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sábado, 30 de julho de 2011

O Mundo Secreto do Opus Dei

Me interessou a leitura deste livro, face a presença do Opus Dei no
livro O código Davince.
Para esclarecer um pouco mais sobre este assunto, vamos a leitura , para
assim podermos adquirir mais conhecimento, e então podermos falar mais
sobre estas questões.

Será o Opus Dei uma instituição espiritual dedicada à preservação da ortodoxia católica face ao avanço da influência modernista? Ou será antes uma sociedade independente,
uma "igreja dentro da Igreja", que promove as suas próprias fidelidades e preserva um conjunto antiquado de práticas espirituais e penitentes? Esta pequena organização
detém um poder enorme na Igreja Católica. Graças ao seu estatuto de "prelatura pessoal" do Papa, age independente da autoridade local da Igreja. A influência do
Opus Dei continuou a crescer desde que este livro foi publicado pela primeira vez. - O fundador do Opus Dei, S. Josemâría Escrivã, foi beatificado e canonizado apesar
das fortes objecções de muitos membros da Igreja Católica. - poderosos membros da hierarquia do Vaticano, incluindo o porta-voz do Papa, são membros desta organização.
Esta investigação clássica é agora mais necessária do que nunca. Relata a verdadeira história desta organização misteriosa - uma análise profunda mas equilibrada
da organização, do seu fundador carismático, das suas práticas e dos seus efeitos na Igreja Católica.


AGRADECIMENTOS


Concebi esse livro em Londres no outono de 1983. Sua elaboração foi muito longa. A desculpa desta minha demora é a necessidade de viajar à América Latina
antes de pôr em marcha o ordenador, e tal viagem não foi possível até finais do verão de 1986. Agradeço, particularmente, a todos os que me ajudaram em meu caminho,
especialmente ao Dennis Hackett, que me sugeriu idéias sobre o bilhete de avião a Lima, e a todos os que tão generosamente brindaram-me sua hospitalidade enquanto
estive ali: à Congregação do Santiago Apóstolo no Peru, e em especial ao John Sucedi, que me hospedou em sua bela paróquia da Huancarama, e que logo se converteu
no superior da Congregação no Peru; nos Países colombianos do Chile e aos jesuítas da Colômbia. Eu gostaria de expressar meu especial agradecimento ao Peter Hughes,
de Lima; ao Tim Curtis, S. J., à maturação em Bogotá, e sobre tudo ao Liam Houlihan, do País de Mill Hill de Santiago, em cuja paróquia de barracos cheguei a ter
uma pequena noção do que era viver sob o brutal regime do geral Pinochet.
O livro nunca seria escrito sem a especial ajuda de quatro antigos membros do Opus Dei: o padre Vladimir Felzman, o doutor John Roche, Maria do Carmen Taipa
e o professor Raimundo Pániker, com quem me entrevistei em Londres, Oxford, Nova Iorque e Oxford, por esta ordem. Em Pittsburgh conheci a Susan Rinni, que me alojou
em sua casa. A senhora Rox Fisham e seu marido, Harry, já morto, desgraçadamente, tiveram a amabilidade de me permitir utilizar sua maravilhosa casa no Fairfeld,
Connecticut, como base durante uma de minhas incursões pelos Estados Unidos.
Devo um agradecimento especial ao Arthur Jones, do 'National Catholic Reporter', em Washington; ao Pedro Lamet, de Madrid, não faz muito em 'Vida Nova', como
explico no livro, e ao John Hill, no Sidney, Austrália. Na Inglaterra houve muitos que tiveram a amabilidade de me proporcionar informação: John Wilkins, do The
Tablet'; Nick Stuart-Jones, da 'Thames Television'; Robert Nowell, de várias publicações; Eduardo Crawley, do Latin American Newsletter'; Clifford Longley, do The
Time', e Peter Hebblethwaite, de quem poderia dizer-se que foi quem começou tudo, faz quase vinte anos, quando me pediu que escrevesse um artigo. Além disso, o livro
lhe deve muito à diligência de Meryl Davies, anteriormente na 'BBC', quem muito amavelmente pôs em minhas mãos um material fascinante que não pode utilizar em seu
programa. A senhorita Elizabeth Lowe ajudou-me como informante sobre a Obra.
Muitos ofereceram-me informação quando souberam a empreitada em que me tinha embarcado; alguns se nomeiam no texto; outros, como o arcebispo que cito, ou
a diretora de uma escola privada, têm que permanecer anônimos. O Opus Dei parece ter afetado as vistas de um extraordinário número de católicos, para bem ou para
mal, normalmente para este último. Estou agradecido a todos os que me falaram de suas experiências e espero que este livro contribua em boa medida a situar corretamente
a história.

I: EM BUSCA DO OPUS


Há só 200 quilômetros desde Cuzco, a segunda cidade do Peru, antiga capital dos incas, à cidade do Abancay, mas a estrada era tão ruim que minha viagem em
um 'Toyota' durou ao todo não menos de dez horas. Abancay é uma cidade fronteiriço, no mais recôndito dos Andes. Os soldados vigiam as entradas. Seus habitantes
preferem conduzir automóveis tipo jipe ou comprar caminhonetes, se é que podem permitir-se ter algum veículo. Somente algumas ruas estão pavimentadas; a maior parte
são pouco mais que atalhos de terra.
O edifício que procurava estava justamente ao outro lado destas ruas. A parede que o rodeava estava dividida por uma imponente entrada. Do outro lado da parede
divisei uma piscina e elegantes maciços de flores. Emanavam duas fontes; uma delas caía sobre um lago com peixes de cores. Visitei uma das duas capelas que havia
no jardim. Atrás do altar, situado em uma trabalhada estrutura de ouro, havia um quadro da Sagrada Família: Maria e José ensinando o Menino Jesus andar. A pintura
era de uso cuzqueno, derivado da arte que os conquistadores espanhóis levaram ao Peru no século XVI. O contraste entre o mundo no qual penetrara ao cruzar o arco
da entrada e o mundo exterior com o passar do atalho de terra, dificilmente seria maior. Isto parecia a fazenda de um rico proprietário. De fato, era o seminário
o lugar onde se formavam os aspirantes a sacerdotes.
Visitava-o sugestão de Ken Duncan, um conselheiro para a ajuda e o desenvolvimento, que tinha ouvido sobre meu interesse na organização do Opus Dei. Duncan,
que não era católico, ficou desconcertado pelas atividades do Opus no Peru e queria contar suas experiências a alguém que pudesse chamar a atenção sobre o que ele
considerava um comportamento inaceitável por parte do clero do Opus. Tinha-lhe aborrecido em particular um orfanato peruano, ao qual tinha sido convidado. Surpreendeu-se
enormemente; os índios quéchuas, com suas famílias numerosas, raramente necessitavam os serviços de um orfanato. Ainda lhe surpreendeu mais quando descobriu que
alguns dos meninos da instituição nem sequer eram órfãos. As autoridades eclesiásticas lhe disseram simplesmente que seus pais e mães não foram considerados adequados
e tiraram-lhes os filhos . 'O que acontece quando estes crescem?' Perguntou Duncan, advertindo que poucos dos órfãos tinham mais de cinco ou seis anos. 'Temos amigos
na América do Norte ou na Alemanha que os recolhem', disseram-lhe. 'A gente não paga nada -lhe disseram-. Mas entregam um donativo." Aquilo se parecia mais com a
venda de crianças.
Quando viajei ao Peru em busca do Opus, consegui chegar até o Abancay, apesar de seu isolamento, e visitar o seminário, cujo luxo também achara-o escandaloso
Duncan, ao compará-lo com a pobreza da gente de fora de seus muros. Este seminário para as diocese de Cuzco e de Abancay era dirigido por um punhado de clérigos
espanhóis do Opus Dei vestidos com batinas bem confeccionadas. Era exatamente como Duncan o havia descrito. Como ele, fiquei surpreso pelo contraste entre a pobreza
e a miséria de fora e a comodidade interior, e pela incongruência de encontrar uma instituição assim em um vale dos Andes. Sem dúvida, esta era uma empresa do Opus
Dei, mas não pude investigar suas vinculações com os órfãos do Peru. Esta organização tem muitos graus de compromisso. Não podem ser consideradas tecnicamente empresas
do Opus todas as que contam com membros da Obra, ou que sejam dirigidas por esta em certa medida. O vínculo entre os órfãos e o Opus ficava bastante em evidência
pelo que Duncan me havia tal; entretanto, não pude comprová-lo pessoalmente.
Ken Duncan tinha trabalhado freqüentemente com organizações católicas. Tinha grandes elogios para a maioria delas; entretanto, estava preocupado pela crescente
influencia do Opus no Peru. Ainda se alarmou mais quando lhe expliquei a envergadura e a complexidade do Opus no mundo, ao menos três vezes maior que a Companhia
do Jesus (os jesuítas), que até a data foi considerada a Ordem religiosa mais influente da Igreja católica.
Meu interesse pelo Opus despertou em princípio por uma apologia do mesmo que apareceu no fim de maio de 1971 no suplemento em cor do 'Sunday Time'. O periódico,
pelo visto, tinha publicado um artigo desfavorável sobre a Obra, e esta solicitou, e obteve, o direito a réplica. Atraiu minha atenção o artigo de Peter Hebblethwaite,
pois era eu naquela época membro da Companhia de Jesus e diretor do The Month, uma revista jesuíta publicada na residência que a Companhia tem no Mayfair, em Londres.
Uma vez ou outra escrevia para ' Hebblethwaite' e ele sugeriu-me que investigasse sobre a Obra.
Sabia pouco, em efeito, do Opus Dei antes de começar a investigar para meu artigo. Seu nome era pouco revelador. Opus Dei, a Obra de Deus, teve até a data
duas palavras utilizadas usualmente dentro da Igreja católica para descrever as orações que os monges cantam no coro pela manhã e de noite. Os membros do Opus chamavam
a sua instituição 'a Obra', o que soava a título provisório. Sugeriu-se que seu fundador, Escrivá do Balaguer, pensou em um tempo em chamá-la Sociedade de Cooperação
Intelectual, ou SOCOIN, embora nada em concreto saiu desta idéia.
Em seus primeiros anos na Espanha, nos anos trinta, parece ter sido pouco mais que um grupo de homens e mulheres católicos seculares que continuavam
em seus trabalhos, mas que viviam com freqüência em pequenas comunidades e estavam unidos por solenes promessas, embora não pelos votos formais dos
membros das ordens religiosas. O vínculo principal de sua comunidade cristã era a forma de guia espiritual proporcionada por seu fundador, José Maria
Escrivá. Esta espiritualidade foi constrangida em cápsulas de um modo insuperável em um pequeno livro de 999 máximas chamado 'Caminho'. Todo parecia
totalmente inofensivo.
Logo soube, entretanto, que seu pretendido papel político na Espanha de Franco, sua reserva, seu aparente êxito, seus métodos de atuação, tudo, despertou
um grande interesse e uma considerável hostilidade, tanto dentro da Igreja católica como fora dela. 'The Economist' referia-se a ela, freqüentemente, nos anos sessenta
e setenta, e insistia em chamar a seus membros 'opus deístas', como se constituíssem um partido político, pelo qual se sentiram profundamente ofendidos. Inclusive
'The Time Literary Supplement', uma revista séria, raramente dada a polemizar sobre assuntos eclesiásticos, incluía um artigo adverso em uma de suas páginas centrais
em abril de 1971 sob o título 'The Power of the party: Opus Dei in Spain' ('O poder do partido: Opus Dei na Espanha').
Atraiu meu interesse, em parte, porque eu era um entusiasta "hispanófilo" e Espanha era o país onde havia a maior concentração de membros do Opus e onde melhor
era sua influência, e em parte, também, porque eu era naquele tempo jesuíta e o Opus era com freqüência comparado, e se comparava a si mesmo, com a Companhia do
Jesus. Desde que Ignácio de Loyola fundou a Companhia em meados do século XVI, nenhuma organização religiosa dentro da Igreja católica tinha levantado tal controvérsia,
nem chegou tão rapidamente (assim o parecia) a ter tanta influência na Igreja e no Estado. O Opus tinha copiado a Companhia, naquele momento parecia saber, do trabalho
que esta tentava fazer dentro da Igreja, em particular na educação da elite católica. Desta vez, no entanto, não era a elite por nascimento, mas sim, possivelmente
de acordo com o espírito do século XX, era selecionada principalmente pela riqueza conseguida através dos negócios.
Quando publiquei meu primeiro artigo sobre o Opus Dei no The Month', em agosto de 1971, eu o intitulei 'Being Fair to Opus Dei' ('Imparcial com o Opus Dei').
Acreditei que era imparcial porque, em sua maior parte, evitava o que seus caluniadores haviam tal da Obra e limitava às próprias publicações do Opus, em particular
à Constituição de 1950 e às 999 máximas do Escrivá de Balaguer, contidas em 'Caminho'.
O Opus, possivelmente, de modo não surpreendente, não o considerou imparcial. Uns meses depois de aparecer o artigo, concordei com uma entrevista com o porta-voz
do Opus em Madrid. O encontro devia ter lugar no apartamento particular de uns amigos. O porta-voz do Opus chegou depois do almoço. Não quis tomar café. Não quis
sentar-se. Simplesmente brigou pela injustiça que eu tinha cometido contra o Opus. E partiu enfurecido.
A reação na Inglaterra foi bastante mais suave. Várias pessoas que eu não conhecia solicitaram ver-me. Consegui evitar o encontro. Mais tarde, um amável antiquário
de Norfolk conseguiu chegar a meu escritório porque era íntimo amigo de meu amigo. O também repreendeu-me, mas com mais pena que ira. Disse-me que eu não tinha captado
absolutamente o espírito do Opus Dei. Eu não me opunha a que me corrigisse nos pontos em que me tivesse equivocado. Mencionou um assunto puramente técnico que não
era de grande importância. Perguntei-lhe se eu tinha entendido bem sua espiritualidade. Disse-me que não, e lhe pedi alguns exemplos. Perdeu-se e suspeitei que a
conversação não partia segundo as instruções por ele recebidas. Tentei lhe ajudar. Fiz-lhe observar que eu tinha trabalhado a partir de documentos e que era consciente
de que podiam ser falsos; a gente só tinha que pensar em um programa de exame que, de forma abstrata, sempre intimida um pouco, mas que logo, na hora da verdade,
tem uns limites mais razoáveis. Disse-lhe que o programa espiritual do Opus Dei parecia assustar, mas imaginava que vivê-lo seria bastante mais fácil do que parecia
em princípio. Esteve de acordo com a analogia, mas quando lhe pedi que me explicasse com exemplos onde divergiam o programa e a prática, de novo não soube o que
responder. Tentei ajudar-lhe a sair de seu embaraçoso silêncio: 'Por exemplo - disse-lhe-, a Constituição estabelece que todos devem orvalhar suas camas com água
benta antes de deitar-se pelas noites. Asseguro que não o fazem, verdade?' De novo o embaraço. 'Sim, fazemo-lo -respondeu-. depois de tudo, a castidade é uma virtude
muito difícil.'
Mais de uma década depois, um antigo membro da Obra, o doutor John Roche, do Linacre College de Oxford, disse-me que 'Being Fair to Opus Dei' foi o primeiro
que leu, depois de entrar no Opus, sem ter pedido previamente permissão. Surpreendeu-se por ser o mais próximo ao espírito do Opus sem ser eu membro do mesmo.
Em princípios dos anos setenta parece que havia pouco material em inglês sobre a Obra e seus objetivos, daí que meu artigo chegasse ao "Arquivo de Publicações".
Quando aparecia uma história sobre o Opus, chamavam-me os periódicos, os produtores de Televisão e os repórteres radiofônicos, e assim estariam a par dos acontecimentos
relativos à instituição. Quando anos depois comecei a investigar para este livro, logo descobri que alguns prestigiosos católicos consideravam que o Opus Dei era
um dos maiores problemas da Igreja católica na atualidade. José Comblin, um sacerdote belga muito conhecido, que passou a maior parte de sua vida ativa na América
Latina, escreveu-me do Brasil para me dizer exatamente isso. Nos claustros da capela de São Jorge, no castelo do Windsor, em uma úmida noite de abril de 1986, o
teólogo suíço Hans Küng falou extensamente comigo e deu-me uma enxurrada de nomes de pessoas com quem estabelecer contato.
Mais recentemente, um amigo australiano contava-me os acontecimentos extraordinários que rodearam a publicação de dois artigos sobre o Opus no jornal 'The
Australian'. Explicou-me casos de códigos de ordenador quebrados e que o Opus ameaçava abrir ação judicial antes mesmo que os artigos (supostamente secretos) tivessem
aparecido. Ainda mais lamentável foi que em novembro de 1987 Pedro Miguel Lamet foi suspenso de seu posto de diretor do seminário religioso espanhol 'Vida Nova'.
Sob a direção de Pedro, um velho amigo de meus dias de jesuíta, este seminário converteu-se não só no melhor de sua classe na Europa, mas sim do mundo. Pedro mencionava
tanto a hostilidade a 'Vida Nova' do núncio em Madrid, como culpava ao antagonismo e ao poder do Opus de sua destituição pela empresa proprietária da publicação.
A sorte de Lamet indica o poder que o Opus exerce nas mais altas hierarquias eclesiásticas. O número de bispos pertencentes ao Opus aumenta, embora a percentagem
sobre a cifra total, muitos mais de 2.000 em todo mundo, seja realmente pequena. Há, possivelmente, menos de uma dúzia. Mais importante é a influência que têm na
cúria, a administração do Papa em Roma. Os 'vaticanólogos', esse pequeno grupo de jornalistas que entendem as complicadas interioridades da cúria, observam com atenção
a ascensão e a queda -normalmente a ascensão- dos burocratas eclesiásticos que, com seus pontos de vista tradicionalmente conservadores, são favoráveis ao Opus.
Eles advertem também a influência mais direta da Obra através do serviço de seus membros como consultores das Congregações (porta-voz dos conselheiros dos órgãos
administrativos do Vaticano), como o das Causas dos Santos (estão desejosos de que seu fundador seja declarado santo), ou a Congregação Constitucional. O Papa João
Paulo II parece também simpatizar com o Opus, e em 1982 concedeu à Obra um novo estatuto legal que a faz única na Igreja e, a todos os efeitos práticos, uma entidade
autônoma.
Quando dizia aos amigos católicos que me ocupava neste estudo, jocosamente me aconselhavam aumentar meu seguro de vida. Mas, brincadeiras a parte, assombrou-me
a extensão e o alcance do Opus. Doze anos depois que apareceu 'Being Fair to Opus Dei', um amigo dos Estados Unidos combinou-me uma entrevista com seu tio, membro
do Opus. O encontro realizou-se somente depois de seu tio obter permissão de um tal padre Kennedy, um sacerdote do Opus. 'Conhecemo-lhe - disse Kennedy-, é hostil,
mas é melhor que o veja.' Depois, em Washington, fui ver Russell Shaw, então porta-voz da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos Estados Unidos e membro do
Opus. Também tinha solicitado previamente permissão ao padre Kennedy. Quando por fim o conheci, não parecia que um comportamento assim em homens maduros fosse estranho
de modo algum. Chocava-me o fato de uma organização que afirma incumbência apenas nas coisas do espírito misturar vidas particulares de seus membros a ponto de ter
que pedir permissão antes de ver-me. Acho um tanto perverso.
Todavia, tudo isto é parte do segredo -o Opus prefere chamá-lo discrição- que rodeia à Obra. Seus membros não usam roupa especial nem distintivo algum. Inclusive
durante as celebrações eclesiásticas ordenam-lhes não se apresentarem como grupo. Um membro admitirá pertencer ao Opus, mas não dirá quem mais pertence. Tampouco
seu número deve ser revelado embora um documento preparado antes da última mudança de estatutos do Opus (1982), confessava que eram então 70.000 em todo mundo, e
quase dois por cento deles são sacerdotes. Acredita-se que no Reino Unido há 300 ou 400 membros, e 2.500 nos Estados Unidos, no que Russell Shaw descreve como uma
'existência coletiva' em uma dúzia de cidades. Não todos são membros de pleno direito. Aproximadamente trinta por cento está formado por membros 'numerários', outros
vinte por cento por 'oblatos', com obrigações similares aos numerários, porém, vivendo fora das residências do Opus. A outra metade, formada pelos 'super-numerários',
tem uma conexão bastante mais tênue, embora seja regida pela Constituição do Opus.
A obrigação de segredo estende-se em particular à Constituição; em circunstâncias normais, nem sequer os membros estavam autorizados a vê-la. Maria do Carmen
Taipa, que esteve durante dez anos encarregada da seção de mulheres na Venezuela, não dispunha nem de um exemplar. Quando em mais de uma ocasião precisou consultá-la,
deixava-lhe sob a estrita condição de que devia devolvê-la rapidamente. Em Washington tive a oportunidade de perguntar ao Russell Shaw se tinha visto a Constituição.
Disse-me que não. Perguntei-lhe se tinha costume de ingressar em organizações sem ler antes seus estatutos. Pra ele isto não fazia diferença. Mais tarde acrescentou
que se aborrecia ao ler tais documentos.
A Constituição, pois, não estava na prateleira da biblioteca de cada centro do Opus. Nem sequer era, como o são, por exemplo, as constituições dos jesuítas,
tema de estudo para os membros da Obra, como poderia esperar. Entretanto, a nova Constituição de 1982 estava disponível para todo bispo diocesano dentro do território
onde funcionasse o Opus Dei. É mais, em alguns lugares ao menos, o diretor local do Opus convertia em algo especial a entrega do documento ao bispo.
Sabendo isto, perguntei a alguns bispos se estavam dispostos a deixarem-me ver o texto. O primeiro que encontrei disse entregar a Constituição ao bispo pessoalmente
e só a ele. Os bispos auxiliares que estivessem encarregados de uma área da diocese em que o Opus tivesse estabelecido centro, tampouco recebiam algum exemplar.
Depois descobri que a Constituição que tinha mais probabilidades de ver tinha desaparecido. Não é, confesso-o, um livro muito volumoso.
Embora soubesse que foi publicada em um periódico espanhol em meados de 1986, comecei a perder as esperanças de pôr facilmente as mãos sobre um exemplar,
quando me encontrei em circunstâncias misteriosas. Trabalho em uma faculdade da Universidade de Londres e numa manhã, ao entrar em meu escritório, encontrei em uma
prateleira setenta e sete fotocópias correspondentes ao dobro do número de páginas originais. Não havia nenhuma nota nem nenhum papel com saudações. De modo que
agora agradeço meu desconhecido benfeitor.
Depois de estudar suas duas Constituições, havia muito mais coisas que me inquietavam do Opus Dei; serão o tema do resto deste livro. Todavia, parte de minha
própria animosidade para com o Opus surgiu, possivelmente, com um sentimento de decepção.
Pelo menos desde finais do século nem sempre houve uma forma de 'vida religiosa' na Igreja católica. Quer dizer, homens e mulheres que escolheram (em geral),
voluntariamente, viver sua vida de forma a levar o texto do Evangelho ao pé da letra, mais do que o habitual. Em princípio tinham vidas solitárias como ermitões
no deserto. Depois uniram-se para formar grupos, ou comunidades, sob a supervisão de um abade ou abadessa. Originariamente, tais comunidades habitavam lugares despovoados
e permaneciam grupos em fazendas; porém, gradualmente, as casas religiosas mudaram-se do campo às cidades e os monges misturavam-se, até certo ponto, com os profanos,
mas permanecendo em sua maior parte confinados em um lugar. Logo vieram os frades que, como os monges, faziam juntos a oração e encontravam-se para a missa convencional,
porém, misturavam-se às pessoas muito mais livremente e foram de um lugar a outro. Depois vieram os 'regulares', como os jesuítas. Não oravam juntos nem, em geral,
ouviam missa juntos. E, diferentemente dos monges, monjas e frades, não usavam hábitos especiais mais que o clero, portanto, podiam-se misturar entre as pessoas
muito mais facilmente. Eram sacerdotes unidos pelos votos de pobreza, castidade e obediência a seu superior, por isso, este sentimento mais restrito do Evangelho
conserva-se tradicionalmente.
O Opus, a primeira vista, parecia ser diferente. A vida religiosa, tendo o significado que tiver, limitou-se até agora aos que estão dispostos a fazer os
votos: gente solteira que opta pelo celibato para o resto de sua vida. Embora os aspectos deste conceito, como dissemos, ampliaram-se desde passar a vida como ermitões
no deserto até viver em casas particulares na cidade e unir-se estreitamente com pessoas comuns, os membros de tais grupos religiosos estão muito longe de ser gente
comum. Que o Opus proporcionasse uma forma de vida religiosa em um sentido amplo para uma diversidade muito maior de pessoas, tanto casadas como solteiras, entendi
ser uma característica especial, ou o carisma do Opus. Em outras palavras, tomei como uma extensão natural do desenvolvimento da vida religiosa dentro da Igreja.
Logo desiludi-me. A diferença de muitas das grandes ordens religiosas na Igreja católica, foi, paulatinamente, dominada pelos padres, e mostrou-se estreita, de idéias
ultra conservadoras
Vladimir Felzmann, um inglês de origem tcheca, uniu-se ao Opus em 1959 e foi ordenado sacerdote dez anos depois. Deixou a Obra em princípio de 1982 e agora
está como sacerdote na diocese do Westminster, que abrange Londres ao norte do Támesis. Como muita gente que deixa movimentos religiosos autoritários; seitas como
a Igreja da Unificação (a seita Moon); Conhecimento Krishna; ou a Missão da Divina Luz, Felzmann guarda um profundo afeto pelo fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá
do Balaguer, a quem conheceu bem e com quem trabalhou na sede romana do Opus, embora recuse a organização que fundou:
"O fundador tinha notáveis qualidades de liderança. Inspirava. Como todo grande líder, era duro e era brando. Tinha uma força densa do que os psicólogos
chamariam o masculino e o feminino, o animus e anima. Era maravilhosamente humano. Atraía por sua força e seu sentido da direção -sua fé- tanto como por sua vulnerabilidade
e calor. Podia ser duro como o gelo e terno como qualquer mãe. Impetuoso, emocional, apaixonado, compensava estas qualidades naturais com a força abstrata dos ideais,
a disciplina, a força de vontade, a ordem, o dogma e a realização. Era bastante sábio para escolher homens com estas últimas qualidades para serem seus colaboradores
mais próximos em Roma. Conforme envelhecia, a influência destes crescia. Quando morreu, tentaram conservar o que acabava de deixar de respirar. O 'espírito' do fundador
se fossilizou, esfriou-se".
Para os membros do Opus, Escrivá era um profeta com uma inspiração divina direta, que continuou até sua morte ou, como o Opus Dei preferiria chamá-la, "a
passagem de nosso padre aos céus" em 1975... Como é um santo, ensina aos membros, seu caminho é natural e seus seguidores estão seguros do céu até o ponto em que
se identificam com ele".
A canonização é normalmente um longo processo, quando finalmente, um homem ou uma mulher são oficialmente reconhecidos pela Igreja católica como Santos. Thomas
More, Lorde Chanceler da Inglaterra, que morreu por sua fé no reinado do Henrique VIII, esperou quatro séculos antes de sua santidade ser formalmente reconhecida
pela Igreja. Os que estejam promovendo a 'causa' do futuro santo têm que ser capazes de demonstrar que já está determinado, a ele ou a ela, que já é considerado
santo, que já lhe peçam a cura de enfermidades, ou ajuda nas dificuldades e que se produziram milagres pela intercessão potencial do santo.
Para os que destacaram na Igreja por seus ensinamentos e escritos, a inspeção minuciosa levada ao final, primeiro em nível local e depois pelas autoridades
da Igreja em Roma (Congregação para a Causa dos Santos no departamento pertinente), é ainda mais rigorosa. Todos os livros e papéis são inspecionados e as informações
estudadas. Ao menor indício de que seu pensamento não se ajuste totalmente aos ensinos da Igreja católica, o candidato à canonização é excluído. Embora, houve casos
nos quais a santidade de um indivíduo foi tão manifesta que o sistema foi abreviado, o processo é normalmente muito longo. O Opus não tem a intenção de permitir
que isto ocorra com a causa de seu fundador, e a gente pode compreender sua preocupação.
O Opus não é simplesmente um corpo religioso novo, é uma nova forma de instituição dentro da Igreja, como demonstra amplamente a longa busca de um estatuto
jurídico apropriado. Para ser reconhecido como uma instituição legítima, com a total aprovação da Santa Sede e da Igreja em geral, não somente necessita aprovação
formal de sua posição legal dentro da Igreja; também requer o reconhecimento de que o fundador era um santo, a nível dos grandes Santos como Francisco, Domingo ou
Ignácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus.
Tudo isto é, sem dúvida, muito louvável, todavia, surgem complicações quando se tenta apresentar um relato honesto da vida de Escrivá. O Opus controla a informação
sobre ele. Os livros que autorizam são, naturalmente, hagiógrafos. Os dois mais importantes são o de Salvador Bernal, "Monsignor José Maria Escrivá de Balaguer,
Profile of the founder of Opus Dei" (Monsenhor José Maria Escrivá do Balaguer. Perfil do fundador do Opus Dei) publicado em Londres e em Nova Iorque pela Scepter
de 1977 (justamente um ano depois de ter aparecido em espanhol) e, mais recentemente, uma biografia por um espanhol, antigo agregado de Informação em Londres, Andrés
Vázquez de Prada, 'O fundador do Opus Dei'. Publicada em Madrid pela Edições Rialp em 1983. Propagam-na do editor a descrever como a 'primeira biografia extensa
que aparece em espanhol'. Tanto Rialp como Scepter são, é óbvio, editoriais do Opus Dei. Ambos os autores são membros do Opus, entretanto, em nenhuma das biografias
que aparecem nos livros se mencione este pertinente detalhe. Embora exista ao menos um pequeno -e satírico- estudo, parece não haver obras com propósito de valorização
imparcial de Escrivá do Balaguer. Não é difícil descobrir por que.
O Opus está decidido, na medida do possível, a apresentar cada retrato de seu fundador como o candidato perfeito à honra da santidade oficial. Tem que ser
visto como uma pessoa que foi especialmente escolhida por Deus para a suprema missão de fundar o Opus. Deve ser considerado não só como heroicamente santo, sobressalente
em todas as virtudes, mas também como sábio e erudito.
Tomemos um exemplo do livro de Vázquez da Prada: no princípio, recorda uma conversação com o Escrivá do Balaguer durante uma das visitas deste a Londres.
Vázquez da Prada ia escrever uma biografia do estadista inglês e agora santo, Thomas Morus. Pediu conselho ao Escrivá. 'Terá que se colocar dentro do personagem',
ou mais exatamente, embora em versão um pouco mais livre, 'terá que te colocar em sua pele'. Agora bem, este excelente conselho, dificilmente considera-se original.
Eu critico, entretanto, não a banalidade do conselho, todavia, o que Vázquez faz com ele. Converte-o na frase de abertura de seu texto a qual considera como se fora
uma relação notável.
Vázquez continua depois com seu capítulo introdutório, de que está claramente orgulhoso. Vladimir Felzmann recorda que o leu a um grupo de aspirantes a membros
do Opus em Londres. O capítulo é uma meditação sobre o dia que nasceu o Opus Dei, em 2 de outubro de 1928, o dia, revela-nos, em que Ludovico von Pastor, o grande
historiador moderno do papado, morreu em Paris; o dia em que fazia 81 anos Von Hindenburg, Presidente da Alemanha, e o dia em que se declarou a lei marcial na Albania.
É um pouco difícil explicar esta extraordinária proeza, tanto como Vázquez a estendeu (inclusive encontrou o que se projetava nos cinemas de Madrid), a menos que
seja para situar o acontecimento como produzido em algum providencial momento crítico da História do mundo.
O Opus começou em um lugar preciso e no momento justo. Aconteceu de repente, 'como semente divina caída do céu', diz Vázquez. O fundador afirmou depois que
foi totalmente coisa de Deus, que ele foi unicamente um estorvo. Um sinal de sua humildade, apressa-se a escrever Vázquez. Poderia ser isso, mas também seleciona
Escrivá do Balaguer como veículo escolhido pela divindade para escolhidos propósitos divinos. Inclusive a negativa de Escrivá ao falar de tudo isto, apontada por
Vázquez, afasta tanto ele como à fundação do Opus Dei, da vida normal. O contexto no qual seus biógrafos do Opus apresentam-no não é o de um simples mortal.
Bernal exemplifica pelo mesmo estilo. No início de seu livro conta a história de um sacerdote que conheceu o Escrivá do Balaguer em novembro de 1972. 'Eu
estava fazendo atos de fé, para pensar que me encontrava ante o fundador do Opus Dei', diz que afirmou. Bernal põe a ênfase em sua normalidade, porém a graça do
relato está em que se 'esperava' que fora distinto. Estão construindo a imagem de um homem que é outro: um santo. Esta é o âmago que se espera que os leitores leiam
sua vida. Por isso Vázquez insiste em que sua tarefa é 'descobrir a conexão entre seu (o do Escrivá) comportamento público e suas atitudes mais profundas'. E essa
é justamente a tarefa que o enfoque hagiógrafo do fundador faz virtualmente impossível.
Entretanto, por mais estranho que pareça, o primeiro problema com o qual se depara qualquer um que escreva sua vida é decidir o nome do personagem. Segundo
a anotação no registro paroquial da igreja em que foi batizado, seu sobrenome se escrevia 'Escrivá', mas já em sua época escolar, José Maria adotou a versão, mais
distinta, do Escrivá, escrita com 'e' em lugar de com 'b', que, em castelhano, é exatamente igual.
Em junho de 1940, a família, que então se conhecia como Escrivá e Albás, argumentando que Escrivá era um nome muito comum para lhe distinguir, solicitou que
no futuro lhes conhecesse como Escrivá do Balaguer e Albás, embora nos vinte e tantos anos seguintes o 'e Albás' foi em sua maior parte ignorado.
Até aquele momento, José Maria tinha sido simplesmente José Maria A partir de 1960 começou a assinar Josemaría. Logo, em 1968, solicitou e foi concedido o
título de marquês de Peralta de la Sal em Aragão. É um fato curioso. Seus biógrafos alegam que unicamente aspirou ao título depois de consultar com cardeais da cúria,
o cardeal DELL'Acqua, o vigário papal de Roma e íntimo amigo dele, e o cardeal espanhol Larraona. Também o disse a outros dignatários eclesiásticos, incluindo a
Secretaria de Estado.
Alguns membros acreditam que solicitou o título por consideração a seu irmão Santiago. A desculpa do próprio Escrivá, expressa em uma carta ao conselheiro
do Opus Dei em Madrid, era que sua família tinha sofrido muito preparando-o para seu ministério, e que aquele título era uma forma de recompensa. Seja qual for a
explicação, solicitar o restabelecimento ou a concessão de um título nobre pareceria impróprio de alguém cuja humildade se encontra entre as virtudes que seus partidários
enumeram, enquanto tramita a causa de canonização. Especialmente à luz da máxima 677 de seu tratado espiritual Caminho: 'Honras, distinções, títulos... coisas de
aparências, vaidade, orgulho, mentiras, nada.'
Deste modo soa algo estranho, à luz dessa máxima, ter reunido também uma quantidade de outras condecorações espanholas, tais como, a Grande Cruz de São Raimundo
de Peñafort; a Grande Cruz de Alfonso X, o Sábio; a Grande Cruz de Isabel, a Católica; e outras, assim como, diversas medalhas de ouro.
Suspeito que é um comportamento sem precedente em nenhum outro santo, ao menos depois de sua conversão. É um claro motivo de embaraço para seus biógrafos,
e possivelmente o fora inclusive para si mesmo. Como escreveu em sua carta ao concílio, tinha atuado unicamente depois de uma cuidadosa reflexão ante Deus e depois
de pedir conselho. A petição do título era-lhe 'antipática', embora qualquer outro tivesse atuado e a tivesse desfrutado sem escrúpulos.
Alegava que o marquesado de Peralta de la Sal em Aragão, era seu por direito outorgado a seu antepassado Tomás de Peralta, secretário de estado, de Guerra
e Justiça do reino de Nápoles em 1718. No entanto, nenhum de seus imediatos predecessores parece que tivesse conhecimento do título e, indubitavelmente, não houve
reclamação alguma do mesmo. Era uma família de classe média de Barbastro, no noroeste da Espanha, não longe da fronteira com a França. Seu pai era sócio de um negócio
têxtil na cidade: 'Juncosa e Escrivá.' Casado com Maria dos Dolores Albás e Blanc. Tiveram seis filhos, uma chamada Carmen, José Maria, nascido em 9 de janeiro de
190 e mais três filhas, todas chamadas Maria, e o menor, Santiago.
José Maria não era um menino forte. Quando tinha dois anos caiu gravemente doente. Sua vida se deu por perdida. Sua mãe levou-o a pequeno santuário da Virgem
no Torreciudad, um lugar de peregrinação local que cobria uma estátua de Maria que datava provavelmente do século XVI. Suas orações foram ouvidas e José Maria melhorou.
Depois disso, Torreciudad converteu-se em outro monumento ao fundador.
Embora o filho foi milagrosamente devolvido à saúde, desgraçadamente para a família, as três Marias morreram em um período de só três anos, entre 1910 e 1913.
José Maria parece que acreditou que ele seria o próximo. Separou-se da companhia de seus amigos e caiu em uma enorme depressão, da qual somente saiu, em parte, pela
crescente confiança de que Deus lhe tinha sob seu particular cuidado. Foi neste momento que sua mãe lhe explicou a história de sua cura no Torreciudad.
Possivelmente a enfermidade na família unia-se ao progressivo declive e ruína do negócio de dom José no Barbastro. Atribuiu-se a sua natural credulidade,
o que alguém poderia entender como falta de perspicácia comercial. Seja qual for a razão da quebra, a família viu-se obrigada a prescindir dos criados, algo inaudito
na classe média espanhola, e mudar-se a outra cidade. Em 1915 foram todos ao Logroño na mesma zona do Norte da Espanha, porém, mais perto da linha costeira. Ali
dom José associou-se a uma loja de roupas pomposamente chamada 'A Grande Cidade de Londres'. A família vivia em um pequeno apartamento e dona Dolores fazia todas
as tarefas domésticas, uma boa prática, para o papel que ia desenvolver posteriormente no Opus.
Enquanto estava em Barbastro, José Maria foi educado por membros de uma ordem religiosa, os escolápios; mais tarde sustentaria que o fundador dos escolápios,
São José de Calasanz (fundador das "Escolas Pias e a Ordem dos Clérigos Pobres" hoje chamados escolápios), era seu parente longínquo. No Logroño, entretanto, freqüentava
um instituto estatal pelas manhãs e a um colégio dirigido por laicos, o do Santo Antonio, pelas tardes. Como seus biógrafos do Opus recordam com detalhe, suas notas
eram boas e seu comportamento irrepreensível. Embora, naquele momento fosse uma surpresa, visto retrospectivamente, a decisão de estudar para o sacerdócio parecia
inevitável.
Todavia, em 1918 começou seus estudos eclesiásticos no seminário de Logroño. Não foi um seminarista completo dentro do corpo estudantil; sua saúde era muito
delicada para isso. Começou sua carreira como seminarista externo indo às salas de aula, porém, vivendo em casa, aonde também recebia grupos de alunos particulares.
Acabou o primeiro ano de Teologia, depois mudou-se à Zaragoza como estudante interno no seminário conciliar.
A decisão de ir à Zaragoza nunca foi explicada de maneira satisfatória. Tinha ali parentes, um deles cônego da catedral, porém, não parece ter sido muito
bem acolhido, ou, mesmo sendo, muito em breve afastou-se; o cônego nem sequer assistiu à primeira missa, tradicionalmente, uma das maiores celebrações familiares
dentro da comunidade católica. Possivelmente, foi mais importante para ele que haveria uma Universidade na cidade, na qual começaria seus estudos de Direito junto
com os de Teologia. Deste modo, adquiriria uma experiência profissional com a qual mais tarde na vida, ajudaria a família, fator que pesaria muito mais depois do
falecimento de seu pai, ocorrido, repentinamente, em 27 de novembro de 1924.
Recebeu tal notícia com uma calma surpreendente, apesar das responsabilidades adicionais que despendiam sobre ele, por ser o único que ganhava um salário.
'Meu pai se arruinou -disse mais tarde-, e quando nosso Senhor quis que eu começasse a trabalhar no Opus Dei, eu não tinha nem um recurso, nem um centavo em meu
nome'. O principal legado de seu pai a seu filho mais velho (Santiago tinha cinco anos então) foi uma aparência atrativa e um marcado esmero, para não dizer elegância
no vestir, apesar de seus apuros econômicos. No seminário da Zaragoza distinguia-se por sua forma de vestir . A maioria dos seminaristas, observa Vázquez, eram vulgares
e incultos. Escrivá do Balaguer era a exceção. Sua roupa sempre estava limpa, seus sapatos sempre brilhantes. Aparentemente era motivo de comentário que se lavasse
dos pés à cabeça cada dia.
Meses depois da morte de seu pai, foi ordenado sacerdote: em 28 de março de 1925. Dois dias depois foi nomeado ajudante em uma paróquia rural. Considerou-se
sua nomeação muito precipitada, todavia, foi devido à enfermidade do pároco e pela necessidade de encarregar-se dos ofícios da Semana Santa, que acabava de começar.
Entretanto, não esteve ali muito tempo. Em meados de maio estava de volta à Zaragoza, para terminar sua licenciatura em Direito.
Terminou-a em 1927, sua licenciatura foi outorgada em março daquele ano; pediu permissão ao bispo para ir a Madrid começar um doutorado, a qual foi concedida.
Em junho de 1923 arcebispo da Zaragoza, o cardeal Soldevila, foi assassinado. Escrivá do Balaguer chamou a atenção pelo excelente expediente que tinha no seminário,
seu comportamento bastante solitário distinguia-o dos demais estudantes. Possivelmente, também surpreendeu-lhe o poema composto pelo Escrivá do Balaguer para o diretor
do seminário, intitulado 'Obedientia tutor'. Nele elogiava a segurança proporcionada pela obediência à vontade do superior.
Seja lá qual fosse a razão, Soldevila escolheu o estudante de Logroño para lhe dar um tratamento especial. Conferiu-lhe pessoalmente a 'tonsura', cerimônia
através da qual um laico converte-se em clérigo. Depois confiou-lhe encarregar-se do resto dos estudantes, para vigiar que cumprissem as normas, uma espécie de prefeito
de disciplina. Se Soldevila tivesse vivido, reflete Vázquez da Prada, seria o protetor de Escrivá, encontrando-lhe um posto apropriado a sua sensibilidade e conhecimentos,
e que fosse economicamente gratificador. A família de Escrivá estava então em Zaragoza e dependia dele.
Sem a Soldevila, Escrivá do Balaguer teve que encontrar trabalho por si mesmo. Inclusive antes de licenciar-se começou a ensinar latim e Direito canônico
em um colégio privado que preparava estudantes para entrar em instituições de ensino superior, especialmente, na Academia Militar da Zaragoza. Antes de serem ordenados,
os seminaristas têm que demonstrar que dispõem de meios econômicos. Houve um tempo em que alguém podia ser ordenado sacerdote 'a cargo de seu próprio pecúlio'; em
outras palavras, podia demonstrar dispor de meios independentes e, portanto, não era adepto de um bispo em particular. Mas, normalmente, os sacerdotes eram, e são,
'incardinados' a uma diocese e prometem obediência ao bispo, o qual se responsabiliza deles. Tecnicamente, Escrivá estava incardinado em Zaragoza, embora trabalhou
muito pouco ali. Madrid foi a diocese em que trabalhou a maior parte do tempo desde 1927 até 1942, não foi incardinado a Madrid até 1942, quando se converteu automaticamente
em membro do clero diocesano madrileno. Houve um breve relatório sobre o afastamento do seminário católico londrino 'The Tablet', em 5 de dezembro de 1987, e outro
mais completo na mesma publicação, em 9 de janeiro de 1988, pág. 41. Dá-nos a sensação de que evitava o compromisso exigido à maioria dos clérigos. Em Zaragoza,
sem dúvida, comprometeu-se em algum trabalho pastoral e era membro daquela diocese, mas, na prática separou-se da carreira normal de um sacerdote, devido às circunstâncias
econômicas de sua família, devido às suas próprias preferências pessoais.
Não importa em que atmosfera deu-se sua requisição para deixar sua diocese e estudar em Madrid, mas, concedeu-se permissão por dois anos. De fato, não foi
aprovado no tempo prescrito. Seu tema de investigação era a ordenação ao sacerdócio de mestiços em quarteirões dos séculos XVI e XVII. Nunca chegou a terminá-la.
Quando finalmente, e com êxito, defendeu sua tese doutoral, era dezembro de 1939 e tratava de História, e mais concretamente, do estatuto legal do monastério nas
greves. Dada a aparente relutância de Escrivá a vincular-se a uma diocese em particular, o tema de sua tese foi significativo. As madres abadessas sucessoras eram
figuras poderosas que mandavam sobre seu próprio território e que respondiam só diante do Papa.
A demora em seus primeiros estudos foi devido, uma vez mais, a sua necessidade de ganhar dinheiro para manter a sua família. Alojava-se em Madrid em uma residência
para sacerdotes e de novo encontrou um posto para ensinar Direito romano e Direito canônico em um colégio tutelar 'Academia Cicuéndez'.
No final dos anos vinte exercia como capelão das Damas Apostólicas, que eram as proprietárias da casa em que se hospedava. As Damas Apostólicas do Sagrado
Coração de Jesus, este é seu nome completo, recentemente, receberam aprovação formal do Vaticano por seu modo de vida, porém, já tinham desenvolvido diversas obras
de caridade entre os pobres, e especialmente entre os doentes pobres de Madrid. Cuidavam dos doentes em suas próprias casas; dando-lhes mantimentos, remédios e ajuda
espiritual.
Foi onde entrou Escrivá do Balaguer. Atendia doentes, levando-lhes os sacramentos e ajudando-lhes resolverem problemas pessoais. O trabalho levou-o do centro
da capital espanhola até os bairros mais periféricos. Aos domingos rezava a missa na igreja anexa à residência central do Instituto religioso.
Seu trabalho com as Damas Apostólicas durou até julho de 1931. Foi durante este tempo que tomou a decisão de fundar o Opus Dei. A partir dessa data sua própria
vida entrelaça-se totalmente com a organização que criou.

