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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Filha do Silêncio - Morris West

A FILHA DO SILÊNCIO

MORRIS WEST

As muitas edições deste livro de Morris West são uma prova irrefutável do seu valor e da receptividade que encontra por parte dos leitores antigos e novos deste
escritor que já nos deu outros romances maravilhosos como As Sandálias do Pescador, O Embaixador, O Advogado do Diabo e, mais recentemente, O Verão do Lobo Vermelho
e A Salamandra. Em A FILHA DO SILÊNCIO o autor se utiliza com maestria do drama de
um processo judicial para expor as fraquezas morais e os conflitos de seus personagens.

O prefeito de uma aldeia da Toscana é assassinado a tiros, em pleno dia, por uma jovem de 24 anos, que é presa, processada e julgada por homicídio premeditado. O
julgamento se converte na denúncia de um morto e das pessoas vivas que, há muito, se haviam unido numa conspiração de silêncio. É o ponto de partida para uma série
de intrigas, conflitos e revelações comprometedoras.

Uma história que emociona, onde o amor se mistura com a violência das vendettas primitivas.

A FILHA DO SILÊNCIO não é apenas um bom livro: é, acima de tudo, uma obra edificante.


1

ERA UM MEIO-DIA resplendente, em pleno verão, nos vales do altiplano da Toscana: uma hora letárgica, uma estação de pó e langor, de linho esbrugado e de andorinhas
nos restolhais de trigo, de vinhos novos a sazonar no país dos deuses mais antigos. Era uma hora de toques de sinos ondulantes no ar seco, tranqüilos sobre os túmulos
de santos já mortos e os feudos de rnercenários esquecidos. Havia em tudo um convite à obscuridade e às venezianas cerradas - pois quem, senão os cães e os americanos,
exporia sua cabeça insensata ao meio-dia, a um sol de agosto?

Na aldeia de San Stefano ecoavam pela praça as primeiras badaladas do angelus. O sineiro era velho, e débil a música de seus toques. A aldeia estava sonolenta e
saciada, devido à boa colheita, de modo que os últimos momentos de sua vida matinal eram também silenciosos.

Um velho deteve-se, persignou-se e permaneceu de cabeça baixa, enquanto as tríplices badaladas soavam no branco campanário. Um sujeito atarracado, de avental branco,
tendo dobrado no braço um guardanapo axadrezado, achava-se à porta do restaurante, a esgravatar os dentes com um palito de fósforo. Um policial com cara de mula
deu um passo para fora de sua porta, lançou um olhar de esguelha, preguiçosamente, pela praça, cuspiu, coçou-se e tornou a voltar para o seu vinho e o seu queijo.

A água caía, indolentemente, das bocas de fatigados golfinhos e espalhava-se pela rasa bacia da fonte, enquanto um menino escanifrado brincava com um barquinho de
papel. Um carvoeiro empurrava o seu carrinho de mão por sobre os paralelepípedos. O carro estava cheio de pequenos feixes de gravetos e de sacos marrons contendo
carvão. Uma garotinha achava-se empoleirada sobre eles, os cabelos desgrenhados, ar sério, como um diabrete dos bosques. Uma mulher descalça, com um bebé sobre o
quadril, saiu da casa de vinhos e dirigiu-se a um beco situado na outra extremidade da piazza. Cinco milhas além, as torres e os velhos telhados do casario de Siena
erguiam-se, brumosos e mágicos, contra um céu cor de cobre.

Era um quadro plácido, curiosamente antigo, esparsamente povoado, com sua animação ligada ao lento pulsar da vida campestre. Ali, o tempo fluía preguiçosamente como
a fonte, e a única mudança que se processava era a mutação cíclica dos séculos e das estações. Aquilo, compreendia-se, era um enclave tribal, onde a tradição era
mais importante do que o progresso, onde os costumes constituíam nove décimos da lei e onde os amores antigos eram alimentados tão persistentemente quanto os antigos
ódios e as emaranhadas lealdades de sangue e servidão.

Havia um caminho de acesso e outro de saída, um conduzindo a Arezzo, o outro a Siena, mas seu tráfego era pequeno e circunscrito em certas estações do ano. As estradas
de turismo e de comércio haviam sempre passado ao largo de San Stefano. As granjas do vale eram pequenas e ciosamente reservadas para seus proprietários camponeses,
de modo que os imigrantes não eram bem acolhidos. Os que se iam eram os irrequietos, os desarraigados ou os ambiciosos, e a aldeia sentia-se feliz de ver-se livre
deles.

Antes que se extinguissem os últimos ecos dos sinos, a praça já estava vazia. Fecharam-se postigos, correram-se cortinas. O pó tornou a assentar nas fendas do empedrado
irregular, o barquinho de papel flutuava sem leme em torno da fonte, e o canto das cigarras erguia-se, estrepitoso e monótono, dos campos adjacentes. Terminara o
primeiro período do dia. A paz - ou o que passava por paz desceu sobre a aldeia.

*Decorridos, talvez, dez minutos, o sineiro saiu da igreja - um frade idoso, vestindo um hábito empoeirado de São Francisco, uma tonsura branca na cabeça e um rosto
corado, sulcado de rugas, como uma maçã de inverno. Deteve-se um momento à sombra do pórtico, a enxugar a testa com um lenço vermelho; depois, lançou o capuz sobre
a cabeça e atravessou a praça, as sandálias a bater nas pedras crestadas.

Mal havia dado uma dúzia de passos, uma cena pouco comum fê-lo parar. Um táxi com chapa de Síena entrou na piazza e deteve-se diante do restaurante. Uma mulher desceu,
pagou ao chofer e ficou a observar o automóvel que se afastava, até perdê-lo de vista.

Era jovem; não teria mais de vinte e cinco anos. Seu trajo, distinguia-a como criatura citadina: tailleur, blusa branca, sapatos. elegantes, uma bolsa
dependurada do ombro por uma alça de couro. Tinha o rosto pálido, calmo e singularmente belo, como o de uma
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madona de cera. Na praça deserta, ensolarada, parecia indecisa e vagamente solitária.

Permaneceu um momento parada, a olhar a praça, como se procurasse orientar-se num território que lhe fora antes familiar; depois, com passos firmes, confiantes,
dirigiu-se a uma casa situada entre a adega e a padaria, e tocou a sineta. Abriu-lhe a porta uma matrona trajada de bombazina preta, com um avental branco atado
à cintura. Trocaram algumas palavras e a robusta mulher fez um gesto, convidando-a a entrar. Ela declinou do convite e a matrona afastou-se, deixando a porta aberta.
A moça ficou à espera, procurando algo na bolsa, enquanto o frade a observava, curioso como qualquer camponês diante de um estranho.

Não tardou talvez trinta segundos para que o homem surgisse a porta - um sujeito alto, Corpulento, em mangas de camisa, cabelo grisalhos, rosto pálido e enrugado,
um guardanapo enfiado no peitilho da camisa. Mastigava ainda um bocado de alimento e, à luz clara do sol, o frade pôde ver um ligeiro fio de molho a escorrer-lhe
pelo canto da boca. Olhou a jovem sem qualquer sinal de que a houvesse reconhecido, e fez-lhe uma pergunta.

Foi então que ela o baleou no peito.

O impacto fê-lo girar sobre si mesmo e apoiar-se à ombreira da porta - e, num momento horrível de perplexidade, o frade viu a jovem dar mais quatro vezes ao gatilho
e, depois, afastar-se, caminhando, sem pressa, em direção à pidos ecoavam ainda pela piazza delegacia de Polícia. Os estamcambaleante, a tropeçar nas pedras
quando o frade se Pós a correr, a fim de ministrar a absolvição final a um homem que já havia en'tregue sua alma ao Senhor.

Cinco milhas além, em Siena, o Dr. Alberto Ascolíni posava para um retrato - um exercício frívolo, uma ilusão de imortalidade a que se submetia com ironia.

Era um homem alto, de sessenta e cinco anos, de rosto rosado e enérgico, e uma juba de cabelos alvos corno neve a cair-lhe, em intencional desordem, sobre o colarinho.
Trajava um costume e uma gravata de seda, presa por um alfinete de brilhantes. Tanto a roupa como a gravata eram impecavelmente talhadas, mas deliberadamente fora
de moda, como se a velhice e uma animação incongruente constituissem Os seus únicos cabedais. Parecia um ator - um ator muito bem sucedido - mas era, na realidade,
advogado, um dos mais brilhantes advogados de Roma,

A pintora era uma jovem esguia, morena, & Pouco menos de trinta anos, olhos cor de avelã, sorriso franco e expressivo, mãos
Isso não são segredos, dottore. Nós somos aquilo que fazemos. Está escrito em nossos rostos para que o mundo o leia. Quanto ao que se refere a mim? Sou, aqui, uma
estrangeira. Vim da França como os velhos soldados aventurosos, a fim de saquear as riquezas do sul. Vendo meus quadros ... e aguardo alguém a quem possa entregar-me
com confiança. Sei o que é a gente procurar amor e estreitar nos braços apenas uma ilusão. O senhor tem sido bondoso para comigo, revelando-me mais de sua pessoa
do que imagina. Não raro, pergunto a mim mesma a razão disso.

- É simplíssimo! - exclamou ele, tendo em sua rica voz de ator uma inflexão dissonante. - Se eu fosse vinte anos mais moço, Ninette, pedia-lhe que casasse comigo.

- Se eu fosse vinte anos mais velha, dottore - respondeu-lhe ela, docemente - talvez aceitasse o seu pedido. . . e o senhor depois me odiaria por isso.

- Eu jamais poderia odiá-la, minha cara.

- O senhor odeia tudo aquilo que possui, dottore. Ama somente aquilo que não pode obter.

- Você hoje está brutal, Ninette.
- Existem coisas que devem ser enfrentadas, não acha?
- Suponho que sim.
Ele soltou-lhe a mão e dirigiu-se à janela, onde ficou a observar o sol derramar-se sobre o topo dos telhados da velha cidade. Sua alta estatura parecia curvada
e diminuída, e o seu rosto, imponente, tornou-se angustiado, macilento, como se a idade o houvesse apanhado desprevenido. A jovem observava-o, tomada de súbita piedade
pelos seus dilemas. Decorrido um momento, indagou, em voz baixa:
- Trata-se de Valéria, pois não?
- E de Carlo.
- Fale-me de Valéria.
- Não faz ainda dois dias que chegamos de Roma e ela já começou um caso amoroso com Basílio Lazzaro.
Houve outros casos, dottore. O senhor os encorajava. Por que razão deveria este preocupá-lo?
Porque para mim a vida já vai bastante adiantada, Ninette! Porque quero netos em minha casa e uma promessa de continuidade, e porque esse tal Lazzaro é um patife
que acabará por destruí-la.
- Eu sei - disse, baixinho, Ninette Lachaise. - Se sei!
- Já sabem disso em Siena?
- Duvido. Mas, certa vez, eu mesma estive apaixonada por Lazzaro; ele foi a minha grande ilusão.
- Lamento-o, filha.
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- Não deve lamentá-lo por mim... mas pelo senhor e por Valéria. E por Carlo também, claro. Ele já sabe?
Não o creio.
Mas soube a respeito dos outros?
Penso que sim. Fez até um gracejo acerca de sua filha enganar um marido tolo. Disse que ela seguia os passos do pai ... Sentia-se
orgulhoso de suas conquistas e de sua esperteza.
O senhor ria daquilo, lembro-me bem, dottore.
- Ele é um idiota - disse, com amargura, Ascolini. - Um jovem idiota e sentimental que nem sabia a quantas andava. Merecia uma lição.
E agora?
Agora, fala em deixar-me e em abrir o seu próprio escritório de advocacia.
- E o senhor não está de acordo?
- Claro que não! Ele é demasiado jovem, demasiado inexperiente. Destruirá sua carreira, antes que ela esteja sequer começada. . - O senhor destruiu o casamento dele,
dottore; por que deveria, agora, preocupar-se com a sua carreira?
- Não me preocupo, mas é que isso envolve o futuro de minha filha, e o futuro de seus filhos, se tiverem filhos.
- O senhor está mentindo, dottore - disse, com tristeza, Ninette Lachaise. - Está mentindo para mim. Está mentindo para si próprio. Surpreendentemente, o velho advogado
riu e abriu os braços num gesto de desespero quase cômico:
Claro que estou mentindo! Sei da verdade melhor do que você, filha. Criei um mundo à minha própria maneira, e já não gosto mais de seu aspecto, de modo que preciso
de alguém que o destrua sobre a minha própria cabeça e me faça comer os pedaços.
- E não será, talvez, o que Carlo está procurando fazer agora? o
- Carlo? - explodiu Ascolini, desdenhoso. - Ele tem muito de menino para poder controlar sua própria esposa. Como pode ele Competir com um touro velho e manhoso
como eu? Nada me agradaria mais do que se ele me fizesse engolir minhas próprias asneiras, mas ele é demasiado cavalheiro para fazê-lo ... Vamos! - ajuntou, afastando
o assunto com um alçar de ombros e aproximando-se dela, para tomar-lhe as mãos nas suas. - Esqueça tudo isto e volte para a sua pintura, minha querida. Não somos
dignos de ajuda ... nenhum de nós! Mas há uma coisa...
- O que, doitore?
- Você vai hoje jantar conosco, na villa.
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A impelia a novos e mais ardentes encontros, um vago temor e, às vezes, um pungente pesar. Houve tempo em que a conspiração existente entre ela e o pai lhe asseguravam
absolvição mesmo para as suas maiores loucuras. Agora, porém, já não havia absolvição, mas algo assim como uma perversa tolerância, como se ele se sentisse menos
desapontado por ela do que por si próprio.
Agora, o pai já não ocultava o desejo de que ela assentasse e tivesse filhos. O problema, porém, é que ele não tinha respeito algum por Carlo, não sabendo, por
outro lado, ensinar-lhe, a ela, sua filha, uma maneira de restaurar o respeito por si própria. O que ele, agora, exigia, era uma nova conspiração: uma união
sem amor, que trouxesse amor a um velho epicurista que, durante toda a vida fingira desprezar o amor. Era pedir demais em troca de tão pouco. Pouquíssimo para
ela, muitíssimo para ele - e, para Carlo, uma decepção a mais.
Houve*um. tempo em que Carlo lhe suplicara amor - que lhe pedira filhos. Trocaria, então, os últimos fiapos de seu orgulho por um beijo, por um momento de intimidade.
Mas agora, não. Tornara-se, naqueles últimos meses, mais adulto, mais frio, menos dependente, mais absorto no planejamento de sua própria vida.
Contara-lhe uma parte de seus planos. Estava resolvido a deixar o escritório de Ascolini e abrir sua própria banca de advocacia. Feito isso, dar-lhe-ia um lar próprio,
uma casa separada da do pai. E depois? Era esse depois que a preocupava, quando ela tivesse de ficar só, sem apoio, sem absolvição, sujeita ao veredicto de um marido
enganado e à determinação de seus próprios desejos turbulentos.
Aí é que estava o nó do problema. Que é que a gente buscava tanto, a ponto de essa busca constituir um sofrimento para a carne? De que é que se tinha tanta necessidade,
a ponto de se estar disposto a renunciar a tudo o mais para alcançá-lo? Vinte e quatro horas antes, ela ouvira a mesma pergunta dos lábios pouco prometedores de
Basílio Lazzaro.
Estava de pé, completamente vestida, com as luvas e a bolsa na mão, à porta do quarto de Basílio, a observá-lo, enquanto ele abotoava a camisa sobre o peito forte
e trigueiro. Notara a tranqüilidade susfeita de seus movimentos, a vivaz indiferença pela sua presença, e indagara, queixosamente:
- Mas, Basilio. . . por que terá de ser sempre assim?
- Assim como? - perguntou Lazzaro, irritadamente, enquanto apanhava a gravata.
- Quando nos encontramos, é como se fosse a ouverture de uma ópera. Quando nos amamos, é tudo drama e música. Quando partimos ... é como se estivéssemos pegando
um táxi.

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O rosto belo e moreno de Lazzaro contraiu-se, com ar de espanto.
- Que é que voce esperava, cara? A coisa é assim mesmo. Depois que se toma o vinho, a garrafa se esvazia. Terminada a ópera, não se fica à espera de que venham limpar
o teatro. A gente já se divertiu. E vai para casa e espera que haja outra representação.
- E isso é tudo?
- Que mais poderá haver, cara? Pergunto-lhe: que mais? Aquilo era um perfeito enigma, a que ela jamais encontrara uma resposta adequada. Meditava ainda sobre isso,
quando o relógio de bronze dourado marcou meio-dia e quinze; dispunha ainda de tempo para banhar-se e vestir-se para o almoço.
A praça de San Stefano formigava de gente. Toda a aldeia saíra à rua, crianças e velhos, aglomerando-se à porta do morto, papagueando ao redor da fonte, interrogando
o policial apalermado que montava guarda à porta da delegacia. Nada havia de turbulento na maneira pela qual o povo se conduzia; nada havia de hostil em sua atitude.
Eram apenas espectadores, metidos por curiosidade num melodrama de títeres.
Da janela de seu escritório, o sargento Fiorello observava-os com olhos sagazes, profissionais. Até ali, tudo bem. Estavam excitados, mas ordeiros, movendo-se pela
praça como carneiros num redil. Não havia perigo de violência imediata. Dentro de uma hora, os detetives de Siena chegariam e tomariam conta do caso, A família do
homem assassinado achava-se mergulhada em sua dor. Ele podia ficar tranqüilo e cuidar de sua prisioneira.
Esta estava afundada numa cadeira, a cabeça pendida, o corpo sacudido por tremores convulsivos. Abrandou-se, ao fitá-la, o rosto magro, coriáceo, de Fiorello, que,
decorrido um instante, despejou um pouco de conhaque numa xícara de barro e a levou aos lábios da moça. No primeiro gole, ela engasgou; depois, sorveu-o lentamente.
Decorrido um momento, os tremores cessaram, e Fiorello ofereceu-lhe um cigarro. Ela recusou, agradecendo com voz morta, sem inflexão:
- Não, obrigada. Estou melhor, agora.
- Tenho de fazer-lhe umas perguntas. Sabe disso?
Para um homem tão rude, o tom com que lhe falou era estranhamente delicado. A moça fez um aceno com a cabeça, indiferente.
- Sei.
- Como se chama?
- O senhor já o sabe: Anna Albertini. Chamava-me antes Anna Moschetti.
- A quem pertence esta arma?
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Apanhou a arma e estendeu-lha na palma da mão. Ela não titubeou nem desviou o olhar; respondeu simplesmente:
A meu marido.
Precisamos comunicar-nos com ele. Onde se encontra ele? Em Florença, Vicolo degli Angelotti, número dezesseis. Tem telefone?
Não. Ele sabe onde você se encontra? Não.
Tinha os olhos vítreos; estava sentada erecta na cadeira, pálida e rígida como uma cataléptica. Sua voz tinha algo de metálico, de cerimonioso, como a de uma criatura
que se achasse sob narcose. Fiorello, hesitou um momento; depois, fez-lhe outra pergunta:
- Por que fez isso, Anna?
Pela primeira vez, um leve sinal de vida assomou aos olhos e à voz da moça:
O senhor sabe o porquê. Não importa a maneira pela qual eu diga, ou o senhor o escreva. O senhor sabe o porquê.
- Diga-me uma outra coisa, Anna. Por que razão escolheu esta ocasião? Por que não fez isso um mês atrás, ou cinco anos antes? Por que não esperou mais tempo?
- E isso importa?
Fiorello manuseava distraidamente a pistola que matara Gianbattista Belloni. Sua voz também adquiriu um tom meditativo, reflexivo como se também ele estivesse
a reviver acontecimentos distantes daquele lugar e daquele momento.
- Não, não importa. Dentro em pouco, você será levada daqui. Será julgada, condenada e mandada, por vinte anos, para uma prisão, por haver assassinado um homem
a sangue-frio. É apenas uma pergunta para encher o tempo.
- O tempo. . . - repetiu ela, apoderando-se dessa palavra como se fosse um talismã, uma chave para os mistérios de toda uma existência. - Não foi a mesma coisa que
olhar para os ponteiros de um relógio ou arrancar as folhas de um calendário. Foi como ... como caminhar por uma estrada ... sempre a mesma estrada
.. sempre na mesma direção. De repente, a estrada terminou. . . aqui em San Stefano, à porta da casa de Belloni. O senhor compreende, não é verdade?
- Compreendo.
Mas a compreensão chegara tarde demais - e ele o sabia. com dezesseis anos de atraso. A estrada completara um círculo perfeito e, agora, como a sua prisioneira,
ele deparava com marcos que julgara
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já transpostos e esquecidos. Depôs a arma sobre a mesa e apanhou um cigarro. Ao acendê-lo, viu que suas mãos tremiam. Envergonhado, levantou-se e pôs-se a preparar
um prato de pão, queijo e azeitonas; depois, encheu um copo de vinho e colocou a modesta refeição diante de Anna Albertini. E disse, áspero:
- Quando a levarem para Siena, você será de novo interrogada, talvez durante muitas horas. Por isso, deveria procurar comer.
- Não tenho fome, obrigada.
Sabia que ela estava num estado de choque, mas sua passividade não deixava, desarrazoadamente, de irritá-lo.
- Santa Mãe de Deus! - explodiu. - Então não compreende? Há um homem morto logo aí ao lado. Você o matou. Ele é o prefeito desta cidade, e há aí fora uma multidão
que a faria em pedaços, se alguém proferisse uma única palavra. Quando os rapazes de roupa preta chegarem de Siena, irão fritá-la como um peixe numa panela. Estou
procurando ajudá-la, mas não posso obrigá-la a comer.
- Por que razão está procurando ajudar~me?
Não havia malícia na pergunta, mas apenas a vaga e plácida curiosidade dos enfermos. Fiorello conhecia demasiado bem a resposta, mas de modo algum poderia dá-la.
Voltou-se e dirigiu-se à janela, enquanto a moça petiscava o alimento, vaga e patética, como um pássaro que se vê engaiolado pela primeira vez.
Houve, então, uma agitação na rua. O pequeno frade deixara a casa do morto e caminhava, apressado, na direção da delegacia.
O povo comprimia-se em torno dele, puxava-lhe o hábito, assediava-o com perguntas, mas ele afastava a todos com um gesto, dirigindo-se, trôpego, sem fôlego, para
o escritório de Fiorello.
Ao deparar com a moça, deteve-se, de súbito, e seus olhos se encheram de impotentes lágrimas de velho. Fiorello perguntou-lhe, sem meias palavras:
- O senhor a conhece, pois não?
Frei Bonifácio respondeu com um aceno fatigado de cabeça:
- Creio que o imaginei desde o primeiro momento, quando a vi na praça. Eu deveria ter esperado que tudo isto acontecesse. Mas já faz tanto tempo! ...
- Dezesseis anos. E agora a bomba explode!
- Ela precisa de ajuda.
Fiorello deu de ombros e estendeu os braços, num gesto de desespero:
- Mas que ajuda pode haver? É um caso já liquidado. Vendetta. Assassínio premeditado. A pena é de vinte anos.
- Ela precisa de assistência Jurídica.
- O Estado a fornece aos réus sem recursos.
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- Isso não basta. Ela precisa do melhor defensor que possamos ,encontrar.
- E quem pagará, mesmo que se descubra alguém que queira aceitar uma causa perdida?
- A família Ascolini está passando o verão na villa. O velho é um dos grandes advogados criminais. Posso, ao menos, pedir-lhe que se interesse pelo caso. Senão ele,
talvez o genro.
- Por que deveriam interessar-se pelo caso?
- Ascolini nasceu aqui na região. Deve sentir alguma . dedicação pelos seus compatrícios.
- Dedicação! - exclamou Fiorello, acentuando a palavra com um riso gutural. - Até mesmo entre nós existe hoje tão pouca dedicação... Por que deveríamos esperar
dedicação por parte dos signori?
Durante um momento, dir-se-ia que o modesto sacerdote aceitaria aquela proposição familiar. Sua face descaiu, os ombros encurvaram-se-lhe. De repente, porém, uma
idéia o assaltou e, quando se voltou de novo para Fiorello, seu olhar era duro.
- Desejo fazer-lhe uma pergunta, meu amigo - disse tranqüilamente. - Quando Anna for levada a julgamento, o senhor prestará depoimento?
- De acordo com as provas - respondeu, seco, Fiorello. Que mais poderia fazer?
- E quanto ao passado? E quanto ao começo deste caso monstruoso?
Não tomarei conhecimento, padre. Sou pago para manter a paz e não para reescrever história antiga.

- É essa a sua última palavra?

- Tem de ser - disse Fiorello, mal-humorado. - Não posso esconder-me num claustro, como o senhor, padre. Não posso dar-me ao luxo de ficar a bater no peito e fazer
novenas a Santa Catarina, quando as coisas não saem como desejo. Este é o meu mundo. Essa gente que está lá fora é a minha gente. Tenho de viver no meio dela, da
melhor maneira possível. - Esta aqui. . . - ajuntou, fazendo um gesto brusco em direção da moça - é uma causa perdida, por mais que procuremos fazer. De qualquer
modo, creio que agora compete à Igreja ajudá-la.
Escoavam-se os segundos, enquanto os dois homens se achavam frente a frente, o sacerdote e o policial, cada qual entregue ao seu Próprio caminho, cada qual envolvido
nas conseqüências de uma história comum, enquanto Anna Albertini, sentada a um passo de distância, lambiscava em seu prato, indiferente e distante como uma habitante
da lua. Súbito, sem proferir qualquer outra palavra, o velho
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frade afastou-se uns passos, apanhou o telefone e pediu uma ligação para a Villa Ascolini.

Na quietude do meio-dia, no salone, Carlo Rienzi tocava Chopin para o visitante, Peter Landon. Formavam, ambos, um par curioso: o corpulento australiano com seu
rosto arguto, sardento, o punho vigoroso em torno do fornilho do cachimbo; o italiano, esguio, pálido, incongruentemente belo, lábios sensitivos e olhos de sonhador,
com um toque de mistério e insatisfação.

A composição era um dos primeiros noturnos, terno, límpido, plangente, e Rienzi interpretava-o com simplicidade e fidelidade. As notas caíam puras como gotas de
água; as frases eram plasmadas com amor e compreensão - e não com intencional brilhantismo ou falso sentimento. Aquela era a verdadeira disciplina da arte: a submissão
do executante ao talento do compositor, a subordinação da emoção pessoal àquilo que o mestre, morto havia muito, registrara.

Landon observava-o, com olho clínico, astuto, e pensava em quão jovem era ele, quão vulnerável, e quão estranhamente se achava ligado à sua fria e civilizada esposa
e ao velho e brilhante advogado que era o seu mestre em direito.

Contudo, não era inteiramente jovem nem completamente livre de cicatrizes. Suas mãos eram fortes, mas continham-se sobre os teclados. Havia rugas em sua testa e
incipientes pés-de-galinha no canto de seus olhos. Tinha pouco mais de trinta anos. Era casado. Devia já ter sofrido o seu quinhão nas exações da vida. Tocava Chopin
como alguém que compreendesse as frustrações do amor.

Quanto ao próprio Landon, a música despertava-lhe ecos de uma insatisfação íntima. Homem do Novo Mundo, adotara sem esforço as maneiras urbanas do Velho Continente.
Ambicioso, abandonara a promissora profissão, em seu próprio país, a fim de escalar as arriscadas encostas da reputação em Londres. Rebelde por natureza, disciplinara
sua língua e seu temperamento, acomodando-se aos estratagemas da profissão mais invejosa do mundo, na cidade mais invejosa do planeta. Conseguira, habilmente, chegar
aos coquetéis de pessoas preeminentes e, agora, mediante diligência, talento e diplomacia, estava já estabelecido corno consultor em psiquiatria e em psicopatologia
criminal.

Era já muito para um homem de pouco menos de quarenta anos, mas achava-se ainda a dois passos do perímetro privativo dos
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grandes". Dois passos, mas, não obstante, aquele era o salto mais difícil de todos. Fazia-se mister um trampolim para executá-lo; um
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caso oportuno, um afortunado encontro com alguém que necessitasse de seus conselhos, um momento de inspiração em suas pesquisas.

Até então, fugira-lhe tal oportunidade, e ele mergulhara, a pouco e pouco, na frustração e na acerba insatisfação daqueles que são sempre desafiados dentro dos limites
de seu talento. Aquilo era uma espécie de crise, e ele era bastante atilado para reconhecê-lo. Havia um período crítico em todas as carreiras- uma fase de ressentimento,
indecisão e perigo. Muitos políticos desafortunados haviam perdido um assento no Gabinete por lhes ter faltado paciência ou discrição. Muitos eruditos brilhantes
eram preteridos em suas profissões por terem-se mostrado um tanto bruscos com seus superiores. Na hermética fraternidade da Associação Médica Britânica, um homem
precisava engolir seu orgulho e cultivar a benevolência de seus amigos. E quando alguém se aventurava na nova ciência do espírito, precisava ser diligentemente condescendente
com os seus colegas de bisturi e do estetoscópio. E se esse alguém era um estrangeiro, precisava ser duplamente cuidadoso, duplamente dependente das qualidades de
sua própria atuação e da validez de suas próprias pesquisas.

De modo que ele preferira para si próprio uma estratégia: a retirada. Preferira passar aquele ano de licença entre os especialistas da Europa; três meses com Dahlin,
em Estocolmo, praticando em instituições dedicadas aos criminalmente insanos; uma temporada com Gutmann, em Viena, estudando a natureza da responsabilidade e, agora,
umas breves férias em companhia de Ascolini, famoso pelo seu emprego do testemunho médico-legal.

E depois? Também ele tinha aquele problema do "depois", pois que enfrentava agora um novo aspecto da crise: o tédio da meiaidade. Quanto deveria um homem pagar pela
realização de sua ambição? E, uma vez que houvesse pago, quando poderia desfrutá-la... e com quem? A música triste, antiga, zombava dele, com suas descrições de
esperanças perdidas, amores mortos e o clamor de triunfos esquecidos.

Houve um momento longo, sincopado, enquanto as últimas notas se extinguiam; depois, Rienzi girou sobre o assento e fitou-o de frente:

- Bem, aí está, Peter! Você teve a sua música! Agora, dinheiro sobre a mesa! Chegou o momento de pagar o músico.

Landon tirou o cachimbo da boca e sorriu:
- Qual é o preço?

- Um conselho. Um conselho profissional.
- Acerca de quê?

- Acerca de mim. Faz já uma semana que você está aqui. Agrada-me pensar que nos tornamos amigos. Você conhece alguns
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de meus problemas. E é bastante perspicaz para imaginar o resto. Abriu os braços, num gesto súbito de suplica: - Estou num beco sem saída, Peter! Sou casado, num
país em que não existe divórcio. Amo minha mulher, que não me ama. Trabalho para um homem a quem admiro grandemente ... e que não tem por mim o mínimo respeito,
como se eu fosse o mais modesto empregado de seu escritório. Que é que devo fazer? Que é que se passa comigo? Você é o psiquiatra! Você é o sujeito que sonda os
corações de seus pacientes. Leia o que se passa em minha vida e na de Ascolini.

Landon franziu o sobrolho e tornou a enfiar o cachimbo na boca. O instinto profissional advertia-o contra intimidades assim tão intempestivas. Dispunha de uma dúzia
de evasivas para desencorajar tais confidências. Mas o sofrimento do homem era patente, e sua solidão, em sua própria casa, estranhamente comovente. Ademais, Landon
passara ali, em casa de seu sogro, mais tempo do que o justificava a cortesia - e sentia-se tocado de desconhecida gratidão. Hesitou um momento e, depois, disse,
pensando as palavras:

- Você não pode ter ambas as coisas ao mesmo tempo, Carlo. Se deseja um psiquiatra - embora eu não creia que você o deseje - deve consultar um de seus próprios
compatriotas. Pelo menos, terão urna linguagem e um conjunto de símbolos em comum. Se quer desabafar com um amigo, isso é diferente. - Riu, secamente, entredentes.
- Ademais, isso constitui, em geral, uma receita melhor. Mas, se você o disser aos meus pacientes, estarei falido dentro de uma semana.

- Chame a isto um desabafo, se quiser - respondeu Rienzi, com seu ar meditativo, melancólico. - Mas não vê que estou metido numa armadilha, como um esquilo encerrado
numa gaiola?

- Pelo casamento?
- Não. Por Ascolini.
- Não gosta dele?

Rienzi hesitou um momento e, ao responder, havia um mundo de cansaço em sua voz:

- Admiro-o muitíssimo. Ele possui talento singularmente multiforme e é excelente advogado.

- Mas?

- Mas creio que o vejo demais. Trabalho em seu escritório. Minha mulher e eu moramos em sua casa. E sinto-me oprimido por sua eterna juventude.

Era uma frase esquisita, mas Landon a compreendeu. Recordou rapidamente o primeiro coquetel a que comparecera no apartamento de Ascolini, em Roma, quando pai e filha
tocaram para o seu pequeno mas seleto grupo de convidados, enquanto Carlo Rienzi andava

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de um lado para outro, no terraço banhado de luar. Sentia-se favoravelmente inclinado para aquele jovem-velho, de boca demasiado sensitiva e mãos controladas de
artista. Perguntou-lhe, em voz baixa:
- E você precisa morar com ele?

- Dizem-me que sim - respondeu Rienzi com suave amargura. - Dizem-me que lhe devo obrigações. Que lhe devo a minha carreira. Hoje, na Itália a advocacia é uma profissão
em que há gente demais, e o patrocínio de um grande homem é uma coisa rara de se encontrar. Sou-lhe devedor também por minha esposa. E ela, por sua vez, está em
débito para com ele, sendo filha única de um pai que lhe deu amor, segurança e a promessa de uma rica herança.
- E Ascolini exige pagamento?

- De nós ambos

- respondeu Carlo, encolhendo de leve os ombros num gesto de derrota. - De mim, exige lealdade e submissão a seus planos quanto à minha carreira. De minha esposa,
uma. . . uma espécie de conspiração, em que a juventude dela é dedicada mais a ele do que a mim.

- E que é que sua esposa pensa disso?

- Valéria é uma mulher singulár - disse, sem hesitação, Ríenzi. - Compreende o que é dever, a devoção filial e o'pagamento de dívidas. Além disso, gosta muitíssimo
do pai e encontra grande prazer em sua companhia.

- Mais do que na sua?

Carlo sorriu, ao ouvir tal - aquele seu sorriso vago, infantil, que constituía muito de seu charme.

Ele tem a oferecer muito mais do que eu, Peter

- respondeu, em voz baixa. - Eu não sei interpretar o mundo com a segurança com que ele o, faz. Não sou ousado nem bem sucedido, embora gostasse de sê-lo. Amo minha
esposa, mas receio que ela necessite menos de mim do que eu dela.

- O tempo poderá modificar isso.

- Duvido - disse, peremptório, Rienzi. - Há outras pessoas envolvidas nesta conspiração.

- Outros homens?

- Vários. Mas eles me preocupam menos do que a minha própria deficiência como marido. - Levantou-se e dirigiu-se à porta envidraçada que dava para o terraço. - Que
tal se caminhássemos um Pouco? É mais íntimo lá fora.

Permaneceram algum tempo em silêncio, a caminhar por uma alameda de ciprestes, através de cujos troncos, verdes, viam o céu e os campos que se estendiam numa policromia
de oliveiras escuras, vinhedos verdes, terras de Pousio trigueiras e milharais sacudidos pelo vento. Cinicamente, Landon pensava que o tempo operava suas trans-
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formações de modo demasiado lento e que, para Cario Rienzi, havia necessidade de remédios mais rápidos. Receitou-os, sem meias palavras:

Se sua esposa lhe põe cornos, não há necessidade de que você os use. Devolva-a ao pai e arranje uma separação judicial. Se não gosta de seu emprego ou de seu patrão,
mude de vida. Vá cavar fossos, se for preciso, mas liberte-se já!

- Pergunto a mim mesmo - respondeu, com desolado humor, Rienzi - por que será que são sempre os sentimentalistas os que têm as respostas engatilhadas? Eu esperava
outra coisa de você, Peter. Você é um profissional. Deveria compreender melhor do que os outros as aberrações do amor e da posse... por que razão a esperança ainda
constitui, não raro, um laço mais forte do que a conquista compartilhada.

Landon enrubesceu e deu-lhe uma resposta mordaz:

Se alguém gosta de coçar-se, não nos agradecerá se curarmos a sua comichão.

- Mas, para curá-lo, será preciso dilacerar-lhe o coração? Decepar-lhe a cabeça, para que aprenda a raciocinar?

- De modo algum. Procura-se ajudá-lo a atingir maturidade suficiente para que possa escolher o seu próprio remédio. Ou, então, se não houver remédio, a suportar
sua aflição com dignidade.

Mal as proferiu, arrependeu-se de suas palavras, orgulhando-se de uma tolerância que não possuía, envergonhando-se de uma rispidez adquirida no exercício de sua
profissão. Aquele era o castigo da ambição: não poder um homem revelar simpatia por alguém sem que se sentisse humilhado. Aquela, a ironia do amor-próprio: não poder
sentir piedade pelo que não sofrera em sua própria carne

o beijo dado mas não retribuído, a paixão liberalizada mas não correspondida. A resposta pacífica de Rienzi foi a mais amarga das censuras.

Se me falta dignidade, Peter, não deve censurar-me demasiado. Mesmo o ator mais medíocre pode fazer o papel de rei. Mas é preciso um grande ator para, mesmo usando
cornos, fazer a platéia chorar. Se não me rebelei até hoje, e porque me faltou oportunidade, e não coragem. Não é tão fácil como você pensa, resolver os dilemas
da lealdade e do amor. Mas estou planejando uma revolução, creia-me! Sei, melhor do que você, que a minha única esperança, quanto a Valéria, é derrotar Ascolini
em seu próprio terreno ... destruir a lenda que ele criou para ela, e que constitui a fonte de seu poder sobre Valéria. Estranho, não é mesmo? Para impor-me como
amante, preciso firmar-me antes como advogado. Preciso de uma causa, Peter;

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apenas de uma boa causa. Mas onde com os diabos! encontrá-la?

Antes que Landon tivesse tempo de articular uma resposta ou uma desculpa, um criado veio chamar Rienzi ao telefone e o médico de almas ficou a meditar sobre os problemas
do amor numa velha terra em que as paixões seguem por canais tortuosos e a juventude carrega sobre as costas cinco mil anos de história violenta.

Landon alegrou-se de ficar só. Homem devotado à mecânica do êxito, achava demasiado molesto o excesso de companhia, sendo que um número demasiado grande de impressões
novas lhe parecia um fardo para a imaginação. Precisava restaurar um tanto as forças, antes de entregar-se, naquela tarde, aos seus inteligentíssimos mas exigentes
anfitriões.

Carlo Rienzi era um sujeito atraente, e não se podia encarar sem simpatia os seus dilemas e indecisões mas o problema de todas as amizades, na Itália, era esperarem
os outros que a gente se envolvesse nos assuntos alheios, que se tomasse este ou aquele partido, mesmo nas questões mais triviais ou importantes, que se interessasse
por todas as tristezas e se corasse diante de todas as indiscrições. Se não se tivesse cuidado, a gente se esgotava como uma bolsa liberalmente aberta, esvaziada
e deixada de lado, enquanto os amigos se entregavam tumultuosamente ao amor ou à piedade.

Era um alívio, pois poder-se ficar sozinho e desfrutar de um simples prazer de turista, qual fosse o de, ali do jardim, apreciar .a paisagem.

O primeiro impacto era de tirar o fôlego: um ar vivo e palpitante, que superava os transportes do coração e do espírito; colinas ao nível dos olhos, hirtas, tendo
por fundo o céu, empeflachadas de pinheiros e castanheiros, escabrosas de velhos rochedos e de ruínas de castelos de guelfos e gibelinos; um falcão a pairar muito
alto, no céu azul; escuros pinheiros a galgar as encostas, como lanceiros em marcha.

Apesar de toda a sua crosta de ambição e egoismo, Landon não era um homem vulgar. Não se pode palmilhar os secretos caminhos do espírito humano sem que se possua
um certo talento que nos permita maravilhar-nos diante de certas coisas, uma graça mínima que nos permitià sentir compaixão por nossos semelhantes, e um pequeno
véu de lágrimas para um homem que se encontra nas garras do terror da descontinuidade. Lágrimas assomavam-lhe aos olhos, naquele momento, ante o súbito prodígio
daquela velha terra, povoada, em pleno meio-dia, de fantasmas.

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Aquele era o verdadeiro clima do misticismo, selvagem, mas, não obstante, terno; suave no amanho da terra, mas, não obstante, áspero nos vestígios de antigos e sangrentos
conflitos.

Ali, o pequeno Irmão Francisco, num enlace maravilhoso, uniuse à Senhora Pobreza. Ali chegaram os mercenários de Barbarroxa: lanceiros da Inglaterra, arqueiros de
Florença, bandidos da Albânia, heterogéneos mas terríveis no massacre de Montalcino. O rei-poeta de Luxemburgo, Henrique, o das canções de amor, morrera ali, sob
aqueles ciprestes. No monte de Malmarenda, onde se erguiam quatro árvores, teve lugar aquela monstruosa festa das festas, que terminou na carnificina dos Tolomei
e dos Salimbeni. E, debaixo dos velhos telhados de Siena, Madona Catarina revelou a doce substância de seu espírito: "A Caridade não se busca por si mesma... mas
por Deus. As almas deveriam unir-se e transformar-se pela Caridade. Devemos encontrar, entre espinhos, perfume de rosas prestes a desabrochar."

Aquela era uma terra de paradoxos, um campo de fusão, de contradições históricas: beleza e terror, êxtase espiritual e grosseira crueldade, ignorância medieval e
o frio iluminismo da era do irracionalismo. Seu povo, também, era um complexo de muitas raças: antigos etruscos, germano-lombardos e mercenários, vindos só Deus
sabe de onde. Santos medievais, humanistas florentinos, astrólogos árabes, todos contribuíram para a sua herança. Seus mercados negociavam desde a Provença até o
Báltico, e estudantes de todas as partes do mundo vinham ouvir as preleções de Aldo Brandini sobre a anatomia do corpo humano.

Para Landon, aquela era uma estranha visão processional - em parte, paisagem e, em parte, escavação de antigas lembranças; mas, depois daquele desfile, sentia-se
um pouquinho mais compreensivo, um pouquinho mais tolerante para com aquela gente ardente e complicada, de cuja mesa participara. Não havia necessidade de que participasse
da maldição que eles impunham a si próprios. Podia perdoálos ... contanto que não precisasse viver entre eles.

Sentiu o perpassar de um perfume e um ruído de passos e, passado um momento, Valéria Rienzi estava ao seu lado, na alameda. Trajava elegante vestido de verão. Tinha
os pés nus metidos em sandálias de couro dourado e os cabelos atados à nuca com uma fita de seda. Parecia pálida, pensou ele. Havia sombras em torno de seus olhos
e um vago sinal de cansaço em seus lábios; mas sua pele era clara como âmbar - e ela o saudou com um sorriso.

- É a primeira vez, Peter, que o vejo assim-
- Assim como?

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- Desprevenido, descuidado. Quase como um menino a assistir, na praça, a uma Pulcinffia.

Landon sentiu-se enrubescer, mas sorriu e procurou afastar, com um alçar de ombros casual, o comentário:

- Desculpe-me. Não percebi que parecia... descuidado. Não pretendo sê-lo, asseguro-lhe. Devo parecer-lhe um sujeito muito caturra.

- Tudo, menos caturra, Peter - respondeu ela e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, enlaçou a mão na dele e pôs-se a caminhar a seu lado. - Pelo contrário,
você é um homem bastante provocador. Provocador e, talvez, também um tanto assustador.

Ele já se divertira, em sua vida, com demasiadas mulheres, para que não reconhecesse aquele simples lance; mas sua vaidade se sentiu lisonjeada, e ele resolveu ir
um pouco mais além. Indagou, com ar de inocência:

- Assustador? Não compreendo.

- Você é tão realizado. . . tão controlado. Vive de você para você. Assemelha-se, sob muitos aspectos, a meu pai. Compreende tão bem as coisas que, dir-se-ia, os
outros nada têm a oferecer-lhe. Vocês ambos encaram a vida como se ela fosse um banquete. Sentam-se, comem e, depois, levantam-se satisfeitos, e seguem adiante.
Oxalá eu pudesse ser assim!

- Pois eu diria que você o tem sido com bastante êxito. Lançou o golpe de leve, como um esgrimista que iniciasse uma competição esportiva. Para sua
surpresa, ela franziu o sobrolho e respondeu, séria:

- Eu sei. Faço-o muito bem. Mas a coisa não é real, percebeu? Ajo como uma aluna que recita uma lição que já sabe de cor. Meu pai é um bom professor. E Basilio também.

- Basílio?

- Um homem com quem venho me encontrando ultimamente. Ele faz da irresponsabilidade uma arte.

O terreno, afinal de contas, não era assim tão conhecido. Landon achou que talvez fosse sensato abandonar aquele jogo, antes que o mesmo fosse levado a sério. Disse
canhestramente:

- Fala-se demais acerca da arte de viver. Segundo minha experiência, consiste ela, principalmente, em artifício: pós, cosméticos e máscaras de carnaval.

- E o que está por baixo disso?
- Homens e mulheres.

- De que espécie?

- De todas as espécies... quase todos eles solitários.
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Mal disse isso, percebeu que cometera um erro. Aquilo era o começo de todos os casos amorosos: a primeira intimidade, a fenda na cota de malha que desnudava o coração,
deixando-o exposto à lâmina. E, a lâmina surgiu, tateante, mais rápida do que ele imaginara.

- Foi isso que li em seu rosto, não foi, Peter? Você se sentia solitário. Você é como aquela ave lá no alto ... livre, com o mundo todo sob as asas... e, não obstante,
se sentia solitário.

Apertou os dedos na palma da mão de Landon; ele sentiu-lhe o calor do corpo ao mesmo tempo que o envolvia o perfume de Valéria.

- Eu também me sinto só - ajuntou ela.

Ele era médico e compreendia os empregos da dor.

- com tudo o que possui, Valéria? - indagou friamente. com seu pai, com Carlo ... e com Basílio, lançado de contrapeso? Estava, preparado para enfrentar-lhe a ira
e até mesmo uma bofetada na boca; mas ela apenas desvencilhou-se dele e respondeu com gélido desdém:

- Eu esperava outra coisa de você, Peter. Só porque lhe seguro a mão e, lhe digo uma pequena verdade a meu respeito, você me encara como se eu fosse uma prostituta?
Não faço segredo de meus atos nem das pessoas de quem gosto. Mas você... você deve sentir grande desprezo por si próprio. Tenho pena da mulher que procure amá-lo.

Depois, como se sua vergonha não bastasse, Carlo surgiu no meio do caminho, dizendo-lhes com glacial polidez:

- Vocês terão de desculpar-me por eu não estar presente à hora do almoço. Houve alguma complicação na aldeia. Pediram minha ajuda. Não sei a que horas estarei de
volta.

Não esperou resposta, deixando-os rapidamente, atores hostis num palco vazio, sem script, ponto ou qualquer solução previsível para seus conflitos. Desajeitado como
um colegial, Landon gaguejou uma desculpa.

Não sei o que possa dizer-lhe para pedir que me perdoe. Posso. . . posso apenas procurar explicar. Em meu trabalho, a gente adquire maus hábitos. Fica-se sentado
como um padre confessor a ouvir misérias alheias. As vezes, a gente se sente assim um pouco como Deus num tribunal supremo. Eis aí o problema. O outro problema é
que o paciente sempre procura converter o seu psiquiatra em algo diferente: num pai, numa mãe, num amante. É um sintoma de enfermidade. Chamamos a isso transferência.
Adotamos certas defesas contra isso... uma espécie de brutalidade clínica. O diabo é que, às vezes, empregamos essa mesma arma contra pessoas que não são, de modo
algum, nossos pacientes. É uma espécie de covardia.

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E você tem razão, ao dizer que me desprezo por isso. Sinto muito, Valéria.

Ela ficou um momento sem responder, recostada a uma urna de pedra, a arrancar as pétalas de uma glicínia e a esParramá-las junto de seus pés. Tinha o rosto voltado
para o outro lado, de modo que ele não podia ver-lhe os olhos; mas, ao virar-se para ele, sua voz era intencionalmente cinzenta:

- Somos todos covardes, não somos, Peter? Somos todos brutais, quando alguém toca na pequena pústula de medo que temos em nosso íntimo. Sou brutal com Carlo, sei
disso. Mas ele, à sua própria maneira, também é brutal comigo. Mesmo meu pai, que é esplêndido como um velho leão, cria um purgatório para aqueles a quem ama. Não
obstante, somos necessários uns aos outros. Sem ninguém a quem possamos ferir, só poderemos ferir a nós próprios
- e eis aí o derradeiro terror. Mas até quando poderemos viver assim, sem que nos destruamos mutuamente?

- Não sei - respondeu, sombrio, Peter Landon, perguntando a si próprio, naquele mesmo momento, até que ponto um homem poderia suportar os aguilhões da ambição, até
onde poderia subir sozinho, antes de mergulhar no desencanto e no desespero.

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2

A DELEGACIA, em San Stefano, estava abafada de fumaça de cigarros e de cheiro de azedo de vinho e queijo aldeão. O sargento Fiorello achava-se ostensivamente sentado
à parte, copiando um depoimento. Frei Bonifácio permanecia de pé, a mexer em seu cinto, enquanto Carlo Rienzi explicava algo a Anna Albertini:

- Frei Bonifácio contou-me por alto sua história, Anna. Estou ansioso por ajudá-la. Mas, primeiro, há certas coisas que você precisa compreender. - Sua voz tinha
o tom expositivo e paciente de um mestre-escola a ensinar um aluno obtuso. - Você deve compreender, por exemplo, que um advogado não é um mágico. Ele não pode provar
que o preto é branco. Não pode agitar uma varinha e fazer com que desapareçam as coisas que aconteceram. Não pode ressuscitar gente que morreu. Só o que pode fazer
é contribuir com o seu conhecimento da lei e com a voz, a fim de defendê-la no tribunal. Além disso, um advogado tem de ser aceito pelo seu cliente. ]É preciso que
este concorde em contratar seus serviços. Estou sendo claro?

Talvez fosse apenas uma ilusão, mas dir-se-ia que, por um momento, o fantasma de um sorriso contraiu os lábios pálidos da moça.
- Não tive muita educação - respondeu ela, gravemente -

mas sei alguma coisa acerca de advogados. O senhor não precisa tratar-me como se eu fosse uma criança.

Rienzi enrubesceu e mordeu o lábio. Sentia-se demasiado jovem e excessivamente canhestro. Mas recompôs-se e prosseguiu, com mais firmeza:

- Então deve compreender o que fez... e saber quais são as conseqüências.

Anna Albertini, em sua atitude plácida, indiferente, fez com a cabeça um sinal afirmativo:

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- Oh, certamente! Sempre soube o que iria acontecer. Isso não me preocupa. .

- Não a preocupa agora, mas irá preocupá-la depois quando estiver no tribunal a ouvir a sentença. Quando eles a levarem embora e você se vir com roupa de presidiária,
fechada atrás das grades.

-- Não me importa onde eles me ponham... não me importa. Agora estou livre... compreende?... e f eliz.

Pela primeira vez, o velho frade entrou na discussão.

- Anna, minha filha - disse ele, com brandura - hoje foi um dia estranho e terrível. Você não poderá saber como se sentirá amanhã. De qualquer modo, quer você o
queira ou não, o tribunal fará com que tenha um advogado. Acho melhor que tenha a seu lado alguém que se interesse um pouco por você, como aqui o Dr. Rienzi...

- Não tenho dinheiro algum com que pagá-lo.
- O dinheiro será providenciado.

- Então creio que está bem.

Rienzi, chocado ante aquela indiferença, disse irritado:

- Precisamos de algo mais formal do que isso. Quer fazer o favor de dizer ao sargento Fiorello que me aceita como seu representante legal?

- Digo, se assim o deseja.

- Já ouvi - disse Morello, sorrindo, entredentes. - Anotarei aqui. Mas acho que o senhor está perdendo tempo.

- Isso é que não compreendo - comentou Anna, com estranha simplicidade. - Sei que nada podem fazer por mim. Por que razão, pois, o senhor e Frei Bonifácio estão
tendo todo esse trabalho?

- Estou procurando saldar uma dívida - respondeu, em voz baixa, o frade.

Carlo Rienzi juntou suas anotações, meteu-as no bolso e levantou-se.

-- Você será levada para Siena, onde será instaurado o processo, Anna - disse, rápido. - Depois, ficará na cadeia da cidade, ou talvez a mandem para a casa correcional
de mulheres, em San Gimignano. Onde quer que você se encontre, irei vê-la amanhã. Procure não ficar muito assustada.

- Não estou assustada - afirmou Anna Albertini. - Creio que esta noite dormirei sem pesadelos.

- Deus a guarde, filha - disse Frei Bonifácio ao retirar-se, fazendo o sinal da cruz sobre a cabeça da jovem.

Rienzi já estava junto à porta, falando com Fiorello.

- Quando começar a preparar a defesa, gostaria de vir aqui falar com o senhor, sargento.

- Sinto muito, mas não será possível - respondeu Fiorello, com frio ar profissional. - Serei convocado pela Promotoria Pública.

- Então falaremos no Tribunal - concluiu, lacônico, Rienzi, saindo, seguido pelo frade, para a praça ensolarada, cheia de murmúrios.

A multidão abria alas à passagem de ambos. Todos os fitavam, apontavam-nos e sussurravam entre si, Como se fossem monstro, de circo, até que desapareceram nas frias
sombras confessionais da Igreja de San Stefano.

O almoço, na Villa Ascolini, foi um torneio de três participantes, dominado pelo rutilante espírito do velho advogado. A ausência de Carlo foi aceita com indiferença
e, supôs Landon, com certo alívio. A desgraça ocorrida na aldeia não mereceu senão um gesto de desaprovação. Nem Ascolini, nem Valéria perguntaram de que se tratava,
mas quando Landon insistiu com eles a respeito, Ascelini fez-lhe uma preleção irônica acerca dos vestígios do sistema feudal ainda existentes.

- Vivemos a maior parte do ano em Roma, mas a propriedade da vila nos converte por definição na família Patronal. Quando voltamos para cá, pagamos uma espécie de
tributo pelo nosso domínio. As vezes, é um pedido de novas contribuições para a igreja ou para o convento. Outras vezes, patrocinamos os estudos de algum estudante
mais ou menos brilhante. Ocasionalmente, somos convidados a servir de árbitro em alguma disputa local ... que é, provavelmente, o que aconteceu hoje. Mas, quaisquer
que sejam as circunstâncias, o princípio é o mesmo: os senhores pagam um tributo ao populacho pelo privilégio de sobreviver; os humildes servem-se dos senhores,
para que estes os defendam de uma democracia na qual não confiam e de uma burocracia que desprezam. É um ajuste razOável. - Sorveu delicadamente o seu vinho e acrescentou,
após breve reflexão: - Alegra-me que Carlo comece a assumir a sua parte nesse tributo.

Valéria sorriu, com ar de tolerância, e deu umas palmadinhas no braço do hóspede:

- Não lhe dê atenção, Peter. Ele é um velho malicioso. Landon sorriu e pôs-se a descascar um pêssego. O rosto rosado de Ascolini tinha uma expressão de perfeita
inocência.

- ]É privilégio dos velhos testar a têmpera dos jovens. A&inais, alimento grandes esperanças quanto ao futuro de meu genro, É Lmi

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era nenhum mendigo a cavalo. Talvez tivesse sido forjado de matéría tosca, mas era duro como o granito e polido pelas disciplinas do um mundo superpovoado. Sua carreira
se baseava nas loucuras de outros homens - e paixões demasiado ignóbeis tê-lo-iam destruido havia muito. Landon sentiu que o Dr. Ascolini possuía muito maior estatura
do que Carlo ou Valéria seriam capazes de admitir. Podia imaginar o velho entregue a um forte amor, ao ódio, ou a uma perversão desses sentimentos, mas não lhe
era possível julgá-lo mesquinho.

