou-se por um instante se o pai estava inquieto pela filha ou pela sua pequena contabilista.
- Tudo corre bem - volveu ela vivamente. - Quero apresentar-te alguém.
- Oh! Quem, Gilly? Um jovem?
-Sim.
Houve um pequeno silêncio.
- Queres que engraxe os sapatos? Ele vai pedir-me a tua mão?
- Penso que não. Quero apenas apresentar-to.
- Sômente isso?
- É verdade.
- Onde queres que nos encontremos, e a que horas?
Ela fixou a hora e o local e desligou. Não se apercebia com clareza dos motivos que a levaram a agir desta maneira. Era já tempo que o pai conh cesse o David.
Telefonou para a biblioteca. Quando ele apareceu ao telefone, Gillian disse:
- David, vou almoçar com o meu pai. Gostaria que te juntasses a nós.
Ele teve uma leve hesitação antes de responder:
- Decerto. Com muito prazer.
Conversaram por mais alguns instantes. Ela escutou-o pacientemente, e por fim disse:
- Tenho de me ir vestir. Meio dia e meia hora. Não chegues tarde.
- Lá estarei - respondeu ele.
Gillian desligou e ficou com os olhos pousados no auscultador. Quando o telefone retiniu, sentiu-se sobressaltada. Durante alguns segundos, antes de atender,
pensou: "É um ou o outro que não deseja comparecer." Ergueu o auscultador.
- Está?
- Querida, fala a Marian.
-Olá, Mariana.
- Que bom conseguir apanhar-te aí! Tens um minuto disponível?
- Sim, decerto.
- Que se passa, amorzinho? - perguntou Marian.
- Nada.
- Pareces tão... tão distante!
- Não. De que se trata, Marian?
- Querida, recordas-te daquele tipo de que te falei, o tal que vai fazer um filme às B.aan? A Bimini, ou lá o que é. Nunca me consigo lembrar dos nomes daquelas
ilhas.
- Sim, recordo-me.
- É uma história submarina, como sabes. Ele tenta contratar o Sterling Hayden ou outro do género para o papel principal e procura uma jovem que desempenhe
o papel de uma pequena ladina. Ela aparecerá em todas as sequências, Se O fillne se fizer, claro.
- Sim, Marian.
- Bem, ele veio a Nova Iorque no sábado, a fim de resolver os problemas financeiros e o resto e para procurar jovens com talento que assistisse à projecção
da curta-metragem de meia hora em que participaste, aquela...
- Recordo-me, Marian.
- Bem, agradaste.
- Tanto melhor.
- Ele gostaria de te falar do Papel. um destes tipos que desejam conhecer a actriz, trocar ideias. Tem a curiosa convicção de que uma actriz deve possuir
tanta inteligência como talento. Quererá, sem dúvida, falar da ponte aérea sobre Berlim... Portanto, prepara o quoficiente de inteligência.
- Então, para quando é o encontro?
- Para hoje. Ao almoço.
- Não posso.
- Quê?
- Disse: não posso.
- Era o que eu pensara ter compreendido. E porque não podes?
- Tenho o dia tomado. De uma maneira ou de outra, Marian, não me é possível partir, do pé para a mão, com armas e bagagens, para as Baamas. Nem pensar nisso,
sequer.
- Mas é só um mês ou dois... o tempo de rodar as sequências submarinas e os exteriores. Todos os interiores são filmados aqui.
- Aqui, em Nova Iorque?
- Não. Provàvelmente na Costa.
- Bom, não posso também deslocar-me à Califórnia.
- Mas porquê?
- Não posso, Marian, eis tudo.
- Queridinha, tenho uma coisa para te dizer.
- Quê?
- Não é que me queixe, mas...
- Que fazes, agora?
- Escuta, não sejas tão susceptível, com mil diabos. É com a Marian que falas.
- Perdoa-me. Que querias dizer-me, Marian?
- Oh, não importa... Mas escuta, amorzinho. Esforço-me por te arranjar um papel, e é esta a terceira vez que recusas. Que é que se passa, queres tu dizer-me? Estás
ainda interessada em representar?
- Naturalmente!
- Então, porque...?
- Não me agrada partir para as Bahamas, eis tudo, Marian.
- A emissão publicitária não tinha nada que ver com as Baamas.
- Não creio que aprenda seja o que for fazendo emissões publicitárias.
- Tornas-te conhecida.
- Talvez, mas não se trata de teatro.
- Conheço uma rapariga que consegue obter uma dúzia de cheques por semana. Mal abre o correio de manhã, tem já quinhentos dólares.
- Não estou a morrer de fome, Marian.
- Mas não trabalhas.
- Há-de aparecer alguma coisa.
- Querida, já apareceram algumas coisas. Quererás dizer-me porque recusaste partir numa tourneé este Verão?
- Era a Ogunquit.
- E então?
- Então, pedi-te que me conseguisses uma digressão a Westport, a Easthampton ou ao Moinho de Papel, em Nova Jérsia. Tu...
- O Moinho de Papel apresenta operetas e com& dias musicais. Como querias...
- Eu canto, Marian.
- Mas não muito bem. E que censuras a Ogunquit?
- Fica demasiado longe de Nova Iorque.
- Donde te vem esta paixão súbita pela cidade, Gillian? Não podes ir ao Maine, não podes ir à Califórnia, não podes ir a Bimini. Onde diabo podes tu ir?
Posso aceitar um contrato para a Rua Cinquenta e Oito, Oeste, ou fica-te também demasiado longe?
Novo silêncio, longo, desta vez.
- Que desejas que eu faça? - perguntou por fim Gillian. - Que me dirija a outro agente?
- Oh Mas quem queres que te ature? - volveu Marian. - Fazes-me um favor? Encontras-te hoje com este tipo? Ainda que recuses partir, não te esqueças de que
ele é um produtor que possui bastante influência. Poderá arranjar-te qualquer coisa mais tarde.
- É-me impossível encontrar-me com ele hoje - afirmou Gillian. - Adia para amanhã.
- O tipo segue esta noite para Hollywood.
- Então, para depois do almoço. Podemos tomar qualquer coisa.
- A que horas?
- Às duas. Não posso libertar-me mais cedo.
- Vou tentar. Ainda demoras um pouco mais em casa?
- Sim.
- Telefonar-te-ei... Continuamos amigas? - acrescentou ela.
- Sabes bem que sim.
- Então, até mais logo, queridinha.
- Oka - volveu Gillian, e desligou.

O pai chegou com meia hora de atraso. Ela conversou sobre diversos temas com David, convencida de que Meredith Burke não viria. Sentiu-se feliz quando, por
fim, o viu entrar no restaurante. Ele fez correr os olhos à volta da sala, com o pestanejar do costume, divisou Gillian e dirigiu-se, célere, para a mesa. Beijou
a filha e voltou-se então para David.
- Papá, apresento-lhe David Regan. David, o meu pai.
David ergueu-se e apertou a mão de Meredith.
- Muito prazer, senhor.
- Como está? - volveu Meredith. - Sente-se, faça favor. Perdôem-me por ter chegado atrasado, mas houve certo movimento na loja antes de fecharmos a porta...
Dirijo uma sapataria - acrescentou, depois de uma breve pausa, dirigindo-se a David, como se tivesse pressa de se desembaraçar desta informação.
- Eu sei, senhor. A Gillian já me tinha dito. Quer beber qualquer coisa? Temos já um copo de avanço.
- De bom grado. Mostras um belo parecer, Gillian. Devias ir ver-nos mais vezes. O Bronx não fica no fim do mundo. - Acrescentou, fitando David: - Podes levar
o teu amigo. A tua mãe não lhe fechará a porta na cara.
Gillian sorriu:
- Nunca me passou pela cabeça que ela o fizesse, papá.
- Vai jantar connosco um destes domingos.
- Estará em casa? - inquiriu ela, e perguntou-se imediatamente se a frase não fora demasiado acerba.
Meredith ergueu as sobrancelhas com um ar inocente.
- Mas decerto, Giily, estarei lá.
- Queres ir, David, num dos próximos dias?
- Sim - volveu ele, um pouco inquieto.
- Espero que o seu cabelo tenha embranquecido
prematuramente, Sr. Regan - disse Meredíth. - não, a minha filha acompanha um homem que é muito velho para ela.
- Vê nisso um grande inconveniente, papá? - perguntou Gillian.
De novo Meredith ergueu as sobrancelhas e fitou a filha com atenção; porém, desta vez não respondeu.
- Tenho vinte e quatro anos, Sr. Burke - disse David.
- Bela idade. Faz teatro, também?
- Não, senhor.
- Vi a Gillian na televisão, há alguns meses. Ela não nos prevenira. Mas, por acaso, demos pelo programa. Actuaste bem, Gillian.
- Obrigada.
- E que faz então, Sr. Regan?
- Trabalho na biblioteca.
- Oh, mas em que se ocupa?
David encolheu os ombros:
- Catalogo os livros - respondeu.
- Deve ser interessante.
- É suportável, por agora.
- Suponho que não gostaria de vender sapatos?
- não - volveu David, fitando Gillian.
- Não existe nada de desonroso em vender sapatos - disse Meredith.
- Decerto, senhor.
- Chama "senhor" a toda a gente?
- Não, nem a toda a gente.
- Então porque me chama a' mim?
- Porque é o pai da Gillian.
- Ah, compreendo. Onde está o criado? Quero um whisky.
Gillian apercebeu-se bruscamente de que faltava um quarto para as duas. Apresentou as suas desculpas e deixou os dois homens juntos. Ao abandonar o restaurante,
perguntou-se de novo porque lhes impusera esta prova. Encolhendo os ombros, chamou um táxi.
- Ama a minha filha? - perguntou Meredith a David.
- Sim, senhor.
- É uma bela rapariga.
David aprovou com um movimento de cabeça.
- Onde a conheceu?
- No curso do conde... Do conde Igor. É onde ela estuda.
- Sim, eu sei.
- Foi lá que nos encontrámos.
- Onde reside, Sr. Regan?
- Na Primeira Avenida. Perto da Rua Houston.
- Não com a minha filha?
- Não, senhor. Tenho o meu próprio apartamento.
- Mas em todo caso dorme com a Gillian, não é verdade?
- É uma coisa que me diz respeito, a mim, senhor. E à Gillian.
- Não gostaria de a ver sofrer, Sr. Regan.
- Nem eu.
- Ela é uma óptima rapariga. Tem bastante talento.
- Eu sei.
Meredith examinou-o, sacudindo a cabeça.
- Há quanto tempo a conhece? - perguntou.
- Desde Novembro último.
- Quase um ano.
- Sim, quase.
- E ama-a, segundo disse.
- Sim, senhor.
- Parece-me uma pessoa muito fria, Sr. Regan.
David encolheu os ombros.
- Desagrada-lhe a minha franqueza? - perguntou Meredith.
- Sim.
- Quer mais uma chávena de café?
- Com muito prazer.
O criado aproximou-se e eles pediram café. Mere dith bebeu o seu sem leite e sem açúcar.
- Tem intenção de casar com ela?
- Sim.
- Quando?
- Não sei ainda.
- Porque não sabe?
- Não encontrei ainda o emprego que desejo.
- Que emprego deseja?
- Não sei ainda.
- Oh, acha sensato casar com uma rapariga que não exigiu mais do que...
- Sr. Burke - interrompeu David -, é da Gillian que fala. Esmurraria outro homem que me falasse dela dessa maneira.
Meredíth Burke sacudiu a cabeça.
- Calma, meu rapaz. Se me encontrasse no seu lugar, não o tentaria. Punha-o de rastos em menos de um segundo.
- Já passei por essa experiencia antes, mas não seria o suficiente para me reter.
- Talvez não possua realmente um coração frio, apesar de tudo. Quem teve a ideia deste encontro?
- A Gillian.
- Porquê?
- Não sei.
- Que vamos então discutir? Não me pedirá consentimento para casar com a Gillian, pelo que ouvi.
- Ainda não, senhor.
- E teria qualquer importância se eu recusasse?
- Não teria a mínima importância.
- Então qual é o propósito deste encontro? - perguntou Meredith sacudindo a cabeça. - Porque concordou em vir?
- Porque a Gillian me pediu.
- Oh, compreendo. Faz o que ela lhe pede, não é verdade?
- Amo-a - volveu David. - Creio que o senhor não o sabe.
- 'Talvez sim - respondeu Meredith. - Embaraço-o falar de amor?
- Um pouco.
- Mas não permita que tal aconteça. Tome o seu café. Quanto ganha?
- Sessenta e cinco dólares por semana.
- Não me parece muito.
- Não, senhor, não é muito, com efeito.
- Esta pequena é-me bastante querida.
- A mim igualmente.
- É a minha preferida. A - outra está na Califórnia, sabe? (Não me espanta nada que ela não regresse mais. Não fira esta jovem, Sr. Regan.
- Não o farei.
- As mulheres sentem-se feridas com muita facilidade. E é difícil conseguir-se utilizá-las. Não a fira e não se sirva dela para atingir os seus fins. É minha
filha e amo-a bastante.
- E embaraça-o falar de amor?
Meredith sorriu.
- Amo-a - disse ele com doçura.
- Não duvido - respondeu David, devolvendo o sorriso. - Suspeitava-o.
- Tenho pensado muito neste dia. O dia em que ela me apresentaria o homem que escolhera. Tenho pensado muitas vezes neste momento, Sr. Regan. Mesmo quando
ela era uma pequenita, e muito bonita já. Sim, tenho pensado neste momento.
Fez uma pausa.
- Creio que não gosto de si. Mas suponho que não gostaria do presidente do Município de Dublim se a minha filha mo apresentasse dizendo que o amava.
- Quanto a mim, penso que não gosto também do senhor - volveu David. - Mas isso não tem nada que ver com os meus sentimentos para com a Gillian.
- Pelo que sei, talvez você seja um gigo.
- Não sou.
- Tanto melhor. Não gosto de si agora. Mas gostarei ainda menos se não se comportar decentemente com a minha filha.
- Compreendo.
- E não a engravide. Espero que compreenda isso também.
- Porquê essa cólera que o senhor mostra? - perguntou David, de súbito.
- Porque, para ser franco, não me agrada a ideia de que durma com ela. Eis a verdade. Tenho vontade de lhe partir a cara, Sr. Regan. Sim, sim, é uma coisa
que me desagrada profundamente.
- Mas... tranquilize-se. Não creio que a Gillian deseje que alterquemos.
- Mas que quer ela, santo Deus? Era o que gostaria de saber. Porque nos reuniu ela?
- Talvez pense que chegou a altura de casarmos.
- Sim, talvez.
- A Gillian sabe que isso acontecerá. Afirmei.o no próprio dia em que nos conhecemos.
- Já se passou quase um ano, hem, meu rapaz... Quando se decide então?
David sacudiu a cabeça.
- Ainda não estou preparado para o fazer.
- Nem estará nunca. Se reflectir um pouco, aperceber-se-á disso. E, se analisar os seus sentimentos, estou persuadido de que não a ama também.
- Sou eu quem deve possuir essa convicção: se a amo ou não, Sr. Burke.
- Você parece mais velho do que aparentam os vinte e quatro anos.
- Sou, com efeito, um pouco mais velho.
- A Giflian também. - Fitou David durante um momento. - Talvez vocês constituam um bom par. Quem sabe?
- É coisa que alguém possa saber?
- Não tente impressionar-me com as suas habilidades. Termimámos o almoço?
- Creio que sim.
- Não a fira, Sr. Regan. Se o fizer, tem de se haver comigo.
Nessa noite, Gillian perguntou a David que tal decorrera o almoço.
- De uma maneira terrível. Não lhe agrado, e ele idem, quanto a mim. Porque combinaste este encontro, Gillian?
- Não sei - respondeu ela, e talvez não soubesse.
Quisera recordar a David que mais cedo ou mais tarde a gente de Hamelm devia pagar ao tocador de flauta? Mais cedo ou mais tarde, David teria de a conduzir
ao altar e pronunciar os votos sagrados, se realmente desejava conservá-la. Ou talvez a ideia do casamento não constasse, de modo algum, do encontro. Era possível
que quisesse provar ao pai, provar ao Meredith Burke da pequena contabilista loura, que ela, Gillian Burke, podia também ter um amante.
- Não sei - repetiu.

Começáram o tratamento logo que receberam a autorização escrita de Príscilla. Durante um período de cinco semanas aplicaram a Penny três electrochoques por
semana; depois, aumentaram a frequência. Durante as três semanas seguintes, o cérebro de Penny foi invadido quotidianamente pelas ondas eléctricas. Ligavam-na pelos
braços e pelas pernas à longa mesa, e ela debatia-se com todas as suas forças para tentar escapar ao aparelho colocado diante de si. Detestava desde o principio
este aparelho, antes mesmo de ter recebido o primeiro choque. antes de ter sentido, no interior do crânio, o relâmpago alaranjado, ofuscante; detestava até o próprio
aspecto do aparelho, o seu silêncio sensível, este aparelho ameaçador, este horrível aparelho cheio de fios! Ela reconhecia, agora, o momento em que a conduziam
para a máquina cuja chama lhe devorava o cérebro. Farejava-os quando eles transpunham o corredor, estes bastardos que iam conduzi-la à máquina devoradora. Soltava
uivos, rolava os olhos nas órbítas a fim de os intimidar; mas eles conduziam-na Pelo corredor, até ao aparelho eléctrico, e ligavam-na à mesa; ela torcia-se, ela
mordia-os; depois apercebia-se do zumbido, daquele zumbido horrível. e sabia o que se ia seguir, sentia a explosão alaranjada, percebia, no crânio, o ruido dos estalidos;
as suas mãos crispavam-se, o dorso arqueava-se, e era a escuridão.
Mole, inconsciente, coberta de suor, transportavam-na para a sala e esperavam que ela recobrasse os sentidos, esperavam um sinal que provasse que a experiência
surtira efeito, que Penetrara a concha. Mas ela não reagia. Os médicos escreveram de novo a Priscilla, pedindo, agora autorização para começar o tratamento de insulina.
"Talvez obtenhamos qualquer resultado", diziam. E Priscilla assinou.
Se Penny detestara o electrochoque, detestou ainda mais a insulina e o coma que lhe ministraram. A agulha, essa, já a conhecia; tomara contacto com ela nos
primeiros dias do internamento, quando a picavam noite e dia. Desta vez ainda, tratava-se de uma agulha, mas de uma agulha explosiva que lhe furava o crânio como
um foguetão e explodia numa nuvem de lama negra. Os olhos irrompiam-lhe da cabeça, ela uivava nesta obscuridade; tentavam enegrecê-la, queriam fazer-lhe explodir
o cérebro, procuravam rebentar-lhe a cabeça a golpes de martelo. Cinco dias por semana eles chegavam com a agulha, seis dias por semana. E os golpes, os golpes de
martelo no cérebro, e o negrume. Quarenta vezes, quarenta e cinco, cinquenta. Os bastardos pararam.
"Sou garras, sou garras, sou garras!"
Os médicos começavam já a considerá-la incurável.

O período de luto estava quase terminado
Os dias libertinos da segunda guerra mundial; a época dos swters ajustados e das blusas decotadas, das saias curtas e dos joelhos nus, da atitude estou-me-nas-tintas
de uma geração criada para preparar a guerra e para a fazer, dos belos gestos, das falsas atitudes heróicas daqueles que gozavam uma situação cómoda, que não se
expunham, e do verdadeiro heroismo sem glória dos que haviam sofrido os horrores da frente, a tensão frenética de toda uma nação que seguira as notícias da guerra
como se seguisse uma partida de baseball ou uma corrida de cavalos. A vida quotidiana feita de loucura e de imprevisto que fora a dos Estados Unidos durante os anos
da guerra - toda esta existência livre, fácil, todo este abandono dos princípios morais em face de "qualquer coisa que nos ultrapassa a um e a outro, minha linda,
esta guerra porca", toda esta epidemia súbita de beijos e de promiscuidade, tinham atingido o ponto culminante no dia V, para produzir imediatamente um sentimento
de culpa num país tão puritano, no fundo, como Cotton Mather.
A primeira coisa que se fez foi baixar a altura dos vestidos. Pretendeu-se que era a última moda dos cout'wriers parisienses: uma linha que tombou bruscamente
dos 2 centímetros acima do joelho para uma altura situada cerca da barriga da perna. Os vestidos e as saias compridas apareciam esporâdicamente. Apesar de tudo,
estava-se num país de luto, e os que se encontram de luto não se lançam em folganças inconsideradas, mesmo que os magazines anunciem com grandes títulos um Natal
sem guerra, após a rendição do Japão. As primeiras que adoptaram a nova moda incorreram no sarcasmo das irmãs. Mas o luto é contagioso, e alguém tinha de suportar
o peso da culpa produzida pela libertinagem do tempo da guerra. Assim, foram as mulheres que começaram, e a primeira coisa que fizeram foi cobrir as pernas, estas
pernas célebres no mundo inteiro, porque eram longas, direitas, bem feitas, vigorosas, sem defeito, alimentadas pelo bom sol americano e pela vitamina C em conserva.
Ocultaram-nas segundo o que chamavam o "New Look"; era uma moda tão velha como as Cruzadas, mas que as dotava com um sentimento novo de moralidade, que emprestava
um arreganho de energia à sua coragem desfalecida. O sorriso de mofa que a princípio acompanhara a nova moda transformou-se numa expressão aprovadora. Era uma coisa
bem vista a exibição do luto e, se os homens da América lamentavam não ver as curvas das pernas bem torneadas e os joelhos perfeitamente cinzelados, disseram de
si para si que a nova moda era mais provocante: escondia mais que mostrava, encorajava a imaginação.
Os novos carros apareceram, os primeiros a partir de 1942. O elemento importante era a cor. Era singular que uma nação de luto surgisse de repente na cena
da indústria automobilística com todas as cores do arco-íris produzidas em Detroit; mas, apesar de tudo, o puritanismo nunca foi senão uma espécie de loucura, e
mesmo em 1692 havia qualquer coisa de exótico na maneira como enforcavam as bruxas; uma certa atmosfera teatral nos homens graves, de feições largas, que invocavam
com extravagância Deus e o Diabo e que ouviam as donzelas de Salém delirar de modo bem freudiano enquanto cantavam o que o negro tentador exigira delas. O negro
devia ter sido a cor que atraía esta gente culpada, desta nação que enrubescia de súbito, como o faziam todas as nações do mundo, devido às -suas loucuras cometidas
durante a guerra, sob o efeito da emoção e da fúria. Mas mesmo a culpa deve encontrar as suas compensações. Eis porque os automóveis floresciam num esplendor radioso,
enquanto a forma, as linhas, estavam atrasadas vários anos em relação à audácia da cor. A multidão começou a comprá-los, dizendo de si para si que, após todos estes
anos de privações, mereciam bem o direito de comprar um carro novo. A guerra terminara, e, se comprassem um belo símbolo colorido da sua masculinidade, conseguiriam
talvez esquecer estes anos de loucura. Coisa curiosa: na América, toda a gente esquecera já a parte real e nobre que desempenhara no esmagamento do monstro.
As saias eram mais compridas, os automóveis mais vistosos, e todos voltavam ao trabalho, como se regressassem de um longo fim-de-semana que era, por acaso,
a segunda guerra mundial. Durante o fim-de-semana tinha-se desfrutado bastante prazer, mas agora era preciso trabalhar. Bebera-se, pandegara-se, fizeram-se umas
mortes aqui e ali, mas, presentemente, tratava-se de trabalhar, de pôr o serviço em dia, e o sentimento de culpa era pesado. A máquina de Hollywood começou a moer
alguns filmes bem açucarados sobre a readaptação, o mais notável dos quais foi Os Melhores Anos da Nossa V. Na Brodway, uma pequena revista intitulada Chamem-Me
Show obteve grande êxito, pois que combinava as recordações da vida militar com o regresso aos valores do período anterior à guerra. O caso era que ninguém se lembrava
com precisão que valores eram esses. Os jovens que se haviam batido recordavam-se dos anos 30, como a época da miséria e dos cartazes da Comissão da Reconstrução
Nacinal; tudo isto mudara radicalmente a partir do momento em que os Japoneses tinham deixado cair o seu carregamento de bombas e torpedos sobre a esquadra adormecida
em PearI Harbor. O reajustamento necessitava de outra coisa bem diferente de uma simples difusão de recordações. Com efeito, nem sequer havia recordações. Os que
voltavam e os que os iam acolher descobriam súbitamente que começavam com uma página em branco. Antes da guerra eram crianças, inocentes e ingénuas; agora eram adultos,
preocupados com todos os problemas dos adultos, com todos os medos, todos os remorsos, todas as obsessões. Ninguém se espantou que o clube, mal se constituísse,
obtivesse uma imediata popularidade.
Não se tratava do Pyramid Club, embora este conhecesse também, por breves meses, uma vida florescente; ele procurava uma emoção artificial que substituísse
a emoção real do encontro semanal com os militares de licença, a alegria autêntica e exaltante alcançada na leitura do romance sobre o assalto de Tarawa, toda esta
produção (superpoética e superdramática) de grande montagem que fora a guerra. Não, o clube em questão era melhor ainda. O que ligava solidamente os membros eram
os remorsos, a culpa. A época do psiquiatra chegara. Tornou-se moda, de súbito, falar do ego e do id, de hostilidade reprimida, de Édipo, de Electra e de Orestes
O Fosso das víboras conheceu um êxito imediato, e, por toda a América, as salas aclamaram Olivia de Haviland, que se debatia nos tormentos da loucura, experimentando
Deus sabe que alívio diante dos seus sofrimentos - antes tu que eu, Olivia - ; por fim, concedeu-se-lhe o Ôscar dos críticos cinematográficos nova-iorquinos. Mas,
nesse ano, as maiores recompensas foram repartidas entre três filmes que exprimiam esta nova vaga de penetração mais subtil, esta exploração psicológica do íntimo:
o primeiro era uma interpretação que evocava brilhantemnte o Hamlet; o segundo, uma história que examinava as emoções de uma surda-muda; o terceiro, um estudo notável
sobre os homens que procuravam ouro nas montanhas da Sierra Madre. Sim, os relógios tinham todos parado dez minutos antes da hora, e agora um divã não era apenas
uma peça de mobiliário. As saias eram mais compridas, os automóveis mais coloridos e os seres humanos mais profundos! Oh!, Senhor, quão profundos! Passavam o tempo
a sondar, querendo saber o máximo possível sobre os outros, a escavar, a formular perguntas, em busca de uma identidade nova que se ajustasse a esta paisagem esquecida.
Em Nova Iorque, alguns jovens turbulentos formaram uma gang.
E então, como as pessoas tinham descoberto o meio de falar dos seus sentimentos de culpa em lugar de os sentir, a tensão relaxou-se um pouco. Decorreu ainda
um certo tempo antes que as mulheres consentissem em mostrar de novo as suas belas pernas, mas, imperceptivelmente, a saia já subia ao longo da barriga da perna.
Uma peça de Tennessee Williams, que apresentava algumas personagens bastante macabras, conheceu um acolhimento entusiástico, e um novo actor chamado Marlon Brando
electrizou Nova Iorque pela sua interpretação de um animal. A Rússia falava já em fazer explodir os seus engenhos nucleares e o dedo do mundo apontava-se numa nova
direcção. A mania do reajustamento chegara ao fim. A culpa, enraizada no mais profundo da alma, a culpa que não se extinguira mais, mas cresceria, pelo contrário,
foi temporàriamente posta de lado, enquanto se recordava de novo a guerra; não com fervor patriótico, com os brados heróicos de Batman, em que Robert Taylor ficava,
só, atrás da sua metralhadora, enquanto os japoneses camuflados avançavam, de rastos, na bruma - a imagem esbatia-se, fim - não com as loucas cabriolas de Errol
Flynn, pulando por trás das linhas alemãs na companhia de pilotos aliados de aviões abatidos. Não se recorria mais à magia do celulóide em ebulição calculada para
enviar os jovens à secretaria do recrutamento e os velhos ao banco para aí adquirirem os bónus de guerra. Não, não era mais isso, mas uma contemplação serena, uma
atitude de:
"Sabes", não éramos assim tão desavergonhados durante a guerra; foi uma época que pôs em relevo tudo o que tínhamos de melhor." Na Broadway, entre um repertório
que incluía certas futilidades, como High Button Shoes, Make Mine Manhatten e Look, Ma,, I'm Dancin', encontravam-se dois êxitos sólidos como Mister Roberts e Command
Decision; um e outro - nesta nova tradição de aprofundamento psicológico e de acção significativa - descreviam o mecanismo interno dos homens em guerra, em vez dos
acessórios exteriores, tais como os bombardeiros Stukas e as patrulhas nocturnas. Em Hollywood, uma superprodução intitulada All the King's Men estava prestes a
ser exibida. Ela explicaria aos americanos do mundo inteiro os princípios da demagogia. Em Nova Iorque, seguindo o exemplo dos Brooklyn Dodgers, os Giants assinavam
um contrato com um negro chamado Monte Irvin.
O período de luto achava-se quase terminado. Uma nação que, pela segunda vez, designava entre os candidatos à presidência Thomas E. Dewey, um homem de bigode,
cortejava certamente as frioleiras: era um país que podia agora recordar-se com uma quente nostalgia de uma época de sacrifícios e de esforços comuns. No domínio
da canção, o êxito do ano era Nature Bo, que proclamava ao mundo que "a coisa mais bela que vocês jamais aprenderão é amar e serem amados como paga". As grandes
orquestras desapareciam. Glenn Milier fora morto durante a guerra e pertencia ao passado. Os grandes dos anos 30, Basie, Krupa, Dorsey, Spivac, (}oodman, não eram
mais que ecos longinquos numa nova cena musical que preferia os cantores e os
arranjos de jazz. Os sons discordantes de Stan Kenton e de Dizzy Gillespie eram tão novos para os ouvidos como para os olhos o eram as cores resplandecentes
dos automóveis luminosos. Uma nação sem recordações tinha necessidade de novos espectáculos, de novos sons, de novos heróis. Talvez sem o saberem, os Americanos
encontravam-se no meio de uma estranha renascença. O país conhecia transformações que passavam por evolução, mas que possivelmente, eram tão revolucionárias como
as que haviam varrido a Rússia em 1917.
No meio desta evolução, Amanda Bridges conheceu uma transformação física, moral e espiritual.
Antes de Novembro, duas preocupações, talvez, ocupavam-na; de manhã à noite. O estado da irmã e a nova casa de Talmadge. Em cada manhã levantava-se com Penny
no Pensamento e em cada manhã escrevia para Sandstone uma carta à qual Penn jamais respondia. Depois dedicava-se a inúmeros trabalhos de que necessita toda a casa
nova, mesmo quando se trata de uma casa velha. Em Novembro sentiu-se completamente transformada, um pouco como se tivesse nascido de novo, como se fosse um ser novo
que tivesse saído do gabinete de paredes revestidas de seixos, uma mulher nova. Sentiu-se mais redonda, mais mole, mais mulher e, coisa curiosa, mais sensual, mas
também um pouco mais tímida e, ao mesmo tempo, um pouco mais digna de atenção, mais fecunda e real, e mais próxima de Deus, mais próxima de Matthew, da nova casa,
da cidade de Talmadge, das raízes de Talmadge, um poucc mais contrafeita, um pouco mais prudente e um pouco mais coette também Tal foi, em Amanda, o resultado da
notícia que acabara de ouvir, de modo que se tornou totalmente inconsciente das transformações bem mais consideráveis que se operaram em torno dela, tanto a ocupava
a única transformação que se produzia em si própria.
Em Novembro de 1948 Amanda descobriu que estava grávida.
Matthew considerou a nova inacreditável.
Ela despertou nele mais estupefacção que prazer. Sabia, decerto, que certas funções naturais, se não fossem vigiadas com cautela, conduziriam a este resultado,
mas não era a simplicidade da concepção de Amanda que o espantava. Era, antes, o facto de que uma mulher como a sua pudesse, de súbito, tornar-se uma mãe em potencial.
Não sabia se a perspectiva de a ver desempenhar este novo papel o regozijava. O nascimento e a maternidade implicavam certos mistérios que ele não podia, na melhor
das hipóteses, sondar. Jamais apreciara histórias de mistério, e achava que já havia nele suficientemente mistério para preencher a vida de ambos e, claro, não necessitava
de ver alguém circular na casa com o grande segredo do universo no ventre. Existia já um segredo na velha casa de Talmadge - e um segredo bastava.
Este segredo dava-lhe imenso prazer. E jamais o revelara a Amanda. Não importa o que partilhasse com ela, não importa quão próximo se sentisse dela, as noites
em que trocavam beijos, caricias e sonhos, os dias em que o seu casamento conhecera os intervalos previstos do quotidiano, do já visto, quando partilhavam um sentimento
que não incluía já a paixão, mas que, de qualquer modo, acrescentava a sua intimidade, ele não revelara nunca a Amanda o que estivera prestes a acontecer naquela
noite de Natal, cinco anos antes. Sabia que nada lhe revelaria jamais e tinha consciência de que a sua união estava edificada sobre sólidos alicerces de... não de
uma mentira, certamente, mas de uma verdade inexprimida. Não se tratava, para ele, de um chiste. Sentia que esta verdade inexprimida era, com efeito, um alicerce
sólido, e não um raciocínio especioso. Tinha o sentimento de que o casamento era, de toda a maneira, uma invenção absolutamente ilógica, e pensava que seria bem
mais honesto construir um casamento sobre uma verdade inexprimida do que sobre uma aparência de confiança ou de fidelidade, que eram, em si mesmas, mentiras.
Aprendera cedo na vida que existiam pobres e ricos, fortes e fracos, íntimos e intrusos, seres que se amavam e seres que não se amavam, castos e incontinentes.
Tudo isto, pensava ele, podia fornecer excelentes títulos a romances baratos, mas, num mundo de conflitos e de contrastes, tais oposições não existiam menos. Contemplando
mais longe ainda, chegara à teoria de que toda a relação humana se fundava sobre um princípio de posse ou de relações mais ou menos profundas. Haveria sempre, de
um lado, mais dinheiro, amor e ódio, mais ambição, crueldade e paixões, que do outro lado. Era esse o princípio do maisou-menos de Mathew Anson Bridges. O que esta
teoria possuía de mais notável era que se podia aplicar tanto no domínio das relações pessoais como no domínio dos negócios e dava excelentes resultados quando aplicada
à instituição conhecida sob o nome de casamento.
Na sua noite de núpcias, Matthew compreendeu que Amanda o amava mais do que ele a amava a ela. Apercebeu-se também de que era mais apaixonado, mais perito
e infinitamente mais sensual do que a sua jovem esposa. Sentia que era preferível assim: a situação inversa, que não conseguia definir, tornar-lhe-ia a vida intolerável.
Oh, decerto que a amava. Amava-a como qualquer jovem normal amaria uma rapariga bonita, sedutora, desejável, espiritual e artista. Claro que a amava. Continuou mesmo
a amá-la quando se apercebeu de que a sua beleza matinal perdia por vezes um pouco do encanto habitual, que ela não era desejável senão devido a um acidente da carne,
que a sua sedução era, amiúde, inconsciente, que o seu espírito era muitas vezes desesperadamente rural e que o seu talento significava, com frequência, a interpretação
de Mozart, Mozart, Mozart, todo o santo dia. Amava-a. Que diabo, trata-se de dois seres que vivem uma existência comum, e era muito possível que ela não gostasse
da maneira como o marido atava os cordões do pijama ou lavava os dentes. Certas fricções deviam produzir-se obrigatôriamente quando duas personagens distintas resolviam
viver na mesma casa e partilhavam a mesma casa de banho. Ele esperara isto, e não se surpreendeu. Não havia nada em Amanda que o fizesse fugir e procurar o divórcio
a todo o custo. Amava-a, na verdade. Mas sentia-se muito feliz por Amanda o amar mais do que ele a amava a ela.
Sentia-se feliz também por guardar o seu segredo. O segredo parecia, de certo modo, dar-lhe bastante força. Nunca aludiu a ele, nunca deixou que a mulher
suspeitasse da sua existência, nem pela mais ligeira explosão de linguagem, nem pela mais fugidia expressão. Mas trazia-o em si, pensava muitas vezes naquela festa
de Natal e na maneira como salvara Amanda na grande cama de cobre; e o segredo, e as recordações que evocava, faziam-no sempre sorrir levemente. Fitava Amanda, sua
mulher, um pouco ingénua, um pouco inocente, a sua bela Amanda, e sorria. Esta inocência assombrava-o com frequência. Muitas vezes sentia desejo de defender em tribunal
uma causa na qual dispusesse de quatro testemunhas que tivessem a aparência de Amanda e falassem como ela. Via-a no banco das testemunhas a responder às perguntas
com a sua voz do Midwestern, honesta, sem afectação, sorrindo um pouco, talvez, com os seus grandes olhos azuis, os longos cabelos louros enquadrando o rosto angélico.
Não a submeteria a preparação alguma, mas sabia que, inconscientemente, num momento qualquer, ela cruzaria as pernas, e que então todos os homens do júri a desejariam
e se sentiriam em seguida cheios de embaraço e de remorsos em face do seu excesso de imaginação. Amanda continuaria a responder gentilmente às perguntas, sem ter
a menor noção das paixões que ateava. Mas acreditá-la-iam se ela lhes dissesse que a Terra era plana. Sim, decerto que se sentia feliz por ela o amar mais do que
ele a amava.
E contudo chegava a perguntar-se se esta inocência não era uma pose. Nunca se perguntou se a via com exactidão, se esta Amanda de 25 anos, em breve de 26,
era a mesma Amanda que salvara em casa de Gillian. Não, jamais se fizera esta pergunta, jamais chegara à conclusão de que, se guardava, se dissimulava este segredo,
era para tentar conservar, em Amanda, a estudante de saia de tiveeci e de sapatos leves, a fêmea inviolada, pura e virtuosa, símbolo de uma juventude semiesquecida.
Nunca se formulou perguntas acerca da Amanda mulher, jamais pensou perguntar-lhe como ela se via, nem a imaginou sequer sob outro aspecto que não fosse o de uma
bonita criatura que punha baton nos lábios e se vestia de seda sussurrante; uma jovem extraordinária que era sua mulher e que devia manter, acarinhar, amar... Mas
não tanto como ela o amava. Perguntava-se por vezes se ela afectava a ingenuidade por saber que lhe conferia um encanto suplementar. Mas não, ela parecia sincera.
Amanda dava a impressão de ter uma confiança absoluta no próximo, estava convencida de que toda a gente possuía a mesma honestidade, a mesma lealdade do que ela,
pensava que Talmadge era uma cidade autêntica, habitada por seres autênticos. Matthew, quanto a si, reconhecera o carácter artificial de Talmadge desde o primeiro
cocktail para o qual tinham sido convidados. Decidira então que não queria de modo algum ligar-se o mais levemente que fosse a esta caterva de falsos provincianos,
que tinham deixado em Nova Iorque o seu coração e as suas raízes. Tentou descobrir o que os atraira a Talmadge. A cidade era pitoresca) sem dúvida, a paisagem uma
das mais espectaculares que conhecera, sobretudo no Outono, quando os bosques que bordavam as estradas ganhavam uma beleza inimaginável. E o primeiro relance de
olhos sobre a cidade, ao passar-se a última curva, com a igreja que se elevava um pouco à direita, na colina, com as espirais da Universidade ao longe, e a rua principal
recortada por árvores frondosas que projectavam doces sombras, constituía, sem dúvida, um excelente negócio para a indústria dos bilhetes-postais.
Mas além do valor da paisagem, que podia possuir a cidade para atrair famílias inteiras de Nova Iorque e de New Haven e as depositar numa terra de ninguém
situada a meio caminho das duas e longe de uma e de outra? Era na verdade a Universidade e a sombra da sua subtil beleza o que ela sugeria de erudição latente, de
população viva, inteligente, interessante? Talvez, mas a presença desta Universidade parecia apenas um dissuasório aos olhos de Matthew. Por outro lado, os preços
das casas ou dos terrenos não encorajavam ninguém a ceder ao impulso de uma despesa. Então, quê? Ele reflectia nisto durante longo tempo, e quando pensava ter encontrado
a explicação, quando cria ter definido o que atraía as pessoas a esta cidade banal, com os seus ideais banais, a sua moralidade e os seus princípios banais, tentava
a teoria sobre Amanda. Ela fitava-o com uma inocência escandalizada, como se o marido tivesse sugerido que se dirigissem ao cemitério de Talmadge a fim de desenterrarem
alguns corpos. A sua inocência exprimia-se pela incredulidade. Não, é falso. Não, Matthew, és injusto para com a cidade.
- Estou a interpretá-la com exactidão, minha querida Amanda - disse ele -, e, se não olhares para o mundo com esses óculos cor-de-rosa, verificarás que esta
cidade e as pessoas que nela habitam são tão artificiais como a exposição que órganizam esta semana na biblioteca.
- Que é que esta exposição tem de tão artificial?
- Se não consegues ver, Amanda...
- Não, não consigo, e gostaria que mo explicasses. Nós organizamos uma exposição de utensílios de cozinha e outras coisas. Que vês nela de artificial?
- Nada. Mesmo nada. Pensei apenas que os teus postais eram muito tolos.
Matthew sorriu ao recordar-se dos postais que ela enviara na véspera. Encontrara-os na mesa do vestíbulo e percorrera-os com os olhos. Ao ler o primeiro,
sorriu; quando chegou ao quinto, desatou a rir.

Querida Lots.

Se te for possível, gostaríamos que pusesses na biblioteca no dia 14 de Janeiro, o teu moinho de gengibre, a colher de pau, o frasco de compota e a forma
do pão
Obrigada.

Amanda Bridges

Querida Betty.

Agradeço que deposites na biblioteca, no dia 14, a tua corta-couves, a colher de pau, a concha de cobre e a gamela de oliveira.
Muito obrigada.

Amanda Bridges

Querida Fastti.

Quer fazer o obséquio de depositar na biblioteca, no dia 14 de Janeiro, o seualmofariz, com a respectiva mão e o cortador de cebolas?

Querida Sr. Neon.

Quer fazer o favor de depositar a soberba forma de pão e o acendedor, na biblioteca, no dia 14 de Janeiro?

Querida Connie.

Agradeço-te a gentileza de depositares a tua velha carretilha para pastelaria, a chaleira de estanho e as forminhas de bolos, no dia 14 de Janeiro, na biblioteca.

- Penso que se trata de uma exposição maravilhosa, exactamente o que as mulheres gostam de ver.
- E um homem. Como podes saber?
- Creio que não passa de uma maluqueira numa época em que todas as cozinhas têm aparelhos automáticos capazes de fazer tudo excepto mudar as fraldas do bebé.
- Tens o direito de exprimir a tua opinião - volveu Amanda, encolhendo os ombros.
- Decerto, e é minha firme convicção de que Talmadge, Connecticut, é a cidade mais artificial situada na parte leste dos Estados Unidos. E esta leva a palmadge
a outras cidades artificiais como Darien, Scarsdale, New Hope e...
- Mas, Matthew, o que é que torna uma cidade artificial?
- Eu sei o que torna esta cidade artificial.
- Sim, pessoas como tu - volveu Amanda como uma acusação.
- A primeira razão é este cenário da Universidade, lá nas colinas. Cria uma ilusão de educação superior, mas aposto que metade dos cretinos que vivem aqui
têm uma cultura muito rudimentar.
- Não é verdade, Matthew. Sabes que não é verdade.
- Muito bem, talvez não seja. É possível que alguns deles possuam o 2.o ano do liceu.
- Fazem parte do escol intelectual de Nova Iorque - protestou Amanda.
- Então porque não ficaram em Nova Iorque? É bem o que afirmo.
- Que queres tu dizer, Matthew? Poderias esclarecer com precisão o que queres dizer, Matthew?
Por duas vezes, ela usara o nome do marido em duas frases. Era o sinal certo de que a cólera a invadia.
- Eis o que quero dizer: Talmadge é artificial porque sômente a paisagem é real. O resto é importado, como esses brinquedos japoneses que se compram na Unipreço,
e que se quebram à mais leve pressão. Todos esses tipos são nova-iorquinos, querida. Eles têm a metrópole no sangue. Todas as vezes que dizem quanto abominam aquela
cidade execrável, os olhos enchem-se-lhes de nostalgia. Ninguém se pode tornar provinciano, Amanda. Ou se é, ou não se é, e toda esta parvónia é artificial, podre.
- Ora! - fez Amanda.
- Tu o disseste.
Ele não lhe falou do resto.
Não lhe falou do mais que observara nesta cidade medíocre, porque tinha a impressão de que ela era demasiado ingénua para a apreciar no seu justo valor.
Demais, agora, que estava grávida, ele ignorava quais poderiam ser as reacções da mulher. Via-a circular através da casa e fazia-se novas interrogações. Perguntava-se
se esta mulherr-criança que via em todos os dias da semana era a verdadeira, a autêntica Amanda. Algo se passara súbitamente nela e, embora fosse um comparsa desta
abrupta transformação pré-natal, sentia-se excluído, agora, que tudo se definia. Olhava-a como se de uma grande distância e perguntava-se quais eram os seus próprios
sentimentos em relação ao futuro bebé. Julho. Não faltava muito tempo. Julho, e haveria um bebé em casa. Não mais os dois somente. Um bebé. Para partilhar. Para
amar.
Ele desejava que Amanda não se modificasse.
Desejava que Amanda continuasse a estudante inocente que vira, inconsciente, na grande cama de cobre.

Os olhos fitavam-na.
Os olhos fitavam a jovem que possuía garras.
Penny, Penny, Penny-penno-pi.
Garras.
Arranca os olhos com a fúria do vento num dia de Verão tempestuoso, sob um céu plúmbeo, sobre os pés mágicos, oh donzela voa, libélula, Penny-penno-pi, Penélope.
Mar morto num fundo de ferro felicita com vigor uma mole de comedores de favas amo-te, volto em breve, provàvelmente estás gorda como uma casa, agora vais
ver o que te vou fazer, amo-te minha penélope, o teu marido Frank Robert Randolph SM 2/c USS, Barton DD 599 ci o F. P. O. S. Francisco, Califórnia, nascida com garras.
Mar arroja massa mole herói do mar morto brigada de amores os caros amores brigada número dd massa mole o mar.
Lulu teve um bebé que se chama Sonny Jim.
Eles fitam a jovem com olhos garras.
Estava-se no princípio de Março.
Há quase um ano que ela se encontrava no hospital. Decidiu-se tentar a operação. Priscilla dirigiu-se a Sandstone e, com muita paciência, explicaram-lhe
em pormenor esta intervenção, a que chamavam lobotomia pré-&frontal. A operação, disseram-lhe, seria feita por um cirurgião neurólogo, médico do corpo clínico do
hospital. Espetariam um instrumento cortante numa parte do cérebro de Penny, para seccionar certos contactos entre o cérebro e o sistema nervoso autónomo. A doente...
- Não! - disse imediatamente Priscilla.
A doente não sentiria dor alguma. Não havia grande perigo na operação, era pouco mais do que uma ablação do apêndice. Mas se a intervenção tivesse .......
- Não! - repetiu Priscilla.
Se a operação tivesse êxito, podiam recuperar a filha, Penny poderia voltar a casa. Compreendiam que se tratava de uma decisão difícil de tomar pelos pais,
mas não se conseguira estabelecer ligação alguma com Penny, e a operação poderia ajudá-la. Não se atreveriam a dizer que ela ficaria como dantes. Penny exibiria
por vezes certas atitudes bizarras, mostrar-se-ia passiva, perdida no vácuo. Não se parecia com a Penny que tinham conhecido. Mas estaria mais tranquila, mais calma,
e poderiam talvez levá-la para casa. Sim, decerto, era uma decisão difícil, mas talvez a pudessem levar para casa. Não, claro, ela não seria a mesma, mas poderiam
levá-la para casa.
- E se a operação falhar? - perguntou Priscilla.
- O seu estado não será mais grave do que o presente, Sra. Soames. - O médico fez uma pausa.
- Nada deu resultado. Temos tentado tudo.
- se melhorar, reconhecer-nos-á novamente?
- Sim, se a operação obtiver êxito, reconhecer-vos-á, falará convosco.
- Obtêm êxito com frequência?
- Temos conseguido bons resultados. Decerto, deve compreender...
- Sim...?
- Não se trata de uma cura, Sra. Soames. A vossa filha não será a mesma. Não a quero induzir em erro deixando-a acreditar que voltará ao estado anterior
à doença.
- Compreendo - volveu Priscilla, sacudindo a cabeça. - Mas como posso permitir-vos que lhe introduzam um escalpelo no cérebro? - acrescentou ela sem fitar
o médico, os olhos fixados nas suas mãos juntas.
- Sra. Soames - disse o médico com doçura -, a vossa filha sofre. Não posso descrever com palavras, dar a mínima ideia da violência das suas penas. Se possuímos
uma possibilidade de lhe minorar as dores, de a fazer sair da profunda melancolia em que está mergulhada, se há a mais pequena probabilidade de lhe trazermos ao
menos um pouco de paz... - O médico encolheu os ombros num gesto de impotência.
Priscilla manteve-se calada durante um longo momento. Depois, soltou um profundo suspiro, voltou-se para o marido e disse:
- É preciso, Martin. - Em seguida, para o médico: - Sim. Se existe uma possibilidade, sim. Que Deus me perdoe.
Depois da operação, Penny dava a impressão de se encontrar bastante melhor. Quando Priscilla e Martin a vieram ver, ela sorriu, com um sorriso vago, e disse:
- Olá, mãe! Olá, papá! - Dava a impressão de se encontrar bastante melhor. Um pouco lenta, talvez, um pouco perdida, por vezes, e desatava a rir sem se saber
porquê, mas parecia, por fim, ter adquirido aquela paz prometida.
- Kate - disse ela um dia.
Priscilla debruçou-se sobre a filha.
- Ela gostará da Amanda e de Connecticut.
- Nós ocupamo-nos da Kate, minha querida.
Penny deu mostras de se achar desconcertada.
- Não a podem mandar para casa da Amanda?
- Não... Não sei se a Amanda a... a quererá, Penépole. Está grávida, sabes? A tua irmã está grávida.
- Oh, não me fale disso, a mim. - volveu Penny, e riu. - A Kate gostará de Connecticut.
- Minha querida, em breve irás para casa. Poder-te-ás ocupar, tu mesma, da tua filha.
- A minha filha, sim - disse Penny, sacudindo a cabeça. - E a minha máquina de costura.
- Quê, querida?
- Quê? - fez Penny, e sorriu à mãe.
- Tu disseste...
- Disse que a Kate gostaria de Connecticut.
- Talvez - volveu Pri sci lia. - Mas, querida, quando voltares para ......
- Penso que é triste.
A mãe fitou-a sem proferir uma palavra.
- Não achas?
- Quê, querida? Que pensas que é triste?
- Para a Kate.
- Sim. Sim, tens razão.
- Bem, está um dia bonito.
Penny ficou silenciosa durante um longo momento; depois voltou-se para o pai e perguntou:
- Ainda tem o chapéu preto?
- Sim, minha querida.
- Traga-o na próxima vez. Faz-me rir.
Martin Soames trazia o chapéu preto na visita seguinte. Penny riu muito e disse-lhe que ficaria contente por voltar a casa. Tinham notícias da Amanda? E
deu uma risada abafada.
- Gostaria de ser uma lagosta.
Quatro semanas depois da lobotomia, Penny lançou-se sobre a enfermeira que dava volta à sala com os sedativos para a noite. Atacou-a pela retaguarda, desferiu-lhe
um golpe na nuca e em seguida envolveu-lhe o pescoço com os dedos, tentando estrangulá-la. Uma doente, do leito vizinho, aterrorizada, fez funcionar o sinal de alarme.
Três enfermeiros dominaram Penny e puseram-lhe mais uma vez a camisa de forças. No dia seguinte, ela molhou várias vezes a cama, e tiveram de utilizar a força para
a obrigarem a levantar, a fim de mudarem os lençóis. Derrubou uma mesa de cabeceira e lançou-se de cabeça baixa, sobre o ventre de um enfermeiro, que projectou contra
a parede, quase lhe fracturando um braço. Pensou-se que era o fim. Os médicos suspiraram e entreolharam-se com o extremo desespero de homens que lutam contra um
inimigo terrível e têm constantemente de bater em retirada, agora sem armas, numa completa debandada.
Mas de súbito, na manhã seguinte, Penny sorriu com alegria.
- Bom dia, Dr. Donato - disse. - Como está?
Perguntou-lhe quando a mandariam para casa, como ia a mãe e se tinham noticias da filha Kate. E repetiu:
- É óptimo que vá para Connecticut.
Retiraram-lhe a camisa de forças.
Nessa mesma noite tentou enforcar-se com um lençol. Na manhã seguinte recusou a comida. Os olhos tinham-se-lhe tornado vítreos, o rosto mostrava uma permanente
expressão de indescritível horror, de persistente tortura, a expressão de uma mulher surpreendida no meio de um incêndio numa sala sem saídas. Molhou de novo o leito.
Entoava com toda a força dos pulmões cançonetas obscenas, praguejava, cuspia, insultava Deus e o universo, tremia de medo, gritava de raiva. No espaço de dez dias,
a destruição intelectual e moral era quase total.
O director telefonou a Priscilla e pediu-lhe que viesse. Descreveu-lhe o que se passara, sacudiu dolorosamente a cabeça e disse:
- Não podemos fazer mais nada. Nada. - Estendeu as mãos impotentes. - Nada. A vossa filha ficará sem dúvida internada para o resto da vida.
Nessa noite, o reverendo Martin Soames e sua mulher, Priscilla, fizeram em silêncio o caminho de regresso.
Após um longo momento, Priscilla disse:
- É a vontade de Deus.
Porém, Martin não respondeu.
Ela entrou em casa, tirou o chapéu. Regulou as contas com a ama de Kate e subiu para ver a criança, adormecida no seu pequeno leito. Quis acariciar os cabelos
da pequenita, mas a mão não se mexeu. Desceu e ficou sentada por bastante tempo diante da escrivaninha. Na igreja, Martin tocava órgão. Priscilla sacudiu a cabeça,
pegou na caneta e começou a escrever a carta mais difícil que jamais redigira:

13 de Abril de 1949

Filha,

Teu pai e eu acabamos de voltar do hospital, de Samtstone, onde nos informaram de que Os resultados da operação a que a tua irmã foi submetida, embora encorajadores
a princípio, não tinham sido o que se aguardava. Não há mais esperança.
Amanda, querida, não há esperança.
Nós envelhecemos, o teu pai e eu. A criança não tem ainda 7 anos. A Penn manifestou desejo de que ela fosse viver contigo. em Connecticut. A menina não constituirá
um estorvo, filha. É uma pequenita encantadora, bem-educada, e tem necessidade de viver com jovens que a cerquem de ternura.
Nós envelhecemos.
Ficar-te-ia muito reconhecida, minha filha, se lhe desses o lar e o arrumo de que ela necessite.
Que Deus te abençoe.