II. AS ORIGENS DO OPUS


Uma das coisas mais estranhas do Opus Dei é sua falta de história. Funcionou durante sessenta anos e esperava-se que algum membro em alguma parte do mundo
tivesse escrito um relato de seu desenvolvimento; como cresceu e estendeu-se; quem ingressou, onde e quando; quais foram os problemas e como resolveram-se; quais
tensões existiam e como foram resolvidas; como empreenderam distintas obras apostólicas, e como decidiu-se sua política, etc. O lugar apropriado para tal tratamento
seria o volume publicado em 1982 pela Universidade de Navarra para comemorar, algo tardiamente, os cinqüenta anos de aniversário do Opus Dei, baseado em 1928. Nele
há um compartimento comprometedoramente intitulado 'Opus Dei, cinqüenta anos de existência', todavia, consiste somente em duas peças: um texto inédito até então
de Escrivá e uma entrevista que não contribui com informação alguma referente à história da organização, com o novo presidente geral da associação, Monsenhor Alvaro
del Portillo. Não é que algo de sua história não possa ser desenterrado a partir das muitas apologias do Opus que seus partidários publicaram através dos anos, entretanto,
não se menciona diretamente nenhum estudo histórico no ensaio bibliográfico de Lucas F. Mateo-Seco, escrito para o volume do aniversário. O mais extraordinário é
a escassez de obras sérias sobre qualquer aspecto do Opus, exceto no, recentemente, adquirido estatuto jurídico como prelatura pessoal.
Não obstante, de um acontecimento em particular não há escassez de relatos: do dia e do modo em que Escrivá decidiu fundar o que com o tempo se converteu
no Opus Dei. Aconteceu, diz Vázquez com uma hipérbole compreensível de quem é membro devoto, 'como semente divina caída do céu'. A idéia veio a Escrivá quando fazia
retiro numa casa do subúrbio de Madrid, pertencente aos padres paulinos. Escrivá estava rezando e, afirma Bernal, 'viu' o Opus Dei. Ao mesmo tempo ouviu soar os
sinos da próxima igreja de Nossa Senhora dos Anjos, que celebrava a festa patronal; em 2 de outubro é o dia em que os católicos comemoram a festa dos Anjos da Guarda.
O que aconteceu realmente, não está de todo claro. Alguns membros do Opus acreditam que Escrivá do Balaguer teve uma visão celestial, mas nem ele mesmo chega
a afirmar tanto. De fato, afirma muito pouco. É bastante evidente que, sendo um jovem e ambicioso sacerdote em um país com muitos padres à maturação, procurava algum
papel particular na vida. E não há nada mau nisso. Parece pelos diversos relatos da fundação, que durante suas meditações começou a vislumbrar qual poderia ser seu
papel. Foi mais tarde, embora não muito depois, quando a primeira noção se fez mais clara e pôde dar os passos para pô-lo em marcha. Foi tudo o que aconteceu. Mas,
como o Opus tem a propensão a maximizá-lo em tudo, ficou uma placa na fachada do novo campanário de Nossa Senhora de Los Angeles, e um dos antigos sinos levou-se
ao Torreciudad em lembrança do fundador. A inscrição latina, grosseiramente traduzida, diz: 'Enquanto os sinos da igreja de Madrid de Nossa Senhora de Los Angeles
tocavam e elevavam suas vozes em oração aos céus, em 2 de outubro de 1928, Josemaría Escrivá do Balaguer recebeu na mente e no corpo as sementes do Opus Dei.' O
Opus poderia ter posto, mais adequadamente, uma placa no edifício em que o fundador recebeu sua primeira inspiração, mas já não está em pé.
O que exatamente Escrivá tinha fundado? Logo, há dúvidas no que se converteu o Opus Dei. Tem uma estrutura legal precisa, objetivos bem definidos e métodos
inequívocos para levá-los a cabo. Porém, seria incomum para o fundador de uma organização religiosa dentro da Igreja católica prever, exatamente, até o último detalhe,
o que seria tal organização. Os franciscanos, por exemplo, passaram por muitos traumas durante décadas, se não durante séculos, conflitos internos antes de estabelecer
sua estrutura, e isso somente a custa de dividir a ordem. De modo que é razoável perguntar-se se a visão original de Escrivá realizou-se da forma que hoje se apresenta.
Não é que o problema seja assim tão simples. Escrivá viu que o Opus Dei se desenvolvia na forma em que o fazia, e incitou-a a continuar em seu caminho. O
momento crucial pode estar no incidente que se explica mais adiante (ver pág. 58), quando voltou de Roma em 1946 com sua inocência ou sua ingenuidade quebrantada
pela forma de atuar da cúria romana. Talvez, sua primeira idéia do que desejava criar fosse algo completamente distinto.
Bernal, por exemplo, descreve o Opus Dei como 'uma 'organização desorganizada', plena de responsável espontaneidade. Isto estaria muito longe da experiência
de alguns membros recentes. Ao morrer o fundador, comenta Vladimir Felzmann:
'...regras, normativas e restrições cresceram. A vida se fez ainda mais restritiva... Para proteger e preservar seu espírito -para evitar o que aconteceu
aos franciscanos-, o fundador dispôs uma codificação completa e meticulosa da obra do Opus Dei e da vida de seus membros. Mas, como nosso Senhor mesmo descobriu,
um espírito encerrado em um código tende a voltar-se morto, lhe escravizem, farisaico'.
A 'organização desorganizada' de Bernal está próxima ao que Raimundo Pániker recorda dos primeiros tempos. Pániker era possivelmente o mais distinto teólogo
acadêmico do Opus. Nascido em Barcelona, de pai índio e de mãe catalã, era cidadão britânico e, como tal, foi evacuado de Barcelona por um casco de navio de guerra
britânico durante a Guerra Civil espanhola (1936-1939). Foi estudar na Alemanha, mas voltou para Barcelona em 1940, onde se uniu ao pequeno grupo de seguidores de
Escrivá, que exerciam atividades na cidade. Ordenou-se sacerdote em 1946, um segundo grupo de membros do Opus que foram ordenados. Deixou o Opus em 1965. Suas lembranças
dos primeiros tempos confirmam a descrição do Bernal.
Diz Pániker que quando chegou ao Opus era quase um movimento 'contra-cultural'.
Gente como ele se uniu ao Opus porque parecia oferecer um modo de superar a 'rotina do catolicismo'. Simplesmente queriam tomar a sério a religião, seguir
o Evangelho em todas as exigências impostas sobre quem quer ser discípulo de Cristo. Há uma velha tradição ascética na Igreja que compara ao devoto com a 'militia
Christi', os soldados de Cristo, e foi esta expressão que utilizou Pániker para os primeiros membros do Opus. Não havia, além de Escrivá, mais que um grupo de laicos
que tentavam pôr o Evangelho em ação. Não havia uma forma de vida especial, nenhuma fuga do mundo. Não devia haver nada que os distinguisse exceto, possivelmente,
que, para ajudar-se mutuamente, viviam juntos. Aquele, pois, era o ideal que Escrivá do Balaguer oferecia aos que se achavam sob sua influência.
As pessoas submetiam-se rapidamente à ela. Assim que recebeu a mensagem divina, lançou-se a procurar gente para sua causa. Falou de suas idéias a amigos de
seus dias de estudante em Logroño e Zaragoza. Procurou apoio entre os sacerdotes que compartilhavam a casa onde se alojava em Madrid. Escreveu cartas a gente de
fora da capital da Espanha. Perguntou à seus conhecidos e a aqueles para quem trabalhava como capelão, se conheciam candidatos varões adequados entre os jovens,
e particularmente entre os estudantes. Disse ao padre Sánchez Ruiz, seu diretor espiritual, que se dava conta com crescente claridade de que o Senhor 'quer que me
esconda e que desapareça'. Não seguiu o conselho do Senhor. Fazia amizades influentes tanto entre o clero como entre os seculares, estava desenvolvendo o Opus através
de suas cartas, cultivando a aristocracia e fazendo seus primeiros discípulos.
Alguns uniram-se a ele, todavia não ficaram. Outros, como Isidoro Zorzano Ledesma, que tinha estudado com ele em Logroño e a quem se encontrou por acaso em
Madrid (ver mais adiante, pág. 42), morreu jovem. Uns amigos da Faculdade de Medicina de Madrid apresentaram-o ao João Jiménez Vargas, estudante de tal Faculdade.
Encontrou a outros por meio do confessionário ou através das Damas Apostólicas, de quem era capelão. Uniram-se ao Escrivá em um momento crucial da História da Espanha,
timidamente, em palavras do Pániker, um 'movimento contra-cultural'.
Desde 1981, os professores das Universidades espanholas podiam manter e ensinar doutrinas distintas, e inclusive opostas, às da fé católica. As conseqüências
desta liberdade de expressão impuseram-se devagar, mas pelos anos vinte muitos catedráticos, inclusive aqueles com maior influencia entre os estudantes universitários,
propagavam uma doutrina que estava em desacordo com o ensino católico aceito. Em um país como a Espanha, em que a relação entre a Igreja e o Estado era tão estreita,
e a forma tradicional de vida do povo estava tão impregnada de catolicismo, esta tendência no mundo universitário era considerada como uma ameaça não só à ortodoxia
religiosa, mas também à mesma base da Hispanidade. Além de ser um sacerdote católico, Escrivá do Balaguer era um patriota. A máxima 525 do caminho começa assim:
'Ser católico é amar à pátria, sem ceder a ninguém melhora esse amor.'
Não era só o ensino nas Universidades, e especialmente em Madrid, ia-se secularizando cada vez mais, mas também outras instituições educativas fomentava esta
tendência. A Instituição Livre de Ensino foi fundada em 1876 por um homem que tinha deixado a Igreja porque esta condenou o liberalismo no 'Sillabus', um documento
em que esta enumerava as maiores aberrações -aos olhos do Papa- dos tempos modernos, publicado por Pio IX em 1864. Embora não era especificamente anti católica em
seu objetivo, a Instituição Livre de Ensino era vista como tal por muitos espanhóis. Um sacerdote que escrevia em 1906 para a publicação da Companhia de Jesus mais
prestigiosa da época, 'Razão e Fé', descrevia-a como 'o inimigo mortal do ensino católico'. Não era uma organização controlada pelo Estado, entretanto, não obstante,
teve um profundo impacto sobre o sistema educativo espanhol. Estabeleceu residências estudantis nas Universidades, na linha das Universidades de Oxford e Cambridge,
e os lugares nelas eram muito procuradas. Mais importante ainda, foi a influência exercida sobre a Junta para a Ampliação de Estudos e Investigações científicas,
fundada em 1907 para estabelecer institutos de investigação em toda a Espanha, e por meio disto elevar o nível geral de educação em todo o país.
A liberdade de expressão de que gozavam os professores e os novos institutos favoreceu a expansão do agnosticismo entre os jovens intelectuais espanhóis.
Escrivá tinha boas razões para ser consciente dos perigos e as possibilidades inerentes à educação. 'Livros: -escreveu na máxima 339- não os compre sem te aconselhar
de pessoas cristãs, doutas e discretas. Poderia comprar uma coisa inútil ou prejudicial. Quantas vezes acreditam levar debaixo do braço um livro... e levam uma carga
de imundície!'
A oposição à expansão do agnosticismo começou muito antes de Escrivá do Balaguer chegar em Madrid. Em 1909 um sacerdote jesuíta fundou a Associação Católica
Nacional de Propagandistas, uma prolongação na vida dos negócios e profissional das sociedades devotas chamadas congregações marianas. As congregações marianas eram,
e são ainda, embora em muitos lugares trocaram o nome, organizações sob a direção religiosa da Companhia de Jesus, que combinam uma forma modesta de prática ascética
com obras de caridade. Embora típicas nos colégios de jesuítas, as congregações encontravam-se também nas paróquias dirigidas por eles, ou vinculadas às suas residências
de outras classes. Eram vistas como um intento de adaptar a espiritualidade ignaciana à forma de vida dos laicos. Sob a direção da Companhia de Jesus, o objetivo
da Associação Católica era dupla: melhorar as condições sociais dos pobres na Espanha, sem transtornar os valores tradicionais, e a forma de vida do povo. Era uma
organização elitista, que extraía seus adeptos dentre homens de alto nível social e educativo. Seu método, como o movimento das células comunistas de uma geração
posterior, era trabalhar em pequenos grupos e fazê-lo discretamente na medida do possível. Esta organização era bem conhecida de Escrivá. Efetivamente, em 1911,
a Associação comprava 'O Debate', um periódico converteu-se em um dos mais influentes do país. Em 1923 'O Debate' saudou a chegada ao poder do ditador Primo da
Rivera com a esperança de que sustentasse a ordem social, que se desmoronava. Seis anos mais tarde apoiou ao ministro da Educação de Primo da Rivera, com a intenção
de dar à dois colégios de direção privada, um jesuíta e o outro agustino, o direito a conceder licenciaturas em certas faculdades.
Este intento de interferência no monopólio educativo do Estado originou um protesto tão forte, que o plano teve que ser abandonado.
Escrivá teve que conhecer a Associação. Depois da Guerra Civil espanhola, trabalhou na Escola de Jornalismo, vinculada a "O Debate", embora suas classes eram
sobre ética e metafísica mais que sobre as técnicas da profissão jornalística. Se não houvesse necessidade deste contato tão próximo, nem sequer o contato com seus
diretores espirituais jesuítas, para conhecer a obra da Companhia de Jesus na Espanha: 'A dívida que tem o Opus Dei com a Companhia de Jesus é imensa -diz Carandell-;
tanto, que se poderia dizer que, se a Companhia não tivesse existido, o nascimento do Opus tivesse sido impossível'.
Que a visão do Opus de Escrivá dever algo a alguém, não é um tema de que tratem as biografias aprovadas do fundador. O livro de Vázquez, por exemplo, tem
três referências a dom Pedro Poveda. A primeira menciona simplesmente a entrevista de Escrivá com dom Pedro em 4 de fevereiro de 1931 -a data era, evidentemente,
importante para ser cotada-, com a esperança de obter alguma classe de benefício eclesiástico. Escrivá recusou o que lhe oferecia, segundo Vázquez, porque não lhe
dava direito de ser cardeal. 'A surpresa de dom Pedro (ante a recusa de Escrivá) foi superlativa', aponta Vázquez. A segunda referência fala da amistosa relação
entre os dois homens. A terceira é simplesmente para dizer que Poveda morreu assassinado em Madrid em julho de 1936, quando explodiu a Guerra Civil.
A segunda passagem é incompreensível. Os dois homens encontraram-se: Poveda ofereceu uma promoção que Escrivá não aceitou. Depois, no que se refere à biografia,
os dois homens separam-se. Só que não evidentemente. Na aparência eram bons amigos, embora Vázquez não se estende nisso e Bernal nem sequer o menciona. Talvez, Poveda
jogasse um maior papel na vida de Escrivá mais do que lhe atribui. Era o fundador de uma congregação secular chamada Teresianas. Era muito conhecida e sua estrutura
é similar a do Opus. Enquanto parte da mitologia do Opus for que a idéia de sua formação se deve ao Todo-poderoso, dada diretamente ao Escrivá de Balaguer, em 2
de outubro de 1928, não há lugar para sugestão alguma de que a idéia chegasse de outra parte, possivelmente da Companhia de Jesus ou de dom Pedro Poveda. Havia uma
série de instituições similares ao Opus que, embora não obtiveram a aprovação papal antes da fundação do Escrivá, certamente existiam antes que esta.
Escrivá escolheu inaugurar sua nova sociedade exatamente quando terminou a Ditadura de Primo da Rivera. Em 12 de abril de 1931 houve eleições na Espanha.
Dois dias depois, o rei Alfonso XIII abdicou e partiu ao exílio. Nesse mesmo dia proclamava-se a República. O socialismo agnóstico tinha triunfado sobre a aliança
tradicional da Coroa e a Igreja. Após um mês chegaram as primeiras queimas de conventos e Igrejas. Menos de um ano depois, a Companhia de Jesus foi expulsa do país.
Os crucifixos tiveram que ser retirados das escolas e a educação foi completamente secularizada. O Estado apropriou-se das posses eclesiásticas, permitiu-se o divórcio;
e a Concordata, que regulava as relações entre o Vaticano e o Governo espanhol, foi revogado. Quando ensinava no 'Instituto Amado' de Zaragoza, Escrivá demonstrou
especial interesse nas relações Igreja-Estado e nos problemas da propriedade eclesiástica.
Após o surgimento destas disputas entre o Governo espanhol e a Igreja, começou o progresso do Opus Dei como movimento: pode, portanto, ser visto como uma
forma de resposta à básica 'privatização' do catolicismo imposta pelo novo regime anticlerical.
Depois de renunciar a seus deveres com as Damas Apostólicas em 1931, Escrivá ficou sem nenhum trabalho apostólico fixo, uma situação incomum para um padre
jovem e sem dúvida devoto. Todavia, dois meses depois de renunciar ao cargo da capela, encarregou-se de outra; esta vez em um convento de clausura de monjas agustinas.
Santa Isabel era um Patronato Real, embora ao Escrivá do Balaguer não lhe pagava por seu trabalho, pelo menos no início. Finalmente foi renomado reitor do Patronato,
mas somente em fins de 1934. Para aquele novo cargo teve que solicitar permissão de seu próprio bispo em Zaragoza, a qual foi concedida. Não se sabe se o bispo perguntou
sobre o término da tese para a qual lhe concederam dois anos de licença fora da diocese.
Para sua família, sem dúvida desesperada por sua volta de Madrid, decidiu mudar-se à capital da Espanha. Desde finais de 1932 Escrivá do Balaguer viveu com
sua mãe (a qual interessou-se em encontrar um benefício adequado para seu filho mais que ele próprio), seu irmão e sua única irmã sobrevivente em um apartamento
no número 4 do Martínez Campos. Um ano mais tarde, com sua situação econômica presumivelmente melhorada, alugou um apartamento no 33 da Luchana, que serviu como
local de encontro para o grupo que começou a reunir ao seu redor.
Uma das primeiras formas da nova cruzada pessoal de Escrivá foi com membros do clero de Madrid, aos quais dava conselho espiritual toda segunda-feira de noite
lhes ensinando, diz Vázquez, 'a 'alteza' da dignidade sacerdotal, e como a honra de um sacerdote é muito mais delicada que a honra de uma mulher'. Também trabalhava
com um grupo de homens jovens e de moços, que se reuniam para lanchar e conversar no apartamento de sua mãe. Falavam enquanto dona Dolores, Carmen e, aparentemente
com algum protesto, o irmão de Escrivá, Santiago, proviam de comida e bebida e serviam habitualmente à reunião. O número e a freqüência das reuniões aumentaram.
Escrivá decidiu lhes dar um enfoque mais formal. Em uma habitação de um reformatório que lhe alugaram umas monjas que cuidavam dos delinqüentes, começou a dar orientação
espiritual, em primeiro lugar, à três estudantes de Medicina, todavia, o grupo começou a ampliar-se.
Escrivá concebeu então a idéia de uma academia. Dando a ordem o nome 'Deus e Audácia', que por sua vez se converteu em 'Academia D e A', interpretada como
Academia Direito e Arquitetura. Ocupou um local diminuto na rua Luchana, que logo se tornou pequeno. Além disso, como academia e nada mais, carecia da ajuda da mãe
e de sua irmã. Em conseqüência, Escrivá persuadiu sua mãe investir a herança recebida com a morte de um parente, na compra de uma propriedade em Madrid, na rua Ferraz.
Era suficientemente grande para formar uma residência e uma Academia de Direito e Arquitetura.
Foi a primeira das muitas residências fundadas pelo Escrivá e sua organização, e estabelecia um modelo, tanto quanto ao estilo de alojamento como à forma
de instrução religiosa que ali se dava. Levantou-se um oratório e colocou-se um refeitório. Fala-se de uma sala na qual os residentes encontravam-se para conversar.
Havia, naturalmente, um quarto de banho. Apesar da constante limpeza, suas paredes estavam manchadas de sangue, das flagelações que Escrivá se infligia. Utilizava
uma 'disciplina', uma espécie de chicote de nove ramificações atadas com partes de metal e pedaços de lâminas de barbear afiadas. (Não se diz se outros residentes
se uniam, embora esta prática penitente chegou a ser de uso habitual no Opus.) A disciplina e a corrente com pontas agudas que se atava ao braço, Escrivá do Balaguer
as guardava na 'habitação do Pai'. Ali, sob uma representação da história evangélica da pesca milagrosa, fomentava-se a conversação confidencial e se repartia gula
espiritual.
Escrivá tentava restabelecer na residência a intimidade da vida familiar. Ele presidia como pai. Dona Dolores chegou a ser conhecida como a avó, Carmen como
a tia. Outros visitantes acomodavam-se ao numeroso grupo de pessoas, levando a vida que encontravam na "Academia D e A". Alvaro do Postigo, o atual superior ou 'prelado'
do Opus, foi um deles.
Foi durante esse tempo quando Escrivá do Balaguer compôs o que primeiro chamou suas 'Considerações Espirituais', uma coleção de máximas espirituais que finalmente
se converteram em 'Caminho'. (Um humorista catalão, no princípio dos anos setenta, publicou 'Auto-estrada'.) O livrinho de Escrivá é aclamado por seus seguidores
como 'uma obra clássica de literatura espiritual', embora esta é uma descrição das últimas edições. Escrivá do Balaguer não estava satisfeito com a primeira versão,
publicada em Concha em 1934. Estando em Burgos em 1939, reuniu suas notas para uma posterior edição, que publicou em setembro de 1939. O livro, com seu novo e permanente
título, publicou-se em Valência porque, segundo Vázquez, esse foi o único local onde encontrou papel. Porém, tudo isto é adiantarmo-nos um pouco. Entre a primeira
e a segunda edição deste livrinho, a vida do Escrivá ia dar um giro completo.
Em maio de 1935 Escrivá levou seus residentes da "Academia D e A" em peregrinação a um santuário Mariano na Avila. Maio é o mês no qual os católicos exaltam
especialmente Maria e as peregrinações a santuários em maio é uma característica da vida do Opus, imitação consciente da primeira viagem de Escrivá com seus discípulos
através do campo castelhano.
Apesar das dificuldades enfrentadas pela Igreja na Espanha em princípio dos anos trinta, o projeto do Escrivá parece ter sido um grande êxito. Devido ao número
crescente na residência, a academia teve que encontrar outro alojamento próximo. Falou-se de adquirir mais propriedades em Madrid, e dois dos discípulos do padre
foram enviados a Valência para abrir uma residência naquela cidade. Isto foi em 1936; a Guerra Civil não destruiu inteiramente o que tão laboriosamente tinha sido
construído, e alguns dos primeiros seguidores permaneceram fiéis todo o tempo. Apesar dos problemas que originou a batalha pela alma da Espanha, abriu-se uma casa
em Valência, embora os planos para uma residência em Paris foram propostos. Até terminar a guerra não começou a fase definitiva do desenvolvimento do Opus.
O que existia até aquele momento? A Academia 'D e A', embora uma instituição educativa começou a desinteressar Escrivá, e a residência anexa é que dedicava
mais atenção. Havia um grupo de simpatizantes e um grupo menor que poderia ser denominado 'de membros' caso houvesse organização de alguma ordem, porém, naquele
momento não havia. Existia um nome, Opus Dei, 'a obra de Deus', ou mais usualmente, simplesmente 'a Obra', em princípio um título adequado até que aparecesse algo
mais específico. (É de notar, entretanto, que enquanto algumas ordens religiosas, como os Frade Menores e a Ordem de Pregadores, foram conhecidas mais familiarmente
pelos nomes de seus fundadores, franciscanos e dominicanos, respectivamente, não parece ter havido nenhuma sugestão de que os membros do Opus Dei se chamassem 'escrivistas'
ou 'balaguerianos'.) Embora não tivessem nenhuma forma específica de direção espiritual mais que a que proporcionava 'o Padre', desde 1934 os membros do Opus dispunham
dos pensamentos de seu Padre em suas 'Considerações Espirituais', publicado naquele ano em Concha. Tinham também, como vimos, um modelo de vida apoiado no 'lar',
o modelo de um lar familiar, que Escrivá desenvolveu com a ajuda de sua mãe e de sua irmã na residência da rua Ferraz; embora o papel de sua família mais próxima
foi exagerado na mitologia do Opus dos primeiros anos.
Esta é uma de suas caras: o ramo masculino do Opus. Em 1936 o ramo feminino também existia. Não é surpreendente, dado o temperamento machista dos espanhóis,
que Escrivá compartilhava, que sua inspiração inicial desse início a uma organização que oferecesse pupilas aos homens jovens. Foram os primeiros objetivos de seu
zelo e, como veremos, continuaram os objetivos principais para seus discípulos. Apesar ajuda devotada de sua mãe e de sua irmã, as mulheres em princípio não foram
consideradas como candidatas aptas para sua nova organização e, de fato, nem dona Dolores nem a senhorita Carmen nunca pertenceram formalmente à fundação de Escrivá.
Tudo mudou, entretanto, um dia de 1930, significativamente em 14 de fevereiro, a festa de são Valentín. Escrivá do Balaguer rezava a missa no oratório privado
da marquesa de Onteiro, a nobre mulher de oitenta anos cuja filha tinha fundado as Damas Apostólicas. depois da comunhão, 'Deus lhe fez ver' que devia haver uma
seção de mulheres no Opus Dei. Se as mulheres alcançaram alguma vez o mesmo status no Opus que seus oponentes masculinos, é muito duvidoso, e é uma questão que será
debatida mais adiante. Mas deixando a parte seus parentes femininos, que lhe administraram recursos, móveis e ajuda doméstica para a residência que começou em Madrid,
as mulheres sempre prestaram um serviço leal e resignado.
Naquele momento, antes da Guerra Civil espanhola, o que era aquilo ao qual estes homens e mulheres pertenciam? Não havia ainda estrutura legal nem 'personalidade
jurídica'. Até onde sabemos, não havia um modo de vida específico, nem, com toda segurança, nos primeiros tempos, de máximas espirituais como Caminho para lhes guiar.
Era, como se diz freqüentemente, algo fora do comum, uma organização 'secular' distinta de uma clerical. A Igreja católica distingue entre 'laico' ou 'secular' e
'clerical'. Se é uma ou a outra, e as únicas pessoas que compreendidas na categoria de clérigos são os sacerdotes ou homens que progrediram grandemente em sua preparação
para o sacerdócio. A maioria das pessoas em ordens religiosas no mundo são monjas, mulheres. A maioria das pessoas em ordens religiosas é, portanto, laica. Inclusive
muitas ordens masculinas têm um grande número de laicos entre seus membros.
Todavia, está perfeitamente claro que esses homens ou mulheres que pertencem a ordens religiosas não são 'laicos' no sentido legal e técnico da palavra, porque
abraçaram de uma forma ou outra, os três votos tradicionais, prometendo em maior ou menor grau de solenidade, observar pobreza, castidade e obediência a seus superiores
religiosos para o resto de suas vidas. Algumas conseqüências legais, dentro do texto da lei canônica, provêm do grau de solenidade com que fazem os votos, dependendo,
a maior diferença está nos votos feitos em público ou privado. Os membros das ordens religiosas fazem votos públicos, ou solenes; os membros das congregações religiosas
não fazem votos solenes. A distinção é técnica e em sua maior parte pouco significativa. Inclusive dentro da igreja católica poucos são conscientes disso.
Sugerir que o Opus Dei incluiu-se em qualquer das duas categorias, tanto na de ordem religiosa como na de congregação, é pecar gravemente contra sua própria
imagem. Há evidência, entretanto, dada pelo mesmo Opus no caso de Isidoro Zorzano Ledesma, de que o Opus foi dirigido para um estatuto de congregação (um estatuto
menos formal que o de uma ordem religiosa), ao menos desde seus primeiros anos.
Certamente, na mitologia do Opus sequer existe algo fora do comum sobre o Zorzano. Estudou com Escrivá em Logroño, e logo mudou-se à outra ponta do país para
converter-se em engenheiro de ferrovias em Málaga. Todavia, ele e Escrivá encontraram-se, por acaso, em uma rua de Madrid a qual, Vázquez tem bom cuidado em apontá-lo,
Escrivá não costumava passar. Inclusive a data deste encontro foi cuidadosamente anotada, por tão transcendental obteve-se: 24 de agosto de 1930. É bastante estranho
que Bernal e Vázquez relatem este acontecimento em palavras muito similares, quase como se houvesse uma 'tradição oral' com a qual ambos estivessem em dívida. O
de Bernal é um texto bastante anterior, todavia críticos textuais teriam poucas dificuldades em demonstrar que Vázquez não dependia dele. Zorzano era muito íntimo
de Escrivá; eram, é obvio, conterrâneos, e estava muito comprometido na primeira empresa do Opus em Madrid, o estabelecimento da 'Academia D e A'. Morreu em julho
de 1943, antes de que o Opus fosse formalmente aprovado pela Santa Sede.
Durante um tempo, Zorzano foi ativamente promovido como candidato à canonização, embora sua causa foi silenciosamente abandonada para preparar o caminho para
a de Escrivá; isto aconteceu muito antes da morte de Escrivá, e presumivelmente, a seu pedido. Em 1964 uma biografia do 'Engenheiro de Deus', como se intitulou outro
relato de sua vida, foi preparada para a Sagrada Congregação de Ritos de Roma, reconhecido como organismo oficial da cúria papal responsável pela proclamação de
novos Santos. Esta biografia romana afirma que Zorzano entregou-se totalmente ao exercício dos ideais evangélicos: pobreza, castidade e obediência.
Esses ideais, postos em forma de votos, são, certamente, a base vital em uma ordem ou congregação religiosa. Escrivá do Balaguer provavelmente não tinha naquele
momento nenhuma idéia clara da forma que tomaria sua organização. Havia, como se viu, uma série de modelos que ele conhecia, entretanto, parece claro que ele assumiu
que sua organização se apoiaria nos três votos tradicionais que, na forma utilizada pela maioria das pessoas, o termo afastava do reino dos institutos 'laicos'.
Quaisquer que fossem as esperanças de Escrivá para sua instituição, somente começaria consolidar suas primeiras empresas quando a Guerra Civil espanhola terminasse.
Fora de Madrid só restava Valência e formalmente não era uma filial do Opus, a não ser a residência de Pedro Casciaro, um dos primeiros seguidores de Escrivá e um
membro devoto. Certamente Valência foi a primeira cidade, fora de Madrid, escolhida pelo Escrivá depois da guerra para estabelecer uma casa para seu grupo. Logo
veio Valladolid.
Em 19 de julho de 1936, o quartel da Montanha de Madrid foi atacado e tomado pelas tropas republicanas. Na manhã seguinte Escrivá, que tinha passado a noite
em uma residência do Opus Dei, teve que abandonar sua batina e colocar uma roupa de trabalho para voltar ao apartamento de sua mãe, que já não estava no Martínez
Campos, mas, em uma rua chamada Rei Francisco. Escondeu-se ali; era perigoso aparecer como clérigo na Espanha republicana onde, durante o período de guerra, calculou-se
mais de quatro mil sacerdotes pertencentes à diversas dioceses e, aproximadamente, dois mil e quatrocentos pertencentes à ordens religiosas morreram violentamente.
Escrivá estava no apartamento de sua mãe a mais de quinze dias, quando ouviu o rumor de que o edifício seria vistoriado. Fugiu à casa de um amigo. Segundo
Vázquez, no mesmo momento que descia a escada de serviço, a tropa entrava no edifício. Dissimulou a tonsura, o cocuruto, a coroa recortada na parte posterior da
cabeça exigida aos sacerdotes e que Escrivá usava mais do que o habitual. Para esconder ainda mais seu sacerdócio, levava uma aliança de casado, cortou o cabelo
e deixou crescer o bigode.
Durante o mês de setembro alojou-se na casa de uma família que gozava de certo grau de imunidade porque era argentina. Passou algum tempo em Madrid indo de
um lado para outro. Ofereceram-lhe um apartamento, vazio, ocupado só por uma criada que deixaram ali para cuidá-lo. Perguntou sua idade: tinha vinte e três anos.
Recusou a oferta. Refugiou-se em um hospital psiquiátrico simulando ser um doente mental. De março até agosto de 1937 alojou-se sem perigo na residência do cônsul
de Honduras. Com o tempo facilitou-lhe a documentação empregando-o na Legação (consulado), para locomover-se mais livremente. Alugou um apartamento, arriscando-se
ser detido saiu e comprou uma estátua da Virgem Maria Adquiriu uma pela qual, diz Vázquez, sentiu um grande afeto porque recordava a sua mãe.
Entretanto, a situação na cidade não melhorava e ele, como outros sacerdotes, estava constantemente em perigo de ser detido. Decidiu deixar a sua família
em Madrid. Em outubro de 1937 chegou a Valência. De lá viajou em um trem noturno a Barcelona e, depois de um desesperador atraso, dirigiu-se em ônibus para a fronteira
do Norte. Quando o ônibus não pode mais seguir, ele e seus companheiros caminharam a pé, escondendo-se das patrulhas republicanas e dos guardas fronteiriços. Uma
noite acamparam em um bosque chamado Rialp; o nome foi posteriormente adotado por um editorial do Opus Dei. saíram em ônibus em 19 de novembro. Quando, de noite,
o grupo finalmente alcançou o Principado de Andorra, era 2 de dezembro.
Seus problemas contudo não terminaram. Depois de alguns dias em Andorra, dirigiu-se à França em caminhão. Entretanto, a estrada estava interrompida pelas
enchentes invernais, e os últimos quilômetros fizeram a pé. Foi uma viagem dura, incômoda e extremamente perigosa. Para o afetado Escrivá do Balaguer representou
sofrimentos possivelmente tão agudos como os que sofria como sacerdote escondendo-se na Espanha republicana. A viagem passou a ser parte do folclore do Opus Dei.
Escrivá, é obvio, fugiu das tropas sociais e comunistas do Governo republicano, não da Espanha. Uma vez na França fez os preparativos para voltar para o lado
nacionalista. Visitou o santuário da Virgem de Lourdes e logo dirigiu-se através da fronteira de Irún à cidade de Pamplona, ao Quartel Geral de Franco em Burgos.
Em 1939 estava com a primeira coluna de tropas franquistas que encontraram em Madrid. Encontrou a propriedade comprada para o Opus Dei em ruínas. Embora, como veremos,
alguns dos que tinham estado com ele antes da guerra Civil permaneciam leais, teve que recomeçar a tarefa de construir o Opus.
Desta vez o êxito foi maior que entre os anos 1928 e 1936. A rápida expansão do Opus depois da guerra é fácil de explicar. Em Burgos, no início de 1938, tinha
compartilhado habitação no 'Hotel Sabadell' com Pedro Casciaro, José Maria Albareda Herrera e Francisco Garrafa. Está claro que naquela época Escrivá do Balaguer
resolveu que o estabelecimento do Opus Dei seria a obra de sua vida. Durante sua estadia em Burgos visitou bispos dentro da zona nacional, falando-lhes de sua organização.
Começava ser conhecido e, mais importante, começava a ser influente. Três coisas foram significativas em particular: primeiro, a ideologia do "nacional-catolicismo";
segundo, as necessidades educativas do novo Governo; e terceiro, a amizade entre o membro do Opus José Maria Albareda Herrera e José Ibáñez Martín, o ministro da
Educação de Franco desde 1939 até 1951.
Embora, o nacional-catolicismo associa-se em particular aos anos pós-guerra, tinha em sua base uma longa história. Sua doutrina fundamental era a identificação
de ser espanhol sendo católico. O amor ao país associado à rejeição de toda heterodoxia, protestante ou judia, liberal ou socialista. A fé religiosa e a identidade
política eram uma: formavam um todo, daí o nome óbvio para esta classe de postura político-religiosa, 'integrismo' que, é óbvio, não se limitava à Espanha, e cujos
defensores eram os 'integristas'. A Papa Pio XII enviou um telegrama a Franco felicitando-o por sua vitória 'católica'. O nacional-catolicismo era uma doutrina intencionadamente
conservadora e muito divulgada entre os católicos espanhóis depois dos anos de Governo anti-católico.
Escrivá do Balaguer não foi a exceção ao entusiasmo geral por esta ideologia católica conservadora. Ao contrário, está claro em Caminho que a abraçou sinceramente.
A máxima 905 recomenda ardor patriótico, e o compara seguidamente com o ardor por Cristo. Com efeito, a introdução à primeira edição aparece recomendando o livro
como um meio de salvar a alma, não do cristão piedoso, mas sim da Espanha: 'Se estas máximas trocarem sua própria vida, será um perfeito imitador de Jesus Cristo,
e um cavalheiro sem mancha. E com Cristo como você, a Espanha voltará para a antiga grandeza de seu Santos, de seus sábios e de seus heróis.'
O vitorioso general Franco tinha dirigido sua rebelião, ele a chamava 'Cruzada', uma palavra que Escrivá utilizou em Caminho contra o Governo republicano
em um intento de voltar para os valores cristãos, supostamente adotados pelos protagonistas do nacional-catolicismo. Teve que reconstruir a cultura tradicional do
povo através da reforma educativa. Os estudos religiosos fizeram-se obrigatórios, inclusive para todos os estudantes universitários. Fizeram-se colégios universitários
nos quais a estrita disciplina estaria sob o controle de membros de ordens religiosas. Estabeleceu o conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) para melhorar
os níveis de educação da Espanha, não só por meio da provisão de residências, tesourarias, bolsas de viagem, etc.
Entretanto, não se permitiu que a promoção da investigação científica se opusesse ao ideal da "Hispanidade". O preâmbulo ao decreto estabelecendo o CSIC falava
de restaurar 'a clássica e cristã unidade das ciências, destruída no século XVIII'. A cargo de todo o CSIC, outro ministro da Educação de 1939 a 1951, estava José
Ibáñez Martín.
Ibáñez Martín não era membro do Opus, mas durante o transcurso da Guerra Civil passou algum tempo como refugiado político na Embaixada do Chile em Madrid.
Ali conheceu o José Maria Albareda Herrera. Os dois tornaram-se bons amigos e Albareda, que era membro do Opus, foi renomado vice-presidente do CSIC e encarregado
de coordenar suas atividades. Efetivamente, dirigiu-o até 1966 e utilizou o Instituto de investigação para promover membros do Opus, embora, alguns eram muito capazes.
Raimundo Pániker, por exemplo, converteu-se em diretor da publicação ensinada pelo CSIC, 'Arbor'.
A Guerra Civil deixou um bom número de cadeiras vacantes nas Universidades espanholas, que o Governo desejava cobrir com candidatos ideologicamente confiáveis.
Na Espanha os professores são escolhidos por meio de uma espécie de exame, chamado oposição, ante um tribunal formado por vários membros do pessoal universitário.
Ibáñez Martín pôde controlar as oposições e certificar-se de que nomeavam candidatos cuja lealdade à Igreja e ao Estado -na prática, as duas coisas eram mais ou
menos sinônimos- estivesse assegurada. Não é surpreendente, portanto, que escolhessem membros do Opus para as cadeiras em número crescente. Eram homens competentes
e de confiança, e conhecidos pelo ministro da Educação. Sublinhemos, uma vez mais, que o nível intelectual que o Opus Dei exige a seus membros mais comprometidos
é muito alto e certamente, recomendariam candidatos do Opus para tais postos.
Em 1939, entretanto, a constante infiltração do Opus Dei no sistema universitário espanhol permaneceria futuramente. Uma preocupação mais imediata de Escrivá,
depois de publicar com êxito Caminho, foi estabelecer novos centros e recrutar mais membros.
Em Madrid, a residência originária da 'D e A' na rua Ferraz tinha sido destruída. Encontraram então alojamento em alguns apartamentos da rua Jenner, o primeiro
com quartos, um segundo para serviços comuns como alimentação. Em fins de 1940, Escrivá adquiriu um pequeno hotel na rua Diego de Léon, que, um ano mais tarde, abriu
como residência para vinte novos estudantes. Ele mesmo vivia ali.
Em 1939 também abriram-se centros do Opus em Valência, Valladolid e Barcelona, em um pequeno apartamento na rua Balmes. Barcelona, rancorosamente opunha-se
a Franco durante a Guerra Civil. As autoridades da cidade sentiam ainda que estavam no fio da navalha; o grupo do Opus caiu rapidamente sob suspeita, possivelmente
denunciado por membros das congregações marianas regidas por jesuítas. Segundo Vázquez, foi em Barcelona onde Caminho foi 'condenado às chamas', onde houve sermões
públicos contra os hereges e um convento de monjas orou pela conversão de Escrivá, apesar do apoio dado ao pequeno grupo, aproximadamente uma dúzia, pelo abade auxiliar
do Montserrat, o grande monastério beneditino, santuário da Virgem que era, e é, o centro do nacionalismo catalão e da devoção católica.
Também havia oposição em Madrid. Na descrição de Vázquez, esta oposição era 'direta e organizada', embora não diz por quem. Rocca, entretanto, sugere que
os oponentes do Opus eram de novo as congregações marianas, organizações laicas ativistas regidas pelos jesuítas. Não viram com bons olhos uma nova corporação invadindo
um território que lhes era próprio por tradição, assim como, suspeito pelo 'segredo' ou a 'reserva' que o Opus Dei tinha adotado. Certamente, naquela época, Escrivá
já não contava com seu confessor, o jesuíta Sánchez Ruiz.
A acusação contra o Opus era muito específica: dizia-se que era uma seita judia vinculada aos maçons. Com as conseqüências da guerra, aquela era uma acusação
séria. Havia um tribunal especial em Madrid cuja tarefa era erradicar a maçonaria ('para vigiar pela segurança do Estado', diz Vázquez). O Opus foi levado ante este
tribunal. Seus membros, em geral, disseram ao juiz, levavam uma vida respeitável, ativa e casta. O juiz perguntou-lhes se realmente viviam a castidade e quando lhe
asseguraram que assim era, declarou que o caso não tinha lugar. 'Não conheci ainda um maçom que seja casto', disse como explicação.
O bispo de Madrid (mais exatamente de Madrid-Alcalá) explicou algumas das razões da hostilidade em torno do Opus Dei em uma carta que escreveu em 24 de maio
de 1941 ao abade-ajudante de Montserrat, em resposta a outra anterior do abade sobre o Opus. É surpreendente não ter mudado as acusações contra o Opus através dos
anos. 'O doutor Escreva -dizia o bispo, dando ao fundador tanto sua ortografia mais plebéia como o título adquirido mais recentemente- não tem outra intenção nem
desejo que não seja preparar muitos profissionais, gente inteligente, de modo que possam ser úteis à pátria e servir defendendo à Igreja. Seus caluniadores -admitia-
o descrevem como uma 'associação secreta', mas desde o começo tinha a bênção das autoridades diocesanas e não fazia nada sem obter essa bênção.'
O bispo seguia logo falando especificamente da 'reserva' -ele negava que fosse secreto- exercida pelos membros do Opus. Ensinava-a o próprio Escrivá, dizia,
como um antídoto contra o orgulho, uma defesa de humildade coletiva, e igualmente como instrumento para uma maior eficácia em seu apostolado de bom exemplo e nos
serviços que, de vez em quando, podiam proporcionar à Igreja. Terminava dizendo ao abade que, no dia anterior, tinha lido uma carta de um superior jesuíta dizendo
que era difamar à Companhia do Jesus afirmar que a Companhia estava decidida a perseguir o Opus, ou a procurar sua destruição.
O bispo, Monsenhor Leopoldo Eijo e Garay, estava evidentemente muito mais informado que o cardeal Pedro Segura arcebispo de Sevilha, ou que Monsenhor (depois
cardeal) Gaetano Cicognani, que era o núncio pontifício em Madrid. Seis meses depois da carta do bispo de Madrid, Gaetano escrevia a Segura pedindo informação sobre
' a existência e o funcionamento da instituição chamada Opus Dei', porque existiam relatórios muito discrepantes sobre a mesma.
Ao responder, no fim de julho de 1941, Segura confessou estar desconcertado. As primeiras notícias do Opus eram, disse, confusas e alarmantes, e procediam
de padres da Companhia de Jesus. 'Deveria saber mais sobre o mesmo -prosseguia-, porque Sevilha era uma cidade universitária, e os estudantes eram 'o objetivo preferido'
do Opus.' Também tinha obtido pouco em suas investigações em Zaragoza, que unicamente serviram para demonstrar o caráter rigorosamente secreto da organização. Tinha
sido difícil conseguir Caminho, que, conforme disseram-lhe, constituía a regra do Opus, e embora agora o possuísse, ainda não tinha tido tempo de lê-lo. Portanto,
não sabia se sua obra era política, social ou apostólica. Nenhum dos que consultara sabia nada, exceto generalidades. Tinha pouca confiança nela pela boa razão de
que adotava formas de proceder alheias à tradição da Igreja.
É estranha a rapidez com que surgiu a oposição ao Opus, e igualmente estranho que as queixas continuem ainda repetindo-se. O Opus é reservado. Sua regra é
difícil, se não impossível de conseguir. Suspeita-se de que é politicamente ativo. Opera em segredo entre os estudantes universitários. Não encaixou bem com os modelos
de trabalho tradicionais da Igreja. Seus principais críticos procedem da Companhia de Jesus.
Possivelmente devido a esta maré crescente de hostilidade, Escrivá decidiu que era o momento de reclamar para o Opus Dei algum estatuto modesto, reconhecível
dentro da Igreja. Teve que fazer-se público. Converteu-se, com a aprovação do bispo Eijo e Garay, em uma 'Pia União'.
Segundo o Código de Direito Canônico do momento ('as Pias Uniões ' não merecem uma menção especial na nova versão do Código), eram 'associações de fiéis formadas
para finalidade de obra piedosa ou de caridade' (Canon 107, pár. 1). Eram a forma mais simples de instituições eclesiásticas, que não requeriam mais que a aprovação
do bispo local, aprovação que Eijo e Garay deu de boa vontade a pedido de Escrivá. Sua carta de 19 de março de 1941 afirma que, tendo lido uma série de documentos
do Opus Dei, dava sua aprovação ao Opus como Pia União, atendendo o Canon 708, que dava aos bispos a autoridade de estabelecer tais organizações 'capazes de receber
obrigações espirituais, e especialmente indulgências, embora, não sejam personalidades jurídicas'. Para acalmar a obsessão de Escrivá pelo segredo, Eijo e Garay
guardavam os documentos do Opus Dei nos arquivos secretos da diocese.
Para ser uma organização que, naquele momento, tinha somente uns cinqüenta membros, homens e mulheres, e umas quantas residências na Espanha, o número de
documentos escritos pelo Escrivá, consultados pelo bispo e guardados logo nos arquivos, era considerável. Eram, com seus nomes espanhóis, o 'Regulamento, o Regime,
a Ordem, os Costumes, o Espírito e Cerimonial'.
No grupo assim regido eram todos, ao menos tecnicamente, laicos, embora com um sacerdote à cabeça. De modo que o fato de que os membros do Opus Dei vivessem
juntos com um modo de vida comum bastante similar ao religioso, não alterava sua posição jurídica na Igreja. Desde meados de março de 1941 eram um grupo reconhecível,
embora pouco conhecido, de laicos com um estatuto canonicamente aprovado.
Escrivá estava, entretanto, a ponto de dar um passo que desde então, fez anômala a posição do Opus. O problema era a promoção de alguns de seus membros ao
estado do sacerdócio.