E Valéria? Também ela lhe causara uma impressão diferente da que Carlo lhe transmitira. Via-a como uma espécie de princesa intransigente, meio desperta
para o amor, mas não obstante, ainda acorrentada à tirânica magia da infância. Para Carlo, havia ainda uma certa inocência em Valéria, apesar de seus casos
, amorosos. Mas Landon lembrou-se das jovens que Lippo Lippi usava para pintar suas virgens e seus anjos - jovens de rostos suaves, olhos límpidos e a recordação
de mil e uma noites em seus lábios. Era um pensamento desagradável, mas não podia livrar-se dele. Quando a profissão de um homem o obrigava a sentar-se junto de
um "divã de confissões" e a encarar as mulheres calculadamente, aprendia, às vezes penosamente, que a inocência era coisa rara e possuía muitos disfarces. Valéria
talvez não fosse depravada, mas era inclinada, sem dúvida, a outras satisfações que não as que lhe eram proporcionadas por um marido jovem e incerto. Landon via-a
maternal, mas sem filhos; fria, mas não insensível; não dominada pelo pai, mas apoiada, como ele, em reservas íntimas, de modo que precisava menos dos outros que
outras mulheres, mas que poderia dar muito mais, se o estado de espírito e o momento fossem propícios.

Pôs-se a pensar, languidamente, quais poderiam ser esse estado de espírito, esse momento - e viu-se a fitar o poço de seu próprio vazio.

Tudo o que via naquela gente, ele o havia evitado em sua própria vida- marido enganado, crueldade, o prurido da carne, o medo de perder aquilo que se podia apenas
fingir possuir, a tirania vampiresca da velhice, a pervertida rendição da juventude. Estabelecera para si um objetivo limitado, e estava agora quase a ponto de alcançálo.
Divertira-se com mulheres, mas jamais se entregara a elas. Preser-vara a ética de uma arte de curar, ao usar essa arte para o seu próprio progresso. Tinha dinheiro,
posição, lazer. Não estava sujeito nem a uma esposa, nem a uma amante. Era livre, disciplinado e vazio do vinho da vida que aqueles outros dissipavam com tão ardente
indiscrição.

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De repente, sentiu-se como se eles fossem os ricos, e ele apenas o mendigo parado em seu portão - e perguntou a si mesmo, como os mendigos decerto fazem, se seu
estômago teria capacidade para suportar um banquete, mesmo que um banquete lhe fosse oferecido.

Quando o calor da tarde escorria como lava sobre a terra numa hora em que camponeses e burgueses se ocultavam como toupeiras, fugindo ao sol - Ninette Lachaise meteu
tintas e telas em seu velho automóvel e rumou para o campo.

clodoaldo


Era uma peregrinação de artista, quase tão penosa como a que era empreendida pelas irmandades religiosas de outros tempos. A terra estava quente como um rescaldo;
as estradas eram um inferno de poeira; os montes, calcinados, concentravam o calor e difundiamno em ondas abrasadoras pelas baixadas onde as vinhas definhavam, os
córregos secavam e os ramos das oliveiras pendiam, lânguidos, no ar parado. 0 gado desistira de pastar e achava-se reunido sob esparsas sombras, os olhos vítreos,
as línguas sedentas pendentes da boca. As raras criaturas humanas, apanhadas de surpresa pelos caininhos ou no amanho da terra, pareciam encolhidas e ressecadas
como gnomos que palmilhassem uma paisagem lunar.

Por sobre tudo isso se estendia o penetrante milagre da luz: o deslumbramento do céu para as bandas do sul, o alvo cintilar de estuques e dos afloramentos de tufos,
sombras bronzeadas nas fendas das montanhas, reluzir de lagos, ocre de todos os telhados, lampejar de jóias em asas de pássaros e no vôo de acrídios. E aí estava
a justificação daquela peregrinação: a áspera novidade do aspecto das coisas, a súbita dilatação do espaço, a separação entre massa e contomo, de modo que a gente
via através dos ossos da criação e tinha um vislumbre da maciça articulação de suas partes.

Para Ninette Lachaise havia ainda outras justificativas. Cada peregrinação era, por definição, uma disciplina para o espírito, uma tentação do desconhecido e um
passo em direção do inatingível.

Chegara quatro anos antes, em fuga, àquela cidade, chamada, por seus devotos, "0 Lar das Almas". Fugira de uma casa, em Paris, dominada por uma mãe doente e por
um pai idoso, cuja recreação era lamentar as glórias extintas da vida militar. Fugira da esterilidade dos ateliers de pos-guerra e de uma juventude que era um prenúncio
de velhice. Duas coisas tinham acontecido subitamente: sua pintura explodira em surpreendente maturidade e, uma semana após sua primeira exposição, mergulhara de
ponta cabeça num caso amoroso com Basilio Lazzaro.

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Indiferente como um touro, Basílio Lazzaro era dado a aventuras desse gênero, e a ligação entre ambos durou seis tempestuosos meses. Separaram-se sem pesar - e ela,
magoada mas desperta, ficou sabendo que era capaz de paixão, embora duvidasse que viesse a entregar-se de novo de maneira tão completa. Aprendera, ainda, outra coisa:
que aquela era uma terra de homens, e que não havia- salvação para uma mulher em amores promiscuos ou irrefletidos. De modo que fez das disciplinas da
arte uma disciplina também para a carne, embora aguardasse, quase sempre cautelosamente, o momento de um encontro afortunado.

Mas não bastava esperar inconscientemente a promessa de amor dos contos de fadas, o Príncipe Encantado e o "viveram felizes para sempre". Em sua natureza e em sua
situação, havia elementos que ela ainda não percebia bem. Até onde seu talento poderia conduziIa? Quando poderia ela desafiar a lenda da incapacidade da mulher para
as grandes criações da arte? De que grau de igualdade necessitaria ela para sobreviver, após os primeiros estímulos do galanteio e da intimidade sexual? Por que
motivo se sentia atraída por homens como Ascolini - os cínicos e os experientes - e por que razão desconfiava dos jovens que eram todo ardor, mas que se mostravam
tão mal dotados de compreensão? Qual a vantagem de fixar visões de beleza para deleite dos outros, enquanto que os verdes anos se dissipavam na solidão do outono?

Desde a visita de Ascolini, todas essas indagações e dezenas de outras haviam adquirido perfeita nitidez, como os penhascos e as fortificações ameadas dos montes
toscanos. Era um sinal de sua inquietude o haver ela aceito o convite para jantar na villa... em companhia de Valéria, que desempenhava agora o papel de amante de
Basílio Lazzaro, e de um estrangeiro desconhecido, que lhe estava sendo apresentado como simples objeto de exame.

De repente, porém, a comicidade da situação apoderou-se dela, e pôs-se a rir - um riso claro, livre, que ressoou pelo vale, espantando as cabras e fazendo com que
uma cotovia alçasse vôo, fendendo o ar tremeluzente.

Na biblioteca da villa, Alberto Ascolini, advogado e ator, representava uma reconciliação com a filha. Era uma cena que representara muitas vezes e seu papel tinha
a pátina de uma longa prática. Estava recostado ao consolo da lareira, elegante, impertigado, impressionante, tendo na mão uma taça de conhaque e um leve sorriso
de conspiração a contrair-lhe os cantos da boca. Valéria achava-
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se enrodilhada em sua poltrona, o queixo apoiado na mão, sentada sobre os Pés, como uma menina. Ascolini encolheu eloqüentemente os ombros e disse:

- Filha, você não deve mostrar-se demasiado ressentida. Sou um velho bode perverso, que ri de seus próprios gracejos. Mas eu a amo ternamente. Não é fácil para um
homem ser, ao mesmo tempo, pai e mãe de uma menina. Conheço meus malogros melhor do que você. Mas isso de eu vender o meu amor... é novo para mim. E penoso, também.
Acho que você deveria explicar-se um pouco melhor. Valéria Rienzi abanou a cabeça:

- Você não está no tribunal, papai. Não ocuparei o lugar das testemunhas.

- Talvez não, minha filha - respondeu ele, sereno, revelando apenas um leve ar de tristeza. - Mas você me pôs no banco dos réus. Não acha que tenho o direito de
ouvir a acusação? De que modo faço com que você pague o amor que lhe dedico?

- Você recebe uma parte de tudo o que faço.

- Recebo? Recebo? - exclamou o velho, franzindo, perplexo, a nobre testa e passando a mão pela cabeleira branca. - Você ... faz com que eu pareça um cobrador
de impostos. Cuido de você ... claro! Interessa-me a sua felicidade ... Mas isso constitui, acaso, U.ma exigência? Acaso já lhe neguei alguma coisa, mesmo
o direito de ser jovem e tola?

Pela primeira vez, ela inclinou a cabeça para fitá-lo meio hostil, meio súplice:

Mas então não vê que a metade de tudo isso foi sempre em seu benefício? Carlo? Ele foi, primeiro, criação sua. Você o preParou e entregou-mo como um pônei de estimação,
mas conservou sempre uma mão na rédea. Os outros? Foram, também, criação sua... divertimentos para a noiva infeliz, cavalicri sirventi proporcionados pelo pai indulgente.
Eram romances destinados a relembrar sua própria mocidade.

- Mas você os aceitou, minha querida. E mostrou-se grata, como bem recordo.

- Você também me ensinou isso - respondeu ela, num assomo de amargura. - Agradeça os doces, como uma boa menina. . . Mas quando eu mesma quis tomar algo ... como
Basilio ... ah, então, a coisa foi diferente!

Pela primeira vez,.,o rosto rosado, brilhante, de Ascolini, reve~ IOU sinais de cólera:

- Lazzaro é um patife! Não é companhia para uma mulher de estirpe!

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- Estirpe, papai? Qual é a sua estirpe? Você era filho de ,amponês. Casou pobre e lamentou té-1o feito, quando adquiriu reputação. Você desprezava minha mãe e ficou
contente quando ela morreu. E eu? Sabe o que eu deveria ser? 0 modelo da mulher que você quis, mas jamais conseguiu. Sabe por que razão voc^ jamais tornou a casar?
Para que ninguém jamais pudesse rivalizar com você. Para que pudesse sempre desdenhar daquilo de que tinha necessidade e possuir o que amava!
rio desdém. - Fale-me

- Amor? - repetiu Ascoliní, com f Cario? Ou Sebastian? acerca de amor, Valéria. Será que você amou o lhe saía Ou aquele sul-americano,
ou o filho do grego cujo dinheir

até pelas orelhas? Ou será que o encontrou, no cio, num apartamento de terceiro andar, com esse tal Lazzaro? ele julgou Ela agora chorava, a cabeça
enterrada nas mãos, e

que ganhara a partida. disse doce-
- Você e eu não devemos ferir-nos, minha filha - entre nós mente. - Devemos ser honestos e dizer que o que temos

é o que de melhor conhecemos do amor. Para mim, é, dentre todas as coisas que conheço, a mais valiosa. Para você, haverá mais, muito mais, pois que o mundo ainda
é novo para você. Mesmo com Carlo poderá haver algo, mas é preciso que você dê, ao menos, a metade dos passos nesse sentido. Ele é um rapaz, e você uma mulher, rica
de experiência. Mas você, como mulher, deve começar a preparar-se para ter um lar e filhos. Dentro de um ou dois anos, eu talvez me aposente, e Carlo, naturalmente,
ficará com o meu escritório de advocacia. Vocês terão, então9 uma situação segura. E deve haver filhos, com quem vocés possam desfrutar dela. 0 tempo dos gafanhotos
chegará também para você, minha querida, como já chegou para mim. ]É então que você necessitará dos pequenos.

Lentamente, ela se ergueu na poltrona e lançou-lhe ao rosto a pergunta brutal:

- E a quem pertencerão eles, papai? A Carlo9 A mini9 Ou a você?

Dito isto, afastou-se rapidamente, deixando-o sozinho na biblioteca abobadada, com dois mil anos de sabedoria nas estantes e sem remédio algum contra o inverno e
a desilusão.

Havia uma lenda, em San Stefano, segundo a qual o Irmãozinho Francisco construíra lá, com suas próprias mãos, a primeira capela. Os afrescos da igreja celebravam
o acontecimento e, nos claustros dos frades, havia um jardim, com um relicário em que se via o poverello de braços estendidos, a dar as boas-vindas às aves que
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vinham banhar-se no aquário que tinha a seus pé3. 0 ar fresco, a luz ténue, os únicos ruídos que ouyiam eram os da água no tanque e os pés com sandálias a caminhar
ao longo das colunatas. Ali, sentado num banco de pedra, Carlo Ríenzi ouviu a confissão de Frei Bonifácío.

Era, aquela, uma experiência purificadora, como a de observarse um homem a ler sua primeira acusação num tribunal ou a ouvir um médico fazer o diagnóstico de seu
próprio mal incurável. 0 velho tinha o rosto macilento, encovado, e os ombros caídos, como se carregasse pesado fardo. Enquanto fazia sua penosa exposição, seus
dedos, nodosos, atavam e desatavam a corda que lho servia de cinto.

- Eu já lhe disse antes, meu filho, que o que aconteceu hoje foi o último capítulo de uma história muito longa. Há muita gente envolvida nela. Eu sou uma delas.
Cada um de nós tem uma parte da culpa do que hoje ocorreu.

Rienzi ergueu a mão, num gesto de advertência.

- Detenhamo-nos aqui um instante, padre. Permita-me que lhe fale um pouco acerca da lei. Cometeu-se aqui, hoje, um assassínio. A primeira vista, foi um ato de vingança
premeditado, motivado por uma injustiça praticada, há muitos anos, contra Anna Albertini. Não há dúvida quanto ao ato, as circunstftncias ou o motivo. A acusação
tem em mãos um caso nitidamente definido. A defesa possui apenas dois argumentos: insanidade mental ou atenuação da pena. Só dissermos que a acusada é insana, teremos
de prová-lo mediante testemunho psiquiátrico, e o caso da moça dificilmente será melhor do que se ela sofrer a pena normal por assassínio. Se pedirmos diminuição
da pena, temos de escolher entre duas razões: provocição ou enfermidade mental parciaL Um tribunal não é um confessionário. A lei aceita de maneira limitada a culpa
moral de um ato. Interessase pela responsabilidade, mas na ordem social, não na ordem moral.
- Sorriu e estendeu as mãos, num gesto de súplica. - Li suas conferências, padre. Perdoe-me mas desta vez nossos papéis estão trocados. Pelo bem de minha cliente,
o senhor n§o deve conduzir-me a coisas irrelevantes.

0 velho digeriu lentamente o sentido de tais palavras; depois, fez com a cabeça um gesto de aquiescência.

- Todo ato de violência, meu filho, é uma espécie de loucura, mas duvido que o senhor encontre em Anna Albertini uma criatdra, legalmente insana. Quanto à diminuição
da pena, acho que posso ajudá-lo, embora não saiba de que modo o senhor poderia usar o que eu lhe disser, - Deteve-se um momento e prosseguiu, lentamente: - Há duas
versões dessa história. A primeira é a que será apresentada no tribunal, pois que fiz parte do registro oficial. A se-

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Rienzi ficou a fitar longamente a inscrição; depois indagou, vivamente:

- Alguém mais viu isto?

- Quem poderá sabê-lo? - respondeu o velho, encolhendo os ombros, num gesto impotente. - Está aí há tantos anos!

- Se isto for apresentado ao tribunal - disse Rienzi, em voz baixa - estaremos liquidados mesmo antes de começar. Arranje-me um ràacete e um cinzel... depressa!

As três e meia da tarde, Landon despertou de uma inquieta modorra e encontrou Carlo Rienzi sentado em sua poltrona, a fumar um cigarro e a folhear uma revista com
soturno desinteresse. Tinha os sapatos empoeirados e a camisa amarfanhada. Seu rosto parecia contraído e fatigado. Expôs a Landon, com telegráfica brevidade, o que
ocorrera em San Stefano e terminou, olhando-o de esguelha, com as seguintes palavras:

- Aí tem você o que ocorreu, Peter. 0 dado- está lançado. Aceitei a causa.. Encontrei um par de associados dispostos a agir comigo e a apoiar-me nos tribunais de
Siena. Eis aí, pois, a minha primeira causa.

- Você já falou com sua esposa ou com Ascolini?

- Ainda não - respondeu, com um sorrisinho enviesado. Já tive muitas emoções, por ora. Deixarei essa comunicação para depois do jantar. Ademais, queria primeiro
falar com você. Poderia fazer-me um favor?

- Que espécie de favor?

- Profissional. Gostaria de t-lo, de maneira informal, como conselheiro psiquiátrico. Gostaria que você visse a moça, fizesse seu diagnóstico e, depois, indicasse
um possível emprego de um testemunho médico.

- Isso não é fácil - respondeu Landon, franzindo, com ar de dúvida, o sobrolho. - Suscita questões de ética, de polidez profissional e, mesmo, de minha própria situação
perante a lei.

- E se lhe assegurassem que uma consulta informal não constítuíría nenhuma transgressão?

- Então eu pensaria no caso. Mas, de qualquer maneira, ficaria ainda devendo a seu sogro uma explicação. Afinal de contas, sou seu hóspede.

- Podia esperar até que eu falasse com ele?

- Certamente. Mas há algo que eu gostaria de perguntar-lhe, Carlo. . . - Hesitou um momento e depois fez-lhe a pergunta nua e crua: - Por que este caso? Ao que parece,
as desvantagens estão

todas contra você. É a sua primeira causa e há Pouquíssimas probabilídades de que você a ganhe.

0 rosto de Rienzi afi:ouxou, abrindo-se num sorriso esplêndido, infantil; depois, ele se tornou novamente sério.

. É uma pergunta justa, Peter, e procurarei respondê-la, com

. o já o fiz para mim. É uma ingenuidade pensar-se que, na advocacia, a preeminência se baseie somente em vitórias. A causa perdida é, não raro, mais vantajosa
do que a causa segura. Nova luz sobre antiiiomias clássicas, aplicações controversas de princípios aceitos, uma estratégia que se aproveita do perene paradoxo existente
entre legalidade e injustiça - eis aí os fundamentos da reputação em advocacia. Como vê, é o mesmo que ocorre na medicina. Quem adquire maior nomeada. . ..o sujeito
que cura uma cólica causada por maçãs verdes ou aquele que, numa massagem de dez segundos, faz reviver um coração que entrou em colapso? Não existe cura para a morte,
meu caro Peter, mas há uma grande arte em seu adiamento. Em direito, há uma arte correlata, quanto à inspiração, e nisso se baseiam as grandes carreiras..A de Ascolini,
por exemplo. E, assim o espero, a minha.

Landon sentíu-se chocado p,lo frio cinismo da exposição. Não podia acreditar que aquele fosse o nostálgico poeta que tocara Chopiu, o amante magoado cujo mundo explodira
diante de seu rosto. Seus lábios pareciam jovens demais para que pudessem ter articulado aquele argumento; seu coração demasiado jovem para que pudesse ter-se rendido
a uma tão gélida ambição. Não obstante, com toda juftiça, Landon teve de concordar com ele. Carlo estava disposto a vencer Ascolini, em seu próprio terreno, aquele
estreito campo de luta onde o direito se define por contradição como um instrumento de preceitos ou um instrumento de justiça. Carlo Rienzi só podia combater dentro
dos termos tradicionais, despojando-se do sentimento corno se despojara das vestes comuns, envolvendo-se no hábito negro e desumano do inquisidor.

sabe Landon, porém, estava comprometido pela amizade, e precisava r até que ponto Rienzi compreendia a sua situação. De modo que o enfrentou de novo, asperamente,
com uma nova pergunta:

- Você compreende o que está dizendo, Carlo? Você se comprorneteu com uma cliente... baseado apenas na esperança. Não uma grande esperança, talvez, mas, de qualquer
modo, uma esperança. P, uma relação pessoal que vai muito além do formalismo. seia - Não, Peter! - exclamou Rienzi, rápido e enfático. - BajIz-se única e exclusivamente
no formalismo, Não posso formar um

0 moral quanto ao estado da alma de minha cliente. Não posso

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entregar-me à simpatia ou ao sentimentalismo, quanto ao que ela se refere. Minha função é despertar tal simpatia nos outros, conseguir julgamento favorável por parte
dos outros, inclinar todos os dispositivos legais a favor dela. Eis o que se pode exigir de mim. Não posso admitir quaisquer outras exigências. Não sou sacerdote,
nem médico, nem guardião de mentes enfermas.

Se ele fosse assim tão preciso e eloqüente no próprio tribunal, talvez se pudesse esperar muito dele. Mas Landon perguntava a si próprio quantas dessas palavras
pertenceriam ao discípulo, e quantas ao mestre. Indagava, também, de si mesmo, até que ponto Rienzi compreendia que a isenção de ânimo do grande advogado ou do grande
médico era fruto de amarga experiência, de uma madura convi'cção da inutilidade final de tudo. Não estaria Rienzi cometendo, aoéfltregar-se assim tão cedo à isenção
de ânimo dos mais idosos, um erro tão grande como o de render-se demasiado prontamente aos sentimentos compassivos da juventude? Mas ele era o espectador, e Rienzi
o ator, de modo que deu de ombros e disse, em tom despreocupado:

- Eu, em seu lugar, não iria além das botas. Contudo, se sua cliente for tão bela quanto o diz, vocês formarão, sem-dúvida, um par impressionante no tribunal.

0 rosto de Rienzi anuviou-se - e ele respondeu, pensativo:
- Ela é como uma criança, Peter. Tem vinte e quatro anos, mas fala e raciocina como uma criança... de modo simples e imprevisível. Duvido que ela venha a constituir
uma grande ajuda para si própria ou para mim.

- Você vai alegar insanidade mental? Rienzi franziu o sobrolho:

- Não sou especialista, mas duvido que possa fazê-lo. Por isso é que necessito de sua opinião, como profissional. Confesso que estou confiando, mais do que tudo,
em circunstâncias atenuantes, que espero descobrir em San Stefano.

- Tais investigações podem ser dispendiosas.

- Frei Bonifácio encarregou-se de levantar os fundos necessários para a defesa. Mas não me surpreenderia nada se eu tivesse de tirar de meu bolso uma
parte das despesas.

- Você está se entregando a um grande jogo, não lhe parece?
- 0 maior jogo de todos é Valéria - disse, com ar grave, Rienzi. - Mas estou resignado a isso, de modo que o resto não passa de bagatela. - Estendeu a mão: - Deseje-me
boa sorte, Peter.

- Desejo-lhe toda a felicidade do mundo, Carlo. Que Deus o acompanhe.

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Rienzi lançou-lhe um olhar rápido, perquiridor:
- Acho que você o diz de coração.

- De todo o coração. Não sou um grande exemplo de dedicação, mas sei que, por maior que seja a sua queda, você jamais cairá das mãos de Deus. Talvez você precise
lembrar-se disso algum dia.

- Eu sei - respondeu, pensativo, Rienzi. - Talvez precise lembrar-me disso, sobretudo esta noite.

Dito isto, afastou-se, e Landon sentiu por ele um pesar estranhamente pungente. Havia, atrás de si, palavras e, à sua frente, uma batalha que se avolumava, mas Landon
não conseguia afastar de sua mente a desagradável convicção de que estava lutando, com armas erradas, por uma causa errada - e que a vitória de Carlo Rienzi bem
poderia constituir, afinal de contas, a mais sutil de todas as derrotas.

0 jantar de Ascolini começou, de maneira sumamente cordial, com coquCtéis na biblioteca. 0 velho estava afável e eloqüente; Valéria afetuosa para com ele e atenciosa
para com os hóspedes, embora um tanto mais reservada do que a ocasião parecia exigir. Para Landon, a outra convidada foi uma agradável surpresa. Achou-o decorativa,
divertida e agradavelmente feminina. Ela nada-tinha da estudada languidez de suas primas italianas - nem nada ãè sua frívola coqueteria, que prometia muito, mas
que era, não raro, sovina, no momento de cumprir o prometido. Falava bem e ouvia com lisonjeiro interesse - e estava mais do que à altura da irônica malícia do advogado.

Ascolini estava fazendo uma evidente comédia de seu papel de casamenteiro.

- Precisamos proporcionar-lhe alguma distração, Landon disse, cordialmente. uma pena que você não esteja no mercado f

dos casamentos ... Você faria furor aqui na aldeia.

- O senhor proporciona aventuras aos solteirões, em Siena? Ascolini riu e lançou a pergunta a Ninette Lachaise:

- Como é que voce responderia a isso, Ninette?

- Diria que os solteirões, em geral, sabem cuidar de si próprios.
- Isso é uma lenda - respondeu, com um sorriso, Landon.
- Quase todos os solteirões obtêm o que procuram e acabam por descobrir que não era isso que queriam.

- Nós também temos as nossas lendas - comentou Ascolini com cáustico humor. - Nossas virgens são virtuosas, nossas esposas, satisfeitas, e nossas viúvas, discretas.
Mas o amor é sempre uma loteria. Compra-se o bilhete e espera-se que não saia branco.

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Não seja vulgar, papai - disse, calmamente, Valéria.

0 amor é um negócio muito vulgar - volveu o Dr. Ascolini. Ninette Lachaise ergueu sua taça, num brinde:

- Ás suas conquistas em Siena, Dr. Landon.

Ele bebeu com cautela. Não havia coqueteria em seus olhos francos e castanhos, mas um leve sorriso se apegava aos cantos de sua boca. Mulheres bem-humoradas
eram bastante raras em sua vida, e as inteligentes ou eram enfadonhas ou destituídas de beleza. Pensou que, com aquela, ele seria capaz de arriscar mais do que jamais
ousara, quanto a confiança, intimidade e, talvez, amor, Viu que Ascolini o observava com um sorriso levemente divertido, e perguntou a si próprio se o velho não
teria percebido os seus pensamentos. Foi então que, de repente, Carlo entrou, impecavelmente trajado e, ao que parecia, de excelente humor. Preparou um drink para
si mesmo e juntou-se à conversa.

A mudança que se operou no ambiente foi imediata, surpreendente e, no entanto, curiosamente difícil de definir-se. Era como se a metade das luzes tivessem sido apagadas
e eles se vissem, súbito, em rneio de um rósco clarão de afabilidade. Ascolini tornou-se subitamente suave, e Valéria adquiriu uma aura de prosaica ternura. A conversa
pereleu sua agudeza e converteu-se em confortável digressão. Era a espécie de conspiração que se pratica com os enfermos - a vaga euforia imposta aqueles a quem
o impacto do mundo resultou deniosiado áspero.

0 próprio Carlo parecia não o perceber, e Landon estava bastante disposto a admitir que sua percepçffo talvez tivesse sido aguçada pela fadiga e por aquela cautelosa
desconfiança com que a gente encara unia situação nova, A verdade era que, desde o último coquetel até a primeira xícara de café, ele não conseguia lembrar-se de
uma única frase ou gesto significativos. Mas, depois de haver sido s,,,i,vi(lo o conhaque e de o criado ter-se retirado, Carlo Rienzi tornou conta do palco e as
luzes tornaram a brilhar com todo o seu fulgor,

- Corti a permissão de nossos convidados, eu gostaria de fazer uma comunicação à família.

Valêria e o pai trocaram um olhar rápido e inquiridor - e Vatéria revelou, com um alçar de ombros, sua ignorância do que se pass41ví.l.

- -- Não discuti isto com nenhum de vocês porque achei que se iratava de uma decisão particular - prosseguiu, calmamente. Mas, agora, que já a tomei, espero que
a aceitem. Chamaram-me hoje à aldeia, corno sabem. 0 prefeito foi assassinado por uma moça
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que morava antigamente aqui, Afina Albertini. É uma longa história, e eu não os molestarei, contando-a agora. 0 fim da coisa é que Frei ]30nifácio me pediu para
assumir a defesa da moça. E eu aceitei.

Ascolini e Valéria fitavam-no, perplexos. Ele aguardou um momento e, em seguida voltou-se para Ascolini com um cumprimento que não deixava de ser elegante:

- Tive um longo aprendizado, sob a orientação de um grande mestre. Agora, é tempo de que eu siga o meu próprio caminho. Estou renunciando ao mestre, a fim de cuidar
de minhas próprias causas. - Meteu a mão no bolso e tirou um pequeno pacote, entregando-o ao velho. - Do estudante ao mestre, em sinal de agradecimento. Deseje-me
felicidade, dottore.

Landon sentiu por ele, naquele momento, singular respeito, e rezou para que eles fossem amáveis para com as deficiências de Carlo. Qualquer que fosse a base da tácita
união de ambos contra ele, a verdade é que Carlo se portara como um homem.

Rienzi aguardou de pé num poço de siléncio, enquanto sua esposa e seu sogro permaneciam sentados, cabisbaixos, os olhos fixos na mesa. Então, também ele se sentou,
e Ascolini põs-se a abrir o pacotinho com diligente deliberação.

Finalmente, surgiu o presente: um relógio de ouro, de bolso, de delicado acabamento florentino, preso a uma corrente de fino lavor. Ascolini não revelou sinal algum
de satisfação ou pesar; ficou apenas com o relógio na mão, enquanto vertia para o italiano o latim clássico da inscrição: "Ao meu ilustre mestre, a quem esta lembrança
e a minha primeira causa são dedicadas, de seu reconhecido discípulo."

Ascolini deixou o relógio cair, de modo que este ficou a oscilar COMO um péndulo, preso de sua corrente. Ainda tinha os olhos contraídos e, ao falar, sua voz revelou
seco desdém:

- Guarde-o, rapaz... ou mande-o a uma casa de penhor. Talvez precise dele mais cedo do que imagina.

DepÔs cuidadosamente o relógio sobre a mesa, afastou a cadeira e retirou-se da sala. Carlo esperou que ele saísse, depois voltou-se para Valéria e disse, com toda
a calma:

- E você, cara? Que é que tem a dizer?

Lentamênte, ela ergueu a cabeça e fitou-o com olhos cheios de condenação.

Sou sua esposa, Carlo - respondeu, em voz baixa. - Aonde quer que vocè vá, eu também devo ir, Mas você fez, esta noite, uma coisa terrível. Não sei se jamais poderei
perdoá-lo.

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Dito isto, também ela se retirou da sala, e Landon, Ninette e Rienzi ficaram a olhar uns para os ~ros, sobre os destroços do jantar. Carlo envolveu com a mão a cálida
e bojuda taça de conhaque e levou-a aos lábios. Depois, esboçou um sorriso malicioso:

- Lamento que vocês tivessem de presenciar isso, mas era a única maneira pela qual eu poderia assegurar a minha própria coragem.

Depois, fez uma pausa e proferiu as palavras mais tristes que jamais tinham ouvido: e medo de
- É estranho, sabem... Durante toda a vida, tiv

estar só, e, durante toda a vida, estive só sem que jamais o soubesse. Estranho!

a vida - comentou Landon, Densa-
- Durante toda a minh

tivo - lidei com mentes enfermas. Mas não creio que jamais haja me sentido tão chocado.

Ninette Lachaise pousou-lhe sobre o pulso a mão fria e respondeu, calmamente: , Peter. Essa gente não
- Aí é que está o seu erro, creio eu

é doente; é apenas egoísta. A vida deles todos é uma batalha, uns contra os outros. Cada um deles deseja demasiado em troca de muito pouco. Estão entrincheirados,
como inimigos, em seu próprio egoísmo.
- Você é uma mulher sensata, Ninette.

- Demasiado sensata, talvez, para que lucre com isso. Estavam, agora, no automóvel dela, a meia milha dos portões da villa, onde três luzes brilhavam, amarelas,
e separadas urnas das outras, nas paredes claras, e o luar cintilava, frio; sobre as agudas pontas dos ciprestes. Quando Carlo saiu da sala de jantar, Landon se
sentira, subitamente, sufocar pela atmosfera de hostilidade e, com desacostumada humildade, pedira a Ninette que lhe fizesse ainda companhia, durante um momento,
antes da hora de recolher-se. Ela acedera calmamente e conduzira-o em seu carro, por uma estrada serpenteante, até um lugar em que a terra descia em precipitosa
escarpa e os montes se alteavam, ao longe, em íngremes encostas, em direção das bruxuleantes e tardias estrelas.

Não sentia necessidade de cautela em companhia daquela mulher, que não fazia nenhum drama daquele primeiro e intimo passeio noturno. Era-lhe grato, percebendo na
maneira tranqüila de sua conversa uma retribuição daquela gratidão dos solitários. Sentiu prazer em revelar-lhe um pensamento que o intrigara durante longo tempo:
-5,

- abe qual é a coisa mais rara do mundo, Ninette? Um hoMem ou uma mulher bastante sensatos, que saibam encarar o
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mundo frente a frente e aceitá-lo, bom ou mal, tal qual ele se apresenta no momento. Quando as pessoas me procuram, ou sou chamado para vê-Ias em prisões ou hospitais,
é porque sou o último marco em sua longa fuga da realidade. Essa fuga é um sintoma de enferrnidade - e a doença, a mais sutil de todas: medo! Têm medo de perder
o que possuem, têm medo da dor, da solidão, de suas próprias naturezas, as obrigações que qualquer vida normal acarreta.

- E qual é a sua cura, Peter?

- Às vezes, não há cura. Às vezes, os mecanismos da mente recusam-se a funcionar, exceto dentro de uma trilha psicótica. Quanto aos demais, procuro dar-lhes a mão
e conduzi-los de volta, passo a passo, ao momento do terror primacial. Enquanto o estou fazendo, esforço-me por restituir-lhes a coragern, para que enfrentem esse
terror. Se sou bem sucedido, eles começam a sentir-se de novo bem. Se falho. . . - Hesitou um momento e ficou a fitar o escuro vale, onde um aglomerado esparso de
luzes assinalava a aldeia de San Stefano. - Se falho, então, a fuga recomeça.

- E onde termina ela?

- Em coisa alguma. Na derradeira negação do ser, quando o mundo se contrai e adquire as dimensões do própiio umbigo do indivíduo; quando não há mais esplendor, nem
profusão e quando até mesmo a capacidade de amor é destruída. Há ocasiões em que
- ajuntou, em voz baixa - pergunto a mim mesmo se não estou destruindo em mim aquilo que procuro construir nos outros.

- Não, Peter! - exclamou ela, e o calor de sua voz o surpreendeu. - Estive a observá-lo esta noite, junto de Carlo. Ele estava lhe despertando cuidados. Você teve
a delicadeza de mostrar-se gentil. Enquanto você se conservar assim, não precisará ter receio.

- Mas de que modo renovar na gente aquilo que dispendemos com os outros?

Se eu pudesse estar certa de uma resposta a isso - disse, em voz baixa, Ninette - sentir-me-ia mais segura do que me sinto agora. Mas penso... não, acredito,
mesmo, que esse dispêndio é também desenvolvimento ... que as flores caem para que o fruto nasça, e que tudo foi feito para ser assim desde o começo. *
Riu ligeiramente e retirou a mão. - Já é tarde e estou ficando sentimental. Vá para a cama, Peter, Você é um homem perturbador.
- Posso tornar a vê-Ia?

- Em qualquer momento. Encontrará o meu nome na lista teleônica.

- Acho que you deixar a villa amanhã.
- E irá para onde?

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- Se não fosse por Carlo, voltaria para Roma. Mas prometi ajudá-lo nesse seu caso, e não posso, agora, recuar. Talvez arranje acomodações em Siena.

- Isso me alegra - comentou, simplesmente, Ninette Lachaise.
- Dá-me, também, um pouco de esperança.

Acercou-se dele e beijou-lhe, de leve, os lábios; mas quando Landon quis apertá-la de encontro a si, afastou-o delicadamente:
- Volte para casa, Peter. E bons sonhos!

Ele ficou a observar, longamente, enquanto o velho automóvel de Ninette descia, ruidosamente, a colina; depois, voltou-se e caminhou em direção dos portões da vilia,
onde um porteiro sonolento lhe desejou um truculento "Boa noite".

Dormiu mal aquela noite, despertando, no dia seguinte, cansado o mal-humorado, em meio ao pleno verão da Toscana. DeDOiS, porém, de barbear-se e tomar um banho,
sentiu-se mais refrescaào, mas não conseguia afastar de si o fardo de ser hóspede de unia casa hostil. Desejaria ardentemente não ter-se comprometido nem com Ascolini,
nem com Rienzi; mas o mal já estava feito, restando-lhe ao menos o consolo de um afastamento parcial. Fez as malas, com a intenção de partir logo após a refeição
matinal, e saiu para o terraço, a fim de gozar da fresca da manhã.

Para sua surpresa, lá encontrou Valéria Rienzi. Houve mais do que um simples embaraço na maneira pela qual ela o saudou:
- Levantou-se cedo, Peter.

- Não dormi bem esta noite. E a manhã está bonita.

Ela contraiu a boca, numa expressão de pesar e disse, em voz baixa:

- Alegra-me encontrá-lo aqui. Quero que me desculpe pelo que aconteceu ontem à noite. Portamo-nos muito mal.

Landon não estava disposto a entregar-se a uma competição de esgrima, de modo que encolheu os ombros e respondeu, ousadamente:
- Não há necessidade de que você se desculpe. Esta é sua

casa. Você tem o direito de agir como quiser. Mas acho que Carlo não merecia o que aconteceu.

- Eu sei - respondeu ela, aceitando a censura sem protesto. Eu o magoei muitíssimo. Mas já pedi que, ele me perdoasse.

- Então nada mais há a dizer. 0 resto é assunto particular, entre vocês dois.

Você está muito zangado, não está? - indagou, prendendolhe a mão de encontro à balaustrada de pedra e voltando-se para ele, com todo o encanto de um sorriso cheio
de arrependimento. Eu não o culpo. Mas Carlo me apanhou de surpresa. Lamento muito que você estivesse envolvido.

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- Não estou envolvido em coisa alguma, nem estou zangado. pelo menos por enquanto. Mas acho que será melhor que eu parta depois do breakfast.

Ela não fez nenhuma tentativa para dissuadi-lo, mas, apenas, uni gesto de assentimento com a cabeça.

- Carlo me disse. Posso compreender como é que você se sente. Ele me disse também que você prometeu ficar alguns dias em Siena. Sou-lhe grata por isso. Ele precisa,
neste momento, de um amigo.

- Penso que ele precisa mais de sua esposa.

Ela enrubesceu ante a censura e voltou a cabeça para o outro lado, cobrindo o rosto com as mãos. Landon ficou à espera, sentindo-se meio culpado, meio satisfeito,
enquanto fitava por sobre os ciprestes, os penhascos de Arniata. Decorrido um momento ela se recompÔs, mas havia algo de hibernal em sua voz e, ao voltar-se para
ele, tinha o olhar sombrio.

- Talvez eu o merecesse. Talvez, para o bem de Carlo, você tenha o direito de dizer isso. Mas, agora,'poderia fazer-me um favor?
- Que espécie de favor?

- Caminhar um pouco comigo pelo jardim. Conversar um pouco comigo.

- Certamente.
- Obrigada.

de Landon e desceu com ele os largos degraus Tomou a mão Devido ao clássico de pedra que davam para as aléias do jardim.

engenho dos velhos jardineiros, os caminhos acompanham os contornos do terreno, descendo, serpenteantes, por entre renques de pinheiros, roseirais, encostas de arbustos
floridos e pérgolas que arrastavam consigo a purpurina floração das glicínias. As vezes, a casa se ocultava; outras vezes, unia cortina de arbustos escondia o caminho,
como se aquilo tivesse sido feito para a intimidade de antigos amantes, mas o vale estava sempre à vista. Não havia outro ruído senão o zumbir de insetos, o pipilar
ocasional de um pássaro ou o ágil rastejar de uma lagartixa pela folhagem, em busca do calor de uma rocha.

- As vezes, à noite, ouvimos rouxinóis no jardim - disse Valéria. Papai e eu saímos, sem fazer ruído, para ouvi-los. Primeiro um começa, depois outro, até que
todo o vale parece cheio de cantos. É belíssimo.

- E solitário também, às vezes.

- Solitário? - repetiu ela, olhando-o um tanto surpresa.
- Para quem fica dentro de casa a tocar Chopin no escuro.
- Carlo?

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- Quem mais poderia ser?

- Então você não compreende, não é verdade?

- Gostaria de compreender mas não preciso fazè-lo. Afinal de contas, nada tenho com isso.

Carlo foi quem criou tal

situação. E eu éostaria de explicarlhe algo.

Ouça-me, Valéria!

- exclamou ele, detendo-se sob os ramos de uma figueira cinzenta, de onde um tordo os observou com olhos críticos, redondos. - Compreenda quem sou e o que sou. Sou
um homem que cura mentes enfermas. Passo a maior parte de minha vida a ouvir as complicações dos outros, que me pagam para isso. Se eu me estender para fora da sala
de consultas, não terei oportunidade alguma de levar uma vida normal. Comovem-me os infortúnios dos outros, mas não posso ser obrigado a socorrê-los, pois que quase
nada tenho para dar-lhes. Do mesmo modo, você não me deve explicação alguma, mesmo que queira dar saltas mortais no telhado do Duomo. Agora, se é que isso ficou
entendido, ouvi-la-ei. Se puder ajudá-la, fá-lo-ei. Mas depois disso. . . basta! Basta para mim, e basta para você, também.

- Oxalá eu tivesse metade de sua indiferença! - respondeu ela, com tanta amargura na voz, que causou surpresa a Landon.
- Mas você tem razão. Não se tem o direito de exigir nada de você. Eu falo; você ouve ... já que vai mesmo embora. Basta! Mas você não é nem a metade tão feio quanto
pretende fazer com que os outros acreditem.

Tornou-lhe de novo a mão e fê-lo caminhar a seu lado, enquanto o tordo os fiscalizava vivazmente dos ramos das árvores. Landon viuse, de repente, a admirar a segurança
com que elã entrava em assuntos e questões que, de modo algum lhe eram lisonjeiros. Ela não procurava diminuir sua culpa, nem fazer drama. Havia nela uma simplicidade
essencial terrivelmente desconcertante.

- Eu sei, Peter, que você acha que existe algo um tanto insólito em minhas relações com papai. Isso influi em seu jyizo acerca de meu casamento com Carlo. De qualquer
forma você é mais cortês do que alguns de meus amigos.

- 0 mundo é assim mesmo. As pessoas bisbilhotam. Amam o cheiro do escândalo.

Isso era uma banalidade, mas ela ficou um momento a meditar, com ar grave. Depois, perguntou:

- Você acha isso escandaloso, Peter? Ele sorriu e abanou a cabeça:

- Eu sou médico e não um censor de moral. Adoto o ponto de vista clínico. Antes de fazer um diagnóstico, procuro descobri, todos os fatos.

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- Bem, então eis aqui o primeiro, Peter. Durante longo tempo, vivi apenas num mundo e achei-o bastante satísfatório. Eu não tinha mãe, mas um pai que me amava ternamente
e que abriu para mim, unia a uma, as portas do mundo. Cada nova revelação era, para mim, uma maravilha. Ele não me negava nada, mas, não obstante, conseguiu ensinar-me
as disciplinas do prazer. Fez o que a maioria dos pais não sabem fazer: ensinou-me a compreender o que sígnificava ser uma mulher. Respondia a todas as perguntas
que eu lhe fazia, e jamais o apanhei numa mentira. Que há de insólito no fato de eu o haver amado e sentir-me sempre contente de estar a seu lado?

- Nada de insólito, mas, talvez lamentável.
- Por que diz isso?

Pela primeira vez, ele surpreendeu uma certa ansiedade em sua VOZ.

- Porque, em geral, é a omissão dos pais que obriga uma criança a procurar sua inteireza em outro lugar ... num mundo mais amplo, com outras pessoas, com outras
espécies de amor. Não é a relação existente entre você e seu pai que é insólita, mas, sim, o fato de você a achar completa e suficiente. Seu pai é um homem notável,
mas ele não é todos os homens nem todo o mundo.

- Foi o que descobri - disse, calmamente, Valéria. - Isso o surpreende?

Um pouco.

Já lhe disse que nunca o apanhei numa mentira. Até recentemente, isso era verdade. Só muito lentamente fui percebendo a realidade. Ele sempre me disse que todos
os seus cuidados e conselhos tinham em mira o meu bem-estar. E, ao invés disso, descobri que o meu bem-estar era um fundo estabelecido em seu próprio benefício.
Eu era um capital que ele criou para substituir a juventude que perdera. - Seu rosto se anuviou e ela hesitou, acanhada, antes de concluir: - Ele quer que eu seja
tudo aquilo que eu não posso ser: esposa, amante, filha ... e um espelho que reflita a imagem de Alberto Ascolini.

- E o que é que você quer ser, Valéria?

- Uma mulher! Uma mulher que me pertença.
- E não a Carlo?

- Que pertença a alguém que possa dar-me a identidade que meu pai me tirou!

- E Carlo não pode fazer isso?

Pela primeira vez, Landon ouviu-lhe o riso; mas não, havia jocosidade nele; apenas uma melancólica ironia:

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- Você sente muito por Carlo, pois não? Ele é um menino! Um menino apaixonado! E, quando se viveu com um homem durante toda a vida, isso não constitui nem a metade
do que a gente deseja!

- Ele pareceu~me bastante homem, ontem à noite - comentou Landon, secamente.

- Você não foi para a cama com ele - respondeu Valéria Rienzi. E Landon ainda estava engolindo aquele bocado, quando ela lhe ofereceu um outro: - Qual é sua receita,
doutor, quando uma moça quer ser beijada e derrubada sobre um monte de feno e tudo o que se lhe oferece é chocolate pela manhã?

Então, por haver sido desafiado em sua própria masculinidade, e por estar cansado de fazer papel de mocho sábio, enquanto outros brincavam de baciami entre os arbustos,
Landon tomou-a nos braços e beijou-a, sentindo-lhe a doçura da boca misturada a um salgado ressaibo de sangue.

- Encantador! - exclamou o Dr. Ascolini, com árido bom humor. - Encantador, perfeitamente encaptador... embora um tanto ou quanto indiscreto.

Landon afastou-se bruscamente e viu o velho parado no meio do caminho, o rosto rosado aberto num sorriso radiante.

- Por princípio, eu deveria desaprovar isto - ajuntou. Mas, dadas as circunstâncias, parece-me uma diversão recomendável para ambos.

- Oh... vá para o diabo!

Zonzo de raiva e de humilhação, Landon passou por Ascolini e afastou-se rapidamente. 0 riso sonoro do ator seguiu como a gargalhada de uma criança, encantada com
as diabruras de um palhaço.

QUANDo LANDON chegou ao terraço, a refeição já estava na mesa e Carlo, enquanto tomava o seu café, folheava um monte de jornais da manhã. Cumprimentou Landon com
ar grave, mas cortês, passoulhe uma xícara de café e um prato de pão caseiro, ainda quente, e disse-lhe, calmamente:

- Vi o que aconteceu, Peter. Foi quase como se tivesse procurado fazer com que eu o visse. - Apontou para o jardim, onde Ascolini e a filha eram claramente visíveis
através de um vão existente entre os arbustos. - Agora você talvez compreenda contra o que tenho de lutar.

Landon sentiu-se corar ante aquela nova humilhação.

- A culpa foi minha - disse, desajeitadamente. - Lamento que isso tenha acontecido.

Rienzi fez um gesto com a mão, como se fosse desnecessária qualquer desculpa.

- Por que você se culpa? Isso já aconteceu antes. E tornará a acontecer.

Landon sentiu-se, impulsivamente, irritado:

- Então, com os diabos, por que razão você se mostra assim tão complacente? Por que não me dá um soco no nariz? Se minha esposa me fosse infiel, eu lhe torceria
o pescoço, ou a abandonari-,k.

- Mas ela não é sua esposa, Peter - respondeu Carlo, com voz monótona. - É minha esposa. . . e sou, de certo modo, responsável pelo que ela é. Você a conhece apenas
há poucos dias. Eu vivo com ela há anos. Você a julga como julgaria qualquer outra InUlher que quisesse pintar o sete durante o verão. Mas, nela, isso é uma espécie
de obstinação infantil, que sempre contou com a indulgência do pai, que pensa apenas em si próprio. Como você já percebeu, ela nunca é voluntariosa para com ele,
embora, não raro, se

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ressinta da influência paterna. 0 padrão de ordem e de autoridade já sco no caso de um casase acha estabelecido, como o teria sido cono

mento normal. Fora do padrão, Valéria não reconhece qualquer direito ou obrigação. 0 mundo e todas as criaturas que nele existem foram feitos apenas para uso ou
benefício da família Ascolini.

- E você acha que pode romper esse padrão e tornar a recornpô-lo?

- Sei que devo tentá-lo.
- Desejo-lhe boa sorte!

Rienzi sorriu e abanou a cabeça:

- Peter, meu amigo, não banque o cínico comigo. Sei o que você é e como se sente. Isto aqui é um casamento ... não muito satisfatório, mas, não obstante, um contrato
que nos une até a morte, e que eu devo fazer funcionar da melhor maneira possível. No começo, cometi um erro terrível. Tinha demasiado amor e pouquíssima experiência.
Agora, sou mais experiente e ainda existe, penso eu, bastante amor. Você não deve desprezar-me por eu procurar praticar uma boa ação. Não deve tampouco desprezar
Valéria, por não lhe terem ensinado o que deviam.

A dignidade de Carlo, o patético da situação, deixou Landon mais envergonhado do que desejava admitir, mas havia ainda uma advertência a fazer:

- São necessárias duas pessoas para manter um contrato, Carlo. Você talvez possa fazer tudo o que espera, e até mais ... mas, ainda assim, poderá falhar, quanto
ao que se refere a Valéria. Você deveria, ao menos, estar preparado para isso.

Carlo deu de ombros e respondeu, com triste desprezo por si mesmo:

- Que é que tenho a perder, Peter?
- A esperança.

Rienzi ficou um momento a fitá-lo; depois, acenou com a cabeça, num desolado gesto de assentimento:

- Esse é o meu derradeiro terror, Peter. Você não deve pedirme, ainda, que o enfrente. Tome o seu café e vejamos o que diz a imprensa acerca de nossa cliente.

0 caso de San Stefano abrira manchetes era todos os matutinos. As descrições eram sensacionais, cheias de retórica sangrenta e de pormenores sádicos. As fotografias
abrangiam todas as gamas da vulgaridade, desde o horrendo instantâneo do morto sendo velado pelos parentes em sua casa, até um close-up de Anna Albertini ao ser
metida num carro de presos, a saia erguida até a coxa. Mas, dentre a confusão das palavras mal escolhidas, a história surgia de maneira bastante clara.

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A vítima era Gianhattista Belloni, ex-agricultor, depois líder de guerrilheiros e, mais tarde, prefeito de San Stefano e proprietário de

de aniplos recursos. Terminada a guerra, fora condecoradc com terras

uma medalha de ouro e uma citação do Presidente, por destacados serviços militares prestados ao país. Era casado e tinha dois filhos já adultos. Sua esposa cliamava-se
Maria. Segundo o testemunho das pessoas do luC-ar, era homem de bom caráter, hábitos generosos e modesta preeminência. Seu assassínio levou a aldeia a apaixonado
ressentimento.

Anna Albertini - chamada, diversamente, pela imprensa, "a jovem assassina", "a bela, mas sanguinária criminosa", "a assassina de encantos satânicos" - nascera Anna
Moschetti, filha de um Soldado convocado, morto na campanha da Líbia, e de uma mãe executada pelos guerrilheiros por sua colaboração com os alemães. Tinha vinte
e quatro anos de idade e estava ausente de San Stefano há dczesseis anos. Aos vinte, casara-se com um jovem florentino chamado Luigi Albertini, que trabalhava como
guarda-noturno numa tecelagem.

No dia do crime, Anna Albertini preparou a refeição matinal para o marido e, depois, enquanto este se achava ainda dormindo, apanhou o seu revólver e saiu. Tomou,
logo cedo, um trem que chegou a Siena pouco antes do meio-dia. Ao desembarcar, tomou um táxi na estação e dirigiu-se a San Stefano, a fim de matar Belloni.
O~motivo do crime era claro: vendetta. Represália pela morte da mãe, contra o homem que presidira ao julgamento marcial sumário.

Os jornais exploraram muito este motivo. Quase todos eles discutiram o caso com singular sobriedade e um jornal importante chegou mesmo a estampar um editorial condenando,
em termos bastante fortes, "qualquer renascimento dessa antiga e nefasta prática", exigindo "a máxima vigilância por parte da polícia e do poder judiciário, para
que nenhuma falsa benignidade pudesse parecer que estava a justificar o barbarismo dos conflitos sangrentos que desfiguraram tantas páginas de nossa história".

Tal comentário pareceu, a Landon, bastante justo. A lex taliones marcava bastante fundo as relações humanas. Era um culto sangrento, desenfreado, ruinoso,
que não tinha parelha sequer na selva. Sempre que era praticado, as comunidades viviam mergulhadas em terror diário, a um passo do colapso e do caos. No caso em
apreço, ele tinha---de admitir que todas as simpatias se achavam voltadas para
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0 lado dos anjos. E, fosse qual fosse a maneira pe a qual Carlo Rienzi formulasse a sua defesa, os anjos não veriam com bons olhos a sua passagem pelo tribunal.

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No último jornal que folheou, deparou com um surpreendente fotografia de Anna Albertini: um cliché de duas colunas, um tanto prejudicado por retoques apressados,
mas que não obstante, constituía ainda um retrato de trágica beleza e terrível inocência. Não havia maldade nos lábios suavemente traçados, nem ódio no olhar, mas
uma vaga expressão de encantamento ante algo maravilhoso, invisível para os outros. Se os velhos moralistas disseram a verdade, ao afirmar que os olhos eram o espelho
da alma, então a alma de Anna Albertini era. um espelho de pureza primitiva. Carlo Rienzi inclinou-se sobre a mesa e indicou a fotografia com a colher com que mexera
o café:

- Eis aí exatamente o aspecto dela, Peter... você terá de dizer-me o que existe por trás desse rosto.

- Precisarei de tempo- - respondeu Landon, em tom seco e profissional. - Tempo e uma certa liberdade durante a consulta. Essa parte compete a você.

- Terei de consultar Galuzzi. Ele é consultor do Departamento de Justiça, na parte de saúde mental. Se ele estiver de acordo, não teremos muita dificuldade com as
autoridades penitenciárias. Talvez demore um pouco para se conseguir uma entrevista com ele, mas tratarei disso o mais cedo possível. Arranjei acomodações para você
em Siena. Entrarei em contato com você lá.

- É uma situação embaraçosa para todos - observou Landon, com ar de viva inquietação. - É melhor que eu deixe já a villa.
- Você me disse que queria conversar com Ascolini, antes

de começar qualquer trabalho comigo.

- Dispensar-me-ei dessa cortesia. Não creio que, agora, isso tenha importância.

- Bem - disse Carlo, vivamente. - Vamos apanhar suas malas e partir.

A viagem até Siena foi curta e árida para ambos. Carlo estava preocupado, e Landon macambúzio e irritadiço. A esplêndida paisagem passava por eles despercebida,
e Rienzi logo desistiu de suas forçadas tentativas no sentido de distrair o seu companheiro. Logo à chegada, Carlo instalou Landon numa surpreendente pensione, com
as armas dos Salimbeni sobre o portal, aposentos imensos, de tetos guarnecidos de caixotões, e urna fonte do século XIII a adornar o pátio. Para terminar, comunicou-lhe
que o aluguel, durante uma semana, já estava pago. Quando Landon, diante de tal generosidade, corou, Rienzi riu.

- Chame a isso de suborno, se quiser, Peter. Preciso de você aqui. Você viu o que existe de pior em n's. Agora, gostaria que visse o lado melhor. Hoje, você precisa
de tempo para dedicar a si pró-

prio... e eu também. Apanhá-lo-ei aqui amanhã cedo, às nove e trinta. Não se -neta em complicações!

Landon não sentia disposição alguma para se meter em folias, mas ficu contente quando Rienzi se foi. Precisava de tempo e de isolamento para livrar-se da depressão
ém que se achava. Ainda era cedo, e resolveu perambular pela cidade. Aquela cidade cujos amantes, em outros tempos, haviam chamado de "0 Lar das Almas". Esperava
que a cidade pudesse fazer alguma coisa pela sua própria alma, que se encontrava, então, em triste estado.

