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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Na Pele de Um Dalit

Na Pele de um Dalit

A História Real de um Jornalista que Viveu
entre os Intocáveis, os Homens mais Discriminados da Índia
E, para você que assestiu a novela "Caminho das Indias" na tv Globo de
Glória Peres, entenderá perfeitamente este mundo de uma forma muito
eficaz, através de uma história vivida pelo autor e contada em uma
naração objetiva e "bem" real.
Boa leitura.

Paulinho (administrador do Blog)
Autor: Marc Boulet

7 de fevereiro de 1992

Acabo de assinar o contrato. Para um escritor, convencer
um editor e receber um adiantamento dos direitos autorais é
o mesmo que um desempregado encontrar trabalho.
E mais ainda.
Terei o que fazer durante um ano e dinheiro suficiente para
viver. Além disso, escreverei um livro que será publicado e
que talvez me proporcione riqueza e celebridade. Posso
sonhar.
Eu me dispus a me metamorfosear em indiano intocável.
Uma velha idéia que não me sai da cabeça há dois ou três
anos. O que aconteceria se um francês bem alimentado,
criado no conforto da sociedade ocidental, se transformasse
repentinamente em um dos seres mais indigentes do
planeta: indiano e intocável? Como suportaria esse novo
tipo de vida? Como veria o mundo? Experimentaria as
mesmas alegrias, dores e sensações de antes? Descobriria a
Índia, país fabuloso, com seus marajás, caçadas aos tigres
em selvas impressionantes, habitadas por papagaios e
elefantes, templos barrocos e sábios meditando sobre
tábuas com pregos, vacas sagradas, os horríveis leprosos e
o mendigo mirrado que morre diante do turista, sobre uma
calçada em Calcutá. Tantas imagens de Épinal, visões
exóticas que a metamorfose em intocável indiano sem dúvi-
da destruiria.

Em primeiro lugar devo explicar brevemente quem são os
intocáveis.
Oitenta e três por cento dos indianos são hindus, divididos
em duas a três mil castas - grupos hereditários, segregativos
e endógamos, muitas vezes ligados a uma profissão, e
hierarquizados segundo o grau de pureza higiênica e
religiosa. Ao mesmo tempo, as castas se reúnem no sistema
global dos quatro varna, ou ordens tradicionais: no alto, os
brâmanes, depois os kshatriya, os vaishya e, ao pé da
pirâmide, a massa dos shudra. Respectivamente: os
sacerdotes, os guerreiros, os comerciantes e os servos,
nascidos da boca, dos braços, das coxas e dos pés de
Brahma, deus criador do universo.
As três primeiras ordens eram constituídas, em sua origem,
pelos arianos, termo que significa "nobres", em sânscrito.
Oriundo das estepes da Ásia Central, esse povo colonizou o
Norte da Índia há três ou quatro mil anos. Impôs sua
religião, que estabeleceu os fundamentos do hinduísmo.
Essas três classes superiores são consideradas nascidas
duas vezes, pois os meninos se submetem a uma iniciação
ritual que simboliza um segundo nascimento, uma espécie
de batismo hindu, no fim do qual a criança usa um janeu.
Esse cordão de algodão penderá a tiracolo sobre o ombro
esquerdo até sua morte.
Em contraste, os shudra, trabalhadores manuais, de origem
supostamente pré-ariana, não podem usar esse cordão
sagrado. Saídos dos pés do Criador, são inferiores.
Abrangem os leiteiros, barbeiros, pescadores, ferreiros etc.
Homens inferiores a serviço das três ordens superiores.
Tradicionalmente, se um shudra escutasse os textos
sagrados hindus, seria preciso verter chumbo em seus
ouvidos; se os recitasse, sua língua deveria ser cortada; se
os recordasse, deveria ser desmembrado.
Existem castas ainda "mais inferiores", tão abjetas que não
foram geradas pelo Criador. Situam-se fora do sistema dos
quatro varna e constituem o lado indiano inútil. São os
intocáveis, os chandal, os descendentes dos bastardos
míticos gerados na união sexual de um shudra com uma
brâmane. O pior dos híbridos, segundo a ideologia hindu,
classificado no nível do cachorro e do porco. Na realidade,
os intocáveis seriam shudra sujos. Isto é, aborígines con-
vertidos pelos arianos ao hinduísmo, mas cujos costumes e
profissões, extremamente degradantes aos olhos dos
brâmanes, excluem suas castas do sistema dos varna. Os
garis, as lavadeiras, os que transportam os mortos até a
sepultura, os sapateiros, os que extraem o sumo das
palmeiras são intocáveis. São imundos. O sapateiro esfola
os animais mortos, a lavadeira lava a roupa suja, o trans-
portador de defuntos mexe com cadáveres... Suas
atividades deixam nódoas impuras permanentes, que sujam
aquele que os toca. Vivem em bairros específicos,
separados dos outros.
Até mesmo sua sombra pode poluir. Antigamente, era-lhes
proibido entrar na cidade de Puna antes das nove horas da
manhã e depois das três horas da tarde, pois as sombras de
seus corpos, muito longas sob o sol rasante, podiam cair
sobre um membro de uma casta superior e sujá-lo. Em
Maharashtra, um intocável não podia cuspir na rua porque
arriscava poluir aquele que pisasse em seu cuspe, e devia
carregar um pote de terra preso ao pescoço para escarrar
dentro dele. Se um brâmane cruzasse seu caminho, devia se
deitar no chão, para não criar sombra. No Punjab, quando
um gari saía à rua, supostamente deveria levar uma
vassoura sob o braço para indicar sua casta, e deveria gritar
para advertir a população de sua presença poluente. Na
costa de Malabar, os que extraíam o sumo das palmeiras
eram tão indignos que não podiam usar nem guarda-chuva,
nem sapatos, nem joias de ouro.
Isso foi antigamente. Após a independência da Índia, em
1947, a intocabilidade e a discriminação de casta foram
abolidas pela Constituição. Atualmente, os intocáveis são
chamados pudicamente de "castas repertoriadas" ou "filhos
de Deus" - termo gandhiano, que os intocáveis consideram
condescendente. No papel, todos os templos, lojas,
restaurantes, poços, escolas, estradas lhes são acessíveis
sem restrições e o Estado lhes reserva cadeiras no Parla-
mento e empregos na administração para elevar sua
condição. Com a modernização da sociedade, muitos
deixaram de exercer sua atividade tradicional. São
camponeses, operários, alfaiates, comerciantes, pequenos
funcionários, mas, na realidade, isso não muda em nada sua
intangibilidade. Pertencem à casta indigna de seus ances-
trais e continuam a ocupar o patamar mais baixo da escala
social.
Os intocáveis somam aproximadamente 130 milhões, ou
seja, 15% da população indiana; a eles se acrescentam 65
milhões de aborígines autênticos que vivem na selva e que
são igualmente considerados intocáveis, por causa de seus
costumes tribais, e conseqüentemente primitivos e impuros.
Grosso modo, um em quatro indianos é intocável, o que
representa uma em 28 pessoas no mundo.
Além disso, essa discriminação, fundamentada em uma
impureza imaginária, é indelével, assim como a cor da pele.
Um homem não pode mudar de casta durante sua existência
presente. Só a reencarnação lhe permite renascer em uma
condição melhor ou pior, em função de suas ações
passadas, boas ou más. Todos sabem que os corvos são
pretos e o mundo é injusto, mas o sistema de castas - ao
contrário do sistema de classes, que recompensa o mérito
na vida atual - aprisiona o indivíduo, impedindo qualquer
ascensão social.
A intangibilidade parece uma discriminação tão monstruosa
quanto o racismo e, para estudá-la, conhecer a verdade,
devo me tornar um intocável.

Isso é discutível. Se eu fosse razoável, não teria assinado o
contrato com a editora. Sem trabalho nem qualificação, eu
poderia me inserir no RMI. Além disso, quero
desempenhar o papel duplo de intocável e de mendigo. De
acordo com o Ministério de Assuntos Sociais da Índia, o
país possui um milhão e meio de mendigos. A maior parte
dos intocáveis não mendiga, e os mendigos provêm de
todas as castas. Esse papel duplo me permitiria tocar o
fundo da miséria humana.
Minha mulher, Gloire, e meus pais dizem que sou louco de
planejar essa experiência, que posso perder a vida. As
imagens de favelas, leprosos, mortos e crianças esqueléticas
nas calçadas de Calcutá os confundem. Como contradizê-
los? Claro que tenho medo de me deparar com essa miséria,
mas, em Paris, fico girando em círculos como um peixinho
em seu pequeno jarro redondo. Preciso do sol dos trópicos,
dos rios gigantescos, das cidades distantes e das selvas
exuberantes. Depois de viver Na pele de um chinês, nos
anos 80, quero saborear uma nova aventura, existir a cem
por hora. Que cada minuto dessa metamorfose fique
gravado em minha memória até minha morte.
Refleti bastante sobre o método. Primeiro, aprenderei o
hindi, a mais falada das 1.652 línguas arroladas na Índia.
Permanecerei seis meses na França, mais três meses de
prática na Índia, para dominar a linguagem coloquial e a
gíria. Isso deverá bastar. O estudo de línguas me atrai. Já
conheço seis, entre as quais o albanês, o chinês e o
coreano; sou diplomado pela Escola de Línguas Orientais.
É evidente que em tão pouco tempo meu hindi nunca será
tão perfeito quanto o de um indiano nato.
Eis o meu plano. Serei indiano na planície do Ganges. Sem
dúvida em Benares, a Meca dos hindus, no Estado de Uttar
Pradesh. Essa província de 140 milhões de habitantes, a
mais populosa da União indiana, corresponde à terra do
bramanismo. A população fala o hindi e, com 21% de
intocáveis, percentagem superior à média nacional, seu
sistema de castas ainda é rigoroso, principalmente no leste,
isto é, em Benares. Como para Na pele de um chinês me
metamorfosearei em membro de uma etnia rara, que possui
sua própria língua. Isso justificará minha falta de fluência
no hindi. Serei um membro dos Munda, tribo aborígine de
1.000.000 de indivíduos, 80% convertidos ao hinduísmo.
Habitam as selvas do Bihar, no sul, a centenas de
quilômetros de Benares. Assim, eu me tornarei intocável e
reduzirei o risco de encontrar outro membro de minha
casta, bastante minoritária, um Munda que talvez me des-
mascarasse.
Meu editor, cético, argumenta que os aborígines indianos
possuem traços mongolóides ou negróides, e que eu nunca
conseguiria parecer com um deles. Está enganado. Vi
aborígines do Deccan em uma reportagem sobre soldados
aventureiros na televisão. Não informaram o nome de sua
tribo, mas seus rostos pareciam arianos e devem existir
tinturas para escurecer a cor da minha pele e do meu
cabelo. Aliás, não pretendo parecer exatamente um
aborígine, mas ser aceito como tal pelos indianos de
Benares. Não deve ser difícil. Com certeza nunca viram um
Munda verdadeiro. Da mesma maneira, a maioria dos
franceses não reconheceria um verdadeiro taitiano,
ignorando que dobra os "r", que pode ser polinésio, branco
ou chinês. Não sabem com que se parece, mas ouviram
falar dele, sua existência é plausível, e não é da natureza
humana duvidar a priori da palavra de um desconhecido
que reivindica uma identidade modesta.
Convenci meu editor.

12 de março de 1992
Aprendo hindi há um mês. Sigo o método inglês autodidata
Teach Yourself Hindi (Aprenda o hindi sozinho).
Primeiro memorizei os caracteres devanágari (escrita usada
para o sânscrito, o hindi e outras línguas indo-arianas).
Levei uma semana recopiando esse alfabeto quatro horas
por dia. É composto de 11 vogais, 40 consoantes simples e
mais de 200 consoantes compostas.
Isso ocorre em todas as línguas sem alfabeto romano. Para
o leigo, sua escrita se assemelha ao excremento de moscas
ou à caligrafia, aos hieróglifos, à pintura. É bonita, e o
hindi nos faz pensar em linhas de pequenas aletrias que se
enroscam e se combinam em arabescos. Isso me faz lembrar
de quando aprendia chinês e coreano, e achava a escrita
muito bonita. Depois, repentinamente, sabemos decifrar a
sujidade de moscas e a escrita perde o mistério. Não vemos
mais as relações geométricas, nem a arquitetura dos
caracteres, mas somente o som e o sentido. E passamos a
construir uma palavra, uma frase, uma idéia.
Atualmente, trabalho o método quatro horas diárias.
Aprendo a gramática, o vocabulário e também a pronúncia,
escutando a fita que o acompanha. Quatro horas por dia,
sem falta. A regularidade é necessária para a assimilação
eficaz de uma língua.
O que mais me surpreende no estudo - e, sem dúvida, é
uma tolice - é que os indianos, mesmo com palavras
diferentes, pensam como nós. Os sons são diferentes, mas
as grandes idéias sobre a vida cotidiana coincidem. No
entanto, há particularidades divertidas. Em hindi, ontem e
amanhã se traduzem pela mesma palavra, kal, isto é, "um
dia além" - para trás ou para a frente. Revela a indolência
legendária dos indianos? Gosto desse tipo de indagação.
18 de maio

Parto em dois meses.
Tenho medo. Doenças, fome, miséria. Onde vou dormir?
Em que calçada? O que vou comer? Nunca fiquei com o
estômago vazio. Para enchê-lo, deverei fuçar as latas de
lixo, os despejos de sujeiras que decoram as encruzilhadas
das cidades indianas?
Quem serão meus amigos? Esta noite jantarei
confortavelmente na França, e, no mesmo instante, em
Benares, com a diferença do fuso horário, aqueles de quem
me tornarei amigo, irmão, deverão estar procurando um
canto onde passar a noite...
De uma viagem turística de cinco meses na Índia, em
1990-1991, guardo a lembrança de uma sociedade de
indigência extrema, onde lavar a cabeça com um pouco de
xampu é um luxo, onde o óleo comestível é vendido por
centilitro, o açúcar por hectograma e cigarros por unidade.
Na Índia, 40% da população vivem abaixo do limiar da
pobreza. Os pobres são realmente pobres. Só possuem o
corpo. Não ganham salário mínimo, nem são beneficiados
com o RMI, que permite comprar carne, legumes e frutas
todos os dias, pagar um aluguel com água corrente,
eletricidade, geladeira e televisão.
Isso não significa que os indianos pobres vivam sem sentir
nenhuma felicidade. Assim espero. Nessa aventura, farei
novos amigos, descobrirei prazeres desconhecidos. Sem
dúvida. Quero me convencer disso, esquecer as favelas e a
imundície. Devo domar meu medo. Essa metamorfose
enriquecerá meu conhecimento sobre os outros e sobre
mim mesmo. Eu me fortalecerei.
Estarei sendo ingênuo acreditando na virtude
transformadora de uma aventura?

2 de junho

Bernard Levy-Klotz é um amigo dermatologista. É um
médico aberto e competente. Posso lhe perguntar como
escurecer a cor de minha pele; sei que não propalará meu
projeto.
Não o vejo há três anos, mas ele não mudou. De 35 a 40
anos, baixinho, cabelos castanhos e sempre com um sorriso
no canto dos lábios. Ele me aperta a mão e me introduz no
consultório. Não inicia a consulta discutindo minha saúde
ou a meteorologia. Ele diz:
- Está partindo para a China ou chegando de lá?
- Não, desta vez, vou para a Índia.
Serei sucinto. Eu lhe explico que tenho a intenção de me
transformar em indiano. Mas minha pele é muito clara.
Conhece algum método para escurecê-la? Existem
medicamentos?
Ele reflete e consulta suas fichas. Depois, liga para um
colega e pergunta que método utilizaria para escurecer a
pele. O outro deve interrogá-lo sobre minha enfermidade,
pois ele responde, lançando-me um sorriso, que esse
paciente é um caso especial, que não pode explicar. Trocam
nomes de substâncias e, em dois minutos, examinam o
problema. Não existem muitas soluções.
- Bem, poderemos tatuá-lo, mas o resultado será definitivo.
Sem dúvida, deve estar querendo algo reversível. Prescrevo
metoxipsoraleno. É uma substância que aumenta a
quantidade de melanina, o pigmento marrom que cobre a
pele. Tomará um a três comprimidos por dia, antes de se
expor ao sol.
- É eficaz?
- Bronzeia. Na clínica, com lâmpadas ultravioleta, nós o
utilizamos para tratar de pessoas com vitiligo.
O vitiligo é uma doença que provoca a despigmentação da
pele e deixa grandes placas brancas no rosto e no corpo.
Suspeitava que o metoxipsoraleno era destinado aos
aventureiros com minha índole.
- Se tomar um ou dois comprimidos e se expuser à luz do
dia, irá se bronzear como se tivesse passado um fim de
semana na neve.
- É perigoso para a pele?
- É cancerígeno.
Tranquilizador! Ele é mais preciso:
- É cancerígeno depois de muito tempo. Mas você só o
tomará durante algumas semanas. Não há riscos. Deverá
usar óculos escuros durante a exposição ao sol, para
proteger os olhos...
- Quantos dias precisarei para me parecer com um indiano?
- Não sei. É a primeira vez que me confronto com uma
experiência assim. Você devia se testar. Comece por um
comprimido, depois dois, em seguida três, em cada sessão
de exposição. Como sentirá o sol, prescreverei a pomada
Biafine, e se a queimadura for mais grave, passará um
creme de cortisona. Além disso, para obter o tom chocolate
da pele dos indianos, talvez seja preciso se untar com uma
solução de nitrato de prata. Sob a ação da luz, bronzeará
sua pele. É como um filme para foto. Deixamos de utilizá-
la para tratar de manchas causadas por despigmentação
porque os sais de prata provocam um matiz muito escuro e
fosco. Mas para se tornar um indiano, poderá ser útil. Só
com o metoxipsoraleno, o bronzeado seria um dourado à
moda européia. Deveria também tentar uma emulsão
autobronzeadora como complemento.
- E a cor durará quantos dias?
- A epiderme se renova a cada três semanas. Durará esse
tempo, eu acho...
Ele me pergunta que tipo de indiano pretendo imitar.
Eu temia essa pergunta. Deliberadamente, não lhe conto
que me disfarçarei de intocável e mendigo. Divulgá-lo
daria a imagem de um jornalista superficial que busca o
sensacionalismo. E não quero me tornar um indiano e
arriscar minha vida para realizar uma façanha, uma proeza.
Essa aventura é um assunto entre mim e os pobres.
Balbucio qualquer coisa, ele repete a pergunta e confesso a
verdade. Ele responde:
- Eu já suspeitava!
Eu também imaginava que ele replicaria assim. A imagem
do repórter Tintin, que corre atrás do sensacional fácil, me
persegue desde meu livro Dans la peau d'un Chinois.
Nunca li uma única revista de Tintin e, se nesse livro eu
falo de drogas, prostitutas e meninos de rua, não é para
chocar os leitores. Há quem se interesse pela poesia da
dinastia Tang, pela acupuntura, pela caligrafia, pela Grande
Muralha, pelo taijiquan (o boxe chinês). Na China, era o
amor que me fascinava, e freqüentei os meninos de rua pelo
prazer de sua companhia. Ao retornar a Paris, contei
minhas experiências. É tudo. É verdade que os pássaros
com a mesma plumagem voam juntos; isso eu admito, mas
não busco o sensacionalismo. Quero apenas conhecer o
mundo. Aos 27 anos, visitei os bordéis chineses. Hoje, aos
32, quero me tornar intocável e mendigo. O doutor Levy-
Klotz me ouve atentamente. Acrescento que a investigação
não pretende se limitar à miserabilidade. Espero não sofrer
muito e até mesmo apreciar os prazeres desconhecidos dos
intocáveis. Se é que existem...

14 de junho

Na semana passada, testei, durante três dias, a emulsão
autobronzeadora em meu braço esquerdo. Uma mentira.
Nenhuma diferença de pigmentação entre os dois braços.
Ontem e hoje, experimentei o metoxipsoraleno. Tomei um
comprimido e passei a manhã em uma cadeira ao sol, com
uma venda sobre os olhos. Isso funciona, pois me bronzeei
bem. À tarde, passei duas vezes a solução de nitrato de
prata no braço esquerdo e o expus à luz durante meia hora.
O resultado salta aos olhos. Cada camada de nitrato de
prata tornou a pele da cor do tabaco, como uma película
fina de fuligem, porém com mais cor de ferrugem, e
resistente à água e ao sabonete. Em compensação, fiz a
tolice de
passar o nitrato sem luvas. Isso fez minha mão direita ficar
nojenta: a palma marrom e os dedos e unhas de um amarelo
baço, como os de um cara que fumasse 10 maços de
cigarros por dia e limpasse motores em uma oficina. Na
Índia, para minha metamorfose, me untarei com luvas e,
quando for pintar as mãos, será preciso contornar seu
interior e as unhas, pois os indianos, assim como os negros,
têm as palmas e as unhas claras.
Os indianos têm a pele cor de chocolate, com nuanças que
vão do chocolate branco ao chocolate preto, passando pelo
chocolate com leite. Há os muito pálidos, principalmente
no Norte, e não é indispensável ter a pele escura para
passar por um deles. Mas a maior parte é de cor baça, de
pele morena. Com o metoxipsoraleno e o nitrato de prata,
mais uma tinta preta no cabelo, eu me incorporarei à massa.
O domínio do hindi também me ajudará. Terminei o
estudo, segundo o método inglês, no começo de abril.
Depois, li revistas populares e um romance policial: Les
Mains de la mort (As mãos da morte). Não é nem de Peter
Cheney, nem de Conan Doyle, mas literatura de metrô. É
rico em diálogos e expressões correntes, o que devo
aprofundar. Conheço todas as estruturas gramaticais e cerca
de 2.000 palavras do vocabulário. Quando chegar à Índia,
daqui a um mês, quero ser capaz de ler, sem dicionário, um
jornal de grande público. Ali, só terei de praticar a língua,
adquirir fluência e velocidade.
Acho que vou conseguir.
Todas as manhãs passo quatro horas traduzindo Les Mains
de La mort. Ainda utilizo um dicionário, mas não tropeço
mais nas dificuldades gramaticais, nem na linguagem
coloquial dos diálogos. Eu me deparei com trechos
surpreendentes.
Por exemplo, na página 13, um homem explica à amante
por que ele odeia a esposa:
"Ela me causa repugnância. Seu corpo é coberto de pelos
espessos. Quando os raspa, desabrocham como ganchos e
me tiram a pele ao me roçar nela."
"É uma mulher ou um urso?"
"É um gorila! Um gorila!"
Na página 24, a discussão entre duas mulheres jovens,
belas e ricas sobre um gigolô:
"E como anda Gautam?"
"É o tipo de cachorro que está sempre pronto a lamber as
cadelas, uma atrás da outra."
"Por que ele age assim?"

Na página seguinte, ainda as duas garotas:
"Tara tomou Suman em seus braços e fez amor com ela,
como faria com um homem."
Essa literatura, publicada em livro de bolso e destinada ao
grande público local, mostra os indianos como pessoas de
carne e osso. Nossos semelhantes.
A mesma linguagem, os mesmos vícios. De fato, isso me
tranqüiliza.

1º. de julho

Esta noite tive um pesadelo. Isso me acontece raramente.
Foi horrível e acordei repentinamente, molhado de suor.
Eu morava na Índia. Em Benares. Eu era intocável. Usava
sobre o corpo um pano sujo de terra e rasgado. Dormia na
rua e comia o que encontrava em um monte de lixo. Era
penoso, muito pior do que tinha imaginado. Sentia calor,
estava sujo, pegajoso, e crostas amareladas de impetigo
cobriam meu rosto. Sofria de úlcera no estômago e de tifo.
Ninguém prestava atenção em mim. Não tinha remédios e
ia morrer.
Amanhece. Na rua, os pardais cantam e fico feliz por estar
vivo, na França, em uma cama com lençóis limpos.
Devo partir em 17 dias. Gostaria de cancelar o projeto,
desfazer o contrato com o editor.

18 de julho

Finalmente parti. Gloire, minha mulher, me acompanha.
Ela me fotografará e filmará durante a metamorfose.
Saber o que não se quer já ajuda. Eu sabia que não queria
ficar na França. Isso me deu coragem de tomar o avião.
Vôo 178 da Air France, destino: Nova Délhi. Nosso
Boeing 747 aterrissará amanhã, no começo da tarde.
Neste momento, não me atormento com o porquê da minha
existência ou desta viagem. As aeromoças oferecem
bebidas aos passageiros e eu bebo Veuve Clicquot. É bom.
A 10.000 metros de altitude, em pleno céu, não é melhor
que em terra, mas é de graça. Meu vizinho da direita, um
indiano de uns 40 anos, fica na Coca. Sem rum. Também
não é ruim, mas prefiro o Veuve Clicquot. Ele não. Para os
indianos religiosos, o álcool é uma bebida impura.
Conversamos em hindi. É a primeira vez que pratico o
idioma. Tenho medo. Falo devagar, cometendo muitos
erros de conjugações e declinações, mas meu interlocutor
me compreende. Fico feliz.
Ele se chama Basi. Não é alto nem gordo, tem apenas uma
ligeira barriga, não dissimulada, que sugere bom êxito
social, bigode e cabelo pretos, cor de azeviche, untado de
muito óleo. É um kshatriya do Punjab, isto é, pertence à
nata da hierarquia hindu das castas. Naturalizado britânico,
não retornava à Índia havia 17 anos. Ele usa um relógio,
mas a cada 20 minutos pede que eu veja as horas no de
minha mulher - eu não uso, porque me deixa tenso. Depois
me pede para calcular quanto tempo falta para tornar a
pisar o solo indiano. Está muito agitado e o compreendo.
Foram 17 anos! Ele é cordial. Pergunto se é feliz na nova
pátria, se gosta da Inglaterra.
- Tenho uma casa de doces e salgados perto de Londres ­
ele diz. - E ganho muito dinheiro. É bom.
- A Inglaterra'?
- Sim. Faço croissants, bisnagas francesas. Agrada e rende
bem. Na Inglaterra, é possível ganhar muito dinheiro...
É isso. Ele se chama Basi. Um hindu da classe tradicional
superior dos guerreiros que se tornou padeiro e doceiro em
Londres. Não bebe álcool e ganha dinheiro. Foi meu
primeiro contato em hindi com a Índia.


Na Índia
19 de julho

Délhi! Délhi!
Foi assim. Desembarcamos, passamos pela alfândega e
subimos em um ônibus completamente desconjuntado.
Direção: centro da cidade, estação ferroviária.
Época da monção. Um sol perverso castiga e o ar úmido
que cola na pele parece muito respirado. Não é uma
maneira de dizer: mais de 9.000.000 de indivíduos vivem
aqui. Sem contar o milhão de vacas com os rabos sujos de
merda que se arrastam pelo meio das ruas.
Aí está Délhi! E é a capital da Índia.
Depois dos bairros verdejantes do governo e das
embaixadas da nova Délhi, caímos no coração da
metrópole. É Connaught Place, considerado, nas províncias
indianas, um dos lugares mais modernos do mundo.
Chegando de Paris, Connaught Place parece uma cidade
em ruínas. Prédios tão rachados e tão sem reboco que é
difícil saber sua idade; fachadas cobertas de velhos cartazes
e bandeiras oscilantes. O comércio nas arcadas em torno da
praça está deserto neste domingo e papéis engordurados,
cascas de amendoim e de banana cobrem as calçadas.
Desço na estação e torno a subir na direção de Paharganj,
procurando um hotel. Em setembro de 1990, um ônibus do
aeroporto também me deixara aqui. Só que às quatro horas
da manhã. Era meu primeiro dia na Índia e ignorava tudo a
respeito do país. Foi um choque. As ruas não estavam
iluminadas e uma chusma de homens vestidos de trapos
sujos de terra dormia na calçada, entre as vacas. Cheiravam
a esterco e pisei várias vezes neles. Délhi parecia uma
fazenda. Porém inquietante, com centenas de desabrigados
maltrapilhos vivendo como animais. Eu saltava por cima
dos corpos. Prestava atenção para não chutar ninguém.
Sentia medo. Medo de levar uma chifrada ou de ser
assaltado. Em um cruzamento, caras pretas escolhiam
trapos em sacos plásticos e caixas de papelão. Assobiaram
para mim. Depois riram em uma língua incompreensível.
Passei a mochila para a frente, apertei-a contra o peito e
segui meu caminho. A cada cinco minutos, uma sombra
com um jinriquixá surgia não sei de onde e insistia em
propor seus serviços. O homem usava uma camiseta e uma
calça ou pareô rasgados. Causava pena, mas eu não queria
ser detido e me recusava a subir em seu carrinho. Ele
tentava durante dois ou três minutos, o que é muito tempo,
e então surgia um outro.

Nesta tarde, o sol queima Délhi e a chusma de homens que
dormem na rua ainda não ocupa a calçada. Mas estou bem
na índia. Enxames de moscas me seguem e a atmosfera fede
como latrinas. Não estou exagerando. Os homens urinam
em volta da estação, agachados ou em pé, onde lhes dá
vontade, sem se ocultarem, e, geralmente, perto de uma
parede. Alguns aproveitam para evacuar bastante. Sem a
menor cerimônia. Ao terminarem, tornam a vestir a calça e
bye-bye! As fezes ficam ali e enriquecem o perfume de
urina. Com o calor, tudo isso fermenta.

Alugo um quarto no hotel Anoop. Não é nenhum palácio,
mas, quando lá estive, em fevereiro de 1991, oferecia
quartos limpos e espaçosos, considerando a tarifa. Esta gira
sempre em torno de seis dólares por 24 horas em um quarto
duplo, sem janelas. Voltarei a falar nisso.
Em 1991, esse pequeno prédio de três andares estava em
obras. Somente a metade dos quartos estava pronta e as
máquinas silenciavam à meia-noite para nos despertar antes
do alvorecer. Às vezes, a água era cortada para consertarem
o encanamento e alcançávamos nossos quartos por uma
escada coberta de entulhos... Os quartos mediam uns 15
metros quadrados, com as paredes revestidas de mármore
nos dois terços inferiores, com roupa de cama nova e um
grande banheiro com acessórios niquelados.
Julho de 1992. O mármore continua lá.
Os quartos do hotel Anoop, em compensação,
envelheceram no mínimo 20 anos. A luz do dia nunca
penetra na maior parte, que possui apenas janelas pequenas
que se abrem para corredores. Esses buracos de ratos dão a
ilusão de noite eterna ao viajante estrangeiro, o que lhe
facilita o sono para se adaptar à mudança de fuso horário.
A iluminação provém de lâmpadas fluorescentes, e não há
nenhuma ventilação. As pás do enorme ventilador de teto
agitam o ar abafado e úmido proveniente do banheiro. A
água transpira ao longo das paredes, e a pintura creme do
terço superior e do teto está totalmente mofada, dilatada,
descascada, como se os quartos tivessem sido pintados
antes da Independência, em 1947, e depois abandonados.
Com essa umidade, a ferrugem corroeu os acessórios do
banheiro. É preciso mencionar as torneiras que não abrem,
o sifão sumido na pia, a água jorrando direto pelo cano em
seus pés e o colchão que balança.

22 de julho

Cheguei ontem em Benares. É a mais sagrada das cidades
hindus. Possui 800.000 habitantes, 2.000 templos e
milhares de peregrinos chegam diariamente para se banhar
nas águas purificadoras do Ganges, para lavarem suas
faltas. Também vêm para morrer. Shiva, o deus destruidor,
o terceiro da trindade hindu, é a divindade tutelar. Confia a
todos que são incinerados a fórmula mágica que os liberta
do ciclo das reencarnações. Segundo o Bhagavad-Gita, "o
que nasceu deve morrer, o que morreu deve renascer", sem
interrupção, em existências sucessivas. Morrer é mudar de
pele, como se muda de roupa. Somente a interrupção desse
mecanismo de nascimentos e mortes infinitos libera a dor
de viver na Terra. A alma, então, se funde com a do
universo: a visão hindu do paraíso. Uma cremação em
Benares garante o acesso a ele, independente de seus
méritos.
Fundada há 3.000 anos, contemporânea da Babilônia,
Benares é, entre as ainda existentes, a cidade mais antiga do
mundo. Mark Twain escreveu que "ela era mais velha que a
história, as tradições, as lendas, e parecia duas vezes mais
velha que as três reunidas". Também disse, a propósito do
Ganges em Benares: "Acho que nenhum micróbio que se
preze viveria em uma água dessas." O rio sagrado, na
mitologia hindu, é personificado em uma deusa, mas
tornou-se um esgoto, a céu aberto, de 2.600 quilômetros.
Leva para o oceano todos os resíduos domésticos e
industriais de sua bacia superpovoada, que representa um
quarto da superfície da Índia. Há de tudo flutuando no
Ganges: lixo, resíduos da destilação de petróleo, peixes
mortos, cadáveres de vacas...
Benares, Varanasi em hindi, se eleva na margem oeste do
rio. A outra margem é maldita e deserta. No alto dos ghat,
as largas escadas de pedra que dão no rio e formam suas
ribanceiras, há vielas poeirentas, repletas de lixo, por onde
as vacas vagueiam, e casas de muros espessos, coladas
umas às outras, das quais algumas, muito gastas e rachadas,
pendem perigosamente. Sente-se o cheiro de fritura, de
leite, de latas de lixo e de suor. Fervilha de gente. A faixa
de 500 metros de largura que margeia o rio lembra a
Europa medieval. Em seguida, há a cidade moderna.
Estende-se, como com tentáculos, sem originalidade, sem
cor, sem tradição arquitetônica. É a índia de depois da
Independência. Prédios de dois ou três andares, quadrados,
sem ornamentos, idênticos, ao longo de dezenas de
quilômetros de ruas deterioradas, onde se atropelam carros,
bicicletas, motos, jinriquixás, caminhões. Parecem datar
dos anos 50. Nos documentários sobre essa época, vi tais
tipos de veículos na França. Aqui, não são máquinas
antigas, de coleção, mas máquinas novas.
Eu e minha mulher moramos na Ravindrapuri Colony. Hoje
de manhã, alugamos o apartamento por um mês. Minha
metamorfose seria difícil em um hotel.
Preciso de uma pousada calma, íntima, com uma entrada
particular, por onde possa sair discretamente, quando me
tornar indiano.
Ravindrapuri Colony é a avenida chique de Benares. Mede
um quilômetro de comprimento por 20 metros de largura.
Um canteiro central de cimento a divide em duas vias
calçadas de pedras, às vezes asfaltadas, que provocam
solavancos e cujos sulcos formados pelas rodas dos
veículos estão sempre cheios de uma água escura. Aí, há 20
anos a selva e as palmeiras são abundantes. No verão, a
casta intocável dos pasi sangra as inflorescências dessas
árvores grandes para extrair um vinho espumante.
Atualmente, existem na avenida centenas de mansões
espaçosas e mais novas. Na Índia, é possível ser mais novo
que o novo. Neste país, uma vez construídos os alicerces,
as paredes e os tetos, a obra é considerada concluída. Há
pouco ou nenhum acabamento e, com a poeira ambiente, as
casas novas parecem gastas; dão a impressão de datarem de
meados do século. Na Ravindrapuri, as fachadas também
são manchadas, mas caiadas, às vezes revestidas com
mármore e sem rachaduras. Mesmo não sendo muito
lógico, elas são mais novas.
Retorno ao meu apartamento. Como descrevê-lo? Há duas
maneiras de ver o mundo: a positiva e a negativa.
De acordo com a primeira, eu me instalei no primeiro andar
de uma bela casa amarela, de centenas de metros
quadrados. Seu flanco direito recebe a sombra de uma
enorme árvore verde, de raízes aéreas. Uns 50 macacos de
traseiros vermelhos aninham-se e brincam nos galhos. Da
varanda ensolarada estende-se a vista sobre a avenida
Ravindrapuri. Tenho um quarto grande, uma grande sala de
jantar, uma grande cozinha, uma entrada privada e um
banheiro com ducha. Tenho espaço, e o apartamento,
pintado de branco, respira luz e limpeza. Seteiras que
varam a parte de cima permitem a renovação do ar.
Em compensação, posso resmungar e dizer que a casa, de
arquitetura quadrada e de teto chato, parece um pequeno
HLM (Habitation à loyer moderé: sistema habitacional
promovido pelo Poder Público, destinado às famílias de
baixa renda). Menos sólido. O primeiro andar foi
acrescentado ao térreo no ano passado, e as paredes
internas já começam a rachar. A varanda é gradeada para
impedir que os macacos ali defequem e pilhem nossa roupa
branca. Eu me sinto em uma jaula. A vista mergulha em um
terreno coberto de lixo, e, mais adiante, na via calçada de
pedras e deteriorada - Ravindrapuri. Todas as manhãs, os
freqüentadores habituais tiram as calças em suas calçadas.
Maldita varanda!
Dentro de casa, disponho de um apartamento de quarto e
sala, cozinha e banheiro, em uns 50 metros quadrados. As
paredes pintadas de qualquer jeito, de vários tons de
branco, dão aos cômodos um aspecto grosseiro, e, pelas
aberturas da ventilação, a monção faz chover dentro de
casa. Depois, é preciso tirar a água. Também há teias de
aranhas nos tetos, excrementos de ratos na escada, os cortes
de água e eletricidade.
Esta é minha casa. E pago um aluguel de 1.400 rupias por
mês. Menos de 60 dólares.
O proprietário mora no mesmo andar. Mas cada um de nós
tem uma escada particular, o que me servirá para sair
incógnito. Seu apartamento tem cinco cômodos e ele vive
com o pai, a mãe, a mulher, um filho e uma filha. Tem
cerca de 30 anos, pronuncia o z em vez do j ou do g e
possui uma loja de medicamentos tradicionais por atacado.
Chama-se S. N. Maurya, e, como o nome indica, pertence à
casta dos Maurya. Segundo ele, inscreve-se na ordem dos
kshatriya. É a ordem superior dos guerreiros, que se situa
logo abaixo dos brâmanes.
Ao lado de nossa casa, a bela mansão de estilo californiano,
coberta de telhas vermelhas, pertence a um rico
farmacêutico brâmane. De fato, a maioria dos habitantes da
Ravindrapuri é de castas superiores, a dos nascidos duas
vezes. A sociedade indiana é dividida horizontal - em
classes econômicas - e verticalmente - em castas religiosas
-, mas elas coincidem, mesmo na cidade.
E os intocáveis?
Existem na Ravindrapuri. Uma verruga na face dessa
Champs Élysées. Índia, terra dos contrastes. A 200 metros,
no lado esquerdo da avenida, há centenas de casebres, uns
colados aos outros, com telhas de plástico seguras por
pedras. Ao longo da estrada, diante desse quarteirão
isolado por um muro, queimam pequenos montes de lixo
que exalam mau cheiro. Aí habitam os garis. O lugar se
chama "bairro dos garis". Possuem varas de porcos que
sulcam a avenida em busca do lixo que os moradores jogam
ao lado da porta de suas casas. Também comem os
excrementos que cobrem as calçadas. Observe um porco
comer vorazmente! Escute o barulho da mastigação! Dá a
impressão de acharem tudo delicioso. Esses porcos são
ossudos, rolam nos sulcos lamacentos e fazem uma
algazarra com a matilha de cães vira-latas. O porco é um
animal impuro e, na Índia, entre os hindus, só os intocáveis
comem sua carne.

26 de julho

Com que se parece um intocável?
Os varredores da Ravindrapuri não são mais trigueiros que
os indianos comuns, mas não percebo nenhum claro.
Vestem-se como todos os hindus pobres da cidade. Ainda
mais sujos. Andam descalços ou usam sandálias de dedo.
Os homens usam camisa ou camiseta e um lungi - pano de
algodão em torno da cintura, como uma saia masculina -,
ou, às vezes, calças. Todas as roupas são rasgadas e
manchadas de gordura. As mulheres se envolvem em um
sari de algodão gasto e cinza de sujeira. O sari, tradicional
vestimenta feminina hindu, é uma faixa de tecido de cinco
metros de comprimento que cobre o corpo dos tornozelos à
cabeça. Ele se enrola sobre uma anágua e sobe até a cabeça
por cima de um corpete bem curto e justo, que molda o
peito e deixa a cintura à mostra. As varredoras usam o sari
sem elegância, fazendo-o subir à cabeça diretamente pelas
costas, em vez de enrolá-lo em torno do busto, formando
belas pregas, como a maioria das cidadãs. Os filhos dos
varredores andam nus pelas ruas, ou então com uma sunga
ou pano sujo de terra. Têm o rosto sujo, o nariz escorre,
possuem remelas nos olhos e o cabelo desgrenhado.
Incomoda-me dizer isso, mas acho-os repelentes.
Camas de corda são alinhadas diante das choupanas dos
varredores. Anciãos mirrados, de pele escura como a de um
búfalo, roncam, mulheres discutem e tagarelam, se
penteiam e acariciam seus filhos. Melhor dizendo, elas
catam os piolhos. Diariamente vejo-as catar piolhos na
cabeça da filha, da irmã, da mãe. Esta parece ser uma das
ocupações mais importantes das mulheres do bairro. Fazem
isso em público. A cabeça apóia-se sobre os joelhos ou
contra o peito da pessoa que cata os piolhos. Em seguida,
os papéis são trocados. Eu cato seus piolhos, você cata os
meus. Cultivar piolhos não é nenhuma vergonha. É natural,
faz parte da vida comum, assim como limpar as unhas.
Gostaria de visitar o bairro dos varredores. Estudar seus
costumes para preparar minha metamorfose em intocável.
Eles têm a reputação de beberem muito. Queria
experimentar sua bebida e a carne de porco que preparam.
Mas como fazer amizade com eles? Tenho medo. São tão
sujos, tão numerosos e têm cara de broncos.
Essa favela deve abrigar criminosos. Lá deve-se vender de
tudo. Basta saber aonde ir e quem procurar. O proprietário
e os vizinhos me alertaram quando perguntei sobre a vida
nesse bairro. Disseram que eu não devo ir lá. Isso significa
que é perigoso, que ali não tem nada para se ver ou que
meu lugar não é entre os intocáveis? Eles não me
responderam e mudaram de assunto, corno se os varredores
não lhes interessassem. Por enquanto, eu me contento em
passear nas imediações.
É domingo de tarde. Uma dezena de jovens conversa ao
longo da Ravindrapuri, diante de uma das cabanas que
servem de pocilga. Um deles, alto e musculoso, tem certa
distinção. Veste uma calça preta e uma camisa amarela
larga e na moda. Usa mocassins engraxados, seus cabelos
estão untados de óleo e penteados e está barbeado.
Consegue ser chique habitando nessa favela, onde a lama
cobre o chão dos pardieiros, não há água corrente e a única
mobília consiste em camas de corda, onde os homens e os
porcos vivem juntos no meio das imundícies que os
trabalhadores encarregados da limpeza da lama acumulam
diante de suas casas antes de fazer a triagem. Sua elegância
é agradável. Considerado um intocável pela sociedade,
rejeitado e isolado nesse quarteirão, continua querendo
mostrar-se belo. Seu coquetismo é um hino à felicidade de
viver. É formidável. Se eu cruzasse com ele no centro, não
o distinguiria de um brâmane chique.
Observei as varredoras. Elas discutem sem parar, fumam e
mascam tabaco e bétele, o que escurece seus dentes. Têm
um certo charme, são até mesmo atraentes. Explicarei
melhor. O que me interessa não é seu currículo, mas sua
anatomia. Sem outra opção, depois de uma semana na
Índia, eu as acho belas. Sob a camada de sujeira, os traços
são finos, arianos; são altas e esbeltas, sem dúvida por
varrerem tanto as ruas e empresas em Benares. Seu corpo
esguio contrasta com o corpo redondo das mulheres de
castas superiores, que são mais ricas, mais bem alimentadas
e das quais mais de 80% não exercem nenhuma atividade
profissional.
Esta foi minha primeira manhã em Benares. Ah, ia
esquecendo: a geladeira queimou. Aconteceu à noite. O
compressor aqueceu demais e, de madrugada, as chamas
correram pelo fio da tomada.

Eu a comprei na sexta-feira; durou dois dias. Não me
surpreendo. Os indianos são incapazes de fabricar um
objeto perfeito. Daí as bacias de plástico que vazam desde a
compra, o tecido novo sempre desfiado, os cadeados que
emperram depois de uma semana de uso, as solas dos
sapatos que descolam depois de um dia de caminhada, o
tripé para fotos cambeta, a Pepsi-Cola mal fechada e sem
gás, os biscoitos mal empacotados e úmidos, as tomadas
elétricas que têm de ser forçadas para combinar, as canetas
que não escrevem, o despertador que não toca etc. Comprei
tudo isso.
Os indianos sabem da mediocridade de seus produtos, mas
esta lhes parece normal, como se avaliassem as
necessidades humanas em um nível inferior ao estimado
pelos ocidentais. Não posso julgar.
Amanhã, levarei a geladeira para consertar e espero que a
garantia funcione. É válida por sete anos. Além disso, li
uma cláusula impressionante no contrato de venda. É a
seguinte: "Esta garantia não se aplica aos defeitos devidos
ao fogo, às inundações e outros atos de Deus." São os
estragos de Deus. Na Índia, Deus é uma entidade concreta e
jurídica.

27 de julho

Todas as manhãs pratico o hindi na rua e, hoje, começo um
curso intensivo de conversação, à tarde e à noite. Contratei
dois indianos. Sanjay, o irmão mais novo de minha
proprietária, virá à minha casa das 14 às 17 horas, e Ram
Singh, professor de economia agrícola na Universidade
Hindu de Benares, passará das 18 às 20 horas. Eu lhes disse
que vim à Índia para aperfeiçoar meu hindi. Não conto a
ninguém meu projeto.
Sanjay tem mais ou menos 25 anos. Digo mais ou menos
porque ele não sabe o ano exato de seu nascimento. Seus
pais terem esquecido é, segundo ele, muito freqüente na
Índia. Ele tem a pele escura, é magro, usa um bigode fino,
tem o nariz chato e cabelo ondulado. Ainda é solteiro e
dirige a escola de estenodatilografia que ele mesmo fundou.
Parece dinâmico.
Primeira aula. Eu o interrogo sobre o sistema de castas.
Pago nossa conversação, tenho o direito de escolher os
temas. Em três meses preciso assimilar os conhecimentos
fundamentais sobre a Índia que o intocável comum não
pode ignorar. Também tenho de compreender como as
castas funcionam na vida cotidiana. Pergunto se pode
tomar o chá oferecido por um intocável. A pergunta o
incomoda.
Ele me explica que não devo dizer "intocável", mas "filho
de Deus" ou "casta repertoriada". Caso contrário, o
intocável pode se sentir ofendido. Ok. Eu lhe disse que
queria estudar os costumes hindus. Sua própria atitude só
me interessa na medida em que é característica de um
membro das castas superiores. Digo que conto com sua
franqueza. Ele hesita e responde:
- Sou um Maurya, não posso aceitar nenhum alimento
preparado por um filho de Deus.
- Por quê? - Ele se mantém calado, como surpreso com a
minha pergunta. - Por que ele é impuro? Por que, ao tocar
no alimento, ele o sujou?
Ele assente à maneira indiana, balançando a cabeça da
esquerda para a direita. Eu pergunto o nome das "castas
repertoriadas" em Benares.
São os chamar (sapateiros) - de longe os mais numerosos-,
os dom (coveiros e varredores), os mehtar (outra casta de
varredores), os musahar (primitivos coletores de folhas), os
pasi (extratores do suco fermentado das palmeiras), os
dhobi (tintureiros) e os sonkar (mercadores de legumes).
Segundo Sanjay, os dom seriam os intocáveis mais
impuros, seguidos pelos chamar e pelos dhobi.
Por que os sonkar pertencem às castas repertoriadas?
Vender legumes não é uma glória, mas em um país onde o
vegetarianismo é o regime puro e civilizado por excelência
essa não poderia ser uma profissão intocável.
- É verdade - responde Sanjay. - Mas os sonkar adoram
carne de porco. Esse animal se alimenta de sujeira e
excrementos. Só são consumidos pelas castas repertoriadas.
Você come carne de porco?
Será que ele conhece os costumes ocidentais? Não quero
que me despreze. Minto:
- Claro que não!
Pergunto como reconheço um intocável. Ele sorri.
- Não está escrito em seu rosto "Sapateiro" ou "Tintureiro".
Eu me deleito com sua observação. Ele também. Prossegue:
- Em seu bairro, você conhece todo mundo. Sabe quem é
brâmane, barbeiro, leiteiro, varredor... Mas se for à cidade
não poderá adivinhar a casta de um desconhecido por seu
rosto ou vestuário.
- Mas os filhos de Deus são mais escuros e malvestidos. E
mais pobres.
- Sim, mas nem sempre. Há brâmanes negros e tenho um
amigo rico que é sapateiro. Ele possui uma locadora de
vídeo, um carro e um imóvel grande perto da ponte de Assi.
Em minha escola, há uma aluna que é varredora. É mais
clara que você. É muito bonita e se veste bem.
Na Índia, quanto mais clara, mais a pele é apreciada. Eu
pergunto:
- Você gosta dela?
- Por que não?
- Tentou cortejá-la?
- Claro que não. Não é uma Maurya.
- E na casa de seu amigo sapateiro, aceitaria um chá?
Refletiu:
- Não; se puder evitar... Certa vez, éramos muitos amigos
reunidos, ele ofereceu chá a todo mundo e tive de molhar
os lábios no copo. Deve-se evoluir.
- Isso o incomodou?
- Sim. Mas esse tipo de situação quase não acontece. Os
filhos de Deus sabem que não gostamos de consumir o que
tocaram, e não nos convidam a fazê-lo. Isso evita sofrerem
uma recusa humilhante. Eles não são idiotas.
Em geral, o nome da casta constitui o patronímico de um
indivíduo. Sanjay explica que os intocáveis,
freqüentemente, utilizam nomes neutros. Assim são Kumar,
Prasad (alimento oferecido aos deuses), Bachan, Murat,
Ram (deus) ou Singh (leão). Este último também é o
patronímico dos siques e da elevada e célebre casta
kshatriya dos rajaputros. O leão simboliza a força, o poder,
e muitos hindus mudam seu patronímico para Singh. Isso
não acarreta nenhum problema legal, pois, na Índia, não
existem documentos de identidade. Nós nos chamamos
como queremos.
Se for verdade, será prático para minha metamorfose. Não
precisarei de documentos falsificados, como quando vivi na
pele de um chinês, e não correrei o risco de ser detido pela
polícia. Bastará minha palavra para provar que sou indiano.
Ram Singh, meu segundo professor, confirma que na Índia
as pessoas não possuem carteira de identidade. Para viajar
ou se registrar em um hotel, declinam sua identidade sem
fornecer provas. Para retirar dinheiro do banco, apresentam
o movimento da caderneta de poupança e assinam. Para
votar, os escrutinadores da zona eleitoral conhecem todos
os habitantes do bairro e ninguém consegue, segundo ele,
se fazer passar por outro.
Ram Singh chegou às 18 horas. Tem mais ou menos 45
anos, um grande nariz redondo, lábios carnudos, cabelo
preto bastante untado, mas não usa bigode, o que é raro na
Índia. Em suas orelhas, crescem tufos de pelo; é feio. Ele é
alto, forte e de cor negra como o ébano, que ressalta o
branco dos olhos esbugalhados. Fala com a voz rouca e
engolindo as sílabas, mas em um tom calmo, como alguém
que já viajou muito e sabe o que diz. Esta foi a primeira
impressão que me deu e que se revelará falsa ao longo de
alguns meses. Um dia, ele me afirmará que os seres abjetos
são os vermes que parasitam o intestino das crianças. Ele
tem certeza disso. É um defeito típico do indiano bancar o
sabe-tudo, e Ram Singh me conta freqüentemente fatos
escandalosos. Não nos esqueçamos de que é professor de
agricultura na Universidade Hindu de Benares, uma das
mais prestigiadas do país. Parece achar que nunca encon-
trou um aluno tão inteligente quanto ele mesmo. Eu me
pergunto se sua auto-satisfação lhe proporciona mais prazer
que uma mulher que acaricia os seios.
Com o salário de professor universitário, Ram Singh
pertence à classe média. Não é nem rico nem pobre.
É rajaputro e tem orgulho disso. Esta casta, da ordem
superior dos kshatriya, é reputada por suas atitudes
guerreiras e pela força física dos membros que levam o
nome Singh (leão). Sua mulher é nepalesa e rajaputra,
claro. A endogamia é um dos pilares do sistema de castas.
Os dois comem carne: de carneiro, de frango, de peixe e, às
vezes, de caça. Ram Singh admite sem constrangimento.
Segundo a ideologia hindu, comer carne equivale a comer
cadáver. É repugnante. Um costume das castas inferiores
dos shudra e dos intocáveis. Porém me explica que os
kshatriya, casta dos guerreiros e dos reis, se outorgaram o
privilégio de consumir essa delícia impura sem perder sua
posição no alto da hierarquia hindu.
Penso em meu proprietário. Maurya é kshatriya. Ele só
come carne fora de casa e sua mulher é vegetariana. Ram
Singh sorri.
- Os Maurya não são kshatriya.
- Eles dizem o contrário. Dizem mesmo que descendem da
família imperial Maurya.
- O nome da dinastia se escreve sem a no final; não tem
nada a ver com os Maurya, que são uma casta de
fazendeiros. São shudra ou vaishya. Mas tentam fazer com
que sua casta seja admitida em uma ordem superior. Por
isso são freqüentemente vegetarianos, para imitar os
brâmanes e adquirir prestígio.
A hierarquia das castas intermediárias parece confusa. Faço
a Ram Singh a pergunta do chá preparado por um
intocável. Ele responde sem hesitar que não o beberia.
- E pode tocar em um filho de Deus?
- Não! Quem quer tocar uma coisa suja?

1º. de agosto

Na noite passada, sonhei com o tempo em que conheci
minha mulher. Revi os primeiros dias que passamos juntos,
em 1986. Foi maravilhoso. Maravilhoso quer dizer melhor
que tudo que existe. Na época, eu jamais imaginaria que,
seis anos depois, ela me acompanharia a Benares para
ajudar a me transformar em um intocável. Ela é formidável.
Inteligente e corajosa. Sem ela, jamais teria conseguido me
metamorfosear em chinês. Ela nunca me abandonou e é
minha melhor amiga.
Eu a amo mais que tudo. Nesta manhã eu me dou conta.
Penso no que me espera daqui a três meses. Tenho medo.
Medo de morrer. Medo de passar anos preso, longe dela, se
os tiras me descobrirem. Temo deixar de existir perto dela e
receio arriscar, apenas para satisfazer minhas ambições,
alguns decênios de felicidade que nos restam juntos.
Recordo a amizade entre Georges e Lennie, em Ratos e
homens, o romance de Steinbeck:
"Na vida, temos um futuro e não estamos sós... Porque eu
tenho você para cuidar de mim e você tem a mim para
cuidar de você..."

6 de agosto

Meu vizinho de baixo, o doutor Agraval, me recomendou o
filme Beta (O Filho). Para ele, é o melhor filme hindi do
ano. Uma obra-prima. Ele assistiu três vezes. A história e
os atores eram formidáveis.
O doutor Agrava pertence à casta dos Agraval, uma casta
importante de comerciantes, classificados entre os vaishya,
isto é, entre as castas nascidas duas vezes e, portanto,
respeitáveis. Está na faixa dos 40 anos, possui o doutorado
em física nuclear e ensina na Universidade Hindu de
Benares. Não é nenhum estúpido, confio em seu gosto e
esta noite verei Beta.
A Índia é o primeiro produtor mundial de longas-
metragens, com uns 1.000 filmes por ano, realizados em
hindi e em umas 20 línguas regionais. Vi cerca de uma
dezena de filmes hindi, e todos saem, mais ou menos bem-
sucedidos, do mesmo molde. O filme hindi é uma diarréia
de imagens e de sons, articulados segundo o esquema
"perdido-encontrado". Os temas são o amor e a injustiça.
"Perdido-encontrado" é o caso, por exemplo, de dois
irmãos que se perdem de vista, levam vidas opostas e,
depois, finalmente, se reencontram. Também pode ser um
indivíduo desonrado, roubado, que depois de várias
peripécias recupera sua honra, seus bens. Etcetera. Esse
esquema arqui-simples sempre define o roteiro de um filme
hindi e, assim, o espectador mais idiota sabe,
antecipadamente, como a trama se desenvolverá. Durante
duas horas e meia, os planos se encadearão, sem pé nem
cabeça, sem respeitar as regras cinematográficas mais
elementares, como a continuidade das imagens, a unidade
de tempo e de lugar. A película é freqüentemente super ou
subexposta, e as cores, excessivamente carregadas de azul
ou de vermelho. Não é um cinema experimental, é malfeito
ou negligente.
As seqüências irreais de romance e de reparação de uma
injustiça, apimentadas com cenas de tumultos, se sucedem
e a cada 20 minutos, uma canção ou um balé. O filme pode
durar o dobro ou a metade, ter mais ou menos canções, e é
tudo. Aliás, os operadores suprimem um ou dois rolos
quando a sessão começa com atraso. Isso não faz a menor
diferença, contanto que a canção principal seja exibida.
O filme Beta foge desse esquema. É a história de um órfão
de mãe, cuja madrasta pérfida tenta se apossar da fortuna
da família, enlouquecendo o pai. O menino, ao se tornar
adulto, casa-se e sua mulher descobre toda a trama.
Ingênuo, ele se recusa a acreditar, e a madrasta prepara um
veneno para se livrar da nora. Mas é o filho que o toma e se
dá conta da verdade ao morrer. Finalmente, a mãe se
arrepende, o filho ressuscita, encontra uma verdadeira mãe
naquela que foi a madrasta, e o pai recupera a saúde
mental. O círculo é fechado, e a intriga, destacada por uma
montagem tão grosseira que todos os retardados de cinco a
80 anos podem assimilá-la. O filme agrada ao doutor
Agraval e aos milhões de seus compatriotas, o que coloca
sua bilheteria em primeiro lugar.
E a interpretação dos atores, tão elogiada por Agraval? O
papel do filho, do Beta, é representado por Anil Kapur. É
um super-herói, qualificativo dado na Índia a seus artistas
famosos. É um Alain Delon local, considerado belo e
sensual. A comparação com Delon para aí. Na verdade,
Kapur interpreta papéis de tipos honrados, ingênuos, não
muito perspicazes. Embora tenha as feições mais finas e
seja mais claro que a média dos indianos, é gordo e peludo
como um gorila no peito e nas costas, com um bigode
espesso e um corte de cabelo que lhe dá a aparência do
cunhado ideal: um pouco tolo e limitado. Um verdadeiro
beta, um papel sob medida! Mais uma vez, é Madhuri
Dikshit, a super-heroína, que desempenha o papel de sua
esposa. Ela é bonita, interpreta sem exagerar e é a atriz
mais popular e a melhor dançarina do cinema hindi. Possui
seu próprio estilo de dança, dinâmico e rápido. Tem cerca
de 25 anos, um rosto redondo de boneca, a tez clara,
evidentemente, e seios generosos. Todo mundo conhece
sua maneira de dançar erguendo os quadris e balançando os
seios para o céu. Sua dança sempre provocou assovios
entusiasmados dos espectadores. Madhuri é única, mas não
consegue salvar esse Beta fraco, pois não há uma
coreografia à altura de seu talento.

15 de agosto

Esta manhã descobri que existem lojas de drogas do Estado
em Benares. Ao dar uma volta, me deparei por acaso com a
de Sonarpura. O alpendre fica na beira da estrada, com uma
vitrina engradada, atrás da qual um sujeito vende umas
bolinhas marrons de bhang, espécie de haxixe que se come.
Meia rupia cada uma. Em cima da loja, lê-se "Loja
governamental de bhang", e na frente, na calçada, outra
vende maconha, sempre às claras. Doze gramas, 35 rupias.
Os clientes se sucedem, sem interrupção, dos bem-vestidos
aos esfarrapados; compram sua dose e vão embora.
Ninguém presta atenção neles.
À noite, em uma festa a que fui convidado pelo doutor
Agraval, fico sabendo que há outras lojas de drogas do
Estado no bairro de Kotwali - o comissariado central - e na
Luxa Road. O bhang e a maconha estão associados à
religião hindu, como o vinho à eucaristia católica, e nesta
cidade santa são muito consumidos. Não é um vício, é
como beber vinho na França, para ficar alegre.

Essa festa foi organizada pelos dois cunhados do doutor
Agraval. Comemoram os 12 anos do filho do caçula. Seu
aniversário coincide com o Dia da Independência, 15 de
agosto. São pessoas muito ricas e não representam o
indiano médio. R. S. Agraval, o mais velho, na faixa dos 40
anos, alto e forte, possui uma loja de material elétrico e
uma oficina de fabricação de tubos plásticos. É também
secretário da ala regional do Lions Club. O segundo
cunhado, U. S. Agraval, alguns anos mais novo, mas
também alto e forte, e dono de uma grande loja de motos,
foi deputado pelo BJP (partido extremista hindu) na
Assembléia Legislativa, há quatro anos, e conselheiro do
ministro do Turismo, no governo de Chandra Shekhar, o
que lhe permitiu correr o mundo. Perdeu a cadeira nas
últimas eleições e fala com amargura da política e da
corrupção na Índia.
Os dois irmãos moram, segundo a tradição, com os pais,
suas esposas e filhos na casa da família. Essa construção
que, segundo R. S. Agraval, contém 200 cômodos está em
mau estado de conservação. As paredes estão descoloradas,
sem reboco e manchadas, embaixo, do vermelho dos
escarros dos mascadores de bétele. Nos cantos do grande
pátio central onde ocorre a festa estão dispersas caixas de
papelão e pedaços de madeira.
Somos uns 40 convidados agrupados em volta de um bolo
de creme, do tipo ocidental, com 12 velas. Um menino as
assopra e cada um de nós recebe um pedaço. Comemos em
pé, um prato na mão, girando no pátio, como se
estivéssemos em cena. Os convidados usam roupas
adequadas, de bom corte, e sapatos, em vez de sandálias de
dedo como a maioria das pessoas. Falam da chuva, do bom
tempo, como se fosse uma idéia revolucionária.
O doutor Agraval quer chocar a audiência e fala de sua
viagem a Israel, no ano passado. Lá, durante cinco meses,
estudou física nuclear.
- Não gosto dos judeus, eles são avarentos - confessa.
Os convidados se divertem com seus exemplos.
Constrangido, eu digo:
- Muitos franceses pensam como você. Isso é racismo.
- Não, para os judeus, é a verdade.
Falo do racismo sofrido pelos indianos na Inglaterra, onde
são considerados sujos e barulhentos, e comparo a seu anti-
semitismo.
Ele não me compreende e repete:
- É diferente, os judeus são realmente avarentos.
Deixo pra lá e alguns convidados abordam um tema
cultural:
- Quem viu Beta?
- É uma obra-prima! Fascinante!
Tudo os fascina, e R. S. Agraval se diz "estupefato" por eu
falar hindi. Diverte-se fazendo-me perguntas idiotas e
óbvias às quais respondo. Sim, o Estado de Uttar Pradesh é
um Estado. Sim, os bengaleses vivem em Bengala etc. A
cada resposta, exclama que sou genial. Estaria me
gozando? Acharia que sou um imbecil? Imaginem uma
noite toda no Lions Club de Benares trocando palavras
vazias sem parar de se maravilhar!
Depois do bolo, todos se servem de um bufê. O cardápio:
purê de espinafre com queijo, curry de abóbora, rodelas de
pepino, risoto com castanha-de-caju, bolinhos de trigo
fritos, iogurte doce, chutneys e, como sobremesa, bolinhas
de farinha maceradas em um xarope de açúcar. Para beber,
água da bica. É isso! O mesmo que tenho em minha casa
em Benares, só que em menor quantidade e sem uma
bebida digna. Devia ter comido antes de vir.
Adoro esses pratos, mas esperava que uma refeição na casa
de indianos ricos, mesmo vegetarianos, fosse repleta de
cumes e bolinhos fritos de legumes, acompanhados de soda
e sucos de frutas, na falta de álcool - bebida impura.
Sanjay me explicou que a Pepsi, a sete rupias meio litro, é
cara até mesmo para as pessoas como os Agraval. Em
compensação, eu que sou pobre e não pago imposto na
França, posso oferecer Pepsi a meus amigos sem me
arruinar.
Sou mais rico que os Agraval com meus 1.000 dólares de
salário? Não. Eles possuem um palácio e uma dezena de
criados. Possuir homens, esta é a verdadeira riqueza.
Depois da refeição, R. S. Agraval me dá uma pequena
demonstração do poder que ela confere. Acaba de me
perguntar se acho minha mulher bela, e eu respondo que
sim, no momento exato em que um menino de 10 anos,
escuro como carvão, como um intocável, recolhia os copos
sujos.
- E ele? É bonito? - R. S. Agraval pergunta em tom
gozador, sem sequer olhar para o menino, que não dizia
nada.
O que responder ao desprezo que sente pelos outros sem
melindrá-lo?
- Por que não?
- Claro que é belo! - respondeu satisfeito, com a mesma
entonação utilizada antes para falar de seu cãozinho.
Seu cachorro é belo, seu intocável também. Tenho
vergonha de ser um convidado dos Agraval.

5 de setembro

Progredi no hindi, já compreendo até o dialeto de Benares
e posso discutir os problemas da vida cotidiana e da
política. Sanjay também me ensinou os palavrões usados
em Benares. Isso é útil, pois as pessoas desta cidade
costumam pontuar sua linguagem com obscenidades.
Aprendi tudo que os indianos dizem em hindi aos
europeus, sabendo que esses não entenderão. Isso dá
náusea. Esta noite, cinco jovens, usando calças, camisas e
sapatos limpos, me cumprimentaram diante do templo Tulsi
Manas. Isso não foi nada extraordinário. Durante o dia, os
indianos interpelam os estrangeiros na rua. Os jovens me
dizem sorrindo: "Olá, bosharivala!" Pensam que não sei
hindi.
Bosharivala é a pior das ofensas. Significa "nascido de uma
vagina".
Por que me insultam? Minha cara de branco não lhes
agrada? É inútil pedir explicações; eles são cinco, eu sou
um só. Os indianos que passavam perto entenderam o que
eles disseram, mas ninguém parece surpreso. Sigo meu
caminho. Por 50 dias, enquanto espero me tornar um
indiano, devo deixar que me insultem, sem reagir. Não
quero brigar, pois correria o risco de criar problemas com a
polícia e comprometer minha aventura.

Na semana passada, notei slogans xenófobos nos muros da
avenida principal da Universidade Hindu de Benares.
Espalham o refrão demagógico referente aos imigrantes,
que alimenta a crença, aqui como na França, de que os
estrangeiros pilham a pátria. Dizem em hindi: "A nós o que
é nacional!" ou "Sociedades estrangeiras, saiam da Índia!",
ou "Não precisamos, em toda a Índia, de produtos
estrangeiros!" Nada de assombroso, a não ser que, em cada
frase, noto um ou dois erros ortográficos. Quase sempre são
erros muito graves, mesmo levando-se em conta que a Índia
é um país em que 48% da população são analfabetos. No
último slogan, as palavras "toda" e "Índia" estão mal
escritas, o que resulta em algo um pouco ridículo, como se
disséssemos "em todda Fransa...". Os militantes que borram
os muros da universidade são nacionalistas, mas não sabem
escrever o nome de seu país. Grotesco. Assim acontece
também em um artigo no jornal diário Patrika, em que um
professor universitário culpa o Ocidente pela introdução do
uso da droga na índia. Não nos esqueçamos de que a
maconha e o bhang são produtos indígenas extraídos do
cânhamo INDIANO.
Os indianos se acham superiores, e não são originais. Os
chineses, os franceses, os japoneses, os árabes, os alemães
etc., cada povo se considera sempre o mais civilizado e
rebaixa os outros. No caso dos indianos, a diferença está
em que seu racismo não é rancoroso. Sentem apenas
desprezo pelo bárbaro, o mleccha sânscrito que se tornou
mliccha, o "repugnante" no hindi atual. O bárbaro é o
estrangeiro. Ele não pratica o hinduísmo, não é civilizado e
vive de acordo com costumes mais impuros ainda que os
dos intocáveis. Por exemplo, comem carne de vaca, isto é,
o cadáver de um animal sagrado. Há oito dias, Sanjay me
citou mais duas razões para que o povo de Benares
considere o estrangeiro um mliccha, um repugnante.
Hesitou em me contar, mas insisti. Para ele também, a dife-
rença entre as culturas indiana e ocidental começa no
banheiro: "Os ingleses, quando defecam, se limpam com
papel, não se lavam com água. Ficam sujos."

Sanjay não se refere apenas aos ingleses. Na Índia, esta
nacionalidade designa, em geral, todos os estrangeiros.
Para um indiano, só existem dois mundos: a Índia, ou
Hindustan, em hindi "país dos hindus", e a Inglaterra, isto
é, todo o resto. Como se os ingleses controlassem nosso
planeta e tivessem inventado tudo que é estrangeiro. Daí
que o uísque, o vermute e o rum são bebidas inglesas. Os
remédios do tipo ocidental são batizados com nomes
ingleses, mesmo que o fabricante seja francês ou alemão.
As pessoas se surpreendem quando digo que na França não
falamos inglês, mas francês.
Concordo com Sanjay quanto à história do uso da privada.
Uso a técnica indiana, sei que a água limpa mais que o
papel. Peço que prossiga.
- Além do mais, os ingleses assoam o nariz em um pano
que tornam a guardar no bolso, até a próxima utilização.
Isso é realmente nojento.
Sanjay faz uma careta sincera de nojo. Os indianos não
usam lenço. Usam o nariz como uma arma automática.
Apertam as narinas, uma depois da outra, com o polegar e o
indicador, e expulsam o muco do nariz. Fazem isso em
público, na rua, quando sentem vontade, e projetam o muco
a um metro e meio, no chão. Em seguida, os micróbios se
propagam na atmosfera e contaminam os que passam. Mas
o indiano ou ignora esse fato ou não se importa com ele.
Não quer ter o trabalho de envolver o muco em um lenço.
O mesmo ocorre em relação ao lixo. Ele o joga na calçada
ou diante da porta do vizinho. Faz o mesmo com os
excrementos. Quando sai e tem vontade de urinar ou
defecar, não se controla. Conservar matérias impuras no
interior do corpo seria uma loucura. E assim baixa a calça
na rua.
Neste país, a noção de higiene pública é estranha. Para me
tornar um indiano, tenho de me livrar dessa idéia. Só devo
pensar em minha limpeza pessoal. Preciso aprender a
assoar o nariz com os dedos, pois usar um lenço trairia
minha identidade.
15 de setembro

Eu me tornarei um indiano no final de outubro. Até lá,
tentarei encontrar intocáveis. Quero conhecer seus
costumes para não cometer inconveniências. Vou
aproveitar para adquirir mais fluência no hindi. Quero estar
bem preparado para o dia D.
Ainda falta o mais importante: escurecer a pele. Não está
evidente. Todas as manhãs, de sete às nove horas, desde
meados de agosto, eu me estendo ao sol, na varanda, e me
bronzeio. Depois, vou andar pela margem do Ganges. Ali, a
luz é mais forte e tomo cuidado para não me expor depois
das 11 horas, senão o sol do zênite me queimará,
descascarei e terei de recomeçar do zero. Até o momento,
não exagerei e obtive um belo bronzeado. Mas ainda é
rosado, o que gerou o apelido de "macacos vermelhos",
dado pelos indianos aos estrangeiros.
Essa história de nuanças de rosa me aborrece. O que fazer?
As pílulas para bronzear serão eficazes? Para verificar seu
poder, engoli uma ontem e outra hoje. Em uma manhã, me
tornei mais escuro que a minha mulher, que é chinesa e
bastante morena. Com a tinta de nitrato de prata devo ficar
da cor de chocolate.
Tudo se desenvolve como previsto. Exceto que há alguns
dias os jornais falam de epidemias de cólera e encefalites
fulminantes no Estado de Uttar Pradesh. Não existem nem
vacinas eficazes nem tratamentos; houve mortos. A
população afetada é a das favelas e dos desabrigados. Na
pele de um intocável mendigo, corro o risco de ser
contaminado, e minha mulher se preocupa com a minha
saúde. Eu a tranqüilizo. Em duas ou três semanas, a estação
das chuvas terá passado e as epidemias desaparecerão. É o
que espero. Foi também por isso que decidi aguardar até o
fim de outubro para me metamorfosear.