III. OS ANOS DE EXPANSÃO


Era parte do programa diário de Escrivá do Balaguer reunir-se toda tarde com os membros de sua Pia União em uma sala do apartamento da rua Diego de Leon e
explicar ali o ensino espiritual resumido em Caminho. Em princípios dos anos quarenta havia várias residências do Opus pulverizadas por toda a Espanha. Evidentemente,
não havia modo de estar em todas partes ao mesmo tempo para instruir seus neófitos na forma que acreditava apropriada. Todavia, já havia um pequeno número de sacerdotes
associados com o Opus aos quais confiava a formação dos membros que não podia ver pessoalmente com regularidade. Alguns desses clérigos, aponta Vázquez, eram para
ele uma 'coroa de espinhos'. Sua falta de compreensão do espírito que queria inculcar lhe causava mais problemas que ajuda. A única solução satisfatória era que
o Opus tivesse seus próprios sacerdotes, concluiu.
Se a primeira vista parecia uma solução razoável, no fundo delata uma atitude clerical, fundamentalmente tradicional, para o papel do sacerdote na Igreja
e que, certamente, Escrivá compartilhava com a maioria dos católicos de seu tempo. O mesmo era sacerdote; a liderança e guia espiritual de sua organização deviam
estar em mãos de sacerdotes. Em teoria não havia nenhuma razão para que a Pia União não fosse dirigida unicamente por laicos, e guiada ritualmente por laicos. Organizações
assim começavam surgir na Igreja católica, todavia, para o Escrivá era uma inovação muito grande no papel dos laicos, de cuja habilidade, em qualquer caso, desconfiava:
'Quando um secular se erige em mestre de moral, equivoca-se freqüentemente: os seculares só podem ser discípulos' (Caminho 61). Decidiu, pois, preparar alguns membros
do Opus para ordenação, embora na aparência com consideráveis dúvida em princípio. 'Amo de tal maneira a condição laica de nossa Obra, que sinto fazê-los clérigos,
com uma verdadeira dor; e por outra parte, a necessidade do sacerdócio é tão clara, que terá que ser grato a Deus Nosso Senhor que cheguem ao altar esses meus filhos'.
Para a História, os três primeiros foram Alvaro do Postigo, José Maria Hernández da Garnica e José Luis Múzquiz. Os três eram engenheiros civis.
Começaram seus estudos em Madrid com uma equipe de professores especialmente selecionado pelo Escrivá e com a aprovação do bispo de Madrid. 'Tiveram o melhor
professorado que pude encontrar -disse mais tarde Escrivá-, porque tive sempre o orgulho da preparação científica de meus filhos como base de sua atuação apostólica...
Eu lhes agradeço, porque me destes o orgulho santo -que não ofende a Deus- de poder dizer que tivestes uma preparação eclesiástica maravilhosa'. Escrivá dizia estas
palavras por ocasião do vigésimo quinto aniversário das primeiras ordenações. A capacidade de intuição alegada pelo fundador nesta e na entrevista prévia é típica,
como também o é a atitude possessiva tão notável que mostra para os membros do Opus.
Antes de dar lugar as ordenações teve que resolver um problema. A Igreja exige que os aspirantes ao sacerdócio sejam ordenados para um 'título': em outras
palavras, tem que haver alguém ou alguma instituição que lhes garanta os meios de vida. Normalmente, têm que pertencer a uma diocese ou a uma congregação religiosa
antes de que as autoridades eclesiásticas sancionem a administração do sacramento. A Pia União não servia; não era uma instituição adequadamente constituída.
A solução foi encontrada em 14 de fevereiro de 1943. Naquela manhã, festa de são Valentín, Escrivá celebrava a missa em uma casa da seção de mulheres para
comemorar a fundação da mesma treze anos antes. Ocorreu-lhe então, que devia criar outra seção dentro do Opus, para sacerdotes que dessem "título" de ordenação.
E assim nasceu a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz.
No dia seguinte, Escrivá foi ver Alvaro do Postigo ao Escorial, onde se preparava para os exames. Contou-lhe sua decisão e seu desejo de estender o Opus Dei
tanto em Portugal como na Itália, para o qual se necessitava uma organização bastante mais capitalista que uma Pia União. Porém, caso houvesse uma sociedade sacerdotal,
era o Vaticano quem devia passá-la. Obediente, Alvaro partiu para Roma a solicitar a ajuda papal. Isto acontecia, efetivamente, em plena Segunda guerra mundial.
Durante o vôo a Roma, Alvaro do Postigo presenciou o bombardeio de um navio no Mediterrâneo. Por outro lado, a guerra pouco interferiu no Opus, fora do desembarque
aliado na Sicília, que, comenta Vázquez, 'interpôs-se no caminho das negociações começado pelo presidente geral do Opus em 1943'.
Para assombro dos italianos, concedida uma audiência por Pio XII, Alvaro dirigiu-se ao Papa com o uniforme de gala de engenheiro de procedência espanhola.
Depois, voltou para Madrid. A Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz recebeu aprovação em 11 de outubro de 1943, embora a notícia não chegou à capital espanhola até
a semana seguinte. Foi recebida com alegria. Em 8 de dezembro o bispo de Madrid constituiu formalmente a Sociedade Sacerdotal em sua diocese.
Agora havia duas organizações sob o mando de Escrivá do Balaguer. O Opus Dei, que como 'Pia União' ainda existia, e a 'união sacerdotal' chamada Sociedade
Sacerdotal da Santa Cruz, criada junto àquela. Os problemas jurídicos que perseguiram o Opus surgiram das dificuldades em sair adiante com duas instituições completamente
distintas.
As palavras com que se abre a Constituição de 1943 da Sociedade Sacerdotal sublinham o problema: 'A 'Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz' é uma sociedade preferencial
sacerdotal, de gente que vive em comum sem votos.' Ademais, qualquer outra consideração pertence a este grupo, a exclusão de mulheres, obviamente, um fato esclarecido
pelo parágrafo 8 da 'Constituição', que declara que a sociedade está composta por duas seções: uma de sacerdotes (havia, é óbvio, um só sacerdote no momento de sua
fundação, o próprio Escrivá do Balaguer), e a outra de laicos que estão em caminho do sacerdócio preparando-se para a ordenação. A lei da Igreja requer que uma associação
sacerdotal esteja dirigida por sacerdotes. Não se exige, entretanto, que só possam pertencer a ela sacerdotes.
Era tarefa especial da Sociedade Sacerdotal cuidar do Opus Dei, o qual tinha seus próprios estatutos, acrescentados aos da Sociedade Sacerdotal. Existiam,
entretanto, acusadas similitudes: ambas tinham numerários e super numerários, como se chamavam as duas classes, o equivalente, mais ou menos, a membros de plena
dedicação e a membros de tempo parcial. Enquanto a Sociedade tinha 'escolhidos', com voz no governo do Instituto, o Opus tinha 'inscritos', com muitos mais obrigações
espirituais que os membros menores. A Sociedade Sacerdotal tinha várias casas para os membros que viviam em comum. O Opus somente devia ter uma única residência
(artigo 11). Um preceito bastante estranho era que ninguém batizado depois de adulto podia ingressar na Sociedade Sacerdotal. Tampouco, ingressavam os que não demonstravam,
ao menos em um ramo da família, antepassados católicos durante três gerações. À exceção deste último preceito, o perfil do Opus e o da Sociedade Sacerdotal preparado
a Sagrada Congregação de Religiosos do Vaticano que se ocupava de tais assuntos, parecia-se muito mais a um esboço de Constituição atualmente em vigor, e tampouco
se diferenciava acusadamente dela, ao menos para um observador estranho.
Curiosamente, não havia nada nos estatutos que regem a Sociedade Sacerdotal que apontasse a nenhum requerimento específico secreto. O artigo 12 dos estatutos
do Opus, por outra parte, era muito explícito: 'Para que a humildade não sofra dano, 1°) não deverão publicar-se nem periódicos, nem livros como pertencentes ao
Opus; 2°) os membros não devem levar nenhum sinal que os distingua dos demais, 3) devem insistir para que os membros não falem do Opus à estranhos.'
Até então a fundação de Escrivá era uma organização incardinada na diocese. Por volta de 1946 a Sociedade Sacerdotal tinha uns doze sacerdotes, 250 numerários
e não menos de 400 'oblatos', que viviam similares aos numerários, porém, não residiam em casas do Opus. O Opus Dei tinha em torno de 350 membros subordinados. Sua
espiritualidade simples, prática, bastante masculina, obviamente exercia um atrativo sobre devotada Espanha de Franco em sua determinação de revitalizar a vida religiosa
do país. Havia casas de uma ou outra classe em Madrid, Valência, Barcelona, Zaragoza, Valladolid, Sevilha, Bilbao, Granada e Santiago da Compostela. No ano anterior,
Escrivá visitou três vezes Portugal com a esperança de estender sua obra àquela parte da península Ibérica. Já havia membros de outros países, alguns deles da Itália.
Era o momento, sentia o fundador, de subir um pouco mais na hierarquia das organizações eclesiásticas, de instituto diocesano passar a ser uma instituição com estatuto,
sem restrições na Igreja católica.
O leal Alvaro do Postigo foi de novo enviado a Roma em busca da aprovação pontifícia para um novo estatuto ao Opus Dei. Aquilo era algo que a cúria de Roma
não estava disposta a conceder, fazia apenas três anos que o Opus passou a ser instituto diocesano. Alvaro encontrou o caminho mais árduo do que esperava e pediu
ajuda ao Escrivá. O fundador deixou Madrid em 23 de junho de 1945 em companhia de um membro do Opus que falava italiano, José Orlandis, e dirigiu-se de carro a Barcelona,
detendo-se em santuários marianos pelo caminho. De Barcelona tomou um navio até Gênova e logo seguiu de carro a Roma.
Raimundo Pániker recorda a volta de Roma de Escrivá. 'Filhos meus -disse-lhes-, perdi minha inocência'. Segundo Pániker, foi a Roma como um sacerdote sincero,
honesto, singelo..., em outras palavras, ingênuo. Ali viu como se governava à Igreja, a intriga e a prática de prebendas (ocupação rendosa e de pouco trabalho) dentro
da corte papal. Se os cardeais e monsenhores comportavam-se daquele modo, raciocinou, corretamente, ele, portanto, também podia, certamente só para promover o reino
de Deus. Por interesse do reino, as regras ordinárias de moralidade seriam, senão burladas, ao menos esquivadas. Roma exerceu sobre Escrivá do Balaguer uma fascinação
imensa. No final de agosto retornava a Madrid. Dois meses depois estava de novo na capital italiana, e Roma ia ser seu principal lugar de residência para o resto
de sua vida.
Enquanto isso, a missão no Vaticano não tinha tido muito êxito. Alvaro do Postigo teve que contentar-se com a aprovação da cúria de uma série de privilégios
espirituais. Estes eram para o Opus Dei muito mais importantes do que pareciam a primeira vista. Era típico de uma instituição religiosa conceder aos seus membros
o privilégio de receber, ou autorizar dispensa aos sacerdotes membros, 'indulgências' ou bênçãos de uma ou outra classe. Era uma questão de orgulho. Listas de tais
privilégios disponíveis para os membros de tais instituições e para os que estivessem sob seu guia espiritual. Tinham um papel muito maior na devoção católica dos
anos quarenta e cinqüenta do que hoje em dia. Para o Opus Dei, a concessão de seus próprios privilégios era um bom sinal.
Alvaro reuniu uma considerável quantidade destes privilégios. São de leitura interessante, porque indicam a devoção esperada que vivessem os membros do Opus.
O dia em que um neófito entrava, concedia-lhe indulgência plenária, onde prometia remissão sem purgatório de toda pena devida pelos pecados já perdoados, igualmente
a cada passo dado dali em diante na escala de qualidade de membro. Podia-se obter outra indulgência plenária para quem beijasse a madeira de uma cruz em uma capela
do Opus no dia da festa da Invenção da Santa Cruz (em 3 de maio), e outras menores aos mesmos ato realizado em outras ocasiões. Não há dúvida de que o Opus Dei dava,
e continua dando, grande importância a esta oculta amostra da tradição católica.
Estas concessões tiveram que contentar o Opus naquele momento. Porém, havia coisas maiores pelo caminho. Em 2 de fevereiro de 1947, uma 'Constituição Apostólica'
emitida pela cúria romana e conhecida, como é costume, por suas primeiras palavras como 'Provida Mater Ecclesia', estabeleceu uma nova estrutura jurídica na Igreja
católica: os Institutos Seculares.
As características distintivas de um Instituto Secular são muito adequadas à forma de vida que o Opus promovia entre seus membros. Não há vestimenta, ou hábito
especial; ninguém faz votos em público, embora possam fazê-los em privado. Nos Institutos Seculares aqueles não mudam sua profissão, ou ocupação por serem membros;
nem trocam tampouco seu estatuto eclesiástico: os laicos seguem sendo laicos, os sacerdotes não deixam de ser clérigos.
Esta nova forma de organização foi ansiosamente recebida pelo Opus como a solução procurada. Tão ansiosamente, de fato, que a Sagrada Congregação de Religiosos
fez apressadamente um decreto declarando-o o primeiro Instituto Secular: estas eram exatamente as palavras com as quais começava o decreto, e portanto, pelas que
é conhecido: "Primum Institutum Saeculare". Estava datado exatamente três semanas depois do 'Provida Mater Ecclesia', em 24 de fevereiro de 1947. Que o 'Provida
Mater Ecclesia' enquadrava-se tão bem ao Opus, não surpreendia. Através de seu crescente compromisso com a cúria papal, Alvaro participou dando luz a nova estrutura.
A 'Constituição' foi recebida com agrado pelos membros do Opus, davam a sensação de que tomavam posse da mesma um pouco como tentavam, com considerável êxito, monopolizar
seus últimos estatutos; ainda é o único exemplo do que se conhece como uma 'prelatura pessoal'. Em 1948 Escrivá deu uma conferência elogiando aos Institutos Seculares.
Naquela data o fundador e seus seguidores desejavam que o Opus fosse reconhecido não só como Instituto Secular, mas sim como o primeiro deles, "segundo direito".
O 'segundo direito' é importante, porque certamente havia organizações mais antigas que o Opus que, ou nunca foram consideradas como tais, ou o foram mais tarde.
Bastante curioso é que, em um artigo bibliográfico publicado em 1981, o compilador, Mateo-Seco, omitisse toda menção da conferência do Escrivá, que já publicada.
Todavia, quatro anos mais tarde, em sua contribuição a 'Monsenhor Josemaría Escrivá do Balaguer e ao Opus Dei, reparou a omissão, com uma nota rodapé de página e,
como ele admite, fora de lugar. A passagem que cita do próprio artigo de Escrivá não menciona à 'Provida Mater Ecclesia', o tema sobre o qual estava escrevendo.
Em seu lugar cita algo remoto remarcando aqueles elementos da vida do Opus que, finalmente, Escrivá decidiu que não se enquadravam com o modelo de um Instituto Secular.
A entrevista de Mateo-Seco é, portanto, tendenciosa. Todavia, chama atenção sobre os problemas aos quais o Opus Dei enfrentou e que levaram-no ao ponto que
chegou; assistindo às reuniões de representantes de Institutos Seculares, e repudiando o estatuto por completo. Parece que não sem razão. Porque o 'Provida Mater
Ecclesia' impõe os Institutos Seculares sob o controle da Sagrada Congregação de Religiosos e há uma tendência definida a fazê-los parecer, cada vez mais, às congregações
religiosas. Escrivá do Balaguer opunha-se a tal assimilação.
Dois meses depois do reconhecimento do Opus como Instituto Secular, Escrivá foi elevado à fila de 'Prelado Doméstico do Papa', o que lhe deu direito ao título
de Monsenhor, e a levar púrpura como parte de seu hábito sacerdotal.
"Procurou sempre ter e usar a roupa que era necessária -escreve Bernal-. Houve uma época em que levou solideo* para compensar a idade que não tinha... Depois,
para sublinhar a secularidade do Opus Dei, ficou algumas vezes a batina debruada de vermelho e outros distintivos próprios de sua condição de Prelado Doméstico.
Anos mais tarde confessou que isso lhe resultava muito mais duro que vários cilícios".
[*O solideo é um tecido talhado e costurado em forma de calote esférica, a fim de cobrir a parte superior da cabeça dos dignatários eclesiásticos e que deve ser
retirado "só em nome de Deus" (soli Deo) na parte mais solene das cerimônias litúrgicas]
O sucessor de Escrivá, Alvaro do Postigo, também tem o título de Monsenhor, mas como cabeça da Prelatura recentemente instituída, ostenta um anel de bispo
e uma cruz sobre o peito como um bispo, coisa que não é. Curiosamente, para uma Constituição formal, o documento aprovado em 1950 fez especial menção a que "títulos
de honra, tais como, os normalmente outorgados por autoridades civis ou eclesiásticas aos clérigos ou aos laicos, não estão proibidos aos membros do Opus Dei", embora
estava proibido instigar por eles (parágrafo 14,5). Aos sacerdotes do Opus que chegavam a superiores também permitia-lhes levar algum sinal que indicasse sua classe
social (parágrafo 14.6), uma concessão a qual o novo prelado obviamente dá muita importância.
O novo estatuto do Opus requeria que sua sede estivesse em Roma. No início de 1947 não tinha residência fixa na cidade. O problema expôs uma duquesa italiana,
Virginia Sforza Cesarini. Ela conhecia um edifício no Viale Bruno Buozzi, em outro tempo Embaixada da Hungria na Santa Sede, cujo proprietário desejava vender. Foi
adquirido em julho e Escrivá o chamou 'Vila Tevere'. Fizeram-se amplas melhorias transformando o edifício numa mansão elegante e imponente, em nada semelhante à
outras sedes de institutos religiosos em Roma. O trabalho de restauração só completou-se no início de 1960.
Sem dúvida, o Opus já estava estabelecido na Itália. Fora da Itália e, certamente, fora da Espanha, tinha centros, além disso, em Portugal (desde 1945) e
na Inglaterra (desde 1946). No ano de sua aprovação como Instituto Secular estendeu-se à França e à Irlanda. Dois anos mais tarde também estava no México e nos Estados
Unidos. Em 1950 estabeleceu-se no Chile.
Começou também expandir-se de outras formas. Assim que foi dada a aprovação como Instituto Secular, Escrivá decidiu que o Opus devia ter membros casados.
Vázquez da Prada cita longas passagens do fundador elogiando o matrimônio, porém, uma atitude claramente distinta encontra-se em "Caminho". Inclusive a máxima 28
diz: O matrimônio é para a classe de tropa e não para o estado maior de Cristo. Assim, enquanto comer é uma exigência para cada indivíduo, procriar exige-se só para
a espécie, desinteressando pessoas singulares.
'Ânsia de filhos...? Filhos, muitos filhos, e um rastro indelével de luz deixaremos sacrificando o egoísmo da carne.'
Alguém deve recordar que, para os católicos criados no molde tradicional, como foi Escrivá, a procriação era o propósito primitivo do matrimônio. Engendrar
filhos era inviável uma armada para servir no corpo de oficiais (embora certamente também protegia uma das cargas do lar', máxima 26). À parte o desprezo pelo matrimônio,
a característica oponente ao comentário de Escrivá é a clara distinção de 'classe' que introduz. Certamente, era freqüente no clero ter esses pensamentos, reconhecer
a superioridade da vida celibatária. O estranho apoio em que se dê um sacerdote cujo carisma, alguém se sente instigado a acreditar, foi a criação de um estatuto
laico, ou secular dentro da Igreja.
Seja como for, 1947 viu a adesão de uma categoria de casados às classes do Opus. Pessoa casada podia entrar, e entrava, como membro super numerário, sem esperança
(e sem dúvida, sem desejo) de subir de categoria.
Por volta de 1950, a seção masculina do Opus tinha 2.400 membros, dos quais, aproximadamente, uma vintena eram sacerdotes. Uns dois terços dos mesmos estavam
na Espanha. Seguia-lhe o grupo português, com aproximadamente 260 membros. México e Itália (neste último país o mesmo Escrivá esteve particularmente ativo procurando
adeptos) tinham aproximadamente uns cem cada um. Os países acima mencionados eram aqueles nos quais o Opus Dei tinha mais êxito. Além disso, havia 550 membros da
seção feminina.
O ano 1950 é importante, porque foi o ano em que o Opus Dei foi recompensado com a aprovação formal como Instituto Secular pelo Papa Pio XII. O decreto de
1946 foi um 'decretum laudis', uma declaração generalizada de aprovação. Em 16 de junho de 1950 chegou o documento formal, com a aprovação da nova Constituição.
Embora, publicou-se outro em 1982, este fascinante documento não foi invalidado. A seção 2 das 'Disposições finais' da versão de 1982 insiste em que a regra anterior
segue vigente, exceto no que esteja especificamente revogada. Em especial mantém seu interesse porque, a diferença da última versão, tem muito que dizer a respeito
da espiritualidade da instituição e do método de obrar. Tanto é, que inclusive antigos oficiais da alta classe social do Opus, como Maria do Carmen Taipa, acreditavam
que a versão impressa ao final da prodigiosa aventura do "Opus Dei", de Jesus Infante (1970), não era a Constituição, a não ser 'Praxe', um manual publicado para
guiar membros regularmente atualizado. Entretanto, os oficiais do Opus não negaram que seja a Constituição do Instituto, embora comentassem, desfavoravelmente, tanto
a tradução como a edição.
A maior mudança das variações anteriores da regra do Opus na versão de 1950 é a permissão concedida aos sacerdotes diocesanos para converter-se em membros.
Poderiam, segundo o parágrafo 72, converter-se em oblatos ou em membros super numerários Não podiam, todavia, converter-se em numerários, porque isto lhes separaria
da obediência a seu bispo. Assim resolveu um problema que inquietava Escrivá: pensava, assim o relata Vázquez da Prada, em deixar o Opus para dedicar-se ao progresso
espiritual do clero diocesano: agora podia fazê-lo dentro de sua fundação original.
Outra inovação na Constituição de 1950 (parágrafo 29) era a categoria de 'cooperadores' para ajudar com suas orações, suas esmolas; e colaborando ativamente
em projetos a eles encomendados pelos superiores do Instituto. Em troca, tiram proveito dos benefícios espirituais do Opus. Os cooperadores abrangem inclusive aqueles
'que não professam a verdade católica'; estão, entretanto, em perigo de ser convertidos. Um distinto jornalista católico inglês soube que, por um serviço prestado
ao Opus quando chegou a Londres, era considerado cooperador, encolerizou-se.
Há um número de características incomuns na nova Constituição tal como foi passada em 1950 pela Sagrada Congregação de Religiosos. A Congregação rompeu regras
que ela, ou outros departamentos da cúria papal, estabeleceram fazia tempo para uma melhor direção dos Institutos religiosos. Por exemplo, o código de 1917 insistia
em que, sem a especial aprovação de Roma, que, neste caso, Escrivá do Balaguer não procurou, os Instituto religiosos de mulheres não dependiam de seus equivalentes
masculinos em relação ao governo dos mesmos: deviam ter seus próprios superiores, inclusive ao mais alto nível. A seção de mulheres do Opus, por outro lado, dependia
totalmente de Escrivá ao mais alto nível, e a nível regional do conselho regional.
Também se tinha acordado pelas autoridades romanas que, embora 'estivesse relacionado à consciência' podia ser benéfica como exercício espiritual, estava
tão exposta ao abuso que não devia ser obrigatória aos membros dos Instituto religiosos.
A prática incluía dizer ao superior tudo sobre si mesmo, dificuldades e imperfeições próprias, sendo obrigatória para todos os membros do Opus.
Finalmente, a Sagrada Congregação de Religiosos queria assegurar que as divisões dentro de um Instituto fossem as menores possíveis. Dentro do Opus, entretanto,
não só havia cooperadores, super numerários e numerários ou oblatos: inclusive dentro da categoria dos mesmos numerários havia distinções de classe.
O conjunto é importante aqui é a classe de organização que surgiu a partir da concessão do decreto da Sagrada Congregação de Religiosos em 16 de junho de
1950, o que um comentarista chama a 'fisionomia' do Opus, que, segundo eles, é, era e sempre foi uma organização claramente laica (laica como oposto a 'clerical',
não dirigida por 'clérigos' nem sacerdotes). A Constituição de 1950 é, todavia, segundo a apreciação de todo o mundo, claramente clerical.
Vemos dois níveis. O primeiro, o mais evidente, é que a direção do Opus Dei estava em mãos de sacerdotes. O número de clérigos em 1950 era pequeno, ao redor
de uma vintena em um total de uns três mil membros. Destes últimos, uns quinhentos e cinqüenta eram mulheres e, portanto, não eram aptas para o sacerdócio. Os restantes
dois mil e quatrocentos homens estavam divididos nas duas categorias de numerários e super numerários, de modo que os que podiam ser ordenados (os numerários) eram
uns mil.
As primeiras duas seções do primeiro capítulo da Constituição de 1950 estabelecem que o nome correto da organização é 'A Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz
e o Opus Dei', e que, em conjunto, é um Instituto 'clerical'. Um número de pessoas que, em cálculos do padre, considere-se adequado para a ordenação ao sacerdócio,
embora tecnicamente não sejam clérigos, também pertencem à Sociedade Sacerdotal.
Em primeiro lugar: o Opus Dei é clerical em sua estrutura de controle e na forma em que ser membro pleno parece reservado àqueles que são sacerdotes e àqueles
que 'pudessem sê-lo'.
Segundo: é clerical no sentido amplo no que os católicos utilizam o termo para designar às monjas e aos sacerdotes. Esta é uma utilização de sentido comum.
'Laico' em inglês tem tendência a significar 'não profissional'. Mas, certamente, tanto as monjas como os sacerdotes e os numerosos membros não ordenados das ordens
religiosas ganham seu sustento sendo membros ativos 'profissionais', ou em tempo integral, da Igreja. O denominador comum é que vivem em comunidades. Vivem, em outras
palavras, uma 'vida comum'. A vida convencional de família é substituída por uma forma de vida familiar apoiada na vida da congregação religiosa a que se entregaram.
Já vimos que era o desejo do Escrivá do Balaguer que a vida dentro do Opus fosse, o mais próxima possível, uma vida de 'família'. Não mediu esforços para
levar até o fim, tanto o estilo de vida, como a linguagem estimulante a si mesmo e para com seus parentes próximos. Porém, aos numerários, os únicos membros próprios
da Sociedade Sacerdotal, exigia seguirem os ideais evangélicos de perfeição, tal como, na tradicional interpretação da Igreja católica, exige aos membros das congregações
religiosas. Também exigia que levassem uma vida 'comum' em casas especiais do Opus.
Embora em 1950 receberam a categoria de Instituto 'Secular' -e vangloriavam-se do fato de serem os primeiros de sua classe-, a secularidade não significava
'laico' no sentido ordinário do termo. Na realidade, os membros plenos, os numerários, eram religiosos e monjas.
Essa impressão é mais notada quando a Constituição de 1950 continua falando do processo pelo qual as pessoas se convertem em membros do Opus Dei. Primeiro
há um período de 'provas', logo uma 'oblação' de cinco anos, finalmente a 'fidelidade', com sua obrigação de por vida. Para os que se uniam como numerários, a fidelidade
requeria que tomassem os votos tradicionais de pobreza, castidade e obediência. (De passagem, exigia-lhes novos votos que protegessem a instituição e, ao insistir
na consulta aos superiores, aumentavam o grau de controle que os superiores exerciam sobre os membros.)
Novamente, como religiosos e religiosas totalmente novatos, a vida espiritual dos membros era rigorosamente controlada pela Constituição de 1950. Onde os
membros vivessem juntos como 'família', colocavam uma cruz negra sem a figura de Cristo sobre ela. Toda noite deviam rezar juntos, individualmente se não fosse possível,
o rosário, a prece à Virgem Maria composta de quinze mistérios de dez ave-marias cada um, seguido de uma reflexão sobre o Evangelho lido na missa aquele dia. Cada
habitação devia ter uma imagem da Virgem, a que se saudava o entrar e sair.
Depois estavam as obrigações diárias para cada membro: naturalmente, ouvir missa todo dia, meia hora de oração mental pela manhã e outra meia hora de noite,
leitura espiritual. Cada mês dedicavam um dia inteiro às coisas do espírito e cada ano vários dias a 'exercícios' espirituais ou retiro.
Nada disto seria estranho absolutamente em nenhuma congregação religiosa, masculina ou feminina, com a exceção da prática da cruz sem a figura do Crucificado
('Quando vir uma pobre Cruz de pau, sozinha, desprezível e sem valor... e sem crucifixo, não esqueça que é Cruz é sua Cruz: a de cada dia, escondida, sem brilho
e sem consolo... que está esperando o Crucificado que lhe falta: e esse Crucificado tem que ser você'. Caminho 178). O estranho era a insistência de Escrivá em que
o Opus Dei não era absolutamente uma congregação religiosa, a não ser uma organização laica. Nesse nível não tinha sentido. Nem tampouco tinha sentido quando se
comparam as seções feminina e masculina. Escrivá não via as mulheres a sério como iguais aos homens varões de seu Instituto. Possivelmente, não era nada fora do
comum para seu tempo (as pessoas devem recordar que o Opus se gaba de que Escrivá do Balaguer estava adiante de seu tempo na organização de seu Instituto), entretanto,
expressava modos notavelmente mesquinhos.
Tomemos, por exemplo, a oração que Escrivá ordenou para fechar todas as reuniões formais da seção masculina do Opus. É uma invocação à Virgem Maria: 'Santa
Maria, esperança nossa, trono de sabedoria, roga por nós' A oração designada para as mulheres em circunstâncias similares é só ligeiramente distinta, mas a diferença
é significativa: 'Santa Maria, esperança nossa, escrava do Senhor, roga por nós.' Embora se contava com que as mulheres numerárias, igualmente aos homens, tivessem
ou fossem capazes de obter doutorados, não se contava com que invocassem a Maria como 'trono de sabedoria'. A sabedoria não era para elas. Essa invocação foi substituída
por uma que recordava à seção feminina do Opus ao final de cada encontro que seu papel-modelo era o de escrava, em uma posição de subordinação.
Mas, a hierarquia forma parte da mentalidade do Opus. A Constituição de 1950 mostra ter incluído não menos de quatro classes de membros: numerários, numerários
que tinham tomado votos adicionais (ou 'fidelidades'), numerários conhecidos como membros 'inscritos' que se encarregavam basicamente das atividades do Opus Dei,
regentes de casas similares e que tinham voto, quando se votava, nos assuntos do Instituto, e finalmente os numerários, 'escolhidos', nos quais se podiam votar.
A ascensão de categoria dependia do desejo do Escrivá e de seus conselheiros.
Exatamente no momento em que o Opus legislava estas distinções de classe, outros corpos religiosos dentro de Igreja católica estavam fazendo justamente o
contrário, tentando reduzir as rígidas distinções que até então tinham existido, por exemplo, entre 'irmãs leigas' e 'monjas de coro' -as primeiras faziam todo o
trabalho manual e as últimas (gozando do título de 'mãe') tinham todos os papéis dominantes-. Em 1950 tais distinções viam-se já como destruidoras da boa vida comunitária;
entretanto, Escrivá do Balaguer insistia nelas. Longe de estar à vanguarda do desenvolvimento da vida religiosa, o Opus estava retrocedendo aos velhos modelos que
estavam sendo abandonados por outros, do mesmo modo que Escrivá os impunha.
Esta, pois, foi a Constituição sob a qual o Opus Dei existiu durante mais de trinta anos, embora com a crescente convicção de que não era uma forma jurídica
adequada para o que Escrivá tinha em mente quando fundou a organização. Assim, ao menos, é como a história do desenvolvimento legal do Instituto é apresentada pela
mesma Obra.
Contudo, é curioso que o Opus Dei fosse a primeira organização a receber o estatuto de Instituto Secular. Esperávamos que a primeira Constituição aprovada
fosse o modelo para outras, ao invés de transgredir as próprias normas da Sagrada Congregação voltando para práticas que esta desejava eliminar. Não obstante Salvador
Canais, em seu 'Secular Institutes and the State of Perfection, datado em Roma em 26 de outubro de 1952, recomenda a estrutura do Opus Dei, tal como foi passada
em l950 como uma 'solução ideal' para um problema canônico que ele mesmo arrumou (Salvador Canais, 'Secular Institutes and the State of Perfection'. Dubín: Scepter,
1959, pág. 127. A edição original espanhola foi publicada por Edições Rialp). Seu livro dedica todo um capítulo a algumas 'notas jurídicas' sobre o primeiro dos
Institutos Seculares, a 'Associação Sacerdotal da Santa Cruz e Opus Dei'. Não surpreende porque, é obvio, o doutor Canais é um sacerdote do Opus. Também era membro
da Sagrada Congregação de Religiosos e encarregado do escritório especial estabelecido para tratar dos Institutos Seculares. Possivelmente as curiosas cláusulas
permitidas na Constituição do Opus, em contradição com a prática habitual da Congregação, deviam muito à influência do Opus Dei dentro da mesma Congregação.
Houve circunstâncias estranhas na história da concessão da Constituição do Opus como Instituto Secular. No verão de 1947, uma época em que os observadores
profissionais do Vaticano, ou fogem do calor de Roma, ou, ainda, não estão como se diz perspicazes, Alvaro do Postigo, em nome do Opus Dei, perguntou se os bispos
ou outros superiores religiosos conhecedores dos pormenores dos Institutos Seculares que eles consideravam até certo ponto secretos, estavam também obrigados a guardar
tal segredo sobre estes Institutos em seus entendimentos com outros. A Sagrada Congregação de Religiosos resolveu que assim deviam obrar.
Dois anos mais tarde, quase no mesmo dia, Alvaro formulou de novo uma pergunta sobre o segredo à Sagrada Congregação. Seria necessário, ou somente conveniente,
mostrar ao bispo, em cuja diocese o Opus desejasse abrir um centro, a íntegra da Constituição do Instituto ou comprometer-se corporativamente com ela em obras apostólicas?
Se a congregação decidisse que não era necessário entregar a Constituição completa, então o Opus queria saber que parte deveria ficar a disposição do bispo. A Congregação
decidiu que não era nem necessário nem conveniente entregar a Constituição completa. Os únicos documentos que o Opus, ou qualquer outro instituto similar, estava
obrigado a revelar eram o decreto de aprovação, um resumo da Constituição e uma lista dos privilégios de que gozava o Instituto que pudessem de algum modo implicar
ao bispo local.
Quase ao mesmo tempo em que fazia a segunda petição à Congregação, Alvaro quis saber também se o bispo local 'tinha' que ser informado a respeito de todas
e cada uma das residências do Opus, ou somente das mais públicas. De novo obteve a resposta que sem dúvida queria: unicamente a existência de centros completos (e
de atividade apostólica formal de natureza corporativa) devia ser revelada ao bispo dentro de cuja jurisdição estas atividades seriam exercidas.
Estes três notáveis documentos da Sagrada Congregação de Religiosos publicaram-se originariamente, com um comentário muito favorável, em uma publicação técnica
sobre Direito canônico, o 'Commentarium pró o Religiosis' daquele mesmo ano, 1949 (vol. 28, págs. 303-304). Voltaram a emergir na mesma publicação, com ocasião da
concessão ao Opus de seu novo estatuto como prelatura pessoal quase um quarto de século depois (vol. 64, 1983, págs. 351-353). O comentário favorável seguia em seu
local. O comentarista apontava que Alvaro do Postigo, aparentemente, não pedia estas disposições só para benefício do Opus Dei, mas também para o de todos os novos
Institutos Seculares.
Estes exercícios adicionais em segredo, ou de forma furtiva tiveram aprovação do Opus como Instituto Secular e a definitiva aprovação de sua Constituição.
Em realidade, se o que o Opus temia era que as Constituições caíssem em mãos de um bispo -e não de um bispo qualquer mas sim de um que fora bastante favorável para
ter permitido que o Instituto trabalhasse em sua diocese- está longe de parecer claro. A Constituição de 1950 proclamava que a organização considerava um sinal distinto
mostrar 'absoluta e total adesão e submissão à hierarquia e à autoridade na Igreja' (parágrafo 208).
Isso, aparentemente, não significava que estivesse disposto a confiar em membros da hierarquia dando-lhes cópias da Constituição.
É difícil reconciliar estes documentos tão ansiosamente procurados entre 1947 e 1949 com a própria afirmação de Escrivá:
"É fácil conhecer o Opus Dei. Trabalha a plena luz do dia em todos os países com o reconhecimento jurídico total das autoridades eclesiásticas e civis. Os
nomes de seus diretores e de suas empresas apostólicas são bem conhecidos. Qualquer um que deseje informação pode obtê-la sem dificuldade" (J. M. Escrivá do Balaguer,
'Conversations with Monsignor Escrivá do Balaguer. Manila: Sinag-Destrói, 1977, pág. 50. A entrevista citada era com o Peter Forbarth, de 'Time', em 7 de janeiro
de 1966).
A acusação de secretismo não desaparecerá, apesar das constantes negações do Escrivá e de membros inferiores de que seja uma organização secreta. Aqui se
alude simplesmente a isso para explicar de novo o problema de classificar a história do Instituto. Os relatos oficiais ou semi-oficiais que há se estendem na aparentemente
milagrosa expansão da organização. Vimos anteriormente quão longe chegou em 1950. No ano seguinte, segundo Vázquez da Prada, chegou a Colômbia e a Venezuela. Depois,
nas duas décadas seguintes, estabeleceu-se na Alemanha, Peru e Guatemala (1953), Equador (1954), Uruguai (1956), Brasil e Áustria (1957). Em fins dos anos sessenta
havia centros no Japão (desde 1959), nas Filipinas (desde 1964) e em outras partes.
O Opus também se estabeleceu na África, especialmente no Quênia, embora pouco depois se estendeu a Nigéria em 1958. Três anos mais tarde, estabeleceram-se
no Nairobi duas escolas, 'Strathmore College' e 'Kianda School'. Com certa justificação, o Opus as reivindica como as primeiras escolas internacionais do continente
africano.
Em 1957, quatro anos depois de chegar ao Peru, e a pedido direto da Santa Sede, os membros do Opus foram trabalhar na Prelatura do Yauyos. Este tipo de atividade,
em que o Opus se encarregou de toda uma zona do país a que a Igreja não podia proporcionar clero, supôs uma nova direção para o Instituto, mas uma direção que teria
um grande impacto, especialmente no Peru (ver capítulo VI).
O papel do Opus na Austrália foi especialmente discutível. A Obra estabeleceu-se ali pela primeira vez em 1963 e em 1971 estabeleceu, a pedido do cardeal
Gilroy, arcebispo de Sidney, uma Faculdade na Universidade de New South Wales. Chama-se Warrane College' e, como é habitual nestes casos, sem nenhum sinal externo
de sua filiação. É a única Faculdade católica da Universidade e atrai em particular estudantes de zonas rurais, que sabem pouco do Opus antes de chegar lá. Só três
anos depois de haver-se estabelecido, a mesma Universidade constituiu um comitê para investigar a direção de 'Warrane', em resposta ao desassossego existente no
campus. Embora o relatório do comitê em termos gerais desculpava ao Opus, expressava sua surpresa pelo grau de pressão exercido sobre os estudantes para que se unissem
ao Opus e por algumas das normas da Faculdade. Por exemplo, os estudantes protestavam pela censura tanto dos jornais como da Televisão. Muitos deles, muitos mais
que em outras residências da Universidade, procuravam outro alojamento assim que podiam. Em 1985, os sacerdotes conselheiros do arcebispo de Melbourne recomendaram-lhe
que denegasse a permissão ao Opus para abrir uma casa naquela diocese (John Lyone, 'The Australian', 28, 9).29 e 30 de novembro de 1987).
A instituição educativa possivelmente mais importante do Opus, com segurança a de mais prestígio, começou a existir em 1952. Aquele ano estabeleceu-se na
Universidade de Navarra em Pamplona, sob a direção de um dos membros mais distintos do Opus, Sánchez Bela, que voltou da Argentina especialmente para este propósito.
Em 1960, com uns mil e quinhentos estudantes, foi formalmente reconhecida como Universidade pela Santa Sede e Escrivá do Balaguer foi renomado grande Chanceler
A primeira vista, não havia nada incomum em tudo isto: Espanha já possuía Universidades pontifícias, e o Concordata entre a Espanha e a Santa Sede permitia
a criação de tais instituições. Mas o que o Opus conseguiu estabelecer em Pamplona, com a ajuda do núncio em Madrid, Monsenhor Antoniutti, um amigo leal do Opus
Dei, e do cardeal Ottaviani, um dos mais conservadores dos prelados romanos, foi algo totalmente fora do comum. Das cinco faculdades formalmente estabelecidas, somente
uma, a de Direito canônico, estava diretamente relacionada com a Igreja; as demais eram seculares. O Opus, em outras palavras, procurou uma alternativa às instituições
do Estado, e encarregaram-se de que não tivessem comparação na Espanha.
Porém, as questões não eram tão singelas. Os jesuítas dirigiam duas veneráveis Universidades no Norte da Espanha, a de Aspas, então perto de Santander, e
agora em Madrid, e de Deusto, em Bilbao. Procuravam uma classe similar de estatuto para uma ou outra destas instituições, preferencialmente para o de Deusto, que
então tinha setenta e cinco anos. A eleição de Roma com o advento da Universidade de Navarra foi um golpe severo para as esperanças dos jesuítas e para seu prestígio.
Não fez nada para melhorar as relações entre eles e o Opus.
Fora outro problema. Navarra era uma Universidade privada e supõe-se mantida por recursos privados. Quando Vázquez relaciona suas fontes de ganhos, são provenientes
de negócios e corporações locais, instituições culturais e fundações que fazem doações, tanto espanholas como estrangeiras. Essa não é a história completa. O Governo
forense de Navarra dava-lhes recursos consideráveis e o fato de que agora, sob um regime socialista, esteja em processo de retirar sua ajuda, está causando problemas
consideráveis à administração da Universidade. Igualmente, o Governo central proporcionou subvenções em 'quantidades importantes' (Daniel Artigues. 'O Opus Dei na
Espanha'. Paris: Arena Ibérico, 1971, págs. 9-10). Tais fatos, parecem um pouco injustos, por não dizer nada generoso, que Escrivá dissesse, ao ser entrevistado
por Peter Forbarth:
'Em muito poucos lugares tivemos menos facilidades que na Espanha... A situação na Espanha com respeito aos nossos apostolados corporativos tampouco foi favorável.
Os Governos de países nos quais os católicos são minoria, ajudaram às atividades educativas e de assistência social fundadas por membros do Opus Dei de forma mais
generosa que o Governo espanhol'.
Embora outras Universidades do Opus Dei foram abertas em outras partes do mundo, a de Navarra continua sendo a obra mestre da organização, com departamentos
particularmente bons de estudos de jornalismo e de empresa, duas iniciativas típicas do Opus. Recentemente, abriu-se uma filial em Roma, em um intento de estabelecer
sua própria escola de teologia no centro do catolicismo romano. O Opus, sem dúvida deseja emular aos jesuítas com sua prestigiosa Universidade Gregoriana, ou aos
dominicanos com o Angelieum, ou a outras congregações religiosas com suas próprias instituições atraindo estudantes, principalmente eclesiásticos e monjas, de todo
o mundo, mas, incluindo alguns seculares.
O intento do Opus de entrar nesta área recebeu uma acolhida decididamente fria por parte dos colégios romanos. Parte da hostilidade é dirigida para sua doutrina,
claramente conservadora, tratada em todo este livro, e outra parte se deve à hostilidade geral sentida para o Opus por muitos sacerdotes católicos. Em parte,também
é uma simples questão de sobrevivência, especialmente, para os colégios de mentalidade bastante tradicional, como o 'Lateranense' e o 'Angelieum', que temem perder
sua clientela em favor do Opus. Como comentava um administrador de uma das mais antigas Universidades pontifícias, está sendo cada vez mais difícil recrutar gente
de todo o mundo; muitas monjas e seminaristas preferem estudar no local em que, finalmente, terão que trabalhar. A última coisa que Roma precisa é outra faculdade
eclesiástica.
Apesar da oposição, abriu-se uma casa ao lado da Igreja de São Jerônimo. Nesta casa, em fins do século XVI, viveu seus últimos dias São Felipe Neri. Neri
tinha baseado uma sociedade de sacerdotes seculares, a Congregação do Oratório, e os padres do Oratório consideravam o edifício como sua casa matriz. Não eram proprietários,
todavia, custodiavam-na e estavam à serviço da igreja anexa. Abriram caminho, inclusive durante o pontificado de Paulo VI, para tirá-los e entregar os edifícios
ao Opus. Em seu relato do acontecido, a publicação do Oratório não nomeia ao Opus, chamando-o simplesmente 'outra entidade muito capitalista que atuava através de
canais duvidosos, porém, efetivos'. Os padres do Oratório foram aos tribunais e perderam, quando a causa foi vista ante um oficial que pertencia a essa 'poderosa
entidade'. Unicamente a intervenção pessoal de Paulo VI evitou que fossem desalojados.
Depois da morte de Paulo VI, em agosto de 1978, o Vicariado de Roma (o corpo que se ocupa da diocese de Roma em nome do Papa, que é tecnicamente, é óbvio,
o bispo de Roma), nomeou um sacerdote do Opus para a igreja de São Jerônimo. Iniciaram-se os passos legais para tirar os padres do Oratório, a casa ao lado, e entregar-lhe
ao Opus Dei, ante a aflição dos filhos de são Felipe. Seu interior foi destruído e reconstruído para alojar ao centro de estudos do Opus.
As Universidades, todavia, eram e são como tais, uma parte muito pequena do apostolado do Opus. Muito mais característico é o estabelecimento de residências
universitárias, tanto para homens como para mulheres. 'Netherhall House', em Hampstead, Londres, é uma delas para homens. Está situada em uma das zonas mais agradáveis,
e especialmente, mais caras, de Londres.
Os membros do Opus chegaram pela primeira vez à Inglaterra em 1946, para ampliar seus estudos. Em 1948 estabeleceram-se em um apartamento no Rutland Court,
Knightsbridge, uma zona particularmente elegante da cidade; iniciaram contato com estudantes universitários guiando-lhes espiritualmente. No início, tiveram pouco
êxito, ao menos, segundo os critérios do Opus. Vázquez da Prada assinala que em 1950 só um inglês, chamado Michael Richards, solicitou seu ingresso. Ante tão escasso
número de candidatos, este fato foi claramente um acontecimento inesperado. A situação era muito distinta na Irlanda. Os irlandeses recrutados se utilizavam para
reforçar a escassez de candidatos na Inglaterra. Havia apenas meia dúzia de membros ingleses, quando Escrivá decidiu abrir uma residência universitária em Londres.
Obteve permissão do cardeal arcebispo do Westminster para abrir um centro. Encontrou, rapidamente, um hotel no Netherhall Gardens e foi prontamente adquirido.
Começou seu funcionamento em meados de 1952, e foram levados membros da seção de mulheres para cuidar dos ministérios domésticos. Dois anos mais tarde redigiu-se
uma escritura formal de 'trust' com o Michael Richards e João Antonio Galarraga como administradores. Declarava-se que o propósito do 'trust' era o progresso da
fé católica.
Outras residências fundaram-se mais tarde, tanto em Londres como em outras partes, como 'Greygarth' em Manchester e, em 1958, 'Grandpont' em Oxford. O relato
que Vázquez faz deste último acontecimento é cuidadoso. Também tem cuidado de ressaltar o papel desempenhado pela autoridade eclesiástica, na forma de um bispo auxiliar
do Westminster, o bispo Craven, e do administrador da Catedral de Westminster Monsenhor Gordon Wheeler, que mais tarde seria bispo de Leeds. (Estes fatos aconteceram,
exatamente, três anos antes de minha chegada à Oxford como estudante. A história do Grandpont foi minha primeira apresentação ao Opus Dei; inclusive tive um amigo
que viveu ali durante um curto tempo).
Era natural que o Opus, com sua forte concentração no apostolado universitário, desejasse estabelecer um centro em Oxford. Sua tentação natural era abrir
uma residência para estudantes como o tinha feito em Londres. Entretanto, foi mal aconselhado, carecendo conhecimentos suficientes sobre o sistema de Oxford. Os
'colleges' da Universidade são precisamente residências universitárias, ou assim começaram. O desejo do Opus de abrir uma residência parecia naquele momento ser
equivalente a abrir um 'college'. As autoridades universitárias não o tolerariam. Além disso, a zona universitária da cidade de Oxford está na diocese de Birmingham,
cujo formidável arcebispo (à maturação um licenciado de Cambridge) era George Patrick Dwyer, um inglês puro com pouco tempo para os melindres hispânicos do Opus.
Depois da confusão sobre a abertura de uma residência, proibiu-os em seu território. Felizmente, para o Opus, apareceu no mercado uma casa, 'Grandpont', do outro
lado do rio, ainda em Oxford, mas na diocese, muito mais condescendente, do Portsmouth. Adquirida, foi aberta como uma espécie de casa de hóspedes para atender estudantes
pós-graduados da Universidade. O resultado foi um campo excelente para recrutar candidatos para o Opus Dei.
Embora pareça estranho, Escrivá estava especialmente afeiçoado com a Inglaterra. Vázquez calcula que, deixando à parte a Itália e Espanha, passou mais tempo
no Reino Unido do que em outro país do mundo. Foi à Londres pela primeira vez em 1958, e depois, cada verão até 1962, fugindo do calor de Roma ou de Madrid, ocupava
uma casa ao norte em Hampstead Heath ou West Heath Road. Desejava promocionar o Opus Dei ao mundo 'anglo-saxão', mas, também porque via a Inglaterra, e especialmente
Londres, como uma encruzilhada, um local onde a organização podia chegar às pessoas das distintas partes do mundo, ou como um lugar onde chegaria o Opus. A nível
pessoal, ficou, especialmente, impressionado pelas duas antigas cidades universitárias de Oxford e Cambridge, pelas velhas Igrejas, nas quais rezava o rosário, ajoelhava-se
ante os altares maiores e pronunciava jaculatórias, completamente indiferente à sensibilidade protestante. Não é surpreendente; provavelmente, nunca esteve exposto
a uma cultura não católica, e com toda segurança, não durante muito tempo.
IV. UMA MUDANÇA DE ESTATUTO