. Na verdade, a cidade nada fez por ela, senão fazer com que ele se sentisse ainda mais infeliz. Há uma doença que aflige muitos viajantes, uma doença endêmica
cujo sintoma principal consiste em aguda melancolia, uma sensação de opressão diante do que é velho e d- desagrado pelo que é novo. Os rostos com que a gente depara
adquirem um caráter sinistro, como os desenhos de Leonardo da Vinci. 0 aparatoso desfile da história converte-se numa procissão de caricaturas grotescas a abrir
caminho em meio do dobrar de sinos em miserere. Tem-se consciência da própria solidão e estranheza. Os esforços de comunicação numa língua estrangeira transformam-se
num fardo intolerável. Os alimentos parecem-se uma mistura adulterada. E a gente tem saudade do vinho mais aguado de nosso próprio país,'

Não existe remédio para essa enfermidade. A gente a tolera como um acesso passageiro de malária, e, depois, ela se dissipa, sem que cause qualquer dano perceptível
à mente ou ao corpo. 0 melhor tratamento é a gente ignorá-la e pôr-se em movimento, entregandose a gestos de interesse e atividade. Uma jovem bonita constitui grande
ajuda. Meia garrafa de conhaque não é substituto digno de *confiança.

Mas Landon tomara muito conhaque na noite anterior e achavase demasiado esfalfado para procurar uma companhia feminina numa cidade estranha. Assim, após duas horas
de caminhada a esmo, sentou-se para um almoço indiferente, uma ligeira sesta e um telefonema a Ninette Lachaise. A reação dela foi cálida e imediata. Teria muitíssimo
prazer em vê-lo. Deveriam encontrar-se, para o jantar, no Sordello, um lugar animado, semelhante a uma caverna, situado perto do campo freqüentado por artistas e
estudantes das faculdades da Universidade.

Ao se encontrarem, ela o recebeu de modo afetuoso. Quando entraram nas adegas fumarentas, as cabeças se voltaram para ambos e houve um coro de assobios de aprovação,
que fez com que Landon se sentisse um palmo mais alto e particularmente reconhecido a Ninette Lachaise.

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Para o .viajante experimentado, ou para o solteirão experiente, não há tempo para longos preâmbulos em questão de amizade. Ou se consegue um entendimento rápido
ou se abandona o esforço. A gente torna-se cioso do tempo, pois que se despendeu muito com a mecânica de ir de um lugar para outro. Até mesmo uma passagem de estrada
de ferro se converte numa justificação para a pequena morte da partida. Quando se torna um avião, a gente se vê lançado numa ,interrupção de atividade que é como
que uma perturbadora imagem da eternidade. De modo que se experimenta certo ressentimento contra aqueles que exigem prova de identidade, complicadas provas de aptidão
para que se possa gozar de sua companhia. A gente se sente impaciente diante de mulheres que regateiam seus sorrisos ou fazem um drama de um convite para jantar.
E, às vezes, a gente sente mesmo desprezo por si mesmo, por sentir tanta necessidade de companhia no caminho de peregrino que se percorre.

Quando Landon explicou isso a Ninette, ela o aceitou como um cumprimento e deu-lhe a sua própria e bem-humorada versão do mesmo.

- É a punição da liberdade, Peter; a taxa que temos de pagar por sermos solteirões ou artistas. Quando os comediantes ambulantes chegam à cidade, os maridos não
perdem de vista suas esposas. Quando os mascates chegam com seus baús de novidades, os negociantes honestos apertam os cordéis de suas bolsas e conservam suas filhas
em casa. Você ainda é Scaramouche, chéri; eu ainda sou Pierrette, ligeira no amor e pronta a seduzir-lhes os filhos e a levá-los ao altar. Só quando somos velhos
e famosos é que eles nos convidam para jantar.

- E, não obstante, eles precisam de nós, Ninette. Somente criaturas como você e como eu podem mostrar-lhes de que modo segurar o mundo pelas pernas e cuspir-lhe
nos olhos.

Ela riu, feliz, e mcirdeu uma azeitona.

- Claro que eles precisam de nós, Peter, mas não exatamente como queremos que alguém precise de nós. As paredes ficam nuas, sem um ou dois quadros. Hoje, é tão elegante
ter-se um psicanalista como antigamente era elegante ter-se um confessor pessoal. Quanto ao resto. . . - e suas belas mãos envolveram num gesto todas as pessoas
palradoras que se achavam na adega. . . - todos eles prefeririam que pernanecêssemos na Boémia e so aparecessemos por ocasião do carnaval. Seja lá como for, tenho
a certeza de que somos mais felizes aqui.

- E que acontecerá quando ficarmos velhos?

Ela encolheu os ombros e esticou o beiçcr, como verdadeira parisiense:

- Se formos velhos e tolos, daremos com os burros nagua, e talvez até procuremos consolo no álcool. Mas, se formos velhos e sábios, voltaremos, às vezes, aos velhos
tempos, como antigos mestres a receber a homenagem da juventude... como aquele que ali está, por exemplo.

Indicou, através da sala, um canto mal alumiado, em que um homem de cabelos brancos se achava sentado em companhia de meia dúzia de estudantes, que o ouviam com
enlevada atenção. No cabide, ao lado da mesa, estavam dependurados quatro daqueles curiosos bonés medievais, cujas cores denotavam a Faculdade de Direito. No mesmo
momento, o homem voltou a cabeça e Landon viu, com certo sobressalto e surpresa, que era o Dr. Ascolini. Ele estava muito distante, demasiado absorto em sua séance,
para notar a presença de Landon, mas Landon sentiu, embaraçado, uni leve rubor assomar-lhe ao rosto. Ninette disse-lhe, zombeteira, a sorrir:

- Você não me contou o que aconteceu esta manhã, Peter. Quer falar-me a respeito?

Landon o fez. Falou durante toda a sopa e a pasta. Falou enquanto tomavam uma garrafa de vinho e pediu outra, enquanto Ascolini continuava sentado, eloqüente e respeitado,
entre o seu grupo de estudantes. De vez em quando, Ninette sondava, com uma pergunta ocasional, o âmago daquele drama provinciano. Quando Peter terminou, ela pousou
a mão esguia sobre a dele e indagou, delicadamente:

- Você quer saber o que penso, Peter?
- Quero.

- Pois acho que Valéria está apaixonada por você. Carlo apóiase em você mais do que seria, a ele, conveniente, e Ascolini respeita você mais do que você supõe. -
Antes que ele tivesse tempo de interrompê-la, Ninette prosseguiu: - Acho, ainda, que você está mais profundamente afetado por tudo isso do que o admite. Você gosta
de passar por filantropo, mas a máscara escorrega-lhe do rosto, pois que não se adapta muito bem a você. No fundo, você é um homem compassivo, que se magoa demasiado
facilmente com a maldade ou a desconfiança. Você julga essa gente de modo demasiado ríspido e sumário. Pinta todos os seus quadros em branco e preto, sem lugar para
os meios tons.

- Você se refere a Ascolíni9

- A todos eles, mas a Ascolini em primeiro lugar, se o desejar. Uma explosão de risos ergueu-se da mesa do velho, e Landon
0 viu dar umas palmadinhas no ombro do jovem que a causou. Viu-o também fazer sinal ao garção, para que trouxesse outra garrafa

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de vinho e, depois, inclinar-se atentamente, a fim de ouvir a pergunta de outro estudante. Ninette Lachaise fez outra pergunta:

- Como é que você interpreta isso, Peter? Que é que o traz aqui?

- Você mesma já o disse. 0 velho mestre recebe as homenagens da juventude!

- E isso é tudo, chéri? Não existe ali bondade? Medo? Solidão? Landon, pesaroso, teve de ceder.

- Muito bem, Ninette. Você venceu. De modo que o diabo tem um coração bondoso ... mas não, porque o deseje.

- Ele já lhe mostrou o seu coração, Peter? Ou você o viu através dos olhos de alguma outra pessoa?

A censura era tão delicada, que não lhe restava outro recurso senão aceitá-la. Respondeu, sorrindo:

- A artista é você. Seus olhos são mais penetrantes do que os meus. Talvez você queira descrevê-lo para mim.

- Eu o conheço, Peter - disse ela, calmamente. - Conheço-o há muito tempo. Ele compra meus quadros e vai, com freqüência, -ver o que estou fazendo. Conversamos e
tomamos café juntos.

Sem que tivesse razão para tal, Landon sentiu uma aguilhoada de ciúmes, ao pensar que aquele velho e malicioso charlatão desfrutava da intimidade da casa de Ninette.
Mas Siena era uma cidade pequena, e ele tinha menos direitos, quanto à jovem, do que Ascolini.

Sei que ele possui muito charme - disse, encolhendo os ombros.

Ninette Lachaise encheu-lhe novamente o copo e entrcgou-lho com um sorriso:

. Beba seu vinho, chéri. É você quem irá levar-me à casa e não o venerável doutor. Mas, falando seriamente: há uma tragédia em sua vida. Ele tem uma filha que o
decepciona e um genro que alimenta ressentimentos contra ele.

Agora, foi a vez de Landon rir.

- Valéria o decepciona? E :.e que é que ele se queixa? Ele a fez à sua própria imagem.

- Os auto-retratos nem sempre são a melhor arte. - Estendeu suas encantadoras mãos e tomou-lhe o rosto, voltando-o para ela. Seus olhos desafiavam-no, meio zombeteiros,
meio sérios. Todos nós amamos nossas próprias pessoas, Peter, mas nem sempre somos felizes com o que vemos no espelho. Você é?

Ele capitulou da maneira mais cortês possível. Tomou-lhe as mãos e beijou-as.

- Você venceu, Ninette - disse, com ar despreocupado.

- Você é melhor advogado do que Ascolini. Deixarei em suspenso minha opinião.

- Poderia fazer-me um favor?
- 0 que quiser.

- Deixe-me convidar Ascolini para tomar algo conosco. Recusar seria uma grosseria. Ademais, ele desejava gozar mais da companhia daquela mulher, e alguns minutos
de constrangimento eram um preço modesto para tal privilégio. Ninette dirigiu-lhe um sorriso rápido, gracioso, e atravessou o salão, sob uma nova irrupção de assobios
e de aplausos. Ascolini saudou-a com exuberante cortesia e, após uns momentos de conversa, veio com ela para a' mesa de Landon. Estendeu-lhe a mão e disse, com sua
velha e obstinada ironia:

Está em melhor companhia do que eu, meu amigo. Isso me alegra.

- Temos muito em comum - atalhou Ninette Lachaise.

- O senhor é um homem afortunado, Mr. Landon. Se eu fosse vinte anos mais moço, tirá-la-ia do senhor. - Suspirou teatralmente e sentou-se em sua cadeira. - Ah, juventude,
juventude! Um tempo fugaz! Só lhe damos valor quando a perdemos. Cada um desses jovens deseja ser tão experiente quanto eu. De que modo dizer-lhes que eu não queria
outra coisa senão ser tão sensual quanto eles?

Landon serviu-lhe vinho e participou do brinde que, Ascolini fez a Ninette. Conversaram voluvelmente alguns instantes e, de repente, Ascolini disse:

- Eu raramente me desculpo, Landon, mas devo-lhe uma explicação. Lamento o que aconteceu em minha casa.

- É coisa já esquecida. Gostaria que também o senhor a esquecesse.

Ascolini franziu o sobrolho e agitou a juba branca:

- Não deve prometer tanto, meu amigo, nem mesmo por delicadeza. Não é possível esquecer, mas apenas perdoar... e isso, Deus o sabe, é bastante difícil. - E, com
a mesma volubilidade com que abordara o assunto, passou para outro: - Esteve hoje com Carlo, Landon?

Estive. Então está metido nesse caso?

Não o creio.- respondeu Landon, sondando o terreno. Ofereci apenas a Cario a minha assistência profissional, do lado da defesa.

- Carlo tem sorte com os seus amigos - comentou, secaMente, Ascolini.

- Mais sorte do que com a sua família, talvez!

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- Vocês são ambos meus amigos. Não permitirei que discutam em minha companhia, Você, Peter, tem a língua demasiado solta. E o senhor, dottore - ajuntou Ninette,
pousando a mão no braço de Ascolini - por que razão faz questão de passar por monstro, com chifres, rabo e fogo a sair-lhe dos ouvidos? O senhor é tão leal a certos
princípios quanto Peter, embora não o confesse.

Para Landon, aquilo era uma advertencia para que tivesse melhores maneiras, feita por uma criatura cuja opinião ele prezava. Procurou, desajeitadamente, reparar
sua indelicadeza:

- Por favor, doutor! Sou um estranho que se viu envolvido, contra sua vontade, num assunto de família. Sinto-me irritadiço e confuso. Carlo foi o primeiro a honrar-me
com sua confiança, de modo que me sinto, naturalmente, inclinado a colocar-me a favor dele. Mas, na verdade, nada disso me diz respeito. Só um idiota desejaria servir
de árbitro numa disputa doméstica.

- Infelizmente, Landon, não é de árbitro que precisamos, mas de perdão para os nossos pecados e da graça que nos permita emendar-nos. Sou demasiado velho e demasiado
orgulhoso para pedir tal coisa, e Carlo é jovem demais para reconhecer tal necessidade. Quanto a Valéria. . . - Interrompeu-se, para tomar um gole de vinho e ver
de que maneira poderia expressar seu pensamento. - Quanto a Valéria, fui eu quem lhe revelou o mundo ... roubando-lhe a inocênciá com que ela deveria compreendê-lo.
Você é uma mulher sensata, Ninette ... Que é que você receita para uma doença como a nossa?

- Se eu lhe disser, talvez o senhor deixe de comprar os meus quadros.

- Pelo contrário! Talvez eu até a surpreenda, comprando-os todos.

- Então, dottore mio, eis aqui a receita. A menos que queiram acabar matando-se uns aos outros, alguém tem de dizer a primeira palavra amável. E o senhor é quem
tem menos tempo para isso.

Durante longo momento, Ascolini permaneceu mudo. Fugiu-lhe o brilho dos olhos, seu rosto rosado tornou-se flácido e, pela primeira vez, Landon percebeu quão velho
era ele. Finalmente, levantou-se, tomou a mão de Ninette e levou-a aos lábios:

- Boa noite, filha. Durma em paz. - E, em tom mais cerimonioso, voltando-se para Landon: - Gostaria de conversar com o senhor, se quisesse almoçar comigo, amanhã,
no restaurante Luca
- Lá estarei.

- À uma hora, então. Divirtam-se, com a minha bênção. Ficaram ambos a observá-lo, enquanto Ascolini atravessava o salão, seguindo, com o seu jeito de velho, por
entre as mesas repletas
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de gente, até que os estudantes se ergueram à sua aproximação, como filhos zelosos de um pai ilustre.

Landon sentiu os olhos de Ninette postos em sua pessoa, mas, como nada tinha a dizer, ficou a fitar a toalha axadrezada da mesa, desconcertado e um tanto envergonhado.
Finalmente, Ninette disse, com urna pontinha de ternura:

- Há outros lugares, outras pessoas, Peter. Vamos à procura deles.

Não houve assobios, ao saírem. Até mesmo o Sordello tinha o seu cavalheirismo próprio, mas Landon não sabia dizer se era a égide de Ascolini que os protegia, ou
se ele já havia adquiride o ar de homem apaixonado - coisa nobre na Toscana, apenas um pouquinho menos solene do que um funeral ou a coroação de um Papa.

Eram já três horas da madrugada quando ele levou Ninette para casa, ao deixarem a última cantina e as últimas pessoas. Na obscuridade do vão da porta da casa de
Ninette, beijaram-se, agarrados um ao outro, tontos e apaixonados, até que ela o afastou de si, sussurando-lhe:

- Não'rne apresse, Peter. Prometa-me que você não me apressará. Não somos crianças e sabemos aonde este caminho conduz.
- Quero que seja um caminho longo.

- Eu também. Mas preciso de, tempo para refletir.
- Posso visitá-la amanhã?

- Amanhã... o dia que quiser!

- Mas você poderá ficar enjoada de mim e mandar-me embora.

- Nesse caso, eu me amaldiçoarei e o chamarei de volta. Agora, vá para casa, chéri, por favor!

A velha cidade estendia-se, mágica, sob a lua de verão, com suas colunas prateadas, suas torres serenas, suas fontes cheias de Pálidas estrelas. Seus sinos estavam
mudos, mas suas praças eram murmurejantes de fantasmas antigos e cordiais. Um deles fez-lhe uma pergunta que ele julgou já ter ouvido antes: "Que acontece, meu amigo,
quando o mundo explode diante de nosso rosto?"

Num terceiro andar, perto da Porta Tufi, Valéria Rienzi jazia desperta, a observar as sombras do luar, que se estendiam sobre os topos dos telhados. Ao seu lado,
na cama em desalinho, Basílio Lanaro dormia, ressonando, a sono solto, tendo no rosto belo, rude, Uni ar de satisfação. Mesmo em repouso, havia nele profunda vitalidade
animal: no peito largo, coberto de pêlos escuros, no ventre

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chato e nos ombros atléticos, musculosos. Era como um animal de coudelaria, criado para reprodução, orgulhoso de sua potência, desgracioso, mas dominador no ato
da posse.

Contudo, embora p desprezasse, Valéria não podia sentir-se pesarosa por tê-lo conhecido. Sua violência magoava-a, seu.egoísrno irritava-a, mas, não obstante, ele
jamais deixava de proporcionar-lhe uma espécie de realização. Ele não lhe pedia que ela fosse diferente do'que era - uma mulher atraente, apta para o acasalamento,
feliz por dedicar-se aos jogos amorosos e que não fazia demasiadas perguntas acerca do amor. Havia uma urgência pânica em sua maneira de requestá-la, o que a levava
rapidamente à excitação, Alegrava-o a submissão, mas ficava encantado quando encontrava cooperação.

Lazzaro não exigia, como Carlo, que ela fizesse o papel de sedutora, nem como seu pai, que ela recordasse um episódio de literatura lasciva. Era simples como o animal
a que se assemelhava e sup- âmplicidade era uma garantia da liberdade dela. Ela podia ir ou ficar. Se ficasse, havia um preço. Se o deixasse, havia outras vinte
mulheres a quem ele poderia chamar com um simples estalo de seus dedos vigorosos. Tratava-a como unia prostituta e fazia com que ela assim se sentisse, mas, pelo
menos, ela não se via comprometida além do contrato noturno,

Lazzaro era como que uma catarse para suas confusões, um companheiro e um símbolo de sua rebeldia, Não obstante, jamais seria um companheiro permanente ou que lhe
bastasse. E isso a levava, através de rodeios, a deparar frente a frente com a pergunta já respondida: que lhe restaria, quando o espetáculo terminasse?

Seu pai tinha uma resposta: um casamento convenieplle e um bando de filhos junto aos quais ela pudesse chegar, graciosamente, à meia-idade. Mas sua resposta tinha
um matiz que denotava a exigência de um velho que desejava posse e continuidade. Quando viessem as crianças, ele as ligaria, pelo afeto, à sua pessoa, ou as exibiria
como uma censura.

E Carlo? A resposta de Carlo era, ainda, diferente. 0 casamento era um contrato, o amor um pacto recíproco. Ele apresentavalhe o seu amor como se fosse um buquê
de flores e exigia que ela o beijasse pelo oferecimento. Se conseguisse vencer nesta ou naquela causa, tornar-se-ia mais arrogante, mas nao menos exigente, depondolhe
aos pés a vitória, como preço do amor, Em certo sentido, sua exigência era mais brutal que a de Lazzaro, que dava, recebia, e ia embora. Carlo amava-se a si próprio
nela, como uma criança que se ama em sua mãe, exigindo uma dádiva gratuita de afeto.

Ele era cheio de incertezas, mas não podia tolerar qualquer incerteza nela. Submetera-se, à sua própria maneira, à tirania de Ascolini,
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mas recusava-se a compreender o quanto mais sujeita se tornara ela ao pai. Exigia lealdade ' sua,própria rebelião, mas não podia compreender que a rebelião dela
devia processar-se alhures e de maneira mais sutil. Ele também desejava filhos - mas como uma prova, não como fruto do amor.

Mas essas não eram, ela o sabia, as unicas respostas. Ela era voluntariosa, e precisava ser domesticada; ardente, e necessitava da satisfaÇão dos sentidos. Havia,
em seu íntimo, receios que desejava compartilhar com alguém, mas com alguém frio e sensato, que não fosse, rio entanto, Daternal; vergonhas sobre as quais precisava
falar e, recordações qu deviam ser aceitas sem censura - de modo que, quando chegasse 0 Momento em que ela tivesse de dar-se, pudesse fazê-lo grata e livremente,
quer como esposa, quer Corno amante, Pouco importava.

Enquanto o luar se dissipava e as sombras pálidas subiam do assoalho para o teto, pensou em Peter Landon e no breve, ardente interl'dio que tivera com ele no jardim.
Se houvesse tempo e Oportu~ nidade, ela poderia de novo atraí-]o para si, a menos - e essa idéia fez com que experimentasse 0 vivo aguilhão do ciúme - a menos que
Ninette Lachaise o apanhasse primeiro.

Peter Landon não era 0 único objeto de contenção que se interPunha entre ela e aquela intrusa de além fronteira. Vinha observando, há muito tempo, o afeto crescente
de Ascolini por ela, sentindo mesmo o mudo pesar do pai por ela não Poder comparar-se à desembaraçada boêrnia que vivia a pintar em sua água-furtada. E, aquela noite,
com Perversa satisfação, ela fizera com que Lazzaro tornasse a falar da francesa.

Ela o lisonjeara e despertara-lhe a sensualidad

C, até que, no fim, Lazzarro acabara por revelar-lhe, com niesquinha vaidade mas. culina, Os Pormenores íntim

os de seu caso amoroso com Ninette Lachaise. Aquilo era, na melhor das hipóteses, unia vitória vergo nhOsa, mas uma Valéria mais experimentada poderia tê-la transfor'nado
numa vitória mais nobre. 0 amor era urna guerra em que os despojos cabiam aos mais sutis e experientes - e um hoMem uma vez beijado, já se encontrava meio desarmado.

0 leite derramado não podia tornar de novo à jarra; a inocênela Perdida não podia jamais ser restaurada. Mas Landon tampouco era inocente e talvez, , . talvez...
0 cinza frio da falsa alvorada ja se insinuava no céu ocidental, quando ela se vestiu apressadamente e desceu as escadas, a fim de tomar o seu automóvel que deixara
lio beco ao lado. Basílio Lazzaro desvertaria e veria que ela tinha ido

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Enquanto seguiam seu tortuoso caminho, de volta ao centro da cidade, Carlo falava voluvelmente, revelando a satisfação que lhe causara a entrevista com o Dr. Galuzzi,
mas Landon ajuntou uma ou duas palavras de cautela:

- Não confie demais nestas coisas, Carlo. Galuzzi agrada-me. É um sujeito simpático, mais liberal do que outros em suas amabílidades profissionais. Mas tal amabilidade
não lhe custa nada. . . e, no banco das testemunhas, ele permanecerá firme como uma rocha, pois que se acha em jogo sua reputação profissional.

- Sempre me esqueço - respondeu Rienzi, olhando-o de esguelha - que você deve ter passado muitas vezes por casos como este. Diga-me uma coisa: é provável que seu
diagnóstico do caso varie muito do de Galuzzi?

- Duvido. Pode haver alguma divergência de opinião, quando se trata de um caso complexo. Poderia haver uma divergência ainda maior quanto à questão do tratamento.
Mas parece-me que você está querendo ouvir uma certa resposta. Você está pressupondo que toda conduta anormal é um sintoma de enfermidade mental. Existem certos
profissionais extremados que defendem esse i)onto de vista. Eu não. Estou certo de que Galuzzi também não. Se sua cliente for uma demente, ambos estaremos de acordo
quanto a isso... e você terá o seu caso resolvido em vinte minutos. Do contrário, você terá de voltar às circunstâncias atenuantes.

- É nisso que estou trabalhando agora. Mas, até agora, só deparei com portas fechadas.

- Mas existe uma que talvez se abra.
- Qual?

- A do marido de Anna Albertini.

- Ele se recusou a falai com quem quer que fosse, exceto à polícia. Além disso, já voltou para ]Florença.

- Dê um pulo até lá e pergunte-lhe por que razão sua esposa é ainda virgem, após quatro anos de casamento.

- Santo Deus! - exclamou Rienzi, em voz baixa. - Isso talvez pudesse dar certo!

- Sempre constitui uma probabilidade razoável. Desafie um homem quanto à sua virilidade, e ele se mostrará logo disposto a falar. Se ele lhe dirá ou não a verdade,
é outro assunto.

- Se soubéssemos o que os inibiu em seu casamento, teríamos algumas perguntas importantes a fazer à própria Anna. E, a partir daí ...

- A partir daí - atalhou Landon, com um sorriso - você terá de preparar o seu próprio jantar, Carlo. Posso ajudá-lo a mexer a sopa, mas, no fim, você é quem terá
de comê-la. E, por falar em
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comer, Ascolini convidou-me para almoçar com ele hoje. Encontrei-o ontem à noite, quando me achava em companhia de Ninette Lachaise.

- Ah, o velho, o velho charme! - disse Carlo, em tom de ressentimento. - Mel para as moscas. Se você fosse mulher, ele o levaria para a cama antes do pôr do sol.
Não me traia, Peter!

Disse isso com um sorriso, mas Landon, no mesmo instante, ficou profundamente irritado:

- Vá para o diabo, Caflo! Se é assim que você encara um simples gesto de polidez, vá para o diabo que o carregue!

E, sem levar em conta os protestos de Rienzi, deu meia-volta e afastou-se apressadamente, mergulhando num labirinto de vielas, a tropeçar em montes de lixo e em
regos de agua suja, ate que surgiu, ofegante e furioso, na ofuscante claridade do Campo. Consultou o relógio e viu que era apenas meio-dia; entrou, pois, num bar,
tomou dois conhaques e fumou meia dúzia de cigarros insossos, até que chegasse a hora de almoçar com Alberto Ascolini.

Encontrou o velho sentado num canto bem situado do Luca, como que entronizado numa poltrona de pelúcia vermelha, ao pé de um nu da Renascença. Dois garçons permaneciam
a seu lado, atentos e obsequiosos, enquanto Ascolini sorvia seu vermute amarelo e fazia anotações num caderninho com capa de marroquim purpurino. Landon não conseguiu
reprimir um sorriso, diante do cuidado com que ele teatralizava todas as ocasiões. Poderia ser camponês, mas tinha habilidade de impor distinção até mesmo ao esplendor
barroco do Luca, que é em parte restaurante, em parte clube, e, em parte, um monumento às pomp&s extintas do século XIX.

Saudou Landon com ar ausente, e, dentro de noventa segundos, já tinha na mão um aperitivo, após o que, perguntou, bruscamente:
- Já leu os jornais, Landon?

- Li.

- Que é que acha do caso?

- Excetuando-se a demência, não posso imaginar caso mais fácil para a acusação.

- E para a defesa?

- Uma tarefa nada auspiciosa. Foi o que eu disse a Carlo.
- E ele concorda?

- Não inteiramente.

- Então é porque ele deve dispor de outras informações.
- £ o que se diria.

Deixou o assunto morrer aí, como um velho e hábil espadachim após os primeiros passes perfuntórios.

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- Não sei. Tal como estão as coisas, dir-se-ia que Carlo é quem ama, e ela quem aceita o amor, sem que lhe dê, no entanto, qualquer valor. Se o amor lhe fosse retirado,
pode ser que ela se sentisse amedrontada e se esforçasse por agarrar-se a ele. Se não ... chi sa? Há mulheres que se divertem com seus coraçoes e parecem viver
satisfeitas.

- O senhor se interessa pelo rumo que as coisas tomam?

Ele o fixou com olhos frios, de advogado,"e respondeu, enfaticamente:

- Interesso-me muitíssimo, embora não, talvez, pelo motivo que o senhor pensa. Desejo que esse casamento dure... e que dure da maneira mais feliz possível,
não por causa de Carlo, mas de Valéria, e por que quero um neto ... uma promessa, ao menos, de continuidade. - E, antes que Landon tivesse tempo de fazer qualquer
comentário, prosseguiu: - Foi por isso que o convidei a vir aqui hoje. Quero que Carlo saiba que conta com o meu apoio neste caso e em suas relações com Valéria.

Landon encarou-o com ar de completa incredulidade. Tudo o que acontecera nas últimas quarenta e oito horas parecia desmentir o que o velho estava lhe dizendo. Como
se lesse os pensamentos de Landon, Ascolini tirou do bolso um envelope amarelo-claro e colocou-o sobre a mesa:

- Gostaria que me fizesse o favor de entregar isto a Carlo. Contém um cheque de um milhão de liras e algumas anotações que redigi sobre o caso. Gostaria que o senhor
explicasse a Carlo a minha atitude e insistisse com ele para que aceitasse o dinheiro e o meu conselho, a bem da causa de sua cliente. Poderia fazer-me esse favor?

- Não, absolutamente!

- Não acredita em mim, não é isso?

- Acho que o senhor está cometendo um erro.
- Por quê?

- Em primeiro lugar, não creio que Carlo aceite essa sua ajuda. Em segundo lugar, mesmo que ele aceitasse, isso faria com que ficasse sendo de novo seu credor. Seu
tiiunfo - se houvesse ainda pertenceria em parte ao senhor.

- Julga que é isso que desejo?

- Não. Mas em sua própria confissão o senhor se referia a isso. 0 velho touro ... lembra-se?

Durante longo tempo, Ascolini permaneceu em silêncio, os olhos postos na mesa, a traçar com um garfo figuras sem sentido sobro a alva toalha. Depois, apanhou o envelope,
tornou a metê-lo no bolso e disse, em voz baixa:

- Talvez tenha razão, Landon. O senhor não tem motivo algum para confiar em mim, e eu não tenho o direito, para salvaguardar minha vaidade, de convertê-lo em meu
emissário. Poderia fazer-me, ao menos, um favor?

- Certamente, se puder.

- Conte a Carlo o que eu disse, e o que ofereci.

- O senhor o vê todos os dias. Por que não lhe conta o senhor mesmo?

- Espero que o senhor possa explicar-lhe melhor do que eu a minha posição.

- Tentarei fazê-lo, mas não posso garantir o que ele julgará.
- Claro que não. Quem pode garantir que o próprio juizo que uma criatura faz de si própria não é uma mentira destinada a tornar a vida suportável? - disse Ascolini,
lançando a Landon um sorriso frio, irônico. - O senhor, por exemplo, Mr. Landon, pode desmontar, peça por peça, a mente de um homem, e, depois, juntáIas novamente,
como um relógio. Acaso já perguntou a si mesmo por que razão se envolveu tão profundamente em nosso caso?

A coisa foi feita com tal habilidade que Landon não pôde deixar de sorrir, diante do puro virtuosismo de seu interlocutor. Ademais, era uma pergunta justa, e já
era tempo de que ele desse uma resposta honesta. Refletiu um memento, depois, disse, com ar sério:

- Em parte, por motivos de simpatia. Gosto de Carlo e acho que ele merece melhor sorte. Em parte, também, por ambição. O senhor sabe que eu vinha procurando um tema
original para minhas pesquisas, que servisse para aumentar minha reputação, quando de meu regresso a Londres. Este caso talvez mo proporcione. Além disso - ajuntou,
pousando as mãos sobre a toalha e ficando a observá-Ias, atentamente, durante alguns momentos - além disso, eu também, em certo sentido, estou passando por uma crise.
Uma crise que, penso, o senhor compreenderá. Tenho vivido, há demasiado tempo, uma vida solitária e auto-suficiente. Envolvi-me nisso, creio eu, devido, em parte,
a um impulso subconsciente, que me impelia para a vida comunitária e para a competição.

Ascolini fez com a cabeça um gesto de assentimento.

Aprecio sua franqueza, Landon. Permita-me ainda uma pequena pergunta. Como é que o senhor me encara?

- com particular respeito - respondeu Landon.

- Obrigado. Acredito em sua sinceridade. - Aguardou uma fração de segundo e tornou a indagar, ainda mais astutamente:

E que acha de Valéria?

Novamente Landon sentiu súbita irritação, mas dominou-se e respondeu, a voz inalterada:

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- É uma mulher atraente, que tem seus próprios problemas.
- Acha que o senhor poderia resolvê-los?

- Não.

- Acha que ela poderia criar-lhe problemas?

- Qualquer mulher pode criar problemas para qualquer homem. Landon sorriu perversamente de sua resposta, ao levar seu copo de vinho aos lábios, enquanto Ascolini
reiniciava seus desenhos sobre a toalha. Decorrido um momento, o velho advogado ergueu os olhos para ele.

- É bastante estranho, Landon, mas, em qualquer outra ocasião, eu não teria desaprovado uma ligação entre o senhor e Valéria. Acho que o senhor é o tipo do homem
de que ela necessita. Agora, porém, devido às razões que lhe expliquei, não veria isso com bons olhos.

- 0 mesmo digo eu - respondeu, irrefletidamente, Landon. Tenho os olhos voltados para outro lado.

0 velho animou-se imediatamente:
- Ninette Lachaise?

- Exatamente.

- Alegra-me ouvi-lo - respondeu Ascolini, com ar grave e satisfeito. - Gostaria muito de vê-Ia feliz. Por essa razão, digo-lhe apenas o seguinte: aja com muita cautela...
e não procure fazer tudo à sua própria maneira. Obrigado por sua paciência, Sr. Landon, e por sua companhia.

Apesar de toda a urbanidade de Ascolini, Landon saiu do restaurante ainda magoado e bastante ressentido. Não fora por Ninette Lachaise, ele os teria mandado todos
ao diabo e tomado o primeiro trem para Roma. Estava farto de suas intrigas. Odiava-os de todo o coração, por eles o terem seduzido e conquistado sua amizade, lançando
depois à sua porta todas as culpas de que se acusavam mutuamente.

Aquela era a espécie de situação que ele evitara, cuidadosamente, durante toda a sua vida, convencido de que um homem já tinha muito com que se preocupar ao cuidar
de sua própria salvação, sem que agisse como juiz, júri e ama-seca do resto da humanidade. Mas ser apanhado numa armadilha, como um menino inexperiente diane da
primeira viúva com que deparava, era demais! Resolveu, pois, terminar incontinenti suas relações com aquela gente - e, para dissipar seu mau humor, pôs-se a caminhar
pelas estreitas vielas, rumo ao atelier de, Ninette.

No momento em que a sentiu de novo em seus braços, não teve mais dúvida de que amava. Tudo o que ele jamais sonhara numa
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mulher parecia haver florescido naquela: simplicidade, ardor, coragem. Ela não tinha nenhum dos artifícios que outras mulheres empregavain para despertar ternura,
ao mesmo tempo que se negavam a retribuí-Ia. Dava liberalmente o que tinha, sem nenhuma exigência usurária de pagamento. Encarava o mundo com olhos de artista, serena,
reconhecida, compassiva. Pela primeira vez em sua vida, a cautela de solteirão o abandonou e ele disse-lhe a verdade:

- Tive de vir. Precisava dizer-lhe, Ninette, que a amo.
- Eu também o amo, Peter.

Ficou um momento agarrada a ele; depois, desvencilhou-se suavernente de seus braços e acercou-se da janela, ficando a olhar, o rosto voltado para o outro lado, os
telhados vermelhos da velha cidade.

- Agora que já o dissemos, vivamos com isso algum tempo. Não façamos contratos; aguardemos e desfrutemos o que possuímos. Se isto florescer, será bom para nós. Se
morrer, não nos magoará demasiado.

- Quero que floresça, Ninette.

- Eu também. Mas tanto eu como você já dissemos antes o que estamos dizendo agora... e não durou.

Sei que durará, quanto a mim.

Então continue a dizer isto, chéri, o tempo todo, até que você acredite, no fundo de seu coração, que é verdade.

- E você?

- Eu farei o mesmo.

Permaneceram de pé junto à janela, braços enlaçados, corpos unidos, a saborear as primeiras doçuras da confissão e a observar a luz derramar-se, dourada e suave,
do céu toscano.

Depois, Ninette fez com que ele se sentasse, tirou o avental e pôs-se a mexer-se pela casa, a fim de preparar-lhe café. Landon faloulhe de seu almoço com Ascolini
e de como ficara furioso com Rienzi; disse-lhe, também, de sua decisão de afastar-se, o mais cedo possível, de toda aquela complicação mesquinha. Ela ouviu-o em
silêncio, enquanto o bule de café borbulhava, como uma contraparte cômica da história. Depois, sentou-se, "tomou-lhe as mãos nas suas e disse, com sua maneira franca
de sempre:

- Sei corno você se sente, Peter. Não o censuro. Essa não é sua gente, nem minha. 0 feitio de suas vidas está retorcido e revirado de uma maneira que nem voce nem
eu podemos suportar. Eles carregam, como jamais poderíamos fazer, o fardo de amargas e antigas histórias. Mas, não obstante - é curioso - eles precisam de nós...
muito mais de você do que de mim.

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- Como é que pode dizer isso, Ninette?

- Por que preciso de você quase tanto quanto eles, Peter. Você se sente descontente consigo mesmo, eu sei; mas, para nós, você é o homem novo do Novo Mundo, uma
prova de que é possível viver-se sem história, começar-se com uma tela limpa numa terra banhada por uma nova luz. Isso é um símbolo, como você percebe, que representa
a única solução, não só para essa gente como para -muitas outras pessoas. Alguém precisa dizer "Desculpe-me" e conreçar de novo. Do contrário, a velha história corrompe
a nova, e não existirá, no fim, esperança alguma. . . - Hesitou um instante, como se procurasse as palavras que definissem um pensamento incômodo. - É como o que
ocorre conosco; nós ambos conhecemos outras pessoas, gostamos de algumas e detestamos o resto. Mas, se continuarmos a viver no passado, não há esperança para nenhum
de nós. Temos de reconhecer que o presente é importante, e que o futuro constitui sempre um ponto de interrogação. Amo-o porque você é capaz de fazer isso. Rienzi
e Ascolini precisam de você por essa mesma razão. Você pode permitir-se ser generoso para com eles.

Landon abanou a cabeça. Sentia-se perturbado por um vago sentimento de culpa, que nem mesmo então conseguia expor- a Ninette.

- Não me superestime, querida. Há ocasiões em que me sinto bastante vazio.

- Você dá aos outros mais do que imagina, chéri. É por isso que me é tão caro.

De repente, surpreso, ele conseguiu exprimir um pensamento que ocultara até mesmo de si próprio:

Tenho medo dessa gente, Ninette. Não sei dizer porque, mas eles me aterrorizam com sua capacidade de maldade. Sabem o que estão fazendo, confessam-no, e a gente
acaba por sentir-se envergonhado. É como a gente ouvir um homem contar histórias indecentes a respeito de sua própria esposa. - Lançou um risinho gutural. - Eu devia
estar habituado a isso. . . ouço-o quase todos os dias de meus pacientes... mas aqui não estou tão bem armado.

- Eu sei - disse, em voz baixa, Ninette. - Estou aqui há mais tempo do que você. Eles se atormentam porque não sabem como amar. Mas nós o sabemos. De modo que eles
não podem ferirnos ... e nós talvez possamos ajudá-los.

- E é isso o que você realmente deseja, Ninette?

- Sou tão rica, Peter, tão rica neste momento, que gostaria de gastar um pouco de minha riqueza com o resto do mundo.

Ele a tomou em seus braços e beijou-a. 0 bule de café fervia, em plena ebulição, e eles puseram-se a rir gostosamente, com a alegria simples, espontânea, de estarem
vivos.

Ao cair da tarde, rumaram, no velho Citroen de Ninette, para San Gimignano - a "San Gimignano das Torres Maravilhosas", a cidade miniatura em que a Idade Média
se acha preservada, do mesmo tamanho, quase intata, na contextura do século XX.

A terra estendia-se, plácida, sob as longas sombras de ciprestes e oliveiras, marrom nos lugares em que o arado revolvera, cinzenta sob a ramagem das vinhas, verde
nos sítios em que as fontes ocultas ainda banhavam o tenro relvado. A claridade era suave, o ar calmo, mas cálido, devido ao hálito de uma terra ainda viva, ainda
fértil, após o transcurso de séculos de fome.

Os camponeses, revigorados pela sesta, trabalhavam nos eirados e nas plantações de hortaliças - homens, mulheres e crianças curvados sobre o enxadão ou sobre o forcado.
A paz reinante em tudo aquilo penetrou na alma de Landon, e ele mergulhou naquela agradável dicotomia em que o corpo se concentra no exercício mecânico das coisas
em marcha e o espírito se alça, livre, por sobre o panorama eterno da humanidade.

Também Ninette estava muda, absorta, como artista que era, na contemplação da cor, do contorno e do conjunto de tudo aquilo. Eles se achavam separados mas unidos,
apartados mas em harmonia, como notas do mesmo acorde, como cores em feliz combinação. Não tinham necessidades que não fossem satisfeitas pela simples presença de
um ao lado do outro, nenhum temor que não pudesse ser dissipado por um toque de mão ou por um sorriso de confiança. Se aquilo não era amor, então Landon nada sabia
a tal respeito. E se o amor era uma tolice, ele se sentia feliz de ser um tolo.

Ao divisarem o velho e sombrio mosteiro, que era agora casa correcional feminina, Ninette sentiu um arrepio. Aconchegou-se a Landon e disse, baixinho:

- Às vezes, Peter ... às vezes eu também tenho medo.
- De que, minha querida?

- Disto tudo - respondeu ela, abrangendo, com um gesto, a campagna ensolarada e as torres distantes e sonhadoras de San Gimignano. - É tão tranqüilo, como você vê!
Os camponeses são gente simples ... atrasados como os camponeses de toda a parte, mas amáveis e bondosos para com os filhos. Não obstante, de vez em quando, algo
explode - pum! - e há violência, ódio e toda a especie de crueldade.

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- Como o caso de San Stefano?

- Exatamente. Aquela nioça, Peter... Antes de você chegar, desenhei-lhe o rosto, copiando-o das fotografias dos jornais. Procurei analisá-lo como artista, e não
consegui encontrar senão uma expressão infantil... No entanto, veja o que aconteceu!

- Tenho pensado nisso desde que li os jornais esta manhã. É difícil de se acreditar na maldade infantil, mas ela existe.

- Às vezes, as crianças a herdam, como espiroquetas no sangue. Outras vezes, aceitam-na, como substituto do amor. Ninguém pode viver com o coração vazio.

- Mas essa moça era casada. Deve ter conhecido alguma coisa do amor.

- Uma coisa nada tem a ver com a outra, Peter. Ás vezes, a capacidade de amar é destruída. Uma erva do pântano morrerá em solo seco. Um animal nascido na escuridão
sente-se cego à luz do sol. Veja, por exemplo, a filha de Ascolini. Acaso lhe faltou jamais amor?

- Que é que a levou a pensar nela?

A resposta de Ninette apanhou-o de surpresa:

- Sonhei com ela esta noite, Peter. . . e com você também. Vocês estavam de mãos dadas num jardim, como namorados. Eu o chamava de longe, mas você não me ouvia.
Procurei aproximar-me de você, mas algo me retinha. Acordei dizendo o seu nome e chorando.

- Querida, você está com ciúmes.
- Eu sei. Tolo, não acha?

- Muitíssimo tolo. Valéria nada significa para mim.

- Pergunto-me, às vezes, se você significará alguma coisa para ela.

- Que é que eu poderia significar-lhe? - indagou ele, envergonhado, constrangido.

- Beije-me e venha cá! Que é que elas sempre pretendem? Desvencilhou-se dele e esboçou um sorriso triste: - Seja paciente comigo, chéri. Toda mulher tem seus caprichos
e o meu é ter ciúme do homem que amo. Esqueçamo-nos de todos eles e falemos de nós.

E assim o fizeram, à maneira feliz, extravagante, dos namorados, enquanto os telhados e os cartipanários de San Gimignano se recortavam mais nitidamente no azul
do céu. Finalmente, Landon disselhe que ficaria em Siena até depois do julgamento e que, então, a pediria em casamento.

Estranhamente, a conversa de casamento pareceu pCrturbá-la, como se aquilo fosse pedir demais demasiado cedo, tentando os antigos deuses da Etrúria a um de seus
maliciosos gracejos. Landon
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procurou , caçoar dela, para ver se a distraia, mas o seu estado de espírito não mudou. Como muita gente corajosa, que aceita a vida da melhor maneira possível,
Ninette tinha receio profundo, instintivo, de exigir do ,futuro uma promessa demasiado grande - medo de contar com a colheita antes que o fruto houvesse amadurecido.

Ao chegar à cidade, pararam para tomar vinho na velha praça, chamada Praça da Cisterna. Landon entregou-se à tola cerimônia de, erguer um brinde às deidades, para
aplacar-lhes a ira. Ninette franziu o sobrolho e disse, um tanto irritada:

- Não faça essas coisas, Peter!

- É apenas uma brincadeira, querida. Não significa coisa alguma.

. - Eu sei, Peter, mas não gosto de fazer pactos com o amanhã. Gosto do dia de hoje exatamente como ele é, bom e mau. Sinto-me mais segura assim. Não quero enfrentar
o grande "talvez".

- Talvez o quê?

- Talvez eu morra. Talvez você se canse de mim e me abandone. Talvez eu fique cega e não possa mais pintar.

- Isso é tolice.

- Eu sei, chéri. Tudo o que ainda não aconteceu é tolice. Mas, quando acontece, é melhor a gente estar preparada. Gosto de não levar em conta o futuro até que o
sol se erga sobre um novo dia.

- Mas alguém tem de fazer planos para o amanhã. A vida não é apenas um acidente ... ou um jogo de xadrez disputado por um destino predominante.

- Então você terá de fazer planos por nós dois. Eu apenas procurarei fazer com que sejamos felizes hora após hora. - Levantou-se e fez com que ele também se erguesse.
- Vamos embora! Ainda há muita coisa para mostrar a você antes do pôr do sol!

Nas duas horas seguintes, exploraram a minúscula cidade sendo cada um de seus passos uma re-ressão à violenta história da província. No século XII, seus cidadãos
haviam expulsado o tirano, Volterra. No século XIV, a cidade rendera-se a Florença, exaurida pelos banqueiros Medici e pelas sanguinolentas facções existentes dentro
de suas próprias portas. Benozzo Gozzoli pintara lá, e Folgore, o seu filho poeta, fora de lá condenado ao inferno de Dante, juntamente com os onze grandes perdulários
de Siena. Quando urna de suas torres derruía, outra era construída, "dotada de flechas, manganelas e todas as outras necessidades bélicas". Nicoló Machiavelli PÔS
suas milícias à prova junto de seus muros, e o próprio Dante conduziu uma embaixada da Liga dos Guelfos à presença do Grande Conselho. Quanto ao seu aspecto exterior,
o lugar pouco mudara com a passagem dos séculos e, à medida que as sombras se alongavam,

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a gente quase esperava ouvir o tropel de soldados e o estrépito de cavalarianos, enquanto mercadores, fidalgos e frades se comprimiam ao transpor a porta da cidade,
antes do pôr do sol.

Ao terminar o passeio, eavam suados, empecirados e ansiosos por beber algo. Nínette sugeriu que deviam parar num pequeno restaurante à beira da estrada, que era
meio casa de pasto,, meio cantina e, por reputação, um lugar de encontro de namorados rurais. Estacionaram o carro junto à estrada e, ao atravessar o pátio umbroso,
viram, cinco segundos já demasiado tarde, que Valéria Rienzi estava sentada em companhia de um homem numa das mesinhas de mármore. Landon viu Ninette enrubescer
e empertigar-se, ao mesmo tempo que Valéria lhes acenava para que fossem sentar-se à sua mesa. Não tinham outra alternativa senão mostrar~se corteses. Valéria apresentou
o seu companheiro:

- Peter, gostaria que você conhecesse um meu amigo, Basílio Lazzaro. Basílio, este é Peter Landon. Você certamente já conhece Ninette, pois não?

- Claro! Somos velhos amigos - respondeu, suavemente, Lazzaro. - E é para mim um prazer conhecê-lo, Senhor Landon. Ninette nada disse. Valéria olhou-a com ar de
felino regozijo,

enquanto que Lazzaro e Landon se examinavam mutuamente, convencendo-se ambos da imediata antipatia que sentiam, Houve uma pequena e constrangida pausa; depois, Valéria
disse:

- Tentei telefonar-lhe esta manhã, Peter. Queria conversar com você um momento, amanhã.

- Estive fora quase o dia todo - respondeu, desajeitado, Landon. - E não sei bem o que acontecerá amanhã.

- Posso telefonar~lhe, então? É assunto bastante importante. Nada lhe restava fazer,'senão aquiescer. Landon e Ninette dcsven,cilharam-se deles o mais depressa possível,
tomaram a sua bebida -em silêncio e voltaram depressa para o automóvel. Decorrido um :momento, Ninette comentou, em tom irritado:

- Eu não lhe disse, Peter? Ela está interessada em voce e não, ,desistirá sem luta.

- E a mim me pareceu - disse, acreinente, Landon - que ,esse tal Basílio está interessado em você.

E aí terminou, bruscamente, a conversa, Uma pequena rajada de vento frio soprou através do campo e, depois, cessou. Apesar de todo o seu amor, eles não conseguiam
encontrar palavras com que tranqüilízar um ao outro, e voltaram para Siena soturnos e arredios, enquanto o cinzento lusco-fusco pousava sobre os bosques de oliveiras
e os tristes e funéreos ciprestes.

,84

Em todos os casos de amor, embora precipítados, há momentos em que a comunicação viva, intuitiva, se rompe - momentos em que o homem e a mulher são lançados de volta
à solidão que priineiro os predispõe um para o outro. A visão que cada um tem do outro é demasiado perfeita, o equilíbrio de interesse é demasiado precario para
suportar o menor defeito ou o mais leve desapontamento. A primeira rendição parece tão completa, que nenhuma das partes pode admitir as reservas que ainda existem.
São ambos tão ternos que não podem admitir lia a qualquer intolerância em suas i

pessoas. Os ressentimentos acendem-se rapidamente em disputas de amantes. Há ira, afastamento e recuo para o retraimento anterior, que se torna, depois, intolerável.
impelindo-os de volta, mais necessitados do que antes, um aos braços do outro.

Eis aí a verdadeira anatomia do amor - simples e patente para os que sobreviveram a ela, mas complexa a penosa para os que, como Ninette e Landon, tinham ainda de
suportar a dissecação.

Não altercaram aquela noite, mas mostraram-se reservados um para com o outro. 0 ciúme que Nirtette sentia de Valéria Rienzí parecía a Landon mesquinho, infantil
e contraditório, pouco lisonjeiro para um homem que estava disposto a assinar um contrato de casamento à menor aquiescência por parte dela. Fora Nínette quem insistira
com ele para que restabelecesse sua aliança com Rienzí. Fora ela quem o persuadira de que aquela gente precisava de sua amizade. Se agora ela lamentava tal decisão,
não havia razão alguma pela qual ele devesse pagar por aquílo.

Quanto a ela, exigia renovada confiança, indulgência para com os seus caprichos. Precisava-a, como ocorre com as mulheres, de uma sociedade, na aparente insensatez
do jogo amoroso. Ressentia-se tanto dos gracejos como da áspera relutância de Landon.

Havia apenas um remédio: deixar tudo aquilo de lado, esquecer as palavras proferidas e entregar-se aos beijos. Mas ambos se afastaram dessa simplicidade. Estavam
receosos um do outro aquela noite. Diziam o contrário do que queriam, embora soubessem que a verdade estava a apenas um passo deles: a grande cama florentina, com
suas pesadas cortinas e suas antigas lembranças de outros amores. Nenhum deles era inocente quanto ao ardor; a nenhum deles faltava experiência ou incliriação, amorosa,
mas ambos sentiam, sem que pudessem dizê-lo com palavras, que a disciplina da continência lhes, Prometia mais do que a desenfreada rendição de outras ozasiões. Talvez
aquilo fosse urna insensatez. A vida---é breve demais para que a gente a desperdice em irritações estéreis. Mas tudo no amor é loucura, e separaram-se,' mal reconciliados,
cora a esperança de que as coisas melhorassem na manhã seguinte.

85
ÁS DEZ E TRINTA, na manhã seguinte, o Prof. Emílio Galuzzi teve uma entrevista privada com seu colega inglês. Havia uma mudança sutil em suas maneiras, como se,
sem testemunhas, ele estivesse disposto a revelar-se mais livremente a alguém que também pertencia à irmandade esotérica da medicina. Começou com uma apologia pessoal.

- O senhor concordará comigo, Dr. Landon, que somos ainda vs pioneiros de uma ciência inexata. Nossos métodos, são, não raro, lateantes e canhestros. Nossas definições
sO, às vezes, incorretas. TivCnIOS grandes mestres - Freud, Jung, AdIer e os demais mas sabemos que mesmo as suas pesquisas mais reveladoras foram, com freqüência,
tolhidas por 'uma adesão demasiado dogmática a hipóteses não provadas. Quanto a Inim, gostaria de dizer-lhe que sou um eclético. Gosto de reservar-me o direito de
escolha, quando um ou outro dos mestres parece indicar um caminho mais claro rumo à verdade. Pelo que li de seu trabalho, creio que o senhor adota uma atitude semelhante.

- É bastante certo o que O senhor acaba de dizer respondeu Landon, movendo a cabeça em sinal de assentimento. Penso que se pode afirmar que,
em todas as ciências, os grandes avanços no campo das descobertas foram feitos Por investigadores ous

erros serviram idos, cujos , no fim, para fazer surgir uma outra fração,de verdade. A ciência do espírito é ainda inexata,
mas já Percor

caminho, desde BedIam1 e as primitivas id remos longo éias de, Possessões diabóficas Ou loucura divina.

Bem
- disse Galuzzi, parecendo aliviado. - A partir deste Ponto, Podemos começar a cooperar. - Encolheu Os ombros e fez

Noziae de antigo manicômio londrino - N. do w
86

uni ligeiro gesto de enfado, - Tenho sido atormentado, com demasiada freqüência, por colegas que parecem pensar que têm em suas mãos a resposta para o derradeiro
enigma da mente humana. Não podemos permitir-nos tal arrogância. Não somos deuses nem adivinhos. De modo que ... passemos à nossa paciente, essa tal Anna Albertini.
Estive ontem várias horas em sua companhia. Gravei nossa entrevista - e gostaria que o senhor a ouvisse. Antes,, porém, desejaria esclarecer-lhe um ponto de direito
penal vigente em nosso país. Temos, como os senhores, o argumento normal de insanidade mental, cuja definição se aproxima bastante da que se emprega nos tribunais
britânicos. Temos outra alegação, definida de maneira menos clara, que se chama semi-infermi1à mentale, ou enfermidade mental parcial. Numa extremidade da baiança,
essa definição adquire um pouco o matiz daquilo que os americanos chamam "impulso incontrolável". Na outra, apóia-se na aceitação do princípio de que certos estados
mentais diminuem a responsabilidade legal do indivíduo, sem que a destrua por completo. Estou sendo claro?

- Admiravelmente claro - respondeu, com um sorriso, Landon. - Não me agradaria nada deparar com o senhor num tribunal, sem que tivesse a minha causa bem estudada.

- Rienzi deparará comigo - volveu, secamente, Galuzzi

e estou pensando que este será o terreno em que terei de colocar-me.
O senhor exclui inteiramente a insanidade mental?

Excluo - respondeu, de modo bastante enfático, Galuzzi.
- Quando o senhor vir a moça, penso que concordará comigo. Penso que, segundo todas as normas jurídicas, essa jovem é completamente sã. Não vejo sinais de mania,
esquizofrenia ou tendências paranóicas. Não há amnésia, nem sinais de histeria. Existe um certo choque residual, mas ela dorme calmamente, alimenta-se normalmente
e cuida de si com especial cuidado, parecendo aceitar sua situação com refletida resignação: Há trauma, certamente, associado à morte da mãe. Há também obsessão,
diminuída, mas não inteiramente eliminada pelo efeito catártico do ato de vingança. Seus graus e ramificações exigirao exploração muito mais longa.

E essas coisas constituem enfermidade mental, segundo a definiÇão italiana?

Galuzzi riu e abriu os braços com exuberância latina:

Ah! Chegamos, agora, ao âmago da questão! Estamos todos era dificuldade, quanto a este ponto. A definição não é clara. E, demasiado freqüentemente, o espírito jurídico
deste país reage com Muito vigor contra qualquer insinuação de que uma pessoa legalMente sã não é inteiramente responsável por suas ações. Quanto a este ponto, Dr.
Landon, o senhor sabe tão bem quanto eu que o

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progresso da ciência mental e a evolução do direito não marcham no mesmo passo. Não raro, é apenas uma questão de oratória forense fazer-se com que os jurados se
inclinem para uma decisão favorável. A justiça, com freqüência, sente-se tolhida ante a falta de uma definição no código. Eis urn'serviço que homens como nós podem
prestar à lei; tornar nossas descobertas tão claras, que elas não possam deixar de ser aceitas como uma base para a legislação futura. Mas, neste caso, temos de
aceitar a situação tal qual se apresenta. 0 melhor que podemos fazer é explorar a mente da acusada e determinar, da maneira mais clara possível, o limite de sua
responsabilidade criminal. Agora, antes que ouçamos a gravação. . . O senhor já viu essa moça?