17 de setembro

Gandhi dizia a respeito dos intocáveis: "O varredor faz pela
sociedade o que uma mãe faz por seu bebê. A mãe lava a
sujeira do filho e garante sua saúde. Do mesmo modo, o
varredor protege a saúde de toda a comunidade
conservando a higiene pública. O dever do brâmane (o
sacerdote) consiste em cuidar da higiene da alma, e o
varredor, da higiene do corpo social."
Sanjay me deu o nome de um varredor que ele conhece e
que mora no bairro dos varredores da Ravindrapuri.
Contratou-o muitas vezes para limpar suas latrinas. Ele se
chama Raja Ram, conhecido como "Gappi", ou seja,
"Boa Lábia". Faz a faxina no Hotel Manas, perto do
templo da deusa Durga. Procurei-o à tarde. Ele havia ido à
cidade para desentupir uma canalização. Deixei um recado
e retornei por volta das 20 horas.
Raja Ram estava lá. Aguardava no hotel. Ele confirma que
é quem chamam de "Boa Lábia". Esse homenzinho de
meia-idade me aperta a mão, o que é excepcional na Índia,
onde se evita o contato físico para não se sujar. Raja Ram é
um intocável, o que talvez explique seu gesto. Sua tez é
morena, ele é robusto e mede cerca de 1,55m. Tem o rosto
comprido, faces encovadas, um espesso bigode negro, nariz
redondo e olhos saltados, com sobrancelhas cerradas. O
cabelo é bem aparado e no todo parece um sujeito honrado,
com uma vida despreocupada. Usa um lungi xadrez e uma
camisa branca bordada e limpa.
Digo-lhe que estudo a civilização indiana e que gostaria de
ouvir sobre os costumes dos varredores. Ele aceita sem
perguntar maiores detalhes, como se meu pedido fosse
comum. Tiro do bolso da calça um saquinho plástico
contendo 20 centilitros do álcool sintético que os indianos
pobres consomem. Eu o levei porque sei que os intocáveis
gostam de beber. Ele sorriu.
- Vamos bebê-lo - eu disse. - Onde?
- Vamos à minha casa.
E lá estamos caminhando na direção do bairro dos
varredores da Ravindrapuri, a 500 metros daqui. Nesta
estação de calor úmido, a noite é a melhor hora do dia. O ar
se torna respirável, quase fresco. O tempo está agradável.
Raja Ram parece feliz com nosso encontro e me conta sua
vida com prazer:
- Trabalho meio expediente no hotel Manas e em um
escritório ao lado. Faço faxina. Isso me dá 750 rupias por
mês (30 dólares, meio salário médio aproximadamente).
Também faço trabalhos por fora. Sempre há quem precise
que limpe privadas ou desentupa encanamentos e eles me
procuram. Pagam o que quiserem, 100 ou 200 rupias, às
vezes 1.000 rupias. Sou um artesão muito bom. De
primeira classe.
Surpreendo-me um pouco com sua auto-definição de
artesão em hindi, um termo respeitável -, pois Sanjay
sempre me falou dele como de um limpa-latrinas
desprezível. Mas consciencioso e honesto, é verdade, o que
é raro entre os varredores. A propósito de suas tarifas, diz a
quem quiser ouvir que ganha muitíssimo bem. Segundo
Sanjay, que lhe paga 10 rupias para limpar uma latrina, isto
é conversa fiada, daí o apelido de "Boa Lábia". Pergunto
sua idade. Tem 37 anos. Freqüentou a escola por dois anos
e sabe ler caracteres impressos em hindi. Mais ou menos
como eu.
Caminhamos ao longo do bairro dos varredores. Raja Ram
me manda andar atrás dele, afastado do muro que o cerca,
pois está cheio de excrementos. Deslizamos para dentro da
favela por uma abertura de três metros e mergulhamos em
um universo no qual não existe nenhuma iluminação. Sigo
meu amigo, às cegas, por uns 50 metros, sobre um solo
lodoso e escorregadio. Sua superfície é desigual e cheia de
sulcos. Nas bordas adivinho os casebres de terra com o
telhado de plástico que brilha ao luar. Há sombras
cinzentas de quadrúpedes que se erguem à nossa passagem.
Latem ou rosnam, parecem cães e porcos.
O pardieiro de Raja Ram, o último daquela viela, está
instalado na orla oeste da favela. À noite, não consigo ver
direito como é. Não é grande, um só cômodo de cerca de
dois por três metros, sem janelas. Diante da porta de
madeira há duas camas de corda trançada. Uma mulher e
duas meninas estão sentadas em uma delas, no escuro. Raja
Ram me convida a sentar como ele, à maneira do Buda, na
outra cama. Os pés ficam curvos, o colchão mole é des-
confortável e me sinto incomodado por me sentar nessa
cama em que varredores se deitaram. Mas não deixo
transparecer. Meus olhos se habituam à escuridão. Consigo
distinguir às minhas costas um monte de lixo empilhado
contra um dos lados do casebre, em um canto cercado, mas
não coberto.
A mulher é sua "senhora", como ele diz, e as meninas são
suas filhas: Radha, de sete anos, e Mira, de quatro. Radha
usa um vestido azul rasgado, e Mira, calcinha e uma camisa
suja desabotoada. Tiveram mais dois filhos: uma menina,
que morreu de tétano aos sete meses, e um menino, que
morreu de disenteria 15 dias depois de nascido.
Sua mulher espera outro bebê; deve dar à luz em algumas
semanas. Ela é alta e muito magra, apesar da gravidez
avançada. A escuridão acentua o cinza encardido do sari
gasto que a envolve. Seu rosto comprido e enrugado em
volta dos olhos e sua boca com dentes escuros cariados
fazem pensar que deva ter uns 40 anos. Mais tarde, ficarei
sabendo que só tem 29 anos. Sua voz é rouca, masculina,
com um sotaque vulgar, cansado, como se resmungasse.
Raja Ham, ao contrário, usa uma linguagem cortês e me
chama de Sir. Casaram-se em 1979. Pergunto se ela
pertence à sua casta.
- A senhora era muçulmana. Sua família vivia no bairro
muçulmano atrás de Chowk (parte central da cidade). Seu
pai enrolava biri. Era muito pobre e já morreu. Sua mãe
vendeu a casa e se instalou com os filhos aqui, no bairro
dos varredores. Mantém perto da porta da frente uma tenda
que vende biri e bombons. Foi assim que nos conhecemos e
nos casamos.
Como ela se chama? Ele responde: "Lakshmi." Lakshmi é a
deusa hindu da riqueza. Nasceu da espuma do oceano
agitado pelos deuses e demônios. Sua beleza é perfeita.
Lakshmi não é um nome muçulmano. Não entendi nada.
Ela me conta sem constrangimento e com um sorriso:
- Kesar (açafrão) era meu nome muçulmano. Ao me casar,
tornei-me Lakshmi. Era o nome da primeira mulher de Raja
Ram.
- Um momento, Sir, vou explicar. - Ele diz isso com tal
ênfase que soou como se fosse revelar a origem do mundo.
- Antes desta mulher, tive outra, que morreu pouco depois
de nosso casamento. Ela se chamava Lakshmi e guardei seu
nome para a segunda esposa.
Evitei fazer qualquer comentário. Tirei o saquinho de
álcool do bolso, e Raja Ram, chamado "Boa Lábia", se
levantou para buscar os copos.
Lakshmi é uma muçulmana que se tornou uma intocável
hindu. Hoje, ela come carne de porco; no tempo de seu pai,
a família não a consumia. Ela fala friamente, sem
demonstrar arrependimento. Lembra-se da vida no bairro
muçulmano? Responde que sim, sem dar detalhes.
Pergunto qual era sua idade quando seu pai morreu. Ela
não se lembra, era pequena. Pergunto de outra maneira:
- Há quanto tempo seu pai morreu?
Ela reflete e diz:
- Faz 100 anos que ele morreu.
Tenho vontade de rir, mas me contenho. Raja Ram voltou
com dois copos. Escuta impassível. - Cem anos! É
impossível. Raja Ram diz que você tem 29 anos!
- É mesmo? Em todo caso, faz muito tempo que morreu. E
era um bom pai!
Raja Ram acrescenta:
- Ela não sabe contar. Não freqüentou escola.
Ao dizer isso, rasgou com os dedos um canto do saquinho
de álcool. Aperta em cima e verte em cada copo uma boa
dose. Brindamos, e ele esvazia seu copo com um só trago e
uma ligeira careta. Eu dou um gole. Não para degustar, mas
porque esta bebida incolor de 25 graus é repugnante. Tenho
a impressão de engolir água com um aroma repelente de
álcool queimado. Pego um biri para refrescar o céu da boca
e ofereço outros a Raja Ram e a Lakshmi. Ele impede que
ela aceite. Por quê? Na Índia, as mulheres "normais", as das
castas "decentes", não consomem nem tabaco nem álcool,
mas eu tinha visto varredoras fumando na rua.
- Ela está grávida, então não a deixo beber nem fumar -
explicou Raja Ram, - Em épocas normais, ela tem o direito.
Como eu.
Ele me diz que é o mesmo para todas as mulheres de sua
casta. Elas são mais livres que as das castas "tocáveis" e
gozam de uma posição mais elevada no interior de sua
comunidade.
Raja Ram pertence à casta dos dom. Os dom são famosos
por exercerem a função de coveiros e são classificados
como os mais impuros dos intocáveis, no último escalão da
hierarquia social. Também se ocupam de varrer o lixo, e
tradicionalmente a subcasta de Raja Ram trança cestos,
confecciona leques de bambu e fabrica colchões de penas.
Os dom que moram nessa favela em Ravindrapuri são
varredores. Formam um grupo endógamo distinto dos
coveiros que incineram os cadáveres às margens do
Ganges. O bairro dos varredores mede uns 4.000 m2.
Segundo Raja Ram, abriga cerca de 110 casebres. Setenta
pertencem aos dom, e 40 aos mehtar, outra casta intocável
de varredores, o que significa um total de 800 pessoas, ou
seja, cinco metros quadrados por habitante. A favela se
desenvolveu sobre o local de um lago aterrado pela prefei-
tura há 15 anos. Os pobres, dom e mehtar, ali construíram
seus casebres. Não compraram a terra, mas hoje ela lhes
pertence e podem vender o sítio que ocupam. Um vizinho
de Raja Ram acaba de pagar 1.000 rupias (40 dólares) por
cerca de 10 metros quadrados, onde construiu quatro
paredes com um teto. Não é caro, mas na Índia o sistema de
castas prescreve viver, comer e se casar entre os seus. Só
um varredor, e alguém em desgraça, como a mãe de
Lakshmi, pode aceitar viver entre os varredores.

Pergunto a Raja Ram sobre sua dieta alimentar.
Todos os domingos, ele come porco, e às quartas-feiras,
cabra. É a norma. Os sábados e terças são dias sem carne,
dedicados à oração. Come carne de vaca? Minha pergunta
o choca.
- Meu Deus! Não fale assim! A vaca é como se fosse nossa
mãe. É impossível comê-la!
Raja Ram pertence aos dom, a casta mais abjeta, e ainda
assim, para ele, existem tabus, coisas indignas e impuras.
Pergunto se a condição de intocável ainda subsiste, se ele
pode entrar em todos os templos.
- Isso acabou. Hoje entramos em todos os templos... Mas as
outras castas continuam a nos considerar intocáveis.
Peço mais detalhes.
- Se vou beber um chá em uma taberna e quem atende sabe
que sou um filho de Deus, me serve em um vaso de barro
descartável e não em um copo. Pois um recipiente no qual
eu bebo não pode ser lavado, tem de ser jogado fora.
Antigamente, um brâmane que bebesse água no copo de um
intocável devia se purificar absorvendo apenas urina de
vaca - animal sagrado - durante vários dias. Nenhuma
mudança significativa. Raja Ram prossegue:
- É a mesma coisa quando compro um pan. O vendedor que
conhece minha casta não me dá na mão. Embrulha com
uma folha de papel e o joga no balcão. Para pagar, não
devo estender o dinheiro. Eu o coloco diante dele e ele faz
o mesmo ao dar o troco. Assim não toca em mim. Porco!
Claro que fora deste bairro ninguém me conhece, e me
servem como a todo mundo.
Fala-me detalhadamente dos comerciantes da Ravindrapuri,
de como praticam o sistema de castas. A loja de grãos é a
mais procurada pelos varredores, que representam a metade
de sua freguesia. Todos os dias, vejo duas ou três
varredoras esperarem à sua porta, em pé ou sentadas, mas
sempre recuadas do balcão. Não têm o direito de se
demorarem ali. O vendedor as trata por "você" e, se há
muita gente, as atende por último. Não lhes dá o embrulho
de farinha, de arroz ou de condimentos; ele o joga no
balcão ou no chão, onde estão sentadas. Para encher o
recipiente de óleo que está sujo, Já que elas tocaram nele,
não o leva para o fundo da loja, como para os outros
fregueses, perto do tonel com óleo de mostarda a granel.
Tira um pouco com um recipiente medidor de dosagem,
volta ao balcão e enche o frasco, sem encostar nele. Às
vezes, o óleo escorre por fora do gargalo, mas ele não o
limpa. Manda que ela o faça.
Na hora de pegar o dinheiro, se a intocável não o colocar
sobre o balcão, ele o apanha com as pontas dos dedos, sem
tocar nela. Depois, coloca o troco no balcão ou o deixa
cair, a uns cinco centímetros, na palma da mão dela,
evitando assim qualquer contato físico. Enquanto Raja Ram
me contava isso, cenas me vinham à memória. Diariamente,
eu as via se repetirem, mas não prestava atenção. O mais
surpreendente é que os mercadores de grãos pertencem à
casta dos pastores, uma casta baixa, situada logo acima dos
intocáveis.

Raja Ram é um hindu religioso - o que não é nada
excepcional - e acredita na reencarnação de um indivíduo
nesta ou naquela casta em função de seu carma, o balanço
de suas boas e más ações. Quem reencarna como brâmane
teve uma conduta exemplar nas existências anteriores. Em
compensação, quem cometeu erros graves reencarna como
intocável. Pergunto que faltas ele teria cometido para ter
nascido varredor.
- Não sei. Não nos lembramos de nossas vidas anteriores.
Esta foi sua resposta. Ele está convencido de que a
reencarnação existe. Eu não compreendo. Ele se queixa da
injustiça do sistema de castas e, dali a cinco minutos,
considera a desigualdade de nascimentos como um sistema
de recompensa e de punição, isto é, um sistema justo. Digo-
lhe que é contraditório. Ele, por sua vez, não entende.
Deixo pra lá. Existe um templo hindu no bairro dos
varredores?
- Há dois. Um para os dom e outro para os mehtar. Todos
os dois devotados ao deus Shiva. O nosso é aquele ali. - Ele
aponta para uma construção branca e quadrada do tamanho
de um homem, 10 metros à nossa frente, sob uma
amargoseira. Uma lâmpada elétrica, presa sobre essa
árvore, da qual os indianos utilizam os ramos para escovar
os dentes, fornece um pouco de luz. No interior, como em
todos os templos de Shiva, há um lingam, o falo de Shiva,
uma espécie de mastro de pedra sobre a qual os devotos
vertem as oferendas de leite, manteiga clarificada, água do
Ganges, pétalas de flores, bhang. Quem cuida do templo? O
sacerdote é um brâmane?
- Não, é um dom. É meu vizinho, aquele que está bebendo
na frente do templo. Ele o construiu este ano e é ele que
celebra o culto... Venha ver uma coisa! - Raja Ram lhe
grita.
O vizinho traz uma rede de dormir e se instala com seu
copo, depois de apertar minha mão. Os dom têm mania de
me tocar.
Ele se chama Vijay Kumar. Alto e musculoso, na faixa dos
40, trabalha há 18 anos fazendo serviços gerais na base
militar de Benares. Serve café e cigarros aos oficiais, e faz
a faxina. Sei que os intocáveis que exercem funções
administrativas são geralmente designados às tarefas
inferiores. Ele ganha 2.000 rupias por mês salário superior
à média. Teve nove filhos, dos quais sete estão vivos.
- Celebro o culto de Shiva duas vezes por dia. Ao nascer e
ao pôr do sol. É indispensável.
Como sacerdote, não se incomoda em beber álcool? Para
um hindu, é um ato impuro.
- Esta noite bebo rum. Isso não incomoda a Deus. É preciso
escutar a consciência, é isso que conta para Deus. E eu
gosto de beber. Todas as noites.
Seu argumento não me convence. Mudamos de assunto.
O templo e a casa de Vijay Kumar têm luz elétrica. Por que
Raja Ham não?
- Todas as famílias do bairro que têm eletricidade não a
pagam. Elas a roubam.
Vijay concorda com a cabeça. Peço mais detalhes.
- Um momento, Sir - Raja Ram interrompe, como um "boa
lábia" que sabe tudo. - Vou explicar. Efetuam "gatos" nos
postes elétricos e puxam os cabos até suas casas.
- Por que você não faz o mesmo?
- Não quero roubar. Quero ser correto.
- Cada um vive a seu modo - suspira Vijay Kumar.
Conversamos por mais de duas horas, esvaziamos meu saco
de álcool e outro que Raja Ram ofereceu. Uma questão a
respeito dos intocáveis continua a me atormentar. Daqui a
10 semanas vou me metamorfosear em aborígine e quero
saber se os dom classificam as populações tribais no grupo
dos "filhos de Deus", isto é, dos intocáveis. Raja Ram e o
sacerdote respondem sem hesitar:
- Os aborígines são como nós, filhos de Deus.

23 de setembro

Desde nosso primeiro encontro, em 17 de setembro, visitei
Raja Ram duas vezes. Ficamos amigos.
É quarta-feira de tarde, dia de carne. Raja Ram não trabalha
e anteontem decidimos organizar um banquete. Levo uma
garrafa de uísque indiano e um frango. Lakshmi o preparará
ao curry, de "primeira classe", como ele diz, com
especiarias moídas na hora. É assim que deve ser. Enquanto
esperamos, beberemos e conversaremos.
Cheguei por volta das 14 horas, com Gloire. Já descrevi a
favela de Raja Ram, mas, como era de noite, não foi uma
descrição exata. Agora, de dia, vejo os detalhes.
O bairro dos varredores da Ravindrapuri é uma rede de
caminhos lamacentos que serpenteiam entre uns 100
casebres de tijolos, por vezes apenas empilhados, sem
argamassa. No meio dos caminhos, um rego de água suja
brilha sob o sol. Esses esgotos se juntam nas entradas da
favela e formam mares de matérias fecais, onde porcos
rosados, de todos os tamanhos, se exibem. Faz muito calor.
Talvez 40 graus. A cobertura dos casebres, constituída de
vigas e ramagens, sobre as quais o telhado de plástico em
patchwork é mantido fixo por pedras, não oferece nenhum
tipo de isolamento. Nesta estação, os varredores sufocam
sob seus telhados e passam dia e noite fora, nas camas de
corda instaladas à sombra da casa.
Quando nós passamos, eles se endireitam. Sabem que sou
amigo de Raja Ram e não perguntam mais aonde vou. Mas
continuam a rir ao nos ver andar desajeitadamente na lama
e afastar os cães e porcos que atravessam nosso caminho.
As crianças, imundas, nos seguem e puxam nossas roupas
para pedir uma rupia ou um bombom, nos tratando de
"você".
A favela é uma entidade geográfica bem delimitada. Um
quadrado guarnecido de três ruas e um parque, com um
muro que traça o limite ao norte e a oeste. O conjunto é
dividido em duas partes distintas: os dois terços ao norte,
habitados pelos dom, e o terço sul, pelos mehtar. Cada um
em seu canto.
Não existem canos de esgoto, água corrente, nem latrinas
nas casas. O governo instalou uma bica em cada uma das
três principais entradas do bairro, e os varredores ali se
lavam e buscam água com baldes. Na fronteira com o setor
dos mehtar também há uma fileira de latrinas públicas, sob
um abrigo de cimento. Nunca as usei, mas devem ser
imundas. O odor agride os que passam, chegando até a
Ravindrapuri. Seu perímetro está repleto de cagalhões, pura
a alegria dos porcos que ali vivem 24 horas por dia. A
família de Raja Ram e de vários varredores prefere se
aliviar atrás da casa, no solo; tudo é rapidamente limpo
pelos cães e porcos que erram pela favela em busca de
comida. Já os vi esperando pacientemente atrás de um
homem que tirava a calça.

De dia, o casebre de Raja Ram parece ainda mais
miserável. É um único cômodo de seis metros quadrados. O
telhado consiste em um toldo preto fixado com pedras
grandes. A construção não possui janelas. A fachada
apresenta duas seteiras minúsculas, que só noto agora.
Entro. A penumbra domina. No primeiro instante, diante da
porta, distingo uma despensa empoeirada e, no chão de
terra batida, utensílios de cozinha enegrecidos pela fuligem.
Atrás do móvel, um grande pôster amarelecido de Ganesh,
o deus com cabeça de elefante que afasta os obstáculos
situados no caminho da existência. O outro lado da peça é
ocupado por uma cama submersa em um monte de colchões
de penas sujos e, de viés, um colchão de espuma,
impregnado de urina. Na extremidade da cama, estão
empilhadas vasilhas enferrujadas. Há trapos espalhados por
toda parte e, em cima desse bricabraque, tábuas fixadas sob
a metade do telhado. Uma mixórdia de farrapos e pedaços
de papelão está sobre esse mezanino. É isso. Ah, me
esqueci de mencionar o vigamento da fachada da casa.
Sacos plásticos rasgados e roupa branca encardida ficam ali
pendurados.
Lakshmi prepara o frango. Sua barriga intumescida indica
que logo dará à luz, mas Raja Ram insiste:
- Vamos, rápido! Cozinhe o mais rápido possível! Rápido!
No sábado, à noite, ela levou uma surra do vizinho. Batera
no cachorro dele porque rondava sua casa. Raja Ram não
estava em casa, quando chegou, encontrou-a no chão
gemendo. Ninguém havia tentado protegê-la.
- É assim, irmão. Cada um por si. Por aqui, sempre há
tumultos. E roubos. Ontem mesmo roubaram um corpete de
minha senhora que secava na frente da casa.
Raja Ram me chama de irmão. Um sinal de afeto em hindi.
Embora goste de contar vantagens e mude a versão dos
fatos a cada dois dias, não é mal-intencionado e sempre é
correto comigo. Proíbe as filhas de me pedirem dinheiro,
como as crianças do bairro, e, se levo uma bebida, em
seguida ele oferece a sua.
Seus vizinhos são diferentes. Sentam-se diante de sua casa
para me filar biri e se convidam para brindar com nossa
bebida. Quando se tornam muito inconvenientes, Raja Ram
ou Lakshmi os manda embora. Trocam palavras ríspidas...
Os varredores discutem sem parar e conversam usando
gíria. Em compensação, tratam-me de "senhor", o que nem
sempre é o caso quando alguém de uma casta elevada se
dirige a mim. Gosto dos dom.
Descobri que os comerciantes de pan da Ravindrapuri, que
servem Raja Ram sem tocá-lo, também são intocáveis.
Pertencem à casta dos sapateiros. Observei como
trabalham. Raja Ram disse a verdade: eles jogam o tabaco e
o troco no balcão, se o freguês é um varredor. Mas tocam
os fregueses de outras castas, inclusive da sua. A
intocabilidade entre intocáveis existe como se as impurezas
de origem diferente fossem distintas, como se o sapateiro,
que tradicionalmente esfola cadáveres de vacas sagradas,
pudesse ser poluído pelo limpador de lama.
Ontem, conversei com os varredores mehtar e eles me
disseram que não podiam beber a água oferecida pelos
vizinhos dom. A pergunta "X aceita a água servida por Y?"
funciona como teste para medir a hierarquia entre as castas.
A resposta mostra sem ambigüidades se X considera Y
impuro. Fiz essa pergunta aos mehtar:
- E os dom bebem sua água?
- Sim;
- Mas vocês não bebem a deles?
- Exato. Nossa saúde não suportaria... Eles são muito sujos
explicou um senhor idoso, fazendo uma cara de nojo.
Preciso perguntar aos dom sobre isso, para saber o que
pensam da hierarquia das castas de varredores. Nessa tarde,
falei com Raja Ham e ele me disse sem hesitar:
- Nós, os dom, não bebemos a água dos mehtar. Eles são
muito sujos.
Então, perguntei se ele bebe a água oferecida pelos
coveiros. A resposta foi não.
Que história maluca! Os intocáveis sofrem com o sistema
de castas e se discriminam entre si, à imagem de seus
opressores.
Na verdade, as castas se excluem e interagem em um
sistema complexo. O ofício de parteira é tradicionalmente
exercido pelas mulheres da casta dos sapateiros.
Atualmente, nas favelas, as mães continuam a parir em
casa, pois o hospital é muito caro. Elas alugam o serviço
dessas parteiras-sapateiras.
O parto de Lakshmi será assim. Em alguns dias. O sol
acaba de se pôr e, como toda noite, a parteira passa para
examiná-la. Na faixa dos 50 anos, gorducha, usando um
sari sujo de terra, com a bainha desfiada, é típica da casta
dos sapateiros. Entra no casebre com Lakshmi, para apalpar
seu ventre. É um paradoxo. Seu marido, seu filho, seu
primo jogam o tabaco para Lakshmi, para não ter que
encostar nela; no entanto, vai fazer seu parto com as
próprias mãos. Não me peçam para explicar essa noção de
intocabilidade que varia segundo as circunstâncias. Os
indianos a quem pedi um esclarecimento não me deram
nenhuma explicação racional.
Falo com Raja Ram. Na Índia, existe um exame que
permite conhecer o sexo do bebê antes do nascimento? Não
digo que tipo de exame. Penso na ultrassonografia, mas não
sei como dizer em hindi.
- Sim - ele responde. - A parteira prediz o sexo dos bebês.
Minha senhora está esperando um menino.
A parteira sai do casebre e ouviu nossa conversa. Ela me
explica, séria, que sente o sexo do bebê apalpando o ventre
da mãe. Quero mais detalhes e digo:
- Como pode senti-lo?
- Estou acostumada - ela afirma, serena.
Resposta engraçada. Os indianos são muito puritanos e não
quero ser indelicado falando da anatomia feminina. Calo-
me. Em alguns dias, depois do parto, ficarei sabendo se a
parteira se aproveita ou não da credulidade das pessoas. Ela
nós cumprimenta, e meu irmão Raja Ram se aproxima.
- Depois desse filho, minha senhora será esterilizada.
- E se for menina?
- Então, não se operará.
- Por quê?
- Quando eu morrer, um filho deve acender minha pira. ­
Ele pega um biri. - Vou contar uma coisa que não disse a
ninguém: Se for um menino, organizarei uma grande festa.
Se for menina, ficarei decepcionado e não farei nada.
- Desejo que seja um menino.
- Obrigado.
É verdade que Raja Ram está em apuros com duas filhas
para casar. Isso significa dois dotes.
Esse costume é comum a todas as castas, assim como a
endogamia, o que torna geral o casamento de conveniência
na sociedade hindu. Se Raja Ram tivesse dois filhos, os
dotes que receberiam ao se casarem compensariam os que
seriam desembolsados para Radha e Mira. Além disso, na
Índia, as meninas passam a morar na casa dos pais do
marido. É a grande família tradicional. O casal sem filho
homem envelhece só; a aposentadoria e o auxílio social não
existem para a maioria dos indianos. Na China, é a mesma
coisa: as meninas deixam a casa dos pais ao se casarem.
Todavia, na China, é a família do marido que paga o dote.
Ela compra a esposa, reembolsa seus pais pelo que
gastaram para educá-la.
Na Índia, uma garota custa caro. Estudos sociológicos
revelam que os pais prestam menos atenção à alimentação e
à saúde dos filhos do sexo feminino. Sua taxa de
mortalidade é mais elevada, o que se traduz na população
pela relação de nove mulheres para 10 homens.
Nessa tarde, enquanto Raja Ram ajudava Lakshmi a
acender o fogo para cozinhar nosso jantar, Muktar, 27
anos, um vizinho dom que é varredor na Universidade
Hindu de Benares, me fala do casamento de sua filha,
Sangita. É uma bonita menina de 12 anos, com uma longa
trança, que vai até a cintura. Ela não tem seios e, sem
dúvida, não é púbere. Muktar negociará seu casamento em
dois anos, mas ela só irá viver na casa do marido e se deitar
com ele quando completar 18 anos, idade legal para uma
menina se casar. Então, qual é o interesse de firmar a união
de duas crianças com antecedência? O interesse é duplo.
Primeiro, os dois pais, ao encontrarem um cônjuge para os
filhos, se livram do dever paternal que deve ser cumprido
por todo hindu antes de morrer. Segundo, o pai do menino
recebe o dote mais cedo e, para o pai da menina, o
montante pago hoje é menor que daqui a quatro anos,
devido à inflação galopante. O dote, que varia em função
da casta e do meio social, é sempre muito elevado e
endivida a família. Mesmo os dom devem oferecer 10.000
rupias mais 5.000 para a festa do casamento. Isso
representa quase o salário anual de Muktar.
- Em 10 anos, casar uma menina talvez custe 50.000 rupias.
Preciso acertar o casamento de Sangita o mais cedo
possível, senão nunca conseguirei economizar o suficiente.

25 de setembro

O grupo de casinhas situado entre o bairro dos varredores e
a mansão californiana do vizinho brâmane é habitado por
intocáveis sapateiros. A maioria não exerce mais essa
profissão; o nome significa apenas sua casta e o ofício de
seus antepassados. Hoje são alfaiates, funcionários,
comerciantes, condutores de liteiras puxadas por
bicicletas... Alguns são meus amigos.
Sita Ram, na faixa dos 30 anos, minúsculo e zarolho, é um
deles. No entanto, usa um janeu - o cordão sagrado
reservado às castas superiores - e afirma ser um brâmane
que conduz jinriquixás e vive nesse bairro por falta de
opção. Diz ser vegetariano e não beber álcool. Acredito, e
seu caso mostra que existem brâmanes pobres. Tenho outro
amigo brâmane que é miserável. Chama-se Jagdish e aluga
uma tenda feita com uma chapa enferrujada, à margem do
Ganges, em Assi. Vende tabaco, cigarros, bombons e sabo-
netes aos devotos que vão se banhar no rio sagrado. É
muito religioso, lê textos sagrados durante várias horas por
dia e, ao amanhecer e na hora do crepúsculo, faz as
oferendas e abluções necessárias ao culto. Não consome
carne nem bebida alcoólica. Se um intocável lhe compra
alguma coisa, ele lhe joga a mercadoria e o troco, para
preservar sua pureza. Que vida! Prefiro a de Raja Ram, que
pelo menos gasta um quarto de seu rendimento com bebida
e carne, se banqueteia, se diverte e aproveita a vida.

Não me esqueço de Sita Ram. Hoje de manhã, ao visitar
meus amigos mehtar no bairro dos varredores, fui seguido
por ele. Fico surpreso por um brâmane entrar nesse bairro.
Sita Ram, com um só olho, manchas de despigmentação no
rosto encaroçado, a voz nasalada e do tamanho do Pequeno
Polegar, tem uma aparência que nos faz rir. Zombo dele
sempre que nos cruzamos na Ravindrapuri e ele responde
com uma descortesia. Quero apresentá-lo aos mehtar. Digo,
gozando sua nobre identidade de brâmane:
- Este é Sita Ram. Ele também é um varredor.
Ele cora e balbucia algo incompreensível. Talvez eu tenha
exagerado, tratando-o como intocável. Para reparar o erro,
digo:
- Estava brincando. Sita Ram é um brâmane. Vejam, ele
usa o cordão sagrado!
Os mehtar presentes caem na risada:
- Ele não é um brâmane, é um sapateiro!
Sita Ram não protesta; com o rosto escarlate, foge. Os
mehtar me confirmam que ele é um filho de Deus e que seu
cordão sagrado é um blefe.
Reparei que os sapateiros, ao contrário dos varredores e
dos sonhar - os intocáveis comerciantes de legumes -, têm
vergonha de confessar sua casta. À pergunta "A que casta
pertence?", respondem ou "Sou hindu" ou "Sou como
fulano". Nunca dizem francamente "Sou sapateiro". Em
hindi, o nome dessa casta soa mal, pois significa
"trabalhador de couros", e designa a casta intocável mais
numerosa.

Uma hora depois, ao sair do bairro dos varredores, Sita
Ram me chama à parte, na rua.
- Por que disse que eu era varredor?
- Foi uma brincadeira! Qual é sua casta verdadeira?
- Sou brâmane. Uso o cordão sagrado.
Ele o mostra por baixo da camisa de gola encardida e
mangas rasgadas. Mostra-me mais uma vez. Parece sentir
prazer nisso. Ele me olha orgulhoso.
- Os varredores dizem que você é sapateiro.
- São varredores! Dizem qualquer coisa!
Ele mente, e eu não insisto. Para agradar, continuarei a
chamá-lo de Pandit. Não me incomodo. Esse título
honorífico é destinado aos brâmanes. Significa "o sábio, o
erudito, o que estudou os textos sagrados".
Todos os meus amigos sapateiros que vivem no bairro e os
comerciantes da Ravindrapuri me confirmarão que Sita
Ram é um impostor. Não há mais dúvidas. Usa o cordão
sagrado para enganar os otários como eu e poder sair pela
cidade. No centro, ninguém o conhece. O cordão que
pendura sobre o ombro esquerdo indica que pertence a uma
casta elevada. Diz que é brâmane e as pessoas o tratam com
o respeito reservado a um Pandit. Tanto melhor para ele.

Hoje à tarde, durante minha aula de hindi, Sanjay contou
que conhece um sapateiro na vizinhança que também usa
um cordão sagrado. Não só para ser considerado um
brâmane, mas também porque acredita que todos os hindus
religiosos merecem esse direito. No entanto, para os hindus
ortodoxos, isso é um sacrilégio, pois somente as castas
brâmanes, kshatriya e vaishya, podem ser "iniciadas ou
"batizadas".
A grande maioria dos indianos não dissimula o nome de
sua casta. Contudo, os trapaceiros não são raros e,
evidentemente, dizem pertencer a um grupo superior ao
deles. Sanjay estudou na Universidade Hindu de Benares,
onde o sistema de castas é forte entre os brâmanes e os
rajaputros. Esses dois grupos, que ocupam o topo da
hierarquia hindu, disputam o controle do campus.
Freqüentemente há tumultos entre os estudantes, que
lançam bombas uns contra os outros, como em 31 de
agosto e 10 de setembro de 1992. Um amigo de Sanjay
acrescentou o patronímico Singh a seu nome, para se fazer
passar por um estudante rajaputro e se beneficiar da
proteção do poderoso grupo.
É difícil desmascarar um indivíduo que mente sobre sua
casta. Atualmente, sua casa e seu endereço não significam
que pertence a esta ou àquela casta. Em Nariya, onde mora
Sanjay, as casas dos sapateiros se agrupam em um
quarteirão que não faz uma fronteira visível com as
residências dos Maurya, dos brâmanes, dos sikhs, dos
leiteiros etc. Nada os distingue. Eu fui ver. Há grandes e
pequenas, todas misturadas, em cada setor. Rajendr Kumar,
o rico proprietário da serraria e da loja à beira da estrada, é
um sapateiro e sua casa é uma das mais bonitas. Eu o
conheci. Vestia uma calça e uma camisa passadas, e não
falava gíria. Não tem nenhum ponto em comum com Raja
Ram nem com Sita Ram, a não ser sua intocabilidade.
Indelével, revoltante. Uma mancha de breu sobre o pano
branco da existência, escreveu Swami Ramdas.
De fato, essa história de trapaceiros vem a calhar.
Vou me transformar em indiano e fingir ser intocável.
Como os indianos sempre dizem pertencer a uma casta
superior à que pertencem, ninguém pensará que estou
mentindo. Por que alguém de casta superior reivindicaria a
posição de intocável? Talvez apenas para disputar um
emprego ou uma missão reservada a um intocável. Não será
meu caso...
Isso tudo só vale para as cidades e deverei me isolar.
Sanjay, Ram Singh e Raja Ram assim me afirmaram. No
campo, é impossível enganar. Todo mundo se conhece e as
aldeias ainda são divididas geograficamente por castas,
segundo a tradição, para evitar a mistura e a poluição. Os
leiteiros com os leiteiros, os sapateiros com os sapateiros,
os brâmanes com os brâmanes etc. Não haveria lugar para
um recém-chegado. Na cidade, ao contrário, com a mistura
da população por causa do êxodo rural, poderei me
confundir com a massa.

11 de outubro

Chakradharpur, cidade ao sul de Bihar, na direção de
Calcutá. Cheguei ontem, após 18 horas de trem. Os Munda,
tribo à qual vou pertencer, vivem aqui, nas florestas do
planalto de Chota Nagpur, mais conhecido pelo nome
histórico de Jharkhand. Seus aborígines - todas as tribos
juntas, inclusive os Munda - reivindicam a separação do
Estado de Bihar.
Vim para ver como é um Munda, onde mora, como se
veste, que língua fala... Mesmo que eu não pretenda parecer
exatamente com um Munda, para conseguir minha
metamorfose tenho de inventar um passado e contá-lo.
Criar imagens plausíveis sobre a região, a casa, minha
suposta família. Talvez cruze com pessoas que já estiveram
em Jharkhand e, para não me trair, vou dar uma volta e ten-
tar ser capaz de lembrar um mínimo da cor local.
Chakradharpur. Mil casas de um andar, de tijolos e
madeira, se alinham sobre um eixo perpendicular à via
férrea. Um cenário de western, com sua grande rua e suas
lojas de bebidas. Os aborígines desempenham o papel dos
peles-vermelhas, e os colonos arianos, civilizados e
adoradores das vacas, o dos caubóis.
É uma cidade de crescimento demográfico acelerado,
construída no coração da selva tropical. A farmácia na
entrada da grande avenida foi a primeira loja. Lá se vendem
todos os tipos de medicamentos: antibióticos, pomadas,
antidiarréicos, e também uísque, rum e cerveja. Um
negócio de família. Um bengalês corajoso, bisavô do
proprietário atual, a construiu em 1886. Na época, era
cercada por uma densa floresta habitada por aborígines.
Sua fachada em arcadas, os móveis e o balcão de madeira
acima de uma balaustrada datam dessa época.
Para além deste monumento histórico, no lado direito da
passagem de nível, onde o tráfego é intenso, destaca-se um
grande painel publicitário. O rosto da bela Madhuri
Dikshit, pintado com um halo de luz difusa, exalta os
méritos do sabonete Lux, o das estrelas, mesmo em
Jharkhand.

Em Chakradharpur, a maioria dos habitantes é ariana, e os
aborígines que aí vivem são todos parecidos. Os Munda
verdadeiros vivem nas montanhas e na selva ao redor. A
maior parte não conhece nem o hindi nem o inglês.
Contrato um condutor de jinriquixá que é da tribo dos Ho e
conhece o hindi e a língua Munda. Será meu intérprete e
me conduzirá a Vulugutu Beka, a oito quilômetros.
Essa aldeia é habitada por hindus Munda que cultivam
arroz e criam gado. Um lago marca a entrada da aldeia ao
pé de uma montanha coberta de árvores gigantescas. Um
caminho lodoso serpenteia entre casas de barro cercadas de
pátios limpos, sem lixo, o que é raro na índia. As
habitações são separadas umas das outras por bosquetes de
bambu, mangueiras, figueiras, pipal - árvore sagrada hindu.
Sua sombra oferece um frescor delicioso.
Os Munda são australóides, primos afastados dos
aborígines australianos. Segundo o célebre sociólogo
indiano Govinda Sadashiv Ghurye, eles teriam vindo da
península malaia na idade neolítica. Sua língua,
incompreensível para um indoeuropeu, pertence à família
das línguas mon-khmer. De fato, os Munda que encontro
em Vulugutu Beka apresentam aos meus olhos profanos os
finos traços arianos. Talvez o mais freqüente seja a tez
morena, o cabelo crespo, o nariz grosso, os lábios
carnudos. Mas de um modo menos pronunciado que nos
negróides. E isso me convém, pois tenho cabelo crespo e
um nariz tão grosso que parece um focinho de porco.
Conclusão: é impossível reconhecer um Munda em uma
multidão de indianos arianos, e poderei passar facilmente
por um.
Os homens se vestem como os arianos pobres: lungi e
camisa ou camiseta. As mulheres usam saris, como toda a
população, só que os seus têm dois ou três metros de
comprimento, em vez de cinco. Enrolam pano em volta da
cintura, sobem-no pelo busto, sem o enrolarem, e deixam o
resto do tecido cair nas costas. Muitas não usam corpete, e
o sari curto, mal colocado, não dissimula os seios.
Infelizmente, as mulheres sem corpete com que cruzo
depois de alguns partos têm os seios flácidos, como se
esvaziados de sua polpa. Vi uma jovem aborígine de torso
nu em plena Chakradharpur. Tinha os seios firmes e lisos,
mas era uma mendiga. Seu cabelo formava uma massa
compacta com o acúmulo de sujeira e os braços e rosto
estavam cobertos por crostas pretas.
Entramos nos pátios e conversamos com os habitantes.
Freqüentemente usam como patronímico o nome Munda
precedido de um prenome indígena ou hindu. Os Munda
correspondem a uma casta endógama, exatamente como os
Maurya, Agraval, Sonkar etc. Ao lhe perguntarmos a que
casta pertencem, respondem com o nome da tribo e
admitem ser do grupo dos "filhos de Deus". São carnívoros
e bebem muito. Assim como todos os aborígines neste
planalto.
Em Benares, cidade santa, o álcool é uma bebida impura e
cara, e os devotos se drogam com a maconha. Em
Jharkhand, ao contrário, o álcool é barato e não é uma
infâmia bebê-lo. Parecido com a França.
Na estrada de Chakradharpur, a cada quilômetro há uma
espécie de botequim, sempre muito cheio de gente. Meu
guia visitou todos. Uma vez, matou a sede com uma
espécie de cerveja de arroz e, na birosca seguinte, se
recompôs com aguardente. E foi assim até chegarmos a
Vulugutu Beka. Ele entorna bem. E sem problemas. Eu o
acho simpático e me sinto próximo desses aborígines.
Os Munda comem cobra, porco, búfalo, peixe. Como
hindus, evitam a carne de vaca. Veneram Shiva, Rama,
Krishna, Durga etc. Encontro dois homens que usam o
cordão sagrado. Pergunto se são brâmanes.
O primeiro não entende o que digo, e o segundo responde:
"Não, sou Munda. O cordão indica que sou religioso." Isso
me confirma o que li sobre os aborígines do Jharkhand. Seu
hinduísmo ainda carrega vestígios das religiões primitivas
que os influenciaram de início. Eu não aprofundo. Sem
dúvida, os Munda praticam um hinduísmo diferente em
alguns detalhes, mas isso não importa para minha
metamorfose. Em Benares, as pessoas ignoram a verdadeira
aparência de um Munda.
Para reforçar a credibilidade, será útil conhecer algumas
palavras Munda, e aprendo a dizer "obrigado", "bom-dia"...
12 de outubro

Esta noite, outro sonho mórbido. Eu o resumo:
"Visito minha avó no hospital. Ela treme na cama, não
consegue mais falar. De repente, leva as mãos aos olhos
para dizer que não enxerga mais. Seu corpo se curva e
depois se acalma. Acabou, está morta."
O choque me desperta. Fim do pesadelo. Minha avó
morreu há 10 meses e eu a amava como se fosse minha
mãe.
Estou hospedado no hotel Diamant, de Chakradharpur, o
melhor num raio de 25 quilômetros. As paredes do quarto
estão mofadas; a água corrente e os banheiros ficam fora,
no final da varanda. Conforto mínimo, preço mínimo: dois
dólares a diária, incluindo o enxame de mosquitos que me
devoram do crepúsculo ao amanhecer. Estou deitado em
uma cama quebrada, ao lado de Gloire. Ela dormita e seu
hálito quente acaricia minha face.
Minha avó está fria, no fundo de sua sepultura. Eu também,
um dia, ficarei frio. Talvez Gloire me veja dar o último
suspiro sobre uma cama. E depois seremos separados. Isso
acontecerá com certeza. Um desespero imenso me invade.
Sinto medo. Medo de desaparecer.
Não é o fim da vida em si que me angustia, mas a certeza
absoluta de deixar minha mulher, em um futuro mais ou
menos distante. O projeto de metamorfose em intocável
pode adiantar essa data. A aventura me excita, claro, mas
valerá a pena arriscar a vida, correr o risco de me afastar de
Gloire? Algumas lágrimas umedecem meus olhos e me
enrosco nela. Quero aproveitar ao máximo sua presença,
antes de me tornar um indiano.
Tenho 32 anos e nunca tive salário regular. Sem
rendimentos fixos, realizei todos os tipos de reportagens
para sobreviver. Sou a escória do jornalismo, um
aventureiro. Percorri todos os continentes, ri e amei em
todas as longitudes. Esta foi a minha vida. Sou feliz. Não
lamento nada. Que isso fique bem claro.

16 de outubro

Retomei a Benares no dia 14, quarta-feira, e retomei ontem
as sessões de bronzeamento. Tenho 10 dias para ficar
moreno. De manhã, acordo antes da aurora e tomo dois
comprimidos de metoxipsoraleno. Duas horas depois, unto
o corpo com óleo de coco e me exponho ao sol, na varanda,
durante três ou quatro horas. Uso uma sunga e ponho uma
faixa preta sobre os olhos. Apesar disso, depois de cada
sessão, sinto fisgadas nos olhos até a noite. Incompetência
do metoxipsoraleno! Deve atacar minhas íris. Essa
membrana ocular é rica em pigmentos e sensível aos raios
ultravioleta. Espero que não seja nada grave.
Após dois dias de tratamento, não consigo prever qual será
a minha cor final. Enfim, me bronzeio, consigo um tom
caramelo, um pouco alaranjado, mas conto com o nitrato de
prata para escurecê-lo no último momento.
Aborrecem-me, principalmente, os pelos dos braços e
pernas, que clareiam ao sol. Os pelos dos indianos escuros
ou claros são sempre pretos. Não posso ficar com essa
penugem dourada sobre o corpo. Devo raspá-los e
escurecê-los como fiz com o cabelo. Pintar o corpo todo?
Com uma tintura capilar? É possível?
Resolvo fazer um teste e unto meus antebraços com uma
tintura preta de marca diferente. A penugem loura é
particularmente espessa nesta parte de meu corpo. Deixo a
tintura por 20 minutos e enxáguo. O resultado me tira o ar.
Meus pelos se tornaram pretos e a epiderme também. Eu
me lavo com sabão e a tintura não sai. Fiquei com uma
faixa preta de cinco por 10 centímetros em cada pulso.
Toco e me certifico de que é minha pele mesmo. Minha
pele preta. Ela me dá as mesmas sensações que a minha
pele branca vizinha. Em parte, sou preto. Não acredito no
que vejo. É fantástico. Quem sou eu? Um homem bicolor?
Esta tintura é reversível? Começo a gargalhar e minha
angústia se acalma.
Não posso sair com essas placas no braço. Tenho de apagá-
las. Eu me lavo com sabão e água quente. A tintura não sai.
E agora? Decido me esfregar com uma bucha embebida em
água sanitária até ficar em carne viva para conseguir apagar
a mancha. Meus pelos continuam pretos.
As tinturas capilares indianas tingem a pele ao mesmo
tempo que o cabelo. Felizmente, para escurecer meu
cabelo, tive a idéia de trazer uma caixa da tintura francesa
que conheço bem. Os produtos indianos me coloririam o
crânio, deixando vestígios no contorno do couro cabeludo.
Em compensação, talvez possa usá-los para escurecer a
pele. Recomeçarei o teste em uma parte do corpo que fique
escondida pelas roupas. Assim, não precisarei apagar as
placas para poder sair sem chamar atenção. Verei por
quanto tempo essas tinturas resistem. Depois, no dia da
metamorfose, pincelarei o corpo bronzeado com a marca
mais resistente e, por cima, passarei uma camada de nitrato
de prata. Isso me dará a cor chocolate, perfeita.
Não percamos tempo. Agora, pinto a parte de cima das
coxas. Passo uma tintura diferente em cada uma e deixo
fazer efeito. Enxáguo e vejo dois retângulos de pele preta
no alto das coxas. Só falta observar quantos dias vão durar.

Vi nas revistas outros dois ou três tipos de tintura para
cabelo. Marrons e pretas. Vou comprá-las e amanhã
experimentarei nas coxas. Quero saber qual a que mais dura
e dá à pele a cor mais escura e, ao mesmo tempo, natural.
Mas ainda há coisas que me preocupam. Primeiro, esses
produtos são destinados ao cabelo, e a cor obtida talvez
seja permanente. Para voltar a ser branco, não poderei me
lavar inteiro com água sanitária. Seria perigoso,
principalmente para o rosto. Devo usar um descolorante
apropriado. Será que existe? Também não sei se esses
produtos são nocivos para a pele. Se passo no corpo todo,
fecharão meus poros? O que acontecerá? Além do mais,
podem provocar uma alergia, eczema, câncer? Quantas
perguntas sem respostas. Não posso me aconselhar com um
dermatologista local, explicar-lhe meu projeto; ele poderia
contar à polícia que quero usurpar a identidade de um
indiano. Só tenho Gloire ao meu lado e ela é tão leiga
quanto eu em medicina.
Estou só. As duas partes que pintei começam a coçar. A da
marca Helena Curtis mais que a Godrej, que não leva água
oxigenada. Estou inquieto, mas fazer o quê?
Ontem, consegui as roupas e os acessórios necessários à
minha metamorfose. Limitei-me às coisas que um mendigo
médio possui. Para que minha experiência tenha valor,
devo viver como ele, nas mesmas condições. Sem pensar
em meu conforto, escolhi para cada artigo o modelo mais
barato e mais comum.
Dormirei na rua. Comprei um pano de algodão cru sobre o
qual me deitar e uma manta de lã áspera. Desde o começo
do mês, as noites têm sido frescas e os que dormem ao ar
livre recorrem a cobertas e até mesmo a um pequeno
travesseiro de trapos. Também comprei um prato de
alumínio para pedir esmolas e um saco de cânhamo grosso
e marrom para guardar minhas coisas, como fazem os
outros mendigos.
Como vestimenta, usarei sandálias de dedo, um lungi
xadrez azul e marrom, uma camisa de material sintético
com listras marrons, uma camiseta branca e um fular
vermelho. A roupa comum do hindu pobre.
Os lungi em xadrez miúdo geralmente são usados pelos
muçulmanos. Aqueles com estampa xadrez maior, de uma
só cor ou não, são preferidos pelos hindus. Existem
também várias maneiras de enrolar esse pano, de dois
metros de comprimento, em torno da bacia. Elas indicam a
casta, a profissão, a classe social. Decidi usá-lo como os
leiteiros, isto é, cruzando as duas extremidades superiores
na frente, sem formar pregas. Depois, giro-as sobre os
quadris e as prendo na orla do pano. É simples, fica bem
preso, pode-se agachar-se para ordenhar uma vaca ou
correr sem prender as pernas no pano. As pessoas que se
mexem muito, os trabalhadores manuais, os pobres etc.,
freqüentemente adotam essa maneira de usar o lungi.
Outros métodos franzem o tecido antes de fixá-lo. É mais
sofisticado e atrapalha o movimento das pernas, como uma
saia apertada.
Meu fular também é xadrez. Em estampa pequena.
Mas isso pouco importa. O que conta é possuir um fular,
em geral de estamenha barata, como o meu, que mede
1,50m de comprimento. Para se proteger do sol, da poeira,
do frio, os pobres cobrem a cabeça, dia e noite, com esse
lenço, como se temessem constantemente ficar doentes.
Não usam uma técnica particular. Simplesmente os
colocam sobre a cabeça e deixam as pontas caírem sobre os
ombros. Às vezes, envolvem o pescoço com uma das
pontas e a deixam cair nas costas. Outras vezes o enrolam
no alto da cabeça como um cordame. Também o usam para
enxugar o suor.
O xadrez e as listras da camisa não têm nenhum
significado. Comprei a minha no mercado de coisas usadas
de Nai Sarak. É perfeita. Bem ao gosto indiano. É
semelhante às que vejo aos milhares pelas ruas: em tecido
sintético desagradável e escorregadio ao ser tocado, cor de
coco de ganso, listrada, corte reto, sem forma. Como um
brinde, está manchada de marrom na frente. Isso não me
incomoda. Pelo contrário, continua muito limpa para
pertencer a um mendigo.
As roupas dos indianos, assim como seu país, são sujas de
terra, de lama, gordurosas, viscosas, gastas, rasgadas. E não
me refiro às dos mendigos, que ainda são mais sujas, mais
gastas, mais esburacadas. Em todo caso, meu traje de
pobre, novinho, não condirá com o cenário local.
Desde ontem, sujo o lungi, a camisa, a camiseta e o fular.
Não é fácil obter uma sujeira uniforme, natural. Evito fazer
manchas grandes que tornem as roupas parecidas com uma
palheta de pintor. Começo mexendo nas cores e fibras,
imergindo-as em água sanitária por várias horas. Depois,
esfrego o chão sujo de terra da varanda e a escada cheia de
excremento de ratos. Continuam parecendo muito limpas.
Deixo-as secar ao sol para fixar a sujeira que já foi retida
pelas fibras, depois as molho e torno a esfregar o chão. E
assim sucessivamente. Repito essa operação três vezes. Na
última vez, derramo um pouco de óleo no chão antes de
esfregá-lo. Perfeito, as fibras retêm melhor a gordura.
O resultado me satisfaz. Minhas roupas se parecem com as
vestidas pelos varredores intocáveis. Estão amareladas e
com manchas marrons, como as de sebo e de molhos ao
curry. Meu traje está pronto, só falta sujar a camiseta, o
pano de dormir e a manta.
Esqueci de falar do bigode, sinal de virilidade na Índia.
Como a imensa maioria dos indianos, devo usar bigode, e
há uma semana o deixo crescer. É o único elemento dessa
metamorfose que não me preocupa. Ele cresce bem, sei que
conseguirei.
Por quê? Várias vezes deixei-o crescer para realizar
reportagens. Para me tornar chinês, para bancar um
muçulmano na França e no Marrocos durante o ramadã de
1991. Também para parecer mais velho e fingir ser um
milionário francês em Cantão, em setembro de 1991.

17 de outubro

Lakshmi, a mulher de Raja Ram, o "Boa Lábia", deu à luz
no dia 5 de outubro. Hoje, ela vai apresentar o bebê à
família e aos amigos. É um acontecimento.
Segundo a religião hindu, o parto, assim como a
menstruação, suja a mulher e a torna temporariamente
impura. No caso do parto, a impureza dura 12 dias. Durante
esse período, ela é intocável para sua própria comunidade e
fica isolada. Não tem o direito de cozinhar, nem de tocar no
alimento do outro, deve dormir sozinha. Esse costume não
é especial da família de Raja Ram, mas é seguido por todos
os hindus, por todas as castas, exceto alguns intelectuais
ocidentalizados. Os hindus estão profundamente
convencidos da fundamentação dessa intocabilidade.
Assim, Sanjay, o jovem professor que estudou na
universidade, me explicou:

- Uma mulher que menstrua ou acaba de dar à luz está suja.
A prova é que se ela toca em uma vasilha com legumes
mergulhados em salmoura, ela mofará embaixo.
Hoje, Lakshmi deixou de ser impura. Pela primeira vez
desde o parto, ela sai de casa. Ela mostra seu bebê -
amamenta e não o larga. Raja Ram oferece um grande
banquete para a família, amigos e vizinhos. Fui convidado.
Estou contente por Raja Ram ter pensado em mim. Verei
como é uma festa de intocáveis.
Chego por volta das 17 horas na casa de Raja Ram.
Lakshmi está sentada na soleira e apresenta o bebê aos
aproximadamente 30 convidados já acocorados no pátio.
Cada um lhe dá um pequeno presente - uma roupa ou umas
10 rupias. Sou um estrangeiro e acho que devo oferecer um
pouco mais. Ponho na mão do bebê uma nota de 50 rupias
e outra de uma rupia. Na Índia, as cifras não-redondas
trazem felicidade. Lakshmi e Raja Ram sorriem para mim.
Está na hora de revelar o sexo do bebê. Devem estar
lembrados de que Raja Ram queria um menino, e que a
parteira lhe garantiu que o teria.
Pois bem, ela se enganou.
Nasceu uma menina. Chama-se Madhu, que significa
"mel".
Raja Ram me conta que convidou 250 pessoas para comer
e que isso lhe custará 2.600 rupias, ou seja, dois meses de
trabalho. Não lhe lembro que me havia confidenciado, há
três semanas, que não celebraria se o bebê fosse menina.
Seria indelicado.
Ele comprou um porco e um leitão para o banquete. Seu
cunhado matou o porco no começo da tarde, e agora, diante
dos convidados, Raja Ram vai sacrificar o leitão. Trata-se
de uma oferenda ritual. Ele o tira de um saco de juta e o
coloca no chão de terra. Rasga com os dentes um saquinho
de álcool branco sintético e molha o focinho do bacorinho,
que berra desesperado e se debate com suas patinhas de
bebê. É horrível. O cunhado imobiliza a cabeça do animal,
Raja Ram pega um facão e, com um gesto rápido e potente,
corta-a. A cabeça se separa do corpo, que treme, e um filete
de sangue escorre, formando uma poça vermelha. Não
acabou.
Já vi na China degolarem porcos, mas hoje assisto a uma
das cenas mais marcantes da minha existência; outra foi
quando surpreendi um velho chinês enrabando um cachorro
em uma favela de Hong Kong. Raja Ram endireita a cabeça
do leitão, invoca a floresta dos deuses hindus, salpica de
álcool o pescoço sanguinolento e grita:
- Fale! Fale!
Torna a salpicar de álcool a ferida aberta e a cabeça do
leitão abre a boca como se falasse. Mas não emite som. O
espetáculo é impressionante. Raja Ram está radiante e me
diz:
- Ele faloul Foi Deus que o fez falar!
Na verdade é o efeito do álcool sobre os nervos
seccionados que fez a boca do leitão se abrir. Neste bairro
de varredores, eu me sinto em plena Antiguidade, na época
em que os homens imploravam a Deus com sacrifícios de
seres vivos. Para Raja Ram, esse oráculo divino significa
que Deus protegerá sua filha. Para mim, ele sempre será o
homem que sabe fazer os cadáveres falarem. E isso não é
nada.

Os intocáveis, assim como os franceses, não desperdiçam
nada do porco. Cada pedaço tem um preparo apropriado. A
carne, os músculos, a cabeça e o toucinho são cozidos ao
curry; o fígado, o coração e o estômago são fritos, o
intestino grosso é grelhado e o sangue é cozido com o
intestino delgado cortado em rodelas. Também há o porco
cru. As crianças adoram. O cunhado corta a carne fresca em
cubos e de vez em quando dá um pedaço às crianças que
giram à sua volta. E hop! Mais uma criança que come
toucinho cru. O grande dado esbranquiçado incha suas
bochechas como se ela tivesse a boca cheia de alteia.
Mastiga durante um minuto. Um minuto é muito e, pelo
sorriso encantado do garoto, parece delicioso. Raja Ram
me estende um cubo de toucinho cru, como oferecemos
amêndoas em um batizado na França. Recuso, não quero
pegar solitária. Ele diz:
- Está enganado, Sir. O leitão cru é bom para a saúde. Tem
muitas vitaminas e é delicioso.
Os varredores sentados perto de nós concordam. Sempre
achei que só os imbecis recusam experimentar o que não
conhecem. Essa noite sou um deles. Devia provar toucinho
cru, não vai me matar. Na China, comi macaco, cachorro,
gato, serpente, tartaruga, bicho-da-seda, escaravelhos etc.
Mas porco cru me dá frio na espinha e recuso. Para alguém
que se diz aventureiro, sou um fracasso.
São 20 horas e a refeição ainda não está pronta. O cunhado,
a irmã de Raja Ram e outros dois adultos preparam a
comida. Já há uns 50 convidados. Começam a ficar
impacientes. Cada família trouxe um saco de álcool
sintético e o bebemos. Homens e mulheres. Uma dose de
álcool é vertida, a intervalos regulares, na boca dos
cozinheiros, que estão com as mãos sujas. Eles a abrem
bem para o amigo que pressiona o saquinho. Essa técnica
evita o contato dos lábios com o saquinho que é dividido
entre muitas pessoas. Beber no gargalo seria porcaria. Para
um hindu, mesmo intocável, é importante preservar a
pureza.
Esta noite não bebi. Não me atrai, com toda essa carne
fresca e sangue na minha frente. Além disso, não gosto
desse álcool sintético. Digo a Raja Ram que estou com dor
de barriga e que não beberei.

A comida fica pronta por volta das 22 horas. Somos cerca
de 100 convidados - e não 250, como dito por Raja Ram -
acocorados no chão, diante de seu casebre e dos casebres
dos vizinhos. Aos nossos pés um prato de folhas secas, no
qual o cunhado serve uma colher de curry de porco e arroz
branco.
Quando terminei o cuny, o cunhado se dirige a mim com
uma concha cheia. Não tenho mais fome. Mas Raja Ram
insiste. Está bem! Está bem! Aceito alguns pedaços de
porco. Como não quero que me sirva com as unhas pretas
de sujeira, eu mesmo cato dois cubos de carne ao curry. O
cunhado, satisfeito, despeja o resto da concha na panela.
De repente, um convidado se levanta e grita:
- Pare! O que está fazendo? Recolocou a concha que o
inglês tocou na panela! Está maluco?
O cunhado pega imediatamente alguns pedaços de porco na
superfície da panela e os joga em um balde que estava ao
lado. - Eu os peguei. Não tem mais problema.
Cometi um erro grave.
Na Índia, come-se sem talher, com os dedos da mão direita.
A mão esquerda serve para lavar o ânus. É o costume e eu
obedeço. Como minha mão direita estava cheia de molho e
arroz, mexi, sem querer, na concha com a mão esquerda. O
cunhado, atordoado, poluiu toda a panela ao despejar nela
o que restava na concha em que eu havia metido meus
dedos impuros. O curry não pôde mais ser comido.
Outros convidados discutem. Grita-se muito e o sacerdote
Vijay Kumar, que estava sentado atrás, se aproxima.
Explicam-lhe a situação e ele, por sua vez, começa a acusar
o cunhado, usando uma linguagem que não é apropriada a
um religioso. O cunhado, humilhado, mostra o fundo do
balde em que jogou a parte do curry que supostamente
sujei.
Raja Ram, constrangido, diz:
- Não sejam ridículos! Não tem problema! Acalmem-se! -
depois, murmura à parte: - Beberam demais, não
conseguem se controlar.
Sinto medo e fico mudo. Chego a pensar se os convidados
não vão jogar a panela de curry em Raja Ram. O banquete
estaria terminado. Por minha culpa. Arrependo-me do que
fiz. Ao mesmo tempo, ouvindo essa discussão, fico amargo.
De fato, não se trata da mão esquerda ou da direita. Vi os
que cozinhavam manipulando a comida com as duas mãos,
e os indianos se servem da mão esquerda para ajudar a
comer.
Sou estrangeiro, o que chamam de inglês. Este é o
verdadeiro problema. Sou inferior a eles, sou sujo e não
podem consumir o que toco. Mal acredito; esses varredores
intocáveis, cobertos de piolhos, me consideram um
intocável. Eles me dão nojo, a cólera cresce em mim. Quero
insultá-los, gritar que são uns coitados e canalhas por
infligirem aos outros o tratamento discriminatório que se
queixam de sofrer. Como podem me desprezar dessa
maneira? Acham-se tão puros? É a primeira vez que
experimento a intocabilidade, e isso se dá na minha pele de
francês que se acha mais limpo que esses miseráveis
varredores, os intocáveis mais inferiores. Eles são
repelentes, analfabetos e moram em favelas cheias de
cagalhões.
Sei que a impureza não se restringe a uma noção de
higiene, mas também se refere à limpeza religiosa. Não sou
hindu, por isso vivo conforme costumes impuros. Um
sentimento de vergonha me domina. Que humilhação ser
acusado em público de homem sujo! Se isso acontecesse
depois de minha metamorfose em intocável, sem dúvida
aceitaria melhor. Estaria preparado para ser uma vítima do
sistema de castas, eu já esperaria por isso e me consolaria
pensando em minha verdadeira identidade de francês. Mas
esta noite é impossível. Minha intocabilidade é autêntica.
Queria ir embora e nunca mais ver essa gente que me
considera um homem inferior. Mas permaneço ali, por
amizade a Raja Ram. Ele tenta acalmar os espíritos.
Algumas palavras ríspidas ainda são trocadas, depois o
sacerdote torna a se sentar e a refeição é retomada.
Os convidados discutem o tempo todo. Durante a
preparação dos pratos e durante a refeição. Por quê?
Porque a comida não ficou pronta logo, porque um homem
se recusa a ceder seu lugar em um sofá rasgado a uma
mulher doente, porque o garoto de um vizinho furta um
cubo de toucinho cru etc. Todos berram, de lado a lado,
sem moderação. Essas discussões são normais no bairro
dos varredores. Sempre que visito Raja Ram, ouço um
vizinho ou outro discutindo. Esta noite foi sem parar e ele
tem de bancar o juiz o tempo todo. Cansado, me diz:
- Bebem muito. Isso vira a cabeça deles.
Não são escusáveis? Esquecem sua intocabilidade, o papel
sujo no banquete, o consumo bárbaro de vinho e carne.
Esse é o privilégio dos homens impuros! Possuir o direito
de mergulhar nos prazeres terrenos.
Há outra análise da intocabilidade. Há dois ou três mil
anos, os costumes hedonistas, primitivos, de determinadas
castas marginalizaram seus membros, forçando-os a
exercerem ofícios impuros para sobreviver. É a questão do
ovo e da galinha. Quem existiu primeiro? Pouco importa. A
intocabilidade permanece sendo uma injustiça escandalosa,
igual ao racismo. É indelével, fundamentada na into-
lerância, e suas vítimas não são responsáveis pelos vícios
que lhes são atribuídos.

24 de outubro

Está decidido. Daqui a três dias vou me metamorfosear.
O bronzeamento com o metoxipsoraleno me deu uma bela
cor moreno-clara. Estou menos escuro do que esperava,
mas acho que será o suficiente para passar por indiano.
Existem indianos mais claros que eu, até brancos como
leite. Representam uma minoria e, entre os intocáveis, eles
são raríssimos. A questão é que tenho medo de chamar a
atenção como intocável claro. Um provérbio hindi diz:
"Nunca suba em um barco com um brâmane preto e um
sapateiro branco." Significa que se deve desconfiar das
pessoas que fogem da norma.
Quero me confundir com a massa, tornar-me um intocável
qualquer, por isso vou escurecer mais a pele com uma
tintura para cabelo e, depois, nitrato de prata. Pelo menos
as partes visíveis de meu corpo. Isto é, o rosto, o pescoço,
os braços, as pernas e os pés. A roupa esconderá o tronco.
Ficando bicolor, não poderei me despir em público, mas
acho que na pele de um mendigo, neste começo de inverno,
não precisarei disso. Evidentemente, existe o risco de ser
despido à força por uma razão qualquer. Um risco mínimo,
acho. Eu o aceito. Não quero me pintar por inteiro,
principalmente os órgãos genitais. É, sem dúvida, nocivo e
seria um trabalho cansativo.
Experimentei cinco tinturas diferentes. Três pretas e duas
marrons. A Bigen A deu à minha pele um tom sépia, denso
e natural, e depois de sete dias ainda subsiste em minha
coxa. A Godrej e a True-Tone, da Helena Curtis, também
resistem bem, mas a primeira é muito azulada e a segunda,
à base de água oxigenada, provoca uma comichão. A Bigen
A não causou nenhuma irritação e decido usá-la para me
escurecer na segunda e na terça-feira. Isto é, em cima da
hora, para aproveitar a duração máxima da tintura. Ela se
apaga aos poucos, a partir do quinto dia. Quando estiver
bem tênue, talvez no fim de 10 dias, voltarei a casa e
tornarei a passar uma camada. De qualquer maneira, o
nitrato de prata só resistirá o tempo que minha epiderme
leva para se renovar, ou seja, duas a três semanas. Será
preciso repassá-lo regularmente.