É parte da mitologia do Opus que Escrivá do Balaguer se apropriou das conclusões do Concílio Vaticano Segundo (Vaticano II). O Concílio, convocado pelo Papa
João XXIII, reuniu mais de dois mil bispos católicos do mundo. Os documentos redigidos e publicados entre 1962 e 1965 marcaram maior liberalização (o Papa João preferia
a palavra 'aggiornamento', ('posta em dia') em questões como a tolerância religiosa, a relação entre a Igreja e o mundo, as estruturas da Igreja, etc. Em especial,
o Concílio sublinhou o importante papel que exercer os cristãos laicos, e esta é a razão pela qual se sugere que Escrivá foi um precursor da visão do Vaticano II
sobre o futuro da Igreja. A verdade do assunto, entretanto, é totalmente distinta.
Longe de aprovar o resultado do Concílio, Escrivá trabalhou duro para opor-se a ele. Seus biógrafos não tentam esconder a aflição que o Concílio lhe causou,
e se orgulham de seus esforços para procurar que suas inoportunas conclusões não afetassem aos membros do Opus. O Concílio foi inspirado pelo Papa João XXIII, porém,
sua conclusão e suas decisões foram postas em prática pelo Papa Paulo VI. Maria do Carmen Taipa foi durante dez anos diretora da seção de mulheres da Venezuela,
todavia, trabalhou antes para a sede do Opus em Roma. Conviveu muito de perto com Escrivá. Disse-me que em certa ocasião lhe ouviu dizer de Paulo VI que 'Deus em
sua infinita sabedoria deveria levar este homem'.
Nada incomodou mais Escrivá -e isto também diz-se de muitos sacerdotes maiores da Igreja em geral, que encontraram dificuldade em mudar os hábitos de toda
uma vida- que as novas normas sobre a forma na qual rezariam a missa.
O propósito da 'missa normativa' (ou 'missa corrente'), como a chamou, era celebrar a eucaristia de cada domingo de modo mais inteligível para a congregação
de fiéis. Até então, os sacerdotes rezavam a missa de costas ao povo. Esta postura, bastante estranha, tinha seus defensores. Alegava-se que exemplificava melhor
a estrutura da Igreja: um sacerdote à frente, dirigindo-se ao Altíssimo em nome do povo. Era um conceito hierárquico, e, certamente, significava que em sua maior
parte a congregação não tinha idéia do que acontecia no altar, ao ser eficazmente impedido pelo corpo do sacerdote com sua pesada vestimenta. Uma das primeiras
coisas a mudar, portanto, era a posição do altar. Quando foi possível, separou-se da parede posterior da igreja e se colocou mais perto dos fiéis. O sacerdote devia
estar de pé atrás do altar, frente ao povo e associando-os com ele na prece. Era uma compreensão mais democrática da celebração litúrgica.
Na residência para estudantes do Opus em Londres, 'Netherhall House', Vladimir Felzmann, o diretor, gostou muito das reformas na liturgia e decidiu colocar
o altar tendo o sacerdote frente ao povo. Fez-lo com a completa aprovação, naquele momento, das autoridades do Opus. A obra foi até o fim com o melhor gosto possível
e muito custosamente. Era atrativo. Logo, chegou uma mensagem de Roma: não devia haver altares frente ao povo. A obra de Felzmann foi desmantelada, de novo a um
alto preço, e restituída a antiga posição de costas aos fiéis.
Todavia, não era somente questão da posição do altar. A 'missa normativa' tinha uma variedade de estruturas que permitiam ao sacerdote um considerável grau
de liberdade adaptando a liturgia aos seus fiéis. A forma utilizada nas casas do Opus Dei era rigorosamente controlada, inclusive até qual das quatro aclamações
devia utilizar-se depois da elevação das sagradas espécies. Uma das maiores mudanças, certamente, foi a língua que agora se utilizava. As missas rezava-se em língua
vernácula, exceto nas casas do Opus Dei, nas quais o latim era norma. Escrivá do Balaguer estudou com cuidado as novas regras sobre a missa. Enviou pautas detalhadas
aos membros do Opus Dei sobre como aplicar-se-iam, advertindo ao mesmo tempo os perigos enfrentados pela dissolução da vida da Igreja. Vázquez indica que Escrivá
do Balaguer também insistiu em que se dessem conferências aos membros para lhes ajudar a 'descobrir a verdade'. Ditou instruções precisas sobre seu conteúdo.
Depois passou muito tempo na América Latina, advertindo seus fiéis sobre os perigos que se originaram na raiz do Concílio. Foi ao México por um mês em 1970;
no Brasil, Argentina, Chile, Peru e Equador; na Venezuela passou três meses em 1974; no ano seguinte voltava para a Venezuela e seguiu até a Guatemala. América Latina,
sem dúvida, era o berço da teologia da liberação com seu peculiar modo de ver o mundo e a Igreja através dos olhos dos pobres. Escrivá do Balaguer não aceitava nenhuma
destas separações da tradicional teologia da Igreja católica. Fazendo comentários sobre os setenta clérigos que encheram a cabeça com psicologia e que estavam poluídos
por uma propaganda social de matiz marxista, Vázquez observa que estabeleceram a idéia de que no passado a Igreja era a Igreja dos ricos. Para equilibrar os extremos,
diz, muitos deram apoio a 'movimentos comunitários suspeitos, ou passaram ao setor 'dos pobres'. (O fundador, aberto a chamada universal de Cristo, preferia falar
da 'Igreja das almas', porque a filiação divina nada tem a ver com filiações sócio-políticas)'. Os sacerdotes que se envolveram em tais 'movimentos sócio-políticos',
acrescenta Vázquez, metiam-se em um beco sem saída.
Enquanto isso, as coisas não estavam bem ao Opus como Instituto Secular. Em 1 de outubro de 1958. Escrivá escreveu uma carta pomposa aos membros de seu Instituto.
Sua existência era desconhecida (exceto, supõe-se, àqueles do Opus que a receberam) até que se imprimiu como parte da documentação incluída no volume das novas Constituições
de 1982. É a carta 'Non ignoratis' ('Não ignorada'), e contém a notável afirmação seguinte: 'De fato, não somos um Instituto Secular, nem daqui em diante nos podem
aplicar esse nome.' Naquele momento era dizer uma coisa extraordinária, dado que a aprovação formal do Opus Dei como Instituto Secular era somente de oito anos antes,
e toda a idéia dos Institutos Seculares foi abraçada e levada adiante pelo Opus só uma década antes. Ainda é mais estranho que, se tal era a atitude oficial do Opus,
continuasse assistindo as reuniões dos Institutos Seculares e seus membros descritos como tais, ao menos até 1962. O que fez Escrivá mudar de opinião?
A resposta é clara na mesma carta. Alegava que embora sendo parte de um Instituto Secular, exigia dos membros do Opus, cada vez mais, um modelo de vida equivalente
ao dos membros de uma congregação religiosa. O advogado canônico do Opus, Julián Herranz, escreveu em 1964 que todos outros Institutos Seculares se desviaram do
modelo proposto originariamente como forma de vida; somente o Opus Dei permaneceu fiel à sua idéia original. Existia algum fundamento nesta crítica de que os Institutos
Seculares foram assimilados, paulatinamente, ao modelo das congregações religiosas, embora a grande influência do Opus, na Sagrada Congregação de Religiosos, teria
capacidade de evitar que acontecesse. Em sua conversação com o Peter Forbarth, a que nos referimos no capítulo III, o mesmo Escrivá dizia assim:
'Uma organização poderosa que prefiro não nomear e que sempre considerei que gastava suas energias ao longo dos anos falsificando o que não entendia. Insistiram
em nos considerar monges ou frades e perguntaram: por que todos não pensam iguais? E por que não levam um hábito religioso ou ao menos um próprio para distinguir?'
Segundo um antigo membro do Opus, a organização culpada de trair o verdadeiro espírito do Opus Dei era a Companhia de Jesus. Eu mesmo era membro da Companhia
fazia uns sete anos. Não recordo que o Opus figurasse em nenhuma ordem do dia dos jesuítas.
Sabe-se lá a razão, mas, em janeiro de 1962 Escrivá do Balaguer deu os primeiros passos para uma mudança de estatuto para sua organização em uma carta dirigida
ao cardeal Amleto Cicognani, então secretário de estado, equivalente a Primeiro-ministro do Papa. Solicitou mudasse o conteúdo ao Papa João XXIII.
Chegando neste ponto, Escrivá solicitava a fundação do Opus Dei como 'prelatura nullius'. Este curioso anacronismo existente na Idade Média quando abades
poderosos controlavam a terra ao redor de suas abadias e tinham o direito a ter tribunais, demonstrou ser útil recentemente. Em essência, um abade ou um prelado
tinha um enclave diminuto que lhe dava um estatuto mais ou menos equivalente ao de um bispo. Podiam unir-se sacerdotes ao enclave, e serem governados de acordo com
suas leis particulares, embora trabalhassem em outra parte. Em 1954, a antiga abadia cisterciense de Pontigny converteu-se na base legal para a Missão na França,
uma organização de mais de cento e setenta e cinco sacerdotes que trabalhavam para a reconversão de seus compatriotas. Quando era capelão em Madrid, Escrivá uniu-se
a uma 'prelatura nullius'. Seus estudos doutorais sobre a abadessa Las Huelgas informou-lhe bem sobre tais estruturas e suas possibilidades. Esta era a solução que
queria para o Opus. Foi recusado. Suas propostas continham, disse o Papa João, dificuldades insuperáveis não especificadas.
Papa João morreu dois anos mais tarde e Escrivá tentou novamente. E de novo foi recusado. Paulo VI disse-lhe que o assunto deveria ser resolvido de acordo
com as decisões do Concílio Vaticano II, então, em todo seu apogeu. Na prática, as principais organizações religiosas foram postas em um estado de morte aparente.
Se por alguma razão tinham que convocar uma reunião geral durante este período -como fizeram os jesuítas quando morreu o padre geral-, esta devia esperar até que
o Concílio completasse suas tarefas. Ao reunir-se de novo, a assembléia tinha que concordar a estrutura da organização com as conclusões do Vaticano II. Escrivá
convocou um Congresso Geral do Opus para junho de 1969. Seu propósito principal era decidir se as novas estruturas surgidas na Igreja do Vaticano II ofereciam maior
possibilidade que as da 'prelatura nullius' para estabelecer uma nova base legal para o Instituto. Quatro anos mais tarde, Escrivá notificou formalmente Paulo VI
da marcha do Congresso, porém, dois anos depois, e quase no mesmo dia, em 26 de junho de 1975, Escrivá do Balaguer morreu. Morreu de repente, ao meio-dia, em 'Vila
Tevere'.
Naquela tarde, seu sucessor, Alvaro do Postigo, rezou a missa e fez uma homilia sobre ele. 'Desde que morreu o padre -disse-, repeti muitas vezes: agora sim
que nós ficamos órfãos. E não é verdade, não é verdade! Porque, além de ter a Deus Pai, que está nos céus, temos a nosso padre no céu, que dali se preocupa com todas
suas filhas e com todos os seus filhos.' A repercussão sobre 'nosso padre que está no céu' chegaria a ser comum entre os membros do Opus. A expressão elevava Escrivá
a um nível parecido ao de Deus na consciência das pessoas. Ou no mínimo, era um santo.
Santo ou não, ainda não tinha entregue os documentos do Congresso de 1969 à Santa Sede. Em princípio de março de 1976, Alvaro do Postigo, agora encarregado
da instituição, foi ver o Paulo VI. O Papa disse-lhe que a questão do estatuto jurídico do Opus ainda seguia aberta, entretanto, havia uma solução à vista. Ao chegar
neste ponto, o novo presidente geral sugeriu que, dada a recente morte do Escrivá, o momento poderia não ser oportuno. Paulo VI esteve de acordo, porém, indicou-lhe,
como o fez em junho de 1978 quando Alvaro do Postigo foi, novamente, vê-lo, que o Opus só tinha que pedir...
Em novembro desse mesmo ano o novo Papa, o conservador João Paulo II, escreveu uma carta de felicitação ao Opus no décimo quinto aniversário de sua criação.
O cardeal secretário de estado, ao entregar a mensagem pessoal do Papa, acrescentou que João Paulo queria resolver o assunto do estatuto do Opus. Correspondia ainda
à Congregação de Religiosos e Institutos Seculares, todavia, autorizariam os passos para que deixasse de ser um Instituto Secular. Em janeiro de 1979 o Opus teve
seu primeiro contato oficial com a Sagrada Congregação para os Bispos. Foi um intercâmbio de impressões ou pouco mais, porém, expressou-se a esperança de que o Opus
pudesse logo ser transformado em uma prelatura pessoal (para esta estrutura, ver págs. 87 e sigs.), dependente da Sagrada Congregação para os Bispos.
No mês seguinte, Alvaro do Postigo foi de novo ver João Paulo II. Contou ao Papa todo o feito até o momento, mas, como unicamente só mesmo Papa podia iniciar
formalmente o processo para configurar o Opus como uma prelatura pessoal, o presidente geral do Opus perguntou-lhe se o faria. O Papa não somente esteve de acordo,
mas, atuou rapidamente. Na sessão de trabalho seguinte, o cardeal prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, Sebastiano Baggio, amigo íntimo do Opus, recebeu
do Papa a tarefa de dar incumbência aos estudos necessários. Em menos de uma semana depois, Baggio escreveu ao Alvaro do Postigo pedindo-lhe que apresentasse um
estudo completo sobre o tema. Era 7 de março. Em 23 de abril, um relatório completo estava sobre a mesa para Baggio despachar. Embora, marcado o dia tanto prática
como juridicamente, o relatório era em essência preparado, originariamente, para Paulo VI, assim o deixava claro a carta de acompanhamento.
A primeira parte deste documento repassava a história e o estatuto do Opus Dei, revelando de passagem que havia então 72.375 membros em oitenta e sete países
distintos, e que, mais ou menos, dois por cento dos membros eram sacerdotes. O relatório sublinhava a natureza única do Opus, e os problemas surgidos em virtude
de, até então, a Igreja não ter uma estrutura legal apropriada para o mesmo; este fato, dizia o relatório, ocasionou ao fundador graves sofrimentos e dificultou
o trabalho da organização. Depois, continuava discutindo as outras formas jurídicas adotadas obrigatoriamente, e, finalmente, apontava que o Opus Dei cumpria os
requisitos para uma prelatura pessoal. Haveria vantagens para a Igreja com a concessão deste estatuto, concluía o relatório, porque reforçaria o serviço que o Opus
oferecia à Igreja local e poria a disposição da Santa Sede um 'corpo móvel' (a propósito, uma expressão utilizada usualmente pelos jesuítas), iria onde mais se necessitasse.
Os membros do Opus veriam-se, com isso, liberados de alguns dos problemas enfrentados quando trabalhavam. Aqui apareciam de novo úteis pormenores estatísticos: em
479 Universidades e escolas de segundo ensino nos cinco moderados; em 604 publicações; em 52 emissoras, tanto de Rádio como televisão; em 38 agências de Imprensa
e publicitárias; em 12 produtoras de cinema; e em empresas de distribuição. Muitos outros Institutos religiosos com distintos estatutos jurídicos conseguiram, e
continuam conseguindo, funcionar de forma totalmente satisfatória sem o benefício de ser uma prelatura pessoal. O Opus, todavia, encontrou dificuldade.
No início de junho, Alvaro do Postigo escreveu de novo ao Baggio para explicar-lhe alguns possíveis mal-entendidos. Planejou-se que esta carta, ou parte dela,
lessem-na os espanhóis em um longo artigo publicado pelo seminário católico Vida Nova, onde, de fato, tomei parte conforme descrito acima. Mas, pouco antes de sua
publicação, apareceram dois membros do Opus com uma carta das autoridades de Roma, proibindo a aparição do artigo, intitulado 'A transformação do Opus Dei'. Não
está claro quais eram as objeções; o artigo é, em sua maior parte, admiravelmente objetivo apesar da prolongada hostilidade de Vida Nova para o Opus. Atendia-se,
exatamente, aos documentos, exceto no último parágrafo final do comentário. Ali faziam-se conjeturas sobre a oposição ao avanço do Opus no tempo de Paulo VI, devido,
em especial, aos relatórios secretos enviados à Roma por 'personalidades da Igreja espanhola'. Existia oposição, diz o anônimo autor do artigo, inclusive dos setores
'mais elevados'. Que tinha em mente o cardeal de Madrid apenas pode duvidar-se. O diretor recusou primeiro a petição dos membros do Opus, mas 'Vida Nova' é uma revista
dirigida pela Igreja. O artigo não apareceu.
Apesar da mencionada oposição espanhola, a Sagrada Congregação para os Bispos constituiu um 'comitê técnico' que entre fevereiro de 1980 e fevereiro de 1981
celebrou vinte e cinco sessões de trabalho. Também havia uma comissão especial de cardeais nomeada pelo mesmo Papa para examinar o assunto. Informou em 26 de setembro
de 1981. Em seguida, solicitaram opiniões de todos os bispos em cujas diocese operava o Opus Dei, ao que parece à uns quinhentos. Esta informação procede de uma
carta do cardeal Baggio, publicada no periódico do Vaticano 'L'Osservatore Romano' em 28 de novembro de 1982, escrita para acompanhar a declaração de que o Opus
conseguiu o estatuto de prelatura pessoal proposto. O detalhe sobre a consulta aos bispos é realmente muito curioso: não pelo fato de que fossem consultados, é óbvio,
mas sim pelo silêncio que seguiu a sua resposta. Se esta fosse indiferente, ou inclusive favorável, Baggio diria com toda segurança. O fato de não fazer comentários
sobre a reação episcopal, pode somente entender-se como uma negativa. Em realidade, a reação espanhola foi particularmente hostil.
Não muito depois do relatório da Comissão cardinalícia lembrou-se o novo estatuto. Alvaro do Postigo informou à seus membros em uma acalorada carta com data
de 8 de dezembro de 1981. A carta, entretanto, deveria ser um segredo no momento, e ser compartilhada unicamente com os Conselhos Gerais (masculino e feminino) do
instituto. Esperaram bastante tempo antes de dizerem aos outros membros. O Papa João Paulo II concedeu uma audiência ao cardeal, prefeito da Sagrada Congregação
para os Bispos, em 5 de agosto de 1982, no curso da qual 'passou, confirmou e ordenou' a publicação de uma declaração anunciando a constituição da prelatura. O Escritório
de Imprensa do Vaticano anunciava em 23 de agosto que o Papa decidiu nomear o Opus Dei prelatura pessoal. Os documentos atrasaram 'por razões técnicas', mas, chegariam
em breve. Esta notícia foi dada pela Imprensa de todo mundo, exceto no mesmo Vaticano, 'L'Osservatore Romano' não trazia a história.
Quando chegou a declaração formal, datava o anúncio do Vaticano, em 23 de agosto. De modo bastante precipitado esteve disponível em um texto italiano e os
serviços de notícias católicos informaram também. Fez-se público de forma oficial só em 28 de novembro, data em que se aprovaram as Constituições. Essa é também
a data da Constituição Apostólica assinada pelo Papa, que criava formalmente a nova prelatura pessoal. Entretanto, esse documento não se publicou até março do ano
seguinte, quando se tomaria ainda outra medida. A igreja de Santo Eugênio é uma das duas paróquias romanas controladas pelo Opus. Neste edifício o núncio apostólico
para a Itália entregou as escrituras do novo título do Opus ao presidente geral em 19 de março de 1983.
Estranhamente, a declaração que estabelece a prelatura pessoal publicou-se com um comentário escrito por um membro da Sagrada Congregação para os Bispos,
Monsenhor Marcelo Gostalunga. Declarando que Paulo VI encomendou a idéia de uma prelatura pessoal a Monsenhor Escrivá do Balaguer já em 1969. Era o decreto do Vaticano
II, sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, que lançou a idéia das prelaturas pessoais. Ao falar da necessidade de redistribuir o clero nas zonas de maior necessidade,
o documento Vaticano II acrescenta:
"Para estes fins, portanto, podem-se estabelecer alguns seminários internacionais; diocese especiais, ou prelaturas pessoais; e outros órgãos desta classe.
De forma a ser decretada para cada empresa individual, e sem prejuízo aos direitos dos ordinários locais (exemplo, bispos diocesanos), os sacerdotes podem por meio
das mesmas ser atribuídos ou incardinados para o bem geral de toda a Igreja." ('Decreto sobre a vida sacerdotal e o ministério', parágrafo 10.)
O que isto quer dizer, exatamente, foi fixado por Paulo VI em um documento datado 6 de agosto de 1966 conhecido como 'Ecclesiae Sanctae'.
Esta nova estrutura, entretanto, não foi, originariamente, pensada como um meio de estabelecer uma congregação religiosa, mas sim como um meio 'para a apropriada
distribuição de sacerdotes, para objetivos pastorais especiais em pró de grupos sociais diversos, tanto se estes objetivos alcançam uma zona dada, como em uma nação
ou em qualquer parte da Terra'. Estes 'grupos sociais diversos' eram categorias identificáveis de pessoas que não eram adaptadas facilmente, dentro das estruturas
tradicionais, por sua particular forma de vida, ou por sua mobilidade: por exemplo, ciganos ou soldados. As prelaturas pessoais, em outras palavras, não foram concebidas
para pessoas como os membros do Opus Dei.
Assim pois, longe está a evidência que esta nova estrutura resulte mais satisfatória para o Opus, que sua anterior representação como Instituto Secular. Não
haveria problema quanto aos sacerdotes referidos. Serão incardinados a prelatura de modo muito parecido ao demais clérigos incardinados nas diocese. As dificuldades
surgem com os membros laicos. A 'Ecclesiae Sanctae' do Papa Paulo VI previa que os laicos, tanto casados como solteiros, pudessem associar-se ao trabalho de uma
prelatura. Mas, está claro que os laicos são considerados, em sua maior parte, como recipientes do ministério de uma prelatura, não como um elemento principal -no
caso do Opus o elemento principal- de tal ministério.
A declaração da Sagrada Congregação para os bispos afirmava que os membros laicos do Opus Dei 'dedicam-se à realização dos objetivos apostólicos próprios
a prelatura, assumindo compromissos sérios e específicos'. Fazem-no por meio de um vínculo contratual e não em virtude de votos particulares'. 'Particular Churches
and Pessoal Prelatures' é a tradução de uma obra espanhola publicada pela Universidade de Navarra em 1985. O autor, Pedro Rodríguez, é membro do Opus, embora, este
fato não se menciona na edição em língua inglesa e o Opus logo que mencionado é, naturalmente, tampouco discutido. Rodríguez sustenta um ponto técnico de que o vínculo
que ata aos laicos ao Opus se inclui no canon do novo Código de Direito Canônico que rege os contratos. Posto que o conteúdo dos contratos é, realmente, muito similar
ao conteúdo dos votos que fazem os religiosos e religiosas de uma ordem ou congregação, não está claro qual seria o significado desta distinção legal.
Que implicações tem o novo estatuto do Opus Dei para o futuro? O documento do Papa Paulo VI sublinha que haveria fortes laços entre as prelaturas pessoais
e os ordinários locais (bispos). Entretanto, nenhuma das disposições da declaração dá a um ordinário muito sobre os membros laicos do Opus que vivem dentro de sua
diocese, embora estivessem tecnicamente sujeitos a sua autoridade. Poderia negar a permissão de abrir um centro dele, mas, uma vez aberto um, seria realmente muito
difícil. Poderia negar ao clero do Opus a permissão para assistir aos laicos sob sua jurisdição, todavia, não poderia negar a permissão para assistir a outros membros
do Opus. De fato, não há razão para que um membro do Opus não receba sua inteira educação na fé desde as classes de catecismo e primeira comunhão, até a confirmação;
e mais à frente, dentro de centros pertencentes ao Opus. Embora, tal pessoa em teoria, estaria sujeita à autoridade diocesana, os sacerdotes diocesanos poderiam
nunca ter ocasião de contatar tal pessoa.
Uma situação ainda mais anômala poderia surgir do novo estatuto do clero do Opus Dei. Continuam sacerdotes 'seculares' e, como tais, gozam de 'voz ativa e
passiva' nas assembléias do clero. Contudo, se um centro for devidamente constituído, um bispo não tem voz alguma a respeito de sua presença em sua diocese entre
seu clero. Alguns membros de seu próprio clero diocesano seriam recrutados para auxiliar o Opus ou a 'Terceira Ordem'. Não precisariam revelar sua aderência ao mesmo,
a não ser, expressamente, solicitado. Depois disto, é possível imaginar uma assembléia de sacerdotes dominados por membros do Opus.
As situações esboçadas mais acima parecem rebuscadas, porém,são de verdade? Em janeiro de 1985 houve um curioso incidente na diocese espanhola de La Rioja.
Durante uma assembléia de clérigos para discutir a estratégia pastoral, o reitor do seminário de Logroño, no qual Escrivá do Balaguer estudou de 1918 até 1920, mostrou
um relatório sobre moral. Disse que o Opus se consolidou no seminário muito antes de que ele fosse renomado reitor. Entre os membros do Opus e seus simpatizantes
(alguns deles, acrescentou, menores de quinze anos) e o resto do clero diocesano, se não existia um conflito aberto, existia, ao menos, uma guerra fria constante,
dando lugar à divisão, não somente no mesmo seminário, mas, em toda a diocese.
Acusavam ao Opus de antepor os interesses da prelatura ao bem da diocese e que por meio de guia espiritual dada aos seminaristas associados a eles, destruíam
a unidade de espírito que deveria prevalecer na diocese. Quando se pediu uma explicação, nenhuma foi dada. 'São realmente clérigos diocesanos - perguntava o relatório-,
ou pertencem a prelatura pessoal?'.
Está na liturgia, diz o relatório, que mostremos unidade de propósito. Os membros do Opus, entretanto, seguem fielmente a risca a lei e não há participação
ativa no espírito da liturgia. O reitor atacou depois, amargamente, as pautas de ensino dos professores do Opus Dei no seminário, acusando-os de irem à caça da heresia.
Terminava dizendo que o seu, não era o único seminário que sofria; outros na Espanha estavam igualmente divididos. Queria que a situação fosse examinada pelo comitê
de bispos espanhóis para seminários e Universidades, e que se não podiam resolver o conflito entre a prelatura pessoal e a diocese, o caso deveria ir a Roma
A situação piorou, dizia o reitor, com a criação da prelatura pessoal. Esse acontecimento deu aos simpatizantes do Opus 'certo ar de vitória e de estar no
bom caminho a respeito de tudo'. Evidentemente, não lhes tinha inculcado o sentido de colaboração entre diocese e prelatura cuja legislação estabelecia as prelaturas
como uma nova forma de governo dentro da Igreja católica, esperava e exigia.
A experiência da diocese de La Rioja não inspira confiança. É difícil não pensar no Opus como uma Igreja dentro da Igreja, que era, exatamente, o que os bispos
espanhóis temiam quando pressionaram Roma, sem nenhum êxito, contra a concessão ao Opus do estatuto que agora, claramente, goza.