Tua mãe,

Priscilla Soames

A cena era particularmente difícil, e a ausencia de David não a fazia mais fácil. A atenção de Gillian ia sem cessar do texto aberto sobre os seus joelhos
para o relógio, na parede. "Ele telefonará", pensou. "Logo que saiba alguma coisa, telefonará. Agora, pensa na personagem da peça."
Lançou um olhar para o relógio e volveu a sua atenção para o texto, reuniu os restos da sua concentração, procurou em si mesma a chave do carácter da personagem.
"Ela ama o marido", pensou. "Isso sabemos. Então, por que motivo me pediu o Igor que trabalhasse com um actor que desprezo? Justamente por isso, sem dúvida. A cena
não poderá resultar se o amor da rapariga não for convincente. O Igor deu-me algo que deve ser bem difícil para mim. Muito bem, mostrar-me-ei uma amorosa apaixonada
em relação ao meu marido. Serei para ele encantadora, afável e compadecida a partir do momento em que pisarmos o palco. Oh, meu Deus!"
Olhou uma vez mais para o relógio, tornou ao texto e começou a repetir mentalmente, nos mínimos pormenores, a atitude que devia tomar. Persuadiu-se de que
o amava, não, melhor ainda, que adorava este cretino, este incapaz, que venerava o chão que ele pisava, que não desejava. de modo algum, qualquer discussão entre
ambos. A mulher que personificava recebera uma educação severa, na crença de que o casamento era um sacramento, que casamento e obediência, o dever para com o marido,
a maternidade e a educação das crianças eram os únicos objectivos autênticos de uma mulher. Era um tanto tímida e reticente, uma boa esposa e uma excelente mãe.
Na cena em questão devia descobrir que o marido a atraiçoara, que retirara mesmo da sua conta do banco um milhar de dólares para os dar à amante. Em face deste momento
de verdade, a rapariga devia explodir, em completa oposição com o seu carácter, e exprimir toda a hostilidade latente, reprimida durante os anos da infância e os
oito anos de um casamento sem atritos. Gillian fez uma careta. Considerava a cena e a personagem pouco convincentes, mas pensava que a sua incredulidade se devia
apenas ao facto de que uma tal personagem excedia o âmbito da sua xperiencia pessoal. Todavia, exigia-se que uma boa actriz devesse ser capaz de criar uma experiencia
plausível a partir de experiências particulares, mesmo que obscuras. Gillian suspirou profundamente, fechou os olhos, a fim de não fixar o relógio, e continuou a
aprofundar o seu estudo.
Podia fazer uma ideia da educação da heroína, pois que lhe recordava em certos pormenores a sua própria, talvez recordasse a educação de todas as jovens,
mas a semelhança ficava por aí. Como afirmara um aspirante a actor do curso de Igor, Gillian não conhecera "o lance do casamento". Mas fora, em todo o caso, submetida
à interminável obsessão de uma mãe, talvez mesmo de uma sociedade, orientada para o casamento. A sua educação não tinha nada de excepcional. Julgava ser possível
que todas as raparigas e rapazes experimentassem assim toda uma infância de propaganda, uma publicidade que passava de boca em boca através das gerações, e cujas
palavras-chaves eram: "Quando tu casares..." Achou interessante o facto de que fosse est a profecia transmitida, uma alegação que não oferecia escolha alguma. Não
podia imaginar, salvo nos romances de Colette, uma mãe dizendo à filha: "Quando cresceres e tiveres um amante..." Não, impossível. Ninguém diria, por outro lado,
ao filho: "Quando cresceres e te tornares celibatário..." A profecia exprimia-se sempre com uma infalível autoridade de adulto, dissimulada por diversos disfarces,
mas sempre igual na essência:
"Espera até teres filhos teus."
"Um dia conhecerás uma bela rapariga."
"Guardei o meu véu de noiva para ti."
"Deves fazer projectos quanto ao futuro."
E estes subentendidos, estes artifícios, podiam sempre traduzir-se, em linguagem clara, pelas mesmas duas palavras: "quando casares..."
Gíllian conhecera bem estas manobras enfadonhas na sua qualidade de rapariga: o casamento era a cenoura que se agitava sob o nariz de uma jovem que queria
triunfar na vida. Ela supunha que esta educação constituía uma parte tão essencial de si mesma como o coração ou o fígado, e, embora aceitasse a sua ligação com
David, aceitasse com obstinação o seu papel num amor que sentia bem real e sólido, admitia de si para si que, por vezes, se achava inquieta e incerta. Existia algures,
nesta jovem sem complexos, uma personagem muito diferente, uma criança que escutava e temia as palavras de sua mãe e de Deus, e que escandalizava a sua própria imoralidade.
Talvez fosse por isto que ela preferia não conhecer Júlia Regan.
Recordava-se da primeira vez em que David lhe pedira que o acompanhasse a Talmadge num fim-de-semana. Hesitara um instante antes de responder.
"- Não, David, não me agrada lá ir."
"- Mas porquê?"
"- Não ....... David, adoraria conhecer a tua mãe, podes acreditar. Mas não agora, ainda não", acrescentara, sacudindo a cabeça.
Voltara-se para evitar os olhos de David; sentiu-se, de súbito, timida e embaraçada. Mas sabia que não podia encontrar-se com a mãe dele, não assim, não
na situação presente.
Uma vez mais, mirou o relógio.
"Vamos", disse-se, "pensa na tua personagem."
Tornou a volver a sua atenção para o texto, leu duas réplicas com uma concentração forçada, voltou bruscamente a página e ergueu os olhos para o relógio.
Ele devia ter já regressado. Pelo menos, devia ter telefonado. Devia ter-se apercebido de que ela estava sobre brasas, na expectativa do resultado. Fora
ela mesma que combinara a entrevista, que telefonara pessoalmente a Curt no momento em que ouvira dizer que havia um lugar vago.
"- Lamento, Gilly", dissera ele. "Não se trata de um papel. É de um homem que eu preciso."
"- Mas é por isso que telefono, Curt. Tenho um amigo que poderá servir."
"- Quem é? Alguém que eu conheça?"
"- Penso que não. Chama-se David Regan."
"- Nunca ouvi falar dele."
"- Nunca ninguém ouviu falar de ti, Curt. Até 1946, em Westport. E foi o meu agente que te desencantou esse papel porque eu lhe disse que tu..."
"- Bem, que é isto? Chantagem?"
"- De modo algum. Estou a refrescar-te a memória. Agora, que és um grande senhor da televisão, talvez a tua memória..."
"- Ele já trabalhou na TV?
"- Não. Mas que importância tem, Curt?
"- Escuta, Gillian, para te ser franco..."
"- Curt, meu querido, nada de habilidades com a tua velha amiga. Trata-se apenas de um emprego na parte administrativa, uma coisa que nada tem que ver com
a técnica da televisão. Queres falar com ele?
"- Onde consegues tu todas estas informações, Gilly? Que fazes? Diriges uma rede de espionagem em Nova Iorque?"
"- Contento-me em não perder de vista os meus velhos amigos."
- Muito bem, vá. Explora o tema dos "velhos amigos"."
"- Se ele não te agradar, não és obrigado a admiti-lo."
"- Não admitiria sequer o teu ai, se ele não me agradasse."
"- Mas vais recebê-lo, Curt?"
"- Para que servem mais os velhos amigos?", - perguntou Curt com certo azedume.
"- És um amor, - volveu Gillian. - Pode ser esta tarde? ÀS Cinco e meia?"
Eram agora cerca de 7 horas e David não dera sinais de vida. Sentada no divã da sala de estar, de pernas traçadas, Gillian via o relógio pela porta aberta
da cozinha. Começava a detestar o relógio, e David, que não telefonara, e mesmo Curt Sonderman. Não conseguia fixar a atenção no original. Pegou numa lima e começou
a passá-la com frenesi sobre as unhas. Sentia-se tão enervada como se fosse ela própria a interessada no emprego. Sabia, por instinto, que era uma boa oportunidade
para David e desejava com desespero que ele triunfasse. Recusava-se a considerar as possíveis consequências se ele encontrasse por fim um bom lugar, um trabalho
de que gostasse, uma carreira que exigisse iniciativa, que oferecesse um futuro, poderia... Não, recusava imitar uma caixeirinha idiota que esperasse que um homem
fizesse dela uma mulher honesta. Quem sou eu, bom Deus? Berta, a aprendiza de costura? Olhou uma vez mais para o relógio e franziu as sobrancelhas. "Que patife aquele,
que não me telefona, sabendo que aguardo com tanta ansiedade! Aquele grande idiota sabe muito bem que estou aqui sentada quase com as unhas gastas, e a transformar-me
na Vénus de Milo, mas não se importa. Ele e esse outro imbecil do Sonderman estão, provàvelmente, embriagados num bar da Terceira Avenida, a falar das suas conquistas,
enquanto eu me encontro para aqui como Penélope aguardando o regresso de Ulisses."
De repente, ouviu bater. Ergueu-se de um salto e correu para a porta, que abriu de par em par.
- Então, conseguiste-o? - perguntou ela.
- Espera, espera - protestou David.
- Esperar! São sete horas! Não encontraste uma cabina telefónica? Não tens uma moeda sequer no bolso? Estive para aqui sentada...
- Espera um pouco, sim?
- Conseguiste-o? Sim ou não?
- Esta boa Gillian, como sempre, exigindo uma resposta directa.
- E que queres que façamos, meu palerma? Que nos conservemos de braços cruzados durante uma hora? Conseguiste o emprego ou não? Se não me deres uma resposta
imediatamente, David, eu...
- Creio que sim.
- Então é certo.
- Um momento. É apenas uma suposição. Não disse...
- É certo. É certo - repetiu Gillian, deixando-se tombar sobre o divã. - Eu tinha a certeza.
- Não estou assim tão convencido. Ele disse-me que telefonava esta noite. Prometera receber um outro.
- Se telefonar esta noite, é para informar que o lugar é teu. Conta-me o que se passou. Tudo.
- Bem, entrei, e este tipo barrigudo estava no bar.
- Barrigudo? O Curt Sonderman? Ele era delgado como uma enguia quando o conheci.
- Mas agora é bem gordo.
- É porque está rico.
- Sim, os ricos são sempre gordos. Estereótipo número sessenta e quatro mil quinhentos e trinta e um.
- Deixa-te de graças. Ele estava no bar e depois?
- Disse: "O Sr. Regan?" Volvi: "- Sim", e ele tornou: "- Sou o Curt Sonderman. Muito prazer em o conhecer."
- Sim, sim, e depois?
- Então, sentámo-nos a uma mesa e entrámos no assunto. Sabes do que se trata, Gilly?
- Tenho uma vaga ideia. Mas explica.
- Bem, ele produz dois ou três programas da televisão, do género variedades, directas. E a publicidade, nestas emissões, é também directa, na sua maior parte.
- Sim, e depois?
- A maioria das firmas que patrocinam os programas possuem agências de publicidade em Nova Iorque, mas certo número estão situadas noutros Estados, no Middle
West, na Califórnia e...
- Sim, sim...
-... utilizam os serviços de agências de Los Angeles que não dispõem de escritórios em Nova Iorque.
- Compreendo. Continua.
- Queres deixar de me interromper?
- Perdoa-me. Continua.
- Bem, uma destas firmas teve um contratempo numa emissão: devia cortar-se um ananás em fatias, mas o fruto que utilizaram parecia ter estado no fundo de
uma lata de lixo durante uma semana. Quando passaram a banda, o patrocinador ficou furioso como os diabos e decidiu assegurar-se de que tal facto não voltaria mais
a suceder. Então telefonou para o seu agente de publicidade em Los Angeles e pediu-lhe que se pusesse em contacto com Os demais patrocinadores da emissão, intitulada
"Sam Martin". Tratava-se de saber...
- É uma emissão importante, esta Sam Martin.
- Sim. Tratava-se então de saber se estariam todos dispostos a contratar um tipo em Nova Iorque com o único encargo de velar por este género de coisas: ir
ao estúdio, quando se filmassem as sequências publicitárias assegurar-se de que os acessórios se encontravam em ordem e no devido lugar...
- Sim, compreendo, sim...
-... e verificar se os tipos encarregados da realização utilizavam o texto correcto e, de uma maneira geral, dar-lhes com a vara nos ombros, se fosse preciso.
Em resumo: era absolutamente essencial ter alguém que velasse pela boa marcha das coisas. Os outros patrocinadores acharam a ideia excelente e a agência pôs-se em
contacto com o Sonderman. Este considerou também óptima a ideia. Assim, foi-lhe solicitado que desse andamento ao assunto.
- E contratou-te!
- Bem...
- É o que vais fazer. Parece uma coisa apaixonante.
- O emprego ainda não é meu.
- Qual é o ordenado?
- Duzentos dólares.
- Quê?! Por semana?
- Sim.
- Duzentos dólares por semana! - Ela saltou-lhe ao pescoço e beijjou-o. - David, qualquer dia estás rico e barrigudo!
- É apenas o ordenado inicial, Gilly. O Sonderman disse que iria tentar persuadir os patrocinadores dos dois outros programas a participarem nesta ideia.
Se o conseguir, o ordenado trepa.
- Vamos festejar! - exclamou Gillian.
- Mas não tenho a certeza ainda se o lugar é meu! Queres acalmar-te um pouco?
- É teu! É teu! Tu sabes. Porque não me telefonaste?
- Quis chegar cá o mais depressa possível. Dei-lhe o teu número e receei que, quando telefonasse, não me apanhasse ainda cá. Eis porque não procedi como
esperavas.
- Aonde vamos nós?
- Que queres dizer?
- Depois de ele telefonar. Quando nos acharmos certos de que o lugar é teu!
- Gillian, creio que é melhor esperarmos e...
- Oh, eu sei que o conseguiste. A que horas se separaram vocês?
- Há cerca de quarenta minutos.
- De um momento para o outro, temo-lo a chamar para cá. O Curt decide as coisas com rapidez.
- Ele não tem ar de quem gosta de desperdiçar o seu tempo.
- Agradaste-lhe?
- Penso que sim.
- Pagaste o consumo no bar?
- Sim.
- Bom. Ele fez-te muitas perguntas sobre a TV?
- Não. Pareceu-me bem impressionado pela minha experiencia como bibliotecário. Não sei bem porquê. Talvez pense que necessite de um catálogo humano que classifique
e registe todos os produtos das suas emissões.
O telefone retiniu bruscamente e os seus sons agudos vibraram por todo o apartamento. Ambos se voltaram na direcção do aparelho.
- O Curt - disse Gillian.
- demasiado cedo.
- É o Curt. Eu sei. Ele não desperdiça o seu tempo. Já to afirmei.
O telefone continuava a retinir.
- Vá, responde - disse Gillian.
- Penso que és tu quem o deve fazer.
- É o Curt.
O telefone retinia ainda.
- Supõe que não é o Curt?...
- Já antes atendeste o telefone! Pelo amor de Deus, David, despacha-te. Ele vai desligar!
- Não creio que seja o Curt.
- Atende!
David dirigiu-se para o aparelho e levantou o auscultador.
- Está? - disse ele. - Sim, o próprio... Sim, Sr. Sonderman...
Gillian juntou as mãos.
- Sim... oh, há alguns minutos... Sim, compreen.. do... Sim... Sim, compreendo... Obrigado. Adeus.
David pousou o auscultador.
- Sim? - perguntou Gillian.
David tinha o ar de quem acaba de sair de um sonho.
- David! Responde, por favor.
- Sim.
- É verdade? Oh, Da...
- Começo na segunda-feira.
Gillian sentou-se súbitamente no divã e pôs-se a chorar.

Achavam-se de pé no meio do relvado e agitaram a mão quando o automóvel arrancou. Estava-se em Maio e o sol de Minesota era brilhante. Banhava Martin e Priscilla
Soames com uma luz intensa e dura, de modo que pareciam marionettes pintadas diante de um falso cenário, com alguém a mexer os cordelinhos e fazendo mover-lhes as
mãos.
- Acena ao avô e à avó - disse Matthew. - Vá, acena, adeus.
Kate ergueu a mão e começou a acenar. E continuou até ao momento em que a casa e o relvado desapareceram da vista. Então, cruzou as mãos sobre os joelhos
e olhou em frente através do pára-brisas. Trazia um vestido de um amarelo vivo, peúgas brancas, sapatinhos negros de verniz com presilhas e uma grande fita amarela
nos cabelos. Seguia imóvel e silenciosa ao lado de Matthew, que pensava: "Muito bem, eis que devo travar uma grande conversa com uma garota."
- É sempre triste deixar-se um lugar - disse.
E pensou: "Que maravilhoso começo, Matthew."
- Mas creio que gostarás de Connecticut - terminou numa voz incerta.
A pequenita não respondeu. Matthew, após encolher ligeiramente os ombros, fez uma careta de descontentamento. Olhou de relance para Kate, a fim de verificar
se ela notara o seu desprazer, mas a criança não lhe prestara atenção: via desfilar a paisagem. Nesse instante sentiu um certo desagrado pela pequenita, e, de si
para si, culpou Amanda desta estúpida aventura. Priscilla era quem merecia as primeiras censuras, pela sua carta, mas Amanda, sim, Amanda anuira aos desejos da mãe,
e merecia-as mais.
"- Estás grávida!" - dissera ele. "- Pelo amor de Deus, estás grávida!"
"- Uma criança tem necessidade dos cuidados de um casal jovem" - volvera calmamente Amanda.
"- Mas tu vais ter o teu filho em Julho."
"- Sim, eu sei."
"- Então, que é que..."
"- Podemos cuidar dos dois. Somos jovens."
"- Já não sou muito jovem" - replicou Matthew. "- Fiz trinta e dois anos em Fevereiro."
"- És ainda joven, Matthew."
"- Mas começo a ter cabelos brancos no bigode, sabes?" - gritou ele, sem mais argumentos.
"- Ela é apenas uma criança."
"- Amanda, não faças isso."
"- Não faço o quê?"
"- Não comeces a chorar. Vais chorar, tenho a certeza. Não, Amanda, não. Não é justo. Falemos disto como..."
"- Matthew, quero que ela venha."
"- Porquê?"
"- É minha sobrinha... É a filha da minha irmã, e eu amo a minha irmã."
"- Mas a tua mãe ocupava-se dela. Pode continuar..."
"- Não tão bem como eu, Matthew. Não tão bem como nós."
Matthew suspirou.
"- E em Julho, como irá ser? Quando o bebé chegar."
"- Bem, tudo se há-de arranjar" - disse Amanda.
E não falaram mais no caso.
Agora, sentado no automóvel, junto da criança silenciosa, estava mais do que nunca convencido de que cometiam um erro. Não se lança para os braços de pessoas
que mal a conhecem uma garota já tão crescida... Enfim, ela tem sete anos."
- Vais bem? - perguntou.
- Sim. Obrigada.
- A viagem é longa, sabes?
- Vou muito bem. Obrigada.
- Estás muito bonita - disse ele, de má vontade.
- Obrigada.
"Ponto final," pensou ele. "Que é que se pode dizer a uma garota de seis anos, quase sete... Que diabo, ela tem seis anos e meio, digamos. Em que pensam
as garotas de seis anos e meio?"
- Em que pensas tu? - perguntou ele.
- Perdão...
- Dizia...
- Oh, em tantas coisas - volveu Kate.
- Como, por exemplo?
- Não sei.
"Ponto final. Quando se faz uma pergunta idiota..."
- No meu quarto.
- Que há quanto ao teu quarto?
- A minha cama tem uma colcha.
- Temos também colchas em casa.
- Dão-me uma, para mim só?
- Decerto.
- Eu gostava muito da minha colcha - disse ela, e ficou novamente calada.
Um momento depois, perguntou:
- Terei um quarto para mim só?
- Sim,
- Onde?
- No andar superior da nossa casa.
- Com uma janela?
- Decerto... Uma janela que dá para o pomar. O quarto é muito bonito.
- Um pomar de macieiras?
- Sim.
- Que bom!
Depois de um silêncio, perguntou:
- A mãe está louca?
Matthew hesitou. Ignorava o que os avós tinham dito à pequenita.
- EstÁ muito doente. - acabou ele por responder.
- Ficará sempre no hospital?
- Sim... Creio que sim.
- É tão triste!
- Todos nós nos sentimos tristes por isso, Kate.
- Viverei sempre em vossa casa?
- Não sei.
- Têm vontade que eu fique?
Ele hesitou por um breve instante; porém, ela tornou:
- Não têm, não é verdade?
- Mas decerto que temos.
- Ela cortou-me os cabelos, a minha mãe... Mas agora estão novamente crescidos. Vão cortar-me os cabelos?
- Só se tu pedires que o façamos.
- Não pedirei. Gosto muito dos cabelos compridos.
- Eu também.
- Acha que os meus cabelos são bonitos?
- São muito belos.
- Os seus também.
Ela examinou-o cuidadosamente e acrescentou:
- Quando for grande, deixarei crescer o bigode.
Matthew desatou a rir.
- As raparigas não têm bigode.
- Porquê?
- Apenas os homens o podem ter.
- A Sra. Schultz, da mercearia, tem um - declarou Kate.
- Bem... - Matthew reflectiu durante um momento. - Talvez ela seja uma pessoa muito especial. Uma mulher não pode ter bigode a não ser que seja muito dotada.
- Mas eu sou muito dotada. Sei tocar o Gingle Bells no órgão. O avô ensinou-me. Tem um órgão?
- Não. Um piano.
- Gosto mais de órgãos... Mas gosto também muito de pianos - acrescentou ela com vivacidade. - Toca piano'?
- Não. Mas a Amanda sim.
- Crê que ela me ensinará?
- Se lhe pedires. Ela toca muito bem. Estudou música na Universidade, sabes?
- Talvez ela me ensine... Se eu lhe pedir.
- Estou certo que sim.
- Tem carros de bonecas?
- Não.
- Devia ter trazido o meu. Mas a avô disse que não havia lugar para ele no automóvel.
- - Bem, comprar-te-emos um carro de bonecas - volveu Matthew.
- A avó disse que eu não devia pedir-vos nada. Disse que eram já muito gentis por me receberem em vossa casa. Eis o que ela disse: muito gentis.
- Podes pedir todas as coisas que queiras - afirmou Matthew. Sorriu e acrescentou: - Mas não significa que as obtenhas, certamente...
A garota reagiu de pronto a esta graça. Pela primeira vez desde que entrara no carro, um sorriso espontâneo iluminou-lhe o rosto. Ganhou logo grande à-vontade
e disse:
- Eis uma vacaria aí em frente. Tem milhares de vacas. As vacas são os animais mais estúpidos do mundo, sabia?
- Suspeitava.
- É verdade. Li numa ilustração.
- Então deve ser verdade - disse Matthew com ar sério.
Kate teve um risinho abafado.
- Vê-as? Há-as por toda a parte, nos campos. E não fazem outra coisa que comer erva e dormir.
- E dar leite.
- Elas, verdadeiramente, não o dão. É preciso tirar-lho
- Sim, decerto. Nunca vi a coisa dessa maneira.
- Era ali que eu ia à escola - disse Kate, estendendo um braço. - Estou na primeira classe. Há uma escola em Talmadge?
- Uma escola primária, um liceu e uma Universidade.
- Que é uma Universidade?
- É... bem, um grupo de Faculdades.
- Vai-se para uma Faculdade depois de se concluir a instrução primária?
- Sim, mas muito tempo depois.
- Poderei ir para uma 'Faculdade?
- Decerto.
- A mamã foi para uma Faculdade, mas então conheceu o papá. Sabe que ele foi morto? Durante a guerra? Esteve na guerra?
- Sim.
- Na Marinha?
- Não. No Exército.
- O papá esteve na Marinha. Já ouviu falar num lugar chamado Guadalcanal? Aí é que ele foi morto. Fica no Pacífico. Já ouviu falar?
- Sim.
- Esteve aí?
- Não.
- Mas gostaria de lá ir?
- Não tenho um interesse especial.
- Eu também... Vai ser o meu padrasto?
- Não sei - volveu Matthew honestamente.
- Tu não tens um ar de mau.
Matthew riu.
- Pensavas que eu o era?
- Os padrastos são sempre maus. Li-o nos Contos Azuis. Leste este livro?
- Creio que sim. Quando era pequeno.
- Sei ler, sabias?
- Vejo que sim.
- Há quanto tempo tens o bigode?
- Não me recordo com exactidão. Talvez depois dos dezanove ou dos vinte anos.
- És dotado?
- Não.
- Mas tens bigode?
- Penso que tive sorte - disse Matthew.
Kate inclinou a cabeça num gesto de aprovação.
- Talvez eu também tenha sorte. Passamos por Mineápolis?
- Sim.
- A avó e o avô levaram-me lá uma vez. Almoçamos aí. Podemos parar para almoçar em Mineápolis?
- Decerto.
Deixaram a região dos lagos, seguiram as margens do Mississipi, atravessaram St. Cloud e chegaram a Mineápolis. Almoçaram no Charlie's, na Quarta Avenida
Sul, em seguida continuaram a viagem e passaram por St. Paul, cuja Câmara Municipal brilhava com toda a sua brancura no sol da tarde. O mês de Maio fazia florescer
Minesota, as estradas estavam bordadas de taráxacos e manjeronas, pinheiros brancos elevavam-se em renques. Seguindo as margens do Mississípi, que se precipitava
para o mar em vagas de espuma verde e branca, passaram por Winona e entraram no Wisconsin.
O lago superior estava agora bem por cima deles; encontraram-se na verdadeira região dos lacticínios, e o odor do queijo fresco espalhava-se por todo o campo. Observaram
as fábricas, as máquinas gigantescas à espera da expedição para o Leste e para o Oeste, as Diesels, as turbinas, as carroçarias de viaturas, os aparelhos de pasteurização,
os tractores. Atravessaram a Kickapoo,, cujo nome índio evocava no ar da tarde ecos de morticínios e escalpes, fantasmas de pioneiros. Continuaram na direcção de
Madison, que nos últimos dias do semestre universitário tornava à sua quietude de pequena cidade, enquanto o crepúsculo invadia as colinas por trás dos edifícios
da Universidade. Em seguida penetraram no Ilinóis: Rockford, Waukegan e, bruscamente, o magnífico espectáculo do lago Michigão; as povoações suburbanas desfilavam
umas após outras, Oak Park, Cícero, e a lembrança dos gangsters dos anos 20, do whisky de contrabando e do crepitar das metralhadoras. A noite descia depressa. Entraram
por fim em Chicago: edifícios gigantescos, o odor do sangue dos matadouros. Os olhos de Kate estavam arregalados. Tio e sobrinha devoraram um steak no Pump Room
e foram deitar-se, exaustos, às 10.
Na manhã seguinte atravessaram um extracto de Ilinóis e encontraram-se em Indiana, atravessaram Valparaiso, Plymouth, os ricos campos cultivados do estado,
Columbia City, Fort Waine; deixaram atrás de si a fronteira de um outro estado, depois o extracto estéril das terras baixas e planas que se prolongavam até Akron.
Encontraram-se de súbito envolvidos pelo rumor de uma cidade e pelo odor a borracha, este fedor penetrante que se respira em cada lufada de ar. Atingiram Youngstown,
onde as refinarias acrescentavam o seu resplendor ofuscante à luz do Sol; depois, a Pensilvânia, que atravessaram de uma ponta à outra, triste estado mineiro, cujas
casas, enegrecidas pelo pé de carvão, exprimiam uma pobreza digna. Passaram pelas Alleghenies e seguiram a margem do Susquehanna; apressaram-se para chegar a Filadélfia
antes do cair da noite. Passaram por Harrísburg, Lancaster, pela Pensilvânia holandesa, com os sinais cabalisticos sobre os celeiros e os camponeses de Amish na
sua faina. Quando atingiram, por fim, Filadélfia e se inscreveram no hotel, Matthew estava exausto.
Na manhã seguinte, após noventa minutos de viagem, chegaram a Nova Iorque. Ela sempre dispensa um bom acolhimento, esta cidade, elevada na outra margem do
rio, coroa na cabeça, com o sorriso dos seus milhões de janelas que reflectem o sol; ela faz-vos um sinal para atravessardes as pontes, descerdes as auto-estradas,
nas alturas, para vos lançardes nos seus braços, guarnecidos de nuvens e néon. Atarefada, frenética, ela, contudo, acolhvos como nenhuma outra cidade dos Estados
Unidos, com a possível excepção de S. Francisco. A sua existência mesma serve de boas-vindas; ela faz-vos sentir que é aí o termo da viagem e não uma paragem entre
outras. Vós estais em Nova Iorque e possuís todas as outras cidades uma vez que a possuirdes. Matthew e Kate detiveram-se para almoçar no Mamaroneck e depois prosseguiram
no seu caminho até Talmadge.
Quando chegaram a casa eram já velhos amigos.

Amanda observou-se e, bizarramente, sentiu-se uma estranha. Teve a imediata sensação de que o nascimento do bebé não traria a Matthew nada de extraordinário.
Maio submergia Talmadge sob um calor ardente que não era próprio da estação. Amanda sentia-se constrangida, sentia-se disforme, desastrada, e ao observar o marido
com a pequenita ficava levemente agastada ao vê-los tão felizes na companhia um do outro. Agora, que Kate se encontrava em casa, que a sua voz ressoava por todo
o lado, que a sua mão vinha abrigar-se na de Matthew, o marido parecia-lhe dispor de todas as características estereotipadas do perfeito pai de família. Tudo o que
a garota fazia parecia diverti-lo. Amanda foi obrigada a admitir que a sobrinha possuía um senso de humor delicioso e um riso fascinante que fazia vibrar a velha
casa. No entanto, achava deslocada a imprevista indulgência de Matthew, especialmente agora, que ele ia ser, não tardariam dois meses, um pai de verdade. Mas não
havia dúvida de que o riso de Kate era contagiante. Todas as vezes que este riso se escapava dos pulmões e dos lábios de Kate, Matthew começava a rir com ela e,
por fim, a própria Amanda, que achava estas írupções pueris e absurdas, foi por sua vez seduzida. Kate era uma verdadeira fonte de informações inexactas e Matthew
escutava as suas declarações solenes antes de lhe responder com um ar sério que Amanda considerava estupidamente indulgente.
- - Sabes qual é a doença mais grave do mundo? - perguntou Kate certo dia.
- Não - volveu Matthew. - Diz lá.
- O Kansas - respondeu ela sem um sorriso.
- Sim, é verdade - admitiu ele -, mas o Biloxi é ainda pior.
E a garota desatou a rir à gargalhada.
Todas as noites Matthew lhe lia histórias. Comprou dezenas de livros, e Amanda ouvia a sua voz descer até ela, do quarto do primeiro andar. "Era o gato velho,
ruim e vilão, o gato que trazia um turbante de sultão, sim, era o gato, o gato que jamais caçara um ratinho ou um ratão." Ele lia não importa que história idiota,
recortava-a de emoção e drama até ao momento em que a vozinha curiosa de Kate se toldava de sono. Então, ele beijava-a, puxava-lhe a coberta até ao pescoço, fechava
a luz e dizia:
- Até amanhã, Kate.
Ela volvia:
- Não te esqueças. Ao pequeno almoço.
E ele descia na ponta dos pés, um sorriso nos lábios. Amanda, na sua última fase da gravidez, dormia até tarde, de manhã. Os dois, Matthew e Kate, faziam
o pequeno almoço, e depois sentavam-se na cozinha e palravam como papagaios. Kate contava-lhe todos os seus projectos para esse dia, e ele sentia-se como um pai,
um pai bem autêntico que escutava os problemas da sua filha pequena, que lhe oferecia conselhos sobre a maneira de reparar a cabeça de uma boneca, ou o que dizer
àquela pequena pretensiosa da Iris, que morava numa casa próxima, ou como fixar os patins com rodas, ou mesmo como se assoar como uma senhora. Este papel dava-lhe
um prazer enorme. A garota acompanhava-o até à garagem, ele fazia recuar o carro em marcha atrás e em seguida inclinava-se à janela, e Kate dava-lhe um beijo de
despedida e gritava: "-Voltas cedo?", e ele volvia: "- Para jantar." A pequenita bradava, por fim: "-Sais esta noite?", e ele respondia no mesmo tom: "- Não", antes
de seguir para a estação.
A pergunta era sempre a mesma: "- Sais esta noite?", como se, agora, que encontrara um pai, ela não pudesse suportar a ideia de o perder de vista.
E a resposta era invariável: "- Não!", porque, agora, que Kate viera viver com eles, Matthew não sentia prazer algum com as distracções mundanas. A presença
da pequenita, juntamente com a silhueta sem cessar mais incómoda de Amanda, fornecia uma desculpa excelente para escapar às pequenas reuniões de fim-de-semana de
Talmadge, de que Matthew nunca gostara. Tais reuniões eram, aos seus olhos, apenas uma extensão deste universo de fantasia que nova-iorquinos cheios de boas intenções
tinham criado. Ele detestava assistir a elas e detestava organizá-las; estava também grato a Kate por lhes ter feito conhecer um mal corrente em Talmadge, que se
denominava Problema da Guarda das Crianças.
- Não a podemos deixar entregue a qualquer um - disse ele a Amanda. - A casa ainda lhe é estranha.
- A verdade é que tu não gostas de sair, de assistir a festas.
- Quem é que te meteu essa ideia na cabeça?
- Nunca danças.
- Danço contigo.
- Oh, e isso deve ser, na verdade, muito agradável para ti, neste momento. Olha-me, pareço uma montanha.
Matthew colocou as mãos no ventre da mulher.
- És fascinante - disse.
- Há mulheres muito atraentes em Talmadge, Matthew.
- Sim.
- É verdade, e eu sou apenas uma velha porca grávida.
- Uma jovem porca grávida.
- Bom, jovem, perdoa-me - volveu Amanda, sorrindo. - Mas tens de admitir que elas são atraentes. Muito chiques, muito...
- Sim, são atraentes. Mas tu és encantadora. E, demais, acontece que és a mulher que amo.
Mas não tanto como ela o amava. Amanda via-o ligar-se cada vez mais à pequenita e perguntava-se se sentia ciúmes. Começou a desejar que o bebé que ia nascer
fosse um rapaz. Ela sabia bem que uma menina rosada e gorducha jamais podia rivalizar com a sua linda sobrinha loura. A própria palavra "sobrinha" a irritava. Automàticamente,
Kate era para ela a filha de sua irmã, mas sabia que Matthew começava já a considerá-la como sua própria filha.
Um dia, no princípio de Junho, o quadro transformou-se um tanto.
Ela estivera sentada ao sol, de olhos cerrados, as mãos cruzadas sobre o ventre, quando, de súbito, se deu conta do silêncio que reinava no jardim. Ergueu-se
e chamou:
"- Kate."!
Porém, não obteve resposta. Inquieta, levantou-se a custo da cadeira, atravessou o relvado com um passo pesado e entrou em casa. Esta estava, também, silenciosa.
Lançou um olhar para a cozinha, para as salas de jantar e de estar. Kate não se encontrava em parte alguma no rés-do-chão. Foi então que ouviu a voz da criança,
no primeiro andar. Sorriu, agarrou-se ao corrimão, e, sem fazer ruído, subiu ao patamar, que atravessou. A porta do seu quarto estava entreaberta.
Kate achava-se de pé diante do espelho. Trazia os sapatos de salto alto e uma capelina ligeira que pertenciam a Amanda. Com uma das mãos sobre a anca, sorria
à sua imagem.
"- És tão bonita, Amanda." - disse ela ao espelho. - "És tão bonita, mamã..."
Amanda recuou e afastou-se silenciosamente.
Acabara de reviver, de súbito, um dia longínquo, na casa de Otter Falls, em que, no quarto dos pais, uma garota de 9 anos chamada Amanda pusera um vestido
e uns sapatos que pertenciam a uma mulher chamada Priscilla Soames.