- Ainda não. Rienzi avis!ou-se com ela e fez-me uma descrição bastante expressiva.

Eu não o censuraria muito por isso - respondeu Galuzzi, rindo entredentes. - Sou mais velho do que ele, mas confesso que também me senti curiosamente impressionado.
Ela é uma mulher de beleza bastante incomum, de um encanto quase de freira. Em San Gimignano eles as vestem como freiras ... bêbadas, ladras, praticantes de
abortos e as pequenas meretrizes que se vendem pelas esquinas. Mas esta tal Anna! Podia-se pintar uma auréola em torno de sua cabeça e colocá-la, numa igreja, sobre
um pedestal. Mas vamos ouvi-Ia.

Dirigiu-se à sua mesa, ligou o aparelho de gravação e poucos segundos depois, Landon estava mergulhado no diálogo. A voz de Galuzzi adquiriu o tom frio, informal,
do analista experimentado. A voz da jovem era agradavelmente estridente, mas distante e indiferente
- nem monótona, nem entediada, mas estranhamente dissociada, como a de um ator que falasse através de uma máscara grega.

Você compreende, Anna, que sou médico e que estou aqui para ajudá-la?

- Sim, compreendo.

- Díga-me: você dormiu a noite passada?
- Dormi muito bem, obrigada.

- E não estava com medo?

- Não. Estava muito cansada devido a todas as perguntas. Mas ninguém foi rude comigo. Não senti medo.

-Quantos anos tem você, Anna?
- Vinte e quatro.

- Durante quanto tempo esteve casada?
- Quatro anos.

- Em que espécie de casa vocês moram?
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- Não é casa. É apartamento. Não é muito grande, mas basta para Luigi e para mim.

- Que idade tem Luigi?
- Vinte e seis anos.

- Que é que fizeram depois que casaram?

- 0 que toda a gente faz. Eu cuidava da casa, fazia as compras e tratava de Luigi.

- Isso foi em Florença?
- Foi.

- Você tinha amigos em Florença?

- Luigi tinha companheiros de trabalho, além de sua família. Eu não conhecia ninguém lá.

- Não se sentia solitária?
- Não.

- Luigi tratava-a bem?

- Tratava. Costumava, às vezes, ficar zangado comigo, mas era bom para mim.

- Por que razão ele ficava zangado?

- Costumava dizer que eu não o amava como devia.
- E você o amava?

- No fundo, sim.

- No fundo? Como assim?

- Em meu íntimo. Em minha cabeça. Em meu coraçao

- E você disse isso a Luigi? deixasse de ficar
- Disse. Mas isso não fez com que ele

zangado.
- Por quê? ão bastava. Que as
- Porque ele costumava dizer que isso n r que se amavam. pessoas casadas faziam certas coi .sas para mostra

- Você sabe o que ele queria dizer?
- Oh, sei! queria fazê-las2
- Mas você não

- Não.

- Por que não?

- Porque pensava que ele poderia magoar-me.
- Que mais pensava você?

- Pensava em seu revólver.
- Fale-me desse revólver.

- Ele o levava para o trabalho todas as noites. Era essa a sua função. Ele tinha de guardar a fábrica durante a noite. Pela manhã, ao voltar para casa, punha-o
na gaveta da cômoda.

Você tinha medo da arma?

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- Somente quando sonhava com ela. Durante o dia, eu costumava tirá-la da gaveta e ficar com ela na mão a mirá-la. Era fria e dura.- Que. é que você sonhava a respeito
da arma?

- Que Luigi a estava empunhando e apontando-a para a minha mãe. Depois não era mais Luigi. Era uma outra pessoa. Eu não conseguia ver-lhe o rosto, mas sabia que
era Belloni. Eu procurava, então, chegar até ele, mas não o conseguia e acordava.

- Belloni era o homem que você matou?
- Exatamente.

- Por que razão você o matou?
- Porque ele fuzilou minha mãe.
- Fale a respeito disso, Anna.

- Eu prefiriria não falar. Isso já acabou. Belloni está morto.
- E você se sente assustada ao pensar nisso?

- Não. Apenas gostaria de não falar a respeito.

- Muito bem. Fale-me, então, a respeito de seu pai.

- Não me lembro de muita coisa acerca dele. Ele foi para o exército quando eu tinha cinco anos. Depois, soubemos que havia sido morto. Mamãe e eu choramos muito.
Depois ela se conformou. Levou-me para o seu quarto e passei a dormir com ela.

- Até que os alemães chegaram à aldeia?
- Não. Sempre.

- Quando os alemães lá estavam, você ainda dormia com ela?
- Sim. Ela costumava trancar a porta à noite.

- E onde era a escola que você freqüentou?
- Em San Stefano, com as freiras.

- E o que lhe ensinavam elas?

- A ler, escrever e fazer contas. E o catecismo.

- E no catecismo, Anna, não está escrito que não se deve matar?

- Está.

- Mas você matou Belloni. Não acha que cometeu um pecado?
- Creio que sim.

- E você não se importa?

- Jamais pensei nisso dessa maneira. Só sabia que precisava matá-lo, porque ele matou minha mãe.

- E você o sabia o tempo todo?
- Sabia.

- De que modo você o sabia?

- Sabia, apenas. Quando acordava pela manhã, quando preparava o jantar, quando lavava o assoalho ou ia fazer compras... Sabia o tempo todo.

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- Como foi que você decidiu matá-lo?
- Foi por causa da arma.

- Mas você me disse que a arma estava sempre lá. Luigi a levava para o trabalho e, de manhã, punha-a de novo na gaveta. Você me disse que costumava apanhá-la e que
ficava a mirá-la. Por que razão esperou todo esse tempo?

- Porque era diferente. Aquela manhã, Luigi não pÔs a arma na gaveta. Esvaziou os bolsos e deixou-a sobre o criado-mudo. Quando ele estava dormindo, eu a apanhei,
fui a San Stelano e matei Belloni... Por favor, não podemos parar um momento?

Certamente.

Galuzzi levantou-se e desligou o aparelho. Depois, voltou-se para Landon, que, sentado à escrivaninha, tomava notas no verso de um envelope.

- Bem, Dr. Landon, eis aí a primeira parte. Que é que pensa, até essa altura?

- Até essa altura, é um caso quase que classicamente simples. Choque e trauma causados pelas circunstâncias que envolveram a mprte de sua mãe; incapacidade infantil
para dominar a situação e um conseqüente bloqueio da função do ego; daí a obsessão, os pesadelos, a incapacidade sexual, a transferência de símbolos. - Encolheu
os ombros e sorriu. - Isso seria o mesmo que tirar-lhe as algemas, claro. Eu não deveria precipitar-me em minhas conclusões. Um ponto interessante é o vestígio de
consciência primitiva sob a camada de sua educação no convento: a violência deve ser reparada por meio de violência. ]É a tentativa arcaica no sentido de prócurar-se
dominar uma situação que se acha além dos meios de controle usuais. Vemos isso, ainda, na aceitação de um momento mágico, como o da descoberta da arma sobre a mesa,
como um motivo para o ato final de Vingança. Mas estou lendo suas conferências, professor. O senhor conhece tão bem tudo isso quanto eu.

Galuzzi fez um aceno *afirmativo com a cabeça e disse, com ar grave:

- Como o meu amigo bem o diz, trata-se quase de um caso de compêndio. Escavaremos mais profundamente, claro, e, mais cedo ou mais tarde, depararemos com a descrição
do que até agora nos é negado: o momento da morte da mãe da acusada. Não tenho dúvida de que descobriremos coisas muito mais complexas do que as que nos são reveladas
nesta nossa primeira discussão. Mas, mesmo que as nossas primeiras suposições sejam confirmadas, mesmo que

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Depois, mediante rápida reação, seu estado de espírito modificou-se, passando da irritação à inquietude. Que fossem todos eles para o diabo! Ele era ainda livre
- e já havia ultrapassado há muito a idade da aquiescência. Já havia gasto demasiado de si mesmo, merecia uma noite toda sua na cidade. E se uma jovem ou uma matrona
quisesse ser beijada, por que razão não satisfazer, ao mesmo tempo, a ela e a si próprio? Ocorreu-lhe a cômica idéia de que Ascolini provavelmente o aprovaria, de
todo o coração, naquele momento. Saiu da banheira, enxugou-se com viva satisfação, vestiu-se com extremo cuidado, e, depois, sentou-se junto ao telefone, a fim de
comunicar-se com Valéria Rienzi.

Após breve intervalo, ela atendeu, grata mas reservada:

- Peter? Foi amável de sua parte telefonar-me. Será que poderia reservar-me um pouco do seu tempo, esta noite?

- Posso, como não!

- Poderia convidar-me para jantar?

- Certamente. Onde nos encontraremos?

Ela disse-lhe que estava tomando coquetéis com uns amigos, na Via del Capitano. Sugeriu que ele a apanhasse às oito e meia; jantariam, depois, num restaurante próximo.
A Landon, agradou a idéia de que teriam, em seu primeiro encontro, companhia de outras pessoas
- de modo que aquiesceu, Valéria agradeceu-lhe com desconcertante cortesia e desligou.

Movido por vago impulso de culpa, tentou telefonar a Ninette, mas ninguém atendeu em seu atelier. Sentiu-se ressentido, achando, com masculina ingenuidade, que uma
pequena separação seria bom para ambos. Eram apenas sete e meia, de modo que, dispondo ainda de urna hora, resolveu cuidar um pouco de sua correspondência, um tanto
negligenciada.

Enquanto examinava a pilha de cartas, viu-se, de repente, tomado da agradável sensação de que estava agindo acertadamente. Era um sujeito sensato, que sabia aonde
se dirigia, um cidadão são, com crédito nos bancos, um profissional que prestava nobres serviços a seus semelhantes. 0 resto - com exceção de Ninette Lachaise não
passava de uma excursão pela província, um interlúdio pastoral que seria esquecido logo que terminasse.

Em dado momento, porém, sem qualquer advertência, sentiu-se mergulhar num desses estados de espírito em que o terror e o mistério da vida se tornam subitamente manifestos,
em que as ações mais triviais se revelam como coisas de conseqüência cósmica.

Entregara uma carta de apresentação em Roma e, agora, estava agindo, contra sua vontade, como um elemento catalítico num complicado drama de família. Deixara-se
seduzir por um advogado inexpe-
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riente, e deveria agora aconselhá-lo quanto ao destino de sua cliente. Jantara com uma desconhecida, como fizera antes milhares de vezes, e achava-se agora preso
a uma resolução de casamento, à promessa de filhos e à infindável cadeia da continuidade humana. Agora, deveria jantar com outra, imprudentemente, mas tendo plena
cásciência de que esse encontro poderia também iniciar uma nova cadeia de conseqüências.

Era uma experiencia curiosa, como estar a gente numa alta montanha, a olhar um vale inundado de trevas. 0 vale era vazio e mudo. A gente encontrava-se, só, sobre
um píncaro - uma criatura lançada, de parte alguma, para o alto, sem destino algum. De repente, urna luz perfurava a escuridão; depois outra, e mais outra. A Lua
erguia-se e o vale animava-se, subitamente, pelo homem e todas as suas obras - e a gente tinha, forçosamente, de descer a juntar-se à multidão, ou, então, morrer,
pela fria escolha do orgulho, vazio e nu.

Não era bom para o homem estar só. Mas havia um preço para a gente se unir à caravana dos peregrinos, e um dízimo a pagar em cada dia da jornada. Devia-se comer
com lágrimas o próprio pão e beber com gratidão o vinho aguado. Era preciso 'que a gente se resignasse a ser invejado e odiado e, também, amado. E se a caravana
não chegasse ao lugar prometido, a gente devia suportar, senão com alegria, pelo menos com resignação a estada no deserto. Eis aí o verdadeiro horror da condição
humana: os homens tinham de estar sujeitos uns aos outros numa servidão inelutável, onde a doença de um poderia converter-se numa epidemia para toda a comunidade,
e a culpa de uns poucos transformar-se em bode expiatório de todos. Um pequeno gesto de compaixão poderia converter-se numa grande afirmação, e uma injustiça insignificante
disseminar-se, até chegar a uma corrupção completa.

Reflexão nada confortadora para uma noite de verão na Toscana
- de modo que Landon a afastou de si e pôs-se a caminho, a fim de jantar com Valéria Rienzi.

Concedendo-se a esta dama aquilo que de direito lhe cabia, possuía ela singular encanto, e sabia proporcioná-lo generosamente quando o desejava. Lisonjeou Landon,
elogiando-o a seus amigos, mas não lhe deu tempo de enfadar-se em companhia deles. Deu-lhe, depois, a chave de seu automóvel e fez com que ele a conduzisse para
fora dos muros da velha cidade, a um restaurante campestre, onde jantaram debaixo de uma treliça coberta de parreiras e tomaram vinho feito no mesmo local. 0 vinho
era generoso, havia um trio de músicos sentimentais e, decorridos vinte minutos, Landon já se sentia mais descansado e menos cauteloso do que nos últimos dias.

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Também Valéria parecia grata por aquela ocasião e pÔs-se a gracejar com ele, bem-humorada:

- Parece, Peter, que você está começando a divertir-se: um pouco de drama, um pouco de comédia, um pouco de romance.
- Já era tempo, não lhe parece?

- Certamente. Mas, até esta noite, eu não teria sido capaz de dizê-lo. - Fez um biquinho com a boca e franziu a testa, com ar cômico. - Sempre que
falava com você, sentia-me como uma menina que se dirige a seu confessor.

- Mas não esta noite, espero - respondeu, rindo, Landon, estendendo-lhe a mão por sobre a mesa. - Vamos dançar e eu lhe farei minha confissão.

Disse-o frivolamente, mas ela, com a mesma presteza, apegou-se à sua palavra. E, enquanto dançavam, muito juntos e harmoniosos, ou sorviam o seu vinho à luz pálida
do abajur, ela puxava por ele, de modo que Landon se pÔs a falar, livremente, sobre si mesmo, sua família, sua carreira e a situação que produzira o seu afastamento
do cenário londrino. Valéria era boa ouvinte e, quando não estava representando o papel de coquete, revelava um calor e uma simplicidade que Landon jamais teria
acreditado que ela possuísse. Mais tarde, falaram de Carlo, e ela perguntou-lhe:

- Você ainda acha que ele está agindo certo, Peter?

- Acho que está agindo de um modo que é bom para ele. Embora possa lucrar com isso menos do que espera, acho que foi bom você e seu pai terem decidido
apoiá-lo.

Valéria lançou-lhe, de soslaio, um rápido olhar:

- Você julga que ele se importe, nesta altura, que nós o apoiemos ou não?

- Acho que se importa muito, embora talvez não o confessasse, com receio de parecer fraco.

- Você viu a sua cliente ... essa tal Anna Albertini?
- Vi. Tive urna longa sessão'com ela esta tarde.

- E que tal é ela?

- Jovem, bela ... e bastante desvalida, penso eu. Valéria lançou um risinho seco.

- Seria engraçado se Carlo se apaixonasse por ela. Advogados e médicos costumam apaixonar-se por suas clientes, não é verdade?
- Penso que Carlo está apaixonado por você, Valéria.

Ela abanou a cabeça.

- Não dessa maneira, Peter. Se eu fosse uma jovenzinha fátua e insignificante, talvez. Sei que ele pensa que é amor o que sente por mim, mas receio que essa não
seja a minha espécie de amor. E você, Peter, está apaixonado por Ninette Lachaise?

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Era um truque tão hábil como o de um prestidigitador. Urna sacudidela de um lenço de seda e um coelho branco surge de dentro de urna cartola vazia, enquanto o prestidigitador
sorri para o público ingênuo. E Landon, apanhado desprevenido, era tão inocente como as mariposas que adejavam em torno das luzes veladas. Furtou-se à pergunta:

- Não me apresse, Valéria. Como você disse, estou começando a divertir-me.

Ela estendeu o braço e deu-lhe umas palmadinhas na mão com aprovação de irmã.

- Isso é bom, Peter. Alegro-me por você. É sempre melhor quando se trata de uma mulher experimentada. Se não der certo, não haverá complicações, nem arrependimentos.
Dance de novo comigo. Depois temos de ir embora.

Depois disso, tudo foi demasiado fácil. A languidez da noite apoderou-se deles e, ao voltarem para Siena, Valéria cochilou, a cabeça apoiada em seu ombro, confortável
como uma gata. Ao chegarem à Pensione della Fontana, Landon convidou-a para um último drink. Ela aceitou, sonolenta. Mas, quando se fecharam no velho quarto, com
seu alto teto guarnecido de caixotões e suas sombras de antigos amores, o ardor os envolveu como uma onda, lançando-os, na escuridão e no tumulto de seu sangue,
sobre as cobertas revoltas da cama.

1 Já quase ao amanhecer, Landon despertou e viu-a sentada, completamente vestida, à beira do leito. Valéria tomou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-lhe os lábios.
Depois, sorriu - e seu sorriso era cheio da antiga sabedoria das mulheres.

- Sinto-me feliz agora, Peter. Eu o desejei primeiro, como você sabe, e agora você jamais poderá tornar a desprezar-me... Não, não diga nada. Foi bom para mim e,
penso, poderá ser bom também para você. Eu queria feri-lo bastante. Agora, não posso. Você ja não precisa mais temer-me. Carlo jamais saberá, nem Ninette.
Mas você e eu não esqueceremos. Boa noite, querido. Durma bem.

Tornou a beijá-lo - e deixou o quarto. Landon permaneceu desperto até o amanhecer, a procurar, no dicionário de sua profissão, as palavras que descrevessem o que
acontecera com ele.

Ele já tinha idade suficiente para não se deixar tomar de pânico, como um rapazinho, após seu primeiro lapso com uma mulher casada, mas era também, demasiado experiente
para deixar de encarar claramente as consequencias de seu ato. Havia culpa no que fizera: urna culpa pessoal, uma injustiça para com Ninette e outra ainda

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de anotações, sentado a uma mesa atulhada de livros. Tinha o rosto xancilento, OS Olhos de fadiga e prosseguia o seu trabalho à custa de conhaque e café forte -
uma mistura venenosa para um homem .á meio entorpecido pelas toxinas de seu próprio organismo. Quanto a Landon, também se sentia cansado, constrangido, num estado
de espírito nada animoso, de modo que resolveu participar do veneno. ,Serviu-se de uma xícara de café e de dois dedos de conhaque; depois, estendeu-se sobre a cama,
enquanto Rienzi falava.

- Estamos fazendo progressos, Peter. A coisa é lenta, mas, pelo menos, estamos seguindo na direção certa. Fui a Florença, como você sabe. Falei com Luigi Albertini.
É uma figura insignificante, mas foi bem industriado pela polícia. Não obstanfè., como você imaginou, abriu-se um tanto comigo, quando lhe perguntei porque sua esposa
era ainda virgem, após quatro anos de casamento. - Rienzi sorriu e imitou o dialeto das vielas de Florença: - "Ela não queria saber disso. Achava que eu iria magoá-la.
Levei-a a um médico, mas ele nada pôde fazer. Que é que um sujeito pode fazer com uma esposa assim?" Depois, fechou-se corno um inolusco em sua concha. Tive a impressão
de que ele estava ocultando alguma coisa, mas eu não dispunha de tempo para descobrir o que era. Queria, no entanto, que ele continuasse preocupado, de modo que
contratei um investigador particular para desenterrar mais alguma informação, a respeito dele. Ele me escreverá, se conseguir alguma coisa. .

- Você me disse, em seu telegrama, que ia a San Stefano. Conseguiu alguma coisa lá?

- Também já fiz algum progresso. Frei Bonifácio desejava ver-me. Um de seus penitentes o procurara, levado por uma crise de consciência. Não quis revelar-me o nome
desse indivíduo, mas, ao que parece, trata-se de alguém que esteve ligado a Belloni em seu tempo de guerrilheiro. Frei Bonifácio disse-lhe que ele tinha obrigagão
trioral de revelar o que quer que fosse que pudesse ajudar a moça.
0 homem respondeu que queria pensar um pouco a respeito. Se ele se decidir a falar, Frei Bonifácio entrará imediatamente em comunicação comigo. Procurei falar novamente
com o sargento Fioreflo, mas não consegui coisa alguma. Designei uni outro investigador particular para percorrer as aldeias e ver se descobre alguma coisa,acerca
das atividades de Belloni durante a guerra... Um homem como ele deve ter alguns inimigos. . . E, esta manhã, estive com Anna.

- Eu também a vi ontem - respondeu Landon.

- Eu sei. Ela me disse. Ficou muito grata a você e a Galuzzi, pela maneira delicada como a trataram.

100

- Ao que parece, ela se mostrou mais comunicativa com você do que conosco - comentou Landon sorrindo, enquanto sorvia o seu conhaque.

Rienzi aproximou-se e sentou-se à beira da cama.

Que é que você acha, Peter9 - indagou, ansioso. - Que é que Galuzzi pensa?

_ Exclua por completo a insanidade mental - respondeu, categórico, Landon. - Há sinais de trauma, obsessão e outros sintomas. Galuzzi deseja mais tempo para determinar
até que ponto sua condição diminui sua responsabilidade legal. Eu estou de acordo com ele.
- E isso é tudo?

- Que mais queria você?

Rienzi~pÔs-se a andar de um lado para outro pelo aposento, a passar a mão pelos cabelos e a falar em frases incisivas, apressadas:
- Estou procurando um ponto em que firmar o pé, Peter...

uma posição de onde possa lutar. Estou horrorizado com o que aconteceu a essa moça... muito mais do que com o que ela fez. Sabe como é que ela é? Como alguém que
tivesse vivido toda a sua vida num quarto, a olhar, através da janela, o mesmo jardinzinho. Sabe o que ela me disse ontem? "Agora posso amar. Agora posso fazer Luigi
feliz". Como é que ela poderia ter sabido o que estava fazendo? Ela é como alguém que descesse de um outro planeta!

- 0 tribunal terá urna outra opinião, Carlo - respondeu Landon, com ar sério. - É melhor que você tenha isso claramente em seu espírito. Ela sabia o que era uma
arma. Sabia o bastante para planejar uma viagem de trem e de táxi. Sabia que assassínio era uma questão de polícia. Compreendía suas conseqüências. Morava numa cidade
grande. Cuidava da casa para o seu marido. Tinha educação básica e vestia-se corno uma moça elegante. Não era maluca nem cretina, e aguardou dezesseis anos para
matar um homem. Não digo que isso seja toda a história ... sei que não é ... mas ai e que começa o trabalho do tribunal. E você sabe tão bem quanto eu que, atrás
disso tudo, existe uma questão de ordem pública e o receio de que qualquer gesto de clemência possa fazer reviver nas montanhas a prática da vendetta.

Foi este último pensamento que fez com que o ardor de Carlo arrefecesse mais rapidamente. Refletia um momento e, depois, respondeu, em voz baixa:

- Sei tudo o que você disse e ainda mais, Peter, mas existe algo que me perturba profundamente e que talvez nos proporcione um Ponto de partida para a defesa. Esse
assassínio foi premeditado durante dezesseis anos. Se isso é verdade, então Anna Albertini resolveu cometê-lo quando contava oito anos de idade, que não é uma idade

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de responsabilidade legal. A decisão foi tomada então, Peter, embora o ato tenha sido praticado em outra época. Que aconteceu durante esses dezesseis anos? Qual
era o estado da moça durante todo esse tempo? Qual foi o choque que a lançou a isso?

- Você está formulando, em outras palavras, as perguntas de Galuzzi e minhas.

- Nesse caso, a menos que vocês me dêem uma resposta, não se fará justiça.

Landon pôs de lado sua xícara de café e levantou~se da cama. E foi então sua vez de pôr-se a andar de um lado para outro pelo quarto, enquanto formulava mentalmente
sua resposta.

- A lei faz justiça por acaso, Carlo. Qualquer espécie de lei. Antes de mais nada, é um código de ordem pública, coibitivo, uma arma punitiva. A justiça acha-se
ainda nas mãos de Deus... e Ele leva muito tempo para proferir um veredicto!

- Talvez desta vez - disse Carlo Rienzi - possamos persuadi-lo a agir um pouco mais depressa. - Hesitou um instante e, depois, movido por súbita resolução, voltou-se
e fitou Landon face a face:
- Não tenho o direito de pedir-lhe isso, Peter. Nada posso oferecerlhe por seus serviços, exceto minha gratidão, mas quero que você fique em Siena e me ajude. Apesar
de Galuzzi - e contanto que eu possa fazer com que o tribunal o aprove - quero arrolá-lo entre as testemunhas da defesa!

- Como você quiser.

Landon disse isso de maneira tão casual, que sentiu como se houvesse traído a si próprio; mas não lhe restava mais animo para representar e, quando Carlo, surpreso,
o fitou boquiaberto e encantado, ajuntou, irritadamente:

- Pelo amor de Deus, homem! Você já sabia, o tempo todo, que minha resposta seria afirmativa! Não façamos um drama disto. E, com a mesma sinceridade, digo-lhe: não
espere milagres. 0 mais que posso oferecer-lhe é uma autoridade que contrabalance a de Galuzzi.

Rienzi riu, um riso amplo, infantil, de alívio e prazer.

- Há ainda um outro pormenor - retrucou Landon, carrancudo, ansioso por livrar-se do assunto. - Almocei com Ascolini, como você sabe. Ele quer ajudá-lo. Oferece-lhe
um milhão de liras e um maço de anotações por ele redigidas sobre a maneira de se conduzir este caso.

- Não posso aceitá-las - respondeu, com fria ênfase, Rienzi.
- Eu disse-lhe que você provavelmente não aceitaria, mas talve7 fosse uma boa idéia enviar-lhe um bilhete de agradecimento.

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- Eu o farei. - E acrescentou, em voz baixa: - Sabe de urna coisa, Peter? Neste momento, sinto-me capaz de ser mais delicado com Valéria e com o pai do que jamais
o fui antes. E sabe por quê? Porque o tenho como meu amigo e porque existe alguém que precisa mais de mim do que eles: Anna Albertini. Subitamente, surge em minha
vida algo a que me dedicar, uma causa pela qual me preocupar... e isso me torna muito feliz.

Feliz? Para Landon, ele mais parecia um homem que, no patíbulo, fizesse um gracejo forçado, enquanto lhe ajustavam a corda ao pescoço. Mas que podia ele dizer? Quando
se dormiu com a esposa de um homem, acaso pode a gente roubar-lhe também as ilusões? Aquele era o trago mais amargo que Landon jamais engolira em sua vida. Bebeu-o
com um sorriso, mas seu gosto acre permaneceu-lhe na língua, hora após hora, dia após dia, até que Anna Albertini foi levada a julgamento.

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A ABERTURA de um julgamento criminal constitui ocasião estranhamente teatral. A tradição e o instinto do público exigem não apenas que a justiça pareça ter sido
feita, mas também, que sua aplicação proporcione um divertimento dramático: uma expiação, mediante piedade e terror, das paixões despertadas pelo ato criminoso.

Há quem afirme que a maneira de proceder de um tribunal britânico apresenta melhores qualidades teatrais que dos tribunais continentais europeus; mas é bom que nenhum
delinqüente incauto subestime qualquer uma delas. A tradição britânica deriva diretamente do antigo sistema germânico de julgamento por combate. 0 tribunal é um
lugar de peleja e disputa, tendo por. árbitro um juiz e um júri. Tanto a acusa.cão como a defesa apresentam suas provas mediante inquirição e reinquirição de testemunhas.
Disputam o fato e sua interpretação. Empenham-se em combates verbais, como cavaleiros nas antigas liças.

0 modo latino, por contraste, é o de inquisição, baseado no direito romano e modificado pelo método dos canonistas. Consiste de inquérito preliminar conduzido por
uma autoridade e baseado em todas as provas disponíveis, que é depois resumido a apresentado, em forma de processo, ao tribunal, que ouve o caso segundo os méritos
do mesmo. 0 réu não se declara culpado ou inocente. Não há disputa, mas simplesmente uma revelação pública de fatos, uma causa, baseada em fatos, e apresentada tanto
pela defesa como pela acusação e, depois, uma decisão - não um veredicto - proferida pelo magistrado que preside ao julgamento e baseada nos votos de cinco juízes:
dois em nome do judiciário e três representando o povo.

Para um indivíduo criado dentro da tradição britânica, há sempre algo ligeiramente sinistro no método inquisitorial, já que o mesmo parece negar o princípio firmado
de que o ônus da prova recai sem-

pre sobre a Coroa, e que um homem é inocente enquanto não se provar a sua culpa. 0 método latino pressupõe, senão de fato, pelo menos na prática, que a verdade se
encontra no fundo de um poço profundo, e que o acusado é culpado, até que a inquirição possua fatos suficientes para provar que o mesmo é inocente. No fim, dirse-ia
que a justiça é mal servida, tanto num método como no outro.

Todo tribunal tem aspecto um tanto ou quanto teatral. Há um palco em que os personagens representam os rituais de revelação, conflito e resolução. Há uma montagem
simbólica: as armas da república acima do estrado dos juízes, a cadeira entalhada em que se senta o magistrado que preside ao julgamento, acima dos juízes assistentes,
a divisão que os separa dos funcionários do tribunal. Há os lugares reservados aos espectadores, que devem portar-se com decoro, ao manifestarem seus sentimentos
a favor dos atores que se acham em cena. Há uma galeria para os críticos e comentaristas de imprensa. Os personagens principais usam costumes característicos. Os
gestos são estilizados. 0 diálogo é formal e tradicional, de modo que, como em todos os teatros, a realidade é revelada através da irrealidade, e a verdade exposta
mediante uma ficção de autores de pantomima.

Landon e Ninette chegaram cedo, mas já encontraram a antecamara repleta de gente: repórteres, fotógrafos, testemunhas, espectadores, funcionários assediados por
jornalistas, todos a falar ao mesmo tempo, todos a representar o seu próprio papel de artistas de praça pública, antes que o programa oficial começasse.

0 velho Ascolini abriu caminho por entre o público, a fim de cumprimentá-los. Parecia cansado, pensou Landon. Tinha o rosto menos rosado, a pele menos clara, como
se seu espírito vigoroso ardesse através dos tecidos de seu corpo; mas saudou-os com o humor vivaz de sempre:

- Então os pombinhos, finalmente, se mostraram em público! Permita-me que eu a admire, minha cara jovem. õtimo! Então o amor, até agora, continua sendo um agradável
passatempo, hein? Talvez você possa logo terminar o meu retrato. E o senhor, Dr. Landon? Então vai ser a testemunha especializada, hein? O senhor é um homem obstinado,
pois não? Sua atitude nos surpreendeu, principalmente a Valéria, creio eu!

- Ela se encontra hoje aqui? A pergunta foi feita por Ninette.

- Está ali adiante, sentada, soturnamente, a um canto. Tenho estado muito pouco com ela, durante estas últimas semanas. Tem lá suas proprias complicações, penso
eu. E receio que não possa chegar-me a ela.

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Era um assunto delicado. Landon procurou mudar de assunto.
- Como está Carlo, esta manhã?

- Sentindo a tensão - respondeu Ascolini, lançando-lhe, de viés, um olhar sardônico. - O senhor deveria saber melhor do que eu, Sr. Landon. Tem trabalhado com ele.

Landon preferiu ignorar a aguilhoada e perguntar, tranqüilamente:

- Que é que acha do julgamento, doutor? Ascolini estendeu as mãos, num gesto triste:

- 0 que eu esperava. Clima hostil e um vago rumor de surpresas. Carlo falou-me um pouco a respeito. Mas se o senhor dispuser de algum tempo livre, Dr. Landon, eu
gostaria de tomar um copo de vinho em sua companhia e na de Ninette.

- Quando quiser, dottore - respondeu Ninette, com um sorriso. - Basta bater à minha porta.

- com dois jovens namorados, o melhor, em geral, é a gente telefonar primeiro. Mas eu os procurarei.

Houve uma agitação entre a multidão, quando a porta se abriu, e eles se viram impelidos, a contragosto, para a sala do tribunal. Demorou dez minutos para que
o populacho fosse dominado, convertendo-se numa platéia murmurejante; depois os atores começaram a entrar no palco.

Primeiro surgiu o promotor público, que conduziria a acusação um indivíduo alto, cara de ave de rapina, cabelos grisalhos, metálicos. Ocupou o seu lugar numa mesa
situada à direita do estrado destinado aos juizes e pôs-se a discutir, em voz baixa, com seus assistentes. Em seguida, entraram o juiz auxiliar da vara e o escrivão
do júri, criaturas frias, ligeiramente pomposas, que se sentaram a uma mesa próxima ao banco dos réus, no outro lado da sala, de frente para o promotor.

Logo depois, entrou Carlo Rienzi, acompanhado de dois colegas de meia-idade, de aspecto modesto, instalando-se numa mesa defronte à tribuna dos juízes. Carlo envelhecera
muito nas últimas semanas. Estava muitíssimo mais magro. Suas roupas pendiam-lhe, folgadas, dos ombros magros. Tinha o rosto chupado e amarelo. Havia rugas profundas
em torno de sua boca e de seus olhos. Em sua beca negra, de peitilho engomado, tinha o aspecto de um monge torturado por sua consciência e por suas práticas ascéticas.

Ninette tocou no braço de Landon e murmurou:

- Precisamos cuidar dele, Peter. Ele parece terrivelmente só. Landon aquiesceu, distraidamente, com um movimento de cabeça. Ela não o dissera com tal intenção, mas
aquilo pareceu a Landon uma viva advertência de que, mesmo depois de várias se-
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manas de trabalho em comum, ele ainda estava em débito para com Rienzi,

Súbito, uma exclamação abafada o um murmúrio de vozes encheram a sala, quando Anna Albertini entrou e foi conduzida ao lugar destinado aos réus, 0 escrivão do júri
impós rapidamente siléncio, mas a jovem não deu mostras de haver ouvido coisa alguma. Perma. neceu im6vel, as mãos a agarrar o anteparo de metal do comparti. mento,
cabisbaixa, o rosto exangue, mas ainda assim belo, sob a luz áspera e amarelada da sala.

Finalmente, foi chamada a atenção do tribunal para a entrada dos juízes e do presidente, e a multidão manteve-se de pé, em siléncio, até que eles se sentassem à
tribuna e dispusessem seus papéis sobre a mesa.

0 presidente era uma figura imponente - um homem alto, um tanto curvado, de cabelos brancos e um rosto velho e inteligente, no qual a compreensão e a majestade impessoal
da lei pareciam constantemente em guerra entre si. Franziu o sobrolho, ante o burburinho da multidão, e sentou-se, sem fazer qualquer comentário. 0 juiz auxiliar
da vara, então, adiantou-se e anunciou:

- Se assim aprouver ao Presidente e aos membros do tribunal, a República denuncia Anna Albertini. Acusação: assassínio preme. ditado.

Landon sentiu que Ninette lhe apertava o braço. Experimentou ligeira sensação de frio na boca do estômago. Os manguais da lei começavam a bater sobre a eira, e não
cessariam de fazê-lo até que as alimpaduras tivessem sido joeiradas e os últimos grãos da verdade tivessem sido empilhados para o moinho.

As primeiras palavras do presidente foram dirigidas à jovem que se achava no compartimento dos réus:

- A ser-hora é Anna Albertini, nascida Anna Moschetti na aldeia de San Stefano e residente, ultimamente, em Florença?

A resposta foi firme, positiva, neutra: Sou.

Anna Albertini, a senhora é acusada do assassínio voluntário e premeditado de Giaribattista Belloni, prefeito de San Stefano, ocorrido no dia 14 de agosto deste
ano. Tem defensor particular ou requer a assistência de um advogado público?

Carlo Rienzi levantou-se e fez a comunicação de praxe:

A acusada acha-se representada, senhor Presidente ... Carlo Rienzi, advogado.

Sentou-se, enquanto o presidente se debruçava por um momento sobre os papéis que tinha à sua frente. Depois, dirigiu-se de novo à acusada:

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- Segundo consta do libelo acusatório que aqui tenho, a senhora, Anna Albertini, chegou de táxi a San Stefano, ao meio-dia da data já citada, Dirigiu-se à casa do
prefeito e disse que desejava vê-lo. Convidada a entrar, recusou e aguardou à porta. Quando o prefeito apareceu, a senhora o alvejou cinco vezes e encaminhou-se
à delegacia de polícia, onde entregou a arma, foi detida e, mais tarde, acusada. A senhora fez uma declaração: "Ele fuzilou minha mãe durante a guerra. Prometi que
o matária. E o fiz." Deseja agora retirar ou impugnar esta declaração?

Carlo Rienzi respondeu por ela:

- Não desejamos retirar nem impugnar a declaração feita pela acusada. Alegra-nos que ela tenha sido feita espontaneamente, sem coerção.

0 presidente, franzindo o sobrolho, olhou-o intrigado.

- 0 advogado da defesa já leu o depoimento da acusada?
- Já, senhor Presidente. 11

- E percebe claramente o seu cará'ter incriminatório?

- Perfeitamente, senhor Presidente. Mas, a bem da justiça, solicitamos que essa declaração seja lida à luz de provas que ainda deverão ser apresentadas a esta
corte.

- Concedida a solicitação. Meus colegas e eu levaremos isso em conta no devido tempo. - Voltou-se para o promotor: - 0 Ministério Público pode iniciar a acusação.

0 sujeito alto, com ar de ave de rapina, levantou-se e disse, de maneira bastante suave:

- Sr. Presidente, membros do júri. Os acontecimentos referentes a este crime são tão simples, tão claros e brutais, que não exigem de minha parte recurso algum
oratório para que vós os condeneis. com permissão do Sr. Presidente, proponho-me simplesmente apresentar as minhas testemunhas.

- Permissão concedida.

A primeira testemunha foi o corpulento sargento Fiorello. Apesar de sua fisionomia rude, de seu sotaque de homem do campo, fez muito boa figura no banco das testemunhas.
Suas respostas foram concisas, sua narrativa fluente. Identificou~se como sendo Enzo Fiorello, sargento a serviço da Segurança Pública. Estava havia já vinte e cinco
anos em San Stefano, sendo agora o encarregado da delegacía de polícia. Identificou a acusada e a arma que ela usara. Descreveu as circunstâncias em que fora cometido
o crime e o que se passou depois com a criminosa, merecendo uma palavra elogiosa do presidente pela maneira com que soube enfrentar a situação. Foi elogiado, ainda,pela
habilidade e moderação com que interrogou a acusada e pela presteza com que suprimiu qualquer desordem na ]os

aldeia. Quando o promotor acabou de interrogá-lo, ergueu-se como se fosse um Hampden. local - um campeão da ordem pública, mas, ao mesmo tempo, simpático guardião
de seu povo.

Carlo, então, causou sua primeira e pequena surpresa. Declinou de examinar a testemunha, mas solicitou que a mesma fosse chamada de novo, mais tarde, a fim de ser
interrogada pela defesa. 0 presidente ergueu o sobrolho, com ar de dúvida.

- É um pedido pouco comum, Dr. Rienzi. Acho que o mesmo deve ser justificado perante o tribunal.

- Trata-se de uma questão de clareza em nossa apresentação, Sr. Presidente. Propomo-nos obter certas informações de testemunhas que serão chamadas posteriormente,
e precisaremos, depois, reinterrogar o sargento Fiorello. Se o interrogarmos agora, as perguntas serão irrelevantes. - Voltou-se, com ligeira curvatura, para o promotor:
- Neste momento, estamos nas mãos do representante do Ministério Público, e devemos acompanhar a seqUéncia de testemunhas.

Os jgízes trocaram algumas palavras em voz baixa e, em seguida, o presidente aquiesceu, Rienzi agradeceu-lhe e sentou-se.

Landon lançou um olhar através da sala, para ver que impressão tal tática causara a Ascolini, mas seu rosto estava oculto, de modo que só Conseguiu ver o perfil
sereno e clássico de Valéria.

Era difícil ver-se qualquer maldade em seus olhos, como também o era perceber-se qualquer sentimento mau no rosto pálido e virginal da jovem que se achava no compartimento
dos réus. Landon lembrou-se da lenda japonesa daquelas belas mulheres mascaradas que, mediante magia diabólica, se transformavam em mariposas, em noites de lua cheia.
Não obstante, ela mantivera sua palavra. Era possível que Ninette houvesse suspeitado de algo, mas Valéria nada lhe dissera. Quando, nas últimas semanas, ele a
encontrava em presença de Carlo, ela se mantinha discreta. Somente uma vez, deparando com ele numa sala vazia, Valéria lhe desmanchara o cabelo e dissera:

- Sinto falta de você, Peter. Por que será que as criaturas como eu sempre escolhem as pessoas erradas?

Quanto ao resto, Landon confiava nela e via-se forçado a um respeito relutante,

Agora, uma nova testemunha era conduzida ao banco dos depoentes: Maria Belloni, esposa do morto, a matrona corpulenta que saíra à porta da casa do prefeito e atendera
Anna Albertini. Em seu vestido de luto, ela parecia, agora, encolhida e velha, como se mal pudesse suportar o fardo da solidão e do sofrimento, Após prestar juramento,
o promotor aproximou-se dela, delicado como um

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agente funerário. Sua bela voz proferia as palavras como se ele estivesse a recitar um salmo:

Signora Belloni, compartilhamos de sua dor. Lamentamos -se ao sofrimento de um novo interroque a senhora tenha de expor -se e responder
gat6rio, mas desejo que a senhora procure dominar

às perguntas do Sr. Presidente.
- Eu. . . eu tentarei.

- A senhora é uma mulher corajosa. Obrigado.

Ficou perto da depoente, enquanto o presidente fazia as perguntas de praxe:

- Seu nome é Maria Alessandra Belloni e a senhora é a esposa do extinto?

- Sou.

- 0 tribunal gostaria de ouvir, em suas próprias palavras o que aco ,nteceu pouco antes de seu marido ter sido morto.

Durante um momento, dir-se-ia que ela iria sucumbir por completo. Depois, dominou-se e começou a depor, a princípio hesitantemente e, depois, num tom crescente
de ardor e histeria:

- Estávamos sentados à mesa, como sempre ... meu marido, os meninos e eu. Havia vinho, pasta e um risota especial. Era uma festa... o aniversário de meu marido.
Estávamos todos muito felizes, como uma família deve estar. De repente, ouvimos uni toque de campainha. Fui ver quem era. Essa aí estava lá na porta. - Lançou um
dedo acusador em direção de Anna Albertini. - Disse-me que queria falar com o meu marido. Parecia tão modesta e solitária, que pensei em fazer-lhe uma caridade.
Convidel-a para comer conosco. Ela respondeu que não.. . que era um assunto particular. Eu ... eu voltei e chamei meu marido. Ele levantou-se da mesa, Tinha ainda
o guardanapo em torno do pescoço e um poco de molho no canto da boca ... Lembro-me ... lembro-me de que ainda tinha um pouco de molho no canto da boca. Ele foi atender...
Ouvimos, então. --os tiros. Corremos todos e ele estava estendido junto à porta, com o peito todo cheio de sangue. Ela o matou! - As palavras foram proferidas num
grito violento. - Ela o matou como a um animal!

0 grito extinguiu-se e ela afundou o rosto nas mãos, soluçando. Landon lançou um olhar a Anna Albertini. A jovem tinha os olhos fechados e vacilava em seus pés,
como se fosse desmaiar. Rienzi pÔs-se imediatamente de pé, protestando, com voz estridente:

- Sr. Presidente! Minha cliente se acha sob grande tensão. Devo pedir-lhe sejam dados uma cadeira e um copo d'água.

0 presidente aquiesceu:

- Que a acusada permaneça sentada durante os depoimentos. Dêem-lhe de beber.

]]o

Um dos guardas retirou-se e trouxe uma cadeira. 0 escrivão do júri ofereceu-lhe um copo d'água de sua própria mesa, A acusada bebeu, de bom grado, e sentou-se. Enquanto
isso, o promotor permaneceu perto de Maria Belloni, consolando-a com sua experimentada amabilidade. Demorou uns três minutos para que o presidente pudesse prosseguir
seu interrogatório.

Signora Belloni... A senhora já vira alguma vez a acusada, antes de ela chegar à sua casa?

- Não a via desde que ela era menina, durante a guerra.
- E a senhora a reconheceu?

- No momento, não. Só depois.

- Sabe por que ela matou o seu marido?
- Porque ele cumpriu o seu dever.

- Quer explicar isso, por favor?

- Durante a guerra, meu marido era o chefe dos guerrilheiros nesta região. Tinha muitas vidas em suas mãos, muitas vidas. Havia também traidores, que vendiam informações
aos alemães e aos facisti. A mãe dessa moça era um deles. Por causa dela, muitos de riossos rapazes foram capturados, torturados e mortos. Daí ter sido ela presa.
Houve um julgamento e ela foi condenada à morte. Meu marido presidiu ao julgamento e, mais tarde, à execução. Estávamos em tempo de guerra. Ele tinha de proteger
os seus homens ... e suas mulheres também. - Súbito, suas idéias começaram a tornar-se vagas e dissociadas, como se ela estivesse se afastando da realidade do tribunal
e mergulhando num mundo íntimo, de sofrimento e terror. - Mas isso faz muito tempo, já acabou ... como muitas outras coisas que aconteceram durante a guerra. E,
de repente... isto acontece ... É tudo completamente maluco, como um pesadelo. Vivo pensando que you despertar e encontrar o meu marido a meu lado. Mas ele não vem...
ele não vem!

A voz extinguiu-se num som esganiçado e ela se. pôs a chorar baixinho - um choro entrecortado de soluços. Um sussurro de piedade percorreu o tribunal, como uma lufada
de vento que soprasse sobre um trigal, mas o presidente impôs imediatamente silêncio.

- Deseja a defesa fazer qualquer pergunta a esta testemunha? indagou o magistrado.

- Temos três perguntas a fazer, Sr. Presidente. Eis a primeira: de que modo soube a Signora Belloní das acusações feitas à mãe de Anna Albertini, e como teve conhecimento
do julgamento e da execução?

- Queira responder a essa pergunta.

Maria Belloni ergueu a cabeça e fitou, com ar vago, a tribuna.
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- Meu marido me contou, claro, bem como os outros que estiveram lá. De que outro modo poderia eu saber? Eu tinha de olhar os meus filhos, de cuidar da casa.

- Obrigado. E a pergunta seguinte, Dr. Rienzi?

- com a permissão do Sr. Presidente, gostaria de fazê-la diretamente à testemunha.

- Permissão concedida.

Rienzi levantou-se e dirigiu-se lentamente ao banco das testemunhas. Suas maneiras estavam à altura das do promotor, quanto à brandura e comiseração.

- Signora Belloni, seu marido era um bom marido? A resposta veio rápida, amarga:

- bom marido! bom pai! Ele nos amava... cuidava de nós. Mesmo,nos piores dias, tivemos sempre alimento, agasalho. Ele nunca fez mal a ninguém. 0 Presidente da República
enviou-lhe uma medalha de ouro e o chamou de herói. Eis aí que espécie de homem era ele! E, de repente, ela apareceu e o matou como um cão!

Rienzi aguardou um momento, até que ela se acalmasse, e, depois, indagou, com enganosa brandura:

- E seu marido foi-lhe sempre fiel?
0 promotor pÔs-se de pé de um salto:
- Sr. Presidente, protesto! O--presidente abanou a cabeça:

- Julgamos a pergunta relevante, segundo o sumário que aqui temos. Pedimos à testemunha que a responda.

- Repito a pergunta, signora - disse, pacientemente, Rienzi. Seu marido foi-lhe sempre fiel?

- Claro que foi! Uma mulher sempre sabe disso, não sabe? Ele era bom marido e um bom pai. Não havia ninguém mais.

- Obrigado, signora. É só o que eu desejava saber.

Quanto a Landon, não percebia, de modo algum, que importância poderia ter tal pergunta. 0 público presente também não via nela drama algum. Landon sentia, vagamente
decepcionado, que Carlo estava se lançando, de maneira canhestra, contra testemunhos incontestáveis.

Enquanto Maria Belloni deixava o banco das testemunhas, houve uma consulta, em voz baixa, entre o presidente e os outros juízes. Depois, o presidente dirigiu-se
ao promotor:

- Meus colegas observam, com toda a razão, que, dados os depoimentos das testemunhas até agora oividas e tendo-se ainda em conta a declaração assinada da acusada,
não têm eles dúvida alguma quanto ao fato e as circunstâncias materiais referentes ao assassínio de Giaribattista Belloni. Ressaltam, porém, que a segunda parte
da

acusação, pelo representante do Ministério Público, deve prosseguir ... isto é, a de que o crime foi cometido voluntária e premeditadamente.

0 promotor de rosto de ave de rapina sorriu. Podia dar-se ao luxo de ser indulgente diante de uma causa inequívoca e já quase provada. Respondeu, brandamente:

- Já estabelecemos o fato e o motivo, Sr. Presidente. Somos de opinião que a premeditação será provada pelo depoimento de nossas próximas testemunhas. A -,-rimeira
delas é Giorgio Belloni, filho do morto.

Giorgio Belloni era um jovem magro, de rosto comprido, mãos nervosas e estridente sotaque rural. Seu depoimento foi simples e comprometedor. Defrontara-se duas vezes
com Anna Albertini: a primeira vez no d;-t do crime e, depois, durante um interrogatório preliminar. Tinham sido, na infância, colegas de escola, e ele a reconhecera
instantaneamente. Nessas d-as ocasiões, insistira com ela para que lhe dissesse por que razão matara o seu pai e, nas duas vezes, ela lhe dera, diante de testemunhas,
a mesma resposta: "Nada tenho contra você, Giorgio; somente contra ele. Tive de esperar muito tempo, mas agora a coisa está terminada."

Quando Rienzi declinou de contestar tal depoimento ou de interrogar a testemunha, o presidente franziu o sobrolho e os juízes voltaram-se uns para os outros, sussurrando
entre si. Ninette voltou-se para Peter e indagou, ansiosa:

- Que é que ele está fazendo, Peter? Como é que poderá lutar, agora?

- Dê-lhe tempo, querida. Este é apenas o primeiro round. Olhe o Dr. Ascolini.

Landon lançou um olhar através da sala e viu o velho inclinado para a frente, a cabeça apoiada nas mãos, enquanto Valéria permanecia ereta a seu lado, um sorrisinho
irônico nos láb;os. 0 promotor anunciou, com melíflua satisfação, sua próxima testemunha:
- Luigi Albertini, marido da acusada.

Todas as cabeças se voltaram e Anna lançou um grito abafado:
- Não, Luigi... não!

Era o primeiro sinal de emoção por ela revelado desde que começara o julgamento. Olhou-o fixamente, levando à boca o lenço amarfanhado, dando a impressão, durante
um momento, de que queria sair do compartimento dos réus e correr para junto do jovem pálido, bem parecido, que estava sendo conduzido ao banco das testemunhas.
Um dos guardas, então pousou a mão sobre seu ombro e ela se sentou, de i,,)vo, hirta, fechando os olhos como se não quisesse presenciar um

112

113
horror iminente. 0 jovem prestou juramento e o presidente interrogou-o com voz neutra:

- Seu nome é Luigi Albertini e o senhor é marido da acusada?
- Sou.

A resposta foi quase inaudível e o presidente o admoestou, áspero:

- Esta é uma ocasião penosa, jovem, mas o senhor está aqui para ser ouvido pelo tribunal. Queira falar mais alto. Há quanto tempo estão casados?

- Quatro anos.

- Viveu com sua esposa durante todo esse, tempo9
- Sim, senhor.

- Qual é sua ocupação?

- Sou vigia noturno da Tecelagem £lena, em Florença.
- Quais são as suas horas de trabalho?

- Das nove da noite às seis da manhã.

- No decurso de seu trabalho o senhor usa arma?
- Uso.

A um sinal do presidente, o escrivão aproximou-se do banco das testemunhas e apresentou a arma.

- Reconhece esta arma? - tornou a perguntar o presidente.
- Reconheço. ]É minha.

- Quando foi que a viu pela última vez?

- Quando cheguei do trabalho, na manhã do dia quatorze de agosto. Eu a coloquei sobre o criado-mudo. Costumava guardá-la na gaveta da côntoda, mas, essa vez, eu
estava cansado e me esqueci.
- A arma estava carregada?

- Sim, senhor.

- Que é que o senhor faz, habitualmente, quando chega do trabalho?

- Como alguma coisa e deito-me.

- E fez isso, na manhã do dia quatorze de agosto?
- Fiz.

- E a que horas acordou?
- As três da tarde.

- Sua esposa estava em casa?
- Não.

- Onde se achava ela?

- Eu não sabia. Deixou-me um bilhete, dizendo que eu não me preocupasse com ela, pois que estaria de volta dentro de dois dias. - Quando deu pela falta de sua
arma?

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- Quando a polícia me trouxe para Siena, a fim de ver minha esposa.

- Obrigado,

0 presidente olhou, com ar interrogativo, para Rienzi. Rienzi levantou-se, lentamente, e disse:

- Ainda uma vez, Sr. Presidente, devo pedir a indulgência do tribunal. A defesa gostaria de interrogar mais tarde essa testemunha.
0 presidente franziu a testa e respondeu, seco:

- Eu lembraria à defesa que a decisão da corte será dada à luz dos fatos contidos no processo e interpretados segundo as provas. Sugeriria, vivamente, que a defesa
não confiasse em manobras táticas.

- com o devido respeito, Sr. Presidente - respondeu com firmeza, Rienzí - devo lembrar que esta corte existe para ministrar a justiça e que seria lamentável que
isso não pudesse ser feito devido a procedimentos demasiado rígidos.

Mesmo para os observadores inexperientes, foi esse um gesto arriscado. Os juízes assistentes levantaram a cabeça, com ar de desagrado, e, depois, voltaram-se de
novo para o presidente, a fim de ver como deviam agir. 0 velho magistrado permaneceu uni momento em silêncio, a mexer em sua caneta. Finaintente, franziu a testa
e respondeu:

- Em vista da dúbia situação da defesa, sentimo-nos inclinados a aquiescer ao pedido. A testemunha está dispensada, mas tornará a ser chamada mais tarde.

- Obrigado, Sr. Presidente.

Rienzi sentou-se e o promotor público pôs-se de pé, com ar de tranqüilo triunfo.

- com a devida permissão do Sr. Presidente e dos demais membros desta corte de justiça, a Promotoria Pública é de opinião que, mesmo sem qualquer novo testemunho,
não só o crime como a premeditação já se acham provados. Contudo, a fim de anteciparme a quaisquer argumentos que possam vir a ser apresentados pela defesa, baseados
em insanidade ou incapacidade mental, gostaria de chamar a minha última testemunhà, o Prof. Emílio Galuzzi.

0 Prof. Galuzzi encaminhou-se, imponente, para o banco das testemunhas. Falou lenta e pedantemente, mas não havia dúvida alguma quanto à sua autoridade ou competência.
com aquiescência do presidente, o próprio promotor o interrogou:

Prof. Galuzzi, quais são suas funções oficiais?

Sou professor catedrático de Medicina Psiquiátrica na Universidade de Siena. Diretor da Clínica Psiquiátrica do Hospital Santa Catarina, desta cidade. Sou Conselheiro
do Departamento de Higiene Mental e Psicologia Criminal do Departamento de Justiça.

lis
- 0 professor examinou a acusada Anna Albertini?

- Examinei. De acordo com instruções do juiz auxiliar da vara, submeti a acusada a uma série de exames médicos e psiquiátricos.
- Poderia fazer a fineza de relatar sua opinião ao tribunal?
- Não encontrei sinal algum de enfermidade física ou quais-

quer sintomas de histeria. Há indícios de choque residual, roas isso está em consonância com a reação normal após um crime desta natureza e com os processos de detenção,
encarceramento e interrogatório a que a acusada foi submetida. Notei, no entanto, acentuados indícios de trauma psíquico, relacionado diretamente com as circunstâncias
referentes à morte de sua mãe. Isso se revelou através dos sintomas clássicos de obsessão, incapacidade emocional e perversão aparente do senso moral com respeito
ao crime.

- O senhor diria, professor, que a acusada era, no sentido legal, uma pessoa sã?

- Perfeitamente.