V. AS CONSTITUIÇÕES DE 1982


A ambição de Escrivá do Balaguer foi satisfeita, depois de sua morte. Embora o Papa Paulo VI tivesse denegado a petição de uma 'prelatura nullius', a mais
conveniente -ao Opus-, João Paulo II concedeu ao sucessor de Escrivá o estatuto de uma 'prelatura personalis' para a organização. Já não era um Instituto Secular.
Se o resultado era exatamente o proposto ao Vaticano ou ao Opus, é outra questão.
Desde a concessão ao Opus seu estatuto atual, houve ocasiões nas quais o estabelecimento de outra prelatura pessoal parecia mais apropriado, ao menos dentro
do contexto do decreto, que abria a possibilidade desta estrutura dentro da Igreja católica, mas não se estabeleceu. Talvez, a cúria papal começou considerar a sério
as preocupações dos bispos por ter uma jurisdição independente dentro de sua diocese. Ou que soubessem de mais problemas como os padecidos pelo seminário diocesano
de La Rioja.
Por outro lado, os céticos viram nisto os resultados de maquinações do Opus Dei. O Opus estava muito contente de ser o primeiro Instituto Secular, porém,
não lhe agradou, absolutamente, que outras organizações se unissem nesse estatuto e começaram a distorcer a interpretação do Instituto Secular para que se adaptasse
um pouco mais a seu próprio modelo. Enquanto o Opus Dei era a única prelatura pessoal, poderia fixar, dentro dos limites do Direito Canônico, o que é exatamente
uma prelatura pessoal. Dificilmente seria coincidência que quase todos os artigos que apareceram em publicações católicas sobre prelaturas pessoais fossem escritos
por um membro do Opus. Não é que eles o citem no artigo, não acreditam que seja necessário manifestar interesse.
Do ponto de vista do Opus, a dificuldade real com a solução da prelatura é que não se adapta adequadamente aos membros plenos do Instituto que sejam laicos.
A lei da Igreja reconhece um sistema pelos quais os sacerdotes se convertem em membros de uma diocese (ou de uma ordem ou congregação religiosa se forem jesuítas,
franciscanos, pasionistas, etc) através de um processo chamado incardinación. Embora oito cânones do novo Código da Igreja -cânones 265-272- regulamentam a incardinación
e se menciona de vez em quando em outro lugar, o término não está definido. Seu significado, não obstante, é bastante claro: é o processo através do qual um sacerdote
se converte em membro de uma diocese, ordem ou congregação religiosa ou prelatura pessoal (isto se menciona expressamente). A instituição encarrega-se de atender
suas necessidades em troca de seu serviço à diocese, ordem, congregação ou prelatura.
É evidente, pelo Código, que este processo se refere unicamente aos clérigos: aparece em um compartimento titulado 'Ministros sagrados ou clérigos'. Os laicos
não figuram. Podem colaborar com a prelatura, unir-se a ela por meio de uma forma de contrato ou convênio, se assim o desejarem, mas não podem, sejam ou não numerários,
exigir ser incardinados à prelatura, nem, por conseguinte, ser membros plenos do Opus. Nem sequer, são membros plenos da forma em que o eram quando o Opus era Instituto
Secular. Para uma organização que afirma ser completamente laica, isso é uma paradoxo. Converteu-se em uma corporação mais clerical que nunca. Desde aí a questão
suscitada, anteriormente, de os líderes do Opus, afinal de contas, estarão satisfeitos com a posição legal que agora conseguiram para si.
Talvez, a direção queria que seus membros laicos, de qualquer categoria, tanto homens como mulheres, estivessem sujeitos aos sacerdotes da prelatura como
os católicos comuns estão sujeitos a seu bispo dentro da diocese. Mas, esse não é o caso. Embora os laicos assistam todos os serviços religiosos dentro dos centros
do Opus Dei, missa, confissão, instrução religiosa para seus filhos, e guia espiritual para si mesmos, são tecnicamente membros da diocese local. Embora de fato
são tratados como membros de uma diocese, isso é, a prelatura, por lei estão ainda submetidos ao bispo local. Esta pode não ter sido a intenção do documento que
estabelece a prelatura pessoal, mas é conseqüência da legislação contida no novo Código de Direito Canônico.
O Código é inequívoco. Há quatro cânones que regem as prelaturas pessoais. Destes, o primeiro, o número 294, diz: 'As prelaturas pessoais serão estabelecidas
pela Sede Apostólica depois de consultar as Conferências Episcopais afetadas. Compõem-se de 'diáconos e sacerdotes' do clero secular. Seu propósito é promover uma
distribuição apropriada de 'sacerdotes'' (entre aspas é acrescentado).
De forma similar, tudo o que o Código diz sobre o compromisso laico é que 'os laicos podem dedicar-se à obra apostólica de uma prelatura pessoal por meio
de acordos estabelecidos com a prelatura', Canon 296).
Pelo contrário, os clérigos incardinados ao Opus estão certamente fora da jurisdição do bispo local. Tudo o que as autoridades do Opus precisam fazer é obter
a permissão de um bispo para estabelecer um centro em sua diocese. Depois disto, sua autoridade dentro de tal centro limita-se assegurar que a capela, o tabernáculo
no qual se guarda o Santíssimo e o local no qual se escutam as confissões, estejam bem cuidados.
É obvio, isso não impede que os membros do Opus tratem ao bispo local com considerável, e às vezes exagerado, respeito, ao menos levianamente. Um bispo que
informava de sua 'visita' a um centro do Opus disse que, para seu assombro, receberam-no à porta com uma vela levada por um coroinha ante um bispo em sinal de sua
classe social. Esta arcaica prática desapareceu anos atrás e nunca este determinado bispo tinha visto em seus quinze anos de ofício. Todavia, apesar de tão cerimonioso
tratamento, sua autoridade real sobre o clero do Opus uma vez estabelecido o centro e admitida a prelatura, era mínima.
Tudo isto pareceria um tanto pedante, caso o Opus Dei não desse tanta importância à sutilezas do Direito Canônico. O Direito Canônico é, efetivamente, a faculdade
da qual a Universidade de Navarra, navio-escola, emblema intelectual do Opus, mais se orgulha. Tal como estão as coisas, as regulamentações da Igreja insistem em
que só os sacerdotes ou os diáconos podem ser membros de prelaturas pessoais. Portanto, apesar das afirmações do Opus de que tem uns oitenta mil membros, pode-se
dizer com segurança que o Opus não é uma organização laica, e sim clerical, e que seu número, segundo a última edição do calendário do Vaticano, o 'Anuário Pontifício',
é somente de 1.273 sacerdotes (dos quais 56 denominam-se 'sacerdoti novelli' ou novos sacerdotes), mais de 352 seminaristas 'maiores', ou estudantes de teologia.
O Anuário, que de forma bastante estranha coloca as prelaturas pessoais (sendo o Opus a única) nem depois da lista de diocese, nem depois da lista de ordens e congregações
religiosas, a não ser depois dos 'Ritos' da Igreja católica, dando-lhe com isso, uma falsa aparência de independência, menciona a existência uma única igreja do
Opus Dei (2).
(2) Estes pormenores são tirados da edição de 1985 Annuario Pontifício, pág. 1.029
A versão impressa das Constituições começa com a carta apostólica 'UT sit'. Está datada em 28 de novembro de 1982 e começa elogiando o trabalho do Opus (iniciado
por inspiração divina, diz o Papa João Paulo II, pelo Escrívá do Balaguer em 2 de outubro de 1928 em Madrid) entre os laicos não somente na Igreja, como também em
toda a sociedade, para a santificação de seus membros em seu trabalho e através dele.
O Papa segue sublinhando (de fato, em contradição com as Constituições que seguem) a unidade 'orgânica e indivisível' do Opus, entre seus sacerdotes e seus
laicos, tanto homens como mulheres. Em 1962, diz a carta, Escrivá propôs tentar uma forma jurídica apropriada para sua organização. Com a referência ao Concílio
Vaticano II e a seu decreto 'Presbyterorum Ordinis', que vai a seguir, o Papa dá a impressão de que Escrivá solicitou primeiro uma prelatura pessoal. Como se viu,
não foi esse o caso; primeiro desejava uma 'prelatura nullius'. A carta evita os problemas que surgiram, passa rapidamente a 1969, quando o Papa Paulo VI concedeu
ao Escrivá do Balaguer seu desejo de convocar um Congresso especial para estudar a transformação do Opus Dei de acordo com as diretrizes dadas pelo Vaticano II.
(Em realidade, contava-se com que todas as ordens e congregações religiosas convocassem congressos gerais com este propósito.) Dez anos depois, prossegue o Papa,
entregou todo o assunto à Sagrada Congregação apropriada, a dos Bispos, a qual, depois de considerar o tema com todo detalhe, recomendou que o Opus se convertesse
em uma prelatura pessoal. O Papa explica depois detalhadamente, em sete remotos numerados, os termos da criação da nova prelatura pessoal.
Isto segue-se de uma 'Declaratio' da Congregação para os Bispos, já tratada (ver págs. 86-87) e de um breve decreto do núncio apostólico para a Itália, declarando
que a carta do Papa já foi posta em prática. Este documento está datado em 19 de março de 1983.
Logo vem 'a carta Non ignoratis de nosso muito querido fundador'. Chama-se 'Non ignoratis' ('Não podem ignorar'), em latim, como os documentos da cúria romana,
embora, certamente, não o é. Esta carta, de quatorze remotos numerados, está datada em 2 de outubro de 1958 e está assinada assim: 'Iosephmaria.' Uma nota de rodapé
explica que em 14 de fevereiro de 1964, quando o fundador começou formalmente a mover-se para trocar o estatuto do Opus Dei, próprio dos Institutos Seculares, enviou
uma cópia desta carta, junto com os estatutos vigentes então, à Papa Paulo VI. Agora, o que o Fundador tanto ansiava alcançou, prossegue a nota, é uma grande alegria
incluí-la na edição dos estatutos.
É, realmente, uma carta importante (ver págs. 80-81), porque revela os profundos sentimentos de Escrivá contra o Estatuto de Instituto Secular que o Opus
Dei trabalhou para obter no final dos anos quarenta. 'De fato -diz-, não somos um Instituto Secular, nem no sucessivo aplicam-nos este nome' (parágrafo 9). Antes
insistiu (parágrafo 9): 'Não somos religiosos, nem podem chamar-nos religiosos missionários. Utilizou a mesma carta para tratar dois assuntos mais: as acusações
de que os membros eram manipulados para os próprios fins do Opus, e de que o Opus era uma organização secreta.
Embora, importante na história do Opus, é um pouco estranho tanta importância dada à carta nas Constituições, especialmente, porque os acontecimentos ultrapassaram,
claramente, o ponto principal da carta: que Escrivá já não queria que o Opus Dei fosse considerado um Instituto Secular. O estilo da carta, por outro lado, dá a
impressão de que foi escrita para a prosperidade, e só assim, tem sentido que as palavras de Escrivá conservem-se nas Constituições.
Esta carta do fundador segue-se de outra missiva, ligeiramente mais longa, de Alvaro do Postigo, assinada 'Alvarus'. Está datada em 8 de dezembro de 1981;
em outras palavras, quase um ano antes da carta de João Paulo II erigindo formalmente ao Opus Dei em uma prelatura pessoal, e muitíssimo antes de que se dessem outros
passos necessários. De novo, como à carta de Escrivá, deu-lhe um título ao modo curial: 'Nuper nuntiatum' ('Anunciado ultimamente'). O que foi 'ultimamente anunciado'
é a transformação do Opus Dei em uma prelatura pessoal. Esta notícia, diz o homem destinado, pouco depois converte-a em prelado, não pode ser ainda proclamada ao
mundo em geral, nem aos membros do Opus, porque o Papa quer que primeiro se inteirem aqueles bispos que têm operações do Opus Dei em sua diocese. Entretanto, Alvaro
está escrevendo a carta, preparando o momento no qual será conhecida a notícia: inclusive no latim estilizado, sua excitação é evidente. Naturalmente, fala deste
resultado como aquele pelo qual Escriva do Balaguer trabalhou e, parece dizer, tinha dado sua vida.
O futuro prelado prossegue, no compartimento 3 de sua carta, para afirmar que esta nova forma era desejo do fundador desde muito tempo e que era a 'definitiva
configuração jurídica de nossa vocação', aquela que Deus inspirou o fundador em 2 de outubro de 1928. Dada as vicissitudes da forma legal que o Opus Dei tomou ao
longo dos anos, manifestar que esta última seria 'a definitiva' é realmente uma afirmação atrevida. A afirmação implícita de que Escrivá trabalhou desde o começo
para este exato resultado, parece estar em desacordo com os fatos.
Nos ítens seguintes, Alvaro explica o problema que preocupou Escrivá em sua carta 'Non ignoratis', a natureza 'laica' do Opus Dei. A vocação de um membro
do Opus, sublinha, não muda de modo algum a situação pessoal de um indivíduo. Em uma frase em latim tão pouco usual que o editor acreditou conveniente pôr no rodapé
da página a versão original espanhola, não pode nos separar nem (a grossura de?) Uma folha de papel de fumar. Como sinal desta falta de diferenciação entre os membros
do Opus e o resto dos laicos, cita, como exemplo, a lealdade dos membros do Opus às diretrizes e ao Conselho Romano Pontífice e dos bispos diocesanos. Tiveram que
batalhar, diz, antes de chegar a este estatuto. Pessoas acusaram-lhe de querer estar fora do controle da hierarquia. Porém, nada disto era certo, porque tanto 'os
sacerdotes plenamente seculares como os fiéis comuns... seguem agradavelmente, dependentes dos bispos em tudo o que se refere à cúria pastoral ordinária'. O que
distingue os membros do Opus, afirma Alvaro, é o grau de lealdade que mostram para o bispo; são os mais fiéis de sua congregação, ao rogar por ele e mortificar-se
por ele ao menos uma vez ao dia.
Reconhece que alguns bispos não gostam do Opus Dei, 'quase exclusivamente de diocese nas quais não trabalhamos ainda, ou a bispos novos de diocese nas quais
a muito tempo trabalhamos'. Isto, atribui a falta de compreensão. Pensam no Opus, diz, como se fora uma congregação religiosa ou uma Pia União ou um movimento eclesiástico
ativo, tanto nas estruturas da Igreja como nas do Estado. Quando as diferenças são explicadas, afirma, tudo vai bem.
Durante o resto da carta, o único ponto que Alvaro reconhece e comenta, atentamente, é o estatuto de sacerdotes que se associam com o Opus através da Sociedade
Sacerdotal de Santa Cruz. Se queriam unir-se, diz, deveriam dizer-lhe ao bispo local, falar com ele. Não deve haver, sublinha, divisão de autoridade entre o Opus
e o bispo, nem conflito de obediência. A única obediência que deve um membro da Sociedade Sacerdotal, insiste Alvaro, é a seu bispo. Exceto, provavelmente, a obediência
devida aos novos estatutos, que entraram em vigor em 8 de dezembro de 1982. 'Todos aqueles incorporados ao Opus Dei, tanto sacerdotes como laicos, também sacerdotes
oblatos e super numerários', têm que manter os mesmos 'juramentos' feitos sob o anterior regime, a menos que os novos estatutos legislassem, explicitamente, contrário,
dizem as 'disposições finais' da nova Constituição.
Estas novas Constituições, o 'Codex Iuris Particularis Operis Dei' ('O Código de Direito próprio do Opus Dei ) consta de cinco 'títulos' ou apartados principais,
que logo se subdividem em capítulos. Os capítulos constam de um regulamento, muitos deles de novo com subapartados, numeradas, consecutivamente, desde o começo ao
fim. O modelo é claramente o 'Código de Direito Canônico' oficial da Igreja católica, ordenado exatamente com o mesmo padrão.
Embora, questionariam o caráter de algumas disposições, poucos católicos negariam que uma instituição tão vasta e tão complexa como a Igreja requer um conjunto
de normas como o Código Canônico. Todavia, considerariam desafortunada a necessidade de um código assim. Como Santo Ignácio de Loyola observou no preâmbulo de suas
próprias Constituições para a Companhia de Jesus, talvez fosse muito mais feliz se não houvesse necessidade delas, caso seus jesuítas fossem dirigidos, unicamente,
'pela lei interior da caridade e do amor que o Espírito Santo imprime nos corações'. Reconhecia ser impossível, porém, o enfoque manifestado no preâmbulo, comum
a todas as Constituições jesuítas, faz delas um documento espiritual mais que jurídico.
As Constituições do Opus Dei, por outro lado, são estritamente jurídicas e parecem deleitar-se nisso. Isto é uma evidência mais do grau em que o Opus perdeu
o contato com o aspecto da Igreja que, durante o Concílio Vaticano II e o período subseqüente, pôs uma ênfase maior no trabalho do espírito e menos minuciosa observância
das regras.
O primeiro capítulo do primeiro ítem trata da natureza da prelatura e seu propósito'. A prelatura acolhe tanto clérigos como laicos, diz o primeiro parágrafo,
todavia, rapidamente esclarece que enquanto os sacerdotes podem ser incardinados a ela, os laicos que 'foram movidos por uma chamada divina' se incorporam 'de uma
forma especial', por meio de um 'vínculo legal'. É uma organização mundial, com sede em Roma (é curioso quanto enfatiza neste detalhe geográfico) e é regido pelas
normas próprias às prelaturas pessoais e a outros estatutos particulares ditados pela Santa Sede.
O objetivo do Opus Dei define-se como a santificação de seus membros através do exercício das virtudes cristãs apropriadas a seu estado na vida. Aberto às
pessoas de todos os estados e condições, embora especialmente aos chamados intelectuais'. O apostolado para o qual os membros se preparam, deste modo, é para ser
vivido extensamente dentro da sociedade.
As Constituições prosseguem fazendo uma lista dos meios pelos quais devem alcançar a santificação. Estes são basicamente os meios cristãos tradicionais: oração
e sacrifício, o estudo teológico ('solidamente unido ao Magisterium') apropriado à capacidade de cada um e à imitação de vida oculta de Jesus de Nazaret. 'Magisterium',
traduzido somenos, significa ensino, porém, suas alusões são bastante neutras, especialmente, quando o termo se escreve, como aqui, com maiúscula. Neste uso significa
o ensino, não da Igreja em geral, a não ser a dos bispos, e mais concretamente a do Papa e sua cúria romana; o que é conhecido pelos teólogos como o 'magisterium
ordinário'. Nada sugere que tal ensino seja, em todo o sentido católico da palavra, 'infalível', apesar de muitos católicos o considerarem autorizado; entretanto,
utilizado desta maneira, não é tradicional, mas, uma criação do século XIX, um sentido ultrapapal.
Os fiéis do Opus são obrigados a cumprir com os deveres de sua vida profissional, porque esse é o caminho através do qual alcançam a santidade e finalmente
ao seu apostolado. Espera-se que cumpram com os deveres apropriados a seu estado na vida, 'mas sempre com a maior reverência pelas leis legítimas da sociedade civil'.
Também, têm que ir do começo ao fim com tarefa apostólica a eles encomendada pelo prelado. O resto do primeiro capítulo sublinha a unidade e a complementaridade
dos membros clericais e laicos e enumera seus Santos patronos.
O capítulo 2 do compartimento 1 tráfico dos 'fiéis' da prelatura. Devem estar 'disponíveis' -a disposição da prelatura- todos os membros, tanto homens como
mulheres, tanto numerários, como oblatos ou super numerários, embora cada qual segundo suas circunstâncias pessoais. O texto dá seqüência às distintas categorias.
Os primeiros são os numerários (varões) que observam o celibato, entregam-se totalmente ao apostolado da prelatura e vivem normalmente em centros do Opus
Dei. As mulheres numerárias, por outro lado, têm em particular 'a administração ou manutenção doméstica' dos centros para varões do Opus Dei, embora, estejam estritamente
segregados. A diferença de expectativa entre homens e mulheres é absoluta. Isto é tão mais estranho quanto as Constituições que seguem insistindo em que todos os
numerários, tanto homens como mulheres, deveriam normalmente ter ou ser capazes de obter, uma licenciatura ou alguma qualificação profissional equivalente. Existe,
todavia, uma classe de mulheres numerárias chamadas 'auxiliares' que se dedicam ao trabalho manual; em outras palavras, cozinhar e limpar nos centros do Opus Dei.
Os graus seguintes são os 'aggregati' ou oblatos, como foram chamados neste livro. Assumem as mesmas obrigações que os numerários, ou seja, o celibato, as
mesmas práticas ascéticas; incluindo muitas das mesmas obras apostólicas, porém, por razões pessoais não residem em centros do Opus, a não ser, possivelmente, com
seus pais ou com outros parentes.
Os super numerários também vivem com suas famílias. A diferença das categorias acima deles, é que podem ser casados, embora, até onde chegam os regulamentos,
o estar abertos ao matrimônio parece ser a única característica que os distingue dos oblatos. Está bastante claro, em outra parte, que é uma classe social inferior
do Opus posto que o parágrafo 14, alínea 2, e o parágrafo 15 deixam claro que os melhores sobem nas categorias de oblato ou de numerário.
O grau final é o de cooperador. Estas são pessoas que ajudam ao Opus Dei com suas esmolas, suas orações e trabalhando pelas causas do Opus. Não precisam ser
católicos, embora nesse caso aos membros da prelatura pede-se que roguem por sua conversão.
As Constituições seguem tratando da admissão de membros. Há três etapas: uma 'Admissão' simples, que pode ser feita pelo vigário regional; um ano depois está
a 'Oblação' ou permanência temporária, que dura no mínimo cinco anos e tem que ser renovada anualmente; finalmente, está a 'Fidelidade'.
Naturalmente, há regras que determinam quem pode ser admitido. Espera-se que os candidatos mostrem-se preocupados com seu desenvolvimento espiritual e que
tenham 'as demais qualidades pessoais' esperadas de um membro do Opus. Não estão definidas, embora esteja claro em todos outros lugares das Constituições que incluem
a capacidade de obter um doutorado se os membros já não tiverem um. Mais importante ainda, uma das questões mais controvertidas que rodeiam ao Opus: que os candidatos
devem ter ao menos dezessete anos.
Todavia, esta não é toda a história. No parágrafo 20, alínea 4, as Constituições ditam que um candidato deve passar pelo menos seis meses trabalhando no apostolado
do Opus 'sob uma autoridade competente', antes da admissão, o que justifica a idade da entrada efetiva aos dezesseis. Há um comentário posterior que diz que o trabalho
deve ser feito mesmo o candidato unido ao Opus durante algum tempo. Contempla-se claramente que os adolescentes muito maiores que a idade oficial de entrada estejam
já estreitamente aliados ao Opus, embora não sejam formalmente membros.
Certamente, existe pessoas que não são admitidas, deixando à parte aos que não mostrem as qualidades requeridas. É o caso de instituições religiosas recusarem,
teoricamente, aqueles que tenham sido membros de outra corporação similar, embora, na prática, esta regra deixa-se, freqüentemente, de lado. O Opus, entretanto,
leva-a mais longe. Não somente proibe a admissão de qualquer um que deu os primeiros passos para entrar em tal organização, mas, também, recusam candidatos que estiveram
em 'escolas apostólicas', uma espécie de seminários menores dirigidos às vezes por diocese ou ordens religiosas. Estes colégios funcionam, principalmente, como estabelecimentos
educativos, e hoje em dia poucos de seus estudantes avançam até a preparação formal para o sacerdócio. Não obstante, os que passaram por eles não podem ingressar
no Opus.
E, muito menos, serão admitidos os de seminários maiores, ou sacerdotes já ordenados. O parágrafo 20, alínea 3, diz que isto é em caso das dioceses serem
privadas de clero. Como se viu (na pág. 53), entretanto, uma razão mais provável é a atitude do Opus para o ensino espiritual dado por outros. Inclusive estudantes
que estiveram sob a guia formal de uma congregação ou diocese em uma 'escola apostólica' são considerados inadequados. Esta proibição não se estende a meninos que
estiveram em uma escola normal, mesmo sendo dirigida por uma congregação religiosa.
Quando se aprovou uma candidatura, o futuro membro é instruído no espírito do Opus e advertido de que tem que manter-se por sua própria atividade profissional.
Também tem que manter a sua família se for necessário e contribuir generosamente à manutenção das obras apostólicas.
Ao chegar a este ponto das Constituições aconselham os candidatos, curiosamente, que façam pleno uso do sistema de segurança social disposto pela lei civil
no caso de que fiquem sem trabalho, fiquem doentes, tenham direito a pensão, etc. De modo algo mesquinho a prelatura promete cuidar dos numerários necessitados e
dos oblatos e, também, embora insistindo em que não há obrigação legal de fazê-lo, de seus pais.
O parágrafo final deste primeiro 'afastado' trata demissão da prelatura. As regras são bastante singelas. Deveria-se dizer, não obstante, que, segundo a regra
31, a demissão deve fazer-se 'com a maior caridade', que não é algo que os ex-membros tenham experiente, e quem o deixa não pode fazer nenhuma reclamação à prelatura
pelo que tenha dado a ela, tanto por meio de seu trabalho, como por sua atividade profissional. A ênfase está totalmente posta na demissão. Admite-se que possam
querer ir-se por vontade própria, porém, não é extensivo à estes.
O 'compartimento' seguinte dedica-se ao clero do Opus. Tem que sair das categorias de numerários ou oblatos, seu principal propósito na vida deve ser cuidar
das necessidades espirituais de outros membros do Opus. Também pode ter um papel na igreja local e unir-se à comunidade sacerdotal e a outros corpos diocesanos.
Insistem unirem-se por meio dos laços da caridade a outros clérigos das diocese que atuam. Também, menciona-se aos 'cooperadores' entre o clero diocesano, os cooperadores
laicos que ajudem com suas orações, suas intenções e, se for possível, seu ministério sacerdotal também, embora não expliquem como fazerem isto.
A promoção ao sacerdócio fica a vontade do prelado e também as tarefas que se têm que atribuir ao clero da prelatura. Na medida em que as tarefas são mencionadas
nas Constituições, fica uma clara ênfase em ouvir confissões e, de modo bastante curioso, na obrigação do clero de cuidar dos acertos funerais dos membros. A necessidade
de fomentar um 'fervente espírito de comunhão' com o clero da igreja local é sublinhada de novo.
O que foi dito até agora sobre os sacerdotes do Opus, além da menção dos cooperadores, afeta aos que se incardinan a prelatura. Existem, entretanto, sacerdotes
(e diáconos) que estão incardinados a uma diocese e que desejam seguir a vida espiritual e as práticas do Opus. Podem converter-se em oblatos ou membros super numerários
(os seminaristas esperam a ordenação antes de poder unir-se, embora permitam converter-se em 'aspirantes'). As Constituições acentuam que isto não estabelece, em
modo algum, uma obediência 'dividida'; não têm maiores superiores que o bispo local e seus únicos deveres quanto ao Opus procedem do cumprimento de suas regras,
'como em qualquer sociedade'.
A diferença entre sacerdotes oblatos e super numerários é algo difícil de captar. O que se exige a um clérigo que seja um oblato, segundo a regra 61, é:
'1. Sobretudo, um anseio de cumprir a perfeição a tarefa pastoral a ele encomendada por seu bispo, dando-se conta cada um de que é somente responsável ante
o bispo da realização deste papel; '2. A decisão de dedicar todo seu tempo e seu trabalho ao apostolado, especialmente em ajudar seus irmãos os clérigos da dioceses.'
Os mesmos requisitos exigem a um sacerdote super numerário, salvo que, por razões pessoais, 'familiares ou similares', não possa dedicar-se total ou imediatamente
a apostólica.
Esta última disposição supõe que o diocesano poderia estar ocupado em atividades distintas às 'apostólicas', possivelmente, ganhando a vida para manter suas
famílias. Esta classe de situação poderia imperar em muito poucos países, por exemplo, em Malta ou na Espanha, onde havia mais sacerdotes que postos na Igreja para
eles. Sempre foi, não obstante, uma situação atípica, e o é especialmente hoje em dia.
É um tema constante neste compartimento das Constituições que os membros do Opus que sejam sacerdotes diocesanos devem distinguir-se por sua devoção ao bispo
local, e alentar todos outros sacerdotes da diocese a seguir as diretrizes dadas pelo bispo. Não tem que haver, diz a regra 73, o mínimo sinal de que o Opus procure
uma hierarquia alternativa, embora o vigário regional nomeie um diretor espiritual para tais sacerdotes, e reunem-se periodicamente para estudar e incrementar seu
ardor. São agrupados e inseridos a um centro particular do Opus para guia espiritual e demais ensinos; o vigário regional também nomeia um 'administrador' para tratar
com o bispo sobre estes clérigos. Os diretores espirituais e os conselheiros servem durante um período de cinco anos.
O terceiro parágrafo considera a vida, a formação e o apostolado dos membros da prelatura. São instigados a terem presente o exemplo da frutífera vida de
trabalho de Jesus de Nazaret, da qual, certamente, não se sabe absolutamente nada. Exige-se celebração diária ou assistência à missa; recorda-se que é a renovação
incruenta da paixão e morte de Cristo, e não se faz menção da ressurreição. As Constituições descrevem depois os detalhes.
'1. Tem que haver meia hora de oração mental cada manhã, e outra meia cada noite; o Novo Testamento deve ser lido diariamente, junto com outro livro espiritual;
terá que rezar as orações ordinárias do Opus; '2. Tem que haver um dia de retiro espiritual ao mês; '3. Cada ano deve haver um retiro de vários dias; '4. Os membros
devem manter-se em presença de Deus, fazer 'comunhões espirituais', orações jaculatórias, etc.'
Os fiéis são advertidos contra o orgulho que pode surgir do saber, do nível social ou da atividade profissional. São advertidos especialmente contra um assédio
a sua castidade. Têm que combatê-lo por meio de 'um recurso assíduo e cândido' à Virgem Maria, recebendo com freqüência a Eucaristia, fugindo das ocasiões de pecado
e castigando seus corpos. A menção de Maria faz que a atenção dos compiladores das Constituições volte-se para ela. Os membros devem rezar os quinze mistérios do
rosário cada dia, ao menos cinco deles em voz alta.
Todavia, determinam as Constituições, o caráter especial do Opus é que seus membros devem alcançar a santidade através de suas vidas profissionais. Embora,
anteriormente, aconselhou-se aos membros que se aliassem à Segurança Social para o caso de alguma vez ficarem sem trabalho, um membro do Opus Dei sem emprego teria
pouco peso na organização. A regra 86, alínea 1, diz: 'O trabalho é o valor humano por excelência, necessário para proteger a dignidade da pessoa humana e o progresso
da sociedade; é também a oportunidade especial e o meio para, através da união pessoal com Cristo, imitar sua ocupada vida oculta de generoso serviço a outros e,
deste modo, colaborar amorosamente no trabalho da criação e da redenção do mundo'.
A prelatura, prosseguem as Constituições, está totalmente dedicada ao serviço da Igreja. Para isso, os membros devem estar dispostos a abandonar honras (recordam
o marquesado de Peralta?), Bens, e inclusive suas almas. Devem mostrar amor sincero, veneração, humildade e fidelidade para o Romano Pontífice e para todos outros
bispos em comunhão com a Sede Apostólica. O Opus deve insistir em fomentar a obediência e o serviço ao Papa e aos bispos. E enquanto inclinado aos fins da prelatura,
devem igualmente obedecer ao prelado e demais autoridades em todas as coisas, embora a obediência é, aparentemente, 'voluntária'.
A regra 88, alínea 3, trata do extremamente controvertido assunto da inclinação política ou social dentro da prelatura. A organização é acusada freqüentemente
de ser de direita. De fato, a norma legisla muito estritamente contra qualquer conselho ou introdução dada sobre questões políticas, e sublinha que 'dentro dos limites
do ensino católico sobre fé e moral, cada membro da prelatura deve ter a mesma liberdade que qualquer outro cidadão católico'.
Após a questão das atitudes políticas na prelatura vem outro tópico irritante, que é secreto. É apresentado, na regra 89, dentro do contexto da humildade:
'deve ser a maior glorifica do Opus Dei viver sem glória humana'. Por este motivo os membros do Opus não devem atuar coletivamente, nem ter um nome coletivo (como,
provavelmente, os jesuítas ou os dominicanos). Nem sequer, devem tomar parte em procissões religiosas como grupo. Entretanto, não devem ocultar o fato de que pertencem
a prelatura, e devem fugir totalmente do secreto.
Para evitar a aparência de secreto, os nomes dos vigários da prelazia devem ser conhecidos por todos e também os nomes daqueles que formam seu conselho. A
qualquer bispo que pergunte podem dizer-lhes os nomes, não só dos sacerdotes da prelatura que trabalham na diocese, mas também inclusive os nomes dos diretores de
centros do Opus. Deve dizer-se que este nível de divulgação é realmente muito modesto. O tom da regra parece a contra gosto, mas seria muito estranha uma situação
na qual um bispo não conhecesse os nomes dos clérigos que trabalham dentro da zona geográfica de sua jurisdição embora, como seria freqüentemente o caso, o clero
do Opus obrasse fora do mandato do bispo, quer dizer, em casas da prelatura.
Uma prescrição final da regra 89, alínea 3, insiste em que não editem publicações em nome do Opus.
A regra seguinte insiste a cultivar as virtudes 'naturais', aquelas altamente estimadas na sociedade em geral. Enumeram-se: camaradagem, otimismo, valentia
('audaciam', poderia também ser atrevimento), uma 'Santa intransigência' no que é bom e está bem, felicidade, simplicidade, nobreza, sinceridade e lealdade. Considera-se
que ajudam no apostolado.
'A correção fraternal' se ordena na regra 91, sem dúvida para assegurar que os membros mantenham suas virtudes naturais ao nível requerido.
A regra 94, alínea 1, enquanto que aconselha aos membros que deixem todos os cuidados deste mundo a Deus, e se comportem como peregrinos procurando a cidade
que virá, permite que cada membro viva 'segundo seu próprio estado ou condição'. A regra 94, alínea 2, impõe de novo o dever sobre aqueles comprometidos no trabalho
profissional, de que provejam para suas necessidades pessoais e para as da família e, sempre que for possível, de que ajudem a manter o apostolado da prelatura.
O seguinte capítulo do título III volta a atenção para a educação religiosa dos membros, para aprofundar no 'conhecimento da fé católica e do magistério'
dos membros. Com este propósito, devem estabelecer-se centros regionais ou inter regionais de estudos de filosofia e teologia, separados para homens e mulheres.
Os numerários e, sempre que for possível, os oblatos, devem fazer o equivalente a dois anos de filosofia e a quatro anos de teologia, segundo os planos das
Universidades pontifícias romanas. As mulheres numerárias auxiliares devem fazer cursos adaptados a suas exigências, presumivelmente mais modestos, e outros membros
do Opus Dei devem fazer também cursos apropriados adaptados para eles. A educação completa de seis anos seria, tecnicamente, suficiente para preparar um membro para
a ordenação sacerdotal. Entretanto, conta-se que completem um ano a mais de formação em um centro, especialmente atribuído para eles, e exige-lhes empreender estudos
doutorais 'em alguma disciplina eclesiástica'. Também devem organizar-se cursos para os cooperadores.
Quanto aos cursos a seguir, parece uma contradição. A regra 103 vincula a prelatura ao 'ensino do raciocínio e aos princípios do Doutor Angélico' -São Tomás
de Aquino, em outras palavras, um talento do século XIII-, embora, sempre segundo as normas transmitidas 'pelo magistério dos Concílios e a Santa Sede'.
Até aqui está bem, mas a regra final deste título, a regra 109, insiste em que o Opus Dei não tem nenhuma opinião própria sobre questões filosóficas ou teológicas
nas quais os membros da Igreja em geral são livres de escolher o que gostarem: 'dentro dos limites estabelecidos pela hierarquia da Igreja, que guarda o depósito
da fé, os membros da prelatura gozam da mesma liberdade que todos outros católicos.'
As Constituições passam a considerar o apostolado do Opus Dei. Está resumido na regra 111, alínea 1, como 'zelo..., com Pedro (quer dizer, o Papa) para levar
todo mundo, pela mão, como Jesus através de Maria'. Nada escapa a sua preocupação; eles devem ser a levedura na massa da sociedade humana. Isto é, devem ter uma
solicitude pastoral especial para outros membros de sua profissão escolhida.
O primeiro meio de guiar outros a Cristo é levando uma vida exemplar, tanto religiosa como profissionalmente. Mas, os membros também devem falar abertamente
de Deus 'propagando a verdade com caridade, em um apostolado doutrinal e catequístico constante adaptando-se às necessidades particulares daqueles entre os quais
vivem e trabalham' (regra 114).
Embora, dito piedosamente (regra 115) que o apostolado se dirige a todos sem distinção de raça, nacionalidade ou categoria social, adverte os membros na regra
seguinte que tenham um interesse especial pelos intelectuais, os de alto cargo ou condição social, pelo grande peso que têm na sociedade civil. A forma de fazê-lo,
aconselha-lhes depois (regra 117), é estabelecer amizade e confiança mútua, 'a amizade é o meio particular do apostolado da prelatura'. A amizade, segundo a interpretação
do Opus, não pode existir por si mesmo, é um meio para um fim.
Além deste apostolado pessoal, o Opus Dei como tal oferece ajuda de uma forma mais geral, especialmente nos projetos educativos. Por exemplo, proporcionará
capelães e professores de religião especialmente escolhidos para escolas promovidas pelo Opus Dei e para as iniciadas por membros da prelatura, junto com outros,
de maneira privada. Tal ajuda deve ser escolhida muito cuidadosamente, e o mesmo prelado é advertido não deixar de consultar seus conselheiros a respeito das nomeações.
O quarto item trata do sistema de governo. A prelatura divide-se em regiões, com um 'conselho regional' em cada uma. O cargo de prelado é por toda vida, todos
outros são só temporários. Unicamente o prelado ou seu delegado representam toda a prelatura em questões legais e, tanto a prelatura como suas distintas regiões,
têm uma personalidade legal, de modo que podem adquirir, possuir, administrar e dispor de bens (regra 129, alínea 1). As regiões são individualmente responsáveis
pelas obrigações que contraem, não à prelatura em conjunto, e devem observar a lei civil do país em que trabalham.
As Constituições continuam depois legislando para o governo central do Opus Dei, começando pelo prelado. Deve ser eleito por um congresso especialmente convocado,
e sua eleição confirmada pelo Papa. O congresso compõe-se tanto de sacerdotes como de laicos, com menos de trinta e dois anos de idade e com uma antigüidade de nove
anos como membros plenos. O posto de 'eleitor' é um estado ao qual um membro é renomado por toda a vida. É escolhido pelo prelado e aconselhado por seu Conselho.
Os requisitos para prelado são exigentes. Deve ser: 1. Um sacerdote membro do Congresso Geral, membro da prelatura durante pelo menos dez anos e cinco de
ordenação, filho de matrimônio legítimo, de boa reputação e com menos quarenta anos; 2. sobressaindo-se por sua prudência e piedade; mostrando um amor e uma obediência
exemplares para a Igreja e seu magistério; destacando por sua grande devoção ao Opus Dei; por sua caridade aos membros da prelatura; e por seu zelo à seus vizinhos;
3. adornado com um alto nível de saber meramente secular, mas, também com um doutorado em alguma disciplina eclesiástica e com as demais qualidades necessárias para
a tarefa (regra 131).
A regra prossegue descrevendo seu papel dentro do Opus, fundamentalmente, o de supervisão. Porém, é fiscalizado por dois 'guardiães' ou admonitores selecionados
por ele de uma pequena lista de nove preparada pelo Congresso Geral, do qual não podem ser membros. Devem viver na mesma 'família' que o prelado e cuidar de sua
saúde, tanto espiritual quanto corporal.
Além disso, do congresso para escolher o novo prelado, deve haver um cada oito anos para exame geral sobre o estado do Opus. Também, pode haver congressos
'extraordinários' se houver necessidade.
Depois de uma discussão sobre a nomeação e do possível papel do vigário auxiliar, uma espécie de delegado do prelado, a regra segue ao Congresso Geral, composto
de 'consultores': o vigário auxiliar, o secretário geral, o vigário para a seção de mulheres (conhecido como o sacerdote secretário central), três vice-secretários,
um delegado de cada região, o prefeito de estudos e o administrador geral. Há uma comissão permanente do Conselho Geral, composta pelo prelado, o vigário auxiliar,
o secretário central e um dos vice-secretários, o prefeito de estudos e o administrador geral. Alguns dos membros da comissão permanente podem ser laicos, embora,
a maioria dos postos devem, e todos podem, ser ocupados por sacerdotes.
O governo da seção de mulheres é necessariamente distinto. Não têm um Congresso para escolher ao prelado, embora tenham todos outros, presididos pelo prelado
e seus principais ajudantes (varões). Em lugar do Conselho Geral está a 'assessoria central'. Este corpo está formado por cargos equivalentes aos dos homens, alguns
com nomes ligeiramente distintos, com a adição do prefeito dos auxiliares. Tudo está governado pelo prelado, junto com o vigário auxiliar, o sacerdote secretário
geral e o sacerdote secretário central.
Para toda a organização há dois postos mais importantes, embora não sejam ocupados por membros do Conselho Geral. O primeiro é o de procurador, que representa
o interesse do Opus ante a Santa Sede de forma regular. O outro é o de prefeito espiritual, encarregado de guia espiritual em toda a prelatura, e preocupa-se especialmente
pelas vidas espirituais dos oblatos e super numerários
O Opus está dividido em regiões, e o governo das mesmas é o tema do capítulo 3 deste 'título'. Em cada região há um 'Concílio regional', renomado pelo prelado
com a aprovação de seu próprio Conselho. O Concílio regional pode ter uma comissão de até doze pessoas para que lhe aconselhem, uma das quais, chamada 'o defensor',
tem a tarefa de velar para que as regras sejam observadas. (A seção de mulheres, a regra 157 o esclarece, reflete de novo a estrutura da seção de homens.) A regra
155 aponta, outra vez, que as regiões (ou outras unidades geográficas menores) têm sua própria identidade legal. A um nível mais local, o governo está nas mãos dos
diretores (de centros), com seu próprio grupo assessor ou Conselho.
Cada dez anos, estabelece o seguinte capítulo, deve haver uma reunião em cada uma das regiões para examinar como foram as coisas. São convocados todos os
titulares presentes e passados, assim como, todos os que têm categoria de 'eleitor'. Conta-se que todos enviem informes ou comentários, inclusive os cooperadores
não católicos, se assim o desejarem. As conclusões destas reuniões não têm nenhuma força até que sejam aprovadas pelo prelado.
O capitulo 5 do 'título' IV intitula: 'Sobre as relações com os bispos diocesanos'. Entretanto, começa assinalando que o Opus Dei está 'imediata e diretamente'
sujeito à Santa Sede e não aos bispos diocesanos: 'Todos os membros da prelatura obedecem, humildemente, ao Pontífice de Roma em todas as coisas; esta obrigação
de obediência une os membros com um laço forte e grato. ' (Regra 172, alínea 1.) Por outro lado, sujeitam-se ao bispo local do mesmo modo que todos os católicos.
As Constituições estendem-se sobre a Santa Sede, dizendo que é tarefa do prelado velar para que todos seus decretos e similares, que dizem respeito ao Opus
Dei, sejam conhecidos pelos membros. 'É o espírito do Opus Dei -diz a regra 173, alínea 2- alentar com o maior amor a união filial com o Romano Pontífice.'
Quanto ao bispo local, alguém tem que falar com ele com freqüência e as autoridades apropriadas da prelatura devem assegurar-se de que os membros conhecem,
cumprem e colaboram com todas as regras e normativas estabelecidas tanto pela Conferência Episcopal, como pelo ordinário local. O ordinário tem que ser informado,
porque sua aprovação é, certamente, necessária antes de que se abra um centro do Opus em sua diocese. A abertura de um centro implica estabelecer dois domicílios;
cada aprovação implica que pode estabelecer-se ao mesmo tempo: 'Por direito e de direito há dois centros em cada residência do Opus Dei' (regra 178, alínea 1). Segundo,
deve haver uma capela, com exposição a noite da primeira sexta-feira de cada mês. A especial celebração da primeira sexta-feira do mês é uma prática católica comum.
O que as Constituições dão a entender aqui é que a sagrada forma seja retirada do sacrário, colocada em custódia e mostrada na capela para que os adoradores rezem
ante ela. Conta-se com que o bispo conceda ao clero do Opus Dei rezar missa duas vezes ao dia, e, provavelmente, três aos domingos e às festas. Atualmente, a Igreja
católica convence, energicamente, ao clero de rezar mais de uma missa diária, embora, aos domingos, com freqüência, é impossível deixar de fazê-lo. Todavia, o estabelecer
nas Constituições expectativas de que os sacerdotes do Opus Dei deveriam fazê-lo, é ir muito contra a corrente de reforma dentro da Igreja.
As limitações ao direito de visita de um bispo explicam-se detalhadamente na regra 179. Pode visitar somente a igreja, o sacrário e os confessionários. A
situação, hipotética, é distinta quando os sacerdotes do Opus Dei executam cargos em uma igreja já existente em nome da diocese. Nesse caso, a regra 180 insiste
em que se lembre de antemão uma espécie de contrato.
O 'título' final trata da 'estabilidade e força deste código': 'Este código é o fundamento da prelatura. Suas normas devem manter-se para ser santas, invioláveis,
perpétuas, e a mudança destas ou a introdução de novas, reserva-se à Santa Sede' (regra 181, parágrafo 1).
Todavia, o código prossegue estabelecendo um mecanismo restrito para produzir mudanças.
A seguir estuda a força vinculada ao código. Aquelas normativas que procedem de leis divinas ou eclesiásticas têm a força de tais leis; as que faz ao governo,
obrigam em consciência, 'segundo a seriedade da questão' (regra 183, alínea 2). O capítulo seguinte da mesma regra acrescenta que, embora sejam simplesmente disciplinares,
as regras não obrigam, exatamente, do mesmo modo. É pecado transgredir, inclusive, a menor destas regras em caso de desacato formal.
Exceto pelas breves 'disposições finais' mencionadas anteriormente (ver pág. 63), o código termina com a regra 185:
'O que se estabelece neste código para homens, expresso em linguagem masculina, é igualmente aplicável às mulheres; exceto onde no contexto diz, ou a natureza
do caso deixa evidente, que existe uma diferença; ou onde está explícito uma disposição especial.'
Na regra 182, alínea 1, as autoridades da prelatura são advertidas incitar observância das normas do código, porque é 'o meio seguro de santidade para os
membros da prelatura'. Como documento espiritual deixa muitíssimo a desejar. Pelo resumo anterior ficou claro ser jurídico, mostrando uma preocupação excessiva
pela observância da letra da lei e servilismo para aqueles que ostentam a autoridade na Igreja, e, se formos a isso, no Estado. Por outro lado, diz muito pouco a
respeito das práticas do Opus Dei e dos apostolados adotados por seus membros.
Segundo o livro adiante, os leitores poderão julgar por si mesmos se a prática do Opus está de acordo com sua teoria.