Escolhi meu nome indiano. Eu me chamarei Ram Munda.
Munda é o patronímico mais simples dos membros da tribo
Munda, e Ram é um prenome muito comum, que passa
despercebido e indica claramente que sou hindu. Rama é
um deus cuja existência mitológica simboliza a vitória da
luz sobre as trevas. Encarna a coragem, a honestidade, a
justiça, e os hindus o consideram a personificação do
homem ideal. Não pretendo ser como Rama, mas tenho
vontade de usar seu nome.
Direi que esse Ram Munda é originário de Jharkhand, da
aldeia de Bandgav, que significa "Aldeia Fechada". É um
vilarejo onde parei ao deixar Chakradharpur. Situado ao
longo de uma grande estrada, é um lugar desconhecido e
pouco povoado, mas, apesar disso, figura nos mapas
geográficos, o que lhe confere uma realidade que pode ser
confirmada. Também elimina o risco de encontrar em
Benares alguém que tenha vivido lá, o que poderia
acontecer se eu escolhesse uma comunidade maior, como
Chakradharpur. A paisagem de Bandgav é fácil de
descrever. Uma floresta impenetrável, com árvores
gigantescas e cipós, cerca a aldeia. A uns 10 quilômetros,
há uma cachoeira fantástica de cerca de 100 metros. Assim,
tenho do que me orgulhar em minha região natal. O vilarejo
se estende por vários quilômetros quadrados. As casas de
tijolos, cobertas de telhas redondas, são agrupadas em
quatro ou cinco, com pátios e caminhos próprios, sem
detritos. Entre esses agrupamentos há campos de arroz e
prados onde pastam vacas, cabras e carneiros. Além disso,
há dois templos hindus: o primeiro na entrada do lugarejo,
dedicado a Shiva, e o segundo perto da delegacia, dedicado
a Durga, esposa de Shiva. Essa deusa, ao mesmo tempo
cruel e generosa, criadora e destruidora do mundo, é
considerada a mãe divina. Ela também protege os
aborígines que vivem da caça, e seu culto exige sacrifícios
sangrentos. A existência desses dois templos me permitirá
engendrar histórias plausíveis, como Ram Munda e os seus
fazem as oferendas rituais. A propósito de minha idade, não
serei preciso, assim como muitos indianos pobres que
ignoram a data de nascimento. Tenho 32 anos, mas direi
"20 a 25", pois os indianos parecem mais velhos que os
ocidentais.
Para minha metamorfose ser bem-sucedida, estudei o
comportamento dos indianos. Observei que não
pronunciam três expressões: "Desculpe", "Obrigado" e "Por
favor". Elas existem em hindi, mas nunca as ouvi da boca
de indianos de nenhuma casta. Em inglês, eles as usam
automaticamente, sem compreender o sentido verdadeiro.
Se digo "Krpaya" ("Por favor"), pareço um marciano e
devo repetir uma ou duas vezes, antes que o outro entenda
o que acabo de dizer. Abandonar essas cortesias que
decoram a linguagem ocidental não é fácil. Ao passar por
chinês, só consegui deixar de dizê-las depois de várias
semanas. Hoje, em Benares, recriei na mente o estado de
espírito rústico no qual vivia como chinês, e isso me ajuda
a renunciar às cortesias ocidentais mecânicas. Aliás, acho
que é mais importante na Índia do que na China, pois os
indianos ignoram mais a cortesia. O chinês não é muito
polido, mas percebe a própria falta de civilidade. Ele cora
se lhe aviso que deveria ter dito "Desculpe" antes de me
abordar ou me interrogar na rua. Ao contrário, o indiano
não se melindra como o chinês, ele não compreende por
que deveria se desculpar. Ele não se pergunta se está me
incomodando, isso não tem a menor importância para ele.
O hinduísmo, ao contrário do cristianismo, do islamismo
ou do comunismo, insiste nos deveres do indivíduo em
relação a si mesmo; torna os homens egoístas. Além disso,
na Índia, 48% da população são analfabetos, isto é, muito
rudes. O indiano não é pouco cortês, ele é descortês. Ao me
tornar Ram Munda, uma fórmula de cortesia pareceria falsa
em minha boca e trairia minhas origens ocidentais.
Devo comer com a mão direita e não me esquecer de só
usar a esquerda quando for ao banheiro. Aliás, estou
treinando baixar a cueca vestindo um lungi. Esta saia
comprida pende sobre os tornozelos e não é fácil me
acocorar para urinar ou defecar sem levantá-la. Baixar a
cueca até os joelhos e deixar o traseiro e as coxas expostos
é uma técnica ocidental. A propósito, quero assinalar outro
comportamento sino-indiano. Os dois povos se acocoram a
todo instante em público e da mesma maneira: com a planta
dos pés no chão e não com os dedos, como fazem os
europeus. Tente, não é muito fácil, mas, quando nos
habituamos, conseguimos ficar nessa posição por uma hora,
sem nos cansarmos. Eu a aprendi ao passar por chinês e
será útil agora.
Os indianos andam como patos, com os pés abertos, e para
dizer "sim" balançam a cabeça da esquerda para a direita, e
não de cima para baixo, como na França. Adotei esses dois
hábitos locais e pratiquei assoar o nariz entre os dedos.
Aperto, alternadamente, cada narina, com o polegar e o
indicador, e projeto o muco no chão, graças a uma violenta
expiração nasal. Funciona, só que sempre fica um pouco de
muco grudado nas narinas. Como meus futuros
compatriotas, eu o tiro com as pontas dos dedos, depois
sacudo no vazio ou o esfrego na parede, para me livrar
dessa substância viscosa. Está feito. Assoei e não carrego
no bolso um lenço pegajoso. Os indianos têm razão, usar o
nariz como uma arma automática é mais limpo. Para si
mesmo.
Reparei mais três pontos em comum entre os chineses e os
indianos. Eles simplificam minha aprendizagem do código
de conduta indiana: os camponeses dos dois povos arrotam,
escarram e limpam o nariz em público, sem o menor
constrangimento. Na pele de Ram Munda, agirei assim;
isso me dará mais um toque de cor local. Também
precisarei coçar os testículos publicamente, o que é espe-
cífico da Índia. Os indianos de todas as castas coçam o saco
e o ajeitam na calça o tempo todo. Na rua, em uma loja, e
até mesmo na frente das mulheres. Claro que há o calor, e a
transpiração gruda os órgãos genitais, mas essa falta de
constrangimento para se pôr à vontade em público também
revela o desejo e o prazer de afirmar, nessa sociedade
falocêntrica, que se é macho e que se tem o órgão.
Em seu livro Nós, os indianos, Khushwant Singh, escritor
contemporâneo, analisa por que seus compatriotas coçam
os órgãos genitais, escarram, urinam, defecam e jogam o
lixo na rua. Segundo ele, os maus modos dos indianos
provêm do egoísmo exacerbado de seus compatriotas, da
falta de sentido cívico e de consideração pelo outro.

25 de outubro

Esta noite é Divali, a festa das luzes. Celebra o retorno do
deus Rama à Índia, depois da vitória no Ceilão (Sri Lanka)
sobre o demônio Ravana. É uma das festas hindus mais
importantes, uma espécie de Ano-novo. As pessoas se
preparam lavando suas casas e usando roupa nova. Os
comerciantes abrem novos livros contábeis. Depois do
crepúsculo, milhares de lampiões são acesos de Caxemira
ao cabo Comorim, nas janelas e telhados das casas hindus,
para indicar a Rama o caminho de seu reino. É noite de
festa. Durante 24 horas, as crianças e os adultos soltam
bombas e fogos de artifício.
São 22 horas. Os fogos estalam, detonam sem parar. Um
inferno sonoro. De minha varanda, observo os indianos na
Ravindrapuri. Acendem o pavio das bombas, lançam-nas e
bang! Riem e recomeçam. Rang! Um clarão intenso, depois
uma nuvem de fumaça branca se eleva na noite. Os hindus
estão felizes. Daqui a 48 horas, serei um deles. Viverei
como eles, compartilharei de seus prazeres, terei a pele
escura. Isso me aterroriza. Tenho medo de não me reconhe-
cer mais, de perder meu rosto, minha aparência física, e
também minha personalidade, meus gostos. O que me
tornarei depois de amanhã? Quais serão os desejos desse
novo homem? Ele será mais belo ou mais feio? Na Índia,
depois de milênios, a brancura da pele é a primeira regra de
beleza. Escurecendo a pele, ficarei mais feio, me
depreciarei. Posso aceitar isso?
Em 1985, em Kashgar, quando me disfarcei pela primeira
vez como chinês, apenas deixei crescer o bigode e vesti
roupas chinesas.
Não era mais Marc Boulet, mas podia me reconhecer no
espelho. Desta vez, meu corpo preto será o de um
desconhecido total? Mergulharei na sociedade sob esse
aspecto, o de um estrangeiro para mim mesmo. Como vou
reagir?
Tenho medo. Vou me parecer com um desses homens
escuros e sujos que sentem prazer em lançar bombas e
acendem lampiões para assinalar, a um pretenso deus
Rama, o caminho de volta a seu reino. É aterrador.
Não achem que sou corajoso. Sou tímido e medroso. Mas
não se engole de novo o que se escarra, diz um provérbio
indiano. É uma questão de honra e não de coragem. Depois
de amanhã me tornarei um intocável. E que se danem as
conseqüências. Não tenho outra escolha.

Esta tarde comecei minha metamorfose. Pintei o cabelo, as
sobrancelhas e o bigode. O resultado me satisfez. Todos os
pelos ficaram negros e brilhantes. Mas isso não me
surpreende, pois há uns 12 anos eu me divertia pintando o
cabelo de louro e preto. Vivi um ano com o cabelo de cada
cor e sei como fico com as duas.

27 de outubro

Ontem passei tintura capilar nos braços, nas pernas e no
rosto. Levei a manhã e a tarde fazendo isso. Foi mais
complicado do que imaginara, pois é preciso aplicar a
tintura de modo uniforme e não deixar riscos na pele. Para
o rosto, Gloire me ajudou. Sozinho não teria conseguido
pintar as pálpebras, a nuca e as orelhas. Estou bem
bronzeado e nesta manhã vou escurecer e tornar mais
espessa minha tez com uma solução de nitrato de prata,
concentrada o dobro do que prescrevera meu amigo
dermatologista. Acabo de prepará-la com sais que trouxe da
França, pois, uma vez dissolvido na água, o produto não
resiste à luz e dura pouco.
Fecho as venezianas da sala de jantar e, na penumbra,
passo o nitrato de prata. Isso me deixa tempo para me untar
minuciosamente, antes que a reação fotoquímica seja
desencadeada. Minha mulher me ajuda no rosto e nos
dedos. É difícil não borrar as unhas. Depois me exponho ao
sol, na varanda, e, dentro de cinco minutos, vejo meus
braços e pernas começarem a escurecer. É fascinante. Esta
metamorfose se realiza na minha frente e dura cerca de
meia hora.
Trinta minutos de estupor, durante os quais meus membros
adquirem a cor chocolate.
Não sei o que dizer. Fico boquiaberto e, para preservar o
suspense, decido não me olhar no espelho antes de estar
vestido como indiano. Gloire afirma que estou preto.
Espero que esteja dizendo a verdade, pois é preciso que a
metamorfose seja perfeita.

Assim como os indianos, unto cuidadosamente o cabelo e
ponho as roupas de mendigo. Estou pronto e me dirijo ao
grande espelho que fixei na parede da sala de jantar, para
controlar minha metamorfose. Não ouso olhar, tremo.
Então, decido relaxar, encontrar Ram Munda. Olho.
Um indiano de pele cor de chocolate preto, vestido com um
lungi e uma camisa suja, com um fular cheirando a urina
em torno do pescoço e cabelo cor de ébano me encara. Não
sorri, parece triste e cansado. Não o reconheço. Como
acreditar que sou eu?
Toco em meu rosto. Sinto os dedos acariciá-lo, mas no
espelho os vejo deslizarem sobre uma pele morena. É a
minha. Quem sou eu? Esse indiano preto me encara com
olhos imóveis, engastado em um branco brilhante. Não
parece cordial e não o acho feio nem bonito. É esquisito e
não experimento nenhuma afinidade com ele. Estou
confuso. Nada resta de Marc Boulet.
Eu me pergunto se vou transpirar da mesma maneira em um
corpo indiano, se conservarei meu cheiro, se meu paladar
vai mudar, se continuarei a gostar das mesmas músicas e
dos mesmos filmes. Este indivíduo que me olha no espelho,
este Ram Munda, parece sempre ter sido indiano. É tão
sombrio, sujo, e suas orelhas estão cheias de pelos pretos. É
tão feio. A tintura revelou a penugem invisível que cobria
meu corpo. Quem era Marc Boulet? De repente, tenho a
sensação de ter perdido meu passado. Ninguém acreditará
se eu contar que fui criado em Paris, como um branco, com
uma educação europeia. A metamorfose é muito perfeita e
uma grande tristeza me invade, como se Marc Boulet
estivesse morto. Como se suas ações, sofrimentos, amores
não vivessem mais, a não ser na lembrança de sua família e
de seus amigos. Eles não me reconheceriam na pele de Ram
Munda.
Eu não existo mais. Aos 32 anos acabo de renascer como
um ser virtual. Sem dúvida precisarei de muitos dias para
organizar uma vida, uma memória, uma personalidade que
me propiciarão a percepção de uma identidade real.
Como penetrar na sociedade? Decidi arriscar uma primeira
saída esta noite. Aproveitando a escuridão, escaparei para
fora de casa sem que os vizinhos percebam. Darei uma
volta, durante algumas horas, pelo centro, pelos lugares a
que já fui várias vezes, depois voltarei para dormir em casa.
Antes de entrar totalmente na pele de um intocável
mendigo, quero verificar se minha nova aparência é digna
de crédito. Tenho medo de chamar atenção ou de ser
reconhecido por amigos ou comerciantes. Devo ir aos
lugares que freqüentei na pele de Marc Boulet.
Fiquei nervoso durante a tarde toda. Tentei dormir
esperando o crepúsculo e então arriscar tudo. Não
consegui. Tenho de me descontrair e tomo uma dose
grande de uísque indiano com gelo. Na cama, dou alguns
goles, fumando um cigarro atrás do outro. É impossível me
acalmar, volto à minha angústia. O disfarce está perfeito?
Estou irreconhecível? Como vou dormir, comer, na pele de
Ram Munda? As perguntas me dão um nó no estômago.
Não exagero. Realmente estou apavorado. A espera do
crepúsculo é penosa demais e tomo um sonífero.

Desperto por volta das 18:30. Está de noite. Não posso
voltar atrás. Sinto um gosto execrável na boca, talvez seja
do medo que me domina. Fumo um último cigarro, amarro
o lungi, visto a camiseta e a camisa de mendigo, jogo o
fular em torno do pescoço. Esta noite não preciso levar o
saco nem o material para dormir. Ponho no bolso da camisa
umas 30 rupias (meio salário diário médio) e, para o caso
de ocorrer um problema grave, oculto 1.000 rupias em um
bolso secreto que Gloire costurou em minha cueca. Em
compensação, não levo o passaporte; seria muito
comprometedor se alguém
me revistasse. Estou pronto. Não quero mais refletir sobre a
metamorfose nem recalcular os riscos. Quero sair à rua o
mais rápido possível. Mergulhar.
São 19 horas. Desço a escada e, com o rosto oculto pelo
fular, passo correndo pelo apartamento dos Agraval e
empurro o portão de nossa casa. Ninguém me viu.
Estou na Ravindrapuri. Nenhum lampadário funciona.
Perfeito. Noite e silêncio. A avenida parece deserta.
Gloire me acompanhou. Temos de nos separar, não posso
andar por aqui. Se um vizinho passar e perceber minha
mulher com um indiano preto com um lungi, é provável
que se aproxime para ver melhor. Não posso beijá-la, isso
chamaria a atenção. Com o coração apertado, aceno com a
mão e parto.
Mantenho o fular sobre o cabelo para dissimular um pouco
minha cabeça e não tomo o caminho habitual ao subir a
Ravindrapuri. Não quero correr o risco de cruzar com Raja
Ram, Sita Ram ou outros amigos. Viro à direita, em uma
rede de vielas e de casebres que margeiam um cemitério
muçulmano, e saio perto do templo Tulsi Manas, na grande
"rua da Bacia de Durga".
Não há nenhuma iluminação. Nem pública nem privada.
Mas distinguem-se as silhuetas e os rostos na obscuridade.
E se alguém me reconhecer? E daí? Não posso fazer mais
nada. Penetro no labirinto. Na entrada, diante de seus
casebres, três mulheres preparam o jantar sobre um braseiro
de barro, onde queimam esterco seco. Fede a fritura
rançosa e pimentão queimando. Passo e as mulheres nem
me notam. Mais adiante, cruzo com um grupo de homens
que discutem. Tampouco eles me olham. Sou invisível? A
partir do final de julho atravessei esse bairro várias vezes
por semana e seus habitantes sempre me encaravam.
Mesmo à noite. Quando eu passava, as cabeças se voltavam
e as conversas se interrompiam por alguns segundos. Esta
noite, nada. Isso me tranqüiliza e o nó no estômago relaxa.
Desemboco na rua da Bacia de Durga. Mergulho em muita
luz e em um tráfego incessante de jinriquixás puxados por
bicicletas, de carros, de lambretas e bicicletas. Centenas de
pedestres de um lado para outro. Deixo-me levar pela
corrente para o centro da cidade. Ergo um pouco o fular,
até a altura do queixo, para me ocultar mais. Os indianos
fazem isso para se proteger do frio. Meu coração bate 50
pulsações por minuto. No mínimo. Minhas mãos estão
úmidas.
Os outros indianos vão e vêm à minha volta, ninguém me
olha. Quando atravesso a rua, os veículos se lançam sobre
mim. Cabe a mim parar e aguardar. Anteontem, quando
passei por aqui, como ocidental, vestido de short e
camiseta, diminuíam a marcha ao me verem. Meu short -
somente os ocidentais o usam em público servia de sinal
vermelho.
Esta noite, pela primeira vez na Índia, sou anônimo.
Confundo-me com o cenário. Nada em minhas roupas e em
minha tez me diferencia do formigueiro humano que
fervilha nesta rua. Sou um homem sem rosto.
Normalmente, os condutores dos jinriquixás correm atrás
de mim, mas hoje sou eu que devo procurá-los. Quero
deixar esse setor o mais rápido possível, pois Raja Ram e
outros amigos trabalham perto. Um condutor estacionado
diante do templo de Durga se estende, como um
contorcionista, sobre seu carrinho. Recusa-se a me
conduzir ao centro da cidade.
Dez metros adiante, um outro está apoiado sobre o guidom.
Aceita me conduzir por oito rupias. A tarifa normal é de
cinco a seis rupias. Eu achava que só roubavam os
estrangeiros. É evidente que, vestido assim, pareço indiano
e pobre. Faço cara feia e ele diz:
- Seis rupias e pronto!
- Está bem.
Subo na carroça, e ele dá a partida. Tem uns 20 anos e usa
um lungi tão sujo quanto o meu. Ele pedala rápido, mas a
corrente da roda traseira solta três vezes. Ele para e a
recoloca. Isso leva dois a três minutos e me parece
demorado, pois estou à espreita de qualquer olhar que se
dirija a mim. Não reclamo, não pergunto se quer ajuda, não
mando que conserte mais rápido. Ignoro o que um indiano
diria nessa situação e prefiro ficar calado.
Na verdade, estou inquieto sem razão, pois ninguém me
olha. É tão estranho. Eu escruto os outros e eles não me
vêem.
O percurso dura 20 minutos. Atravessamos um bairro
muçulmano depois da encruzilhada de Bhelupur. Uma
procissão de umas 50 pessoas, precedida de tambores,
bloqueia a estrada por alguns instantes. Depois, ela se
precipita em uma viela iluminada sob um caramanchão de
lâmpadas fluorescentes. Será um casamento?
Hindu ou muçulmano? Sem dúvida, é tolice, mas não me
sinto à vontade nesse bairro. Os muçulmanos, em maior
número aqui, podem aproveitar a interrupção da circulação
para agredir os viajantes hindus presos na estrada. Nos
bairros pobres, um muçulmano e um hindu se distinguem
freqüentemente pelo lungi e pela barba. É inútil verificar se
o homem é circuncidado para saber se ele acredita em
Maomé ou em Shiva. Regularmente há conflitos entre
hindus e muçulmanos nessa zona de Benares. É um campo
de guerra religiosa, várias vezes por ano sob toque de
recolher. Estou vestido de hindu. Se houver tumulto, serei
considerado hindu. Cuidado com minha pele! Pela primeira
vez, tenho a sensação de pertencer à comunidade hindu, e
me acalma um pouco saber que ela conta com 700 milhões
de indivíduos.
O carrinho me deixa no centro, no cruzamento com
Godhaulia. Eu pago e, como o condutor demora a
estacionar na calçada, um policial lhe golpeia os rins com o
cassetete, xingando-o de bicha. Ele não espera o resto e
parte. Quero esquecer essa cena revoltante. Decido descer
até o Ganges.

Então, aqui está Godhaulia e a cidade antiga! Um labirinto
de vielas e becos sem saída, rachados pela rua
Dashashvamedh. Este eixo de 15 metros de largura por 500
de comprimento conduz ao ghat mais sagrado do Ganges.
Os ghats são as grandiosas escadarias de pedra que
mergulham no rio e formam suas margens. Todos os dias,
milhares de peregrinos e devotos convergem para o ghat
Dashashvamedh a fim de tomar o banho purificador.
Godhaulia! Preferia não mencionar esse lugar. Muito
comércio, centenas de hotéis a preço e conforto mínimos e
dezenas de templos atraem os turistas, e com eles a fauna
mais viscosa do Norte da Índia. O estrangeiro não pode
passear sem ser parado a cada 50 metros por um mendigo,
um traficante, um fedelho, um vendedor ambulante, um
louco, um bajulador de mulheres, um verdadeiro pintor, um
sábio hindu, um cachorro ou uma vaca... É o zoo. O zoo
urbano. Um pântano infestado de sanguessugas.
Você é abordado em inglês, francês, italiano, com um
sorriso largo, como se estivessem propondo sua amizade.
Poliglotas e simpáticos. Eles o amam e vendem tudo, a um
preço de amigo, especial para você, na loja do irmão. Não
somos todos irmãos? Oferecem: quarto de hotel, seda,
patchuli, tapetes, droga, cítaras etc. E calculam o dólar no
câmbio negro. Não está interessado? Então, têm um outro
irmão que fabrica estátuas em mármore. Quer incenso, jóias
ou schmilblick? Podem levá-lo à usina de um primo. "Não
é obrigado a comprar!"
Mais distante, próximo ao Ganges, outros homens querem
levá-lo a um passeio de barco, barbeá-lo, massageá-lo, ler
sua sina. Nas margens, os sacerdotes hindus se oferecem
até para benzê-lo. É impossível ficar sozinho nesse bairro.
Se estou exagerando, que me arranquem a língua e os
testículos. Não tenho medo.
Só falei dos homens chatos. E as mulheres nesse circo?
Aqui, como em Benares, as ruas são invadidas pelos
homens. A maior parte das mulheres fica fechada em casa.
Isso dá a impressão de uma cidade de homens.

Todos esses agiotas me importunaram todas as vezes que
Marc Boulet passou por Godhaulia. Esta noite, como Ram
Munda, como eu seria acolhido?
Na entrada da rua Dashashvamedh, reconheço o indiano de
cerca de 40 anos, cabelo ondulado e vestindo uma calça
marrom de acrílico. Ele tem uma cara que dá medo, ossuda
e pálida, com o focinho de fuinha fixado sob os olhos
cintilantes. Ele se vira em inglês e anda todos os dias pela
zona, oferecendo aos estrangeiros seus serviços de corretor
de qualquer coisa. Eu o repeli três vezes em hindi e ele se
lembra do rosto de Marc Boulet, pois chegamos a trocar
palavras que não ouso traduzir aqui. É um sanguessuga par-
ticularmente tenaz, pegajoso e suscetível. Hoje ele provoca
duas turistas ocidentais na faixa dos 20 anos. Uma loura e
outra morena. Têm rosto de boneca, seios generosos, nada
desagradáveis de se imaginar por baixo da camiseta, e
percebo seu sotaque britânico ao responderem ao
sanguessuga. Uma multidão de indianos cerca os três
protagonistas. Eu me aproximo. Reflexo de curioso. E além
disso quero saber se o sanguessuga me reconhecerá, se os
outros indianos me encararão. Ninguém me nota. Fico na
frente do sanguessuga. Nada acontece, ele não me
reconhece. Devo realmente ser como todo mundo. Um
indiano qualquer.
Eu me sinto indiano. Digo isso não apenas porque os
outros me vêem assim, mas também porque a sorte dessas
estrangeiras me diverte. Sinto-me mais próximo do
sanguessuga, eu o compreendo. Se ele alicia os turistas, se
os importuna e os rouba, não é para se divertir. É seu
ganha-pão, e esses estrangeiros são ricos. Como lamentá-
los se se deixam roubar algumas rupias?
A jovem morena grita: "É minha primeira viagem à Índia...
não voltarei mais. Deixe-nos em paz! Não me toque!... Não
precisamos de você. É surdo?..." Et cetera, et cetera. As
jovens se livram da multidão e o sanguessuga as segue.
Ajustamos o passo. Em desespero, as moças se queixam a
três policiais que tagarelam na frente de uma farmácia. O
medo do uniforme é grande, pois a multidão se dispersa
sem demora. Eu também me afasto e continuo a descida ao
Ganges. Não tenho mais medo. Eu me sinto bem.
Ninguém se acerca. É inacreditável. Antigamente, já teriam
me importunado umas 20 vezes. Sou invisível. Um
elemento de Godhaulia que os turistas fotografam para se
lembrarem, ao retornarem a seu país, de como era Benares
e seus habitantes. Não sinto mais o nó no estômago.
Ainda vou tentar a verossimilhança de meu disfarce em
uma birosca onde costumava comprar cigarros. Esta noite
comprarei um saquinho de caroços de areca perfumados.
Gosto de mascá-los. São mais amargos que a fuligem e a
bílis misturadas, mas soltam o ventre e o espírito. Mais uma
vez, não sou reconhecido. Falo com ele em dialeto e ele me
responde igual. Não me fala em hindi padrão e não tenta
discutir como das outras vezes, intrigado pelo estrangeiro
que falava sua língua.
Ele me dá a mercadoria e o troco na mão. Ele me tocou!
Estarei ainda muito limpo? Como ele adivinharia minha
identidade de intocável? Como indicá-la? O escuro de
minha pele não é o suficiente.

Desço o ghat Dashashvamedh. Os leprosos, os mendigos,
os barqueiros, os barbeiros interpelam todos os
estrangeiros. Esta noite me ignoram e percorro sozinho essa
margem do Ganges. Que impressão estranha.
Dezenas de estrados de madeira com guarda-sóis de ramos
de palmeiras trançados se alinham à margem do rio. De dia,
sacerdotes brâmanes abençoam os banhistas em troca de
algumas rupias, e os tolos repousam naqueles que os
religiosos não estão ocupando.
A esta hora da noite, a maior parte dos estrados está livre,
mas eu me sento, justamente para quebrar minha solidão,
ao lado de quatro indianos. Atrás de nós, sobre outro
estrado, um casal de jovens alemães discute o hinduísmo
com um indiano do tipo burguês, com camisa pólo, calça
limpa, um pouco folgada, e tênis de couro. Um indiano
chique, no estilo Anil Kapur, o super-herói do cinema
hindi.
Os quatro indianos sentados ao meu lado observam como
eu o vaivém de uns 50 pedestres; algumas vacas e
cachorros também percorrem o ghat. Entre nós cinco, fixos
nesses estrados de quatro metros quadrados, nenhuma
comunicação. Silêncio. Cada qual passa a noite em seu
canto, em sua cabeça.
Estipulei como regra não iniciar uma conversação e imitar
o comportamento dos indianos que encontrar. O objetivo
da metamorfose é ser um indiano comum e não me
sobressair, nem suscitar reações ou amizades. Se meus
vizinhos não são de falar é porque isso faz parte de seu
temperamento, e não sou eu que vou alegrá-los.
Pego um pouco de areca e masco, sozinho. Sinto-me muito
só. Os indianos me deixam tranqüilo e os estrangeiros já
não me olham. Na Índia, os estrangeiros trocam sorrisos ao
se cruzarem nas ruas. Como se dissessem: "Olá, irmão! É
um prazer vê-lo. Sei bem o que este lugar obriga a suportar.
Roubo, calor, mosquitos, diarréia, comida condimentada,
quartos imundos... Eu também sofro. Somos iguais, viemos
de fora, somos diferentes desses indianos miseráveis..."
Muitas vezes, uma bonita estrangeira me lança um olhar.
Eu respondo e isso nos dá prazer, eu acho.
Esta noite há muitas européias no ghat, e seu balé parece
ser uma atração apreciada, a julgar pela maneira como os
indígenas curiosos fazem piruetas à sua frente. Eu também
as olho. Em vão. Essas belas de pele leitosa nunca cruzam
meu olhar. É como se não me vissem ou evitassem meu
olhar de autóctone machista e inconveniente, ou então as
duas coisas. Sou pardo. Pardo indiano. A multidão. A
massa.
Penso em Gloire. Ela me espera em casa e se preocupa com
seu homem escuro que erra por Benares. Ela imagina mil
perigos e sente ciúme. Eu me lembro de que, toda vez que
eu trocava um olhar com outra mulher, ela dizia: "O que
estava fazendo? Vi você olhar para aquela garota. Não
gosto nada disso!" Que fique tranqüila esta noite, as
indianas estão enclausuradas e as estrangeiras não vêem
Ram Munda. Sinto falta de seus olhares. Não que deseje
sexualmente todas essas criaturas, mas porque o sorriso de
uma garota bonita sempre é agradável. Minha nova
identidade me priva desses raios de sol.
Estou só. Invisível. Para os indianos c para os estrangeiros.
Vou ver se as pessoas em outro lugar são mais
comunicativas. Sento-me em outros estrados, compro biri,
amendoim torrado. Ninguém inicia uma conversa comigo.
Não interesso a ninguém. Em certo momento, me deparo
com um amigo, o vendedor de flautas. Sinto medo. Mas ele
também me olha sem me ver. Não me sorri, não me
reconhece. Como sempre, está importunando os
estrangeiros, tentando lhes vender suas flautas de bambu. É
um sujeito tenaz, capaz de nos seguir por 500 metros. Com
a cara de gárgula achatada e as costas tortas, sua presença
exasperava Marc Boulet. No começo do mês, eu me livrei
dele definitivamente. Após 10 recusas polidas, eu disse:
- Não preciso de suas flautas. Já tenho uma entre as coxas.
Sua música me basta.
Isso lhe cortou a respiração. Depois, replicou com um olhar
de desprezo que substituiu o tom habitual de súplica:
- Eu também tenho uma entre as coxas.
Em seguida ele foi embora, e eu fiquei contente. Depois,
toda vez que cruzava com ele, ele se lembrava de que eu já
tinha uma flauta e, envergonhado, me lançava apenas um
sorriso. Não lhe respondi que minha flauta era mais grossa
ou mais jovem que a dele. Seria me gabar em hora errada.
Sem dúvida, sou vulgar e gozador, mas não sou cruel e não
gosto de humilhar os outros.

Deixo o ghat Dashashvamedh por volta das 22 horas e
caminho um pouco pela margem do Ganges. Com o flanco
estendido na margem de pedra, uma vaca agoniza. Ela não
se mexe, um filete de baba escorre de sua boca e seus
grandes olhos imóveis choram. Dois indianos lhe dão água
com a mão em concha e colocam em sua boca pedaços de
pão. Eu pergunto:
- O que há?
- Ela está doente.
Parecem aborrecidos, o animal rejeita tudo, e um deles
suspira:
- Vamos rezar por ela.
E vão embora. Passa um barqueiro. Eu o chamo:
- Veja! Esta vaca está doente. O que fazer?
- Sim, está doente - responde.
Para um instante, dá uma olhada e vai embora. O que
fazer? Não sou veterinário. Também me retiro e decido
comer alguma coisa. No começo da rua Dashashvamedh, o
hotel Kumar está aberto. Na Índia, a palavra "hotel",
pronunciada "hoteul", também designa taberna. O
"restaurante" é um estabelecimento mais sofisticado, de
classe social mais elevada. Peço a refeição comum de 10
rupias. Inclui curry de batatas e de berinjelas, arroz, pão e
purê de lentilhas - prato indispensável do indiano pobre.
Também ali ninguém presta atenção em mim.
Faço uma última tentativa de não ficar só e me sento na
rua, no balcão de uma tenda já fechada. Sobre essa tábua de
1,50m de comprimento, somos três homens e ali ficaremos,
durante 45 minutos, sem nos falarmos. Estou no meio e
tento encontrar o olhar de meus vizinhos. Nada adianta,
eles só têm olhos para o movimento da rua
Dashashvamedh. Sempre olhando sem ver. Permanecem
mudos, balançam as pernas no vazio e nada no mundo os
faria virar a cabeça na minha direção. Embora próximos
uns dos outros, 15.000 anos-luz nos separam. Finalmente,
eles se levantam, e decido voltar a pé para casa. Poderia ter
ficado nesse balcão a noite toda que ninguém falaria
comigo.
Nem, pelo menos, para me importunar.

28 de outubro

Esta noite, dormi bem.
Ao despertar, reparo que meu rosto está menos moreno. O
rosto transpira mais que os braços e as pernas e a tintura
fica menos firme. Não é grave, continuo sépia e, para sair à
noite, não há problema. Em compensação, eu me pergunto
se a cor resistirá durante uma semana, como previsto.
Ao cair da tarde, irei andar de novo em Godhaulia e depois
voltarei para casa. Seria perigoso dormir fora; se a tintura
se suavizar ainda mais em meu rosto durante a noite,
acordarei amanhã, em público, mais claro. Isso me trairia.
Esta noite, Gloire me seguirá de longe, como se não nos
conhecêssemos. Observará minha aparência em
comparação com os outros indianos. Também me
fotografará e me filmará para guardar a lembrança de minha
metamorfose. Trabalhará como uma turista que filma a rua,
a multidão, as lojas. Combinamos alguns lugares em que
estarei quando ela filmar.

Saio de casa por volta das 18 horas e procuro um carrinho
diante do templo de Durga. O primeiro recusa me conduzir
e me olha com desprezo. Chamo outro, que vai na direção
de Gpdhaulia. Diminui a marcha e me diz que custará cinco
rupias. É a primeira vez que me dizem a tarifa diretamente
sem que eu pergunte nada. Estará querendo me prevenir de
que será muito caro para mim? Será por isso que não parou
para falar comigo, convencido de que não o tomaria? Ele se
engana. Cinco rupias (20 centavos de dólar) é um preço
justo e que convém aos critérios europeus segundo os quais
raciocino. Não demonstro, desempenho meu papel de
pobre, corro atrás dele e digo:
- Cinco rupias! Paciência, aceito. Tenho de chegar logo em
Godhaulial

Ali estou eu! Nada mudou em comparação a ontem.
Ninguém me nota. Estou invisível, insignificante. Gloire
me segue. Ela filma a rua e o ghat Dashashvamedh quando
eu passo. Em uma tenda onde compro pan, Gloire fotografa
a mim, a loja e uma dezena de fregueses, para não chamar a
atenção sobre mim. O vendedor passa manteiga no pan e
põe em minha mão. Um amigo do vendedor, que reparou
que Gloire queria uma foto de um indiano mascando, me
diz em dialeto: "Vá, coloque o pan na boca!" Obedeço,
Gloire me fotografa, e nós, os indianos, nos divertimos
porque uma estrangeira tirou fotos de um de nós mascando.
Um pouco mais tarde, Gloire filma, à margem do Ganges,
seis franceses que negociam o preço de um passeio de
barco. Uns 10 indianos os observam. Eu sou um deles.
Dois rapazes, ao meu lado, falam dos franceses e, para
designá-los, utilizam a palavra bhosharivala, que, como já
comentei, significa "bicha". Eles comentam: "Esses bichas
fazem isso, dizem aquilo.....
Esta noite não me incomodo que chamem os franceses de
bichas. Não sinto nenhuma ligação, nenhuma semelhança
com eles. Essa gente, homens e mulheres, usam apenas um
short e uma camiseta. Parecem semi-despidos e têm o
desplante de saírem assim. Não têm respeito por si
mesmos?
Há apenas três dias, eu também passeava usando short.
Essa roupa me parece distante, como um erro cometido na
juventude, que remontaria a uma existência anterior, em um
mundo já desaparecido. Lembro-me de que achava os
indianos ridículos em suas saias-lungi. Além disso, suas
camisas, trapos sujos e furados, os tornavam repelentes. Eu
estava errado. O lungi que uso hoje compõe mais que um
short curtinho. Envolve o corpo e me sinto à vontade nele.
A propósito da higiene, sinto-me limpo como estou, e me
situo na média dos indianos. Não me pergunto se os trajes
dos estrangeiros com quem cruzo são menos manchados ou
menos esfarrapados. Isso é secundário. O que salta aos
olhos, como uma mosca em uma tigela de leite, é que esses
bárbaros usam roupas internas, sub-roupas, para saírem à
rua. Como crianças. Além disso, alguns têm a cara
esquisita, uma cara que fascinaria um antropólogo. Vemos
estrangeiros com olhos azuis, olhos verdes, cabelos
amarelos, cabelos vermelhos, a pele rosa leitosa, às vezes
quase vermelho-clara e salpicada de sardas. Esses são os
mais feios e merecem o apelido de
"macacos vermelhos", dado aos europeus pelos indianos,
que os relacionam aos antigos colonos ingleses, em geral
ruivos. Um detalhe divertido: o conceito europeu de olhos
puxados e pele amarela em relação aos asiáticos
mongólicos não existe na Índia, e Gloire, minha mulher,
chinesa, também é tratada por "macaco vermelho" nas ruas
de Benares.
De fato, não devemos nos ressentir dos indianos por
insultarem os estrangeiros. Vocês são muito engraçados e,
além do mais, seus hábitos alimentares e higiênicos causam
repugnância aos indianos. Ram Singh, meu professor de
hindi, me contou que jogava fora, ou separava, a louça que
servia ao receber um estrangeiro para jantar. Vocês tornam
impuro aquilo que tocam. Não justifico Ram Singh. O
racismo e o "castismo" são inadmissíveis. Mas hoje
percebo a feiura dos europeus e me desagrada pensar que
pertenço a esse grupo bárbaro. Ignoro quem sou neste
momento, mas sei que não tenho vontade de voltar a ser
Marc Boulet.

Deixo o ghat por volta das 20 horas. Torno a subir a rua
Dashashvamedh e me deparo com uma procissão de umas
100 pessoas. Em grande algazarra, dançam atrás de um
carrinho que transporta uma estátua, do tamanho de um
homem, representando a deusa negra Kali, outra
representação de Durga, esposa de Shiva e Mãe Divina. A
procissão desce na direção do Ganges para lançar a estátua
no rio sagrado e invocar Kali.
Vou ser franco. Ao ver esse frenesi religioso, não me sinto
hindu e me distancio de novo dos indianos.
Por ocasião da festa de Divali, associações religiosas
fabricam estátuas de Kali ou de Lakshmi e durante vários
dias fazem-lhes súplicas e as celebram com oferendas, em
uma orgia de música e luz. Esta noite, despedem-se delas e
as imergem no Ganges, em Dashashvamedh, o ghat central.
Li no jornal.
Entendo por que esquadrões de policiais e milicianos civis
armados de cassetetes ocupam o cruzamento de Godhaulia
com a rua Mandapur. Esse caminho atravessa um bairro
muçulmano, e a procissão da estátua de Kali da associação
Nava Sangh deve passar por ele para chegar ao
Dashashvamedh. Metade dos policiais carrega fuzis, usa
colete à prova de bala e se dispõe em grupos bem cerrados,
uns contra os outros. É impressionante. Terão medo?
As procissões religiosas são ocasiões em que os hindus e os
muçulmanos se enfrentam. Uma pedra, uma bombinha
lançada por um fanático ou um provocador na comunidade
adversária é o suficiente para gerar um tumulto violento.
Em 1991, a procissão da associação Nava Sangh
transformou-se em carnificina e 20 pessoas morreram em
confrontos hindus-muçulmanos nos dias 7 e 14 de
novembro.

Decido voltar para casa a pé, como ontem, pela rua
Mandapur. É o caminho mais curto e quero ver a atmosfera
que reina no bairro muçulmano.
Esta noite, a polícia proibiu a circulação de veículos na rua
Mandapur, e uma multidão compacta de pedestres invadiu
esse quilômetro de macadame. Milhares de pessoas
esperam a procissão. Ver uma estátua de Kali traz a bênção
da deusa.
A 300 metros, penetro no setor muçulmano. As venezianas
das lojas e das casas estão fechadas, e a entrada das vielas
que partem da Mandapur está bloqueada por um cordão de
policiais. Por trás das venezianas não se vê nem sinal de
luz. Bairro fantasma. Ontem, por volta da meia-noite, o
lugar estava muito animado. Uns 50 muçulmanos, com seus
barretes brancos, suas barbas de bode e seus lungi de
xadrez pequeno estavam sentados em bancos, à beira da
calçada. Bebiam chá ou saboreavam omeletes preparadas
por dois taberneiros ambulantes.
Esta noite, o passeio de milhares de hindus no meio da
calçada contrasta com a desolação do cenário, as calçadas
ocupadas por policiais com coletes à prova de balas e os
prédios sem vida, mergulhados na penumbra, e de onde
pode partir um disparo anônimo. Vestido como estou,
servirei de alvo fácil para um extremista muçulmano. Esta
sensação de risco fatal me torna solidário aos outros
passantes. Sinto-me novamente hindu, um elemento dessa
comunidade. Sei que, se um muçulmano me atacar, todos
os hindus da rua reagirão. Isso me entusiasma. Ser hindu
não é uma questão de fé, mas antes de tudo uma questão de
aceitação por um grupo social. No meio da rua, preto e de
lungi xadrez grande, estou em meu lugar.
Quem sou eu?
Certamente, não Marc Boulet. Disso não há dúvida. Na
Ravindrapuri, cruzo com Ranjit Kumar, meu melhor amigo
em Benares. É um intocável da casta dos sapateiros. Ele
trabalha em uma das duas oficinas de alfaiates no
cruzamento com a Ravindrapuri. Gosto de seu humor e
sempre o via, quando era francês. Esta noite, a
Ravindrapuri está deserta e ele me roça ao passar. Ele me
vê, é claro, mas não me identifica e prossegue seu caminho.
Respiro aliviado.

Gloire me espera em casa e fico contente quando ela me diz
que pareço exatamente como um indiano, indistinguível na
multidão de Godhaulia. Ela tinha de me procurar para me
reconhecer.
Olho-me no espelho. Sim, Ram Munda me encara.
Mas uma coisa não está direito. Sob a luz, vestígios de
gordura e de suor, enegrecidos pela tintura, aparecem em
meu rosto. Decido lavá-lo com sabão para tornar a tez
uniforme. E paciência se tirar toda a tinta. Ela é muito
frágil com este calor. Torna-se inútil. Esta noite, mendigos
no ghat de Dashashvamedh e um adolescente intocável, que
juntava papéis velhos e plásticos na rua, tinham a pele
clara. Em compensação, estavam muito sujos e vestiam
farrapos. De fato, estou muito limpo para encarnar um
mendigo intocável. É este o problema!
Ensabôo o rosto com uma luva. Subsiste uma tez morena,
cor de caramelo. Não tenho mais riscos pretos e vermelhos
nas bochechas, na testa e no nariz. Amanhã, estragarei mais
minhas roupas e mergulharei definitivamente em minha
nova vida.

29 de outubro

Passo a manhã sujando minhas roupas.
Besunto-as de gordura, de rímel, depois as mancho de
placas de nitrato de prata para que pareçam manchas mais
densas de sebo e molhos. Agora se parecem com panos nos
quais um mecânico teria limpado as mãos durante um mês.
Preparo o lungi e a camisa. Faço buracos em ambos com a
ponta de um cigarro aceso e desfaço a costura da camisa na
altura do ombro c dos punhos. Com a tesoura faço dois
rasgões na frente, corto e desfio a parte interna e o
colarinho. Está perfeito! Verdadeiros farrapos.
Sairei de casa por volta das 22 horas, na tranqüilidade da
noite, e tentarei a chance na estação. Deve ser um lugar
incrível para se pedir esmola, pois, juntamente com o ghat
de Dashashvamedh, abriga a concentração mais forte de
mendigos em Benares. À primeira vista, são dezenas, talvez
uma centena em cada lugar.

Será meu último dia com Gloire? Ela não diz nada, mas
insistiu em me preparar um banquete: um enorme frango
marengo (no óleo, com champignons) com pasta de basilic
(planta de folhas aromáticas, usada como condimento). Eu
adoro esse prato. Será que um dia o comerei de novo?
À tarde, tento fazer a sesta. A angústia me corta o ventre, e
um gosto ácido me vem à boca. Espero a hora da partida.
Sem retorno? Conto as horas que me restam para passar
nesta cama, deitado ao lado de minha mulher. Se tudo
correr bem, em alguns meses minha metamorfose estará
terminada e nos encontraremos em Paris. E se der errado?
Tomo um sonífero para dormir e me esquecer de tudo até a
noite.

Vinte horas e tenho muito medo. Esta prova é a mais difícil
de minha vida? E dizer que viajo há 12 anos pelo mundo...
Tento me lembrar se tive uma sensação idêntica antes de
minha primeira metamorfose em chinês, há sete anos.
Naquela manhã de outubro de 1985, no fundo de Xinjiang,
peguei a jardineira de Kashgar a Makitt, disfarçado de
chinês branco muçulmano. Faria uma enquete sobre drogas
em uma região proibida aos estrangeiros.

O medo é como a dor: difícil recordar sua intensidade
quando acaba. Lembro-me de que o trajeto de 200
quilômetros, em terra batida, era percorrido em dois dias
através do deserto. Além disso, sem falar a língua turca
local, fingia ser surdo-mudo. Arrisquei muito com a polícia
comunista chinesa, eu devia estar com o maior medo.
Eu me lembro. No primeiro dia, por volta das 16 horas, a
jardineira parou de repente em Shache, a uns 60
quilômetros de Makitt, e o chofer anunciou que
tornaríamos a partir no dia seguinte, ao amanhecer. Que
azar. Esperava chegar logo em Makitt. Cada parada
multiplicava os riscos de eu ser desmascarado. Estava
preso. Sem abrir a boca, comprei o bilhete para uma cama
no dormitório da estação e, como não queria ficar na
companhia de outros viajantes, fui dar uma volta até a hora
do crepúsculo. Descobri atrás da estação uma plantação de
maconha. Às claras. Isso me aliviou: não tinha vindo por
nada. Certamente teria matéria para uma reportagem.
Depois, jantei no único restaurante do lugar. Uma taberna
de terra batida, mantida por chineses hans, colonos de
olhos puxados. Um menu sujo, pendurado na parede,
relacionava os pratos servidos. Com a boca fechada, fiz o
pedido apontando as palavras "arroz branco" e "carne",
incapaz de compreender os outros ideogramas rabiscados
com uma grafia descuidada. Que idiota! Passado o arre-
batamento, eu me lembrei de que os hans comem
principalmente carne de porco, e esse restaurante
certamente a servia. Sim, toucinho com pedaços de carne
magra. E eu que bancava o muçulmano! O que fazer?
Recusar o prato dizendo, com gestos, que perdi a fome ou
passar por um muçulmano que come carne de porco?
Resolvi comer, isso atrairia menos atenção e, além do mais,
estava com muita fome. Jantei rapidamente, o nariz na
tigela de arroz, e retomei ao dormitório. O sol se punha.
Logo me meti na cama e ocultei os pés sob um edredom
que fedia como se todo o cantão o tivesse utilizado antes de
mim. Mas, afinal, que importância tinha isso? Minha
cabeça ficou a mil. Era impossível dormir tão cedo; meus
companheiros de quarto me chamavam para conversar, para
perguntar as horas, para matar o tempo etc. Eu, o surdo--
mudo, não podia demonstrar que os escutava me chamar,
muito menos mandá-los me deixar em paz. Uma hora
depois, meus vizinhos deixaram de me importunar e pude
sossegar.
Meu avô materno dizia que "a vida é um prato de merda e
que a comemos todos os dias". Não era uma pessoa alegre,
e acho que não devia ter falado assim com um garoto
travesso como eu, pois isso me afastava dele. Quinze anos
depois, na estrada de Makitt, recordei sua filosofia. Nessa
manhã, a comida foi abundante. No mapa, o percurso
Shache - Makitt era de 60 quilômetros, mas já viajávamos
há cinco horas e nem sinal de Makiu. Estava na jardineira
certa? Para onde estava indo? A estrada produzia
solavancos e serpenteava, de oásis em oásis, entre campos
de algodão e de milho. O sol nos assava como em um forno
seco, e a jardineira prosseguia, aos solavancos, levantando
nuvens de areia que nos faziam tossir. Os outros
passageiros, depois de 30 horas de viagem, me olhavam
com dureza. De fato, esta era a impressão que me davam
seus olhares cansados, e uma angústia incontrolável me
petrificou. E se um deles descobrisse minha impostura? Eu
me imaginava pronto para o gulag chinês. Para onde esse
carro me conduzia?
Finalmente, quase ao meio-dia, entramos em Makitt. Uma
espécie de acampamento com casas baixas, alinhadas em
um quadrilátero de ruas. Makitt, cidade de cor castanho-
clara, fosca, sem rosto, sem alma. A cidade estava deserta.
Talvez por causa do sol no zênite que a bombardeava, os
homens se trancavam em casa. Nos cruzamentos, alto-
falantes instalados em postes transmitiam os programas da
Rádio do Povo. Lavagem cerebral. A propaganda ressoava
nas ruas vazias e intensificava a sensação de perseguição da
população. Ela me impelia a sair da cidade. Clandestino,
sem possibilidade de alugar um quarto, sem nenhum
contato local e tendo como objetivo primordial passar
despercebido, não ser detido por policiais, passei minha
primeira tarde em Makitt passeando pelos campos.
Quando a tarde caiu, eu continuava na mesma. Onde
dormir? O frio mordaz das noites do deserto dispersava
sem transição a canícula. Decidi voltar à cidade. Então
aconteceu um milagre. Os problemas sempre se resolvem -
aprendi isso em minhas viagens - e tive a sorte incrível de
encontrar Mehmet, um camponês turco que me hospedou
durante 15 dias e me mostrou a produção do haxixe...
A história continua em meu livro Na pele de um chinês.
Minha única dúvida é se a metamorfose em indiano é mais
perigosa.
Vinte e duas horas. Vesti as roupas sujas de mendigo. Em
meu saco, o material para dormir, o prato para pedir
esmola, um espelho pequeno, uma lâmina de barbear, lápis
e papel para anotar as informações essenciais. Estou pronto
e sairei quando a Ravindrapuri estiver deserta. Espio pela
varanda. O doutor Agraval, meu vizinho, passeia com seu
cão diante da casa. O animal urina e pula. Isso dura 10
minutos. Demora.
Sinto um nó no estômago; esta noite, não consegui engolir
nada sólido. Queria partir com o estômago cheio, ficar
tranqüilo até amanhã à noite, pois não sabia como acharia o
que comer mendigando na estação. Azar o meu! Só bebi
meio litro de chocolate frio.
Gostaria de estar lá fora, agindo. Esta espera me tortura.
Agraval entra em casa com seu cachorro, e dois transeuntes
discutem em frente ao nosso pórtico. Espero mais cinco
minutos, depois beijo minha mulher pela última vez, desço
a escada e me dirijo à Ravindrapuri escura e vazia.
A estação se localiza a cinco quilômetros, mas não se trata
mais de pegar um dos raros carrinhos que passam a esta
hora. Tenho de viver como um mendigo. Ando: o esporte
dos pobres. Passo por Bhelupur, o popular Kerala Coffee
House baixa a porta de ferro, e as duas lojas inglesas de
bebidas já estão fechadas. Apenas algumas tendas que
servem de cabines telefônicas permanecem abertas. As ruas
estão desertas. Só encontro matilhas de cães sarnentos que
latem quando eu passo. Eu os incomodo. À noite, Benares
lhes pertence. Nas encruzilhadas, vacas magras cavam o
lixo com o focinho. Ruminam papéis velhos e sacos
plásticos rasgados. Por ali, nenhuma iluminação pública e a
rua está mergulhada em uma obscuridade total. Avanço às
apalpadelas. Um suor frio me causa calafrios; se piso em
um cachorro, ele saltará sobre mim, se um homem me
atacar com uma faca, não o enxergarei e não poderei me
esquivar antes de ele enfiar a lâmina em meu ventre... É um
absurdo: quem vai querer atacar um maltrapilho como eu?
A fisionomia de Benares muda a cada quilômetro. Depois
do velho bairro de Bhelupur com suas casas baixas,
rachadas, depois do território muçulmano, atravesso Sigra.
A rua deixa de ser sinuosa. Ela se alarga e se torna uma
estrada de quatro vias. Passo por um posto de gasolina,
uma igreja cristã e grandes lojas de motos, em forma de
hangares cúbicos. Uma cidade moderna. Caminho ao longo
do mercado de legumes por atacado de Chandua Shatti.
Ninguém. Mas os talos, os restos de legumes atraem
dezenas de vacas. A horda sagrada limpa essa esplanada e,
defronte desse monte de lixo vegetal, o amplo templo da
Mãe Índia se delineia na penumbra. Hare Krishna! Krishna,
deus dos leiteiros, é nossa salvação. Estou farto. A poeira
cola sob as tiras das sandálias de dedo. Ela me esfola a pele
dos pés e eu manco. Só chegarei à estação por volta da
meia-noite.

A vida humana reaparece. De início algumas bodegas nas
ruas ao redor que servem chá ou omeletes, depois as luzes
da estação e uma turba de pobres deitados lado a lado,
sobre o asfalto do átrio de vários hectares.
A estação ferroviária de Benares é o centro do mundo. Não
se trata de uma figura de retórica. Pelo menos para os
hindus. Essa construção comprida, de cor creme,
flanqueada por duas torres cônicas, que lembram o domo
do famoso templo dourado atrás de Godhaulia, é o posto
alfandegário para o paraíso de todos os peregrinos que
desembarcam de trem em Benares.
No centro do átrio, umas 50 pessoas escutam três músicos
que tocam odes a Krishna. Estão sentados no chão, sob um
toldo estendido sobre estacas de bambu, ao lado de um
pequeno santuário dedicado a Hanuman, o rei dos macacos.
Escuto um pouco os cânticos e então decido procurar um
local tranqüilo onde dormir. Ninguém presta atenção em
mim e vagueio incógnito.
Sob o vestíbulo da estação, logo à frente, estão deitados
cerca de 200 seres humanos. A iluminação forte sobre eles
deve perturbar o sono. Na verdade essas pessoas com
valises e trouxas parecem ser viajantes aguardando seus
trens. Muitos estão mais bem-vestidos que eu, e me dou
conta de que meu lugar não é entre eles. Não são
verdadeiros desabrigados, muito menos mendigos.
Saio da estação e me dirijo à hoste de miseráveis que
acampam permanentemente no lado direito do átrio. Todas
as vezes que vim à estação, eu os via com suas tigelas de
alumínio amassadas, sua comida, papelões e madeira, todo
um bricabraque empilhado no asfalto. As placas de sujeira
que cobrem seus rostos, mãos e pés me causam
repugnância e evito esse setor do átrio, como se eles sofres-
sem de uma doença contagiosa.
Esta noite distingo dois grupos nesta hoste. O primeiro,
composto de cerca de 50 indivíduos juntos em uma
extensão da calçada, com seus colchões de penas, caixas e
até mesmo alguns toldos que servem de tenda. O segundo,
de 100 ou 200 pessoas, ocupa sem nenhuma proteção o
vasto estacionamento que começa ao pé da calçada.
Escolho me alojar neste último: há mais espaço. Sobre a
calçada, os corpos se enroscam uns nos outros e é um lugar
elevado, delimitado, exclusivo. Tenho medo de ser
empurrado se tentar me acomodar aí.
Passa da meia-noite. Dois lampadários de sódio iluminam
tenuamente o estacionamento. Ao me aproximar, descubro
que esse segundo grupo não está dormindo. É constituído
de famílias de quatro ou cinco membros. Eles se agitam em
torno de montes de folhas de mahua. Estas folhas verdes,
brilhantes e mais largas que uma mão, são utilizadas como
pratos descartáveis ou para embalar pan ou outros canapés.
Cada monte mede um metro cúbico e deve conter milhares
de folhas. As famílias as selecionam, as juntam em maços
de 15 centímetros de espessura e amarram com uma palha.
Um trabalho maluco em plena noite, na penumbra.
O trabalho revela sem ambigüidades a origem dessa gente.
São colhedores de folhas de mahua, isto é, são musahar,
uma casta muito desprezada de intocáveis de linhagem
aborígine. O nome significa "caçador de ratos", e fico
surpreso de encontrá-los em um átrio de estação. Os
musahar vivem na selva e se alimentam de tudo que
encontram. Um artigo publicado na revista India Today, de
outubro, explicava como essa comunidade miserável, por
causa da fome no Estado de Bihar, tenta fazer os ratos
saírem dos buracos com fumaça, para capturá-los e
consumi-los assados. Em Benares, os musahar têm a
reputação de comer rãs e moluscos, o que os torna
repugnantes c intocáveis para os outros hindus, porém
simpáticos para mim, que gosto muito desses animais.
Atrás do campus da Universidade Hindu de Benares, a
aldeia de Chittupur abriga um quarteirão musahar de cerca
de 20 choupanas de um metro de altura e cobertas de palha.
Eu a visitei em agosto, mas, ao perceber a miséria extrema
de tais habitações, não ousei me aproximar.
Esta noite não senti nem medo nem vergonha de penetrar
em território musahar. Sinto-me próximo deles, e, se me
perguntarem o que vim fazer neste estacionamento,
responderei: "Sou Ram Munda. Um aborígine. Um irmão.
Gostaria de dormir perto de vocês, porque os costumes de
minha casta são semelhantes aos seus." Em seguida,
contarei que faço uma peregrinação em Benares - o que é
anódino - e que vivo de esmola.
Preocupação inútil! Eu me introduzo no grupo dos musahar
e ninguém me nota. Continuo invisível.
Cada família conta com, no mínimo, dois adultos e duas
crianças seminuas, que, desde a idade de três ou quatro
anos, já começam a selecionar as folhas. Os homens se
vestem como eu: um lungi e uma camisa suja e esfarrapada.
As mulheres usam sáris também esfarrapados e
pardacentos. Elas fumam como os homens, o que sempre
choca na índia e indica serem intocáveis ou pertencerem à
elite ocidentalizada. Atrás do monte de folhas, as chamas
da fogueira se extinguem, e ao lado se espalham as panelas
vazias de alumínio enegrecidas de fuligem. O jantar
terminou, e ignoro se comeram ratos ou rãs. De fato, pouco
me importa. Não estou com disposição de gracejar. Quero
descansar e fazer amigos.
No meio do estacionamento, percebo um espaço livre e tiro
meu oleado, minha manta e meu mini-travesseiro. O asfalto
está coberto de cascalhos. Há também restos de comida, um
pouco de farinha e cinzas. Azar o meu! Não posso ter
frescuras e limpar um lugar para mim. Isso chamaria
atenção. Paro de pensar e me deito. O oleado embaixo, a
manta por cima e o travesseiro sob a cabeça. Ninguém me
olhou, ninguém me perguntou nada.
Estou deitado de costas e é desconfortável.. Na rua, os
indianos dormem assim ou com os joelhos dobrados.
Raramente de bruços. Eu gosto de dormir de bruços, mas
não é prudente: ficamos sem defesa contra um agressor
eventual e, aos 32 anos, tenho de aprender a dormir de
costas. Esta posição faz parte de minha nova existência.
Não estou à vontade e os cascalhos me arranham as costas.
No entanto, os musahar suportam bem e não são faquires.
Eu também devo me habituar aos cascalhos. O que
realmente me inquieta são as doenças, os parasitas, as
pulgas, a sarna, as aranhas, os escorpiões... Certamente há
muito disso tudo por aqui. Mas de novo o azar é meu!
Aos meus pés, à minha direita, e na minha cabeça, três
famílias estão selecionando três montes de folhas. À minha
esquerda, um casal ronca, abraçado, sob um edredom
rasgado que deixa à mostra a crina cinza de algodão cru. Eu
os invejo, queria pegar no sono.
Observo as famílias aos meus pés e à direita. Cada uma tem
cerca de 10 membros. As mulheres e as meninas
selecionam as folhas, os homens observam e conversam.
Não em voz baixa. Como os varredores, discutem alto e o
tumulto de seu falatório se mistura à música dos devotos de
Krishna e às buzinas dos carros e caminhões que penetram
no átrio a partir da estrada Délhi - Calcutá. Hare Krishna!
Bi-bi! Vrum! Vrum! É impossível fechar os olhos. Nunca
tinha pensado em como o barulho pode ser enervante.
Mergulho o olhar na noite. Ela está magnífica. Milhares de
estrelas cintilam no céu. Parece lugar-comum, mas todos
esses pontos luminosos que testemunham a imensidão do
universo me confortam o coração. Preciso disso.
O relógio da estação marca uma e meia; as famílias se
deitaram, a música de Krishna e o trânsito na estrada
finalmente cessaram. Não é uma trégua, pois a conversa de
alguns musahar, que continuam acordados, torna-se, no
silêncio, mais estridente. Gritam, discutem por causa de 10
rupias (40 centavos de dólar). Nenhuma preocupação com
a massa que procura dormir. São apenas três: um sujeito de
uns 30 anos, claro, com um lungi azul desbotado e uma
camisa creme abotoada de modo errado, um rapaz pequeno
e escuro de uns 20 anos, medindo 1,50 m, e um barbudo
imenso vestindo uma camisa e uma calça branca. Circulam
entre os que dormem. O baixinho e o barbudo andam atrás
do de cara pálida, que agora acorda os homens das famílias,
um por um. Fala com uma voz arrastada:
"Há um sujeito entre vocês que tomou meus remédios.
Bando de imbecis! Acordem! Estou com sede. Que sede!
(Sacode um dos que dormem.) Ei, você, fique em pé! Tem
algo para beber?... Você vai me dar dinheiro para comprar
um saquinho (de álcool) e depois o beberemos juntos.
Ouviu?... (Nenhuma resposta. Ele acorda outro sujeito.)
Você eu não conheço. Vou logo avisando, o chefe aqui sou
eu. De todo esse pedaço. Entendeu? Você tem de me obe-
decer. Vai me dar um maço de folhas e, então, eu o
protegerei. (O sujeito se endireita, sem dúvida para não
criar caso, pega um maço sob o toldo e o entrega.) Bem, se
tiver algum problema, me chame. Certo?.. Ei, você não tem
nada para beber? (O cara diz não e o "chefe" recomeça a
brigar com o estacionamento inteiro.) É incrível, ninguém
tem uma bebida. Imbecis!"
À esquerda, meus vizinhos se mexem sob o edredom, e um
homem suspira: "Mais um caso de álcool!" O chefe e seus
dois acólitos se aproximam de meu setor e continuam
acordando os homens. Sinto medo e escondo o rosto sob a
manta. Fiz bem, pois me esquecem e se afastam. De
repente, ouço um grunhido abafado perto de minha cabeça.
Afasto a manta e me deparo com um leitão rosa que funga
em meu ombro esquerdo. Ao sentir a manta se mexer, solta
um grito e foge. Um porco me cheirava! Só interesso a um
porco!

30 de outubro

O grande relógio da estação marcava três horas quando o
olhei pela última vez. Depois, consegui adormecer.
Meu sono foi breve.
Às três e meia, o frio me despertou. Na entrada do
estacionamento, o chefe e seus dois esbirros continuavam
pedindo bebida; às quatro horas, o chefe berrou de repente,
passando entre os que dormiam: "Quatro horas! Levantem!
Levantem!"
Está escuro. Mas três quartos dos musahar se levantam e,
na estrada Délhi- Calcutá, ouço os caminhões zunirem e
buzinarem novamente. Permaneço deitado, é melhor para
vigiar o movimento no estacionamento, e, além disso, não
tenho vontade de passear pela cidade às quatro da manhã.
Não estou habituado. Os musahar recomeçam a organizar
as folhas. Os que acabaram embrulham os maços - uns 50
por família - em um pedaço de pano. Depois, chamam um
carrinho - sempre há alguns no átrio da estação. Eles jogam
a enorme trouxa de vários metros cúbicos no assento e três
ou quatro pessoas trepam por cima. O carrinho, carregado
como um burro, parte. Vamos, acelere a bicicleta! Só falta
o chicote. Vá, pedale! Na direção de Nai Sarak, os
mercados situados antes de Godhaulia, a três quilômetros.
Pela conversa dos musahar fico sabendo que é ali que
vendem suas folhas.
O frio cortante que anuncia o alvorecer me gela as costelas.
Meus vizinhos foram recolher madeira, papelão e plásticos
e acendem o fogo com o que acham. Suas famílias se
juntam ao redor e aquecem as mãos. Os adultos fumam hiri
ou mascam uma pitada de tabaco. Começa um novo dia e
parecem achar tudo delicioso. Eles me dão vontade de
fumar, mas não tenho hiri.
Comerciantes de chá percorrem o estacionamento com suas
chaleiras fumegantes e suas xícaras descartáveis. Alguns
musahar compram chá. Eu congelo. Preciso que o sol nasça
logo. Isso se dará um pouco antes das seis horas. Ainda
uma hora e meia para suportar a noite fria e depois vou
embora. O plástico que arde na fogueira empesta a
atmosfera, mas isso não parece incomodar. Exceto a mim.
Só aproveito o cheiro e não o calor. Gostaria de me juntar a
uma dessas fogueiras, de me aquecer. Mas como me apre-
sentar a uma família? Então, olho de longe. Miserável.
Quem? Eu!
Droga! "Realmente estou com vontade de fumar e de beber
um pouco de chá! Isso aqueceria meu corpo e ocuparia meu
espírito durante cinco minutos. Mas não trouxe hiri e seria
razoável começar meu primeiro dia de mendigo intocável
comprando chá? Um mendigo de verdade pode se dar a este
luxo? Quero guardar as 1.000 rupias (40 dólares) que
escondi na cueca e as 30 rupias no bolso da camisa para o
caso de uma emergência. Tentarei viver com a esmola que
receber. No momento ainda não ganhei nada, portanto não
tenho direito a nada. Não sou masoquista, mas devo
obedecer a essa norma se quero descobrir o que sente um
mendigo indiano.

Quinze para as seis. À leste do átrio, na direção do Ganges,
um luar metálico, brilhante e rosado ilumina o céu. Em um
instante, o potente sol tropical explodirá com todo seu
calor. A maior parte dos musahar já foi embora. Com seus
maços de folhas, panelas e mantas. Algumas mulheres
ficaram e continuam a selecionar as folhas ou sovam a
massa de pão. Eu me levanto. Arrumo a manta e o oleado
no saco, oculto um pouco o rosto com o fular e me olho no
pequeno espelho que trouxe para me barbear e verificar
minha cor. Está um pouco apagada, mas, com a poeira que
aderiu à pele quando eu dormia no chão, o rosto adquiriu o
tom pardo do átrio. Nunca tive uma aparência tão triste,
esta expressão lúgubre, ociosa e fatigada, característica dos
indianos em geral. Não podia estar mais parecido com eles
e não gosto deste rosto.
Ao lado do estacionamento, há mictórios públicos. São
simples, três paredes finas sem teto e completamente
abertos para a calçada. Estou com muita vontade, vou até
lá. O lugar é imundo. O chão está coberto de coco e esta
matéria também entope a fossa. Dez centímetros de altura
de urina amarelo-dourada estagnada. Além do mais,
mictório é "casa da urina" em hindi. O que não significa
"casa do coco", e os musahar que deixaram sua grande
contribuição aqui devem estar pouco se importando. É
repugnante. Urino como todo mundo, da parte externa, e o
jato de urina no solo imundo enlameia meus pés descalços.
Isso me dá náuseas. Olho para meus pés. Enegrecidos pela
poeira e agora molhados de urina. Se os lavo, ficarei muito
limpo e a tintura pode ser um pouco apagada. Não há saída!
A não ser deixar como está.
Não defeco nesses mictórios, pois não conseguiria usar
essas privadas. Inquietação. Será que existem, fora das
calçadas, banheiros públicos menos sujos para os
desabrigados como eu? Nunca mais aliviar as necessidades
em um local decente e privado fará parte de minha nova
existência?
Passo para a estação. A mesma coisa. Uma água lodosa
inunda os mictórios e compartimentos individuais
adjacentes à sala de espera. Seria preciso usar botas para
entrar ali. Além disso, para defecar tem-se de pagar uma
rupia ao encarregado. Tudo isso me corta a vontade e eu
deixo pra lá.
Nos dois vestíbulos da entrada, onde se vendem os tíquetes,
os que dormiam na véspera se retiraram. Passo pela
plataforma.
A iluminação difusa do sol rasante envolve as quatro
plataformas da estação. Duas passarelas metálicas fazem a
ligação entre elas. Passo de uma para outra. Não há trem e
não vejo nenhum mendigo nem nas plataformas nem nas
passarelas. Será muito cedo? Antes, quando eu vinha à
estação durante o dia, sempre via garotos, velhos
esfarrapados, um ou dois leprosos e um perneta
mendigando. Suplicam aos viajantes repetindo: "Babu!
Babu!" Babu quer dizer, literalmente, "senhor".
Alguns viajantes percorrem as plataformas diante das
malas, das trouxas. Os vendedores ambulantes de cigarros,
maçãs e jornais os interpelam. A temperatura está amena e
um odor agradável de húmus se mistura à fumaça das
locomotivas a vapor que esquentam na garagem. A
atmosfera da estação cheira bem. Partida, uma nova
existência em que todas as esperanças são permitidas.
Deliro! No dia 16 de julho, dois dias antes de eu deixar
Paris, conversei com Jean-Claude Guillebaud, meu editor.
Ele me perguntou se estava com medo de partir e eu
respondi:
"Sim, mas uma nova vida me aguarda. Não somente para
escrever um livro. Vou recomeçar do zero, como indiano
intocável. E a sorte talvez me sorria sob essa nova
identidade. Quem sabe não me torno ministro, como
Jagjivan Ram?" Disse isso brincando, mas também sonhava
e me convencia de que nada é impossível.
Não acredito mais nas virtudes transformadoras desta
viagem. Na pele de Marc Boulet ou de Ram Munda,
continuo sendo um homem comum, sem talento, sem idéias
para obter êxito na sociedade humana. Isso não tem nada a
ver com a minha nacionalidade. E, além do mais, os
intocáveis que encontrei até agora permanecem mais
indigentes que a média da população, apesar da abolição
constitucional da intocabilidade, há quase meio século.
Nesse 19 de agosto, o Parlamento elegeu Kocheril Raman
Narayanan, um intocável, membro de uma casta meridional
de colhedores de cocos, para o posto de vice-presidente da
Índia. Finalmente! A Índia nunca teve um presidente, um
vice-presidente ou um primeiro-ministro intocável, apesar
de um em quatro indianos pertencer a esta casta. Mas a
nomeação de K. R. Narayanan não significa que o sistema
de castas esteja morto. É apenas um disfarce.
Consultem a lista de altos funcionários, de chefes dos
partidos políticos, investiguem seus nomes! O poder central
sempre pertence às altas castas. Uma aristocracia. Sei que
teria muito mais chances de brilhar na pele de um brâmane
(de um Dikshit ou de um Sharma, por exemplo) que na de
um Munda que nasceu em um átrio de estação, entre os
musahar.
Eu me sento em um banco no final da plataforma número
três e me deleito com a calma. Estou sozinho. O sol me
acaricia, retardo o momento em que começarei a mendigar
sobre uma plataforma ou uma passarela. De repente, me
lembro das 30 rupias que estufam o bolso de minha camisa
e as coloco no saco. Ninguém deve saber que tenho algum
dinheiro. Sinto medo.

Dois jovens me tiram do estado de angústia. Falam comigo.
Devem ter achado que sou um habitante da estação, pois
me perguntam onde fica o banheiro. Respondo:
- Não sei.
- Não mora aqui?
- Sim.
- E não sabe nada?
Tive vontade de responder que poderiam urinar no final da
plataforma, pois tinha visto viajantes fazerem isso agora
mesmo.
Eu me calo. Não sei se os indianos trocam este tipo de
informação entre si. Nossa conversa não é empolgante e
eles me tratam de "você", sem cerimônia. Mas é a primeira
vez, desde que me tornei um indiano, que me dirigem a
palavra. Gostaria de beijar esses meus irmãos. Eu pergunto:
"Aonde vão?" Eles respondem Sultanpur - cidade da qual
ignoro tudo. E isso não tem importância, não tentam
continuar conversando.
Um comboio de uns 10 vagões se forma na plataforma
número um. Vou para lá. Na Índia, as janelas dos trens têm
grades de ferro, os vidros em geral ficam abertos e as
plataformas são elevadas, um pouco como o metrô
parisiense, o que possibilita que os mendigos estendam a
mão para o interior de cada compartimento, de vagão em
vagão. Vou mendigar dessa maneira - ao longo do trem.
Por que esperar?
A ação se encadeia muito rápido, e é melhor assim. Se
refletisse, recuaria. O que sinto de repente? Meu coração
dispara, minha pulsação dilacera minhas têmporas. Isso não
é bom. Sinto vergonha e o medo me comprime a garganta.
Mas sou louco. Estendo a mão direita diante de uma janela
na metade do comboio. Murmuro com os olhos parados,
imóveis, a um viajante de uns 50 anos: "Babu, me dá
dinheiro!" Ouvi os mendigos esmolarem assim. Sem olhar
para mim, o homem balança a cabeça, indicando com
desprezo para eu me afastar.
Apresento-me diante da janela ao lado. E das cinco
seguintes. Nenhum sucesso. Os viajantes me ignoram, e me
movo automaticamente ou eles me fazem sinal com a mão
ou a cabeça para que eu vá esmolar em outro lugar. Um
deles acrescenta: "Afaste-se para longe!" Sei, obrigado.
Estou decepcionado, mas não surpreso com o fato de
ninguém me dar nada. Há um milhão e meio de mendigos
na Índia. Já não despertam piedade. Ainda assim, vivem de
esmolas, senão teriam mudado de profissão. Será que não
peço direito?
Não reflito muito sobre essa pergunta. Continuo a pedir
esmola, passo para outro vagão. Os viajantes que
incomodei achariam estranho se eu parasse. Resolvo
insistir diante de um homem de 45 anos, asseado, usando
camisa pólo preta e óculos finos, e que parece à vontade.
Fico parado diante de sua janela, a mão estendida, o olhar
suplicante, quase úmido, repetindo em um tom cansado:
"Babu!" Que comédia! O passageiro me encara com olhos
de peixe morto. Todos já viram um peixe morto. Ele não
sorri. A cena dura um minuto. Estou farto e continuo a
dizer em voz baixa: "Tenho fome." O que suscita a
resposta: "Vá pedir em outro lugar. Não tenho nada para
você."
Mentiroso!
O passageiro da janela do lado me diz:
- O que quer?
- Dinheiro. (Eu já lhe havia pedido.)
- O quê?
- Dinheiro.
- Para quê?
- Para comer. Estou com fome. - Coloco a mão esquerda
sobre o estômago.
O sujeito responde:
- Você é jovem. Trabalhe!
Não sei o que responder e, sem esperança, peço na janela
seguinte.
Surpresa. Nem bem estendo a mão, um sujeito grande de
uns 40 anos mexe no bolso. Estou sonhando! Está
procurando dinheiro para me dar? Sim, está. Tira uma
moeda de 20 centavos e a põe em minha mão. Levo o
dinheiro à testa em sinal de respeito, como se fosse uma
doação divina. Estou tão feliz que nem podem imaginar.
Mendigar funciona. Essa primeira moeda equivale a apenas
quatro centavos do franco francês, mas me proporciona
uma sensação de bem-aventurança comparável à plenitude
do prazer durante um orgasmo. Não estou exagerando. De
repente, descubro que posso viver na pele de Ram Munda.