- Concorda, pois, em que ela se acha apta a ser julgada por esta corte?

- Concordo.

- Ainda no sentido moral, professor, a acusada é, na sua opinião, uma pessoa responsável?

- O senhor está me pedindo para que repita o que já disse
- respondeu, com suavidade, Galuzzi. - Sanidade legal implica responsabilidade legal.

0 promotor aceitou a censura com uni leve sorriso.

- Tenho ainda uma pergunta a fazer~lhe. Na sua opinião, e segundo o mesmo sentido legal, era Anna Albertini uma pessoa responsável no momento em que
praticou o crime?

- Sim, eu diri 'a que sim.

- Isso é o bastante. Muito obrigado. Carlo Rienzi levantou-se.

- com permissão do Sr. Presidente, gostaria de fazer algumas perguntas à testemunha.

0 presidente consultou o relógio, que marcava cinco minutos para o meio-dia, e respondeu, de mau humor:

- Este tribunal acolherá de bom grado qualquer manifestação de atividade por parte da defesa, mas já estamos quase na hora de interromper os trabalhos. 0 interrogatório
da defesa demorará muito?
- Talvez tome tempo, Sr. Presidente.

- Nesse caso, seria melhor interrompermos aqui os trabalhos. A defesa poderá começar a inquirir a testemunha quando reiniciarmos a sessão. 0 tribunal voltará às
três horas da tarde.

Apanhou seus papéis e saiu da sala, acompanhado de seus colegas. 0 guarda conduziu Anna Albertini para fora do recinto, enquanto o público, em confuso vozerio, trocava
impressões entre si. Landon e Ninette abriram caminho entre o povo, a fim de falar com Carlo, mas antes que conseguissem chegar até ele, Valéria já já estava e ambos
ouviram as primeiras palavras, breves, trocadas entre marido e mulher.

- Você vai ou não almoçar, Carlo? Não quero ficar muito tempo aqui.

Carlo fitou-a, o olhar absorto:

- Não, não me espere. Quero falar com Anna. Já ordenei que levassem o almoço à sua cela.

- Encantador! - exclamou, com desdém, Valéria. - Encantador, embora um tanto ou quanto bizarro! Então você não se importa que Basílio me leve a almoçar?

Rienzi, com um gesto de cansaço, deu de ombros e virou-se para o outro lado.

- Faça o que quiser, Valéria. Não posso entregar-me a duas batalhas ao mesmo tempo.

- Mesmo nesta aqui você não está se saindo muito bem, não é verdade, querido?

- Estou fazendo o que posso - respondeu, com ar soturno. E ainda há um longo caminho a percorrer.

- Uma vida inteira para a sua pálida e branca virgem! Deu meia volta e seguiu a multidão que saía do tribunal, mas Landon, furioso, bloqueou-lhe a retirada:

- Deixe disso, Valéria! Deixe de agir como uma cadela! Homem algum merece o que você está procurando fazer com Cario.

- Você devia ser mais cortês, querido. Se me der na cabeça, poderei fazer coisas piores.

Deu-lhe uma palmadinha indulgente na face e deixou-o, afogueado e impotente, a pensar mais uma vez no preço de uma noite de indiscrição. Voltou à mesa da defesa,
onde Ninette, caridosamente, falava com Carlo:

- Você parece cansado, Carlo. Precisa cuidar mais de você. Rienzi esboçou um sorriso triste:

- Tenho passado um mau bocado. Se não fosse por Peter, eu teria me sentido muito só. E Valéria está Procurando tornar a coisa ainda pior. - Voltou-se para Landon:
- Que tal a impressão que sentem lá do meio do público, Peter?

- Exatamente como planejamos ... Uma escaramuça preliminar.

116

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Um sorriso breve, infantil, aflorou aos lábios de Rienzi:

- Acho que me sairei um pouco melhor esta tarde. Agora, se me desculparem, desejo ver minha cliente. Ela necessita, neste momento, de muito apoio.

Por que não vai jantar hoje conosco?

Carlo hesitou, mas Ninette lançou-lhe o seu cativante sorriso:
- Por favor, Carlol Você nos deve um pouco de sua companhia. Esperaremos você depois da sessão da tarde e jantaremos em meu apartamento. Você poderá descansar lá.
e, talvez, tocar-nos um pouco de música.

- Gostaria disso. Obrigado.

Reuniu seus papéis e afastou-se - uma figura encurvada, cansada - em direção da porta que conduzia às celas dos presos com ordem de reencarceramento, Landon e Ninette
seguiram-no com o olhar, tocados ambos de piedade por um talento tão solitário e por ,uma tão sincera boa vontade.

- Valéria é um monstro! - explodiu, furiosa, Ninette.

- Se não conseguir dobrá-lo de uma maneira, tentará outra. Que foi que você lhe disse, Peter?

Disse-lhe que ela era uma cadela... e que deixasse Carlo em paz.

- Você não tem medo dela, Peter?

A pergunta apanhou-o desprevenido e, durante um momento, não soube o que responder. com surpresa, porém, viu que Ninette ria baixinho:

- Não permita nunca que mulher alguma faça chantagem com você, Peter. Nem mesmo eu. Eu o amo, chéri, e também eu posso lutar por aquilo que desejo. Vamos! Ofereça-me
um drink e algo de comer.

A ante-sala do tribunal estava quase vazia, mas o Dr. Ascolini os esperava junto à porta que dava para o corredor. Sem qualquer preâmbulo, enlaçou o braço no de
Ninette e disse, categórico:

- Recuso-me a comer sozinho. Vocés dois vão almoçar comigo no Luca. Quero falar-lhes.

Quase não houve tempo para que conversassem, enquanto seguiam pelas calçadas repletas. Mas, uma vez sentados, em meio ao conforto barroco do Luca, Ascolini lançou
um desafio a Landon:

- Bem, meu amigo, que é que acha das probabilidades de Carlo?

- Ainda é muito cedo para se dizer.
- E você, Ninette?

- Francamente, dottore, não sei o que pensar. Não posso crer que ele seja tão inepto quanto tem parecido até agora. Mas ele não
118

n2e causou qualquer impressão. . . e creio que muito menos ainda, aos membros do tribunal.

0 velho riu entredentes, satisfeito:

Então talvez estejam agora dispostos a concordar comigo que eu talvez tivesse feito bem em dissuadi-lo de aceitar esta causa. Ninette Lachaise abanou a cabeça.

- Não inteiramente. Mesmo que ele fracasse - e Peter acha que há bastante probabilidade de que tal ocorra -7 ele terá experimentado as suas próprias forças. Não
poderá deixar de lucrar um poucocom-isso.

- Mesmo que ele arruíne sua carreira?

- Uma carreira é menos importante do que o amor próprio, dottore. O senhor sabe disso.

- Touché! - exclamou, com um sorriso, Ascolini. - O senhor tem aí uma mulher formidável, Dr. Landon! Mas eu gostaria, agora, de dizer-lhes algo que talvez
os surpreenda: acho que Carlo está se portando extraordinariamente bem. - Aguardou um momento, saboreando a surpresa de ambos. - O senhor, meu caro Landon, foi criado
em meio dos fogos de artifício dialéticos dos tribunais britânicos. Pensa em termos de duelo entre promotor e defesa. Quer ver um fato contrabalançado por outro,
um argumento a contrapor-se a outro. Exige que a simpatia dos ouvintes penda ora para um lado, ora para outro... e que haja um choque de personalidades. De modo
que não consegue perceber a estratégia que o nosso sistema exige. - Sorveu sua bebida e limpou delicadamente os lábios com um lenço de seda. - Vejamos o que Carlo
fez até agora. Procurou diminuir-se aos olhos dos juízes, de modo que estes estão preocupados, receosos de que não se faça à acusada justiça adequada. Por conseguinte,
sentem-se inclinados a conceder-lhe maior amplitude de ação do que, de outro modo, o fariam. Permitiu ele que a acusação esgotasse todos os seus argumentos durante
a sessão matinal. Terá agora oportunidade de interrogar, logo no início da sessão da tarde, uma testemunha-chave da acusação, bem como de reinterrogar outras, à
luz de evidências apresentadas pela defesa. Isso constitui uma campanha sólida... tanto mais sólida quando se trata de uma causa nada promissora.

- Carlo sentir-se-ia encorajado, se ouvisse is'so.
0 velho franziu a testa e respondeu, com ar triste:

- Duvido-o. 0 clima existente entre nós é menos favorável do que nunca. Valéria está agora a exibir esse tal Lazzaro debaixo do nariz do próprio Carlo. Ele não
pode deixar de acreditar que eu aprovo o que está ocorrendo.

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- Ela está se destruindo a si própria - comentou Ninette, tomada de súbida ira, - Será que ela não o compreende?

- Compreende melhor do que você - respondeu o velho, sombrio. - Mas existem coisas que não nos podem causar contentainento. Uma delas, sou eu; a outra, é ela. Nossa
única satisfação consiste em arrancar de cada momento o que quer que ele contenha de doce ou amargo. É, se se quiser, um impulso para a conquista, e não para a alegria.
Procuramos dominar e, se não o conseguimos, sentímo-nos mais felizes em destruir. Carlo afastou-se de nós Todo o seu interesse está voltado para essa causa. . .
e, receio-o, para a sua própria cliente.

- Eu também o receio - interveio Landon com vivo interesse. - Venho observando isso acontecer durante estas últimas semanas. Procurei, mostrar-lhe aonde isso conduz.
Apontei-lhe os perigos a que ele e sua cliente estão sujeitos, mas temo que ele não esteja em condições de medi-los. Sinto-me preocupado por ele. Em sua profissão,
corno em qualquer outra, um homem necessita de uma linha de defesa que o poupe das exigências que lhe são feitas. Se não a encontrar no lar, poderá tentar ou uma
dedicação impossível ou uma identificação perigosa com sua cliente.

Ascolini fez com a cabeça um gesto de assentimento e indagou, com grave interesse:

- E em qual dessas direções Carlo se inclina?

- Ele crê que se inclina para a dedicação. Eu receio que seja para a outra direção. Ele não faz segredo de sua'compaixão para com Anna Albertíni. Esforça-se por
proporcionar-lhe conforto e oferecer-lhe segurança. De'sua parte, ela começa a apoiar-se nele para tudo. 0 que constitui duplo perigo.

Eu sei - disse Ascolini. - Valéria zomba disso tudo, e isso é ruim para um homem que já trabalha com os nervos a ponto de estourar. Mas ele, agora, aceita
a luta. Já não permitirá que lhe preguemos peças, como antes. 0 rapaz tornou-se homem, e sente-se, w, fundo, magoado.

Interrompeu-se, como se estivesse cansado de tanta infelicidade, e fez um sinal para que o garçom os atendesse. Durante o almoço, conversaram sobre coisas mais
amenas, mas, ao ser-lhes trazido o café, tornaram a referir-se ao julgamento, e o velho passou a exporlLes, de maneira sóbria, jurídica, o que achava dos problemas
da defesa.

- . . . num caso como esse, em que os fatos e as circunstâncias de um crime não dão margem a qualquer dúvida, não há esperança de absolvição. Sociedade alguma pode
perdoar um assassínio.
O senhor e Car)) arquitetaram um argumento em favor da atenuação
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da pena, baseados em provocação e em enfermidade mental parcial.
0 problema, aí, é que se vêem ambos imediatamente levados a um terreno de duvidosa definição, em que o êxito depende tanto da habilidade do advogado como da legalidade
de sua alegação. Aí é que entra a experiência ... e a experiência de Carlo é deficiente.

- Penso que o senhor ainda o subestima, dottore - observou Ninette.

- Talvez - sorriu, irônico, Ascolini. - De qualquer modo, minha filha, receio que o tribunal seja mais severo do que vocês imaginam, já que uma decisão demasiado
liberal poderia conduzir a desordens públicas.

- A vendetta?

- A vendetta, o crime passional... qualquer circunstância em que a lei falhe e deixe de impedir ou punir a injustiça, e em que o indivíduo se vingue por suas próprias
mãos. Sociedade alguma pode permitir isso, por grande que tenha sido o mal original, pois que a sociedade não se atreve a tomar liberdades quanto ao que se refere
à sua própria sobrevivência. - Suas belas mãos fizeram um gesto no ar, como que pondo de lado o assunto, como um enigma sem solução. - Eis aí porque a justiça é
representada por uma mulher. É volúvel, paradoxal, implacável, mas tem sempre um olho voltado para o seu principal interesse.

Riram de seu cinismo - e o Dr. Ascolini ficou satisfeito. Todavia, Landon.sentíu, no mesmo instante, grande piedade por ele: um homem com um certo toque de grandeza,
um analista frio, um lutador valente, um humorista estóico, e, não obstante, privado do repouso da idade, devido às paixões a que se entregara e permitira que outros
se entregassem. Não competia a ele julgá-lo mas Landon compreendia bastante claramente o dilema em que ele se encontrava. Zombara durante demasiado tempo do homem
de quem agora recessitava como se fosse um filho. Amara com demasiado egoísmo a filha que agora empregava o seu amor como uma arma contra ele. Sua ambição achava-se
satisfeita e seu ardor exaurido. Tudo o que lhe restava era o seu feroz orgulho de camponês - fraco baluarte contra o assédio dos anos e da solidão.

Landon alegrou-se quando Ninette lhe disse, com sua maneira tranqüila, perceptiva:

- Carlo irá jantar hoje conosco. Por que também o senhor não aparece, dottore? Teriam ambos oportunidade de passar juntos alguns momentos de entretenimento.

Ascolini sorriu e abanou a cabeça:

- Você tem o coração generoso, minha jovem, mas não deixe que ele tome conta de você. É Carlo quem precisa de sua companhia.
121
Eu sou um velho e corrompido demónio que, por pura perversidade, será capaz de dizer o que não deve. - Afastou sua cadeira e levantouse: - Vamos tomar um pouco de
ar, antes da próxima sessão.

A vinte passos do recinto do tribunal, numa cela estreita, caiada, o advogado Carlo Rienzi servia o almoço à sua cliente. Encomendara a refeição num restaurante
próximo - um serviço completo, com vinho, talheres de prata e alvos guardanapos de linho. Estava agora atarefado como uma dona-de-casa, a estender a toalha, a dispor
os pratos em seus lugares e a servir a comida, enquanto a jovem permanecia de pé, a olhar, através da janela gradeada, um pedaço de céu azul.

A cela era austera como um refúgio de monge: uma cama baixa de rodízios, um crucifixo na parede, dois bancos e uma tosca mesa de madeira; mas, para Carlo Rienzi,
tudo aquilo tinha, naquele momento, um ar de conforto e intimidade.

Durante as últimas semanas visitara Anna Albertini quase que diariamente, mas jamais tivera qualquer momento de intimidade com ela. Havia sempre um guarda a escutar
o que diziam, cuja presença, ameaçadora, impunha certa formalidade às palavras que trocavam. Agora, pela primeira vez, estavam realmente a sós. A pesada porta tinha
o ferrolho corrido, o postigo de observação estava fechado, e o guarda, apático, comia o almoço e bebia o vinho que Rienzi lhe oferecera.

Anna Albertini, porém, não revelava sinal algum de prazer ou surpresa ante essa nova situação. Agradecera-lhe com ar grave quando o almoço foi trazido, e deixava
que ele o servisse. Ao terminar de pôr a mesa, Carlo chamou-a:

- Venha comer alguma coisa, Anna.
- Não quero comer nada, obrigada.

Ao responder-lhe, não se voltou, como se falasse, com voz neutra, inexpressiva, para o céu.

É uma boa refeição - disse, com forçada vivacidade, Rienzi. Eu próprio a encomendei.

Ela, então, voltou-se para ele, e havia uma vaga sugestão de calor em sua resposta:

Não devia ter tido todo esse incôrnodo.

Rienzi sorriu, encheu dois copos de vinho e entregou-lhe um:
- Se não está com fome, eu estou. Não quer fazer-me companhia?

- Certamente, se assim o desejar.

Plácida, distante, acercou-se da mesa e sentou-se diante dele. Rienzi pôs-se a comer imediatamente, interrogando-a entre um bocado e outro:

- Como se sente, Anna?

- Muito bem, obrigada. seja
- A coisa foi dura, esta manhã. Receio que, esta tarde, pior.

- Não tenho medo.

- Mas devia ter - respondeu, áspero, Rienzi. - Agora, deixe de bobagem e almoce.

Obediente como uma criança, a jovem pôs-se a comer aos bocadinhos, enquanto Rienzi -sorvia o seu vinho e a observava, atônito, como sempre, diante de seu estranho
ar de inocência e de seu alheamento. Decorrido um momento, ela indagou-

- Por que razão deveria eu ter medo?

Apesar de toda a sua experiência com ela, Rienzi ficou perplexo:

- Então você não compreende, Anna? Nem mesmo agora? Você viu o tribunal, como ouviu as testemunhas. Se o promotor levar a melhor, você será condenada a vinte anos
de prisão. Isso não a atemoriza?

Sua mãozinha pálida indicou a cela:
- E a prisão, acaso, não é isto?

- É.

- Isto não me assusta. - Arregalou os olhos, diante da obtusidade dele. - 0 pessoal é amável e atencioso. Sou feliz aqui. Sintome feliz em San Gimignano, mais feliz
do que jamais o fui em toda a minha vida.

- Por haver assassinado um homem? - indagou, asperamente Rienzi, irritado.

- Não, não é. por isso. É porque durmo tranqüilamente. Não tenho pesadelos. Acordo pela manhã e sinto-me nova... uma nova pessoa num mundo novo. Não há o que odiar,
nem o que temer. Pela primeira vez, sinto que sou eu mesma.

Rienzi fitou-a, tornado de um sentimento em que havia um misto de espanto e piedade - e, também, um mudo temor.

Como é que voce era antes, Anna?

0 rosto da jovem anuviou-se, e seus olhos tornaram-se, subitamente, vagos.

- Eu nunca soube. Aí é que estava o problema: eu nunca soube.

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Então, como sempre, sentiu pena dela. Curvou-se sobre o prato e comeu, durante um momento, em silêncio. Depois, disse-lhe, em $om mais cordial:

- Como sabe, Anna, temos alguma probabilidade ... Muito pequena, é verdade. Mas talvez possamos fazer com que lhe dêem uma sentença bastante leve.

- Espero que sim - respondeu Anna Albertini, placidamente. Pelo senhor.

- Por mim? - indagou, perplexo, Rienzi.

- Sim. Sei que esta causa significa muito para o senhor. Se vencer, sua reputação estará feita. Será o grande advogado quo sempre quis ser.

- Como sabe disso?
- Não sou criança.

Rienzi, durante alguns momentos, engoliu, com desagrado, essas palavras; depois procurou interrogá-la de outra maneira:

- Diga-me uma coisa, Anna. Se conseguirmos uma sentença leve, que é que você fará, ao sair da prisão?

- 0 que sempre desejei fazer. Voltarei para o meu marido, serei uma boa esposa, dar-lhe-ei filhos.

- Tem certeza de que poderia fazê-lo?

- Por que não? Já lhe disse que sou uma nova pessoa, Terminaram os pesadelos.

- Talvez possa encontrar pesadelos ainda piores à sua espera respondeu, asperamente, Rienzi.

Afastou a cadeira e deixou a mesa, indo postar-se, como Anna o fizera pouco antes, junto à janela, pondo-se a fitar, através das grades, um céu do tamanho de um
lenço de bolso. A jovem olhou-o com infantil perplexidade. Depois disse, tristonha:

- Não compreendo, absolutamente.

Rienzi voltou-se bruscamente para ela, fitou-a um momento e, em seguida, desabafou, num apelo simples e ardente:

- Anna, estou procurando fazer com que você compreenda uma coisa. Não só neste momento, mas até o fim do julgamento, você está em minhas mãos. Eu ajo por você, penso
por você, argumento por você. Mas, depois, qualquer que seja o curso que tomem os acontecimentos, você terá de fazer todas essas coisas por si mesma. Terá de construir
uma vida nova ... dentro das quatro paredes da prisão ou lá fora, num mundo de homens e mulheres. Você precisa começar a preparar-se, agora, para o que possa ocorrer.
Você estará só, compreende?

- Como poderei estar só? Sou casada com Luigi. Além disso, o senhor me ajudará, não é verdade?

Rienzi procurou não se comprometer:

- Um advogado sensato se interessa somente pela causa, Anna, e não pela vida privada de seus clientes.

- Mas o senhor se interessa por mim, pois não? De maneira particular, é o que quero dizer.

- 0 que é que a faz dizer isso?

- Eu sinto; nada mais. Quando estou lá no tribunal, digo a mim mesma que, enquanto estiver pensando no senhor, tudo estará bem.

- Isso não é verdade, Anna. Sou apenas um advogado comum a defender uma causa difícil. Não posso fazer milagres. Você não deveria esperá-los.

Foi quase como se ela não o tivesse ouvido - como se não conseguisse, sequer, vê-lo. Prosseguiu, com o ar sério e patético de uma criança que procurasse explicar-se:

- Quanto ao que me diz respeito, o senhor é a única pessoa existente no tribunal. Mal vejo as outras. Mal ouço o que elas dizem. como se ... como se...

- Como se o quê? - instigou-a, com vivacidade, Rienzi.
- Como se o senhor estivesse segurando minha mão, como minha mãe costumava fazer.

- Santo Deus, não! A jovem fitou-o, aflita:

- Eu disse alguma coisa que não devia?

- Continue seu almoço, Anna - respondeu, obtuso, Rienzi. A comida está esfriando.

Afastou-se dela e pôs-se a andar de um lado para outro pela cela, pensativo, enquanto a moça comia bocadinhos, apaticamente. Decorridos alguns momentos, um novo
pensamento pareceu ocorrerlhe. E perguntou:

- Onde está Luigi? Por que é que ele não me visita?
- Não sei, Anna.

Na sua maneira estranha, absorta, ela pareceu aceitar a resposta. Rienzi hesitou um instante e, depois, indagou:

- Diga-me uma coisa, Anna: por que foi que você casou com Luigi?

- Minha tia disse que ja era tempo de eu assentar minha vida. E eu também queria casar. Luigi era um rapaz simpático, bondoso e amável. Parecia que poderíamos ser
felizes juntos.

Mas não foram?

Durante o noivado, sim. Eu tinha orgulho dele e ele parecia orgulhoso de mim. Passeávamos, conversávamos, ficávamos de mãos dadas e nos beijávamos. Fazíamos planos
acerca do que iríamos

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f azer... acerca dos nomes de nossos filhos, da espécie de aparta mento que gostaríamos de ter...

- Mas... e depois?

Anna Albertini olhou-o com ar estranho e, pela primeira vez, Carlo quase que a viu perder a compostura:

- 0 que aconteceu depois foi culpa minha. Mas eu não podia evitar que acontecesse. Cada vez que ele me tomava em seus braços eu. . . - Interrompeu-se e ergueu as
mãos, num gesto de súplíca: Por favor! Eu não quero falar sobre isso. Tudo já acabou, agora. Eu mlidei. Sei que you ser uma boa esposa.

- Ele aindà si nifica muito para você?

9 1 .

- Ele é a única pessoQ que eu tenho.

- Que foi que ele lhe disse, quando o trouxeram para ver voc na prisão?

- Nada. Ficou apenas a olhar-me. Eu procurei explicar-lhe, mas ele não me deixou falar. E, depois, foi embora. Eu não o censuro por isso. Sei que, no fim, ele compreenderá.
O senhor não acha?

- Espero que sim - respondeu, deliberadamente, Rienzi. Mas, em seu lugar, eu não contaria muito com isso.

Pela primeira vez, o sentido real da pergunta de Carlo tornouse-lhe claro. Ela levou a mão à boca, e seu rosto se converteu numa máscara de terror:

- Ele já não me ama?

- Não, Anna. E eu you pÔ-Io, esta tarde, no banco das testemunhas. Talvez não lhe agrade o que você irá ouvir.

Ela não chorou, nem se lamentou; apenas se levantou lenta mente da mesa e dirigiu-se à janela, onde permaneceu, tensa e trêmula, com as mãos espalmadas de encontro
à branca parede de pedra.

- Você o amava realmente, Anna?

- Não sei - respondeu ela, a voz surda, sem inflexão. - Aí é que está a coisa. Até agora, eu jamais soube, na verdade, de coisa alguma... mesmo com respeito a mim.
Enquanto Belloni estava vivo, as coisas pareciam ter sentido... Havia uma estreita e longa estrada, Comigo numa extremidade e Belloni na outra. Enquanto eu caminhava,
sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu o encontraria. Agora ele está morto, e não existe nada...

- Então você precisa encontrar um novo caminho, Anna. Houve algo infinitamente patético em sua resposta:

- Mas um caminho sempre conduz a algum lugar. Eu não sei para Onde quero ir. Nem sei, mesmo, se eu existo. Há apenas o meu nome, Anna Albertini, mas não eu. Então
não vê?

126

Vejo, Anna - respondeu Carlo, acercando-se dela e tomando-

lhe as mãos frias. - Posso ver uma criatura, tocar-lhe. Ela foi feita para ter filhos e embalá-los em seus próprios braços. É muito bela. Pode amar e ser amada.

- A única pessoa que jamais me amou foi minha mãe.
- Ela está morta, Anna.

- Eu sei.

- Mas você está viva, Anna insistiu ele, com ardor. Continuará vivendo. Precisará ter alguma coisa pela qual viver.
- Eu antes tinha Belloni. Agora ele está morto, também.
- Isso era ódio, Anna. Você não pode continuar odiando um

morto! Eu queria amar Luigi, mas ele não me ama. Por onde começarei? Aonde irei?

Carlo repetiu-lhe, em tom sombrio:

- Se perdermos a causa, você irá, por espaço de vinte anos, para a prisão.

- Eu sei, mas não tenho medo disso. Será até bastante bom, de certo modo. Eles me dirão o que fazer, como fazê-lo, aonde ir.
- Mas isso não é viver! - exclamou Carlo, agora irritado e

veemente. - Isso é morte! É como a princesa na floresta encantada. Você não terá pesadelo, mas tampouco terá vida! Será conduzida para aqui e para acolá como um
autômato, até que a beleza se extinga, e que o amor se extinga, e já não haja mais esperança para você!

Por favor, não fique zangado comigo.

Ele tomou-a pelos ombros, com violência, e sacudiu-a.

- Por que não? Você é uma mulher, e não uma boneca de trapo. Não poderá continuar a lançar as responsabilidades de sua vida sobre os ombros de outrem. Foi você
quem arruinou Luigi. Ele queria amor e você não lho podia dar. Agora, sou eu quem deseja algo de você: ajuda, cooperação! Você não está me dando nada!

Largou-a, e ela ficou a passar as mãos pelos ombros magoados, os olhos cheios das primeiras lágrimas que ele jamais vira nela. Instantaneamente, sua ira se dissipou
e ele viu-se dominado pela ternura. Passou-lhe a mão pela cintura e puxou-lhe a cabeça de encontro ao seu próprio peito:

- Eu não a estou censurando, Anna. Não sou Deus. Estou procurando fazer com que você própria se censure.

Então, pela primeira vez, ela pôs-se a chorar, agarrando-se desesperadamente a ele, o corpo agitado por soluços:

- Não me deixe. Não me deixe, por favor. Sinto-me segura em sua companhia!

127
Ele a afastou com brutalidade, e tornou a explodir:

- Você não pode sentir-se segura! Você tem de sentir-se desprotegida, solitária, amendrontada! Tem de desejar algo com tanta violência, que seu coração se despedace.
Você é uma mulher, Anna, e não uma criança!

Ela tornou a agarrar-se a ele, a cabeça apoiada em seu ombro, os cabelos negros a roçar-lhe os lábios. Rienzi procurou, desajeitadamente, consolá-la, enquanto lançava
o olhar, sem nada ver, para além dela, em direção a todas as desanimadoras implicações que a dependência de Anna, ao apoiar-se nele, poderia ter. Depois, desvencilhou-se
delicadamente dela.

- Tenho de ir embora, Anna. Devemos estar no tribunal dentro de poucos minutos.

- Não vá embora. Não me deixe!

- Preciso ir, Anna - disse Rienzi, com sóbria piedade. Preciso.

Dirigiu-se à porta e chamou o guarda, para que o deixasse sair. Quando a porta se fechou atrás dele, Anna Albertini ficou a fitar, com rosto inexpressivo, o postigo
gradeado da parte superior; de repente, porém, tomada de súbito terror, lançou-se sobre a cama, a soluçar como uma criança abandonada.

128

A SESSXO DA TARDE começou suavemente, num tom de calma acadêmica. 0 Prof. Galuzzi ocupou o banco das testemunhas, e Carlo Rienzi conduziu-o através de um breve resumo
do depoimento por ele prestado durante a manhã. Depois, Rienzi pôs-se a pedir-lhe definições.'

- Professor, pergunto-lhe se poderia fazer a fineza de explicar ao tribunal o significado das palavras "trauma" e "psicose traumática". Galuzzi sorriu, tossiu, ajustou
o pince-nez e explicou:

- Literalmente, a palavra "trauma" significa ferimento. No sentido médico, significa uma condição mórbida do organismo humano causada por um distúrbio externo. No
sentido psiquiátrico, significa quase que a mesma coisa: uma cicatriz causada por choque emocional ou mental. Se posso explicar-me mais claramente, uma cicatriz
num dedo é um trauma... embora não muito grave. As cicatrizes deixadas por uma grande operação cirúrgica são, também, traumas. Existem graus similares de cicatrizes,
quanto ao que se refere à psique humana.

- E os traumas mais graves são sempre persistentes?

- Sempre. Embora o tempo e o tratamento possam diminuir seus efeitos.

- Corrija-me se eu estiver errado, professor, mas acaso a palavra "psicose" não descreve um desarranjo mental bastante profundo, grave ou mais ou menos permanente?

- Em termos gerais, assim é.

- De modo que um paciente psicótico é, sempre, em maior ou menor grau, prejudicado?

- Exatamente.

- Tomemos alguns exemplos simples, professor - prosseguiu Rienzi, em tom brando, quase de deferência. - Uma criança perde
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um pai ou uma mãe a quem muito ama. O senhor chamaria a isso choque emocional?

- Sem dúvida.

- E isso deixaria cicatrizes?
- Deixaria.

- Cicatrizes que poderiam, mais tarde, revelar-se através de alguma enfermidade psíquica?

- Sim ... Poderiam.

Fez-se breve silêncio no tribunal. Todos os olhos estavam pousados em Rienzi, quando este se dirigiu à sua mesa, apanhou alguns papéis e voltou novamente para junto
de Galuzzi. Havia uma transformação, agora, em Carlo. Seus ombros se endireitaram, o tom de sua voz adquiriu vivacidade, suas perguntas se tornaram mais rápidas.

- Tomemos, por exemplo, o caso de Anna Albertini. Ela perdeu os pais aos oito anos de idade. Segundo declarou o senhor promotor, sua mãe foi executada por um pelotão
de fuzilamento. Como consideraria o senhor o dano causado à sua mente infantil?

- Como sendo muito grave.

- Ainda uma pergunta, professor. Afirmou o senhor que submeteu a acusada a exames. Qual a natureza desses exames?

- Em termos gerais consistiram de exame médico, observação neurológica e de uma forma modificada de análise.

- Então o senhor sabe que, embora casada há quatro anos, é ela ainda virgem?

- Sei.

- Concordaria em que isso indica uma anormalidade em suas relações com o marido?

- Perfeitamente.

- Como diagnosticaria o senhor tal anormalidade?

- Como sendo um estado de incapacidade sexual da acusada, relacionado e provavelmente induzido por suas experiências infantis.
- Ou, em outras palavras, pelo trauma ou cicatriz de que esti-

vemos falando? O senhor descreveria Anna Albertini como sendo uma paciente psicótica?

- Sim.

- Em outras palavras, professor, o senhor está dizendo que ela é mentalmente enferma?

0 promotor pôs-se de pé, protestando:

- Protesto, Sr. Presidente. A pergunta conduz a testemunha a uma conclusão que compete unicamente aos senhores juízes.

- A objeção é aceita. 0 advogado da defesa deve limitar-se apenas a obter informações segundo os termos do processo em pauta.
130

- com o devido respeito, Sr. Presidente - respondeu, com firmeza, Carlo - estou interessado em definir claramente perante este tribunal a natureza da informação
obtida. Não obstante, por deferência ao desejo do Sr. Presidente, reformularei a pergunta. Diganos, professor: é ou não é verdade que um paciente psicótico é um
indivíduo mentalmente enfermo?

- É verdade.

- Nada mais tenho a perguntar.

- O senhor está dispensado, professor - disse o presidente, Houve um momento de sussurrada consulta entre os juízes, e Ascolinfvoltou-se para Landon e Ninette, com
um sorriso de triunfo:

- Estão vendo? Eu lhes disse que ele estava escondendo o jogO! Isto está bom, muito bom!

o A julgar pelo murmúrio que percorreu o tribunal, dir-se-ia que a maioria dos espectadores era também dessa opinião. Os repórteres escreviam apressadamente e o
promotor conferenciava com os seus assistentes. Dentre todas as pessoas presentes, somente Anna Albertini se mantinha calma e impassível como uma sacerdotisa que
presidisse a um rito antigo, que houvesse perdido, desde muito, sua aplicabilidade ou significação.

0 presidente bateu o martelo e fez-se de novo silêncio, enquanto o promotor se levantava, dirigindo-se à tribuna dos juízes:

- Sr. Presidente, Srs. membros da corte! É tão clara e simples a denúncia que tendes em mão, tão conciso e unânime o depoimento das testemunhas, que hesito em desperdiçar
o tempo deste tribunal, chamando outras testemunhas de que dispomos. Apresentamos não só a prova do crime, como a prova da premeditação. Ambas são confirmadas pela
declaração voluntária da acusada. Não compete a mim fazer comentários acerca da nova técnica adotada pela defesa, mas eu ressaltaria que a defesa ou aceitou ou deixou
de contestar todos os nossos testemunhos. Eu pediria uma orientação, Sr. Presidente.

Por alguma razão que Landon não compreendeu, o presidente pareceu irritado ante tal pedido.

. - Não consigo ver qualquer razão para que se adote outra orientação quanto a este caso - respondeu, acremente. - Se a Promotoria não tem outras testemunhas a chamar,
então a defesa poderá apresentar seus próprios depoimentos.

- com a devida permissão do tribunal, gostaria de tornar a chamar, em primeiro lugar, Luigi Albertini.

Ao ouvir esse nome, Anna Albertini pareceu despertar. Suas macis procuraram, nervosas, o anteparo de metal do compartimento dos réus, enquanto seus olhos, arregalados,
perturbados, seguiam, todos os passos do vacilante e desorientado jovem que se encaminhava para

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uma bela jovem que não pode ir para a cama com o marido. E temos aí a segunda pedra: compaixão. E todos nós fazemos a mesma pergunta: "Como pode isso acontecer a
uma rapariga bonita, com quem todos nós gostaríamos de dormir?" Por um momento, esquecemos que ela matou um homem e que outra mulher dorme só, por causa dela. Duas
pedras! Mas não constituem ainda alicerce para qualquer defesa. Mas a promessa, minha filha! 0 que não promete este rapaz! Sinto-me orgulhoso dele!

- Então vá dizer-lhe isso, dottore - disse, com firmeza, Ninette uma dúzia de passos, uma dúzia de palavras, e a coisa está feita. vá já.

- Este ainda não é o momento oportuno.

- Talvez jamais surja melhor ocasião, dottore- Deixe o orgulho de lado.

Ascolini hesitou um momento; depois, levantou-se, alisou o paletó e dirigiu-se, com passos firmes, para a porta da sala do júri. Landon tinha lá suas dúvídas,.e
confessou-as a Ninette, mas a pintora estava jubilosa pelo êxito de sua manobra.

- Então você não percebe, Peter, que isso é importante? Importante para Carlo, se ele puder contar com o apoio e os conselhos de Ascolini até que termine este caso.
Importante para Ascolini, que está passando por uma crise em sua própria vida. As melhores coisas que fazemos são feitas rapidamente, nascidas do coração.

- Nós sabemos o que se passa em nossos corações, querida, mas não sei se compreendemos o que se passa no coração deles.
- Você faz mistério, Peter, onde não existe mistério algum.

Esses dois estão preparados para ser amigos. Ambos se respeitam. Se não se aproveitar uma boa oportunidade, talvez demore muito para que surja uma outra.

Landon não tinha nenhuma resposta adequada para isso e, ademais, era-lhe muito mais fácil beijá-la do que discutir com ela. Rendeu-se, pois, com um encolher de ombros
e um sorriso - e ambos penetraram, de mãos dadas, em meio à tagarelice da antecâmara. As conversas eram ensurdecedoras. Erguiam-se em altas ondas de ênfase e caíam
em espumosos cavados de confusão. Palavras, frases, fragmentos de interpretação, alteavam-se como flocos de espuma e extinguiamse entro o vozerio. Mulheres riam,
homens lançavam olhares sutis e compreensivos. Trocavam-se scoredos tão livremente como nos bastidores de um teatro.

Aquilo era uma pequena e amarga ilustração da necessidade que tinha a criatura humana de transformar a morte num circo e de transformar num espetáculo a expulsão
do bode expiatório para o deserto.
134

A piedade é uma indulgência consoladora, quac se converte facilmente em desdém e gracejos escarnecedores, mas' compaixão é uma virtude rara baseada na admissão
de que cada um de nós oculta em seu próprio coração as fraquezas que condena em seus semelhantes, e que o sofrimento ou o desejo frustrado podnerOisam levar-nos
a maiores excessos do que aqueles que condenamos outros. A crueldade de uma multidão é menos aterrorizadora do que o medo que ela oculta, o desespero do perdão
pessoal que inibe o perdão dos outros.
- Peter, olhe!

Os dedos de Ninette cravaram-se na palma da mão de Landon, que ergueu os olhos e viu que Valéria Rienzi se aproximava deles, abrindo caminho, em meio da multidão.
Valéria, o rosto pálido e tenso, abordou-os abruptamente:

1 - Quero falar com vocês dois. Venham tomar comigo uma xicara de café.

Sem esperar resposta, agarrou-os pelo braço e conduziu-os apressadamente a um pequeno bar situado a cem metros do tribunal, Mal se sentaram à mesa, e ela explodiu:

- Julguei que vocês dois gostariam de saber. Basílio me abandonou. Disse-me isso durante o almoço. Assim, sem mais nem menos ... a comédia terminou! - Lançou um
riso estridente, histérico.
- Oh, sei o que vocês estão pensando! Que isso, mais cedo ou mais tarde, teria de acontecer, exatamente como aconteceu com você, Ninette. Mas não foi assim ... não
foi assim, absolutamente. Sabem quem preparou tudo isso? Meu inteligente, adorável pai! Como vocês sabem, ele gosta de gente de raça. Só os melhores garanhões são
bem acolhidos nos estábulos dos Ascolini! De modo que ele telefonou a Basílio e o ameaçou de criar complicações em seus negócios, se ele continuasse a avistar-se
comigo. Esperto, pois não? Todo mundo, agora, tem seu companheiro, exceto eu e meu pai. Carlo tem a sua virgenzinha, vocês têm um ao outro. Só meu pai e eu estamos
so~ brando. Que é que faço agora, Peter? Como é que you me arranjar?
- Sua voz elevou-se ainda mais, e várias cabeças se voltaram para ela. - Você sabe como eu sou na cama. Que é que me receita?

Sob os olhares atônitos dos que se encontravam no bar, Landon debruçou-se sobre a mesa e deu-lhe dois tapas fortes nas faces, fazendo com que a crescente onda de
histeria se convertesse em soluÇos. Ninette nada disse: continuou sentada, envergonhada, o rosto enrubescido, enquanto Landon tirava um lenço do bolso e o entregava,
Por sobre a mesa, a Valéria.

- Enxugue os olhos, menina - disse, calmamente. - Você está fazendo papel de tola!

135
o tom com que lhe falou fez com que ela se dominasse e se pusesse a enxugar o rosto, enquanto Ninette e Landon trocavam olhares entre si, ante a revelação nua e
crua que acabara de ser feita.

Creio que você já havia desconfiado, Ninette - disse-lhe, calmo, Landon. - Lamento apenas que você tivesse de ouvir dessa maneira.

Ela apenas abanou a cabeça, sem saber se poderia falar. Mas estendeu, impulsivamente, a mão e pousou-a sobre a de Landon. No mesmo tom calmo, Landon tornou a dirigir-se
a Valéria:

- Por que não diz o resto da coisa? Você quer vingança. Sabe de que modo consegui-Ia, Conte a história a seu pai. Conte a Cario. Esta é a melhor ocasião - não lhe
parece? - bem no meio de uma causa?

- Quero fazê-lo - respondeu. quase num sussurro, Valéria. Você não pode imaginar o quanto desejo fazê-lo.

- Mas não o fará - interveio, incisiva, Ninette.
- Por que não?

Fitaram-se, por*sobre a mesa, como esgrimistas, e Landon sentiu-se tão excluído daquilo come se estivesse na Lua. Ninette Lachaise repetiu, tranqüíla:

- Não o fará, Valéria, porque, quer você saiba ou não, Carlo representa a sua última esperança. Sei disso porque também segui parte do caminho que você percorreu.
Você não poderá sobreviver a muitos homens como Lazzaro. E, decorrido algum tempo, isso é tudo o que conseguimos, todas nós. Na verdade, não importa muito que Cario
ganhe ou perca, mas se você o destruir antes que ele tenha tido a sua oportunidade, você também se destruirá a si própria. - Quase no mesmo fôlego voltou-se para
Landon e disse, com um sorriso de viés: - Volte para o tribunal, Peter. Daí em diante, isto é coisa de mulheres.

Ao sair para a plena claridade do sol do meio-dia, Landon sentiu-se como um homem que acabasse de salvar-se por um triz. Cinco minutos após estava de volta ao tribunal,
ao lado de Ascolini, à'espera de que a acusada fosse trazida ao recinto e os juizes entrassem. 0 velho parecia curiosamente subjugado. Quando Landon o interrogou
acerca de seu encontro com Cario, respondeu, absorto:

- Conversamos um momento. Ele mostrou-se bastante amável. Fiz-lhe algumas sugestões. Ele pareceu-me grato.

- Mas houve algum progresso?
136

- Oli, sim. Eu diria que isso foi

um momento, acrescentou: - Carlo levounl Progresso E, após u-me à cela, para que eu visse a moça. Falei com ela e com Galuzzi.

- Que impressão lhe causou ela?

- Unia criança apática ... urna mulher trágica. Que mais se poderá dizer?

. Landon teve a impressão de que o velho tinha ern sua mente coisas que não estava disposto a discutir, mas não fez corlen algum e, decorridos alguns
tário

InOmentos, Anna Albertini foi trazida ao banco dos reus e Os juízes entraram na sala, a fim de que o julgamento prosseguisse.

0 aspecto da jovem era lamentável, Sentou-se ereta no banco, as mãos a agarrar o anteparo de metal do compartimento. Tinha o rosto angustiado, afilado, olheiras
Profundas os cabelos não mais ajeitados, mas úmidos, a colarem-se-lhe às faces 'e às têmporas. Mas quando o presidente indagou se ela se sentia suficientemente bem
para continuar, respondeu, em voz firme, incolor:

- Sim, obrigada.

Rienzi confirmou seu assentimento e chamou sua primeira testemuilha: uma camponesa de perto de quarenta anos, dotada ainda de desbotada sedução sexual, que contrastava
va-amente com seu vestido de matrona do campo. Sentou-se serenamente e sorriu, segura de si mesma, quando a submeteram ao juramento de praxe. 0 presidente dirigiu-lbe
a palavra em tom brusco c Profissional:

- Faça 0 favor de dizer o seu nome ao tribunal.
- Maddalena Barone.

- Onde reside?

- Em Pietradura. Dez ui1Ômctros ao norte de San Stefano.
- É casada?

- Não.

- Tem filhos?

- Sim. Tenho um filho.
- Que idade tem ele?
- Dezesseis anos.

- Quem foi o seu pai? Gianbattista Belloni.

Maria Belioni lançou um grito de angústia:
- 12 Mentira. . . Mentira imunda!

0 Presidente bateu com o martelo sobre a mesa:

- Se houver qualquer outra perturbação da ordem, farei com que a removam do tribunal!

o Promotor PÔs-se de pé de um salto:

137
- Sr. Presidente, protesto! Um homem foi morto ... assassi,7iado! Seus pecados passados não podem ter qualquer relevância neste iríbunal.

o presidente abanou a cabeça:

- Devemos ignorar a objeção. 0 representante do Ministério Público teve o trabalho de obter todos os fatos acerca do caráter e da reputação do morto. A defesa
deve ter o mesmo direito. - E prosseguiu a interrogar a testemunha: - 0 pai de seu filho con,tribuiu alguma vez para a manutenção do mesmo?

- Sim. Mandava-me dinheiro todos os meses. Não era muito, mas ajudava.

- De que maneira esse dinheiro lhe era pago?
- Através do sargento Fiorello.

- Ele lho entregava pessoalmente?
- Não. Vinha pelo correio.

- Como é que sabe que vinha através do sargento Fiorello?
- Depois que meu filho nasceu, escrevi ao pai, pedindo-lhe que me ajudasse. Ele não respondeti,' mas o sargento Fiorello foi ver-me.

- E que lhe disse ele?

- Disse~me que eu receberia dinheir regularmente. Ele me ,enviaria, pelo correio, todos os meses. Mas que deixaria de mandá-lo, caso eu abrisse a boca e dissesse
quem era o pai do mesmo.

- Por que razão está agora disposta a revelar tal fato ao tribunal?

- Frei Bonifácio foi ver-me e disse-me que era meu dever dizer a verdade,

- Obrigado. ?ode deixar o banco das testemunhas.

Na breve, -nsz pausa que se seguiu, o único som audível era o dos soluços -à-)afados de Maria Belloni. 0 promotor fez outro apelo, mas comedido:

- Sr. Presidente, eu gostaria de chamar a atenção da corte para o fato de que o pagamento do dinheiro destinado à manutenção de seu filho, através de canal oficial
e confidencial, só constitui crédito a seu favor e não desonra a memória de Gianbattista Belloni.
0 presidente assentiu, urbanamente:

- Meus colegas, sem dúvida, levarão tal fato em consíderação, no momento oportuno. Dr. Rienzi?

com a devida permissão, gostaria de reinquirir o sargento Fiorcilo,

Permissão concedida.

0 corpulento sargento ocupou de novo o banco das testemunhas, e novamente chamou a atenção de Landon o seu ar de com-
38

petência e sua C(,,nPostura, Piscou um pouco, quando Cario pediu permissão para conduzir ele próprio o interrogatório, mas, quanto ao resto, não demonstrava sinal
de emoção. Carlo começou a ínterrogá-
10 em estilo insípido e prosaico:

- Sargento Fiorello, quero lembrar-lhe alguns detalhes de sua folha de serviços COMO policial. O senhor começou sua carreira há vinte anos, sob o regime fascista,
e, após adestramento, foi enviado a San Stefano. Permaneceu lá durante toda a guerra, Terminada a guerra, foi promovido a sargento e assumiu a chefia do posto
poli. cial. Está correto?

- Sim senhor,

- Depois da guerra, muitos de seus colegas foram demitidos, sob acusação de simpatia pelos fascistas ou acusação de opressão e crueldade.

- Exatamente.

- E durante a guerra, alguns deles foram fuzilados pelos guerrilheiros por essa mesma razão?

- Sim.

.- E como é que o senhor escapou? Como conseguiu ser promovido?

- 0 registro oficial revelava que eu participara atívamente do inovimento subterrâneo e trabalhara em segredo com os líderes guerrílheiros locais.

- Especialmente com Gianbattista Bel)oni?
- Sim, senhor.

- E os registros oficiais continham alguma carta de recomendação assinada por Belloní?

- Perfeitamente.

- Qual era sua Opíião a respeito dele?

- Que se tratava de um homem patriota e corajoso.
- E, desde então,

opinião? teve o senhor algum motivo para mudar de
- Não.

-Chamo sua atenção, sargento, bem com() do tribunal para o item 75 do sumário de culpa, entregue a esta corte pelas autoridades judiciárias. - Aguardou
ZD

lheavam os seus papéis, Um momento, enquanto os juízes foe Prosseguiu. - Esse item é uma cópia fotostática de uma anotação ínserída no Livro de Registro
e Acusações da Divisão de Segurança Pública em San Stefano. A anotação é, com efeito, uma descrição do julgamento da sentença e da execução de Agnese Moschetti,
mãe de Anna Moschetti, em novembro de 1944. A anotação é atestada por Giaribattista Belloni e cinco outros parti-

139
cipantes do tribunal militar. Os senhores verificarão que a data da declaração é 16 de novembro de 1944 - três dias após a morte de Agnese Moschetti. Mas não foi
juntada ao registro policial senão a
25 de outubro de 1946, muito depois do armistício, e um mês após a designação do sargento Fiorello como comandante do posto policial. Pode explicar essas datas ao
tribunal, sargento?

- Posso. A descrição do julgamento foi feita e atestada enquanto a administração fascista se encontrava ainda no poder e os alemães ocupavam o país. Era, por conseguinte,
um documento comprometedor. Belloni guardou-o até depois da guerra, entregando-me, então, para que eu o incluísse no registro oficial.

- O senhor o encararia como sendo um documento incomum?
- Em que sentido?

- De acordo com as circunstâncias e as condições locais, o julgamento e execução de Agnese Moschetti eram atos de guerra. Por que razão Belloni achou necessário
registrá-los? Pode o senhor falarme de algum outro procedimento dos guerrilheiros que tivesse sido igualmente registrado?

- Não, não posso.

- Por que então Belloni adotou uma medida assim, tão desusada?

- Conforme ele me explicou, a execução de uma mulher era um negócio chato - essas foram as suas palavras, "um negócio chato" e ele queria que os fatos fossem anotados
e conhecidos.

- E era essa a única razão?
- Não sei de nenhuma outra.

- Não houve, por exemplo, nenhum pedido de inquérito público?

- Não, que eu saiba.

- Nem rumores, dúvidas ou perguntas acerca da verdadeira natureza do caso Moschetti?

- Não. Nada.

- Como questão de interesse, sargento, onde se realizou o julgamento?

- Isto está no processo. Na casa de Anna Moschetti, em San Stefano.

- Onde estava a polícia aquela noite ... e, particularmente, onde se encontrava o senhor?

- Estávamos em patrulha, a milhas de distância. Belloni simulara um chamado telefônico, bem como a comunicação de .que os guerrilheiros iriam fazer
explodir a linha da estrada de ferro.

- O senhor sabia o que se planejava?
- Não.

140

- Mas eu julguei que o senhor contava com a confiança de Belloni e que havia Cooperado com ele ...

- Era esse o método ... Ninguém sabia mais do que o necessário. Era mais seguro assim. Fazia o que me mandavam, sem perguntar coisa algum,,,

- O senhor compreende, sargento, que está depondo sob juramento?

- Perfeitamente.

- Então permita que lhe repita uma pergunta. Depois que foi nomeado comandante do posto, ninguém jamais lhe pediu para que abrisse um inquérito, a fim de apurar
as circunstâncias em que ocorreu a morte de Agnese Moschetti?

- Ninguém,

0 dedo de Rienzi ergueu-se para ele como um escalpelo:
- O senhor mente, sargento! Mente sob juramento solene. E eu o. provarei a este tribunal! - Voltou-se e fez ligeira reverência aos juizes, corno que se desculpando.
- Já terminei de interrogar esta testemunha, Sr. Presidente.

- Mas o tribunal ainda não disse tudo à testemunha! - exclamou o presidente, lançando um olhar frio ao sujeito corpulento, impassível, que ocupava o banco das testemunhas.
- Ainda tem tempo de emendar o seu depoimento, sargento. Se as declarações posteriores provarem que o senhor é culpado de perjúrio, talvez grave castigo o aguarde.

Por um momento, Landon julgou que o sargento sustentasse descaradamente o que havia dito, mas no último instante, a testemunha vacilou, gaguejando:

- Eu ... eu respondi às perguntas que me foram feitas. Não houve pedido de inquérito, mas ... falou-se nisso. A coisa, porém, não deu em nada.

Carlo pÔs-se de pé de um salto:

- Por favor, Sr. Presidente, eu gostaria que o escrivão lesse a transcrição de minha pergunta anterior, referente a "rumores, dúvidas ou perguntas".

- Podemos dispensar a transcrição - disse com firmeza, o presidente. - A pergunta ainda está viva em nosso espírito. 0 juiz auxiliar da vara e o representante do
Ministério Público anotarão a conduta da testemunha, anotando, ainda, que a mesma poderá ser eventualmente acusada de perjúrio, obstrução da justiça e conspiração.
Faça o favor de deixar o banco das testemunhas.

Ao voltar para o seu lugar, Fiorello parecia ter encolhido seis polegadas em altura e circunferência. Por outro lado, dir-se-ia que Rienzi adquiria, a cada momento,
nova estatura. Apesar de seu as-

141
pecto macilento, insone, e de seu rosto tenso, magro, parecia irradiar energia e crescente autoridade, Nos intervalos do interrogatório, ou enquanto os juízes conferenciavam
entre si, como agora estavam.fazendo, dir-se-ia que ele tinha a virtude de apagar-se da atenção dos presentes, de modo que cada vez que reaparecia, sua presença
causava novo impacto e cada interrogatório adquiria novo aspecto de drama. Após breve consulta entre os juízes, o presidente impôs ordem ao tribunal e dirigiu a
palavra a Rienzi:

- Meus colegas acentuam, com justiça, que a defesa parece estar dando considerável ênfase não só ao caráter do morto, como a um acontecimento ocorrido há dezesseis
anos: a execução de Agnese Moschetti, Acham - e essa é também a minha opinião - que a defesa deveria auxiliar-nos a estabelecer a relevância de tais declarações.

- Somos de opinião, Sr. Presidente, que tais declarações são relevantes quanto ao que se refere a todos os pontos deste caso: a natureza do crime, o motivo, provocação,
premeditação responsabilidade moral e legal da acusada, bem como a um ponto de suma importância para todos os membros do poder judiciário e do organismo político:
de que modo fazer-se justiça dentro das limitações da lei.

Um leve sorriso de satisfação contraiu os lábios do velho jurista:
- Se as provas do advogado de defesa estiverem à altura de sua eloqüência, este tribunal se dará por satisfeito. Queira chamar sua próxima testemunha.

- Chamo a Frei Bonifácio, da Ordem dos Frades Menores, pároco de San Stefano.

Houve um momento de patética curiosidade em meio ao espetáculo, quando o velho e alquebrado sacerdote atravessou o tribunal arrastando os pés metidos em sandálias.
Apesar de sua tonsura e do hábito de uma antiga Ordem, ele parecia exatamente o que era: um pastor idoso de um rebanho indisciplinado, para quem o mundo parecia
demasiado grande.

0 escrivão aproximou-se, a fim de ministrar-lhe o juramento:
- Jura perante Deus dizer toda a verdade, apenas a verdade, sem subterfúgio ou acréscimo?

0 frade hesitou um momento e, depois, voltou-se para o pre-sidente:

- Permite-me, Sr. Presidente?
- Sim, padre. Diga.

- Não posso jurar dizer toda a verdade ... mas apenas a parte que escapa ao sigilo da confissão, e que é de meu conhecimento como, cidadão comum.

142

- Aceitaremos seu juramento nesses termos.
- Sujeito, pois, ao selo da confissão, juro.
- A defesa pode interrogar a testemunha.

0 método adotado por Rienzi, diante do velho sacerdote, foi de deferência e de quase humildade. Uma vez mais, Landon ficou impressionado pelo seu talento de camaleão,
que sabia adaptar-se a uma situação e a uma pessoa.

- Há quanto tempo reside o senhor em San Stefano?
- Há trinta e dois anos.

- Conhece todas as pessoas do lugar?
- Todas.

- Conheceu a mãe da acusada, Agnese Moschetti?
- Conheci.

- E conheceu a acusada quando criança?
- Conheci.

- Depois da morte de sua mãe, foi o senhor uma das pessoas. que cuidaram dela e, posteriormente, providenciaram a sua ida para a companhia de seus parentes, em
Florença?

- Exatamente.

- Durante a guerra, o senhor era membro de um grupo de guerrilheiros que lutou contra os fascisti e os alemães?

- Isso não é bem assim. Corno sacerdote, meu dever principal consistiu sempre em atender às necessidades espirituais de meu rebanho. Em muitas ocasiões, porém,
colaborei com os guerrilheiros, locais.