VI. O ESPÍRITO DO OPUS


As Constituições proporcionam a letra, mas, não necessariamente o espírito de uma organização. As Constituições mais recentes do Opus não entram em detalhes
da vida espiritual de um membro, nem nas práticas de penitência, possivelmente, porque é evidente que a regra não podia permanecer secreta ou simplesmente porque
um documento constitucional não era o lugar apropriado para tal informação. A Constituição de 1950 o fazia, e ainda, é a melhor descrição do que ocorre no Opus Dei.
(À parte, possivelmente de 'Praxe', um livro que estabelece em todos os pormenores como os membros devem viver. Segundo um antigo membro, inclusive regulava o número
de lenços e cuecas que alguém podia possuir. Desgraçadamente, é um volume escorregadio.)
A Constituição de 1950 proporcionava as estruturas, estabelecia as obrigações dos membros e o que fariam. Todavia, não explicavam o motivo, nem o porquê fazê-lo,
salvo em termos muito gerais. Estas práticas externas requerem algum respaldo interno que têm que vir de alguma parte. Sua fonte mais evidente é, certamente, Caminho,
que contém 999 máximas ou conselhos, embora não está claro o porquê desse número, a menos que seja o número da besta do Apocalipse (666), ao contrário. Além disso,
estão também os escritos do fundador acessíveis ao público, e 'Vidas devotas' de Escrivá do Balaguer, que começam a aparecer.
Deixando à parte Caminho, a principal fonte de ilustração, para aqueles que não tiveram o privilégio de conhecer e escutar Escrivá em pessoa, é 'Crônica',
um periódico que circula em privado dentro do Opus. Consiste em provérbios e reflexões do fundador e conselhos, às vezes muito detalhados, sobre como deveriam os
membros regular suas vidas espiritualmente. 'A formação que nos dá no trabalho tende a simplificar nossa vida interior, a nos fazer singelos... deixemo-nos levar
como meninos, fazendo-nos como meninos através da fortaleza, rechaçando violentamente a tendência a nos dirigir a nós mesmos', aconselhava Escrivá nas páginas de
'Crônica'. Isto explica a extraordinária ingenuidade que encontramos em muitos membros do Opus.
Precisamente cinqüenta das máximas de Caminho encontram-se sob os títulos de 'Infância espiritual' e 'Vida de infância'. 'O Pai' era o título com o que Escrivá
do Balaguer, como presidente do Opus Dei, preferia que lhe conhecesse, e está claro como preferia ele a seus filhos: 'Quem é você para julgar o acerto do superior?
Não vê que ele tem mais elementos de julgamento que você, mais experiência, mais retos, sábios e desapaixonados conselhos; e, sobre tudo, mais graça, uma graça especial,
graça de estado, que é a luz e ajuda poderosa de Deus?' (máxima 457). O pai sabe mais.
Apesar disto, em seu apostolado o membro do Opus é exortado a "ser varão" - "Então ser" (máxima 4), um homem com vontade, energia, exemplo (máxima 11), cujo
lema é 'Deus e audácia!' (Máxima 401). Com ambições: de saber... de comandar... de ser audaz (máxima 24). Recorda-lhe que o coração é um traidor (máxima 188), e
que é tão formoso ser vítima! (Máxima 175). Que seja intransigente, porque a transigência é sinal certo de não ter a verdade (máxima 394); ser menino não é ser efeminado
(máxima 888); 'Não me seja frouxo, brando' (máxima 193). Pelo contrário, precisa ser forte porque 'O plano de santidade que nos pede o Senhor, está determinado por
estes três pontos: a Santa intransigência, a Santa coação e a Santa falta de vergonha' (máxima 387). Não podemos deixar de pensar que, à parte o epíteto 'santo',
muitos homens na Europa dos anos trinta procuravam, exatamente, estas qualidades as quais recrutavam. Dificilmente é surpreendente que as palavras utilizadas para
'líder' e 'liderança' em seu pequeno livro de máximas sejam 'caudilho' e 'caudillaje' (Mandachuva): o general Franco era, certamente, o 'caudilho' da Espanha.
Às vezes, Caminho lê-se como um manual de como ganhar amigos e influir outros; ou, através de muito esforço, como obter êxito nos negócios. Ítens sobre penitência
e mortificação são uma série de sugestões para o treinamento da vontade, mais que um tratado sobre ascetismo cristão. Muito parecido ao pelagianismo, a doutrina
que recebe o nome do monge britânico Pelágio, que ensinou em Roma no final do século IV e início do V. Os pelagianos acreditam que, espontaneamente, os cristãos
podem dar os primeiros passos para sua própria salvação. Foi condenado como herege. Sem dúvida, Escrivá não queria chegar tão longe, todavia, a ênfase nas práticas
religiosas e na confiança em si mesmo, às vezes, é muito parecida.
De fato, as passagens de uma natureza mais espiritual não impressionam pela profundidade de sua compreensão. As palavras 'Opus Dei' são, certamente, uma expressão
tradicional no culto a Deus na liturgia da Igreja; em especial, a mescla de orações, salmos e demais passagens das Escrituras e as seleções de escritores cristãos
primitivos recitados por monges, monjas e sacerdotes da Igreja, recebe mais usualmente o nome de 'Ofício Divino'. Quando Monsenhor Escrivá do Balaguer recomenda
a prece litúrgica aos leitores de Caminho, não o entende como um ato de devoção pública, embora 'Oxalá te afeiçoe a recitar os salmos e as orações do missal, em
lugar de orações privadas ou particulares' (máxima 86); o indivíduo reza solitariamente as orações.
O rosário, as novenas, a água benta, o presépio de Natal, tudo isto forma a maior parte da espiritualidade de Caminho tal como o culto litúrgico. Especialmente,
a devoção aos anjos custódios, tanto aos próprios, como aos sacrários nos altares das Igrejas, ou sobre aqueles que alguém quer influir. ('Obtém do Anjo Custódio
aquele a quem quer trazer para seu apostolado. É sempre um grande 'cúmplice', aconselha a máxima 563.)
Uma prática piedosa recomendada aos leitores de caminho é a impressionante sugestão, embora, um tanto doentia e teologicamente duvidosa, de colocar diante
de si uma cruz simples de madeira e imaginar a si mesmo nela (ver pág. 67). O primeiro requisito do capítulo da Constituição de 1950 dedicado à observância de costumes
piedosos', exige: 'Onde três ou mais membros vivem juntos como uma família, coloca-se em um lugar apropriado, uma cruz negra sem a figura do Crucifixo. Em dias de
festa da Invenção e Exaltação da Cruz deverá adornar-se com coroas de flores desde a primeira hora até a véspera' (parágrafo 234). 'De manhã até a noite', mais
exatamente traduzido 'desde prima até vésperas', a primeira hora e as últimas 'horas' seguintes, ou divisões do ofício divino. As festas da 'Invenção' (comemoração
do descobrimento da cruz por Santa Helena, mãe do imperador Constantino) e 'Exaltação' são as festas importantes do calendário do Opus, que celebram-se em 3 de
maio e em 14 de setembro, respectivamente.
Enquanto, que nem Caminho nem a Constituição de 1950 do Opus Dei evidenciam uma compreensão espiritual profunda por parte de seu autor, criam um estilo de
espiritualidade reduzido às práticas externas nas quais é fácil encontrar segurança. As práticas, em sua maior parte, pretendem ser relativamente simples de observar
em meio a uma vida profissional ocupada. Deve-se ao gênio de Monsenhor Escrivá a invenção de uma forma de vida, especialmente, conveniente para a burguesia, a crescente
classe média espanhola dos anos quarenta em diante.
Além das indicações sobre liderança e auto-disciplina, o Caminho contém muito conselho espiritual que consolaria qualquer homem de negócios que pretendesse
ser um bom cristão, enquanto fizesse carreira no mundo. A 'caridade', por exemplo, não consiste tanto em 'dar' como em 'compreender' (máxima 463). Inclusive dar
presentes de bodas aos membros da própria família ficava excluído, e não devia dar esmola aos pobres. Todavia, instigavam fazer amizades com os ricos para solicitar
donativos. John Roche recorda que encorajavam os membros neste 'apostolado de não dar'.
'É condição humana ter em pouco o que pouco encosta. Essa é a razão de que te aconselhe o 'apostolado de não dar'. Nunca deixe de cobrar o que for eqüitativo
e razoável pelo exercício de sua profissão, se sua profissão for o instrumento de seu apostolado' (máxima 979).
Os benefícios da profissão dos membros, certamente, vão parar nos cofres do Opus Dei. Antigos membros recordam que raramente havia uma reunião em uma casa
do Opus que não terminasse com uma coleta.
O apostolado é o critério. Para os homens de negócios que se demoram demasiadamente, em um almoço de negócios, traz-lhes o consolo: recomenda-lhes o 'apostolado
do almoço' (máxima 974). Mas, evitarão o provável embaraço de misturar-se com convidados inadequados. Espera-se dos membros do Opus que exerçam seu apostolado, principalmente,
entre seus iguais (Constituição de 1950, parágrafo 186). Além disso, espera-se que mantenham um nível de vida de acordo com sua categoria profissional: em questão
de pobreza não deve haver uniformidade entre os membros. Inclusive as lojas nas quais as distintas categorias compram a roupa estão classificadas segundo o nível
dentro do Opus, afirma Vladimir Felzmann: as categorias superiores compram nas lojas de alta classe; as inferiores, em especial as mulheres auxiliares, em rede de
lojas de armazéns baratos.
As mulheres recebem um tratamento injusto de Escrivá: há uma veia fortemente anti-feminista em Caminho. 'Não é necessário serem sábias: basta que sejam discretas'
diz a máxima 946. Todavia, insinuam que a discrição pareça-lhes uma virtude muito difícil de conseguir. Uma parte separada da Constituição de 1950 dedicava-se à
seção de mulheres (prática abandonada na nova Constituição), na qual não se contempla que as mulheres cheguem a uma grande superioridade. As tarefas que Escrivá
anotou no parágrafo 444 eram firmemente tradicionais. Esperava-se que os membros femininos do Opus Dei assumissem tarefas como as de dirigir casas de retiro; publicassem
'propaganda' católica ('escrita com a ajuda dos editores'); trabalhassem em livrarias ou bibliotecas; instruíssem outras mulheres e 'instigassem-nas em modéstia
cristã' promovendo a educação de garotas -embora aparentemente só em escolas de um só sexo-, ensinassem as mulheres camponesas, tanto a destreza apropriada, como
os preceitos cristãos; preparassem faxineiras para o trabalho doméstico, empenho principal para os membros femininos do Opus e uma significativa fonte de recrutas.
E também tinham que cuidar das capelas (parágrafo 445).
De grande importância para a boa regulamentação de toda a organização, as mulheres tinham que ocupar-se da administração de todas as casas do Instituto. Entretanto,
deviam viver em lugares 'radicalmente' separados, de modo que em realidade existiam duas casas na mesma residência (parágrafo 444.7). Aos membros femininos do Opus
não era, nem é permitido, reunir-se com os varões mais privilegiados. O temor de Escrivá à promiscuidade era tal que se estabeleceram as regras mais rigorosas para
proteger a proibição de misturar-se. No "Notherhall House", a residência universitária de Londres em Hampstead, portas duplas separam as duas casas e fecham-se ritualmente
toda noite.
Ambas as seções do Opus Dei seguem, mais ou menos, as mesmas práticas referentes às suas vidas espirituais. A cruz nua já mencionada. Além disso, cada membro
da organização tem em sua habitação uma imagem da Virgem Maria - recordará que Escrivá do Balaguer estava tão desejoso de ter uma para si, que se arriscou a sair
de seu esconderijo em Madrid republicano-. Inclusive uma peregrinação anual a um santuário da Virgem encontra-se entre as práticas devotas e se faz cada sábado uma
coleta para flores nas casas, para decorar a estátua de Maria
Todos os membros levam o escapulário carmelita -rememorando parte do hábito de uma ordem religiosa e normalmente característico-. Converteu-se também, em
sua forma mais reduzida e simbólica, em uma devoção católica pela qual quem o leva se associa aos privilégios espirituais de uma ordem particular. Normalmente, para
poder acessar a tais privilégios o escapulário tem que ser outorgado por um membro da ordem cujo hábito recorda, ou por alguém, especificamente, designado para este
propósito. A prática de vestir os membros da Ordem com o escapulário carmelita chega até os primeiros dias do Opus, mas em 1946 Alvaro do Postigo solicitou formalmente
ao Vaticano permissão para fazê-lo sem a conversão em membros da confraternidade carmelita, o qual, disse, seria uma carga para eles. A permissão foi concedida.
As práticas penitenciais inclusas no parágrafo 260 da Constituição de 1950: 'O piedoso costume de castigar o corpo e reduzi-lo a servidão levando um pequeno
cilício durante pelo menos duas horas por dia, disciplinando-se ao menos uma vez por semana e dormindo no chão, manterá fidelidade, levando-se em conta tendo somente
a saúde da pessoa'.
Os 'instrumentos de mortificação' são dados aos membros em sacos marrons. Um antigo membro sustenta que davam a meninos com apenas quinze anos de idade. Dizem
aos jovens que a quantidade de mortificação infligida pode aumentar com a aprovação de seu diretor espiritual. Explicam que o sangue do Escrivá salpicava as paredes
do quarto de banho, tal era a ferocidade com que se golpeava.
Um relatório do jornal católico de Liverpool, o 'Catholic Pictorial', de 27 de novembro de 1981, descrevia a incorporação de garotas jovens à organização.
Iniciavam, gradualmente, as 'mortificações' praticadas pelos membros do Opus Dei. Aconselhavam beijar o chão ao levantar-se assim que batiam na porta pela manhã;
tomar 'duchas frias e observar longos períodos de silêncio'; levar os cilícios -uma corrente com pontas agudas- ao redor da coxa durante um período de duas horas
ao dia (exceto aos domingos e dias festivos) 'e açoitar as nádegas com um látego de corda uma vez à semana'.
Atualmente estas práticas ainda existem dentro do Opus. É parte essencial da formação espiritual de seus membros. O modo em que Escrivá se açoitava é, evidentemente,
uma questão de orgulho para os membros. Com a crescente opinião da psicologia insana destes atos basicamente masoquistas, foram silenciosamente excluídos do comportamento
habitual de outras ordens religiosas.
Açoitar-se semanalmente, ou com mais freqüência como uma disciplina; levar uma corrente com puas; beijar o chão ao levantar-se; o ' grande silêncio' depois
das orações da noite, até depois de tomar o café da manhã seguinte; um 'silêncio menor' por um período prolongado depois do café da manhã (algumas ordens religiosas
muito conhecidas e respeitadas acostumam exigir o silêncio como modo ordinário de comportamento, exceto durante as horas formais de recreio, ao menos de seus noviços);
e, inclusive, em algumas das ordens mais rigorosas, dormir no chão, ou sobre pranchas foram prática comuns em outro tempo. Não são encontradas com tanta freqüência,
embora, não seja algo a respeito que os monges e monjas estejam dispostos a falar. Talvez, só as ordens de clausura ou as contemplativas mantenham ainda hoje tais
práticas. Parecem ter desaparecido os hábitos penitenciais das ordens ativas como os jesuítas ou os pasionistas. Em outras palavras, o Opus ficou onde estava, enquanto,
outras organizações mudaram suas práticas para adaptarem-se às novas interpretações sobre o dano psicológico causado.
Muito menos sensacional que a disciplina penitente do Opus, e chamando menos a atenção, embora possa ser bastante mais prejudicial, é a exigência de que 'cada
semana todos os membros falem de forma familiar e em confiança com o diretor local, de modo que possa se organizar e fomentar uma melhor atividade apostólica' (parágrafo
255).
As 'confidências' são uma parte importante das estruturas do Opus, tanto que são considerados não só como um dos 'costumes piedosos', mas, recomendados como
uma das 'obrigações devotas' que os membros têm. Diz o parágrafo 268, 'é uma conversação aberta e sincera' com o diretor, de modo que os superiores tenham conhecimento
'mais claro, mais completo e mais íntimo' dos membros; que os superiores se assegurem através dela que os membros têm uma constante vontade para a santidade e para
o apostolado, de acordo com o espírito do Opus Dei', e de modo que exista uma íntima expansão de ânimos e compenetração entre subordinados e superiores. 'Crônica'
as descrevia como segue:
'Na confiança em nossa relação com nosso superior, uma sinceridade sem ambigüidades nem circunlóquios, sinceridade crua quando é necessário... O padre nos
recorda: 'Filho prudente, o dia em que esconda alguma parte de sua alma ao diretor, terá deixado de ser um menino, porque terá perdido sua ingenuidade.'
Estas 'confidências' destacam-se amplamente sempre que conversamos com ex-membros. Supõem ser uma ajuda para o progresso espiritual de um indivíduo, um meio
pelo qual o diretor chega a conhecer, intimamente, aos que estão a seu cargo. Portanto, conclui-se serem muito detalhadas. Maria do Carmen Taipa recordava que se
esperava que os membros informassem seus diretores sobre sua vida sexual e seus problemas, embora a palavra 'castidade' era preferida a de sexo. Isto era certo inclusive
nas mulheres casadas que eram membros super numerários
Nada disto ocorre sob o que os católicos chamam 'secreto na confissão'; o compromisso de segredo absoluto (até a morte, se for preciso; a Igreja tem mártires
para prová-lo) pelo que se revela a um sacerdote no sacramento da confissão. Terá que recordar que os diretores não são clérigos. É provável não terem sequer a mínima
formação em técnicas de assessoramento, nem em escutar confissões, as quais supõem-se que os sacerdotes recebam no seminário. Por exemplo, Vladimir Felzmann tinha
vinte e dois anos quando recebeu um cargo em 'Netherholl', e deste modo, converteu-se em diretor dos membros do Opus vinculados a ele. Poderia ser, especialmente
dotado, mas, dificilmente, teria maturidade e sabedoria para guiar aos que estavam a seu cargo.
A prática da 'confidência', mais usualmente conhecida como 'manifestação de consciência', era antigamente um elemento importante da vida das ordens religiosas,
embora se praticava geralmente com uma periodicidade anual ou semestral, e não semanal, como para os membros do Opus. Entretanto, estava tão evidentemente exposta
ao abuso, que foi proibida pela Igreja católica já em 1890. A proibição formou parte do Direito Canônico da Igreja e era muito explícita. Estava incluída no cânone
530 do Código de Direito Canônico de 1917, em vigor quando Escrivá insistia na 'confidência' ou manifestação de consciência como um dos deveres, não um extra opcional,
dos membros do Opus. O que é ainda mais estranho que a Constituição de 1950 recebesse a aprovação do Vaticano.
Os superiores do Opus Dei não têm que contar só com a confidência para conseguir informação sobre seus subordinados. Existe também o círculo. Como a manifestação
de consciência, o círculo ou capitulo de faltas tem uma larga tradição histórica nas ordens religiosas da Igreja. Os membros de uma comunidade reunem-se em círculo
(daí o nome) acusando-se por faltas contra a disciplina religiosa e a vida em comum. É uma experiência muito penosa para os escolhidos serem submetidos a tal humilhação
sob a aparência de melhorar sua vida espiritual. Por outro lado, existe a correção fraterna, justificando a interpretação do Novo Testamento. Descobrindo-se alguma
falta em outro, primeiro pede permissão a seu superior, e depois fala com o membro que cometeu a falta com a esperança de que se corrija. Então, informa-se o superior
de que se efetuou a 'correção fraternal'. Realizar tais coisas, diz Felzmann, era considerado como uma prova de zelo; efetuavam-se pressões afim de descobrirem faltas.
Para os membros do Opus, os círculos têm periodicidade semanal. Concentram-se não só nos defeitos pessoais, mas também em quanto avançou no apostolado cada
indivíduo presente -o que significa até que ponto os membros pescaram' (a palavra é do Opus') novos recrutas, ou mantiveram e desenvolveram contato com aqueles que
já picaram-. Qualquer um que tenha falhado neste apostolado é severamente repreendido, se não imediatamente, mais tarde, quando a pessoa encarregada do círculo informou
ao diretor.
Tanto círculos, como confidências, têm lugar no que a Igreja considera como o 'foro externo'. Até certo ponto são públicas, porque a informação assim reunida
sobre um indivíduo é utilizada pelos superiores para o que consideram o próprio bem do indivíduo, ou do instituto. Mas, também existe a prática semanal da confissão
estabelecida como uma obrigação para os membros: 'Que cada sacerdote faça uma confissão sacramental semanal ao sacerdote que lhe seja atribuído' (parágrafo 263).
Nesta regra -segue dizendo-, como exige a lei da Igreja, os membros podem ir a qualquer sacerdote que escolham, sempre que tiver a aprovação do bispo, e não precisa
informar a confissão aos superiores do Opus.
Essa é a regra. Entretanto, a inclinação ante o sentido da lei canônica, o conselho de Escrivá do Balaguer aos membros do Opus o expressa de forma bastante
distinta:
'Todos meus filhos têm a liberdade de confessarem-se com qualquer sacerdote aprovado pelo ordinário [chamado de Crônica] e não estão obrigados a dizer aos
diretores da Obra o que têm feito. Peca a pessoa que não faz isto? Não! Tem um bom espírito? Não... Está a caminho de escutar o conselho de maus pastores.
'Irão aos seus irmãos os sacerdotes como eu vou. E lhes abrirão seus corações de igual para igual, podres se o estiverem!, Com sinceridade, com um profundo
desejo de curarem-se. Caso contrário, essa podridão nunca se curaria... Fazendo isto de forma equivocada, procurando um doutor de segunda mão, não mais que alguns
segundos de seu tempo, não podem utilizar o bisturi, nem cauterizar a ferida; também prejudicando a Obra. Fazendo isto, teriam o espírito equivocado, seriam infelizes.
Não pecariam por isso mas, ai de vós! Começariam desencaminhar-se'.
Equivale dizer aos membros que, na prática, a confissão com um sacerdote que não seja do Opus é proibida. E não só a confissão. Uma mulher que pretendia deixar
o Opus, foi ver Vladimir Felzman. Não era questão de sacramento da penitência; necessitava conselho e o deu. Ao voltar para a residência, entretanto, ela se sentiu
incomodada por falar com um sacerdote que não era do Opus sem permissão e contou a sua diretora o que fizera. A diretora enfureceu-se e, imediatamente, proibiu-lhe
receber a Sagrada Comunhão durante um período de duas semanas. Surpreende-nos com perplexidade, baseada em que autoridade podia tomar tal medida. A mesma diretora,
chegou mais tarde a pensar, que atuou com muita dureza e o castigo reduziu-se a uma semana de abstinência.
A referência a um 'doutor de segunda mão' (classe?) na passagem citada anteriormente, indica a atitude do fundador para o clero que não formava parte de sua
própria organização. Recordemos que pôs em funcionamento a Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz, porque não confiava à sacerdotes que não fossem do Opus a formação
dos membros nos termos em que ordenava. Maria do Carmen Taipa recorda fazendo, certamente, a extraordinária afirmação de que seria melhor morrer sem os últimos sacramentos,
do que recebê-los das mãos de um jesuíta. A desconfiança de Escrivá para os que não estavam sob sua influência era profunda.
'Como não deixei advertir, o mal vem de dentro [a Igreja] e de muito acima. Há uma autêntica podridão e, às vezes, parece como se o Corpo Místico de Cristo
fosse um cadáver em decomposição, que fede... Peçam perdão, meus filhos, para estas ações desprezíveis feitas na Igreja e de cima, corrompendo as almas quase desde
a infância' (Crônica).
Acrescentou: 'Nosso Senhor nos escolheu para que sejamos seus instrumentos nestes momentos tão difíceis para a Igreja. '
Sobre o tema dos sacerdotes, mais que dos prelados, e sua qualificação como confessores, disse a seus 'filhos': 'Têm a liberdade de confessar com quem querem,
mas, seria uma loucura colocá-los em outras mãos que, possivelmente, se envergonham de estar consagradas. Não podem confiar.' É um conselho que se aproxima muito
ao rechaço do ensino católico fundamental, que se remonta ao menos até Santo Agustín no início do século V, de que nem a ortodoxia doutrinal, nem a santidade pessoal
exigem-se aos que administram os sacramentos.
Escrivá estava obcecado com o sacramento da confissão, tanto para os membros do Opus como para a Igreja em geral. Assim, quando escreveu: 'A função santificadora
do laico necessita da função santificadora do sacerdote que administra o sacramento da penitência, celebra a Eucaristia e proclama a palavra de Deus em nome da Igreja'.
É digno de menção que ponha o sacramento da penitência primeiro; a maioria dos teólogos católicos, se não todos, puseram primeiro a celebração da eucaristia.
Entretanto, não era tanto o significado teológico do ensino de Escrivá sobre o sacramento da penitência que era e é inquietante, como o impacto psicológico
que exercia sobre aqueles submetidos a ela. A confissão no Opus converte-se em uma importante forma de controle social. Seu uso pelos membros do Opus é restrito
na prática aos sacerdotes, membros por sua vez do Opus; utilizado para inspirar sentimentos de culpabilidade por não poder viver de acordo com os ideais mais altos
e prejudicar, desse modo, toda a instituição.
O capítulo sobre a confissão em 'Crônica' foi lido por um sacerdote jesuíta, o padre Brendan Callaghan, um psicólogo clínico perito em tratar com membros
de instituições religiosas que sofrem desordens psicológicas. As notas que preparou para este livro expressavam seu crescente alarme. Algo desta inquietação surgiu
estritamente das questões teológicas, e também da confusão urdida entre 'nosso Pai, significando Deus e 'nosso Pai', significando Escrivá do Balaguer. Há, por exemplo,
uma constante utilização do Evangelho de João, capítulo 10, versículos 1-19, a história do bom pastor e do redil, como se o redil fosse o mesmo Opus; os maus pastores
que roubam e matam, fossem sacerdotes que não são do Opus, que pudessem ser abordados por membros da Instituição. "Li esta passagem de Crônica do princípio ao fim
várias vezes -comentava Brendan Callaghan-, porque acreditei que estava ficando paranóico. Todavia, é a única interpretação que tem sentido... Esperava que o mau
pastor era um termo aplicado ao 'espírito maligno', entretanto, não tive sorte." A propósito, esta é a versão de Escrivá da passagem do Novo Testamento. A História
não identifica os ladrões e destruidores aos pastores.
No parágrafo citado mais acima de que não é pecado ir a um sacerdote que não seja do Opus, mas, qualquer um que o faça está 'em caminho de ouvir a voz de