Continuo a pedir esmola até o final do trem. Faltam dois
vagões. Sofro recusas, sorrisos zombeteiros, e depois um
homem, também de uns 40 anos, vestido como um cidadão
de classe média, de camisa e calça, me dá duas moedas de
10 centavos. Ganhei 40 centavos por meio trem. Isso
significa oito hiri ou meia xícara de chá. Nada mau. Vou
correndo comprar um hiri em outra plataforma. Não quero
que aqueles que me deram esmolas me vejam esbanjar suas
doações. Eu ficaria constrangido.
Não tenho sorte. Na estação, os ambulantes se recusam a
me vender hiri por unidade. Os dois de quem me aproximei
me responderam com o mesmo tom de desprezo: "Aqui, só
se vende o maço! Uma rupia e meia." Não tenho o dinheiro.
Tanto melhor. Vou esperar e atacar os trens seguintes.
Lá por volta das 8:30 já tenho o suficiente para comprar os
hiri. Percorri dois trens. O primeiro, muito comprido, ia a
Calcutá, acho, e me rendeu uma rupia em três esmolas. O
segundo, metade vazio, com vagões desconjuntados, me
rendeu 60 centavos também em três esmolas. Meu ganho
total foi de duas rupias, desde de manhã, e compro o maço
de hiri e uma caixa de fósforos. Depois, subo para a
passarela norte e me sento no chão, encostado contra o
parapeito, na sombra. Acendo um cigarro e dou uma
tragada. A fumaça da folha de eucalipto que queima é
agradável.
Tirei o prato da sacola e o pus a meus pés com duas
moedas de 10 centavos dentro. Alimentei a esperança de
que os transeuntes aí jogassem moedas. Já vi mendigos
velhos trabalharem assim nesta passarela. Eles
interpelavam cada pessoa que passava. Depois da noite em
claro entre os musahar, não tenho forças, quero respirar um
pouco. A estação continua deserta. Apenas alguns
passageiros vão e vêm seguidos de cules vestidos de grená.
Transportam as malas empilhadas, equilibradas sobre a
cabeça. Um número de circo.
Ninguém me joga moedas. Os viajantes me ignoram e,
quando baixam o olhar sobre mim, me fuzilam com olhos
frios, duros. Por quê? Não lhes estendo o prato. Respiro um
pouco e me mostro publicamente. Minha presença os
incomoda?
Descanso cerca de uma hora na passarela, depois um
varredor da estação me desaloja. Ele levanta poeira com
sua vassoura e me lança o pó em plena cara ao passar por
mim, como se eu não existisse. Em seguida, derrama dois
baldes de água no chão e torna a varrer. Dessa vez,
chegando perto de mim, diz: "Sai daí!" Ele bem que podia
ser menos rude, mas tem razão. Eu atrapalho. Obedeço sem
falar nada e desço para pedir esmolas ao longo dos trens.

A estação despertou. Uma dezena de intocáveis engraxates
- profissão exercida pela casta dos sapateiros - percorre as
plataformas, oferecendo seus serviços às raras pessoas
calçadas com sapatos de couro. Finalmente, cruzo com
outros mendigos: um velho mais bem-vestido que eu, um
cego de meia-idade com o rosto bexigoso, uma mulher de
uns 30 anos, usando um sári duro de sujeira e em farrapos.
Toda vez sinto medo. Vão me proibir de mendigar aqui?
Talvez seja seu território. Sou novato e li artigos sobre a
máfia de mendigos na Índia. A estação de Benares é
controlada por uma gangue? Não sei. Esses três mendigos
me ignoram. Eles passam por mim apenas prestando
atenção para não mendigar onde eu estou. Não dizem nada,
não sorriem, nem fazem caretas. É isso. Eles estendem a
mão ou um prato onde eu estive antes, e eu faço o mesmo
na direção de onde vieram. Penso que talvez tenha sorte ali
onde eles não tiveram e também onde tiveram. É isso que
acontece. Nas partes dos trens em que já pediram esmolas,
eu recebo mais esmolas.
A partir de agora, trabalho com meu prato e esmolo ao
longo de cinco trens, depois dou uma pausa. Um comboio
completo é composto de cerca de 15 vagões, o que mede
meio quilômetro. Mendigar é demorado e cansativo, e os
trens se sucedem, um atrás do outro, em plataformas
diferentes. Enfim, não me queixo. Ganhei quatro rupias. Ou
seja, quase uma rupia, isto é, quatro centavos de dólares,
por trem.
Nada mau.

Quase meio-dia. Sinto um pouco de fome e muita sede. Há
várias fontes em cada plataforma e paro diante de uma para
beber. É a primeira vez, na índia, que bebo água da
torneira, sem ser fervida nem desinfetada. A água da
torneira está repleta de germes, mas, na pele de um
mendigo, não posso comprar água mineral a 10 rupias o
litro, no botequim da estação. Tenho medo de pegar
amebas, hepatite ou tifo. Aqui essas doenças, e muitas
outras, são endêmicas.
O que beber?
Tenho de imitar os indianos: em sua maioria consomem
água da torneira como essa. E se sentir uma cólica violenta
- a diarréia é comum em toda a Ásia continental - fará parte
de minha nova existência.
Bebo, no mínimo, um litro com a mão. A torneira da fonte
escapa e me borrifa um pouco com a pressão. Não me
importo, a água é tão agradável. Gosto dessa ducha. Em
seguida, volto à passarela norte, para descansar. Vou fumar
um biri, e isso acalmará minha fome.
À vontade, apoiado na balaustrada, sento-me no chão, de
frente para outro mendigo. Talvez para fazer amizade. Ele é
alto, com os traços finos e a tez clara. Cerca de 30 anos,
com os cabelos pretos longos, despenteados, barba
irregular e a roupa branca manchada que serve de pareô e
uma camisa ocre esfarrapada. Parece um Jesus Cristo. Não
pede esmolas. Ele me olha. Eu o olho. Nem ódio nem
bondade nesses olhos imóveis. Gostaria de trocar um
sorriso, conhecê-lo, mas ele acaba de virar a cabeça e olha
os transeuntes que vão e vêm.
Coloquei meu prato diante de mim, bem à vista. Ninguém
joga uma moeda. Só me lançam os olhares duros de
sempre. Não estendo o prato, sem dúvida isso me ajudaria,
mas seria exaustivo, a essa hora há muita gente na
passarela. Estou no chão e milhares de pernas me roçam
como se eu não existisse. E não são de mulheres jovens de
minissaia. Só faltam passar por cima de mim. Eu sufoco e
fumo um hiri. Isso manterá ocupada minha cabeça, que está
vazia como um coco rançoso. Acendo o cigarro, riscando o
fósforo para fora e não em minha direção, como fazia na
França, e dou uma longa tragada. Talvez isso surpreenda,
mas me permitiu respirar. Jesus Cristo, ao me ver fumar,
tira um hiri do bolso. É importante, pois isso significa: os
verdadeiros desabrigados indianos compram o próprio hiri.
Além do mais, Jesus Cristo também possui uma caixa de
fósforos. Estou dentro da norma.
Vou mijar na "casa da urina" no final da plataforma número
um e depois volto ao meu lugar na passarela. Jesus Cristo
foi embora.
Espero Gloire. Combinamos nos encontrar na passarela por
volta das 13, 14 horas. Ela me vigiará de longe, sem se
aproximar, como anteontem em Godhaulia. Preocupada, ela
quer se certificar de que está tudo correndo bem e
aproveitará para me filmar na estação. Depois, farei mais
um ou dois trens, o que deve me render cinco ou seis
rupias, o suficiente para o almoço. A idéia de uma refeição
me anima.

Gloire chega por volta das 13 horas. Passa na minha frente
sem me ver. Não posso chamá-la nem falar com ela. Isso
atrairia a atenção para mim. Ela continua a andar e se
reclina no final da passarela, como que para ver quando
chego. Mas, querida, estou aqui! A 30 metros de você,
sentado no chão, apoiado no parapeito direito. Sozinho e
em evidência. Mais 10 minutos e ela torna a passar por
mim sem me reconhecer. Isso me exaspera. Sou um
mendigo indiano, em uma estação indiana, e minha mulher
não me distingue. O que me tornei? Sou tão anônimo, tão
insignificante a ponto de seu olhar varar o espaço e não se
deter sobre mim? Quando ela me verá? Eu me odeio. Não
por causa da cor da pele ou da sujeira, mas por causa da
solidão em que me mergulha a identidade de mendigo.
Tenho vontade de chorar.
"Gloire, volte! Olhe para mim! Mostre que eu existo! Pelo
menos para você!" Quinze minutos depois, ela percorre
novamente a passarela. Dessa vez, ela olha fixamente cada
indiano. Pronto, ela me identificou. Sei que sim. Ela não
me faz nenhum sinal, mas tira a câmera e filma em minha
direção.

Peço esmolas ao longo dos trens, ganho uma rupia e
setenta, depois bebo um pouco de água na plataforma
número seis e saio para almoçar.
Do lado oposto ao Ganges, no prédio principal do centro
distribuidor de tíquetes e no átrio dos musahar, a estação dá
para o antigo acampamento das tropas britânicas. Um
bairro calmo e verde, com suas mansões coloniais isoladas
no meio de parques imensos, seus hotéis de luxo e suas
igrejas cristãs. Próximo ao final da última via férrea, se
alinham tabernas. São miseráveis: um forno de barro,
algumas mesas e bancos de tábuas de madeira instalados
sob um toldo rasgado. Mas o pão e os condimentos que
cozinham a fogo brando exalam um odor agradável.
Eu me sento sozinho em uma das cinco mesas da segunda
taberna. Três bacias enormes de alumínio e cheias de
ensopado de legumes, de purê de lentilhas e de arroz
branco estão dispostas em uma das mesas na entrada do
estabelecimento, ao lado do forno de barro. Um cara sem
camisa e suando, com um pano engordurado servindo para
ocultar as partes íntimas, assa pão sobre uma chapa. A
comida parece fresca e isso me atrai.
Nas outras mesas, três sujeitos comem vorazmente. Um
verdadeiro prazer para a boca e os dedos. Eles os molham
em um pires de curry vegetariano e amassam
demoradamente o molho e os legumes com um pedaço de
pão. Então, abaixam a cabeça. E zupt! Engolem o pão
escorrendo molho amarelo, chupam os dedos e recomeçam.
Parece delicioso.
A superfície de minha mesa está coberta de pó, e o chão
úmido, repleto de detritos e grãos de arroz. Um jovem
dinâmico, de camisa e calça brancas, se aproxima para
anotar meu pedido. Como fazê-lo? Habituado às refeições
indianas ricas, preparadas para os ocidentais, aos pratos
com nomes elegantes, não sei como os indianos pobres
escolhem nas tabernas que só oferecem um ou dois guisa-
dos. Imagino que não tenham um menu e não posso
perguntar o que servem. É limitado e, sem dúvida, evidente
para um indiano. Minha pergunta pareceria esquisita. No
Norte da Índia, legumes e carne são um luxo, e o menu
cotidiano é composto de purê de lentilhas, acompanhado de
arroz ou pão. Sei que, para indicar uma refeição correta,
apenas dizem: "Hoje comi legumes e arroz." Ou então:
"Legumes e pão." Não detalham o nome dos legumes,
como se isso não importasse. Nem o tipo de curry.
Digo ao garçom: "Traga legumes e pão."
Ele concorda com um movimento da cabeça. Serve duas
fatias grandes de pão quente e, em um pires, duas batatas e
três favas boiando no molho amarelo e picante do curry
padrão. Cheira bem. E é delicioso. Como com os dedos da
mão direita, cortando o pão em pedaços que utilizo como
colheres para pegar o ensopado. Desde que cheguei na
Índia, em julho, eu me exercitei e me alimento, sem
dificuldade, com a mão direita. Eu me delicio e peço mais
pão. Ele é servido com mais curry. Muito fluido. O pão
serve de esponja para absorvê-lo.
Tenho de aproveitar bem, pois talvez não possa pagar um
jantar à noite. Antes, em Godhaulia, nas tabernas para
turistas, eu sempre pedia dois ou três pratos consistentes
com apenas um pouco de pão e recusava o molho
suplementar. Hoje é o contrário: muito pão e pouco molho.
Insisto: eu me delicio. O que é uma boa refeição? É aquela
que satisfaz o estômago e a cabeça. Esta é uma. Descubro
que, quando temos fome e não sabemos quando poderemos
voltar a sentar a uma mesa, o alimento mais simples pode
fazer um homem feliz, mergulhar o ser em uma doce
beatitude. E para conseguir esse almoço eu mendiguei, fui
humilhado, desprezado. Não estou dizendo que o mereci.
Afinal, isso não tem muita importância. Para mim, essa
refeição é exatamente como uma garota bonita que se leva
um mês paquerando, até que se consegue estar com ela. Eu
tinha muita vontade disso. E estou satisfeito.
Lavo os dedos atrás da taberna, com um copo de água, e
pago. Três pães são três rupias, o ensopado é gratuito. O
inverso dos restaurantes franceses, onde o pão é o
acompanhamento e não o prato principal. Retorno à estação
e esmolo até a hora do crepúsculo. Eu me permito um gole
de água e uma pausa para o biri, na plataforma número um.

Dezessete e trinta, a tarde cai. Desde a manhã, ganhei 10
rupias e 60 centavos. Nada mau. Um trabalhador braçal ou
um condutor de carrinhos a bicicleta ganha cerca de 30
rupias por dia. Ainda me restam seis rupias mais ou menos
e tenho como jantar, mas posso resistir à fome. Prefiro
economizar como precaução - o dia seguinte talvez não seja
tão generoso - e compro duas bananas por uma rupia. Isso
me sustentará até o meio-dia de amanhã. Em seguida, vou
dar uma volta pelo átrio. Os musahar retornaram, mas não
são os mesmos da noite passada. Exausto por causa da
noite em claro e o dia mendigando, resolvo me sentar para
observá-los e depois dormir. Retomo o lugar da véspera, no
centro do estacionamento. Ainda é cedo e talvez hoje faça
amigos.
As famílias ao redor organizam montes de folhas, e panelas
fumegam sobre um braseiro de lenha. Meninas catam
lentilhas ou sovam a massa de pão. Um pouco recuados, à
minha direita, um homem e uma mulher que amamenta um
bebê comem arroz branco salpicado de rodelas vermelhas,
certamente cenouras. O arroz é feito papa. Enrolam com a
mão direita, fazem uma bola do tamanho de um ovo de
galinha e a colocam na boca. Mastigam lentamente com um
largo sorriso, enquanto fazem outra bola.
Acendo um biri. Na minha frente, há um casal de uns 20
anos, com um bebê de um ano e pouco que aprende a
andar. O homem, com a tez cor de ébano, me faz sinal para
que eu jogue a caixa de fósforos. Eu a levo, contente por ter
sido notado. Ele põe fogo no bico de uma câmara de ar
velha e a desliza para baixo de um monte de galhos. Fede,
mas o fogo pega. Aqueço um pouco as mãos e digo:
- Faz frio!
- Sim... De onde você é? - ele pergunta.
- Bihar. Sou aborígine. Um Munda.
- Ah? Nós também somos aborígines - disse, indiferente, e
acendeu um biri antes de me devolver os fósforos.
- Neste estacionamento todos são musahar?
- Sim. Somos umas 30 famílias musahar.
- E os outros na calçada?
- Eles são muçulmanos. Não são dos nossos. Você é hindu?
Hesito antes de responder. Depois me lembro da história
que tinha forjado:
- Sim, nós, os Munda, acreditamos em Shiva, Durga e
Rama.
- Nós também.
- Seu bebê é bonito. Como se chama?
- Sushila.
Então é uma menina. O rapaz se chama Sukhu. Conto que
não sou casado, o que na Índia implica dizer que não tem
filhos, e Sukhu me confidencia que os filhos proporcionam
aos pais as grandes alegrias da vida. Pergunto há quanto
tempo está casado. Ele reflete e depois responde enrugando
os olhos, como se estivesse calculando: "Já faz muitos
dias!" (sic). Ele se vira para a mulher, que confirma: "Sim,
faz muitos dias."
Não sabem contar os meses e os anos. Incrível! O bebê tem
mais de um ano, logo são casados há pelo menos dois anos,
já que o contexto indiano proíbe relações sexuais pré-
maritais.
Mudamos de assunto. Explico que vim em peregrinação a
Benares, e Sukhu me diz que colhe as folhas na selva de
Rae Baroli, a mais de 200 quilômetros.
Como ele, os outros musahar do estacionamento fazem o
percurso de trem entre Benares e Rae Baroli a cada três
dias, ou entre Benares e outro distrito de selva. Sua mulher
e sua filha o acompanham. Peço-lhe que dê mais detalhes.
"Chegamos hoje de Rae Baroli. Cataremos as folhas nesta
noite e amanhã as venderemos em Nai Sarak. Depois
partiremos às 14 horas pelo expresso de Délhi. Em seguida
colheremos folhas e dois dias depois voltaremos a
Benares."
O expresso de Délhi leva seis horas e meia para chegar a
Rae Baroli, em vagões abarrotados e bancos duros. Sukhu
recolhe, a cada viagem, quantidade para uns 50 maços de
folhas, que vende a duas rupias e meia a unidade. Ou seja,
consegue o total de 125 rupias (aproximadamente cinco
dólares). Ele possui uma choupana em Lohta, subúrbio de
Benares onde vivem seus pais, e o jovem casal só vai para
casa de vez em quando. Se não vão, dormem ao ar livre o
ano inteiro, e vivem com uma renda de menos de 1.000
rupias por mês - a estimativa é minha, não quero forçar
Sukhu a fazer novos cálculos -, metade de um salário
mensal médio, ou 40 dólares. Percorrem, todos os meses,
milhares de quilômetros para ganhar essa ração diária. O
preço do transporte até Rae Baroli deve consumir grande
parte. Pergunto a Sukhu quanto custa a passagem.
- Não compramos passagens!
- E não há problemas com o funcionário que verifica os
bilhetes?
- Não.
- Dá certo agir assim?
- Sim, é assim que funciona!

Não insisto. Talvez na Índia não seja tão excepcional viajar
sem passagem. Conversamos mais um pouco e então volto
ao meu lugar e me deito. Sukhu não me retém para jantar
ou consolidar uma verdadeira amizade, e nunca mais o
verei. Não passou de alguém a quem emprestei os fósforos.
Estou tão sozinho, e o barulho no átrio continua infernal. A
música de Krishna, os caminhões, as discussões dos
musahar... O cansaço me faz cair no sono. Como em um
buraco.

31 de outubro
O frio, a noite, o barulho.
Quatro horas da manhã; não durmo. O chefe dos musahar
berra. Eu o escuto um pouco. Sempre o mesmo refrão.
Algo para beber! Sempre a mesma coisa. E ninguém para
calar seu bico. Certamente, isso não adiantaria muito. Não
se pode impedir os asnos de zurrar ou os corvos de grasnar.
É a natureza deles. Sinto que o dia de hoje será longo e
desinteressante. Decido descer a pé até o Ganges. Isso me
arejará as idéias.
A cidade está deserta, nada a assinalar. Ao amanhecer,
chego ao ghat da Dashashvamedh. Sento-me no alto da
escadaria e fumo meu primeiro biri, olhando o sol se erguer
à minha frente, na margem desabitada do Ganges. A
multidão ainda não ocupou o ghat. Uma rampa de ferro
acompanha a escada de pedra em direção ao rio e uns 20
mendigos ali se alinham. Lembro que sou um deles e
também me sento na rampa, em uma plataforma livre.
Sempre vi mendigos nesse lugar. Os peregrinos que
chegam para se banhar os atraem. A caridade é um dever
hindu e os devotos gostam de cumpri-lo nesse ghat
sagrado. Atenção! A piedade não os motiva. Tentam se
conformar à ordem universal em que o rico dá aos pobres;
realizam um ato generoso que aperfeiçoará seu carma e,
conseqüentemente, sua próxima reencarnação.
Um velho interrompe minhas reflexões grandiosas sobre a
metempsicose e a bondade do homem. De camisa e calça
sem estarem rasgadas, está muito bem-vestido para ser um
mendigo. De onde saiu? Pretende me impedir de esmolar
aqui porque os outros mendigos reservaram esse lugar e os
outros degraus desocupados ao longo da rampa. Eles vão
chegar... Não crio caso. Restam-me cinco rupias do que
mendiguei ontem e é o suficiente para o almoço. Eu me
levanto, calmo e livre. Quando a tempestade se anuncia, é
preciso saber ficar tranqüilo e matar o tempo. Outro dia
tentarei de novo mendigar aqui. Vou embora, para me
deleitar com o sol no alto do ghat vizinho, o do doutor
Rajendr Prasad. É largo e tem duas mães-d'água. Fumo um
segundo biri e espero até as oito, nove horas. Não penso em
nada. Há momentos na vida, como esse, em que
simplesmente nos deixamos ser, como um legume, e nada
resta.
De repente, sinto fome. Fico inquieto.
E se não conseguir mendigar na estação?
Bah! Encontrarei outra solução e o que comer. Porque é
necessário, porque quero viver. Estou confiante e, além do
mais, uma lenda conta que ninguém sofre de fome em
Benares. É o paraíso sobre a Terra. Shiva, sua divindade
tutelar, para aqui enviou sua mulher, Annapurna, a deusa
da alimentação abundante, para proteger seus habitantes.
Eu me lembro de que já ouvi falar que na rua
Dashashvamedh existe um pequeno templo de Baba
Khichari, em frente à entrada da viela que conduz ao
Templo Dourado. De manhã ali se distribuiria alimentação
gratuita aos pobres. Eu me levanto e vou ver se hoje
conseguirei comida.

Baba é um termo honorífico para os santos e anciãos. Eu já
havia visto, ao passar por Codhaulia, no interior desse
templo, por trás das grades vermelhas, uma estátua de
pedra branca. Ela representa Baba Khichari. Contaram-me
que era o deus do khichari. Sua existência me surpreende,
mas como reconhecê-lo entre todos os deuses hindus? No
subúrbio sul de Benares, o Baba Culla e o Baba Detra são
os deuses da maconha.
Vou explicar melhor. Em hindi, a palavra khichari significa
"mistura". Também designa uma papa de lentilhas e arroz.
É cozinhada com açafrão-da-Índia e sal. Pode-se
acrescentar espinafre, tomates, couve-flor, abóbora... Como
seu nome indica, consiste em uma mistura e é o prato
tradicional aos sábados em Benares. É saboroso e muito
popular, mas não é servido em restaurantes nem a
convidados, pois é muito barato. É uma refeição completa,
com seus cereais e legumes. Por isso é servida aos pobres,
como me contou o professor Sanjay. Isso evita que tenham
de preparar menus complicados. O khichari tem tudo e é
deificado por Baba Khichari.
Chego ao templo de Baba Khichari. Do lado de fora, na
beira da calçada atravancada de carrinhos e vacas, um
enorme caldeirão cheio de khichari fumega sobre um fogão
de barro. Um homenzinho musculoso, de uns 40 anos,
mexe a papa amarela com uma espátula de ferro de um
metro de comprimento. Ele faz esforço para misturar a
pasta viscosa e transpira muito. Usa uma camiseta amarela
manchada de fuligem e suor e um lungi verde arregaçado
como uma minissaia. Ele é repugnante. A comida não está
pronta. Com um movimento de cabeça desdenhoso, manda
que eu me afaste. Seu desdém me é indiferente: estou
contente, daqui a pouco ele me dará o que comer.

Eu me sento por trás, na calçada, e acendo um hiri. Não
como nada desde ontem e estou ansioso para que o khichari
seja servido. A papa amarela é extremamente apetitosa e a
idéia de que em menos de uma hora vou poder me regalar
me parece doce, muito doce. Uma dezena de homens de 20
a 30 anos, com as roupas sujas de terra, duas crianças
seminuas e algumas mulheres intocáveis, com seus sáris
sujos e a vassoura sob o braço, aguardam ao meu lado. Nós
não nos falamos, não trocamos olhares. Como se nós, os
pobres, não tivéssemos nada a expressar. É apenas uma
ilusão. É a fome, o tédio, a falta de dormir que tiram a
vontade de nos comunicarmos.
Cansados demais para confraternizar. Mas não para
discutir... Quando o cozinheiro toca o sino avisando que
está pronto, nós nos precipitamos e nos empurramos diante
do caldeirão. Antes de tudo, ele apresentou uma gamela de
papa à estátua de Baba Khichari, depois verteu o conteúdo
no caldeirão. Esse rito abençoou o khichari, alimento
divino, e nós nos empurramos para recebê-lo. No entanto,
há no mínimo uns 50 quilos, mais do que o suficiente para
todos.
Os dois ajudantes do cozinheiro, um jovem e o outro velho,
mandam que nos sentemos em fila na calçada, de costas
para a circulação de automóveis e de vacas, que é intensa
nessa encruzilhada. Nós nos acocoramos sem pensar no
perigo de sermos esmagados ou chifrados e o ajudante
jovem nos joga pratos de folhas de mahua.
Repito: ele os joga. Assim, evita nos tocar, pois nossas
roupas indicam que a maioria pertence às castas baixas.
Portanto, uma folha diante de cada conviva, que a pega,
limpa e a coloca à frente dos pés, no chão de terra.
Incrível! Meu vizinho surrupia minha folha e a coloca sob a
sua. Canalha! Tem razão, ficará mais estanque e sua
comida menos em contato com a calçada. Replico:
- A folha é minha.
- Peça outra!
- Devolve a folha!
- Não!
- É minha!
- Não!
Imaginem a cena: dois esfarrapados acocorados na poeira
de uma rua movimentada, disputando um prato de folha.
O ajudante jovem chega com um balde de lata cheio de
papa e serve cada conviva usando uma panela como
concha. Logo chega minha vez. Não quero brigar, mas
tenho de comer e grito com meu vizinho. Ele me devolve a
folha. Eu a limpo e a ponho diante de meus pés.
O ajudante despeja a porção de papa. Ao cair, faz schplaf!
Uma panela constitui uma dose individual. E hop! ao
seguinte. Outra porção na folha de meu vizinho. Schplaf!
Ao seguinte!
Está muito quente e, para comer rápido, esfriamos a porção
espalhando-a com a mão direita. Está tão quente que
queima as pontas de meus dedos. Com os outros acontece o
mesmo, e eles os sacodem como para aliviar a sensação de
picada. Estamos com muita fome: como resistir e não
começar logo a comer? Então me queimo mais ainda ao
levar um pouco da papa à boca.
Na França, uso talheres e experimento a temperatura dos
alimentos e sua textura com a língua. Na Índia, sinto o
alimento com os dedos, antes de senti-lo com a boca; e
como Ram Munda está faminto, são os dedos e não a boca
que queimam na precipitação, e isso dói. Então penso que
devo esperar que esfrie. Aguardo. Quinze segundos. Mas
vejo os outros comerem e pego um pouco de papa. Torno a
queimar os dedos. Finalmente, alguma coisa na boca. É
agradável.
Delicioso? Esse khichari não é tão bom quanto sua cor de
açafrão prometia. Está muito salgado, excessivamente
pastoso e deixa um gosto de queimado na boca. Durante o
cozimento, o cara deve ter deixado queimar o fundo do
caldeirão. Alguns pratos franceses, como o creme
caramelado, pedem esse gostinho de queimado. Mas, no
caso do khichari, isso fica ruim. Ainda assim o acho sabo-
roso. Pelo menos no começo. Eu estava com muita fome.
Minha porção deve pesar um quilo. Parece uma montanha
de arroz e lentilhas em minha folha. Paro na metade do
caminho. Se fosse pão ou purê, desceria naturalmente, mas
não uma papa de arroz e lentilhas, sem carne nem legumes.
Engulo quase meio quilo; a partir daí, não consigo mais.
Sem dúvida é uma questão de hábito, pois os outros
convivas continuam se regalando. Alguns limparam o prato
e pedem mais ao cozinheiro. Para eles, esse khichari é um
brioche.
Estranho. Meu estômago não está cheio e não tenho mais
fome. Não é como na França, onde, quando satisfazia o
apetite, me sentia pesado.
Antes, eu gostava muito de khichari. Minha mulher o
preparava com espinafre e despejava por cima algumas
colheres de manteiga derretida antes de servi-lo. Seu
khichari me enchia. O de hoje de manhã só contém um
pouco de abóbora. É insípido.
Tenho de comer toda a porção, pois ninguém se levanta
antes de acabar. Certamente seria inconveniente
desperdiçar a comida que Deus oferece aos pobres. Como
tudo, forçado. E observo meu vizinho comer vorazmente
também a porção suplementar, como se fizesse reservas
para o inverno. Pergunto:
- À noite também servirão comida aos pobres?
- Não.
- E em outro lugar?
- Não.
Compreendo. Se não termino minha parte, vou sentir muita
fome à noite. Principalmente porque a papa é logo
absorvida.
Ser pobre é assim: é preciso ter um estômago de boi.
Quando se encontra o que comer, é preciso aproveitar.
Deve-se engolir o bastante para fazer o motor girar durante,
no mínimo, 24 horas.
Repito isso para mim mesmo, o que me ajuda a acabar o
prato. Em seguida, bebo um pouco de água na fonte ao lado
e volto a Godhaulia.

Andar. Andar. Detesto andar nesta cidade. Quando a moção
não transforma as ruas em torrentes de lama, uma poeira
espessa me queima a garganta e os olhos, e o sol
inclemente dos trópicos esquenta. Não se trata do sol gentil
da Europa, que bronzeia e desperta a vontade de passear. O
daqui curte a pele e provoca transpiração excessiva.
"Queima a terra, absorve a matéria cerebral dos homens,
impede os cachorros de latir", escreveu Albert Londres em
Terre d'ébene. Isso é mais verdadeiro em Benares do que
em qualquer outro lugar por onde andei. Caminhar,
caminhar sempre, é penoso, mas um carrinho custa muito
caro.

Dirijo-me ao nordeste, ao ghat Raj, perto da grande ponte
de ferro que passa por cima do Ganges. Raja Ram me
contou que ali existe um templo imenso para os intocáveis.
Um templo dedicado a Ravidas, seu santo padroeiro. Tenho
vontade de visitá-lo, de me sentir em casa, no meio de
intocáveis. Sinto-me tão sozinho e, sinceramente, sei que
fui, sou e serei até morrer um intocável. Na pele de Ram
Munda ou de Marc Boulet.
Ravidas é um santo intocável e originário de Benares.
Nasceu há cerca de cinco séculos em uma família de
sapateiros. No subúrbio de Sir, na orla do campus da
Universidade Hindu de Benares, foi edificado um templo
no local de seu nascimento. Visitei-o em setembro. O
templo mede uns 10 metros de altura. É um edifício de
tijolos sem personalidade e uma de suas duas torres
permanece inacabada. Ao lado, cresce um descendente do
tamarindeiro que teria dado sombra à choupana da família
dos Ravidas. Esse é o monumento que celebra o
nascimento do deus de um quarto da população indiana!
Não vi nem peregrinos, nem turistas, nem lojas de
lembranças nos arredores. O local destila a miséria e o
tédio de uma aldeia indiana comum. Camponeses
esfarrapados, casebres de barro, vacas esqueléticas que
defecam no caminho e cachorros pelados que latem ao
passarmos.
Ravidas é um personagem interessante. No século 15,
combateu as superstições, as tradições e as injustiças
sociais perpetradas em nome da religião hindu. Apesar de
intocável, tornou-se o guru de milhares de homens e
mulheres, entre os quais a célebre princesa e poeta Mira
Bai. Sua mensagem igualitária, fundamentada na
fraternidade e no direito de todos os indivíduos de serem
respeitados, fez com que fosse considerado um
revolucionário por seus seguidores. Ele se opunha à
intocabilidade e declarava, a propósito do sistema de
castas:

"Não pergunte a que casta pertence alguém!
Quer seja a casta de Deus ou a de Ravidas,
não existe casta ruim!"

É a primeira vez que vou aos bairros do nordeste de
Benares; me informo sobre o caminho. Só interrogo
transeuntes tão mal-vestidos quanto eu. Não sou maluco.
Não vou me arriscar me aproximando de membros das
castas superiores. Ficaria constrangido de lhes dizer que
procuro o templo de Ravidas, o que indica que sou
intocável. Não tenho vergonha disso, mas não quero ficar
propalando minha condição para pessoas que me
desprezam. Por que correr o risco de ser tratado mal?
O caminho é simples. Basta seguir reto; fica a três
quilômetros. O templo está aos pés da grande ponte
metálica, à margem do Ganges. Surge no meio das orlas
arborizadas desse subúrbio tranqüilo; salta aos olhos, mas
mesmo assim nada li a seu respeito nos guias turísticos. Por
quê?
É gigantesco. Mede cerca de 30 metros de altura e sua
fachada de mármore branco domina as águas do rio
sagrado. O edifício, se estivesse concluído e se os andaimes
não o desfigurassem, seria magnífico.
É curiosamente ornado por diferentes tipos de torres: um
campanário Cristão, um minarete muçulmano, um
campanário sikh, uma stupa budista em cada ângulo do
telhado e, no centro, mais alta e mais larga, a torre hindu.
Ravidas pregava a igualdade de todos os homens e todas as
religiões. Foi sensato fixar no alto do templo o símbolo das
principais religiões, mas a imponência e a localização no
centro da torre hindu também significa a superioridade do
hinduísmo. Essa disposição me incomoda e me parece
deslocada. Também me faz lembrar que inúmeros grupos
de intocáveis se converteram, ao longo dos séculos, ao
islamismo, ao cristianismo ou ao budismo, para escapar do
sistema de escravidão hindu. Afirmar a supremacia do
hinduísmo quando se é intocável e expô-la no alto de seu
santo padroeiro é o mesmo que aceitar o sistema de castas e
a intocabilidade. É cavar sua própria sepultura. E pior
ainda, pedindo para ser enterrado vivo. Isso me deixa triste.
Percebo que ninguém passeia diante desse grandioso
palácio de Ravidas. Parece deserto, talvez esteja fechado.
Empurro o portão e subo os degraus que conduzem à
entrada do templo. Um jovem, pequeno e usando uma
camisa branca e calça preta bem passadas, se aproxima.
Trata-me de senhor. É a primeira vez desde minha
metamorfose que me tratam com cerimônia e respeito.
- O que o senhor deseja?
- Rezar. Está aberto?
- Entre!
Tiro as sandálias de borracha e sigo o jovem. Atravessamos
uma sala imensa. Ela está deserta e mobiliada apenas com
uma mesa no centro e quatro cadeiras. O local cheira a
canteiro de obras, a cal fresca. O santuário está instalado no
fundo, em uma espécie de gabinete branco hexagonal. Com
um gesto de mão, o jovem diz para eu entrar.
Estou constrangido. Observei muitas vezes os hindus
rezarem nos templos, juntando as mãos, se prostrarem e
fazerem oferendas diante do santuário, mas nunca fiz isso.
Tenho medo de fazer um gesto incorreto que me trairia.
Mas não posso recuar, isso pareceria muito estranho. Vim
rezar, devo fazê-lo. Sempre me meto em situações
extravagantes. Acho que gosto do que faz meu coração
bater mais forte. É bom.
Então me ajoelho, apoio a testa no umbral do santuário, em
sinal de respeito, e entro. Na penumbra, sobre uma mesa
coberta por uma toalha vermelha, um pôster representa
Ravidas idoso, meditando sob uma árvore. Usa barba e o
longo cabelo branco dos sábios. Esse pôs ter constitui a
imagem do templo. Acima, pende um colar de cravos-da-
Índia. As pétalas das flores e as bolinhas de açúcar
habituais que os devotos oferecem aos deuses hindus estão
dispersas na frente. Há uma grande desordem, e as varetas
de incenso queimando tornam ainda mais forte o mau
cheiro de lata de lixo. O que não é específico deste
santuário. É simplesmente o cheiro das oferendas que estão
mofando. À esquerda da mesa, uma maleta de metal serve
de mealheiro e espera as esmolas em dinheiro.
Ajoelho-me diante do pôs ter e rezo, as duas mãos juntas.
Rezo para que minha existência na pele de um intocável
não me faça sofrer muito. Não creio em nenhum deus e sei
que a minha prece não adianta nada. Eu a faço para ocupar
minha cabeça, mostrar convicção em minha comédia, pois
meu guia me vigia. Penso no impostor que sou. Sinto
vergonha de simular a fé dos intocáveis.
Posso agir de outra maneira? Não. E, além do mais,
trapaceio para me tornar irmão deles. E não um inimigo.
Esta idéia me tira a culpa.
Eu me aprumo. Tiro de minha reserva de dinheiro uma nota
de 10 rupias e a introduzo no mealheiro. Eu queria dar
alguma coisa.
Saio do santuário e o jovem zelador me convida a sentar a
uma mesa perdida no meio desse templo imenso. Abre o
livro de registro dos visitantes.
- Seu nome? Seu endereço?
- Meu nome é Ram Munda. - Existem dois tipos de d em
hindi, e ele comete um erro ortográfico como se ignorasse
tudo a respeito de minha casta. Eu o corrijo: - Munda se
escreve com este d... Moro em Bihar, em Bandgav.
Bandgav se escreve como "cidade fechada". Sou aborígine,
sou um filho de Deus.
- Eu também sou um filho de Deus. O senhor é bem-vindo.
- Pertenço à casta dos Munda. E o senhor?
- Sou da casta dos Ravidas. Sou um sapateiro.
Finalmente um sapateiro que diz francamente sua casta. Na
pele de Ram Munda inspiro mais confiança aos outros
intocáveis. Ele prossegue:
- O que faz em Benares?
- Vim em peregrinação... E, além disso, eu tinha ouvido
falar do guru Ravidas e queria conhecer seu templo.
Entra outro jovem. Sua roupa está manchada de gesso e
parece também trabalhar ali. Junta-se a nós sem se sentar.
- Vem de Bihar?... Lá o sistema de castas é muito forte. Os
jornais publicam constantemente que os brâmanes e os
rajaputros queimam as casas dos filhos de Deus e violam
suas mulheres.
Meu primeiro interlocutor, mais bem-vestido e, sem
dúvida, encarregado do templo, pergunta:
- É pior que aqui?
O que responder? Digo, com cautela:
- Não sei. Cheguei anteontem em Benares.
- Ah! Então fique com os olhos bem abertos! Em Benares,
na cidade, ninguém se conhece, e a segregação entre as
castas permanece sutil. É preciso abrir bem os olhos para
percebê-la.
Conto-lhes do almoço gratuito em Godhaulia e do prato
que o ajudante do cozinheiro me jogou, evitando me tocar.
- Sim, na cidade é assim - diz o encarregado. - E nas aldeias
é como em sua região, em Bihar. - Ouvi-lo dizer "sua"
região me soou engraçado. - As castas vivem cada uma em
um bairro e não se passa uma semana sem que um filho de
Deus apanhe, seja queimado ou violado. Li que há mais de
20.000 crimes por ano cometidos contra os filhos de Deus
em nosso país. E esse número aumenta a cada ano. É
abominável!
Sei que ele não exagera. Eu também li tais informações.
Pergunto:
- O que podemos fazer?
- Temos de nos defender.
Defender? Como? As castas intocáveis não são unidas.
Queria comentar a intocabilidade inadmissível entre os
intocáveis e falei dos Munda:
- Nós, os aborígines, consideramos todos os homens iguais.
Mas ouvi falar que os outros filhos de Deus, os sapateiros,
os coveiros, os varredores, os tintureiros, se consideram
intocáveis entre eles.
- Sei. Nos dilaceramos entre nós mesmos, não faz sentido.
É preciso suprimir todas as distinções de casta, todos os
sistemas de segregação e de escravidão. É preciso criar uma
sociedade justa em que cada indivíduo tenha direito ao
respeito e às mesmas oportunidades de obter êxito. A
mensagem do guru Ravidas continua atual, deve nos
orientar. Está escrito ali, veja!
Ele me mostra uma brochura em que o pensamento do
santo é comparado à estrela polar. Ele prossegue:
- Sem a participação de todas as forças sociais, a edificação
de uma Índia moderna é impossível. Para perpetuar os
ensinamentos do guru Ravidas, o bem-amado Jagjivan Ram
iniciou, em 1979, a construção deste imenso templo. Aqui,
em Benares, cidade natal do guru Ravidas.
Sem dúvida ele tem razão. Mas não insisto na conversa,
pois me pareceu que ele recitava uma lição e não falava
com o coração. O que realmente me interessa saber é se ele
beberia de meu copo e o que pensa da predominância, no
alto da construção, da torre hindu. Não ouso lhe fazer estas
duas perguntas, soariam estranhas na boca de um hindu.
Aprovo delicadamente seu discurso e saio do templo.

Atrás do ghat Raj, no final da ponte de ferro, há uma
pequena estação ferroviária. Atravesso o cais e bebo
bastante água de uma fonte. Sinto-me bem. Não me
trataram de "você" no templo de Ravidas, não me olharam
de lado, e, no entanto, estou vestido com os mesmos trapos
sujos. Nunca pensei que daria tanta importância ao fato de
ser tratado de "senhor". Na França, como antes na Índia,
minha família, meus amigos e estranhos às vezes me tratam
de "você" por familiaridade; mas hoje, na pele de Ram
Munda, as pessoas me tratam assim para demonstrar
desprezo. Não suporto isso. A visita ao templo dos
intocáveis me revigorou. Sinto-me novamente uma pessoa,
um homem digno de respeito, e digo a mim mesmo que
tenho direito a um lugar na sociedade. Não estou mais
sozinho, sou tratado como um irmão pelos fiéis de Ravidas.
Saindo da estação, decido tomar um chá na taberna em
frente. Também acenderei um hiri. Será perfeito. Gosto de
me permitir um prazer quando estou feliz. Isso multiplica
minha felicidade.
A taberna está instalada sob um toldo e um menino de uns
10 anos atiça o grande fogão de barro, onde fumega uma
chaleira manchada do leite que derramou. Peço um chá e
me sento sozinho sobre um banco de madeira. O menino
serve primeiro dois homens mais bem-vestidos que eu, que
acabam de se sentar, e depois me diz, colocando o chá na
beira do fogão:
- Está pronto. Venha pegá-lo!
Fico pasmo. Ele colocou o chá em um recipiente de barro
descartável, enquanto serve aos outros em copos.
Considerou-me um intocável. Além disso, não me traz o
chá e me trata de você. Detesto esse garoto. Tão jovem e
tão malvado. Bebo rápido, sem fumar um hiri, pago e vou
embora. Estou farto.

2 de novembro

A estação de Benares. Sinto-me quase como se estivesse
em casa.
Voltei depois da visita ao templo de Ravidas e não saí
mais.
Anteontem de manhã, caminhei no mínimo 10 quilômetros.
Estava cheio de barro e crostas pretas de poeira e suor
misturados cobriam meus pés e rosto. Minha garganta
estava tão seca que sentia dor nos ouvidos ao tentar salivar.
Sentia vontade de um banho quente, depois molhar os
lábios na espuma de uma cerveja gelada e descansar na
cama com minha mulher, durante 24 horas. Tinha muita
vontade de fazer isso.
Impossível. Até mesmo a cerveja. Em Benares, uma garrafa
custa 30 rupias, o que equivale a três ou quatro dias de
esmolas.
Ao retomar à estação, lavei os pés em uma fonte, bebi
grandes goles de água morna e fiquei deitado, sozinho, em
uma plataforma, durante uma hora. Em seguida, esmolei ao
longo dos trens, até a hora do crepúsculo, e ontem,
domingo, trabalhei a tarde toda.
Não fiz nenhuma amizade. Mergulho na solidão e, muitas
vezes, tenho vontade de chorar. Eu me contenho, penso que
amanhã ou depois de amanhã minha nova existência se
organizará, eu me habituarei.

À noite, continuo dormindo entre os musahar. No átrio, o
barulho de sempre não me deixa pegar no sono. Estou
exausto. Por isso esmolo por períodos de duas horas. Em
seguida, faço uma pausa para o biri e uma sesta de mais
duas horas, depois recomeço a esmolar. É o meu ritmo e,
de qualquer maneira, não conseguiria percorrer todos os
trens. Há quase 100, que param diariamente na estação de
Benares durante 24 horas. A estação nunca fecha.
Não mendigo depois do cair da tarde, seria desperdiçar
energia. Ontem à noite, tentei o trem que vinha do Punjab.
Na penumbra dos compartimentos, os passageiros pareciam
adormecidos e ninguém me deu esmola. Também resolvi
não mais mendigar na passarela. Reparei que um leproso,
com o rosto e membros encarquilhados, consegue se virar
bem à tarde, mas para mim não dão nada, certamente
porque meu corpo é normal.
Em relação ao dinheiro, estou bem. Ganhei umas 10 rupias
e almocei ontem em uma taberna na estrada Délhi -
Calcutá. Não passo fome.
No entanto, estou esgotado.

Esta manhã de segunda-feira começo meu quarto dia como
mendigo. A impressão é de já estar aqui há um mês.
Conheço cada canto da estação e aprendi as manhas do
ofício. Até mesmo me acostumei a não fazer minhas
necessidades em locais decentes, limpos e privados.
Quando sinto vontade, saio da estação, me acocoro e esva-
zio o intestino. Isso já não me constrange, pois ninguém me
olha, e, além do mais, não tenho outra saída. A curiosidade,
a atração exercida por esta nova existência, já passou. Só
resta estagnar na rotina e sobreviver. Ou melhor, subviver.
Não tenho mais prazer em nada.

Vou contar a única coisa boa desta aventura.
Para minha surpresa, os outros mendigos me ignoram. Não
há contato entre nós. Revejo sempre as mesmas pessoas: o
velho muito asseado, o cego de cara bexiguenta, a mulher
esfarrapada. E cruzo com outras: uma leprosa sem mãos,
um homem forte e jovem, isto é, como eu, outro mais
jovem, de tez sépia, cabelo amarelo de poeira e viscoso,
vestido apenas com uma tanga rude de cânhamo. Os
mendigos vão e vêm, e cada um vive sua própria vida. Os
ferroviários também não me perturbam. Quando chega um
comboio, forma-se uma multidão na plataforma e os
carregadores de malas e os condutores dos carrinhos se
precipitam em todos os sentidos. Gritam "Saia da frente!",
avisando sua presença, e, se não os vejo, dão um tapinha
em minhas costas, pedindo que me afaste. Nenhuma
animosidade em sua atitude. Para eles, tenho o direito de
trabalhar na plataforma.

Esmolo ao longo de uns 12 trens por dia e cada um me
rende de 50 centavos a uma rupia. Não é o paraíso, mas
com quatro ou cinco trens posso almoçar e aprendi como
fazer render meu ganho.
Peço esmolas com o prato de alumínio já com uma ou duas
moedas. Estas atraem o olhar das pessoas a quem o estendo
e significam que alguém, antes delas, já deu qualquer coisa.
Acho que algumas sentem culpa, porque freqüentemente
consigo uma rupia por trem usando este artifício.
Há passageiros que me dão uma moeda de valor alto ou
uma nota de uma rupia, mas tiram o troco do pratinho.
Assim nunca deixo mais de 50 centavos à mostra. Isso
acontece geralmente quando estão comprando jornal ou
cigarro de um vendedor ambulante que não tem troco.
Sirvo de escritório de câmbio, o que me rende 30, 40, 60
centavos de lucro. É válido. Também existem pessoas que
calculam. Desejam me dar algo, mas não demais. Talvez
queiram ter moedas suficientes para outros mendigos.
Um trem permanece de 15 a 30 minutos na estação, e
durante este tempo somos dois ou três a pedir esmolas.
Compreendo que o desfile de pedintes irrite os passageiros
e não fico com raiva. Enfim, não excessivamente. Lembro-
me de que antes também sentia essa exasperação. A
manobra dos mendigos se repete ao longo das paradas dos
trens, o que leva os passageiros a contemplar com indife-
rença os piores esfarrapados, leprosos e monstros humanos
com membros disformes, os homens-elefantes que esmolam
no universo dos trens.
É difícil comover.
Ao me aproximar da janela, três em quatro passageiros não
me olham ou fingem ignorar minha presença. Começo
batendo o prato duas ou três vezes no parapeito. O ruído
seco, metálico, faz com que virem os olhos na minha
direção, e nesse momento eu apenas repito: "Babu! Me dá
dinheiro! Babu!" É claro que nunca digo "por favor", pois
não é usado. Por conseguinte, bater o prato evita ter de
repetir demais as súplicas para obter sua atenção. Em
seguida, ou o passageiro me manda pastar ou - uma em 10
vezes aproximadamente - me dá alguma coisa.
No primeiro caso, ocorrem quatro situações antes de o
passageiro, farto de minha presença, me afastar com um
movimento da mão ou da cabeça. Primo, ele me olha
impassível e fica mudo. Secundo, leva a mão direita à testa,
como se me abençoasse. Tertio, em um tom hipócrita ou
agressivo, me manda mendigar mais adiante, como se lá
estivesse cheio de gente de dinheiro e generosa.
Finalmente, quarto, 10 ou 20% dos avarentos me pregam
uma lição de moral. Agora sei como tirar leite de pedra.
Todos recitam a mesma ladainha:
- Por que quer dinheiro?
- Para comer.
- Você é jovem. Trabalhe!
Encontrei a resposta ideal a esse conselho. Sua eficácia
surpreende até a mim mesmo. Não fico envergonhado e
chego a me emocionar. Para persuadi-lo, começo
insistindo:
- Não tenho dinheiro. Estou com fome, Babu!
Então o sujeito replica:
- Se trabalhar, terá dinheiro.
- Mas sou aborígine. Não encontro trabalho.
Todos os indianos sabem que as populações tribais
constituem a classe social mais miserável e mais
desprezada da Índia. Ao ouvir que sou aborígine, os
passageiros apertam os olhos, me examinam da cabeça aos
pés, como se eu fosse um animal raro, e desistem de dar
lição de moral. Então, uma em cada duas vezes, me dão
uma moeda. Ou, desconcertado e muito pão-duro, o
passageiro dá com os ombros e pede, com um sorriso
meloso, que vá mendigar mais adiante.
Essas lições de moral me lembram as que são ditas aos
mendigos no metrô parisiense. Paris e Benares. O
comportamento humano é universal. Na época, eu não
percebia como é humilhante para um mendigo ouvir, ao
longo do dia, que se trabalhasse teria dinheiro. É
humilhante porque as pessoas que dizem isso nos
consideram idiotas, retardados. Claro que nós, os
mendigos, sabemos disso. As lições só conseguem nos
irritar, nos separar da sociedade.

Os passageiros que dão esmolas são homens bem-vestidos,
de 30 a 50 anos. As mulheres, os jovens, os velhos e os
pobres, os que viajam de lungi ou calça gasta, não me dão
nada. Quanto aos ricos, a ínfima minoria dos milionários,
ocultam-se em compartimentos refrigerados, com janelas
de vidro fumê fechadas. Não posso lhes estender o prato, e
o inspetor do trem impede que as pessoas indesejadas
subam em seus vagões.
Alguns viajantes me dão comida. Lembro-me de um, ontem
de manhã. Cerca de 40 anos, de kurta gasto e com traços
fortes e enérgicos de um camponês. Está sentado como
Buda sobre o banco de madeira e come um bolo pouco
apetitoso em forma de uma bola ocre e que se desfaz
facilmente. Fala comigo em tom de gozação. Um riso
amarelo.
- Por que lhe daria dinheiro? Por quê?
- Tenho fome.
- Tem fome? Então aqui está! Se manda!
E hop! Joga no prato o resto do bolo que comia. Ele me
toma por uma lata de lixo. Calo minha vergonha e
desgosto; não quero me queixar e desencadear uma
discussão. Coloco o bolo em minha sacola e mendigo na
janela seguinte. Quando o trem parte, jogo aquele resto de
bolo nos trilhos.
Vi outros mendigos jogarem restos fora. Há pessoas que
nos dão esse tipo de esmola. Livram-se de nossa presença e
ficam com a consciência tranqüila, sem desembolsar
nenhum tostão.
Nossa miséria não é a pior. Além dos cães, ratos e vacas
que erram pela plataforma, a estação abriga homens ainda
mais pobres que nós. Eles se alimentam de restos e não é
raro vê-los enxotar com o pé um animal, para poderem
fuçar um monte de lixo. Na estação de Benares nada se
perde. Se pegam uma guimba ainda acesa, fumam com um
sorriso de prazer.
Esses homens são cobertos de placas pretas de sujeira; seus
cabelos são embaraçados, viscosos e hirsutos. Nada
possuem. Nem sacola, nem coberta, nem prato para esmola.
Nada, a não ser um pano cobrindo o sexo e um trapo sobre
as costas. Não sei por que esses mendigos não esmolam ao
longo dos trens. É verdade que parecem um pouco loucos.
Falam sozinhos e seu olhar é parado, inquietante.
Percorrem as plataformas em busca de restos de comida e
dormem no chão, sem oleado. Chafurdam na sujeira,
seminus no meio das plataformas ou na passarela. Reparei
em quatro desses selvagens, solitários, três rapazes e uma
mulher de uns 40 anos. Ela era mirrada e o pano
esfarrapado que a envolvia deixava entrever os pelos
pubianos e os seios flácidos, como que ressecados por uma
existência muito dura. Um dos homens não cobria nem o
baixo-ventre; usava apenas uma camisa suja de terra e
rasgada. Estava sentado ao pé da passarela e lambia cascas
de banana. Sua pele era da cor do antracito, tão escura que
não se distinguia o pênis entre as coxas.
Não gosto de olhar essas pessoas, me deixam pouco à
vontade, pois em comparação a elas sinto-me rico e
mimado pela vida. A possibilidade de cair ainda mais me
aterroriza. Além de tudo, corremos o risco de ficar
aleijados, cegos ou sem pernas, de perder uma parte de
nossa carne. A miséria não tem fundo.

Sinto-me um mendigo indiano comum. Muito sujo e
desprezado. Odeio a sociedade. Estou quebrado. Várias
vezes por dia sou enxotado como um ser nocivo. E, como
um cão faminto que aceita apanhar com um osso, nunca
reajo. Na França, sociedade igualitária, os mendigos ousam
se defender, pois continuam a ser cidadãos.
De todos os passageiros que me mandam passear, os que
mais abomino, mais ainda que os que dão lição de moral,
são os que me abençoam com a mão e me aconselham a
esmolar adiante. São os mais hipócritas. Seu sorriso meloso
me inspira total aversão. Não me dêem nada, mas não me
venham com bênçãos nem falem mais do País das
Maravilhas que fica na parte da frente de cada trem. Parem
de inventar coisas! Sou muito miserável e vocês são as
piores coisas que a terra gerou, por isso não há como não
serem francos comigo.
Também encontro viajantes agressivos. Principalmente nos
trens que param em todas as estações. São menos caros que
os mais rápidos e cheios de camponeses de feições
cansadas. Em grupos de três ou quatro, levantam a mão e
me ameaçam, fazendo chacota como hienas: ''Vai cair fora
ou terei de bater em você?"
Não insisto e vou embora, pois não passo de um mendigo
sem defesa e sem direitos.
É fácil, e covarde, maltratar um pobre-diabo como eu. Mas
eu não devia estar com tanta raiva. Antes era como eles.
Marc Boulet gostava de gozar os mendigos, os mortos de
fome, os miseráveis. Nunca lhes dava esmolas. Essas
pessoas o importunavam, exasperavam. Pareciam merecer o
desprezo com que os tratava. Também ele se divertia
abençoando-os ou oferecendo-lhes um biscoito, se
insistissem estar com fome. Também achava que os
mendigos eram muito numerosos para que pudesse
satisfazer a todos.
Besteira! Não dava a nenhum.
Mesmo na Índia, com cinco ou seis francos por dia, isto é,
30 rupias, Marc Boulet poderia ter dado esmolas a muitos
mendigos e nem por isso se arruinaria. Percebo que se
tratava de avareza misturada à falta de piedade. A miséria
não comovia sua carteira. Lamento essa atitude e juro que
se sair ileso desta aventura darei uma moeda a todo aquele
que estender a mão diante de mim.

Como hoje posso ter raiva dos que me rejeitam?
É mais forte que eu; eu os odeio. Gostaria de cuspir na cara
deles. Fazê-los engolir o desprezo que me dispensam. Sou
sujo e pobre, certamente um jovem preguiçoso, e os
aborreço. Mas continuo a ser um homem. Seu semelhante.
Com dois braços, duas pernas, estômago e a cabeça que
fala a sua língua. É um direito deles recusarem me dar
alguma coisa e podem expressá-lo sem precisar me olhar
agressivamente e dizer palavras desagradáveis.
Sinto-me inútil e sujo. Tenho nojo de mim mesmo. Até
mesmo o cheiro de meu suor me causa repugnância. E
quando examino meus pés e mãos, as únicas partes do
corpo visíveis para mim, não consigo acreditar que tenha
chegado a este ponto. Principalmente meus pés. Placas
escuras como breu os cobrem e entre os dedos cresce uma
crosta mole, semelhante a um melado de transpiração.
Não lavo mais os pés. Não tenho vontade de lavá-los. Estou
pouco ligando. Por que ficar limpo? Todos os dias mendigo
da aurora ao crepúsculo e, à noite, adormeço no átrio de
uma estação. Esta é a minha vida! Não é grandiosa. Pouco
importa que me achem belo ou feio, limpo ou sujo. Isso
não mudará meu dia a dia. Aliás, não tenho vontade de
nada. Exceto comer pão, beber água, fumar biri e dormir o
máximo possível, porque assim perco a consciência,
esqueço que existo. Não quero principalmente me lavar
nem procurar um trabalho melhor, mesmo que isso fosse
possível. Seria extremamente cansativo, e peço esmolas
porque se tornou um hábito e uma obrigação para que eu
possa comprar comida e cigarro. Sou um mendigo jovem,
sujo e sem nenhuma enfermidade particular, um produto
normal da sociedade indiana. Um acessório de decoração
da estação. Sinto náusea. De manhã, não ousei sequer me
olhar no espelho. Tenho medo de descobrir minha cara
imunda.
É perigoso deixar de verificar se a tintura resiste. Continua
convincente? Não me preocupo, pois as pessoas não
prestam nenhuma atenção em mim.
Penso em minha mãe, em meu pai, em minha irmã, em
meus amigos. Suas imagens são doces e lágrimas
umedecem meus olhos. Se me virem mendigar diante de
trens indianos, não me reconhecerão. Quando eu contar
esta experiência, imaginarão, regredindo no tempo, que eu
representava uma farsa na pele de Ram Munda, que eu
participava de um baile de máscaras. Pensarão: "Marc se
disfarçou de intocável e pediu esmolas em uma estação
indiana. É interessante, é estranho, é divertido." Não
sentirão o principal: meu sofrimento moral. Como é
doloroso ser sujo, se rebaixar a mendigar, se tornar um
objeto de desprezo, se sentir intocável. Neste momento,
minha mãe deve estar inquieta com minha saúde e
segurança, e talvez passe noites em claro na angústia de
perder o filho. Mas não pode imaginar minha aflição,
minha solidão, minha vergonha.
Não tenho direitos nem poder. Eu me calo em todas as
circunstâncias. No Ocidente, sociedade igualitária
fundamentada nos direitos humanos, um mendigo pode se
revoltar se o ameaçarmos ou zombarmos dele. Aliás, as
pessoas têm medo de sua reação. Na Índia, na sociedade
hierarquizada das castas, o indivíduo que pede ao outro lhe
é inferior. O mendigo deve aceitar tudo, submisso, dócil.
Estou perdido.

Poderia interromper esta aventura. Voltar à Ravindrapuri.
Voltar a ser Marc Boulet.
Vou resistir a esta tentação.
Minha metamorfose data de apenas poucos dias, não pode
estar concluída. Devo insistir na experiência e ver como
reajo.

3 de novembro

Esta manhã a vida se anuncia menos difícil. Um passageiro
de 35 anos me deu esmola sem eu pedir. Formidável.
Conto como foi. Eu esmolava ao longo de meu primeiro
trem. Atrapalhado por carregadores de malas, passava
rápido por um vagão quando um homem vestido de modo
elegante, com uma camisa pólo amarela, me chamou do
interior de seu compartimento. Ele me fez sinal para
esperar diante da janela, depois mexeu no bolso e me
lançou uma moeda de meia rupia. Como para cada esmola
que recebo, levei a moeda à testa em sinal de respeito e
agradecimento. Então ele me disse para ir embora.
Sua generosidade me proporcionou um imenso prazer.
Finalmente tive a impressão de ser considerado por alguém.
Esse homem realmente se interessava pela minha sorte
deplorável, pois foi ele mesmo que me chamou. Além
disso, sem mostrar desprezo e sem permitir que eu me
humilhasse pedindo.
Hoje me sinto melhor. Na metade da manhã já ganhei sete
rupias e saio para comprar um chá na frente da estação.
Impossível. Todas as tabernas, todas as lojas estão fechadas
e a circulação na auto-estrada Délhi-Calcutá está
paralisada. Uns 20 homens bem-vestidos, de camisa e
calça, estão sentados em bancos colocados de um lado a
outro da calçada. Um deles carrega uma bandeira
representando uma flor de lótus em um fundo laranja, com
uma faixa verde à esquerda. É o emblema do BJP, partido
hindu de extrema direita.
Esse grupelho tornou-se, em cerca de 10 anos, o segundo
partido indiano, com mais de 20% de deputados no
Parlamento federal. No entanto, não oferece nenhum
programa revolucionário. Só propõe a velha fórmula do
chauvinismo e do integrismo religioso, apresentado em um
novo recipiente. A legenda anuncia: "Deus, pátria e justiça.
Viva Rama!" Rama, o deus e o príncipe perfeito, símbolo
do governo ideal. "Retomemos à idade de ouro de seu
reino!" Isto é, ao passado distante. Como se antigamente o
mundo fosse perfeito!
Marcha a ré com força total!
O BJP une a política à religião com uma camada
insignificante de socialismo estatal. Na Índia isso seduz,
assim como nos quatro cantos do mundo, com o
ressurgimento dos nacionalismos neste final de século. A
diferença é que o BJP já dirige os governos de quatro
Estados da Índia, entre os quais o de Uttar Pradesh, onde
está Benares e que conta com 140 milhões de habitantes. O
BJP está às portas do poder central. Com as próximas
eleições legislativas, o governo federal do segundo país
mais povoado do mundo pode se tornar fascista.
O partido me lembra a Frente Nacional da França. Como
esta, investe fundo na demagogia para conquistar eleitores
que não estão ajustados à sociedade. A França cristã e
gaulesa, a Índia hindu e ariana.
O BJP sugere que as cidades com nomes muçulmanos
sejam rebatizadas com nomes hindus. Exige a demolição
das mesquitas construídas em locais de templos hindus
durante o reinado dos imperadores muçulmanos (o que
remonta a vários séculos antes da colonização britânica!) e
a reconstrução dos santuários originais. Exige que a
"invasão" dos trabalhadores de Bangladesh seja impedida e
que os clandestinos sejam expulsos. Quer instituir uma
teocracia hindu, uma nação pura, onde o álcool e a carne de
vaca sejam proibidos. Propõe suprimir o ensino de inglês
nas escolas primárias, para promover o hindi. Reivindica a
superioridade étnica da raça ariana e pretende reescrever os
compêndios de História, narrando que os arianos são
originários da índia e não invasores que se espalharam
pelas estepes da Ásia Central. No Sul do subcontinente
indiano, habitado por dravidianos, afirma que a diferença
entre esta raça e a ariana - a dos habitantes do Norte - é um
mito propagado pelos colonizadores britânicos para dividir
o país. Etc., etc. Isso me causa um arrepio na espinha,
principalmente como RAM Munda. Intocável, aborígine e
não-ariano, minha posição social regredirá ainda mais na
"nação hindu" sonhada pelo BJP. Serei oficialmente um
"sub-homem".
Mas a propaganda do BJP também pode aparecer atraente a
um hindu como eu, se for aceita sem reflexão. Até mesmo
intelectuais, como meus vizinhos Agraval da Ravindrapuri,
são enganados. Essa propaganda insiste em que somos os
homens mais civilizados do mundo, e é agradável pensar
assim. Vocês, os europeus, nos consideram um povo de
mendigos, de mortos de fome. Estão enganados.
Ser um dos países mais miseráveis do mundo e afirmar a
superioridade de sua civilização não é uma contradição. Se
nos tornamos pobres, foi por causa dos muçulmanos e dos
ingleses que nos colonizaram. Atualmente isso continua
com as multinacionais estrangeiras que nos exploram. O
RJP prega com força este velho refrão nacionalista e
propõe uma espécie de socialismo protecionista como
programa econômico.
Serei franco. Essa conversa chauvinista do BJP não me
convence. Quando fui chinês, também pertenci ao povo
mais antigo, mais inteligente, mais civilizado do planeta.
Recomeça tudo outra vez, na pele de Ram Munda. Que
absurdo! O BJP, assim como o Partido Comunista Chinês,
fala o que for para lavar cérebros. Darei alguns exemplos.
O BJP quer rebatizar a famosa cidade de Allahabad. Diz
que o nome é em homenagem a Alá, deus dos muçulmanos.
Mantê-lo seria um insulto ao orgulho nacional em um país
de maioria hindu. Na realidade, Allahabad é a versão
inglesa do hindi Hahabad, que todos usamos e que provém
de Ila, antigo rei da região vizinha a Benares. Qual a
relação com Alá?
Outra manipulação. O BJP quer expulsar os nativos de
Bangladesh porque são estrangeiros e roubam o trabalho
dos indianos. Por outro lado, quer a reintegração de
Bangladesh e do Paquistão à mãe pátria indiana. Então?
Ou ainda. Em Uttar Pradesh, terra natal do hinduísmo, é
proibido comer carne de vaca, mas Om Prakash Singh,
político de Benares, ministro do governo do BJP neste
Estado, protegia os chefões do lucrativo tráfico de vacas
destinadas aos açougues do Oriente Médio. A imprensa
comentou. Como o BJP pode se proclamar protetor das
vacas e, conseqüentemente, do hinduísmo?

Esta manhã, o BJP organiza uma greve geral na Índia, para
protestar contra a inflação galopante - explica o líder dos
20 membros do BJP que paralisam a estrada Délhi -
Calcutá. Ele tem 35 anos. Usa a roupa branca tradicional,
que não disfarça sua barriga, sinal de respeitabilidade. Ele
fica em pé no meio da calçada e pronuncia um discurso:
"Os preços do pão, do leite, da gasolina, do butano
aumentaram 20% nos últimos três meses. Significa um
custo mensal de aproximadamente mais 300 rupias para
cada família. Não se pode suportar isso... Para os
camponeses, o preço do adubo também dispara. Mas o
governo do Congresso se recusa a pagar decentemente o
que produzem. Prefere importar três milhões de toneladas
de trigo pelo dobro do preço pago aos camponeses. A
política do Congresso subvenciona os agricultores
estrangeiros, em vez de nossos próprios pequenos
fazendeiros. É um escândalo. O primeiro-ministro
Narasimha Rao oferece o controle de nossa economia ao
capital estrangeiro. Vende parte de nossas empresas
públicas às multinacionais. Deve se demitir, não representa
os interesses do povo indiano. Os bancos estrangeiros estão
se apossando de milhares de rupias..."
Tantas informações deturpadas ou falsificadas. Não há
multidão para escutá-las. Somos uns 20 curiosos no
passeio, mais uns 15 policiais que desviam os carrinhos e
os caminhões da barreira, e só deixam passar pedestres. Os
policiais apóiam os ativistas do BJP, o que não me
surpreende. Na Constituição indiana, a manutenção da
ordem pública cabe ao governo de cada Estado. Assim, em
Uttar Pradesh, o BJP comanda a polícia e seus agentes
protegem a greve dirigida contra o poder central. Esta é a
Índia.
Essas greves gerais se inscrevem na tradição do movimento
gandhiano da desobediência civil e da não-violência. Todas
as atividades econômicas cessam em sinal de protesto.
Hoje em dia, todo movimento político utiliza essa arma. As
greves gerais se tornaram rotina. Em Benares, há quase
uma por mês, decretada por uma organização qualquer. A
população está cansada, e os comerciantes e os que operam
os transportes param por medo da represália. Os militantes
do partido que promove a greve destroem os bens e as
mercadorias dos que ousam trabalhar.
Em geral, a parte da estrada diante da estação é repleta de
gente, mas esta manhã parece deserta. Isso me choca. É
como uma espécie de toque de recolher. O comércio todo
está fechado. Até mesmo aqui na estação. E o líder
continua a destilar seu veneno. Ao meu lado, um
espectador de minha idade, também de lungi, suspira:
- Essas greves nos aborrecem. Não se pode trabalhar.
- Trabalha em quê? - pergunto.
- Vendo frutas. E você?
- Estou em peregrinação. Venho de Bihar.
- É estranho, você não tem sotaque.
- Sou aborígine - respondo, constrangido. - É por isso.
Venho da selva.
- Ah! - ele diz, como se compreendesse. - Políticos safados!
Com a greve é um dia perdido. Reclamam a subida dos
preços, mas são eles que pioram nossa vida ao nos
obrigarem a fechar. A inflação não é novidade. Tudo isso
não passa de cena para dar destaque ao BJP. Estão pouco
ligando para nós.
Ele tem razão. O BJP poderia escolher outros tipos de
ações para combater o governo do Congresso. Esta greve
impede os condutores de pedalar, os vendedores
ambulantes de vender, os taberneiros de alimentar seus
clientes miseráveis. Só os cachorros conservam o direito de
latir.
As greves dos outros partidos se desenvolvem da mesma
maneira e tornam os pobres ainda mais pobres. Os políticos
indianos insistem que nos protegem, nós, os miseráveis, e
eu digo que são todos uns canalhas. Menosprezam o direito
de comer daqueles que ganham seu pão no dia a dia. São
ricos e membros das castas superiores; nossos problemas só
lhes interessam para arrecadar votos. Canalhas!
Descubro que tanto na pele de Ram Munda como na de
Marc Boulet continuo com a mesma raiva da demagogia.
Minha aversão a político não mudou. Não acredito nesse
seu discurso, e o intocável que encarno sente ciúmes desses
jovens militantes do BJP. Eles ocupam uma calçada e os
policiais os protegem. Não é grande coisa, e talvez não
passem de fanáticos, mas me impressiona. Eles ostentam
uma certa posição social, vestem-se bem e devem possuir
um lar, uma morada. Isso me causa inveja. Sinto falta de
estar limpo, dormir em uma cama, comer uma refeição
preparada por minha esposa ou por minha mãe. De fato,
invejo a posição deles, mas me recusaria a ocupá-la, pois
são empregos de trapaceiros, de safados.
Pessoalmente, a greve não atrapalhou esmolar. Os trens se
atrasam, mas chegam. Espero que o tráfego ferroviário não
seja afetado e que eu possa mendigar também à tarde.
Ganhar minha vida.
De fato, essa agitação do BJP me diverte. Minha vida é tão
monótona. Pelo menos, nem que seja uma vez só, um
espetáculo! O tempo passa mais rápido. E talvez isso seja o
mais importante para mim: matar o tempo.