O programa de televisão desenrolava-se num edifício situado na Rua Sessenta e Oito, Oeste, precisamente ao lado do Central Park. Este edifício estava encastoado
entre os prédios de apartamentos e a sua fachada de tijolos possuía poucas janelas. Quando subia a rua burguesa e pacata, uma pessoa encontrava-se bruscamente diante
desta parede de tijolos, nua, com a linha vertical das suas seis janelas, que iluminavam a caixa da escada, e as suas duas portas de ferro que davam para a rua,
separadas uns 8 metros uma da outra. O edifício tinha um aspecto ameaçador; porém, tudo o que lá se desenrolava era uma emissão da TV.
Esta emissão, muito popular, intitulava-se Memos. Curt Sonderman, o produtor, organizara-a à volta de um diseur de génio, quase cómico, chamado Sam Martin.
Martin era um dos precursores de uma escola de actores de televisão cuja bagagem consistia numa total falta de talento. Era uma espécie de néscio exuberante que
se parecia com o homem da esquina, tratava como o homem da esquina e falava como ele. De facto, ao olhar para Sam Martin, o homem da esquina tinha a impressão bem
nítida de que se comportaria exactamente assim se alguém o arrastasse para um estúdio de televisão e lhe dissesse que começasse a falar. Martin dizia tudo o que
lhe passava pela cabeça no momento preciso em que tal lhe passava pela cabeça. As suas opiniões baseavam-se numa memória que retinha fielmente todas as banalidades;
o seu espírito era uma tulha atravancada de conhecimentos fúteis. Parecia o homem que trazia dois relógios de pulso, um regulado pela hora de Nova Iorque, outro
pela de Londres. Como perguntassem a razão por que usava o segundo, este respondia: "- É para o caso de alguém desejar saber que horas são em Londres. Sam Martin
não conseguiria, talvez" dizer que horas eram em Londres, mas podia indicar o nome do avançado-centro da equipa do Red Sox em 1939, o filme que ganhara o óscar em
1932, dizer o número de ovos utilizados num creme de ananás ou a melhor maneira de um setter irlandês se desembaraçar dos seus tiques. Era igualmente capaz de contar
uma história picante sem fazer corar as damas e de descrever as últimas tendências da moda sem aborrecer os homens. Era bastante elegante para dar às mulheres uma
vaga impressão de sexappeal... mas não tão sedutor que fornecesse a um marido motivos para ciúmes. Não sabia cantar nem dançar, tinha uma voz pouco harmoniosa, um
senso de humor dos mais vulgares; em suma, não possuia talento. Mas nos seus começos a televisão formava uma nova raça de super-homens destituídos de qualidades
que iam edificar, apesar da sua carência de talento, uma espécie de talento que agradava a todos os espectadores longinquos, os maníacos dos botões.
Numa época em que as produções dramáticas televisionadas tentavam, o melhor que podiam, convencer o homem da rua de que ele era perfeitamente normal, de
que era, com efeito, decente, honrado e digno mesmo que fosse um zé-ninguém, Sam Martin oferecia no écran a prova visual desta teoria. A televisão da época interessava-se,
mais do que em outra coisa, pelo número de baratas que pululavam no lava-louças das cozinhas. Formava-se a toda a velocidade uma nova escola artística nos pequenos
estúdios inadequados disseminados pelos bairros mais miseráveis da cidade. O princípio essencial desta escola consistia no seguinte: não era autêntico o drama que
não se referisse à gente mais humilde, um princípio que Aristóteles teria combatido se fosse vivo e se ocupasse da televisão. Esta gente humilde batia-se para se
encontrar no pequeno écran ao mesmo tempo que esmagava as baratas todas as vezes que acendiam a luz da cozinha. Houve um momento em que certos espectadores mais
sensíveis começaram a desejar que todas as baratas atravessassem a Geórgia e se lançassem ao mar, arrastando consigo toda essa maldita gente humilde. Tornava-se
um pouco enfadonho olhar, semana após semana, emissões que propunham problemas desconcertantes como os seguintes: se um romance de amor do Verão podia resistir ao
Inverno; se um homem que salvara o filho de um rico burguês caído no esgoto veria a sua existência destruída por este acto de heroismo; se um homem de 50 anos que
se achava desempregado encontraria uma ocupação antes de ser levado pelas baratas. Mas foi a gente humilde que triunfou. Os espectadores começaram a falar da "facilidade
do diálogo", da "verdade clínica", das "minudências da vida", da "objectividade neo-realística" e da "integridade da representação." Foi nesta época em que cada
um se perdia na contemplação das circunvoluções do seu próprio umbigo que surgiu Sam Martin com a sua tagarelice, a sua provisão de observações insípidas, o seu
fato no fio, a sua cara sem expressão. Os espectadores, ao vê-lo, ficavam convencidos de que ele era também um homem atormentado pelas baratas.
David Regan trabalhava para os patrocinadores do programa em que intervinha Sam Martin.
O espectáculo girava inteiramente em torno de Sam Martin, que o abria todas as tardes à 1.80, com estas palavras: "Olá, jovens", acrescentando em seguida,
com um piscar de olhos: "E vocês também, rapazes." Contava algumas histórias, fornecia algumas informações sem interesse, pescadas nos jornais e nos magazines, e
ligava o todo com salsadas extraídas de uma memória profunda como um baú. Depois, uma cançonetista entoava uma canção, Martin passava um anúncio publicitário, um
cantor entoava outra canção, Martim passava outro anúncio, contava ainda algumas histórias, e o programa prosseguia de maneira idêntica. Ele exibia-se umas boas
duas horas por dia. Calculava-se em 14 milhões o número dos seus fiéis espectadores e obtinha para
a cadeia emissora milhões e milhões de dólares de
publicidade. E tudo isto porque era totalmente desprovido de talento.
Corriam numerosos e diversos rumores acerca de Sam Martin nos meios da televisão e nas colunas dos repórteres da especialidade. Afirmava-se que Sam Martin,
cordial e afável no écran, era, na vida particular, um verdadeiro tirano, o género do homem que fustigava os seus fiéis empregados com um chicote de nove cordas,
que seduzia garotas de 13 anos, pontapeava cegos, uivava à Lua e tomava cocaína. Estes rumores não tinham o mínimo fundamento. Longe do écran, Sam Martin era exactamente
a mesma pessoa que actuava na TV: exuberante, sorridente, banal, afável, inofensivo. Viera para a televisão após doze anos na rádio, a maioria passados em Los Angeles,
onde, numa emissão matinal, apresentava discos, contava histórias e passava anúncios publicitários. Nesses primeiros dias da rádio, Martin usava óculos e sentava-se
atrás do microfone; quando chegava o momento de fazer um anúncio publicitário, debruçava-se sobre o micro e lia o texto preparado; mas de súbito, retirando os óculos,
lançava-se num fervente panegirico improvisado que possuia um acento de sinceridade, de convicção e de perfeita honestidade. Um dos seus colegas de Los Angeles disse
porque é que Sam Martin era o melhor representante comercial de toda a rádio: sempre que retirava os óculos para encetar o seu improviso parecia ir fazer a corte
a uma jovem. Bem, Sam Martin pôs de parte os óculos, para sempre, no momento em que entrou para a televisão, mas continuou a exaltar os produtos que anunciava com
um fervor difícil de imitar. Era este talvez o seu único talento autêntico. O mundo achava-se possivelmente prestes a tombar nas mãos dos propagandistas.
Se assim era, David parecia não se importar muito.
O que contava era que Martin fizesse vender o produto fabricado pelo patrocinador que contratara David como uma espécie de cão de guarda. David era quem
velava por que o produto apresentasse uma aparência magnífica no pequeno écran. Não se podia subestimar a importância do papel de David. Memos nascia em Nova Iorque
todas as tardes à 1.30, após uma hora e meia de ensaio. Não se tratava de uma emissão gravada e filmada, fácil de retocar na montagem. Se um pormenor não saia bem
no momento próprio, não se podia refazer a sequência. Toda a gente notaria a falha; e David tinha por tarefa velar por que tudo funcionasse convenientemente de princípio
a fim. Em geral, desempenhava-se da sua tarefa no meio de -um pandemónio que começava ao meio-dia e parava apenas um instante antes de ser iniciada a emissão. Parecia
inacreditável a David que alguém pudesse saber com exactidão o que se passava no decurso daqueles ensaios ou que um programa que desse a menor impressão de senso
ou de continuidade viesse a emergir desta inextrincável baralhada de cabos, tubos, realizadores vociferantes, introduções musicais, espectadores pacientes, autores
de diálogos humorísticos, hastes de microfones, operadores, electricistas, assistentes de realização frenéticos e produtores agitados, agentes de imprensa, engenheiros
de som, directores de cena e maquilhadores. Mas sem que se soubesse como, uma emissão conseguia emergir deste caos, um programa notàvelmente hábil e certo, graças
à compreensão intuitiva que Sam Martin possuía do seu público e graças também à sua calma genuína e perfeita.
O ensaio desta quarta-feira de Junho não tinha nada de tranquilo. David não guardava nenhuma recordação de um só ensaio que se tivesse desenrolado de maneira satisfatória,
mas este parecia querer bater todos os records de desordem. O caso começou com Louise, a jovem cançonetista, que gritou com Martin a propósito da canção que este
queria que ela entoasse; não podia interpretar uma canção sex porque todo o seu repertório era do género familiar. Era precisa uma outra canção, e imediatamente.
Martin, sempre afável e cordial, volveu-lhe que ela tinha razão, o que originou um problema de última hora para encontrar uma canção adequada e uma série de telefonemas
à Sociedade de Autores para se obter autorização para ela a interpretar. Obtida a autorização, restava o problema do arranjo orquestral. A orquestra não o possuía
e era demasiado tarde para se escrever um, decidiu-se então que Louise seria acompanhada ao piano, à guitarra e à bateria; em vista disto, Louise teve uma segunda
crise e dirigiu-se, desfeita em pranto, a Martin, que a acalmou ao dizer-lhe que o pianista era o melhor que existia na televisão. Demais, Marian Anderson não cantava
A Bandeira Estrelada com um simples acompanhamento de piano?
Foi acerca deste momento que um tipo do serviço de programas desceu para protestar contra uma piada um pouco forte que um dos dialoguistas de Martin inserira
no programa imediatamente a seguir ao anúncio de uma marca de café. O tipo do serviço de programas era um presbiteriano fanático, que pretendia ter ideias largas;
pensava que o espectadores de Martin podiam não apreciar a piada, e, como ela se seguia a este anúncio de café, teriam talvez tendência para a associar com o produto,
não comprando este e forçando assim o patrocinador a retirar-se da emissão. O dialoguista protestou, afirmando que não teria receio nem vergonha de contar esta piada
à sua própria mãe. Então, o tipo do serviço de programas declarou que ignorava de que género era a mãe do dialoguista; quanto a si, não gostaria de modo algum que
a sua mãe ouvisse uma história desta espécie. Os dois quase se envolveram à pancada. David resolveu a questão dizendo ao dialoguista e ao tipo do serviço de programas
que eram decerto mães admiráveis e pais que os dois tinham o não eram menos, mas que talvez a piada em questão fosse susceptível de desagradar a certos grupos de
fanáticos excêntricos; com uma piscada de olhos a cada um deles, pediu ao dialoguista que a substituisse por outra. O tipo do serviço de programas foi-se, apaziguado,
mas virtuosamente indignado, e o dialoguista dirigiu-se ao camarim de Martin para aí preparar uma piada inofensiva.
Surgiu então o convidado de Martin para a emissão do dia. Era uma personalidade bem conhecida do meio teatral, vedeta de um dos grandes êxitos da Broadway.
O tipo era bastante simpático quando não estava com um grão na asa, mas chegou ao estúdio perdido de bêbado. Começou por injuriar todo o mundo, resmungando que ia
esmurrar o nariz do bastardo do Martin mal o programa começasse. Resistiu a todos os esforços feitos para lhe derramar pela garganta abaixo um litro de café, voltou
a cafeteira e ameaçou lançar por terra o maquilhador, a quem aplidou de maricas. Martin chamou-o à parte e fez-lhe uma admoestação paternal sobre as tradições do
teatro ("Você chama teatro a esta trampa?", gritou o actor", sobre a responsabilidade dos intérpretes e a necessidade de se saberem elevar acima das mesquinhas divergências
pessoais; recordou um incidente já esquecido, que datava de 1925 e cujo herói era John Barrvmore, comparou de passagem o seu convidado a Barrymore e lembrou-lhe
que 14 milhões de pessoas iam fixá-lo e escutá-lo de uma costa à outra: não pensaria ele que algumas chávenas de café e um duche frio lhe fariam bem? O actor apertou
a mão de Martin e beijou na face o "maricas" do maquilhador, que era casado e tinha quatro filhos, após o que foi tomar um duche e ingerir o café negro bem forte,
mas não do que fornecia o patrocinador.
O cabo que alimentava a câmara n.o 3 teve um capricho, a série de projectores que iluminavam o cenário único e sumptuoso apagaram-se súbitamente, os electricistas
começaram a mexer-se por todos os lados, arrastando escadas e fazendo habilidades com chaves de parafusos, e Louise queixou-se, numa confidência à costureira, que
acabara de ser visitada pelas regras e que, para dizer toda a verdade, não tinha vontade alguma de cantar. Sentiu-se que a tensão subia no estúdio à medida que o
relógio consumia os minutos que faltavam para o começo da emissão. David apercebeu-se deste pânico crescente, sentiu-se tomado por sombrios pressentimentos; tudo
se baralhava: a inexorável marcha do ponteiro dos minutos, as catástrofes que se desencadeavam, umas após outras, e também a sensação de que os fantasmas de George
Devereaux e de Mike Arretti vinham inopinadamente introduzir-se nesta atmosfera febricitante. Um estremecimento percorreu-lhe a espinha. Quis combater esta sensação,
libertar-se da pressão de um destino inelutável que parecia querer envolvê-lo mais e mais estreitamente. Sabia que se iria produzir qualquer coisa. Esperava a explosão
com uma inquietude febril.
Nesse dia, quando se aproximou de Sam Martin, trazia na mão um novo produto fornecido por uma agência de publicidade de Los Angeles. Este produto, que fazia
parte da longa lista de artigos de uma qualidade notável e superior, enaltecidos pelos propagandistas californianos, era um creme de barbear chamado "Abaixo a Barba!"
Este nome irritou David, mas o creme estava aqui, numa destas bombas que faziam jorrar uma massa untuosa sob a simples pressão do dedo. Ou melhor, como era o caso
quanto a "Abaixo a Barba!": este comportava um dispositivo de segurança que impedia que o creme gotejasse no armário da casa de banho quando não se servissem dele.
Possuía uma pequena tampa que se atarraxava sobre o bico, e era necessário retirá-la antes de premir o botão que fazia jorrar o creme para a palma da mão. O artigo
chegara de Los Angeles acompanhado do folheto que explicava a maneira de se servir da bomba; a frase que dizia respeito à tampa estava composta em maiúsculas:
RETIRAR A CÁPSULA ANTES DE PREMIR O BOTÃO. E tudo sublinhado. David dirigiu-se a Martin cerca da 1.10, quando se descobriu que o cenógrafo fornecera um fundo que
não convinha a uma fantasia burlesca que fazia parte da emissão: necessitava-se de um bistro parisiense e tinha-se uma vista da ponte de Brooklin. Era assim que
as coisas iam.
- Sam - disse David -, tem um minuto disponível?
Martin interrompeu a sua conversa com o cenógrafo. Começava a transpirar sob a maquilhagem e o caracterizador rodava em volta dele, pó e pincel na mão, aguardando
o momento em que o poderia desviar de toda esta gente para um toque rápido. Manchas de suor viam-slhe sob as mangas da camisa azul. Uma costureira, por trás do caracterizador,
segurava a jaqueta de Martin, pronta a ajudá-lo a enfiá-la.
- Que temos mais, David? - perguntou Martin voltando-se para o jovem. Pensou em sorrir enquanto se voltava. Havia pânico no ar, o ponteiro dos segundos,
no relógio do estúdio, parecia correr cada vez com maior velocidade, respirava-se, palpava-se o pânico. Mas Sam Martin não se esquecera de sorrir ao voltar-se.
- Sam, quando fizer a demonstração deste novo creme de barbear...
- Sim, sim.
- Este "Abaixo a Barba!"...
- Sim, sim.
- Esta gerigonça... - disse David, mostrand -lhe a bomba - é absolutamente necessário desenroscar esta pequena cápsula antes de premir o botão. senão nada
sairá.
- Eu sei.
- Oka - volveu David, sorrindo. - Boa sorte para a emissão.
- Obrigado - disse Martin antes de se voltar para o cenógrafo.
Dez minutos antes de o programa ir para o ar, o pânico era tal que parecia formar um véu impenetrável. Recordando-se da bomba de creme de barbear, David
decidiu procurar Martin e repetir-lhe as instruções, para maior segurança. Encontrou-o a examinar o horário de todos os actos da emissão; sublinhava certas passagens
do texto, marcando algumas com um lápis vermelho, outras com um lápis azul.
- Sam - disse David -, não se esqueça de desenroscar a cápsula, sim?
Martin ergueu os olhos do texto e perguntou com muita calma:
- Quer fazer você mesmo a demonstração; David?
- Não, não, Sam. Não - replicou David, batendo em retirada. - Pensei simplesmente que... Bem, não falemos mais isto.
F'oi instalar-se no gabinete reservado aos patrocinadores, enquanto o locutor que procedia a' apresentação começava a aquecer um pouco o público do estúdio.
David não conseguia desembaraçar-se da sensação de catástrofe iminente. Inconscientemente, enquanto o ponteiro se aproximava da hora, fez com dois dedos a figa que
conjura o mal. Houve um silêncio. O técnico de som, na sua cabina, contou os dez segundos. Por fim, ouviu-se o indicativo musical, enquanto no écran de controle
passava uma banda que mostrava a fabulosa perspectiva dos arranha-céus de Nova Iorque. A voz do apresentador elevou-se mais que o indicativo, terminando com as palavras:
.... e agora, a vedeta da nossa emissão:
Sam MartinI" O público do estúdio rompeu em aplausos entusiásticos, Martin fez uma entrada com ar casual, como se, após o meio-dia, não tivesse atravessado todos
os círculos do Inferno. Disse "Olá, jovens", piscou os olhos para a câmara e acrescentou: "E vocês também, rapazes." Então, contou uma pequena história ligeira e
apresentou Louise, que cantou com graça e modéstia. David descontraiu-se um pouco, mas os dois dedos continuaram na mesma posição.
O anúncio referente ao creme de barbear passou na segunda meia hora da emissão, após a fantasia num bistro parisiense, representada sobre o fundo da ponte
de Brooklin, e que, por felicidade, parecia mais engraçada assim. Martin pegou na bomba, que apresentava uma bela aparência, ergueu-a para melhor a fazer notar,
e lançou-se num improviso veemente sobre este novo dispositivo que largava um belo creme na ponta dos dedos.
- Eis como ele funciona - disse.
"A cápsula", pensou David.
- Basta premir este pequeno botão...
- A cápsula - murmurou audivelmente David.
Um assistente de produção voltou-se para o fitar com um ar perplexo.
-... e o creme sai como por magia, amigos. - Premiu o botão, mas nada.
- Senhor! - fez David.
Martin sorriu, como um adolescente, examinou ràpidamente a bomba e disse:
- É preciso premir o botão colocado no topo da bomba. - Encolheu os ombros. - Ora vejamos. E premiu de novo o botão, mas sem retirar ainda a
cápsula. Nada saiu, uma vez mais. David fechou os
olhos mas reabriu-os em seguida, incapaz de desviar
a vista do écran de contrôle.
- - Tudo o que se tem a fazer é premir este botão - repetiu Martin, e premiu-o de novo. - Que dia... - começou ele, mas interrompeu-se e mirou a bomba de creme de
barbear como se se tratasse de um engenho diabólico. Bateu no botão com a palma da mão; assentou-o com força na borda da mesa. Bateu de novo. Por fim, declarou:
- Bem, ide comparar um tubo. Talvez tenhais mais sorte do que eu.
Lançou a bomba, através do palco, para o chefe da orquestra, que, preocupado com a introdução musical seguinte, não deu por isso. A bomba tombou com grande
ruído no palco, como se fosse um foguetão. Com o choque, a cápsula saltou, e, bruscamente, produziu-se uma irrupção de massa espumosa que borrifou de creme de barbear
todos que estavam em cena.
Menos de dez minutos depois, telefonaram de Los Angeles. Curt Sonderman recebeu a chamada no seu gabinete.
- Sim, eu sei. Trata-se de um destes acidentes imprevistos... Bem, como querem que eu saiba se ele explicou ou não o funcionamento? É o Regan quem se deve ocupar
destas coisas, não eu! Enfim, é a sua missão! Tenho bastante que fazer aqui sem... Quê? Fui eu quem o contratou, mas... Ouça, não me fale nesse tom! Demais, que
é que vocês fazem? Escrevem idiotices publicitárias todo o santo dia! Já alguma vez tentou pôr de pé uma emissão de televisão directa? Então, cale a boca! Muito
bem, pedirei explicações. Sim, telefono para aí. Depois da emissão! Ela dura até às três e meia, tenho que fazer e... Ouça, meu caro, como se chama você? Ora, não
me chateie, eu cuidarei do caso. Se é preciso pôr o Regan na rua, assim se fará. Adeus!
David sabia que ia ser despedido. Soubera-o desde que Sam Martin premira o botão. No próprio momento em que a bomba explodira, desencadeando durante uns
bons dois minutos risadas incontroláveis do público, a expensas do artigo apresentado pelo patrocinador, sumiu-se da cabina. Desceu a escada metálica até à rua e,
já no exterior do edifício, acendeu um cigarro, pensando: "Lá aconteceu uma vez mais." Começou a caminhar em direcção da Avenida Columbus, perguntando-se o que deveria
fazer: "Não quero perder este emprego. Porque será que é sempre a mim que estas coisas acontecem?"
Entrou numa confeitaria e telefonou a Gillian. Ela escutou pacientemente, sem interromper, o relato dos acontecimentos. Quando ele se calou, ela disse:
- Não percas este emprego, David.
Falara com um tom singularmente autoritário, David ficou silencioso durante uns momentos.
- Eles vão dizer que a culpa é minha.
- É do Martin. Tu cumpriste a tua obrigação.
- Mas ele é a vedeta do programa!
- Prova-lhes que a culpa foi do Sam, David.
- Mas como? Que é que eu posso...
- Não importa como. Mente, se for necessário. Faz trapaça. Rouba. Não percas o emprego... Onde te encontras tu?
- Numa confeitaria da Avenida Columbus.
- Tens de te salvar. Volta ao estúdio, David. Volta e diz-lhes o que quiseres, o que for preciso, mas de maneira convincente. E telefona-me. Esperarei a
tua chamada. Não percas o emprego.
Voltou ao edifício da Rua Seesenta e Oito, Oeste. Deteve-se diante da porta, depois entrou. Passou a língua pelos lábios e subiu ao estúdio. Tremia. O patrocinador
pagara milhares de dólares por este único minuto de demonstração e Sam Martin sabotara tudo ante a imensidade dos telespectadores. O papel de David consistia em
velar por que coisas deste género não ocorressem. Era para isso que lhe davam duzentos dólares por semana. Bom Deus, não queria perder este maná! Com os diabos,
gostava deste emprego! Devia dirigir-se ao Martin e suplicar-lhe que o tirasse de apuros? Mas, na verdade, fizera o que devia, falara desta maldita cápsula ao Martin.
Então como...?
Não importa como Mentes, se for necessário. Faz trapaça. Rouba. Não importa. Diz-lhes o que quiseres, o que for preciso, mas de maneira convincente.
O que for preciso. E a voz de Gillian traía um surdo desespero que ele jamais conhecera. De súbito, teve a impressão de que se arriscava a perder mais do
que o emprego.
Encontrou uma máquina de escrever num dos gabinetes desocupados. Fechou a porta à chave, sentou-se diante da máquina e pensou: "E se isto der resultados
contrários aos que desejo? Suponhamos que não fará senão encolerizá-lo? Mas não. Houve hoje uma tal confusão que ele não se recordará de nada. Chamará tudo a si
e arranjará as coisas com o patrocinador. Eles podem fazer um barulho dos demónios contra o cão de guarda que ganha duzentos dólares, mas não poderão levar às cordas
o Sam Martin, vedeta da emissão."
Respirou fundo e começou a escrever.

NOTA

D: David Regan
A: Sam Martin

Referência: novo produto "ABAIXO A BArBA!"
Indicações precisas da Costa advertiram que não se devia tentar fazer sair o creme antes de ser retirada a cápsula. Trata-se de uma cápsula normal, aparafusada,
que se remove fàcilmente com o polegar e o indicador. essencial mostrar isto diante da câmara antes de premir o botão do topo da bomba. Se não se retirar a cápSula,
a bomba não funcionará. É um excelente produto que merece ser posto em relevo, Sam. Assim, não importa que eu passe por impertinente e maçador; agradeço que não
se esqueça de retirar a cápsula antes de premir o botão.

Releu a nota. Amarrotou o original e pegou-lhe fogo num cinzeiro. Lançou as cinzas para um cesto de papéis, dobrou três vezes a cópia e colocou-a no bolso
interior do casaco, onde ficou com a conta da electricidade, uma carta da mãe e alguns cartões que tirou da carteira. Em seguida, após ter respirado fundo mais uma
vez, saiu do gabinete.
Curt Sonderman perguntou:
- Onde tem estado, David?
- Fui fumar um cigarro lá fora! Porquê? Que se passa?
O coração batia-lhe com violência. Esforçava-se por manter as pálpebras quase imóveis. Sentia os lábios ressequidos, mas não os humedecia.
- Que se passa?! - exclamou Sonderman. Não viu o que ocorreu com o creme de barbear? Essa maldita coisa derramou-se por toda a cena.
Calmamente, com um sorriso, David replicou:
- Ora, deixe-se de piadas.
- Se toma isto como uma piada, devia ter ouvido o telefonema de Los Angeles. Então, o que se passou?
- Não compreendo. Quer dizer que a bomba explodiu?
- Sim, a bomba... Não, verdadeiramente não explodiu. Ela apenas... Diga, porque não explicou ao Martin como aquilo funcionava?
- A maneira de premir o botão? Ora, é tão simples que uma criança...
- Não me venha com isso! Era o Martin que devia fazê-lo e não uma criança. Porque não lhe disse que era preciso retirar a cápsula?
- Retirar ...
David interrompeu-se para fitar Sonderman com um olhar céptico.
- Você está a brincar comigo - disse ele. - Falei-lhe da cápsula pelo menos meia dúzia de vezes. Você não... Eh, espere um momento! Que é que você me diz?
Ele não retirou a cápsula? É isso?
- Exactamente!
- Mas como conseguiu ele...? Curt, falei-lhe umas cinco vezes naquela cápsula durante o ensaio. Na última vez, três pessoas escutaram-nos: a costureira,
o caracterizador e um cenógrafo. Possuía ordens precisas da Costa a este respeito. Você decerto que não pensa que eu o teria deixado principiar a emissão sem o informar,
não é verdade? Não sou nenhum idiota, Curt; ao menos, preste-me essa justiça!
- Se você lhe falou no caso, porque não retirou ele a cápsula?
- Como quer que eu saiba? Viu a barafunda que por aqui reinava esta tarde? É de admirar que ele nem sequer se lembrasse do seu próprio nome? Crê que estou
a mentir? Afirma que estou a mentir?
- Não, mas...
- Curt, eu falei-lhe daquela cápsula! - afirmou David com cólera. - Repeti-lhe pelo menos... espere, espere um momento. Escrevi-lhe mesmo uma nota acerca
deste assunto. Entreguei-lha eu mesmo, mal ele chegou.
- Que nota?
- Talvez o... um minuto, talvez traga a cópia comigo.
Remexeu no bolso interior do casaco e retirou uma série de papéis, que folheou, a fim de extrair a cópia cuidadosamente dobrada da nota que dactilografara.
- Sim, ei-la - disse. - Leia-a. - ntregou a folha de papel a Sonderman.
Este leu-a em silêncio. Depois encolheu os ombros.
- Mas que diabo Que se pode exigir mais? Você cumpriu a sua obrigação; David. Mas que diabo! - Encolheu uma vez mais os ombros. - A culpa é do Sam. Ele que
resolva o barbicacho.
Sam Martin reconheceu que o ensaio fora uma barafunda dos demónios e admitiu que tudo podia ser possível. Talvez ele lhe tivesse entregado a nota, talvez
lhe tivesse lembrado meia dúzia de vezes que retirasse a cápsula. A costureira, o caracterizador e o cenógrafo declararam, sem sombra de dúvida, que ouviram David
lembrar o assunto ao Sam.
- Bom, a culpa é minha - disse Martin num tom amável. E concordou em telefonar para a Costa.
No dia seguinte fez um veemente improviso de exaltação ao creme de barbear. Contou ao seu público que uma nova invenção explodira (os), um creme que estava
tão ansioso de vos barbear que práticamente jorrava por si só do tubo.
- Eis como se deve fazer funcionar isto - disse Martin, e, com muito cuidado, desenroscou a cápsula. - Se não retirardes a cápsula, a bomba nada deixará
sair, a menos que a lancemos através do estúdio para a cabeça piolhosa de um chefe de orquestra (risos". Se desejardes lançar alguma coisa à cabeça dos músicos,
sugiro os tomates. Mas se quiserdes barbear-vos com rapidez e sentir em seguida o rosto fresco e macio, aconselho-vos o creme "Abaixo a Barba!" Ireis ver como isto
funciona. - Premiu o botão -no topo do tubo, e um jacto de massa untuosa deslizou-lhe na palma da mão. O público do estúdio rompeu em aplausos espontâneos.
- Até se comia, hem? - disse Martin, piscando os olhos para a câmara. - É um bom artigo, amigos - acrescentou num tom pleno de sinceridade. - Experimentem-no.
Talvez David se tivesse tornado adulto no dia em que dactilografou aquela nota.
Ou talvez tivesse perdido simplesmente a sua inocência.

O fogo de artifício do 4 de Julho devia começar às 21.00. De tarde foram de autocarro a Playland e passaram o dia nos carrocéis e nas barracas de
jogos. Gillian tinha apenas um pensamento na mente.
Tentava retirar prazer das diversas coisas que faziam, mas tinha apenas um pensamento na mente, e todas as vezes que procurava afastá-lo este pensamento
voltava. Rejeitava-o com violência, mas sempre lhe acudia, obstinadamente. Na sua angústia, tentou falar de outras coisas.
- Há uma festa no sábado à noite. Fomos convidados.
- Oh! - fez David. - Onde? Quem?
- John Dimitri. Recordas-te dele?
- Um tipo alto e magro, de cabelo louro? Na Rua Trinta e Seis, Este?
- Sim.
- Que género de festa?
- O costume. "Tragam bebidas, que eu forneço os discos e as batatas fritas."
- Devemos ir?
- Como queiras.
- És tu que decides - disse David.
O pensamento não a abandonava. Não o podia afastar do espírito. Enquanto esperavam o fogo de artifício, apoiaram-se no parapeito que dominava o Sound. Em
'redor deles, a multidão mantinha-se na expectativa. De pé, atrás de Gillian, David cingia-a pela cintura. Ela tinha os olhos fixos no outro lado da água, numa língua
de terra onde alguns homens se afadigavam com os preparativos do espectáculo.
- Recordas-te de Michael Scanlon? - perguntou ela
- Não, creio que não.
- Já foi há algum tempo. A Marian telefonou-me a propósito da grande-metragem que ele filmava nas Baamas.
- E então?
- Ele telefonou hoje à Marian.
- Sim?
"Este não é nem o momento nem o lugar adequado", pensou ela.
- Ele terminou o filme-piloto. A película está vendida. A NBC fá-la no Outono.
- Bom - disse David.
Ela hesitou. Houve um instante de profundo silêncio. De súbito, um foguete explodiu no céu, numa girândola azul incandescente que coloriu a água. A multidão
fez "Ahhhhhhhh!" Gillian voltou-se, entre os braços de David.
- Isto vai tornar-se cada vez mais belo - disse ele.
- David, o Michael ainda quer que eu faça aquele papel.
- Que papel?
- O da rapariga que semeia a discórdia.
- Ah, sim? magnífico, Gillian. Porque não me falaste do caso antes?
Outro foguete se elevou no céu, lançando um vermelho flamejante, depois um amarelo vivo. Ahhhhhh!", e novamente um "Ahhhhhh!" da multidão.
- Porque ele filma em Bimini.
- Bimini - repetiu David, sem dar a impressão de compreender.
Peixes de prata povoavam o céu, entrecruzavam-se no fundo escuro da noite.
- Sim.
- Bem...
David calou-se. Um foguete de um branco ofuscante rebentou por cima do Sound, iluminando o rosto do jovem. O foguete tombou na água e as feições de David
ficaram de novo banhadas pela penumbra. Gillian tentava ver-lhe os olhos.
- Bem, vais aceitar?
- Bimini é muito longe, David.
Ele fez um gesto de aprovação com a cabeça.
- Devo aceitar, David?
- Acho melhor que sejas tu a decidir.
- Não, não inteiramente.
- O papel é bom?
- Excelente.
- Quem roda o filme?
- A MGA. Uma firma muito importante. David, eles vão fazer uma série para a televisão, uma coisa bastante original. Não podia sonhar melhor ocasião para
me estrear.
- Bem, és tu quem decide, Gilly. Eh, olha para aquele!
A tripla explosão sacudiu a noite. O vermelho, o amarelo, o azul, caíam para a terra em chispas coruscantes que se iam extinguindo.
- Não, David, é a mim que cabe decidir - volveu ela num tom acerbo.
- Que se passa?
- Quero falar deste caso.
- Mas nós estamos a falar dele.
- Não aqui, com toda esta gente em redor de nós.
- Que tens?
- Não quero discutir um assunto tão pessoal diante de um milhar de pessoas que admiram o fogo de artifício.
- Que encontras de tão pessoal num filme para a televisão? Parece-me...
- David! - exclamou ela com dureza.
Ele fitou-a, leu a cólera que se lhe espelhava no rosto, sacudiu a cabeça, tomou-lhe a mão e guiou-a através da multidão. O parque de atracções estava quase
deserto. Toda a gente descera até à borda da água a fim de contemplar o fogo de artifício. A música de um carrocel enchia a noite, e atrás dele, como uma espécie
de contraponto sincopado, ouvia-se o ruido intermitente das explosões e dos suspiros prolongados dos espectadores.
- Tens desejo de partir? - perguntou David.
- Sim.
- Então, nada existe que...
- Mas tenho também vontade de ficar.
David sorriu.
- Sempre quiseste partir, e contudo desejas...
- Não acho graça alguma ao caso, David.
- Que pretendes que te diga, Gilly?
- Continuarás a trabalhar com o Curt?
- Creio que sim.
- Estás contente?
- Sim. A televisão agrada-me. Gosto do meu emprego.
- Ganhas duzentos dólares por semana, David.
- Sim, eu sei.
- preciso que seja eu a pedir-te?
- Pedir-me o quê?
Gillian suspirou.
- David, há muito tempo que esperava uma ocasião como esta. No decurso dos dois últimos anos recusei um certo número de propostas porque não me queria afastar
de ti. Pensava... Pensava que sentias necessidade de mim. Então, ficava. Mas desta vez é importante, David. Trata-se de um papel que poderá talvez conduzir-me a
qualquer coisa. Quero ser actriz, David. Tu sabes que é isto que desejo. E se há a mínima possibilidade de...
- Então aceita - disse David.
- Não, deixa-me terminar. Suplico-te. Quero ser actriz - prosseguiu ela, hesitando um pouco - mais do que tudo no mundo, ou quase. Tenho desejado desde que
me lembro. Para mim só existe uma coisa mais importante ainda, David.
- Quê?
- Tu.
- Mas tens-me.
- Não, David, não é verdade.
- Escuta, .......
- Tu, sim, tu é que me tens. Mas não tenho a certeza de que haja reciprocidade.
- Sabes que te amo.
- Sim, sei.
- Então...
- David, queres casar comigo?
Houve um profundo silêncio. Caminhavam sob a copa das árvores. Tinham deixado o carrocel longe deles. Nos bancos, ao longo da álea, raros amorosos trocavam
beijos. Por cima da água, mais uma explosão, abafada pela distância.
- É isso o que pretendes? - perguntou ele.
- Sim, e.
- Não és... tu sabes... não é porque tu..
- Não, David, não és obrigado a casar comigo.
- Compreendo.
- Mas, David, não ficarei em Nova Iorque se não nos casarmos.
- Porquê?
- Porque o decidi.
- O que eu quero não conta, então?
- David, tu tiveste tudo o que desejaste.
- Creio que me amas, Gillian.
- Oh, David, não sabes quanto.
- Então porquê estes rasgos de virgem ofendida? Pensava...
- Não estou ofendida, e Deus sabe que não sôu virgem, mas...
- Vais lançar-me isso em rosto?
- Não, David - volveu ela docemente.
- Então, não nos arrebatemos, Gillian: poderemos dizer-nos palavras que lamentaremos. De acordo? Suplico-te. - Fez uma pausa. - Sei que esta história das
Bahamas é importante. Sou capaz de compreender isso. E compreendo ainda que o caso te incita a... Mas, enfim, que necessidade existe em precipitar as coisas?
- Precipitar, David?
- Eu apenas comecei - disse ele num tom lamuriento. - Poderei perder o emprego de um dia para o outro, Gillian.
- Não o creio.
- Mas que sabes tu destas coisas, na realidade, Gillian? Há uns cem tipos prontos a anavalhar-me pelas costas.
- David, o emprego será teu enquanto o desejares. Sam Martin defendeu-te. O lugar pertence-te. Não o perderás. Se não o perdeste no dia em que o creme de
barbear...
- Bem, admitamos que não. Mas é possível que eu deseje qualquer coisa melhor. Esta ideia já te ocorreu?
- Sim. Não espero que conserves este emprego durante o resto da tua vida.
- Muito bem. Então como poderei eu casar-me agora?
- E porque não?
- Numa ocasião em que pretendo mudar de emprego?
- Mudar...? De que me estás a falar, David? Que é que uma coisa tem que ver com a outra?
- Acabas de dizer que esperavas que eu mudasse de emprego, não é verdade?
- Mas há homens casados que... David, tento não me zangar.
- Não existe motivo para te zangares.
- Bom Deus, existem centenas de razões para isso. Que queres que eu seja para ti, David? A tua mãe, a tua namorada ou a tua amante? Sim, quê?
- Não sabia que era tão penoso para ti, Gillian. Pensava...
- Não é penoso! sômente exasperante! Quero saber para o que caminhamos.
- Porquê? Crês que te vou conduzir para...
- Sou uma boa actriz, David.
- Eu sei.
- Uma actriz muito boa.
- Eu sei. Que...
- Quase me havia esquecido já, David. Quase me havia esquecido que possuía talento.
- Se queres representar...
- Quero ser tua mulher!
- Falas como se já o fosses - volveu David num tom acerbo.
- É assim que isto deve terminar?
- Nada termina.
- Em chamas e fumo?
- Oh, basta, Gillían. Fazes um grande drama de...
- Queres casar comigo?
- Supunha que era o homem quem fazia o pedido.
- Sim, é exacto - replicou Gillian.
- Que significa isso?
- Mas pedes-me?
- Sabes bem que casarei contigo.
- Quando?
- Não sei ainda. Logo que...
- Logo que...
-- Logo que saiba para onde caminho.
- E quando o saberás?
- Ignoro-o.
- E que farei eu entretanto?
- Tinha a impressão de que tudo ia....
- Não não vai. Sabe-lo agora. E sabes também que me ofereceram um papel numa série de filmes para a televisão que serão rodados em Bimini e que me manterão
longe daqui durante seis meses. Sabes tudo isto agora, David. Então, que vais fazer? Gostaria de saber exactamente o que vais fazer.
- Estarei cá quando regressares - disse ele. - Ouvindo-te falar, dir-se-ia que partes para a AMérica como missionária. Estarás apenas...
- Não, David. De lá, irei para a Costa. Há muito trabalho aí. Então, David, que me respondes?
- Nunca te ouvi falar nesse tom. Parece uma cadela consumada.
- Sim, sou uma cadela consumada, e amo-te a' tal ponto que estou pronta a esquecer tudo o que já teve algum significado para mim. Em troca não te peço senão
que me ames o bastante para fazeres de mim tua mulher. Eis que género de cadela eu sou. E vou chorar, meu...
- Gillian...
- Oh, vai-te, não, não... Vai-te, vai-te.
- Porque choras?
- Por nada. Absolutamente nada. Quero ir para casa.
- Mas eu disse que casaria contigo!
- Quando?
- Não sei.
- Isso não é o suficiente, David.
- É preciso que o seja, Gillian. Amo-te.
- Não acredito.
- Amo-te...
- Não - volveu ela, sacudindo a cabeça. - Não. Quero ir para casa. Vou aceitar o papel, David. Vou telefonar à Marian e dizer-lhe que o aceito.
- Não desejo que o faças.
- Então apresenta-me uma oferta mais vantajosa.
- O tom desta conversa desagrada-me bastante.
- Oh, lamento muito, David! Realmente, é bem triste. O tom da conversa desagrada-te! E a mim, crês que me agrada? Crês que me dá prazer lançar-me a teus
pés para te suplicar...
- Ninguém te exigiu que suplicasses...
- Ninguém me exigiu seja o que for, Nada, meu Deus, nada! Vai-te, fazes-me chorar. Porque me fazes chorar? Vai-te, suplico-te; acabou, vai. Faz o que tens
a fazer, analisa-te, tenta saber para onde caminhas, mas. sem mim, David. Não posso, não posso, não posso. Suplico-te, suplico-te, quero ir para casa, estão a observar-nos,
não me faças chorar, não desejo odiar-te.
- Gillian...
- Acabou-se.
Ela deteve-se e ergueu os olhos para ele. A sua máscara tinha escorrido para as pálpebras, descia-lhe pelo rosto.
- Não é verdade, David? Não é verdade que tudo acabou, para sempre?
- Se assim o desejas...
- Não, David. Não digas tal coisa, suplico-te. Não é honesto, David, é indigno de ti. Sabes que não é o que desejo. Quero casar-me. Quero passar junto de
ti o resto da minha vida.
- Podíamos ainda...
- Não. Não é possível. Desta maneira. Quero casar-me na igreja, com um vestido branco e um véu. Eiso que quero. Sou provàvelmente muito antiquada. Eis o
que quero. Não desejo que tudo acabe.
- Não posso casar contigo agora - disse David, num murmúrio. - Não posso, Gillian.
- Sim, então terminou tudo.
- Também o creio.
- Sim, é o que penso, David.
- Fitaram-se, estupefactos.

Amanda sentia--se sômente tonta.
Não tivera vontade de vir tão cedo para a maternidade, pois estava certa de que as dores não eram muito violentas. Receava que a mandassem para casa, dizendo-lhe
que voltasse na manhã seguinte. De pé, diante do gabinete de admissão, embaraçada porque todos sabiam qual era o motivo da sua presença ali, com o ventre deformado
que lhe servia de cartaz publicitário, respondia em voz baixa às perguntas da enfermeira.
- Nome?
- Amanda Bridges.
Matthew achava-se ao lado dela. Pusera a gravata de tal modo que a extremidade visível era bastante maior que a ponta encoberta. Um dos botões da camisa
estava fora da respectiva casa.
- A morada, Sra. Bridges?
- 1412 Congress. Em Talmadge.
- Não pode proceder ao registo mais tarde, menina? - perguntou Matthew com impaciência. - Está quase para ter o bebé, como sabe.
- Sim, eu sei, senhor - respondeu a enfermeira, sorrindo. - Quer indicar-me a data do seu nascimento, Sra. Bridges?
- Oh, por amor de Deus... - murmurou Matthew.
- 11 de Maio de 1923 - disse Amanda.
- O nome do seu médico?
- Dr. Kohnblatt.
- Quer sentar-se, Sra. Bridges? Vou telefonar lá para cima, para enviarem uma cadeira.
- Uma quê?
- Uma cadeira rolante - volveu a enfermeira com novo sorriso.
- Mas não tenho necessidade de cadeira alguma. Posso bem deslocar-me pelo meu próprio pé.
- Bem, de uma maneira ou de outra, fará um pequeno passeio, está bem?
- Não desejo dar um pequeno passeio.
- Vamos, Amanda, vamos - disse Matthew.
Tomou-a pelo cotovelo e conduziu-a através do vestíbulo bem encerado até ao banco que se achava defronte do gabinete de admissão.
- Como te sentes?
- Muito bem. Que necessidade tenho eu de uma cadeira rolante?
- Escuta, Amanda, suponho que eles sabem o que fazem.
- Oh, mas como puseste a gravata!...
- Como te sentes?
- Muito bem.
- As dores?
- Não me incomodam. Disse-te que não valia a pena virmos imediatamente.
- O Dr. Kohnblatt comunicou-me que te devia conduzir sem demora ao hospital. Estas são as suas palavras exactas, Amanda. "- Conduza-a sem de..."
- Oh, eu sei. Já mo disseste.
- Como te sentes?
- Tonta. Acho que esta experiencia é humilhante. As mulheres deviam ter os filhos no campo, onde ninguém as visse.
- Escuta, Amanda, farás tudo, compreendes? Prestarás atenção às instruções que te derem e cumpri-las-ás.
- Não estejas pertur'bado.
- Não o estou.
- Abotoa o colarinho.
- O mais importante é fazeres força... - disse Matthew, abotoando o colarinho da camisa. - Li isto algures.
- Bem, farei força - volveu Amanda, sorrindo.
- Não sei que achas de tão divertido numa coisa destas, Amanda. Na verdade, não vejo...
- Matthew, falas como um velho...
- Então, como vais? Sentes-te bem?
- Óptima.
-As dores?
- Suportáveis - respondeu Amanda, sorrindo uma vez mais.
- Eis a tua cadeira rolante.
- Não quero subir para aquilo.
- Amanda, faz o que te dizem.
- A Sra. Bridges? - perguntou uma enfermeira.
- Sim, é a Sra. Bridges - respondeu Matthew.
- Quer sentar-se nesta cadeira?
- Não.
A enfermeira sorriu.
- É do regulamento.
- Vamos, Amanda
Com uma careta, Amanda sentou-se.
- Eles provâvelmente não tardarão a mandar-me para casa.
- Posso acompanhá-la? - perguntou Matthew.
- Chamá-lo-emos logo que ela esteja instalada, senhor.
- Para onde a conduz?
- Para o sexto andar, senhor.
- Ah, bom. Não se esqueça de me chamar, sim?!"
- Não, senhor.
- Muito bem. Ver-nos-emos dentro de momentos, Amanda.
- Sim, Matthew.
- Como te sentes?
- Óptima, Matthew.
- Esta mala é da senhora?
- Perdão...
- Esta mala. É...?
- Ah... Sim. Sim.
- Levá-la-ei.
- Oh, decerto.
Ele estendeu a mala à enfermeira.
- Agora descontraia-se, Sra. Bridges - disse a enfermeira, fazendo rodar a cadeira em direcção do ascensor.
No ascensor, Amanda declarou:
- As dores não são muito frequentes.
- Bem, é inútil apressarmo-nos - volveu a enfermeira.
A porta do ascensor abriu-se.
- Ora, cá estamos. Atravessemos o corredor.
Fez entrar Amanda num quarto que continha apenas um leito e uma mesinha de cabeceira.
- Queira despir-se, por favor - disse a enfermeira. - Vou buscar uma camisa de noite.
- Trouxe a minha.
- Sim, mas as do hospital são diferentes. Têm uma espécie de abertura ao lado... É do regulamento - acrescentou ela, sorrindo. - Trouxe chinelas?
- Sim.
- Pode calçá-las. E um roupão?
- Sim.
- Muito bem, não demoro.
Amanda despiu-se em silêncio. A enfermeira parecia tão jovem!... Perguntou-se de súbito se já tivera um filho. Quando ela voltou, formulou-lhe esta pergunta.
- Não - respondeu a enfermeira. - Nunca... O Dr. Kohnblatt telefonou para dizer que vinha a caminho. Eis a camisa. Gostaria de ver agora o seu marido?
- Sim.
- Vou telefonar lá para baixo.
Do corredor, chegou-lhe um gemido. Amanda voltou-se vivamente para a porta.
- Que é aquilo?
- Nada. Não se inquiete.
- Não, não, que é aquilo?
- Uma mulher na sala de trabalho.
- Meu Deus! - murmurou Amanda.
A enfermeira sorriu. Ouviu-se gemer uma vez mais.
- Ela sofre bastante - esclareceu.
- Não pode fechar a porta, fazer qualquer coisa?
- Quer que feche a porta?
- Sim, por favor.
Novo gemido.
- Mas que lhe estão a fazer?
- Tem um parto um pouco difícil, eis tudo - disse a enfermeira.
Saiu, fechando a porta atrás de si. Uma vez mais, o gemido elevou-se no corredor, embora um pouco abafado. Era um queixume aninal, primitivo, doloroso. "Pergunto-me
se vou gritar", pensou Amanda. "Por agora, nada sinto. Oh, sim, alguns estremecimentos, mas leves. As mulheres dizem que isto faz o mesmo efeito que a aerofagia,
mas creio que nunca tive aerofagia na minha vida. Oh, meu Deus, como ela grita! Dir-se-á que lhe estão a arrancar todos os dentes."
A porta abriu-se bruscamente. Uma enfermeira de meia-idade, de olhar firme e sorriso exuberante, entrou no quarto.
- Olá, mamã... - disse ela. Amanda pestanejou. - Sou a Sra. Ogilvy, enfermeira da sala de partos. É a cliente do Dr. Kohnblatt?
- Sim.
- Ele telefonou a dizer que não demorava um momento. Como se sente?
- Bem. Não se pode fazer nada por aquela pobre mulher que sofre?
- Oh, ela está óptima - respondeu com alegria a Sra. Ogilvy. - Necessita de alguma coisa?
- Sim, de um táxi - replicou Amanda, rolando os olhos.
A Sra. Ogilvy sorriu.
- Tudo estará terminado antes de se dar conta desse facto. A senhora é uma mulher vigorosa, cheia de saúde.
- Obrigada - volveu Amanda. - Ai!
- Uma pequena dor?
- Sim. Um pouco... mais forte que as outras.
- Já perdeu as águas?
- Não.
- Bom, não se deixe assustar quando chegar esse momento.
- Não tenho medo.
- Decerto que não. A senhora é uma mamã corajosa - disse a enfermeira antes de desaparecer.
Depois de ela partir, Amanda fez uma careta. "Bem, onde está o Matthew?", perguntou-se. "A enfermeira disse que ia telefonar, para ele subir, e não há senão
seis andares! Ora, que..."
O gemido ouviu-se uma vez mais.
"Oh, pobre criatura", pensou Amanda. "Porque não lhe dão qualquer coisa que a adormeça?"
- Amanda?
Ele trazia um olhar preocupado quando entrou no quarto. De súbito, ela experimentou pelo marido um sentimento protector que lhe pareceu bastante estranho.
Era ela que ia ter o bebé, mas tinha a impressão de que era o marido que necessitava de ser protegido. O absurdo desta ideia quase a fez rir.
- Devemos começar a contar os intervalos entre as dores? - perguntou ele.
- Não, creio que ainda temos tempo.
- Minha querida, se te sentes mal, não o escondas.
- Não, Matthew.
- Tudo estará terminado antes de te dares conta do facto - disse ele a sorrir.
- Mas foi isso que me disse a Sra. Ogilvy.
- Decerto... Quem é a Sra. Ogilvy?
- A enfermeira da sala de partos.
Matthew sacudiu a cabeça.
- Alguém gritava, lá fora.
- Sim, também ouvi.
- Deviam possuir quartos à prova de som.
- Não tem a menor importância - mentiu ela. A Sra. Ogilvy fez nova aparição. Ignorou totalmente Matthew.
- Está pronta, mamã? - perguntou ela.
- Pronta para quê?
- Para vir comigo, sim, minha querida.
- Onde a vai conduzir? - inquiriu Matthew.
- Sra. Bridges, não se inquiete.
- Espero aqui?
- Sim, se preferir - volveu a Sra. Ogilvy sorrindo. - Pode admirar uma linda vista desta janela.
Amanda seguiu-a no corredor. Entraram numa pequena sala mobilada com uma mesa e um lavatório.
- Quer estender-se nesta mesa, mamã?
Amanda obedeceu em silêncio. Sentiu-se de súbito embaraçada.
- Bem, vamos em primeiro lugar prepará-la, e, em seguida, poderá lavar-se, sim, mamã?
Amanda não respondeu. A Sra. Ogilvy aproximou-se da mesa com uma tigela com sabão e uma gillette.
- Levante a camisa, sim, minha querida?
Amanda fez o que lhe fora pedido, em silêncio, convencida de que corara. Sentia o fio da lâmina e, uma vez por outra, uma dor aguda que lhe percorria o ventre.
"Não será penoso", pensou. "Não gritarei."

Tinham mandado Matthew para o rés-do-chão e dado a Amanda uma injecção, mas esta não impediu que ela sofresse. A dor era constante, um fluxo e refluxo regulares.
Os momentos de quietude relativa eram curtos e a dor rolava imediatamente, subia a uma crista aguda para tombar pouco depois num fundo tranquilo, por alguns segundos
apenas, e subir de novo convulsiva, até ao extremo. O seu corpo parecia mover-se por si mesmo; a sua vontade consciente não tinha poder algum sobre a dor; os próprios
gritos que lhe saíam da garganta e ela reconhecia como seus, alimentados pelos seus pulmões, desferidos pelo seu fôlego, emitidos pelos seus lábios, pela sua língua,
estes mesmos gritos, pareciam ligados à parte do corpo que ficava abaixo da cintura. O abdómen, a vagina, os pulmões, a garganta, tudo era manipulado por qualquer
coisa que lhe era exterior e, contudo, em relações estreitas com o seu corpo. Por vezes, a dor subia do baixo ventre até a um ponto sob o umbigo onde o queimar da
dor era intolerável. Então, o grito brotava impetuoso dos seus lábios. "- Chiu", dizia a jovem enfermeira. Amanda ripostava: " Nunca teve um filho!", antes de desferir
novo grito. Não se sentia já tonta, nem embaraçada, não tinha já a impressão de se encontrar entre as mãos de impiedosos algozes. Aceitava a dor como uma parte integrante
deste acto que vivia, deste processo, desta semi-inconsciência, que até ao presente não fora senão dor e suor, que a despojava de todo o pudor, de toda a sedução,
que lhe retirava de certo modo esta esterilidade em conserva do Sé culo XX, este processo que era inteiramente animal, e, todavia, mais do que isso, mais que animal.
Porque não se sentia uma besta, apesar dos gritos e dos queixumes. Torcia-se e injuriou uma vez o médico, que era apenas uma voz a seu lado, duas mãos doces que
mantinham as suas. Fazia pressão sobre as mãos com o vigor de que era capaz todas as vezes que a dor voltava. Não conseguia recordar-se agora do rosto do Dr. Kohnblatt,
ouvia-lhe sõmente a voz, perto de si. Não pensara mais em Matthew após a entrada na sala de partos, como não pensara na mãe, na irmã, em Kate, nem mesmo no bebé
que ia dar à luz.
O facto de dar à luz uma criança, de expulsar este pequeno corpo para fora do seu, estava de certo modo dissociado da ideia do nascimento. Embora todas as
pessoas que se encontravam naquela sala de partos - o médico, o anestesista, as enfermeiras, a própria Amanda - se tivessem reunido para dar ao mundo uma -nova vida,
não possuíam, todas, senão um único cuidado: o trabalho, o penoso trabalho de fazer nascer uma criança, e o próprio acto nada tinha que ver com o conceito. As lâmpadas,
por cima da mesa, feriam os olhos de Amanda. Colocavam-lhe e retiravam-lhe alternadamente a máscara, de modo que ela se achava sempre num estado de quase inconsciência.
Através da bruma espessa que lhe invadia o cérebro, ouvia o Dr. Kohnblatt dizer: "-Faça força agora, Amanda", e ela assim procedia, o mais que podia. Tinha medo
que tudo saísse. Ele parecia ler em Amanda e dizia: "- Não se inquiete, faça força!-" E ela tentava uma vez mais. A máscara descia-lhe sobre o rosto e ela sentia-se
tomada por uma vertigem. "- Faça força!" A consciência voltava e a jovem contraía as entranhas, a vagina, e sentia qualquer coisa. Qualquer coisa que se mexia. De
súbito, punha-se tensa. "- Escalpelo." Fazia de novo força. "- Não, Amanda, espere... Aí, um pouco, enfermeira. "Ela não tem necessidade de mais. Tudo corre bem,
Amanda. Faça força agora." Sentia o bebé descer. Sentia-o em si. Era preciso que ele saisse, uma coisa que tinham de realizar os dois. Fazia força e sentia a criança
mexer-se. "- Bom, Amanda." Ela fazia força mais uma vez. "- Oh, bom Deus", disse ela, "bom Deus, bom Deus !" Ouvia o Dr. Kohnblatt rir, e quase lhe perguntou: "-
Que é que o faz rir? Quer ocupar o meu lugar?" Mas Kohnblatt afirmou: "- Você é magnífica, Amanda. Está próximo. Faça força, o mais que puder, vamos. Vamos, Amanda,
vamos." Ela respirou fundo, cerrou os dentes. O suor descia-lhe pelo rosto. A criança estava sôlidamente apertada. Ela fez um novo esforço, contraiu os músculos,
fez força... e de súbito, de súbito, de súbito!, sentiu o choque de uma alegria desconhecida: a criança saía de dentro dela. Começou a tremer, a criança deslizava-lhe
do corpo, uma vaga de emoção invadia-a, deflagrava-lhe no cérebro.
- Já? - perguntou com uma voz impaciente.
- Sim, já, já, Amanda!
E sentiu-se plena de alegria e de orgulho, mergulhada num transporte de êxtase, um júbilo que ainda não conhecera na sua vida.
A máscara desceu no seu rosto, e ela aspirou a plenos pulmões, com um largo sorriso "Já está!", murmurou, e ouviu o choro da criança.
Quando reabriu os olhos, tinha o bebé no peito, as pernas alongadas sobre o ventre. Não fez um movimento para o tocar. Baixou a vista para ele e mirou-o
tranquila, reconhecida, e tornou a fechar os olhos.
- É um belo rapaz - disse o Dr. Kohnblatt.