um mau pastor', Callaghan comenta: isto quer dizer que as pessoas têm má fé, algo que encontrei dentro do Opus em seu tratamento com jovens e na oração, um planejamento
extremamente manipulador.'
Observou de maneira áspera o aforismo, 'o temor filial é a porta ao amor'. 'De certo modo resume todo o enfoque do Opus, não é assim? -Comentou-. É uma pena
que não tenha nada a ver com o Evangelho' Constantemente misturando a paternidade de Escrivá com a de Deus, é impossível determinar se o temor filial é para Deus,
ou de um membro do Opus para o fundador. A confusão entre os dois é proposital, uma opinião que Maria do Carmen Taipa, com seus muitos anos como membro do Opus Dei,
corrobora.
As conseqüências sobre os membros da organização formados em uma sociedade singularmente devota, fechada e estritamente controlada, são devastadoras quando
sugeridas em forma de simbiose entre a vontade de Deus e a vontade do fundador, o qual ensinam venerar. Colocam-os sob uma enorme pressão psicológica, protegidos
como estão ante qualquer objeção de gente fora de seu grupo. 'Em nossa docilidade -dizia 'Crônica' aos membros- não haverá limites.' Tem que ser obediência tanto
de coração como de mente, porque libera os membros de uma 'independência estéril e falsa... que deixa o homem na escuridão quando abandona seu próprio julgamento'.
Essa é a ideologia de submissão a qual os membros se submetem por meio de seus três votos, ou equivalente a 'fidelidade', como o Opus prefere chamá-la. E
as confidências, os círculos e o sacramento da penitência são meios para reforçá-la. Dadas as regras, extremamente restritas, impostas pela Igreja sobre o secreto
confessionário, a confissão sacramental ficaria, é obvio, fora da estrutura. Todavia, como vemos pela insistência em que vão somente a um confessor do Opus, isso
não é assim. Violou-se alguma vez o segredo de confissão? Possivelmente, não diretamente, mas, Vladimir Felzmann, relata um incidente inquietante. Depois de algum
tempo como numerário laico, foi ordenado e voltou para a Inglaterra, onde escutou as confissões dos membros. Um dia foi visitado por oficiais de maior classe social
do Opus Dei. Disseram-lhe, que chegou a notícia de que alguém lhe confessou pecado (como eles o entendiam) de homossexualidade, e que, entretanto, Felzmann não
informou Roma. Isso, assinalou Felzmann, é violação do segredo de confissão. Os oficiais reconheceram, a contra gosto, todavia, disseram-lhe que deveria persuadir
a pessoa em questão, sob pena de não receber a absolvição de seu pecado real ou suposto, voltasse a ele, ou fosse a outra pessoa fora do confessionário em forma
de confidência, de modo que a informação pudesse ser utilizada. Felzmann protestou até chorar, dizendo que isso seria, tecnicamente, interpretado como uma violação
do segredo. Os altos membros não aceitaram e lhe repreenderam duramente por sua falta de lealdade à organização.
De forma bastante curiosa, em meio as reflexões de Escrivá sobre a confissão, aparece o seguinte:
"Uma firme resolução: o primeiro sacrifício é dar e não esquecer em toda nossa vida, a expressão Castelhana de um modo muito gráfico: os trapos sujos lavam-se em
casa. A primeira manifestação de sua dedicação é não ser tão covarde para ir fora da Obra lavar trapos sujos. Isso é se querem ser Santos. Senão, não são necessários
aqui."
Novamente aparece a chantagem moral, mas esta não é a razão para citar esta passagem. A utilização de Escrivá do equivalente castelhano de 'não lavar a roupa
suja em público' -incluso, aparentemente, no confessionário (não confiava em que os clérigos que não eram do Opus guardassem o segredo?) Esclarece que uma de suas
preocupações dominantes era algo secreto da organização, algo que não se devia violar, sequer no sacramento da penitência.
Embora, negará, energicamente, ser uma sociedade secreta, o segredo, ou a 'discrição', como os membros preferem chamá-lo, é um de seus emblemas. Na entrevista
com Peter Forbarth, Escrivá repudia a acusação.
'Qualquer pessoa razoavelmente bem informada sabe que não há nada secreto sobre o Opus Dei -disse-. É fácil chegar a conhecer o Opus Dei. Trabalha a plena
luz do dia em todos os países com o reconhecimento jurídico pleno das autoridades eclesiásticas e civis. Os nomes de seus diretores e de suas empresas apostólicas
são bem conhecidos. Qualquer um que deseje informação pode obtê-la sem dificuldade'.
Tudo isto é difícil aceitar. A entrevista ocorreu em 1966 quando ainda prevalecia a política de não fazer cópia completa das Constituições, acessíveis sequer
aos bispos, que tinham casas do Opus em sua diocese. Muito depois, a entrevista de Henry Kamm com o sucessor de Escrivá, Monsenhor Álvaro do Postigo, foi descrita
pelo professor Eric Hanson como "um bom exemplo de quão pouca informação uma organização disciplinada pode dar aos meios de comunicação, se assim o decidir". A razão
fundamental para ser secreto é o apostolado. A falta de discrição, diz o parágrafo 191 da Constituição de 1950, "resultaria um sério obstáculo para a obra apostólica;
criaria problemas dentro da família natural de um membro; e para dar continuidade em seu ofício ou profissão". (Disposições similares se estabelecem na nova Constituição,
ver parágrafo 89.) O que é secreto dá cobertura, exatamente, explica depois: os membros do Opus devem guardar silêncio sobre os nomes de outros membros; não podem
revelar que eles mesmos pertencem ao Instituto sem permissão explícita, mesmo acreditando que ajudaria à difusão do mesmo; em especial, não se devem revelar os nomes
daqueles que tenham ingressado recentemente ou que, por qualquer razão, saíram recentemente (parágrafo 191). Para manter este segredo não deve haver nenhum emblema
especial (parágrafo 192). Os membros não devem tomar parte como grupo em ofícios religiosos, tais como, procissões (parágrafo 189). Observa-se, inclusive, em uma
missa pública para comemorar o aniversário da morte de Escrivá: embora pequenos grupos de numerários e outros membros plenos podem sentar-se juntos, os homens e
as mulheres separados, claramente, é obvio, não há ostentação pública de que são membros, nem solidariedade. Não obstante, esta solidariedade é bastante evidente
depois da missa, quando os membros se reunem no átrio da igreja.
Os códigos não são revelados e a conversação sobre temas do Opus Dei, com pessoas que não sejam membros é proibida (parágrafo 190). As mesmas Constituições
são mantidas em segredo, junto a qualquer documento publicado ou que vá publicar-se. As Constituições são impressas somente em latim: sem a permissão de Escrivá
não serão traduzidas em nenhuma língua moderna. As mesmas restrições acostumavam aplicar-se às Constituições dos jesuítas e de outras ordens religiosas: compartilhavam
aos membros com as palavras "AD usum tantum nostrum" (Somente para 'nosso uso'). Hoje em dia, todavia, são facilmente acessíveis a qualquer um que pergunte.
Um dos deveres de um diretor local é velar para que a Constituição seja plenamente observada. Por mais estranho que pareça, o diretor ou a diretora deviam
fazê-lo sem acesso à própria Constituição, pelo menos até a publicação da edição de 1982. Dos ex-membros entrevistados, unicamente Maria do Carmen Taipa, disse tê-la
visto, com permissão para estudá-la, sob as mais restritas condições, mesmo sendo, naquela época, diretora da seção de mulheres na Venezuela.
Em Caminho, todo um grupo de máximas, do número 639 ('De calar não te arrependerá nunca; de falar, muitas vezes') até 656 inclusive, são dedicadas à virtude
da 'discrição'. Também aqui, como na Constituição de 1950, é considerada como um instrumento do apostolado. 'Se cala -escreve Escrivá na máxima 648-, obterá mais
eficácia em seus empreendimentos de apóstolo.' 'Não revele, facilmente, a intimidade de seu apostolado' (máxima 646), os pais não compreendem que está tentando recrutar
seu filho ou sua filha para o Opus. 'Em alguns casos -escreveu o sacerdote do Opus padre Andrew Byrne, no 'Daily Mail' de 14 de janeiro de 1981-, quando um jovem
diz que quer ingressar, aconselhamos que não diga a seus pais. Porque os pais não nos compreendem'.
Certamente, uma das exigências do Opus é que seus membros numerários, homens e mulheres, tenham doutorados ou sejam capazes de consegui-los. Ajusta-se à educação
e, especialmente, à educação universitária; Escrivá do Balaguer vangloriava-se de ter passado a maior parte de sua vida em Universidades e ao redor delas. Pensávamos
que a educação liberal, supostamente, transmitida nas Universidades, abrandasse a dura disciplina e a mentalidade fechada da organização; entretanto, brevemente,
descobrimos, com um sacerdote do Opus, que isto não acontece.
Em seu relatório ao sínodo diocesano de 1985, o reitor do seminário da diocese de La Rioja acusou ao clero do Opus de 'ir à caça de heresias' (ver mais atrás,
págs. 89-90). E prosseguia dizendo:
"[a] classe de sacerdote que o Opus nos oferece é dificilmente adequada para nossa gente, não o é para o atual período pós-conciliar do Vaticano II. Assim
vemos nos sacerdotes que pertencem à Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e a quem conheço, os seguintes defeitos, que é difícil saber como remediar: há um individualismo
explícito na oração, na liturgia, na colaboração diocesana e inter-paroquial... Acreditam pertencer à 'raça de Melquisedec', a noção da 'dignidade' do sacerdote
prevalece sobre o serviço. Mostram um tradicionalismo ideológico e retrógrado que tem pouco que ver com a noção de sacerdócio proposta no "Presbyterorum ordinis"
(o documento Vaticano II sobre o sacerdócio) na prática manifesta-se pela forma em que seguem fiéis às 'tradições' e repudiam, sistematicamente, algo que cheire
a 'ornamento' por seu temor a enfrentar-se com os sinais dos tempos e por sua falta de compromisso para a gente comum e o apostolado social.'
Não há, absolutamente, nada surpreendente nisto. Escrivá estava decidido que seus 'filhos' fossem bem educados; era educação de uma classe especial: 'Cultura,
cultura! Bom: que ninguém ganhe em ambicioná-la e possui-la. Mas, a cultura é meio e não fim' (máxima 345). Para estar seguros de que a instrução de seus membros
era conforme os propósitos do Opus, estabeleceram-se centros de estudo cujos instrutores fossem sacerdotes escolhidos 'não só por seu saber, mas, também por suas
virtudes e prudência' (Constituição de 1950, parágrafo 131). O plano de estudos incluía latim, grego, filosofia, teologia e música eclesiástica, 'junto com conhecimentos
de nosso Instituto', apesar do fato de que as Constituições não seriam acessíveis aos estudantes (parágrafo 134).
'Os estudos em filosofia e em teologia, como também o ensino a estudantes [que não são do Opus Dei] nestas disciplinas, serão dados por professores que estejam,
totalmente, de acordo com o método, o ensino e os princípios do doutor angélico, e estes [método, ensino e princípios, presume-se] devem ser tidos por sagrados'.
Diz o parágrafo 136. O Doutor Angélico, como já vimos, é, certamente, São Tomás de Aquino. O 'tomismo experimentou um grande ressurgimento no século XIX,
que durou pelo menos até a metade do século XX, embora, às vezes, de um modo bastante humilhante. Escrivá do Balaguer não era o único em 1950 em fomentar o estudo
de São Tomás, mas, com a rigidez de pensamento característica do Opus, insiste em uma interpretação extremamente 'ortodoxa' (no sentido eclesiástico) de Tomás. Não
são toleradas outras opiniões.
Quando o jornalista Henry Kamm foi à Universidade de Navarra (o estabelecimento vitrine intelectual do Opus) reunir dados para um artigo no 'New York Time',
o catedrático do departamento de Filosofia reconheceu que naquele local não havia marxistas, nem sequer simpatizantes do marxismo. Disse ao Kamm que os estudantes
utilizavam qualquer livro da biblioteca, embora admitiu que havia algumas exceções, destacando entre elas as obras marxistas. Mas, havia outras restrições; Kierkegaard,
por exemplo (um jovem suicidou-se, aparentemente, depois de entregar-se a Kierkegaard), Schopenhauer era 'muito pessimista' e Sartre 'não muito adequado para estudantes
jovens'. 'As prateleiras de filosofia -observou Kamm- estão quase uniformemente divididas entre o permitido e o proibido, incluindo no último Spinoza, Kant, Hegel,
Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, John Stuart Mill e William James'.
A lista é interessante. Apóia-se no 'index librorum Prohibitorum' (Índex de livros proibidos), uma lista de todas as obras que o Vaticano desaprovava porque
eram, aos olhos dos censores, contrárias ao credo da Igreja ou prejudiciais para a moral. Aos católicos lhes proibia lê-los sem a permissão explícita do bispo local,
um regulamento muito ignorado. O 'Index', em qualquer caso, desapareceu faz muito tempo, abolido por decreto papal do Paulo VI. Parece que o Opus está decidido a
conservá-lo, embora Roma acredite que o mundo católico pode prescindir desse grau de controle do pensamento. Realmente, o Opus vai ainda além destas medidas: o filósofo
e psicólogo William James nunca foi proibido.
Não é simplesmente que a Universidade de Navarra foi lenta em colocar-se em dia, porque a última edição da Constituição do Opus reitera o papel do 'Doutor
Angélico'. Quando os temas de leitura permitidos aos membros do Opus são estritamente controlados, como atestam ex-membros que assim é, de acordo com a máxima 339
do Escrivá ('Livros: não os compre sem te aconselhar de pessoas cristãs, doutas e discretas'), é difícil explicar o parágrafo 109 da nova Constituição:
'O Opus Dei não tem opinião própria nem postura comum em nenhuma questão teológica nem filosófica em que a Igreja dá aos fiéis liberdade de opinião: os membros
da prelatura, dentro dos limites estabelecidos pela hierarquia da Igreja que defende o depósito da fé, gozam da mesma liberdade que outros católicos.'
O Opus, é obvio, não é o único que adota uma posição fortemente tradicional sobre matérias teológicas, embora o Opus seja mais tradicionalista que a maioria.
Na Páscoa de 1986, Germain Grisez, um professor muito conservador de ética cristã em um pequeno colégio de Maryland, foi convidado à Roma. O Opus Dei e o Instituto
para a Família, vinculado à Universidade Lateranense, pediram-lhe que pronunciasse uma conferência, depois da qual devia assistir a uma reunião pública organizada
pelo Opus em seu centro de estudos em Roma. As opiniões de Grisez, ultra-ortodoxas para muitos, foram consideradas não o suficientemente ortodoxas para o Opus na
exposição feita na conferência. O convite do Opus foi prontamente retirado. Grisez decidiu, não obstante, apresentar-se à reunião encontrando a sala fechada para
ele. Foi convidado pelo reitor do 'Colégio Inglês' próximo, e deu ali sua conferência.
Com o Papa atual, a 'restauração' de antigas ortodoxias converteu-se em um programa importante, dirigido pelo cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina
da Fé, Josef Ratzinger. Em um programa assim, o Opus, metido em uma missão similar na Espanha nas três décadas que seguiram à vitória de Franco, encaixa-se perfeitamente.
Em nenhum local está mais amplamente demonstrado como no caso da teologia da liberação.
Esta nova perspectiva sobre a teologia pode ter suas raízes no pensamento religioso acadêmico europeu, mas, foi desenvolvida primeiro no Peru nos anos sessenta.
Em 1968 houve uma reunião do CELAM -Conferencia de Bispos latino-americanos- em Medellín, Colômbia. Seu propósito era pôr uma roupagem latino-americana às conclusões
do Vaticano II, que tinha terminado exatamente três anos antes. Os rascunhos dos documentos preparados em Medellín eram, na verdade extraordinariamente radicais
para o momento, especialmente, quando tratavam o problema das relações da Igreja com as condições da América Latina sob as que tinha que trabalhar.
Suas conclusões incitam um pequeno grupo de clérigos peruanos que estudaram juntos na Universidade e trabalharam juntos na Ação Católica. Seu líder, que chegou
a ser sacerdote e com o tempo publicou 'a gramática' da Teologia da Liberação, era o padre Gustavo Gutierrez
Ao mesmo tempo, entretanto, houve no Peru uma espécie de invasão de sacerdotes e monjas. Em sua maior parte chegaram dos Estados Unidos, embora alguns procediam
da Europa, e a maioria estudava durante o Vaticano II. Nem as Igrejas que os enviavam, nem as que os recebiam, tinham idéia de como preparar estes missionários para
seu trabalho no Peru. Foram às zonas mais pobres, porque era ali onde havia mais necessidade. Rezavam missa, mas também ajudam melhorar as condições daqueles entre
os quais trabalhavam. Era um bom momento para estar no Peru: o regime do Velasco Alvarado, embora um governo militar, era basicamente progressista. As oportunidades
estavam ali, porém, os sacerdotes e as monjas, com Gutierrez e seu grupo encabeçando, começaram a refletir sobre o que estavam fazendo em nome da Igreja. Como agora
diriam, a prática (eles a chamam 'praxe') veio primeiro, a teoria depois. A teoria surgiu como a teologia da liberação.
Esta tendência deixou o Opus isolado. Segundo Peten Hughes, um sacerdote irlandês que encabeçou uma vez um grupo de missionários que trabalhavam nos bairros
mais pobres de Lima, antes da conferência de Medellín, o Opus se considerava uma força poderosa na Igreja peruana. Mas, não tinha, absolutamente, idéia do que acontecia
aos camponeses peruanos. Na euforia engendrada pelo Medellín, o Opus sentiu-se marginalizado, porque, como vimos, estava já em desacordo com as mudanças produzidas
pelo Vaticano II. Entretanto, as eleições do CELAM de 1973 inclinaram claramente para a direita a organização, o que deu ao Opus uma pausa. Os membros do Opus começaram
de novo a fazer sentir sua presença, e a bastante débil Conferência Episcopal do Peru foi incapaz de fazer frente à artilharia anti-aérea que o Opus produzia. A
tática era falar de preparar a Igreja para o ano 2000, sem dúvida, uma admirável idéia em si; todavia arquitetada para distrair a atenção dos problemas presentes,
abandonar o que estava em marcha, e ignorar a Igreja popular que ia emergindo lentamente.
O Opus tinha uma influência crescente através do CELAM e da Conferência Episcopal do Peru (hoje em dia, ao menos cinco bispos são membros do Opus e outros
são simpatizantes, incluído o arcebispo jesuíta Vargas), e através do núncio apostólico. Para a primavera de 1983 o Opus acreditou ter apoio suficiente na Conferência
Episcopal para lançar um ataque com todas suas forças sobre a teologia da liberação. Embora tinham, ou pareciam ter, o apoio de Roma, o Opus não ganhou a maioria
de votos dos bispos quando se reuniram em Lima. Em uma jogada extraordinária, a Conferência foi chamada a Roma para discutir o assunto ante a Papa João Paulo II.
Parecia duvidoso, mas de novo perdeu o Opus, e perdeu de modo decisivo: o alvoroço teve muito a ver com a clara mudança de simpatias no Vaticano para a teologia
da liberação. O cardeal Ratzinger, que tinha sido o responsável por uma muito hostil 'instrução' a toda a Igreja sobre o tema, escrevia agora um segundo documento
muito mais suave. Deste modo o Papa, em uma carta à Conferência Episcopal brasileira, expressou um apoio maior até a data. Segundo Peter Hughes, a hostilidade do
Opus para a teologia da liberação no Peru não diminuiu, porém, no momento tem que se contentar escondendo-se nas colunas dos jornais.
Apesar de tais reversos, nada parece sacudir a confiança dos membros do Opus em si mesmos. Estão completamente convencidos de que se acham certos, exatamente
como estava seu fundador:
'Não somente a Obra não morrerá nunca, nunca será velha... Deus pôs em dia Sua Obra de uma vez por todas, dando-lhe as características laicas e seculares
sobre as que tenho escrito nesta carta. Nunca precisaremos nos adaptar ao mundo, posto que 'nós somos' parte do mundo. Nem teremos que ir depois do progresso humano
porque vós são meus filhos, os que, junto com os demais que vivem no mundo, trazem este progresso com seu trabalho cotidiano.'
O sentido 'prima facia' desta entrevista de 'Crônica' é que as Constituições, neste caso as Constituições de 1950, eram definitivas, fixa não só durante uma
vida, mas também para sempre. Em palavras de Maria do Carmen Taipa, Escrivá disse que sua Constituição era eterna. 'Crônica', comparando implicitamente o Opus com
a Virgem Maria, escreve: 'Conforme fomos conhecendo a Obra, cativou-nos descobrir com mais claridade cada dia seu profundo atrativo, sua imaculada beleza.' Há um
forte sentido de vocação divina: 'fomos escolhidos para levar a Deus, para transmitir o sentido de sua Obra; é a única razão para nosso trabalho apostólico. Isto
nos confere grande responsabilidade de trocar vigilantes para não mudar nada."
Esta alta opinião da instituição obriga seus membros, quando em confronto a um livro como este:
'Tolerância ou silêncio, quando confrontarem calúnias insinuadas ou públicas -com boa ou má fé-, com opiniões inexatas, ou com o julgamento equivocado de
pessoas ou instituições, seria cumplicidade, um claro sinal de falta de amor para nossa Mãe e um sério ataque a nossa humildade coletiva. Este silêncio seria equivalente
a negar que a Obra é divina.'
Um teólogo poderia muito bem sentir-se desconcertado pelo apelativo divina aplicado à Obra, que parece pô-lo ao nível da mesma Igreja. Em qualquer caso a
Igreja, embora para os católicos é uma instituição divina, não está certamente por cima das críticas e sempre está aberta à reforma: 'Ecclesia semper reformanda'.
O que não é certo para o Opus Dei.
O porta-voz do Opus (não se ouve falar do porta-voz do Opus) estará agradecido pelo tal mais acima para equilibrar-se em sua defesa. O conteúdo de sua resposta
será fácil de adivinhar:
'Qualquer que tenha feito uma investigação séria sobre um tema cientista ou histórico, dará conta de que uma longa lista de entrevistas, que a primeira vista
poderiam dar a aparência de um estudo minucioso sobre a matéria, pode estar facilmente apoiada em fontes não comprovadas ou não confiáveis, ou igualmente manipuladas
para adaptá-las a uma tese.'
Isso disse o reverendo Richard Stork, um sacerdote do Opus, ao escrever uma 'Apologia pró Opere Dei' na revista mensal, britânica e católica, 'Clergy Review',
de fevereiro de 1986. É certo que com freqüência citei artigos 'publicados para o uso interno dos membros do Opus Dei', mas não foram 'utilizados para produzir um
quadro distorcido'; foram citados bastante extensamente. Realmente, o impacto da publicação de 'Crônica' em extenso estrago à reputação do Opus que as poucas passagens
utilizadas. O padre Stork nem sequer oferece atenuante, que a maior parte fosse escrita e circulasse fazia muito tempo; defende-o tudo.
Determinar, exatamente, o que é que defende, poderia ser difícil. Quando Maria do Carmen Taipa era a encarregada de Imprensa em Roma, recorda que teve que
fazer novas páginas para os jornais do Opus Dei, jornais internos como 'Crônica', que eram enviados aos centros do Opus, onde as velhas páginas, não consideradas
já como ideologicamente acertadas, eram suprimidas e em seu lugar inserida a doutrina. Vladimir Felzmann, receptor de tais missivas de Roma, corroborou esta história.
Mas, essa não é a defesa central. O que é fundamental para a 'Apologia' do padre Stork é o respaldo da Igreja: 'Pode uma instituição aprovada pela Igreja
Católica estar tão equivocada, ser tão perversa, tão estúpida?', Pergunta, e continua insinuando, em uma entrevista de São Tomás de Aquino, que os adversários do
Opus estão na categoria de hereges. Um jesuíta poderia sorrir tristemente ante uma visão tão ingênua da Igreja, posto que a Igreja decidiu em sua sabedoria suprimir
sua ordem, só para restabelecê-la de novo quase meio século depois, quando prevaleceram opiniões mais judiciosas.
Entretanto, o caso seria questionar o apoio que o Opus tem dentro da Igreja católica. Indubitavelmente, estão aqueles da burocracia papal romana, em alto
nível, cuja própria visão da Igreja coincide com a do Opus. Do mesmo modo, é certo que mais de mil prelados escreveram obedientemente a Roma solicitando a apresentação
da causa de Monsenhor Escrivá do Balaguer para canonizá-lo como santo.
Contra isso, alguém poderia considerar os protestos do episcopado espanhol e de outros bispos contra o restabelecimento de uma prelatura pessoal, a longa
demora em encontrar uma fórmula eclesiástica adequada para fazer frente à incomum Constituição do Opus Dei, a própria aversão do Escrivá por muito do que aconteceu
depois do Vaticano II e a oposição de alguns prelados de todo o mundo à expansão das atividades do Opus em sua diocese. Também houve adversários do Opus entre os
mais destacados cardeais da cúria romana. O cardeal Pironio, o prefeito argentino da Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares sob a qual se encontrava
até que se converteu em uma prelatura pessoal, certamente não era partidário dele. E mais importante ainda, tampouco o era o cardeal Benelli, durante muitos anos
o mais próximo conselheiro do Paulo VI (converteu-se no secretário do futuro Papa em 1944), a quem muitos queriam ver eleito sucessor do Paulo VI. Benelli serve
durante um tempo na Nunciatura de Madrid, onde teve uma grande aversão ao Opus, tanto que, ele reconhecia a necessidade de separar à Igreja do apoio sem reservas
ao regime de Franco, porque considerava o Opus como uma Igreja alternativa. A luz da oposição do Benelli em particular, é difícil aceitar a afirmação do Opus de
que teve 'apoio papal contínuo e mantido'.
É certo que o espírito do Opus gosta do atual Papa. Dificilmente, seria indiferente, como se afirma, o Opus enviou dinheiro para apoiar a Solidariedade na
Polônia. A proibição do Opus de manifestações públicas parece que se levanta para as visitas papais ao redor do mundo. Bandeiras proclamando 'Totus Tuus' ('totalmente
teus') assinalam a situação dos membros da organização nas massas vitoreantes. O jornalista espanhol Pedro Lamet comentou sobre a visita de João Paulo II a Espanha
que quando a Papa falava da necessidade de manter-se fiel aos ensinos tradicionais, em especial na contracepção e o controle da natalidade, os grupos do Opus aplaudiam
com força. Quando falava sobre a necessidade da justiça social, permaneciam estranhamente silenciosos.
Porque é possível observar áreas importantes nas quais o espírito do Opus se separa da tradição mais recente da Igreja católica e fica em desacordo com o
conteúdo do pontificado de João Paulo II. Estas áreas têm a ver com as inquietações sociais da Igreja, e são o tema do capítulo seguinte.