- Colaborou, especificamente, com Giaribattista Belloni?
- Colaborei.

- Em que consistia esse trabalho?

- Em levar informações, esconder fugitivos, cuidar dos feridos, transportar, às vezes, armas, víveres e munições.

- E fez essa coisa até o momento do armistício?
- Não.

- Quer fazer o favor de explicar isso ao tribunal?

- Não só nas últimas fases da guerra, como, também, imediatamente após, fui levado, por motivos de consciência, a afastar-me deBelloni e com efeito a censurá-lo
abertamente.

- Por quê?

- Porque achava que muitas de suas ações eram ditadas não, pelas necessidades da guerra, mas por desejo de vingança pessoal ou. tendo em vista vantagens pessoais.

- Pode dar alguns exemplos ao tribunal?

- Belloni e seus homens levaram embora o médico da aldeia. e o fuzilaram, simplesmente porque ele prestara cuidados médicos a
143'
feridos alemães. Ordenou a execução de um camponês e de sua mulher, cujas terras confinavam com as de sua propriedade. Mais tarde, comprou essas terras por preço
insignificante. Imediatamente após o armistício dirigiu o julgamento sumário e a execução de sete moradores de San Stefano. Queixas constantes eram-me feitas por
mulheres e raparigas molestadas por ele ou por membros de seu bando.

Um murmúrio de comentários irrompeu pelo tribunal, e o promotor público pÔs-se de pé de um salto:

- Sr. Presidente! Devo protestar, da maneira mais viva possível, contra a irregularidade de tal procedimento. Belloni está morto e, por conseguinte, fora da jurisdição
desta corte. Estamos interessados apenas na acusação de assassinato, feita contra Anna Albertini, a qual, penso eu, já ficou suficientemente provada. Belloni não
está aqui para responder por seus atos. E não é ele quem está sendo julgado, mas sim Anna Albertini.

Pela primeira vez, Rienzi entregou-se a uma refutação enfática:
- Sr. Presidente, membros do júri! 0 que nos interessa é a justiça... que se avalie bem a culpa. Nosso sistema judiciário define e gradua o crime de morte não apenas
quanto ao que se refere ao ato em si, não apenas em termos de premeditação ou provocação, mas também em termos de motivação e de atenuantes. Penso, com todo o respeito,
que esta corte não poderá chegar a uma decisão justa sem que conheça todas as circunstâncias e o caráter de todas as pessoas envolvidas no fato em apreço, inclusive
o caráter do morto.

0 presidente fez com a cabeça um sinal de assentimento:
- A defesa poderá continuar o seu interrogatório.

- Obrigado, Sr. Presidente - disse Rienzi, voltando-se, a seguir, para a testemunha.

Z1 - Agora, padre, o tribunal gostaria de ouvir o que o senhor sabe acerca da morte de Agnese Moschetti, mãe da acusada.

- Sinto muito - respondeu o velho com firmeza, empertigando-se. - Não posso responder a essa pergunta. Não fui testemunha ocular. Muito do que sei chegou a meu
conhecimento sob o sigilo da confissão. Não me sinto livre, pois, para prestar qualquer declaração sobre esse ponto.

- Seria correto dizer-se, padre, que as pessoas lhe transmitiram essa informação no confessionário porque tinham receio de o fazer publicamente?

- Tampouco posso responder a essa pergunta.

Ríenzi aceitou respeitosamente a resposta. Aguardou um momento e, depois, enveredou Por outro caminho:

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- Permita-me fazer-lhe uma pergunta pessoal, Frei Bonifácio. Acaso fez o senhor quaisquer protestos públicos quanto ao julgarnento e execução de Agnese Moschetti?

- Fiz. Condenei-os, de meu púlpito, da maneira mais violenta. Referi-me a outros atos de violência praticados não só pelos guerrilheiros, como pelos que se achavam
no poder. Procurei, através do ex-representante policial, sargerto Lopinto, iniciar uma ação punitiva.

- Mas, depois do armistício, quando o sargento Lopinto já estava morto e o sargento Fiorello o substituiu à testa do posto Policial, por ocasião da volta de Belloni
como prefeito e senhor da aldeia, o senhor tomou qualquer providência?

- Tomei. Pedi ao sargento Fiorello que reabrisse o caso e instaurasse um inquérito público. Ele negou-se a fazê-lo.

- E deu-lhe alguma razão para isso?

- Sim. Disse que muitas coisas tinham sido feitas durante a guerra... coisas que era melhor a gente esquecer. o povo tinha de recomeçar a viver normalmente. Não
havia razão alguma para se alimentar velhos ódios.

- E o senhor concordou com ele? - indagou, suavemente, Rienzi.

Pela primeira vez, o velho hesitou. Seu rosto se anuviou, tremeram-lhe os lábios, e ele se encurvou um pouco mais, como que oprimido pelo fardo da culpa e da recordação.

Eu ... eu não estava certo de que ele não tivesse razão. Havia muita coisa a favor de suas palavras. Eis aí a tragédia da guerra: homens de boa vontade
entregam-se a más ações, e muitas coisas más são feitas em nome do bem. Além disso, tínhamos de reconstruir nossas vidas, e não podíamos fazê-lo tendo por base o
rancor.

De modo que o senhor nada mais fez com respeito ao inquérito?

- Até a morte de Giaribattista Belloni... não.

- Quer dizer que também o senhor, padre - prosseguiu, com fria precisão, Rienzi - participou de uma conspiração de silêncio em torno desse assunto?

- Um homem só pode seguir o caminho que tem a seus pes. Parece que segui o caminho errado. Lamento, agora, que assim tenha sido. Um sacerdote tem muito mais coisas
por que responder.

Nessa altura, não havia ninguém no tribunal que não sentisse simpatia pelo velho, por sua amarga confissão. Mas Rienzi não havia ainda terminado. Voltou à sua mesa
e desembrulhou, com teatral deliberação, um pacote envolto em papel marrom. Depois, tornou ao

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banco das teç49munhas, levando nas mãos algo que parecia ser um pedaço de pedra.

- Reconhece isto9 - indagou, mostrando-o ao frade.

- Reconheço. É um pedaço de pedra do muro do cerniterio da igreja de San Stefano.

- Há aqui algumas palavras escritas. Não lhe peço que as leia, apenas, que me diga quem as escreveu.

- Foram escritas pela acusada, Anna Albertini.
- Sabe quando ela as escreveu?

- No dia seguinte ao da morte de sua mãe.
- O senhor as viu escritas?

- Vi. Deparei com a acusada a escrevê-las no muro com um pedaço de lata.

- Obrigado, padre. É o bastante.

Enquanto o frade, encurvado, alquebrado, deixava o banco das testemunhas, Rienzi voltou-se para a tribuna dos juízes:

- com a permissão desta corte de justiça, proponho-me voltar a este assunto, apresentar novas provas e identificar mais amplamente o caso perante este tribunal.
Por ora, chamaria a atenção dos presentes para o estado de minha cliente. Ela passou, como todos sabeis, por grande tensão. Está, como bem podereis ver, muito deprimida
e necessitada de cuidados médicos. Solicito a clemência da corte, pedindo que os trabalhos sejam adiados até amanhã, quando a defesa apresentará os depoimentos finais.

0 presidente olhou-o com ar severo:

- Este tribunal já concedeu à defesa grande amplitude para a apresentação de seu caso. Devo aconselhar que não se entregue demasiado a táticas e estratagemas
forenses.

- Isto não é estratagema, Sr. Presidente - volveu, com ardor, Rienzi. - É um pedido feito por consideração à minha cliente, que está sendo iulgada pela mais
grave das acusações. Submeter-nos-ernos, de bom grado, à decisão dos senhores juízes, mas rogamos sejam prestados cuidados médicos à acusada.

0 presidente conferenciou uni momento com seus assistentes jurídicos e com os,juízes auxiliares. Depois, decorrido um instante, disse: Professor Galuzzi, queira
aproximar-se, por favor.

Enquanto Galuz7, conferenciava com o presidente e com os outros juízes, prosseguia o inurmúrio que irrompera na sala. Finalmente, o presidente- anunciou, solenemente:

- De acordo com a solicitação da defesa, esta corte reirticiará Os seus trab:ilhos amanhã às dez horas.

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- Obrigado, Sr. Presidente - disse Carlo Rienzi, voltando para a sua mesa como alguém que houvesse apostado todas as economias de sua vida num único lance de dados.

Espero - murmurou Ascolini - que ele tenha boas cartas para apresentar amanhã. Do contrário, eles o crucificarão. - E, bmscamente, acrescentou: - Carlo irá jantar
hoje, com vocés. Quero falar-lhes, antes que vocês o vejam.

Landon franziu a testa, com ar de dúvida:

- Duvido que eu disponha de tempo. Ninette não está aqui, e eu prometi a Carlo esperá-lo depois da sessão.

- Mande-lhe, então, um bilhete - disse-lhe, obstinado, o velho. - Diga-lhe que vá diretarnente ao apartamento, daqui a uma hora. Mas por que isso, doutor? - indagou
Landon, a voz um tanto irritada. Sua paciência estava quase esgotada pelas exigências daquela gente.

Ascolini foi bastante perspicaz para perceber de que se tratava. Ergueu as mãos, num gesto de escusa:

- Eu seil Eu seit Pedimos demasiado e damos, em troca, muito pouco. Envolvemos vocês em nossas intrigas e os magoamos porque vocés são nossos amigos. Perdoe-me.
Prometo-lhe que esta será a última vez. - Tirou do bolso um caderninho de notas e um lápis.
- Seja indulgente para comigo esta vez. Escreva um bilhete a Cario; pediremos a um dos escrivães para que lho entregue.

Relutantemente, Landon redigiu umas linhas, e o velho pediu a um dos escrivães do júri que entregasse o bilhete a Rienzi. Depois, tomou Landon pelo braço e conduziu-o,
em meio ao burburinho do público que se dispersava, para a pálida claridade da tarde, que já descia sobre a cidade.

Após três minutos de tortuosa caminhada, chegaram a uma pequena praça, que tinha ao centro uma fonte batida pelas intempries e, ao lado, um café surpreendentemente
minúsculo, onde serviam chá gelado e várias espécies de tortas. A praça estava ainda quente e úmida, mas, dentro, havia penumbra e um ar aprazível. Foram atendidos
prontamente, e Ascolini começou, de maneira brusca e séria, a expor seus pensamentos:

- Carlo fez muito, muito mais do que eu esperava. Mas não poderá vencer, claro. Amanhã será um dia perigoso para ele, mas, se conseguir sobreviver, terá obtido um
triunfo profissional. Terá vinte causas sobre a sua mesa, antes de terminar a semana. E isso

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será apenas um pequeno prenúncio do que virá depois. Sua primeira batalha terá sido ganha, como já foi, com efeito, ganha: provar que é um bom advogado e um espírito
independente. Mas uma batalha não é uma campanha, e haverá outras, mais duras ainda. Para esta, ele estava armado pelo estudo e pelo aprendizado; para as outras,
receio que ele não esteja nada preparado.

Já o aconselhei há várias semanas - disse, rudemente, Landon. - Ele só poderá vencer se empreender unia retirada. Vã léria não serve para ele. Receberá tudo e não
dará nada em troca. Ele passará o resto da vida tentando domesticá-la... e acabará como um velho em companhia de uma megera. - Fez uma pausa e acres,centou, pesaroso:
- Perdoe-me, doutor. Tenho grande respeito pelo senhor, e ela é sua filha. Mas não posso continuar a ser cortês.

- Não há necessidade de que seja cortês - respondeu, com brandura, Ascolini. - Sei que ela sente ciúme do senhor e de Ninette, e que quer criar complicações
entre ambos. Mas o senhor também criou urna certa complicação, ao dormir com ela.

Envergonhado, chocado, Landon fitou-o, atônito:
- Como foi que soube disso?

Ascolíní fez um gesto com a mão, corno se aquilo não tivesse importância:

- Ela própria me contou, no dia seguinte ao de sua pequena' aventura. - Sorriu entredentes, com desagradável satisfação. Oh, imagino que ela prometeu discrição e
sigilo, mas o senhor não devia deixar-se levar por tais juramentos.

- De fato, não devia, - disse Landon - mas me deixei levar. Não compreendo, porém, por que razão ela lhe disse isso.

Uma ameaça - respondeu, tranqüilamente, Ascolini. Uma asserção de poder por parte de uma mulher ciumenta. Se eu tornasse a interferir em suas relações com Lazzaro,
ela contaria tudo não só a Carlo como a Ninette.

- Ela contou a Nínette, à hora do almoço.

Ascolini fez, com a cabeça, um gesto de compreensão:

Eu esperava que ela o fizesse. Qual a reação de Ninette? Melhor do que eu mereceria - respondeu Landon. Deixei-as ;untas. 0 que aconteceu depois, eu não saberia
dizer. Mas, ao saber de tudo, doutor, por que razão o senhor não me procurou?

Ascolíní alçou os ombros, num de seus gestos eloqüentes:

- Achei vantajoso não lhe dizer nada. Pensei, acertadamente, que,o senhor se sentiria obrigado a colocar-se do lado de Carlo e ajudá~lo. Quanto ao resto - ajuntou,
tornando a rir entredentes, como se zombasse de si próprio - eu bem podia compreender, Eu próprio já fiz isso com filhas e mulheres de outros homens. E havia
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uma certa satisfação, de minha parte, em ver um homem como o senhor escabujar uni pouco. Sei que o escandalizo, Sr. Landon. Mas ia lhe disse, há muito tempo, que
espécie de gente somos nós, A '" ficientemente honesto para unica coisa a meu favor é que sou su

admitir que assim 6. Não sou um nobre pai a colocar a sua filha virgem em leitão. já fui conivente com muitas loucuras para que não pudesse suportar esta equanimidade.

Landon explodiu, rudemente:

- Então por que razão, com, os diabos, o senhor fez tanto barulho a respeito de Basilio Lazzaro?

Ascolini respondeu, no mesmo tom equânime'

- Mesmo numa sociedade como a nossa, Landon, velha, sofisticada e, não raro, corrupta, há certos limites, além dos quais uma mulher não pode ir, se quiser preservar
o seu lugar. Divertimo-nos com os entretenimentos dos casamentos de conveniência. Mas fazemos objeções a vulgaridades tais como Lazzaro. Esse caso teria de terminar,
pois que, do contrário, não haveria salvação para Valéria.

- E o senhor acha que ela tem salvação, agora?

- Apenas uma: Carlo. de acordo.
- Ninette disse,a inesma coisa. Não sei se estou

Talvez o caminho já esteja fechado. z, 0 velho advoE pensa que. não o sei? - Pela primeira ve

gado revelava certa irritaçáo. - Por que razão julga o senhor que lhe fiz tantas confidências? Porque desejo usá-lo, Sr. Landon... Veja! nhã. Falei com ele e com
Galuzzi. Sou

Estive com Carlo esta ma 1 estão as relações bastante velho para que não compreenda em que pe . Sabe o que entre Carlo e sua
cliente. O senhor é um profissional te! os sinaisisso significa. Carlo sente afeto por essa moça. Já no em Eu próprio tive certas clientes pelas
quais me deixei arrastar circunstâncias muito menos favoráveis. Eu era suficientemente cinicO para aproveitar a oportunidade. Mas Cario não é cínico e, há Muite,
tempo, tem fome de amor.

Landon abanou a cabeça e Tecostou-se, cansado, em sua cadeira, sem provar o café que tinha à sua frente.

Sinto muito, doutor. posso receitar para Carlo ... como jú o fjZ . . mas não posso obrigá-lo a tornar o remédio. Ademais, não creio q,,ie a coisa possa ir rnuito
longe. A moça é mentalmente enferma!

- E acaso o senhor, Sr. Landon, jamais encontrou alguém que tívesse necessídade de urna enfermidade na criatura amada'

s - respondeu Landon, cada vez mais impacieiTtC: Às veze

- Mas, com os díalbos, que espera o senhor que eu faça? Que faça
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uma pequena preleção a Carlo e o mande de volta à extremosa Valéria?

- Sinto muito, Sr. Landon - respondeu, com grave dignidade, Ascolini. - Lançamos teias para apanhá-lo e, agora, estamos tão emaranhados quanto o senhor. Um dia,
talvez, tenhamos a graça de ernendar,-nos, mas o senhor me fez uma pergunta e essa é minha resposta. - Fez uma pausa e acrescentou, com uma simplicidade quase tocante:
- Diga a Carlo, da parte de alguém que sabe o que está dizendo que, às vezes, é melhor que a gente se contente com uma maçã pequena e azeda do que com uma fruta
desconhecida num pais que não é o nosso.

Ao chegar ao apartamento, Landon encontrou Ninette sozinha, azafamada com os preparativos do jantar de Carlo Rienzi. Abraçaram-se, mas sem ardor - e, depois, Ninette
disse-lhe:

- Tive uma longa conversa com Valéria. Eu a compreendo, Peter, e tenho pena dela. Todos os seus pontos de apoio foram destruídOs com um único golpe ... e Ascolíni
é responsável por isso. Gosto dele, como você sabe, mas ele foi brutalmente egoísta, não só nesse caso como em muitos outros. Durante toda a vida, procurou centralizar
em sua pessoa o afeto de Valéria. Agora, como deseja que ela tenha filhos - e também porque Carlo, de repente, passou a assemelhar-se ao filho que ele desejaria
ter - ele se afasta de Valéria. Ela se sente desorientada, Peter... Desorientada, amargurada e Ciumenta. De modo que procura lançar-se contra todos os que se encontram
ao seu alcance. .

- Ela ainda tem contra quem lançar-se: Carlo - disse, com tristeza, Landon. - Acho que eu deveria falar com ele, antes que ela o faça.

- Não, Peter! - exclamou, com firmeza, Ninette. - Enquanto houver uma Possibilidade de que ele não o saiba, acho que devemos aferrar-nos a ela. Depois de' minha
conv2rsa com Valéria, Penso que existe tal possibilidade. Ela sabe, pelo menos, que nada tenho contra ela... e que você tampouco o tem. ,

- Acho que me sentiria melhor se contasse tudo a Carlo.
- E como se sentiria ele, Peter?

- Não sei.

Ela, então, o enfrentou com a pergunta que ele temera durante toda a tarde:

- E como é que você se sente agora, Peter... a nosso respeito?
- Sinto

-me envergonhado de mim mesmo, se é que isso serve para alguma coisa.

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- Por que razão se sente envergonhado, Peter? Por que você não é o homem que julgava ser?

- Em parte. Todos nós temos o nosso orgulho, como você sabe. E, em parte, porque você merece que eu proceda melhor com você.

- Você diz isso a sério, Peter? Mesmo sabendo o que houve entre mim e Lazzaro?

- Lazzaro foi um velho episódio para você. 0 que aconteceu comigo foi algo diferente. Não há desculpa para isso.

- Há sempre uma desculpa, Peter. Isso é o que me preocupa. 'Eu não sou perfeita, Deus bem o sabe. Se fôssemos casados, eu provavelmente lhe daria vinte desculpas
a mais num mês, mas se você as aceitasse, eu o odiaria. Não quero casamento de espécie alguma, Peter. Não desejo uma união que se converta inevitavelmente na espécie
de crueldade que vimos ser praticada nas últimas se'manas. Não me seria possível suportar tal coisa. Eu definharia muito rapidamente. Eu o amo, chéri, mas quero
vê-lo contente. Amo-o bastante para desejar que você se vá, se não puder sentir-se contente comigo.

- Eu também a amo, Ninette, mais desesperadamente do que jamais julguei possível. - Aproximou-se dela, mas ela o afastou de si. Landon. prosseguiu, expondo seus
pensamentos com dificuldade:
- Durante toda a minha vida, por mil e uma razoes, procurei bastar-
1

me a mim mesmo, não depender de runguém, manter-me fora do alcance do sofrimento que outras pessoas pudessem causar-me. É assim que me conhecem em minha profissão
- sujeito impetuoso, ambicioso, em quem desejariam passar uma rasteira; mas não podem fazê-lo porque se trata de um sujeito que conhece bastante as coisas e é muito
pouco sensível. Eu poderia voltar a isso, mas já não me sentiria satisfeito. Sei de que preciso. Sei que preciso de você. Quero dizer-lhe uma coisa, querida. Jamais
o disse a qualquer outra pessoa em minha vida. Neste momento, sou quase Carlo Rienzi. Você poderia pedir o preço que quisesse. Creio que eu o pagaria.

Durante longo momento, Ninette permaneceu tíbia e irresoluta, Medindo o risco que correria. Depois, abanou a cabeça e disse, num sussurro:

- Não há preço algum, Peter. Quero que você apenas me ame. Pelo amor de Deus, ame-me, apenas.

Correu para os braços de Landon e beijaram-se, contentes, parecendo a ambos quase possível que a juventude e todas as suas ilusões pudessem de novo renascer.

Quando Carlo chegou, encontrou-os felizes como dois pássaros. empoleirados numa macieira. Fizeram-no passar ao atelier e puse-
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ram-se a preparar os alicerces de uma noitada cordial. 0 chianti, o Barolo e o conhaque toscano são remédios fortes demais para depressão, mas deram resultado, quanto
a eles, aquela noite. Beberarri bastante, riram imoderadamente, entregaram-se com entusiasmo ao jantar de Ninette e, depois, pouco a pouco, mergulharam em sonolenta
satisfação, enquanto Carlo se sentava ao piano e tocava Scarlatti e Brahins, bem como as velhas e plangentes melodias da música folclórica das montanhas,

Foram momentos bons, tranqüilos: uma revivescência da juven tudc e das esperanças puras da inocência. Suas portas estavam tran cadas à intrusão. Suas jane,

'as se abriam sobre telhados prateados a um céu rico de estrelas. A música era um bálsamo Dara as ferida s

recentes e um lenitivo para os pesares antigos. Quando cessou, ficaram sentados, quietos, na semi-obscuridade, 'a conversa a flutuar como palha em água calma,

Sinto-me grato Por esta noite

- disse Carlo, em voz baixa. Mais grato do que poderia dizer-lhes. Amanhã será um dia crítico para mim, mas vocês me prepararam para enfrentá-lo.

- Como correrão as coisas,

Carlo? - indagou Ninette.

- Quem poderá dizê-lo? Estamos sentados nos joelhos da Deusa Cega. Nao ouso esperar demasiado.

- E está satisfeito, até agora?
- Quanto a mim, e

Outros stou. Penso que fizemos mais do que os julgavam Possível- Posso olhar-me num espelho e reconhecer que provei o que me propus fazer. No
cor

o bastante TINO, julguei que isso seria Agora, acho derbasiado pouco, - Interrompeu-se um momento para acender um cigarro, e a chama
do fósforo alumioulhe 0 rosto magro e pálido, inas dotado da nova maturidade da experiência.

- É Anna quem agora me preocupa. Ela tem, até agora, confiado em mim. Tem tão Pouco medo, tão Pouca Compreensão do que o meu fracasso poderia signifícar-lhe!

para mim. ISSO é um Pesadelo
- Talvez para ela seja urna bênção - observou Ninette.

- Oh, não! - Sua reação foi rápida e apaixonada. - Você não compreende. No começo foi uma bênçao. , . mas não agora. Corno é que Poderei explicar? Quando a vi pela
primeira vez, ela` era COMO uma criança ... não... uma mulher que houvesse saído de UrÁQ mundo e penetrado num outro - num mundo estranho, mas Muito mais belo -
em que nada havia para odiar, nada para temer, nada Para desejar. Até Mesmo a prisão lhe parecia um lugar confor~ tável. Julguei, a Princípio, que ela não compreendesse
sua situação, mas ela a Compreendia muito bem, e podia encarar, sem 0 menor sinal de terror, vinte anos de encarcerarnento. A única coisa que parecia
152

interessá-la, em sua defesa, era que eu não me desgraçasse. Faleilhe a respeito, Peter, e você me explicou que se tratava da euforia do choque, do bem-estar daqueles
que sobrevivem a uma arremetida maciça contra os tecidos do cérebro e do corpo e mergulham num estado de anestesia que a própria natureza provê, e que fica além
dos poderes do médico, Depois, lentamente, começou a ter consciência de outras coisas. Pôs~se a falar-me de seu marido, do malogro de sua vida conjugal, da esperança
que agora alimentava de chegar à consumação do amor e dar4he filhos. Fiz uma coisa brutal ao colocá-lo no banco das testemunhas, mas foi necessário. E isso produziu
estranho efeito. Pela primeira vez, ela começou a perceber não apenas a existência da tragédia, mas da esperança. Se, agora, se vir privada disso, só Deus sabe o
que poderá acontecer-lhe!

Sua voz extinguiu-se, e eles continuaram a fumar em silêncio, enquanto a penumbra os envolvia e a fumaça dos cigarros subia, cinzenta e espectral, para a escuridãó
do teto. Decorrido um momento, Ninette perguntou:

- Como é que você a vê, Peter? Que espécie de pessoa é ela? Landon refletiu um momento e,- depois, respondeu, judiciosamente:

A resposta é, creio eu, que ela não é ainda, absolutamente, uma pessoa adulta, Tem vinte e quatro anos e está familiarizada, como qualquer de nós, com o funcionamento
do mundo cotidiano; mas é ainda uma criança, com a inocência de uma criança, as perplexidades de uma criança e a dependência de urna criança.

Extamente, Peter! - exclamou, com ardor, Carlo. - Valéria e o pai julgam que estou apaixonado por Anna. Talvez esteja, mas não como eles imaginam. Valéria jamais
me deu um filho, mas acho que tenho por Anna os mesmos sentimentos que teria por uma filha: zelo, ternura, piedade de tanta simplicidade.

- E ela jamais se tornará adulta? - indagou Ninette. E foi Landon. quem respondeu:

- É possível, mas o processo será lento. Carlo já viu alguns dos sinais. 0 ato criminoso foi, na verdade, uma tentativa no sentido, de libertar-se, por meio violento,
do fardo do passado. 0 passo seguinte é esse que agora estamos vendo: ela está tateando o caminho, corno urna criança, em busca de urna afirmação de identidade.

Como ocorreu esta tarde - interveio Carlo, apanhando o, fio do argumento. - Pela primeira vez, ficou zangada comigo, porque eu lhe disse que ela deveria recear por
seu próprio destino, ao invés de deixar que eu carregasse o fardo de seus temores.

Houve ligeira pausa, interrompida por Landon, que, da penumbra em que se achava, perguntou, calmo e astuto:

153
- E que disse ela a isso, Carlo?

- Que eu era impaciente com ela, que eu pedia muito demasiado cedo, que ela queria ser mulher, mas que não podia tornar-se adulta sozinha.

- Pobre criança! - disse, baixinho, Ninette. - Pobre criança, tão desnorteada!

- Mas então vocês não percebem? - exclamou Rienzi com intensidade, em tom novo e vibrante. - Ela está, agora, cuidando de si mesma, procurando um novo caminho. Se
perdermos esta causa, e ela for condenada a vinte anos de prisão, tornará a mergulhar de novo na indiferença completa do desespero. Ela acabará como essas pobres
criaturas que passam a vida toda sentadas a -um canto, sem nada ver, sem nada ouvir, sem nada dizer, sem que tenham sequer, para consolá-las, a idéia da morte.
Mas se ganharmos, se pudermos dar-lhe uma esperança de liberdade dentro de um tempo razoável, ela então continuará a sua busca e, tendo um pouco de amor, talvez
até consiga ser bem sucedida. Até mesmo o que ela sente em mim já fez muito por ela. Um pouco mais ... e quem sabe?

A despeito de si próprio, Landon fez-lhe a pergunta final:

- E você pode dar-lhe tanto, Carlo? E acha que tem o direito de fazê-lo?

A resposta veio firme, segura:

- Penso que tenho. Já dei muito em troca de nada... Por que razão não poderia dar um pouco a essa pequena e desorientada criatura?

- Chegará a ocasião - disse, deliberadamente, Landon - em que a sua criança se transformará em mulher e lhe pedirá mais do que você terá para dar.

- Não posso pensar nisso - respondeu Carlo Rienzi. - Não posso pensar além de amanhã.

NA MANHÃ SEGUINTE, Landon e Ninette chegaram ao tribunal quase quarenta minutos antes do início dos trabalhos; mas tanto a ante-sala como a calçada já estavam atulhadas
de gente que clamava por entrar. Foram necessários vinte minutos de discussão com um funcionario apoquentado, para que conseguissem ser admitidos ao tribunal, onde
outras pessoas privilegiadas já se achavam sentadas.

Ascolini lá estava com Valéria. Ela estava vestida com mais sobriedade do que habitualmente. Tinha o rosto pálido, os olhos pesados, e sua maneira era estranhamente
alheia e distraída. Landon e Ascolini sentaram-se lado a lado, entre as duas mulheres, 0 velho advogado também se mostrava tenso e preocupado. Respondeu de modo
vago às perguntas de Landon, resumindo as perspectivas da manhã em frases curtas, irritadiças:

- Até agora, foi apenas uma questão de tática. Carlo ganhou terreno. As linhas principais da defesa aclararam-se. 0 estado de espírito da corte parece pender ligeiramente
a seu favor. A partir deste ponto, tudo depende dos depoimentos que ele tenha para apresentar e do uso que faça de suas considerações finais. Eu teria gostado de
discutir o assunto com ele, mas também é um sujeito de cabeça dura. Sinto-me esquisito esta manhã. Já é tempo, pensei, de aposentar-me.

As portas de ambos os lados do tribunal se abriram, e as personagens começaram a entrar para o ato final do drama jurídico. 0 juiz auxiliar da vara e seus escrivães
acomodaram-se em seus lugares. 0 promotor falava, em voz baixa, com seus assistentes. Carlo Rienzi entrou, acompanhado de seus dois colegas de aspecto modesto. Sentou-se
à sua mesa e pôs-se a folhear os papéis, fazendo anotações numa agenda que tinha a seu lado. Houve um murmúrio de vozes exaltadas, quando Anna Albertíní entrou na
sala, trazída pelos guar-

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das. Depois, como que para evitar quaisquer outras discussões, o presidente e os juizes assistentes penetraram rapidamente no recinto e to maram seus lugares na
tribuna. Houve um sussurro e um arrastar de pés, enquanto os espectadores se sentavam, após o que as batidas secas do martelo reduziram a silêncio mortal a sala
repleta.

Carlo Rienzi levantou-se. Sua voz era fria, clara e impessoal:
- Sr. Presidente, Srs. membros do júri. Temos mais duas testemunhas a apresentar e, depois, o nosso depoimento estará completo. com a devida permissão do tribunal,
gostaria de interrogar Ignazio Carrese.

- Permissão concedida.

0 homem que se aproximou do banco das testemunhas era um camponês baixo, entroncado, de pouco menos de cinqüenta anos, mãos nodosas, andar desajeitado e rosto queimado
do sol, enrucrado e lanhado como as rochas batidas pelas intempéries de seu paeseo natal. Lido o juramento, resmungou um assentimento e permaneceu de pé, braços
lassos, ombros arqueados, cabisbaixo, a fitar o assoalho.

Rienzi fê-lo suar um momento e, depois, recuou um passo, até que o camponês ergueu a cabeça e fitou-o com olhos assustados.
- Queira dizer o seu nome ao tribunal.

- Ignazio Carrese.

- Qual é o seu meio de vida?
- Sou agricultor em San Stefano.

- ]É proprietário de suas próprias terras?
- Sou.

- E elas sempre lhe pertenceram?
- Não. Comprei-as depois da guerra.
- Onde conseguiu o dinheiro?

- Belloni me emprestou.

- E quais os juros que lhe cobrava?
- Juro algum.

- Ele foi sempre assim generoso?

Carrese baixou os olhos, hesitou e, depois, balbuciou sua resposta:

- Eu ... eu não sei. Foi generoso comigo, pelo menos. Eu ... eu era o seu braço-direito, entre os guerrilheiros.

- Percebe que, respondendo a algumas das perguntas que you fazer-lhe, o senhor pode ser prejudicado?

A testemunha levantou a cabeça e endireitou o corpo, como que disposto a enfrentar um destino há muito adiado. Sua voz adquiriu um novo tom, mais firme:

Sim. Eu ... eu percebo.

Por que razão concordou em vir depor?
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Falei com Frei Bonif ácio. Ele me disse Sua boca tremeu, parecendo, por um momento, que iria sucumbir.

- Disse-lhe o quê? - interpelou-o, vivamente, Rienzi

- Que não bastava que eu estivesse arrependido. Que eu precisava reparar o mal.

- Decisão sensata, mas tardia - comentou, seco, Rienzi que, espero, talvez possa ser levada em conta por este tribunal. Ficou um instante em silêncio, como que
a desafiá-lo e, depois, prosseguiu, em tom mais brando: - Ignazio Carrese, quero que se lembre de um certo dia, em 1944. Era um sábado, creio eu.

Como que ansioso por expiar a sua falta o mais rapidamente possível, a testemunha prosseguiu, embaraçada, enveredando, de vez em quando, no rude dialeto da região:

- Exatamente ... Foi num sábado, à noite. Estávamos todos em nosso esconderijo, nas montanhas. . . eu ... e os outros rapazes. Aguardávamos a chegada de Belloni.
Quand le apareceu, vimos o e

que estava completamente alucinado. Tinha no olhar aquela expressão que costumava ter quando alguém o traía. E disse: "Aí está! Ninguém esbofeteia Belloni e se poe
a fresca! Temos um trabalho para amanhã, um grande trabalho!"

- E ele lhe disse de que trabalho se tratava?
- Sim, disse.

- Que foi que ele disse?
- Disse ... disse ...

Camarinhas de suor escorriam -lhe pela testa enrugada - e ele as enxugou com um lenço encardído.

- Que foi que ele disse? - instou, com firmeza, Rienzi.

- Disse: "Trata-se daquela cadela da Moschetti. Seu marido é um fascista imundo e ela e da mesma laia. Ela tem de sumir!"

Um gemido surdo, vindo do banco dos acusados, fez com que todos se voltassem e vissem Anna Albertini a oscilar em sua cadeira, os olhos fechados, extremamente pálida.

As palavras de Rienzi atravessaram o tribunal como um estampido de revólver:

- Domine-se, Anna!

Uma exclamação de surpresa ecoou pela sala.

0 presidente ergueu a cabeça, com ar de espanto e desagrado, mas o efeito sobre Anna Albertini foi instantâneo. Ela abriu os olhos, sentou~se ereta e apoiou as mãos
no anteparo do compartiMento.

- Desculpe-me - disse, em voz baixa. - Já estou bem, agora.

Rienzi voltou-se para a testemunha:

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- Belloni disse: "Seu marido é um fascista imundo e ela é da mesma laia." O senhor sabia o que ele queria dizer com isso?

0 velho camponês pareceu encolher-se, e sua voz baixou de tom:

- Claro. Todos nós sabíamos. Há muitas semanas, já, vinha ele procurando dormir com ela, mas ela nada queria com ele.

- E ele estava disposto a matá-la por isso?
- Sim.

- E o senhor não protestou?

- Claro! Claro que sim! - respondeu o camponês, procurando, com débil animação, justificar-se. - Procurei... bem como alguns outros ... mas Belloní fez o mesmo de
sempre. Puxou uma arma e disse: "Vocês conhecem o reguiamento. Façam o que lhes digo, pois, do contrário, darei cabo de vocês. Apanhem suas armas."

- E, no dia seguinte - disse, em voz baixa, Rienzi - vocês mataram a mãe de Anna Albertini?

- Nós não a matamos! Foi Belloní quem o fez. Nós ... nós apenas o acompanhamos, como tínhamos de fazer.

Houve longo e tenso silêncio no tribunal. Todos os olhos estavam voltados para o camponês mal vestido, encurvado, que ocupava o banco das testemunhas. Depois, como
que movidos por um impulso comum, voltaram-se para a jovem, que continuava sentada como uma estátua, a fitar absortamente a distância. com toda a calma, Rienzi prosseguiu
o interrogatório:

Poderia dizer-nos, por favor, como foi praticado o crime?
0 velho camponês tomou fôlego e começou a esforçar-se por chegar à revelação final:

- Era uma noite de sábado ... Nós todos nos dirigimos à casa dos .Moschetti. Encontramos Agnese Moschetti em companhia da menma...

- Desta moça? - indagou Rienzi, indicando Anna Albertini.
- Sim ... mas ela era então, claro, apenas uma menina ... de oito ou nove anos, creio eu. Nós... nós a seguramos enquanto Belloni levava a mãe dela para o quarto.
A menina gritou e esperneou como maluca, até que ouvimos os tiros ... Depois ... depois, ela ficou quieta... Não disse urna palavra; apenas ficou a olhar ... os
olhos parados, como morta. . . - Sua voz vacilou, e suas últimas palavras foram proferidas atropeladamente, num assomo de angústia:

meu Deus, perdoai~me! Mas não pude evitar... Não pude! Enfiou o rosto nas mãos nodosas e pôs

-se a soluçar incontrolavelmente, enquanto Anna Albertini permanecia imóvel, tomada de seu antigo e cataléptico horror.

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Lentamente, Rienzi dirigiu-se à sua mesa e apanhou o pedaço, de pedra que mostrara a Frei Bonifficio. Depois, estendeu-a ao velho, camponês, que o fitou com ar apalermado.

- Já viu isto antes?

Carrese, sem poder falar, tez um sinal afirmativo com a cabeça. Rienzi insistiu, com voz tranqüila:

- Sabe ler?
- Sei.

- Quer fazer o favor de ler as palavras escritas nesta pedra? Carrese&-desviou o-olhar, o rosto contraído:

- Por favor ... por favor, não me peça isso.

Rienzi deu de ombros e voltou-se para o presidente:

- com a devida permissão, eu próprio as lerei. São palavras simples, senhores, traçadas profundamente com um pedaço de lata. Estiveram, durante dezesseis anos, expostas
ao sol e à chuva. mas são ainda legíveis. Dizem: "Belloni, um dia eu o matarei!" ,

Entregou a pedra ao presidente, que lhe lançou um olhar perfunctório e a passou aos seus colegas, para que a examinassem. Fraco, exausto, Rienzi permaneceu
de pé diante da tribuna dos

juizes. Aguardou até que a pedra passasse de mão em mão; depois, apanhou-a, e dirigiu-se à mesa do promotor. Depôs a pedra diante do representante do Ministério
Público e anunciou:

- Gostaria que o Sr. Promotor também lesse essas palavras escritas por uma criança de oito anos um dia apos a morte de sua mãe, três dias antes que uma parenta bondosa
a levasse para viver consigo em Florença. - Sua voz se elevou, numa nota de viva irritação: - E elas provam o que afirmam! Premeditação! Piemeditação, numa criança
de oito anos, que via sua mãe ser violentada e assassinada por um herói dos guerrilheiros! Já terminei o interrogatório desta testemunha, Sr. Presidente.

0 camponês, a caminhar pesadamente, voltou para o seu lugar, em meio ao silêncio que se fizera na sala. 0 presidente escreveu algo numa folha de papel e passou-a
ao juiz imediato. Depois, disse com voz fatigada, sem inflexão:

Queira chamar sua próxima testemunha, Dr. Rienzi.
- Chamo o Dr. Peter Landon!

Após o dramático depoimento de Carrese, Landon teve a impressão de que a sua entrada constituía um anticlímax; mas seu aparecimento e o som inglês de seu nome causaram
um murmúrio de comentários na sala. Landon acercou-se do banco das testemunhas, fez o juramento de praxe e identificou-se. Rienzi, intencionalmente, detevese um
momento nas qualificações e funções exercidas pelo depoente,

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ou de boa vontade, mas porque nossa lei jamais definiu, adequadamente, a natureza da responsabilidade moral, pois que sua evolução não acompanhou as descobertas
da psiquiatria moderna quanto ao que concerne às complicadas enfermidade da mente humana.

"Que podereis fazer, dedicados como sois à verdade e à justiça, mas sabendo que estas se encontram além de vossos anseios mais nobres? 'Espero possais definir este
ato nos termos mais lenientes sancionadoS pela lei. Imporeis, estou certo, uma pena mínima, não só quanto à duração, mas também quanto ao lugar e às condições. Se
deveis encarcerar esta jovem, que é ainda apenas uma criança, que nãO o seja numa casa de correção, mas num lugar em que possa encontrar amor, desvelo e uma esperança
de cura das enfermidades que recaíram sobre ela. . . "

Pela primeira vez Rienzi hesitou. Seus ombros tremeram, e ele ficou, um momento, cabisbaixo, e esforçando-se por dominar-se. Depois, endireitou o corpo e abriu os
braços, num apelo final e apaixonado:

- Que mais posso dizer, senhores? De que outro modo poderei mostrar-vos a maneira de harmonizar a fria irracionalidade da lei com a verdade e a justiça a que o instinto
humano aponta com infalível certeza? Como vós, sou um servidor da lei e, como vós, sinto-me, neste momento, envergonhado de minha servidão. Deus nos ajude a todos!

Sem proferir outra palavra, voltou-se, dirigiu-se à sua mesa e sentou-se, afundando o rosto nas mãos.

Foi um momento magnífico, um instante de penetração, como os que os grandes pregadores, às vezes, impõem ao seu auditório. 0 paradoxo da condição humana foi subitamente
posto a nu, bem como o que há nela de patética, pelo que há de lamentável e de maciço terror nas conseqüências da imperfeição mais banal. No tribunal, uma mulher
pôs-se a soluçar, espasmodicamente. Ninette enxugou os olhos, e o velho Ascolini assoou ruidosamente o nariz. 0 presidente, de cabelos brancos, limpou os óculos,
e seus assistentes procuraram em vão disfarçar a emoção que aquele jovem advogado lhes causara. Só Anna Albertini permanecia imóvel e distante, alheia ao alto clima
emocional da cena.

0 presidente inclinou-se em sua cadeira:
- Dr. Rienzi...

Rienzi levantou a cabeça, com ar vago, e todos viram que ele tinha o rosto úmido de lágrimas.

- Peço-lhe ... peço-lhe que me perdoe, Sr. Presidente.
0 presidente fez com a cabeça um gesto de simpatia:
166

Esta corte compreende que o advogado da defesa se encontra sob grande tensão, mas é de praxe, após terem usado da palavra, o promotor e o advogado da defesa, que
se dê aos acusados a oportunidade de fazer alguma declaração pessoal.

Rienzi lançou um olhar a Anna Albertini e, depois, abanou a cabeça:

- Dispensamos o privilégio, Sr. Presidente. Nada há a acrescentar à nossa defesa.

- A corte retira-se para deliberar.

Mal o presidente se levantou, ouviu-se uma voz histérica de mulher, a gritar do fundo do tribunal:

- Dêem-lhe a liberdade! Acaso ela já não sofreu bastante? Dêem"lhe a liberdade.

Dois policiais correram para a mulher, mas, antes que chegassem até ela, toda a assistência já estava a repetir o grito, a bater os pés e a bradar, num, assomo de
vergonha, piedade e frustração:

- Dêem-lhe a liberdade! Dêem-lhe a liberdade!

Em meio à desordem que se seguiu, os juízes deixaram a sala apressadamente, Anna foi reconduzida à cela, e Ascolini fez com que Valéria, Ninette e Landon entrassem
no recinto reservado do tribúnal, onde os quatro ficaram junto de Rienzi e de seus colegas, a observar, com leve espanto, a maneira pela qual os policiais evacuavam
0 Povo, como carneiros, através da antecâmara, em direção à rua, enquanto os gritos eram cada vez mais altos e ferozes:

- Dêem-lhe a liberdade! Dêem-lhe a liberdade!

Por fim, as portas se fecharam e eles ficaram a sós com seus dramas pessoais, cheios de confusão e perplexidade. Durante um momento, ninguém proferiu palavra; depois,
Ascolini lançou os braços em torno de Carlo e abraçou-o à maneira meridional, ardente:

- Maravilhoso, meu rapaz, maravilhoso! Sinto-me orgulhoso de você! Você ainda fará grandes coisas, mas talvez jamais depare nos próximos vinte anos com um momento
como este! Veja-o, Valéria! Veja o homem com quem você se casou! Não se sente orgulhosa dele?

- Muito orgulhosa, papai.

com a experimentada sedução de uma atriz, abraçou-o e coloulhe à face os lábios 'frios. Landon, que se achava bastante próximo, pôde ouvir-lhe as palavras:

- Você venceu, Carlol Não lutarei mais contra você. Prometo-lhe.

Havia um infinito cansaço no sussurro com que ele respondeu:
- Havia necessidade de tanta coisa, Valéria? Havia necessidade de tudo isto?

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Depois, beijou-lhe de leve a face e acercou-se dos outros com um sorriso fatigado, para receber seus cumprimentos. 0 promotor apanhou os seus papéis e aproximou-se
do grupo, com sua cordíalidade profissional:

- meus cumprimentos, Rienzi! Foi a melhor maneira de conduzir urna causa má que já vi em muitos anos! - Voltou-se, com um sorriso, para Ascolini: - Um discípulo
de classe, hein, dottore? Nós, velhos ratões, ternos de aprender novos truques, para que possamos enfrentá-lo!

Rienzi enrubesceu e murmurou, vagamente: É muita bondade sua!

De modo algum, meu caro colega! O senhor o merece. E se sairá muito bem deste caso. A imprensa o apoiará em cheio. 0 presidente tampouco é homem
que viva a dispensar cumprimentos à toa. Dentro de uma ou duas semanas, o senhor terá em mãos um número de causas muito maior do que aquele a que poderá
atender! Rienzi sorriu, com ar triste:

- Ainda não sabemos qual a decisão.

- Tolice, meu caro colega! - respondeu, a sorrir, o promotor, dando-lhe uma palmadinha nas costas. - A decisão não tem importância. 0 que conta é o seu êxito, e
o senhor fez urna estréia surpreendente.

Quando o promotor se afastou, Ascolini comentou, irrítado:
- Esse sujeito é um idiota! Não lhe dê atenção.

- Ele quis ser amável - respondeu, encolhendo os ombros, com ar absorto, Rienzí. - Diga-me, dottore: qual será, na sua opinião, o resultado?

Ascolini contraiu os lábios finos e, depois, respondeu, pesando as palavras:

Penso que você tem boas possibilidades. As provas médicas atuam fortemente a seu favor. Você fez bem em sublinhar em sua defesa, o dilema judicial. Isso sempre predispõe
0 júri a encarar com simpatia o acusado. Por outro lado, o judiciário está sempre preocupado com a, questão de precedente legal. Não pode encarar, nem dar a impressão
de que está encarando com tolerância a questão da vendetta. Eu não gostaria de estar, neste momento, no lugar desses juízes. Mas você, meu rapaz, se saiu estupendamente
bem. - Sorriu, com certo constrangimento, e ajuntou: - Se você não empenhou o relógio, gostaria que mo devolvesse.

- O senhor me fez muito feliz, dottore - respondeu, com ar grave, Carlo. - Mas, na verdade, eu vendi o relógio. Sorriu, com e,xpressão infantil. - Esta foi uma aventura
bastante cara para mim.
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- Mas que lhe renderá juros cem vezes maiores - disse calorosamente, Ascolini. - E você, então, me comprará outro relógio. Rienzi voltou-se para Ninette e Lanaon:

- Devo muito a você, Peter ... E a você também, Ninette. Vocês foram mais pacientes comigo ... conosco, do que merecíamos. Landon corou e respondeu,
em voz baixa:

- Deixemos isso para mais tarde, Carlo. Eu também tenho algo a dizer.

Houve uma pausa breve, embaraçosa, mas, antes que alguém encontrasse palavras para quebrá-las, o Prof. Galuzzi acercou-se deles, vindo da cela em que se encontrava
Anna Albertini.

Como está Anna, professor? - indagou, ansioso, Rienzi. Melhor do que esperava. Dei-lhe um sedativo ligeiro e um tranqüilizante. Atravessaremos o resto do dia sem
qualquer complicação. Eu gostaria de falar com o senhor, dentro de alguns momentos, em sua ceia. Foi estupenda a sua defesa, meu jovem. Eu próprio me senti bastante
cornovido.'

- E concordou com ela, professor?

- De um modo geral, concordei. A definição de responsabilidade criminal é um dos grandes problemas da medicina legal. 0 interrogatório a que submeteu o Dr. Landon
lançou bastante luz sobre a questão. com sua permissão, gostaria de referír-me a ele num trabalho que estou preparando para o Registro Médico.

Isso é uma grande honra, professor.

De modo algum. O senhor prestou grande serviço a todos nós.

Rienzi hesitou um momento e, depois, disse sem rebuços:

- Vão pedir-lhe, naturalmente, que faça uni relatório sobre este caso, e que apresente recomendações quanto ao tratamento a que deverá ser submetida a minha cliente.
Seria indiscrição perguntar-lhe de que modo o senhor o fará?

Absolutamente - respondeu, em tom cordial, Galuzzi. numa de Sugerirei o mínimo encarceramento possível, de preferência desnossas mais modernas instituições
psiquiátricas, onde as pacientes frutam de grande grau de liberdade, conforto e atividade construtiva.

análise e tratamento médico. Recomendarei ainda observação regular

E fará tais recomendações mesmo que percamos -a causa9 Certamente. Devo ressaltar, no entanto, que a decisão final cabe ao tribunal.

- Sei disso. Espero, porém, que o senhor compreenda que me interesso pelo futuro dessa moça.

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- Terei prazer em mantê-lo informado de seus progressos. Agora, peço que me desculpem, pois é provável que eu seja chamado, a qualquer momento, para conferenciar
com os magistrados.

Fez ligeira e cerimoniosa curvatura e deixou-os. Rienzi seguiu-o com o olhar, ansioso. Valéria observou astutamente o marido, mas nada disse. Ascolini comentou:

Cada qual em sua profissão, meu rapaz. Sua cliente estará em boas mãos.

- Eu sei - respondeu, macambúzio, Carlo. - Eu sei. Valéria, com um leve toque de irritação na voz, indagou:

- Durante quanto tempo teremos de esperar os juizes? Não podemos ficar a manhã inteira parados aqui.

- Demorarão um pouco, penso eu - disse Carlo. - Por que vocês não saem para tomar um café? Se eu souber onde estão, mandarei alguém chamá-los, quando eles voltarem.

- Por que não vem conosco, Carlo?

- Não, minha querida. Esperarei aqui. Quero falar com Anna. Talvez não haja quase tempo... depois.

- Estaremos no Caffé Angelo - disse, com vivacidade, Ascolini. - ]É o lugar mais próximo. Acalme-se, rapaz; logo isto estará terminado.

Quando deixaram o tribunal, Valéria comentou, num curioso tom de piedade:

- Ele se sentirá solitário, sem a sua virgenzinha...

- Ele está solitário há tanto tempo - respondeu, áspero, Ascofini - que provavelmente já se habituou. Você é uma tola, Valéria. Ele sobreviveu à crise; mas a sua
ainda está por chegar.

- Estamos passando por um momento difícil, dottore - interveio, com tato, Ninette. - Todos nós precisamos ter paciência uns com os outros. Por que não vão, vocês
dois, dar uma volta, indo depois encontrar-nos no Caffé Angelo?

Aquela era a "deixa" de Landon - e ele a aproveitou de bom orado:

t - Façamos isso, dottore. Eu bem que poderia tomar algo mais forte que café.

As duas mulheres os deixaram, e eles puseram-se a andar, vagarosamente, em torno do perímetro ensolarado do Campo. Ascolini parecia cansado. Apoiava-se pesadamente
ao braço de Landon e falava de modo hesitante, pensativo, como se toda a sua incisiva confiança o houvesse abandonado.

- Valéria começa a sentir ciúmes, o que é muito bom. Mas não basta. Ela precisará ser, também, generosa. Quando isto terminar,
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Carlo estará exausto e solitário; terá necessidade de bondade e consideração.

- E, acaso, Valéria poderá dar-lhe isso?

- Espero que sim. Eles precisam de prática e ... e de uma certa humildade. Ela, como eu, é deficiente em ambas as coisas. Sintome preocupado, Landon. Já sou bastante
idoso para ver a magnitude dos meus erros e velho demais para evitar as conseqüências. Vivi, árante longo tempo, sem fé. Agora começo a ter medo da morte e do juizo
divino. É estranho!

- E Valéria também tem medo, pois não?

- Tem medo de outras coisas. De perder-me. De 1ser forçada a submeter-se a outros padrões, diferentes dos meus. De perder a fácil absolvição que encontra
em mim.

- E de perder Carlo?

- Tem medo de que ele a rejeite ... o que não é bem a mesma coisa.

- Que a rejeite em troca de quê? De uma amante?

- Não. Isso não a preocupara muito, creio eu. Justificaria as suas próprias loucuras. A culpa de Carlo preservaria o poder que ela tem sobre ele. E Carlo não é homem
que possa encontrar felicidade numa ligação oculta. 0 perigo, para ambos, é mais sutil: que Carlo possa encontrar dignidade e satisfação em objetivos aparentemente
mais nobres, enquanto que ela ficaria sem dignidade, diante de divertimentos já rançosos.

- O senhor está pensando em Anna Albertini?

- Isso é o começo da coisa, embora não seja, necessariamente, o fim. É uma empresa digna, como vê: uma criatura extraviada a ser socorrida e guiada a um porto seguro;
a inocência a set protegida; a desprezada a ser tratada com carinho e reconduzida ao seu desenvolvimento normal. Haverá outros casos, em número cada vez maior, à
medida que ele for ficando mais velho: impostoras, assassinos, maridos violentos, esposas infelizes com os quais ele se verá, em maior ou menor grau, envolvido.
Posso compreender isso bem.
- Sorriu entredentes, soturnamente: - Desempenhei, com um número demasiado grande de mulheres, o papel de libertino alegre; no entanto, houve uma ou duas delas para
quem fui o cavalheiro pálido e galante, que as levava para casa e as depunha nos braços de suas mamaes, ao inves de levá-as comigo para a cama. É assim que nos nos'justificamos,
Landon. O senhor o sabe tão bem quanto eu.

Landon sabia-o demasiado bem, mas não sabia o que podia fazer para remediá-lo. 0 casamento, na melhor das hipóteses, era um negócio incerto, e a virtude empertigada
podia não raro des-

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truí4o mais rapidamente do que o pecado amável. A dependência mútua era um hábito, o cuidado recíproco uma prenda de difícil cultivo, mas ambos deviam começar num
momento de necessidade comum, e Rienzi e sua esposa pareciam ter-se afastado muitíssimo disso. Foi o que disse a Ascolini, que concordou com um aceno grave de cabeça:

- A necessidade ai está, mas Carlo se cansou de dizê-lo, e Valéria jamais apreendeu tais palavras, Procurei, ontem à noite, ensiná-las a Valéria,'mas não estou certo
de que ela haja compreendido. Talvez Ninette seja mais bem sucedida.

- Assim o espero.

- A dificuldade é que não resta muito tempo. A carreira de Carlo começou hoje. Logo, começará a rolar cada vez mais rapidamente, como um trem. Depois
disso, não haverá mais vagares para jogos amorosos.

Depois desse melancólico sumário, pouco mais havia a dizer, de modo que entraram num bar e tornaram juntos uma dose de conhaque. Feito isso, voltaram lentamente,
ao Café Angelo, a fim de encontrar Ninette e Valéria.

Para alívio de Landon, encontraram-nas a conversar cordialmente diante de suas xícaras de café. Valéria estava pálida, submissa e, parecia, estivera chorando; mas,
ao vê-los, esboçou um sorriso lívido:

- Ninette foi bondosa para comigo, Peter. Eu os tratei a ambos muito mal, mas espero que, doravante, possamos ser amigos.

- Não falaremos mais nisso - disse, com firmeza, Ninette. Isto está acabado... encerrado de vez! E esta noite, teremos uma comemoração.

- Uma comemoração? - repetiu Ascolini lançando um olhar astuto à filha. - Onde?

- Na villa - respondeu, em voz baixa, Valéria. - Pela volta de Carlo. Lá estarão Peter e Ninette, e você, papai, poderá convidar o Prof. Galuzzi e qualquer outra
pessoa que você julgue que Carlo gostaria de encontrar. Telefonei à Sabina, e tudo já está sendo providenciado. Precisamos de uma coisa assim, papai.

Ascolini sorriu, feliz:

- Faremos uma festa, minha filha, que acabe com todas as festas. Deixe a lista dos convidados a meu cargo. Você tem certeza de que eles, lá em casa, estarão preparados
para receber-nos?

- Plena certeza, papai.