LIVRO III

Júlia

O carro que Júlia Regan comprou em 1952 era um Alfa Romeo. A sua aparição nas ruas e nas estradas de Talmadge, Connecticut, não deixou de originar fartos
comentários. A cidade, ou, para melhor dizer, a nação, não havia ainda sucumbido ao exótico canto da sereia do automóvel estrangeiro. Muita gente se sentira fascinada
pelo encanto miniatural de certos carros de importação e chegara mesmo, por capricho, a comprar algumas viaturas que pareciam aliar a novidade à economia, mas o
capricho não constituía ainda uma tendência geral, a fascinação não chegara ainda à loucura. O carro que Júlia comprou encheu de espanto os seus concidadãos: era
o primeiro deste género que se via em Talmadge e surgiu em todo o resplendor da sua elegância negra e reluzente, com estofos de couro vermelho, pneus brancos e uma
frente composta de vários faróis e farolins e de uma grade de radiador que dav a impressão de um sorriso de desdém. Júlia Regan tinha 48 anos, e o lado puritano
profundamente enraizado dos cidadãos de Talmadge revoltou-se ante a ideia de a ver conduzir um automóvel tão deslumbrante.
Ao mesmo tempo, tiveram de reconhecer que a beleza de Júlia resistira miraculosamente às inclemências do tempo e que ela acrescentava de certo modo uma graça
nova às linhas correctas, à aparência elegante do automóvel. Decerto que a sua cintura se tornara mais cheia, que a epiderme do pescoço e da garganta não era tão
lisa como noutros tempos, que os cabelos castanhos penteados em carrapito sobre a nuca mostravam aqui e ali alguns fios prateados. No entanto, Júlia arranjava-se
de modo a evitar o abismo anónimo da idade madura. Dir-se-ia que envelhecia com graça, se se afirmasse alguma vez que envelhecia; mas Júlia parecia ter encontrado
uma espécie de plataforma estável, algures entre a maturidade e a velhice, e aí se apoiava sem esforço e sem alteração. Todos estavam convencidos de que Júlia não
conhecera os anos intermédios, a subtil evolução do Verão para o Outono e para o Inverno. Continuou-se por longo tempo a vê-la jovem, enérgica e bela. Contudo, certo
dia, ao erguer-se os olhos para Júlia, verificar-se-ia que ela envelhecera. Tornar-se-ia velha de um golpe. Entretanto, miravam-na com uma espécie de respeito escandalizado,
deplorando a compra do carro de desporto de alta fantasia, mas, ao mesmo tempo admirando a liberdade de espírito que a impelira a fazer esta compra; e regozij avam-se.
Aos 48 anos, Júlia ainda caminhava com grácil feminilidade. A voz tornara-se-lhe um pouco mais grave; falava rara e docemente, os grandes olhos castanhos
acentuando cada palavra. O seu corpo possuía o desabrochar fortuito e decorativo de uma donzela, nem tão-pouco o edifício meticulosamente construido de uma matrona;
era um corpo de mulher que se defendia contra a tendência para a obesidade, comum na idade madura. Júlia possuía uma certa dureza de aço, uma rigidez, uma decisão
no andar, no porte da cabeça e do queixo, que a protegiam da familiaridade e a cercavam de uma atmosfera de reserva. Mas este aspecto era o mais profundo da sua
personalidade. A aparência exterior era doce, plena de curvas suaves. Sem ter o ar de uma jovem, não parecia, contudo, uma destas matronas ridículas e patéticas
que procuram desesperadamente, no fundo dos boiões de creme, a sua beleza perdida e envolvem os corpos decrépitos em ouropéis de juventude. Júlia Regan tinha ainda
belas pernas, um peito firme, caminhava com uma vaga inconsciência sugestiva e, como sempre, parecia ainda apetecível, talvez acessível - quem sabe? , mas em todo
o caso absolutamente respeitável. Os homens de Talmadge, ao observá-la, perguntavam-se qual era o segredo da sua juventude e quedavam-se perplexos perante este anacronismo.
Ela conduzia o carro de desporto italiano pelas estradas da cidade com um desdém exasperante, mas sedutor, pelas opiniões dos outros. E embora o seu carrapito estivesse
bem fixado à nuca, jurar-se-ia que a sua cabeleira voava ao vento, sobre os ombros.
Aos olhos dos habitantes de Talmadge, Júlia Regan possuía apenas dois interesses na vida: o filho David e os bens que herdara do marido, Arthur. O filho
vivia em Nova Iorque e, segundo o que constava, seguia uma brilhante carreira na televisão. Sabia-se sempre quando ele vinha passar o fim-de-semana a Talmadge, pois
Júlia mostrava-se mais afável com todos pouco antes da sua chegada. O filho não prestava muita atenção aos habitantes da cidade, embora tivesse crescido com a maior
parte dos jovens; porém, aceitava-se esta reserva como uma característica dos Regans. Demais, com as propriedades que possuíam em Talmadge, nem Júlia nem David tinham
necessidade de se mostrar cordiais caso não o desejassem.
Júlia herdara 200 acres da melhor terra após a morte do marido. Segundo todas as perspetivas, David seria, por seu turno, o herdeiro de todos estes bens,
e, numa cidade tão obsidiada pelo valor da terra como Talmadge, isto era uma coisa que não se devia menosprezar. Nas reuniões do conselho municipal ouviam-se constantemente
dois gritos: "Afastem-se os lotadores!" e "Faça-se cessar a extracção de areia e cascalho!". Estes gritos de alarme estavam de perfeito acordo com os anseios dos
cidadãos. Talmadge fora inventada por eruditos que procuravam uma torre de marfim e descoberta pelos confeiteiros da Avenida Madison. A propriedade mais vasta era,
decerto, a da Universidade, e este centro de erudição superior não se achava de modo algum interssado em se ver de súbito cercado por grande número de fábricas expelindo
fumarada. A fábrica de armamento, situada no extremo limite da cidade, já era o suficiente para ferir os olhares, e os emigrantes nova-iorquinos tinham tanto de
que se queixar como os eruditos. Por felicidade, ela encontra-se bastante perto da cidade vizinha de Rattigan, pelo que se podia considerá-la fisicamente divorciada
de Talmadge. Contudo, era o bastante para lembrar o que poderia acontecer à cidade, e os limites à construção, em que a Universidade insistia, aplicavam-se sobretudo
à indústria, tanto pesada como ligeira.
A posição da Universidade era reforçada pela atitude dos Nova-Iorquinos. O que todos apreciavam quanto a Talmadge era o seu carácter rural, os seus bosques,
a sua paisagem de sonho. Toda a indústria que se introduzia na cidade necessitava de facilidades de habitação para os operários que para cá vinham trabalhar. Os
Nova-Iorquinos estavam convencidos de que, a partir do instante em que a cidade autorizasse a instalação de uma fábrica, os lotistas chegariam pressurosamente com
planos de construção de ruas inteiras de casas semelhantes. Não, senhor, o povo de Talmadge não tinha o mínimo desejo de ver o seu sonho materializado com tanto
cuidado - transformar-se num pavoroso lotamento do género do de Long Island. A regulamentação em vigor interdizia a construção de toda a habitação particular com
menos de 3 acres de terreno, e em 1952 o terreno vendia-se em Talmadge correntemente, a três mil dólares por acre. Isto significava 'que um homem devia dispor de
nove mil dólares antes mesmo de proceder às fundações, e eram raros - mesmo nesta era de prosperidade do pós-guerra - aqueles que podiam lançar tais somas aos quatro
ventos. Com as regulamentações contra a indústria e aquelas que apenas permitiam aos ricos ou aos quase ricos construir, Talmadge parecia bastante bem protegida
contra a invasão.
Os cidadãos de Talmadge calculavam que, com os seus 200 acres, Júlia Regan se encontrava numa excelente posição financeira. Segundo o que se dizia, o pai
de Arthur Regan pagara o terreno provàvelmente a cinquenta dólares por acre quando o comprara, em 1904. Existiam fortes possibilidades de que o preço continuasse
a subir e imaginavam o dia, talvez não muito remoto, em que o acre de terreno em redor da cidade valesse de quatro a seis mil dólares. Uma simples operação aritmética
provava que, se Júlia decidisse de um dia para o outro vender tudo o que possuía, obteria seiscentos mil dólares, números redondos, e seiscentos mil dólares constituíam,
a seu ver, mais de meio milhão, uma quantia que não era farelo. Imaginaram igualmente o dia, inevitável, em que os lotadores invadiriam por fim Ta'n'adge, com ou
sem indústria. A maior parte dos terrenos das cercanias de Nova Iorque cedera já aos bullozers, e Talmadge possuía a vantagem extra de se achar a meio caminho entre
Nova Iorque e New Haven. Com um pequeno esforço de imaginação podia-se considerá-la um subúrbio distante de uma e de outra. Se os lotadores obtivessem por fim autorização
para trazerem os seus planos para Talmadge, quem poderia prever que preço atingiria o terreno de construção? Júlia, calculavam os seus concidadãos, fazia bem em
esperar, com os seus 200 acres; era uma decisão astuciosa. Ela talvez se encontrasse morta e enterrada muito antes que Talmadge admitisse a invasão dos lotistas,
mas, fosse qual fosse o lado de que soprasse o vento, o filho David conseguiria um belo lucro.
A admiração que votavam ao sentido prático de Júlia era ainda reforçada por outro facto: o administrador que escolhera. Elliot Tulley seria talvez o homem
de leis mais subtil de Talmadge; fora ele quem defendera a causa da fábrica de armas contra a Universidade, que acusava aquela de ter violado os regulamentos referentes
à zona reservada a um estabelecimento de ensino - e ganhara a causa. Tulley era franco quanto às regulamentações sobre a construção e declarava a quem o queria ouvir
que "não se pode deter o progresso, mesmo por intermédio da legislação". Tinha a reputação de ser um velho arengador rezinga, e a maioria das pessoas pensavam que
as visitas periódicas que Júlia efectuava ao gabinete do jurista se relacionavam com os terrenos que possuía em Talmadge. Conhecendo-se a posição de Tulley quanto
às restrições sobre a construção, sabendo-se que já defendera com êxito uma pretensa violação destas restrições, ligavam-se estes elementos com a atitude reservada
de Júlia para com Talmadge e supunha-se que ela não dedicava amor algum à cidade e às suas aspirações rurais e deduzia-se automàticamente que Tulley e Júlia estavam
a divisar um projecto que permitisse que as turbas estranhas invadissem Talmadge em hordas inimagináveis. 200 acres sempre eram 200 acres, e uma viúva que vivia
só não tinha decerto necessidade de outra coisa que da velha casa em que residia e de mais 4 ou 5 acres de jardim para se passear. Então, porque se apegava ela a
este terreno, senão na esperança de um lucro mais considerável? Porque ia ela visitar o velho Tulley ao seu antro uma vez por mês, regularmente?
Uma vez por mês o roadster negro parava diante do escritório de Tulley: a porta do lado esquerdo abria-se, Júlia saía graciosamente e fechava a porta atrás
de si. Com o seu passo decidido, dirigia-se para a escada que condúzia ao gabinete do primeiro andar. Enquanto subia os degraus, a saia alteava-se um pouco, revelando
a barriga das pernas, bem to'rneadas, acima dos finos tornozelos. O diabo se esta mulher teria alguma vez a sina de envelhecer! Meia hora mais tarde, ela descia,
entrava no carro e partia.
Os habitantes de Talmadge sabiam o que ela discutia naquelas visitas mensais. Viam-na, com Tulley, debruçados sobre um plano cadastral, contando e recontando
os 200 acres, dividindo-os e subdividindo-os em lotes e rindo prazenteiros ante o pensamento de enormes lucros.
Mas o que na verdade os habitantes da cidade ignoravam era que Júlia vivia quase exclusivamente no passado. Sabiam que ela tivera outrora 85 anos e que fora
à Europa com a irmã, Millicent. Sabiam que visitara a França, a Suíça e a Itália. Não sabiam que, dia após dia, Júlia vivia e revivia uma época, que, para ela, começara
em Agosto de 1938.

Mille e Júlia comiam truta com amêndoas em Interlaken.
Estavam instaladas lá fora. A noite estava deliciosamente fresca. Mille pusera sobre os ombros um xaile tecido à mão que comprara numa das lojas locais.
Júlia trazia um sweater de lá sobre a blusa e os seus longos cabelos castanhos cobriam-lhe as espáduas. A Jungfrau dominava a cidade. Onde quer que se fosse, podia
ver-se a montanha ao longe, pristina e imaculada, elevando-se no espaço. Mirando-a, Júlia compreendeu porque empreendiam os homens a sua ascensão. Os cursos de água
de Interlaken eram de um verde incrível, translúcidos, como se um pintor tivesse misturado as cores na sua paleta para as deixar em seguida fluir livremente. Uma
pessoa tinha a impressão de se encontrar numa cidade bem fechada, protegida. Sentadas defronte do hotel sonolento, as duas mulheres comiam trutas, apanhadas naquele
mesmo dia nas torrentes da montanha, castanhas e crespas no exterior, e que se desfaziam em flocos brancos no garfo e se moíam na boca. Dois oficiais alemães achavam-se
instalados a uma mesa por trás delas. Conversavam em murmúrios guturais entrecortados de risos. Júlia estava convencida de que eles falavam dela e de Mille, mas
comia o peixe e bebia a cerveja sem parecer incomodar-se com esse facto. Perguntou em seguida ao criado se podia guardar a garrafa castanha para a enviar como recordação
ao filho.
Falavam sobretudo da excursão que iam fazer através dos Alpes a fim de chegarem à Itália. Fora Mille quem tivera a ideia de alugar um automóvel em Paris.
Júlia opusera-se com obstinação. A irmã fizera esta viagem a conselho do médico e Júlia decidira que fossem de avião até Roma, onde tomariam o comboio para Áquila.
Aí, Mille encontraria o sol e o ar da montanha que lhe eram necessários.
- É provàvelmente a única vez na minha vida que virei à Europa - dissera Mille. - Não permitirei que me embales, como uma inválida, para atravessar o continente
num furgão de bagagens.
- Mas essa não é a questão, Mille.
- A questão é que estamos aqui, que sou ainda viva, graças a Deus, e que me agradará bastante ver um pouco da França, da Suiça e da Itália antes de me fixar
num terraço ensolarado. Nós iremos até à Itália de automóvel, Júlia. Eis o que faremos.
Júlia abandonara a discussão. Mille era mais velha, e, mesmo na infância, jamais conseguira ter a última palavra com ela. Demais, aprendera que as solteironas
eram mais cabeçudas que qualquer outra criatura de Deus, e a irmã não constituía excepção à regra. Mesmo que Mille tombasse morta durante a viagem para a Itália,
a morte ser-lhe-ia doce se resultasse de uma decisão tomada com toda a independência. Júlia renunciara assim a tentar convencê-la. Passaram quatro dias em Paris,
alugaram um automóvel numa agência e arrumaram a questão.
Agora, sentadas no silêncio do Verão, no terraço de um restaurante, na sombra fresca da montanha virgem, Mille começava a mostrar alguns receios acerca da
viagem.
- Compreendes - disse ela -, trata-se dos Alpes. Não são os Catskills, Júlia. Sempre senti vertigens nos lugares altos, e não existe nada mais alto do que
os Alpes, não é verdade? Ouvi dizer que as estradas são más, por vezes resvaladiças, perigosas. Supõe que nos iremos matar nos Alpes? Para mim, pouca importância
tem, mas para ti, com um marido e um filho ainda pequeno, lá em Connecticut? Faríamos talvez melhor em não seguir de automóvel. É possível que haja outro meio.
O maitre que não pudera deixar de ouvir a conversa, afirmou-lhes que as estradas suíças eram as melhores do mundo. Entrou no hotel, para voltar um instante
depois com o porteiro. Este apoiou o maitre na sua alta opinião sobre o talento dos engenheiros suíços. O porteiro era francês, e proclamava-o; não era, portanto,
o patriotismo que o fazia falar. Por esta altura, OS dois oficiais alemães - um coronel e um tenente - julgaram ser seu dever intervir na discussão, a fim de tranquilizarem
as duas turistas. Enquanto Júlia e Mille os escutavam, aturdidas e fascinadas, os quatro homens começaram a discutir sobre o melhor itinerário até Domodossola.
- Qual de vós duas conduzirá? - perguntou o coronel alemão.
- Eu - respondeu Júlia.
- Muito bem, Fraulein. O percurso não é perigoso. Os desfiladeiros são muito bons. Donde vindes?
- De Lausana.
- Ah, então já conduzistes nestas montanhas, e nada existe entre esta região e a Itália que vos possa atemorizar.
- Quantos desfiladeiros encontraremos?
- Dois. O de Grimsel e o de Simplon. Nem um nem outro vos causarão qualquer contratempo.
- Creio que deveríamos pôr o automóvel no comboio - interveio Mille. - Penso que o poderemos fazer.
- Decerto, Fraulein, mas a estação mais próxima é Kandersteg, e para aí chegar sereis obrigadas a conduzir por estradas de montanha bastante más.
Faríeis bem em atravessar o desfiladeiro de Grimsel e descer em seguida o vale até Brig. Aí, se não vos sentirdes com forças para afrontar o Simplou, podereis pôr
o carro no comboio.
- Sim, é uma bela ideia - disse o porteiro. É o que devereis fazer. Agora, marcar-vos-ei o itinerário.
- Mas estas senhoras receiam conduzir - afirmou o tenente.
- Não, não tenho receio - volveu Júlia.
- Era muito melhor que se dirigissem a Kandersteg - insistiu o tenente.
- Ora, não há nada de que ter medo - redarguiu o coronel, e Mille fez-se um pouco mais pequena ao escutar o tom de comando do oficial.
- Saireis directamente de Interlaken - prosseguiu o coronel - e atravessareis o desfiladeiro de Grimsel. um passeio magnífico. Encontrareis cabras. As vistas
são encantadoras.
- Sim - disse o porteiro. - E descereis então até ao vale do Ródano. É muito belo, muito belo.
- Soberbo - confirmou o coronel.
- E chegareis a Brig - interveio o maitre.
Aí metereis o carro no comboio e entrareis na Itália.
- Sim, é a melhor solução - aprovou o porteiro.
- Adquiri bilhetes de primeira classe, não vos esqueçais - disse por sua vez o tenente. - No comboio. Não vos esqueçais de adquirir bilhetes de primeira
classe.
- Anotai este pormenor. Na margem do mapa - alvitrou o coronel. - Bilhetes de primeira classe.
Não o deveis esquecer.
- Vou escrevê-lo - disse o porteiro. - Vou fixar o itinerário. Estou certo de que vos agradará. Qual é a marca do carro?
- Sinwa - informou Júlia.
- É bom, na montanha. Não encontrareis contratempos.
- Parti de manhã cedo - aconselhou o coronel.
- A excursão é muito agradável. Estais de acordo, não é verdade?
- Suponho que sim - declarou Mille.
- Muito bem. Bonne voyage.
Uniu os calcanhares, bateu no ombro do camarada e voltaram à mesa que ocupavam.
Na manhã seguinte, despertaram cedo. Tomaram o pequeno almoço na varanda que dava para a rua principal da cidade. Ao longe, a montanha estava envolta na
bruma. Uma vez por outra, uma antiga carriola passava, chiando, mas as ruas achavam-se quase desertas. Um homem que trazia um feixe de lenha aos ombros ergueu a
cabeça à passagem, fez-lhes um rápido sinal com a mão e prosseguiu no seu caminho, as botas ressoando na calçada vazia. Meteram gasolina no automóvel e tomaram a
direcção das montanhas, rumo a Brienz, a primeira grande cidade assinalada no mapa. Mille insistiu em encher de água uma garrafa.
- É sempre o radiador que causa todos os contratempos - disse ela. - O radiador aquece muito.
Para Júlia, que guiava e via cidade após cidade ficarem para trás, a montanha representava uma espécie de desafio. Não seria capaz de explicar isto com clareza
a Mille, mas, a seus olhos, o facto de meterem o automóvel no comboio e de o fazerem transportar assim até à Itália teria sido terrivelmente indigno de uma mulher
- e para Júlia havia uma diferença. Sentia medo. Mentira a si mesma ao pretender que a estrada estreita, abrupta, tortuosa, não lhe inspirava temor. A estrada fora
cortada no próprio flanco da montanha e Júlia não conseguia compreender o princípio que presidira à sua construção: pensara sempre que uma estrada contornava constantemente
uma montanha até se atingir o cume, mas esta subia-a de um só lado numa sucessão de ziguezagues. Depressa se deu conta de que todas as vezes que completava uma fase
do percurso o carro se encontrava do lado oposto da estrada, embora a ascensão consistisse em passar continuamente do lado que se estendia ao longo da própria
montanha para aquele que costeava apenas o vazio.
Sentia-se bastante mais segura nos trechos que a conduziam ao longo da montanha, mas a orla a pique aterrava-a. A estrada parecia suspensa no espaço. Nada
a separava da névoa excepto uma pequena série de marcos regularmente espaçados. Os marcos, que tinham cerca de 30 centímetros de altura e outro tanto de largura,
estavam pintados de branco e colocados na beira da estrada de 2 em 2 metros.
Ela achava-se persuadida de que não podiam servir senão de pontos de referência; não conseguiriam certamente evitar que um carro se voltasse por cima
da berma. Quanto mais alto subiam mais o abismo se tornava vertiginoso e mais espessa se fazia a névoa. Acabaram por rodar sob uma chuva ofuscante. A estrada
parecia inclinar-se num sentido e a montanha noutro. Júlia tinha a singular impressão
de se encontrar apanhada numa armadilha, num universo de formas geométricas oblíquas, digno de Dali, onde a chuva e a névoa obscureciam a visão e produziam
efeitos de pesadelo cortados por golpes do pára-brisas. Mille começou a tossir. Apoiava-se,
curvada, à porta do carro, sempre que seguiam do lado interior da estrada como do que parecia suspenso no espaço. Nada queria ver. Tossia para o lenço e mantinha
os olhos fixos bem à sua frente, no párabrisas. Não pronunciava uma palavra. Todas as vezes que algum autocarro lançava um terrível toque de klaxon ela sobressaltava-se,
recomeçava a tossir e afundava-se no assento.
Os carros combinavam-se com a estrada, a chuva, as curvas abruptas, para fornecerem um aspecto de pesadelo à sua excursão. Emprestavam uma voz à paisagem,
uma voz terrível, alarmante, como o mugido de um touro ferido, uma voz que traspassava
o ar da montanha, que parecia materializar-se a partir do nada, uma voz que era impossível localizar. Adiante, atrás, donde? Então, de súbito, o autocarro aparecia.
Ou as ultrapassava a toda a velocidade no outro lado da estrada, ou surgia de repente por trás delas, passava para lá delas, oscilante, roçava os pára-choques, o
klaxon mugindo sempre, enquanto Júlia crispava as mãos sobre o volante e orava a Deus para que não investissem sobre si, a lançassem por cima dos marcos, para além
do flanco abrupto da montanha.
A breve trecho começaram a ver as primeiras inscrições que anunciavam a presença das cabras. As inscrições estavam pintadas de branco, mesmo nas paredes
rochosas da montanha. Nem uma palavra nelas, mas apenas desenhos que representavam, indubitàvelmente, cabras. As inscrições amedrontaram
Júlia: teria agora de se preocupar não só com a chuva, com a estrada e com os autocarros, mas ainda com os animais que podiam a qualquer momento atravessar-se
diante dela. Decidiu não evitar cabra alguma que surgisse. Tinha medo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se possuída por uma espécie de febre. Os cabelos, em desordem,
colavam-se-lhe à testa, às faces. Estava corada. Desabotoara o primeiro botão da blusa, e sentia gotas de suor deslizarem-lhe pela garganta e por entre os seios.
Bastante tempo antes metera a segunda e não mudara mais de velocidade. Escutava os ruídos dos autocarros e começava a aperceber-se melhor se eles surgiam de frente
ou vinham de trás. Dera-se também conta de que tinha 60 centímetros de margem quando rodava sobre a berma exterior da estrada. Habituara-se ao automóvel, tomava
consciencia do seu comprimento e da sua largura, acostumara-se ao ruído do motor. As primeiras cabras que vira achavam-se agachadas contra a montanha, abrigadas
da chuva por uma rocha em declive. Júlia sorriu.
- Bem, não é assim tão terrível, apesar de tudo - disse ela em voz alta, quase com alegria.
Mille não respondeu.
Quanto mais se aproximavam do cume e do desfiladeiro mais frio se fazia sentir. Mille envolveu-se mais estreitamente no xaile e insistiu com Júlia para que
esta vestisse O casaco. As curvas eram mais agudas e mais escarpadas agora, mais próximas, e ela manobrava o volante como um motorista de camião.
Mille foi a primeira a ouvir o ruído.
- Que é? - perguntou ela.
Ergueu-se no assento e esforçou-se por distinguir qualquer coisa através do pára-brisas.
- Não sei - respondeu Júlia.
- Um desabamento de terras! - anunciou Mille.
- Não. Não é.
- Parece...
- Ora, ora, minha querida... Não é um desabamento de terras.
Continuaram a rodar. Júlia não estava absolutamente certa de que se tratava de um desabamento de terras. Apurava os ouvidos no sentido de captar
o ruído que dominava o som leve do limpa-pára-brisas.
- É água - disse.
- Água? Que espécie de...
- Não sei. Mas estou certa de que não é nada que receemos.
- Que é? - perguntou uma vez mais Mille, debruçando-se de novo sobre o pára-brisas. - E lá em cima?
- Oh! Oh!, é isso.
- o quê?
- Uma barragem, Mille. Não acreditas? Não te parece uma barragem?
- Como queres que eu saiba o que parece uma maldita barragem?
- Sim, é claro - repetiu Júlia -, e repara, há um sítio para estacionar defronte dela. Podemos descer e distender as pernas.
- Não sairei do carro - declarou Mille.
- Bem, apetece-me repousar um momento. Importas-te?
- Faz o que quiseres. Devíamos ter metido o automóvel no comboio.
- Não sejas tonta, querida. Até este instante tudo se passou maravilhosamente bem.
- Até este instante - repetiu Mille num tom carregado de sinistros pressentimentos.
Arrumaram o carro no local ao lado do muro de cimento, frente à barragem. Estava ali estacionado outro carro com placas de matrícula francesa. No interior
dele, um homem e uma mulher almoçavam. Sorriam a Júlia, que desceu e pôs o impermeável pelos ombros.
- Bonjour - disse a mulher.
- Bonjour, madame - respondeu Júlia. Dirigiu-se para o outro lado da estrada e, de pé, sob a chuva, as mãos nos quadris, o impermeável bem apertado na cintura
delgada, a gola levantada sobre a nuca, examinou a barragem, sorrindo. Ouviu de súbito o mugido aterrador de um autocarro que se aproximava e atravessou a estrada
a correr pouco antes de ele passar, veloz.
Bateu no vidro do automóvel e gritou:
-- Desce, Mille. O ar é maravilhoso.
- Não, obrigada - volveu Mille.
Júlia encolheu os ombros e deu alguns passos na estrada. Sentia-se singularmente satisfeita. Sorria ainda quando entrou no carro. Lançou o impermeável para
o assento de trás, onde seguia a bagagem, e disse:
- Há uma inscrição ali, Mille. Estamos perto do cume.
- Deus seja louvado!
- Existe lá em cima uma coisa a que chamam Hospiz. Tenho a impressão de que é um síti onde se pode repousar. Talvez lá encontremos chá.
- Gostaria de tomar uma chávena.
- Depois, eis-nos no desfiladeiro, e desceremos para o Ródano. Os oficiais alemães disseram que o passeio era soberbo.
- Os oficiais alemães afirmaram que era igualmente soberba esta parte do percurso.
- Mulie, deixa-te de te mostrares desmancha-prazeres.
- Tenho frio.
- Daqui a momentos pararemos para irmos tomar chá, querida. Não é assim tão mau, Mille. Com franqueza, não é.
Pôs o motor a funcionar e afastou-se, em marcha atrás, do muro de cimento. Os dois franceses acenaram com a mão e gritaram qualquer coisa que Júlia não entendeu.
Percorreu alguns metros em primeira, depois passou à segunda. Concentrava-se agora apenas na estrada sinuosa, quase se esquecendo de que seguia mais alguém com ela
no carro. As curvas eram cada vez mais apertadas: uma curva, um troço abrupto de estrada, outra curva, mais uma subida a pique, e de novo uma curva. Observava a
estrada e escutava a tosse de Mille, a seu lado. Ouviu outro acesso de tosse e imaginou que provinha do motor; procurou ao mesmo tempo a alavanca das velocidades
e o travão, fez voltar a alavanca com violência para a primeira, mas demasiado tarde. O motor cessou bruscamente de funcionar.
- Ora bolas! - exclamou ela.
- Que sucedeu?
- O motor cessou de funcionar. Mas não te inquietes.
Pôs o motor em ponto morto, premiu o arranque com o pé. O motor gemeu, mas nada. Tentou de novo.
- Que é que se passa? - perguntou Mille.
- Não arranca. Provavelmente, está inundado.
- Que vamos fazer?
- Em primeiro lugar temos de nos afastar desta curva.
- Como é que o conseguirás?
- Fazendo marcha atrás.
- Não comigo dentro do carro! - exclamou Mille. Parecia decidida a chorar. Júlia tocou-lhe com doçura o braço, sorrindo.
- Ajudar-me-ias se descesses para o outro lado da curva, a fim de me prevenires se recuo na direcção de algum autocarro.
- Sob a chuva?
- Mille, minha querida...
- Bom - fez Mille, sacudindo a cabeça.
Abriu a porta e desceu debaixo de chuva. Júlia, ao volante, soltou um profundo suspiro.
- Alguma coisa à vista? - gritou.
- Não, o caminho está desimpedido - disse Mille. - Despacha-te! E toma bem atenção na berma da estrada, Júlia. Uma vez que te afastes da curva, encontrar-te-ás
no lado exterior.
- Muito bem - gritou Júlia. - Cá vou eu!
Respirou fundo, pisou o travão de pé e largou o travão de mão. Lentamente, levantou o pé. O carro começou a rodar para trás.
-- Volta! - gritou Mille. - Diriges-te para a berma. Volta! Oh meu Deus, volta, Júlia!
Ela voltou de súbito o volante, o pé suspenso por cima do pedal do travão, a cabeça fora da janela, para tentar distinguir os marcos brancos através da chuva
incessante. Quando ouviu o ruído do klaxon, o coração saltou-lhe do peito e sentiu-se prestes a desfalecer.
- Um autocarro! - gritou Mille. - Júlia. um autocarro...
Ela travou antes de se dar conta de que se encontrava no meio da estrada. No mesmo instante, compreendeu que o autocarro subia do outro lado da curva; de
outro modo, Mille não o teria visto.
O ruído do claxon era mais ressonante agora, que o autocarro se aproximava. A sua primeira reacção foi descer do automóvel. Mas pensou: Oh, Diabo, nós vamos para
a Itália!" Levantou o pé do travão e orou por que o veículo tomasse ràpidamente velocidade, que não ultrapassasse a berma, que a curva fosse tal como a imaginara.
Contornou a curva e viu o autocarro que vinha sobre ela, do lado oposto da estrada. Volveu o volante, vivamente, e o autocarro ultrapassou-a à direita, o klaxon
estridulando em justa indignação. Descortinou os marcos brancos e aproximou-se deles o mais possível. O automóvel encontrava-se enfim sobre a recta. Júlia soltou
o travão de mão e recobrou a respiração. Mille regressou ao carro e deixou-se tombar, desfalecida, no assento.
Permaneceram assim uma boa dezena de minutos. Depois, Júlia tentou fazer arrancar o veículo. Mas o motor não tugia nem mugia.
- Estamos tão perto do cume! - exclamou Júlia com cólera. - Mas porque havia ele de deixar de funcionar!
- Não posso mais - suspirou Mille.
- Tentarei de novo daqui a um instante. Estou certa de que está apenas inundado.
- Que é que isso quer dizer? - perguntou Mille.
Júlia desatou a rir.
- Não sei. É o que diz sempre o Arthur quando o carro recusa arrancar.
- Eis que se aproxima alguém - disse Mille, voltando-se.
- Quem?
- Não sei. Um motociclista. Talvez um polícia.
- Nos Alpes?
- Estou convencida de que há polícias nos Alpes, Júlia.
A motocicleta aproximava-se. O homem que a conduzia não era polícia. O seu veículo trazia uma chapa de matrícula militar e ele tinha na cabeça um capacete
negro com uma insígnia pintada num círculo branco e sobre os ombros um amplo poncho negro de borracha. Parou a motocicleta junto da porta de Mille. Parecia flutuar
na capa negra, luzidia, molhada pela chuva, que lhe istigava o rosto e os ombros. Mille fez descer os vidros e ele procurou distingui-la através da cortina líquida.
- E successo qualche cosa? - perguntou o homem.
- Não falo italiano - volveu Mille, voltando-se
para a irmã. - Júlia?
- Pano Zamente un poco - disse Júlia com uma voz hesitante. - Paria inglese?
- Si, un poeo - respondeu o soldado.
Pareceu reflectir, por um instante. Sob o capacete negro, o seu rosto era magro e curtido. A chuva obrigava-o a fechar completamente os olhos, mas, do seu
lugar, Júlia distinguia-lhes a cor: um azul surpreendente neste rosto acobreado. Ele não podia ter mais de 24 ou 25 anos, mas o capacete era enganador, tanto como
a chuva que banhava as feições deste homem com sombras moventes.
- Falo mal inglês - disse ele. - La macchina, che cosa...? - Fez uma pausa. - Q1ue... o carro? Que se passa?
- Não quer arrancar - afirmou Júlia.
O soldado apoiou-se com as duas mãos na porta. Eram grandes e castanhas, estas mãos, de articulações sólidas, mãos de trabalhador manual ou de camPonês,
com pêlos ralos louros ao longo dos dedos, semelhantes a minúsculos fios de bronze.
- Forse potrei...
Uma vez mais interrompeu-se, traduzindo mentalmente
- Eu... - disse ele, tocando no peito -, eu posso ajudar.
- Se quiser tentar... - volveu Júlia.
- - Signorina, potrei provare...
- Júlia compreendeu a "signorina". Com um rápido sorriso, rectificou:
- "Signora".
- Prego?
- Signora - repetiu.
- Ah, va bene - disse o soldado. - É casada?
- casada. Per piacere, Signorina.
E os seus olhos cintilaram enquanto a tratava de novo por menina. Passou para o outro lado do carro, onde se encontrava Júlia.
- La macchina, no?
- Tome cuidado - avisou ela. - Pode passar por cima da berma.
- No, no, non abbia paura - volveu ele.
Perigosamente perto do abismo, abriu a porta.
- Permesso?
Júlia fez uma pequena reverência, sorrindo. Recuou para o meio do assento, enquanto ele subia para o carro, trazendo consigo o odor da chuva e do impermeável.
- AUora - disse sorrindo com todos os dentes. La chiave, ah? - Tocou com os dedos na chave de igmição. - La benzina?
Franziu as sobrancelhas, embaraçada
- Pode falar em italiano.
- Gasolina? - perguntou ele. - Sim, sim, gasolina. Tem gasolina?
- O reservatório ainda está meio cheio - retorquiu Júlia.
- Si, vedo - fez ele, encolhendo os ombros. - AUora, adeus. Romano fu fatta in un'ora, vero?
- Lamento muito, não compreendo. O meu italiano é reduzido.
- Bem, esqueça - disse ele. - Vamos tentar. É pronta?
- Sim, estou pronta.
- Júlia - perguntou Mille -, crês que seja prudente?
- Sim, minha querida. Ele procura auxiliar-nos.
- Cosa? - perguntou o soldado.
- Nada - respondeu Júlia, sorrindo.
- Ha paura?
- Si. Un pochino.
- Não tenha receio - disse ele a Mille. - Sou um corredor muito bom. Está bem? - Corredor?! - inquiri, voltando a cabeça para Júlia.
- Condutor.
- Si, signorina, condutor.
- Signora - corrigiu ela uma vez mais.
Ele teve um sorriso gracioso, um lento sorriso preguiçoso que brilhou num súbito resplendor sob o capacete negro.
- Ma tut te le d'onne sono signorina in fonlQ non é vero? No coração, todas as mulheres são jovens, não e' verdade?
Júlia sorriu sem responder.
- Dunque - disse ele, voltando a chave de ignição.
O motor começou imediatamente a funcionar. O soldado desatou a rir.
- Soo un mago - declarou. - Un vero mago. Signorina, la tua automobile.
Abriu a porta, desceu para a chuva e fez um curto gesto de reverência.
- Obrigada - disse Júlia. - MiUe grazie.
- Prego - respondeu ele. - É um prazer.
- Mil agradecimentos.
O soldado sorriu, perfilou-se, saudou as duas mulheres e dirigiu-se para a motocicleta. Instalou-se no assento, pôs o motor a funcionar, agitou uma das mãos
enluvadas e, descrevendo a curva, desaparceu.
- Ele foi gentil - afirmou Mille.
- Sim.
- Podemos ir agora tomar chá?
- Sim, minha querida, naturalmente - respondeu Júlia.
Arrancou.
Encheram o depósito em Gletsch, pequena cidade suíça aninhada no fundo de uma bolsa cercada de montanhas. Com a ajuda do pequeno vocabulário, Júlia explicou
ao garagista o que desejava. O dia estava cinzento e ameaçador. Mille não abandonou o carro: observava com ar sombrio o círculo de montanhas. Quando Júlia voltou
ao automóvel, perguntou:
Ainda temos de subir mais?
- Não Agora é descer sempre.
- Quem te informou?
- O garagista.
- Não sabia que falavas alemão.
- Não falo. Conversámos com as mãos. indiquei as montanhas, erguendo um dedo e levantando as sobrancelhas. Ele fez o sinal contrário, sorrindo. Compreendemo-nos
perfeitamente.
- Porque é que estás tão alegre, Júlia?
- Não sei.
Fitou a irmã e acrescentou com um ar sério:
- Suponho que me sinto feliz por me encontrar aqui. É o que deve ser.
- Não sentes saudades da família?
- Não - volveu Júlia. - Ainda não... É horrível dizer-te isto?
- Não, se é verdade - redarguiu Mille, tocando a irmã. - Não me perguntes nada. Compreendes-me? Não me perguntes nada. Vamos contemplar este maravilhoso
vale.
Emergiram no sol, para um calor balsâmico. Encontraram-se no meio de uma paisagem verdejante de colinas bordadas de pequenas casas de campo, de córregos
rápidos, de rochas húmidas, o panorama banhado por um ar saboroso, sob um céu azul que parecia pregado com alfinetes nas extremidades da Terra, com algumas nuvens
de um branco imaculado suspensas no espaço, o pipilar de aves, a quietude de uma paz inimaginável. Júlia sorriu inconscientemente. Desceram os vidros do carro e
a brisa veio acariciar-lhes o rosto, uma brisa que despertava as recordações de Júlia, que lhe inundava o coração de mil lembranças. Era Verão. Todos os Verões que
já conhecera, já sonhara, todos os Verões reais ou imaginários. O vale parecia achar-se fora do tempo. Fora do tempo também a lenta e preguiçosa descida do automóvel,
que descrevia sem esforço as curvas da montanha, fora do tempo a água fria, cintilante, saltitante nos córregos, e o rio, e a erva na outra margem, a erva mais verde
que já vi!a, uma erva de conto de fadas sob um céu de conto de fadas. Deteve a respiração e sentiu o sol aflorar o braço apoiado à porta, sentiu a brisa doce levantar-lhe
os cabelos e a carícia dos mesmos no rosto. Tinha vontade de parar o carro, de se estender na erva espessa, de aspirar entre os dentes a ceiva de um tufo de erva,
de espalhar os cabelos atrás de si em luxuriante tapete, de abrir a blusa, sentir o beijo do sol no corpo nu. Conhecia este vale; oh, estivera neste vale quando
o mundo era novo, e passeara, só, com este mesmo sol cintilante a acariciá-la, com estes mesmos córregos sem idade, este mesmo fumo que subia de chaminés antiquíssimas.
Era o seu vale. Disse em voz alta:
- Mereceu a pena.
Gostaria de estar só. Sentia que se achava à beira das lágrimas, e desejava chorar só, sem a presença da irmã. Conduzia lentamente. Queria saborear este
momento. Queria recordar cada curva, cada rocha atormentada, cada crista, cada som, e a dolorosa doçura do azul, do verde, do branco, da prata refulgente, que a
assaltavam de todos os lados. Abria-se ao vale com toda a sua sensualidade, abandonava-se a ele como a um amante.
Almoçaram em Brig. Toda a gente falava alemão.
O toilette das senhoras não primava pelo asseio. Havia apenas uma toalha no rolo, que era utilizada com frequência, e mulheres obesas com vestidos com flores estampadas
faziam-na deslizar e enxugavam as mãos uma após outra no tecido imundo. Nas ruas, circulavam jovens, cantando, de saco às costas. As duas irmãs embarcaram o carro
no comboio e não se esqueceram de pedir bilhetes de 1.a classe. O trajecto foi bastante agradável. Um homem sentado ao lado delas comia pão e queijo, e, pela primeira
vez na sua vida, Júlia Regan sentiu-se verdadeiramente americana. O homem sabia o que ela era, e esta ideia despertou uma emoção profunda nela, de modo que o facto
de ser americana tornou-se de súbito uma qualidade de que se orgulhava. Ela era turista, na verdade, e ouvira falar muito do terrível turista e da impressão que
deixava no estrangeiro: o gordo texano, magnata do petróleo, com a sua Leica à volta do pescoço, o charuto entre os lábios, profanando as catedrais do velho mundo,
tratando os Europeus como estrangeiros no seu próprio país, representando ao natural o papel do obeso e asmático capitalista americano. Ouvira todas estas histórias,
e ela própria era turista, sim, mas sentia-se completa, inteiramente americana, e considerava agradável o sentimento que experimentava. Ignorava se o homem que junto
de si comia pão e queijo, gostava dos Americanos, os detestava, ou não tinha uma opinião especial. Pouco lhe importava. Ser americana bastava. Jamais ultrapassara,
a oeste, a Pensilvânia, ao norte, o Massachusetts, ao sul, Washington. Mas neste compartimento de 1.a classe de um comboio que atravessava túneis em direcção da
fronteira italiana, tomara inopinadamente consciência da extraordinária extensão geográfica do seu país, sentia-se bem ligada aos campos da terra natal, às montanhas,
às praias, aos desertos, aos oceanos, às cidades e às aldeias. Toda a América se erguia de súbito dentro dela, se tornava uma parte de si mesma, lhe dava uma nova
existência, distinta e contudo inseparável da sua própria. Era americana. Este título fornecia-lhe considerável prazer.
Perguntou-se de repente se começava a sentir saudades do torrão natal.
Domodossola estava imersa sob um sol intenso. Era uma cidade esculpida na base da montanha, de paredes brancas e de telhados de argila, uma cidade de fronteira
onde todos se detinham o tempo suficiente para passar ao outro lado. O comboio parara em Berisal, território suíço, e os funcionários alfandegários subiram a bordo
a fim de verificarem os passaportes. Depois, o comboio estacara de novo diante de um pequeno posto situado um pouco para lá da fronteira italiana. Os funcionários
da alfândega percorreram os compartimentos com um sentido do dever e um espírito de decisão bem vincados. Pediram a Mille que abrisse uma das malas, o que a embaraçara,
pois colocara aí todas as suas roupas de baixo; nunca esperara uma inspecção tão minuciosa, pois os funcionários franceses e suíços haviam-lhe observado por alto
a bagagem. O italiano que comera durante todo o percurso encontrou-se envolvido numa discussão volúvel a respeito do seu passaporte: segundo o que Júlia compreendera,
o documento não fora convenientemente carimbado, ou validado, uma coisa deste género, e os funcionários italianos, no seu uniforme verde, revólver à cinta, pareciam
dispostos a abater o homem no próprio lugar se este acto facilitasse a entrada do comboio em Domodossola. Por fim, tudo se arranjou. Quando os funcionários desceram,
o homem murmurou em voz baixa: "- Fetenti", e Júlia voltou-se, sorrindo, para a janela, enquanto o comboio tomava velocidade e penetrava na cidade fronteiriça, que
torrava ao sol.
DOMODOSSOLA, diziam os letreiros.
Domodossola. Júlia fez rolar o nome sobre a língua, para melhor o saborear. Compreendeu imediatamente que ia adorar a Itália. Tentou o seu italiano com um
dos factores e perguntou-lhe onde seria desembarcado o automóvel; o homem designou-lhe, do outro lado da via, um depósito solitário" sob o sol escaldante. Os vagões
que carregavam os carros, explicou ele, iam ser separados e juntos a uma outra máquina, a fim de serem em seguida conduzidos até ao cais de desembarque, situado
junto do depósito. Ela compreendeu talvez um terço do monólogo do ferroviário, mas o dedo estendido era explícito. Mille e Júlia atravessaram a gare e dirigiram-se
para o depósito. Dois homens e uma mulher encontravam-se já aí, aguardando a entrega dos seus veículos. Não havia sombra a que se abrigassem. O telhado do depósito
não possuía resguardo e a que o edifício proporcionava era diminuta, suficiente apenas se se estivesse sentado - mas infelizmente não havia onde uma pessoa se sentar.
O sol era intenso. Uma torneira mal fechada deixava tombar gota após gota sobre uma pedra lisa e luzente. O sol dardejava sobre os carris, reflectia-se nas paredes,
de um branco cru, dos edifícios.
- Pergunto-me quanto tempo teremos de esperar aqui - disse Mille.
Júlia enxugou o suor que lhe penava o lábio superior e sacudiu a cabeça num gesto breve. Os italianos tinham iniciado uma conversa um com o outro. Ela escutoú-os;
procurando apanhar quaisquer palavras, a fim de acostumar os ouvidos à ressonância da língua. Aprendera italiano no colégio, há muito tempo já, mas não passara de
uma estudante de nível médio. Porém, estava certa, agora, que se encontrava no meio adequado, de o vir a falar com fluência. Começava a sentir que a cadência musical
se lhe tornava familiar.
A espera parecia interminável. Ao tombarem sobre a pedra lisa, as gotas marcavam os segundos que se escoavam. Ninguém dava mostras de saber o que tinha acontecido
aos vagões que transportavam os automóveis. Todas as vezes que, ao longe surgia uma locomotiva, um dos italianos gritava: "Eceolci,!", e o pequeno grupo que aguardava
ao sol, junto do depósito, sentia-se invadir por uma sensação de alívio. Mas a locomotiva nunca era a que puxava os vagões e o alívio transformava-se bem depressa
em desapontamento, para em seguida dar lugar à dúvida. Segundo o que Júlia conseguiu compreender, um dos italianos estava convencido de que haviam reenviado os veículos
para a Suíça. "Queste porche ferrovie!", murmurou ele com um ar sombrio. Daqui ela concluiu que as opiniões acerca dos carninhos de ferro italianos não eram muito
elevadas, apesar da habilidade demonstrada por Duce para fazer chegar e partir OS comboios à hora. Os vagões surgiram apenas sessenta minutos mais tarde. Quando
se descortinou a máquina, uma ovação espontânea irrompeu do pequeno grupo. Os italianos desfizeram-se em sorrisos, acompanhados por gestos de aprovação feitos com
a cabeça. Um' dos homens, em mangas de camisa, transpirava com abundância, gigantescas manchas húmidas espalhavam-slhe sob os braços e sobre o peito. Enquanto utilizava
o seu chapéu de palha como leque, fez, com a mão livre, em intenção de Júlia, um gesto de desculpa e de impotência. Júlia sorriu. O comboio deteve-se. Um homem da
via retirou os calços que bloqueavam as rodas dos veículos e adaptou um plano inclinado para ligar o cais ao vagão. Os três italianos retiraram os seus automóveis.
Júlia fez descer o Sinwa e Mille soltou um profundo suspiro ao instalar-se no assento.
- Deus seja louvado! - disse ela. - Estou exausta.
Júlia olhou através do pára-brisas. Um funcionário da alfândega, de uniforme verde, fazia parar todos os carros. Os condutores mostravam-lhe os papéis. Ela
supôs que se tratasse dos passaportes, e viu o funcionário fazer sinal aos carros que a precediam, indicando-lhes que seguissem. No momento em que chegou diante
do homem de uniforme, este gritou: "Alt!" Ela travou e esperou que ele se aproximasse da janela.
- Caet - disse o homem, estendendo a mão enluvada, palma para cima.
- Que deseja? - volveu Júlia, vivamente. traduzindo depois a pergunta no seu italiano hesitante:
- Che Cuosa vole?
- Carnet - repetiu o homem, de mão ainda estendida.
- Que é que ele quer, Júlia? - inquiriu Mille
- Não sei. A minha carta de condução, suponho. - ela Abriu a bolsa e retirou a carteira, donde extraiu a carta de condução de Connecticut, que lhe passou
pela janela.
O homem sacudiu a cabeça.
- Carnet, carnet - tornou ele.
- Ele deve querer o registo - disse Mille.
- Todos os papéis estão no porta-luvas, Júlia. Entrega-lhos.
Suspirando" Júlia abriu o porta-luvas, retirou os documentos que lhe fornecera a agência parisiense e ofereceu-os ao funcionário. Este examinou os vários
papéis, sacudindo a cabeça diante de cada um. Em seguida, devolveu-os a Júlia.
- Per entrare in ItaUa - afirmou ele -, deve avere ii carnet. Nessuno di questi documenti é un carnet.
- Mas que será este maldito carnet? - perguntou Júlia a Mille.
- Não faço a mínima ideia. Diz-lhe que o arranjaremos em Stresa E que temos pressa, Júlia.
- Nou te'niao una carnet - declarou Júlia. Lo' prendiamo a Stresa. Per macere, al"biamo fretta.
O funcionário sacudiu uma vez mais a cabeça.
- Lo deve obtenere qui. Nou a Stresa. Nou potete lasciare Domodossola sensa ii carnet.
- Ma dove potere avere?
- Seguitemi - disse o homem.
Fez sinal a Júlia para que arrumasse o carro na beira da estrada. Ela viu uma tabuleta por cima do posto alfandegário e uma outra no pequeno edifício destinado
à polícia militar italiana. Conduziu o carro até a um local onde existia o seguinte letreiro:
DWIETO MACCHINE CIVILI, e arrumou o carro ao lado de uma motocicleta.
- Fica aqui com a bagagem, Mille. Não nos querem deixar sair de Domodossola sem este maldito carnet.
Apeou-se. O funcionário esperava-a.
- Venite.
Fê-la entrar no posto aduaneiro. Um homem sentado por trás de uma' velha secretária ergueu a cabeça. O gabinete estava banhado por uma fresca penumbra. Os
estores da única janela aberta na parede achavam-se fechados, para impedir que o sol penetrasse. Os dois homens entabularam, num italiano rápido, uma conversa animada
da qual Júlia apenas conseguiu apanhar uma só palavra: carnet.
O homem sentado por trás da secretária sacudia a cabeça sem cessar. O outro discorria interminàvelmente sobre o carnet. Parecia que não havia maneira de
resolverem o assunto.
Por fim, o homem sentado por trás da secretária disse:
- Si, va bene. Portatela ali' Automobile Clube.
- Algum de vós fala inglês? - perguntou Júlia.
O homem sentado à secretária ergueu a cabeça e sorriu. "Um sorriso diabólico", pensou Júlia, "um -sorriso tremendamente diabólico."
- In Italia - disse ele com lentidão - 'parliamo italiano.
Júlia apercebeu-se de que ele compreendera o inglês, pois respondera à pergunta que formulara.
Mansamente, com uma voz precisa, controlando a sua cólera, volveu em inglês:
- E em Itália, pelo que vejo, esqueceis a vossa boa educação, se já alguma vez a possuistes. Como posso conseguir este carnet?
O homem sentado à secretária continuava a sorrir. Não respondeu. O outro disse a Júlia:
- Seguite.
Ela seguiu-o para fora do gabinete, para o sol esplendoroso. Um jovem louro, alto, com o uniforme do exército, saía do pequeno edifício vizinho, reservado
à polícia militar. Sorriu a Júlia:
- Ah, buon giorno, signorina.
Ela não o reconheceu de pronto. Sem saber porquê, pensara que o homem da montanha era um oficial. Mas distinguia agora com nitidez as divisas de cabo na
manga, e, sem compreender a razão, sentiu-se um pouco decepcionada. Demais, o homem da montanha, sob o seu poncho impermeável, parecera mais sólido; o que avançava
agora, sorridente, na sua direcção, era bastante delgado e talvez mais velho do que supusera a princípio: 33 ou 34 anos, talvez mesmo da sua idade. Tinha cabelos
louros de um tom muito baço, e isto também era uma surpresa:
-na montanha trazia um capacete negro, e, contudo, notara que as sobrancelhas eram louras e os olhos... os olhos. Os olhos eram os mesmos. Azuis, de um azul intenso,
sorrindo ao mesmo tempo que o rosto, curtido. Um 'rosto que conhecia. No seu desespero, voltou-se para ele e disse num rápido inglês:
- Oh, como está? Pode ajudar-me, por favor? Parece que devo possuir um carnet, mas ninguem me informa do que se trata, e têm-me conduzido de um local para...
O soldado ergueu a mão.
- Piano, Piano - disse ele. - O meu inglês é insuficiente.
Ela repetiu as suas explicações, mais lentamente desta vez. Ele escutava com atenção, a cabeça inclinada sobre o ombro. Afastou uma madeixa de cabelos que
lhe caíra para a testa e revelou assim um pouco de pele branca, que o sol não tocara. Ela continuou a falar, mas o seu olhar detinha-se na pele bruscamente exposta,
como se tivesse descoberto o ponto mais secreto, mais vulnerável, do seu interlocutor. O funcionário aduaneiro parecia desinteressado da conversa. Apoiara-se na
parede caiada de branco onde se lia em caracteres negros: PROIBIDO aos VEÍCULOS CIVIS, uma das mãos repousando sobre a coronha do revólver suspenso pela cintura.
O cabo sacudia a cabeça enquanto escutava Júlia. Esta sentia que ele traduzia mentalmente, com grande esforço. Depois, ele explicou:
- Um caet é, um papel, diz descriviere, descrever? si, vosso automóvel, e que vós não trazer para Itália para vender. Gapisce?
- Sim, si, mas ninguém nos preveniu. A agência de Paris...
- Si, ma é necessario. preciso. a lei.
- Si - volveu ela, sacudindo a cabeça, desolada.
- Si, mas é fácil obtê-lo. O Automóvel Clube... Ah... coe se dice rilasciare? Emitir? Arranjar? Eles arranjam-no.
- Mas onde fica o Automóvel Clube?
- In cittâ. Na cidade. Ele conduz. - Designou o funcionário.
- Poderá... - Ela hesitou. - Está ocupado agora?
- Signorina?
- Quer dizer... Não pode sair daqui?
- Pardon...
- Bem... poderá vir connosco? Ao Automóvel Clube? Não conseguirei explicar tudo isto em italiano.
- Ahhh - fez o cabo, inclinando a cabeça. - Ahhh.
- Poderá?
- Cosa? - perguntou o funcionário.
O cabo traduziu o pedido de Júlia.
- Ahora, andiamo - disse o funcionário. - Stiamo seiupao tutto ii posnsriggio.
- Vem? - inquiriu Júlia.
- Si, signorina. Ai suo servizio.
Fez uma saudação militar impecável e sorriu. Puseram-se a caminho, os três. Do carro, Mille gritou:
- Júlia, onde te conduzem eles?
- Ao Automóvel Clube.
- Ao quê? Que dizes?
- Não te inquietes, Mille. Não demoro.
O pequeno grupo tinha algo de cómico. Ela não conseguiu evitar um sorriso. Seguia entre os dois homens de uniforme, apressava o passo a fim de não se distanciar
deles. O funcionário aduaneiro marchava com uma rigidez precisa, ritmada; dir-se-ia que a conduzia para o pelotão de execução. Esta imagem fascinou-a. Quando eles
levantassem as armas, diria: "-Vão para o Diabo! Não quero que me coloquem uma venda nos olhos!" O cabo, que caminhava com um passo vivo mas preguiçoso, notou o
sorriso, mas nada disse. A cidade parecia curiosamente indolente. Ninguém dava a impressão de trabalhar, toda a cidade parecia ter descido à rua para flanar, conversar,
os homens de calças escuras e camisas de um branco intenso, ou de uniforme verde, com os seus ridículos bivaques ornados com borlas, as mulheres, na sua maioria
descalças, mas trazendo vestidos coloridos, como se estivessem preparadas para um baile e se tivessem medo de calçar os sapatos de salto alto. Aqui e ali, alguns
"camisas negras" de Mussolini apoiavam-se negligentemente às paredes. O sol apanhara a cidade na sua postura indolente; apanhara as bicicletas encostadas às casas,
reflectia-se nos seus raios, apanhara a água que corria nas valetas, as varandas de ferro forjado suspensas das casas da rua principal. O carro multicor do vendedor
de gelados. Os jovens soldados que o ladeavam nas suas fardas verdes, as duas adolescentes de saias brilhantes e de blusas brancas, pés nus, rindo. A cidade fora
congelada pelo sol. As botas do funcionário aduaneiro e do cabo ressoavam na calçada, enquadrando o ruído bem feminino dos tacões de Júlia.
- Chamo-me Renato - disse de súbito, em italiano, o cabo. - Renato Cristo.
- Muito prazer - volveu Júlia em inglês. - Sou a Sra. Arthur ....... Júlia Regan - acrescentou.
Renato dírigiu-lhe o seu lento sorriso. Em itali ano, tornou:
- Já fala muito bem a nossa língua. É uma vergonha, agora que está na Itália, se voltar para casa tal como partiu.
- Que quer dizer? - perguntou Júlia em inglês.
- Seria bom que praticasse o italiano.
Ele não queria falar mais em inglês. Falava em italiano, lenta e cuidadosamente, articulando o idioma de maneira a fazer-se compreender. Mas ele recusava
falar inglês, e Júlia cria ver um desafio nesta decisão; respondia ao desafio continuando a utilizar a sua língua, pois não estava disposta a ceder terreno.
- Terei muito tempo para praticar.
- Porque não começar já? - perguntou ele em italiano. - Aprende com bastante facilidade. Compreende-me muito bem, não é verdade?
- Oh - redarguiu Júlia em inglês. - Compreendo perfeitamente.
- Então porque não me responde em itali ano?
- Porque me não faz a pergunta em inglês?
- Sou eu o homem - replicou ele com simplicidade.
Ela ergueu os olhos e fitou o cabo. O rosto de Renato estava grave. Júlia sentiu-se assustada. Pousou a mão na boca e desviou a vista. Renato sorria. Ele
disse lentamente em italiano:
- Fala muito bem em italiano. Tenho passado toda a minha vida neste país. Sou, assim, 'um perito na matéria. Afirmo que fala muito bem o italiano. Concorda?
- Não - volveu ela sem o fitar.
- Mas sim.
- Muito bem, sim - disse ela em inglês num tom de voz em que se percebia o seu embaraço. - O meu italiano é excelente, concordo. Bom.
Júlia voltou-se de novo para ele, a fim de o fitar. Renato deteve-se bruscamente. O funcionário prosseguiu no seu caminho, sem se dar conta de que Renato
parara e que Júlia fizera outro tanto.
- É penoso para si dizer "sim" em italiano?
- Não. Penso que não.
- Então, diga, vá.
- Sim - volveu Júlia em italiano.
Renato sorriu.
- Bem. De agora em diante, falaremos em italiano. Será mais fácil para nós.
- Então, apressai-vos, por favor - gritou o funcionário aduaneiro com impaciência.
Parado, no meio da rua, as mãos nas ancas, esperava.
- Tenho mais que fazer.
Reuniram-se e fizeram em silêncio o resto do percurso. Júlia tomou de súbito consciência de que imóvel, com o ar de um alquilador que exibia o primeiro botão
da sua blusa que estava fora da casa. Ao colocá-lo no seu lugar, notou que Renato acompanhara o gesto. Imediatamente, pareceu fazer muito calor nesta rua. Quando
chegaram ao Automóvel Clube, um velho descia uma porta de ferro sobre a qual se achava pintada a inscrição RÂCI.
- Que está a fazer? - perguntou Renato.
- Vou para casa - respondeu o homem. - É dia de festa, hoje. Fiquei até mais tarde do que devia.
- Esta senhora precisa de um carnet.
- Que volte amanhã.
- Não pode voltar amanhã. Parte daqui a algumas horas.
- impossível - replicou o homem do Automóvel Clube. - Não pode sair de Domodossola sem o ca'rnet; portanto, não partirá esta tarde e terá de voltar amanhã.
- Não - redarguiu Renato. - Abra a porta, professor. Vai entregar sem demora um crnet a esta senhora.
O homem do Automóvel Clube fitou o funcionário aduaneiro. Este sacudiu os ombros.
- Tenho de ir ao correio levar uma carta - informou o velho. - Voltarei dentro de meia hora. Mas irei para casa. É dia de festa, hoje. Vocês, soldados, sois
todos uns malfeitores. Não quereis deixar que um pobre homem aproveite o seu dia de festa.
- Esta senhora encontra-se de férias em Itália.
- Ninguém lhe pediu que viesse para a Itália sem carnet - volveu o velho -, de férias ou seja lá o que for. Hoje, sou eu quem está de férias. E há bem poucos
dias de festa.
- Sim, professor, mas o senhor é um homem gentil, que nada negará a uma tão linda mulher.
O velho examinou Júlia com um olhar experiente. Por um momento, ela pensou que ia corar. O funcionário aduaneiro também a examinava. Esta atitude embaraçava
Júlia. Os homens continuaram a examiná-la, solenes, como se da sua beleza dependesse a atribuição do carnet.
- Ela é bonita, na verdade - afirmou o velho, como que com cobiça. - Vou ao correio e volto. Não demorarei mais de meia hora. Se quiserdes esperar, muito
bem. Se não, é dizer-me, que me irei reunir à familia a fim de aproveitar um repouso bem merecido neste dia excepcional de festa.
- Esperaremos - declarou Renato.
- Encarrega-se da senhora? - perguntou-lhe o funcionário aduaneiro.
- Sim, encarrego-me da senhora - respondeu Renato.
- Muito bem. Quando tiverem o carnet, passem pelo gabinete.
- Decerto - volveu Júlia. - É capaz, por favor, de prevenir a minha irmã quanto a esta pequena demora?
- Sim, minha senhora - disse o funcionário aduaneiro, que se afastou após uma breve saudação.
- Eu volto - declarou o velho.
Verificou o cadeado da porta metálica e subiu a rua num passo arrastado.
- Bem - disse Renato, rindo. - Seja bem-
-vinda a Itália.
Ele tinha os dentes muito brancos. Quando ria, os lábios descobriam-nos, acrescentando a força da imagem ao som do riso, tornando este mais contagiante ainda.
Ela desatou a rir também.
- É sempre assim? - perguntou Júlia. - Como conseguem fazer seja o que for?
- Oh, nós fazemos sempre o que é preciso - respondeu Renato, sacudindo os ombros. - Está calor, hoje. Não acha?
- Sim, é verdade.
- Quer um gelado? Gosta de gelados?
- Muito. Obrigada.
Dirigiram-se para o carro.
- Dois. De limão - disse Renato ao vendedor.
- Gosta de limão? Sim, naturalmente. É o único gelado que se pode comer quando faz calor.
- Oh, aprecio muito os de limão - declarou ela, docemente.
- Tanto melhor. Que idade tem?
- Perdão...
- Que idade tem?
- Porque faz esta pergunta?
- Porque desejo saber.
- Tenho trinta e cinco anos - disse Júlia sem hesitação.
- Muito bem - aprovou ele, com a cabeça.
- Porquê?
- Não acha bem? - perguntou Renato con um olhar de surpresa.
- Preferia ter trinta, e se fossem dezassete, ainda melhor.
- Trinta é uma ponte, dezassete um berço. Está numa idade óptima.
- Obrigada.
- Mas tenha cuidado. A taça por vezes verte. Era um aborrecimento se manchasse a sua linda blusa - disse ele.
E Júlia leu no olhar que Renato lhe lançou que ele notara, antes, o botão fora da casa.
- Que idade tem? - perguntou ela por sua vez.
- Trinta e três anos... Um rapazote ainda - acrescentou ele, sorrindo.
- Sim, com efeito.
- Mas não demasiado jovem para o magnífico exército de il Duce, hem?
- Segundo depreendo, não aprecia o exército?
- Oh, adoro-o - volveu ele sem rebuço. - Como poderia viajar senão por este meio? Enviam-me por toda a Europa com mensagens secretas muito importantes. Monto
na motocicleta e entrego mensagens a generais de toda as nações. Documentos bem importantes. Entreguei um na Suiça que dizia: "Encontrar-nos-emos em Genebra, na
terça-feira, para bebermos um copo juntos." Altamente importante, oficial e confidencial.
Júlia desatou a rir.
- Onde está instalada a sua guarnição?
- Em Roma. É em Roma que se encontra il Duce'. Ele adora observar da sua varanda os uniformes, muitos uniformes. Eis porque estou aí aquartelado.
- E onde reside?
- Em nenhures.
- Que quer dizer?
- Nasci em Nápoles, mas o meu pai levou-me de lá era eu muito pequeno; ele queria ser agricultor e tinham-lhe falado de uma nesga de terra nos subúrbios
de Roma. É raro que os Italianos abandonem o lugar onde nascem; mas o meu pai queria partir, e eis o que sucedeu. Quando os meus pais morreram, a minha irmã e eu
vendemos a granja. Pode dizer-se que, agora, vivo com ela, em Roma.
- Compreendo.
Houve uma pausa na conversa. Tinham voltado ao Automóvel Clube e achavam-se encostados à porta metálica.
- Vai a Roma? - perguntou Renato.
- Sim. Com efeito, iremos para lá de Roma. Para os Abruzos. Levo a minha irmã para Áquila.
- Não fica longe. Algumas horas de carro.
- A minha irmã está doente.
- Áquila é um lugar agradável. Em especial se se está doente. - O seu sorriso alargou-se.
- Talvez apenas quando se está doente... Fica lá muito tempo?
- Não, pouco.
-'Quanto?
- Porquê?
- Volve-me sempre: "- Porquê?" Faço perguntas porque sinto desejo de conhecer as respostas.
- É inútil replicar-me "porquê". Quanto tempo se demora em Áquila?
- Alguns meses.
- Talvez prolongue a sua estada.
- Não.
- Como pode saber?
- Tenho marido e um filho.
- Sim, e eles sentirão saudades suas.
- Sim.
- Sim, eu sei.
Calou-se.
Passados momentos, disse:
- Áquila fará bem à sua irmã.
- Sim, segundo nos afirmaram.
- Onde vai residir?
- Alugámos uma villa.
- Por que preço?
- Faz-me sempre umas perguntas particulares - volveu Júlia, rindo.
- Quero certificar-me de que não a roubaram.
- Foi uma agência de viagens que se ocupou do assunto.
- Há ladrões mesmo nas agências de viagens.
- Decerto, mas eles existem por todo o lado; demais, prefiro confiar nas pessoas. E quanto a si?
- Não, não tenho muito empenho em confiar em pessoa alguma, nem elas em mim. Mas não importa. Quanto pagou?
- Duas mil iras por mês.
- É caro.
- Todavia, trata-se de uma bela villa.
- Conservará o carro?
- Sim.
- Virá algumas vezes a Roma?
-Suponho que sim.
- Sim ou não?
- Sim. Há em Roma coisas que tenho desejo de ver.
- Conheço um excelente guia.
- Quem? - perguntou ela.
Júlia fitou-o nos olhos; sentia-se um pouco amedrontada pelo caminho que as coisas tomavam; contudo, não experimentava o mais leve sentimento de culpa, e
era isto que mais a assustava. Sabia onde esta conversa, estas perguntas e respostas, este interesse comummente partilhado, a conduziria, mas achava-se impotente
para deter o curso dos acontecimentos. Ele dissera: "- Conheço um guia excelente", e ela perguntara: "- Quem?" No entanto, conhecia a resposta. Sabia que ele iria
volver:
"- Eu." Estava convencida de que ele não afirmaria outra coisa. E Júlia esperava, com a respiração suspensa, a resposta de Renato. Não sabia ainda qual seria a sua
reacção, não estava certa se iria terminar aquela breve relação ali mesmo, dizendo: "- Obrigada, é muito gentil, mas penso que não posso aceitar." Não sabia, na
verdade, o que iria responder quando ele fizesse a sua oferta.
Renato não respondeu imediatamente.
- Quem é? - repetiu ela.
- Uma mulher chamada Maria Scalza - volveu ele.
- Como? - disse Júlia, olhando-o com surpresa.
- Sim, é um bom guia. Se quiser, posso dar-lhe o endereço.
- Obrigada, mas...
- Ahhh - fez Renato -, o professor está de volta.
Consultou o relógio.
- Afirmou que se demoraria meia hora e não a excedeu. O Duce devia mandar-lhe uma medalha. Devia mandar uma medalha a todos nós.
Ergueu o braço numa saudação.
- Ah, professor!
Com um piscar de olhos dirigido a Júlia declarou:
- O senhor atrasou-se; professor.
E, ante a explosão de cólera do velho, desatou a rir.,
Em seguida, levaram o carnet ao gabinete da alfândega. Renato esperou que colocassem os selos Oficiais no documento; depois, entregou-o a Júlia e acompanhou-a
ao carro. Mille adormecera entretanto.
- Para onde se dirige agora? - perguntou Renato.
- Para Stresa. Passaremos aí a noite.
- Gostará de Stresa. Ficará no Grande Hotel das Borromejas?
- Sim. Já lá esteve?
- Eu? - Começou a rir. - Cara mia, sou um camponês. Mas é bonito, visto de fora... Como vós acrescentou ele, após um silêncio.
Renato abriu-lhe a porta do carro.
- Arrivedet, merci. Boa viagem.
..... Obrigada por tudo. Foi muito gentil.
- Tive muito prazer, creia.
- Uma vez mais obrigada.
- Prego.
- Adeus.
- Adeus.