Almoço de novo ao lado do antigo acampamento. Ali as
tabernas ousaram abrir. Depois, esmolo e durmo a sesta até
o crepúsculo. Nada de novo.
À noite, passeio diante da estação. O comércio reabriu.
Passo diante de uma taberna e o cheiro de pão fresco me
abre o apetite. Tenho vontade de um purê de lentilhas
fumegante e pão. Isso me custará duas rupias. Merda!
Posso pagar. Ganho cerca de 10 rupias por dia. Gasto três
para almoçar, tenho como jantar. Está decidido: a partir de
agora não me privarei de alimentação e farei duas refeições
enquanto minhas finanças permitirem.
Saboreio o purê de lentilhas e, ao sair do restaurante,
decido aproveitar o bom humor e me olhar no espelho. Eu
me isolo em um canto do átrio. Tudo bem. A tintura talvez
esteja um pouco clara, mas, com a poeira e a sujeira, não
vejo muita diferença. Meu rosto continua perfeito. Exceto
pela barba. Ela data de oito dias, está um tanto comprida;
raspo-a grosseiramente, com uma lâmina descartável que eu
trouxe. Não uso água, nem sabão, para não modificar a tez.
Eu me barbearei assim, ligeiramente, uma vez por semana.
Isso conservará meu rosto de indiano, cinzento e cansado.

4 de novembro
Sim, matar o tempo é minha ocupação principal. Meus dias
se estendem com uma lentidão exasperante. Não tenho o
que fazer, a não ser mendigar e esperar.
Ao meio-dia, repouso na passarela, encostado à
balaustrada. Freqüentemente me instalo em estações para
estudar a multidão. Fiz isso em Varsóvia, Belgrado,
Bangcoc, Pequim, México etc. Conheço centenas, talvez
milhares de estações. Todas são diferentes; seus trens e
seus usuários são diferentes. As estações fronteiriças são as
mais interessantes, claro, mas gosto de todas e nelas passei
horas flanando, como outros visitam museus. Sempre se
passa alguma coisa nas estações, mesmo nas menores.
Nunca me deixam entediado.
Hoje é diferente. Minha vida está revirada e já não erro
mais nesta estação por prazer. Preferia estar em outro lugar,
mas não tenho escolha. Não sou mais um espectador do
zoo humano que constitui a estação. Sou um de seus
animais.
Esta estação se tornou minha prisão e tenho a impressão de
que a vida material, palpável, não existe lá fora. Só penso
em mim. Não imagino que homens se agitam em outros
ambientes, a dezenas ou milhares de quilômetros. Não
passam de seres virtuais, sem interesse. O mundo real sou
eu, é a estação de Benares. Este também é o mundo normal
e não gosto dele.
Em meu universo, há trens, plataformas, tabernas,
ferroviários, policiais, muitos passageiros, musahar,
sapateiros e alguns outros mendigos. É isso! Não suporto
mais este mundo. Sou desprezado como um cão, como
pouco, durmo mal. Acho que perdi muito peso e me sinto
exausto. Sempre que o sol se levanta no horizonte, o pro-
grama recomeça. Odeio a aurora. Pedir esmolas, ser
humilhado, me alimentar, adormecer. Que vida! Nenhum
sonho, nenhuma esperança de melhorar. Giro em círculos.
De que adianta viver assim? Queria tomar um trem e partir.
Para onde? Para mendigar em outra estação? Qual o
interesse? Estou condenado a morrer de "tédio.
No entanto, sou paciente. Vou contar um fato bizarro.
Adoro pescar e, na França, passava horas imóvel diante de
um caniço, sem me aborrecer. Mas a espera na estação de
Benares não é como pescar. Para ajudar a passar o tempo,
às vezes imagino um caniço diante de mim e que espero a
mordida de um peixe enorme. Espero que o caniço vergue.
Isso funciona por cinco minutos e depois percebo que aqui
não há nem água, nem peixe, nem rio, nem nenúfares. Não
existe nenhuma esperança, nenhum objetivo além de matar
o tempo.
Tédio.
Então observo os que passam. Por quê? Porque não posso
ficar dormindo a sesta sempre que não mendigo, e é menos
cansativo ficar com os olhos abertos. É desesperador.

Uma família se instala à minha direita. Estendem um pano
no chão e se sentam em cima, com os joelhos dobrados, na
posição do Buda. Os passageiros acampam nos quatro
cantos da estação, à espera do trem que freqüentemente está
atrasado. A família é composta pelos pais, dois filhos e a
avó. O marido, de uns 40 anos, é elegante com sua camisa
cor de limão e sua calça preta. A mulher parece mais
jovem. Tem minha idade e a tez sépia. Ela mede 1,50 m e
usa um sári vermelho, drapeado com esmero.
Pertencem, sem dúvida, a uma casta superior. Eles me
olham sem me ver, apenas para manter uma distância de 50
centímetros entre nós.
O homem está sentado ao meu lado, contra o parapeito, e a
mulher, à nossa frente. Ela é pequena e tem as feições de
bebê. É bonita, mas não a desejo. E não é por causa da
penugem preta que cobre seus braços. Antes eu não gostava
de mulheres peludas, mas seus pelos não me incomodam,
eu os acho normais em uma mulher, na Índia. Esta é
atraente, mas não a desejo. Acho que não desejo mulher
nenhuma.
Isso não tem importância, pois ela não parece me desejar.
Ela não me sorri e tampouco evita meu olhar. Sou-lhe
indiferente, tenho certeza de que ainda não viu meu rosto.
É assim com todas as mulheres desde que sou indiano. Seu
desprezo me torna assexuado, e estou pouco ligando. Não
tenho vontade de fazer amor, sinto-me sujo e muito
repugnante.
Pensando bem, notei imediatamente a tez chocolate-escura
desta mulher. Adquiri o hábito indiano de definir as
pessoas segundo a cor da pele. Isso se tornou um elemento
fundamental para mim e admito que uma indiana branca
como a neve me atrai mais que uma de pele escura como
um búfalo. Agora, a tez, o tamanho e o sexo do indivíduo é
o que vejo em primeiro lugar. Em seguida, tento adivinhar
sua casta ou sua religião em função de suas roupas.

Escuto o que conversam. Vieram em peregrinação a
Benares e voltam para casa, em Délhi. Esperam o expresso
4057, que une diariamente a capital à cidade santa. Uma
viagem de 800 quilômetros, cuja duração é de 16 a 17
horas, no mínimo. O homem está inquieto, não reservou
leitos. É normal; na Índia, os trens estão sempre cheios.
Foi esse trem que me trouxe a Benares, para me tornar um
mendigo. Há três meses eu era um europeu e, na época, fui
beneficiado por cotas de leitos reservadas aos estrangeiros.

Chegam estrangeiros para pegar o expresso Benares-Délhi.
Passam por mim sem me ver e não lhes estendo o prato de
esmolas. Fui um deles, sei o que pensam: a miséria da Índia
é normal. Eu não passo de um indiano pobre em uma
estação indiana. É muito banal para comovê-los. Viram
indianos nus em Bombaim e esqueletos semimortos nas
calçadas de Calcutá. Em Agra, monstros atacados de
elefantíase se aproximaram deles, e meninos cegos, surdos
e mudos - tudo ao mesmo tempo - prostraram-se diante
deles nos trens. Conheci tudo isso em minha primeira
viagem à Índia. Causava-me náusea e me blindava diante
da miséria comum, ou o que eu concebia como tal, pois a
miséria nunca é comum. Hoje eu sei disso. É por demais
dolorosa, desumana e escandalosa. Também sei que o
europeu dá esmolas apenas por piedade, e não como o
hindu, para cumprir um dever religioso ou moral. Seria um
esforço em vão pedir esmolas aos raros estrangeiros que
transitam na estação; não tenho chance com eles, não posso
comovê-los.
Se os estrangeiros comparam a Índia e os indianos a um
mosaico incompreensível, os estrangeiros me parecem,
como indiano, ainda mais contrastados. Todo tipo de
estrangeiro desfila em minha passarela. Brancos, amarelos,
pretos, cabelos e olhos de todas as cores do arco-íris. É
claro! Mas isso não é tudo. Os estrangeiros carregam eles
mesmos as malas e valises. Alguns estão arriados como um
burro de carga, com um enorme saco nas costas e outro
preso à frente. Não estou brincando, são verdadeiros asnos.
Se estivesse na situação deles, se fosse rico como eles,
alugaria um transportador. Um momento! Neste instante,
dois europeus altos usando túnicas marrons de monge
budista passam na minha frente. Está escrito em suas
costas: "Libertem o Tibete!" Para bancar o garoto--
propaganda da causa tibetana com a veste budista, quando
se é europeu, é preciso ser iluminado. Agrada-me saber que
não sou o único imbecil desta estação.
Volto aos asnos. Contratar um carregador só custaria duas
rupias. Que aborrecimento! Vejam esse casal de franceses.
Eles cambaleiam sob o peso da bagagem. Suponho que
sejam franceses, pois a garota segura o Guide du routard
(Guia do viajante a pé ou de carona). Com a outra mão,
segura uma garrafa de água mineral. Carrega nas costas 30
quilos de bagagem. O rapaz também carrega água mineral e
30 quilos nas costas. Juro que transportam a casa deles. Em
todo caso, transpiram muito e, repito, são asnos.
Economizam algumas rupias e gastam dezenas bebendo
água mineral.
Para nós, indianos, a água não se compra, é gratuita, e os
carregadores, como o nome indica, são feitos para carregar,
os viajantes para viajar, os mendigos para mendigar, os
cães para latir etc.
O ponto de vista desses franceses é diferente. Antes eu
pensava como eles. Não é a avareza que os faz economizar
o serviço de um carregador, mas sim o escrúpulo de
contratar um escravo e correr o risco de serem enganados.
Quanto à água da bica, temem contrair doenças ao bebê-la.
Sendo assim, carregam seus bagulhos nas costas e garrafas
de água nos braços. Suas férias na Índia transcorrem na
pele de um estivador. Benfeito! São pessimistas. Não
respeitam a ordem do mundo.
Escutem! Há seis dias durmo na rua, bebo água da bica e
não tenho febre nem dor de barriga. Os estrangeiros
imaginam a Índia mais suja do que é realmente. No
domingo de manhã, eu mesmo vi em uma plataforma duas
japonesas que escovavam os dentes usando água mineral.
Essas perderam o senso de realidade, deveriam visitar o
país com uma máscara de gás, luvas e botas de borracha.
Meia garrafa de água para lavar os dentes representa o
preço de dois almoços para mim. Isso me revolta. A miséria
não é banal, é injusta. Por que também não posso lavar os
dentes com água mineral? Deixei de ser um homem?
Muitas vezes me questiono.
Não possuo nenhum amigo, nenhuma família. Sou um
animal e só conto comigo mesmo.

5 de novembro

Há 10 dias sou indiano e a novidade dessa existência
acabou. Totalmente. Nem mesmo reparo a dureza do
macadame quando me deito. Nem os cagalhões nas "casas
da urina", nem as crostas de sujeira sob meus pés.
Minha existência segue um ritmo monótono, exaustivo.
Todas as noites, deito no átrio da estação sem encontrar o
sono, e todos os dias me levanto um pouco mais cansado.
Todos os dias mendigo e sou humilhado. Todos os dias
como purê de lentilhas ou curry de batatas. Todos os dias,
bebo água e fumo uma dúzia de hiri. Todos os dias sinto-
me emagrecer e perder as forças. Minha rotina não deixa
nada a dever à das vacas e cachorros que erram pela
estação. A diferença é que eles têm as pulgas para lhes
fazer companhia. O problema é deles. Continuo preferindo
ficar só.
Esta manhã, não tenho vontade de nada. A não ser fumar e
beber água. A comida não me atrai. Tenho de reagir, senão
vou definhar.
Mendigo por duas a três horas e decido arejar a cabeça.
Saio na direção do antigo acampamento. Subo uma estrada
fresca, margeada de árvores, depois desço para a cidade,
para a avenida poeirenta de Raja Bazar.
As lojas ainda estão fechadas. Sob uma arcada, um ser
humano está estendido no chão. Um pano sujo o cobre, e
não consigo adivinhar sua idade, sua tez, nem seu sexo. Eu
me vejo nele e minha existência miserável se impõe
imediatamente à minha consciência. Na estação, aqui ou
em outro lugar, é sempre igual. Como escapar ao destino?
Como ser feliz?
Deito-me um pouco mais adiante, sob uma arcada. É o
melhor remédio para meu desespero: tentar dormir para não
pensar.
A luz me incomoda, oculto o rosto sob o fular. Percebo que
imito o outro mendigo. Mas não consigo dormir.
Impossível esvaziar a mente. Ouço os transeuntes na
calçada. Conversam, riem, se interrogam. A vida parece
leve, interessante para eles. Alguns me roçam e, através de
meu fular, vigio suas silhuetas, que se viram na minha
direção por um instante. Não consigo distinguir a natureza
de seu olhar, e é melhor assim. Deitado, em pleno dia,
sobre a calçada de uma rua importante de Benares, a cabeça
mergulhada na noite de meu fular, prefiro não mais
contemplar a aversão que inspiro aos outros.

Por que me impus esta experiência? Queria uma aventura.
Descobrir uma sociedade exótica, ganhar dinheiro, escrever
um livro, e sonhava com a fama. Achava que jogando uma
grande partida tinha a chance de me tornar rico e
conhecido.
Pouco importa saber se estava ou não enganado. Isso não
tem mais propósito. Só existo no presente, lutando pela
minha subvida cotidiana, e lamento esta metamorfose. A
curiosidade, a esperança, a cobiça, a ambição são vínculos
que me prenderam a esta louca aventura.
Em Paris, possuo um pequeno apartamento de dois
cômodos, perto de Strasbourg-Saint-Denis. É confortável,
equipado de geladeira, cama, quatro cadeiras, uma mesa,
uma banheira, uma privada, e é limpo. Até tenho um forno
de micro-ondas. Uma verdadeira fortuna para Ram Munda.
Pequei por cobiça e por curiosidade. Não soube desfrutar a
vida como era. Melhor seria ter ficado em casa, na França,
e achar um trabalho tranqüilo. Por quê? Porque eu seria
feliz.
Acreditava que nossa única passagem pela Terra teria de
ser usada para empreender coisas extraordinárias. Para
sobreviver à morte por atos meritórios. Eu me enganava. O
que conta é viver feliz. O resto é vento.
Quando penso em minha fortuna na França, é doloroso.
Tenho a impressão de ter perdido tudo. Toda essa riqueza
me parece fictícia e certamente não é propriedade de Ram
Munda. Perdi tudo. E morro aos poucos em Benares.
Repentinamente, uma idéia terrível me atravessa a mente.
Se eu morresse de verdade, agora, sobre esta calçada, o que
aconteceria?
Esqueçamos os outros, eles não me interessam. O que
acontecerá depois de minha morte?
Será assim: estarei livre de meus sofrimentos e das
humilhações. Eu me livrarei do fardo da existência. É o fim
da cobiça, das ambições e da curiosidade sempre
insatisfeitas.
Não desejo morrer e nada farei para precipitar o fim; mas se
a morte ocorrer agora para mim, tanto faz.
A vida não serve para nada. Neste mundo só tenho deveres,
compromissos e sofrimento.

Penso em minha mulher, que adoro e que me adora. A vida
é formidável em sua companhia. Eu a esqueci e devo ter
ficado louco ao pensar que minha existência não vale mais
a pena ser vivida.
Tenho vontade de chorar, mas me controlo. Não devo cair
em pranto. Tenho de me dominar.
Quero viver e aproveitar os anos que me restam.
Economizei 10 rupias. Então me levanto e decido assistir a
um filme na cidade. Isso me arejará as idéias e, além disso,
o cinema é uma distração popular na Índia. Miseráveis
como eu podem ir, minha presença não chocará.

Ando na direção de Godhaulia, onde há vários cinemas.
Tenho sorte, o cinema Sarasvati passa Sangit (Música). É o
novo filme de Madhuri Dikshit, minha atriz indiana
favorita.
Pago nove rupias e cinqüenta por um lugar no térreo, para a
sessão de meio-dia, e entro. Antes sempre comprava
balcão, porém custa mais três rupias.
A sala está repleta embaixo. Uma fossa. Reina um calor
abafado e úmido; fede a suor, todos os assentos estão
rasgados e a mola arranha nosso traseiro.
De repente, a tela se ilumina e me esqueço de tudo o mais.
De tudo que faz parte da existência de Ram Munda.
E digo imediatamente: este filme é mágico. Sinto-me como
um menino vendo um desenho animado de Walt Disney.
Até mesmo muito melhor, pois Madhuri Dikshit ocupa toda
a tela. Quando dança a canção Eu sou sua!, causa mais
efeito que Cinderela e Branca de Neve juntas. Descubro
que ainda sei reconhecer uma coisa boa quando a vejo.
Madhuri, com um pequeno corpete e uma saia vaporosa,
dança, salta, gira o traseiro e mexe os seios enormes. Isso
me proporciona uma sensação deliciosa de vertigem na
cabeça e no baixo-ventre. Não sou o único a imaginar que
Madhuri é minha. Na sala, os espectadores assoviam e
gritam de prazer: "Madhuri! Madhuri!" Esta bestialidade
me lembra o refrão de Ty Ty, o herói de Erskine Caldwell
em seu romance Le Petit Arpent du bon Dieu: "Quando um
homem vê uma bela mulher, sente vontade de se abaixar e
lamber-lhe alguma coisa." Madhuri liga multidões de
indianos, isto é, milhões de homens. Não é pouco.
Em Sangit, seus fãs se deliciam. Ela desempenha dois
papéis e o super-herói, Jackie Shroof, é seu parceiro. É um
filme de superstars, como se diz em hindi.
Madhuri interpreta uma jovem cega, dançarina em um
show para voyeurs. Jackie Shroof, um cantor pobre de bom
coração, tira-a desse trabalho humilhante e acolhe-a no
depósito em que vive como mendigo. Eles se apaixonam e,
depois de vários imprevistos, segundo o eterno esquema
"perdido-achado" do cinema hindi, a bela cega reencontra,
graças ao menestrel, sua mãe, que é milionária e também
interpretada por Madhuri Dikshit caracterizada. No final, a
dançarina se casará com Jackie Shroof e sua virtude e posi-
ção social serão recuperadas.

Sem dúvida, vocês consideram essa história fraca. Eu
pensaria o mesmo há 10 dias, e só teria gostado das
seqüências de dança. Há três meses zombei de Reta, outro
filme de Madhuri. Eu me perguntava se na cabeça dos
indianos não havia nada além de piolhos para verem e
reverem um filme tão ruim.
Lamento minha maldade.
Hoje sou indiano e não me acho menos inteligente. O
cinema hindi me comove. Profundamente. Mergulho na
intriga e sonho. Deixei de reparar nas deficiências técnicas,
na inverossimilhança e na ingenuidade do roteiro.
No universo maravilhoso de Sangit, os mendigos são
civilizados e se vestem de modo asseado. Freqüentam as
pessoas ricas que moram em mansões dignas de Beverly
HilIs. Não há montes de lixo nas ruas, nem vacas famintas,
nem poluição sonora, e os casebres, hospitais, escritórios e
lojas são organizados. Cada coisa em seu lugar, limpa,
asseada. Uma Índia feérica. E, na pele de Ram Munda, eu a
confundo com o mundo real, pois o roteiro aborda
problemas sociais verdadeiros, conhecidos de todos.
Por exemplo, na última parte do filme, Jackie Shroof quer
implantar novos olhos em Madhuri. Ele mostra a um
médico uma matéria na revista Índia Today, sobre o
comércio dos implantes. Vemos um corpo humano com as
etiquetas dos preços dos diversos órgãos negociáveis: um
olho, 80.000 rupias; um rim, 27.000; um pedaço de pele,
1.000. Sei que na Índia os pobres vendem a pele, que
servirá de enxerto para doentes ricos. A idéia de
automutilação por motivo econômico me confunde, mas,
como sempre, no cinema hindi, os problemas se sublimam
a algo positivo. Por amor a Madhuri, Jackie Shroof propõe
se suicidar e lhe legar os olhos. Claro que ela não
permitirá...
Durante três horas, vivo no mundo de Madhuri e de Jackie
Shroof. Um mundo de amor, de beleza e de justiça. Era
exatamente o que eu precisava para escapar de minha
existência miserável. Esqueço os 10 dias na pele de Ram
Munda: todas as humilhações, a mendicância, o desprezo, a
solidão, a sujeira, a falta de dormir, o macadame, o barulho,
o purê de lentilhas, a água da bica, as lições de moral.

6-7 de novembro

Chega o inverno. A cada noite a temperatura é mais baixa.
Neste momento deve estar próxima dos 10 graus.
Não é uma suposição vã da meteorologia. Faz frio e, à
noite, me deito na estação. Estou bem aqui e não aprenderei
nada de novo ficando ao ar livre entre os musahar que me
ignoram.
Estendo-me sobre a plataforma. São cobertas por telheiros
e os quiosques e armazéns me abrigam do frescor noturno.
A estação se revela menos ruidosa que o átrio. Centenas de
passageiros esperam com suas malas e trouxas, mas estão
tranqüilos e o estrépito dos trens que passam não me
incomoda. É momentâneo e logo volto a dormir.
Não estou só, estendido sobre o macadame. Dezenas de
outros pobres se instalam nas plataformas. Ao contrário dos
habitantes do átrio, muitos não estão com a família. São
homens como eu, solitários e na força da idade. Eles
ignoram uns aos outros e não parecem pertencer a uma
casta particular. Mais uma vez, ninguém me expulsa,
ninguém fala comigo, ninguém me olha.
Faz exatamente uma semana que esmolo na estação. E
continuo. E nada de novo. Exceto que começo a jogar na
loteria. Uma multidão de pobres tenta a sorte para sair da
miséria e eu também quero tentar essa solução. Se chegar a
ganhar, nem que seja algumas centenas de rupias, não
precisarei esmolar durante um mês. Seria bom. Digo a mim
mesmo que terei sorte nessa aventura.
Em Benares, podem-se comprar bilhetes de loterias
privadas e do Estado, nos quatro cantos da Índia. Isso
representa cerca de 80 sorteios diários e existem bilhetes de
todos os preços, de uma a 500 rupias. Em cada cruzamento,
tendas e vendedores ambulantes os vendem, e alguns
trabalham 24 horas por dia. Sempre têm clientes.
Compro meus bilhetes em um dos comerciantes diante da
estação. Todo dia, escolho dois da loteria Raj Shree, duas
rupias cada um. É um investimento razoável e o primeiro
prêmio é de 100 mil rupias, isto é, quatro mil dólares. É
claro que, se ganhasse, o curso de minha metamorfose seria
alterado. Poderia viver na pele de um intocável rico.
Deixaria de mendigar, alugaria um apartamento e, depois,
investiria meu dinheiro. Principalmente, veria como tratam
um intocável bem-sucedido.
Tudo isso é um sonho. A loteria Raj Shree emite quatro
milhões de bilhetes por sorteio e tenho poucas chances de
escolher o número vencedor. Mas nunca se sabe,
evidentemente. Atrevo-me a sonhar...
Diante de cada vencedor da loteria, um ajuntamento de
dezenas de jogadores se forma permanentemente. Somente
homens. Pobres, sujos e vestidos de lungi, como eu, outros
de calça e camisa, pertencentes às classes médias. O vício
do jogo os reúne. Comentam os resultados da véspera e
discutem as probabilidades deste ou daquele número
oferecer-lhes um futuro promissor. Como se a loteria
obedecesse a regras científicas!
Enquanto esperam obter o primeiro prêmio, falam de
receber somas menores. Calculam o último algarismo do
próximo número vencedor. Oferece 16 rupias por um
bilhete de duas rupias, isto é, 14 rupias de lucro. Nada mau
se compramos vários bilhetes com o último algarismo
certo: na falta de fazer fortuna, pode-se obter uma renda na
loteria. Evidentemente, para repetir isso todos os dias, é
preciso fazer bons cálculos. Senão, com uma chance em 10
de encontrar o último algarismo e o ganho de oito contra
um, logo perdemos o que temos.
Os jogadores que calculam são como que "profissionais" da
loteria. O que não quer dizer que vivam disso, mas que
simplesmente tentam obter o máximo de renda com seu
investimento. Quando compro meus bilhetes, eu os ouço
dizer que aproveito alguma informação eventual e, a partir
daí, escolho os bilhetes. Por exemplo, o sujeito alto e
magro de calça e camisa. Ele estuda uma lista comprida de
resultados e os bilhetes da loteria Raj Shree expostos, lado
a lado, sobre a bancada. E diz:
- Há duas semanas o sete e o dois não saem.
- Sim, vão sair - responde um outro, mais baixo e de lungi
sujo. - É óbvio. Se tivesse dinheiro, compraria dois bilhetes
de dois e mais dois outros de sete. Metade. Metade.
- E se daria mal. Temos de jogar nas loterias do governo. A
Raj Shree é particular. Se há duas semanas o sete e o dois
não saem, é impossível que não tenha havido fraude.
- Ei, você, pare de falar bobagens! Você está mal da
cabeça. Se manda! - diz o vendedor, um jovem elegante de
cerca de 20 anos. É claro que não há fraude. Acontece a
mesma coisa em todas as loterias. Os números saem
periodicamente. Tem-se de jogar por muito tempo para se
ganhar. Caso contrário, seria fácil demais.
- Sim, mas assim é pior, gastamos todo nosso dinheiro.
Depois, nos endividamos para recuperá-lo. Ficamos
arruinados e alguns até mesmo se suicidam.
- Já disse para cair fora! Sua cabeça não pensa direito. Por
que vem aqui, se só critica a loteria?
- Gosto de jogar, ora essa! É o meu vício, jogo qualquer
coisa.
Tenho um segredo...
- E qual é? - pergunta o magro alto.
- Não posso dizer.
- Por quê? Já ganhou muito?
- Não. Mas o que me interessa é uma soma grande, e sei
que vou ganhá-la um dia.
A essa altura, todos riem, e o que conta vantagens
acrescenta:
- Então, paro de jogar e recupero todo o meu dinheiro!

Fico sabendo que um jornal cotidiano especializado, que se
chama Lakshmi, a deusa da fortuna, é publicado todas as
noites em Benares para aconselhar os jogadores de loteria.
É um panfleto de quatro páginas e garotos os vendem na
rua, como se fossem pães. Eu o compro. Na primeira
página publica a foto de uma atriz e notícias gerais
picantes. As outras três páginas dão os resultados do dia,
além das chances do dia seguinte para cada sorteio.
Também recapitulam, em tabelas, os resultados das últimas
semanas para poder estabelecer os prognósticos.
Evidentemente, não ganho nada. Pensava em pelo menos
ter a chance de acertar o último algarismo e receber 16
rupias. Eu me enganei. Em dois dias, perdi oito, ou seja,
uma diária de esmolas.
Não acho nada engraçado.
Além disso, os prognósticos do jornaleco eram ruins. Os
dos jogadores profissionais também. O dois e o sete
continuaram sem sair.
Como fui idiota arriscando meu dinheiro na loteria! Não há
esperança. É só uma peça pregada nos pobres. Não vou
jogar mais.
Com oito ou 10 rupias, eu vivia bem, de verdade.
Comia ao meio-dia e à noite. Ao querer ganhar um monte
de dinheiro, acima da armadilha da fortuna, só me resta
com que pagar uma refeição por dia. Que cretino! É como
nos molharmos com a chuva, não tenho com quem
lamentar. E ninguém para me consolar.

8 de novembro

Nunca gostei de contar vantagens, nem de lamentar minha
sorte. Mas, no momento, minha aventura se torna muito
penosa. Sinto-me mal! Tenho vontade de chorar, de bater a
cabeça contra a parede. Como quando era garoto e alguma
coisa me exasperava. Vontade de esquecer, de dormir para
sempre. Quando? Um dia. Será a morte.
Minha morte.
De tanto repetir que morrerei um dia, a pouca energia que
me resta se exaure. Só penso nisso desde ontem. Consegui
mendigar de manhã, mas me sinto tão fraco, tão cansado.
Talvez isso também seja devido à carência de vitaminas na
minha alimentação.
Não sei. Digo a mim mesmo que passo tempo demais na
estação e saio para andar pela estrada nacional Délhi-
Calcutá.

Tinha razão.
Ver os caminhões passarem, respirar o gás que lhes escapa,
constatar que os táxis triciclos estão em greve, protestando
contra a criação de um serviço de mini-ônibus na cidade, e
formam barreiras para impedir os riquixás de trabalharem,
tudo isso me areja a cabeça.
Caminho, saboreio a cidade e, quando descubro a presença,
lado a lado, de três salsicharias, percebo que o curso do
meu dia mudará. Volto a ter vontade de viver. Por quê?
Porque sinto os aromas de comida, de temperos e de carne
misturados, que me atingem direto o coração.

Quero me estender sobre este assunto.
Quando um homem está realmente reduzido ao desespero,
só resta a comida, a embriaguez ou o sexo para reconciliá-
lo com a vida.
Elimino imediatamente a embriaguez e o sexo. E não
porque estes dois prazeres sejam difíceis de se obter.
Em Benares, o álcool e, até mesmo, a droga são vendidos
livremente em lojas do Estado - o que já comentei -, mas
não me seduzem. Quanto ao sexo, sei onde encontrar uma
mulher indiana. Uma jovem e bela, que sabe excitar e por
apenas cinqüenta rupias, isto é, dois dólares.
Não conto lorotas.
Há em Maruadi. Muitas. Perto da grande usina de
locomotivas, em uma viela lamacenta. A cada 200 metros,
uma centena de garotas de tudo que é tipo se alinha diante
de barracos de quatro metros quadrados, para onde atraem
os clientes. Parecem os bordéis de Taipei ou Seul. Os
fregueses se fecham com a mulher durante cinco a dez
minutos, o tempo mínimo para se despir e se satisfazer,
pois, sob ele, rígida como uma tábua, ela o incita a
concluir.
Atenção, meu propósito não é denegrir os que pagam para
fazer amor em cinco minutos, em um barraco. Um breve
encontro pago pode proporcionar prazer, e não quero
tampouco parecer moralista. Descrevo Maruadi para que
saibam como é e que ali posso encontrar uma mulher que
me agrade. Se eu quiser.
Em Maruadi, há realmente muitas escolhas. Brancas e
negras. Impúberes e na menopausa. Impetuosas ou não.
Algumas têm as feições arianas, outras sino-tibetanas, que
chegam dos confins da Índia. Hindus e muçulmanas. Eu sei
disso, fui até lá em agosto e falei com algumas. Queria dar
uma olhada, estudava a sociedade indiana, preparava a
minha metamorfose. Aliás, Gloire me acompanhou, pois
essa viela vale ser vista pelo turista que está em Benares.
Tanto quanto as margens do Ganges.
Ali verão adolescentes com um bebê no colo convidar
passantes. Verão outras ainda mais jovens, com um sári
como o das adultas e maquiadas exageradamente, tão
jovens que o bico dos seios só ergue ligeiramente a seda
sintética do corpete.
Uma puta que trabalha com o filho nos braços não me
excita. Ainda assim, deve atrair outros homens, já que se
oferecem dessa maneira. A propósito de meninas
prostituídas, uma crença indiana diz que a relação com uma
jovem virgem aumenta a potência sexual e cura as doenças
venéreas.
Essa é a riqueza de Maruadi. Há para todos os gostos. Mais
que em todos os Pigalles, Sohos, Mabinis e Patpong do
mundo. Uma diversidade à imagem da Índia. Estou certo de
encontrar uma jovem graciosa, com a tez de trigo maduro e
um peito firme e farto. Mas me sinto sujo e cansado demais
para fazer amor. Além disso, ficaria constrangido de baixar
as calças, pois sou bicolor, meu traseiro e meu sexo são
brancos. Além do mais, e principalmente, não sinto vontade
de trepar. Exceto com Gloire, minha mulher. Sou do tipo
fiel. Falo de outras mulheres, mas a idéia de enganar Gloire
me repugna. A sensação de trair nosso amor destrói meu
apetite sexual. Não irei a Maruadi.
Esqueço o sexo. Só me resta a comida para me reconciliar
com a vida.

Retorno às salsicharias. A exposição de mercadorias não se
parece com a de Fauchon. Estão instaladas sob abrigos de
tijolos, sem vitrina, sem porta, sem balcão. Apenas um
telhado, duas paredes, uma de cada lado, e uma plataforma
de cimento de cinco a seis metros quadrados. Uns dois
açougueiros, de peitilho de camisa e lungi quadriculado,
sujos de gordura, estão sentados no meio de dezenas de
pedaços de porco fresco. Eles os cortam em cubos para
cada cliente com um facão em forma de croissant, que
seguram entre o polegar e o indicador do pé direito,
trazendo a carne para perto, para cortá-la na lâmina. Sobre
o estrado, também há uma panela cheia de curry de porco, e
cheira bem. Ao lado, várias lingüiças cozidas estão
enroladas. Toda essa carne atrai as moscas, mas ninguém as
espanta. Os cachorros vadios, sarnentos, que se aventuram
a permanecer perto do estrado, têm menos sorte e levam
pontapés no traseiro.
Para mim, essas salsicharias são preciosas. Em Benares,
cidade de 800.000 habitantes, os comerciantes de carne de
porco se contam nos dedos. Não vi nenhum na estrada de
Ram Nagar, e meus amigos varredores, da Ravindrapuri,
disseram que havia em Maruadi, entre a usina de locos e as
garotas. Isto é, nos bairros afastados do centro da cidade. O
porco é destinado aos intocáveis, e seu comércio é ainda
mais raro, mais desprezado que o das outras carnes, já
discreto nesta cidade hindu santa.
Passo diante das três salsicharias, depois volto atrás e entro
na última, onde há mais fregueses, uma dezena, a maioria
de lungi sujo.
Em frente ao estrado em que os dois açougueiros trabalham
encontra-se uma mesa baixa onde se senta. Lá um velho
come uma porção de lingüiças cortadas em rodelas. E
servidas em um pequeno prato de folhas, que segura com a
mão esquerda. Com a outra mão, a pura, cata rodela por
rodela. Saboreia com calma e peço a mesma coisa. Parece
mais apetitoso que o curry na panela. O açougueiro, um
jovem ossudo, de pele escura, conversa ao me servir:
- Não é daqui?
- Sou de Bihar.
- Ah! Achei que era do Rajastão. Não tem o sotaque do
Bihar...
- É porque sou do Jharkhand, da selva. Sou um aborígine. -
Certo - disse sorrindo. - Sabe, nós também somos
aborígines.
- Ah? Qual é a sua casta? - Sou sonkar.
É a casta intocável dos comerciantes de legumes. Soube
que também se chamava khattik e que a palavra significava
"açougueiro" em sânscrito. O rapaz me explica que todos
os salsicheiros do lugar são sonkar, mas que não é
necessário sê-lo para vender porco.
- Come porco na selva?
- É claro... Diga-me, só os filhos de Deus compram carne
de porco em Benares? - pergunto isso para ver se um
salsicheiro o confirmaria.
- Sim, e os cristãos e os estrangeiros... Sabe, somos todos
aborígines, somos todos iguais.
Ignoro por que ele me diz essa frase gentil, mas me
comovo. Ele me estende a porção de 100 gramas de
lingüiça quente, lhe dou quatro rupias, depois me sento à
mesa. E degusto.
Sim. É requintado. É sublime.
É melhor que tudo que comi até agora. Melhor que o
salsichão da montanha e o presunto de todos os países.
Melhor que a lingüiça de Guémené e outras.
Eu acho.
É uma lingüiça especial. O clássico recheio das tripas é
adicionado de sangue coagulado, pimentões verdes e folhas
de coentro. Tudo picado e enfiado nas tripas, depois
cozido. Ao lado da mesa, há um sujeito sentado no chão,
com um gorro na cabeça. Ele recheia as tripas e, de vez em
quando, se levanta para mexer as lingüiças que cozinham
na água, sobre um fogão de barro.
Essa iguaria tem gosto de chouriço. Contudo apimentada,
com sabor adocicado de morcela e o aroma anisado do
coentro, que combina tão bem com as carnes. Isso me deixa
um gosto novo e picante na boca. Ele se manterá até o final
da tarde, com agradáveis arrotos de carne de porco, que
sobem do meu estômago saciado.
Agora me lembro. Raja Ram, meu irmão dom, havia me
falado dessa lingüiça. Os intocáveis, em Benares, a
preparam também em casa, e ele tinha acrescentado que
quente ou fria, mas bebericando álcool, a lingüiça que fazia
proporcionava a quem a consumisse um gosto antecipado
do nirvana, uma espécie de orgasmo gustativo.
Mesmo sem beber, confirmo essa sensação de prazer total
na boca.
Sinto-me bem. Como na França. Reencontro os sabores de
minha existência anterior e isso me lembra o prazer de
viver. Também me obriga a reconhecer que sempre pertenci
ao povo dos intocáveis. Sempre gostei das coisas impuras:
o vinho e o porco. Em francês, em chinês, em Ram Munda.
E minha mulher é intocável, e meus pais, e meus sogros, e
meus amigos. Eu já convivi com pessoas da minha casta.
Todos estrangeiros, bárbaros. Não é nada surpreendente
que compartilhem o mesmo gosto pela comida que as
populações menos civilizadas da Índia.
Sempre fui intocável e, pela primeira vez desde o começo
dessa metamorfose, não sinto vergonha.
Observem as castas elevadas; suas guloseimas são os doces,
laticínios, bolos pastosos, viscosos, enfarinhados,
repugnantes. Aí está o que é necessário para organizar uma
festa segundo a ideologia dos brâmanes. Lamentável!
Na casa dos intocáveis, o prazer vem antes da pureza
religiosa. Viva a carne! Viva o vinho!
Existem autênticas especialidades culinárias intocáveis.
Assim foram os pratos do banquete na casa de Raja Ram,
quando nasceu sua filha.
Assim é a lingüiça. Que delícia! Mas é possível imaginar
um prato mais impuro? Como podemos comer a carne que
continha os excrementos de um porco? É preciso ser tão
sujo quanto esse animal para se rebaixar a comer isso. Por
exemplo, ser francês, chinês ou indiano intocável. É
repugnante para um hindu da casta alta. O que lhe
responder?
Eu não sei.
Ou então: a lingüiça é gostosa e isso me basta.

Os hindus de casta elevada são anormais, eu acho. Sua
busca da pureza é incoerente, assim como toda conduta
orientada por religiões, pelo irracional. Seguem uma dieta
vegetariana e sem álcool, mas consomem drogas à base de
cannabis. Eles me fazem rir. Os mais ortodoxos não comem
sequer cebola ou alho, pois estes dois legumes são
considerados impuros.
Para eles, o açúcar e os laticínios constituem os alimentos
mais saborosos. Entendo sua visão. Dizem isso porque não
conhecem mais nada. Preferem o leite ao vinho, mas nunca
beberam álcool. Idem para os doces. Como podem afirmar,
sem nunca ter experimentado, que a carne não lhes faz
falta, pois, afinal, seu sabor é ruim?
Evidentemente, não falo da multidão de hipócritas
abençoados que comem carne de cabra ou de frango e se
embriagam às escondidas. Não são uma minoria. Entre
todos os indianos de casta superior que conheci desde
julho, um em dois se revela um trapaceiro quando o
conheço melhor.
Assim foi com meu professor Maurya.
Também com o rico R. S. Agraval, cunhado do meu
vizinho, secretário do Lions Club desta cidade. Em 7 de
outubro, passamos a noite em seu carro, rodando pelo
subúrbio de Benares, esvaziando meia garrafa de Bigpiper
Gold, uísque indiano, caro e bom. Dirigia com o copo em
uma mão e a outra no volante, e contávamos o tipo de
besteiras que dois caras de porre gostam. Comparávamos as
formas e medidas das mulheres indianas e ocidentais, a
consistência dos seios, o que fazem na cama etc. Na época,
ele me pareceu mais humano. Hoje, quando penso em R. S.
Agraval, revejo o homem que despreza e maltrata seus
empregados de casta baixa. Detesto os que pisam nos
outros. Por puro prazer. Apenas para obter vantagem de
conforto. É ignóbil.
A sociedade dos brâmanes, fechada e intolerante, incita as
pessoas de casta alta a desempenhar um papel duplo.
Vendem gato por lebre, assumem uma aparência honesta,
civilizada e nos difamam, nós, os intocáveis. A única coisa
que os difere de nós é a hipocrisia.
Não são mais puros. Descobri a que lado pertenço e não me
sinto inferior. Não tenho mais vergonha de minha
intocabilidade, de minha barbárie.

9 de novembro

Exceto o alimento, não tenho mais desejo, e volto, ao meio-
dia, para comprar outra porção de lingüiça.
Continua esplêndida.
Saindo da salsicharia, me deparo com meu amigo Harilal, o
barbeiro do ghat Assi. Ele parece estar esperando um
ônibus ou um triciclo coletivo. Senti medo que me
reconhecesse. Mas, não, passo por ele, que não presta a
menor atenção em mim. Escapei de boa.
Volto à estação e esmolo até o crepúsculo.
Desenvolvi um gosto especial por essa hora do dia. É a
mais agradável. Uma recompensa. Eu a espero desde a
manhã. É magnífica. Significa minha libertação.
Mais um dia na pele de Ram Munda se passou. Logo irei
dormir. Depois, o tempo transcorrerá por si mesmo, até o
amanhecer. Eu não me entediarei, não precisarei me
alimentar, não mendigarei, não serei desprezado.
No Ocidente, o pôr do sol indicava o início da segunda
parte de meus dias, uma vida noturna, social, palpitante,
familiar, amorosa. Na Índia, o escurecer anuncia o repouso
dos homens. A cidade vai se deitar. Sono e esquecimento.
Um pouco de felicidade esperando as primeiras luzes que
clarearão o horizonte a leste. Depois será o grande fogo da
aurora e o momento de retomar minha existência de
cachorro.
Odeio o sol.


10 de novembro

Na França, li que os indianos eram tolerantes e não
violentos. Para saciar meus prejulgamentos sobre o país de
Gandhi, aceitava esses clichês: correspondiam à minha
visão da Índia. Ai de mim!
Minhas leituras me enganavam. Mentiam.
Eu era ingênuo.
A tolerância indiana de que os ocidentais falam não passa
de uma profunda indiferença pela sorte do outro, e esta
sociedade é, sem dúvida, a mais violenta do mundo. Os
poderosos tratam os pobres como escravos. No outro
extremo, a pior miséria e a submissão dos indivíduos
explodem repentinamente em violência total, irracional.
Por quê?
Não analisarei nem a violência dos textos sagrados, nem a
intolerância do sistema de castas, nem o egoísmo hindu.
Contarei o que vejo. Muitas vezes.

A noite.
O sol acaba de se pôr e erro pela plataforma número um.
Um sujeito alto, na faixa dos 30 anos, usando camisa e
calça limpas empurra um rapaz magricela e mais jovem. Ele
tem a. pele mais escura e sua camisa e calça estão muito
sujas.
O de compleição mais forte dá murros no peito e na cabeça
do outro, o empurra com as duas mãos e o derruba. O
menor torna a se levantar; o maior recomeça a bater nele.
Não estamos em um ringue de catch. Não é encenação. O
maior bate com toda força. É impressionante e somos uns
20 espectadores à volta deles.
O jovem está com a cara arrebentada, a camisa rasgou-se
nas costas. Tem sangue nas mãos, em torno da boca e dos
olhos. Não é nada agradável olhá-lo. Mas ele não ousa
reagir. Coloca os braços sobre o rosto para amortecer os
golpes e o grandalhão o puxa pelo pescoço, gritando:
- Onde está a polícia?
Dois sujeitos saem do grupo dos espectadores e começam
também a surrar o pequeno, que continua sem se defender e
que está em péssimo estado. Cada vez que cai no chão, os
dois chutam sua cara.
É muito interessante e o público vem assistir. A partir daí,
somos, no mínimo, uns 50 espectadores.
É melhor que no cinema. Há tumulto, mas em três
dimensões e com sangue de verdade. Além disso, não se
conhece o epílogo da cena. Suspense. O maior vocifera sem
parar de bater:
- É um ladrão! Eu estava comprando a passagem na sala de
guichês e, de repente, senti uma mão puxando minha
carteira da calça. Era a mão desse safado! Safado!
E desfere um murro que lança mais uma vez o safado no
macadame. Todos os indianos sabem: o ladrão que é pego
em flagrante é um desgraçado. Apanhará de sua vítima e
talvez seja linchado pela multidão, frustrada e ávida de
sensações.
É a mesma coisa para o motorista que provoca um acidente,
danifica outro veículo ou atropela um pedestre. Tenha ou
não razão, não foge, está acabado. Os passantes, ignorando
totalmente a lei de trânsito, só vêem que há vítimas. Pouco
confiantes na justiça oficial, querem representá-la
imediatamente e surrar o suposto mau motorista.
Liberar-se.
Os dois espectadores saídos do grupo revezam com o
grandalhão quando ele perde o ritmo para corrigir o infeliz
ladrão.
- Safado! Queria roubar! Safado!
As pessoas de Benares gostam desse insulto. Entre um
golpe e outro, o jovem ladrão choraminga, com as mãos
juntas:
- Eu não queria. Eu também estava comprando uma
passagem. Não tenta revidar os golpes, não se insurge
contra os murros que recebe. Se fosse inocente, deveria
reagir. Mas ele implora, espera que o grandalhão pare de
surrá-lo e o deixe ir embora. Sabe que essa sova é apenas o
antegozo da festa que o espera com os cães de cáqui.
É assim que chamamos os policiais em Benares. Cães
porque são brutais, servis e corruptos. Cáqui porque esta é
a cor de seu uniforme.
Em nenhum país as pessoas gostam dos policiais. Na
França, são tidos como preguiçosos, acomodados, nunca
estando onde se precisa deles. Na China, também são
chamados de cachorros, são temidos e percebidos como
uma polícia política que se ocupa da vida particular das
pessoas.
Na Índia, é pior. Não apenas não protegem como não
respeitam a lei e lhe fazem mal. O cão de cáqui é quem lhe
extorque dinheiro para registrar uma queixa, quem lhe bate
com o cassetete se dirige mal sua bicicleta, quem extorque
o comerciante, quem lhe surra se você é detido, que estupra
sua irmã se ela for pedir ajuda. Não estou exagerando.
Todos os dias, os jornais relatam histórias de estupro e
torturas nas delegacias. Todas impunes.
A imprensa também denuncia o descaso da polícia que
protege criminosos em troca de gratificações. A rotina. Na
Índia, policiais, bandidos e políticos ocupam empregos
intercambiáveis, e os três são recrutados freqüentemente
entre os brâmanes e os kshatriya, as castas superiores e
privilegiadas dos sacerdotes e guerreiros.
Piadas circulam sobre os cães de cáqui. Exemplo:
- Por que são geralmente representados no cinema como
personagens negativos, cobiçosos, alcoólatras e violentos?
- Porque não se pode fazê-los desempenhar sempre papéis
ruins!
Não há nada de bom em um policial. Nenhuma proteção a
esperar. Diante de nós, o jovem ladrão sabe que esses
golpes são carícias perto do repertório que o espera se for
parar no comissariado da estação. Implora perdão de
joelhos, repetindo que não é ladrão. Ele tem realmente
medo e sinto pena dele.
Aí está. Tarde demais. Um policial atravessa o grupo de
pessoas com seu inseparável cassetete, símbolo da justiça
na Índia.
- O que está acontecendo?
- Este safado tentou roubar minha carteira - responde o
grandalhão.
- Não, não é verdade. Eu apenas estava atrás dele na fila
para comprar passagem.
- Este safado me roubava, inspetor.
- Não...
- Cala a boca, safado! - interrompe o policial, batendo em
seu traseiro com o cassetete.
Gostaria de revelar que diz a verdade, mas não sei. E, além
do mais, a culpa ou não do jovem bastaria para justificar
toda essa violência?
O tumulto recomeça. E pior. Outro policial se junta ao
primeiro e os dois compadres pegam o jovem ladrão e lhe
desferem golpes de cassetete nas costas e braços para que
avance na direção do comissariado, na plataforma número
dois.
Espetáculo atroz. Erguem alto os cassetetes para baterem
mais forte e, a cada golpe, o ladrão se curva e avança meio
metro. O público sobressalta-se. Eu também. Imagino o
cassetete caindo sobre meus músculos. Também há os
gritos e sangue do jovem ladrão. Sinto a sua dor.
Ninguém interfere. Ninguém detém os policiais. Amanhã,
talvez seja a minha vez de ser a vítima de sua justiça
sumária. Tentarão quebrar minhas costas de intocável com
golpes de cassetete e ninguém os deterá.
Esta noite tenho medo. Não me sinto mais em segurança na
Índia.

11 de novembro

Na minha vida, é difícil saber quem é quem, quem é o quê.
Como reconhecê-los? Há, até mesmo, mulheres verdadeiras
e falsas. Com vaginas verdadeiras e falsas. Sim.
Em Benares, cruzo freqüentemente com eunucos na rua e,
hoje de manhã, pela segunda vez, um deles me mostra seu
sexo.
Querem saber com que se parece o sexo de um eunuco?
Muito bem, eu diria um sexo imberbe de menina.
Vou contar a cena.
Saboreava um chá à beira da estrada Délhi-Calcutá quando
um eunuco passou. Alto, musculoso, na faixa dos 30 anos,
cabelos compridos, exageradamente maquiado e usando um
sári vermelho. Rebolava ao andar. Era ridículo.
Atrás de mim, um sujeito assoviou e lhe perguntou se tinha
um bur, gíria que quer dizer vagina. Todo mundo riu e,
então, o eunuco parou à nossa frente. Com um movimento
decidido, levantou o sári e o saiote e nos disse:
- Vejam se não sou uma mulher!
Ele, ou melhor, ela não usava cueca. Imediatamente nossos
olhos se depararam com dois lábios finos e vermelhos, de
três a quatro centímetros de comprimento, como que
costurados sobre sua bacia. Uma bacia de homem, reta e
chata. Sem pênis, sem testículos, sem pelos. Todos ficamos
boquiabertos.
Sanjay, meu professor de hindi, havia me explicado que os
eunucos andam sem cueca para poder exibir seu sexo
quando as pessoas os aborrecem. Isso acalma os outros, e o
castrado pode seguir seu caminho em paz.
Há realmente todo tipo de tolo em Benares.
Visitei mais de 30 países e esta é a única cidade do mundo
em que posso encontrar, a cada cruzamento, pelo menos
um guru, um filósofo ou um santo. Um verdadeiro ou um
impostor, como tudo o mais. Mas é menos fácil detectá-lo
que falsas mulheres. Talvez porque a maioria dos sábios é
uma fraude, ao contrário das mulheres.
Existem também os adivinhos, os curandeiros, os
astrólogos. Hoje de manhã, exatamente um pouco depois
do eunuco, juntei-me a uma centena de tolos que assistem
ao espetáculo de um mago, à beira da estrada. Trabalhava
com cobras e um mangusto. Eu os deixo livres para
acreditar ou não nesses poderes sobrenaturais. Ouçam-no:
- Vejam este mangusto. Pode pegar as cobras sem perigo.
Por quê?... Porque a Deusa Mãe o criou assim. Eu também
não temo a cobra, pois uso este amuleto que me concede a
proteção de Durga.
Ele exibe o pendentif em volta do pescoço. Dois tubos
finos de aço niquelado, de um e dois centímetros de
comprimento, soldados um sobre o outro. E conta lorotas e
mais lorotas. Na faixa dos 40, com calça e camisa
esfarrapadas, com um bigode que cai em pontas e sotaque
ríspido e autoritário. Sua tagarelice cativa os tolos. Decido
ficar, pois não tenho nada melhor a fazer. Esmolarei um
pouco mais tarde. Um trem a mais, um a menos, que
diferença faz?
Ouçam-no:
- Uma única mordida de cobra é suficiente para matar um
homem, mas, graças a este amuleto, não temerão mais nada.
Não riam!... Evidentemente, ele não os imuniza contra o
veneno da serpente. Só Deus tem este poder. Quando
chove, por exemplo, somente ele pode parar a chuva. Sim.
Mas vocês podem se abrigar sob um guarda-chuva. Pois
bem, meu amuleto funciona como um guarda-chuva, os
defende contra o mau-olhado, colocando-os sob a proteção
de Durga. Com este pendentif, as cobras não os atacarão
mais. E vou prová-lo. Agora mesmo. Mas, para isso, é
preciso fazer uma oferenda a Durga para atrair sua boa
vontade... Não pensem que o dinheiro de vocês me
interessa. Não. Dêem-me 10 ou 20 centavos, isso basta, é
apenas para fazer a oferenda a Durga. Depois, devolverei o
dinheiro. O que me interessa, meus amigos, é beneficiá-los
com este amuleto.
Ele parece sincero e uns 10 sujeitos dão as moedas. Dez
centavos não é nada. Eu também contribuiria para me
divertir, mas tenho medo de passar por uma situação
desagradável e fico passivo, um pouco recuado.
- Agradeço a todos as moedas. Agora observem, imploro a
Durga, nossa mãe divina, e abro esta cesta que contém uma
cobra. Ponho a mão dentro.
A serpente, perturbada, levanta-se e ataca a mão do
encantador, mas sem mordê-la. Impressionante.
- Agora acreditam no poder deste amuleto?
- Sim - o público responde em coro.
- Realmente?
- Sim!
- Aí está! Como prometi, devolvo o dinheiro.
E o devolve. Fico pasmo e os outros espectadores estão
igualmente surpresos. Nunca tinha visto um saltibanco
devolver o dinheiro. Talvez esse seja honesto.
Ouçam-no:
- Aqueles que estiverem interessados no meu amuleto
formem um círculo à minha volta. - Quatorze sujeitos se
aproximam. - Farei uma demonstração com um de vocês.
Quem é voluntário para tocar a cobra?... Ninguém?...
Então, escolho o mais jovem de vocês. Sua vida é a mais
preciosa. Você! - Um rapaz de 18 a 20 anos, bem-vestido,
de jeans e camisa pólo. Não parece um cúmplice. Sorri,
pouco à vontade, como se controlasse o medo. - Tome,
aperte o amuleto na mão. Acredita em seu poder?
- Sim.
- Então o prove, toque na cobra.

O jovem não se atreve e o mago pega sua mão e a coloca
sobre a cabeça da serpente. O animal não se mexe. É
espantoso.
- Agora todos acreditam no poder deste amuleto?
- Sim.
- Querem um?
- Sim.
- Não custa caro. Só uma rupia. Mas, se quiserem, podem
dar mais.
Parece um preço justo e alguns espectadores de fora do
círculo também pagam uma rupia.
- Juntei 26 rupias. Está bom. Mas respondam: acham que
com 26 rupias poderei comer durante um mês? - Todos
gracejam. - É claro que não. Então, há entre vocês quem
acredite tanto no amuleto que possa comprá-lo por 10
rupias e me ajude a viver? Cinco homens levantam a mão
sucessivamente. - Vocês cinco realmente têm fé. Eu lhes
agradeço. Mas fiquem tranqüilos, eu
disse que o amuleto custava uma rupia e não mudarei de
idéia...
Tira alguns amuletos de uma caixa de papelão. - Antes de
distribuí-los, tenho de explicar que possuem mais duas
qualidades além de proteger contra serpentes. Afastam o
mau-olhado e nunca mais ficarão doentes. É valioso.
Quando ficam doentes, o médico, além de esvaziar a
carteira de vocês, consegue curá-los para sempre?
Risadas aprovadoras no público. Não há um sistema
generalizado de seguro social na Índia e os tratamentos
custam caro para a maioria das pessoas, que acredita que
um mal rebelde ou incurável é devido a uma causa
sobrenatural.
- A terceira utilidade do amuleto é suja. Os garotos se
afastem, pois não é para vocês. (Três garotos maltrapilhos,
sem dúvida de castas inferiores, que observavam na
primeira fila, são afastados.) Este pendentif desenvolverá
sua potência sexual. Usando-o, poderão trepar durante o
tempo que quiserem. As mulheres de vocês vão gostar.
Emprega o verbo pelna, que significa "trepar" na gíria, e
faz o público sorrir. O que diz é cativante. Além do mais,
se for verdade, uma rupia é pouco para tanta coisa.
Lamento não ter comprado um amuleto. Só me resta
observar. O mago começa a implorar à deusa Durga em
uma língua incompreensível, sem dúvida versículos em
sânscrito. Stop! Ele se interrompe.
- Algo está errado. Sinto más vibrações na platéia.
Há alguém que deu uma rupia, mas que não acredita
realmente no poder do amuleto... Pois bem, que ele se vá,
não precisamos dele!
Ninguém se mexe. Suspense. Quem é o impostor?
O mago exige que todos aqueles que acreditam no poder do
amuleto o provem oferecendo 10 rupias para obtê-lo. Um
atrás do outro, uns 20 homens que pagaram uma rupia
desembolsam 10 rupias. Alguns fazem cara feia, mas não
ousam ir embora, confessar que não tinham sido sinceros.
Por fim, o mago diz:
- Acho que é você o impostor. Demorou a dar as 10 rupias.
Tem certeza que acredita?
- Sim.
- Pagaria 100 rupias? Não é nada, dadas as vantagens que
lhe oferece. Hein? Dê 100 rupias!
- Bom... Está bem - murmura o homem tirando uma nota de
100, isto é, dois dias de salário médio.
- Está bem, acredito em você. Guarde a nota, só o estava
testando.
Recusa a nota de 100, mas não devolve as 20 notas de l0
que recebeu.
Em seguida, age rapidamente. Torna a implorar a Durga,
depois distribui os amuletos e dispersa a audiência.
Bravo!
Em meia hora, conseguiu mais de 200 rupias. Uma trapaça
que começou com centavos e se concluiu com centenas de
rupias. Bravo!
Joga com a credulidade dos indianos nas forças
sobrenaturais. Quando o preço de um amuleto se elevou,
ninguém se atreveu a desistir, pois ninguém queria se
arriscar a atrair a fúria de Durga. A preocupação em não
perder o prestígio diante do público vem de muito tempo.
Eu sei. Na sociedade hindu, aprendi a ignorar meu amor-
próprio. Só existem deveres de casta e relações hierárquicas
entre os indivíduos.
Não há lugar para uma honra padrão.
Desse modo, os indianos mentem e contam vantagens sem
timidez, mas não gostam de jurar. Se juram, têm de dizer a
verdade e cumprir a palavra, com medo de desagradar a
Deus. O que é pior que todas as infâmias.

12 de novembro

Tanto na pele da Ram Munda quanto na de Marc Boulet
não acredito em Deus. Tampouco gosto de jurar. É
bobagem, mas tenho medo que isso me traga azar. Ainda
assim, às vezes sou obrigado a fazê-lo para que acreditem
em mim.
Foi assim nesta quinta-feira de manhã.
Juro que - e se estou mentindo que eu reencarne como
cachorro - na entrada da estação há um cadáver humano e
ninguém lhe presta atenção, a não ser uma vaca. Ela funga
em seus pés.
Está estendido de costas, com os olhos fechados. É um
homem pequeno, magro, de 30 a 50 anos, sem idade
definida, como é freqüente na Índia. Tem a tez cinzenta,
cabelos pretos, um pequeno bigode e uma barba grisalha,
de uns dois ou três dias. Uma dezena de moscas grandes e
azuladas cobrem seu rosto de traços finos. É repugnante.
Há quanto tempo está aí, apodrecendo sob o sol?
Seu corpo imóvel parece rígido e ainda não exala mau
cheiro. Deve ter morrido esta noite, enquanto dormia.
Um pano rosa desbotado cobre seu tronco e membros, que
parecem ossudos sob o tecido gasto. Uma sacola vazia e
rasgada, de plástico trançado, está dobrada sobre seu
estômago. Um pouco abaixo, uma trouxa de pano rosa, que
deve conter algumas roupas, está sob seu quadril e uma
tigela de alumínio se assenta sobre as pernas. Um velho
saco de juta esburacado, do tipo usado para batatas,
esconde seus pés.
Eu o observo atentamente. É a segunda vez que vejo um
cadáver na rua. A primeira vez foi também nesta estação,
em 26 de agosto do ano passado, na plataforma número
seis. Fazia dois dias que o morto apodrecia ali, na
indiferença geral, sob um toldo de plástico e centenas de
moscas.

O chá é muito caro na estação e no meio da manhã, ao sair
para comprar um, imediatamente reparei naquele cadáver.
Impossível não vê-lo. Está deitado aos pés da escada que
leva aos guichês, por onde o público passa. No meio do
caminho. Ainda assim, ninguém se detém para olhá-lo.
Sua morte não interessa. Quando a polícia vai retirá-lo
dali? Hoje? Amanhã? O que esperam todos aqueles
policiais da estação para pedir a autópsia, investigar a causa
da morte e cremá-lo?
Um arrepio de angústia atravessa minha espinha. Há alguns
dias sentia-me melhor, mas a ideia da morte voltou a me
dominar. Não passo de um indiano comum, como era este
cadáver. Se me acontece um acidente fatal na pele de Ram
Munda, se morro à noite, na estação, ninguém se ocupará
de meus restos. Minha carne fermentará sob o sol durante
horas, para prazer das moscas. Quando os policiais me
pegarem, nem mesmo conseguirão saber que sou francês.
Não carrego nenhum documento de identidade. Então
pensarão que sou um hindu e queimarão meu corpo no ano-
nimato, sem avisar minha mulher ou meus pais. Nunca
saberão o que aconteceu comigo.
Tudo confirma isso. Minha existência é inútil. Não sou
nada. Sem valor, sem direitos.
Por cobiça e por curiosidade, rompi com a doce existência
ocidental. Eu me detesto e mereço isso.
O dia todo repito isso. Sou um miserável e não posso
escapar da minha condição. Estou condenado.
Nenhuma esperança. Exceto morrer, deixar de existir. A
entrega.

Viver exige um esforço excessivo. E, além disso, de que
adianta? De qualquer modo, devo morrer. Melhor ser
fulminado logo. Infelizmente, não tenho a coragem
suficiente para me matar e não quero afogar minha aflição
nos prazeres da comida, do sexo ou da droga. Quero
permanecer consciente.
Nada me consola.
Nem mesmo após o pôr do sol. Durante o sono, a miséria
de meu universo não me abandona. Por volta da meia-
noite, na plataforma em que durmo, um homem bate em
uma mulher e seus gritos estridentes me despertam.
Eu a reconheço. É a velha louca, do nariz como bico de
águia. Ela mora nesta plataforma. Dia e noite, ela fala
sozinha em voz alta e canta besteiras e obscenidades. Ela se
alimenta dos restos que cata e veste apenas uma musselina
suja e transparente sobre a corcunda e as nádegas magras.
Não é agressiva, apenas maluca, mas um passageiro a está
esmurrando. Ele não sabe a diferença entre uma bola para
treinar boxe e uma louca. A cena me revolta e tenho
vontade de lhe sugerir que descarregue sua raiva num
ringue de verdade. Mas não ouso e observo, passivo.
Esse cara tem uns 30 anos e a tez pálida. Sua pequena
estatura acentua o porte impecável. Uma barba curta,
aparada, sapatos de couro polidos, calça preta e uma suéter
suntuosa de lã verde. Quando me deitei, há algumas horas,
reparei nele, sentado à minha esquerda sobre um oleado,
com sua mulher, um bebê e um jovem de 20 anos, pelo
visto seu cunhado, por causa dos traços semelhantes aos de
sua esposa. Ela é gorducha e usa óculos. Sem dúvida, uma
intelectual. Quer dizer, uma mulher educada, que trabalha
com a cabeça: funcionária de um escritório, professora,
com instrução superior... Um sári vermelho-sangue,
bordado de fios dourados, a envolve e cai com pregas
regulares, graciosas. Sinal de que pertence a uma casta
superior e abastada.
Um casal harmonioso. Chique e baixinho. Mas não se deve
julgar um homem por seu tamanho. Os corpos pequenos
podem ocultar grandes almas.
Não é o caso desse casal.
A louca está dobrada no chão, a alguns metros de onde
estão, e o homem confunde suas costas e cabeça com uma
bola de futebol. Não estou exagerando. O homem a chuta
com toda força.
Sua mulher o encoraja, e a velha para de gritar. Perdeu sua
energia de maluca. Arrasta-se sobre os braços e
choraminga. Como um golpe de caratê, o homem lança a
sola dos pés em suas omoplatas. Isso parece doer muito e
se passam três ou quatro minutos até que vários curiosos
intervêm:
- O que houve? - Ela nos insultou.
- Não precisa bater nela. Ela é louca. Não sabe o que diz.
Pare!
O carateca não escuta e, vlan!, aplica um golpe na cabeça
da velha, prostrada no chão, em posição fetal. Depois, um
golpe nas costas e nas nádegas ossudas. Ela volta a berrar.
Reconheço esses gritos agudos; se parecem com os de um
porco no abatedouro.
Quem sabe? Com a cabeça fora dos eixos, ela talvez ache
que é uma porca que vai ser degolada... Rio para tentar
esquecer o quanto essa cena é lamentável.
Mais dois golpes. Então os curiosos conseguem intervir, e a
velha escapa, se arrastando até a escada da passarela, onde
cai em prantos, como um bebê. Muitas lágrimas e soluços.
Os curiosos discutem com o carateca:
- Não precisava bater nela! Não sabe o que diz.
- Era preciso castigá-la. Ela nos insultou.
- Sim - diz a mulher do carateca -, esta louca nos insultou.
Mereceu apanhar.
- Está bem, acabou - suspira um curioso. - É verdade, não
podia insultá-los. Pior para ela!
Nesse momento, um cão de cáqui apareceu. O carateca,
convencido de suas boas razões, se explica e o policial
sorri.
- Agiu bem. Essa velha maluca aborrece todo mundo. É
preciso dar uma surra nela. - (No meio da escada, ela
percebe o policial e grita que o carateca quebrou sua
coluna.) - Ouça bem: se ela descer, sou eu que vou lhe dar
uma lição, e com meu cassetete. Agiu muito bem.
O policial e os curiosos vão embora, mas eu continuo a
escutar a velha chorar, enquanto o casal volta para o seu
lugar. Ele ajusta a gola da camisa e acende um cigarro. Ela
lhe dá os parabéns. Então desejo que um dia ela o irrite e
ele a surre com os punhos e os pés, já que aprova seus
métodos.
Ainda devo sentir como francês, pois aquele casal me causa
repugnância. A ordem indiana do mundo me revolta. Moer
de pancadas uma mulher, idosa ou louca: como se felicitar
por isso? Mesmo que os tenha insultado... Na Índia, parece
que a violência é a resposta para tudo. "Quero bater em
você!", os indianos estão sempre a repetir.

Egoísmo, desprezo, intolerância, hierarquia, beatice,
brutalidade. Tantas qualificações para a Índia e ainda não
consigo aceitá-las, mesmo depois de mais de 15 dias na
pele de Ram Munda. Na índia, o respeito e a piedade pelo
mais fraco não existem. São oprimidos, esmagados.
Os indianos acham que os ocidentais não têm respeito pelas
mulheres ao olharem direto em seus olhos e se sentarem
perto delas. Eles não olham diretamente para elas nem se
sentam ao seu lado, mesmo que sejam membros da família.
Por respeito, dizem. Besteira! Só o excesso de pudor
motiva sua moral. Ela proíbe qualquer sinal que desperte a
sensualidade e limita ao estritamente necessário as relações
sociais entre pessoas de sexos diferentes.
Segundo a tradição hindu, a mulher é apenas vício
concentrado sob o umbigo e um instrumento do diabo para
tentar os homens honestos. É preciso estrangular esse vício,
casando-a na puberdade. A mulher é comparada ao jogo e
ao álcool.
As célebres Leis de Manu, que datam de aproximadamente
2.000 anos e governam a sociedade hindu, estipulam:
"Deus atribuiu à mulher a cólera, a desonestidade, a malícia
e a imoralidade... Do nascimento até a morte, ela depende
de um homem: primeiro de seu pai, depois de seu marido e,
após a morte deste, de seu filho... Não tem o direito de
possuir bens." Atualmente, apesar da lei da sucessão hindu,
de 1956, que proclama a igualdade entre filhos e filhas,
estas nem sempre têm direito à herança e, submissas,
raramente reclamam na justiça.
É esse o respeito hindu pelo "sexo frágil"! São oprimidas,
esmagadas! Tradicionalmente, as viúvas deviam se
sacrificar na pira funerária do marido; foram os bárbaros
britânicos que aboliram esse costume civilizado no início
do século passado.
Os hindus não se sentam ao lado de suas mulheres, mas, se
só há uma cadeira, eles aí se sentam e as mulheres ficam no
chão. Comem antes delas e as trancam em casa - menos
entre os intocáveis, cujas mulheres gozam de uma posição
mais elevada; podem sair e até mesmo fumar e beber. Se
uma mulher comete uma falta - ou o que o marido
considera como tal, ele bate nela. Nem ela nem seus pais
podem se queixar, pois ela pertence ao marido, como se
fosse uma casa ou uma bicicleta. Ele tem o direito de
dispor dela como quiser e não pode ser criticado. As Leis
de Manu são claras: "Um marido, mesmo bêbado, leproso,
sádico ou violento, deve ser venerado como um deus."
Para um indiano, bater na mulher é mais moral, mais
respeitoso que olhar diretamente nos olhos a mulher de
outro. É asqueroso. Eu nunca conseguiria aceitar essa visão
indiana das mulheres. Dá vontade de vomitar. Choca-se
com toda a educação ocidental, igualitária, que recebi.
Mesmo em uma grande cidade como Benares, a maior parte
das mulheres "não intocáveis" não trabalha e é prisioneira
de seu marido. Penso na mulher do proprietário de onde
moro, na Ravindrapuri. Vive trancada em seu apartamento.
Nunca a vi fazer compras. Isso é considerado normal, e nas
lojas quase só vi homens e crianças, ou avós.
Certo dia, perguntei a seu irmão Sanjay, meu professor:
- Ela não sente vontade de sair?
- Não. Para quê? Tem de tudo em casa. De manhã, faz a
lista das compras e, à noite, seu marido traz o que é
preciso, ao voltar do trabalho. Não se incomoda que sua
mulher vá ao mercado?
- Por quê?
- Pode voltar três horas depois. Pode ir ao cinema ou
encontrar outros homens.
- E a confiança?
- Nunca se sabe... Por que deixa sua mulher beber e fumar?
- Como proibir o que faço?
- Certo. Mas na Índia as mulheres não gostam nem de
beber nem de fumar. É melhor.