- ótimo. Deixe-me, agora, escrever os nomes. Depois, pedirei emprestado o telefone do Angelo, e tudo estará organizado.

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Dez minutos depois, estava ele empoleirado, como um griomo jovial, sobre um alto tamborete, a convidar todas as notabilidades de Siena a que participassem do triunfo
obtido por sua família,

Na alva cela conventual, Anna Albertini achava-se mergulhada, tranqüila, num sono conseguido à custa de drogas, enquanto Carlo Rienzi velava a seu lado, Tinha o
rosto pálido, mas repousado, ituma estranha e vazia beleza. As mãos pousadas sobre o cobertor cinzento, eram lassas e abandonadas como as de uma criança adormecida.
Os cabelos, desfeitos sobre o travesseiro, formavam um escuro halo em torno de sua testa de marfim. Seus seios, pequenos, virginais, arfavam no lânguido ritmo do
repouso. Paixão, culpa e terror eram coisas estranhas àquele sono, e Carlo Rienzi, no penúltimo momento de sua batalha, sentia-se flutuar como uma palha na água
estagnada (a estreita cela.

Tudo o que ele podia fazer tinha sido feito. Tudo o que proni,tera, cumprira. 0 resultado jazia agora nas mãos da Deusa Ccg:, Quanto a ele, sentia-se exausto, vazio
e ressequido como um regãto de verão; mas, ao fitar aquele rosto pálido, inocente, sentiu o primeiro e grato arroio da ternura irromper dentro dele, como iiwa fonte
que surgisse de ressequido areal. Foi uma espécie de r&-igério, após a árida disciplina que se impusera a si proprio - e, movido por súbito impulso, estendeu a mão,
a fim de afastar uma mecha de cabelo que caíra sobre a testa da jovem.

Mas retirou-a, com súbito sentimento de culpa, ao ouvir alouém
9 abrir o ferrolho; depois, a porta se abriu e o Prof. Galuzzi foi Ín'-oduzido na cela.

Galuzzi observou-o, um momento, com olhos astutos, eyperinientados, e indagou:

- Como está ela, Dr. Rienzi?

- Dormindo tranqüilamente - respondeu Rienzi, se e afastando-se da cama.

Galuzzi apanhou a mão ]assa da jovem, tomou-lhe rapickimente o pulso e depôs a mão sobre a coberta.

- Muito bem. Podemos deixar que ela durma um pouco. Penso que, agora, os juizes não tardarão. O senhor lhes deu muito o que pensar, Dr. Rienzi.

- O senhor já conversou com eles?

- Já. Dei-lhes minha opinião nos mesmos termos em que falei com o senhor.

- Fico-lhe grato - disse Rienzi.

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Galuzzi fit01-0 um instante, hesitando ante os sínais de fadiga tensão que se estampavam em seu rosto jovem, belo, Depois disse, pensativo:

- Acho, Dr. Rienzi, que o senhor será, algum dia, um grande advogado. T ,em cérebro para isso; possui as qualidades dramáticas necessárias, a sinceridade que chega
quase à obsessão. Todos os verdadeiramente grandes as possuem: cirurgiões, filósofos, inventores, juristas. Mas, como toda grandeza, isso requer disciplina.

- Que é que está procurando dizet-me, professor? - indagou, calmamente, Rienzi. - Isso tem algo que ver com minha cliente?
- Bastante, creio eu - respondeu Galuzzi, com o mesmo ar

pensativo. - O senhor não está satisfeito com o que fez no tribunal ... e duvido que qualquer outro advogado tivesse feito a metade do que o senhor fez. Mas o senhor
quer ir além. Quer refazer a vida de sua cliente, depois do julgamento.

Rienzi viu-se numa armadilha.

- Alguém teria de fazê-lo - respondeu, incisivo.
- Mas por que o senhor?

Rienzi encolheu os ombros, num ligeiro gesto de perplexidade:
- Colocado o caso nesses termos, mal sei o que responder-lhe. Mas, não vê o senhor que, até aqui, tive a vida dessa moça em minhas mãos? Ela dependeu inteiramente
de mim. Não posso simplesmente deixá-la cair num lago, como uma pedra, e esquecê-la. O senhor certamente o compreende, pois não?

Galuzzi ignorou a pergunta e, por sua vez, fez-lhe outra:
- Esta é a sua primeira causa importante, pois não?
- Sim, senhor.

Durante um momento, Galuzzi nada disse, caminhando apenas para junto da cama e ficando a observar a jovem adormecida. Depois, com voz m ,uito baixa, prosseguiu:

- Haverá muitas outras causas, Dr. Rienzi. Poderá o senhor conduzi-Ias todas como se propõe conduzir o caso de Anna Albertini?-
- Não, creio que não.

- Tornemos um cirurgião ... e eu próprio pratiquei a cirurgia durante longo tempo. Quantas vezes, uma vida humana não depende, literalmente, de suas duas mãos? Às
vezes, essa vida lhe escapa por entre os dedos. Outras vezes, misericordiosamente, ele a salva. Poderá ele lamentar o que perdeu ou carregar, durante o resto da
vida, o fardo das vidas que salvou? Voltou-se e encarou Rienzi com viva determinação: - Acaso está apaixonado por essa moça, Dr. Rienzi?
- Eu ... eu não creio.

Rienzi ficou um momento pensativo. Finalmente, admitiu, com relutância:

174

- Não. Não tenho certeza.

Galuzzi afastou-se, dirigindo-se à janela. Decorrido um momento, tornou a acercar-se de Rienzi. Seus olhos revelavam piedade, e havia brandura em sua voz:

- Eu deveria ter desconfiado. Ninguém poderia fazer a defesa que o senhor fez, sem que o animasse alguma paixão.

- Eu lhe disse que não tenho certeza - volveu Rienzi, com certa irritação na voz.

- Eu sei. Mas ela tem certeza disso, Rienzi fitou-o, sobressaltado:

- O senhor quer dizer que ela está apaixonada por mim?

- Eu não disse isso. Não creio, mesmo, que ela saiba o que é amor. Mas os únicos objetos de paixão em sua vida - sua mãe, seu marido, e até mesmo Belloni - desapareceram
de sua vida. Sua obsessão se fixou no senhor.

Rienzi tomou longo fôlego.

- Eu receava que isso acontecesse.

Galuzzi olhou-o com um meio sorriso nos lábios finos, entediados:

- Mas também se sente lisonjeado, hein? - sorriu entredentes, jocosamente. - Se há algo que aprendi em vinte anos de psiquiatria é isso, Dr. Rienzi: a mente humana
jamais funciona de maneira simples. Quando parece que assim é, então é que ela adquire a sua maxima complexidade. É como aquelas bolas de marfim que os chineses
talham de maneira tão habilidosa, umas dentro das outras. Por mais que a gente se aprofunde na análise, há sempre alguma coisa nova que nos surpreende.

Para surpresa de Galuzzi, Rienzi sorriu e citou, despreocupadamente:

- "Fui ao meu tio mandarim e indaguei-lhe acerca do amor. Respondeu-me que consultasse o âmago de meu coração." Não se preocupe muito com isso, doutor,' talvez isso
jamais aconteça.

Mas se acontecer - volveu Galuzzi, com suas maneiras graves, acadêmicas - se o senhor se meter em alguma complicação, as éonsequencias poderão ser mais terríveis,
para ambos, do que possa imaginar.

Girou nos calcanhares e retirou-se - e, quando a porta se fechou, Carlo Rienzi sentou-se junto à cama e tomou nas suas a mão da jovem adormecida.

A polícia estava tomando todas as providências para que não houvesse distúrbios, ao encerrar-se o julgamento de Anna Albertini.

175
de acesso ao tribunal estavam sendo guardadas por policiais , vi.

cm rnotocicletas. Havia guardas em todas as portas - homens corpu-
1c^rIto, munidos de curtos cassetetes, com pistolas visíveis em seus ,-1eros coldres de couro. A justiça estava prestes a ser feita, e o povo

,-a gostar ou não do veredicto - mas, de qualquer maneira, teria ,1--- -ii,iiter-se calado, pois que, do contrário, haveria cabeças que-

A corte estava cheia de sussurros. Até mesmo a luz parecia

nwdado, de modo que as feições de cada um dos personagens -..zavam nitidamente traçadas, como montanhas sob um céu temRienzi estava de pé junto ao compartimento
dos réus, a em v3z baixa, com Anna Albertini. Quando os juízes entra-

PÃenzi lançou a Anna um sorriso encorajador, deu-lhe uma palmesa. 0 silêncio, tenso e exploa na mão e dirigiu-se a sua

S-, ceu. sobre a sala, enquanto o presidente se sentava, pondo-se, com enlouquecedora deliberação, a remexer em seus papéis. do um momento, falou:

---- Tenho presidido a muitas causas neste tribunal, mas afirmo, im e meus --.-je nenhuma delas lançou tão pesado fardo sobre m

Não somos monstros. Somos homens dotados de compre,)mÍseraçao e simpatia humana. Mas, como tão bem o afirmou :,r-entante da Promotoria Pública, representamos também
aqui

,,r)mos seus mantenedores, seus intérpretes, seus árbitros. Ba---m nossas decisões, outras decisões serão, mais tarde, tomaprecedentes que criarmos influenciarão
o curso da justiça

muito depois de nossa morte. Se julgarmos mal ou insensata-
- . poderemos corromper a justiça, em sua aplicação a muitas, nI,L,^,,, outras criaturas.

_Uez uma pausa e lançou um olhar pelo tribunal - como se u,'ma imagem, de cabelos brancos, da temperança e da razão J,1)l'ji-iada.

- Se quiserdes um exemplo de como isso pode acontecer, aí o tendes, no caso presente. Houve um tempo em que a lei já não funck)nava, neste país. Um tempo em que
os homens se achavam re,-urbados pelas chamadas "necessidades de guerra" - em que o

o tribunal era o conselho de guerra sumário, quando aqueles que u,.;am ---star defendendo a justiça imediata estavam, na verdade, usandio de seu poder acidental,
movidos por vingança ou por desejo de

!ssoais. 0 Direito foi pervertido pela política, pelo poder, , 1, - ,.,):,,pÍraç

i - . 1 ão deliberada. 0 crime pelo qual Anna Albertini foi da omeçou nessa época de desordem, mas. . . - Fez uma e, depois, ajuntou, com firmeza: - .
. . mas terminou numa
176

outra, em que o domínio da lei se acha restabelecido. Ora, Anna Albertini deve ser julgada de acordo com o Código Penal.

Ninguém proferiu palavra, mas sentia-se que perpassava pela sala como que um vago murmúrio de interesse, como o ruído quase imperceptível produzido pelo encrespar
das águas de um lago. 0 presidente volveu a página de suas anotaçoes e prosseguiu, grave:

Contudo, como o advogado da defesa acentuou em sua eloqüente argumentação, a lei leva em consideração não apenas o ato n

em si, mas a intenção, o motivo, a responsabilidade da pessoa que o pratica. A todas essas coisas, tanto os meus colegas como eu dedicarnos a maior reflexão. A intenção,
neste caso, era bastante clara: assassinio por vingança. 0 motivo foi grande... maior do que qualquer um de nós poderia provar. Mas, dizer-se que o motivo escusa
o ato, é abrir a porta a toda a espécie de violência, é restaurar, neste país, a antiga e horrível prática da vingança tradicional. A questão da responsabilidade
é muito mais complexa - e este ponto foi por nós debatido longa e meticulosamente. Em momento alguin a defesa insinuou que Anna Albertini se encontrasse insana no
momento em que praticou o seu ato. Em momento algum se afirmou que ela não estivesse em condições de ser julgada por este tribunal. A defesa argüiu, de maneira bistante
ponderável, que o choque traumático, causado pela morte de sua mãe, a deixou num estado de espírito em que o tempo e as circunstâncias não existem para ela. A opinião
da defesa conta com o apoio, pelo menos em parte, de testemunhos médicos especializados. A partir deste ponto, o advogado da defesa lançou mão - com considerável
habilidade forense - de dois argumentos. Afirmou, primeiro, que o ato criminoso praticado por Anna Albertini tinha o mesmo caráter, tanto em relação à lei como à
moral, como se tivesse sido praticado na ocasião da morte de sua mãe. Um psiquiatra talvez pudesse elaborar, baseado nesse ponto, urna hipótese plausível, mas. .
. - ajuntou, com singular delibe-
1 -

ração - e não apenas minha opinião, como opinião de meus colegas, que essa hipótese não tem valor perante a lei. Seu segundo argumento - o de que o estado da acusada
representava uma enfermidade mental e que, por conseguinte, sua responsabilidade criminal se achava diminuída - foi muito mais convincente e, ao chegar à nossa decisão,
o levamos devidamente em conta. Levamos também em consideração o terrível motivo que precedeu ao ato, embora o motivo datasse de muitos anos. Levamos ainda em conta
os muitos anos de tormento mental por que passou essa jovem, o malogro de seu casamento e o dúbio futuro que agora a aguarda.

177
Deteve-se, volveu a última página de suas anotações, concentrou-se um pouco e, a seguir, em tom menos ardente, pôs-se a proferir sua decisão:

- A Promotoria solicitou um veredicto baseado em homicídio premeditado. A nosso ver, essa acusação é demasiado grave para que deva ser mantida. Baseamo-nos, pois,
em acusação menos grave. Anna Albertini! Esta corte a considera culpada de homicídio em grau

ZI mínimo, praticado em estado de enfermidade mental parcial, pelo que a lei prescreve uma pena de prisão que vai de três a sete anos, Em vista de todas as circunstâncias
atenuantes, decidimos impor-lhe a pena mínima de três anos, que deverá ser cumprida em instituição ou instituições que possam ser determinadas, de tempos em tempos,
por nossos conselheiros médicos.

Mal tais palavras foram proferidas, Carlo Rienzi, inclinou-se pesadamente em sua cadeira e afundou o rosto nos braços. Anna Albertini permaneceu imóvel no banco
dos réus, pálida, fria e virginal, enquanto a assistência prorrompia em tumultuosa ovação, que nem mesmo os policiais, atarantados, conseguiram conter.

178

AMANHX - disse, com firmeza, Ninette - faremos as malas e iremos embora. Casaremos em Roma e arranjaremos uma vilia nas imediações de Frascati, uma casa com jardim
e paisagem, onde você possa estudar e eu possa pintar. Temos necessidade disso, chéri! Gastamo-nos demais neste lugar. Já é tempo de partir!

Caminhavam pelo jardim da villa de Ascoliní, a observar a luz estender-se, por sobre o vale, para o ocidente, enquanto as cigarras formavam o seu coro estridente
e um pássaro chilreava languidamente em meios dos arbustos. Carlo dormia. Ascolini cochilava em sua biblioteca, e Valéria desempenhava o papel do châtelaine diligente,
arranjando flores nos vasos, vociferando contra as criadas que, na cozinha, preparavam a festa da noite.

Apesar dos protestos de Landon e Ninette, Ascolini insistira para que fossem diretamente dxj tribunal para a villa. Também Valéria suplicou urgentemente a presença
de ambos. Dir-se-ia tivessem medo de estar a sós uns com os outros, como se necessitassem de um catalizador para iniciar o lento processo de restauração e união
entre si. Landon e Ninette sentiam-se cansados e ressentidos mas consolavamse com a idéia de que, na manhã seguinte, se libertariam das obrigações de cortesia e
estariam livres para dedicar-se a seus assuntos privados.

Depois do drama do tribunal e da confusão subseqüente, acolhiam com satisfação a calma que o campo lhes proporcionava. Valéria dirigiu o automóvel, Carlo sentou-se
a seu lado, exausto e taciturno, enquanto que Ascolini se acomodou no assento de tras, rememorando os triunfos daquela manhã. Depois, também ele mergulhou em silêncio,
enquanto os vinhedos e os trigais iam ficando para trás, e as folhas das oliveiras pendiam, empoeiradas e imóveis, sobre as encostas dos montes.

179
Almoçaram no terraço, palraram vagamente durante alguns momentos e, após, se dispersaram. Carlo; achava-se nas garras de violenta reação. Valéria conduzia-se com
estudada discrição, e Ascolini simplesmente observava as manobras, como velho e fatigado guerreiro. A própria situação de Landon foi resumida num veredicto de Ninette:

- Finíta Ia cominedia! Já é tempo de deixar todos os outros e de viver para nós. Deixemo-los a desempenhar o seu próprio epílogo. Não devemos esperar a cena final.

E, assim, no longo entardecer, caminhavam pelos jardins da villa, a conversar no tom feliz, inconseqüente, de amantes recentes. Falaram de Frascati e de como lá
deveriam viver - não encravados entre as villas principescas dos Conti, dos Borghese e dos Lancellotti, mas em alguma pequena propriedade situada nos recôncavos
dos Montes Albanos, talvez dotada de uma vinha e com um caseiro que tivesse uma horta, pela qual Pudessem passear e observar o pôr do sol sobre a extensão distante
da Roma imperial. Falaram de uma exposição de quadros de Ninette, dos amigos que viriam compartilhar de sua vida pastoral e d[e como os seus filhos talvez nascessem
cidadãos do Velho e do Novo Mundo.

Depois, quando as sombras começaram a alongar-se, Ascolim juntou-se a eles, animado como um grilo depois de sua sesta.

- Um grande dia, meus amigos! Um grande dia! E ternos urna dívida para com vocês, pela sua participação nele. Vocês sabem o que precisamos, agora. - Lançou um polegar
enfático em direção da casa. - Um filtro de amor para aqueles dois. Não riam. As avozinhas desta região ainda hoje os preparam para os camponeses apaixonados. Nós,
claro, somos demasiado civilizados para tal tolice, mas ... ela não deixa de ter sua utilidade.

Ninette riu e deu uma palmada no braço do velho:

- Paciência, dottore! Por mais que o senhor o incite, aquele burrinho só caminhará de acorcio com a sWa própria andadura! Ascolini esboçou um sorriso e lançou uma
pedra contra uma

lagartixa que fugia precipitadamente.

Não sou eu quem está impaciente, mas Valéria. Está ansio sa, agora, por uma reconciliação. Exige provas de perdão. Mas eu digo 1a mesrna coisa: "Piano, piano! Palavras
suaves, mãos suaves, quando um homem está assim cansado." - Riu, feliz, entredentes.
- Comigo, era diferente. Depois de toda grande causa, eu urrava, feroz, por uma mulher! Talvez Carlo também chegue a isso ... quando tirar Anna de seu sangue.

- Para onde eles a mandarão, o senhor sabe?
180

- Não está ainda decidido. Levaram-na para San Gimígnano, mas sei que Galuzzi tem esperança de transferi-Ia para as Irmãs Sarnaritanas, em Castel GandolW Existe
lá um grande sanatório para enfermidades mentais. Muito bonito, creio eu, E, também, eficiente.
- Mudou de assunto com um alçar de ombros, e indagou: - E que farão vocês dois, agora?

- Partimos para Roma - respondeu Landon. - Logo que possamos fazer as malas e fechar o atelier de Ninette.

- Espero possamos vê-los lá. Nós, também, partimos dentro de alguns dias. Quero que Carlo tome conta de meu escritório de advocacia.

E ele gosta dessa idéia?

Ela o seduz, penso eu, agora que podemos encarar-nos em termos iguais. Da minha parte, necessito de folga, para pôr a minha vida em ordem. Se esses dois pudessem
sentir-se satisfeitos juntos, eu também poderia começar a ser feliz, - Apanhou um pedaço de galho de um ramo pendente, sentou-se num banco de pedra e pôs-se a traçar,
lentamente, uns riscos no chão de cascalho. - A vida é uma comédia complicada, meus amigos. Se me tivessem dito, cinco semanas antes, que eu chegaria a isto ...
que estaria fazendo papel de cupido, sonhando com netos e pensando até em confessar-me, eu lhes teria rido na cara! Mas foi o que aconteceu. Pergunto-me, às vezes,
se tudo não será demasiado fácil, e s, não haverá atrás da esquina um sujeito com um papel na mão, para ajustar contas com a gente.

- Mas Por que haveria de haver, dottore? - indagou com ardor, Ninette. - A vida não é um livro de escrituração mercantil. Ás vezes, há dádivas cujo único preço é
a gratidão.

- Ás vezes - disse, secamente, Ascolini. - Talvez eu seja um sujeito desconfiado que não merece a sua sorte.

- Então, deixe que lhe conte a respeito da nossa - volveu, com um sorriso, Ninette. - Landon e eu vamos nos casar.

Ascolíni ficou um instante a fitá-la. Depois, seu velho e astuto rosto iluminou-se de puro deleite. Passou-lhe o braço pela cintura e pôs-se a valsar com ela pela
alameda:

Maraviglioso! Estupendo! E vocês terão um monte de filhos, todos belos. E você será a mãe mais formosa do mundo! Tudo isso e, ainda por cima, talento! Dr. Landon,
o senhor é um homem afortunado! Fortunatíssimo! E deve tudo isso a nós! Se não o tivéssemos mandado de volta a Siena com a pulga atrás da orelha, o senhor ainda
estaria brincando de esconde-esconde com as modelos e as telefonistas. Mas que bom presságio! Há urna dupla razão para a festa desta noite. - Ofegante e excitado,
tomou-os pelo braço e condu-

181
ziu-os, pelo caminho de cascalho, em direção da casa. - Você precisa contar a Valéria, minha filha. E o senhor, Dr. Landon, fará uma pequena prédica a Carlo sobre
o casamento, as alegrias da paternidade, e toda a satisfação que sente ao chegar a isso. Quando chegar o primeiro bebê, faremos um grande batizado, e eu garanto
a presença de um cardeal de chapéu vermelho para fazer a coisa para vocês. E vocês precisam escolher-me para padrinho, para que eu possa cuidar da fé e da moral
do pequeno. 1

- Primeiro teremos de reformá-lo, dottore!

- Nessa altura, minha filha, eu talvez já esteja usando uma estamenha e batendo com um tijolo no peito, como São Jerônimo! Era um quadro cômico, que os fez rir.
Estavam ainda a rir,

quando chegaram ao terraço, e Ascolini gritou a um criado para que trouxesse vinho e copos. Valéria saiu da casa e juntou-se a eles e, quando Ascolini lhe deu a
notícia, seus olhos se encheram de lágrimas, ao mesmo tempo que abraçava Ninette com ardor.

Sua cordialidade causou surpresa a Landon. A conversão de Ascolini era coisa fácil de aceitar-se. Ele estava envelhecendo e, diante do grande "talvez", agarrava-se
às certezas simples da vida: orgulho e ironia eram uma dieta demasiado rala para os anos de inverno. 0 ardor estava sendo disciplinado pelos simples arrefecimento
da velhice; sua astúcia inata e sua perversa experiência estavam amadurecendo e convertendo-se em sabeçloria. Mas, quanto a Valéria, o caso era diferente. Ela era
ainda jovem, ainda em ascensão, iniciada demasiado cedo nos prazeres fáceis, e Landon não podia compreender uma transformação assim tão súbita.

Mas, lentamente, começou a perceber. Ali estava toda a natureza daquele povo. Ali estava o paradoxo essencial de seu caráter e de sua história. 0 velho Cardeal de
Bellay o chamou de "peuple de grandes enfants... C'est une terrible bête, que cette ville-là, et sont étranges cervaux" ... uma cidade terrível e bestial... netos
.. cérebros estranhos ... 0 seu próprio San, Bernardino, psicólogo bastante moderno do século XV, caracterizou ainda melhor esse povo: "Compreendo as fraquezas
de vosso caráter. Deixais uma coisa e depois tornais a essa mesma coisa; e, vendo-vos agora tão divididos e tomados de tantos ódios, creio que, não fôsseis muito,
muitíssimo humanos, teríeis terminado por causar a vós mesmos algum grande dano. Não obstante, digo que vossa condição e vós próprios sois bastante mutáveis. E quão
mutáveis sois, mesmo quanto ao mal, pois que logo tornais ao bem!"

Era uma gente muito humana: demasiado humana para que os espíritos mais frios pudessem viver confortavelmente em companhia dela.- Eram violentos por natureza, incapazes
de fazer concessões.
182

o mesmo molde produziu o místico e o homicida, o assassino político e o asceta que tomava de assalto o Reino dos Céus.

0 vale, embaixo, enchia-se, agora, de sombras, mas o lugar em que estavam continuava banhado pela luz do sol - um símbolo, pensou Landon, dos sentimentos mais gentis
que pareciam envolver os membros da família Ascolini. Perguntou a si próprio se não teria, afinal, descoberto a raiz do problema de Carlo: se ele não compreenderia
muito pouco Valéria e o pai, exigindo demasiado deles uma constância romana, uma retidão romana - quando tudo o que eles tinham a oferecer-lhe era apenas coragem,
um ardor flutuante e a grande loucura visionária de outros homens.

Foi trazido o vinho e todos ergueram um brinde à sua felicidade mútua. Falaram, durante uns momentos, de coisas simples. Depois, Valéria levou Ninette para dentro,
a fim de que esta escolhesse um vestido, enquanto Landon saía à procura de Carlo, em busca de uma camisa para o jantar.

Encontrou-o a esfregar os olhos num pequeno quarto que deveria ter sido o seu refúgio, ao tempo em que a alcova conjugal era demasiado fria para proporcionar-lhe
conforto. Rienzi recebeu-o alegremente, acendeu um cigarro e disse rindo:

- Há um comentário para você, Peter! Obtenho grande triunfo. Meu nome aparecerá em todos os jornais, e acabo desta maneira, . . a dormir, de cuecas, num quarto
de hóspedes!

Não tem importância, rapaz. Você terá uma grande noite à sua frente.

- Eu sei - respondeu ele, franzindo, com desagrado, a testa. Não sei, ao certo, se desejo enfrentá-la.

- Tolice, homem! Far-lhe-á bem. Ademais, foi um gesto amável, e você precisa aceitá-lo amavelmente. '

- Isso foi idéia do velho, sem dúvida.
- Não, não foi. Foi de Valéria.

Ele lançou a Landon um olhar rápido:
- Tem certeza disso?

- Claro que tenho. Ela e Ninette arranjaram a coisa entre si. Ascolini apenas fez os convites, por telefone. Eu estava presente. Devo saber, portanto.

Então ela quer, mesmo - murmurou, pensativo, Carlo. Quer o quê?

Uma reconciliação. Está tentando refazer nosso casamento. ]É o que ela quer, claro. Como você sabe, não posso jurar por ela, mas estou convencido de que ela é sincera
nisso. Como é que voc'e se sente a respeito?

183
- O senhor está disposto a permitir que Rienzi se mantenha em contato com essa moça?

Galuzzi tirou uma baforada em silêncio e, depois, respondeu, lentamente:

- Já pensei muito nisso. Duvido que eu pudesse impedir algo que constitui um contato razoável entre advogado e cliente. Duvido, também, que eu o desejasse fazer.
Até agora, Rienzi tem feito bem à rapariga. Poderá ainda ajudá-la por muito tempo. De modo que resolvi aquiescer.

- E como fará isso?

- Estou procurando fazer com que Anna Albertini seja removida para uma instituição situada em Castel Gandolfo, nas imediações de Roma. Isso poderá levar ainda algum
tempo. Por ora, ela ficará sob os cuidados das Irmãs do bom Pastor, que têm um sanatório semelhante, mas menor, para doenças mentais, perto de Siena. Eu já disse
a Rienzi que ele poderá visitá-la logo que ela seja admitida. Depois, desejo que ela seja deixada a sós durante algum tempo, para que eu possa tê-la sob o meu controle
e ver qual o regime de análise e tratamento a ser adotado.

- E que tal pareceu a idéia a Rienzi?

- Teve de aceitá-la, irias não lhe agradou. - Galuzzi deu de ombros, lançou fora o cigarro e permaneceu de pé, a figura escura, imponente, tendo por fundo a claridade
da Lua que surgia. - Como é que a gente descreve figuras para um cego? De que maneira pode a gente lutar contra a poderosa magia dos que enganam a si próprios? Sem
meias palavras, Landon fez-lhe a última pergunta:

- O senhor acha que Rienzi está apaixonado por essa moça?
- Amor é uma palavra camaleônica - respondeu Galuzzi, absorto. - Suas cores abrangem urna gania de experiências diversas. Quem poderá dizer que, mesmo quando o consideramos
da maneira mais nobre possível, não estamos amando a nós próprios?

Após essa desoladora reflexão, deixaram o terraço e juntaramse aos outros convidados.

Os presentes, agora, se dispersavam pela sala, formando pequenos grupos que, após esgotar o seu estoque de amabilidades, se entre~ gavam a comentários de coisas
locais e a reminiscências provincianas. Landon socorreu Ninette de um político palrador e sugeriu que ambos voltassem para Siena com o primeiro grupo que se retirasse.
Carlo ergueu-se, no mesmo instante, com um copo na mão, e opôs-se a tal sugestão:

- Tolice! Vocês não podem ir embora ainda! Vamos desembaraçar-nos desse bando enfadonho e terminar a noitada juntos. Depois, eu próprio os levarei para casa.

188

Tinha os olhos vidrados, a voz arrastada, e Landon não tinha a mínima intenção de permitir que ele se aproximasse de um automóvel. Por isso, sorriu:
&

- Esta noite, não, Carlo! Você está cansado, um tanto "alto" e já é hora de ir para a cama!

- Para a cama? - repetiu ele, esboçando, embriagado, um sorriso, e tornando outro trago de bebida. - Todos querem que eu vá para a cama! Valéria, o velho e, agora,
vocês! Ninguém me pergunta o que eu quero. Não passo de um garanhão, eis tudo! Um nobre animal de reprodução que tem de exercer suas funções! Eleyou a voz e um pouco
de bebida caiu de seu copo sobre o assoalho polido. - Encha a casa de advogados ... de grandes advogados, como Ascolini e como eu! ...

Já era tempo de fazer algo. Landon tomou-o firmemente pelo braço e conduziu-o para a porta, falando-lhe, jocosamente, da melhor maneira possível:

- Essa é boa, Carlo! Ninguém deseja que você faça coisa alguma que não lhe apeteça. Ninette e eu ficaremos aqui, mas você precisa ficar um pouco mais sóbrio.

- óuern quer ficar sóbrio? Este é um grande dia. Eu sou um sucesso! E you casar novamente!

Landon, a essa altura, já o havia afastado do saione e o conduzia em direção da escada, para que ninguém o ouvisse, mas Valéria apareceu no patamar, logo acima deles.
Rienzi ergueu a mão, numa saudação lamurienta, alcoólica:

- Lá está ela! A noivinha que quer ser mãe dos Gracchi. Quantos filhos você deseja, querida? Devemos tê-los todos de uma vez, ou em etapas mais côniodas?

- Leve~o para a cama, pelo amor de Deus! - exclamou Valéria, amarga, procurando passar por eles ao descer a escada. Rienzi quis interceptar-lhe os passos, mas Landon
o afastou,

segurando-o de encontro ao corrimão. Rienzi rendeu-se, com um z_

riso de bêbedo:

- Você está vendo, meu amigo, como ela me despreza! Você não me despreza, não é verdade, Peter? Você sabe que sou um grande homem! A pequena Anna tampouco me despreza.
Eu a salvei, você bem sabe! Ninguém acreditava que eu pudesse fazê-lo, mas eu a salvei. Pobre Anna! Ninguém lhe oferece unia festa esta noite.

Debruçou-se sobre o corrimão e pôs-se a chorar. Quase a empurrá-lo, quase a carregá-lo, Landon fê-lo subir a escada e entrar no pequeno quarto de hóspedes. Urna
vez lá, o pôs na cama e tiroulhe a jaqueta, os sapatos e a gravata. Rienzi estava ainda se laniuriando e resmungando, quando Landon fechou a porta e desceu. Ni-

189
nette fez-lhe um sinal da porta da biblioteca, e ele dirigiu-se a ela, enquanto Ascolini e a filha se despediam dos últimos convidados. Ninette beijou-o e disse-lhe:

- Obrigada, chéri. Você agiu com muita habilidade. Não creio que alguém tenha visto muita coisa. Valéria vai levar-nos para casa. Pobre moça! Tenho pena dela.

- P- uma confusão dos diabos, querida. Mas eles terão de se arranjar sozinhos.

Que é que se passa com Carlo?

Está cansado. Bebeu um pouco demais. Acha-se numa embrulhada terrível, como uma omeleta de aldeia.

Falou-lhe da conversa que tivera com Carlo e do inquietante diagnóstico de Galuzzi. Ela suspirou e encolheu os ombros, num gesto gaulês de desespero:

- Que mais podemos fazer, Peter? Que nos resta dizer? Haverá alguma esperança para essa gente?

- Absolutamente nenhuma! - disse Ascolini, parado, junto à porta, apoiado à ombreira, um velho de cabelos brancos, rosto anuviado, metido num dinner-iacket que,
de repente, parecia demasiado grande para ele. - Jamais esquecemos, jamais perdoaremos coisa alguma. Há uma influência maléfica sobre nós. Uma influência que dá
bicho nos frutos e gorgulho no trigo! Vão para casa, meus amigos, e esqueçam-se de nós.

com passos vacilantes, atravessou a sala e afundou-se numa poltrona. Landon serviu-lhe um copo de conhaque u ele o tomou de um trago; depois, endireitou o corpo
e ficou a fitar, frouxo e absorto, o chão. Valéria entrou, apressada, com um casaco lançado sobre o seu vestido de noite e uma maleta na mão. Estava pálida de cólera.

- Estamos de saída, papai. Não me espere. Se Carlo quiser saber onde estou, diga-lhe que pedirei a Lazzaro para que me traga para casa. Ele não é grande coisa...
Deus bem o sabe, mas, pelo menos, é um homem!

- Por favor, minha filha, não faça isso! - Um último assomo de ira e animação galvanizava o velho. - Deixe que os nossos amigos levem o carro. Fique mais um dia
aqui comigo.

com você, papai? - indagou ela, a voz estridente, áspera amarga. - Você me disse, ontem à noite, que eu devia viver a minh vida; que você vivera a sua, e que eu
devia viver a minha e aceitar as conseqüências! Bem, pois é exatamente isso que estou fazendo! Carlo não me quer. Você já está cansado de reviver, através de mim,
os anos já extintos! De modo que estou livre. Boa noite, papai! Espero vocês dois no carro.

190

Sem olhar para trás, saiu apressada. Landon apertou a mão flácida do velho, murmurando-lhe uma ou duas frases que Ascolini pareceu não ouvir. Somente quando Ninette
se inclinou para beijálo, foi que ele voltou a mover-se e, dando-lhe uma palmadinha no rosto, disse-lhe em voz baixa:

- Deus a abençoe, minha filha! Cuide de seu homem ... e sejam bondosos um para com o outro.

- Irá visitar-nos em Roma, dottore?
- Em Roma? Oh, sim ... certamente.

Deixaram-no encolhido e derrotado, afundado na grande poltroná e saíram para o frio luar, onde Valéria os aguardava, sentada ao volante de seu automóvel. Tinha o
rosto banhado de lágrimas, mas nada disse, partindo logo com o carro, rápida e perigosamente, pela alameda íngreme, até chegar à faixa alumiada pela Lua, da estrada
que conduzia a Siena. Durante um ou dois quilômetros, permaneceu muda, enveredando violentamente pelas curvas do monte, enquanto os pneumáticos gemiam e as rodas
giravam perigosamente sobre o cascalho da beira do caminho. Depois, de repente, pôs-se a falar - um monólogo em voz baixa, ardente, que não comportava comentário
nem interrupção:

Querido Carlo! Doce e querido Carlo! 0 rapaz nobre, de grande talento e grande futuro, cuja esposa não o ama! Vocês não acreditaram em mim, acreditaram? Pensavam
que eu não passava de uma cadela insensível, ardente com todos ... menos com o marido! Aquela música era um truque! Música suave, para corações despedaçados. Noturnos
para amantes não correspondidos. Deus do céu! ... Se vocês ao menos soubessem o quanto esperei desse homem! Eu era a filhinha de papai. Ele dava tudo, e eu sentia-me
reconhecida, mas a única coisa que ele não podia dar era eu mesma. Ele não podia ceder tal coisa - percebem? - e eu não sabia de que modo arrancá-la dele. Fez de
mim uma sócia, mesmo em minhas loucuras. Isso é o que queria de Carlo ... isso que vocês dois possuem, e que fazia com que eu os odiasse: companheirismo. Eu queria
que ele permanecesse a meu lado, que estivesse à minha altura no amor .e no ódio, que me domasse e me libertasse ao mesmo tempo! Mas ele não queria nada disso.
Ele, Carlo, não o queria! Desejava posse, rendição. . . triturar-me, reduzir-me a pó, de modo que não sobrasse nada! Não era suficientemente forte para fazê-lo de
uma maneira, de modo que procurou fazê-lo de outra. Os sorrisos murchos, a atitude melancólica, os acessos de furor e as ternuras ... Leve-me de volta ao ventre
de minha mãe e deixe que eu lhe devore a alma como um verme de nogueira! ...

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0 carro deu uma guinada e derrapou numa curva em cotovelo, mas Valéria continuou a falar sem dar atenção ao grito de Ninette e ao protesto de Landon.

- Julguei que, hoje, o seu orgulho - ou o que quer que seja que o faça agir - estaria satisfeito, e que eu poderia aproximar-me dele como mulher. Mas ele não quer
uma mulher! Quer uma boneca com que brincar e da qual possa arrancar a serragem, quando se sente forte e cruel. Por isso é que se voltou para essa tal Anna ... essa
pobre, vazia e bela criança, que não tem nada dentro de si senão o que ele lá colocou. Bem, ele que vá para ela! Estou livre dele agora ... e livre de meu pai também!
Sou senhora de mim mesma e pouco me importa que...

Lançou um grito e freou violentamente, quando uma massa imprecisa saiu da valeta e cruzou a estrada, poucos metros à frente. Ninette também gritou e se lançou contra
Landon. As rodas pararam e o carro derrapou, descrevendo um círculo assustador, enquanto o pára-choque batia em cheio num chopo da beira da estrada. Acabaram, ligeiramente
contundidos e abalados, de frente voltada para a direção de onde vinham. Ninette estava ofegante e trêmula, enquanto que Valéria, debruçada sobre o volante, soluçava.
Landon foi o primeiro a recompor-se.

- Por esta noite, basta! - disse, áspero. - Vamos voltar para a villa!

Valéria não fez protesto algum quando ele a afastou bruscamente de seu lugar e assumiu a direção do carro. Permaneceram todos em silêncio, enquanto o automóvel subia,
impetuoso e seguro, a estrada serpeante. Ao chegarem à casa, Landon deu a Ninette uma ordem breve:

- Leve-a para a cama. Fique com ela até que eu volte. you ter uma conversa com o velho!

Ninette abriu a boca para protestar, mas, vendo-lhe o rosto pálido, zangado, e os lábios fortemente contraídos, mudou de idéias e, tomando o braço de Valéria. conduziu-a,
dócil como uma paciente de hospital, ao seu quato, no andar superior.

Ascolini achava-se ainda na biblioteca, afundado em sua poltrona, a fitar o vazio, tendo a seu lado um copo de conhaque, de que já havia bebido a metade. Landon
foi diretamente ao assunto, em tom rude:

- Isso precisa parar, doutor! Acabar de vez, já, completamente! Se isso não acontecer, haverá alguma morte nesta casa antes que a semana termine. Há dez minutos,
nós três quase morremos na estrada. Valéria está desesperada. Cario acha-se completamente embriagado. E o senhor fica aqui sentado, a sentir pena de si mesmo, porque
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chegou finalmente a hora de saldar contas e o senhor não d .eseja pagá-las. Se pretendem destruir-se uns aos outros, essa é a maneira de fazê-lo.

0 velho levantou sua branca juba leonina e fitou Landon com olhos vagos, mas hostis:

- E por que razão deveria o senhor importar-se, Dr. Landon, com o que possa acontecer-nos? Morte, desonra, condenação ... que diabo poderá isso importar-lhe?

A irritação de que se achava possuído fez com que Landon não pudesse controlar-se. Apontou ao velho um dedo acusador e explodiu:
- Porque eu também tenho dívidas a pagar, eis aí o porquê!

Para com o senhor, para com Carlo, para com Valéria. E esta é a única maneira pela qual poderei saldá-las ... a última oportunidade que me resta. É também a sua
última oportunidade... e o senhor bem o sabe! Foi ai que a coisa começou: com o senhor. Se ainda resta alguma esperança, essa esperança está em suas mãos. Os cobradores
aí estão, meu caro doutor, e, se o senhor não lhes pagar, eles porao a casa abaixo sobre a sua própria cabeça!

Interrompeu-se, deitou um pouco de conhaque num copo e tomou-o de um trago, enquanto o velho o fitava com olhos frios, ressentidos. Finalmente, com um toque de seu
antigo e sardônico humor, Ascolini indagou:

E qual é o pagamento, hein, meu amigo? Qual a penitência imposta por nosso confessor? Já estou muito velho para flagelar-me em praça pública ou arrastar-me de joelhos
para a missa!

- O senhor está velho, doutor - respondeu, com leve maldade, Landon - e logo estará morto. O senhor morrerá odiado e nada deixará atrás de si, exceto uma recordação
desagradável. Sua filha se converterá numa prostituta, para vingar-se do senhor. E o homem que poderia gerar filhos para alegrar sua casa morrerá estéril, por falta
de alguém que o ensine a amar.

Fez uma pausa e, tão rapidamente como o assaltara, a raiva extinguiu-se nele, fazendo com que se afastasse, com um gesto de desespero:

- Que vá tudo para o diabo! Que mais se poderia dizer? Nada é suficientemente bom para despertar sua gratidão; nada consegue torná-lo suficientemente humilde para
pedir-nos o que nós todos lhe daríamos de todo coração!

Houve um longo silêncio, enquanto o relógio da lareira prosseguia em seu tique-taque, marcando os segundos como um carrasco que se encontrasse oculto em sua caixa.
Depois, lentamente, Ascolini levantou-se de sua poltrona e deu uns passos em direção a Landon e,

193
com voz trêmula, de velho, mas que conservava ainda certa dignidade, disse-lhe:

- Muito bem, Landon. Você venceu. 0 velho touro se rende. Mas para onde irá daqui?

Lentamente, Landon voltou-se e viu-lhe no rosto tão destroçado orgulho, tanto sofrimento há muito oculto, que se sentiu tomado de súbito sentimento de piedade. Lançou
ao velho um sorriso exangue, retorcido:

- 0 primeiro passo é o mais difícil. Depois a coisa se torna cada vez mais simples. Um pouco de piedade, e a elegância de se confessar arrependido.

- E julga isso assim tão fácil? - indagou, enquanto a sombra- de um sorriso lhe contraía os lábios de velho cínico. - O senhor exagera o meu valor, Dr. Landon. Agora,
vá dormir, como bom rapaz que é. Um homem tem o direito de estar a sós, antes de sua última rendição!

Ao deixar o velho, Landon dirigiu-se ao terraço e acendeu um cigarro. A Lua pairava alta c mágica, sobre as montanhas e, do fundo do jardim, ele ouviu, pela primeira
vez, o doce lamento dos rouxinóis. Ficou imóvel, a mão pousada sobre a fria pedra da balaustrada, enquanto o canto plangente se elevava e caía no ar parado. Era
uma música espectral, a ecoar as queixas de amantes mortos e o rancor de paixões há muito extintas. Era um lamento de esperanças perdidas, de ilusões desfeitas,
de palavras não ditas e que, agora, jamais seriam proferridas. Não obstante, havia, naquele canto, paz, bem como a fria absolvição do tempo. A Lua se dissipara
e o canto mergulharia no triste silêncio dos ciprestes, mas, pela manhã, o sol se ergueria e despertaria de novo a fragrância do jardim e, enquanto se estivesse
vivo, sempre haveria a esperança da manhã e da maturidade.

Ainda não fazia muito tempo que ele chegara àquele lugar, obcecado pela convicção de inutilidade, convencido de que o jargão de sua profissão se assemelhava ao encantamento
de um xamã um passaporte que conduzia à preeminencia na tribo, mas que não deixava de ser um remédio infrutífero para as muitas enfermidades da alma. Agora, pela
Drimeira vez, começava a ver uma virtude em seu uso, uma virtud na experiência que adquirira e, talvez, até mesmo uma pequena promessa de virtude quanto a si próprio.

com Ascolini, ele vencera uma batalha e pagara uma dívida. Mas havia, ainda, outras batalhas a travar, e ele sentia-se grato pelo caráter restaurador daquele momento
de luar e de rouxinóis. Ter-

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minou o seu cigarro e subiu lentamente a escada, em direção de quarto de Valéria.

Ela estava deitada, recostada em travesseiros, o rosto pálido, os olhos absortos na dolorosa contemplação com que os enfermos vêem a si próprios. Ninette achava-se
sentada à beira da cama, alisando os cabelos de Valéria. Landon deteve-se ao pé da cama, a fitar ora urna ora outra, à procura das palavras que precisava dizer.

- Quero que você vá deitar-se, querida - disse, dirigindo-se, afetuosamente, a Ninette. - Valéria e eu temos algo a conversar. Irei ve-la, antes de recolher-me.

Ninette Lachaise fez com a cabeça um gesto de assentimento, mas Landon notou um lampejo de ressentimento em seus olhos. Ela inclinou-se e beijou Valéria; depois,
beijou, também, Landon.

- Não demore muito, chéri! - recomendou, tendo na voz uma nota de cautela que traía de certo modo, o tom despreocupado com que o disse. - Estarei à sua espera.

Deixou-o, e Landon sentou-se ao lado da cama. Valéria Rienziobservava-o, entre curiosa e amedrontada.

- Foi um dia duro, não acha? - indagou ele, em tom profissional.

Os olhos de Valéria encheram-se de lágrimas sentidas, mas ela nada respondeu. Landon. continuou a falar, evitando abordar diretamente o tema, receoso de que uma
palavra menos judiciosa pudesse destruir as relações de amizade existentes entre eles.

- Sei como você se sente, Valéria, pois que também compartilho de seus sentimentos. Sei do perigo com que você se defronta, pois trato, há muito tempo, de mentes
angustiadas. Esta noite, você teve uma visão da morte, mas, no último momento, recuou. Se você se mostrar indiferente e passar de novo, por outra experiência semelhante,
é possível que você, por um segundo de atraso, não possa mais recuar. E depois ... kapul! Há cura para quase todas as coisas, menos para o beijo do Anjo Negro. Talvez
você esteja perguntando a si própria por que razão me interesso pelo que você possa fazer. Eu lhe responderei. Passamos, juntos, uma noite ... e houve nela algo
de bom, porque havia algum amor. Não suficiente para a vida toda, talvez, mas o bastante para aquele pequeno espaço de tempo. Por isso me interesso! E ainda há mais.
Sou médico. Existem pessoas que me procuram com almas enfermas, corações enfermos, mas a maioria delas vem tarde demais, quando a enfermidade já tomou conta delas
e não as deixa. Você não está doente, ainda. Está ferida, cansada e solitária, numa região sombria. Eu estou lhe oferecendo Uma mão em que voce se apóie, enquanto
sai do estado em que se encontra.

195
Ele podia ver a luta em que ela se debatia: necessidade e desafio, cada qual querendo manifestar-se primeiro. Ela fechou os olhos e permaneceu, muda, recostada nos
travesseiros. Landon seguroulhe o pulso, firme:

- Há duas maneiras, à sua escolha. Você poderá encher-se de pílulas para dormir e despertar, pela manhã, com os fantasmas ainda sentados em sua cama. Ou poderá falar
e desabafar, deixando que alguém reduza tais fantasmas a um tamanho que lhe permita enfrentá-los. Eu, por exemplo. Conheço todas as palavras. . . até mesmo as palavras
feias, - Sorriu baixinho: - Não há honorário. E se você quiser chorar, posso emprestar-lhe um lenço limpo.

Ela abriu os olhos e fitou-o, com pesarosa perplexidade:
- Você está dizendo isso a sério?

- Claro que estou.

- Mas o que acontecerá? Você apanhará todos os meus pedaços e tornará a juntá-los? Encherá os lugares vazios em que eu absolutamente não me encontro?

- Não.

- Dará umas palmadinhas em minha c4beça e dirá que eu estou perdoada, contanto que seja, no futuro, uma boa menina? Também não.

Ensinará meu pai a amar-me e Carlo a desejar-me como esposa?

- Não.

- Então, o que é que você me dará, Peter? Pelo amor de Deus, o que é que você me dará?

- Coragem e grande apoio! Quanto ao resto, você precisará de Deus Todo- Poderoso. Mas, sem coragem, você tampouco o encontrará. Bem ... isto é o que de melhor
posso oferecer-lhe. Você quer falar, ou prefere uma cápsula sedativa?

Ela, então, cedeu e pôs-se a falar, primeiro banhada em lágrimas e, depois, num fluxo de palavras, às vezes desordenadas e incoerentes, outras vezes tragicamente
lúcidas. Landon escutava-a, incitava-a, interrogava-a e ficava Ptrigado como sempre, diante da variedade de faces que uma criatura humana podia exibir. Mulher de
má conduta, amorosa, mentirosa, mãe, amante elegante, garotinha sentada no colo do pai a pedir-lhe um mundo em troca de um beijo. Numa noite ou mesmo, em todas as
noites de um mês - não haveria tempo para interpretar cada uma dessas faces. 0 que ele então estava tentando fazer não era uma análise clínica, mas apenas dispensarlhe
um pouco de misericórdia: afastar o sofrimento por algumas horas, dar-lhe uma esperança que, ele bem o sabia, talvez não sobrevivesse até os primeiros clarões da
alvorada.

196

Finalmente, a torrente de palavras cxtinguiu-se, e Valéria permaneceu deitada, exausta, mas calma, pronta para dormir. Landon inclinou-se e beijou-lhe de leve os
lábios - e ela respondeu apenas com um murmúrio sonolento. Moído de cansaço, Landon dirigiu-se ao seu quarto.

Ninette Lachaise dormia, inteiramente vestida, em sua cama. Ele tirou o paletó, os sapatos e a gravata e deitou-se ao seu lado. Ela mexeu-se, murmurou algo e passou
o braço por sobre o peito de Landon - e ele, também, mergulhou no sono, com os lábios de Ninette a roçar-lhe o rosto. Quando despertou, ela não estava mais lá, e
já era, de novo, pleno meio-dia na Toscana.

Quando Landon desceu, encontrou a villa banhada num resplendor de triunfo e de união doméstica. A criada cantava, a lustrar os movels; o velho porteiro assobiava,
enquanto revolvia, com um ancinho, o cascalho da alameda; Ninette e Valéria colhiam flores no jardim, enquanto Ascolini e Carlo Rienzi se achavam sentados, no
terraço, diante da mesa do café, a folhear um monte de jornais e uma pilha de telegramas de congratulações.

Receberam-no sorridentes. Ascolini ordenou que trouxessem café fresco, e entregou-se à entusiástica exaltação do êxito de Rienzi:

- É magnífico, Dr. Landon... como uma grande noite na ópera. you ler-lhe o que dizem: "Uma vitória forense. . . " ". . . uma vindicação dos mais nobres princípios
de justiça. . ." ". . .. um novo astro no firmamento jurídico". Há vinte anos não vejo uma coisa assim. E isto aqui! exclamou indicando, num gesto expansivo,
a pilha de telegramas. Nossos colegas, em Roma, estão encantados. A partir deste momento, Carlo pode escolher entre uma dúzia de grandes causas. Sinto-me orgulhoso
dele. Ele fez com que eu engolisse minhas próprias palavras, mas sinto-me orgulhoso dele.

0 próprio Rienzi estava afogueado de satisfação. Seu rosto perdera a expressão tensa e angustiada da véspera, e também ele se entregou, loquaz, a cumprimentos:

Este êxito é também seu, Peter. Sem sua orientação eu não me teria saído tão bem. Sei, creiam-me, que tive muita sorte em contar com ambos como meus mestres. - Fez
uma ligeira pausa e, com acanhamento juvenil, apresentou suas desculpas: - Lamento o que aconteceu ontem à noite. Eu tinha passado o dia todo sem comer e estava
muito embriagado.

Ascolini riu, indulgente:

- Uma ninharia, meu rapaz! Esqueça-se disso. Já vi homeng mais importantes do que você serem levados para a cama em ocasiões
197
muito menos significativas. Além disso, é no futuro que precisamos pensar. Antes de sua chegada, Dr. Landon, estávamos a discutir acerca da participação de Carlo,
como sócio, em meu escritório de advocacia. Não estou ainda inteiramente decidido a aposentar-me,

a a minha mas isso não tardará. E, depois, ele poderá ficar com tod

-lhe algumas lições, hein, banca de advogado. Mas tenho ainda de.dar

meu rapaz?

Era tão grande e patente a boa vontade existente entre ambos, que Landon perguntou a si mesmo, durante um momento, se ele não teria interpretado de maneira demasiado
dramática os acontecimentos da noite anterior. Depois, Carlo disse, em tom inteiramente casual:

- Recebi, esta manhã, um telefonema de Galuzzi. Vão transferir Anna, hoje, para as Irmãs do bom Pastor. Disse-me ele que eu poderia visitá-la esta tarde. Eu estava
pensando, Peter, se voce não gostaria de acompanhar-me. - Esboçou um sorriso de súplica e ajuntou* - Sei o quanto já lhe pedi, Peter, creia-me. Valéria contou-me
que você e Ninette vão se casar, e sei que vocês desejam partir o mais cedo possível. Mas eu apreciaria muito se você fizesse uma última visita profissional a Anna.

- Certamente, se você assim o deseja, mas não creio que eu possa acrescentar algo ao conhecimento de Galuzzi. Ele é ótimo médico. Eu, em seu lugar, teria grande
confiança nele.

- Eu sei. Mas ele é, afinal de contas, um funcionário do governo. Eu gostaria de ter alguma orientação particular.

E como encararia Galuzzi a minha visita?

Vá comigo, Peter, por favor. Podemos Ele já a aprovou.

sair ali pelas três horas e estar de volta às cinco.

- Valéria e eu cuidaremos de Ninette - disse Ascolini. Jantaremos hoje juntos e, depois, os despacharemos com todo o nosso amor Tudo isso foi dito de maneira tão
simples e suave, que Landon quase não percebeu o que havia por trás daquilo. Cario precisava de uns momentos de intimidade com Anna. Ascolini precisava de Ninette
como sua aliada junto a Valéria. Galuzzi fora bastante sagaz ao desejar um monitor para aquele primeiro encontro crucial entre o advogado e a cliente por ele iniciada
na incerta estrada que conduzia à liberdade. Eles ainda o estavam usando, e não haveria líbertação enquanto Ninette e ele não abandonassem aquele lar de almas atormentadas
e não seguissem para o seu próprio refúgio nas verdes colinas de Frascati.

0 primeiro toque de outono já estava no ar, quando Landon e Rienzi seguiram, pela estrada de Arezzo, rumo ao Hospício do bom
198

Pastor. 0 bom humor de Carlo parecia tê-lo abandonado, Pois que estava inquieto e preocupado. Ao chegarem aos primeiros espinhaços da montanha, Carlo desviou o carro
para o lado da estrada e parou numa reentrância rochosa, de onde o terreno descia, precipito mente, para um vale inóspito e sombrio. Isso do
bsa-

lso um maço de cigarros, acendeu o de Landon e ofsceito,,etirou

pÔs-se a falar de um modo nervoso, entrecortado, corno alguém que estivesse há, muito privado de intimidade.

- Temos tempo para conversar um pouco, Peter. Há certas coisas que desejo discutir com você.

- Diga lá.

- Em primeiro lugar, Valéria. Lamento e sinto-me envergonhado pelo que aconteceu ontem à noite, mas, na verdade, tudo o que disse era verdade. Já não sinto mais
nada por ela. Mais do que

eu , 1 nunca, sinto, agora, necessidade de fazer um bom casamento. Sei o que irá acontecer,
Subirei, em minha carreira, como um balão. Você sabe tão bem quanto eu o que isso significa. Pressões, solicitações, trabalho... sem que haja possibilidade de recuo.
Sem alguma espé,.- cie de amor em minha vida estarei desperdiçando os meus melhores anos sem qualquer recompensa ... numa marcha que acabará enn bancarrota. Uma
amante compreensiva ajudaria, mas eu tampouco a tenho, Estou sozinho, Peter. Apesar de minha idade, sinto-me velho e vazio.