Ela viu os quadros pela primeira vez num dos palácios onde se dirigira em gôndola com Mille. Este dia em Veneza estava brumoso, o céu suspenso sobre a cidade
como uma epiderme translúcida de um branco grisalho. Por trás, o sol lançava uma luz regular sobre o baldaquim e criava revérberos ofuscantes sobre as casas e sobre
a água. Tinha-se a impressão de que ia romper a qualquer momento. Mas, ao aproximar-se a tarde, o céu tomou um tom cinzento ameaçador. No instante em que desceram
da gôndola começou a chover. Correram para se abrigarem num edifício. Uma figura de bronze, representando uma criança, acolheu-as sob o arco de entrada, uma estátua
encantadora numa pose angélica. os seus órgãos sexuais estavam polidos pelas mãos de inúmeros turistas, como se tivessem visto apenes um talismã. Júlia sorriu ao
passar diante da estátua e notou que Mille se voltara para a mirar com um olhar de embaraço.
Os quadros encontravam-se no terceiro andar. Todas as personagens, homens e mulheres, tinham máscaras. Júlia pensou a princípio que se tratava de uma espécie
de baile, de um Carnaval do século xiv. E depois pensou que talvez Veneza tivesse sido, em determinada época, invadida pela peste e que as máscaras haviam constituído
uma espécie de protecção contra a epidemia. Mas o guia explicou-lhe o significado delas. Ela não ficou convencida da veracidade da explicação; contudo, esta fixou
uma ideia na sua mente. O guia contou a Júlia e a Mille que naqueles tempos se desenrolavam em Veneza numerosas intrigas e que se encontravam com bastante frequência,
de manhã, corpos de nobres, de garganta cortada, flutuando nos canais. A fim de se precaverem contra o assassínio e toda a espécie de perigos, os gentis-homens tomaram
o hábito de enviar à cidade os seus servos vestidos com os seus próprios trajos e trazendo máscaras brancas para dissimular as feições. O objectivo das máscaras
era, assim, induzir em erro os eventuais assassinos. Ninguém desejava mergulhar a sua adaga na garganta de um presumível conde para descobrir por fim que se tratava
de um cunhado empregado na cozinha do nobre. Mas além das máscaras foram adoptadas muitas outras medidas, originalmente, por necessidade; elas tornaram-se populares
e conheceram uma espécie de voga curiosa. As mulheres começaram a usá-las como parte dos costumes quotidianos, e as máscaras tornaram-se mais ornadas, decoradas
com pérolas e pedras preciosas, os dominós ocultaram os olhos e o nariz, a cidade encheu-se de súbito de cidadãos sem rosto.
A ideia destas máscaras apaixonou Júlia.
Pela primeira vez na sua vida começou a perguntar-se o que era exactamente, nobre dama ou serva disfarçada, e perguntou-se se a máscara dissimulava o verdadeiro
rosto ou era o próprio rosto.
Jamais formulara perguntas deste género. Deixara há muito tempo de proceder a exames de consciência: era a seus olhos um expediente romanesco particularmente detestável;
com efeito, há bastante tempo que cessara de se interessar por tudo o que era literatura romanesca, porque não encontrava aí coisa alguma que a ajudasse a compreender-se
melhor, sob o seu duplo aspecto de esposa e de mãe. Havia coisas que Júlia aceitava, outras que recusava aceitar, e sempre acreditara que a sua liberdade de escolha
constituía o próprio tecido da sua vida. Mas começava agora a perguntar-se se a sua liberdade não seria senão a segurança de um animal selvagem cativo. Era inegável
que se sentia diferente na Itália. Não podia dizer com honestidade que se tivesse transformado de algum modo, porque não conseguia verificar nenhuma alteração tangível,
nem sentia qualquer modificação interior essencial. Parecia-lhe que agia e pensava sempre da mesma maneira. Todavia, havia uma diferença. Uma máscara fora baixada
ou talvez erguida. Não sabia qual destas duas coisas sucedera, e a incerteza era embaraçadora. Para Júlia sempre existira o verdadeiro e o falso. Ela sempre soubera
exactamente distinguir os dois aspectos e conduzira a sua vida em conformidade com eles, certa da constância destas normas. Eis que se dirigia agora perguntas.
Sabia que era atraente. Disso não tinha dúvida alguma. Soubera-o já em menina, quando examinava gravemente a sua imagem no grande espelho do quarto de sua mãe.
Olhava-se no espelho, tocava a ponta do nariz, as pálpebras, as franjas espessas dos cílios, os longos cabelos castanhos e sedosos. Os adultos gostavam de mirá-la,
isso também Júlia Stark sabia. Ela jogava com a sua beleza infantil. Chegava por vezes a sujar-se voluntâriamente a fim de poder entrar em casa com o rosto e o vestuário
manchados para que estas nódoas imprevistas realçassem a surpreendente delicadeza das suas feições e do seu corpo. Ao crescer, a Providência colocou-se uma vez mais
do seu lado. A princípio, sentiu-se terrivelmente assustada pelo brusco desenvolvimento dos seios. Ela mirava por longo tempo ao espelho esta súbita floração do
peito, aflorava-os com um dedo curioso, atemorizado, fascinado, ao mesmo tempo, apaixonada como se encontrava pelo crescimento das boas-noites que plantara no jardim
de sua mãe. Este medo, esta fascinação, cederam o lugar ao prazer e à gratidão. Examinava-se agora com um sentido critico, lançava os ombros para trás para melhor
se maravilhar com os contornos dos seios. E por vezes, de noite, na intimidade do leito, acariciava-se com encantamento, e murmurava fervorosos os reconhecimentos
por este desabrochar generoso. As suas companheiras de escola mostravam menos entusiasmo por esta beleza que florescia. Ela era já bastante bonita para não necessitar
de vantagens supérfluas, que considerava injustas. A prova mais penosa que Júlia teve de suportar foram o seu ciúme dissimulado e o seu evidente desdém. Não fazia
caso dos olhares dos rapazes. Deu um bofetão magistral a um que ousou tocá-la, mas a curiosidade compreensível deste primeiro admirador não despertou em si nenhum
pensamento sensual. Os seus seios constituíam simplesmente uma nova parte do seu corpo e ela não gostava que os tocassem, mesmo que se tratasse apenas de um desejo
de exploração científica. Pediu à sua mãe que a levasse a Talmadge à casa de modas do Sr. Kanen e a mãe ajudou-a a escolher um soutien. Ainda se recordava de tal
facto. Era de algodão branco e tinha dificuldade em o acolchetar pelas costas.
Sim, decerto que se sabia atraente. Esta convicção era um dos factores indiscutíveis e determinantes da existência de Júlia. Servia-se inconscientemente da sua
beleza, como o fazem a maior parte das mulheres bonitas. Mas servia-se dela. Aprendera na adolescência que uma mulher bonita se pode tirar mais fàcilmente de dificuldades
que uma mulher sem beleza. Mas jamais utilizou os seus encantos de uma maneira flagrante, jamais se mostrou afrontosamente coquette - até ao dia em que conheceu
Arthur Regan. Com os outros rapazes conservava uma espécie de dignidade distante que se tornava por vezes exasperadora. Ela era, muito naturalmente, uma das jovens
mais populares de Talmadge e, desde os 16 anos, idade em que lhe foi permitido sair, nunca teve dificuldade em encontrar um companheiro nas noites de fim-de-semana.
Existia em Jújia uma certa imprudência, uma tinta de inconformismo, um abandono sob a aparência de pureza, que pareciam conter uma promessa de aventura. Quando decidia
beijar um rapaz - o que era bastante raro -,fazia-o com um ardor que o arrepiava. Este, para Júlia Stark era outro princípio da existência. Quando tinha vontade
de beijar um rapaz, beijava-o com prazer e testemunhava-lhe este prazer. De outro modo, não o beijava. Jamais tivera remorsos por deixar um companheiro na soleira
da porta com um aperto de mão e um sorriso. Estava convencida de que sômente a sua presença, sem dúvida agradável, era uma recompensa suficiente para alguém que
a convidava. Se se deviam conceder vantagens suplementares, era a Júlia e apenas a ela que cabia decidir. Se um rapaz se mostrava ousado, se procurava forçar os
seus favores, Júlia esbofeteava-o sem demora. Descobrira que uma boa bofetada constituía um notável calmante. A maior parte dos jovens não ousavam afrontar a cólera
de Júlia. Eles saíam com ela porque a sua companhia era agradável e lisonjeira. E se ela se recusava a beijá-los eles guardavam a esperança - e a esperança alimentava
decerto projectos mais ambiciosos - de que um dia, sim, um dia talvez, Júlia lhes ofereceria os lábios, Júlia lhes permitiria abrir a blusa, levantar a saia, de
que um dia Júlia...
Tais esperanças eram na sua maior parte feitas das ilusões com que são tecidos os sonhos.
Ela beijava, sim, era coisa que todos sabiam. Passavam-se notícias dos seus beijos, como se fossem segredos internacionais, entre os raros eleitos. Os lábios, diziam,
já sentiste alguma vez uns mais doces? A boca, afirmavam, ela beija com toda a boca. Os dentes, declaravam, ela mordisca os lábios, a língua, é de nos pôr loucos.
Mas eles nada mais podiam acrescentar, porque jamais se verificara outra coisa. Os jovens de Talmadge haviam, de cabeça baixa, aceitado outra verdade incontestável
da vida de Júlia: não era uma rapariga fácil, não gostava da promiscuidade e sabia sem a menor dúvida, sem a mínima hesitação, que o homem com quem casasse seria
o primeiro e o único que jamais a possuiria.
Compreendeu bem depressa que Arthur Regan ia representar na sua vida um papel de primeiro plano. Arthur não tinha, segundo parecia, nada de notável, a não ser os
seus dotes artísticos. Estudante do 6.o ano, era o director artístico do magazine do colégio e fazia desenhos humoristicos para o Talnadge Courier, o jornal mais
importante da cidade. No colégio possuia a reputação de uma celebridade. Conhecia perfeitamente os seus talentos e ouvia, com calma segurança, predizerem-lhe que
faria uma bela carreira. No aspecto físico, não tinha nada de apreciável. Júlia conhecera decerto rapazes muito mais belos do que ele. Os seus cabelos lisos eram
de um louro baço. As suas sobrancelhas pareciam perpêtuamente franzidas por cima dos olhos, de uma cor indecisa, e o nariz era demasiado grande para o rosto estreito.
Mas, após o primeiro olhar, Júlia sentiu-se estranhamente atraída e, pela primeira vez na sua vida, decidiu, sem o minímo rebuço, seduzir um homem.
Claro, a palavra "sedução" jamais lhe penetrou no espírito. Recusava-se mesmo a admitir, no íntimo do seu coração, que alimentava um projecto de qualquer natureza
em relação ao director artístico do magazine. Preferia acreditar que apenas o acaso e um concurso de circunstâncias se encontravam na origem do que se passava. Ao
fim de um certo tempo, estes encontros acidentais, cuidadosamente preparados, tornaram-se "factos" para Júlia, que esqueceu por completo que passara noites inteiras
desperta a fim de urdir novos meios de atrair o jovem Arthur.
As escaramuças preliminares serviram apenas para fazer de Júlia uma presença mais constante no espírito de Arthur. Este não era belo, uma coisa que talvez soubesse,
mas extraira da sua celebridade uma atitude de extrema segurança, de maneira que falava e se conduzia como se fosse belo, como se aqueles que preferiam acreditar
na evidência dos seus próprios olhos fossem candidatos certos ao manicómio. Ele sabia, sem dúvida, que Júlia Stark era a mais linda rapariga do colégio, e sabia
também que, por qualquer razão absurda e fantástica, ela fazia todo o possível para atrair a sua atenção. E, embora estivesse convencido de que um dia iria longe,
o único lugar onde tinha vontade de se encontrar nessa altura era aquele em que pudesse estar só com Júlia.
Como dois jogadores de xadrez que acabam finalmente por decidir fazer os primeiros lances, após se terem estudado por longo tempo um ao outro e ao tabuleiro, Júlia
e Arthur encetaram a partida... Cada um de seu lado, tinham ambos resolvido jogar o talento artístico de Arthur. _
"- Disseram-me que você desenha muito bem", disse Júlia.
"- É verdade", reconheceu Arthur.
"- Gostaria de fazer o meu retrato, um destes dias?"
"- Porque o hei-de fazer?"
"- Pensei que talvez lhe desse prazer".
"- Bem, veremos", - volveu prudentemente Arthur.
"- Não acha que serei um bom modelo?", - perguntou Júlia, com certa presunção.
"- Talvez. Mas parece-me que é difícil que mantenha por muito tempo uma pose."
"- Gostaria de tentar", disse ela sem pudor, "se você quiser."
"- Pensarei no caso", respondeu Arthur com certa secura.
"- Creio que nos voltaremos a ver."
"- Penso também que sim", volveu Arthur num tom negligente.
Porém, quando a deixou, o coração pulsava-lhe com violência.
Começou a posar na quinta-feira da semana seguinte. Estava-se na Primavera, e Talmadge era banhada por mil torrentes de eflúvios fragrantes. As brisas, que
afloravam as copas das árvores, traziam os murmúrios de um longinquo Cathay, as nuvens enfunavam-se com todas as seivas da paixão, ela tinha 16 anos, ele 17, o universo
reverdecia, o mundo abria-se diante deles, era bom viver, olhar, tocar. Dirigiram-se ao santuário das aves, à saída da cidade; depois de levantarem a tranqueta da
alta paliçada, passaram defronte da cabana do guarda e meteram por uma das áleas secretas. Atravessaram, sobre pequenas e toscas pontes de madeira, cursos de água
acabados de libertar da sua prisão de gelo, viram elevar-se bruscamente da folhagem, como um clarão de fogo, um tangará vermelho, oúviram um chilreio amoroso que
se extinguiu à medida que penetravam entre o arvoredo denso. Descobriram uma clareira secreta, um oval de erva cercado de pinheiros. Escutaram o canto do vento nas
árvores, um vento de doce murmúrio, o suspiro, a exalação da Primavera. Sentiam-se timidos na presença da natureza, ficaram silenciosos, moviam-se lentamente, receosos
de perturbar esta calma, evitaram-se os olhos como em presença de uma divindade. Júlia sentou-se numa pedra. Pousou os livros, juntou em volta das pernas as pregas
da saia e ergueu o queixo. Os cabelos esparziam-se-lhe sobre as costas. Ela olhava, sentado diante dela, o caderno de esboços aberto no regaço, o lápis suspenso.
"- Bem", disse Júlia. "Comece."
"- Procuro por onde começar."
"- Não é a mesma coisa para todas as pessoas?"
"- Não, gosto de encontrar a chave de um rosto e começar por aí."
"- E qual é a chave do meu, Arthur?"
"- A boca, ou talvez os olhos", acrescentou com vivacidade.
"- Ou possivelmente o nariz..."
"- Sim, pode ser."
Ele começou um rápido esboço, depois outro. Os esboços não eram, na verdade, muito bons. Tentava capturar cada um dos traços da jovem separadamente, mas o conjunto
não se harmonizava para formar o rosto de Júlia Stark.
"- Estão magníficos", disse ela. "Arthur, você tem realmente muito talento."
"-- Posso fazer bem melhor. Isto não se parece consigo, Júlia."
"- Mas como me vê, Arthur?"
A princípio, ele hesitou. Não queria falar da beleza dela, pois, para Júlia, era decerto um assunto cediço. Contudo, não podia mentir, as provas ali estavam, evidentes
tanto para ele como para ela:
Júlia sabia que era bela. De súbito, no espaço de um segundo, as suas relações encontraram-se no plano da estrita honestidade. E nesse instante Júlia Stark apaixonou-se
por Arthur Regan. Ela mal escutava o que ele dizia, pois sabia tudo de cor, as palavras faziam parte de uma litania familiar. Mas ele ergueu lentamente a cabeça,
encontrou os olhos da jovem. Era o momento em que lutava consigo mesmo, e o seu rosto traduzia esta luta - a mentira ou a verdade? Decidiu-se a favor da verdade
e disse com muita doçura:
"- Você é a rapariga mais linda que já vi, Júlia." Ela não exigiu outra coisa, não se mostrou presumida ou distante, não disse: "- Bonita, eu? Como?" Ofereceu-lhe
um olhar honesto e volveu:
"- Obrigada, Arthur."
Ele ergueu-se lentamente. O mundo, nesse dia, rodava num vagaroso movimento de adolescente. Avançou para ela, estendeu uma das suas mãos finas, tomou-lhe o queixo,
baixou o rosto ao nível do dela, os seus lábios encontraram os de Júlia. Doce, delicadamente, beijou a boca da jovem. Foi um beijo sem paixão, um acto físico que
nada continha de físico, menos um beijo do que a troca de duas fés, um selo de verdade. Afastaram-se um do outro, abalados. até às suas raízes. Separaram-se ainda
com a mesma absurda lentidão. Parecia que o contacto dos seus lábios lhes trouxera uma visão mais aguda, destacavam-se com uma luminosa precisão na paisagem. Todo
o universo parecera reluzir quando as suas bocas se apartaram e eles se afastaram um do outro, fitando-se sem nada se dizerem. O mais imperceptível som teria quebrado
este cristal, destruído esta Primavera, calcado esta juventude. Eles tinham trocado um beijo sincero, eram muito jovens para apreciar a sua qualidade rara, mas sabiam
que acabavam de conhecer uma experiência excepcional e que, talvez mais nada de semelhante aconteceria enquanto vivessem.
Ela acabou por esquecer por completo este dia. Tinha outros cuidados com que ocupar a mente. Havia toda esta história de amar e de ser amado, todo este mecanismo
da paixão que, sem cessar, tinha necessidade de ser verificado, reparado. Havia projectos, muitos projectos. Arthur partiu para Nova Iorque e ela para a Universidade
de Connecticut; foi preciso sincronizar o emprego do tempo, combinar os dias e os lugares dos seus encontros amorosos, decidir o anúncio do noivado. Depois seguiu-se
o casamento, o primeiro emprego de Arthur, uma casa alugada em Talmadge. Oh, sim, ela esquecera esse dia. Com efeito, não era necessário que se recordasse. Amava
Arthur, as suas maneiras tranquilas, a morigeração gradual da sua personalidade, a energia comunicativa, a imaginação que trazia ao seu trabalho, o fervor com que
falava da arte e o seu papel na publicidade. Amava a casa para onde tinham ido residir, parte da velha herança dos Regans, que seria deles quando morresse a mãe
de Arthur, o imóvel com uma imensidão de salas a descobrir, o vasto relvado, o loureiro selvagem que, em cada ano, enchia o horizonte de rosas e de brancos subtis.
Viam-se, da velha casa dos Regans, as flechas da Universidade. Júlia, por vezes, ficava só, numa das divisões das traseiras, e seguia com a vista a colina alcantilada,
a cidade estendida a seus pés, os contornos brumosos dos edifícios do colégio, ao longe, e sentia-se então em perfeito acordo consigo mesma, com a vida que fizera
com Arthur.
O nascimento de David em nada alterou o ritmo certo da sua existência. A criança trazia um novo facto a juntar às realidades admitidas. Havia coisas que ela aceitava
e coisas que se recusava a aceitar. Arthur, David, a sua própria beleza, a casa, a actividade frenética de Arthur, o crescimento regular da criança, a cidade: tudo
isto eram realidades. Ela recusava-se a acreditar na morte. Quando a mãe de Arthur faleceu e a casa e os 200 acres de terra se tornaram propriedade do jovem casal,
Júlia não quis associar esta súbita prosperidade ao acontecimento que a propiciara. A morte, ela recusava-se simplesmente a admiti-la. Do mesmo modo, recusou reconhecer
qualquer realidade à guerra de Espanha ou a Adolfo Hitler. Sabia que tal ou tal acontecimento se produzia, ou se produzira, lia os grandes títulos dos jornais, compreendia
o significado do que se passava, mas, para o seu espírito, estes acontecimentos não tomavam a consistência de factos reais, continuavam simples manifestações de
um mundo imaginário, formas vagas que não faziam parte da existência bem ordenada de Júlia Regan. Não acreditava na infidelidade e não escutava os mexericos referentes
a este ou àquele dos seus concidadãos. Estava convencida de que era a única razão de viver de Arthur - o jovem afirmara-o muitas vezes - e aceitava esta certeza
sem por isso se sentir superior a ele: as coisas eram assim, eis tudo. Ela própria constituía o centro de um universo governado por um grupo escolhido de factos
inabaláveis, o único árbitro, o único juiz, o único censor do que era real e do que o não era. Sentia que o espaço, na sua vida, era limitado: tanto para dar e tanto
para receber, tanto para amar e tanto para ser amada, tanto para crer. Não tinha nem tempo nem espaço para mais. Acreditava-se incapaz de outra coisa.
E eis que se encontrava na Itália.
E eis que, inopinadament, se surpreendia a reagir como jamais reagira. Excepto uma vez, talvez, no dia da clareira silenciosa e do sol, no dia do chilrear de um
pássaro solitário e do odor dos pinheiros. Era uma memória vaga.
E não que se tratasse simplesmente de um despertar ante o que a cercava. Tinha desejo de absorver tudo o que via, tudo o que escutava, tudo o que sentia. Algo se
passara no decurso da excursão através dos Alpes e da magnífica descida ao longo do vale do Ródano, até Brig. Foi a mesma Júlia Regan que de ceu do comboio em Domodossola,
mas uma Júlia Regan de certo modo depurada. Um véu fora retirado dos seus olhos, os seus ouvidos tinham sido abertos, a sua língua despertava para novos sabores,
os seus dedos exploravam superfícies desconhecidas, a terra povoara-se de súbito de possibilidades apaixonantes que ela nunca antes considerara. Quis transformá-las
em factos, catalogá-las, mas eram muitas, e a estrita fronteira que separava o real e o imaginário, o muro inabalável da incredulidade, começou a ruir. Tudo era
real, tudo era verosímil, tudo era novo e se oferecia à sua descoberta, à sua avidez. Excepto, paradoxalmente, as bases da sua existência normal, que jamais pusera
em dúvida. Os únicos elementos irreais, aos olhos de Júlia, pareciam ser agora os que até ao presente considerara como factos fundamentais: a sua vida em Talmadge,
o marido e o filho.
Não se sentia culpada.
Conhecia um novo nascimento, com olhos brilhantes, pele lisa e macia, mãos inquiridoras. Escutara sons novos, falava uma linguagem nova e tudo, tudo era harmonioso.

O médico veneziano fazia parte deste mundo feérico que súbitamente se revestira com as roupagens plausíveis da realidade. Noutro tempo, noutro lugar, o médico teria
sido rejeitado sem demora, recusado como uma fantasia da sua imaginação. Mas ele fez a sua aparição no quarto do hotel como se tivesse sempre existido, e, apesar
da febre e das náuseas, Júlia experimentou uma sensação de alegria. Acontecia agora qualquer coisa de novo. Nas suas faces pálidas, os olhos começaram a brilhar.
Ela esperava, de respiração suspensa.
Sabia o que a apoquentava: era a moléstia comum à maior parte dos turistas. Não devia ter bebido água nem saboreado com tal abandono as comidas desconhecidas que
lhe tentaram os olhos e o paladar. Procurava persuadir Mille de que não existia motivo para inquietações, mas Mille - que passara toda a sua vida sob a vigilância
de especialistas - insistiu em que se chamasse um médico. O hotel prometera enviar um dentro de meia hora.
E ei-lo. Júlia reteve a respiração ao vê-lo entrar no quarto. Uma alegria secreta espelhava-se no seu rosto, acendia-lhe um brilho novo nos olhos. Ele era um homem
alto e magro e um pouco calvo. Trazia um fato de seda cinzenta e uma gravata atroz. Uma pequena mala negra pendia-lhe da mão direita. Mal ultrapassou a soleira da
porta, uniu os calcanhares e inclinou-se, em primeiro lugar diante de Mille, depois diante de Júlia, que, estendida no leito, tinha as cobertas puxadas até ao queixo.
Os olhos do médico perscrutaram o rosto da doente. Em seguida, a cabeça inclinou-se-lhe de súbito sobre o ombro, como se lhe tivesse faltado o suporte dos ossos
e dos músculos; uma expressão trágica fez-lhe baixar os cantos da boca, as pálpebras, o ângulo dos olhos; curvou-se ligeiramente, dobrou um braço pelo cotovelo e,
a mão aberta numa espécie de muda súplica, aproximou-se do leito.
- Oh, minha senhora! - disse ele em inglês, numa voz trémula. Junto da cama, ergueu a mão de Júlia até aos lábios e, num gesto rápido, depôs nela um beijo furtivo.
Sem largar a mão, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, debruçado sobre Júlia, a mesma máscara trágica no rosto, cada músculo do corpo exprimindo simpatia,
compaixão e uma gentileza vivamente continental.
- Oh, minha senhora, estou desolado. Não se sente bem?
- Eu...
- Oh, minha senhora - disse num tom compreensivo.
E colocou-lhe um termómetro na boca. Júlia sufocou o riso. Mille lançou-lhe um olhar reprovador.
O médico ergueu-se de súbito, aproximou-se de Mille e perguntou:
- Ela está doente há muito tempo?
- Desde esta manhã - volveu Mille.
- Tch, tch, tch - fez o médic lançando a Júlia um olhar lúgubre antes de voltar para Mille toda a sua atenta simpatia.
- Ela vomita?
- Sim.
- Evacua?
- Sim.
- Tch, tch, tch - fez o médico.
E voltou de novo para junto do leito. Com a perícia de um esgrimista desembainhando uma espada, retirou o termómetro da boca de Júlia, examinou-o, soltou um profundo
suspiro, inclinou a cabeça, colocou o termómetro na pequena mala, pousou esta junto da cadeira, sentou-se, afastou o lençol que cobria Júlia e pegou-lhe numa das
mãos pelo pulso. Durante um momento, Mille pareceu chocada. Depois deu-se conta de que a irmã trazia uma longa camisa de noite que a cobria até aos artelhos. Entretanto,
Júlia perguntou-se porque fora preciso que ele afastasse o lençol para lhe tomar o pulso. Porém, contemplava o médico com uma mescla de prazer e de impaciencia,
como uma criança diante de um mágico, e não quereria, nem por um império, interromper a cerimónia.
- Devemos seguir viagem para Bolonha amanhã - disse Mille.
- Tch, tch, tch - fez o médico.
Sacudiu a cabeça, deixou tombar o punho de Júlia e, de súbito, apanhou a camisa de noite pela bainha e subiu-a bem por cima dos seios. Júlia estava demasiado estupefacta
para conseguir falar. Mille sufocou uma espécie de pequeno grito animal e ficou, imóvel, de boca aberta, a observar o médico. Com viva naturalidade, ele pousou a
cabeça no peito de Júlia e começou a escutar. Ela compreendeu de pronto que o homem era o seu próprio estetoscópio e quase desatou a rir. O crânio calvo manteve-se
colado ao seu seio direito por um bom minuto, e durante todo este tempo ela lutou para reprimir a sua hilaridade, receosa de que os seus estrénuos esforços convulsivos
o induzissem a pensar que se achava em face de uma epiléptica. Ele ergueu a cabeça com um gesto rápido, baixou a camisa de noite num só movimento breve do pulso,
sem sequer olhar para Júlia; em seguida, levantou-lhe de novo a mão, que conteve entre as suas como um tio afectuoso; uma expressão de absoluta serenidade atravessou-lhe
o rosto, a expressão mais suave que Júlia jamais surpreendera no rosto de um homem, consoladora, encorajante, compassiva, tranquilizadora, a expressão que deviam
ter os anjos.
- Minha senhora, não é nada que inspire cuidados.
Deixou tombar abruptamente a mão de Júlia e começou a redigir uma receita.
- De que se trata? - perguntou Mille. - Que tem ela?
- Un distúrbio de estômago. Ela come, ela bebe... - Encolheu os ombros. - Ficará bem. Prometo!
O médico apoiou as palavras com uma inclinação enérgica da cabeça.
- Podemos partir amanhã para Bolonha?
- Amanhã, não. Depois de amanhã. Prometo!
- Mas...
- Prometo!
Voltou-se uma vez mais para o leito.
- Oh, minha senhora, estou bastante desolado. Mas ficará bem.
Sentou-se de novo ao lado da cama e ergueu a mão de Júlia. A máscara trágica reapareceu.
- Oh, pobre senhora, pobre senhora, sente-se mal? Não se sente bem? Tch, tch, tch.
Júlia lutava desesperadamente para não deixar explodir o riso; mordia os lábios, sentia o ventre dorido devido ao esforço para se conter. O médico levantou-se.
- Deixarei a receita na recepção para que a mandem aviar.
Agitou o papel a fim de secar a tinta.
- Um comprimido de três em três horas!
Uniu os calcanhares e inclinou-se diante do leito onde se encontrava Júlia. Uniu os calcanhares e inclinou-se diante de Mille. Depois retesou-se e esperou.
- Qiuanto lhe devemos? - perguntou Mille.
- Cento e setenta liras - volveu ele num tom indiferente. - É tudo.
Mille preencheu um cheque na importância de dez dólares, o médico inclinou-se de novo, dirigiu-se para a porta, deteve-se e disse:
- Se sobrevier algum contratempo, é favor mandarem-me chamar, mas ficará bem. Um comprimido de três em três horas. - Novo unir de calcanhares. - Minha senhora -
disse, num tom cortante.
Um breve sorriso, semitrágico. Abriu a porta e desapareceu.
Mal a porta se fechou, Júlia foi possuída por um acesso de riso convulsivo.
- Júlia, ele é um louco! ....... - disse Mille.
- Oh, Mille, é maravilhoso! Oh, Mille, tenho de ir à casa de banho! Oh, Mille, sinto-me tão, tão feliz!