Ele se esquecia dos 23% de intocáveis. As outras indianas
não gostam de fumar, tanto como certamente devem
detestar usar minissaia neste calor tropical. Nunca
experimentaram. A pressão social é muito forte.
Penso em Ram Singh, meu outro professor. Ele também me
perguntou por que sua mulher ia querer sair. Não ousei
responder "Para ir ao cinema ou tomar chá". Apenas disse:
"Para fazer compras."
- Ela é muito fraca para carregá-las - respondeu. - Além
disso, há muitos carros na rua, é perigoso e, com essas
jóias, se expõe aos ladrões. É melhor que eu faça as
compras. Se há urgência e eu não estou, minha filha vai à
loja de bicicleta.
- Você proíbe sua mulher de sair?
- Claro que não! Confio totalmente nela. No entanto, ela sai
pouco, porque não precisa. Já tem muito o que fazer em
casa.
Sem comentários.
O casamento hindu não passa de uma cantina e um local
para fazer filhos. Para o marido, sua mulher é uma
cozinheira e a mãe de seus filhos. Não uma amante. As
uniões são arranjadas e endógamas. O amor não os motiva
e, no dia seguinte às núpcias, somente uma relação
hierárquica, possessiva, liga o marido à mulher, como o
patrão ao escravo. Em seguida, o amor, a paixão, a amizade
podem nascer. Como entre um cachorro e seu dono.
A alusão ao cachorro vem a calhar. Na Índia, acasalam-se
os seres humanos como os animais domésticos no
Ocidente: segundo o pedigree, isto é, a casta. Assim como
não se cruza uma vira-lata com um buldogue, uma brâmane
não se une a um ferreiro. Caso contrário, nasce um
bastardo, o chandal, seres que constituíram originalmente a
classe dos intocáveis.
Assim, os indianos transam como os cães no Ocidente.
Repito isto e não me envergonho, pois o próprio Ram
Singh me respondeu que a endogamia preconizada pelo
hinduísmo servia para melhorar a espécie humana, para
impedir que degenerasse. Aí está a civilização contra a
barbárie. "No Ocidente, as pessoas se unem porque se
amam, porque gostam uma da outra. É como na selva", ele
disse.
Nunca vou me esquecer de duas imagens: a índia, um canil,
e o Ocidente, uma selva. Fazer amor como um cãozinho
com pedigree ou como um coiote. Hoje, na pele de Ram
Munda, as duas imagens de uma humanidade bestial
parecem ainda mais desagradáveis.
Na escada da passarela, a velha maluca continua a chorar.
Penso na concepção hindu do mundo. Eu me pergunto se a
estação de Benares não é um teatro, se a vida indiana não é
uma tragicomédia. O título seria: "Misérias e esplendores
da Idade Média."
Eu me vejo em plena Idade Média. Obscurantismo,
bestialidade, intolerância. Mas com trens.
Penso em uma porção de coisas desagradáveis, e não é hora
disso, se não quero passar a noite em claro. Lembro do
artigo sobre o racismo anti-indiano na Inglaterra, publicado
na revista India Today, em 15 de agosto. Ele me marcou.
Conta a história de Malkanjitt Natt, imigrante em Londres
há 12 anos. Foi intimado cinco vezes pela polícia, por ter
batido em sua mulher, mas declarado inocente em todas.
Na última vez em que foi preso, tinha ocultado um
gravador em sua roupa e registrou o comportamento racista
dos policiais ingleses. Escutem:
- Sabe o que acontece em seu país? - um policial pergunta.
Eles (os cães de cáqui) os levam para fora e atiram. É o que
devíamos fazer.
- Eles não fazem isso - Natt disse.
- Por que não volta para seu país?... Para a Índia ou o
Paquistão, ou seja lá de onde venha.
- Você não tem o direito de me mandar voltar para o meu
país - responde Natt. - Por que está me batendo?
- Porque gosto.
Apesar dessa gravação, os carrascos de Natt foram punidos
apenas com a suspensão de um dia de pagamento, e o
correspondente da India Today, Nirupama Subramanian,
disserta sobre o racismo dos bobbies ingleses. Ele protesta.
Tem razão. Razão. Razão.
Está bem.
Mas não foi por isso que o artigo me marcou. Sei muito
bem que os policiais ingleses não gostam dos indianos, os
policiais franceses não adoram os árabes e os policiais
americanos não têm afeição pelos negros.
O artigo me chocou pelo fato de Natt ter sido detido cinco
vezes por bater em sua mulher. Este é o nó da questão.
Detido cinco vezes e sempre inocentado. Mas não há
fumaça sem fogo. Quem sabe sua mulher retirava a queixa
diante do juiz? Não sei.
Cinco vezes é muito para que não se dê atenção, e a análise
do jornalista Subramanian não me satisfaz. Fico surpreso
que não questione a conduta de Natt. Na Inglaterra, a moral
não permite mais que se espanque a mulher. Não sou nem
policial nem racista, agora sou um indiano, mas
efetivamente talvez fosse melhor Natt voltar para a Índia, se
quer continuar a dar surras em sua mulher. Assim deixará
de ser maltratado pelos bobbies. Não é com ardis que se
integrará na sociedade britânica.
É evidente que a missão dos bobbies não é violentar os
estrangeiros, isso é inadmissível, mas, na sociedade
ocidental, o homem que bate em sua mulher continua a ser
respeitado? Compreendo, sem com isso justificá-lo, que um
policial, um honesto pai de família, sinta vontade de
corrigir um canalha como Natt e lhe sugerir retornar a seu
país. Se Natt quer usufruir as vantagens oferecidas pela
sociedade inglesa, suas riquezas, tem de aceitar as regras e
parar de bater em sua mulher, ou então arrumar sua trouxa.
Tem de escolher.
Seria bom que o jornalista Subramanian não se esquecesse
do principal. Fazer já uma faxina entre nós, os indianos.
Denunciar nosso racismo em relação aos estrangeiros e a
condição miserável de nossas mulheres. Ela incentiva o
assassinato, e todos os dias a imprensa local publica o
assassinato de uma jovem esposa pela família do marido.
Em geral, é borrifada com gasolina e queimada viva,
porque não levou um dote satisfatório. O divórcio é uma
infâmia e só a morte da esposa dá uma liberdade honrosa
ao marido. Raramente a polícia prende os assassinos.
Estou farto de tudo isso.
A humanidade é tão suja. Como posso dormir?

13 de novembro

Mendiguei pela manhã e fiz a sesta a tarde toda. Estava
exausto. Estou melhor e sinto sede. É isso. Um desejo
súbito de me embriagar. O álcool ao estilo ocidental - o
uísque, o rum, a cerveja - é muito caro para mim, mas sei
de uma lojinha que vende álcool sintético, perto da estação,
e vou até lá por volta das 20 horas. É uma decisão
importante; é a primeira vez que bebo para suportar minha
metamorfose.
O bar se oculta no fundo de uma viela que dá para a
avenida Raja Bazar. É uma construção retangular, sem
decoração externa. Parece um galpão de fazenda com a
calçada lamacenta. Mas ao lado um sujeito aperta um
saquinho plástico de álcool sobre sua boca bem aberta. Um
cartaz indica: "Loja do Estado de álcool nacional." Isto é,
sintético. Eu entro.
Fede a vinho ruim. A adega e a vinagre. Se a intenção não é
se embebedar, o melhor é ir embora.
O local mede cerca de 50 metros quadrados. As paredes
lascadas estão pintadas de verde-claro; o chão cimentado
está deteriorado e deixa entrever um piso mais antigo de
cerâmica vermelha. Nenhum enfeite. Há sete mesas, ao
comprido, de um metro e meio por meio metro e bancos
onde uns caras bebem. Uma dezena deles, usando lungi ou
calças esburacadas, maltrapilhos como eu. Estão sozinhos
ou em grupos de dois ou três. À esquerda, há um barril de
água e, à direita, a um metro do solo, atrás de uma grade,
um sujeito de uns 40 anos vende os saquinhos de álcool. O
preço está rabiscado em um papel preso na grade. O preço
de sempre, loja do Estado. Treze rupias o saquinho de 20
centilitros de álcool branco, comum, e 15 rupias o de álcool
perfumado. Nós o chamamos de "o colorido" por causa de
sua cor âmbar.
Compro um saquinho do comum e peço um copo, o que me
custa uma rupia a mais. Lavo o copo na torneira do barril e
a água borrifa meus pés. Depois me sento à mesa. Ela é
pegajosa e gruda nos dedos. A superfície do banco também,
e reparo que o chão está coberto de cascas de amendoim e
de papel gorduroso. Estou pouco ligando. Não vim aqui
para lamber a mesa e o chão. Sobre o saquinho de álcool
está impresso em hindi: "Álcool nacional comum, 25 graus,
cheio em 1992-93." É isso que importa.
Na outra extremidade de meu banco, dois sujeitos de lungi
bebem bastante. Um terceiro homem se junta a eles. É mais
jovem, de uns 30 anos. Usa uma camiseta e uma calça
branca suja de urina, duras de sujeira, como se tivessem
sido engomadas. Não é um mendigo, fala com os amigos
sobre o trabalho de condutor de carrinhos, dos clientes que
discutiram com ele. O de sempre. Tem a tez clara, feições
européias, rosto oval e cabelo castanho, raro na Índia. Ele
me lembra meu amigo Roger, que conheço desde a escola
primária, na praça d'Anvers, aos pés de Montmartre. É
verdade, usa o mesmo penteado, curto e para trás, um
pouco eriçado. Simpático. Além disso, tem conversa. O
próprio malandro parisiense.
Exceto quando bebe. Aí deixa de se parecer com Roger.
Rasga o saquinho com os dentes incisivos, depois abre a
boca e derrama de uma vez só os 20 centilitros de
aguardente. Suspende a respiração. Mergulha livre na
embriaguez.
Depois joga o saquinho vazio no chão e expira aliviado,
"Uau!", sacudindo a cabeça e estalando a língua. Como se
acabasse de engolir uma poção infecta.
Os indianos estão sempre me surpreendendo ao beberem de
um trago só. Inclusive o uísque e o rum. É apenas para se
embriagarem. Eles não gostam do sabor do álcool, e alguns
fecham os olhos e tampam o nariz para beber.
Esse cara não é Roger. Meu amigo bebe, mas nunca sem
degustar. Bebe saboreando. Eu me pergunto se, como
intocável, conseguirei fazer algum amigo, encontrar alguém
simpático que possa se tornar meu irmão.
Tenho de tratar de mim mesmo. Rasgo o saquinho e encho
o copo. Bebo em três vezes. O cheiro do álcool queimando
persiste, esse odor repugnante que lembra o de benzina;
mas esta bebida de 25 graus tem gosto de cortiça. Não sai.
Agora eu sei. Não é álcool queimando. Sim. É como o
líquido que utilizamos na França para lavar os vidros dos
carros. Água, um pouco de álcool e detergente. Tem o
mesmo cheiro. É possível. Raja Ram me disse que os
cristais no fundo do saquinho eram detergentes. Mas
ignorava para que servia esse sedimento. Eu também. De
qualquer modo, se quer saber o que estou bebendo,
experimente o líquido de lavar vidraça.
Termino meu saquinho e saio. O anticongelante começa a
me aquecer as orelhas e me sinto bem.
Na avenida Raja Bazar, tendas ambulantes preparam
omeletes. O ovo frito cheira bem e, diante de cada uma
delas, vários sujeitos se deliciam. Em Benares, no inverno,
a noite é fresca. Isso abre o apetite e os homens gostam de
sair para comer ovos. Em muitas famílias, as mulheres são
vegetarianas e os produtos animais são proibidos em casa.
Nesta noite, faço a festa e compro uma omelete. Que
delícia! Minha cabeça gira. Leve. A vida tem lados
agradáveis. Estou feliz. Vou dormir como um anjo. No
paraíso. Em casa, na estação.

14 de novembro

Nove horas da manhã. Um problema grave.
Esmolei ao longo de um trem na plataforma número três e
dois cães de cáqui me detiveram. Um gordo, com um
cassetete, e um alto e magro com um fuzil a tiracolo.
- O que está fazendo? -, late o gordo.
O medo me deixa mudo. Ele vai pedir minha identidade.
Tenho certeza. E se descobrir que sou um impostor?...
Além disso, me lembro que a mendicância é proibida em
15 Estados indianos, inclusive em Uttar Pradesh. Até agora
isso não tinha me preocupado. Muitos mendigos andam
livremente por Benares. Sempre achei que essa lei não era
aplicada. Como as contra os dotes, o privilégio de castas, a
corrupção e muitas outras.
- O que está fazendo?
Paro de respirar e tenho a impressão de que a estação vai
desabar na minha cabeça. Tenho de fugir. Eu me viro,
como se não tivesse entendido nada, e ando. Logo o
policial gordo barra meu caminho com o cassetete.
- Pare. O que faz aqui?
- Eu... peço esmolas.
- O quê? (O medo me paralisa e fico mudo.) Fale!
- É um louco - suspira o cão magro.
- Ei, maluco, você tem língua? - insiste o gordo. ­ Então
mendiga. Também brigou? Estas manchas na sua roupa são
de sangue. É o seu?
Ele se refere às manchas de nitrato de prata que fiz para
envelhecer o pano. Não sei como se diz "nitrato de prata"
em hindi e, além disso, não posso contar a verdade.
Parecem mesmo sangue seco. Preciso inventar logo alguma
coisa, senão me levarão à delegacia para me interrogar:
- Não é sangue! É gordura.
- Gordura? De onde você é?
- De Ranchi.
- De onde? E seu nome?
- De Ranchi. Eu me chamo Ram Munda. Sou aborígine.
- Está bem. E por que veio mendigar em Benares?
- Vim em peregrinação e mendigo para comer.
- Veio em peregrinação? - diz o gordo com um ligeiro
sorriso.
- Está certo. Pode esmolar. Vá!
Obedeço e esmolo ao longo de um vagão. Depois subo a
passarela para avaliar a situação. Ainda tremo de medo.
Não tenho coragem de estender meu prato.
Qual é o risco de mendigar? Não sei. Não me preocupava
com isso, pois os policiais nunca reparavam em mim.
Lembro-me que em 28 de outubro, véspera de minha
partida para a estação, li no jornal Patrika que o governo
central decretara nova lei contra a mendicância. Ela prevê
de seis meses a dois anos de prisão, com um programa de
reintegração na sociedade para aqueles que mendigam.
Sinto um calafrio, mesmo que seja mais uma lei sem
aplicação. Como, em uma democracia, encarcerar um
milhão e meio de mendigos?
Sinto um arrepio e medo de que a prisão seja para mim, se
só houver uma chance em mil de cair sobre um mendigo.
Vivo na estação há mais de duas semanas e estou cheio.
Cheio. Cheio. Cheio. Se, além de tudo, ainda me arrisco a
ser preso como ladrão, não me resta mais nada além de
esperar a morte por inanição.
Economizei umas 15 rupias. Dá para agüentar dois ou três
dias. E depois? Verei.
Faço a sesta. Almoço. Faço a sesta.
Espero. Deitado na plataforma da estação. Fumo biri e
deixo o tempo passar, como a água do Ganges. Nada a
detém. Minha existência me faz pensar na de uma gota de
água no rio. O rio e a sociedade, e sua corrente desce e
sobe, acelera nas passagens estreitas e se torna mais lenta
nas curvas. Sou levado contra a vontade. É inútil me
debater. Nasci em uma geleira e meu destino me leva
irresistivelmente ao oceano, onde me fundirei ao universo,
onde serei libertado. Finalmente.
Por enquanto, uma centena de moscas gira em torno de
mim. Eu me pergunto se Buda também atraía moscas há
mais de 2.000 anos, quando pregava em Sarnath, pertinho,
seis quilômetros ao norte, ao longo da via férrea que passa
diante de mim.
As moscas da estação são carnívoras. Sugam meu suor e
minha carne, mas não as afasto. Há séculos desisti de fazê-
lo. Há demais no meu mundo. Enxotá-las é um esforço
inútil. Viver é um esforço inútil.
Deixo as moscas me saquearem e de vez em quando acendo
um biri. Mais para quebrar o ritmo que por vontade de
fumar.
Sentado ao meu lado, um velho monge hindu. Veste-se
com um pano cor de açafrão e abriga um ninho de piolhos
no cabelo grisalho, despenteado e grudado de sujeira que
emoldura seu rosto coberto de cinzas. Como o camembert.
As cinzas, o ninho e a cor de açafrão constituem o
uniforme desse monge. É um sadhu, um sábio, um santo,
um asceta. Há muitos em Benares. A santidade da cidade os
atrai aos milhares. Como as moscas sobre um monte de
lixo. Penso assim, pois detesto a religião.
Teoricamente, todo hindu pode se tornar um sadhu, mas
eles são recrutados quase sempre entre os brâmanes. Esses
homens renunciaram à vida na sociedade, à sua casta, à sua
família, aos prazeres da carne e da comida, às ambições e
aos bens materiais. Alguns chegam a praticar penitências,
como ficar sobre tábuas de pregos. Ignoro se elas existem
realmente. Nunca vi nenhuma, e meu vizinho não carrega
tal engenho com ele.
A ascese propiciaria a descoberta do objetivo da existência,
se unir a Deus, ao cosmos, para ser libertado do ciclo de
reencarnações. Não acredito nisso. Nem na metempsicose
nem em Deus. Além do mais, a existência tem objetivo?
Meu vizinho sadhu pede um fósforo para acender seu biri.
Conversamos. Ele veio em peregrinação a Benares e espera
um trem para retornar a seu mosteiro, em Bihar. Nós dois
somos de Bihar. Ele do Norte e eu do Sul. O que faz com
que esse santo e eu, um intocável, tenhamos algo em
comum. Ele me pergunta com um pouco de desdém:
- Vocês, os aborígines, veneram que deuses?
- Shiva e Durga. Temos um templo para cada um em nossa
aldeia.
- Muito bem.
Passei na prova de catecismo e ele começa a falar sobre o
custo de vida em Benares, mais alto que em Bihar. Esse
tipo de preocupação em um monge me surpreende. Depois
ele comprou um chá e, meia hora mais tarde, duas maçãs.
Tem dinheiro e fuma um biri atrás do outro. Se continuar
assim, vai acabar com meus fósforos. Podia pelo menos me
oferecer um chá ou um biri. Não, com ele sou obrigado a
papear sem me sensibilizar.
Cretino! Avarento! Egoísta!
O hinduísmo torna a pessoa egoísta. É uma religião cruel,
discriminadora e egocêntrica. Define os deveres de cada um
diante de Deus, estabelece uma espécie de contrato pessoal
de casta com uma pretensa ordem universal que ignora as
relações com o próximo. Preconiza o desapego na ação e
exacerba o individualismo. "Nada de agradar aos outros, e
não importa o resultado de meus atos, contanto que eu
cumpra meu dever. Faço o melhor possível, mas sem um
esforço especial. O que tiver de acontecer acontecerá. Não
posso evitar. Cada um por si e Deus por todos. Rama é
nossa salvação!" Sei de tudo isso, mas esse primeiro
encontro com um sadhu continua a me surpreender.
Esperava encontrar nele um pouco de sabedoria, de
fraternidade.
Eu era ingênuo. Ainda sou. Pensava em Gandhi.
O hinduísmo é uma fé centrada no ego, enquanto o
cristianismo, religião revelada por um messias e mais
moderna, é voltada para o próximo, para o homem na
sociedade. A comiseração de Gandhi talvez traísse seu lado
cristão, sua educação ocidental. Ao contrário dos santos
cristãos, os sadhu não têm a missão de servir ao outro.
Vivem fora do mundo, voltados para si mesmos, no interior
de comunidades monásticas, e procuram salvar somente sua
própria existência.
Fica a sabedoria, adquirida graças à ascese... Meu sadhu
fala do custo de vida e compra frutas e chá. Santo pai! Em
janeiro passado, em uma transmissão religiosa da BBC
International, um pregador contou a história de um sadhu.
Nunca me esqueci:
"Ramesh quer se tornar asceta e alcançar a redenção. Seu
guru lhe diz que se retire para o Himalaia, só levando um
único pedaço de pano para se vestir. Ramesh obedece, mas
logo descobre o desconforto de ficar nu esperando que o
pano seque depois que o lavou. Decide arranjar outro para
ficar de reserva. A partir de então, vive confortavelmente,
exceto que os ratos roem o pano que não está vestindo. Ele
reflete e encontra uma solução...
O tempo passou e um dia o guru cruza com Ramesh
descendo a montanha. O guru pergunta:
- Aonde vai?
- Trabalhar. Tenho problemas com minha vida de sadhu.
- Como? Você trabalha?
- Sim. Tenho uma mulher. Devo alimentá-la.
- Está com uma mulher! - diz, intrigado, o guru, pois a vida
de Ramesh não tem nada a ver com a de um asceta.
- Sim. Para ordenhar minha vaca.
- Também tem uma vaca! Afinal, que vida você leva?
- Tenho uma vaca para dar leite para o gato.
- E tem um gato!
- Para pegar os ratos que roem meu pano de reserva... Este
pano é porque...
De repente, Ramesh compreende seu erro. O guru tinha
razão. Ramesh devia se satisfazer com um só pano para
conseguir se libertar dos vínculos com a terra."
Esta história me confunde. Meu vizinho sadhu é Ramesh,
mas eu também sou Ramesh. Sei que devo renunciar a
todas as ambições e desejos, se não quero mais sofrer, e sei
que não quero viver na pele de um mendigo, muito menos
com um pano apenas.
O que fazer?
Por enquanto, esperar. Como um legume. A chuva ou o sol.
O dia e a noite.
É duro.

15 de novembro

Não ouso mais mendigar na estação. Acabou.
Decidi voltar para casa. Voltarei a ter minha cor, anotarei
tudo que vivi, descansarei por uns dois dias e me
recomporei com umas boas refeições preparadas por minha
mulher. Apalpando meu abdome, sinto as costelas; devo ter
emagrecido vários quilos, o que talvez explique minha
fraqueza física e moral.
Depois, sairei de novo. Tentarei esmolar à beira do Ganges,
no ghat Dashashvamedh, com todos os outros mendigos.
Ando o dia todo em torno da estação. Espero a noite e, por
volta das 22 horas, volto a pé para casa. Não quero que
nenhum vizinho me veja.
Minha mulher fica muito feliz em me ver. Eu a abraço e
beijo durante cinco minutos, depois tomo um banho.
Enquanto isso ela me prepara um jantar. Eu me sirvo de
Pepsi gelada. E é genial.
Falo mais da Pepsi que dos beijos de Gloire, pois esta
bebida me deixa pasmo. Que luxo!
É formidável. Esqueci que existia algo tão refrescante. Um
líquido fresco, doce e ácido, cheio de bolhas. Bolhas. Sim.
Que estalam na minha boca e excitam as papilas de minha
língua, como se tocassem uma sinfonia gustativa. Tal
fausto me causa estupefação e a Pepsi parece ser Dom
Pérignon.
Eu me pergunto se há muitas coisas similares que
redescobrirei quando deixar de ser um mendigo intocável.
Não devo pensar nisso. Esta volta é provisória e me lembro
de que a sociedade me considera um sub-homem há 20
dias, desde que encarno Ram Munda.
Sou um sub-homem?

18 de novembro
Ainda não tomei a sair.
Estou farto. Basta. Cansei de bancar o intocável e adio
minha partida. Mas esta noite me obrigarei a partir.
Prometo.

Anteontem, ao chegar em casa, sentia-me tão cansado que
dormi a manhã toda. Eu me levantei para comer a metade
do frango que Gloire tinha preparado e voltei a me deitar
com ela. Quero deixar claro que não é nenhuma façanha se
demorar na cama com a mulher depois de 18 dias de
separação, nem devorar metade de um frango indiano, pois
são tão magros, tão fraquinhos, que temos a impressão de
que estão mortos de fome.
No final da tarde, comecei a recapitular, por escrito, estas
primeiras semanas de Ram Munda e folheei os jornais. No
Patrika de 29 de outubro, me deparei com um artigo
espantoso. Preeti Singh, seu autor, relaciona o estupro ao
sistema de castas, e tenho a impressão de voltar ao século
passado, no Sul dos Estados Unidos. Negro igual a
intocável, branco igual a casta superior. O artigo:
"As vítimas de estupro pertencem geralmente às classes
intocáveis ou aos sem-terra, e os estupradores são homens
ricos ou proprietários de terra... No campo, a sociologia do
estupro se fundamenta no sistema secular das castas. Este
crime não é somente uma afirmação do poder feudal
decadente (das castas superiores), mas também uma
chamada (aos oprimidos) avisando que a revolta é proibida.
Em Bihar, os exércitos privados dos proprietários
responderam às sublevações dos intocáveis e dos sem-terra
estuprando suas mulheres. Não atacaram os homens.
Primeiro, é mais fácil humilhar uma mulher. Segundo,
estuprando as mulheres, atingem os intocáveis onde
machuca mais. Terceiro, 45 anos depois da partida dos
britânicos, o estupro serve de ferramenta para governar a
zona rural...
A sociedade indiana se preocupa com este problema?... Um
oficial da polícia assinalou negligentemente que nenhuma
mulher morre de estupro e que este fenômeno existe desde
que o homem e a mulher vivem na Terra. Esta indiferença
representa a opinião de vários compatriotas que acham o
estupro um ato indesejável, mas inevitável... "
Repugnante! Não é a primeira vez que leio essas
informações sobre as condições de vida dos intocáveis no
campo. São ainda mais infames que nas cidades, pois são
mais tradicionais. Para testemunhar isso é preciso ir para o
campo. Infelizmente é impossível. Preciso do anonimato
propiciado pelas cidades grandes para realizar minha
metamorfose. Em uma aldeia, não conseguiria me misturar
à massa, ser um indiano comum; logo reparariam em mim.
Bem, foi assim que passei a segunda-feira.

Em compensação, ontem e hoje acordei ao amanhecer para
tingir minha pele. Tomei dois metoxipsoralenos e me
bronzeei durante a manhã toda, na varanda. Também untei
o corpo com duas camadas de nitrato de prata. Tudo bem,
estou caramelo. Não usei a tintura de cabelo na pele, pois
não preciso escurecer demais para ser intocável. Além
disso, quando fico muito preto, como nos primeiros dias de
minha metamorfose, minha cor logo desbota; prefiro sair
com uma tez menos densa, que se fixará melhor e será
substituída pela poeira das ruas. É mais seguro. Ninguém
notará se minha pele clarear.
À tarde, continuei escrevendo minha aventura e li os
jornais.
Barulho e fúria. Mais uma vez.
O país está em chamas desde ontem. Recomeça a "guerra
das castas", como no outono de 1990. Os estudantes das
castas mais altas protestavam então contra um decreto que
reservava 27% dos empregos na administração central para
as "classes atrasadas". Como sempre, nas manifestações na
índia, houve um excesso de violência, lojas destruídas,
ônibus incendiados, bombas e até mesmo o horror do
sacrifício pelo fogo de vários estudantes. A justiça tinha
suspendido a aplicação desse decreto, mas na segunda-feira
a Corte Suprema aprovou sua constitucionalidade, e os
estudantes das castas altas tornaram a ir para as ruas.
Manifestações públicas, bombas, ônibus incendiados...
Os 27% se somam nos 22,5% já reservados aos intocáveis.
A metade das colocações do funcionalismo público será
bloqueada para elevar a condição das classes
desfavorecidas. Os estudantes das castas superiores estão
furiosos. Sentem-se prejudicados por causa de seu
"nascimento superior" e consideram o sistema de per-
centagem antinacional, levando à contratação do pessoal
menos qualificado e atrasando o desenvolvimento da índia.
Grosso modo, um candidato intocável medíocre encontraria
um emprego mais facilmente que um brâmane brilhante.
Blablablá... Digo isso porque os estudantes brâmanes não
precisam se preocupar, nem queimar ônibus, nem se
sacrificar. Os intocáveis representam cerca de 23% da
população indiana. Isso corresponde aos postos que lhes
estão reservados, mas, depois de mais de 40 anos de
exercício das cotas, sua representação na administração
pública não passa dos 10%. Em compensação, constituem
85% dos garis e 28% dos agentes técnicos. Suas cotas nos
empregos interessantes muitas vezes não lhes são atribuídas
por múltiplas razões, e os agentes recrutadores, que
pertencem à máfia das castas altas, não param de alegar a
ausência de candidatos capacitados.
Garanto que os brâmanes e os rajaputros podem dormir
tranqüilos. Esse novo decreto destinado a privilegiar as
"classes atrasadas" não será sentido antes de muitos anos.
Para aplicá-lo, seria preciso definir agora o que são "classes
atrasadas".
Este termo define somente os shudra, castas de criados que
se situam acima dos intocáveis, como os barbeiros, os
pescadores, os leiteiros? Também inclui as castas dos
comerciantes vaishya, como os Agraval, isto é, todos os
hindus, menos os brâmanes e os rajaputros? Inclui os
muçulmanos e os cristãos? O que significa "atrasada"?
Econômica ou socialmente? Levará anos para que todos os
indianos entrem em um acordo.
Na realidade, a fúria dos estudantes das castas altas não é
motivada pelo medo de ficar sem trabalho, mas de que seu
poder tradicional se desfaça. São impotentes frente ao curso
progressista da História e agem como homens
desesperados, como os brancos extremistas na África do
Sul que recusam o fim do apartheid.
Muito bem, se se queimam vivos para se manifestarem
contra nós, em vez de nos agredir, confesso que não jogarei
nem um balde de água sobre eles, já que tudo em que toco
é impuro. Que morram, será um alívio! Querem manter
nossa cabeça dentro d'água, perpetuar a sociedade
escravagista, o zoo hindu com os homens puros e os sub-
homens impuros.
É preciso privilegiar as camadas desfavorecidas. Pobres,
mas igualmente humilhados. As bolsas de estudo não
bastarão para introduzi-los na sociedade dos homens livres
e iguais. A Corte Suprema compreendeu isso. Mesmo que
os empregos reservados não sejam concedidos. Mesmo que
a função pública só se aplique a uma minoria. Mesmo que
as cotas, paradoxalmente fundadas nas castas para mais
tarde aboli-Ias, perpetuem essa estrutura e criem privilégios
e desvantagens de nascença. Mesmo que uma verdadeira
reforma agrária seja mais útil para nivelar a sociedade
indiana e romper com o sistema de castas.
A decisão da Corte Suprema está na direção certa; esta
semana é importante. Percebo que não são mais os
brâmanes que conduzem a dança.

Por volta das 20 horas, os vizinhos estão fechados em casa
para assistir Chitrahar, um programa de televisão muito
popular que apresenta os novos filmes hindi. Aproveito
para reaparecer, incógnito, em Benares, com minhas roupas
de Ram Munda. Saio para a Dashashvamedh e sinto o
coração leve. O mundo evolui.

De fato, é uma ilusão. Eu a alimentava lendo os jornais,
encerrado em meu apartamento na Ravindrapuri.
Atravessando a cidade, sinto que nada mudou desde o
domingo.
Na Dashashvamedh, os mendigos permanecem fiéis ao
posto. Sempre dignos de pena.
Diante dos banheiros públicos, no alto do ghat, dessa longa
escada de pedra que mergulha no Ganges, uns 20 leprosos
estão deitados na beira da calçada, no meio de suas tralhas.
Caixas, trapos, papelão, plásticos. Aí estão as casas desses
homens-tronco, de rostos e membros corroídos pela
doença. Mais perto do rio, outros mendigos dormem ao
longo da balaustrada que acompanha o ghat. São uns 15.
Leprosos e saudáveis. Homens e mulheres. Jovens e velhos.
Sob cobertas, sob toldos. Estendidos pelos degraus.
Embaixo, três velhas abraçadas umas às outras. Elas se
aquecem, e sei que as invejarei daqui a pouco. Está fresco
e, quando se é muito pobre e só, o calor humano parece um
conforto, quase um luxo. Os outros mendigos estão
isolados e não parecem viver em tribo, ao contrário dos
leprosos que acampam perto dos banheiros. A propósito,
aqui, à margem do rio sagrado, fede mais ainda a urina. Os
indianos confundem seu membro com uma mangueira, e
me pergunto se todos os homens do bairro não se reúnem
depois do crepúsculo para borrifar o pedestal de dois
reservatórios de água suspensos na margem.
De início o fedor choca, mas eu me acostumo em alguns
minutos a este cheiro tão indiano e acho que voltarei a me
habituar a fazer minhas necessidades ao ar livre. Também é
preciso reaprender a não se melindrar com os cachorros,
cabras e vacas que saltitam no cenário e cheiram os que
dormem e os que passam. Droga de cachorros. Latem e
correm uns atrás dos outros. Para trepar. Até mesmo à
noite, só pensam nisso. E são tão feios, magros, pelos cur-
tos, pardos ou pretos, sarnentos, poeirentos, quase sempre
cobertos de cascas úmidas ou de feridas manchadas de
sangue. Quando chega uma fêmea, três ou quatro machos
vão atrás. Grunhem, mordem e se perseguem uns aos
outros.
Que ambiente! Mas compreendo que meu lugar é aqui, no
ghat, entre os mendigos solitários. Estendo meu oleado
sobre um degrau livre, sob a luz de um grande lampadário.
Nesta primeira noite à margem do Ganges é mais prudente
que na penumbra.
Ao lado, há um estrado onde um brâmane abençoa os
peregrinos e espero que minha proximidade não o
incomode. O sacerdote está sentado feito Buda e brinca
com um passante. Está sem camisa e seu cordão sagrado
pende sobre o ventre imponente de quarentão bem
instalado na sociedade.
Ao me perceber, diz:
- Vai dormir aí?
- Bem... sim... Senhor Pandit - gaguejo, utilizando este
título respeitoso, destinado aos brâmanes.
- Não pode dormir aí.
- Por quê?
Resmunga alguma coisa que não entendo direito, mas o
sentido geral, adivinho, é que não posso dormir perto de
onde abençoa. Ele prossegue, autoritário:
- De onde você é?
- Do Jharkhand. Vivo na selva.
- Bem, vá se deitar em um dos estrados mais embaixo.
Ele aponta os estrados vazios onde os brâmanes professam
durante o dia. Não ouso ir até lá. Sinto medo de importuná-
los e sujá-los com minha presença.
- Posso dormir com eles? - disse, me referindo aos outros
mendigos que estavam um pouco mais acima.
- Não sei... Você é estranho. Vá dormir em um dos estrados
embaixo. Não se queixe. Lá ficará mais à vontade.
Ele tem razão. Ficarei melhor nas tábuas limpas do altar de
um brâmane do que sobre a pedra dura e suja de terra dos
ghat. Eu me afastarei dos outros mendigos. Mas não vim
até aqui para acampar como um marajá ou um sacerdote.
Quero voltar a ser um mendigo e intocável.
Posso recusar sua sugestão sem provocar suspeitas?
- Embaixo é perigoso, é menos iluminado...
- Eh! Na selva você tem medo do escuro? - ele zomba.
Não respondo. Ele me pôs em meu devido lugar.
- Por que veio a Benares? - pergunta.
- Para fazer uma peregrinação. Mendigo para viver. Depois
irei a Allahabad e a Ayodhya.
- Está bem. Amanhã poderá mendigar na escada. A
propósito, qual é sua casta?
- Sou Munda... sou aborígine.
-Azar o seu! Vá se deitar lá embaixo.
Ignoro o que ele quer dizer com "azar o seu", mas obedeço
sem pedir explicações. Nunca criar caso é o meu princípio.
Isso tem dado certo há três semanas e, como sou prudente,
não mudarei de método.
Estendo meu oleado sobre um estrado, me deito e me
cubro. Dormir.
A noite, o ghat é deserto. É mais calmo que a estação. À
esquerda, os sinos do templo dedicado à Mãe Ganges
param de soar por volta das 23 horas e não à uma e meia,
como as odes a Krishna na estação. Tampouco se ouve o
barulho de trens, buzinas de caminhões, discussões de
musahar, nem o ruído dos passageiros. Além disso, uma
brisa fresca sopra do rio. Na estação, o ar é sufocante.
Úmido, concentrado, excessivamente aspirado pela
multidão.
Dormir.
Seria perfeito se as margens lamacentas não atraíssem
tantos mosquitos. Eles devoram meu rosto e me cubro com
meu fular. De repente deixo de aproveitar o frescor do
Ganges. Também há pulgas sobre a tábua de madeira. Elas
me mordem. Devem ser deixadas pelos cachorros que se
deitam nesses estrados. Cães imundos. E eles vêm me
cheirar a cabeça e os dedos dos pés. As cabras e as vacas
também desfilam.
Como cair no sono? Penso no garoto de 10 anos que
estudava sob a luz de um lampião no mercado de legumes,
no alto da escada. Ao chegar, dei uma volta por ali e
percebi que a maioria dos vendedores pertence à casta
intocável dos sonhar. A imagem desse menino mergulhado
nos cadernos é doce e dá esperança na elevação da
condição dos intocáveis. Ela me faz perder a consciência e
sonho. Sou muito rico. Moro com Raja Ram em um palácio
de mármore branco. Parecido com o Taj Mahal, com um
grande domo, quatro minaretes e lagos resplandecentes.
Bebemos Coca com rum, caminhando no parque. O sol
brilha e Raja Ram me diz como é bom Coca com rum. Em
seguida, os lagos se transformam em piscinas e garotas de
biquíni se banham. Elas se parecem a Madhuri Dikshit. Os
seios comprimidos nos sutiãs apontam para o alto e dão a
impressão de servirem de bóias para nadar. É incrível.
Então, fazemos amor com todas, acho. Mas, a partir daí,
não me lembro direito. Meu espírito se confunde.
Mergulho na piscina. A penumbra. O escuro.

19 de novembro
Três e meia da manhã. Sou despertado por vibrações sobre
meu estrado. Depois, um grito de cachorro. Ele dormia aos
meus pés quando um sujeito o chutou.
Um cordão sagrado, sob a camisa desse homem. Pequeno,
magro, uns 40 anos. Um brâmane, pois desembrulha uns
troços de sacerdote. Incenso, potes de óleo, pedaços de
coco, algumas flores de cravo-da-Índia, desfalcados
opúsculos, em sânscrito, e uma bandeja de couro com um
pó vermelho para aplicar sobre o rosto dos devotos, sob a
forma do terceiro olho, o do conhecimento, Ele me diz: "Ei,
você, de pé."
Obedeço. Vai recomeçar. Não reajo, como sempre. Como
os cachorros. O sacerdote me enche o saco. A noite foi feita
para dormir, mas, sobre os outros estrados, é a mesma
coisa, os sacerdotes também ali se instalam.
Subo alguns degraus e me deito. O frio que precede a
alvorada me gela. Os sacerdotes conversam entre si, em voz
alta, como se fossem os donos do lugar, e os sinos nas
proximidades soam, mas consigo cochilar durante duas
horas.
Um clarão róseo ilumina o horizonte, sobre a margem
oposta do Ganges. Há três semanas assisto a auroras e já
não me sensibilizo com o espetáculo. Ele somente me
anuncia que o sol vai explodir dentro de meia hora e que
uma onda de peregrinos e de turistas afluirá. Os mendigos
despertam. Aqui, não sei a que horas começa a jornada de
um mendigo. Mas não quero me atrasar nem ficar em um
lugar ruim. Devem estar lembrados de que já tentei
trabalhar nessa escada e fui rejeitado. Esta manhã vou
conseguir esmolar aqui. E me levanto. Não posso perder
tempo.
Li que os mendigos de Bombaim ou de Calcutá se
agruparam em gangues. Em Benares, ainda não tomei
conhecimento de tais organizações, mas não pedirei
esmolas na entrada do ghat, junto com os leprosos. Insisto
que meu lugar não parece ser com eles e esmolarei na
escada, com os mendigos que parecem solitários.
Tampouco parece ser um local ruim. Já estão ali uns 20,
alinhados no lado direito. Homens, mulheres, garotos.
Velhos, jovens, leprosos, doentes, sadios, brancos,
morenos. Passarei despercebido.
Apóio-me no corrimão, sobre um degrau livre, no meio da
escada, e nem bem coloco a coberta sobre os ombros os
primeiros raios de sol despontam. Um velho bem-vestido,
com a barba grisalha, para na minha frente. Abre uma tenda
de cantis de plástico. Os peregrinos os utilizam para levar
um pouco de água santa do Ganges.
- Quem é você? - pergunta.
- Cheguei ontem à noite.
- O que faz aqui?
- Bem... mendigo.
- Não pode ficar aí. Este local é reservado. O mendigo vai
chegar. Cai fora!
- Onde posso mendigar?
- Mais em cima. Vá!
- Lá? - Aponto o alto da escada.
- Vá embora!
Depois disso voltou para seus recipientes de água santa, e
fico achando que ele deve saber o que diz, já que trabalha
aqui. Um pouco mais acima não deve ser tão ruim e vou
para lá, evitando criar problemas.
Tudo em vão. Outro sujeito logo vem me desalojar:
- Quem é você? Saia daí! O lugar está tomado. Os
mendigos vão chegar em cinco minutos. Vão expulsar
você.
- Onde posso mendigar?
- Onde quiser, menos aqui. De onde você é?
- De Bihar. Do Jharkhand.
Dá de ombros e desce para o Ganges. Eu me afasto e me
sento no lado da escada, diante de um pequeno templo a
Rama.- Acendo um biri e estudo a situação.
O dia nasce e a cidade desperta. Os devotos começam a
descer na direção do rio, mas ninguém me lança sequer
uma moeda. Em compensação, do interior do templo um
balde de água voa sobre minha cabeça, depois um jato de
cuspe vermelho de tabaco cai a dois metros de meus pés.
Parece uma mancha de sangue sobre a pedra cinza; é a
primeira vez que cospem em mim. Não é nada agradável,
podem ter certeza. Mas fico calado, como sempre.

Um mendigo jovem se instala contra o corrimão, no
patamar que eu ocupava antes. Tem a minha idade, a pele
cor de carvão de pedra, com placas de sujeira, como se
tivesse sido lambuzado de graxa. O branco brilhante de
seus olhos, fixados em seu rosto escuro, faz com que tenha
uma expressão inquietante. Não demora e o velho que me
expulsou o aconselha a ir embora. Meu colega permanece
no lugar, e o velho vai embora.
Talvez eu tenha obedecido muito rápido. Devia ter ficado.
Não tive coragem, mas essa parece ser a técnica para se
impor ao longo da escada, quando se é novato. Resta um
metro e meio de corrimão livre ao lado do jovem mendigo.
Vou até lá.
Um mendigo velho, instalado três degraus mais abaixo, me
manda embora. Digo que não. Ele acrescenta:
- Vão chegar cinco mendigos. Vão bater em você.
- Não se preocupe - respondo calmamente. - Vou mendigar
aqui e, quando os outros chegarem, a gente se aperta. Está
bem?
- Não, não está.
- Paciência!
O velho não se mexe e eu fico. Tenho razão, pois, cinco
minutos depois, chega apenas uma mendiga.
Exige meu lugar, dando a entender que é dela. Eu me afasto
um pouco e ela se senta resmungando. Não dou
importância. Percebi que se me deixo expulsar, nunca me
integrarei.
A mendiga tem uns 60 anos e a tez caramelo. É elegante
para uma mendiga. Veste um sari de algodão barato, mas
limpo e sem estar rasgado, e usa pulseiras de metal que
parecem de prata. Ela se acalmou e me pergunta quem sou.
Respondo que de Bihar.
- Estranho, não fala como a gente de Bihar. Tem o sotaque
da Caxemira.
- É porque vivo na selva. Temos nossa própria língua. Sou
aborígine. Sou Munda.
- Munda... É muçulmano? - diz com desdém.
- Não, sou hindu. Não há Munda muçulmanos.
- Ah, bem!
- É verdade - diz o velho mendigo, no degrau de cima. ­ Os
Munda não são muçulmanos, é uma casta hindu de
varredores.
Isso significa casta de intocáveis, e não o contradigo. É
perfeito. Só quero ser tomado por um mendigo intocável. O
resto não me importa.
O velho que me toma por um varredor enrola uma faixa no
pé esquerdo. O pé parece em perfeito estado, mas ele quer
bancar o doente. Nada bobo. Estende, à vista dos passantes,
o pé estropiado.
A bola vermelha do sol está a uns quatro metros acima do
Ganges. Seus primeiros raios são agradáveis e tiro a coberta
dos ombros para aproveitá-los.
Somos cerca de 30 mendigos. O prato, à nossos pés.
Alinhados do lado direito da escada. Não sei por que e não
ouso perguntar a meus vizinhos.
Desde o nascer do dia, as pessoas descem para fazer suas
abluções no Ganges, e alguns de nós ganham esmolas.
Talvez um em 100. Imito os outros mendigos. Em geral,
não estendemos o prato, esperamos que dêem
espontaneamente. Mas um velho, no alto da escada, esmola
com uma gamela, perto de cada pessoa bem arrumada que
passa, à direita ou à esquerda. Esse lugar é muito bom e ele
recebe mais esmolas que a média.
Dashashvamedh é a margem mais turística de Benares e
dezenas de estrangeiros transitam diante de nós. Brancos e
japoneses, andarilhos sujos e grupos ricos em trajes
coloniais. Pouco importa. Não dão esmolas. Ou então
muito raramente, a um único de nós, uma moeda de 50
centavos ou uma rupia.
Um estrangeiro jamais me dará uma esmola.
São ricos, podiam dar uma nota de 10 a cada um de nós. O
total seria de 300 rupias, ou seja, 12 dólares. Não ficariam
sem dinheiro por causa disso.
E isso não é tudo. Quantos milhares de francos foram
gastos para vir a Benares? Uma dezena; e, se não vissem
mendigos neste cenário, ficariam decepcionados. Seria
menos romântico. Então nos observam, fotografam em
plano geral ou em um canto da paisagem. Depois vão
embora, sem nos pagar. Ladrões de imagens! Para eles
pertencemos a todos, como os templos, o Ganges, e podem
nos contemplar de graça. Pulhas!
Como na estação, são os indianos que dão esmolas.
Homens e mulheres de 40 a 60 anos. E quando fazem
caridade dividem o que vão dar entre todos os mendigos.
Não há ciúmes. Sobem ou descem a escada e jogam a
esmola em cada prato. Uma moeda de 10 ou 20 centavos,
ou um pouco de arroz, ou alguns amendoins, ou bolas de
melaço.
O próximo!
O melaço só interessa às vacas e aos cachorros, e a
mendiga chique o joga para eles, assim que a pessoa que o
deu desaparece. Eu a compreendo. Está ali para ganhar um
dinheiro com que viver, para sair da miséria. Além disso,
experimentei as tais bolas. São pastosas, pouco doces e
infectas. À noite, eu as jogarei no Ganges, junto com o
arroz. Não ouso fazê-lo à luz do dia.
Mendigo assim até a metade da manhã e ganho pouco mais
de duas rupias, isto é, um centavo de dólar. O justo para
fazer uma refeição. A partir das nove horas, a multidão
diminui no ghat. As esmolas se tornam ainda mais raras e
os mendigos arrumam suas coisas.
Tenho fome e decido ver se hoje o templo de Baba
Khichari distribui comida, como há três semanas, antes de
visitar o templo dos intocáveis.
Não tive sorte. Nesta manhã a panela não fumega e o
cozinheiro e outro cara jogam cartas.
Este bairro é turístico; se entrar em um restaurante, só
poderei comprar dois pães secos, pois o purê de lentilhas
não é gratuito.
Custa de duas a três rupias. Resolvo me dirigir ao mercado
das pulgas de Nai Sarak. Acho que ali há tabernas que não
são caras.

Tenho de interromper a narrativa de meu almoço no
cruzamento com a Godhaulia, porque me deparo com um
espetáculo inacreditável.
Na quinta passada, de manhã, vi um cadáver na estação em
que ninguém prestava atenção. Exceto uma vaca. Nesta
quinta, 19, uma semana depois, na mesma hora encontro
outro cadáver. Isso se torna um hábito na quinta-feira e
digo a mim mesmo que muitos mortos se arrastam pela via
pública, já que os vejo com regularidade. Hoje é mais
interessante ainda. O cadáver está estendido na beira da
calçada, as pernas e os braços abertos, dois colares de flo-
res em volta do pescoço, e passantes jogam moedas e notas
sobre ele. Ah, ia me esquecendo, é o cadáver de um
macaco.
Um macaco! Um dos milhares dos macacos pardos de
traseiro vermelho que moram nos telhados dos prédios de
Benares.
Esta é a Índia. Se morro na rua, ninguém sequer me olhará,
mas quando um espertinho exibe o cadáver de um macaco,
as pessoas param, fazem uma oferenda e uma oração, pois o
macaco é o símbolo do deus Hanuman. O rei dos macacos é
aliado de Rama. Filho do deus dos ventos, sua astúcia e
força são invencíveis, voa pelos ares, é sábio, cura as
doenças e é uma das divindades mais populares da Índia.
Sobre o macaco, cerca de 15 rupias. Neste país, exibir um
macaco morto é um bom trabalho.
Causa-me nojo, mas digo a mim mesmo que não devo ficar
aflito. Devo conservar o bom humor. Não levar nada a
sério. Prometi isso a mim mesmo, anteontem, antes de
partir. Senão vou querer morrer, como na estação.

É preciso rir! Mesmo que faça mal. Lautréamont escrevia
que Maldoror, aflito com a vilania dos homens, abriu a
comissura dos lábios com um canivete, para esculpir um
sorriso... Rir para se consolar.

Descobri uma taberna barata em Nai Sarak, a 300 metros
do cruzamento com a grande igreja protestante. Sou eu que
a chama assim, pois esse estabelecimento não tem nome e,
se passar por lá, encontrará à esquerda, na fachada, sob o
forno de barro, ladrilhos brancos decorados com efígies dos
deuses Hanuman, Shiva, Ganesh, Lakshmi, Durga e
companhia. Em seu interior, um cômodo único, de quatro
por quatro metros, abriga três mesas de fórmica amarela
com três cadeiras em volta de cada uma. A mobília é velha,
mas limpa. Ao tocá-la, sente-se que não está engordurada.
Eflúvios de uma comida apetitosa emanam de uma panela
sobre o fogão. As paredes, azuladas, estão mofadas, mas
isso é normal e, além do mais, estou pouco ligando para o
estado delas. Acho que aqui vou comer bem.
Sou o único cliente, além de um sujeito, nos fundos, que
chupa os dedos após mergulhá-los em um purê de lentilhas.
O dono tem uns 50 anos. Usa um lungi sujo, tem barba
grisalha à Gainsburg e uma tonsura branca de velho pardal
depenado. Sua voz rouca, quase muda, como se tivesse
operado a garganta, lhe empresta uma aparência frágil.
Quando pergunto o preço dos pãezinhos e do purê de
lentilhas, quase não escuto a resposta. São 50 centavos por
pão e a lentilha é gratuita. Ótimo. Peço quatro pãezinhos.
O dono cozinha e serve ao mesmo tempo. Enrola os
pãezinhos, assa sobre a brasa do forno e os serve bem
quentes, com a porção de purê de lentilhas.
Está excelente. É verdade que sinto muita fome, mas, assim
mesmo, está delicioso. Como se tivesse trufa para perfumar
o purê. Mas não tem. Não faz mal! O gosto natural das
lentilhas me dá tanto prazer!
Tenho direito a mais uma colherada de purê para acabar os
pãezinhos. Depois, pago duas rupias e volto a mendigar e a
errar pelo ghat. Nada a assinalar.
Depois do crepúsculo, compro duas bananas para o jantar e
me deito sobre um estrado, como ontem.
À tarde a mendicância rende pouco; hoje só ganhei três
rupias e 20 centavos. Menos da metade de uma jornada de
trabalho na estação.
Não conseguirei viver mendigando aqui.

20 de novembro

Na vida, há corrimãos nas escadas para ajudar a subir. Há
rampas para lançamento de foguetes. Há rampas para os
carros descerem às garagens. Há rampas para brilhar sob as
luzes do palco. Em Dashashvamedh, também há a rampa
dos mendigos. Permite ao devoto exercer a caridade e
aperfeiçoar seu carma.
Por isso as pessoas distribuem as oferendas entre todos os
mendigos. Para dar o maior número possível de esmolas,
multiplicar suas boas ações e, conseqüentemente, a chance
de reencarnar melhor. Dão esmolas para beneficiar sua
própria existência e não por piedade sincera, por
generosidade.
Eu acho.
Quer dizer, tenho certeza.
Nós, os mendigos, gostamos de receber moedas e notas de
dinheiro. Evidentemente. Mas metade dos devotos - em
geral, mulheres - nos dá esmolas em alimentos. Um
punhado de arroz ou amendoins... Descobri que as pessoas
que oferecem alimentos vêm regularmente fazer caridade.
Várias burguesas mais velhas e sem ter o que fazer
distribuem entre nós dois a três quilos de arroz diariamente.
Isso representa cerca de 10 rupias, isto é, uns 30 centavos
por mendigo. Eu preferiria receber em espécie. Mesmo os
colegas que possuem com o que cozinhar abrem um sorriso
maior quando recebem o dinheiro para o arroz, do que
quando recebem o arroz. Mas essas mulheres não ligam
para isso. E desprezando nossos desejos, acho que
reencarnam realmente melhores, por usarem todos os dias a
nossa presença.
Pois elas nos usam. Aqui somos valiosos.
Esmolo como ontem, encostado no corrimão, e constato
que as pessoas não nos lançam olhares de desprezo. Nem
dão lições de moral. Dashashvamedh não é a estação.
Se estender meu prato ou deixá-lo a meus pés, não faz
diferença; os passantes não demonstram que nós os
incomodamos. Eles nos ignoram sem agressividade e uma
em 100 vezes nos dão esmola. Não nos colocam no nosso
devido lugar, pois já estamos nele. Pelo contrário. Hoje de
manhã acabei cochilando um pouco e fui despertado pelo
ruído metálico de uma moeda de 10 centavos que um
devoto lançou, fazendo caridade na escada dos mendigos.
Não queria se esquecer de mim.
Aqui representamos um papel, e, como os colegas, grito
"Viva Rama!" quando recebo uma esmola. É uma bênção,
uma fórmula que valida o ato. O rosto do devoto sempre se
ilumina ao ouvir o nome de Rama falado por 30 mendigos,
um atrás do outro.
Também dizemos "Viva Rama!" quando os passantes
afluem ao alto da escada. Este slogan chama a atenção para
nossa função religiosa. Incita a nos darem esmolas e não
me incomodo de repeti-lo. Mas não sou tão louco por
Rama como certos mendigos que repetem mecanicamente
''Viva Rama!", durante cinco minutos.
Cinco minutos é muito tempo e a repetição do nome de
Rama parece embriagá-los. Sua histeria já não me choca,
pois da manhã à noite com os dois alto-falantes instalados
sobre um mastro, embaixo do ghat, e as orações nos
templos vizinhos, uma cacofonia religiosa me embruteceu.
Barulho dos sinos, dos búzios, a música da cítara, da
percussão, vozes humanas cantando odes a Rama e à sua
esposa, Sita.
A mendicância é normal em Dashashvamedh, uma
atividade reconhecida, quase de utilidade pública. As
tendas de suvenires vendem até moedas para que os
devotos cumpram seu dever e dêem esmolas ao máximo de
mendigos. Trocam uma rupia por 90 centavos em
moedinhas. Os velhos comerciantes, no alto da escada, não
param de interpelar os passantes: "Troquem o dinheiro,
dêem aos pobres!..."
Em Dashashvamedh, mendigar não é humilhante.
21 de novembro

Sim, mendigar em Dashashvamedh não é humilhante.
Mas só ganho duas ou três rupias por dia, e isso não é o
suficiente para comer e comprar biri. Graças a Deus, ontem
e hoje o templo de Baba Khichari preparou a refeição
gratuita. Almocei lá. A papa de arroz e lentilhas me
acalmou o estômago durante o dia todo. Economizei três
rupias, o que dá para comer, amanhã, no pequeno
restaurante de Nai Sarak, se o khichari gratuito não for
servido. Soube, por um outro mendigo, que esse templo
não recebe esmolas suficientes para alimentar os pobres
todos os dias. Também ele me disse que amanhã, domingo,
os sacerdotes de um templo vizinho, de Hanuman,
oferecem arroz e legumes aos mendigos de
Dashashvamedh. Não confio no futuro e, se não quero me
preocupar, é melhor economizar.
Minha situação se resume da seguinte maneira: na estação,
sou um sub-homem e como o suficiente; no ghat, sou
respeitado e jejuo.
Além disso, esmolo sem me mexer e me aborreço ainda
mais que na estação. Felizmente, posso trabalhar enquanto
cochilo. Isso me ajuda a aguardar o crepúsculo.
O inverno chegou e a noite me liberta de meu calvário a
partir das 17 horas. Ontem à noite me deitei cedo. As
risadas dos que passavam me embalavam e os sinos do
templo da Mãe Ganges soavam com toda força. Pouco
importam todas essas energias. Quando não se tem o que
fazer, nada mesmo, nunca é cedo demais para mergulhar no
sono. Podem ter certeza. Esperava esse descanso desde o
despontar do amanhecer.
Esperar. Esperar. Esperar. Dia. Noite. Dia. Noite.

23 de novembro

Quinto dia na escada. Mendigar em Dashashvamedh não é
humilhante. Mas...
Mas a competição entre os mendigos é penosa e a
atmosfera, execrável. No começo, pensava que tinha
chegado em um mau momento. Mas não. Todos os dias
eles se espancam por causa de lugar. Como se um mendigo
a mais ou a menos afetasse seus ganhos.
Os velhos ao meu lado não param de repetir que eu não
devo mendigar, que devia trabalhar. Ainda hoje a velha
elegante me repete:
- Você é jovem, por que não conduz um carrinho? Deixa o
lugar para nós, os velhos.
- Não tenho vontade de fazer isso. É cansativo.
- Você é preguiçoso. Trabalhe em vez de mendigar.
Aqui, não é o público que me dá lições de moral, mas meus
colegas. É o cúmulo. Não é da conta deles se sou
preguiçoso. E se os devotos me dão esmolas, não é
problema deles.
Mas é. Isso lhes interessa, pois a moeda e o arroz que
recebo não serão divididos entre eles. Eu lhes tiro o pão da
boca.
Eu os acho repugnantes. Somos tão miseráveis, tão pobres,
e em lugar de nos unirmos como irmãos, desejamos a morte
do outro para ficar com a parte dele. Vivemos da caridade,
mas somos incapazes de ajudar, de amar o próximo.
Sempre achei que a miséria aproximava os homens. Não sei
onde busquei essa idéia. A verdadeira miséria torna os
homens animais. Desenvolve o instinto da sobrevivência. A
fraternidade e a piedade se tornam um luxo que já não se
usa. Lembro-me das discussões permanentes nas favelas
dos varredores da Ravindrapuri.
Não peça a um mendigo de Dashashvamedh para fazer
caridade a alguém mais pobre que ele. Sua tarefa, seu papel
sagrado, religioso, consiste em aceitar as esmolas. Seu
dever não é dar esmolas.
Nem mesmo tolerar a presença dos concorrentes, o que
seria uma generosidade. O Bhagavad-Gita, o evangelho
hindu, explicita bem a conduta a seguir:
"Seu dever, mesmo que imperfeito, é preferível ao dever do
outro, seja ele excepcional. Melhor é o fundamento em seu
próprio dever, o dever do outro é fonte de perigo."
Não consigo aceitar essa divisão da sociedade. O Ocidente
talvez seja uma selva bárbara, mas a civilização indiana
transforma os homens em robôs. Em criados roídos por um
egoísmo exacerbado.
Agora, é o falso doente, sentado embaixo da velha, que me
dá uma lição de moral. E patati, patatá! Desde que cheguei,
na semana passada, ele me importuna e ainda não respondi.
"Tire a atadura falsa e vá embora! Pedale puxando um
carrinho." Depois, gostaria de acrescentar para a velha:
"Você também pode trabalhar, em vez de ficar
aconselhando os outros. Pode abrir uma tenda. Por que não
faz isso?"
Na estação, jurei que depois que terminasse esta aventura
daria esmolas a todos os mendigos que encontrasse. Pois
bem, torno a engolir parte do que cuspi. Paciência. Só darei
esmolas aos mendigos jovens. Os velhos me enojam.
Repetem os conselhos, as censuras, as ameaças: "Vá
embora! Trabalhe! Preguiçoso!" Isso há cinco dias. É o
único assunto de que falam. Não posso nem mesmo res-
ponder, pois evito discutir.
Que ambiente!
Além do mais, uma onda de frio assola Benares. Lufadas de
vento varrem o ghat e eu gelo. Desde ontem, o sol mal
consegue atravessar a massa de nuvens, e choveu hoje de
manhã.
Durante uma ou duas horas é o bastante. Guardei minhas
coisas e me abriguei sob um pórtico. Uns 10 colegas
continuaram no mesmo lugar e se protegeram sob toldos de
plástico. São malucos, perderam o senso da realidade, pois
ninguém virá dar esmolas em um tempo como este.
Aproveitei para fumar biri e admirar a paisagem.
Contemplei o Ganges sob a chuva. A superfície do rio
ondulava como um tecido de seda verde, que flutua ao
vento, e eu me senti frágil, sensível aos menores
contratempos da existência. Gostaria de ser duro, um
verdadeiro aventureiro. Não consigo. Sofro com a fome,
com o tédio, com a hostilidade de meus colegas e com o
frio. Eu me sinto emagrecer e muito cansado. Até mesmo
coisas insignificantes, como uma suéter, me preocupam.
Bem que queria uma para me aquecer, como as pessoas
comuns, e não ter de me enrolar em uma coberta. Dezenas
de tibetanos percorrem a rua Dashashvamedh com uma
pilha de suéteres sobre os ombros, uma sobre o braço e
outra presa por um cordão nos quadris, e vendem a quem
passa. Não me interpelam. Não tenho cara de quem vai
comprar. Mas a velha chique, que acha que lhe tiro o
alimento da boca, usa uma bonita suéter rosa. Está
aquecida.
Por que ela me aborrece? Sou um pobre coitado.
Estava melhor na estação. Era mais confortável e ninguém
me censurava.
Enfim, não sei. Lá eu ficava refletindo c queria morrer.
Aqui a morte não me preocupa. Talvez porque eu viva na
defensiva.
Não existe um refúgio para Ram Munda?

24 de novembro

Meio da noite. Acabo de ser detido por um policial. Jantei
em Nai Sarak, voltei tranqüilo para Dashashvamedh, quase
feliz, o estômago acalmado por dois pãezinhos e uma
porção de purê de lentilhas. Atravessei o cruzamento de
Godhaulia, e pronto!... Ali, no meio da calçada, estava um
cão de cáqui que me chama com um gesto indolente. O que
seria? Eu me aproximo.
Sem dizer boa-noite nem nada, vai direto ao assunto: "Que
manchas são essas na sua roupa? Sangue?"
Porcaria de nitrato de prata! Parece tanto assim com
sangue? Eu não sei, pois sou daltônico e as cores não são o
meu forte.
- É gordura. Eu me sujei.
- E o que tem no saco? - prossegue. - Mostre.
Isso me aborrece, pois, dentro, escondi o dinheiro francês,
nesses últimos dias de metamorfose. Tenta enfiar a mão no
saco. Em vão. A coberta ocupa muito espaço nele e tem
muita gente em volta para que eu possa esvaziá-lo. Manda
que eu o acompanhe até a guarita, na esquina do
cruzamento.
Obedeço. Estamos sozinhos dentro da guarita e eu tremo.
Ele repara: "Está com medo? O que usa sob o lungi?
Pijama, short ou cueca?"
Ele não parece um pederasta e me pergunto aonde quer
chegar.
Respondo:
- Short.
- Mostre!
Levanto o lungi e aparece meu short marrom. Um short
comum. Espero que não peça para baixá-lo, porque o alto
de minhas coxas é branco. Este policial vai fazer um
interrogatório se descobrir que sou bicolor. Ele suspira:
"Tudo bem, não tem sangue. De onde você é?"
Digo a mesma coisa de sempre. Que sou de Bihar, um
aborígine do Jharkhand, vindo em peregrinação a Benares.
Quando? Bem, hoje. Como? De trem. Falo sem gaguejar,
mas tenho medo. Ele acrescenta:
- Tem a passagem?
- Não. O fiscal ficou com ela, quando saí da estação.
- Veio em que trem?
Nisso ele não vai me pegar. Depois de 15 dias na estação,
sei de cor os horários dos trens.
"Cheguei às sete horas da manhã pelo expresso de
Dhanbad.
Ele me afasta e apalpa o saco. O que procura? Uma faca?
Um revólver? Uma bomba? Passagens?... Não faço a menor
idéia. Pareço um indiano transportando o quê? Gostaria de
saber.
Fico sem saber. A inspeção no meu saco o satisfaz: não
encontrou nada suspeito e me deixa ir embora.
"Vá fazer suas abluções no Ganges!"
Consegui escapar, mas esse encontro me inquietou.
Impossível esquecê-lo ao dormir. Em 10 minutos, à meia-
noite, ou amanhã, talvez um policial me pegue e descubra
que sou um impostor. Quem sabe? Tenho medo da prisão.
Medo de ser expulso. Medo dos golpes de cassetete. Medo
de que toda essa aventura seja revelada, destruída, anulada.

25 de novembro

O sol voltou desde ontem. Ele nos aquece bem ao longo da
escada, mas isso não muda nada. Nem a chuva nem o bom
tempo refarão a humanidade.
O ambiente à minha volta continua abominável. Bela
manhã à vista e um velho desdentado canta em coro com a
velha chique o refrão dos mendigos: "Vá embora! Vá
trabalhar!" Várias vezes. Hoje, além disso, falam dos
policiais. E não gosto nada disso. Não mesmo.
- Não deve mendigar aqui... Hoje vai haver uma batida
policial.
- Como sabe?
- Nós sabemos. De vez em quando há batidas e
conhecemos os policiais há muito tempo. Não temos medo.
Mas eles prendem todos os novatos.
- Não. Não acredito. Está dizendo isso para que eu vá
embora.
- Claro. Mas, se quer, pode ficar. Não damos a mínima.
Vão prender você por um ano. E só darão dois pãezinhos
por dia para você comer... pequenininhos assim. - Mostra
com um gesto da mão. - Não vale a pena arriscar. Se
manda!
- Não é justo. - Não consigo deixar de dizer.
- O que não é justo?
- Que vocês possam mendigar.
- Você é jovem. Trabalhe!
- Tenho fome.
- Não precisa mendigar para comer. Todas as manhãs o
templo de Baba Khichari oferece alimentação.
- Mentira. Há dias não preparam nada.
- Bem, um pouco mais distante, o templo Vishwanath do
ghat Meer serve, sempre ao meio-dia, comida aos pobres.
Tenho certeza. Não se preocupe, não vai morrer de fome
em Benares. Vá embora.
Talvez seja verdade essa história de batida policial. Penso
no policial de ontem à noite; não sou corajoso o suficiente
para me arriscar a ser preso e me aborreço nesta escada.
Estagnei, não aprendo nada de novo sobre a condição de
mendigo intocável. Repito tudo e, de repente, a evidência
se impõe. Devo partir.
Eu me levanto e vou embora. Em busca de um lugar para
comer de graça.
Estou furioso, pois os mendigos conseguiram me expulsar
dali. Porcos!
Tenho sorte. Nesta manhã o templo de Baba Khichari serve
a refeição. Almoço. É mais seguro e não vou ao templo do
ghat Meer. Depois passeio à margem do Ganges.
É bonito. Parece um cartão-postal. Devo falar um pouco
desse local. Falar do Ganges que mede centenas de metros
de largura e que, sob o sol inclemente, cintila como um
colar de esmeraldas; dos templos barrocos e dos palácios
dos marajás, de pedra vermelha, que pendem sobre ele; dos
milhares de banhistas que fazem suas abluções
murmurando palavras mágicas; dos homens que evacuam
em um canto; dos alto-falantes que matraqueiam
confusamente cânticos religiosos e músicas de filmes hindi,
como se cantar Receba! Receba um beijo! exaltasse o
divino; dos búfalos negros que se pavoneiam ao longo do
rio nas águas lamacentas que batem à margem; das dezenas
de meninos que fazem subir ao céu azul as pipas vermelhas
ou verdes; dos cachorros que copulam e das cabras que se
escornam nas escadas; dos macacos que saltam de árvore
em árvore e a quem é preciso evitar olhar diretamente nos
olhos, pois nos mostram as presas, franzindo as
sobrancelhas, e se preparam para atacar; dos pombos e dos
papagaios de plumagem verde que se aninham nas seteiras
dos palácios; dos abutres que giram bem alto no céu, acima
de tudo isso, como se dominassem, controlassem esta
cidade santa. Também é preciso falar do odor dos
excrementos, dos golfinhos que saltam à vontade no rio,
dos cadáveres de vacas e de búfalos que ali flutuam, dos
lavadores de roupas, meus irmãos intocáveis, que as lavam
neste esgoto a céu aberto e depois as estendem nas
margens, compondo uma tapeçaria multicolorida. E
também do vermelho, do verde, do amarelo, do branco, de
todas as outras cores. É magnífico.
Sem dúvida.
Não me estenderei mais sobre isso. A paisagem não me
fascina. Para mim deixou de ser um álbum de cartões-
postais, tornou-se meu universo. Nem belo, nem feio, nem
exótico: na minha cabeça, Benares substitui Paris.
Cresci ao pé de Montmartre. Uma das janelas se abria sobre
o Sacre-Coeur, o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel ao
mesmo tempo, mas eu não reparava. Hoje, olho o Ganges
sem vê-lo e me recuso a trapacear, a fomentar sonhos
baratos, acrescentando a cor local, um pouco de bruma e
pastel ao meu relato.

Faço uma sesta de duas ou três horas na margem protegida
do sol e decido comprar um chá. Uso o que poupei. Estou
farto de me privar e a partir de agora acho que vou me
isolar no papel de um peregrino intocável. Chega de
mendigar.
Eu me instalo em um botequim na orla do Ganges. A
chaleira em ebulição exala um aroma suave de cardamomo.
Adoro essa especiaria. Peço um chá, e o dono, um homem
pequeno, na faixa dos 50, o serve em um pote de barro, mas
não ligo. Não quero insistir em saber por que ele não me
serviu em um copo, como fez com o outro cliente. Que está
mais bem-vestido que eu. Usa camisa e calça limpas. Tem
minha idade, talvez um pouco mais velho, a tez clara, o
rosto bexigoso, o nariz adunco e cabelos untados de óleo,
quase colados. Tem jeito de quem diz "merda" e
"obrigado" ao mesmo tempo, uma cara de rato com diarréia
e não me inspira nenhuma simpatia. Mas talvez eu esteja
enganado. Ele se vira para mim e sorri. Depois enceta uma
conversa. De onde venho? Quem sou eu? Ele dirige uma
farmácia perto de Godhaulia e pertence à casta dos
comerciantes, como os Agraval. Ele se diz interessado nos
costumes aborígines. Quer que eu fale a respeito.
Desconfio de seu ar mexeriqueiro. Além do mais, não sou
mais um mendigo e ele me trata com intimidade. Não
somos camaradas e não criamos porcos juntos. Na verdade,
a criação de porcos é exercida pelos intocáveis. Ele é um
Agraval, e eu, um intocável. Exatamente!
"É casado?", pergunta. Respondo "sim" porque me parece
mais simples.
- Sua mulher é bonita?
- Sim.
- Então há mulheres aborígines bonitas?
- Por que não?... A minha me agrada.
- Mesmo?
- Sim.
- Tem filhos?
- Não.
Ele toma um gole do chá e, repentinamente, pergunta com
os olhos cintilando: "Trepa com sua mulher?"
O que responder? Não quero criar caso e esboço um gesto
evasivo com a mão para que entenda que a conversa me
incomoda. Mas ele não dá importância.
- Olha, é uma sorte conhecer um aborígine. Queria
perguntar uma coisa. - Ele se aproxima. - Vocês vivem
como selvagens. É verdade que trocam as mulheres uns
com os outros? Que trepam livremente? Um pouco como
os animais? Ouvi dizer que só pensam nisso. Em trepar e
beber.
- Não sei. Na nossa aldeia não é assim.
Respondi mantendo a calma e sorrio ao pensar que ele
realmente ignora tudo a respeito dos costumes animais,
mesmo sendo farmacêutico. Ele insiste:
- Você tem muitas mulheres?
- Não.
- Gostaria de ter? Diga a verdade!
- ...Não necessariamente. E o senhor?
- Eu?... Gostaria, se a lei permitisse. E se fosse rico o
bastante para mantê-las.
- Tem razão. Penso como o senhor. Exatamente assim. Nós,
os Munda, somos homens iguais ao senhor.
Falei sem refletir, como expressamos uma evidência, mas
Agraval faz cara feia. "Espere um pouco. Vocês não são
civilizados. Vivem na selva, como animais. São sujos como
os porcos, comem raízes e rãs, e suas mulheres não cobrem
o torso. Vi fotos. Vocês têm menos respeito pelas mulheres
que nós."
Ele se torna agressivo e tenho vontade de calar sua boca de
rato. As estatísticas provam que a sociedade tribal indiana é
mais igualitária, mais harmoniosa. Como nas castas
intocáveis não-aborígines, as mulheres desfrutam uma
posição mais elevada. A mortalidade infantil indica uma
relação entre os sexos menos desfavorável, e a participação
delas na vida econômica é maior. Darei as cifras: a relação
dos sexos se eleva a 98 mulheres para 100 homens nos abo-
rígines, 93,5 em outras castas intocáveis e 92,5 na
população geral - excluindo os intocáveis. Estes números
confirmam a idéia de que os bebês do sexo feminino
sofrem uma discriminação, são menos alimentados e não
tão bem cuidados nas castas superiores, onde as meninas
custam caro, por causa do dote. Nos países desenvolvidos,
as mulheres são mais numerosas que os homens. Por seus
aspectos igualitários e humanos, a sociedade intocável, em
que as mulheres freqüentemente exercem uma atividade
profissional, aproxima-se mais de uma sociedade moderna,
civilizada, no sentido do século 20, que o resto da
sociedade hindu.
Não ouso lhe falar essas verdades, pois provocaria uma
discussão e ele se perguntaria como um intocável miserável
como eu poderia saber dessas coisas.
Termino o chá.
- Vou embora...
- Está chateado porque critiquei os aborígines? Mas é
verdade o que eu disse, não é? Não é?
- Talvez... - Não quero irritá-lo, me levanto e pago o chá.
- Fique mais um pouco. - Volto a me sentar. - Não fique
com raiva de mim. Só repeti o que dizem. Certo? Está bem?
- Sim.
- Ouça... quando trepa, quanto tempo consegue levar? E
sua mulher? Ela o chupa?
O quê?
Sei que os indianos adoram falar de sexo, mas não nos
conhecemos e esse interrogatório me surpreende, vindo de
um farmacêutico, de certa forma um comerciante
intelectual. O sujeito se comporta como se não tivesse o
menor respeito por mim, como se estivesse pouco se
importando em expressar suas curiosidades íntimas na
minha frente, um porco aos seus olhos de Agraval. Ele não
se dá conta, mas não respeita nem a si mesmo. Revelando
em público a obscenidade de sua natureza, age como um
animal, sem senso de moral. Reflito e ignoro sua segunda
pergunta, pois talvez depois queira saber se meu pênis tem
a forma de uma palito de dentes etc. Assim, nunca me
livrarei dele. Escolhi responder à primeira pergunta
dizendo pelo menos alguma coisa verossímil. Quero
satisfazê-lo e encerrar a discussão sem confusão. Digo:
- Quarenta minutos.
- Quarenta minutos? Impossível! Se passar de cinco
minutos, seu pênis começa a doer.
- Fico 40 minutos. Já vou...
Ele fica boquiaberto, e me levanto. Já tinha saído do
botequim quando ele gritou com a cara preocupada:
"Quarenta minutos é impossível! Não é anatômico! Está
mentindo!"
Deixo-o choramingar, nunca fiz amor para ganhar uma
competição contra ele e percebo que esse rato imundo deve
sofrer de ejaculação precoce. Isso não me deixa feliz.
Lembro-me dos artigos que li sobre a sexualidade
miserável dos indianos. Impotência, frigidez, brutalidade
nas relações, ausência de intimidade, casamentos de
conveniência. Na verdade, como Ram Munda, não tenho
desejos sexuais. Claro que é melhor viver assim. Não
preciso satisfazer a onda de calor que descia de minha
cabeça, pelo menos uma vez por dia, e me importunava
entre as coxas. Eu me pergunto qual o motivo de meu
estado atual. Não tomo sedativo. Talvez seja o cansaço, a
falta de dormir e a alimentação deficiente. Todos os dias,
"purê de lentilhas e pão" ou "arroz e lentilhas"; nenhuma
vitamina. Apalpando meu ventre, não sinto mais a inchação
de gordura na altura do umbigo e me dou conta que devo
ter emagrecido mais um ou dois quilos. Talvez mais. Sem
dúvida isso sufoca minha libido.