Aquela piedade por si mesmo irritou Landon, mas, lembrandose de sua dívida, procurou ser gentil:

Olhe, Carlo. Essa espécie de reação é 'a coisa mais natura,, do mundo. Você esteve envolvido numa causa tremenda. 0 pendulo pode oscilar do triunfo para a depressão.
Não seja deiriasiado apressado. Por que razão você e Valéria não fazem mais urna tentativa?

0 rosto de Rienzi endureceu, e ele abanou a cabeça:

- Já esquecemos as palavras para isso, Peter. Quanto a mim, passei demasiadas noites num leito frio. Quanto a ela, demasiadas noites em outras camas. Como recomeçar,
depois disso?

Landon deu-lhe a resposta de Ninette:

- Alguém tem de dar o primeiro passo e pedir desculpas. Sugiro que esse alguém seja você.

- E depois disso? De que modo apagar todo o tempo desperdiçado, todas as mágoas, todas as lembranças?

Landon, então, deu-lhe uma outra resposta, tão rude e obscena quanto a sua irritação poderia ditar:

- Viva com elas, irmão! Viva com elas e aprenda a ser gratc, por tudo o que você conseguiu salvar. com os diabos, Carlo! Você
19Q
Ilão é mais, criança! Que é que você pretende? Um novo livro todas as ]noites, com as páginas ainda fechadas e nenhuma palavra ainda escrita? Urna nova virgem cada
vez que for para a cama e uma porçao de gente a aclamá-lo pela manhã, quando você deixar os lençóis? Que consolo há nisso, pelo amor de Deus' Uma. maravilha de todas
as horas. . .e, na melhor das hipóteses, uma Coisa tediosa! Para sua surpresa, Rienzi riu:

- pelo menos, você ainda não esqueceu -as palavras, Peter
- Nem você. Nem Valéria.

- Receii que voce jamais o compreenda - respondeu Rienzi, ficando a fumar, alguns momentos, em silêncio. Depois, acrescentou:
- Você não me faz justiça, Peter. Não you lançar~me contra moinhos de vento. Não you passar a perseguir, na Via Veneto, as mocinhas que servern de modelo. Não
sou desse tipo. Mas oxalá o fosse. Acredite ou não, já estou quase resignado à minha situação. 0 casa mento de conven ,iência é urna instituição muito antiga
neste país. Valéria pode fazer o que quiser, contanto que seja discreta. Quanto

n novo objetivo em minha vida. Talvez a mim, posso começar a ver un em parte, o e.

não seja inteiramente satisfatório, irias,
- Você se refere a Anna Albertini?

- Precisamente. Dentro de três anos, ela estará livre. Durante esse tempo, ela terá de ser preparada para participar domundo cotidiano, Quando ela o fizer, precisará
contar com urna especie de estrutura baseada no afeto e em novos interesses. ura?

- E você acha que poderá proporcionar-lhe tal estrut
- Acho.

- A que preço? i pelo que agora possuo.

- Menos do que pague tom gélido,
- Você quer saber o que eu pensog - indagou, em

Landon. . - £ por isso que estou falando com você, Peter. Mais do que nunca, preciso, agora, de sua amizade.

- Então, pelo amor de Deus, ouça o que you dizer-lhe! interrompeu-se, concentrou-se por um momento e prosseguiug ardoroso e persuasivamente, sabendo que, agora ou
nunca, a sua dívida deveria ser paga: e lhe diga, Carlo, que

- Em primeiro lugar, permita-me qu m que toda não concordo com muitos de meus colegas que afirma Acredito, aberração humana é um
sintoma de enfermidade mental.

como penso que você também acredita, que o homem é um ser responsável, dotado de livre arbítrio. Mas isso não é razão para se cOnfundir a questão. Há não só enfermidade
mental, como, também, enfermidade moral. Há muita maldade no mundo. Depravação e
200

indulgência intencionais. Existe, também, uma enfermidade especial que se segue a essas coisas: um estado de fuga, uma evasão do conhecimento de culpa, o homem
a cobrir a cabeça com as cobertas a fim de fugir ao assalto das Fúrias. Eis aí a razão porque a psiquiatria moderna se divide em duas escolas. Os deterministas dizem
que o homem não é responsável por suas ações. Por conseguinte quando lhe revelamos a fonte de sua doença, ele se cura perdoando a si próprio. Você é advogado. Deve
ver onde isso termina: no absurdo destruidor de que o mal tem em si a sua própria absolvição. A outra escola afirma, mais sensatamente, que, ao revelar-se a fonte'
da doença, deve dar-se ao homem uma esperança de perdão, mas que ele deve ser levado também a corrigir-se. . . - Fez uma pausa e riu, um tanto contrafeito: - Você
talvez esteja perguntando a seus botões por que razão estou aqui a fazer-lhe esta pequena preleção ... Bem, eu não sou nenhum santo de gesso. Deus bem o sabe. Sei,
como você também o sabe, quando estou agindo mal. Você está agindo mal, neste momento, porque se recusa a conceder a Valéria qualquer espécie de perdão, exigindo-o
todo para você. Você sabe que está preparando o caminho para um mal ainda maior. De modo que procura criar a ilusão de que poderá obter a sua própria absolvição
mediante o próprio ato que o condenará: a sua dedicação a Anna Albertini.

- Você está me mentindo, Peter - disse, friamente, Rienzi.
- Desta vez, não, creia-me. - Ele estava agora defendendo urria causa, e o conhecimento de sua própria culpa dava-lhe premente humildade. - Ouça-me, Carlo, e pense,
um momento, em Anna. Você ganhou sua causa baseando-se nos argumentos que você e eu preparamos para ela ... isto é, que, na ocasião do crime, ela se achava mentalmente
enferma, privada de senso moral e de responsabilidade, devido ao choque causado 'pela morte de sua mãe. Ora, isso poderia ser verdade. Por outro lado, poderia ser
igualmente certo que ela fosse uma pessoa responsável, que tivesse consciência de culpa e que, praticado o ato - depois de ser ele praticado, lembre-se - ela se
projetasse no estado de fuga em que permaneceu, virtualmente, desde então. Reflita um momento sobre isso. E se houver, ao menos cinqüenta por cento de probabilidade
de que assim ocorreu, veja aonde isso conduz. Ela apega-se a você porque você à a unica pessoa que continua a absolvê-la, como o fez, no sentido jurídico, no tribunal.
Talvez seja por isso que ela não lamenta a perda do marido, pois ele a rejeitou e não a perdoou.

- Esse é um pensamento monstruoso!

- Monstruoso, sem dúvida - respondeu, tranqüilamente, Landon. - E as consequencias poderão ser ainda mais monstruosas.
201
Você talvez pudesse vir a privá-la, de maneira completa, total, de qualquer esperança de cura.

- Não compreendo.

- Então permita que lhe explique, Carlo - volveu ele, tentando pousar a mão, num gesto cordial, no ombro de Rienzi. Este, porém, ressentido, evitou o contato. -
Acredite no que lhe digo, hornenl! Estou sendo o mais sincero possível com você. Não estou procurando inventar fantasmas para assustá lo. Esta é a minha profissão,
como a sua é o Direito. Toda psiquiatria, para ser bem suce dida, depende da boa vontade do paciente em procurar curar-se, sabendo que está doente. Ele procurará,
claro, resistir ao tratamento, mas se seu sofrimento é bastante agudo, acabará por cooperar ... salvo, por exemplo, nos casos de paranóia, em que a mente se fecha
inteiramente à razão. No caso de Anna Albertini não existe sofrimento, nem senso de necessidade. Enquanto ela contar com você, não estará doente, mas curada, de
modo que sua mente se fecha a novas indagações. Você a perdoou. Por conseguinte, ela se sente totalmente perdoada. De modo que a longa fuga continua, e você, Carlo
você, meu amigo - é seu associado nessa fuga.

- Mas suponhamos - disse Rienzi, em seu modo irônico de advogado - apenas suponl,,,, .:os que sua suposição é certa, embora você, no tribunal, haja provado e convencido
os juízes de que não era. Em que terreno voce se encontra agora, Landon?

- No mesmo terreno - respondeu, categórico, Landon. Mas por motivo diferente. Você se converteu num apoio necessário à enfermidade de sua cliente. Ela
continuará a agarrar-se a você. Aceitará qualquer condição, qualquer relação que você lhe imponha, mas você jamais poderá livrar-se dela. E se lhe falhar ...

Interrompeu-se e deixou que o pensamento pairasse, comc uma nota discordante, entre eles.

- E se eu lhe falhar, Peter?

- A morte, agora, já lhe é familiar - respondeu, sombrio, Landon. - Não lhe apresenta qualquer terror e solve todos os problemas. Ela se suicidará ou procurará matá-lo.

Bem, ali estava, agora, o pensamento extemporâneo: a morte posta, às claras, sobre a mesa, a morte escrita na palma da mão de um homem - e este demasiado cego para
vê-Ia. Landon deixou que ele ficasse um momento a refletir sobre essa idéia. Depois, indagou:

- Você acredita em mim, Carlo?

- Não - respondeu Carlo Rienzi. - Receio que não.
202

PÔS o motor em funcionamento, deu marcha à ré e depois prosseguiu montanha acima, rumo ao Hospício do Bom'Pastor.

No fim da tarde, Alberto Ascolini fez sua capitulação final, diante de sua filha e de Ninette Lachaise. Sentou-se com elas nun,
1

baixo banco de pedra, defronte da pequena fonte onde um faun( tocava sua flauta e se divertia entre os repuxos. Pela rimeira vz P

em sua vida, não pensava ele numa exibição teatral, nem na retó-rica de sua profissão. Não procurou persuadir nem dominar a situa.- ção; achava-se, apenas, ali sentado,
apoiado a uma bengala, um chapeu de camponês sobre a cabeça branca, a pedir, pela primeira e últ]'

1 1 3. vez, desculpas pela sua carreira de saltimbanco.

Eis aqui como a coisa termina, minhas filhas. Eis aqui coni -0 acho que ela deve terminar: um velho tolo sentado no jardim etn, companhia das mulheres. Eu costumava
ter medo disto... E, hoje, Pela primeira vez, posso ver que talvez haja prazer nisto. Quando eu era rapaz - e isso faz muito tempo - os signorj que possuíam
esta villa costumavam atravessar San Stefano em suas carruagens, a caminho de Siena. Tinham cocheiros e ajudantes, e as mulheres - qu'' me pareciam princesas - levavam
seus lenços ao nariz, enquanto passavam pela aldeia. Lembro-me de mim, um moleque de nariz suj;<) e calças rasgadas nos fundilhos, a gritar por moedas de cobre,
enqualto o cocheiro me desferia golpes com o chicote. Isso faz muito temp,,,, mas eu o relembrava todos os meses, todos os anos, enquanto i,3 subindo na vida, saído
do monturo. Um dia, eu teria uma carruagem e a Mulher de lenço rendado seria a minha mulher, e eu me exibirá em grande gala na ópera, e atravessaria o Corso, em
Roma, e bei, jaria as mãos das damas nos salões. Fiz tudo isso, como saben-,, Jantei com reis e presidentes, e compareci a uma recepção condq zindo em meu braço
uma princesa de sangue real... Mas onde está tudo isso, agora? Não se converteu em pó e cinzas. Não posso dizer isso. Foi um bom tempo? Sim, sem dúvida. Mas, com
bastante freqüência, eu sonhava com o rapazinho de nariz sujo, e estendia a mâf2 para erguê-lo até à carruagem ... Não obstante, jamais pude tocarlhe. Tampouco podia
livrar-me dele. Ele sempre voltava, e jamaís consegui saber se ele zombava de mim ou me censurava. De modo que, por ele, penso, eu me vingava do mundo a que chegara...
e o fazia até mesmo contra você, Valéria, minha filha. Custou-me fflUt,' tempo para perceber que essa vingança também se voltava contra Inim. Quando me casei com
sua mãe, eu era pobre, ambicioso e, a amava. Quando me tornei famoso e cortejado, passei a dcsdeT1há-1, Procurei refazê-la em você, Valéria, segundo a imagem que
eu dese-
jara. Coisa estranha, minhas filhas. , . Ela me disse, muitas vezes, que o preço era demasiado alto e que, urna vez pago, eu me arrependeria. E é por você, minha
filha, que eu o lamento mais. Você tinha razão, ao dizer-me que eu a fazia pagar tudo o que lhe dava. Nada de graça! Foi a lição mais amarga que o garoto de nariz
sujo teve de aprender, Ele jamais teria acreditado em coisas gratuitas ... no beijo que nada custa, ou na mão que ajuda um nosso semelhante a levantar-se de um fosso.
Mas aprendeu-o agora ... e isso devido a você, Ninette, e até mesmo a esse seu obstinado Landon ... Mas você, minha Valéria, teve de pagar pela lição. . . - Sua
voz hesitou, e ele assoou violentamente o nariz. - Perdoe-me, minha filha, se puder. Se não puder, creia, ao menos, que a amo.

Basta, dottore - disse, baixinho, Ninette Lachaise. - Esse amor é o bastante ... e Valéria deveria saber que ele aí está. Levantou o velho chapéu de palha e deu-lho
um beijo na testa,

passando-lhe pelo rosto a mão fria. Depois, deixou-os - Valéria com suas lágrimas e o velh 'o advogado com seus remorsos - entregues à purificação de um sol de
fim de verão.

- Vamos! - exclamou o velho, na sua maneira viva e pragmática. - Enxuguemos, agora, os nossos olhos e vejamos se nos tornamos mais sensatos. Agora você acreditará,
minha filha, que lhe digo a verdade?

- Sim, papai.

- Então vamos ver o que podemos fazer com esse seu casamento. Agora me diga, honestamente: que é que se passa entre vocês dois?
i

Valéria ergueu o rosto devastaà e fitou-o, absorta:

- A coisa é bastante clara, não lhe parece, papai? Tenho sido uma idiota e Carlo precisa de algo que não posso dar-lhe.

- Admitiremos que você agiu idiotamente - disse Ascoliní, com seu velho e sardônico sorriso. - Deixaremos isso de lado e só o encararemos, ocasionalmente, para que
nos lembremos de não ser de novo idiotas. Mas. . . e a respeito de Carlo? Que é que ele deseja?

- Oxalá eu o soubesse - respondeu ela, triste, erguendo os ombros. - Uma mãe, taivez. Ou uma noiva infantil, recém-saída de uma escola de freiras!

- Ele tem essa noiva infantil - observou, cinicamente Ascolini. - Mas ela não lhe serve, pois permanecerá três anos encarcerada, Quanto a uma mãe, ele pouco -poderá
fazer, a menos que arranje uma viúva maternal com um metro e doze de busto.

- Não graceje com isso, papai. A coisa .é séria.
204

- Se' que é séria, m'nha filha - volveu o

tanZinza. - Mas nem por isso vamos velho, novarnente ergucr as mãos aos céus e sair
8 13mCntar-nos pela cidade. Vamos fazer alguma Coisa a respeito.
- 0 que, por exemplo?

- Essa moça, Anna Albertini... Você deve ignorá-la, Se Carlo quiser passear pelo jardim do convento de braço dado com ela, tendo uma freira por cão de
guarda, deixe que ele o faça Ele enjoará, com o tempo. A piedade é uma dieta muito rala para um homem de trinta e cinco anos. Se ele quiser experimentar a viúva
ou uma franguinha encontrada em algum café, também não tome conhecimento disso. Engula seu Orgulho e aceite-o como ele é... C, enquanto Você o tiver, veja se o transforma
para melhor, isso costuma acontecer, como você sabe. E você terá alguma coisa por que se interessar. Você o viu no tribunal. Ele era outro homem. E você é mulher.
Talvez você possa fazer surgir esse mesmo -homem na cama. Ouça, minha filha - ajuntou, voltando-se para ela e aprisionando-lhe o pulso em suas velhas e vigorosas
mãos:

- Há sempre aquele que beija e aquele que vira a face. As vezes, aquele que desvia a face aprende a gostar do sabor do beijo. Vale a pena tentar, não acha? F- você
terá algo com que se distrair. Depois do verão, vem o outono. Se não der certo, que é que você perde?

- Nada, creio eu- Mas você não percebe que estou sozinha, agora? Sinto-nje amedrontada.

Espere até chegar à minha idade - respondeu Ascolini com um sorriso, - Até chegar ao último Inverno, quando se sabe, com certeza, que jamais haverá outra primavera.
Coragem, menina! Mos. tre um "Ovo rosto, e veremos que cenouras haveremos de encontrar Para atrair esse nobre asno com quem você se casou!

0 Hospício das Irmãs de bom Pastor elevava sua massa cinzenta sobre ampla extensão de jardins, terras de cultivo e sombrios Ciprestes. Visto de perto, seu aspecto
era desagradável. um grande muro de tufo, guarnecido, em cima, de espigões e cacos de vidro; portão de ferro forjado, tendo, atrás, grossa tela de arame de onde
se via, ao fundo, o Próprio hospício, uma velha construçã -o monástica de quatro pavimentos, sólida como uma fortaleza, de janelas gradeadas e uma antena de televisão
a erguer-se, incongruentemente, sobre seu velho telhado. Ao entrarem, um porteiro idoso levou a mão ao boné, saudando-os num gesto frouxo. Duas pacientes, que caMinhavam,
com passos arrastados, pelo gramado, fitaram-nos com alhos vítreos, indiferentes. Uma jovem freira, as mangas do hábito arregaçadas, colhia flores, seguida de um
grupo de miliberes que se

205
mas nem mesmo o mais desconfiado abelhudo teria encontrado o que quer que fosse digno de censura no tom ou na inflexão de sua voz.

Passado o primeiro momento de emoção, Anna empilhou seus presentes sobre uma cadeira e levou os dois homens para o jardim. Caminhava entre ambos, recatada como uma
noviça, contando-lhes, com simplicidade, os detalhes de seu primeiro dia após o julgamento.

- Todos foram bondosos para comigo. Em San Gimignano, fizeram-me um 'iantar especial e permitiram que as enfermeiras fossem conversar comigo. Uma delas me arranjou
o cabelo, outra me trouxe um livro de orações. Pela manhã, deixaram-me passear sozinha pelo jardim, e a esposa do administrador ofereceu-me café. Todos me disseram
que eu tive muita sorte, referindo-se à maneira maravilhosa pela qual você me defendeu. Senti-me muito orgulhosa. Deram-me, aqui um ótimo quarto. Há grades nas janelas,
mas elas têm, também, cortinas floridas, e tudo é muito branco e limpo. A Irmã Eulália levou-me a dar uma volta pelo jardim e mostrou-me, no barracão do jardineiro,
uma ninhada de gatinhos recém-nascidos. Contou-me histórias engraçadas a respeito das pessoas que víamos e, hoje à noite, haverá um concerto, com a participação
de cantores famosos de Roma.

A primeira impressão de Landon foi a de sua extrema simplicidade, de sua preocupação por coisas triviais, de seu contentamento dentro do estreito âmbito de sua existência
de sentenciada. Mas, quando Carlo começou a indagar a respeito de suas leituras, de como gostava ela de passar o tempo, dos programas de televisão que via, Landon
vislumbrou nela senão uma inteligência viva, embora limitada, pelo menos uma criatura de juizo bastante aceitável.

Pela primeira vez, Anna manifestou interesse pelo que talvez pudesse fazer depois de obter a liberdade. Vira, certa vez, um desfile de modas, e, agora, perguntava
a si mesma se, mais tarde, não poderia vir a ser um manequim. Se isso não desse certo, talvez, lhe agradasse fazer um curso de estenografia. Queria saber se não
haveria um meio de estudar estenografia no hospital. Fez perguntas acerca do trabalho de Carlo e de Landon, e suas indagações, conquanto elementares, não deixavam,
nem por isso, de ser bastante sensatas.

Carlo agia com tato. Procurava ver o que lhe interessava, estimulava com perguntas o seu interesse e, depois, dava-lhe as informações de que ela necessitava. Sua
conversa abrangia amplo âmbito, mas evitava abordar assuntos que pudessem desagradá-la ou reviver velhas lembranças de infância ou de sua vida matrimonial. Grace-
210

Java com ela e ria desta ou daquela observação levemente chistosa de Anna. Durante todo o tempo, caminhou separado dela, com as mãos atrás das costas, como
um parente cordial ao lado de urna Colegial que acabasse de terminar o seu curso.

Mas, para Landon, faltava algo naquele quadro. Era demasiado plácido, demasiado recatado. Faltava-lhe emoção, ardor. Nada havia naquilo que justificasse a desesperada
esperança de Carlo, nem os seus próprios receios, nem que parecesse ter importância à própría Arma. Landon não podia acreditar que aquela exibição tivesse sido preparada
para ele. Rienzi era um ator demasiado bisonho para desempenhar aquele papel, e Anna não recebera instrução alguma para preparar aquela burla.

De repente, porém, Landon começou, pouco a pouco, a compreender. Aquilo não era todo o espetáculo, mas um prelúdio, um ritual preparatório para que passassem a uma
outra fase de comunicação. Viu, ou julgou ver, que ambos tinham necessidade de algo assim. Eram pólos à parte quanto à natureza, educação e experiência. Encontrar-se-iam
demasiado raramente, e por espaço de tempo demasiado curto, para que pudessem saltar imediatamente a um plano mais elevado da compreensão. A jovem seria subjugada
pela disciplina diária da instituição. Carlo, por sua parte, também teria de dominar-se, se não quisesse que as exacerbações de sua vida o levassem a alguma indiscrição.
De modo que cada um de seus encontros começaria assim: conversas frívolas, para escumar a superfície de pensamentos adormecidos, uma lenta pavana ao longo das aléias
do jardim ... Mas para quê?

Chegaram, finalmente, a um muro de pedra, baixo onde havia uma cancela que conduzia ao domínio privado das Irmãs; um gramado de croquet cercado, todo ele, por cerrados
arbustos e, mais além - e mais recluso ainda - um jardim situado em um plano mais baixo, onde havia um tanque de peixes e um sacrário de Nossa Senhora de Fátima.

Era ali que as freiras se reuniam em seus momentos de recreação e para rezar o terço, em meio à fresca da tarde. Era ali que se refugiavam dos trabalhos ingratos
do hospício e da intrusão das doentes que perambulavam, trôpegas, por toda parte.

- Aqui, disse subitamente, Anna - aqui me sinto, pela primeira vez, livre. Não livre como antes, mas como o serei um dia. Não fitava os seus companheiros: circunvagava
o olhar pelo

jardim e por sobre o topo dos ciprestes, na direção do céu azul, onde um falcão solitário pairava, em lentas circunvoluções no ar imóvel. Brilhavam-lhe os olhos
e tinha o rosto transfigurado por um súbito afluxo de vitalidade.

211,
- Estão vendo aquele camarada lá no alto? Quando eu era menina, em San Stefano, costumavam chamá-lo de ladrão de galinha. Sabem corno é que eu o chamo agora? Chamo-o
Carlo. Ele paira lá em cima durante horas e horas, e a gente pensa que ele não vai jamais descer. Mas, de repente, ele cai - ploque! - como uma pedra. - Voltou-se
para Landon, afogueada, a rir: - Exatamente como Carlo! Durante todo o tempo em que estive presa, durante todo o tempo que durou o julgamento, ele parecia estar
muito longe. . . a quilômetros e quilômetros de distância, no meio de gente importante. Agora. . . veja! Está aqui comigo, neste jardim.

Landon lançou rápido olhar a Rienzi, irias ele estava debruçado sobre uma roseira florida, interessado como qualquer botânico. A jovem tornou a rir, numa zombaria
infantil:

- Carlo não acha que é um falcão. Gosta de fingir que é uma cegonha de pernas compridas e um longo nariz de advogado, com um par de óculos sobre o mesmo. Queria
que o senhor ouvisse as preleções que ele me fazia quando ia visitar-me! Parecia exatamente a Madre Superiora, quando falou, hoje, comigo: "Anna deve ser uma boa
menina. Anna deve fazer o que lhe disserem. Deve aprender suas lições, ser asseada, paciente e cooperar."

- Anna é uma menina de sorte - disse, friamente, Carlo. Mas ri de coisas que não deve.

- Você me disse, certa vez, que eu precisava rir!
- Eu sei, menina, mas ...

- Não sou menina! Sou mulher. E isso é o que você quer que eu seja, não é verdade? Era o que você dizia o tempo todo, durante o julgamento. E agora me chama de
menina!

Disse isso em tom petulante, como se fosse uma velha queixa e, depois, ficou cabisbaixa, a morder a unha do polegar, à espera de que Carlo tornasse a censurá-la.
Essa vez, porém, ele foi mais gentil para com ela. Sorriu, benevolamente, e resp(,,-,,.;-u:

- Anna, as coisas que gosto de dizer-lhe são coisas que a libertarão. Você está, agora, em melhor situação do que am-!is esperávamos. Três anos não é tanto tempo
assim, e passP,--o nu'to mais depressa se você viver pacientemente cada dia. Isto ,,ui é um bom lugar. As Irmãs são bondosas. Se você for ohediente e dócil, talvez
possamos tirá-la daqui mais cedo. Isto não C i-n,.--tivo -pan- graceJc.
- Tenho vívido presa há muito tempo. quere voar

mente, como o ladrão de galinhas. Quero torm 1 Usar vestidos ho-
2,

pitos, admirar as vitrinas das casas de modas, e

Eu sei, eu sei - atalhou ele, a voz d-àCC, ,,:tiTnental. preMas virei visitá-la tão amiúde quanto possí.1_

sentes. Você verá que os dias passarão cada
212

Ademais, é preciso um inverno inteiro Para que se formem as flores da primavera... mas elas, afinal, aparecem.

Ela mostrava-se, agora, arrependida, como uma criança calculista que~pede doces apenas para ganhar uma carícia.

- Perdoe-me, Carlo - disse, humildemente. - Procurarei ser melhor. Desejo tanto que você fique contente!

- Sei que você o deseja, Anna. Agora, como boa menina, esqueça-se disso e falemos de outras coisas.

Para Landon, aquela era uma experiência embaraçosa, como deparar a gente com um casal alcoolizado, em atitude amorosa, no meio de uma escada. Anna lançava mão da
piedade para seduzir Carlo, enquanto que ele se esforçava, canhestramente, para adotar uma atitude de paternal solicitude. Quanto tempo poderiam eles manter aquela
situação, era coisa que Landon não saberia dizer. Mas, segundo tudo indicava, vinham-se adestrando naquilo havia muito e, talvez, ao enganarem-se mutuamente, tivessem
chegado a um ponto de tolerância reciproca maior do que o habitual. Mas, mais cedo ou mais tarde, um deles fraquejaria. 0 conto de fadas ruiria por terra e, então...
que fosse tudo para o diabo!

Landon, aquela tarde, já estava farto daquilo, mas agüentou mais meia hora, andando com eles, de um lado para outro, pelo campo de croquet, a ouvir o que ambos diziam,
a fazer, de vez em quando, ele também, uma observação banal, e a observar com que facilidade e inconsciência Anna e Carlo mergulhavam no convencionalismo daquela
ligação tão pouco convencional. Finalmente, desistiu e sugeriu a Carlo que já era tempo de partir.

Carlo consultou o relógio e respondeu, ressentido:

- Bem, já que você assim o deseja... Mas levará algum tempo antes que eu possa ver Anna novamente.

Quanto a Anna, mostrou-se ainda mais relutante. Levou a mão ao braço de Rienzi e pediu-lhe:

- Por favor, Carlo! Antes de você ir embora, poderíamos trocar uma palavra em particular?

Você não se importaria, Peter?

Não, ele não se importaria. Teria prazer em livrar-se deles por alguns momentos. Fumaria um cigarro e passearia mais uns dez minutos pelo jardim, enquanto eles
trocassem, junto da Madona, naquele discreto recanto, quaisquer segredos que pudessem ter. Carlo conduziu Anna até os degraus de pedra que separavam os dois jardins,
e quando ela desapareceu do outro lado, voltou para junto de Landon, a fim de dar-lhe uma explicação apressada:

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a veja!

- Desculpe-me, Peter. Tudo isto deve ser muito enfadonho para você. Mas você compreende como é. Este é o primeiro dia que ela passa aqui. E ela está inquieta. Eu
me sentiria culpado, se não a deixasse tranqüila. Não demorarei muito.

Culpado ou inocente, Landon precisava dizer-lhe o que pensava. Uma vez fora dos portões do sanatório, aquele amor, como um carnaleão, mudaria de novo de cor e rastejaria
para a toca chamada "grandes ilusões", um lugar alto, secreto, completamente fora do alcance da razão. Agarrou'firme o pulso de Carlo e advertiu-o:

- Carlo, você é meu amigo e eu preciso dizer-lhe algo. Você, neste assunto, está caminhando sobre ovos. Diga ela o que disser, e do modo que quiser, a verdade é
que essa moça é um perigo para você. E tampouco você deixa de constituir um certo perigo para ela. Desista disso, como homem sensato! Despeça-se dela, e deixe-a
de vez. Por favor, Carlo!

Carlo procurou desvencilhar-se, mas Landon não o soltou.

- Se você hoje não viu a verdade, Peter, nada fará com você
- explodiu em voz baixa, irado, Carlo. - Você possui um espírito corrupto! Já me disse tudo isso antes. Mas, agora, já é demais! Solte-me, por favor!

- Apenas mais uma coisa, Carlo!

Landon já tinha na ponta da língua a conversa que tivera com Galuzzi, bem como a suspeita que Carlo já despertara. Mas refletindo melhor, resolveu calar-se. Por
que razão deveria ele, com os diabos, fazer o papel de carrasco junto a um homem que já estava tecendo a sua própria corda? Deu, pois, de ombro, e deixou-o ir. Carlo
afastou-se, zangado, e desapareceu no jardim contíguo, enquanto Landon se sentava sob uma árvore outonal, a fumar um cigarro insosso.

Fumou outro, e mais outro. Por espaço de dez, quinze, vinte minutos, pôs-se a andar de um lado para outro pelo gramado. Depois, completamente exasperado, foi à procura
de Rienzi e de Anna. Mal havia posto o pé no primeiro degrau de pedra, quando ouviu suas vozes e, pela primeira vez em sua vida, fez papel de espião.

Rienzi e Anna estavam sentados num banco de pedra, num caramanchão situado diante do sacrário. Achavam-se voltados um para o outro, tendo de permeio metade do banco,
mas Anna segurava-lhe a mão e suplicava-lhe:

- Você me disse muitas vezes, Carlo, que ninguém pode viver sem amor... sem alguma espécie de amor. Sei que você é casado, de modo que não devo pedir-lhe que me
ame assim. Mas não sou criança e, assim sendo, você tampouco deve oferecer-me essa especie de amor. Que é que temos para nós, Carlo? Que é que você poderá dar-me,
para que eu possa manter-me viva neste lugar?

214

Landon não podia ver o rosto de Rienzi, mas podia sentir-lhe o desassossego e o esforço que fazia para contornar a situação, naquela sua.branda voz de mestre-escola:

- Você é uma criatura preciosa para mim, Anna, minha querida. . . e isso por muitas razões. Durante todas estas semanas, tive o seu destino em minhas mãos. Você
era e é ainda o meu prêmio. Claro que me interesso por você profundamente.

- E isso é tudo?

Era a mesma voz que Landon ouvira no aparelho de gravação do Dr. Galuzzi: morta, fria, incolor. Rienzi protestou, debilmente.
- Não, Anna. Você sabe que isso não é tudo. Mas, quanto

ao resto, nem eu mesmo tenho ainda certeza. Duvido que pudesse encontrar palavras para dizê-lo.

- Mas eu tenho palavras, Carlos... Eu o amo!

Rienzi ficou tremendamente perturbado, mas ainda tentou gracejar, como se ela fosse urna criança:

- Amor é um palavra importante, Anna. Significa coisas diferentes em ocasiões diferentes, A maneira pela qual você me ama hoje poderá ser muitíssimo diferente da
maneira que você me amará amanhã.

- Você'rne ama, Carlo?

Landon viu-o hesitar um momento e, depois, ouviu as palavras de sua rendição:

Eu ... eu a amo, Anna.

Mas ela não estava ainda satisfeita. Instou com ele, erguendolhe a mão relutante e levantando-a ao peito:

- De que modo você me ama, Carlo? De que modo?

Era a última trincheira de Rienzi - e ele bem o sabia. Landon sentia que Carlo procurava recobrar o domínio sobre si próprio, encontrar as palavras que constituíssem
a sua derradeira defesa:

- Eu... eu ainda não sei, Anna. É por isso que você deve ser paciente comigo. Necessito de tempo, ambos necessitamos de tempo para que nos conheçamos melhor, não
nos momentos de crise vividos num tribunal, não aqui neste lugar, mas lá fora, no mundo das criaturas normais. Isso que existe entre nós, Anna, precisa crescer naturalmente,
como uma planta. Se as flores parecerem diferentes do que esperávamos, ainda assim será belo, ainda assim será bom para nós. Será que você não compreende?

Para surpresa de Landon e alívio evidente de Carlo, ela aceitou a situação. Hesitou um momento e, depois, disse, em sua voz infantil:
- Sim. Compreendo. Agora, posso ser feliz, creio eu... Será que você poderia, por favor, dar-me um beijo de despedida?

215
Carlo fitou-a longamente; depois, com comovente ternura, mas sem sinal algum de ardor, segurou-lhe o queixo e beijou-lhe de leve os lábios. Feito isso, levantou-se.
Perplexa, desaponta-a, ela ficou a olhá-lo, tirando-lhe da lapela, com dedos nervosos, uma pequena penugem.

- Você fez isso como se eu fosse uma menina. Rienzi sorriu, com ar grave, e abanou a cabeça:

- Não, Anna! Você é mulher. Uma mulher belíssima.

- Então, beije-me de novo. Faça com que eu me sinta mulher. Apenas uma vez... apenas uma vez!

Landon teve vontade de gritar-lhe: "Não, não faça isso!" Mas a vergonha o conteve. E, decorrido um segundo, a jovem já estava nos braços de Rienzi - ambos se beijavam
apaixonadamente, como dois amantes. E qualquer freira que por ali passasse poderia ter predito, em altas vozes, a ruína de ambos.

Foi então que, súbito, sem qualquer advertência, a coisa aconteceu. com um único gesto convulsivo, Anna afastou Carlo de si. Tinha, a fisionomia contraída, numa
máscara de terror e de ódio. Enquanto Carlo a fitava, incrédulo, Anna lançou um grito estridente, histérico:

- Eles a estão matando! Eles a estão matando!

E lançou-se, a unhadas violentas, selvagens, contra os olhos e o rosto de Carlo, a gritar a acusação insana:

- Foi você! Foi você quem a matou! Você ... você!

Carlo e Landon tiveram de lançar mão de todos os seus esforços para que pudessem conduzi-Ia de volta ao hospício, onde quatro freiras corpulentas a meteram numa
camisa-de-força e a levaram embora. A Madre Superiora examinou-os com olhos sagazes, desconfiados; depois, chamou uma das Irmãs, para que cuidasse do rosto ferido
de Carlo.

216

DEZ MINUTOS DEpois, na fria sala de visitas onde se achavam ainda empilhados, sobre a cadeira, os presentes que Carlo levara a Anna, a freirinha pálida os recebeu
com a gélida pergunta:

- Bem, senhores, como foi que isso aconteceu?

Carlo Rienzi era grande advogado, mas, agora, estava no banco dos réus, e precisava que alguém o defendesse. Antes que tivesse tempo de abrir a boca, Peter Landon
apressou-se em explicar:

- Creio que eu, Revrna. Madre, vi melhor o que aconteceu que o próprio Dr. Rienzi. Estávamos, os três juntos no jardim. 0 Dr. Rienzi despedia-se de Anna, enquante-
que eu, a uns três passos de distância, os observava. Anna parecia perfeitamente normal, mas quando o Dr. Rienzi lhe estendeu a mão, ela passou-lhe os braços pelo
pescoço e tentou beijá-lo. Ele a afastou e disse-lhe que não fosse tola. Ela se pôs, então, a gritar, dizendo que fora ele quem lhe matara a mãe. E, logo a seguir,
o atacou.

Landon esperava, desesperadamente, que a narrativa parecesse tão chocante e ingénua quanto ele o desejava. Aquela freira pálida, competente, mantinha, naquele momento,
poder de vida e morte sobre o advogado Rienzi, e Landon não tinha dúvida de que ela o, condenaria sem piedade, se desconfiasse da verdade. De modo que, por precaução,
acrescentou uma opinião pessoal:

- Foi trágico o que aconteceu, mas, falando profissionalmente, não estou demasiado surpreso. Tanto o Prof. Galuzzi como eu estávamos muito preocupados com certos
elementos instáveis existentes no caso dessa jovem. Sei que o Prof. Galuzzi tenciona examiná-los mais detidamente, mediante análise profunda. Se pudesse usar 0 seu
telefone, gostaria de chamar o Dr. Galuzzi.

A Madre Superiora lançou-lhe um olhar frio, penetrante, e, aparentemente, satisfeita, voltou-se para Rienzi:

217
- Dr. Rienzi, o senhor concorda com a eirplicação do Dr. Landon?

Mesmo abalado corno estava, Rienzi ere. ainda bom advogado. Sabia que uma meia mentira era pior que uma mentira completa. Sua resposta foi concisa e convincente:

- Foi exatamente o que aconfIzceu.

A Madre Superiora fez uin aceno com a cabeça e disse em tom enérgico, decidido:

- Receio que isto não termine aqui. Os senhores sabem que as pessoas que nos são, confiadas pela Justiça se acham sob a guarda do Estado. Tudo que lhes acontece
se converte em relatório oficial. Necessito, pois, do depoimento dos senhores ... quatro cópias, cada qual com firma reconhecida.

Ela devia ter ficado'convencida, pensou, soturnamente Landon, pois que, do contrário, saberia que os estava obrigando a perjúrio, e a consciência das dignas Irmãs
era demasiado delicada para que elas se entregassem a tão deliberada ironia.

Carlo Rienzi murmurou algumas palavras, manifestando pesar pelo que ocorrera, mas a Madre Superiora, num gesto altivo, imperioso, fez-lhe sinal com a mão para que
não se incomodasse. Sua vocação era cuidar de mentes enfermas, e Anna Albertini estava irremediavelmente doente. Conduziu Landon, através de um corredor deserto,
onde os passos ecoavam, até ao seu escritório - e telefonou ao Prof. Galuzzi.

Fez primeiro o seu próprio relatório, num tom claro e decisivo de oficial de Estado-Maior. Depois, entregou o receptor a Landon. Foi-lhe um alívio ouvir a voz seca,
acadêmica, de Galuzzi:

- Então, meu amigo, a coisa aconteceu mais cedo do que esperávamos, hein? Bem, talvez seja melhor assim... para todos. A Madre Superiora disse-me que o senhor estava
aí e presenciou tudo.
- É verdade.

- Segundo presumo, foi a sua própria versão o que ouvi, pois não? indagou, com leve ironia, Galuzzi.

A Madre Superiora contou-lhe exatamente o que eu lhe disse. you prestar meu depoimento num relatório oficial.

Para surpresa .de Landon, Galuzzi riu:

- 0 nosso jovem advogado é afortunado com os seus amigos. Seu testemunho ocular encerrará, certamente, o assunto, dada a importância de sua reputação profissional.
Se o senhor tiver tempo, porém, dentro dos próximos dias, gostaria de tomar um copo de vinho em sua companhia... e talvez pudéssemos conversar acerca de nossa paciente.

218

- Sou-lhe muito grato pelo convite - respondeu Landon. Mais do que poderia expressar-lhe. Mas deixarei Siena dentro de dois dias. you me casar.

- Meus parabéns! - exclamou, calorosamente, Galuzzi. E acrescentou, em tom mais seco: - Acho que faz bem. A senhorita Lachaise é uma mulher encantadora... e já é
tempo que o senhor aproveite a vida. Felicidades, meu amigo. Deus o acompanhe.

Felicidades para o senhor - disse, em voz baixa, Landon. E obrigado.

A velha freira observou-o com olhos astutos, experientes.
- De modo que o seu caso está encerrado, Dr. Landon. 0 meu apenas começa. Obrigada e bom dia.

Dirigindo o carro de Rienzi, Landon cruzou o portão de ferro e ouviu quando o mesmo se fechou com um baque. Enquanto subiam do vale para a montanha, Carlo permanecia
encolhido e silencioso a seu lado, a passar a mão pelo rosto marcado e a fitar, absorto, a estrada. Decorrido algum tempo, animou-se um pouco e disse, com voz apática:

- Obrigado pelo que você fez, Peter.
- Esqueça-se disso.

- Você não imagina quanto eu o lamento.
- Esqueça-se disso, também.

Dificilmente Landon poderia ter dito menos, mas não tinha coragem de dizer mais. Sabia que, se Rienzi proferisse uma única palavra de piedade por si mesmo, ele pararia
o carro e lhe daria um soco no nariz, obrigando-o a seguir a pé até Siena. Compreendia o que ele deveria estar sofrendo; estava disposto a jurar falso para salvar
a cabeça de Rienzi; mas a lembrança de Anna Albertini, irrerflediavelmente perdida, encerrada numa camisa-de-força e despachada para o esquecimento, o perseguiria
durante longo tempo.

já anoitecia, quando chegaram à Villa Ascolini. Felizmente todos estavam se vestindo para jantar, de modo que Landon acomodou Carlo na biblioteca, diante de uma
garrafa de uísque e de um sifão, e subiu, rápido, a escada, a fim de falar com Ninette. Ela ouviu-o em silêncio e, depois, censurou-o, com firmeza:

- Sei que você está zangado, chéri, mas você não pode desistir agora. sei como você se sente por ter precisado prestar falso testemunho. Concordo em que todas as
suas-dívidas estão saldadas. Mas não podemos agir como se se tratasse apenas de uma questão de débito e crédito. Carlo está passando por uma crise, e devemos ajudá-lo
a superá-la.

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- Você não acha que já é tempo de que ele comece a ajudar a si próprio?

- Mas acha que ele pode fazê-lo neste momento? - indagou ela, estendendo a mão e acariciando-lhe o rosto zangado. - Peter, Peter, então você não vê? 0'que ele fez
hoje deve parecer-lhe algo assim como um crime.

- E acaso não ocorreu exatamente isso?

- Quem poderá dizê-lo, chéri? Quem poderia dizer se era necessário muito ou pouco para perturbar o equilíbrio mental de Anna? Quem sabe se, sem a interferência de
Carlo, isso não teria acontecido muito mais cedo? Não o julgue, Peter. Não o faça hoje. Não o faça, por enquanto.

Ele não sabia resistir a um seu pedido. Tomou-a e beijou-a, rendendo-se com um sorriso fatigado:

- Muito bem, querida. Que é que yocê quer que eu faça?
- Deixe Carlo comigo um momento. Vá falar com Ascolini e Valéria.

- Você acha que seria sensato contar-lhes o que ocorreu?
- Estou certa que sim.

Quanto a Landon, não tinha a mínima certeza disso, mas, no fundo, sentia-se demasiado indiferente para se importar com o que pudesse acontecer. Decorrido um momento,
Ninette cruzou a biblioteca, ao encontro de Carlo, enquanto Landon seguiu pelo corredor, a fim de conversar com o Dr. Ascolini.

0 velho recebeu a notícia de modo bastante calmo. Passou mentalmente em revista as probabilidades legais e, depois, satisfeito de que tanto Rienzi como Landon estivessem
livres de qualquer denúncia, encolheu os ombros e respondeu, tranqüilamente:

- Para a moça, claro, é uma coisa terrível. Para nós ... para todos nós ... talvez seja a bênção que esperávamos. Carlo agora, está só. Talvez volte para Valéria.

Talvez. Parece que ele não tem outro lugar para onde ir.
0 velho lançou um olhar irôníco a Landon:

- O senhor já está farto disso tudo, não é verdade, meu amigo?
- Mais do que farto. Vamos despedir-nos esta noite, doutor. Ascolini, com ar grave, fez com a cabeça um sinal afirmativo:
- Tem razão, certamente. Se lhe disser que lhe sou grato, isso

significará muito pouco. Permita-me que lhe diga, simplesmente, que todas as suas dívidas para com Carlo estão saldadas, e que, agora, nós é que somos seus devedores.
Eu jamais jurei falso a favor de homem algum, embora tenha feito muitos juramentos falsos a mulheres. Mas isso é outro assunto. Obrigado, Dr. Landon, e muitas felicidades.
Sei que será bondoso com Ninette, e ela com o senhor.
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Agora deixe-me como um bom rapaz. Descerei dentro de alguns minutos, para falar com Carlo. Que é que o senhor irá dizer a Valéria?

- A verdade - respondeu, categorico, Landon. - Que mais poderia dizer-lhe? Isto é o fim da estrada.

Quando ele lhe deu a notícia, Valéria Rienzi repetiu a sua própria frase:

- P, mesmo o fim da estrada, como você diz, Peter. Se não pudermos unir-nos depois disso, nãç# restará mais esperança. Seguiremos cada qual o seu caminho. A tolerância
também tem limites.

Havia uma pergunta que precisava ser feita, e ele a fez sem meias palavras:

- Como é que vê essa nova união?

- Apenas com amor - respondeu ela, enfática. - Não quero mais saber desta fria salada convencional. Não espero demasiado; não conto sequer com um ajuste em termos
iguais. Mas deve ainda haver algum amor de ambas as partes, e até mesmo um certo aieor, as vezes. Sobre que outras bases poderemos recomeçar?

- Sobre nenhuma outra base. Você ama Carlo?
- Posso começar a amá-lo, creio eu.

- E ele a ama?

- Não sei, Peter. Mas ele deverá dizer-me esta noite.
- Você acha que, esta noite, ele o saberá?

- Se não o souber esta noite, então jamais saberá! - Voltouse para o espelho e pôs-se a escovar os cabelos. - Eu o verei lá embaixo, Peter. . . Mas não me beije,
ao despedir-se de im.

Ele voltou ao seu quarto, lançou-se sobre a cama e fechou os olhos. Estava exausto, mas, por enquanto, ainda não haveria descanso para ele. Segundo seus cálculos,
todas as suas dívidas estavam pagas, e ele já estava livre para partir. Mas havia ainda uma última exação - e ele não tinha ainda coragem de enfrentá-la. Continuou
deitado, esgotado e vazio, procurando pôr em ordem os seus emaranhados pensamentos.

Não era apenas Carlo quem havia chegado ao fim da estrada. Peter Landon, também, chegava a um momento final e a um novo ponto de partida. Há muito tempo já, vinha
ele se envolvendo, consciente ou inconscientemente, na multiforme e delicada anatomia do amor e da justiça: na fidelidade àquele e nos aspectos jurídicos desta.
Mas, embora houvesse descoberto que ambos eram atingíveis, nenhum era perfeito.

Chegava-se a cada qual mediante conflito e contradição. 0 amor era afirmado pelo contrato de casamento, mas o contrato não bastava para preservá-lo. Quando à justiça,
estava destinada a ser pre-

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servada mediante as multíplices disposições do Código. Mas, mesmo que ambos fossem defendidos por mil vozes, mesmo que mil advogados estivessem encarregados de mil
casos, não se chegava ao amor ou à justiça senão mediante lenta pesquisa, meticulosa ponderação acerca do direito e do dever, afanosa busca da verdade, implacável
extirpação do erro e do egoísmo.

Mesmo após os esforços de toda uma existência, não se chegava ainda ao fim do assunto. 0 amor era uma flor que exigia pacientes cuidados; a justiça, o fruto de vigilante
cultivo. Mas - que Deus tenha piedade de suas almas miseráveis! - os homens eram demasiado negligentes quanto ao que lhes foi confiado; o amor pelo qual poderiam
viver felizes, e a justiça pela qual poderiam viver em segurança... dois passos que os separavam do caos.

com tais pensamentos perturbadores, levantou-se da cama, lavou o rosto, passou um pente pelos cabelos e desceu.

Encontrou Ascolini e Valéria a conversar com Ninette junto à porta da biblioteca. Ninette parecia tensa e ansiosa, e tinha os olhos inchados de chorar. Quando Landon
lhe perguntou por Carlo, ela abanou a cabeça:

- Nada posso dizer, chéri, pois que tampouco o sei. Durante um momento, a coisa foi terrível. Jamais vi um homem tão perturbado. Ele contou-me tudo ... as coisas
mais secretas de sua vida. Depois, sentou-se no chão, pôs a cabeça nos meus joelhos e nada mais disse. Agora está calmo, mas o que ele está sentindo ou pensando
é coisa que não sei. Ele quer ver-nos a todos.

- E disse por quê?

- Não. Disse apenas que queria ver-nos a todos reunidos. Ficaram alguns momentos irresolutos, a olhar uns para os outros. Finalmente, Valéria encolheu os ombros
e abriu a porta da biblioteca.

0 primeiro olhar lançado a Carlo Rienzi fez com que todos eles se detivessem. Parecia ter envelhecido dez anos em duas horas. Tinha o rosto lívido e encovado, os
olhos brilhantes e febris. Os cabelos caíam-lhe, úmidos e escorridos, pela testa. Achava-se apoiado ao consolo de mármore da lareira, como se o mais leve movimento
o fizesse cair.

- Alô, Carlo - disse Valéria, em voz baixa.
- Alô, Valéria.

Depois disso, houve uma pausa. Carlo fitou-os com ar vago, piscou repetidamente e abanou a cabeça, como se quisesse dissipar as névoas de um pesadelo. E disse, a
voz incolor:

- Alegra-me que você esteja aqui, Valéria. Alegro-me que nossos amigos estejam aqui. Desejo dizer-lhes algo.

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Landon pôde ver que Valéria lutava contra um súbito impulso de piedade, mas permaneceu imóvel, à espera de que Carlo prosseguisse.

- Sinto-me vazio esta noite - começou ele. - Nada sou, nem nada tenho. Fiz hoje uma coisa horrível, mas nem sequer posso sentirme culpado pelo que ocorreu. Já não
posso sequer sentir claramente o que lhes estou dizendo neste momento. Tudo o que sei é que quero senti-lo, e que vocês acreditem no que lhes digo, pois que jamais
serei capaz de repetir estas palavras. Lamento o que aconteceu não apenas por mim, mas pelo que fiz e pelo que tenho sido ... para você, Valéria, para seu pai, para
Peter e Ninette, que aqui estão. Isso talvez pareça estranho, dito por um homem que não consegue sentir coisa alguma... mas é algo que precisa ser ddito. Eu amo
vocês todos. Espero que me perdoem e me deixem partir em paz.

"Santo Deus", pensou Landon. "Isto não pode ser verdade!" Mas era verdade, e tão patente que Landon não pôde deixar de perguntar a si mesmo por que razão todos eles
não se punham a rir. 0 advogado Rienzi defendia a sua propria causa com extraordinário talento de charlatão, como jamais seria capaz de o fazer em qualquer tribunal.
Suplicava exatamente aquilo que ele próprio negava - o direito de continuar a ter pena de si próprio, o direito de dispor da vida sempre de acordo com as condições
por ele impostas, mas tendo sempre, não obstante, um peito amigo sobre o qual chorar. Num lance final, genial, representava o papel de menino açoitado, sabendo que,
no fim, as vergastadas cairiam sobre as costas de outrem. Jamais faria uma defesa tão astuta, nem menos digna do que aquela.

Landon teve ainda a impressão de que ele estava vencendo, ao ver Valéria acercar-se dele com as mãos estendidas. Mas, de repente, conteve-se e perguntou-lhe, a voz
clara, fria:

- Para onde vai você, Carlo?

Ele voltou-se, com ar vago, para ela, e respondeu em tom quase de desculpa:

- Você não deve pedir-me para falar sobre isso. Já lhe causei demasiado sofrimento. Mas não haverá mais complicações, prometolhe. - Riu, hesitante. - Eu disse hoje
a Peter que não sabia que palavras empregar. Engraçado! E acabei por verificar que sempre as soube. Só que as estou profcrindo demasiado tarde. Esse foi sempre o
meu dilema. Um homem demasiado pequeno tornando-se adulto tarde demais. Perdoe-me.

Landon quase esperava que ele dissesse: "É o que a defesa tinha a dizer". Mas Carlo era demasiado astuto para isso - e, ademais, estava exausto, como todo ator após
um grande desempenho. Afas-

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tou-se da lareira e dirigiu-se, com passos arrastados, para a porta. Então, nítida como um clarim, a voz vigorosa de Ascolini o desafiou:

- Tolice, rapaz! Pura tolice tudo o que acaba de dizer! Aceitamos que você tenha feito papel de idiota. E daí? Esse é um direito que todo homem,tem. Mas o que você
não tem, com os diabos, é direito algum de infligir a todos nós uma confissão lamurienta! Domine-se, homem! Vá chorar numa taberna, se tiver necessidade disso, ou
num bordei, mas, aqui, porte-se como homem e mantenha-se calado!

Rienzi olhou-o um momento com ar inexpressivó, a oscilar sob o impacto de tais palavras. Depois, após curioso momento de transformação, seu rosto pareceu endurecer,
e algo que bem poderia ter sido um sorriso lhe contorceu os lábios exangues. Ergueu a mão, num cumprimento zombeteiro:

- O senhor é melhor advogado do que eu, doutor. Sempre o será.

Seus joelhos fraquejaram, mas, ao cair para a frente, Landon o apanhou e carregou-o, sobre o ombro, para o quarto de hóspedes. Lançou-o sobre a cama e deixou-o entregue
aos cuidados de Valéria. Ela nada disse; dirigiu-lhe apenas um sorriso amargo e pôs-se a desatar os sapatos de Rienzi.

Landon ficou-lhe grato por sua discrição. Jamais lhe agradaram discursos ao descer da cortina, e não tinha paciência com atores bêbedos. Mas Carlo Rienzi era um
grande ator - o que num advogado constituía talento e, para certas mulheres, um substituto passível de masculinidade. Pelo menos, Valéria estava aceitando aquilo
sem ilusões. Ou talvez estivesse criando uma nova ilusão, já que o amor era um deus cego, irmão da deusa de punhal nu e. da balança de pratos equilibrados, a espiar,
por baixo do lenço que lhe vedava os olhos, as comédias encenadas em seu nome.

- Está na hora de irmos embora, Peter - disse Ninette Lachaise. - Já é tempo de que nos dediquemos a nós próprios. Detivemo-nos demasiado nesta cidade.

Estavam de pé no terraço da villa, a admirar o nascer da lua e a ouvir o primeiro canto solitário dos rouxinóis. 0 vale estendia-se, plácido, ao luar e, por sobre
as ameias da montanha, eles percebiam o vago cintilar das primeiras estrelas. A terra rendera-se à noite. Landon puxou Ninette para si e disse-lhe, suavemente, como
jamais falara antes:

- Eu a amo, menina. Nunca imaginei que pudesse amar tanto alguém. Mas você está certa de que quer correr o risco?

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- É sempre um risco - disse, por trás deles, Ascolini. - Mas somente os sensatos sabem disso. Vão para casa, vocês dois. Procurem uma igreja, se assim o necessitarem,
mas façam-no depressa. 0 tempo é a coisa mais preciosa que vocês possuem - e quem o saberia melhor do que eu?

Entregou-lhes as chaves do automóvel e, depois, tirou, do bolso dois antigos e belos volumes, um dos quais ofereceu a Ninette, com uma observação irônica:

- Para você, minha querida. Vão aí todas as coisas que o seu homem sente por você, mas que não será capaz de dizer-lhe, sendo, como é, um sujeito monótono, que só
conhece o jargão de sua clínica. São os sonetos de Petrarca para sua Laura, e o livro foi feito por Elzevir. É um presente de casamento. com ele, vai o meu coração...
e todo o meu amor.

Ninette lançou os braços ao pescoço do velho e beijou-o. Ascolini ficou a abraçá-la longamente; depois, afastou-a, com gesto delicado.

- Leve-a embora, Landon, antes que eu mude de idéia e a conduza correndo para o altar. Aqui tem um presente, meu amigo! acrescentou, dando-lhe o outro volume, e
comentando, sardônico:
- São os Sonetos Luxuriosos, de Aretino! O senhor tem idade suficiente para apreciá-los e ainda é muito jovem para não precisar deles! - Tomou-os pelo braço e impeliu-os
vivamente pelo terraço, em direção ao automóvel. - Nem mais uma palavra! Nada de despedidas demoradas! Elas me lembram a morte, eu já tenho muitas coisas que me
lembram dela!

Ao descer pelo caminho sinuoso, em direção do portão, puderam ainda vê-lo, solitário e imponente, no terraço, o luar a pratearlhe a cabeça leonina, a ouvir o lamento
dos rouxinóis.

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Fim!

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