Em Bolonha, comeram no Pappagallo, um restaurante que lhes havia sido calorosamente recomendado antes de partirem dos Estados Unidos. As paredes da sala estavam
cobertas de fotografias de 4 celebridades americanas; segundo todas as aparências, cada vez que uma vedeta americana atravessava o continente detinha-se aí para
saborear as iguarias e posar com o chefe da cozinha. Júlia recebera do médico - que a voltara a ver ainda uma vez em Veneza e se chamava Guidobuono - o conselho
de nada tomar a não ser bebidas e alimentos ligeiros. Mandou servir um caldo, spaghetti com molho de manteiga e uma chávena de chá. O criado fitou-a com um olhar
zombeteiro.
- Sim - disse ela. - É tudo.
O criado não encolheu os ombros, mas o seu rosto indicava com clareza que o fazia mentalmente. Na mesa vizinha, três italianos voltaram-se para fitarem Júlia e
a irmã e depois continuaram a refeição. Estas damas representavam, obviamente, três gerações de glutonaria transalpina. A avó era uma obesa matrona de peito abundante
e de cabelos grisalhos bem apertados e reunidos num carrapito. Vestida de negro, consumia, de momento, uma enorme porção de mínestrone. A mãe era uma mulher gorducha,
com cerca de 40 anos, de cabelos negros pendendo sobre os ombros, sem maquilhagem, e possuía um grande anel de diamantes na mão esquerda. Ela batia-se com duas dezenas
de ostras. A filha, uma jovem de 16 anos, seguia nas pisadas da avó; não perdera ainda as suas formas rechonchudas de bebé, mas adquiria já uma nova camada de adiposidade
adulta. Trazia um vestido de algodão e uma fita nos longos cabelos negros. Comia com a delicadeza de um motorista de camião, esventrando a truta pousada no seu prato
e colocando os pedaços na boca como se esperasse que il D'uce declarasse uma greve da fome nesse domingo. Estas damas, calculava Júlia, eram verdadeiras glutonas.
Estas damas procediam de uma longa linhagem de glutões e tinham a intenção evidente de a prosseguirem indefinidamente. Elas mal conversavam. De olhos fixos nas iguarias
que iam diminuindo nos pratos, e de mãos ágeis, accionavam as mandíbulas, dilaceravam com fúria a comida, mastigavam-na com desembaraço. Uma vez por outra, lançavam
a Júlia um olhar de suspeita. Quando o criado trouxe o caldo e o colocou diante de Júlia, elas as três ao mesmo tempo cessaram a mastigação. -A avó, a mãe, a filha,
voltaram a cabeça com um movimento semelhante, a fim de fitarem o prato de Júlia. Depois, todas à uma, tornaram aos pratos de truta que acabavam de lhes ser servidos
e continuaram o repasto com um vigor renovado, como se o triste espectáculo do menu de Júlia reforçasse em cada uma delas uma resolução firme.
Os olhares de suspeita tornaram-se quase hostis à medida que a refeição decorria. A chama ardente dos seus olhos negros percorria a distância entre as duas mesas.
Os ruídos de avidez continuavam a subir da mesa das três italianas. Júlia, por seu lado, mal tocara no spaghetti e bebera apenas uma chávena de chá. Mille, que mandara
servir um menu completo, estava inquieta em relação à irmã e não fazia honra às iguarias colocadas diante de si. As italianas, apoquentadas devido ao que Mille deixava
perder achavam-se absolutamente escandalizadas pela falta de apetite de Júlia. Não saberia ela onde se encontrava? Ignorava que este restaurante era um dos melhores
da Europa? Como podiam menosprezar estas oferendas culinárias? De que eram feitas estas americanas?
Começaram a palrar entre si enquanto consumiam as doçarias e bebiam. Erguiam as sobrancelhas, rasgavam a boca, agitavam dedos expressivos. Sem entender tudo o que
diziam, Júlia compreendia, pelas poucas palavras que conseguia apanhar, que as italianas a faziam objecto da conversa. "Que vão para o Diabo!", pensou. "Não existe
lei alguma na itália que exija que uma convalescente se empanturre de comida." Quando se ergueu para se dirigir ao toilette lançou um olhar glacial para a mesa vizinha.
As italianas seguiram-na com a vista, concordando entre si que ela era um pouco magra porque comia como um passarinho, e sacudiram a cabeça simultâneamente ao considerarem
a indigência das suas nádegas.
Quando Júlia voltou à mesa, as três gerações de damas italianas volveram-lhe um sorriso radiante. Surpreendida, sorriu também. As três mulheres sacudiram a cabeça,
os sorrisos alargaram-se, descobrindo dentes faiscantes como lâminas. Avó, mãe e filha, todas espelhavam uma aprovação sem mácula.
Quando se dirigiam para o carro, Júlia perguntou:
- Que originou aquela transformação, Mille?
- Qual?
- Na mesa vizinha.
- Oh, elas inquietaram-se por ti, Júlia. Porque não comeste nada.
- Sim, isso sei eu.
- Então, pediram ao criado que se informasse. Ele falava um pouco inglês e eu expliquei-lhe que tinhas adoecido em Veneza. Um incómodo gástrico.
- Ele compreendeu-te?
- Oh, sim, muito bem. Servi-me das mãos, decerto, mas entendeu-me. Traduziu as minhas explicações às italianas. Afirmou-lhes que tu estavas incinta. Foi então que
as mulheres começaram a sacudir a cabeça, sorrindo. Sobretudo a mais idosa. Parece que ela própria sofreu de um incómodo gástrico em Veneza.
- Então, tanto melhor. Sinto-me contente por termos sido examinadas com êxito...
Júlia interrompeu-se bruscamente.
- Que é que eu tive em Veneza?
- Incinta. É assim que se pronuncia? Estou certa de que foi o que ele lhes afirmou. Ele bateu no ventre ao dizer incinta. Sim, Júlia.
- Oh, Mille!
- Que é, querida?
- Oh, Mille - repetiu ela, rindo. - O criado declarou-lhes que eu fora engravidada em Veneza!
- Bem - volveu Mille com filosofia -, a velha dama também.

10 de Agosto de 1938

Querido Arthur.

Chegámos ontem aos Abruzos, após termos passado a manhã em Roma, a fim de seguirmos para Áquila e para a villa que alugámos. A localização da vivenda é bastante
mais impressionante do que se nos afigurava quando observámos as fotografias que nos enviou a agência de viagens. Se te recordas, Arthur, pareceu-nos que a casa
estava situada sobre um terreno relativamente plano no alto de uma colina. Mas, com efeito, acha-se incrustada no flanco da montanha, sobre uma ampla plataforma,
e atingimla depois de percorrermos uma estrada sinuosa e escarpada.
Temos um jardim magnífico, agora em plena floração e, se bem compreendi, continuará florido até meados de Outubro. Do jardim contempla-se uma vista inacreditável,
de suspender a respiração. Pode observar-se por quilómetros e quilómetros. O ar é tão puro, tão claro, que OS objectos mais longínquos parecem encontrar-se ao alcance
da mão. Fomos acolhidas pelo pessoal que nos prometera a agência. Temos uma cozinheira, uma criada de quarto e um motorista-jardineiro. Que luxo! Eles chamam-se,
respectivamente, Lúcia, Ana e Giorgio. Lúcia é uma magnífica cozinheira e não permite que nem eu nem Mille nos intrometamos nos seus domínios. Ocupa-se das compras
- pelo menos, esta manhã fê-las para toda a semana. Suspeito que se entende, de uma maneira que desconheço com o merceeiro local, mas a conta não é exagerada e é
um alivio saber que se encarrega destas minudências. Ana, a criada de quarto, é uma rapariga de 18 anos, um pouco indolente, com uma boca magnífica e olhos sonhadores.
O namorado está na tropa, algures na Etiópia, creio, e fala constantemente dele a quem a quer ouvir. Felizmente para a Milíje, sou eu a única que compreende italiano;
assim, beneficiei já de uma série de monólogos referentes ao rapaz da Ana. Giorgio, esse, é um homem taciturno, que deve contar cerca de 60 anos. O cabelo e o bigode
tem-nos brancos, e fuma esses pequenos cigarros torcidos, de um cheiro abominável, mas sabe bem do seu oficio. Já se encontrava no jardim ás 7 oras desta manhã e
não o deixou antes das 7 da noite. Informou-me, em poucas palavras, que é um motorista especializado e ficará feliz por me conduzir a Roma sempre que eu o deseje.
Volvi-lhe que preferia guiar eu própria, mas que era possível que a Mille tivesse de recorrer aos seus preciosos serviços.
Roma, Arthur, é uma cidade fantástica. Mesmo o som do seu nome me enche de emoção. Roma! Quase nem consigo acreditar! Uma cidade fabulosa, toda ouro e branco, um'a
cidade no' meio de cidades, uma cidade sob outras cidades. Ontem segui o mesmo percurso que César tomava sempre que se dirigia ao Fórum. Senti em torno de mim as
sombras dos assassinos, e, por todo o lado, estes maravilhosos Italianos, cujos rostos são bem eloquentes. Voltarei muitas vezes a Roma. Estamos sômente a duas horas
de viagem da Cidade Eterna: o passeio é magnífico e tomo consciência do tempo, sinto-o escoar-se sob estas ruas, no próprio ar, sinto a história. Irei lá muitas
vezes.
Arthur, tudo está incrivelmente silencioso a esta hora. Não são ainda 10, a Mille acaba de se recolher e acho-me só, no jardim, com um candeeiro sobre a mesa. A
montanha adormecida encontra-se envolta no silêncio. Algures, muito longe, vejo luzes. Roma? Impossível! Mas as maiores das luzes mais próximas já se extinguiram
há bastante tempo e eu tenho a impressão de flutuar em pleno' céu, absolutamente livre, e um pouco embriagada. É difícil habituarmo-nos a este ar. Porém, tem feito'
maravilhas à Mille, mesmo no' escasso tempo em que cá nos encontramos. Segundo me parece, vai ajudar muito a sua saúde. Veremos.
A carta que me enviaste para o Daniell, em Veneza, foi reexpedida para aqui e esperava-me quando cá chegámos ontem. Decerto que sinto saudades tuas, querido, é
necessário perguntares-me? o David, o querido David? Oh, Arthur, a tua carta entristeceu-me tanto! Imagino-vos os dois errando como almas penadas nessa grande casa.
Tenho vontade de chorar, Arthur, crê que te amo, que sinto saudades de vós ambos e que regressarei na data prometida. Penso constantemente em ti e no David. Nem
um só minuto passo que não estejam presentes no meu espírito. Aqui, no jardim silencioso, onde 'o meu candeeiro é o único ponto luminoso em toda a montanha, aqui,
neste círculo de luz amarela, sinto-me terrívelmente só e com mais saudades vossas do que nunca. Mas em Janeiro... ah, ainda está tão longe! Entretanto,

Amo-te,

Júlia.

Não viu Renato antes da sua terceira visita a Roma. Ele estava, sentado a uma mesa no terraço de um café da Piazza Barberini e bebia um vermute, o bivaque de polícia
enfiado na dragona do ombro, os olhos fixos na outra extremidade da praça. O sol iluminava-lhe os cabelos, as mãos amplas pousadas na mesa à sua frente. Júlia descia
a Via Sistina, no seu passo desembaraçado, e, a princípio, Renato pensou que se tratava apenas de uma bela jovem cuja silhueta se recortava no sol. Depois notou
que era uma americana, devido aos óculos escuros, ao trajar, ao passo altivo, ao porte soberano que caracterizam as americanas na Europa. Viu-lhe por fim o rosto
e reconheceu-a: observou-a a descer a rua sem que ela se apercebesse ainda da sua presença. Esta contemplação secreta deu-lhe prazer. Sentado de mãos pousadas sobre
a mesa, ele mirava-a, apreciava a maneira como as pernas de Júlia traziam o corpo, o movimento vivo da cabeça, tão feminino, a fim de olhar as casas; era uma turista,
uma excursionista, mas, como por magia, outra coisa também. Um leve sorriso lhe aflorou aos lábios.
Renato chamou-a apenas quando ela se encontrava quase rente à mesa. Se não se lhe dirigisse, ela teria passado sem o notar. Júlia caminhava, com uma concentração
intensa, decidida a nada deixar escapar ao longo de um percurso que a conduzia, segundo toda a evidência, a um objectivo determinado. O terraço do café nada possuía
que atraísse a atenção:
era um local que os turistas não frequentavam, um ponto de reunião dos indígenas, onde os copos eram generosamente servidos e a cozinha preparada sem cuidados, com
paladares estrangeiros. Ela ia passar diante de Renato sem sequer lhe lançar um olhar fugidio, quando ele lhe pronunciou o nome.
-Júlia... - chamou, com doçura.
Ela deteve-se e voltou-se, surpresa. Lançou os olhos, a princípio, para uma outra mesa, procurando situar a voz. Um sorriso perplexo, impaciente, fez-lhe subir
os cantos dos lábios. Mas não viu ninguém que conhecesse.
- Júlia... - repetiu ele, e, desta vez, afastou a cadeira e ergueu-se.
Ela olhou na direção da mesa, voltou ligeiramente a cabeça e lobrigou-o de pronto. Com um gesto vivo, retirou os óculos escuros e sacudiu os cabelos castanhos.
Ele convidou-a com um sinal a aproximar-se da mesa. Júlia hesitou. Renato surpreendeu-lhe esta hesitação nos olhos. Teve por um momento a impressão de que Júlia
ia apenas saudá-lo com a mão, colocar os óculos e prosseguir o passeio. Com todo o rosto, exprimiu uma pergunta. Ela respondeu com um rápido gesto de aprovação feito
com a cabeça e aproximou-se. Renato sentiu-se contente por ela se lhe dirigir em italiano.
- Olá! Que surpresa!
- Sim. Quer sentar-se?
- Bem, eu... estou com um pouco de pressa.
- Tem tempo de tomar um aperitivo.
- Penso que sim.
Renato fez avançar uma cadeira. De novo ela pareceu hesitar. Depois sentou-se e retirou as luvas. Júlia não o fitou, enquanto tirava dedo após dedo. Pousou em seguida
as luvas sobre a mesa, perto da bolsa e dos óculos. Trazia um vestido branco de linho, os cabelos flutuavam nos ombros. Não se maquilhara. O nariz luzia, as faces
estavam coradas, os lábios nus.
- Esqueceu o meu nome - disse ele.
- Não. Não, Renato - volveu ela, sorrindo.
- É Júlia.
- Sim. É Júlia.
- Que deseja, Júlia?
- Perdão, que...?
- Que deseja beber?
- Oh, o mesmo.
- Vermute?
- Sim.
- Já almoçou?
- Não. Pensei que...
- Bom. Então almoçaremos juntos.
- Não, é impossível.
- Porquê?
- Desejo ir ao Coliseu.
- Cara - disse ele -, o Coliseu encontra-se no mesmo local há dois mil anos. E ainda lá se encontrará depois do almoço.
Renato deu um estalido com os dedos para chamar o criado e mandou vir um vermute. Júlia, calada, tinha as mãos cruzadas sobre a mesa.
- Há alguma coisa que não corre bem? - perguntou ele.
- Não.
- Parece... - Encolheu os ombros. - Inquieta.
- Não.
- Preferia não almoçar comigo?
- Sim - volveu ela com franqueza.
- Mas seria ridículo.
- Não o conheço. Encontrámo-nos na montanha.
- E também em Domodossola. Não esqueça Domodossola - redarguiu ele com um rápido sorriso.
- Não. Jamais esquecerei Domodossola.
Ela baixou de novo os olhos. Mirou as mãos.
- Então, como vê, nada existe de menos correcto. Podemos almoçar juntos. Somos quase velhos amigos.
- É verdade. Mas não o conheço.
- E se esperarmos conhecer-nos antes de almoçarmos juntos, envelheceremos incapazes de apreciar o que é bom. - Começou a rir. - Os Americanos insistem sempre em
conhecer as pessoas. E que benefícios traz este conhecimento?
- Suponho que os Americanos são...
- Demais, é impossível conhecer-se jamais outra pessoa.
- Não penso da mesma maneira.
- É impossível - replicou ele num tom firme.
- Isso significa simplesmente que não quer que o conheçam.
Renato fitou-a com admiração.
- Talvez seja verdade... Vê como me conhece já muito bem?... - acrescentou ele com um sorriso.
- Não, de modo algum.
- Bem, havemos de nos conhecer melhor.
Ela não respondeu. O criado trouxe o copo. Júlia levou-o aos lábios e bebeu um gole.
- Hum... Ébom.
- Não pôs baton - disse ele, examinando-lhe a boca.
- Não. Desagrada-lhe?
- Acho muito natural.
- As Romanas não arranjam a cara com muito esmero. Tenho receio de me fazer notada.
- Em Roma - disse ele, sorrindo de novo.
- Está sempre a troçar de mim, não é verdade?
- A troçar de si? - Alteou as sobrancelhas. - Cara, a troçar de si? - repetiu.
- Sim. Tenho a impressão de que me acha estúpida e... e um pouco tonta, sem dúvida, e que o divirto bastante.
- Bem, é preciso que explique. Trata-se da minha cara.
-A sua cara?
- Sim. Desde a infância que ela me causa embaraços. Vê os meus olhos?
- Sim.
- São um pouco oblíquos. Com efeito, há quem suspeite que o meu pai era chinês.
- Está a brincar.
- Sim. Mas não é menos verdade que tenho os olhos oblíquos. E a minha boca tambem se arreganha levemente. Como vê, tudo isto me dá uma expressão de perpétua zombaria,
mesmo quando estou sério. É terrível, pode crer. Os homens batem-me, as mulheres evitam-me, pois todos acreditam que rio à sua custa. Peço-lhe que me perdoe por
ter uma cara tão estúpida, mas nada posso remediar.
Ele desatou a rir, os olhos oblíquos, os lábios arreganhados. Júlia fitava-o. Riu também e disse:
- Não, não se trata da sua cara, mas de outra coisa, algo interior. Seja franco comigo, Renato.
- Muito bem. Vou ser absolutamente franco. Não me diverte. De modo algum. Fascina-me, e é esta fascinação que se revela na minha cara. Não me posso impedir de sorrir
quando me encontro na sua presença. Eis a verdade.
Júlia sacudiu a cabeça e baixou de novo os olhos.
- E como sempre - prosseguiu Renato -, a verdade que se exige torna-se embaraçadora no momento em que é revelada.
- Sim, sinto-me embaraçada - admitiu ela.
- Porquê?
- Porque... porque o que me disse me deu prazer.
- Assim, ficou embaraçada. Ah, estes americanos!
- Dir-se-ia, ao ouvi-lo, que conhece muitos americanos.
- Não, não muitos.
- Mulheres? - perguntou ela, e lamentou imediatamente esta interrogação.
O sorriso abandonou o rosto de Renato. Ele fitou-a em silêncio durante um longo momento. Depois volveu:
- Júlia, não sinto desejo de representar como os Americanos. Não me agradam perguntas veladas nem respostas evasivas. Já temos muita mentira em Roma. Não a aumentemos.
- Perdoe-me - disse ela, sem querer erguer os olhos. - Creio que... que tenho medo.
- De mim?
Ela respondeu com um gesto.
- Sou um homem simples - disse ele com doçura.
Júlia conservou os olhos pousados na mesa. Com uma voz surda, declarou:
- Tenho-o procurado. É a terceira vez que venho a Roma. Em cada uma delas procurei-o.
- Não tem mais necessidade de o fazer - disse Renato.

Uma cidade é sômente pedra, madeira e vidro até que se é amado nela. Júlia Regan, em 1938, identificou-se com Roma como jamais acontecera quanto a outro lugar.
Tudo, na cidade, era romântico aos seus olhos. Sim, as artimanhas romanescas como a Fonte de Trevi, os degraus da Praça de Espanha e a Igreja de Santa Maria Maior,
onde, segundo a tradição, nevava, pelo tecto aberto, em pleno Verão, a majestade da Capela Sistina e a flamejante severidade do monumento a Vítor Manuel, todos estes
lugares de peregrinação tradicionais para os turistas pareciam ter sido inventados, criados, para exclusivo prazer de Júlia. Melhor ainda, o romanesco encontrava-se
por todo o lado, na cidade. E Renato, que amava a um tempo a mulher e a cidade, exibia uma e outra e não cessava de as adular a ambas.
Os gatos.
Ela dizia de si para si que, decerto, os gatos nada possuíam que fosse particularmente romanesco, nem de presença nem de hábitos. Porém, um dia, Renato afirmou-lhe
que Roma continha mais gatos do que qualquer outra cidade do mundo, e, de súbito, a descoberta de cada novo gato tornou-se um acontecimento, carregado da emoção
que só um segredo podia possuir. Os gatos de Roma eram o seu segredo. Encontravam-se por todo o lado. Gatos verdadeiros vagabundeavam por todas as ruelas, esgaravatavam
os monturos, passeavam-se confortâvelmente reclinados nas capotas dos tâxis negros, erravam pelas margens sinuosas do Tibre, uivavam à Lua no triângulo formado pela
Via Sistina e pela Viale Trinità dei Monti, faziam parada ao longo das escadarias e da Via Condotti como velhas efectuando as suas compras; gatos às riscas, gordos
gatos alaranjados, gatos persas, gatos negros, que era preferível evitar, um gato siamês instalado na vitrina de uma ourivesaria ao lado de um relógio de sala com
mostrador de jade bem trabalhado, e um gato de uma magreza arrepiante, na Via Giovani, que se pavoneou quando Renato lhe ofereceu uma fina fatia de salame. Gatos
autênticos, de todas as formas e feitios, que surgiam como por magia sempre que eles atravessavam uma rua ou dobravam a esquina de outra. Gatos esculpidos em frisos
nos edifícios, gatos nos quadros das galerias que eles visitavam, o gato familiar de Violetta, na representação ao ar livre de La Traviata, a que assistiram nas
termas de Caracala: o gordo angora começara subitamente a cantar um dueto com a soprano, gemendo para as estrelas e para o crescente da Lua; a sua voz, mais desesperada
do que a da cantora, desencadeara um riso louco ao público italiano, uma autêntica tempestade; porém, a dado momento, a diva avançou até à beira do palco, bateu
o pé, fez parar a orquestra e reduziu a audiência ao silêncio com um olhar mais frio que a noite romana de Setembro.
Os gatos de Roma, a cor de Roma: a cor dos longos degraus lisos que luziam como lingotes de ouro sob o amarelo fuliginoso do céu, o vermelho oxidado das casas aglomeradas,
com os seus velhos tijolos que manchavam os dedos, os encarnados e os azuis brilhantes dos sinais de circulação, os verdes explosivos dos trofleys, o cinzento luzente
e húmido das fontes e o tom de um amarelo esverdeado que a água depunha na pedra; a cor pontuada pelos "camisas negras" que se viam por todo o lado, pela farda azul-negra
dos agentes de tráfego, o branco dos seus cinturões e correias, o negro faiscante dos táxis, o branco dos sapatos de salto alto, a radiosidade do algodão amarelo
de que se vestiam as jovens, o verde-azeitona do uniforme de Renato.
Os gatos, a cor e a vida que brotavam da cidade como as sementes de um melão bem maduro. A Via Balbino e a pequena rua que nela desembocava, cheia de talhos e de
mercearias; os talhantes, instalados como num trono, no fundo das suas lojas, atrás de cabelos castanhos da mulher espalhados na relva tão verde como a sua saia.
Ela manchara a saia, nesse dia, a saia branca plicada. A mão de Renato sobre a saia, a mão castanha que esfregava a mancha, e a outra mão sob a saia, os dedos pousados
com firmeza na coxa. Ela manchara a saia e estremecia com o afluxo de 'um novo desejo que sentia ao sol ardente e dourado. Ele beijou-a de novo.

O quarto estava situado numa pequena rua que partia da Via Arenilla, dominando o rio e a ilha de Tiberina. Havia um leito no quarto, uma cómoda e uma lâmpada nua,
que envolveram num saco de papel cor-de-rosa. Em Setembro sentia-se no quarto uma frescura agradável. Mais tarde, no Inverno, compraram um calorífero de petróleo,
que colocavam ao lado da cama enquanto se apertavam um contra o outro sob dois pesados cobertores. Mas em Setembro o quarto era de uma deliciosa frescura. Para se
defenderem do sol, baixavam os estores da única janela.
O quarto achava-se quase sempre mergulhado na sombra. Ela recordar-se-ia do quarto como se de um reduto secreto, escuro, povoado de sombras. Recordá-lo-ia bruscamente
iluminado quando Renato subia os estores, o sol recortando de ouro o corpo nu do amante, e depois projectando-se na cama, donde ela o contemplava. Recordaria este
quarto como uma parte essencial da sua vida, e a memória continuaria a perturbá-la no devir. O quarto nada tinha de notável a não ser o facto de que ela o partilhava
com Renato. Uma cama, uma cómoda, uma lâmpada envolta num saco de papel. Um quarto sórdido que a presença de Renato transformava ao ponto de o fazer desaparecer
inteiramente, de suprimir as quatro paredes que o fechavam. O próprio quarto não detinha significado algum, e, contudo, o que eles aí faziam, o que eles aí murmuravam,
o que os fazia rir ou questionar, pareciam-lhe serem os únicos elementos verdadeiramente importantes da sua vida. O quarto era pequeno, encerrava-os estreitamente,
mas jamais os continha. Todavia, isolava-os do resto do mundo. Para Júlia e Renato as paredes não existiam.
Neste pequeno quarto apenas se exprimiam em italiano. Ela pronunciava as palavras que não se teria atrevido a proferir na sua língua materna, que não proferiria
a Júlia Regan que sempre conhecera. Aprendeu o italiano vulgar com uma facilidade notável. Aprendeu neste quarto que Renato era um verdadeiro camponês, que podia
ter, sempre que o desejava, as grandes mãos brutais de um camponês e o vocabulário de um camponês. A sua linguagem excitava Júlia. Ela jamais soubera em que momento
o seu encanto fácil se transformaria em bestial obscenidade, as suas mãos acariciantes se tornariam súbitamente cruéis. Ele ensinara-lhe palavras que ela jamais
pronunciaria em inglês e achara que se aplicavam melhor ao amor tal como o praticavam. Se as proferisse em inglês, decoraria sem dúvida; em italiano, as palavras
que murmurava, que por vezes gritava numa voz impaciente, não faziam senão estimulá-la mais. Sentira-se frequentemente uma cadela, mas nunca experimentara vergonha.
De um modo bastante singular, começara a compreender, sempre que nisso pensava a sangue-frio, que o seu amor por Renato e o dele por ela fazia nascer e alimentava
talvez as suas relações físicas, mas não tinha, na realidade, grande coisa que ver com o prazer que daí provinha. Reconhecia que o amava e que, sem isso, não se
teria jamais deitado com ele. Mas partia deste facto para trazer aos seus amplexos um talento recém-descoberto da jovem fácil, e uma linguagem de sarjeta. Não sentia
necessidade de dizer a Renato: Amame", quando queria exprimir qualquer coisa bem diferente, qualquer coisa do mais elementar. Sabia que ele a amava e semelhante
eufemismo teria exigido algo que ele dava em cada olhar. Nem ela escolheria dizer: "Faz-me amor", porque, para si, tal expressão subentenderia uma fabricação, uma
construção, a frase "fare a l'amore" significava fabricar amor, construir amor, e não havia necessidade do seu uso; demais, implicava uma espécie de egoismo: faz
amor para mim, mais do que uma troca, uma dádiva mútua de amor. Não, preferia uma palavra que Renato e ela tinham adoptado, uma palavra formada de uma expressão
que o amante aprendera no exército. Esta expressão nada tinha de poético. Era mesmo, provàvelmente, vulgar e grosseira; baseava-se no verbo "chiavare", meter a chave,
usada no sentido comum de introduzir uma chave numa fechadura para se abrir uma porta: "Si sono fatti una beUa chiavata." Mas haviam feito dela uso poético, tomaram
o verbo e utilizaram-no como nenhum jamais o usaria: "Chiaviamoci" diziam eles, abre-me, entra em mim, abramo-nos um ao outro.
Abertos um ao outro, fechados nos braços um do outro. Falavam depois em murmúrios. A chave entrava na fechadura, dava uma volta, abria a fechadura, e o amor, em
seguida, encontrava a sua voz: não em imagens floridas e sentimentais, mas em trocas, na aparência sem importância, sem significado, de pensamentos, de impressões,
de lembranças, logo compreendidas, imediatamente partilhadas, confiscadas, a tal ponto que deixava de ser o enlace de dois corpos para se tornar o contacto de dois
espíritos, donde cada um extraía recompensa e enriquecimento. Estava entendido que este quarto era, em princípio, para os prazeres do amor, mas a mais preciosa riqueza
que nele partilhavam era a troca do que era mais importante para ambos, as coisas que jamais diriam a outro ser humano.
Ela aprendeu a pouco e pouco a importância que tinha para Renato, e talvez para todos os italianos, embora nunca pusesse o amante no mesmo nível dos rostos anónimos
com quem cruzava na rua, o conceito de família. Renato era Renato, um ser inimitável, inverosímil, miraculosamente seu. Com a cabeça apoiada na almofada, as mãos
ruzadas atrás da nuca, ele contava-lhe a sua infância com uma alegria tão espontânea que ela o beijou um dia a meio de uma frase. Ele calou-se, fitou-a com um olhar
surpreendido e disse somente:
- Porquê?
- Porque te amo.
- Não. Diz-me: porquê?
- Porque de súbito comecei a amar o teu primo Mário, também. E a tua irmã Francesca. Vais apresentar-me a Francesca? Ela vive em Roma, afirmaste. Poderei conhecê-la?
- Es uma mulher estranha.
- Mesmo para ti?
- Não, de modo algum. Quero dizer: curiosa.
- Oh, sim, sou curiosa. Quero conhecer-te inteiramente. Quero aprender-te todas as faces.
- Tesoro, pára com isso - protestou ele, rindo.
- Desejei apenas dizer que não és como as outras.
- Oh, sim, fala-me mais.
- Não há mais nada que dizer. Não és de modo algum como as outras.
- Mas como? Não te deixarei calar antes que me expliques.
- Então, jamais te direi.
- Diz-me, coccint.
- És sensível, inventiva, apaixonada, excitante, muito bela e... satisfazes-me inteiramente.
- E americana.
- Sim. Também americana.
- Isso é importante para ti, não é verdade?
- Sim. Muito importante.
- Mas porquê? Supõe que eu era russa? Arménia?
- Quero que sejas americana. E é-lo.
- Para poderes dizer aos teus amigos do Exército que dormiste com uma americana? - perguntou ela, num tom de gracejo.
- Sim, exactamente. Se contar tal coisa, promover-me-ão a sargento.
- Apenas a sargento? Pensava que uma americana valia mais.
- Tenente, então. Ou capitão. Ou talvez, com uma americana como tu...
- Sim, sim, fala-me de uma americana como eu - disse ela, sorrindo.
Ele desatou a rir.
- És uma criatura vá, Júlia.
- Eu sei. E isso aborrece-te? - perguntou ela com um ar sério.
- Não. És apenas vá porque és bela. Jamais encontrei uma mulher sem beleza que fosse vá...
- Tu também és belo.
- Oh, sim.
- Repara como és belo. Bello, bellissimo, repara, Renato.
- Falava-te do meu primo Mário.
- Ora, não importa o teu primo Mário. Ele não é tão belo como tu. Homem algum é tão belo como tu. Repara, és feito de pedra, és uma estátua de mármore.
- O meu primo Mário...
- Queres, na verdade, falar do teu primo Mário?
- Sim. Gosto muito do Mário.
- Eu também. Queres falar dele?
- Sim.
- Oh, eu sei que não é verdade.
- Júlia, quando digo...
- Então sê franco: queres?
- Júlia...
- Renato?
- Sim, minha querida?
- Chiavmoct - murmurou ela.

A Piazza Venezia fora invadida por milhares de pessoas que brandiam grosseiras caricaturas e bandeirolas escritas à mão. Homens com os uniformes dos "camisas negras"
marchavam em pequenos grupos cerrados no centro do Corso Umberto e dirigiam-se para a praça. Os estudantes da Universidade de Roma tinham abandonado os anfiteatros
e, reunidos em bandos ruidosos, faziam parada através da cidade, desfilaram diante do Consulado dos Estados Unidos, na Via Vittorio Veneto, tomando à sua conta o
frenesi que se desencadeara na véspera na Câmara dos Deputados para reinvindicar os direitos da Itália sobre a Córsega, Nice, Sabóia e' Tunísia. De camisas e blusas
negras, de lenços de seda multicores negligentemente atados à volta do pescoço, investiram contra a Embaixada de França, tentaram romper as barragens de carbinieri
e convergiram por fim para a praça onde se encontrava o balcão de il Duce, ornamentado com a bandeira italiana e com -a bandeira fascista, e onde Renato 'e Júlia
tentavam abrir caminho no meio da multidão que os esmagava.
Comprimida entre todos estes corpos inundados de transpiração, Júlia ergueu os olhos para o balcão, notou o microfone que esperava il Duce e sentiu na atmosfera
uma corrente de excitação muito diferente da que experimentava habitualmente junto de Renato. Havia em redor dela homens com fatos e bonés esfiapados, mulheres com
vestidos de trazer por casa e casacos de lá lançados sobre os ombros, estudantes com gorros de cores garridas cobertos de insígnias - "11 Gruppo Universitário -
Fascista", explicou Renato -, vendedores de gelados e, por cima de tudo isto, uma corrente magnética. "Era sem dúvida assim quando César falava ao povo da antiga
Roma", pensava Júlia, "era sem dúvida assim."
A multidão começou a bradar: "Duce! Duce! Duce! Duce!"
Os homens traziam bandeiras ilustradas com o retrato de il Duce, o desenho familiar, a preto e branco, que baixava o olhar sobre todos do alto das paredes vagas
da nação, o chefe com o seu capacete -decorado com uma águia negra, as dragonas nos ombros, o queixo brutal, os olhos enegrecidos pela sombra do capacete, a boca
cerrada e sensual; sob o desenho, as palavras CREDERE, OBBEDIRE, MBATTERE. A multidão ruidosa agitava-se na praça; os "camisas negras" começaram a aplaudir e os
aplausos ganharam o resto da turba; todos os rostos, todos os olhares se voltaram para o balcão. "Duce! Duce! Duce! Duce!", bradava a multidão. E, de súbito, ele
surgiu. Uma tumultuosa aclamação acolheu-o, os aplausos desencadearam uma vaga de frenesi. Os gritos aturdiam Júlia. Colocou as mãos sobre os ouvidos e apenas as
retirou quando lhe pareceu que o chefe ia falar. Ele trazia o uniforme de cabo de honra da milícia dos "camisas negras". Um boné de campanha descaía-lhe arrogantemente
sobre a fronte. Ergueu os braços e a multidão ficou silenciosa. Uma só voz, de um "camisa negra", gritou:
"Duce! Duce!", e calou-se.
- Oficiais - começou ele -, subofici ais, soldados, "camisas negras", povo de Roma...
A sua voz foi abafada por uma torrente de aclamações.
- Tunísia! - bramou um grupo de estudantes.
- Córsega! - gritou outro grupo, do lado oposto da praça.
- Sabóia!
Il Duce ergueu as mãos e a praça mergulhou no silêncio. Debruçou-se sobre o microfone.
- Amanhã - disse ele -, nas planícies de Volturara, desfilarão diante de Sua Majestade Vítor Manuel, rei da Itália, imperador da Etiópia, mais de sessenta mil homens,
duzentos tanques, quatrocentas peças de artilharia pesada, três mil metralhadoras e duas mil e oitocentos viaturas blindadas. Esta reunião de homens e de armas é
imponente, mas não representa senão um total modesto, quase insignificante, em relação ao número de homens e de armas com que a Itália pode certamente contar.
"Convido os Italianos a crer com o coração neste meu testemunho. Não por causa da guerra de África, mas como consequência da guerra de África, todas as forças armadas
da Itália são hoje mais eficazes do que nunca. Podemos em qualquer momento, em algumas oras e após uma simples ordem, mobilizar oito milhões de homens. O povo italiano
deve saber que a sua paz interior será protegida e, com ela, a paz do mundo."
Os estudantes e os "camisas negras" estavam inquietos. Vinham aqui para escutar uma extensão da declaração de Ciano, saber se, sim ou não, a Itália ia na verdade
tentar fazer valer os seus direitos sobre territórios franceses ou se o alvoroço da véspera fora apenas uma encenação. Até ao presente, il Duce nada lhes dissera
de novo.
- Com a mais esmagadora das vitórias - prosseguiu il Duce -, numa das guerras mais justas, a Itália ia na verdade tentar fazer valer os seus direitos no território
imperial imenso e rico onde, durante numerosas décadas, poderá levar a cabo realizações que lhe permitem o seu labor e o seu talento criadores. Por esta razão, mas
sõmente por esta razão, rejeitamos o absurdo. de uma paz eterna, que é estranha à nossa fé e ao nosso temperamento.
- Bravo! - gritou uma voz; e depois outra: - Bravo! - E mais outra ainda: - Bravo! Bravo! Bravo! - E na praça ressoaram de novo aclamações frenéticas. Júlia fez
correr os olhos ao seu redor, subitamente amedrontada. Tomou o braço de Renato e murmurou:
- Ele acaba de dizer que vai haver guerra.
A sua voz interrogava. Sem responder, Renato dirigiu-lhe um pálido sorriso e acariciou a mão apoiada no seu braço.
- Desejamos viver em paz, por muito tempo, com todos - continuou il Duce. - Estamos firmemente decididos a oferecer uma contribuição concreta e duradoura quanto
à colaboração entre os povos. Mas após o fracasso catastrófico da conferência do desarmamento, perante a corrida aos armamentos que começa já e prosseguirá irresistivelmente.
e em face de certas situações políticas que se desenvolvem actualmente de uma maneira incerta, a ordem do dia para os Italianos..."
A sua voz crescia. Ele brandia o punho fechado diante do microfone.
- ... a ordem do dia para os Italianos, para os fascistas italianos, não pode ser outra que esta: Temos de ser fortes! Temos de ser cada vez mais fortes! Devemos
ser bastante fortes para fazer face a todas as eventualidades, para defrontar tudo o que nos surgir! A este princípio supremo deverá ser e será subordinada toda
a vida da Nação!
O grito começou como um baixo murmúrio de aprovação nas gargantas da turba. Ganhou volume e intensidade, ecoou como um trovão na praça, elevou-se para o balcão.
Agitaram-se flâmulas e bandeiras, os aplausos recomeçaram. Il Duce sorriu; pousou as mãos nos qadus e ergueu o queixo na sua pose caracteristica.
- Vamo-nos - disse Ren ato.
Tomou o braço de Júlia, e, em silêncio, abriram passagem através da multidão. O rosto de Renato tinha uma expressão perturbada. A amante lançou-lhe um olhar nervoso
e a mão dela crispou-se no seu braço. Atrás de si ouviam ainda a voz de il Duce:
- É o espírito da revolução dos "camisas negras", o espírito desta Itália, o espírito desta Itália populosa, vigilante e guerreira na terra, no mar e nos céus!
- Po'rca miseria! - murmurou Renato.
- .. quantos acontecimentos, quantos factos históricos, se desenrolaram nestes últimos doze meses! Eles foram ricos de acontecimentos cuja importância se faz sentir
hoje, mas se fará sentir ainda mais no decurso do tempo.
- Tenho medo, Renato - murmurou ela.
- Não. Não deixes o meu braço.
- Pergunto-vos - prosseguiu il Duce ao microfone - já regulámos as nossas antigas contas?
- Sim! - gritou a multidão. - Sim! Sim!
- E temos marchado de cabeça levantada e em frente até ao presente?
- Sim! Sim! Sim! Sim!
- Digo-vos - rugiu ele ao microfone -, prometo-vos, faremos o mesmo, amanhã e sempre!

Renato estava estendido na cama com as mãos juntas atrás da nuca. Tinha um pavor de inquietação nos olhos. Júlia contemplava-o e sentia desejo de o acariciar, consciente
do tormento do amante e perturbada por via dele, mal refeita ainda do que vira e escutara na varanda do Palazzo Venezia.
- O meu avô era alfaiate em Npoles - disse Renato -, quando eu era garoto, antes de nos mudarmos para Roma.
Não voltou a cabeça para fitar a amante. Mantinha as mãos cruzadas por trás da nuca, os olhos fixos no tecto, inquietos. A sua boca guardava um leve sorriso, não
o sorriso das reminiscências, não o sorriso que lhe bordava a boca quando falava com uma mulher.
- Era um homem muito alto, de cabelo branco e bigode branco, muito respeitado na cidade, excelente alfaiate. Ia trabalhar todas as manhãs vestido com um fato completo.
Morava cerca da Via Roma, num bairro miserável, mas era um omem orgulhoso, e, quando se dirigia para o trabalho, cada manhã, -as pessoas, nas ruas, saudavam-no:
"Buon giorno, Signor Cristo", jamais "Giovanni", sempre "Signor", Sempre "Senhor Cristo". Ele era altamente respeitado, Júlia, e eu amava-o muito. Recordo-me ainda
como se sentiu ferido quando o meu pai lhe disse que não queria ser alfaiate, que desejava deixar Nápoles para ir amanhar a terra. Recordo-me da tristeza que cobriu
os olhos do meu avô. O oficio de alfaiate era para si uma arte, uma profissão das mais nobres. Quando eu era garoto, ele fazia-me todo o vestuário. Era o garoto
mais bem vestido de Nápoles, apesar de viver num bairro miserável. Todas as manhãs ele ia trabalhar e regressava à hora do almoço. A minha avó, Cristina, tinha a
refeição pronta, e em seguida ele dormia uma pequena sesta. Como sabes, hoje ainda se faz o mesmo. Depois voltava à oficina de alfaiataria e não entrava em casa
antes das oito da noite, por vezes mais tarde. Então comiam uma refeição ligeira. A refeição do meiodia é a mais importante na Itália. A minha avó era uma mher bastante
supersticiosa e fazia ocasionalmente o malocchio para as vizinhas. Não sabes o que isto significa? Favorita, a minha avó punha água num prato, e na água uma gota
de azeite, e em seguida, pela maneira como o azeite se dividia, podia afirmar se alguém da vizinhança lançara mau olhado sobre uma criança doente ou fazia que um
homem perdesse o emprego... Tolices, decerto. Tolices, apenas. Mas ela executava esta sorte como uma feiticeira - e sempre quando o meu avô se encontrava na oficina.
Efectuava também certas proezas com il tavolo a tre gambe, a mesa de três pés. Isso era também uma impostura, Júlia. Compreendes, ela servia-se da mesa para chamar
os mortos. Determinado número de mulheres sentavam-se em torno da mesa. A minha avó murmurava as suas encantações e dirigia-se a um morto, que lhe respondia com
um "sim" ou com um "não", fazendo bater uma ou duas vezes o pé da mesa no soalho. Chamar os mortos era considerado um pecado, mas a minha avó não tinha grande devoção
religiosa e servia-se com bastante frequência da mesa, mesmo quando o meu avô descobriu a coisa e lhe ordenou que terminasse com tais práticas. Compreendes, a mesa
trazia certa notoriedade à minha avó, no bairro miserável, situado por trás da Via Roma, uma certa popularidade, com efeito, suponho, um sentimento de poder. As
mulheres acercavam-se dela porque esperavam curar os seus males ao consultarem os mortos, que não conheciam mais nem emoções nem sofrimentos, e a minha avó era quem
detinha as respostas, pois sabia fazer falar a mesa.
Ora, um dia, o meu avô não pôde vir almoçar porque trabalhava numa obra que requeria rápida execução, uma encomenda de uniformes para o Exército, muito importante;
comeu um pedaço de pão com queijo na oficina e enviou a casa um garoto a fim de dizer a Cristina que lhe preparasse uma boa refeição nessa noite. Não voltou a casa
antes das nove horas, esfomeado e na expectativa de encontrar uma boa ceia na mesa. Mas não viu ceia alguma. Em vez disso, depararam-se-lhe três mulheres e Cristina,
sentadas em círculo, as mãos tocando-se, e, pelo menos, mais duas dúzias de mulheres, de pé, em redor da sala, escutando a minha avó, que recitava as fórmulas de
evocação dos mortos. Sem o notarem, o meu avô deteve-se na soleira da porta e escutou. Na verdade, experimentou, a principio, uma certa curiosidade. Foi apenas mais
tarde que se encolerizou. Da soleira da porta via a sua sopa, que fervia numa grande panela no fogão de madeira. Tinha bastante fome, mas continuou de pé, imóvel,
a escutar as encantações da minha avó. Em certo momento, ouviu dizer: "Escutas-nos, Carlo Stefano? Se nos escutas, queres bater uma vez?"
Um golpe no soalho, e todas as mulheres soltaram um grande "ahhhh" de aprovação, excepto uma, que disse à minha avó: "- Como sabemos que foi o Carlo Stefano que
bateu e não tu ou uma das mulheres que estão sentadas contigo?" Esta reflexão agradou muito ao meu avô, pois era exactamente a pergunta que ele formulara a si próprio,
de pé, na soleira da porta. Mas Cristina já se havia desembaraçado antes de impertinências deste género e sabia como tratar os cépticos.
"- Carlo Stefano", disse ela à mesa, "queres dar-nos um sinal com que proves que és realmente o Carlo Stefano ?" Uma pancada no soalho, o que significava que Carlo,
fosse lá quem fosse, respondera pela afirmativa. "- Queres fazer-nos conhecer a tua presença?", perguntou a minha avó; e de novo um golpe no soalho. "- Queres dar-nos
um sinal por intermédio de um objecto nesta sala?", inquiriu Cristina; e a mesa respondeu uma vez mais "sim".
O meu avô começou a impacientar-se. Começou também a perguntar-se se a sopa não iria queimar-se, no fogão. Cruzou os braços e apoiou-se na ombreira da porta; o
odór do caldo subia-lhe às narinas, o estômago manifestava-se com ruidos surdos. A minha avó disse à mesa: "- Queres dar-nos um sinal por intermédio da vassoura?
A mesa respondeu com dois golpes. Não. "- Queres dar-nos um sinal por intermédio das cortinas?" Não ainda. "- Por intermédio do cântaro?" Não. - Por intermédio da
colher de pau?" Não. A minha avó começava a ver que os objectos rareavam quando o seu olhar pousou no Fidélio. O Fidélio era um gato de viela que o meu avô encontrara
diante da oficina, em Nápoles. Uma noite passara-lhe um cordão em torno do pescoço e trouxera-o para casa, onde o animal se instalara; encontrávamo-lo geralmente
a dormir na escarpa da chaminé, e foi aí que o olhar da minha avó o lobrigou.
"- Queres dar-nos um sinal por intermédio do gato Fidélio.?", perguntou ela. E, na sala, todos os olhos se voltaram para o preguiçoso bichano adormecido. Houve
um longo silêncio. A mesa não queria responder nem sim nem não. O meu avô esperava. Todas as mulheres esperavam. Impaciente, Cristina repetiu, num tom mais firme
desta vez: "- Queres dar-nos um sinal por intermédio do gato Fidélio, que dorme na escarpa da chaminé?"
De novo houve um silêncio. Depois, a mesa bateu no soalho. Uma vez. A mesa respondera. Sim! Carlo Stefano respondera: Sim! Todos os olhos se fixaram no gato. E
súbitamente, como se algo o perturbasse no seu sono, como se fosse mordido por um insecto, como se perdesse o equilíbrio, não importa qual o motivo, o gato soltou
um horrível grito agudo, deu um pulo no ar e tombou no solo, o pêlo eriçado, a cauda rígida. E, Júlia, minha querida, isso foi apenas o principio. As mulheres tinham
o sinal que esperavam. Carlo Stefano pronunciara-se, dramática, espectacularmente, e as mulheres sentadas em torno da mesa abandonaram de súbito as suas cadeiras,
voltaram a mesa, precipitaram-se para as que estavam de pé ao longo da parede, todas gritando a plenos pulmões. E por fim, na sua louca impaciência de sair desta
sala que se enchera súbitamente com a presença da morte, por fim, para grande horror do meu avô, ainda de pé na soleira da porta, uma destas mulheres histéricas
avançou para o fogão e lançou por terra a grande panela da sopa!
"- Idiota!", gritou o meu avô, da soleira da porta. Penetrou na sala com um passo decidido e foi direito à chaminé. Pegou na machada, dirigiu-se para a mesa de
três pés e atirou-se a ela com tal cólera, com tal fúria, que a minha avó não pôde fazer outra coisa senão olhá-lo em silêncio, enquanto as lascas da madeira saltavam
em redor de si. O meu avô deu cabo da mesa. Era um homem doce, um alfaiate, mas fez aquela mesa em fanicos como se durante toda a sua vida tivesse abatido árvores.
E disse à minha avó que, se ela comprasse outra mesa de três pés, se tornasse a ver uma vez mais aquelas megeras na sua casa, se encontrasse, ao regressar, a sopa
ainda no fogão, era para ela que volveria a machada, e tratá-la-ia como tratara a mesa.
Renato voltou-se para Júlia. Retirou uma das mãos de trás da nuca e acariciou o queixo da amante; depois fitou-a bem nos olhos, com ar grave, e disse:
- Vês, minha querida Júlia, temos alguém na Itália, neste momento, que representa com mesas de três pés, que evoca as defuntas legiões de Roma, que murmura as suas
encantações em benefício de velhas crédulas. Mas não existem mais homens que manejam a machada. E mesmo que existissem... Júlia, Júlia querida, o meu avô já destruíra
bastante tarde a mesa, não vês? A panela da sopa fora já lançada por terra.