Abandono as considerações sobre minha vida sexual e
acendo um biri. O gosto é bom e o fumo andando na
direção de Godhaulia. Passear. Arejar as idéias.
Não dá certo. É impossível esquecer o onipresente sistema
de castas. O sol começa a descer, mas a multidão habitual
da noite não ocupa Godhaulia e metade das lojas está
fechada. Os estudantes das castas altas, que se opõem às
cotas de empregos na administração para as classes
atrasadas, decretaram a greve para hoje, e vários
comerciantes, com medo de represálias, fecharam seus
estabelecimentos a partir do meio-dia. Fico sabendo disso
ao comprar bétele em uma barraca com as janelas
entreabertas. Não me agrada constatar a força desses
estudantes segregacionistas e volto para a orla do Ganges,
para saborear meu pan. Esquecer a sociedade humana. A
Índia nos torna misantropos.
O pan é um excelente mata-fome para os pobres. Faz
salivar e entorpece o estômago. Este será meu jantar, por
meia rupia. Sento-me acima de Dashashvamedh, no ghat de
Raj. A escada desce de um imenso palácio de pedra
vermelha até o rio esmeralda. O local é majestoso,
tranqüilo e oferece uma vista panorâmica de Benares. Uma
paisagem em technicolor, com palácios e templos a perder
de vista, com os barcos compridos que os remadores
profissionais fazem deslizar, de modo cadenciado, sobre as
águas sagradas. Tenho a impressão de estar em um filme de
Hollywood, na margem do Nilo, na época dos faraós.
Exatamente. O crepúsculo expulsa o dia e ao pé da escada
sacerdotes preparam suas oferendas da noite à Mãe Ganges.
O espetáculo me transporta para a Antiguidade. Ritos
primitivos. São ridículos; tão complicados quanto inúteis.
Resumo a cena, pois ela dura uma hora. Cinco fileiras de
20 pires de barro se alinham na orla. Estão cheios de
manteiga derretida - substância purificadora, oriunda da
vaca, e que não é fonte de colesterol- e um pavio é
mergulhado nela. Um sacerdote, na faixa dos 30 anos, de
tez clara e vestindo um pijama amarelo, os acende. É
ajudado por dois garotos. É enfadonho. Ao lado, outro
brâmane, 10 anos mais velho e vestido de branco, acende
um candelabro cônico, constituído de uma centena de
castiçais pequeninos de cobre. Os castiçais também estão
cheios de manteiga derretida e ao queimarem exalam o
aroma suave da cozinha normanda. Esse sacerdote segura o
candelabro com a mão direita e descreve círculos
luminosos na noite. Sua outra mão agita uma sineta, e perto
dele um velho sopra uma concha, mas não o faz direito e só
consegue extrair um som a cada duas tentativas. O
candelabro dança no ar até que a manteiga seja totalmente
consumida e a luz se apague. Isso leva cerca de 10 minutos,
uma eternidade em se tratando de uma valsa de candelabro.
Em seguida, os garotos colocam os pires acesos na água e o
Ganges os leva. As luzes ondulam sobre o líquido escuro. É
muito bonito. Ouço o sacerdote de branco explicar aos
estrangeiros que essa cerimônia é dedicada ao Ganges.
É isso. Dura uma hora, com as palavras mágicas e os gestos
sagrados. Não me peçam para explicar. Não compreendi
nada e não me interessa compreender.

26 de novembro

Ontem, realmente houve uma batida. Um cara que espera
junto comigo, diante do templo Vishvanath, no ghat Meer,
me confirmou.
Hoje de manhã, ao me afastar do Ganges, reparei que havia
muito menos mendigos do que habitualmente e não vi os
que trabalhavam perto de mim. Nem mesmo a velha chique
e o velho que esmola no alto da escada estavam lá. Onde
estão? Como eu não conhecia ninguém, não me informei e
segui meu caminho para o templo de Baba Khichari. Mas
hoje não serviam refeição gratuita, e então procurei o
templo do ghat Meer. Fica na viela do mesmo nome, três
minutos a pé, no coração do labirinto da cidade antiga.
Essa ruela mede 1,50 m de largura e desce na direção do
Ganges, passando por um enorme pipal, inclinado de um
lado a outro; a árvore é sagrada para os hindus - mais uma
coisa sagrada! Só precisei perguntar uma vez o caminho, a
um dos inúmeros comerciantes de iogurte de leite de búfala
do bairro. Reconheci logo o templo por causa dos
maltrapilhos sentados diante de sua fachada branca e reta,
sem ornamentos. Juntei-me a eles.
O cara que me informa sobre a batida tem a minha idade, o
rosto empoeirado e uma barba rala no queixo. Usa camisa e
lungi verdes, em xadrez grande, rasgados. Perguntou quem
eu era e respondi que Ram Munda, fazia uma peregrinação
e não tinha recursos, já que tinha parado de mendigar. Ele
disse:
- Fez bem, pois ontem a polícia levou uma porção de
mendigos que ficavam em vários locais turísticos.
- Tem certeza?
- Sim. Hoje de manhã parece que saiu nos jornais.
- O que os policiais fazem com esses mendigos?
- Prendem por um ou dois dias em um abrigo para
mendigos, depois os soltam. E eles voltam a mendigar.
Qual é o risco de mendigar? Um ano de prisão ou alguns
dias no abrigo? Talvez dependa do caso, e, na minha
situação, foi uma excelente idéia parar de pedir esmolas.
O sujeito a meu lado vem do centro de Uttar Pradesh, mas
vagueia por esta cidade há 10 anos e parece conhecê-la na
palma das mãos. É um vagabundo. Não mendiga. É
cansativo demais. E humilhante.
"Além disso, não serve para nada", diz. "Em Benares,
sempre se encontra um lugar que dá refeição aos pobres.
Aqui ou em Godhaulia, ou no albergue marvari de Assi, ou
nos ghats de Assi, de Dashashvamedh e outros. Não precisa
se preocupar. Não deve perder a confiança no futuro. Deus
nos protege."
Eu o acho simpático e sinto vontade de fumar um biri com
ele. Ofereço-lhe um. Ele fica contente. Eu também. Conta
que a comida é servida por volta do meio-dia, na viela.
Todos os dias, sem falta. Khichari, arroz e lentilhas. Temos
cerca de uma hora para esperar e noto um desfile de
sujeitos sujos como nós, que penetram naturalmente no
templo.
- Eles também vêm comer - meu camarada explica.
- Por que nós esperamos do lado de fora?
- Eles são brâmanes. Têm o direito de entrar. São cerca de
50 e são servidos na frente. Para nós, dão o que sobra.
- Verdade?
Continuo sem acreditar. Esta segregação significa que
ainda hoje, nas cidades grandes, as organizações praticam
abertamente o "castismo", apesar da lei. E, ainda por cima,
organizações beneficentes!
- Sim - ele confirma com a voz triste e abafada. ­ Somos
impuros demais para sermos tratados igualmente.
- Qual é sua casta?
- Não percebeu? Sou como você.
- Não é aborígine.
- Sou um filho de Deus. Sou sapateiro.
- Nunca tentou comer lá dentro, com os brâmanes?
- Claro que não. Não quero apanhar.
No templo, ressoa um sino e adivinho que a música
anuncia que a comida está pronta, pois os rostos de meus
companheiros são animados por sorrisos e suspiros.
- Já era hora! - digo a meu camarada. - Está com fome? -
Não se anime muito, é a hora dos brâmanes. Tem onde
comer? Um prato?
- Não. Não nos dão folhas?
- Não. Só para os brâmanes. Você usa o fular, como eu. Ele
serve.
Sim, me alimentarei sem usar prato, nem talher, como os
animais.
Quinze minutos depois, um homem vestindo camisa e calça
sai do templo com um balde de lata, cheio de papa. Nós, os
indigentes, nos precipitamos em volta dele e me sinto como
uma ave no galinheiro, na hora da distribuição da ração. É
exatamente igual. O sujeito distribui a papa e grita para que
cheguemos mais perto. Dá a cada um uma porção, jogando
no prato, no fular, em um velho saco plástico ou, para os
mais miseráveis, na camisa, que esticam para a frente.
Pego minha parte e me afasto da confusão. Duas colheradas
de papa é pouco. E está queimando, o líquido escorre pelo
pano. Meu camarada diz: "Venha! Vamos comer em um
local tranqüilo."
Eu o sigo. Nós nos instalamos à beira do Ganges e
almoçamos. A papa é infecta. Cozida demais e sem
tempero. Além disso, a porção foi mínima, continuo com
fome. Resolvo voltar à Dashashvamedh. Conheço uma
fonte de água fresca, tão doce que parece com açúcar. É
justamente do que preciso para me acalmar. Depois de um
mês na pele de um indiano, saboreio as diversas águas da
cidade. A água se tornou o líquido mais agradável em
minha boca privada dos prazeres. O mais delicado. Como
um néctar. Encherei o estômago por gulodice e farei a sesta
em um canto do ghat.
Matar o tempo. Na sombra.
"Tudo bem", aprova meu camarada.
Não contava com sua presença, mas, já que se propõe a me
acompanhar, por que não? Eu o chamo de camarada porque
não sei seu nome. Não falamos sobre isso. É verdade que
não muda nada que se chame Gopal ou Ravi. Aliás,
conversamos pouco, apenas fazemos companhia um ao
outro. Ser menos só, neste mundo hostil.
Fazemos uma boa sesta, fumando vez ou outra um biri, e,
no final da tarde, fomos tirados do tédio por gritos vindos
da delegacia, que fica sob um alpendre, no alto do ghat
Dashashvamedh.
Vários curiosos se debruçam na balaustrada que se situa ao
lado do posto. O espetáculo parece interessante, pois se
empurram para ver melhor. Nós nos juntamos a eles sem
pressa.
Uma surra, como sempre.
Na nossa frente, um policial esmurra um sujeito. Ele o
chama de ladrão e de bosharivale, isto é, bicha. O ladrão é
um jovem bem-vestido, com a camisa e a calça limpas. Não
parece nem um vadio nem um indigente, mas o policial o
surra e diz os insultos habituais. De repente o policial
percebe seu cúmplice, que sai correndo pelo ghat. O
policial manda que mostre sua "cara de bicha", não desce
para ir atrás dele. Seguro de seu poder, apita como que
chamando um cachorro, e o cachorro, curvado, sobe a
escada e se junta a ele, para receber os bofetões e ser
batizado com nomes divertidos.
Menos para ele.
Vou resumir. Os dois ladrões estão ajoelhados diante do
malvado cão de cáqui que os espanca, e nós, os
espectadores cabotinos, observamos. Pergunto ao meu
camarada o que acha da cena, mas ele não tem tempo para
responder. O cão de cáqui repara na presença do público.
Pega o cassetete e investe contra nós, gritando: "Bando de
veados! Dispersem! Senão apanham!"
Todos se mandam sem pedir explicação. Sabemos que o
policial está louco para nos espancar.
E nem somos criminosos. Em todos os países que visitei, os
curiosos se agrupam sempre que a polícia arma barulho ou
sempre que há um acidente. É normal. Sem dúvida, são
movidos pela curiosidade e pelo prazer doentio de ver o
sofrimento, a violência. Em geral, a polícia dispersa a
multidão, dizendo: "Circulem, não há nada para ver!" O
que evidentemente não é verdade, já que acontece uma
porção de coisas emocionantes. Na Índia, os policiais não
se atrapalham com essas mentiras educadas, latem:
"Babacas! Babacas! Vão apanhar!"
Eu me pergunto o que resta de Gandhi, fora os nomes de
ruas e retratos empoeirados nas escolas, nos comissariados
e nos templos. Sua mensagem não está viva. Talvez porque
os indianos são tão violentos, Gandhi tenha pregado a não-
violência como sistema de vida e de luta. Os indianos não
aceitaram esse ideal nem o desaparecimento da
intocabilidade. Identificar Gandhi com a Índia gera uma
imagem do avesso deste país. Meu camarada diz:
- Conheço os caras que apanharam da polícia. São filhos de
Deus. Como nós. Se fossem brâmanes ou rajaputros, ele
não ousaria. Canalha!
- O que se pode fazer?
- Nada. Absolutamente nada - responde. - No Estado de
Hariana, um policial castrou um filho de Deus. Que
sacana!... É melhor não pensar nisso, senão se perde a força
para viver. Vem? Vamos para Assi?
- Não. Prefiro ficar por aqui.
- Como quiser.
E desaparece. Assim, sem insistir. Acabou nossa amizade.
Fiquei só, não queria andar dois quilômetros até Assi, não
tinha vontade de nada. Sento-me em um degrau à beira do
rio e penso no caso da castração. Li vários artigos sobre o
caso. São de arrepiar.

Bishambar, 23 anos, e um intocável de Bhatsana, aldeia a
uns 60 quilômetros de Délhi, foi castrado há um mês e
meio, na delegacia local. Tinha sido acusado de roubo de
cobre, no dia 7 de outubro, e ficado sob vigilância. Três
dias depois, foi internado no hospital da capital, Rewari,
com uma incisão de 17,5 centímetros de comprimento por
1,5 centímetro de profundidade, entre os testículos.
Primeiro, Bishambar foi chicoteado na delegacia com uma
câmara de ar. Depois, torturaram-no rolando um tronco
sobre suas pernas. Como sua família se recusou a pagar
20.000 rupias de gratificação para sua libertação e exigiu
que ele fosse levado ao juiz, Maghan Singh, o subinspetor
responsável por Bishambar, com raiva lhe deu um chute
nos testículos e ele desmaiou. Em seguida, os policiais,
tomados pelo pânico, tentaram dissimular o erro, fazendo
uma incisão em seus testículos para simular uma tentativa
de suicídio, antes de levá-lo ao hospital. Os médicos
refutaram imediatamente a tese da auto-castração.
Explicaram que uma auto-incisão do escroto tão comprida
seria impossível, pois provocaria o estado de choque
imediato. Ainda assim o governo não reconheceu a
responsabilidade da polícia, a não ser quando a imprensa e
os políticos da casta inferior dos leiteiros tomaram conta do
caso, por solidariedade a Bishambar.
Ele não poderia ter filhos com sua jovem esposa de 19
anos. Certamente alguns policiais serão punidos, mas todo
mundo sabe que esse exemplo não conterá sua violência. O
mal já se generalizou. Principalmente em relação aos
intocáveis. Assassinatos, estupros, sodomia, torturas.
Tentem imaginar. É como na Antiguidade - um tronco rola
sobre suas pernas e as esmaga. Pouco a pouco. Depois o
carrasco o chicoteia e dá um corte sem o menor cuidado,
usando uma lâmina, entre suas coxas. Estamos longe dos
erros cometidos pela polícia ocidental, das balas perdidas.

Pela primeira vez em 14 anos, uma delegação da Anistia
Internacional viajou para a Índia. Isso vai mudar alguma
coisa? O governo indiano aceitou retomar o diálogo com a
organização da defesa dos direitos humanos. Ela quer
investigar a tortura na Índia e as mortes ocorridas nas
prisões. Bravo! Aplaudo, mas o problema dos direitos
humanos não reside aí. Não será um pouco mais de
democracia nem uma ética policial melhor que irá resolvê-
lo. É preciso voltar à fonte. A ausência dos direitos
humanos nasceu do sistema de castas, logo, do hinduísmo.
Um sistema social de homens e sub-homens que envenena
a Índia, sob a capa da religião, de Deus. Os ocidentais só
vêem o espetáculo. Combatem o racismo e o
antissemitismo no mundo, mas são indulgentes em relação
ao sistema de castas, considerando-o um patrimônio
cultural indiano, como o Taj Mahal. Não se escandalizam
com ele, está distante, e acho que a indulgência também é
fruto da admiração pela civilização dos brâmanes e da
aversão que lhes inspiram os varredores e outros intocáveis,
confundidos com os mendigos e leprosos, a quem só
dedicam uma caridade desdenhosa. Esquecem que os
próprios estrangeiros são intocáveis e que não têm nada em
comum com os brâmanes ou com os rajaputros que os
fascinam tanto.
Essa desculpa cultural para o "castismo" me arrepia. Desse
modo, se poderia justificar o antissemitismo como parte do
patrimônio europeu. Tudo pode ser justificado.
Basta!
Não tenho mais medo das palavras. O "castismo" é um
sistema segregacionista, assim como o apartheid na África
do Sul. Tão ignóbil e condenável quanto ele. O varredor e
o leiteiro na Índia correspondem ao negro e ao mestiço na
África do Sul. A marca é de nascença e fica colada na pele
até a morte. Como o pigmento. Insisto: a casta é indelével.
Sem esperança de ascensão social. Cada um em seu gueto,
com deveres e direitos diferentes. A violência indiana tem
relação com a discriminação das castas ou das religiões - o
que dá no mesmo, na compartimentalização intolerante da
sociedade - e os humanistas ocidentais devem condenar o
hinduísmo e não este ou aquele abuso policial.
Na Índia, a expressão "direitos humanos" não tem sentido.
É um conceito moral fundado no respeito mútuo entre os
cidadãos, um conceito igualitário, impossível de inserir na
sociedade hierárquica hindu.

Minha vida de intocável é muito penosa. Podia estar
instalado confortavelmente na França. Viver em um
apartamento, ter um carro, comer carne e frutas, beber
vinho, tomar banho quente. Podia ter isso todos os dias.
Mas a orla do Ganges se tornou minha casa; a papa de
arroz e lentilhas, minha dieta, e sou tratado como um
cachorro. Esta existência não me satisfaz. Pensando bem,
acho que não consegui me sentir 100% indiano. Esta vida
continua a ser um sofrimento insuportável para mim. Mas o
indiano comum a considera aceitável. Ao contrário, eu me
pergunto se vale a pena viver uma vida assim.
Não me sinto um cidadão da Índia e não sei se os próprios
indianos se definem em termos de cidadania, de
nacionalidade. Ainda não percebi isso. Pertencem ou a uma
casta ou a uma religião, ou a uma região; talvez isso seja a
"indianidade". Na China, eu me considerava um cidadão da
República Popular da China. Na Índia, é normal que um
indiano não se veja como um membro da União indiana.
Eu me sinto um intocável. Não sei se indiano. Mas
intocável, sim. Experimento as mesmas frustrações e
humilhações de Raja Ram, o varredor dom. Sinto a
intocabilidade na pele. E mesmo que volte a ser Marc
Boulet, sei que permanecerei um intocável, na medida em
que for um estrangeiro. Não poderei esquecer esta
metamorfose, nem como os indianos consideram os seres
impuros.
Eu me entedio na beira do Ganges e meu desespero é
extremo. O círculo parece que se fechou. Não posso mais
mendigar e não tenho mais nada a fazer. A não ser contar
as ondas na superfície do rio e observar os policiais
surrarem um intocável. Acho que devo ir pra casa. Verei
minha mulher, refletirei melhor sobre esta experiência,
retocarei a tintura da pele e, amanhã à noite, voltarei com
novas idéias.
Sim, e uma boa idéia. Farei isso.


27 de novembro

Em casa.
Bronzeamento, tintura de nitrato de prata e leitura dos
jornais que saíram durante minha ausência.
Todos os dias, manchetes sobre Ayodhya.
Ayodhya é uma povoação em Uttar Pradesh, a 200
quilômetros de Benares. Onde o deus Ram nasceu. Em
1528, no local de seu nascimento, os invasores
muçulmanos teriam construído uma mesquita depois de
destruírem um templo hindu. Este é o ponto de partida do
caso da mesquita Babri. Ela fascina a Índia toda. Em 1990,
foi a causa de sublevações violentas e da queda do
primeiro-ministro. Já vou avisando, é um caso muito
confuso.
Sob os britânicos, a mesquita Babri já tinha sido
reivindicada pelos hindus; depois da Independência, na
noite de 22 para 23 de dezembro de 1949, as imagens de
Rama e de seus apóstolos ali apareceram "milagrosamente".
Ela foi fechada imediatamente para evitar conflitos entre os
muçulmanos e os hindus, mas, em 1986, um juiz ordenou
sua reabertura, para que os hindus pudessem venerar seus
ídolos. Desde então os hindus só pensam em demoli-la para
instalar as estatuetas de seus ídolos em um templo
gigantesco de Rama, digno de seu local de nascimento. Os
muçulmanos se opõem violentamente ao sacrilégio e
constituíram um comitê de proteção da mesquita Babri. A
Terra tem 510 milhões de quilômetros quadrados, mas o
local de nascimento de Rama, por uma inoportuna
coincidência, corresponde aos 300 m2 ocupados pela sala
de oração dessa pequena mesquita. Segundo o alto clero
hindu, a construção do templo de Rama ao lado da
mesquita é inconcebível, pois os ídolos não podem ser
deslocados nem um milímetro de onde Rama tomou sua
forma humana. Se não tivesse abalado tanto a Índia no
outono de 1990, esse delírio de brâmnnes me faria rir, pois
Rama é um personagem mítico, que teve um nascimento
mítico, supostamente ocorrido 3.000 anos antes de nossa
era e, talvez, no território atual de Ayodhya. Talvez... Mas
o futuro da mesquita Babri se tornou uma questão nacional
mais importante que a edificação econômica do país. O
BJP, partido hinduísta de extrema direita, inclui em seu
programa político a construção do templo de Rama. Seu
progresso nas últimas eleições gerais, em 1991, demonstra
até onde vai o interesse dos indianos.
Em uma primeira fase, os extremistas hindus decidiram
nivelar o terreno em volta da mesquita e lançar os alicerces
externos do futuro templo de Rama, cuja estrutura
gigantesca ultrapassará o local da mesquita. Várias vezes
começaram as obras, mas a justiça sempre as interrompeu,
para proteger a mesquita e acalmar o antagonismo hindu-
muçulmano.
A próxima investida está prevista para 6 de dezembro,
daqui a uma semana, e desta vez as organizações hindus
prometem ir até o fim. "Nenhuma força humana poderá nos
deter", repetem os líderes. "A justiça dos homens deve
obedecer à vontade de Deus, e não o contrário."
A situação política está muito tensa, pois essas
organizações são mantidas pelo BJP, que dirige o governo
local de Uttar Pradesh, logo, a polícia. O poder federal em
Délhi - nas mãos do moderado Partido do Congresso -
ameaça destituí-lo se não respeitar a lei e a Constituição em
Ayodhya, em 6 de dezembro. Deve jurar à Corte Suprema
que proibirá as obras de construção se os simpatizantes não
renunciarem por livre e espontânea vontade.
Os jornais de ontem e de hoje falam de uma situação de
guerra civil em Ayodhya, com o envio de 10.000 policiais
federais, do tipo CRS (Companhia Republicana de
Segurança), prontos para intervir, se o governo local não
cumprir seu dever. Há o risco de uma grave crise
constitucional e sublevações sangrentas ocorrerem neste
fim de semana, por causa de Rama. Eu tenho seu nome e de
repente penso que seria bom conhecer o local de seu
nascimento em Ayodhya, como intocável, de sentir o
sistema de castas nessa cidade santa, tão controlada pelos
brâmanes como há 30 ou 40 anos. Meu professor de hindi,
Ram Singh, contou que, quando ia visitar sua tia, o alho e a
cebola, a carne e o álcool eram proibidos na cidade. Eu
poderia me misturar com os milhares de fanáticos que
acorrem dos quatro cantos da Índia, para edificar o templo
de Rama. Cinqüenta mil voluntários diferentes participarão,
todos os dias, desse canteiro de obras sagrado, segundo a
previsão dos organizadores.
Sim, será um canteiro sagrado. Minha mulher sugere que
eu leve um frasco opaco de nitrato de prata para corrigir a
tintura, se for necessário, e também roupas decentes de
reserva, para o caso de estourarem sublevações durante
minha estada em Ayodhya. Quando cheguei na Índia,
comprei uma calça e uma camisa amarelo-esverdeada, ao
gosto indiano. Enroladas em duas pequenas bolas, não
ocuparão muito espaço no saco. Eu as vestirei se houver
muito tumulto. Tenho mais chances de me salvar se estiver
bemvestido.
Pelo menos é o que Gloire pensa. Por causa das notícias
nos jornais, ela teme por mim e, confesso, ela tem razão.
Mas é estranho, eu não me preocupo tanto. A idéia de me
mexer me excita.
Está decidido. Sairei de casa no meio da noite. Voltarei a
pé a Dashashvamedh e dormirei sobre um estrado. Amanhã
me informarei sobre os trens para Ayodhya e partirei.

28 de novembro

Hoje de manhã, o templo de Baba Khichari prepara a
tradicional papa de arroz e lentilhas do sábado. Como e
depois vou para a estação.
O expresso Calcutá-Jammu Tawi (na Caxemira) passa por
Ayodhya durante seu trajeto de 2.000 quilômetros. Para em
Benares às duas horas da manhã e chega por volta das
cinco horas em Ayodhya. Para mim é perfeito, pois não
gosto de desembarcar à noite em cidades que não conheço
e prefiro esperar tranquilamente o trem em Benares.
Volto à Dashashvamedh. Ando à toa e durmo na orla do
Ganges até às 23 horas. Nada de especial. Exceto que à
noite uma orquestra de música popular instala seu palanque
no meio da rua Dashashvamedh. Um pavilhão de tubos
fluorescentes e lâmpadas verdes. É muito bonito e 200
curiosos escutam os oito músicos que nunca param para
afinar seus instrumentos.
Chego na estação por volta da meia-noite e meia e compro
a passagem para Ayodhya. Isso me toma uma meia hora,
pois uns caras bem-vestidos duplicam, sem parar, a fila de
umas 10 pessoas. Eles se conduzem como os ricaços, como
membros das castas altas, e não fazem fila, que é reservada
aos pobres. Sem dúvida esses fura-filas se acham superiores
demais para esperar conosco. Na minha frente, um
muçulmano com um pijama sujo de gordura, um barrete
branco na cabeça e cavanhaque ousa protestar. Em vão. O
bilheteiro atende o ricaço, que nos diz, como se
estivéssemos exagerando: "Não se preocupem, estou
comprando só uma passagem, depois será a vez de vocês!"
O muçulmano não insiste. Nós, os pobres, conhecemos
nossos direitos: ficar na fila em silêncio. Caso contrário,
poderia desencadear uma discussão, talvez um tumulto, e se
um cão de cáqui aparece, apoiará o ricaço, que encontrará
uma desculpa para sua própria atitude. Nós não teremos
razão. É melhor deixar pra lá. Tento me convencer disso,
pois bem que gostaria de fazê-los engolir esses anéis de
ouro que exibem em seus dedos gordos.
Mas, abaixo a cabeça e com a passagem no bolso, vou para
a plataforma número três. Eu me deito e espero o trem. A
velha louca, que levou chutes no rosto há duas semanas,
está agachada aos pés da escada da passarela. Diz coisas
incompreensíveis e usa os mesmos trapos. Não mudou
nada. Faz mais de um mês que me transformei em indiano,
mas parece um ano e a presença da velha me dá a
impressão de que este mundo é imutável, eterno, como se
nada mais me surpreendesse, como se ele constituísse meu
universo. Sinto-me em meu lugar e não me imagino no dos
estrangeiros. Tento pensar em minha família, na França e
na China. São estrangeiros, eu sei, vivem na Europa, além
do Himalaia, e em minha memória não passam de seres
virtuais, um pouco como os heróis romanos. Não os
esqueci e meu amor não diminuiu, eu acho, mas seus
personagens não se encaixam no cenário indiano. Sinto-me
a anos-luz deles, totalmente separado, como se tivessem se
tornado extraterrestres. Tento recordar, fazer uma imagem
precisa de minha mãe e de meu pai e não consigo.
É assustador.
Neste momento devem estar passando o fim de semana no
campo. Levam uma vida de ricos e são meus pais.
Adormeço com essa verdade em mente e desperto às duas
horas. Os alto-falantes da estação anunciam que meu trem
está com uma hora de atraso.
Zut!
O atraso é comum e não tenho nenhum encontro marcado
em Ayodhya, mas a demora significa que o começo de
minha aventura será adiado. Isso me enerva. A viagem
sempre sugere uma nova vida esperando em outro lugar,
isso me excita, e a partida é o momento de que mais gosto.

Quando meu trem entra na estação, por volta das três horas,
centenas de passageiros embarcam aos empurrões. Uma
explosão brusca de energia em plena noite. O expresso está
abarrotado e ninguém quer ser deixado para trás. Militares,
com seus baús, descem do vagão à minha frente, e em
sentido contrário, várias pessoas avançam para entrar. Sou
uma delas, pois preciso pegar esse trem de qualquer
maneira. E todos se empurram, se empurram. Na China
aprendi que, no tumulto, quando começam os empurrões,
não se deve hesitar em reagir. Deve-se utilizar a multidão
para voar, ser levado pelo ar, por cima, e não ser esmagado
sob essa massa humana. Finalmente, fui empurrado para
dentro do vagão.
Já é alguma coisa.
Logo perco as ilusões. Os bancos estão todos ocupados
além de sua capacidade. Há pessoas empoleiradas nos
bagageiros suspensos e cada metro quadrado do chão está
ocupado por bagagens e outras pessoas. A maioria é
militar. Consigo me equilibrar sobre o pé direito, sem
espaço onde apoiar o esquerdo. Não sei como vou agüentar
as três horas do trajeto sobre um pé.
Eu me preocupo, não me queixo. Já foi uma sorte ter-
conseguido entrar no trem. Vários passageiros continuam
tentando. Um civil, alto e forte, de pé na minha frente, me
diz com um olhar hostil: "Quem é você? O que faz aqui?
VOCÊ!"
Insiste no "você", em tom de desprezo, e vejo que os
passageiros deste compartimento ou vestem uniformes ou
camisas e calças limpas. Sou o único de lungi. O
grandalhão repete a pergunta e respondo, hesitante:
- Vou a Ayodhya...
- E o que tenho a ver com isso? Você não é militar. Este
vagão é reservado aos militares. Desça!
Os outros passageiros me fuzilam com o olhar e saio sem
fazer perguntas, saltando por cima das cabeças e valises.
Receio que o trem dê a partida. Corro sem pensar em mais
nada, afobado como se estivesse com cólica. De sandálias
de dedo e lungi não é nada fácil. Ufa! A porta do vagão
seguinte está aberta e pulo para dentro.
Consegui.
Tem muita gente, mas menos que no vagão dos militares.
Os vagões indianos de segunda classe são divididos em
compartimentos não isolados do corredor por uma porta e
oferecem uma visão do conjunto quando neles penetramos.
Nenhuma privacidade durante milhares de quilômetros.
Este vagão também cheira menos a homem, a pés, a suor.
As pessoas viajam em pé, empoleiradas nos bagageiros ou
sentadas no chão, mas posso me apoiar nos dois pés e
circular pelo corredor. Parece ter menos gente nos fundos e
me dirijo para lá. Percebo por que esse compartimento fica
mais vazio. Serve de "casa" a cinco cães de cáqui.
Dois deles estão deitados sobre dois bancos, espaço
supostamente destinado a três passageiros e em que se
apertam cinco ou seis nos outros compartimentos. Dois
outros cães espojam-se nos bagageiros, e outro coloca o
tronco e os pés sobre os dois banquinhos no corredor, com
um fuzil entre as pernas. Com as mãos sobre o cano, faz um
apoio para a cabeça e ronca como seus colegas. Ninguém
ousa incomodá-los e não vou ser eu quem lhes explicará
que um lugar não é um leito, tem de ser dividido. Não
quero levar uma coronhada e me instalo no compartimento
anterior. Sou o 22° ocupante. Não tem mais lugar para uma
valise, nem no bagageiro nem no chão. Sento-me no
corredor, no chão imundo. A quina de um banco machuca
minhas omoplatas a cada solavanco do trem.
Não é o TGV. O trem dança sobre os trilhos, ao máximo de
60 por hora, como se fosse descarrilar. Esta sensação talvez
seja reforçada por eu estar no chão, e o esforço de minhas
costas me faz pensar em um exercício de faquir. Não posso
me deslocar nem mexer as pernas e o tronco. Imagino o
sofrimento dos animais nos vagões de carga e digo a mim
mesmo que só tenho de suportar três horas e que é melhor
descontrair. Acendo um biri e observo os outros pas-
sageiros, casais e homens sozinhos, de camisa e calça e
com traje indiano, alguns muito limpos e outros muito
sujos, uma reconstituição microscópica da Índia. Os
homens discutem sobre Ayodhya e fico sabendo que o
governo de Uttar Pradesh ainda não foi destituído. Ontem o
governo desse estado afirmou à Corte Suprema que as
obras de construção dos extremistas hindus seriam apenas
simbólicas e que a lei e a Constituição seriam respeitadas.
Os viajantes se perguntam qual o sentido da expressão
"construção simbólica". Alguns acreditam que se trata de
um artifício para ganhar tempo, outros, um compromisso,
quem sabe até mesmo uma traição dos fiéis de Ram, para
manter o BJP no poder. Resolvo sondar o terreno antes do
amanhecer. Julgarei por mim mesmo.
Um rapaz de cerca de 25 anos, acocorado atrás de mim, fala
comigo. Tem a tez pálida e usa uma túnica creme, suja,
cujos buracos denunciam sua pobreza. Viaja com um
amigo, que está sentado no banco à minha frente, um pouco
mais velho e com a túnica menos esburacada. Vão a
Lucknow. Nós nos tratamos por "você", mas de modo
fraternal, e não demonstram desprezo pelo aborígine que
sou. No entanto, o jovem comenta: "Você parece ser do
Rajastão. Não fala como a gente de Bihar... Sei porque
acabamos de vir de Dhanbad."
Dhanbad é uma cidade de Bihar, na fronteira com o
Jharkhand, e sinto medo que ele descubra minha impostura.
Respondo, esperando convencê-lo: "Sou um Munda. Vivo
no coração do Jharkhand, na selva, em Bandgav. Temos
nossa própria língua, você não a compreenderia."
Ele balança a cabeça da direita para a esquerda, parece
convencido e me espanta como os indianos arianos
ignoram tudo a respeito dos aborígines, mesmo quando
vivem perto deles.
- Vocês, os aborígines - pergunta o amigo, com um sorriso
-, querem se separar de Bihar e fazer do Jharkhand um
Estado, não é?
- Isso é problema dos políticos.
- Diga a verdade. Tem vontade de ser independente?... o
que ganharão formando um Estado? Acha que serão mais
felizes?
- Não sei. A política não me interessa.
Prefiro calar minha opinião sobre a independência do
Jharkhand, não quero provocá-lo. Na semana passada, os
movimentos separatistas organizaram mais uma vez 48
horas de greve geral no Jharkhand, e, como eles, acho que
os aborígines são explorados e não desfrutam as
extraordinárias riquezas geradas pelas minas de sua terra.
Elas beneficiam os arianos, equilibram as finanças de Bihar
e da Índia, sem compensação para os locais. Estes são
abandonados em sua miséria, ao lado das minas. Pelo
menos foi o que li nos jornais. Mas tenho dúvidas se o
Jharkhand independente nas mãos de políticos suspeitos
bastasse para modificar a condição econômica dos
aborígines.
Os dois amigos insistem em que o separatismo não nos
levará a nada e concordo indiferente, esperando que
entendam que o assunto me parece maçante.
- Aonde vai? - pergunta o jovem.
- A Ayodhya.
- É voluntário para a construção do templo?
- Não, sou um peregrino. Mas, se puder participar, por que
não? - acrescento sem refletir. - Passei uma semana em
Benares, e depois de Ayodhya vou visitar Allahabad.
- E depois?
- Não sei... volto para casa - disse, sem saber o que
responder.
- Precisa ir a Mathura. E a Délhi. Vai se divertir. E é muito
bonito. Tem prédios altos. Precisa só ver!
Lembro que há quatro meses, quando cheguei da França,
minha impressão foi de uma cidade decrépita. Respondo:
"Não tenho dinheiro suficiente para ir até Délhi, vou ter de
voltar."
Ele dá uma gargalhada e depois sussurra:
- Não precisa se preocupar com o dinheiro. Em Ayodhya,
há templos que oferecem comida aos pobres, e no trem
pode viajar sem passagem. Se um fiscal pegar você e o
detiver, passará só dois ou três dias na prisão e depois será
solto. Grande coisa!
- É mesmo?
- Sim. É preciso ver Délhi, nem que seja uma vez na vida.
Não insisto. Talvez tenha razão em relação aos fiscais, pois,
ao chegar em Ayodhya, às 6:10, o vagão não tinha sido
verificado. Lembro que os musahar da estação de Benares
viajavam de graça. Ocorre-me a idéia de, na volta, não
comprar a passagem.

O sol ainda não se ergueu no horizonte e resolvo fumar
alguns biri, no átrio da estação. Não quero ficar andando
por Ayodhya à noite, pode ser perigoso. Centenas de
policiais acampam ao longo da via férrea e sua presença
indica que a cidade está tensa.
Por volta das sete horas, uma luz suave atravessa a bruma
azulada e saio da estação. Domos de templos e palácios
surgem a perder de vista, entre as palmeiras. É esplêndido,
mas não vim me deliciar com a paisagem. Interessam-me os
policiais que tomaram as ruas. Um formigueiro cáqui. A
presença da polícia se intensifica na medida em que me
aproximo da mesquita Babri. Não me sinto à vontade.
Tive de perguntar três vezes qual era o caminho, pois as
pessoas respondiam de má vontade, com grosseria - como
se responde a alguém asqueroso de quem se quer ver livre.
Depois de caminhar por uma hora, uma larga avenida de
chão batido me conduz, atravessando terras desocupadas, à
mesquita Babri. O local de nascimento de Rama.
O local não é bonito. Lembra o Muro de Berlim há 10
anos. Sem os cachorros. Centenas e centenas de policiais
montam guarda e uma sebe desagradável de tubos
metálicos e arame cerca o outeiro sobre o qual se ergue a
mesquita. Uma construção retangular, coroada por três
domos. Sem minarete, de tamanho modesto e em mau
estado. O reboco, com manchas escuras de mofo, cai em
placas, deixando à mostra a pedra e o tijolo das paredes. Aí
está o monumento que faz a índia vibrar!
Para completar o quadro, milhares de voluntários para a
construção do templo vão e vêm sob os dois grandes toldos
de pano, instalados à esquerda. Alguns caminham diante do
outeiro e param sobre uma plataforma, dizendo, com
veneração, que esses são os alicerces da parte anterior do
templo de Rama. Foram colocados em julho passado.
Entre os voluntários há poucas mulheres. Em geral, eles
estão bem arrumados, vestidos de camisa e calça. Muitos
usam um fular açafrão, com o nome de Rama bordado, e se
cumprimentam dizendo "Viva Rama!". Mas não prestam
atenção em mim. Sem dúvida, estou sujo demais e sou
muito pobre. Não me importa. Tenho mais o que fazer para
ficar sondando o que pensam.
Sim.
A mesquita acaba de abrir suas portas aos devotos, e decido
fazer uma oferenda à imagem de Rama. Quero saber com
que se parece. Por medida de segurança, as bagagens, os
fósforos, as facas são proibidos no interior da construção,
além dos calçados, como em todos os locais de culto hindu.
Deixo meu saco e as sandálias de dedo do lado de fora,
com um camelô, e em troca compro um colar de cravos-da-
índia para oferecer a Rama.
Entro.
Para penetrar na mesquita, sou revistado quatro vezes, por
mãos e por um detector de metais. Dois em dois, com um
longo e sinuoso trajeto de barreiras metálicas entre esses
postos de controle duplos. No interior, um policial vigia
cada devoto durante todo o percurso assinalado por setas.
A polícia realmente teme um atentado que possa
desencadear massacres, como os que assolaram o país em
1990.
Ultrapasso a barreira e lá estou sob o domo central da
mesquita, junto com uns 50 hindus. A sala é minúscula e
nos empurramos para ver a imagem de Rama.
Um parapeito forma uma cerca em volta do santuário, onde
dois sacerdotes cantam diante de duas vitrinas com um
dossel. Os devotos dizem que a estatueta de Rama está na
primeira, mas muitos se queixam de não ver nada. Eu
também, e me levanto nas pontas dos pés. Não adianta.
Consigo me aproximar do parapeito, mas, na primeira
vitrina, só vejo toalhas bordadas com fios prateados e
colares de cravos-da-índia. Ao lado, na outra vitrina, há
diversos pôsteres de Rama. Nenhuma estátua. Queria dar
mais uma olhada, mas a multidão me pressiona e tenho de
avançar, fazer a oferenda e sair. Dou o colar de cravos-da-
Índia a um sacerdote, ele o joga na segunda vitrina e verte,
com um utensílio de cobre, um pouco de água turva na
concha de minha mão direita. Molho meus lábios e depois
jogo um pouco no alto da cabeça. Como fazem os outros
fiéis. E vou embora. Bem, fui abençoado por Rama em seu
local de nascimento, mas isso não me afetou em nada.
Além do mais, continuo sem saber com que se parece a
estatueta que agita o segundo país mais povoado do
mundo. Será que existe? Ou a olhei e não vi?
Fico confuso. Ando em volta da mesquita e tento pensar em
outra coisa.
Fumo um biri atrás do outro e então me lembro de que a
última vez que comi foi ontem de manhã em Godhaulia. A
fome faz meu estômago doer. Resolvo procurar um templo
que sirva comida gratuita. Pego uma viela que parte da
mesquita e desce até o centro da cidade, acompanhando
magníficos palácios barrocos.
Rama me ouviu. Cem metros mais abaixo, à direita, várias
pessoas com roupas esfarrapadas estão sentadas sobre uma
plataforma que margeia um templo de Rama, cuja fachada
de pedra branca é esculpida com ornamentos em tons de
azul. O terraço é coberto por uma feia chapa de ferro
corrugado. Ela mede 20 metros por três e está um metro
acima do plano da viela. Percebo que as pessoas aguardam
o almoço, pois a metade carrega uma tigela de alumínio.
Um anão todo engomadinho, vestindo uma calça preta e
uma camisa verde xadrez, organiza uma fila, de costas para
a rua ou para o templo. Parece um chefe. Fico descalço
como todo mundo, subo à varanda e pergunto: "Aqui vocês
distribuem refeição aos pobres?"
Não responde, apenas diz, fazendo um gesto: "Vá se sentar
lá embaixo!"
Eu vou, mas os lugares já estão todos ocupados. Exceto
um. Um espaço de um metro entre dois caras, na beira da
ruela. Os homens sentam-se nesse lado e as mulheres, de
frente para o templo. Os homens são velhos sadhu, hindus
sábios, que usam roupa cor de açafrão desbotada e rasgada,
ou então jovens de 20 a 30 anos, esfarrapados. As mulheres
são idosas, entre 40 e 60 anos, e exibem o rosto sereno das
anciãs. Seus trajes são de algodão e estão gastos, mas estão
limpas e não parecem nem mendigas nem vadias. Parecem
mais freiras, ascetas mulheres que renunciaram, como seus
colegas homens, à vida na sociedade, para libertar a alma
do ciclo das reencarnações, se consagrando a Deus. Eu me
abaixo, me acocorando no espaço livre. Imediatamente, uns
seis sadhu gritam em coro que eu saia, que o lugar está
reservado. Respondo:
- O encarregado do templo disse para eu me sentar aqui.
- Não. Saia.
- Onde posso me sentar?
- Não sei - diz o sadhu que está ao lado do espaço vago.
Duas anciãs vêm em meu socorro e o repreendem: "Deixe
que se sente. Ele tem o direito de comer." Depois,
dirigindo-se a mim: "Coloque seu saco naquele canto e se
sente."
Obedeço e o sadhu à minha esquerda resmunga entre
dentes. Felizmente as velhas calaram a boca desses sadhu
que, com tudo isso, usam a roupa cor de açafrão, símbolo
da sabedoria. Se não fossem elas, eu teria dito adeus à
comida. Estou decepcionado. Vejo neles o mesmo egoísmo
que nos mendigos de Benares. Imaginava esses sábios
desligados da materialidade mesquinha e ilusória deste
mundo, sem desejos nem ambições, de caráter forte, gurus
generosos. No entanto, criam brigas em refeições
populares.
Aqui é realmente uma cantina?
À minha direita, um rapaz entre 15 e 20 anos, de pele
escura e cabelo desgrenhado, plantado como grama. Usa
uma tanga suja de cor creme e uma camisa em farrapos.
Sem dúvida é um vagabundo, mas as mãos não parecem
com as de quem exerce uma profissão que não exige um
trabalho manual intenso. Suas mãos são grossas e calosas e
os dedos também são muito grossos. Seu rosto é redondo
como o de um bebê bochechudo e o acho bem mais
simpático que o velho sábio rabugento à minha esquerda.
Não sinto cheiro de comida e resolvo pedir informações a
esse jovem. Digo: "Vão servir comida?"
Ele balança a cabeça ao modo indiano, da direita para a
esquerda, confirmando.
"E a que horas?"
Ele agita a mão esquerda, de cima para baixo, me fazendo
sinal para esperar.
"Servem comida todos os dias? De manhã e à noite?"
De novo, ele diz que eu espere com um gesto. Esquisito?
Por que esse mutismo? Minha preocupação o irrita? Sou
curioso demais? Não entendo o mundo de Ayodhya. Sinto-
me deslocado nessa região agreste e nesse terraço. Mas
tenho fome e decido esperar.
Um gigante de 25 anos, pele clara, nos distribui cartões
amarelos. Usa um kurta e um dhoti brancos de algodão,
impecáveis, e um cordão sagrado aparece em seu peito.
Deve ser um brâmane, um sacerdote desse templo de Rama.
Tem o rosto comprido e magro e parece que comeu
bananas com casca, isto é, que comeu alguma coisa que
ficou presa em sua garganta e imobiliza sua boca. No car-
tão amarelo está escrito duas rupias e o nome da associação
desse templo de Rama. Não estou entendendo nada, mas
todo mundo exibe um sorriso e guarda o cartão no bolso. O
jovem ao meu lado me faz sinal para eu guardar o meu e
me mostra dois dedos. Duas rupias? Vou receber ou terei
de pagar duas rupias pelo que comer? Duas rupias não é
muito e as duas hipóteses são possíveis. O rapaz não diz
nada, apenas brande o indicador e o dedo médio, e eu faço
um sinal com a cabeça interrogando as duas anciãs na
minha frente. Elas dizem: "Guarde seu tíquete. São duas
rupias!"
Certo, mas para dar ou para receber? Posso perguntar?
Guardo o cartão no bolso da camisa. Mais um mistério.
Isso me inquieta, pois gosto de entender as coisas. Reflito.
Se fosse preciso pagar duas rupias, o preço de uma refeição
mesmo que medíocre - em uma taberna, as pessoas não
disputariam lugar no terraço. Outros sadhu e outras anciãs
continuam a chegar e são sempre rejeitados pela assembléia
presente. Lotado! Agora, vão se queixar ao gigante que
distribui os cartões e este grita conosco, mandando que nos
apertemos mais. Os sadhu e as anciãs obedecem
resmungando, e o recém-chegado se acocora, sem se
esquecer de pedir seu cartão amarelo.
Todo mundo parece bem informado e eu não posso pedir
uma explicação. Se devo receber duas rupias, seria estranho
achar que pagaria uma refeição gratuita. Fico calado.
Passam-se 10 minutos. Uma reunião de ascetas e
vagabundos no terraço e nada os distingue em termos de
comportamento. Olhamos uns para os outros. Nós nos
espiamos sem sorrir, nem falar. Ambiente porco.
Um homem franzino, muito pálido, na faixa dos 50 anos,
sai do templo. Deve ser um sacerdote, pois também usa o
cordão sagrado e distribui címbalos ao sadhu que esta à
minha esquerda e a dois outros. Ele diz: "Vamos, cantem
Sita Ram. E batam palmas."
Por que não? Sita é a esposa de Rama; o casal consagra-se
a um amor total e simboliza uma humanidade ideal de
justiça, fidelidade e serenidade. Os velhos sábios que
possuem os címbalos dão o ritmo e começam a cantar. Nós
os imitamos. E eu canto e bato palmas:

"Sita Ram!
Sita Ram!
Sita Ram!
Viva Sita Ram!"

Depois recomeça tudo outra vez: "Sita Ram! Sita Ram..."
Não é difícil, basta seguir a cadência dos címbalos, batendo
palmas. Perfeito. Eu me entrego totalmente, jogo o jogo.
Recém-chegados tentam se sentar entre nós, mas precisam
pedir ajuda a um sacerdote, para conseguirem um lugar;
nós cantamos, batemos palmas, cantamos. É quase
divertido. Pelo menos de início. Continuamos a cantar por
cinco minutos, 15, por meia hora. A litania só é
interrompida para expulsar os intrusos ou quando os
macacos correm sobre a chapa de ferro que serve de
telhado, fazendo um barulho infernal, parecido com o do
metrô parisiense. Levantamos a cabeça, divertidos.
A comida, nada de chegar. Nada. E tive de repetir umas mil
vezes a fórmula "Sita Rama". Estou cheio e não sou o
único. A metade de meus irmãos e irmãs parou de cantar e
de bater palmas. Eu não ouso, pois à minha esquerda o
sadhu que marca o ritmo com o címbalo não esmorece.
Percebi que ele era perverso e egoísta quando se recusou a
me ceder um lugar, mas agora vejo que é o mais animado
da banda. E ele canta: "Sita Rama! Sita Rama!..." Eu o
imito. Felizmente, o aroma de arroz cozido escapa pelas
janelas do templo e volto a ter esperança de que a refeição
logo será servida. Eu me pergunto se será khichari ou arroz
com purê de lentilhas, ou ensopado de legumes. Qualquer
coisa me agrada. Mas um terceiro sacerdote, na faixa dos
30 anos, baixinho e com um bigode como o de Hitler,
acaba de atrapalhar meus sonhos. Pede o cartão amarelo do
jovem ao lado, depois o meu e vai embora.
Na hora não percebo, mas depois, observando bem a
expressão perplexa do rapaz, compreendo que sem o cartão
teremos problema. Qual? Ele me mostra de novo o
indicador e o dedo médio, sem abrir a boca, e na frente uma
anciã me diz, aflita: "Duas rupias!"
O que significa isso? Duas rupias para quem? Por quê?
Além disso, o que eu e o rapaz temos em comum que
justifica o tratamento particular? Estou tão malvestido e
sujo como ele? Quem sou eu? Ele volta a bater palmas,
mexe os lábios sem emitir nenhum som.
Coragem. E recomeço a cantar, principalmente porque o
sábio ao meu lado me lança olhares furiosos porque me
calei. As anciãs também fazem sinais para que eu bata
palmas com mais força. Estou farto. Farto. Não paro de
bater as mãos e me esforço para não esmorecer, pois os
sacerdotes circulam pelo terraço, controlando se estamos
cantando e batendo palmas. Com convicção. Talvez cante-
mos certo...
Os sacerdotes se plantam na porta do templo para nos
observarem, mas não conseguem surpreender os três sadhu,
no fundo do terraço, que cantam na frente deles, e assim
que viram as costas se calam. Trapaceiros, muito espertos.
O fundo do terraço não é visível da porta.
Os sacerdotes só pegam os sadhu e as anciãs que estão
mortos de cansaço. Uma boa quantidade. Apagam no
momento em que o queixo cai no peito; dormem.
Repetimos "Sita Ram" há uma hora. Cerca de 2.000 vezes.
O sacerdote gigante, o que distribuiu os cartões, com a cara
de quem come casca de banana, é o mais esperto para
surpreender os preguiçosos, e também conta com a ajuda
dos sábios, que lhe apontam os irmãos que dormem. Ele
acaba de notar a velha adormecida na minha frente. Ele se
aproxima, franze as sobrancelhas, inclina-se sobre ela e
grita: "OH! OH!"
Ela se sobressalta. Espero que não seja cardíaca.
- Estava dormindo?
- Não! Não!
- Levante-se! Vá embora!
Ela toca em seus pés, implorando perdão.
- Tem de cantar, entendeu?
- Sim, sim. Está bem. Escute.
E canta. O gigante se afasta.
Cinco minutos depois, sua cabeça volta a tombar.
Readormece.
O gigante pode despertá-la a toda hora e ela pode até
massagear os pés dele que não vai adiantar. O cansaço a
derruba logo depois. Acho que nem que ela chupasse os
dedos puros dos pés do brâmane mudaria alguma coisa,
pois não são barras de anfetaminas. Também imagino que,
se Rama existe, deve partir seu coração ver um gigante
martirizar uma anciã.
Já disse que os sacerdotes controlam se estamos cantando
com convicção. É verdade. Cinco ou seis metros à minha
esquerda, o sacerdote que se parece com Hitler berra com
um velho sábio: "Não está cantando alto o bastante.
Levante-se! Saia!"
O sábio logo apalpa seus pés, canta a plenos pulmões e bate
palmas com toda força. O terraço é a cantina de um campo
de reeducação ou de uma escola maternal? Brâmanes
canalhas. Fascistas. Inquisidores. Tenho a impressão de que
nos obrigam a louvar Sita e Rama para pagar a refeição que
nos oferecem. Repugnante. De que serve rezar
mecanicamente, sem desejo? Talvez isso enlouqueça e
estimule a fé. Sacerdotes porcos! A doação da comida não
é desinteressada. Que bela caridade a hindu!
A voz já está rouca e as palmas das mãos doem. Também
os antebraços estão doloridos de tanto agitá-los. Uma hora
é muito tempo. São 60 minutos, são 3.600 segundos.
Calcule o que não dá um batimento de mão a cada segundo
e meio! Bata palmas durante uma hora, repetindo "Sita
Ram!... Viva Sita Ram!".
Isso me deixa maluco. Tenho vontade de me levantar e
gritar que Sita e Rama não existem, que nosso sofrimento
não serve para nada e que esses sacerdotes nos torturam.
Todo mundo está de saco cheio e os sadhu, exaustos,
colocaram o braço sobre os joelhos e já não batem as mãos.
Eles as encostam uma na outra, como uma carícia. Também
faço o mesmo; é melhor. Realmente meus braços e mãos
estão doloridos, mas a fome me devora, não quero ir
embora.
Um sadhu alto, de uns 40 anos, com uma barba longa e
cabelo preto comprido que bate nas costas, do tipo baba-
cool, como dizemos no Ocidente, esta sentado na soleira da
porta do templo e não para de me olhar. Não gosto nada
disso. Ele me aponta para um velho sacerdote e este se
aproxima. Ele diz:
- Tem o tíquete?
- Um sacerdote pegou.
- O quê? Não tem tíquete! Então levante-se. Saia!
É muito injusto. Bati palmas, cantei por mais de uma hora,
sem enfraquecer, e ele quer me mandar embora. Eu só me
ausentei um instante para beber na fonte perto do templo.
Mas não fui o único. A metade do coro, que possui um
recipiente, desceu para enchê-lo de água, se preparando
para a refeição.
- Um outro sacerdote pegou meu tíquete - repito.
- Deixe de histórias. Não tem tíquete. Saia!
Tenho vontade de chorar. Estou com fome e cantei por
nada.
Ele berra: "Levante-se!"
Junto as mãos para lhe suplicar e roço seus pés calosos de
velho brâmane. Isso me dá nojo, mas não tenho escolha.
"Por favor, eu tinha o tíquete, mas o sacerdote o pegou, eu
não sei por quê. Por favor!"
Nenhum sadhu me ajuda. Procuro sua ajuda com os olhos,
mas continuam a cantar imperturbáveis. "Viva Sita Ram!"
Rama, o deus que faz a luz triunfar sobre as trevas. Duas
anciãs confirmam ao sacerdote que eu realmente tinha um
tíquete e que um de seus colegas o pegou. Isso o satisfaz e
ele se afasta.
Respiro aliviado, depois olho para o sábio hippie que me
denunciou. Ele também me observa, relaxado, sem sentir
vergonha. Não parece lamentar sua atitude. Que porco esse
santo! Nesse terraço me deparo com o grupo mais virtuoso
de sábios hindus. Lixo santo. Egoístas, trapaceiros,
intolerantes e delatores. Bravo! Dá até vontade de fazer
parte da confraria. Aprender ioga, meditação, os textos
sagrados, cantar o nome de Rama, saber dominar a fome, os
sentimentos, se livrar das ambições e dos desejos, atingir o
nirvana.
Sim. Sim. Sim!
Nesta manhã, vejo o resultado e odeio ainda mais as coisas
bentas, os apóstolos, os santos e os padres, todos que usam
sotaina, seja branca, preta, açafrão, marrom...
Continuamos a bater palmas e a repetir: "Sita Ram! Sita
Ram!... Viva Sita Ram!" Mais meia hora e então, igual a
Cristo se aproximando para dividir os peixes c os pães, o
gigante comedor de casca de banana sai do terraço com
uma pilha de folhas-pratos. Visão divina. Significa que
nosso almoço é iminente. Em um último esforço, cantamos
a plenos pulmões. A felicidade. Um duplo alívio. A comida
será servida e não precisamos mais repetir "Sita Ram".
O sacerdote dá uma folha para cada um. Não se inclina,
como os empregados do templo de Baba Khichari em
Godhaulia. Joga a folha da altura de seu peito e ela cai no
chão ou na cabeça da gente. Ele trata da mesma maneira os
homens e as mulheres, os velhos e os jovens, os sujos e os
limpos. Sem discriminação, todos somos intocáveis para
ele, esse brâmane puro, empregado de um templo situado a
um passo do local de nascimento do deus Rama.
Fico admirado que ele não toque nos sadhu. Esses santos
teoricamente perderam a impureza de sua casta de origem.
Em Ayodhya é diferente em relação ao sadhu comum?
Esticamos a folha diante de nossos pés e os comensais se
lavam com a água que coletaram em seus recipientes.
Alguns tiram do bolso pimentões ou um rabanete, para
enfeitar a refeição.
Os velhos sacerdotes aparecem com um balde de lata do
qual tiram o arroz fumegante com uma caçarola. Servem
uma grande porção a cada um. Aproximadamente três
libras de arroz branco em papa. É bastante. Quando o balde
esvazia, ele torna a enchê-lo no templo e continua a servir.
E assim sucessivamente. Nada de especial. A não ser que a
ração é jogada de uma altura de meio metro da folha. Para
não se aproximar de nós, para evitar qualquer contato, ou
simplesmente para não se curvar, se cansar. Talvez as duas
coisas. De qualquer maneira, sua atitude demonstra a pouca
estima em relação a nós. Ele se satisfaz em apontar e virar a
caçarola em cima do centro da folha. Mas boa porção de
arroz em queda livre se espatifa quando chega. Schplaf! E
se espalha no chão e nos seus pés. Depois é preciso juntar
tudo e se limpar.
Eu tive sorte. O sacerdote calculou bem a trajetória e
somente alguns grãos de arroz se colaram em meus pés.
Não é grande coisa. Ainda assim, esse tratamento faz com
que eu me sinta mal. É muito humilhante ser alimentado
como os camponeses enchem as gamelas de seus animais.
O que fazer? Tenho fome e deixo pra lá.
Ninguém come e manipulo o arroz que queima entre meus
dedos. Despedaço os grumos, torno minha ração menos
espessa e a moldo como um pequeno vulcão com uma
espécie de funil em cima. Como os outros convivas, e
entendo por quê. O sacerdote gigante chega com um balde
de purê de lentilhas e nos lança três conchas dentro dessa
cratera. Sempre segundo a mesma técnica: não se abaixa.
O purê parece mais um caldo. É líquido, mas cheira bem e
estou contente por tê-lo para comer. Misturo-o bem com o
arroz a partir do centro da cratera, para que não escorra
para o chão, amasso, faço uma massa homogênea. Suspiro
satisfeito. O velho sacerdote agora distribui uma colher de
abóbora cozida, e depois o gigante joga para cada um, meia
colher de manteiga clarificada.
Eu me admiraria se essa manteiga tivesse sido oferecida
para tornar o prato mais suculento, como a usamos na
França. Este gigante não se preocupa com a reputação
gastronômica de sua cantina. Esse templo não é um
restaurante popular cinco estrelas quanto ao sabor, e sim
quanto à fé. A manteiga é simbólica. É para limpar a
comida. Segundo a ideologia hindu, essa substância possui
uma virtude purificadora, assim como os outros quatro
produtos tradicionais da vaca (leite, iogurte, urina e bosta).
Aliás, os hindus religiosos absorvem um coquetel
purificador, composto dos cinco elementos. Que idiotice!
Consideram-me intocável, mas a merda bovina é
comestível!
Ninguém ainda começou a comer, mas já fomos todos
servidos. Damos graças a Rama, como os beatos cristãos
fazem com Jesus antes de almoçar, e então atacamos a
comida.
Literalmente. Atacamos com a mão direita nosso montinho
de arroz. Fazemos umas bolas, e hop! na boca. Uma atrás
da outra, lambendo a mão, pela qual o caldo escorre. A
comida queima meus dedos. Não faz mal. Estou
acostumado e morto de fome; o estômago sobe até a língua
e aspira tudo que lhe envio. É delicioso. Não o gosto, mas a
sensação de plenitude.
Na nossa precipitação, incomodamos uns aos outros.
Estamos muito juntos e fica difícil levantar o cotovelo sem
tocar no vizinho. É impossível levar corretamente as
bolinhas à boca e grãos de arroz caem no chão.
O sadhu à minha direita me empurra um pouco. Ele separa
os cotovelos e aí consegue comer direito. Isso não é tudo.
Como ele me apertou, como com mais dificuldade ainda e
ele me fuzila com os olhos. Resmunga: "Presta atenção,
está deixando o arroz cair para tudo que é lado."
Está certo, deixo cair, mas não em seu prato.
"Se não me apertasse, eu comeria melhor", respondo.
Ele ergue a mão, em um gesto ameaçador. Não reajo. Se
esse santo tão velho me bater, não ousarei reagir e acho
mais sensato abaixar a cabeça em silêncio. Cada um de nós
tinha um espaço de 50 centímetros onde se sentar. Ele me
empurrou e ganhou 10 centímetros. Tento comer mais
devagar, deixando cair menos arroz. Mas o sadhu briga
comigo outra vez.
O que dizer? Dou de ombros. Uma anciã à nossa frente,
que o escuta se lamentar, diz: "Você está tomando muito
lugar! Deixe mais espaço para ele! Ele também tem o
direito de comer. Afaste-se!"
O sadhu resmunga com a boca cheia e deve ter se afastado
um pouco, pois sinto mais uns cinco centímetros livres à
minha esquerda. Outra anciã lhe diz: "O rapaz está
comendo direito. Deixe-o em paz!"
O sadhu para de reclamar e comemos em silêncio.
O sacerdote gigante serve o resto de arroz e lentilhas, mas
não aceito. Estou na metade da minha ração e paro. Fico
amassando o arroz para ganhar tempo e só levo bolinhas
minúsculas à boca. Além do mais, é insípido. Eu me
pergunto como os outros conseguem engolir esse arroz e
ainda pedir mais. Estou cheio até o esôfago. A massa não
desce mais. Uma anciã nota meu embaraço. Ela aponta o
velho sacerdote na porta do templo.
- Precisa terminar. Senão não sairá daqui - ela diz.
- Coma com calma. Tem de terminar - acrescenta uma
outra.
- Coma! - diz o velho sadhu à minha esquerda. Não tem o
direito de desperdiçar alimento.
Sei disso e faço um esforço. Só restam 200 ou 300 gramas
para engolir. É um inferno. Um pesadelo. Tenho medo de
forçar demais, de ter chegado ao limite de elasticidade de
meu estômago e de que a pressão em meu tubo digestivo
faça eu lançar tudo para fora se colocar mais alguma coisa
na boca. Tenho medo de vomitar aqui, no terraço. Corro o
risco, pois devo acabar o prato. Moldo uma bolinha,
reparto e a levo à boca. Mastigo. É impossível engoli-la.
Vou ter um ataque, vou explodir se continuar a comer.
O velho sadhu à minha esquerda acabou, dobra sua folha e
dá um grande arroto. Parece satisfeito. Eu também. É uma
overdose de arroz papa. Piedade! Os outros convivas
também dobram suas folhas vazias e pegam o tíquete
amarelo. Para pagar? Estou pouco ligando, só me preocupo
com a massa a meus pés. Uma anciã me diz com a voz
baixa:
- Rápido, dobre a folha, ninguém está vendo.
- Não - corrige sua vizinha -, tem de comer mais.
E volto a me esforçar. Uma bolinha, duas bolinhas. É
repugnante, me faz mal, força meu abdome, me sufoca.
O resto acontece rapidamente. Meu coração dispara,
batimentos martelam minhas têmporas e placas de suor
cobrem minhas costas. Sinto que perco a cor. Vou
desmaiar. Já não posso lutar. Desisto e, nesse momento, o
sacerdote gigante anda a passos largos pelo terraço,
recolhendo os cartões amarelos. Um cara desconhecido, de
calça e camisa, o segue e distribui uma nota de duas rupias
a cada pessoa. As anciãs dizem para eu dobrar rápido
minha folha de um modo que não notem que não comi tudo
e esperar as duas rupias. Obedeço, semiconsciente, feliz,
aliviado, mas logo sou despertado. Percebo em que mundo
sujo eu vivo, quando o sacerdote passa diante do rapaz à
minha direita e de mim, e diz a seu tesoureiro: "Estes dois
não têm tíquetes. Não lhes dê dinheiro."
Meu vizinho se joga aos pés do gigante e agora entendo a
origem de seu mutismo perpétuo. Ele é mudo. E está na
miséria. Abre sua boca doente e emite ganidos surdos,
semelhantes aos de uma carpa que vem à tona comer na
superfície do lago. Mas ele é um homem e o espetáculo é
de dar pena. O sacerdote afasta os pés e continua sua turnê.
Meu vizinho fica arrasado, os olhos úmidos. Observando
seus trapos, vejo como ele precisava dessas duas rupias.
Sinto pena dele. Esqueço minha própria miséria, a injustiça
e a humilhação de ser punido sem saber por que não me
importam mais, agora que a sentença foi decretada. Acabou
tudo. Eu me levanto abatido, mas uma anciã me sussurra:
"Jogue logo a folha no lixo e venha suplicar ao sacerdote.
Pode ser que para você..."
Hesito e decido. Vôo, corro para a lata de lixo instalada na
viela, volto ao terraço, me ajoelho diante do gigante e
acaricio seus pés. Nunca me rebaixei tanto na vida, mas
quero tirar duas rupias desse porco, nem que seja para dar
ao rapaz mudo.
"Por favor, me dê as duas rupias. Preciso delas. O que fiz?
Por que me tiraram o tíquete?"
Ele responde somente: "Vá embora!"
Errei ao dar ouvidos à anciã, ao procurar saber a causa de
meu castigo, como se o mundo devesse ser justo. Eu errei.
Humilhado, desprezado, punido, o ventre dilatado,
nauseado, eu me sinto como um animal. Pego meu saco e
vou embora. Na viela, noto que o sol está quase no zênite.
Sofri duas horas e meia nesse terraço. Cantei milhares de
"Sita Ram". Lanço-lhe um último olhar. Nunca me
esquecerei dessa experiência. De repente, percebo por que
não recebi as duas rupias. No parapeito do terraço há um
cartaz em que está escrito em letras vermelhas: "Depois da
refeição, cada santo e cada sadhu recebem uma rupia."
Hoje, foram duas rupias, e os sacerdotes não nos
consideraram sadhu. No entanto, deram dinheiro a vários
outros jovens vagabundos que ali estavam e que não
tinham o aspecto de sadhu. Reflito por um instante e
concluo que a punição foi um elogio. Eu não me parecia
com aquela gente detestável do terraço.
Sou diferente. Rama seja louvado!
Essa conclusão me conforta o coração e dou uma volta por
Ayodhya, para fazer a digestão. Avaliar a situação.