Ela soube pouco depois do dia em que il Duce falou na Piazza Venezia. Todos os indícios se revelaram com clareza, todos os sintomas. Compreendeu exactamente o que
significavam. Traduziu-os com exactidão e disse de si para si: "Não não é possível." Não obstante, reconheceu a verdade, e contudo recusou enfrentá-la. Il Duce fizera
o seu discurso no dia 30 de Novembro, ela consultara o calendário antes de deixar a villa de Áquila para se reunir a Renato. Estava-se agora em 5 de Dezembro, e
todas as suas dúvidas, todos os seus temores, pareciam cristalizar-se na carta de Arthur que anunciava a sua chegada e a de David a Itália, onde passariam o Natal.
"Ele aperceber-se-á", pensou Júlia. "Ele terá de olhar e de ver, e todo o meu universo tombará por terra. Estou certa de que se aperceberá do que eu sei, do que
suspeitei somente em Novembro, mas de que tenho agora a certeza. Ele não é estúpido. Ele aperceber-se-a."
Júlia não queria deixar a Itália.
Mas se Arthur compreendesse o que havia, e ele não era estúpido, que exigiria? Ela não podia deixar a Itália, deixar Renato, não presentemente, não ainda. E depois,
quando tudo terminasse, pois que tudo terminava sempre, era inevitável, que faria então? Para onde iria?
"Oh, Renato, Renato", gritava. Mas não lhe disse das suas dúvidas e dos seus temores. "Temos tempo", pensava. "Há sempre tempo."
Eles chegaram à villa de Áquila dois dias antes do Natal. Ela esperava-os no jardim. Trazia um vestido amarelo e um chapéu de palha de abas largas e lançara um
casaco de malha sobre os ombros. Ao vê-los, os seus olhos encheram-se de lágrimas. Não porque sentisse que os reconhecia; não, não era verdade; possuía agora outro
universo, e esse não albergava Arthur Regan nem o seu filho de 14 anos, que a abraçara, o seu filho magro e desajeitado, com um rosto coberto de borbulhas.
- Começas a tornar-te homem, David - disse ela.
O rapaz corou e volveu:
- Candidatei-me à equipa de handball da escola, mamã.
Ela apertou-o contra si, chorando. Mas isto so' mente porque ele lhe era um estranho. Sômente porque dois estranhos tinham entrado no jardim da villa, e acolheu-os
com a afeição bem imitada de uma esposa e de uma mãe. Mas nada sentiu, pois que para si existia uma vida nova agora, uma vida nova.
- Olá, Júlia! - disse Arthur. Tinha um ar embaraçado; As partidas e os regressos embaraçavam-no sempre. Tomou-a nos seus braços. Ela nada sentiu pelo marido; sim,
uma certa simpatia, porque ele estava embaraçado devido a esta súbita reunião. Mas nada mais. O marido disse, com acanhamento:
- Estás redonda como uma perdiz, Júlia. Roma tem-te feito bem.
Foi somente então que, sob o embaraço, reconheceu a alegria. Fitou-o mais de perto. Sentia uma extrema impressão de perda, ao pensar em tudo que tinham conhecido
juntos, partilhado ambos, e que se encontrava por assim dizer reduzido a nada por Renato e pelo seu amor por ele. Pensou que é bem triste que o amor seja tão exclusivo,
que o amor alimente e ao mesmo tempo mate. Por pouco que não comunicou em voz alta este pensamento a Arthur. Pela força do hábito, após tantos anos passados junto
do homem que conhecia quase desde a sua infância, por pouco que não exprimiu os seus pensamentos, para esperar, em seguida, o movimento da sua cabeça, o olhar pensativo,
a resposta reflectida, dada numa voz lenta. Por pouco que não lhe falou num mundo que não lhe pertencia.
- Tens comido bem? - perguntou ela.
- Sim. O teu parecer é óptimo, Júlia.
- Quem se tem ocupado de ti, meu querido? - perguntou. Queria sabê-lo. Acariciou com ternura o rosto do marido. Achava-se confusa nesse momento, tomada por uma
afeição diferente daquela que sentia por Renato e, contudo, indubitàvelmente calorosa.
- A Sra. Donovan tem-se encarregado da casa.
- Ela cozinha bem.
- Sim.
- Iremos a Roma, mamã? - perguntou David.
- Sim, meu querido.
- Mamã, no mesmo barco vinha um jogador dos New York Yankees!
- Formidável. Que tal a viagem, boa? Algum contratempo?
- A travessia foi muito longa Júlia.
- Entrem - disse ela. - Não querem entrar?
Até à chegada de Arthur e de David, Júlia não soubera se Mille suspeitava ou não da sua ligação com Renato. Mas inopinadamente compreendeu. Não conseguira ludibriar
a irmã. As suas frequentes visitas a Roma haviam sido notadas. Mille sabia, mas dava a impressão de ter concluído um acordo tácito consigo própria. Observava Júlia,
escutava-a e deixava-se guiar pela irmã; não tomava iniciativa alguma. Nessa noite sentaram-se todos na sala de estar, cujo piso era revestido de mosaicos. As luzes,
na montanha, extinguiram-se uma a uma. David fora a breve trecho deitar-se, entre as ofertas de serviços do pessoal, e os três adultos tomaram o seu espresso enquanto
miravam a montanha adormecida. Arthur perguntou:
- Como se sente, Mille?
- Bastante melhor - volveu a cunhada, lançando um vivo olhar para a irmã, como se procurasse a sua aprovação.
- O ar é maravilhoso aqui, Arthur - disse Júlia. Não notaste a diferença?
- É verdade - respondeu ele. - maravilhoso... Quando pensas...? - acrescentou sorrindo. - Estamos já em Dezembro, como sabes.
- Sim - retorquiu Júlia. - Mas...
- Nós pensamos ficar até... - começou a Mille.
- ... até Abril - interveio Júlia vivamente.
- Abril? - repetiu Arthur, franzindo as sobrancelhas. - Cria que voltássemos juntos, Júlia. Tinhas dito Janeiro. Pensei que...
- Meu querido, a Mille sente-se melhor. Será um pecado levá-la para Connecticut em pleno Inverno.
- O clima aqui não me parece exactamente tropical, Júlia. Com efeito, faz imenso frio. Segundo se me afigura...
- Arthur, se não te importas, acho melhor discutires estes assuntos um pouco mais tarde - interrompeu Júlia.
- Entretanto, vou deitar-me - disse Mille. Tomou a mão que Arthur lhe estendeu. - Tive muito prazer em vê-lo, Arthur. Durma até à hora que lhe apetecer, amanhã
pela manhã. Direi à Lúcia que demore o pequeno almoço.
- Obrigado, Mille.
Esperaram que ela saisse.
- Gostaria de te beijar, Júlia - disse Arthur.
- Gostaria que me beijasses - volveu ela.
Ele conduziu-a para o sofá e tomou-a nos braços. Beijou-a apaixonadamente e fez deslizar a mão sob a saia da mulher.
- Arthur - disse ela -, aqui não, peço-te. As criadas...
- Subamos.
- Muito bem.
- Não te sentes feliz por me veres?
- Mas sim, decerto - respondeu ela, pegando na mão do marido. - Vamos.
- Eu... eu não sei - começou ele, sacudindo os ombros. - Há qualquer coisa que não corre bem. Há alguma coisa que me não tenhas contado, Júlia?
- Não - redarguiu ela. - Tudo corre bem.
E pensou: "Há qualquer coisa que não te contei, Arthur. Sim, qualquer coisa."
- A Mille está perfeitamente bem, não é verdade? - perguntou ele.
Por um breve instante, hesitou. O marido fornecera-lhe a mentira e ela hesitava em aceitá-la. Não importa o quê, nela, resistia, reagia diante da inocência de Arthur,
da sua confiança; não importa o quê, nela, parecera-lhe de súbito repugnante, infecto. Examinou a mentira, deteve-se a contemplá-la, e fechou os olhos.
- Que há, Júlia? Pressinto que há qualquer coisa.
- Sim, sim - volveu ela com um profundo suspiro.
- Quê?
- Mille.
A mentira chegava com dificuldade. Não tinha vontade de mentir. Fechou de novo os olhos e sacudiu a cabeça. Ele deu a este gesto um falso significado e tomou-a
nos braços. Era a última coisa que ela desejava. "Não me consoles", pensou. "Não consoles a prostituta que é tua mulher."
- Que é que a Mille tem?
- Está... está pior, Arthur. Eu... eu falei com o médico. Nada revelei à Mille, naturalmente. É inútil inquietá-la. O médico... o médico pensa que não devíamos
voltar já para casa. Quer que ela... que fique cá até... Abril, pelo menos.
A mentira escapara-se, a mentira fora dita; sentiu-se descontrair nos braços do marido. Estava coberta com um suor frio.
- É preciso que fiques com ela? - perguntou Arthur.
- Sim - volveu Júlia docemente.
- O teu filho... - Fez um gesto estranho com a mão. - O David sente a tua falta.
- E eu sinto falta dele. E de ti. Mas que posso fazer, Arthur?
- Júlia, a casa está vazia sem a tua presença. Não me sinto viver, sem ti. Não me sinto viver, verdadeiramente.
- Mas que posso fazer, Arthur? Posso levá-la para a América, contra os conselhos do médico? Posso deixá-la cá, só e doente? Responde-me.
Tudo era mais fácil agora. Maravilhou-a esta facilidade. A mentira começava a tomar a cor da verdade. Ela própria principiava a acreditar no que afirmava.
- Falaremos disto mais tarde - disse ele.
Arthur passou-lhe um braço em torno da cintura e começaram a subir as escadas.
- Não me parece que haja grande coisa que possas fazer. Desejo apenas...
- Arthur - volveu ela-, não existe nada que mais deseje do que encontrar-me em casa contigo e com o David. - Esta mentira quase o sufocou.
Mas a grande mentira esperava-a lá em cima, no quarto.
Ele não pareceu saber, nem mesmo suspeitar, que ela se transformara. Não encontrou diferença alguma. Contudo, aos olhos dela, a diferença era evidente: não tinha
o mesmo aspecto, sentia-se outra, sabia que até a sua maneira de andar mudara. Convencera-se de que Arthur se aperceberia de que ela não era já a Júlia Regan que
partira de Talmadge em Agosto. Mas não se apercebeu. Apesar de tudo, talvez a diferença não fosse visível senão para ela.
Sõmente uma vez o marido pronunciou uma frase que poderia ter exprimido uma suspeita; mas ela não ficou certa do seu significado: talvez se tratasse de uma graça.
Tinham entrado na Igreja de Santa Maria in Cosmedin; atravessaram o pórtico e encontraram-se diante da Bocca della Verita' - a Boca da Verdade. O disco de mármore
esculpido representava um rosto humano, de um velho de olhar acusador, com barba e um bigode que pendia sobre a boca aberta. A máscara datava do século XII, e, segundo
a lenda, na Idade Média obrigavam-se os suspeitos a pronunciar o seu juramento colocando uma das mãos na boca da máscara. Se o suspeito pronunciava um juramento
falso, a boca fechava-se sobre a mão.
Arthur examinou a máscara. Depois tomou a mão de Júlia e, suavemente, colocou-a na boca de mármore.
- Tens-me sido fiel? - perguntou ele.
Ela retirou bruscamente a mão, não que receasse ver a boca fechar-se, mas a pergunta surpreendera-a. Arthur ergueu as sobrancelhas.
- Então? - disse o marido.
Com calma, sorrindo, ela tornou a colocar a mão na boca da máscara. Tomando uma atitude de piedade exagerada, salmodiou:
- Tenho-te sido fiel, meu querido marido.
Desataram a rir, mas o segredo de Júlia doía dentro dela.
Júlia conduziu-os em Roma como se fora um guia profissional. A visita foi-lhe penosa, pois que, por uma espécie de perversidade, levou-os a todos os lugares secretos
que conhecera com Renato. De uma pequena rua que partia da Piazza Navona e da Fonte Bernini, face à igreja, conduziu-os até uma enorme porta, que se abriu de par
em par quando o guarda a reconheceu. Na extremidade do pátio interior encontrava-se um arco que cobria uma longa passagem lajeada e bordada de colunas. Na extremidade
da passagem elevava-se uma grande estátua.
- Aproximemo-nos da estátua - disse ela.
Dirigiram-se para o arco, e Júlia compreendeu que David e Arthur aguardavam um longo passeio entre as colunas. Observou o rosto de ambos, na expectativa do primeiro
sinal de surpresa, e ficou contente por o ver quase imediatamente. O corredor que conduzia à estátua, as colunas que o bordavam, as lajes que o pavimentavam, a própria
estátua, eram uma obra-prima de ilusão. A passagem tinha talvez 2,5 metros de comprimento, mas parecia possuir mais de 15. O arco era oblíquo para dar uma ilusão
de perspectiva, as colunas tornavam-se cada vez mais curtas, as lajes mais pequenas à medida que se avançava sob o arco. A estátua, imensa quando se via da outra
extremidade do arco, não tinha mais que 1 metro de alto. Júlia recordoue da sua própria reacção diante desta ilusão de óptica quando da primeira vez que Renato lha
havia mostrado; e as reacções do marido e do filho divertiam-na agora
e todavia não sem certa inquietude.
Conduziu-os ao Mosteiro dos Cavaleiros de Malta, sobre o Aventino, onde a fechadura estava fixada por cima dos maciços batentes da porta de entrada. Disse a David
que se inclinasse, a fim de olhar pelo buraco da fechadura; ele obedeceu e viu uma álea bordada de choupos e, ao longe, a cúpula de 5. Pedro, perfeitamente enquadrada,
exactamente centrada, como uma miniatura preciosa. Arthur inclinou-se, por sua vez, para observar. Ele sorriu e tomou a mão de Júlia enquanto olhava pelo buraco
da fechadura. "Chiaviamoci", pensou ela, de súbito, e o seu coração pareceu deixar de bater. Havia uma semana que não via o amante.
O Natal chegou inesperadamente. Arthur e David tinham trazido prendas da América para Júlia, e ela correra as lojas de Roma antes da chegada do marido e do filho.
Trocaram os presentes na villa, diante das criadas, que murmuraram: "Buon N tale." A prenda que havia comprado para David era para um rapazinho mais jovem. A Júlia
pareceu que os dias que se seguiram ao Natal se escoaram com muita lentidão. Lia a alegria que se espelhava no rosto do marido e do filho, mas não podia participar
dela. Pensava apenas na sua partida. Como se fosse um autómato, fê-los visitar de novo a cidade, mas esta continha o seu segredo e não o podia abrir realmente diante
deles. O tempo parecia suspenso. Há onze dias que não via Renato e desejava-o ardentemente. Mas ia até ao fundo da sua mentira, enquanto a irmã a observava, sem
exprimir aprovação ou censura, circulando em silêncio pela villa, com o xaile caído sobre os ombros. A noite de fim de ano, Júlia e Arthur foram passá-la numa boite
de Roma. Aí permaneceram até às 2 horas da manhã; Arthur brindou aos olhos de Júlia e à sua boca, depois declarou que havia muitos destes malditos "camisas negras"
nesta maldita boite e que queria voltar à villa para fazer amor. Os dois estavam um pouco embriagados quando tomaram o caminho para Áquila. No leito, ele disse,
numa voz incerta:
- Se nos acontecesse um dia alguma coisa, Júlia, matar-me-ia.
Nessa noite, ela trouxe ao seu acto de amor uma certa medida de paixão, mas apenas porque estava embriagada, também.
No dia 4 de Janeiro, David e Arthur beijaram-na e regressaram a Talmadge, Connecticut.
Os cidadãos de Talmadge ignoravam, naturalmente, que Júlia Regan vivia quase por completo no passado. Sabiam que ela tivera outrora 35 anos e que acompanhara à
Europa a irmã Millicent. Sabiam que estivera na França, na Suiça e na Itália. Ignoravam que, dia após dia, Júlia vivia e revivia uma época que começara para ela
em Agosto de 1938.
Eles nada sabiam.

Matthew não se encontrava com a disposição de espírito necessária para suportar um cocktail-party e disse-o a Amanda no momento em que entrou no carro, diante da
estação.
- Eu também não - respondeu ela. - Tenho andado todo o dia a fazer compras. Mas prometi comparecer.
- Amanda, sinto-me exausto. E tenho frio. Não achas que está muito frio para Novembro? O ano passado, nesta altura, não fazia tanto.
- Prometi que iríamos, Matthew!
- E quem fica com o Bobby e a Kate?
- A Sra. Arondo.
- Essa velha saca decrépita?
- É uma mulher muito capaz.
- Detesto os parties de Talmadge.
- Suplico-te, Matthew, não discutamos.
- Não discuto. Enuncio um facto. Tenho horror a estas pequenas reuniões de Talmadge e não consigo suportar a maior parte das pessoas da cidade.
Apoiou a sua declaração com um pequeno movimento do queixo e refugioue num silêncio taciturno que se prolongou até à sua entrada na ruidosa sala de estar de uma
casa sumptuosa situada no meio de 12 acres de terreno bem cuidado. Em Talmadge, as casas - ou pelo menos aquelas a que Amanda e o marido eram convidados - representavam
um dispêndio de quarenta a setenta e cinco mil dólares. Algumas possuíam piscina, outras um tanque, mas todas dispunham pelo menos de 6 acres da mais bela paisagem
de todo o Connecticut. Encontravam-se ainda dificuldades em conseguir pessoal doméstico competente, em 1952, mas os cidadãos de Talmadge remediavam-se muito bem
com mulheres a dias, que vinham três vezes por semana, e com jardineiros que mantinham em perfeita condição as suas propriedades. Vivia-se na abastança, tinha-se
dois carros em cada garagem, e Matthew não tardara a dar-se conta de que Talmadge era o que se podia chamar uma cidade rica. Ninguém falava abertamente do que ganhava,
claro. Mas Matthew jamais conhecera um só lugar onde se falasse sem rebuço de tal assunto, com excepção, talvez, do arquipélago malaio, onde se pagavam os salários
por meio de amuletos ou de nozes de betel. Os homens de Talmadge eram pagos em boas notas americanas de banco e não sentiam o mínimo desejo de falar dos seus ordenados.
As mulheres a dias e os jardineiros não constituíam uma oferta feita no acto da compra da casa. Os Cwtilcs nas garagens de dois lugares não tinham sido obtidos mediante
o -envio de cupões retirados das embalagens de sabão, acompanhados de uma carta de vinte e cinco palavras no máximo. As mulheres de Talmadge eram verdadeiramente
elegantes, o que exigia mais do que o salário de um cabouqueiro. Apesar de desconhecer o montante dos proventos destes homens, Matthew sabia, no entanto, que deviam
ganhar somas consideráveis. E não os invejava. Desejava apenas que submetessem grande número de problemas legais à firma Bridges, Benson, Summers & Stang.
Como quadrava com "homens de meios", o álcool corria com abundância no decurso dos parties de Talmadge. O consumo da vodka não atingira ainda as proporções de uma
epidemia, mas Matthew encontrava em todo o lado onde ia garrafas sobre garrafas de ivhis de todas as marcas e de todas as proveniencias, de gin e, em menor abundância,
de rum. Não se exibia com ostentação esta profusão de álcool; sabia-se simplesmente por instinto que logo que uma garrafa estava vazia se podia ir à reserva e substitui-la
por outra. E substituiam-se muitas. Os de Talmadge bebiam muito e depressa. Matthew ficava sempre estupefacto diante do número de garrafas vazias que alinhava defronte
da lata do lixo na manhã que se seguia a uma reunião, por mais modesta que fosse. O que o espantava era o facto de que estas reuniões mundanas, em Talmadge, pareciam
consistir sempre em conversas superficiais, em música agradável, em homens bem vestidos e em mulheres fascinantes que davam a impressão de se conduzirem de uma maneira
perfeitamente lúcida e civilizada; mas, segundo as aparências, todos estes seres sofisticados e civilizados ao extremo "enxugavam" as garrafas num ritmo surpreendente.
E jamais mostravam os efeitos produzidos por tão largo consumo de álcool. Matthew jamais vira alguém, homem ou mulher, de quem pudesse dizer com absoluta certeza
que se encontrava embriagado. Ninguém tombava no decorrer das reuniões de Talmadge. Ninguém vacilava ou cambaleava.
As garrafas alinhavam-se diante do balde do gelo; o anfitrião servia o primeiro copo e renovava-o uma vez; depois era regra que cada um se servisse como quisesse.
Toda a gente aceitava esta regra e fazia o número necessário de idas e vindas entre o seu pequeno grupo e o bar todas as vezes que tinha o copo vazio. E os copos
pareciam esvaziar-se de cinco em cinco minutos, mais ou menos. Bebia-se whisk antes de jantar - era raro em Talmadge que uma reunião não incluísse jantar, em geral
um buffet -, vinho durante o jantar, conhaque ou licores após o jantar; então, depois de estes tónicos reconfortantes terem acalmado o estômago, começava a beber-se
forte, e continuava-se até às primeiras horas da manhã. Mais precisamente, até ao momento da separação. À medida, que passavam as horas, os convivas tornavam-se
mais alegres, mais calorosos. Ligações de data recente transformavam-se em velhas amizades. Ninguém jamais se embriagava, mas esta absorção contínua de álcool contribuía
muito para descontrair os presentes e criar uma atmosfera de cordialidade que excluia todo o formalismo.
Havia sempre música, nestas reuniões de Talmadge. O anfitrião começava geralmente a rodar discos meia hora antes da chegada dos primeiros convidados: aquecia o
aparelho com uma gravação de Scheerazace, introdução clássica que dava o tom a uma noite de relações civilizadas. Dispunha as suas garrafas, os seus copos, o seu
sifão, a sua água, os seus cubos de gelo, enquanto Rimski-Korsakov fluía através de dois altifalantes e a mulher, da cozinha, onde dava o último toque no bife Stroganoff
para vinte pessoas, lhe gritava que baixasse essa coisa, porque não se 'ouvia pensar. O anfitrião encolhia levemente os ombros e perguntava-se para que serviria
um gira-discos de alta fidelidade se não se podia tocar os discos tão alto quanto se desejava. Mas baixava um pouco o volume, enchia um copo de Canadian-de-soda,
instalava-se no fundo de uma poltrona e contemplava o seu jardim, ou os seus gramados, ou a sua árvore favorita. momentos depois, a mulher chegava da cozinha, envergando
um vestido de noite sobre o qual trazia um pequeno avental bordado; o marido servia-lhe um copo, e esperavam juntos os seus convidados, levemente impacientes, um
tudo nada excitados; porém, agradavam-lhes estes últimos instantes de paz e de silêncio, povoados de visões musicais de mulheres de harém com largas calças transparentes.
Quando os primeiros convidados chegavam, Scheherazafe cedia o lugar ao L P seguinte, uma selecção clássica de Tommy Dorsey, e o Canto Hindu transformava as mulheres
do harém em garotas buliçosas. Era este o súbito começo do cerimonial de Talmadge.
- Hi, Joe. Como estás?
- Como vais, Frank?
- Ótimo, obrigado. Tenho prazer em te ver.
Hi era em Talmadge a forma ritual de saudação, seguida de "Como estás?", "Como vais?" O "Tenho muito prazer em te ver" era obrigatória e repetia-se em todas as
reuniões mundanas, mesmo que os dois homens que se apertavam as mãos se tivessem encontrado uma hora antes, num outro cocktail Em Talmadge, apenas os homens se apertavam
as mãos. As mulheres, entre elas, beijavam-se nas faces, e os homens utilizavam o mesmo processo com as mulheres dos outros. Era-se cordial e tolerante em Talmadge.
Os convites especificavam, em geral, as 8 horas para o começo dos parties. Mas ninguém chegava antes das 9, 9.30, ou mesmo 10, o que dependia do número de reuniões
que se efectuavam no mesmo dia; so' mente os que vinham de Nova Iorque ou de New Haven apareciam em geral à hora. Mas não demorava que lhes fizessem sentir o que
eles eram exactamente: estranhos. Em menos de dez minutos, os indígenas de Talmadge achavam-se reunidos em conclaves secretos, à maneira tribal, e desatavam a falar
das últimas novidades da cidade, enquanto os estranhos aspiravam a plenos pulmões o ar revigorante do campo e murmuravam: "- Mas, que diabo, o melhor será embebedarmo-nos
!"
Só se começava a dançar após o jantar, quando todos se tinham encharcado de bastante vinho, álcool e licores que alimentassem o Stork Club durante uma semana. Nesse
momento, não havia já grande coisa que se dissessem. As discussões acaloradas a propósito de romances, de peças e de novos filmes achavam-se esgotadas, e começavam
a contar-se as últimas histórias saborosas de Madison Avenue, ou relatavam-se as recentes experiências de viagens; cada um era posto ao corrente da gravidez de uma
amiga ou conhecida, de intrigas amorosas, de divórcios em curso. A reunião principiava a tomar uma consistência gelatinosa que ameaçava solidificar-se prontamente;
aqui e ali abafava-se um bocejo. Então, de súbito, o anfitrião erguia-se e punha a funcionar o gira-discos. Era o sinal que aguardava o par mais ousado para quebrar
o gelo e lançar a reunião numa nova fase. Matthew, que tinha um fraco pelos títulos descritivos, breves e imaginosos, denominava este momento de "Fase do Roça-e-Vai."
Reconhecia na força que lançava a "Fase do Roça-e-Vai" uma variação do seu "Princípio do Mais-ou-Menos": era a pessoa que mais aborrecida se encontrava que dava
o exemplo dançando a primeira música, enquanto a pessoa que menos se aborrecera era a última a juntar-se aos dançarinos. Matthew, que tinha horror a fazer fosse
o que fosse a um sinal dado - sobretudo dançar -, conseguia nas reuniões mundanas de Talmadge assistir como mirone. Observava o comportamento dos indígenas. Sem
dúvida, eles pareciam desassossegados, mas de uma maneira bastante descontraída, um paradoxo que a princípio o desconcertou.
Foi-lhe necessário um certo tempo para se dar conta de que os primeiros dançarinos eram os pares marido-e-mulher. Eles dançavam com certa gentileza, como no tempo
da sua juventude: a menor pressão da mão do marido no côncavo das costas da mulher era imediatamente compreendida, cada variante pessoal era executada com precisão
e aplob. As caras dos dançarinos traziam um sorriso um pouco néscio, e cada um julgava-se regressado ao tempo do baile da entrega dos diplomas na moldura encantadora
e bucólica de Talmadge. Depois, enquanto o disco era substituído, todos sentiam bruscamente vontade de refrescar as goelas, e, quando voltaram à dança, os pares
já não eram, sistemàticamente, formados por marido e mulher, ou, pelo menos, deixavam de assinalar com rigor que este-marido-pertence-a-esta mulher; parecia que
toda a gente tinha mudado de parceiro, e como se obedecendo ao sinal de um mágico, se agitasse a sua varinha de condão, fffuittt, os pares desuniam-se e formavam-se
de maneira diferente.
Talmadge era uma cidade afável; aqui todos dançavam apertados, face contra face. Se um homem se aproximasse tão perto, no metro de Nova Iorque, de uma mulher de
Talmadge, era certo e sabido que ela o atingiria com a sombrinha. Mas estava-se em Talmadge, na cidade onde cada um gostava de saber, e punha nisso muita devoção,
"como vai o meu amigo?", onde todos sentiam prazer em se ver, onde os homens apertavam as mãos dos homens mas beijavam as mulheres nas faces. Podiam perfeitamente
dançar apertados. Ninguém via nisso inconveniente. Era tudo o que havia de mais natural, amigável e bem. Isso nunca assumia aspectos malquistos e antipáticos. Por
vezes, a junção dos pares era muito cerrada, mas jamais transpunha uma certa fronteira não delimitada, jamais transgredia uma lei não escrita. Via-se grande número
de coxas masculinas tocarem fortemente número igual de coxas femininas, muitas mãos masculinas percorrerem costas femininas, até acariciarem o contorno macio de
um seio desconhecido, uma face ruborizada e febril tocar uma face barbuda, os lábios quase se unirem entre duas palavras murmuradas, os movimentos da dança tornarem-se
por vezes um pouco pessoais, um tudo nada íntimos, sobretudo no Verão, quando o vestuário era mais ligeiro. Mas todos estes contactos, todos estes afloramentos,
pareciam atingir sempre um ponto culminante, determinado no momento em que a mulher declarava: "- Creio que devíamos descansar um pouco", ou o homem propunha: "-
E se bebêssemos um copo?" Com estas palavras, ou uma variante, o contacto entre os dois parceiros em causa atingia o seu apogeu; não havia outra coisa a fazer senão
separarem-se. E separavam-se. Roça-de-Vai e fffuittt! O mágico agitava a sua varinha,
cada um trocava de par, o carrocel começava a girar, com cavalos diferentes, cavaleiros novos, mas sempre ao som da mesma música.
Matthew tinha horror a este género de manifestações.
Tinha-lhes horror porque eram uma mentira revoltante, e ele não gostava da mentira nem dos mentirosos, pois constituíam um jogo que a nada conduzia, um jogo que
iludia os que o praticavam, uma espécie de orgia para-rir, género medieval, com trajos modernos, que tinha os seus limites pessoais, que fazia perder tempo e energias
e era decepcionante por completo. Tinha horror a isto. Decidiu, de um modo definitivo, deliberado, evitar este suplício. Mesmo que tivesse de se embriagar até atingir
a rigidez de uma pedra ou desfalecer em todos os sumptuosos tapetes de todas as casas de Talmadge, havia de conseguir evitar estes absurdos juvenis.
Pois, apesar de todas as suas teorias fantasistas, a despeito de todos os seus rasgos de imaginação, nem uma vez sequer em seis anos de casamento, denunciara o
contrato que firmara com Amanda. Se isso tivesse de acontecer - e como homem que era, vão e egoísta, a eventualidade era de considerar -, se isso tivesse de acontecer,
fá-lo-ia como
devia ser e não roçando-se contra a barriga de uma matrona de Talmadge mãe de três filhos e secretária da Associação dos Pais Educados.
Nesta noite de Novembro, a reunião era exactamente semelhante a todas as outras em que participara em Talmadge.
Uma só diferença: a presença de Júlia Regan.
Não se aproximou dela antes das 23 horas. Nessa altura já bebera bastante, se bem que o rumor das conversas sem interesse, o ruído do gira-discos e as cabriolas
dos pares de dançarinos se fundissem numa espécie de tumulto afogado em álcool, para lá dele. Viera sentar-se na penumbra do pátio, a gola do casaco erguida sobre
a nuca, as bandas cruzadas sobre o peito, a fim de se defender do frio. A porta abriu-se bruscamente. Uma mulher alta, de cabelos apanhados em carrapito, deu uns
passos no pátio, puxou a estola em redor dos ombros, soltou um profundo suspiro e procurou um cigarro na bolsa. Ele distinguiu-lhe o rosto no breve luzir do fósforo:
feições distintas, traços puros. Ela aspirou profundamente o cigarro. A chama do fósforo extinguiu-se. A mulher dirigiu-se para a extremidade do pátio. Na noite,
os seus saltos altos ressoavam no lajedo. Matthew sempre gostara deste ruido dos saltos altos. Escutava. Pensou que ela devia ter belas pernas:
o som dos seus passos denunciava tal facto.
- Você não está só - disse de súbito Matthew.
A mulher voltou-se.
- Eu sei.
Dirigiu-se para ele.
- Supunha que tinha adormecido. Não queria perturbá-lo.
A voz parecia de uma mulher de certa idade. 40, 45 anos?
- Já está farta daquilo lá dentro? - perguntou ele. - Oh, diabo, devia ter tento na língua. Você poderia ser a dona da casa.
- Não... me Permite que me sente junto de si?
- Com o maior prazer. Aproxime-se.
Matthew levantou-se e ofereceu-lhe a sua cadeira, dobrando-se numa grande vénia. Puxou outra cadeira, tirou um cigarro do bolso e acendeu-o. Júlia examinou-lhe
o rosto à luz débil do fósforo.
- Oh! - disse ela. - você.
- Com efeito, sou bem eu - redarguiu Matthew, aproximando a chama do fósforo do rosto da companheira. - E você é você mesma, se não me engano.
- Exactamente - volveu ela, sorrindo.
Matthew apagou o fósforo.
- Mas quem? - perguntou ele.
- Júlia Regan - respondeu a mulher, estendendo-lhe a mão.
- Matthew Bridges - declarou ele, aceitando a mão.
- Sim, eu sei. Foi-me apresentado no princípio desta noite.
- Impossível, senão, lembrar-me-ia.
- Não me prestou atenção alguma. Você tinha o ar de quem se aborrecia profundamente.
- Jamais me aborreço nas reuniões de Talmadge.
- Mas dava a ideia do contrário.
- Não. Jamais.
Um pequeno silêncio.
- Pensei que podíamos conversar - disse Júlia.
- Não é o que fazemos?
- Não, se continuar a mostrar-se motejador. Bem, é verdade, estava aborrecido. Mas encontro-me um pouco embriagado e tento parecer atraente. Okay? Que é você na
vida? Procurador de distrito?
- Não.
- Então, quê?
- Nada.
- Toda a gente faz alguma coisa.
- Sou viúva.
- E é tudo?
- Que quer saber? Tenho quarenta e oito anos, um filho chamado David, que é quase da sua idade, e vivo aqui mesmo, em Talmadge, num enorme casario.
- Mas há mais alguma coisa.
- Não. É tudo.
- Sim... - fez Matthew. - Há alguma coisa mais, ainda.
- Você tem razão - replicou ela com vivacidade.
- Não participo na colecta de sangue para a Cruz Vermelha, não pertenço à Comissão Nacional nem prática e tenho horror às pequenas ligas. Conduzo um Alfa Romeo,
tomo dois duches por dia e não" possuo animais domésticos. O retrato expressivo de Júlia Regan.
- Apostaria como o seu filho está longe de ter a minha idade.
- Qual é a sua?
- Faço trinta e cinco em Fevereiro.
- David terá vinte e nove em Outubro.
- Isso... Um momento. Nunca fui brilhante em aritmética... Então, existe uma diferença de seis anos entre nós.
- Sim. Vê?!
- Vejo. Eu e você achamo-nos separados por gerações.
- Pelo menos, por uma.
- Não, não - insistiu Matthew. - Por gerações sem conta.
Júlia sorriu.
- Encontramo-nos mais próximos um do outro do que imagina, Sr. Bridges.
O pátio esteve por um momento mergulhado no silêncio. O céu era claro. Matthew aspirava profundamente o ar nocturno.
- Qual é a sua mulher? - perguntou Júlia. - A jovem loura?
- Sim, Amanda.
- Sim, conheço-a. Ela é encantadora.
- Obrigado.
- Têm filhos?
- Tenho uma filha quase da sua idade - volveu Matthew, sorrindo.
- Ah, sim? Quantos anos tem ela?
- Acaba de fazer dez. E tenho um filho também - acrescentou ele, com um sorriso mais largo -, que se chama Bobby e que...
- Não me disse o nome da sua filha.
- Kate.
- É bonito.
- Sim - concordou Matthew, sacudindo a cabeça. - O Bobby fez três anos em Julho.
- E quanto a gatos, a cães e a elefantes, nenhum?
- Tenho um cão. Um cocker spaniel. Presente à Kate no seu último aniversário.
- Como se chama ele?
- Ela chama-se Beverl.
- Oh, perdão.
- É a ela e não a mim que deve pedir desculpa. Demais, foi esterilizada, de modo que o seu prenome é em parte exacto.
- E o elefante?
- Não há elefante, nem tigres, nem rinoceron-.tes. Que é que mais a aflige quando se encontra embriagada?
- Nunca me embriago.
- Toda a gente se embriaga.
- Eu não sou toda a gente, mas Júlia Regan.
- Bem, Júlia Regan, quando estou embriagado o que me aflige mais são as terminações.
- E não os começos?
- Falo das terminações das palavras. Os plurais. E porque não se embriaga nunca, Júlia Regan?
- Não sinto vontade de o fazer.
- Mas eu, sim. Nestas chatíssimas reuniões. É uma necessidade absoluta.
- E neste momento, está muito embriagado?
- Não muito. Um pouco sõmente. Porque me disse que tinha cinquenta e oito anos?
- Quarenta e oito, se faz favor!
- Sim. Quarenta e oito. É a mesma coisa.
- Porque se trata na verdade da minha idade.
- Hum... - fez Matthew, sacudindo a cabeça.
- Então, porque o disse eu, Sr. Bridges?
- Para esclarecer as coisas logo no princípio, não é verdade?
- Quais coisas?
- Você sabe - volveu Matthew. - Você sabe muito bem.
- Sim, é certo. Perdoe-me. O tom da minha voz parece desencorajador? Se tem desejo de me fazer a corte, avance.
- Quê?
- Estou convencida de que me ouviu bem.
- Você disse...
- Eu disse que, se tem vontade de me beijar ou de me acariciar, gostaria que o fizesse, e pronto.
- Muito bem!
- Muito bem?
- Muito bem, eis o que se chama ir-se direito ao fim.
- Sim, com efeito.
- Devo estar mais embriagado do que pensava.
- Porquê?
- Não sinto desejo de a beijar neste momento.
- Muito bem. Se o sentir daqui a alguns instantes, beije-me. Depressa, uma só vez, e pronto.
Matthew, estupefacto, sacudiu a cabeça.
- Que se passa na sua mente? - perguntou ela.
- Isso é uma réplica do Roon Service: "Há apenas uma coisa que desejo saber, Gribble. Que diabo se passa na sua mente?" A peça é muito engraçada.
- Não mude de conversa, Sr. Bridges.
- Estava a fazê-lo?
- Sim.
- Bem. Que quer você?
- Perguntara-lhe em que pensava.
- Pensava que não a compreendo.
- Que existe de tão misterioso em mim, Sr. Bridges?
- Fazia-me propostas? - perguntou Matthew.
Havia uma tal tonalidade de perplexidade na sua voz que Júlia desatou a rir.
- Bom, que disse eu de tão chistoso para que se ria dessa maneira?
- É muito engraçado. Parece um rapazinho, Sr. Bridges.
- Chame-me Matthew - volveu ele, furioso. - E não repita mais o que acaba de dizer.
- Quê?
- Esse absurdo de me considerar um rapazinho. Não há coisa que mais desagrade a um homem.
- Não me esquecerei.
- Espero que sim.
- Porque está tão furioso?
- Tenho a impressão de que ri à minha custa.
- Não, não é verdade - redarguiu ela com ar sério.
- Então que faz você?
- Não rio à sua custa. Tento mostrar-me perfeitamente honesta consigo, porque você me agrada e desejo ser sua amiga.
- E é por isso que me convida para a cama?
- Não, Matthew, não fiz um convite semelhante. Lamento. Talvez o tivesse avaliado mal.
- Sim, é bem possível. Eu tive a impressão de que...
- Por Deus, cale-se por um momento.
- Escute, não me diga...
- Cale-se!
- Não quero que me digam...
- Nem eu - redarguiu Júlia numa voz breve.
Ficaram silenciosos por alguns instantes.
- Menina, entendemo-nos às mil maravilhas, hem? - afirmou Matthew.
- Sim. E continuaremos.
- O que quer de mim?
- Nada.
- Você mente, Júlia.
- Muito bem. Tudo, então.
- Não posso satisfazer integralmente os seus desejos.
- Apenas uma idiota poderia esperar tal de você.
- Supunha que não brincávamos.
- Não brincamos. Conversamos.
- Conversa sem importância.
- Você não é muito perspicaz, hem?
- Você é bastante impertinente, não?
- Sou impertinente apenas para aqueles de quem
gosto.
- Mais vale ser seu inimigo, então.
- Não. Mais vale ser meu amigo.
- Oh, o Diabo! - fez Matthew.
E o pátio mergulhou no silêncio.
- Sabe porque discutimos?
- Sim.
- Porquê?
- Porque agora sinto vontade de a beijar.
- É verdade - disse Júlia.
- Era a isso que queria chegar?
- Exactamente.
- Muito bem - retorquiu ele, sacudindo os ombros. Aproximou-se dela, desajeitado, e tomou-lhe o queixo na mão. Inclinou os lábios na direcção dos de Júlia. - Vou
beijá-la.
- Sim.
Os lábios uniram-se. A boca de Júlia era muito doce. Beijava bem.
- Então, que tal? - perguntou ela.
- Sim - volveu Matthew contra vontade.
- O beijo agradou-lhe?
- Sim.
- A mim também... Tem vontade de me acariciar agora? - disse ela, um momento depois.
- Não.
- Porquê?
- Porque sinto mais prazer em beijar a minha mulher - redarguiu Matthew, estupefacto por se ouvir pronunciar estas palavras.
- Sim, é preferível que assim seja - respondeu Júlia, sorrindo. - Quer dar-me um cigarro?
Ele retirou um do maço e acendeu-lho. Ela voltou a sorrir, por cima do fósforo.
- Sinto-me um pouco idiota - declarou ele.
- Não, não deve sentir-se, por favor. Demais, espero que isto não voltará a acontecer. Que diz?
- Não. Honestamente, creio que não se repetirá.
- Mas estou contente por ter acontecido, aqui, agora.
-Eutambém.
- Somos amigos, então?
- Creio que sim. Fizemos muitos rodeios inúteis para chegarmos a essa conclusão, mas creio que sim.
Na penumbra, desataram ambos a rir.
- Escute - disse ele.
- Diga...
- Você é uma mulher excitante.
- Acha?
- Sim. Agora, não me... Não quero lançar-me numa aventura, Júlia. Jamais.
- Nem eu.
- Agora, não.
- Prometo.
- Bom.
Silêncio.
- Pois eu sou um homem - tornou ele.
- Sim, todos nós somos fracos. Mas se... - Interrompeu-se, sacudindo a cabeça.
- Não, nada lhe direi.
- Diga, vá.
- Não.
- Você começa mal, Júlia.
- É verdade. Perdme. Ia dizer: se alguma vez tiver necessidade de mim, procure-me. Não queria dizer isto porque... não queria para que não pensasse...
- Não penso.
- Tanto melhor.
- Bem - volveu ele, e suspirou. - Sinto-me bem.
- Eu, idem... Alguém lá dentro disse que você era advogado, jurista. E é um bom jurista?
- Sim. Excelente.
- Diga-me, que efeito sente por esse motivo?
- Que poderei dizer?
- Você tem bem o ar de um homem de leis.
- Que ar têm eles?
- Oh, não sei. Muito jurídico e...
- Acrescente, vá: pomposo.
- Você não parece de modo algum pomposo.
- Não?
- Absolutamente. Que é que lhe deu essa ideia?
- Não sei. Por vezes, tenho a impressão de ser um pouco pedante. Não, isso não. Creio que tenho a impressão de que é preciso que seja pedante. Há uma diferença.
- Porque procura ser pedante?
- Porque sou um homem de leis, casado, pai de família, e há momentos em que não me sinto nenhuma destas coisas.
- E que sente?
- Nesses momentos?
- Sim.
- Que tenho dezassete anos. Algumas vezes, os meus filhos recebem os amigos para brincarem com eles. Olho-me e pergunto-me por que motivo certos pais sãos de espírito
confiam as crianças a alguém como eu, uma imitação de pai, que não conta mais de dezassete anos.
- Compreendo. E que idade sente que tem neste momento?
- Vai dizer-me uma vez mais que é uma mulher de quarenta e oito anos?
- Não. Jamais o voltarei a dizer. Ultrapassámos essa fase, não?
- Sim..
- Então diga-me o que sente neste momento.
- Em relação a si?
- Sim. Em relação a mim.
- Tenho a impressão de ser seu filho, Júlia.

Matthew visitou-a pela primeira vez na semana seguinte. Era um sábado e ia, de carro, fazer algumas compras à cidade, quando passou defronte da casa dos Regans.
De súbito, decidiu parar. Arrumou o automóvel ao longo do passeio, desceu, tocou à campainha. Nada de resposta. Tocou de novo.
Um momento - gritou do interior a voz de Júlia.
Ele esperou no átrio da entrada. Sentia-se um pouco idiota. O que se passara durante a reunião da semana anterior parecia-lhe datar de uma outra época, dava a impressão
de ser uma coisa quase irreal. Perguntou-se o que lhe iria dizer agora, perguntou-se se a sua pretensa amizade não era resultado da bruma alcoólica daquela noite.
Quando abriu a porta, ela trazia vestido um roupão e tinha os cabelos cobertos de ganchos, que ocultava por baixo de um lenço.
- Matthew! - disse Júlia. - Que óptima surpresa... Entre.
Ele seguiu-a.
- Estava a fazer café. Quer uma chávena?
- Sim, com muito prazer. Obrigado.
Passaram à cozinha. Júlia encheu duas chávenas e ligou o rádio, a fim de ouvir o boletim meteorológico. A cena possuía algo de muito natural e familiar: Júlia,
sentada à mesa, de roupão e com a cabeça cheia de ganchos para frisar o cabelo, e Matthew de calças de cotim e camisa de lá, de corte desportivo. O rádio atrás deles,
dava as últimas notícias e as do tempo. Matthew, perfeitamente à vontade e descontraído, bebia o seu café a pequenos golos. Em seguida, começaram a conversar sem
o menor subentendido, sem malícia.
Antes de se aperceber do que dizia, ele surpreendeu-se a falar de Kate e das dificuldades que encontraram para a adoptar.
- Normalmente, seria uma questão muito simples, embora as leis sobre a adopção sejam as mais complexas do mundo. Mas, no caso de Kate, tudo se complica mais devido
ao facto de estarem em causa estados, o de Minesota e o de Connecticut.
- Sim - disse Júlia.
- Tivemos de fazer o pedido em Minesota, compreende? E a lei especifica que todo o cidadão que reside neste estado há mais de um ano pode fazer um pedido de adopção.
Como é evidente, não podemos provar que vivemos em Minesota. Mas, por felicidade, a lei diz também que esta cláusula pode ser anulada por decisão do tribunal. Assim,
formulámos um pedido de anulação, que nos foi recusado. Apelámos, e a anulação foi por fim concedida. Não obstante, estamos ainda no principio.
- Quer mais uma chávena, Matthew?
- Sim, obrigado. Resta ainda a questão do consentimento, Júlia. Por norma, é necessário o consentimento dos pais, excepto nos casos em que a criança tem mais de
catorze anos. Porém, o consentimento por parte da criança é sempre necessário. Ora, o pai da Kate está morto e a mãe... bem... - Hesitou.
- Diga, Matthew, não se embarace - declarou Júlia com doçura.
- A mãe está internada, Júlia. Uma vez que seja julgada incompetente, é-nos preciso o assentimento do director da Assistência Social. No entanto, o tribunal pode
conceder-nos uma dispensa quanto a este aspecto. Porém, não procedeu assim, de maneira que aguardamos os resultados de um inquérito. Deve haver um inquérito e um
relatório, feitos pelo director, compreende, após seis meses de residência no lar proposto. Em seguida, quando por fim ele decidir que temos o direito de manter
Kate e de a amar, o processo de adopção será julgado por um tribunal de menores de Minesota, no condado da residência da verdadeira mãe de Kate. Habitualmente, o
processo é julgado no estado onde vivem os pais adoptivos, mas, neste pormenor, cá temos de enfrentar uma vez mais a confusão Minesota-Connecticut. Creia-me, todo
este caso é a uma vez exasperante e fértil em decepções.
- Mas tem a impressão de que vai obter um veredicto positivo?
- Creio que sim. Posso pelo menos arriscar uma suposição: a Kate deverá ser nossa no decurso dos próximos seis meses.
- óptimo, Matthew.
- Sim.
Sorriu. O rádio dava agora música. O vento de Novembro sibilava sob as vigas da velha casa. Mas, no interior, estava-se bem, havia calor e segurança. Matthew acabou
de beber o café, ficou ainda mais alguns momentos antes de vestir o sobretudo e de se preparar para partir. Ao deixar Júlia, beijou-a na face.
Depois disso, passou a vê-la regularmente. Era sempre bem acolhido, e não tinha necessidade de telefonar antes de lá ir. Por vezes, passava quando regressava do
seu trabalho: Júlia servia-lhe um Martini, e, sentado junto dela na sala de estar, Matthew tomava a bebida enquanto lhe ia contando os seus afazeres do dia; outras
vezes, falavam do que se passava em Talmadge, e, com frequência, nem sequer falavam: ele contentava-se em estar sentado junto dela e bebia em silêncio. Um dia, Matthew
disse:
- Tenho vontade de a beijar, Júlia.
- Sim.
Aproximou-se dela e ergueu-lhe o rosto.
- Tenho necessidade de o fazer.
- Sim, Matthew.
Mas foi a última vez. Depois disso, sabendo que tal jamais tornaria a acontecer, começou a sentir-se mais à vontade.
Ia a casa de Júlia abertamente, sem experimentar o mais leve sentimento de culpa, sem intenção de dissimular ou de mentir. Parava o carro na álea, com um total
desdém pela opinião da gente de Talmadge. Disse a Amanda que Júlia Regan era sua amiga, e talvez o fosse, com efeito. Evitava submeter as suas relações a um exame
muito preciso. Tudo o que sabia é que encontrava nela o que há bastante tempo lhe faltava. Não se perguntava o que era, mas tinha a impressão de que se tratava de
um sentimento de escape, de irresponsabilidade. Nada devia a esta mulher, e coisa alguma lhe era pedida. Podia vir ou não vir, como desejasse. Podia falar ou conservar-se
calado. Podia chegar possuído de um humor negro e dar-lhe livre curso durante meia hora na sala de estar, antes de partir. Podia contar histórias, caso quisesse,
mas Júlia não lhe exigia outra coisa senão que a fizesse rir. Ele podia por vezes pensar em dormir com ela, mas sabia perfeitamente que jamais o faria. Ela dava,
dava com toda a sua generosidade sem limites, e ele tomava, tomava com as duas mãos.
Um dia, comoveu-se até às lágrimas. Trouxera-lhe um presente de Natal. Quando chegou, Júlia, de pé numa escada, colocava uma estrela no topo de uma grande árvore
de Natal que se encontrava na sala de estar. Matthew entrou, bateu os pés para remover a neve, soprou nos dedos e, lançando um olhar para a sala, viu-a no alto da
escada, os braços estendidos para o ramo mais alto. Imobilizou-se bruscamente no limiar da porta e observou-a em silêncio.
- Oh, olá, Matthew! - disse ela. - Faz um frio terrív lá fora, hem?
Pareceu-lhe que muito tempo antes entrara nesta mesma sala, em Glen City. Sacudiu a cabeça sem proferir palavra. Desceu da escada e disse:
- Venha, vou fazer chá.
Júlia beijou-o e entrou na cozinha. Nesse dia, ele falou pouco. Observava-a em silêncio, como se a descobrisse pela primeira vez. Tomaram o chá na sala de estar.
O relógio rústico marcava, com a sua voz rude, o escoar do tempo. O próprio relógio parecia um objecto familiar. Matthew acabou de sorver o chá e vestiu o sobretudo.
Júlia estava sentada numa poltrona defronte do relógio. Parecia envelhecida, nesse dia. Matthew compreendeu de súbito que ela tinha já uma certa idade. Os olhos
cobriram-se-lhe de bruma. Teve vontade de chorar, mas reteve as lágrimas.
- Feliz Natal, Júlia - disse ele.
- Feliz Natal, Matthew - volveu ela.
Deixou sem ruído a casa. Júlia, imóvel, escutava a voz do relógio.

O tempo.
O passado e o presente confundiam-se no espírito de Júlia Regan.
Outubro, Novembro e, agora, Dezembro. Em breve, Janeiro, um novo ano. Para acolher 1953 fez-se soar a sereia de alarme do telhado do posto de incêndios. Júlia,
convidada para a reunião oferecida pelos Bridges, ouviu Matthew comunicar-lhe os progressos verificados quanto ao processo de adopção:
parecia que o inquérito fora concluído e a adopção recomendada; restava apenas fazer a viagem obrigatória a Minesota.
Matthew estava um pouco embriagado. Com a mão no joelho de Júlia, disse:
- É necessária uma porção bem danada de tempo, Júlia. Adoro aquela garota. É minha filha, compreende o que quero dizer? Na verdade, é minha filha, Júlia. Mas é
necessária uma porção danada de tempo.