Lamento ter vindo. É uma cidade magnífica e ao mesmo
tempo uma aldeiazinha remota e imunda. Como descrevê-
la?
Há várias maneiras de descrever um lugar, uma mulher, de
contar uma história. Já falei de Délhi e da Ravindrapuri.
Mas não quero mais me divertir assim. Estou cansado.
Começarei dizendo que Ayodhya é a cidade natal do deus
Rama.
Não! Não! Não!
Esta definição liminar é insatisfatória, já que inexata.
Somente duas coisas saltam aos olhos do viajante, nesta
Belém indiana, além da presença dos policiais e dos
extremistas. Os macacos e os templos.
Ao diabo Rama e a mitologia.
Ayodhya é a cidade dos macacos ou dos templos e fica
difícil escolher entre as duas designações.
Milhares de macacos invadem esta velha cidade, como os
pombos em Veneza ou em Paris. Eles correm livremente
pelas ruas, voam de casa em casa, travessos, sempre
procurando algo para furtar. Os templos também são
inúmeros, colados uns aos outros, e tentei contá-los em
uma ruazinha ao acaso, depois em outra, e em mais outra.
Desisti todas as vezes. Eu me perdia na conta e resolvi
perguntar aos comerciantes de suvenires. Achava que essa
gente estaria à par das informações turísticas. E estava.
Interroguei três e, depois, um policial, para comparar os
dados, de tão inacreditáveis que são. Todos repetiram a
mesma cifra. Sou forçado a aceitá-la e entendo por que me
confundia ao tentar contá-los. Ayodhya possui 7.000 ou
8.000 templos, grandes e pequenos, todos misturados.
Então, Ayodhya é a cidade dos macacos ou dos templos?
Na verdade, os templos atraem os macacos. Eles procuram
um refúgio calmo, com muito alimento, oriundo da
passagem dos peregrinos. As oferendas dos hindus
consistem quase sempre de flores e alimento.
Exatamente.
Neste burgo, a grande quantidade de doces e tortas não
deve surpreender. As confeitarias são em menor número
que os templos, mas assim mesmo deve haver umas 100. É
o comércio mais frequente junto com o de suvenires e de
objetos religiosos, sem importância em uma cidade santa.
Não pensem que isso queira dizer que haja uma
especialidade local, um tipo de doce, como bolinho de
Ayodhya, caramelo de Ayodhya, o pão de Ayodhya... Não!
Olhei as vitrinas dessas lojas e senti náusea. Só vendem os
doces comuns. Guloseimas indigestas, pastosas,
engorduradas, doces demais, insípidas e geralmente
rançosas, mas que encantam os palácios dos indianos,
principalmente dos brâmanes e dos membros das castas
mais altas, das quais constitui o único prazer - confessável
­ da boca, já que são vegetarianos e não tocam no álcool;
em teoria. Os doceiros de Ayodhya exibem nas prateleiras
pirâmides de laddu (farinha frita e açúcar em forma de
bolinhas) e khurchan pera (discos endurecidos de leite
concentrado e açúcar). Exibem montanhas dessas bolinhas
brancas de açúcar, que são muito encontradas nos
santuários hindus, como as velas em uma igreja católica.
Esses doces são oferendas de qualidade. Os deuses adoram,
acima de tudo, o açúcar e o leite. Aliás, a sílaba divina
"Om", uma espécie de aleluia hindu, se baseia no khurchan
pera. Doces divinos. A santidade de Ayodhya não é
gastronômica, mas religiosa, e a abundância de doces e
tortas só se justifica por permitir aos peregrinos ofertá-los
aos deuses. Permite que cumpram seu dever de devoto. As
confeitarias aqui correspondem à escada de mendigos de
Dashashvamedh. Ayodhya, cidade dos doces.
A propósito, uma questão me intriga há muito tempo.
Como os brâmanes sabem que seus deuses gostam de
açúcar? Porque têm os mesmos gostos? Os deuses lhes
disseram? Isso me assombraria. Os brâmanes sonharam
com isso? Não. É difícil acreditar que milhares de homens
aceitem esse embuste. A origem do conhecimento do gosto
dos deuses permanece um mistério, mas nem por isso os
sacerdotes hindus estão menos certos de estar dizendo a
Verdade. Sim, com "V" maiúsculo. Ela atribui aos deuses o
amor pelo açúcar, decreta que os alimentos fritos são os
mais puros e classifica o intocável no nível do cachorro.
Por isso esse mistério me interessa. O aroma de caramelo e
de fritura que toma as vielas de Ayodhya me alerta para
minha intocabilidade e me causa náusea.
Cheira a gordura rançosa queimando, como se um pneu
estivesse sendo frito. A gordura é tão escura que deve datar
da colonização britânica. Servia para lubrificar os
caminhões ingleses. Depois da Independência, os
caminhões foram depenados e jogaram o óleo nas marmitas
das tabernas e das confeitarias. Precisavam de muita
gordura, pois com a liberdade e a modernização do país,
sob o governo dos Nehru-Gandhi, os peregrinos afluíram a
Ayodhya. Era preciso alimentar todos os fiéis e possibilitar
que fizessem suas oferendas piedosas. O melhor possível.
Com os pratos mais puros, dignos deste lugar santo. Isto é,
alimentos fritos. Daí os laddu, a guloseima dos sadhu, essas
bolas gordurosas e açucaradas.
Estou brincando. Talvez a fritura purifique a alma, mas
com certeza engordura as artérias. Que sociedade
obscurantista! Já sei, os devotos dirão: "Pouco importam as
artérias e o corpo; a vida atual não passa de uma existência
entre muitas outras no ciclo infinito de nascimentos e
mortes ao qual cada um se sujeita. Além disso, o mundo
material é só uma ilusão..."

Visito a cidade a pé e desde que cheguei, quando pergunto
onde fica este ou aquele templo famoso, ou então o rio
Saryu, que banha alguma parte dessa região e que gostaria
de conhecer, as pessoas me tratam sem o menor respeito,
com um desprezo flagrante. Isso quando respondem. Uma a
cada duas vezes me lançam um olhar de desdém e viram as
costas, em silêncio. Imagino como devem me ver. Um cara
com a cabeleira hirsuta, rosto e pés pretos e imundos, a
roupa em farrapos. Um miserável de casta baixa,
repugnante, com quem se deve evitar o contato, sem a
discrição e a atitude conveniente mantida em Benares.
Começo as perguntas com "Por favor", o que é raro em
hindi, e quase obsequioso. Mas isso não muda nada. Uma a
cada duas vezes me ignoram ou mostram desprezo.
Ayodhya é o inferno e sinto falta de Benares. Aqui não
tenho a impressão de ser um sub-homem, mas de ser um
animal.

Ao longo da rua central, que leva à ponte do rio Saryu,
reconheço um irmão intocável. Tenho certeza de que é um
filho de Deus, pois exerce a profissão de sapateiro. Está
sentado de lungi na beira empoeirada da calçada, no meio
de suas ferramentas. Martelos, tenazes, trinchetes, sovelas,
escovas, palmilhas, cera, cola, sapatos velhos e uma
bigorna. É baixo, gordo, uns 40 anos, ar jovial. Estou
esgotado, quero conversar com alguém da minha condição,
animar meu estado de espírito. Também quero saber se a
carne e o álcool continuam proibidos. Só posso perguntar
isso a outro intocável. Teria vergonha de falar de carne e de
álcool com o primeiro que encontrasse; é como, na França,
se pedisse informações sobre as putas.
Em relação ao alho e à cebola, a cidade mudou desde a
infância de meu professor Ram Singh. Durante meu
passeio, notei que as quitandas vendem esses bulbos
impuros. Em compensação, não vi nenhum açougue nem
casa de bebidas alcoólicas. Se esse tipo de comércio existe,
deve ser clandestino. Queria saber onde acontece. Um trago
cairia muito bem para lavar o espírito.
Do outro lado da rua, que o sapateiro fique desocupado.
Então, me aproximo e falo em voz baixa, como se fosse
algo íntimo: "Bom dia, estou de passagem por Ayodhya.
Tenho um probleminha, talvez possa me dar uma
informação."
Ele responde que tudo bem e eu me agacho e conto que sou
um aborígine de Bihar, para que me sinta mais próximo
dele e fale sem constrangimento. Aí eu pergunto direto:
- O senhor sabe se posso comprar carne aqui?
- Vou dar a informação ao senhor - respondeu, acentuando
o "senhor", o que me indica que nós dois damos
importância a esse tratamento, como dois escravos
demonstrando, um ao outro, o respeito de que são privados.
- Em Ayodhya se vende carne somente às terças e sábados.
Mas pode encontrá-la todos os dias em Faizabad (capital do
cantão, a menos de 10 quilômetros).
- Que tipo de carne?
- Aqui só a de cabra. Mas em Faizabad há todo tipo.
- De porco também?
- Tudo. Porco, búfalo, cabra, peixe, frango...
- O senhor... come carne de porco? - pergunto constrangido
e querendo saber os costumes dos sapateiros da região.
- Sim.
- Eu também. É boa, não?
- Sim.
Ele aprova, lacônico, com um sorriso que significa: "Essa
prática é suja e vergonhosa, mas o senhor e eu sabemos que
é gostosa demais. "
Prossigo:
- Posso comprar bebida alcoólica em Ayodhya?
- Não. Tem de ir a Faizabad e trazer para cá.
- E beber às escondidas?
- Sim.
- O senhor é gentil, me informando sobre tudo isso - digo. -
É a primeira pessoa que fala comigo sem demonstrar
desprezo. O sistema de castas aqui parece muito forte.
- Sim - diz suspirando. - Aqui os brâmanes são muitos e
poderosos.
- Posso ficar um pouco com o senhor?
- Está bem.
Gosto de sua presença. Ao seu lado, eu me sinto um ser
humano; não apenas porque ele me trata de "senhor", mas
também porque fala de uma maneira comum, normal e
muito agradável. Ofereço um biri, mas ele não fuma. Ele
masca. Então fumo um sozinho e ele masca tabaco.
Passo meia hora com ele. Os clientes trazem sapatos para
consertar ou para engraxar, e também sacolas. Dirigem-se a
ele com desdém e o tratam de "você", se queixam que
trabalha devagar ou que é muito caro. Mas o cliente é quem
manda e meu irmão os trata com cerimônia e nunca os
repele. Falamos pouco, mas ele chega a me contar que tem
dois filhos e uma filha. Dou os parabéns. Digo que teve
sorte de ter apenas uma filha; assim só precisa pagar um
dote e, em compensação, recebe dois ao casar os garotos.
Ele sorri. Conto que antes de Ayodhya estive em Benares.
Que ali visitei um templo dedicado a Ravidas, nosso santo,
dos filhos de Deus. O templo é magnífico e fica acima do
Ganges. Ele diz: "Nós também, em Ayodhya, temos um
templo de Ravidas. É pequeno, mas muito bonito. Devia
conhecê-lo."
É uma idéia excelente. Ele me ensina o caminho e o deixo.

O templo de Ravidas não fica distante da estação; se situa
no meio de casinhas de barro e hortas. O passeio é
agradável. É um bairro calmo e fresco, com muito verde,
mas me perco e, quando pergunto a direção do templo dos
intocáveis, as pessoas me olham de modo mais estranho
ainda. Como se eu tivesse a peste. Exceto algumas pessoas
que, pelo contrário, sorriem ao ouvir o nome de Ravidas.
Imagino que esses autóctones com roupas pobres de cam-
poneses devem ser intocáveis.
O templo de Ravidas mede aproximadamente 10 metros
por 10. É uma construção cúbica, compacta, como as
sinagogas na França, e a fachada branca só é ornamentada
por duas varandas pequenas, como sacadas. Um velho, com
o torso nu e uma tanga branca em, volta dos rins, está
sentado na escadaria exterior do templo. Tem uma barba
grisalha, a tez baça e a pele do ventre enrugada como um
figo seco. Imagino que seja um sacerdote. Fico descalço e
lhe digo que vim rezar. Ele faz sinal para que eu entre.
O interior do templo não desperta mais interesse que seu
exterior. Uma peça única e escura, sem mobília, com
tapetes e no fundo um pequeno santuário que abriga, por
trás de uma grade, uma estátua de Ravidas, em mármore
branco, de um metro de altura. Eu me ajoelho diante dela,
lanço através da grade uma nota de duas rupias e me viro
para sair do templo. Meus olhos se acostumaram à escu-
ridão e reparo em um retrato do doutor Ambedkar,
pendurado à direita do santuário.
O que faz Ambedkar em um templo hindu? Ambedkar, o
líder intocável da metade do século 20, lutou durante toda a
vida pela justiça social, contra o sistema de castas e o
hinduísmo. Jurista eminente e ministro da Justiça depois da
Independência, foi um dos pais da Constituição da índia
moderna e secular que abole a intocabilidade. Hindu de
nascença, adotou, antes de morrer, em 1956, o budismo,
religião igualitária que não admite as castas. Suscitou a
conversão em massa de milhões de intocáveis ao budismo e
se tornou, de certa forma, o inimigo do hinduísmo. Suas
estátuas tornou-se um personagem histórico -, instaladas na
via pública ou nas escolas, são destruídas por extremistas
hindus das castas altas, como aconteceu há 10 dias em
Ghazipur, cantão vizinho a Benares. Os intocáveis o
consideram, acima de tudo, o defensor de seus direitos, um
herói, um santo leigo.
Ambedkar pregava a igualdade de todos os cidadãos e a
erradicação do sistema de castas. Isto é, do hinduísmo. O
sistema de castas é tão necessário ao hinduísmo quanto a
água ao peixe e o álcool ao bêbado. O cumprimento do
dever pessoal de casta - e não de um dever universal - e o
sistema de reencarnação em uma casta mais ou menos
elevada, como recompensa pelas boas ou más ações,
constituem os dois pilares fundamentais dessa religião, até
a libertação final e o paraíso. Sem o desejo de renascer
como brâmane, e sem a ameaça de se tornar um intocável, o
sistema moral hindu não funcionaria. Ambedkar
compreendeu a impossibilidade de uma reforma do
hinduísmo eliminar a intocabilidade e escolheu a via legal e
a do crescimento econômico para tornar os homens iguais.
Na mesma época, Gandhi também militava contra a
intocabilidade, mas defendia o sistema de castas, que
julgava uma excelente divisão de trabalho pelo nascimento.
Sonhava em purificar o hinduísmo. Para reabilitar os
intocáveis, pedia que seguissem costumes mais higiênicos,
e aos membros das castas altas solicitava que fizessem
penitência e dessem provas de humildade.

O paralelo entre Gandhi e Ambedkar me fascina. Esses dois
contemporâneos eram oriundos do Oeste da Índia, eram
juristas e haviam estudado no Ocidente, fato raro na época.
Mas esses dois combatentes ocidentalizados da
intocabilidade eram adversários. Gandhi, o reformista, e
Ambedkar o revolucionário, embora detestasse os
comunistas. O evangelista e o leigo. Gandhi, pudicamente,
batizou os intocáveis de "filhos de Deus", e Ambedkar fez a
administração denominá-los, secularmente, "castas
repertoriadas". Gandhi pedia aos hindus das castas altas
que aceitassem os intocáveis, enquanto Ambedkar
mobilizava os intocáveis para que libertassem a si mesmos.
Gandhi idealizava a aldeia tradicional, seu artesanato e seu
sistema social fundado na interdependência das castas;
Ambedkar afirmava que as aldeias indianas não passavam
de covis segregacionistas e obscurantistas, e que era preciso
promover a indústria para desenvolver a economia e
realizar a igualdade entre todos os homens.
Em 1932, Ambedkar obteve dos colonos ingleses direitos
eleitorais particulares para os intocáveis, mas Gandhi
empreendeu uma greve de fome para protestar contra esse
favor que, segundo ele, afastava os intocáveis do
hinduísmo. Gandhi, no âmbito do Partido do Congresso,
temia a emergência de um movimento intocável
independente que enfraquecesse os dirigentes do partido, e
não acreditava na capacidade intelectual dos intocáveis,
nem para a defesa de seus próprios interesses.
Em 1931, depois de seu primeiro encontro com Ambedkar,
Gandhi se admirou de que ele fosse um filho de Deus e não
um brâmane sensibilizado pela intocabilidade. Como se os
intocáveis fossem incapazes de gerar um líder. Em 1936,
Ambedkar flertou com o siquismo, aconselhando os
intocáveis a se converterem a essa religião igualitária.
Gandhi, preocupado com o fato de que o hinduísmo
pudesse perder 20% de seus fiéis, teve dúvidas quanto a se
os intocáveis eram mais capazes de distinguir os méritos
entre as diferentes religiões "que uma vaca" (sic).
O combate desses dois defensores dos intocáveis é tão
cativante que, no crepúsculo de suas vidas, seus papéis se
misturaram. O santo Gandhi acabou se dando conta da
necessidade de leis que protegessem os intocáveis e de que
era preciso destruir o sistema de castas - mesmo que
quisesse conservar o hinduísmo. O leigo Ambedkar se
tomou religioso, se convertendo ao budismo.

Vejo Ambedkar nesse templo hindu de Ravidas e rio.
Interiormente. Digo ao velho sacerdote dois slogans
famosos de Ambedkar: "Considerem-nos iguais... Se seu
espírito está curado, a água nessa tigela será igual à água do
Ganges."
O sacerdote sorri e vou embora. Dirijo-me ao rio Saryu,
uma caminhada de cinco quilômetros. Quando chego, o sol
começa a descer.

O rio Saryu é largo, mas parece pouco profundo. Para lá da
grande ponte que o transpõe estendem-se bancos de areia a
perder de vista, do lado de Ayodhya, e que dominam
metade de sua superfície, nesta estação seca. A outra
margem parece deserta, como a margem maldita do
Ganges, de frente para Benares.
A margem do lado de Ayodhya é constituída por escadas de
pedra e uma escarpa de areia. Centenas de peregrinos para
ali afluem. Os sacerdotes os abençoam em um banho
purificador e lêem a sina de alguns ao mandarem que
toquem o rabo de uma vaca. Acho isso ridículo e não
consigo deixar de sorrir.
A água do rio é verde e límpida, mas, além dos devotos,
toda espécie de lixo, óleo e plásticos flutuam nele. Não me
banharia nele nem que a tintura de meu corpo fosse
indelével, e me pergunto como um esgoto desses pode
purificar o corpo. Isso me faz lembrar que o Buda zombava
do rito hindu da ablução:
"Se basta mergulhar no Ganges para lavar seus pecados,
quantos peixes e rãs já não estão salvos?" Ele se referia ao
Ganges, mas sua observação é válida para todos os rios.
Todos possuem, em grau menor, virtudes purificadoras.
Quando se imagina um rio, pensa-se primeiro na água,
depois em peixes que saltam na superfície, depois em
pescadores com caniços ou redes, os quais vemos trabalhar,
e isso faz passar o tempo. Aqui não há pescadores, só
banhistas, e não tenho vontade de vê-los flutuar no esgoto.
Eu me aborreço contemplando essas margens arenosas e
áridas e imagino que nesta cidade santa, entregue à ditadura
dos brâmanes vegetarianos, a pesca deve ser proibida.
Eu me levanto e vou para o reservatório de água atrás da
margem e para seu terrapleno, uma espécie de dique. Este
lago cimentado margeia as primeiras construções de
Ayodhya. Parecia magnífico quando o vi, ao chegar do
centro da cidade.
E é. O local me lembra Veneza. Porém barroca. Os domos
orientais coroam os imensos palácios de cor creme e os
templos de pedra vermelha que se debruçam sobre o rio a
perder de vista, se refletindo na água cor de esmeralda.
Escadas largas, com degraus de cerâmica rosa, descem em
sua direção e alguns homens as lavam. O detergente faz
muita espuma; peixes mortos flutuam com a barriga para
cima, no meio do lixo, das manchas de óleo e dos velhos
sacos de plástico. A água está repleta de poluentes e lixo.
Há até mesmo o cadáver de um cachorro, com a barriga
inchada, que bóia como um balão. Se este é o reservatório
de decantação dos esgotos de Ayodhya, é a estação de
depuração mais bonita que já vi. Mas acho que é apenas um
reservatório comum.
A água é suja, mas clara. Cardumes de alevinos nadam na
superfície e de vez em quando peixes grandes sobem à tona
para comê-los. Pequenas tartarugas mergulham assim que
vêem eu me aproximar. Mas não vejo nenhum pescador.
Ayodhya! Proibido pescar. É um ato sanguinário, cruel,
bárbaro, que vai contra a moral vegetariana hindu.
Em compensação, pode-se poluir a água em que os peixes
vivem. Pode-se lavar roupa e esvaziar latas de lixo à
vontade. Para os brâmanes, tudo bem. Essa é a natureza de
seu amor pelos animais, de seu respeito por todas as formas
de vida - que talvez sejam a reencarnação de seus avós. Um
exemplo de sua alta civilização humana e de sua não-
violência: a agonia lenta e inútil dos peixes por
envenenamento e não a morte imediata nas mãos de um
pescador, a fim de alimentar os homens.
Brâmanes cretinos! Quanto mais dura minha metamorfose,
mais os detesto. Nunca pensei que viesse a sentir tanta
raiva por outros homens, e compreendo como os negros se
tornam racistas radicais.
Reflito sobre tudo isso até o crepúsculo, sentado em um
degrau à beira da água, e depois subo para o passeio que
rodeia o reservatório.
A noite caiu. De repente, sou dominado por um grande
cansaço. Não durmo desde ontem. No meio do passeio,
noto a soleira de cimento de uma casa que parece
desabitada. Estendo o oleado e a coberta, e me deito. Penso
nesse primeiro dia em Ayodhya, no almoço humilhante, nas
litanias absurdas de Rama, nos doces para satisfazer o
gosto dos deuses, na mesquita Babri, em seus ídolos
invisíveis, que fazem a Índia vibrar, nas vaquinhas do
Saryu, no sistema de castas radical dos habitantes locais, no
retrato de Ambedkar no templo de Ravidas...
Ambedkar, o profeta dos intocáveis, me lembra seu
contemporâneo Periyar, outro revolucionário de sua
têmpera, adversário de Gandhi e o "Sócrates" dos tâmeis,
povo dravídico e não ariano que habita o Sul do
subcontinente indiano. E. V. Ramaswami Naicker,
chamado de Periyar, isto é, o Sábio, combateu com
veemência o hinduísmo, o sistema de castas e, de maneira
geral, toda a civilização dos brâmanes e do sânscrito.
Inclusive os casamentos endogâmicos e a expansão do
hindi (língua originada do sânscrito) como língua nacional
da Federação indiana. O escritor V. S. Naipaul conta como
Periyar, usando uma camisa preta - em contraste com a tez
e as roupas brancas dos brâmanes, símbolos da pureza -,
iniciou seu discurso com: "Deus não existe. Quem inventou
Deus é um louco. Quem propaga a existência de Deus é um
crápula. Quem acredita em Deus é um bárbaro..."
Periyar comparava a miséria da sociedade indiana, nas
mãos das altas castas, ao desenvolvimento da Europa
graças à ciência. Seu espírito racionalista escarnecia do
hinduísmo e explicava que os brâmanes tinham copiado
seus deuses dos deuses do Egito e da Grécia antigos. Previa
os avanços ilimitados que a ciência propiciaria à
humanidade, destruindo as especulações obscurantistas
sobre a existência de Deus. Quando o mundo fosse
transformado em um paraíso com a ajuda da ciência, não
haveria mais necessidade de um no céu. Quando não
houvesse mais miséria, não haveria mais necessidade de
Deus. Ao contrário de Gandhi, o santo campeão do jejum -
como o herói do romance de Kafka -, Periyar era um glutão
e comia carne de vaca propositalmente, para mostrar que
não era nada de especial, nem doentio. Efetivamente, viveu
94 anos, um prodígio em um país onde a esperança de vida
só passou de 32 para 59 anos, a partir da Independência.
Periyar e Ambedkar travavam um combate complementar e
em 1943 chegaram a discutir a divisão da Índia com Jinnah,
futuro fundador do Paquistão. Para escapar à dominação
dos brâmanes, os muçulmanos queriam fundar o Paquistão,
ou "país dos puros"; os intocáveis, um Dalistão, "país dos
oprimidos"; os sulistas, um Dravistão, "país dos
dravídicos", e os hindus se encontrariam em um Hindustão
- Índia em hindi, ou "país dos hindus" - amputado, que
tanto horror causava a Gandhi e que lhe custou a vida.
Tudo isso é História. Nesta noite, o que me interessa em
Periyar é sua comparação entre os deuses hindus e os
deuses egípcios e gregos, e sua visão do hinduísmo como
religião primitiva.
Ele tem razão.
Uma viagem à Índia não leva os ocidentais à Idade Média,
como se costuma dizer, mas às trevas cruéis das primeiras
civilizações. A sociedade indiana é um vestígio da
Antiguidade, está próxima das sociedades gregas, romanas
ou celtas, por seus costumes religiosos e segregacionistas
em função do nascimento, que derivam, principalmente, do
fundo comum indo-europeu.
Os brâmanes podem ser comparados aos druidas, não
apenas pela maneira como cultuam as divindades pagãs e
por sua concepção de pureza, como também por seu poder
judiciário e político. Em Roma, a sociedade classificava os
homens segundo o nascimento em três graus imutáveis,
como os varna (a ordem genérica das castas) na Índia: os
patrícios, a plebe e os escravos. Não darei uma aula de
etnologia romana, mas cada classe possuía direitos muito
discordantes. A economia se desenvolveu e elas se
subdividiram em várias guildas profissionais hereditárias,
com seus santos padroeiros - como muitas castas hindus -,
uma certa endogamia e uma hostilidade aos movimentos
individuais entre os grupos. Mesmo a intocabilidade, uma
característica típica do hinduísmo, pode ser encontrada na
Grécia dos antigos filósofos, segundo o célebre
antropólogo indiano G. S. Ghurye. Platão declarava que
aquele que tocasse em uma pessoa expatriada, ou comesse
em sua companhia, não poderia mais entrar em um templo
ou na cidade sem ser purificado.
Hoje as sociedades indo-européias hierárquicas, pagãs,
obscurantistas e escravagistas já não existem. Exceto na
Índia. Muito ligado às suas origens remotas, este país se
tornou um mundo fóssil.

30 de novembro

O frio me despertou várias vezes durante a noite e me sinto
exausto. O ar está muito úmido e uma neblina espessa
escurece o amanhecer. Impede a visão a 10 metros de
distância. Não distingo a escada nem a água do
reservatório. Porcaria de cidade! Estou de saco cheio do
desprezo dos outros, de minha sujeira, do frio e do cansaço.
De tanto procurar situações cada vez mais duras, vou aca-
bar morrendo ou enlouquecendo. Estou esgotado. Não sei
como descrever, mas sinto que não aguento mais e tenho
vontade de desistir de tudo. Será a falta de sono que me
confunde?
Estou pifando.
Pelo menos em parte. Resolvo continuar a ser um indiano,
mas não um intocável ou um mendigo. Essa metamorfose é
possível. A idéia de Gloire de eu trazer roupas limpas e
tintura foi perfeita. No caso de ter confusão em Ayodhya...
Quero parecer um hindu de casta alta e ver como as pessoas
me tratarão. Vai ser interessante e espero que seja mais
fácil de viver.
Eu me limpo e lavo vigorosamente em uma fonte no final
do passeio em torno do reservatório. Tem pouca gente e,
com toda essa neblina, não notam o que estou fazendo. Eu
me barbeio e esfrego bem o rosto, os braços e os pés,
depois desço para a beira da água, tiro a camisa e o lungi
esfarrapados e visto a calça e a camisa limpas. Eu me olho
no pequeno espelho e descubro um terceiro homem. Nem
Marc Boulet nem Ram Munda, mas um indiano bem-
vestido, de tez clara e brilhante, ligeiramente café-com-
leite. Não pareço mais um intocável. Meto minhas coisas
dentro do saco e vejo que é muito sujo para minha nova
identidade. Preciso comprar outro antes de mergulhar na
cidade.
A neblina se desfaz com o calor do sol. Fico esperando ao
longo do rio a abertura do comércio, às nove horas.
Procuro um saco novo em uma loja na entrada da cidade.
Para romper com minha antiga existência de andarilho
miserável, subo em um desses triciclos a motor que servem
de táxi ao longo da rua principal. O motorista é um louco e
tem três "Viva Rama!" pintados no veículo. Deve achar que
não tem nada a temer para tirar um fino dos pedestres e
outros veículos daquela forma, sem se preocupar. Ele tem a
mão no guidom e nos faz andar, mas é Rama que nos
conduz. Viva Rama! Saboreio o prazer de ser transportado
e me sinto mais seguro que ontem, quando caminhava por
essa rua atravancada.
Desço perto do grande templo de Hanuman, deus dos
macacos, e paro em uma taberna. Hoje não sou pobre e
pago seis rupias por uma refeição completa. Com a boca e
o estômago satisfeitos, sigo a pé para a mesquita Babri.
Quero visitá-la, refazer o percurso de ontem, como um
indiano não-intocável.
Para construir o templo de Rama, há um grande número de
voluntários que se espalham pelas ruas em um fluxo
contínuo, inesgotável. Desembarcaram durante a noite,
como nuvens de gafanhotos, e agora são milhares em
Ayodhya. Dizem "Viva Rama!" bem alto uns para os outros
e não se esquecem de mim. Acham que sou um deles, com
minhas roupas novas, e eu respondo: "Viva Rama!" Acho
agradável cumprimentar desconhecidos.

Diante da mesquita, o camelô que ontem guardou minhas
sandálias e meu saco também muda de atitude comigo. Não
me reconhece, mas me dirige um largo sorriso e pergunta se
não sou um brâmane da Caxemira.
- Sim - respondo.
- Eu tinha certeza - ele diz.
De imediato não percebo o sentido do que diz, estou
preocupado com minha visita à mesquita. Quero ver os
famosos ídolos.
Dessa vez lá estão. Consegui. Eu os vi. Quatro estatuetas
deitadas na primeira vitrina com dossel. Mas só suas
cabeças minúsculas emergem das toalhas bordadas com fio
prateado. Parecem escuras e vagamente brilhantes, mas não
tenho certeza, pois são muito pequenas.
Estou contente por saber que existem. Saio da mesquita e
caminho nas proximidades. Policiais e milhares de
voluntários tornam a esplanada sombria. Ontem ninguém
prestava atenção em mim, mas hoje, em meia hora de
passeio, os policiais me interpelaram duas vezes. Tive
medo, mas não me trataram como em Benares. Sorriram e
me trataram de "senhor". Queriam saber se eu era um
brâmane da Caxemira.
Não os contradisse.
Não sei como se parece um brâmane da Caxemira, mas
deve ter minha cara pálida e vestir o tipo de roupa indiana
que estou usando. É a terceira vez que me perguntam se
sou um deles. Além do mais, ninguém me toma por um
estrangeiro, o que é fácil de notar pelo tipo de olhar curioso
que lhe lançam.
Na minha precipitação, não pensei na identidade que
adotaria. Só queria deixar de ser intocável, e eis que sou
impulsionado ao cume das hierarquias das castas. Os
brâmanes da Caxemira são muito respeitados e atraem a
simpatia geral dos hindus, pois são martirizados pelos
muçulmanos. Nunca pus os pés na Caxemira e não falo
uma palavra de sua língua, mas se me pedirem detalhes,
direi que me chamo Ram Pandey - um nome da casta dos
brâmanes - e que venho de Lelh, capital do Ladakh. Eu me
admiraria se encontrasse alguém que tenha visitado esse
local distante da Caxemira. Vi fotos dessa parte do
Himalaia, parece-se com a paisagem lunar tibetana, e o
Tibete eu conheço. Eu o atravessei de carona há cinco anos
e poderia inventar uma descrição plausível do Ladakh a
partir de minhas lembranças tibetanas. Direi que só falo o
hindi e o ladakhi, um dialeto tibetano, e se me pedirem uma
demonstração, falarei em chinês. Acho que dará certo.
O hábito realmente faz o monge, ou o brâmane, e as
pessoas falam comigo e se mostram até mesmo solícitas.
Tive dificuldade em me livrar de um sadhu que me abordou
e queria que eu visitasse seu monastério perto do templo de
Hanuman. Agora um grupo de voluntários se aproxima.
Confirmo mais uma vez que sou um brâmane da Caxemira.
Sim, vim sozinho para contribuir para a construção do
templo de Rama. Eles me felicitam e me convidam para me
juntar a eles. Não devo ficar só, sem amigos, pois essa reu-
nião de milhares de voluntários, de irmãos hindus, é uma
festa.
Segundo eles.
Tudo bem, eu os acompanho. Quero estudar de perto esses
fanáticos. Usam camisa e calça ou o tradicional kurta-dhoti
e têm de 30 a 40 anos. Vêm de Bihar e são brâmanes, o que
não me surpreende, pois li que os voluntários do templo de
Rama pertenciam, em geral, às castas das três ordens
hindus superiores: os brâmanes, os kshatriya (os guerreiros)
e os vaishya (os comerciantes).
No outono de 1990 eles participaram do tumulto da
mesquita Babri, reprimido violentamente pela polícia. Eles
me contam isso sem subterfúgios, à maneira dos ex-
combatentes, orgulhosos de suas proezas. Acampam no
primeiro portal, ao pé do outeiro em que Rama nasceu. O
solo é coberto de palha, como em um estábulo, e centenas
de voluntários aí descansam, sentados ou deitados. No
fundo, há um estrado e três sacerdotes jovens lêem um
texto sagrado diante de microfones que amplificam seu
blablablá em altofalantes.
Meus novos irmãos chegaram na noite anterior, de trem.
Seu chefe, um baixote gordo, tem o rosto redondo, com o
focinho achatado. Com folhas de salsa nas narinas, ficaria
mais apetitoso e bonito, parecido com a cabeça de um
vitelo exposto em um açougue. Afinal, ser comparado a um
bovino é um elogio para um brâmane e não sinto vergonha
de imaginá-lo assim.
Ele é sociável. Convida-me a sentar em seu edredom, tira
de uma valise de alumínio um saco plástico cheio de bolas
brancas e me oferece uma. É um doce superaçucarado que
parece de gesso e tem cheiro de manteiga rançosa. Cola nos
dentes. Ele diz:
- Coma! É bom. É manteiga pura. O cheiro é gostoso, não?
- Sim. Tem gosto de manteiga - respondo lacônico, como se
a presença do sabor lácteo, sabor sagrado, bastasse para
torná-lo delicioso.
- Foi minha mulher que fez.
- Parabéns. É delicioso.
- Tome!
Recuso com polidez, e ele serve um pouco de água em um
copo comum do grupo. Bebo entornando o líquido sem
tocá-lo nos lábios, segundo as boas maneiras hindus.
Depois, ele diz para eu me deitar e fazer a sesta.
Fico admirado. As pessoas são tão gentis e me acham tão
puro. Bebi no copo de um brâmane e nos deitamos juntos.
Esse ambiente fraternal quase faz esquecer que Ayodhya é
um antro de pessoas que se detestam e querem prejudicar
umas às outras, a reunião mais repugnante de fanáticos
religiosos de tendência fascista. Fecho os olhos e penso no
absurdo do sistema de castas, nó tratamento desumano que
me infligiram durante as cinco últimas semanas. E pronto!
Esta manhã mudei de roupa, esfreguei a pele até apagar a
tintura e me tornei um personagem venerável. Eles me tra-
tam de "senhor", me alimentam, me oferecem uma cama de
palha.
Devo ficar feliz ou chorar?
O chefe gorducho me conta que é um homem de negócios.
E eu? Respondo que eu também. É mais simples. Ele fica
satisfeito e diz que me acha simpático. Obrigado. Pergunto:
- Como sabe, o governo BJP de Uttar Pradesh prometeu à
Corte Suprema que a construção de 6 de dezembro seria
apenas simbólica. Viemos até aqui para nada?
- Não. A construção será de verdade. Não se preocupe.
- Então o BJP mentiu para a Corte Suprema?
- Sim - diz sem hesitar. - o Vishva Hindu Parishad desta
vez decidiu que construiremos realmente o templo de
Rama. Nada nos impedirá. Estamos fartos... A Índia é o
país dos hindus e nem podemos construir um templo no
local de nascimento de Rama. Basta. Essa promessa de
construção simbólica não passa de uma cortina de fumaça.
O BJP confunde a Corte Suprema, entende? Para ganhar
tempo e evitar que a polícia intervenha. É uma estratégia
política. Só isso.
Eu me pergunto se o BJP está enganando a Corte Suprema
ou os voluntários. Talvez os dois ao mesmo tempo,
tentando não tomar partido. Mas uma coisa é certa: durante
o dia todo, em volta da mesquita Babri, não param de
desembarcar grupos de centenas de voluntários dos quatro
cantos da Índia, a maior parte do distante Sul, dravídico.
Se não é para participar de algum trabalho no dia 6 de
dezembro, eu me pergunto por que o VHP continuaria a
chamá-los e acolhê-los. O chefe me diz que o apelo do
VHP é um sucesso, 30.000 voluntários já chegaram a
Ayodhya. Acredito nele. Um cara leu no jornal que mais de
10.000 policiais nos vigiavam.
- Não tem medo que a polícia atire em nós, se começarmos
as obras de construção? - pergunto. - Como em 1990?
- Não. Eu não tenho medo. Estamos aqui a serviço de
Rama. Não precisamos ter medo. Todos os que se
opuserem à flecha de Rama terão a morte de Ravana.
Ele faz alusão ao demônio Ravana, que raptou Sita e a
levou ao Ceilão. Rama libertou sua mulher matando o
invencível Ravana com uma flecha mágica. Eu digo:
- Sei, mas ainda assim estou inquieto.
- Não se preocupe. O que podem os fuzis dos policiais
contra o poder de Deus?
Fingimento, loucura, inconsciência? Ele parece sincero e,
ao ouvi-lo, observando a quantidade de voluntários em
Ayodhya, não tenho dúvidas de que o 6 de dezembro vai
explodir. Para os voluntários ou para a mesquita, talvez
para os dois ao mesmo tempo, e também para os governos
de Uttar Pradesh e Délhi. Eu me pergunto se o BJP e o
VHP são capazes de controlar o que estão desencadeando,
ao concentrarem um exército de fanáticos, ou se deixam a
situação se agravar de propósito. Como conseguirão
controlá-los se as obras de construção se confirmarem
simbólicas? Alguns percorreram milhares de quilômetros
para servir Rama; não é preciso ser adivinho para
compreender que não se satisfarão em recitar algumas
litanias.
Estou extenuado e essas reflexões me adormecem. Quando
desperto, um pouco antes do crepúsculo, um sujeito com
uma faixa cor de açafrão em torno da cabeça, com o slogan
"Viva Rama!" impresso, se apresenta ao grupo como um
oficial do VHP. Ele explica que devemos ir para um campo
de voluntários, a quatro quilômetros dali, onde seremos
acolhidos até 6 de dezembro. Percebo que os dois portais
ao pé da mesquita Babri não passam de locais de trânsito
para os recém-chegados. Em seguida são distribuídos,
segundo a região de origem, para campos mais afastados.
Nosso chefe diz Ok e manda que nos preparemos. Depois
me diz à parte: "Vai nos acompanhar, não?"
Penso rápido. São gentis, mas o acampamento é muito
longe do centro da ação. Recuso sua sugestão. Digo que
prefiro ficar perto do local de nascimento de Rama. Ele não
insiste e explica que o VHP serve, a 500 metros dali,
refeição gratuita para os voluntários. Diz que eu devo
comer lá e me abraça antes de partir.

Já é noite e acho que seria interessante jantar e ver como é
uma cantina de voluntários.
É uma boa idéia.
A cozinha do VHP fica sob um hangar de ferro, na avenida
de terra que conduz à estação. Milhares de voluntários,
divididos em filas, esperam do lado de fora, diante de uma
mesa comprida. Eu também. Eu me conto à parte, pois,
embora minha aparência seja semelhante à deles, me sinto
diferente desses integristas.
Esperamos que a comida fique pronta e os "Viva Rama!"
que se ouvem de tudo que é lado expressam a alegria dos
voluntários de estarem em Ayodhya. Escuto todas as
línguas faladas na Índia, mas só compreendo a de dois
agitadores profissionais que, trepados no muro que cerca a
cantina, provocam as pessoas, em hindi, a cada cinco
minutos. A multidão repete os slogans agressivos. Eu tam-
bém, para não chamar a atenção:
"Construiremos o templo aqui mesmo! Viva Rama!"
"Hindus! Hindus! Urra! Urra!"
"Os inimigos de Rama são inimigos da nação!" "Viva
Rama! Viva Rama!"
Uma hora mais tarde, o jantar é servido à fila indiana diante
da mesa. Na minha vez, recebo uma folha-prato cheia de
comida e vou me acocorar na beira da estrada para comer
como todo mundo. Eu me surpreendo, é delicioso. Dois
pãezinhos fritos, dois punhados de arroz branco e uma
concha de ensopado de batatas. Os pãezinhos fritos são um
prato refinado na Índia e fico com a impressão de que o
VHP quer agradar aos voluntários. Eu me delicio, depois
bebo água em uma fonte e retorno ao portal. Deito-me
sobre a palha e me cubro com um dos edredons deixados
pelo VHP.
Olho em volta. Trezentas pessoas escutam um sacerdote.
Ele lê um texto sagrado mecanicamente. Fala da ordem do
mundo, segundo Krishna, e do dever de cada casta. Não
entendo sânscrito, mas sei algumas palavras-chave e acho
que reconheci a seguinte passagem do Bhagavad-Gita:

"Brâmanes, kshatriya, vaishya, shudra, suas ações
obedecem à sua natureza intrínseca.
Serenidade, domínio, esforço, glória, paciência, retidão,
conhecimento, discriminação, confiança no ser são o que
marca um brâmane.
Bravura, grandeza, firmeza, destreza e coragem no
combate, magnanimidade, autoridade são o que marca um
kshatriya.
Arar, cuidar dos rebanhos, fazer comércio são o que marca
os vaishya, enquanto a natureza dos shudra os leva a servir.
"

Isso me faz lembrar da vida miserável que levava como
intocável. Mundo nojento. Um exaltado de meia-idade
toma a palavra e começa a insultar o Paquistão e seu apoio
aos separatistas muçulmanos na Caxemira. Denuncia a
destruição de mais de 50 templos hindus na Caxemira e
prossegue falando da pseudolaicidade do governo do
Partido do Congresso, que aceitou a criação desse
Paquistão onde os hindus são maltratados. Em
compensação, na Índia, esse partido proíbe os hindus de
serem os patrões em seu país, de venerarem livremente seus
deuses, edificando um templo no local de nascimento de
Rama. Inimigos de Rama são inimigos da nação, repete.
Prossegue com a superioridade da raça ariana e a
necessidade de fundar uma teocracia hindu. Para resolver a
crise econômica e social, quer purificar o país e tornar a
mergulhá-lo em suas raízes. Deseja conformá-lo aos
princípios bramânicos, em lugar de destruir a tirania do
sistema de castas para construir uma sociedade moderna
fundamentada na ciência. A razão não tem razão em
Ayodhya e o público o aplaude e grita "Viva Rama!".
Chega! Basta! Este delírio puramente fascista - totalitário,
segregacionista, retrógrado e nacionalista - me dá arrepios.
O desejo de promover a pureza da raça e da cultura parece
a propaganda nazista. Escondo a cabeça no edredom e tento
dormir. Bem aquecido, pela primeira vez desde que sou
indiano.

Desperto duas vezes durante a noite; quatro sacerdotes,
sobre o estrado, prosseguem a leitura monótona dos textos
religiosos. São muitos os que dormem, mas, quando acordo
pela segunda vez, uma onda de voluntários que acaba de
desembarcar de um trem noturno invade nosso abrigo e se
estende na palha. São muitos. Nós nos apertamos, ficando
costas contra costas, pés de encontro à cabeça do outro,
como sardinhas em lata. Para piorar, um cara a meu lado
põe as pernas sobre as minhas e outro usa meus pés como
travesseiro. Posso reclamar? Acho que não. Só dispomos
de um metro quadrado para cada um, e conto 12 filas de 50
e 70 dorminhocos sobre a palha. É muita gente. Reparo em
um ancião que dorme murmurando "Viva Rama! Viva
Rama...".
Confesso que isso está além da minha compreensão; uma
imensa tristeza me invade. Se pelo menos o ardor desses
milhares - serão 200.000 em 6 de dezembro - de
voluntários vindos a Ayodhya para a construção de um
templo fosse mobilizado para construir as moradias ou as
estradas de que a Índia tanto precisa!

1º. de dezembro

Logo vai amanhecer. Impossível dormir com essa
balbúrdia. Eu me levanto, desço até a cidade e sigo de
jinriquixá na direção do rio Saryu. Refleti observando o
velho que repetia dormindo "Viva Rama!" Não vim à Índia
para investigar os integristas hindus. Nem para bancar um
brâmane. Vim para ser intocável e voltarei a sê-lo.

A bruma não envolve a manhã de hoje em Ayodhya.
Procuro um lugar isolado para me metamorfosear.
Caminho um quilômetro sobre os bancos de areia do Saryu.
Encontro um local perfeito. Um filete de água corre
próximo o bastante para que eu possa me lavar e o mato me
oculta dos raros camponeses que vêm mondar seus
pepinos. O rio depositou aluvião nessa terra depois da
cheia provocada pela monção e eles semearam campos
inteiros desse legume.
Tiro a roupa e ponho a camisa esburacada e o lungi
imundo. Depois me lavo e me barbeio. Rasgo o saco novo
e uso as tiras de pano para passar nitrato de prata no rosto,
braços e pés. Passo duas camadas, o que me toma toda a
manhã. É difícil fazer isso sem a ajuda de minha mulher,
principalmente tingir os dedos e as pálpebras; e em plena
luz do dia, para evitar as listras, tenho de pincelar mais
rápido cada zona da epiderme, pois a coloração
fotossensível começa a aparecer depois de cinco minutos.
Consigo me virar e o resultado me satisfaz. O espelho
reflete de novo a cara morena de Ram Munda. Enterro na
areia os restos de meu saco de brâmane, coloco minhas
coisas no antigo saco e sigo a pé para a estação.
Vou voltar para Benares.
Estou farto de Ayodhya e não pretendo sofrer aqui como
intocável até 6 de dezembro. Não sou masoquista e o
destino da mesquita Babri não é a meta de minha aventura.

Tenho sorte. O Doon Express atrasou e chego na estação
por volta das 13 horas, a tempo de pegá-lo. Ele atravessa o
Norte da Índia, penetra a planície do Ganges, do pé do
Himalaia ao golfo de Bengala, e liga Dehradun a Calcutá,
via Benares. Legiões de voluntários do templo de Rama
descem. "São 3.000", diz um policial na plataforma.
Ocupavam os degraus, as ferragens nos espaços entre os
vagões e até o telhado. Viajaram dessa maneira centenas de
quilômetros. Que loucura coletiva! Estou contente de
partir. Quando desembarcam, eu embarco.
Como tinha decidido, não comprei a passagem. Dentro do
trem, que mesmo sem os voluntários continua apinhado de
gente, me convenço de ter agido certo. Nenhum fiscal se
divertiria circulando no meio dessa confusão. Consigo,
apesar de tudo, me sentar em um banco, junto de mais
cinco pessoas.
Os passageiros falam de Ayodhya e dos voluntários.
E patati, patatá. Deve-se destruir a mesquita ou construir o
templo de Rama ao lado? O BJP fomenta o antagonismo
hindumuçulmano para ganhar as próximas eleições? Essa
discussão repetitiva sobre o integrismo hindu me aborrece,
mas um pai de família robusto e bem-vestido me desperta,
citando Kruschev. O líder comunista teria dito: "Os
políticos são os mesmos em todo lugar. Prometem construir
pontes onde não há rios." Interessante! Fora isso, nada a
assinalar. Exceto meu vizinho, que não para de abanar as
mãos quando eu fumo biri. Eu o incomodo. Mas este pai
confunde seu cu com uma trombeta. De 15 em 15 minutos,
ergue o traseiro na minha direção e emite uma nota. Seus
intestinos estão podres, palavra de honra, e quando um
vendedor ambulante passa pelo nosso vagão, vendendo
ervilha cozida, ele compra um punhado para reforçar a
munição. Mas sem cebola - legume impuro -, e percebo que
é um hindu religioso e com certeza membro de uma casta
alta. Não deve achar que o ar de suas tripas pode me poluir,
um aborígine miserável, e peida na minha direção. Sem se
constranger.
Chegamos em Benares depois do pôr do sol e saio logo da
estação.
Estou morrendo de fome e ando rápido para satisfazer um
desejo que tenho desde a noite passada. Convivendo em
Ayodhya com todos esses hindus extremistas e
vegetarianos, não sei bem porquê, mas senti uma vontade
doida de comer o presunto defumado que meus pais trazem
de Savoie todo inverno. Hoje à noite comerei carne. Vou
me sentir um bárbaro. Jantarei no bairro muçulmano da
Mandapur. Ali vendem-se nas ruas brochetes de cabra
grelhadas.
Sei que será bom. E isso me basta.
A cidade está calma, esplêndida. Não ouço mais os gritos
dos fanáticos de Rama e as luzes de centenas de lojas
iluminam meu caminho.

2 e 3 de dezembro

Dois dias sem interesse. O ramerrão da miséria e do tédio
se repete.
Milhões de metros cúbicos de água correram no Ganges
durante minha ausência, mas Benares não mudou nem um
pouquinho.
Para mim.
À noite, durmo no ghat Dashashvamedh; de dia, vagueio
pela orla do rio sagrado e como no templo de Vishvanath
do ghat Meer. Do lado de fora, com os outros sub-homens.
Eu me entedio. Nada. Nada para fazer, a não ser observar o
cortejo de voluntários a caminho de Ayodhya. Eles param
em Benares e vêm ver o rio sagrado, gritando "Viva
Rama!". Alguns fascistas, aliás, pintaram suas opiniões nas
pedras do ghat Dashashvamedh:

Inimigos de Rama,
Inimigos da nação.

Eu acrescento:

Inimigos dos babacas.

4 de dezembro

Não esconderei nada de minha aventura: gosto de olhar as
hindus se banharem no Ganges. Pudicas, se lavam
completamente vestidas, mas os sáris molhados colam na
pele e expõem os menores relevos de sua anatomia.
Tornam-se transparentes, e o bico marrom de seus seios
brota sob o tecido vaporoso, como uma musselina. Adoro
esse espetáculo. É mais excitante que um miserável
striptease, e esta manhã, comparando os espécimes
femininos no rio sagrado, percebo que minha metamorfose
é tão profunda que minha sexualidade e meus gostos mais
íntimos mudaram. Agora prefiro as mulheres de pele mais
alva. Isto é, mulheres que oferecem algo mais que ossos
para serem apalpados e que, sem dúvida, pertencem às
castas altas. Mulheres puras. Gosto da pele leitosa, do rosto
bochechudo, do traseiro gordinho e empinado, de braços da
grossura de minhas coxas e de um peito volumoso e firme,
apertado no minicolete tradicional, que deixa à mostra um
magnífico ventre rechonchudo. Acham esta descrição
pouco atraente? Para mim, pelo contrário, essas formas
roliças revelam uma vida confortável e me parecem
voluptuosas.

Quando cheguei em Benures, apreciei a beleza selvagem
das intocáveis altas, magras e morenas. Agora as acho
ressequidas, descoradas e tristes.
Sentei-me na orla do rio, acima do ghat Dashashvamedh, e
observo um grupo de anciãs se banhando. Parecem
camponesas, por causa de suas roupas limpas, mas gastas,
e, quando elas saem da água, trocam a roupa molhada em
público; vejo seus seios murchos e traseiros ossudos. Não é
excitante, mas acendo um biri e continuo a observá-las.
Duas mulheres na faixa dos 20 anos as acompanham.
Espero que saiam da água.
Pronto. Elas saem, se secam e me sinto no céu. Fiz bem em
ficar. Elas tiram o corpete sem se cobrirem. Observo com
prazer. Hummmmmm! É muito agradável, com o rio
esmeralda ao fundo e o sol que o torna sedutor. Com o
calor, seus seios perfeitamente roliços e firmes me fazem
pensar em grapefruit. Ainda mais refrescantes. Tocaria
neles com prazer.
Pensando bem, vi uma quantidade enorme de seios na
Índia. Os maiores foram os de Baby, na minha primeira
viagem, em 1990. Uma obra-prima. Baby era a proprietária
da casa em Trivandrum. Ela morava do lado e se lavava no
poço, diante de minha varanda. Deixava cair seu sári,
depois o corpete e, de saiote, jogava no corpo bacias de
água gelada. Ficava de costas para mim, mas às vezes eu
percebia suas tetas balançarem para a esquerda, para a
direita e até para as costas. Quando parada, batiam no
saiote. Eram enormes, gigantescas. As maiores que já vi, e
estou convencido de que, se ela tentasse, conseguiria tocar
o traseiro com elas. Gostaria de tê-la visto fazer isso, mas
nunca tive coragem de sugerir e ela nunca tentou. Pelo
menos na minha frente. Baby já estava na faixa dos 40, o
que significa, na Índia, onde as pessoas envelhecem cedo,
que estava na terceira idade. Ainda assim, seu peito era
uma escultura de Rodin e nunca a esquecerei.
Faço os cálculos e acho engraçado: metade da população
mundial gosta das gordas. A Índia, os países árabes, a
América Latina, a África
A outra metade - Europa, América do Norte, Extremo
Oriente - gosta das magras. Esta divisão, na verdade, não
classifica as nações como países desenvolvidos e países do
Terceiro Mundo. A China, por exemplo, com um quinto
dos pobres da humanidade, pertence ao grupo que gosta
das magras. Gostaria de encontrar um denominador comum
aos povos que gostam das gordas. De repente, uma
garotinha de três anos interrompe essas reflexões idiotas e
me introduz de novo no mundo repugnante das castas
hindus. Ela se aproxima de mim. É rica, veste uma bonita
saia rodada. Seu pai, sentado mais distante, a chama. Está
com raiva e me lança um olhar hostil. Compreendo que não
quer que ela se aproxime de mim, não para não me
incomodar, mas porque sou muito miserável. Eu poderia
poluí-la.
Cinco minutos depois, minha hipótese se confirma. A
garotinha corre para dois caras sentados na minha frente,
que usam calça e camisa e estão limpos como seu pai. Ele a
deixa brincar com esses desconhecidos.
Eu me imagino na França e digo a mim mesmo que se
tivesse uma filha de três anos não gostaria que ela tocasse
em mendigos. É verdade. Mas neste momento não estou
mendigando, não estou bêbado, não tenho pulgas e não
cheiro a urina.
Minha aparência é a de um indiano pobre, de casta baixa,
um sujeito comum neste cenário. O equivalente a um
operário na França.
Um intocável, um escravo na Índia.

5 de dezembro

É de manhã.
Desespero. Desespero. Desespero.
Mais um dia para resistir, mais um! Um! E amanhã outro. E
depois de amanhã mais outro. Viver. Durar.
Morrer.
Além do mais, sinto câimbras no ventre e senti muito frio, à
noite, no ghat. É como se toda a miséria do mundo pesasse
sobre mim.
Como por volta das 10 horas no templo de Baba Khichari,
depois vou ao famoso templo de Kala Bhairav, uma das
representações do deus Shiva, simbolizando o Tempo que
devora tudo, se não me engano. Ouvi dizer que aí há um
comércio de exorcistas.
A maior parte dos indianos acha que os acasos da vida são
devidos ao mau-olhado. O exorcismo é, portanto, em
Benares, uma terapia comum para doenças, problemas
profissionais, uma pane elétrica em sua casa etc. Mesmo os
ricos ou os intelectuais, como meus proprietários na
Ravindrapuri, ou Sanjay, meu professor de hindi, recorrem
ao exorcismo sempre que têm um problema.
Não creio em Deus, nem no diabo, nem em poder
sobrenatural. Mas estou exausto e penso que não há mal
nerhum em me deixar exorcizar se porventura me lançaram
esse tal de mau-olhado. Ao contrário dos indianos, não
consigo aceitar a vida miserável. Será que a causa dessa
minha depressão é algum mau-olhado? Se há a
possibilidade de o exorcismo me confortar, por que não
tentar?
Sem dúvida é bobagem, mas não mais que a má sorte
lançada naquele que passa por baixo de uma escada na
França. Eu não gosto de passar por baixo de escadas.
Os indianos também têm esse tipo de superstições. Por
exemplo, a primeira pessoa que atravessar o lugar em que
um asno tropeçou será vítima de mau-olhado e se sentirá
muito cansada durante muitos dias, até que o exorcismo a
liberte. Ao chegar na Índia, esta história me aborrecia. Hoje
continuo sem acreditar, mas sei que evitarei andar no lugar
em que um asno tropeçou. Por prudência. Estou na miséria
absoluta e não quero correr nenhum risco inútil, nem
perder a menor chance que seja de melhorar minha
situação.
Por isso vou me submeter ao exorcismo. Isso não me sai da
cabeça e acabo dchando que é uma boa ideia.

O templo de Kala Bhairav se situa do outro lado da cidade
velha, em uma viela atrás de Kotwali, o comissariado
central. É uma construção modesta, a céu aberto, cujo
interior é ladrilhado de preto e branco. Uma espécie de
pátio de uns 100 metros quadrados. Um santuário se eleva
no centro e arcadas pintadas na cor laranja se sustentam ao
longo do muro que o cerca. Sob essas galerias, alguns
homens idosos vendem ganda, cordõezinhos pretos que os
indianos carregam como amuleto. Pergunto um pouco
constrangido a um deles: "Sinto-me perturbado (palavra
comum em hindi, que significa angústia, mágoa, depressão,
cólera...) e tenho dor na barriga. Acho que me lançaram
mau-olhado. Pode me livrar dele?"
A rotina. Ele se levanta em silêncio, pega uma vassoura de
cordinhas pretas que parece um chicote e açoita o ar à
minha volta, recitando rapidamente fórmulas
incompreensíveis de exorcismo. Seu rosto não demonstra a
menor emoção. Realiza o ato mágico como um médico
ausculta seu décimo paciente do dia. Sua frieza me
intimida. Sou um brinquedo em suas mãos. Ele diz:
"Incline-se!" Depois, força minha espinha até que eu me
dobre em dois e recomeça a dizer as palavras mágicas.
Sinto, então, a vassoura bater em minhas costas para
expulsar o mau-olhado que aí se esconde.
Pronto, acabou. Não me fez bem nem mal e a extração do
demônio se revela mais agradável que a extração de um
dente. A comparação entre o exorcista e um médico
continua. Ele amarra um ganda em torno de meu pescoço e
prescreve uma receita:
- Agora tudo vai se ajeitar. Precisa apenas girar uma fruta
em torno de sua cabeça, cinco vezes. Uma banana, uma
maçã, não importa. Compre a que quiser e a gire em torno
da cabeça. Assim - imita o sentido dos ponteiros de um
relógio.
- Cinco vezes?
- Sim. Cinco. Depois a jogue fora. E estará curado.
- Mas sinto muita dor na barriga - digo cético.
- Mas já disse. Cinco vezes uma fruta em torno da cabeça e
estará curado. Não se preocupe! Seus problemas estão
resolvidos.
Não acredito, mas, se está dizendo a verdade, ele é genial.
Estou louco para ver o resultado. Pergunto quanto devo, e
ele responde que quanto eu achar que devo. Pago duas
rupias, acrescentando uma moeda de 25 centavos, para
completar uma cifra de bom augúrio e não deixar a conta
redonda. Ele fica contente.
Saio do templo e compro uma banana no primeiro
vendedor de frutas que encontro. Eu me instalo recuado da
rua e giro a banana em volta da cabeça. Cinco vezes. Não
dói nem é agradável. Só espero que não me vejam, pois
tenho vergonha.
Meu pudor é inútil, ninguém me observou. Como sempre.
Sou invisível. Sujo e miserável demais para interessar a
alguém. Jogo a banana fora e decido flanar pela cidade
velha, aguardando os resultados do exorcismo.

A cidade velha se agarra à colina que sobe do Ganges. É
um labirinto de vielas de dois metros de largura, onde não
cabem automóveis. É uma colméia separada do resto de
Benares, um ninho de abelhas que zunem do amanhecer
até a meia-noite. Homens, vacas, cachorros, macacos, ratos
aí vivem em liberdade e em comunidade. O sol não desce
nessa cloaca superpovoada, onde milhares de tendas
imundas, de tudo quanto é tipo, se alinham como um
rosário de hemorróidas ao pé de prédios de dois ou três
andares e fachadas corroídas pela umidade. Esse mundo
fervilha permanentemente e é preciso enxotar homens e
vacas, chutar cachorros e se afastar cautelosamente dos
macacos, para circular por ali e avançar entre odores de
excremento, de temperos, de leite, de fritura e a cacofonia
dos alto-falantes públicos que competem com as litanias
hindus e as canções de filmes hindi. É uma Cafarnaum na
orla do Ganges, no século 20. A reconstituição de uma
cidade da Antiguidade. Uma Disneylândia sem Mickey,
onde é preciso usar botas de cano longo e se abrigar sob
um bom guarda-chuva para caminhar à vontade. Pois é um
paraíso para quem gosta de patinar em bosta de vaca e
receber lixo na cabeça. As pessoas esvaziam as latas nas
janelas, sem avisar, e as centenas de vacas que fuçam as
vielas em busca dessas dádivas de Deus defecam e urinam
em todo lugar, tomando o chão escorregadio.
Essa viagem à Antiguidade não me interessa, só faz me
incomodar.
E bum! Duas vacas enormes disputam o saco de lixo que
uma mulher acaba de jogar de sua varanda. E bum! O
choque é violento. Eu me afasto. Em Benares é comum as
vacas brigarem, e sei que seus movimentos são perigosos.
Sorrio. O hindu considera a vaca sua mãe, ele a venera
como um ser divino. Os mais religiosos tocam em cada
uma com que cruzam, em sinal de reverência. "A vaca
representa a mãe do universo e é um ideal para todos
aqueles que são doces, puros, desinteressados e inocentes."
Esta frase do santo Swami Ramdas ficou gravada em minha
memória e me diverte quando vejo as duas vacas brigando.
Primo: os hindus deviam ter escolhido o coelho para
simbolizar a doçura e a fecundidade, se era isso que
queriam realmente. Secundo: alimentar as vacas com lixo é
uma dieta muito esquisita para se oferecer à mãe ou a um
deus. Esses bovinos errantes não são selvagens. Não
mesmo. Seus proprietários acham que a rua é um pasto.
Eles as soltam de propósito, para que se alimentem por si
mesmas dos restos da cidade secreta; à noite, elas voltam
para serem ordenhadas no estábulo. Esta é a concepção
hindu do amor pelos animais. Não matam a vaca, mas
batem nela, exploram e a alimentam com lixo. Sanjay, meu
professor de hindi, cujos pais possuem uma pequena
fazenda, me contou que deixavam búfalos bebês morrerem
de fome, pois mamam demais, e as búfalas continuam a ter
leite depois que os bebês morrem. Os criadores poderiam
suprimir os búfalos novos excedentes assim que nascessem,
evitando um sofrimento inútil. Impossível. Matar é um ato
bárbaro.
O respeito hindu pela vida é de uma sofisticação
extraordinária. Não matam os animais e não os comem.
Mas os subalimentam. Não pescam. Mas esvaziam as latas
de lixo nos rios.
Tiram a vida aos poucos, sem nunca matar direto. Tenho
vergonha de ser indiano.
Reflito sobre tudo isso e percebo que o exorcismo não
surtiu efeito sobre meu mau humor e que continuo com
câimbra na barriga. O que fazer?
O que fazer de minha vida?
Chego à Dashashvamedh, faço a sesta e no final da tarde
torno a andar ao longo do Ganges. Paro no ghat de
Harishchandra, uma das duas margens de Benares onde os
mortos são incinerados.
O ar cheira a carne queimada e a sândalo. Dois cadáveres
estão sendo queimados diante do rio sagrado, e cachorros
erram em volta, na esperança de furtar um pedaço de carne
humana assada. As famílias dos mortos - somente os
homens - sentam-se no ghat. Esperam a combustão do
defunto para jogar os resíduos no Ganges.
Podia contar esse espetáculo detalhadamente e causar
arrepios de terror em vocês. Mas não quero. Já estou
deprimido demais.
Eu me agacho ao lado de uma família e fumo biri. Não
quero ficar só. Uma cremação dura duas horas e fico
olhando o corpo que é devorado pelas chamas para desta
forma obter a fórmula mágica de Shiva, que o libertará do
ciclo de reencarnações.

Há seis semanas sou indiano. Seis semanas apenas. E, no
entanto, tenho a impressão de ter vivido anos, até mesmo
toda uma vida, como intocável. Toda, porque me sinto um
velho. Não espero mais nada e não admito mais lutar nem
sofrer. Estou pronto para morrer. Quero morrer, ser
libertado do fardo da existência de Ram Munda.
Duas turistas japonesas passam diante da fogueira. Param
para olhar, são graciosas e me lembram Gloire, minha
mulher chinesa. Seu corpo, seus beijos, seu amor sincero,
sua dedicação absoluta. Ela me espera e deve estar
preocupada. A imagem de Gloire desperta meu desejo de
viver. Eu a amo mais que tudo.
Não estará na hora de voltar a ser Marc Boulet? Morrer
como indiano para renascer europeu? Acho que me tornei
muito agressivo e parcial para continuar o estudo da
sociedade indiana.
Neste ponto de minha reflexão, o homem de camisa e calça
ao meu lado me pede fósforos. Depois enceta uma conversa
e eu aceito, isso me distrai. Tem uns 30 anos e usa um
bigode espesso, que lhe dá um ar bonachão. Veio ver seu
tio queimar. Conto minha história de sempre e ele me diz
que também é um filho de Deus. Nada de extraordinário.
Um em quatro indianos é intocável. Falamos da
reencarnação; acredita que a alma de seu tio está subindo
ao paraíso agora, diante de nós, porque a cremação
acontece em Benares. Pergunto, mesmo sabendo a resposta:
- É válida também para nós, filhos de Deus?
- Por que não? Somos filhos de Deus, mas somos homens.
São as outras castas que nos desprezam, que nos tratam
como cachorros e nos exploram. Deus não quis que nossa
posição fosse tão baixa.
- Acha?
- Claro... Mas é verdade que praticamos costumes sujos. E
precisamos abandoná-los para ocupar um lugar decente.
- Quais são? - pergunto, intrigado.
- Eu, por exemplo, deixei de comer carne, não bebo álcool
e rezo de manhã e à noite no templo.
- E então?
- Bem, assim, quando reencarnar, não virei como um filho
de Deus.
Eu me calo. Ele faz o jogo infame dos brâmanes. "Abaixe a
cabeça hoje e será rico e puro em outra vida!" Que
estupidez! Não entendo como se pode cair nesse tipo de
conversa. Além do mais, a rejeição de sua identidade de
intocável é a pior das colaborações com o inimigo
escravagista, e tenho certeza de que ele nem se dá conta.
Sua ingenuidade, sua beatice me desesperam. Eu faço uma
cara meio indefinida e penso: "Irmão, você tem tantas chan-
ces de reencarnar como brâmane quanto eu de me tornar rei
da França."
Termino o biri em silêncio, despeço-me dele e volto a
Dashashvamedh.

6 de dezembro
Hesito em deixar a pele de Ram Munda. Sei que se o fizer
nunca mais voltarei a ser indiano. Não terei forças. Meu
retorno será definitivo e quero estar certo de ter cumprido
minha missão antes de me decidir.
Passo o dia todo pensando nisso. Almoço no templo de
Baba Khichari, depois ando na orla do Ganges e faço a
sesta em uma margem tranqüila, acima de Dashashvamedh.
Exausto, durmo a sono solto, como se nunca tivesse
dormido antes. Quando acordo, no fim da tarde, a decisão
se impõe por si mesma.

Durante o sono, foi decretado o toque de recolher em
Benares, por tempo indeterminado. Nos ghat, curiosamente
vazios, os raros passantes só falam disso. Estão contentes,
pois os hindus acabam de destruir a mesquita Babri, em
Ayodhya. Um dia histórico, segundo eles, que mostra aos
muçulmanos quem manda na Índia. O toque de recolher foi
decretado para evitar as represálias dos muçulmanos.
Há exatamente uma semana visitei a mesquita Babri. Hoje
ela não passa de um monte de cascalhos. Além disso, dizem
que a polícia não defendeu o edifício e que os extremistas
hindus conseguiram demoli-lo em poucas horas.
Inacreditável. Uma atmosfera de guerra civil domina o país.
Vou para Godhaulia para saber mais. A cidade está deserta
e todas as lojas estão fechadas. Mesmo as tendas de
cigarros. Um bando de cães de cáqui monta guarda na via
pública e expulsa os civis que por ali se aventuram. Um
deles me ameaça com um cassetete, no começo da rua
Dashashvamedh, e corro para um recanto na orla do
Ganges. Percebo que minha aventura terminou.
Onde vou comer, se o toque de recolher durar um mês,
como disseram? Além do mais, se é proibido sair de casa,
como os vagabundos como eu vão viver? A situação me
parece perigosa. Tenho medo e sei que minha mulher deve
estar muito preocupada com minha segurança nesta cidade
em estado de guerra civil. Devo voltar para casa, pelo
menos por ela. Encerrar esta metamorfose que a atormenta
e lhe tira o sono há seis semanas.
Espero que a noite envolva Benares. Depois, ao luar,
percorro a margem escura do Ganges, para evitar as
patrulhas de policiais, e volto para a Ravindrapuri. Para
casa.

Acabou.
Estou em casa. Ao abrir a porta, Gloire me abraça e chora.
Que felicidade apertá-la em meus braços depois de tanta
provação! Digo-lhe que terminou tudo. Ela suspira aliviada
e me abraça de novo. Ela me olha como se eu fosse um
fantasma. Louca de inquietação, chegou a me escrever
durante minha ausência, imaginando que falava comigo.
Ela me mostra a carta e eu leio:

"Meu querido!
Onde está? Está me ouvindo? Volte, querido!
Só temos uma vida e você a arrisca por um livro. Não vale
a pena. Perco a cabeça de tanta preocupação e não durmo.
É um inferno viver sem sua companhia. Não quero mais
esse tipo de aventura.
Rico ou pobre, famoso ou desconhecido, só quero ficar
perto de você. Nossas ambições vão nos perder.
Não devemos mais cair na armadilha, pois nunca estaremos
satisfeitos. A febre do sucesso é assim: nunca temos o
bastante e, além disso, ela é cada vez mais intensa. Nosso
amor nos basta para sermos felizes.
Sem você não consigo dormir. Estou ficando maluca. Você
é minha única razão de viver. E se você desaparecer...
Tenho tanto medo. Eu sou sua!
Eu o amo! Eu o amo! Eu o amo!"

Essas linhas me confundem. Ela me ama tanto. Fico com os
olhos úmidos.
Não me arrependo de nada, mas esta noite recuso-me a
pensar em minha aventura no mundo desumano das castas.
Quero apagar o mais rápido possível todos os vestígios da
metamorfose em intocável. Representa muito sofrimento,
inspira náusea. Tiro a roupa e Gloire corta meu cabelo.
Depois me barbeio, tomo um banho e me esfrego com uma
luva de crina. Limpo a tintura, raspo todo o nitrato de prata
da pele. Isso me machuca, mas uma doce beatitude me
invade aos poucos. Tenho a impressão de estar lavando
todas as humilhações das seis últimas semanas.
Voltar a ser Marc Boulet. Renascer como um homem.

6 de janeiro de 1993

Passou um mês desde o fim de minha metamorfose, e nesta
manhã um Boeing 747, da Air France, me leva a Paris.

Durante a semana seguinte à demolição da mesquita de
Ayodhya, os conflitos hindu-muçulmanos foram os mais
violentos desde a divisão da Índia, em 1947. Foram mais de
1.000 mortos, dos quais 20 em Benares. Quanto a mim, de
novo branco e estrangeiro, fui tratado como tal. Na rua me
disseram umas mil vezes "Olá!", ficaram atrás de mim para
vender suas bugigangas, me chamaram de tudo que é nome,
me extorquiram, se mostraram de um servilismo exagerado.
Na realidade, nada de especial.
6 de janeiro de 1993, oito horas, retorno a casa.
Retorno ao apartamento de Strasbourg-Saint-Denis, com
que eu sonhava, deprimido, ao atravessar a passarela da
estação de Benares.
Amanhece e o frio me gela o sangue. Moramos no quarto
andar e subo os degraus de quatro em quatro. Mas... uma
surpresa. Vejo em meu patamar dois vagabundos que se
refugiaram sob uma coberta; estão aquecidos. Eles me
olham inquietos, os olhos suplicantes, e de repente o filme
de minha metamorfose desfila na minha cabeça. Revejo os
sofrimentos e as humilhações que suportei. Peço a eles
licença para passar com as malas, não os enxoto, nem
resmungo, e entro em casa.
É a primeira vez que vagabundos acampam à minha porta.
Estranho, há um ano, antes desta aventura, acho que os
teria mandado embora.
Percebo que Ram Munda ainda está vivo em mim.

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