O tempo.
1939 em Roma. A longa espera.
E a ameaça de guerra suspensa de todos os lados. Renato ausentava-se por mais largos períodos e com mais frequência. Mille ralava a histeria.
- Júlia, é absolutamente necessário que partamos.
- Sabes bem que é impossível.
- Tenho medo, Júlia. Se rebenta a guerra...
- Nada podemos fazer, Mille.
- Muito bem, partirei só.
- Não deves fazer uma coisa dessas, Mille.
- Porque te meteste numa situação tão impossível? Não és criança nenhuma, Júlia! Sempre pensei...
- Eu também pensei num grande número de coisas, Mille.
- Dás-me vontade de chorar. Ver-te assim, impotente, totalmente impotente.
- Mas não o estou tanto como julgas.
- Se rebenta a guerra...
- Mille, suplico-te, suplico-te...
Abril aproximava-se. A Primavera em Roma. Prometera a Arthur regressar em Abril. Enviara-lhe um cabograma em que dizia que Mille estava doente e incapaz de viajar.
Sabia que a guerra se aproximava, mas a sua carta seguinte dizia: "Toda a gente aqui se encontra persuadida de que Hitler faz bluff. Em todo o caso, não me parece
que se prepare uma guerra, contrariamente ao que julgaste aperceber-te pelo Natal. Sei que este é o teu primeiro cuidado, Arthur, mas acredita, querido, a Millie
e eu não nos encontramos em perigo imediato." Mentiras. Mentiras por todo o mês de Maio, a promessa de que regressaria em breve, uma intrujice após outra; regressarei
em breve, regressarei em breve, sabendo que não podia abandonar a Itália.

O tempo.
O passado confundia-se com o presente, a recordação daqueles meses passados em Itália sobrepunha-se à verdadeira Primavera de 1953 em Talmadge. Por todo o lado,
em volta dela, os botões rompiam, a Primavera chegara, os meses tinham passado depressa, os anos também. Quanto tempo transcorrera depois de 26 de Julho de 1939,
depois daquele dia em que Renato, a tremer, a escorrer suor, a tomara nos braços e lhe dissera no pequeno quarto:
"Ti voglio bene, tesorino, non dimenticar n'ai"? As lágrimas. Jamais se esquecera das lágrimas. 26 de Julho. O fim estava próximo. Singular como o começo era também
o fim. Curiosa esta maneira que o tempo tinha de se enredar sobre si mesmo: Roma fora o começo e o termo de uma vida, o padrão reproduzia-se ao infinito. O presente
confundia-se com o passado, embora por vezes não se conseguisse distinguir um do outro.
Mas, sem qualquer dúvida, ela vivia bem no presente. A Júlia Regan que reabrira no Verão de 1953 a casa à beira do lago era uma mulher de carne e osso que limpara
as banheiras, arrumara os armários e arejara os colchões. "Envelheci", pensava ela. "Onde está 1939? Onde está a jovem que nasceu em 1939?" "A memória é muito cruel",
reflectia ela. "Queria suprimir os anos. Queria mistificar o tempo. Queria encontrar-me em Roma. Queria reviver. Queria ser amada."
"Oh, não desejo outra coisa senão ser amada."

O lago nada tinha de ameaçador.
Sentado na varanda das traseiras da casa de Verão, os braços cruzados sobre o peito nu, David. deixava errar a vista pela água tranquila.
A luz de Agosto colava-se ao seu fato de banho amarelo, reflectia-se na pedra do anel que trazia no dedo mínimo da mão direita. No meio do lago, um homem pescava
num barco. Observava-o com olhos ensonados. Os pinheiros estavam quase imóveis. Uma brisa leve fazia fremir a atmosfera estival. David ouvia a mãe no interior da
casa, preparando o jantar.
"Sábado", pensou ele. "Lago Abundance."
Todos os sábados dos seus primeiros anos, todos os sábados de Verão passados à beira do lago, e aquele sábado de Setembro... Não sofria. Mirava a calma superfície
do lago assassino e não experimentava qualquer dor verdadeira, mas apenas um incalculável sentimento de perda. Algo mais de que o pai morrera nesse dia de 1939.
Algo mais. "Parece que perco fâcilmente as pessoas", pensou ele. "Parece que possuo um dom para as perder."
Escutava a mãe, atarefada no interior da casa.
Uma porta abriu-se. Voltou a cabeça.
Os vizinhos. Conhecera-os no fim-de-semana precedente. Um cocktail em casa de sua mãe.
- O meu filho, David.
- Muito prazer, Sr. Bridges, Sra. Bridges.
- Matthew e Amanda - corrigiu o homem.
Alto, sorridente, de bigode. David não confiava em homens de bigode. A mulher, de que idade? 30? Loura, queimada pelo sol, um tanto nervosa. Ajeitava a saia em
volta dos joelhos com gestos decididos, fumava muito.
- É a primeira vez que eles vêm ao lago - disse Júlia. - Fui eu quem os convenceu.
- Gostarão de cá estar - afirmou David.
- Subimos à Vinha - declarou Matthew.
- É uma longa estafa, não?
- Podia ter sido pior. Há um serviço de aviação, sabe?
- Ah, sim? Não sabia.
- A viagem não é desagradável. Mas não apreciei lá muito as pessoas.
- Oh! Porquê?
- Bem, é uma turba estranha - volveu Matthew. - Toda a gente parece representar.
- 'O Matthew não gosta das pessoas - interveio Amanda. - Aborrecem-no.
Ela sorriu para David e acendeu novo cigarro.
- Não gostei daquela gente, é certo - replicou Matthew. - Tenho horror às pessoas que perguntam: "Em que se ocupa?" É uma coisa que me enfastia. Todo o mundo fazia
qualquer coisa. Todo o mundo tinha uma etiqueta. Eu sou escultor; eu, fotógrafo; eu escrevo livros para crianças; eu compus a música deste ou daquele êxito da Broadway.
E você, que faz? Sempre me convenci de que devia recitar um breviário ou qualquer coisa do género. Não havia ninguém que não declamasse o seu papel. Dir-se-ia um
ensaio especial das conversas de Outono.
- Oh, Matthew, não era assim tão impossível!
- Mas sim, querida. Ia-se a uma reunião íntima e os convidados dividiam-se em animadores e espectadores. Os animadores, porém, tocavam mal bateria, ou guitarra
espanhola, ou entoavam canções que tinham sido escritas em 1920, ou recitavam o seu mais recente poema, que destilavam ao Atlantic Monthly, ou contavam histórias
em calão, ou exibiam a sua última escultura, toda cheia de buracos. Os espectadores deviam aplaudir ou marcar, por meio de diversos ruídos, a sua aprovação. Suponho
que não sou do género dos que apreciam esta espécie de produções. Creio que tenho horror às pessoas que perguntam: "Que faz você?"
- Mas que é que faz na realidade? - perguntou David.
E Matthew desatou a rir.
- Sou advogado. E você?
- Trabalho na televisão.
- Actor?
- Produtor.
- Deve ser apaixonante - disse Amanda.
- Agrada-me - volveu David.
Cocktail e conversa, num dia de Julho. Os novos vizinhos da casa à beira do lago, Matthew e Amanda Bridges. Os filhos vieram da cidade passar o fim-de-
-semana. Júlia, fresca no seu vestido de algodão azul. Matthew, de calças de cotim e camisa desportiva, deixando perceber os braços e o peito vigorosos. Amanda,
de calças e blusa branca. Julho.
A porta fechou-se com ruído.
Agosto.
- Hi! - gritou ela.
- Hi! - respondeu ele, erguendo o braço para sublinhar a saudação.
- Já tomou banho?
- Não.
- Aposto em como a água está gelada.
Ela trazia um fato de banho verde, que lhe desenhava as curvas suaves do corpo. Dirigiu-se com um passo vivo para a doca defronte da casa, como se para mergulhar
imediatamente no lago. David observava-a como perito e apreciador. Ela movia-se com uma graça fluida, feminina, e era agradável contemplá-la. De súbito, ela sacudiu
a cabeça, tornou a caminhar ao longo da doca e afastou-se, para descer a margem lodosa. Com um passo cauteloso, caminhou para a borda da água: segundo parecia, queria
entrar progressivamente no lago. Fê-lo com graça, delicadeza, as mãos erguidas até aos globos dos seios firmes, soltou gritos juvenis no momento em que a água tomou
contacto com o seu corpo, sob o fato de banho verde. A porta abriu-se de novo e fechou-se com um estalido seco. Matthew.
- Hi, David. Toma banho?
- Ainda não.
- Está gelaaada! - exclamou Amanda.
Na água, até à cintura, um pouco inclinada para a frente, mergulhava os dedos, como David vira fazer de avós a netos.
Disse de si para si que gostava de Amanda Bridges.
Os ruídos do lago eram agradáveis. Matthew, sorridente, ultrapassara Amanda e lançara-se à água sem hesitação. Não tardou em vir à superfície, fez: "Brrr!", e tornou
a mergulhar. Houve um silêncio momentâneo durante o qu o ruído longínquo do escoadouro pareceu aproximar-se, como se aproximavam e se acentuavam todos os murmúrios
do Verão:
o canto melancólico da brisa leve nos ramos altos dos pinheiros e dos carvalhos, o lânguido sussurro das folhas espessas sob o fundo do céu pálido. O vento trouxe
da casa dos Bridges o eco do riso de Kate, que brincava com o irmãozinho. Matthew, subitamente, voltou à superfície e avançou para Amanda. "Não, Matthew! Não faças
iiisso !" As palavras ficaram suspensas entre o céu e o lago, com o marulhar da água contra os pontões da doca, com o estalido produzido pelos remos nos barcos,
com os botes que dançavam perto da doca. Amarelo, vermelho, amarelo. A campainha do telefone, algures, os ruídos do Verão como se amortecidos pelo calor, ruídos
de sonho, e, muito longe, o deslizar de pneus numa estrada que corria sobre o ventre do campo indolente.
Amanda lançou ao marido, que se aproximava, um olhar receoso, feliz e excitado, antes de se lançar à água para atingir a jangada num crawl vigoroso. Trepou para
a plataforma, ofegante. Matthew seguiu-a, e os dois desataram a rir, pequenos risos satisfeitos, antes de se reclinarem no toldo. O lago tornou-se silencioso. David
escutava o riso das crianças no chalé. "- Não", dizia Kate com a sua voz aguda de menina. "Tu serás o leiteiro, Bobby." David fechou os olhos. O sol era quente.
Começou a dormitar.
Um crepitar.
Um estranho crepitar.
As suas pálpebras estremeceram. Tombaram.
O cheiro. Penetrante. O nariz, a garganta. O crepitar. Que é que...
Voltou-se na cadeira de lona. O sol queimava-lhe o ombro direito, sentia a garganta dorida, o cheiro\ enchia-lhe as narinas. O calor e o cheiro de...
De súbito, sentou-se, direito.
O fumo!
Primeiro fez correr os olhos pelo lago, pestanejando. Eles tinhan adormecido na jangada. Voltou-se para a direita, viu o fumo subir no espaço, escutou de novo o
crepitar. Provinha do chalé dos Bridges, das traseiras. "As crianças estão dentro de casa. Fogo", pensou ele. Fogo.
- FOGO! - gritou.
Pôs-se de pé, de um salto. "Os sapatos. Onde se meteram os sapatos?!"
- Fogo! - gritou uma vez mais.
Precipitou-se para o chalé através do trecho de terra semeada de calhaus que separava as duas casas. "Onde se meteram aqueles malditos sapatos?", pensou. "As crianças
estão dentro de casa, oh, Jesus!"
- Fogo! - gritou ainda, ao passar uma quina do chalé. Mas deteve-se, rígido, ao ver as chamas.
Combatera incêndios, no campo de treino, lutara contra as chamas desencadeadas por gasolina queimada, manobrara um extintor e sufocara as chamas enquanto uma espessa
fumarada negra se elevava e o calor lhe subia ao rosto num cogumelo gigantesco. Mas no campo havia especialistas experimentados para dirigir os marujos embrionários,
sabia-se que dominavam perfeitamente a situação, que não sobreviria mal algum.
Aqui, nada que se parecesse. David tinha a impressão de que o seu espírito funcionava às sacudidelas, uma imagem de cada vez. As chamas. O alpendre da bomba. A
bomba funcionava com gasolina. Precipitou-se para a porta aberta, mas recuou diante das chamas. "Estou em fato de banho", pensou. "Jesus, que é que... Jesus... As
chamas... Como?" Viu o bidão de gasolina colocado diante do tubo de escape da bomba, viu a gasolina que fluía, que alimentava o incêndio. Estendeu o braço através
das chamas. Alcançou a pega ardente e calcinada do bidão e puxou-a das chamas num só movimento, o gesto de um braço estendido que arrancou o bidão ao incêndio e
o conduziu muito perto do seu corpo quase nu. Uma língua de fogo saiu do orifício do bidão, seguiu a trajectória. David sentiu o calor passar-lhe pelo rosto, viu
aparecer de súbito na porta de madeira do telheiro um rosto enegrecido produzido pelo incêndio. Deixou a pega e o bidão tombou nas moitas, a que imediatamente lançou
fogo.
"Oh, Jesus!", pensou.
- Uma mangueira. Água.
Virou a cabeça para um lado e para o outro, em pequenos movimentos. Onde estava Matthew? Por que diabo demorava tanto tempo a chegar daquela maldita jangada?
- David, que se passa? - gritou-lhe a mãe da varanda de sua casa.
- Fogo! Chame Matthew!
Viu, nas traseiras do chalé, a mangueira de rega e correu para ela. Kate introduziu a cabeça na janela do andar de cima.
- Que se passa, Sr. Regan? - perguntou ela.
- Sai de casa! - gritou David, desenrolando a mangueira.
- Como?
- Sai de casa!
- Como? Como?
- Sai daí! A casa está em chamas!
Sempre a correr, voltou ao telheiro da bomba, de mangueira na mão. "Por onde começar?" perguntou-se. "Pelas moitas? Pelo telheiro? Por qual, em primeiro lugar?
Toda a margem do lago vai ser devorada pelo fogo. Para principiar, as moitas. Sim, as moitas." Mas, nem uma gota de água brotou da mangueira. "Oh, não abri a torneira!"
Largando a mangueira, correu para a torneira. Abriu-a e voltou célere. Mas nem uma gota de água saía do bocal. "Vamos!" De que lado? Ah, voltara-a no sentido contrário!
Acabou por a abrir, e lançou o jacto para as moitas, viu uma fumarada branca substituir as chamas e voltou-se para o telheiro. As chamas lambiam o tecto. "Vão-no
atravessar", pensou. "Vão penetrar na casa. A Kate já saiu? Teria ela o bom senso de trazer consigo o irmãozinho?" Ergueu os olhos, viu a janela aberta, deserta,
e dirigiu o jacto contra a bomba.
Foi então que reparou nas latas. Latas de tinta empilhadas por trás da bomba. Viu uma garrafa de 4 litros de querosene. Viu uma lata marcada "Verniz". "Todas estas
coisas danadas me vão explodir na cara", pensou. "Esta casa não é minha. Estou louco." Mas mantinha o jacto voltado para as chamas. "Extingue-te, maldito! Extingue-te!"
Aproximou-se mais do braseiro. Ouviu um leve crepitar, atingiu-o o cheiro horrível de cabelos queimados. "O meu peito", pensou, e recuou. Um fato-macaco ardia por
cima das latas de tinta. Estendeu a mão no interior da pequena cabana, neste caixão vertical, nesta pequena divisão onde uma bomba era pasto de chamas, tendo a seu
lado uma grande quantidade de matérias explosivas. Apoderou-se do fato-macaco e lançou-o por cima do ombro, para o solo. Imediatamente, dirigiu para o trapo em chamas
o caudal da água. No mesmo instante apercebeu-se da presença de Matthew, molhado, ofegante. Porque demorara tanto? Não se deu conta de que lutava contra o incêndio
apenas há três minutos.
- As crianças - disse. - Lá em cima.
- Tomará conta disto, aqui?
- Sim. Vá buscar as crianças.
Matthew desapareceu. David sentia o coração bater com violência no peito nu. Começou a pensar que dominava as chamas, mas um novo temor assaltou-o. A água. E se
a água viesse a faltar? Era a bomba que ardia. Todas as vezes que a pressão se tornava mais débil, era preciso accionar a bomba. Era ela que fornecia a água, que
estava a utilizar em grandes quantidades, e a bomba era pasto das chamas. Que faria se a água faltasse? "Não acabes", pensou David. "Continua do meu lado. Estamos
a dominá-lo, sim, estamos a dominá-lo." Dirigiu o jacto para o tecto. As chamas recuavam. Não, elas estavam sôlidamente instaladas. A água brotava agora com menos
força. "Mantém-te", pensou. "A tinta. Vai-me explodir na cara. Afasta-te. Afasta-te daqui." Mas continuou, sem recuar um centímetro.
Ali ficou, debruçado sobre as chamas, coberto de suor e de fuligem, com o cheiro a cabelos queimados, o rosto e os braços enegrecidos. Atrás de si, no ca reiro,
o fato-macaco acabava de se consumir. Diante dele, as 'etiquetas ameaçadoras das latas e das garrafas. Tinta, verniz, gasolina. A água não mais jorrava. Lançou para
o solo a mangueira, que apenas gotejava. As chamas ganhavam sem demora novo vigor. David pegou numa pá cujo cabo ardia contra a parede de madeira do telheiro, deixou-a
tombar com uma imprecação, juntou terra com as mãos nuas e lançou-a contra o cabo da pá, que pegou uma vez mais; estava ainda quente, mas podia-se manejá-lo. Arremessava
para a cabana punhados de terra fresca quando Matthew reapareceu. As crianças choravam. Amanda trouxe dois pequenos extintores da cozinha. Sem proferir uma palavra,
estendeu-os a David, que voltou maquinalmente os manípulos. Alguns segundos depois os extintores estavam vazios. David encontrou Matthew a seu lado com outra pá.
- Ora, vamos a isto - disse ele.
Trabalharam juntos, lançando alternadamente pàzadas de terra, pela estreita abertura, sobre as chamas, que se iam tornando mais débeis. Amanda tentava acalmar as
crianças, apertando-as contra o seu fato de banho molhado. Júlia encontrava-se agora entre eles, com os olhos dilatados pelo horror. Outras pessoas aproximaram-se,
cada uma trazendo um extintor verdadeiro. O incêndio estava quase debelado. Um homem calçado com botas que lhe chegavam aos quadris entrou na cabana e calcou os
tições, recobriu com terra os pedaços de madeira que se consumiam e lançou um último jacto de água sobre o que ainda ardia.
O incêndio estava extinto, agora.
David e Matthew encontravam-se lado a lado em fato de banho. Estavam esgotados. Arquejavam. David começou a sentir o contragolpe do choque que experimentara. Escutava
o rumor das vozes em redor de si e sentia-se tomado por uma vertigem. Tinha a impressão de que ia desfalecer. Nada dizia. Toda a gente fazia perguntas, a que respondia
apenas por sinais.
A pequena Kate escapou-se inesperadamente dos braços de Amanda. Correu para David, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-lhe o rosto enegrecido.
Todos sorriram.
- Estou um pouco abalado - disse ele a sua mãe. - Há brande cá em casa?
- Sim. Vou buscá-lo.
- Obrigado. Quer acreditar que tenho as mãos trémulas?
Júlia trouxe o brande num copo alto. David tomou um grande trago e sorveu o resto lentamente, sentado, todo coberto de fuligem, na poltrona colocada perto da janela
que dava para o lago.
- Acredita em Deus? - perguntou ele.
- Sim. E tu?
- Sim - respondeu. - Mas há tantas coisas que acontecem por acaso...
- Sim, muitas - volveu Júlia.
Sentou-se defronte do filho e olhou pela janela. O seu rosto, que David via de perfil, estava calmo e repousado.
- Se existe Deus, porque é que Ele...?
David interrompeu-se e encolheu os ombros.
- Poderiam ter sido mortas - disse. - Encontrava-me ali apenas por acaso. Isto faz-me desejar...
Interrompeu-se de novo. Lançou um olhar rápido para a mãe, bebeu mais um gole e voltou-se para o lago, em silêncio.
- Que é que isso te faz desejar, David?
- Nada.
- O teu pai?
- Não.
- Sim - insistiu ela, docemente.
- Muito bem, sim, faz-me desejar que me encontrasse com ele, naquele barco.
- Para quê?
- Para o ajudar, para... para o prevenir de que tinha o pó preso no cabo, para... para me lançar à água após ele... para o ajudar... para o salvar.
- Ele não quis ninguém consigo, naquele barco.
- Como é que sabe?
- Pedi para o acompanhar.
- É mentira - replicou David.
- Recordo-me - afirmou Júlia.
- Não, mãe. Eu estava nesse momento prestes a tirar-lhe uma fotografia, a si. E a mãe pediu-lhe que ficasse nela, mas ele respondeu que não, que queria sair com
o barco.
- Sim, mas eu disse que o queria acompanhar.
- Não. Ele desceu até ao lago, subiu para o barco; eu observava-o com os binóculos. Eu... - Deteve-se, levou o copo aos lábios. Ergueu-se, entrou na sala contígua
e serviu-se de um outro copo. Quando voltou à sala de estar, a mãe não havia feito um só movimento.
- Demais, não teria feito diferença - declarou ela num tom seco.
- O quê?
- Que um de nós estivesse junto dele.
- Se o tivéssemos acompanhado...
- Não teria feito diferença - repetiu Júlia.
A sala estava silenciosa. David ouvia o murmúrio do vento nas árvores, lá fora.
- Teria sucedido numa outra vez - disse Júlia quase sem mexer os lábios.
- absurdo. Ele prendeu o pé no...
- Ele suicidou-se.
Imóvel, diante da mãe, no seu fato de banho sujo, o copo na mão, David tinha os olhos fixos no perfil de Júlia, no seu rosto impassível. O sol intenso de Agosto
recortava-lhe o nariz, o queixo, as rugas amaciadas sob a luz uniforme, reflectida pelo lago. Podia ter sido esta mesma mulher que fotografara naquele dia longínquo,
sim, podia ter sido esta mesma mulher. O tempo mostrava-se clemente para Júlia Regan.
- Como? - disse David.
- O teu pai suicidou-se.
- Como? - repetiu ele, mas Júlia não proferiu desta vez as mesmas palavras. Contemplou-a, mudo, como se petrificado, antes de acrescentar: - Não o pode saber. Como
o saberia a mãe?
- Ele disse-me que se ia suicidar.
David pousou o copo e aproximou-se. A mãe continuava impassível, sem desviar os olhos 'da janela.
- Ele
- Sim.
- Quando?
- Quando eu... Alguns dias antes - volveu, após uma hesitação.
- Pronunciou essas palavras. Afirmou que se ia matar?
- Sim.
- Olhe para mim.
Júlia voltou-se lentamente.
- Quando declarou ele isso?
- Acabo de te dizer. Alguns dias antes de se afogar.
- E nada fez para o impedir?
- Tentei.
- Tentou? Mas se ele se matou, que tentativa fez a mãe?
- Falei com ele. Tentei demonstrar-lhe que o amava.
- Mas ele não o sabia já? - gritou David.
A pergunta surpreendeu Júlia. Ergueu os olhos para o rosto do filho.
- Sim, sabia.
- Então, em que é que isso o podia ajudar?
- Nada o poderia ajudar. Ele tomara uma decisão. Queria suicidar-se.
- Porquê?
A pergunta ficou suspensa entre os dois.
- Porquê? - repetiu David.
- Não sei.
- Ele falou no caso. A mãe disse-me que ele falara..
- Sim, mas não...
- Porque queria ele suicidar-se?
- Não sei.
David pegou a mãe pelos ombros.
- Não me minta.
- Tu sabes tudo.
- Mas existe algo mais. Diga-me o que é!
- Porquê?
- Passei quatro anos malditos na prisão porque...
- Como? Como?
- Diga-me, porque morreu ele?
- Morreu porque queria morrer.
- Mas porque queria ele morrer? - perguntou David lentamente, numa voz igual.
Os olhos de Júlia não se apartaram dos do filho. A sua voz era lenta também, uniforme, como a de David.
- Não sei. Não me disse.
Fez uma pausa.
- Talvez estivesse apenas cansado de viver, David. Talvez se tivesse sentido bruscamente muito cansado.
De pé, diante dela, David fitava-a.
- Não creio - disse.
Júlia não mostrou ter ouvido o filho.
- Mas não penso que esse facto possa ter importância para si.
- Tem, David.
- Decerto, decerto. Quase tanta como a que... Bem, estive na Califórnia e esperei em vão que a... - Sacudiu a cabeça com violência. - Mas não pensemos mais no caso.
- Eu visitei-te - volveu ela tranquilamente.
- Uma vez! Em quatro anos, visitou-me uma vez!
- Há quem não tenha nada - afirmou Júlia ainda num murmúrio.
- Quê?
- Nada - disse ela. - Nada.
O filho fitou-a por um momento antes de levar de novo o copo aos lábios e entrar mais uma vez na sala contígua. Tirou a garrafa do aparador e subiu ao quarto.

Estava embriagado quando saiu de casa, e Júlia, deitada, perguntou-se onde ia ele, se nada lhe aconteceria, e dizia de si para si: "Ele tem vinte e oito anos, pode
cuidar dele." Mas pensava que, se David estava bébado, era por sua culpa, e por sua culpa encontrava-se também algures na noite, provavelmente a beber até ao esquecimento.
"Não devia ter-lhe revelado aquilo."
Não conseguia dormir.
Afastou as cobertas e dirigiu-se ao telefone. Marcou um número e esperou. "Ele é um homem, agora", pensou. Ouvia o retinir do aparelho na casa vizinha. "É quase
meia-noite. Não devia ter telefonado."
- Está? - disse uma voz.
- Amanda?
- Sim.
- Fala a Júlia.
- Oh, olá, Júlia - volveu Amanda, ensonada. - Que há?
- Acordei-vos?
- Não, não, não tem importância. Que se passa?
- Posso falar ao Matthew, por favor?
- Sim. Um momento.
Ouviu a voz de Amanda, sumida. "- Matthew, é a Júlia." E a voz de Matthew: "- Que se passa?" E de novo Amanda: "- Não sei. Fala com ela."
- Está?
- Matthew?
- Sim. Então que temos, Júlia?
- Lamento telefonar-lhe a esta hora...
- Não seja tola. Que se passa, Júlia?
- O David saiu de casa, embriagado. Estou inquieta.
- Onde foi ele?
- Não sei.
- Quer que o vá procurar?
- Oh, por Deus, sim. Levou o Alfa e tenho medo que...
- Vou vestir-me - disse Matthew.
- Obrigada, Matthew. Muito grata pelo...
- Telefonar-lhe-ei depois.
Matthew desligou.
- Que quer ela? - perguntou Amanda.
Matthew pegou nas calças, colocadas no tampo de uma cadeira.
- O David está embriagado. E dirigiu-se para a cidade. Ela quer que eu o vá procurar.
- Ele não é criança nenhuma. Realmente, penso...
- Eu sei. Mas o David é filho da Júlia e ela está inquieta.
- É razão suficiente para te tirar da cama a meio da noite?
- Penso que sim. A Júlia é uma amiga, Amanda. E, por amor de Deus, foi o David que me extinguiu o incêndio desta tarde. O menos que posso fazer...
- Sim - disse Amanda.
- Então?
Amanda não respondeu. No momento em que o marido saía, disse sõmente:
- Toma cuidado.

Encontrou David no terceiro bar que visitou. Este era uma vasta cabana de madeira situada a uma vintena de metros da estrada nacional, entre o lago Abundance e
Talmadge. Umas dezenas de carros estavam arrumados no piso de cascalho do parque de estacionamento. Uma tabuleta de néon, sobre a qual investiam as borboletas, piscava
na noite de Verão, mencionando o nome do local e dando uma só indicação: DANÇING. Um copo de cocktail em que subiam algumas bolhas decorava um dos ângulos do letreiro.
No interior, Matthew ouvia um gira-discos que sussurrava uma canção romântica de Frank Sinatra. Abriu a porta e penetrou na sala enfumarada.
Algumas pequenas cabinas descobertas alinhavam-se ao longo de uma parede, enquanto um comprido balcão ocupava uma outra em frente, desde a porta de entrada até
à parede oposta, onde se abria, como sequência, a porta da cozinha, a de uma cabina telefónica, a do toilette das senhoras e, por fim, a dos lavabos dos homens.
David ocupava um tamborete perto da porta de entrada. Matthew instalou-se no tamborete vizinho.
"Tu prometeste-me o teu amor, Desde agora... E pela eternidade..."
- Hi! - disse Matthew.
David voltou a cabeça e fitou Matthew com o olhar escrupulosamente atento do homem que não se quer comprometer.
- Não há nada que dure pela eternidade - disse ele.
- Talvez não.
- Não existem possibilidades seja de que espécie forem - protestou David, sacudindo com vigor a cabeça. - Nada. O mundo é efémero.
- Escute - disse Matthew -, e se você voltasse para casa?
- Para fazer o quê?
- A sua mãe está inquieta.
- Não, não é verdade! - volveu David, desatando a rir. - É muito tarde. Ela devia ter começado a inquietar-se há muito tempo.
- Bem, vá, acabe o copo e...
- Escute, Matthew, vá passear.
- Vamos passear os dois, juntos.
- Não, vá passear você sozinho. Quanto a mim, sinto-me muito bem onde estou.
- Bem, nesse caso, fico consigo.
- Não confio em tipos de bigode.
- Porquê?
- Porque não. "Precisas de fazer a barba..." Foi o que ele me disse - prosseguiu David depois de um silêncio. - "Precisas de cortar o cabelo, Regan. E de engraxar
esses sapatos."
- Quem foi que disse isso?
- Um amigo meu. Há muito tempo. Em mil novecentos e quarenta... e três? - Os seus olhos dilataram-se, estupefactos. - Há dez anos, compreendes? Sim, compreendes?
- É verdade.
Matthew fez um sinal ao barn'an e pediu:
- Bourbon seco.
- Vais fazer-me companhia? - perguntou David, com familiaridade.
- Se não posso levar-te comigo, acho melhor assim - volveu Matthew no mesmo tom.
- Meu velho, não há nada a fazer de mim.
- Pois.
- Que mania é essa' de concordares sempre comigo? Não sabes do que falo e concordas comigo.
- Bom, então que é que não podes impedir?
- O motivo, a linha geral.
O barman trouxe a bebida a Matthew, que ergueu o copo.
- À tua - disse David.
- À tua - respondeu Matthew, e bebeu.
- Sim, é isso - tornou David. - O motivo. É sempre a mesma coisa. Nada se pode fazer para o modificar. É um grande ciclo.
- É verdade.
- Ora, estás ainda a concordar comigo e, como sempre não sabes de que diabo eu falo.
- Queres dizer que a vida é um ciclo, não? Que segue um certo padrão, uma certa linha geral.
- É bem isso - aprovou David, inclinando a cabeça.
- E que é difícil escapar a este padrão?
- Difícil não: impossível Porque nada perdura.
- Certas coisas, sim.
- Nada. Escuta, e ela perdurou, hem?
- Quem?
- Como se chama ela? Tu sabes.
- Não, não sei.
- Gillian. É verdade, Gillian.
- Conheci uma Gillian, noutros tempos.
- Há sômente uma Gillian no mundo. Então deve ser a mesma. Gillian Burke. É essa?
- Sim, é essa - disse Matthew.
- Pois, nada perdura, e o mundo está podre.
- Eis uma atitude bem cínica, David.
- Eh, como sabes tu o meu nome?
- Já nos encontrámos antes - volveu Matthew, sorrindo.
David debruçou-se a fim de o olhar mais de perto.
- É certo. Porque não rapas o bigode? Jesus!
- A minha mulher gosta dele.
- És casado? Ah, sim, Amanda, é verdade. Boa rapariga. Parabéns.
- Obrigado.
- Eis o que origina o motivo. As raparigas. As mulheres.
- Sim, sem dúvida.
- Quem mais deita bebés ao mundo, hem? Eis o princípio de tudo, não achas? Deitar-se bebés ao mundo, não? Eis o ponto de partida.
- É verdade.
- Assim, porque será tal facto também o fim de tudo?
- Penso que não te compreendo bem.
- Porque nos matam elas?
- Não creio que o façam.
- Não? Ah, não?
A voz de David desceu de tom, tornou-se ameaçadora.
- Então quem o matou, hem? Que é que o matou, hem? Se não foi ela, quem, então? Queres dizer-me?
- Não sei.
- Bebe outro copo.
- Não, penso que...
- Barman, traz ao meu amigo outro não-sei-quediabo.
- Bourbon? - volveu o homem. - Um bourbon, decerto.
- Claro - disse Matthew, encolhendo os ombros.
- E outro brande - pediu David. - Sabes quem o matou?
- Não.
- Ela. Sabes para onde foi?
- Diz...
- Para Bidili. Nas Baamas.
- Bimini, queres tu dizer.
- Eu disse Bidili, eu? - perguntou David, desatando a rir estrepitosamente. - É uma piada. Bem, foi a minha vez. Onde está o meu copo?
David percorreu o balcão com o olhar e disse:
- Oh, aqui estás, pequeno bastardo. - Pegou no copo. - Ela deixou-me liquidado, partiu para Bimini. É um exemplo, isto. Nasci com ela.
- Com quem?
- Com a Gillian. Nasci. Absolutamente. Sem dúvida. E então? Ela matou-me. É isto o ciclo, meu velho. Nasces e depois morres.
- Bem, lá isso é verdade.
- Á tua. Já to havia dito?
- Não.
- Bom, então à tua.
Os dois levaram aos lábios os copos acabados de servir.
- Ora, o que há de mais engraçado em tudo isto, Matthew, é o seguinte: quem nos dá a vida também nos pode matar. Acho que é muito cómico.
- Eu não - disse Matthew.
- Não? - volveu David, surpreendido. - Quanto a mim, parece-me uma coisa de nos deixar perplexos.
- As mulheres são sômente mulheres, David - declarou Matthew, esvaziando o copo. - Nada encontro de misterioso nelas.
- Quanto a mim, acho que o facto de se ter um bebé é um mistério. Podes ter um bebé, tu?
- Não.
- Nem eu... Esse é o maldito mistério do século, não achas? - prosseguiu ele, sacudindo os ombros. - Considero isto uma coisa fantasmagórica, para te ser franco.
- Sim, decerto, mas...
- Agora escuta, vou dizer-te uma coisa. Existe vida e existe morte numa só pessoa, meu velho. Numa pessoa sômente. Afirmo-te: é como se ela comesse a sua cria.
A vida e a morte.
- Quem te ouvir é capaz de dizer que não gostas
das mulheres. -
- Amo-as!
- Então porque as consideras assassinas?
- Quem é que disse uma coisa dessas? Afirmei que é a vida, irmão. A vida. Escuta, e se bebesses mais um copo, hem?
- De acordo - volveu Matthew.
Fez um sinal ao barman e indicou o copo vazio.
- Dar e roubar, Jekyll e Hyde, aí tens a vida
- tornou David. - Um homem é uma coisa. Ponto final. Mas uma mulher é todas as espécies de coisas ao mesmo tempo. E eis porque é tão misteriosa.
- Uma mulher é uma mulher - afirmou Matthew, com ênfase. - É uma só coisa. Uma mulher. E não e... não é de modo algum misteriosa. Uma mulher. Ponto final.
- De acordo. Mas é uma quantidade de coisas.
- Não.
- Sim. Escuta. É filha, não é assim?
- E- preciso que seja filha. Não pode ser um filho.
- É verdade. É mesmo verdade, Matthew! E quando cresce, que é que faz?
- Que é que faz?
- Dá uma volta e torna-se mãe.
- Bom, isso é natural.
- Claro, mas diz bem o que tento afirmar.
- Não sei que é que tentas afirmar, David.
- Tento afirmar que é aí que reside o segredo da vida.
- Ora, eu não vejo segredo algum.
- És pai?
- Sim.
- Foste filho?
- Claro que fui.
- Okay.
David sacudiu a cabeça e caiu no silêncio, como se tivesse acabado de fazer uma brilhante demonstração. Pegou no copo e começou a beber a pequenos goles. O silêncio
prolongou-se.
- o quê? - disse Matthew.
- É a vida. A vida é um motivo. Um padrão.
- A vida é uma fonte - redarguiu Matthew, desatando a rir.
- Ora, vamos, fala a sério - volveu David. - Crês que Deus é um homem?
- Absolutamente.
- Sim, decerto, é obrigado a sê-lo - aprovou David, sacudindo a cabeça com ar solene.
- Mas o amor é uma mulher - afirmou Matthew, também com solenidade. - E a vida é amor. São elas que dão o amor, David, não te esqueças. São as mulheres que dão
o amor. Foram elas que o inventaram.
- Um'a mulher.
- Eva.
- Não. Gillian.
- Mais de uma mulher. Todas as mulheres.
- Ora vamos, fala a sério, Matthew.
- Falo a sério. Todas as mulheres. De que necessita um homem, David, podes tu dizer-me? - Não esperou pela resposta de David e prosseguiu: - De amor. Ele necessita
de uma mãe, de uma esposa, de uma filha. Para dar amor. Porque elas dão o amor. São as portadoras da chama do amor.
- As mães - disse David com uma careta amarga.
- Escuta, necessita-se de ter mãe.
- Até que se seja adulto, eis tudo.
- E esse é o segredo - volveu Matthew.
- Qual segredo?
- O amor.
- O segredo é que as mulheres têm sempre um segredo. Eis o segredo.
- O segredo é o amor - insistiu Matthew.
- Escuta, e se procurássemos umas raparigas?
- Não posso
- Porquê?
- Porque sou um homem honesto.
- E depois?
- Casado.
- E depois?
- Não poderia fazer uma coisa dessas a Amanda.
- Matthew - disse David com evidente sinceridade, dando-lhe uma palmada num ombro. - Matthew, manda para o Diabo os escrúpulos.
- 'Não. Não posso.
- Então, Matthew, vai para casa.
- Tenho de te levar comigo.
- Vou procurar uma dama.
- A tua mãe está inquieta.
- Diz-lhe que vá... Vamos, Matthew, segue para casa e diz-lhe que não se inquiete. Diz-lhe que sou crescido, que posso conduzir-me sózinho, e conduzir o estúpido
do automóvel dela. Vai, Matthew.
- Não.
- Oh, vai, Matthew, sê compincha.
- Queres ir atirar-te a um poste?
- Decerto que não.
- Bom. Vem. Seguir-te-ei no meu carro para me assegurar de que nada te acontece.
- É uma coisa muito decente da tua parte, Matthew.
- Obrigado.
- És um tipo terrivelmente decente, Matthew.
Pagaram a despesa e sairam num passo incerto. Uma vez fora do bar, David disse:
- Mas que senso tem isso? Procurar uma rapariga. Para que serve? Sabes quantas raparigas me caíram no papo nestes últimos anos?
- Não. Quantas?
-Um milhão.
- É uma quantidade enorme - disse Matthew.
- Decerto que é, Matthew. E queres saber, Matthew? Se reunisses todas estas raparigas, não terias senão uma mulher, sômente uma mulher.
- É uma observação bem perspicaz e judiciosa, David.
- Obrigado. Segues-me tu ou sigo-te eu?
- Vamo-nos seguir um ao outro - decidiu Matthew, rindo.
- Não, não - volveu David. - Depois de ti. - E fez uma larga vénia.
- Não, não - protestou Matthew.
- Vamos tirar à sorte. Que escolhes? Par ou ímpar?
- Ímpar - disse Matthew, fechando o punho.
- Par - declarou David.
Na obscuridade do parque de estacionamento, eles ficaram, de punhos cerrados, vacilantes.
- Um, dois, três, zás! - ordenou Matthew.
Lançou para diante a mão no momento em que David fazia o mesmo.
- Não consigo ver os dedos - afirmou David.
- É a minha vez. - disse Matthew. - Pronto? Um, dois, três, zás! - Olhou para os dedos estendidos.
- É a tua vez agora. Pronto? Uma, duas, três, zás! - Olhou de novo para os dedos.
- Que é que tenho? Par ou ímpar?
- Quem sabe? Escuta, Matthew, sou eu que te sigo. Combinado?
- Bom. A questão está resolvida.
- Boa noite, Matthew.
- Boa noite, David. Apresenta os meus cumpri mentos, sim?
- Está bem.
- Eis o segredo - disse Matthew, e afastou-se na noite.
David observou-o por um momento, agitou a mão na obscuridade e dirigiu-se por fim para o Alfa Romeo. "O amor", pensou. "Não existe segredo algum."

- Estás embriagado? - perguntou Amanda.
- Quem? Quem, eu? - volveu Matthew.
- Oh, Matthew, como conseguiste tu...?
- Ninguém está embriagado. Ora, chiu, chiu, que acordas as crianças.
- Encontraste o David?
- Encontrei o David.
- Trouxeste-o para casa?
- Não. Deixei-o mergulhar no pecado e na corrupção.
- Matthew, a Júlia tinha-te pedido que o trouxesses.
- Trouxe-o. Trouxe-o.
- Que estás aí a fazer?
- Tento despir as calças. Eis o que faço. Que te parece que estou a fazer?
- Deixa-me ajudar-te.
Amanda saiu da cama e juntou-se ao marido, que saltitava de um pé para o outro.
- Eh, larga!
- Matthew, não te faças idiota. Horroriza-me ver-te embriagado.
- Quem é que está embriagado?
- Tu.
- Sou bem capaz de abrir sózinho o fecho de correr.
- Tira daí a mão!
- Amanda, não me amas? - perguntou ele num tom grave.
- Sim. Senta-te, Matthew, que eu retiro-te os sapatos.
- Quero morrer calçado - disse ele lançando-se para a cama.
- O David estava tão embriagado como tu?
- Oh, ele estava tão lúcido como eu - volveu Matthew com dignidade.
- Quem conduziu?
- Ambos.
- Onde o encontraste?
- Num bar.
- Que bar?
- Quem o sabe? O Bar X.
- Matthew
- O Bar Sinistro, quem sabe? - disse Matthew, desatando a rir. - Os Bares Sinistros não fazem sinistros os bares.
Amanda suspirou e dirigiu-se para o guarda-fato, onde colocou as calças do marido, depois de as dobrar cuidadosamente. Quando voltou ao leito, Matthew estava quase
adormecido. Ela retirou-lhe as peúgas e, debatendo-se com as suas longas pernas, conseguiu por fim estendê-lo sob as cobertas.
- A grande cama de cobre - murmurou Matthew.
- Quê?
- O amor - disse ele numa voz pastosa. Bruscamente, abriu os olhos. - Eh, ele conhece a Gillian.
- Matthew, fazes favor...
- David conhece Gillian - afirmou ele num tom firme, sacudindo a cabeça.
Amanda fitou-o durante um momento, em silêncio; depois perguntou:
- Onde está ela?
- O David não disse.
- Em Nova Iorque?
- O David não disse.
- Ora, Matthew, porque não lhe perguntaste?
- Porque ela liquidou aquele pobre.
- Quê?
- Oh, Amanda, queres calar-te, sim?
- Pergunto-me onde estará ela - disse Amanda num tom pensativo.
- Dorme, provàvelmente, o que... o que... alguém... com bom senso...
Não proferiu mais palavra alguma.
"Pergunto-me onde estará ela", pensou Amanda, e sentiu súbitamente uma pancada no coração. Mirou Matthew adormecido, um braço enroscado no travesseiro. De pé, junto
do leito, em camisa de noite, pensava em Gillian. E perguntava-se onde estaria ela. De súbito, sentiu-se como que vazia e reflectiu:
"Tu tens tudo, Amanda: um marido, dois filhos, uma casa soberba. Tens tudo." E recordou-se inesperadamente do dia em que a mãe perguntara: "- Tens talento, Amanda?"
Estendeu-se ao lado de Matthew e ficou de olhos abertos, por longo tempo, perscrutando a obscuridade, antes que o sono a invadisse.

Ela ouviu o Alfa Romeo entrar na grande álea. Ouviu o filho fechar com ruído a porta do carro e praguejar, pois, na escuridão, tropeçara num obstáculo qualquer.
Ouviu-o caminhar em direcção da porta de entrada e ouviu-o debater-se com a chave até compreender que a porta não estava fechada. Ele praguejou de novo ao encaminhar-se
para a cama. Agora, ela achava-se estendida no seu leito, entre todos os ruídos da noite, o marulhar do lago, o canto de mil grilos e pensava. "Nada lhe devia ter
revelado. Nada lhe devia ter revelado."
Confessara tudo a Arthur no quarto da casa de Talmadge, enquanto se vestiam para sair. Estava sentada em combinação diante do toucador quando Arthur surgiu, da
casa de banho. Estava em roupão e enxugava a cabeça com uma toalha. Ela observava-o no espelho enquanto alisava os cabelos e contava as vezes que a escova lhe percorria
a cabeça: trinta e uma, trinta e duas... observava Arthur, que se friccionava com vigor, cantarolando... trinta e três, trinta e quatro... Ele sorria. Arthur lançou
a toalha para cima da cama e voltou-se para contemplar a mulher. Júlia teve a impressão de que uma corrente de ar gelado invadira o quarto. Apercebeu-se imediatamente
de tudo o que se ia passar. Trinta e seis... Pousou a escova.
Arthur observava-a, de cabeça inclinada, cantarolando ainda. Ela pegou no frasco de verniz para as unhas, desarrolhou-o, e começou a arranjar o polegar esquerdo.
"- Que sentes por te encontrares em casa?", - perguntou Arthur.
"- É maravilhoso", - respondeu.
A mão tremia-lhe. O verniz verteu para a cutícula, ela embebeu-o num pedaço de algodão e pegou novamente no pincel. Não tinha razão para pensar que se fosse passar
outra coisa que não uma conversa perfeitamente normal; contudo, sentia-o. E, sentindo-o, talvez o desejasse. Ou era porque desejando-o sentisse aproximar-se um acontecimento
fora do normal? "Se ao menos estivesse terminado", pensava ela. "Se ao menos não tivesse necessidade de mentir..." Não devia ter voltado. Mas o jovem, o jovem, David.
Sim, decerto, mãe alguma pode permitir-se desaparecer, muito simplesmente. Ela suspirou e volveu toda a sua atenção para as unhas que cobria com uma camada uniforme
de verniz cor de sangue.
Arthur dirigiu-se para o toucador. Observou-a no espelho.
"- Cheiras bem", disse ele, "já me tinha esquecido do teu perfume. O odor dos teus perfumes, dos teus cosméticos, Júlia, foram o suficiente para me advertir de
que tinhas regressado. Mesmo que não te pudesse ver. Mesmo que não te pudesse tocar."
Ele ergueu as mãos e pousou-as doce, levemente, sobre os ombros nus da mulher.
"- Não."
Ele não respondeu. Os seus olhos encontraram-se no espelho. Ela baixou ràpidamente a vista.
"- Estou a arranjar as unhas. Não as quero estragar."
Arthur não retirou as mãos dos ombros de Júlia. Ela fazia por ígnorá-lo, mas sentia o peso das mãos do marido, embora estas fossem leves. Concentrava a sua atenção
nas unhas, recusava-se a encontrar os olhos de Arthur no espelho, a mostrar que tinha consciência da pressão das suas mãos. Ele continuava de pé, por trás dela,
silencioso, imóvel, como se a desafiasse a repeli-lo, como se esperasse, rígido e calado, que a mulher repetisse: "Não."
"- Não te vestes?", - perguntou Júlia num tom negligente.
"- São apenas sete e meia, temos ainda uma hora."
"- Já te barbeaste?"
"- Sim."
"- Mas não crês que..."
"- Não demorarei cinco minutos a preparar-me."
"- Preciso ainda de algum tempo."
"- Já te vi vestires-te bem depressa nos momentos em que o desejavas."
As mãos de Arthur estavam ainda nos ombros da mulher.
"- Sim, mas há um ano que não vou a casa dos McGregors. Acho que é preciso..."
"- Dispomos ainda de bastante tempo. Com efeito, Júlia, não sei mesmo porque lá vamos."
"- Eles são nossos amigos."
"- Sim, eu sei."
"- E não os vejo desde..."
"- Sim, e não me vês desde o último Natal."
"- É verdade."
"- Há uma semana que regressaste, Júlia."
A mão que segurava o pincel começou a tremer. Júlia não respondeu. Com a mão esquerda estendida, examinava as unhas.
"- Não te sentes feliz por teres regressado?"
"- Decerto que sim, Arthur."
"- Não te sentes feliz por me veres?"
"- Estou encantada, Arthur."
Ela fez um movimento ligeiro com os ombros, para tentar desembaraçar-se das mãos pousadas em si, sem dar impressão de o fazer deliberadamente.
"- Arthur, por favor."
"- Que diabo, Júlia, que se passa?"
"- Tento arranjar as unhas."
"- Não te estou a falar das unhas. Quero saber o que se passa. Estivemos separados durante..."
"- Arthur", disse ela, e, desta vez fez um movimento enérgico e perfeitamente deliberado, conseguindo sacudir as mãos do marido. "Existem certas funções
femininas naturais que..."
"- Regressaste há uma semana, Júlia. Talvez seja um pobre matemático, mas o certo é que te encontras em casa há uma semana."
"- É exacto", volveu ela num tom calmo.
"- É exacto, Júlia."
"- Sim, é exacto."
Por um momento pensou que o seu diálogo era bastante idiota. Procurava lutar contra este silêncio que invadira bruscamente o quarto, sabia que era a sua
vez de falar, que a conversa entrara num impasse, e perguntou-se de súbito porque insistia ele desta maneira. Lentamente, voltou-se no tamborete.
"- Que queres tu, Arthur?" disse, como se o esbofeteasse.
O marido não respondeu e Júlia respeitou o seu silêncio. Havia força neste silêncio e na crispação do queixo de Arthur. Sentiu respeito por ele, mas não
queria que tudo ficasse assim.
"- Queres que me dispa, Arthur?"
Ele não respondeu ainda.
"- Oh, lamento muito" -, tornou Júlia. Voltou-se para o toucador e pegou numa pequena lima.
"- Muito bem, conta-me a verdade", disse Arthur.
"- Chegaremos atrasados. Tenho horror a..."
"- Que vá para o Diabo este maldito jantar, Júlia! Conta-me a verdade."
"- Conto-te O quê, Arthur? Queres dizer-me o que desejas que te conte?"
"- Que se passou em Áquila?"
"- Nada."
"- Então, que se passou em Roma?"
"- Nada."
"- Então, onde é que isso se passou?"
"- Onde se passou o quê?"
Voltou-se encolerizada, os olhos a faiscar, furiosa por ver que ele adivinhara. Quis que ele soubesse, mas enfurecia-a verificar que já sabia; recusava-se
a contar-lhe a verdade e, para seu desespero, sentia-se enredada numa situação que ela própria provocara.
"- Queres dizer-me o que imaginas?", perguntou Júlia, lançando ao marido um olhar de desafio.
"-... não sei"