VII. POLÍTICA E NEGÓCIOS


Em dezembro de 1985 um tribunal de Munich concedeu ao Opus Dei um interdito para acautelar a publicação de um livro no qual se afirmava que alguns membros
do mesmo tinham trabalhado com os esquadrões da morte no Chile. A acusação de que o Opus apóia regimes militares na América Latina a fazem com freqüência os críticos
da organização, e esta o nega acaloradamente.
A acusação não desaparece. De várias maneiras lhes acusam acadêmicos, jornalistas e clero católico. O professor Brian Smith, por exemplo, que ensina política
em Massachusetts lnstitute of Technology, em seu livro 'The Church and Politics in o Chile' (1982), considera que o Opus é uma das forças desiludidas pelo modesto
liberalismo do presidente Eduardo Frei entre 1964 e 1970, e afirma que seus membros estiveram entre os primeiros administradores principais do brutal e opressivo
regime militar do geral Pinochet, que, em setembro de 1973, derrotou o Governo socialista do sucessor de Frei, Salvador Allende (Brian Smith, 'The Church and Politics
in o Chile'. Princeton, Nova Pulôver: Princeton University Press, 1982, págs. 139 e 338).
O boletim informativo latino-americano 'Notícias Aliadas' foi mais explícito. Em dezembro de 1975, quando o dirigia um sacerdote católico, publicou uma reportagem
na qual se afirmava que o Opus no Chile recebeu recursos de fundações conservadoras americanas já em 1962; organizava latifundiários contra as modestas reformas
agrárias de Frei e que ajudava a criar, com dinheiro da CIA, a Sociedade Nacional de Agricultura, que se opunha aos sindicatos que levaram Allende ao poder ('Notícias
Aliadas' publica-se em Lima. O número publicou os comentários data de 4 de dezembro de 1975). Penny Lernoux, um escritor afincado em Bogotá, afirma: 'O Opus Dei
e 'Pátria e Liberdade' (um grupo terrorista de ultra-direita) trabalharam juntos no Chile durante os anos de Allende, e o general João Carlos Onganía, ditador da
Argentina de 1966 a 1970, tomou o poder depois de fazer um retiro religioso patrocinado pelo Opus Dei' (Penny Lernoux, 'Cry of the People'. Nova Iorque, Doubleday,
1980, pág. 305).
Camilo Torres, um sacerdote colombiano convertido em revolucionário, escolheu a luta armada contra o Governo de seu país depois de seu fracasso por alcançar
uma maior justiça social por meios democráticos. Dispararam-lhe em fevereiro de 1966. O oficial encarregado da brigada que matou Torres, convertendo-o assim em uma
espécie de Che Guevara eclesiástico e um herói para os radicais católicos da América Latina, é agora general. Dirige uma revista do Opus em Bogotá. Mas, sigamos
na Colômbia. Durante a campanha para as eleições presidenciais nos primeiros meses de 1986, 'PROMEC', a cadeia de Televisão propriedade de membros do Opus, apoiou
ao mais conservador de todos os candidatos conservadores, excessivamente, pró americano e totalmente oposto a falar de paz com os movimentos guerrilheiros do país.
Não ganhou.
O maior escalão, Penny Lernoux, afirma também que a agência de ajuda germano-católica 'Adveniat' 'substituiu, gradualmente, a CIA nos anos setenta, como patrocinadora
dos regimes militares', e que 'Adveniat' estava controlada por bispos simpatizantes do Opus. (Um dos membros da hierarquia alemã, o cardeal Hoffner, arcebispo de
Colônia, tentou em agosto de 1984 entregar uma paróquia de sua diocese a dois sacerdotes do Opus. Foram tão grandes os protestos dos paroquianos, que teve que abandonar
o intento.) Mais afirmações de conexões entre o Opus e a CIA fizeram no jornal norte-americano 'Mother Jones' de julho de 1983. Depois de repetir a acusação do Lernoux
de que o Opus e Pátria e Liberdade estavam relacionados e de acrescentar que o último, unido finalmente à Polícia Secreta do Pinochet, recebia recursos da CIA, o
autor do artigo, Martin Lee, prosseguia que o dinheiro da CIA mantinha um 'depósito de pensamento' do Opus, o Instituto Chileno de Estudos Gerais.
Assim são feitas estas sugestões, entretanto, o porta-voz do Opus e seus apologistas negam rotundamente que a organização tenha, como tal, alguma coisa a
ver com a política. Sem dúvida, há uma contradição entre sua afirmação e a percepção das outras pessoas. Os membros do Opus dizem que tudo é uma invenção dos que
desejam lhe prejudicar e, ao menos isto, certamente, concede-se: dos entrevistados para este livro, que conheciam o funcionamento interno do Opus, todos negaram
que lhes dissesse em que sentido votariam, ou que fossem, abertamente, submetidos a propaganda direitista. Tampouco na América Latina há evidência indiscutível de
apoio direto do Opus como organização a ditaduras militares, nem a qualquer outra forma de governo, de direitas ou não. Mas, essa não é toda a história.
Dos supostos exemplos de compromisso político do Opus, o caso da Espanha (onde acredita-se serem 35.000 membros, aproximadamente, quarenta por cento de todos
os membros da organização) é o mais evidente e, em conseqüência sem dúvida, o melhor documentado e mais amplamente estudado. Ninguém discute, que desde meados dos
anos sessenta até começo dos setenta, o general Franco escolheu um número de ministros das classes sociais dos membros do Opus. A maior parte de comentaristas considerariam
o número de ministros do Opus surpreendentemente grande. O Opus discute o significado deste fato, mas é um fato. Muito mais controvérsia origina, entretanto, esclarecer
se o Opus pretendia tomar o controle do Estado na Espanha, ou se foi uma coincidência que tantos membros obtivessem cargos governamentais. O Opus quer, é obvio,
que se aceite a última interpretação, mas é difícil acreditar. Além disso, foi expressamente negada por Raimundo Pánniker, e ele estava em posição de sabê-lo.
Em fins de quarenta, Pánniker era o diretor do Arbor', revista insígnia do Conselho Superior de Investigações científicas. Foi o grupo de intelectuais do
Opus em torno de 'Arbor', e do CSIC em geral e em particular do Rialp', editorial do Opus fundada em 1947 por Calvo Serer, que se converteu em notável na política
espanhola. Uma tese doutoral escrita para 'New School of Social Research' de Nova Iorque, sustenta que o livro de Calvo Serer 'A ditadura dos franquistas', publicado
em Paris em 1973, proporciona ampla evidência de que os membros do Opus atuavam unidos e conspiravam no esforço de aproximar-se do poder na Espanha, mesmo que ele
o negue (José Vicente Casanova, The Opus Dei Ethic and the Modernization of Spain'. Tese doutoral não publicada, New York New School of Social Research, 1982). Pánniker
é muito contundente: segundo ele, propunham assumir o controle do Estado espanhol... e quase o conseguiram.
O deslocamento para as posições do Governo começou em 1951, no momento justo em que a influência do Opus na Espanha parecia estar a ponto de declinar devido
à substituição de Ibáñez Martín como ministro da Educação de Joaquín Ruiz Jiménez, um católico leal, mas, com opiniões liberais sobre política e questões sociais.
Este iniciou uma breve liberação do regime de Franco, que incluía o estabelecimento de um Ministério de Informação e Turismo. Um membro do Opus converteu-se no primeiro
diretor geral. Villar Palasí, que tinha estreitos vínculos com o Opus, converteu-se em seu secretário técnico. A informação era uma inquietação obsessiva do Opus:
suas elevadas posições no novo Ministério deram a estas duas pessoas um controle considerável sobre a censura, uma questão candente na Espanha até o final da era
de Franco, e sobre a propaganda do regime em emissoras e na Imprensa.
A carreira de Villar Palasí foi típica da forma como os membros ajudam uns aos outros e a seus amigos. Em 1962 chegou a subsecretário de Comércio, um posto
para o qual foi renomado pelo Alberto Ullastres, anteriormente, catedrático de Economia da Universidade de Madrid, mas desde fevereiro de 1957 ministro do Comércio
de Franco. Depois de três anos servindo no Ministério de Comércio, Villar Palasí passou a dirigir o Instituto de Estudos Administrativos situado no Centro de Funcionários
Civis, em Alcalá, não muito longe de Madrid. Este Instituto era idéia de outro membro do Opus, Laureano López Rodó. López Rodó era advogado, anteriormente, catedrático
de Direito administrativo da Universidade de Santiago, exercia Direito associado com outro membro do Opus em Santiago. Em 1956, converteu-se em secretário técnico
geral da Presidência do Governo, uma espécie de secretário do Gabinete. Este foi um posto novo criado por ele mesmo, tinha advogado em um artigo; todavia, Calvo
Serer, afirmava que sua influência foi que ajudou López Rodó a conseguir o cargo. Em seu posto pôde dinamizar, ou modernizar, a burocracia do Governo espanhol sem
mudar sua postura política, absolutamente conservadora. Realmente, López Rodó, acreditava que as economias modernas, e especialmente, aquelas com rápido desenvolvimento,
eram muito complexas para outra classe de governo que não fosse fortemente autoritário.
Gregorio López Bravo estava, deste modo, muito comprometido no projeto de modernização. Entrou no Governo em 1959, quando Ullastres o nomeou diretor geral
de Comércio Exterior. Converteu-se em uma figura chave no controle do comércio exterior em um momento em que ainda Ullastres era ministro do Comércio e outro membro
do Opus, Navarro Rubio, ministro da Fazenda. Em 1962 o mesmo López Bravo converteu-se em ministro da Indústria, um posto que manteve até 1969, quando chegou a ministro
dos Assuntos Exteriores. Durou mais tempo que Ullastres, seu antigo chefe e que Navarro Rubio, que deixaram o Governo em 1965, embora, naquele momento, López Rodó
foi renomeado ministro.
O Opus estava comprometido com a modernização da economia espanhola através de outros meios, e possivelmente, muito particularmente, através de sua altamente
competente Escola de Empresários de Barcelona, fundada por dois membros em 1958 com o respaldo do 'Banco Popular' com seu presidente do Opus Dei. Segundo um membro
desiludido, Alberto Moncada, o 'Banco Popular' também respaldou ESFINA, uma companhia financeira estabelecida em 1956 com o Ullastres sendo seu primeiro presidente,
para cuidar dos assuntos de negócios e de investimento do Opus. Curiosamente, a maior parte de suas próprias atividades econômicas não estavam no setor industrial,
que os ministros do Opus estavam promovendo ativamente, a não ser no setor de serviços em Bancos, por exemplo, e particularmente, em informação, com jornais e uma
agência de notícias. Talvez, considerando o setor de serviços como o de maiores probabilidades de oferecer um crescimento real, ou se sentiram atraídos pelas oportunidades
que oferecia para propaganda e controle.
Deve-se compreender bem isto. Os porta-vozes do Opus insistem em que a organização é puramente espiritual. Como tal, nem tem, nem pode ter, Bancos sob seu
controle, publicar nenhum periódico, nem atuar em política. Para evitar confusões, pois, deve entender-se que o termo ' Opus Dei', ao falar do controle de negócios
ou publicações, é simplesmente, uma referência para indicar indivíduos que, casualmente, são também membros do Opus Dei. Assim, por exemplo, não seria exato dizer
que eram membros do Opus Dei 'a Europa Press', uma agência de notícias; Novo Jornal, um periódico de Madrid; Mundo Cristão, uma revista religiosa, ou Telva, uma
revista feminina (que antes dos acontecimentos de setembro de 1971, referidos nas páginas seguintes, publicou um artigo sobre a tradução de Caminho para o chinês).
O que é mais significativo em tudo isto, é a forma em que membros do Opus se ajudavam uns aos outros apesar de antipatias pessoais circunstanciais (por exemplo,
Navarro Rubio criticava López Rodó); e discrepâncias políticas (Calvo Serer apoiava a dom João como sucessor de Franco; López Rodó e Valls Taberner -embora ambos,
afirma Calvo Serer, apoiavam no início dom João- finalmente, passaram para o lado do Príncipe, agora Rei, João Carlos, filho de dom João). O grau de influência e
o fator 'conspiração' não podem deixar de ter sido fomentados pela proximidade em que viviam alguns dos mais poderosos funcionários do Estado espanhol. Laureano
López Rodó, cuja longa carreira no Governo foi esboçada mais acima; Jorge Brosa, diretor do Banco Espanhol de Crédito', o maior Banco do país, e Luis Valls Taberner,
presidente do 'Banco Popular', residiam na mesma casa do Opus. O que conversavam depois de rezarem juntos suas orações noturnas?, perguntou-se um crítico (Artigues).
(A resposta, certamente, foi: de nada. Se eram bons membros do Opus e observavam as regras, deveriam observar o grande silêncio das orações da noite até o café da
manhã do dia seguinte.)
Desde seus vários postos de influência, os membros do Opus dedicaram-se a uma considerável modernização do Governo espanhol, de instituições financeiras
e industriais, que foi muito benéfica e que deveria ter sido feito muito antes. Entretanto, não tentaram mudar as estruturas políticas. Segundo a regra número 7
da Constituição do Opus de 1950, 'observam com o maior respeito as leis legítimas da sociedade civil' em que se encontram. Por seus esforços por melhorar a situação
econômica da Espanha, poderia-se argumentar que ajudaram de forma significativa a preservar o status quo político, proporcionando um nível de vida bastante melhor,
em particular à classe média. Embora, Calvo Serer mais tarde proclamou-se socialista (e seu exemplo é chamado pelos membros do Opus para demonstrar seu pluralismo
político), o que escreveu no diário madrileno ABC, não havia deixado de gostar de Franco: 'A liberdade de consciência leva a perda de fé. A liberdade de expressão
à demagogia, à confusão mental e à pornografia. A liberdade de associação à anarquia e a repudiar o totalitarismo' (Citado em Hermet op. Cit., vol. 1, pág. 113.
O livro de Hermet apareceu, originariamente, em francês, mas, estava de acordo com a versão espanhola). O valor principal do Opus para Franco baseava-se num movimento,
inegavelmente, católico; recebia apoio tal qual a Igreja espanhola deu, tradicionalmente, aos governantes conservadores do país e que os bispos estavam a ponto de
retirar do regime. Fizeram-no de forma muito dramática na Assembléia Conjunta.
A Assembléia era uma reunião de bispos e de representantes do clero de cada diocese da Espanha, que se reuniu na semana que começou em 13 de setembro de 1971.
Quase um terço de todos os bispos da Espanha foram nomeados entre 1969 e 1971. Em sua eleição influenciaram o núncio, Monsenhor Luigi Dadaglio, e seu predecessor,
Antonio Riberi, enviado a Madrid em 1962. Riberi, por outro lado, sucedeu ao arcebispo, e mais tarde cardeal. Ildebrando Antoniutti, admirador do Opus, ao que parece,
encheu a Nunciatura de Madrid com membros da Obra. Riberi indicou Paul Hofmann, quando era correspondente do 'New York Time' na capital espanhola, o qual era impossível
falar abertamente em presença do pessoal doméstico, e que já tinha substituído as 'monjas' do Opus, em frase de Hofmann, que trabalhavam no posto telefônico, pois,
suspeitava que escutavam as conversações telefônicas. (Paul Hofmann, 'Anatomy of the o Vatican', Londres, Vai, 1985, págs. 229-230. As páginas 229-235, intituladas
'O povo de Deus', e o capítulo seguinte até a página 242, 'Apostolado da penetração', ambos tratam do Opus).
O Concordata, ou tratado entre o Vaticano e Espanha, dava ao Governo espanhol direito ao veto na designação de bispos para a diocese. Apesar deste controle
teórico sobre a nomeação de bispos, os dois núncios, Riberi e Dadaglio, conseguiram transformar a natureza do episcopado em um grupo de homens muito mais críticos
para o regime de Franco, do que o tinham sido seus predecessores, que sofreram os terrores da Guerra Civil. O resultado da Assembléia foi distanciar a Igreja do
Estado. Entre outras coisas, pretendia uma revisão do Concordata para liberar a Igreja do controle estatal, e pediu aos bispos que tinham postos no parlamento espanhol
que demitissem. O regime se alarmou tanto, que uma revista que publicava uma carta citando grandes passagens das conclusões da Assembléia foi expropriada pela polícia.
Os eclesiásticos conservadores, homens e mulheres, boicotaram a Assembléia, motivo pelo qual o resultado foi tão radical. Não obstante, o Opus decidiu ter
um papel em seus resultados. (A história que segue está adaptada, com a permissão do editor, de meu artigo 'Spain on the Move'. 'The Month, junho de 1972). Naturalmente,
a Assembléia foi atacada pela imprensa do Opus Dei.
A história começa com uma declaração feita, em 21 de fevereiro de 1972, por Monsenhor Guerra Campos, secretário da Conferência Episcopal espanhola e um dos
membros mais reacionários da mesma. Mais tarde, depois de afastado de todo cargo eclesiástico devido a sua oposição à política da Conferência, era o único clérigo
espanhol em quem o regime de Franco podia confiar para suas aparições em televisão. No curso de uma emissão extraordinária, recordou a sua audiência que no século
IV todo mundo parecia voltar-se arriano (converter-se em herege) e que só um bispo, Atanásio da Alejandría, defendeu a ortodoxia. Sem dúvida, Guerra Campos via a
si mesmo como um Atanásio moderno.
Alguns bispos perguntaram, afirmou, sobre um documento vindo de Roma. Naquele momento ele não tinha tal documento, entretanto, tentaria obtê-lo e enviar-lhe
aos membros da Conferência o mais rápido possível. Talvez, foi esta a primeira notícia que tiveram da existência do documento.
Naquela mesma tarde 'a Europa Press', (uma organização do Opus Dei no sentido acima indicado) difundiu uma notícia dizendo da existência de um documento romano,
contendo importantes observações sobre a Assembléia. Na manhã seguinte só 'Novo Jornal' (também de uma organização do Opus Dei) levava-a. Outros jornais negavam
a existência de tal documento.
Esta negativa provocou que 'a Europa Press' se defendesse. Descreveu a aparência do documento. 'Novo Jornal' fez o mesmo e em 26 de fevereiro seguiu afirmando
não só que o documento existia -para o qual já não cabia dúvida-, mas, também que era oficial e enviado aos arcebispos de Toledo (primado espanhol) e de Madrid.
Prosseguia citando Federico Alessandrini, porta-voz do Vaticano, dizendo que a Congregação para o Clero tinha redigido um documento que não se acreditou necessário
mostrar a nenhum outro departamento da cúria romana, nem ao Papa Paulo VI. Isto alertou bastante aos periódicos, para verem que o documento não era, depois de tudo,
oficial, porém, a afirmação de Alessandrini resultou muito sutil para a compreensão da Imprensa contrária à Assembléia. 'Igreja-Mundo' publicou uma fotografia de
John Wright, cardeal prefeito da Sagrada Congregação para o Clero, com uma nota dizendo que o documento foi enviado com o consentimento do Papa. Mais tarde, propagou
não ter sido enviado com a aprovação do Papa, e que a fotografia não era do cardeal Wright, mas, sim do companheiro norte-americano cardeal Dearden, arcebispo de
Detroit.
Em 1 de março a agência 'Cifra', quase filial de 'F', a agência de notícias oficial espanhola, difundiu o resumo de um estudo preparado por 'Igreja-Mundo'
contrário às conclusões da Assembléia. Todavia, até 4 de março, nem 'Cifra' nem 'Europa Press' ofereceram a íntegra do documento. Por duas vezes o Ministério de
Informação interveio para evitar sua publicação prematura.
O tão anunciado documento resultou ser um 'estudo' das conclusões da Assembléia Conjunta preparado por um grupo da Sagrada Congregação para o Clero. A julgar
pela carta que o acompanhava, assinada pelo cardeal Wright e pelo arcebispo Palazzini, secretário da Congregação, parece que ia destinado ao cardeal Enrique e Tarancón,
o liberal arcebispo de Madrid e o arquiteto da postura antifranquista da Igreja. Mas, embora ele era o destinatário, Tarancón não foi o primeiro em recebê-lo. Com
efeito, em 21 de fevereiro negou a existência de tal. Em seu discurso de abertura da Conferência Episcopal em março, o arcebispo de Madrid explicou a ordem dos acontecimentos.
Foi como segue: em 21 de fevereiro às nove e meia da noite recebeu uma chamada de um jornalista que perguntava ao Tarancón sobre o documento; ele negou que tal coisa
existisse. No dia 26 à uma e meia da tarde viu pela primeira vez uma cópia de tal documento mostrada por outro bispo; em 27 às dez e meia da manhã, Monsenhor Guerra
Campos enviou-lhe fotocópia do documento, junto com a carta do cardeal Wright, datada 9 do mesmo mês de fevereiro.
No domingo 27 de fevereiro foi um momento crítico para o Tarancón. Pensou em demitir-se de seu cargo. Por sorte, já tinha feito uma reserva para ir a Roma
no dia seguinte para uma reunião em 29 de fevereiro. Em Roma viu o cardeal Villot, secretário de estado. Villot lhe entregou uma carta. Dizia:
'A Sagrada Congregação para o Clero iniciasse do começo ao fim, um estudo dos documentos (da Assembléia Conjunta). As considerações e conclusões deste estudo,
de sua verdadeira natureza, não possuem um caráter normativo, nem receberam aprovação superior, quer dizer, do Santo Pai, a quem, de fato, não foram submetidas'.
Também o Papa viu Tarancón assegurado-lhe seu apoio. Na reunião seguinte dos bispos espanhóis leu-se a carta de Villot, acusando, respeitosamente, recebimento
deste 'estudo'; todavia, lamentou seriamente 'as faltas de procedimento com respeito (ao mesmo); particularmente, culpa a infiltração da Imprensa, sua tendenciosa
apresentação e os penosos enganos que inquietaram à opinião'.
A reunião ignorou o conselho do estudo de deixar de lado as conclusões do primeiro capítulo da Assembléia Conjunta e ratificou todas. Monsenhor Guerra Campos
foi substituído como secretário da Conferência Episcopal. O assunto do 'estudo' da Congregação para o Clero foi um desastre absoluto, tanto para quem o encarregou,
como para quem tentou utilizá-lo para anular a mudança de política dos bispos espanhóis sobre as relações Igreja-Estado.
Naturalmente, especulou-se muito sobre a identidade dos quais preparam a carta. Um porta-voz do Opus em Madrid assegurou ter ouvido cinco versões totalmente
distintas. Ao cardeal de Madrid, não obstante, deram-lhe a identidade das pessoas. Tinha cópias de cartas de Monsenhor Benelli da Secretaria de Estado ao cardeal
Wright, do cardeal Wright ao próprio Tarancón e ao cardeal Villot. Enquanto, Tarancón continuou sendo arcebispo de Madrid, a publicação das cartas constituiu uma
ameaça para os responsáveis. Não era difícil, não obstante, fazer conjeturas informadas sobre a autoria.
O 'estudo' foi originalmente recolhido em castelhano e logo traduzido ao italiano em um intento de disfarçar suas origens. Dois autores eram membros espanhóis
do Opus: Alvaro do Postigo, então secretário geral, mas, agora naturalmente sucessor de Escrivá do Balaguer como cabeça da organização, e Salvador Canais. Um ancião
jesuíta, Raimundo Bigador, e um sacerdote claretiano, Anastasio Gutérrez, também eram mencionados. Os quatro espanhóis estavam no mesmo departamento dentro da Congregação
para o Clero, cujo secretário, o arcebispo simpatizante do Opus e depois cardeal Palazzini, também se acreditou fazer parte na realização do 'estudo'. O texto do
mesmo passou a Europa Press' outro membro do Opus Dei associado, não com a Congregação para o Clero, a não ser com a Comissão para a Revisão do Código de Direito
Canônico. Alvaro do Postigo era também, naquele tempo, membro desta comissão.
Estes fatos revelam o grau até que ponto o Opus está disposto a manipular aos meios de comunicação na busca do que considera seu próprio bem, ou da Igreja,
embora para os membros do Opus a distinção é irreal: o bem do Opus e o da Igreja são idênticos. Em tal contexto é fácil entender por que o Opus Parece da tanta importância
ao controle dos meios de comunicação, possuindo suas próprias revistas, cadeias de televisão, escolas de jornalismo. Em muitas capitais de países católicos, em Bogotá,
por exemplo, ou Santiago do Chile, onde não necessariamente possuem um jornal importante, encontra-se freqüentemente membros do Opus escrevendo seções fixas. O arcebispo
John Foley, diretor da Comissão Vaticano sobre Comunicação Social (porta-voz do Vaticano para os meios de comunicação), embora sem ser membro, considera muito próximo
e afim ao Opus. Russell Shaw, porta-voz da Conferência Nacional de Bispos Católicos dos Estados Unidos (foi demitido repentinamente em 1987) e Joaquín Navarro-Valls,
porta-voz do mesmo Vaticano, são ambos os membros do Opus: Shaw, super numerário, e Navarro-Valls, numerário.
Se forem discípulos leais de Escrivá, estes homens estão provavelmente motivados pela máxima 836 de caminho': 'Servir de alto-falante ao inimigo é uma idiotice
soberana; e , se o inimigo for inimigo de Deus, é um grande pecador. Por isso, no terreno profissional, nunca elogiarei a ciência de quem se serve dela como cadeira
para atacar à Igreja'. Há um contraste extraordinário entre estas palavras de Escrivá e as palavras de um santo reconhecido, Agustín da Hipona, não menos contrário,
na sua época, aos inimigos de Deus que o fora o fundador do Opus Dei neste século: 'Quem se bastará a ponderar a grandeza de engenho que demonstraram filósofos e
hereges ao defender seus enganos e falsidades?' ('A cidade de Deus, 22.24).
O assunto da Assembléia Conjunta e o interesse mostrado pelo Opus para que a Igreja seguisse apoiando ao regime de Franco, encontram sua razão de ser nos
escritos de Escrivá do Balaguer. Estes revelam escasso interesse pelas sutilezas da democracia e são o resultado de uma atitude mental que, politicamente, respalda
à classe governante, sempre que esta permita que o catolicismo floresça. Outras considerações não têm tanta importância: 'Não creia que a igualdade, tal como a entende,
é sinônimo de injustiça?' (Máxima 46), 'Quantos crimes -exclamava Escrivá do Balaguer ao final de uma série de máximas recomendando 'Santa intransigência' e o rechaço
de arranjos-, cometem-se em nome da justiça!' (máxima 400). Se qualquer membro do Opus estivesse preocupado pela opressão e a injustiça que vêem ao seu redor, a
máxima 702 lhes consolaria: 'Está intranqüilo. Olhe: aconteça o que acontecer em sua vida interior ou no mundo que te rodeia, nunca esqueça que a importância dos
acontecimentos ou das pessoas é muito relativa'. E se algum membro fosse tentado pelos valores liberais, poderia procurar consolo na máxima 849: 'Homem! Ridicularize-o.
Diga-lhe que está fora de moda: parece mentira que ainda haja gente empenhada em acreditar que é bom meio de locomoção a diligência... Isto, para os que renovam
volterianismos de peruca empoeirada, ou liberalismo desacreditado do século XIX.' O ideal do Opus evita os heroísmos: 'Fala-me de morrer 'heroicamente'. Não acredite
que é mais heróico' morrer inadvertido em uma boa cama, como um burguês, mais, do que de mal de Amor?' (máxima 743). É improvável que exista algum Camilo Torre nas
filas do Opus Dei.
Toda esta formação espiritual junto com as sólidas virtudes burguesas (o leito de morte) que Escrivá recomendava e as Constituições guardavam; provavelmente
recomendasse aos membros da organização regimes militares ou repressores de direita, particularmente, aos que perderam o apoio da Igreja oficial, como no Chile,
do mesmo modo que apoiava Franco.
Existe em Bogotá um colégio jesuíta, do outro lado de uma rua estreita em frente ao palácio presidencial. Em uma ocasião, dentre tantas, como os jesuítas
que tiveram problemas com os regimes colombianos; foi confiscado pelo Estado, durante um tempo não foi devolvido, nem quando a Companhia foi autorizada, uma vez
mais, a viver no país. De modo que se fundou outro colégio na cidade com o mesmo nome exatamente, deixando agora à Companhia com dois colégios, ambos chamados 'San
Bartolomé de la Merced'. Entretanto, o antigo colégio, próximo ao palácio, remonta-se ao começo no país. Este ou seu equivalente em Medellín, a segunda cidade da
Colômbia, educaram durante gerações famílias de elite, que deram presidente atrás de presidente à nação. Atualmente, os jesuítas colombianos, não estão entre os
mais radicais de seus irmãos da América Latina; todavia, agora, olham-se com receio. As famílias de elite enviam seus filhos às escolas do Opus Dei, onde não estarão
expostos à nova 'teologia da liberação', com sua preocupação pela reestruturação da sociedade com interesse de maior justiça para os pobres.
Exatamente, o mesmo se pode dizer do colégio jesuíta de Santiago do Chile. Aqui, como em outros países da América Latina, os nomes de quantos governantes
são membros do Opus, ou simpatizantes da Obra são bem conhecidos dentro dos círculos da Igreja.
A parte o caso da Espanha, expandia-se a influência do Opus por toda parte em países nos quais se fala castelhano, não constitui uma conspiração para tomar
posse do Estado em interesse da Igreja como o entendem os membros do Opus. Embora o Opus estivesse interessado em conseguir poder político como tal, a experiência
do fracasso espanhol -o assassinato do protetor do Opus, almirante Carrero Blanco em dezembro de 1973, levou Franco a mudar, completamente, a tendência de seu Governo-
desanimou-se a tentá-lo de novo, ao menos durante muito tempo.
Muito mais significativo é a mentalidade de um membro do Opus, lecionando da forma acima indicada. 'Ignacio Valente' é o pseudônimo de José Miguel Ibáñez
Langlois, um sacerdote do Opus, colaborador assíduo sobre temas literários do jornal de Santiago 'O Mercúrio', um periódico simpatizante do governo Pinochet. Em
5 de outubro de 1986 escreveu uma apologia, 'Vinte anos como crítico'.
'Nunca escrevi um prólogo, nunca apresentei um livro, não vou à reuniões literárias, nem a 'cenáculos', nem vejo outros escritores. Devido ao tempo: o ministério
sacerdotal ocupa meus dias e meus anos, quero escrever meus próprios livros de poesia e ensaios. Mas, além desta razão, há outra, mais profunda: acredito que um
crítico deveria guardar uma certa distância do mundo literário, e uma ausência total de compromissos pessoais. Ainda há outro motivo; a convicção de que, em geral,
a obra é superior a quem quer que a tenha escrito. Com bastante regularidade prefiro os livros a seus autores. Tenho amigos entre eles, como é lógico, mas, trato-os
-quanto à crítica- como se não fossem. Também tenho inimigos, evidentemente, mas, intento tratá-los do mesmo modo como se não o fossem.'
Sem dúvida, este artigo foi escrito para causar efeito, mas o que é tão estremecedor nesta apologia é que Ibáñez Langlois se gabe de carecer de compromisso
pessoal para nada que não seja sua tarefa de escrever e seu ministério sacerdotal como membro do Opus. Enquanto, outros clérigos da mesma cidade manifestavam-se
na rua, sendo espancados pela Polícia, presos e perseguidos por sua oposição ao brutal regime do general Pinochet. Estes não são temas que se encontrem na poesia
de Ibáñez.
'Não. O Opus Dei não têm, absolutamente, nada a ver com política. É absolutamente alheio a qualquer tendência ou grupo político, ideológico e cultural' (Escrivá
do Balaguer, 'Conversações').
Este é Escrivá do Balaguer, em sua conversação com Peter Forbarth, do 'Time'. O apologista do Opus Dei, Julián Herranz, em um artigo intitulado 'Opus Dei
and the Activity of its Members', publicado primeiro no Studi Cattolici' nº 31, julio/agosto de 1962, escreve, especificamente, sobre o papel político, ou a falta
do mesmo, segundo ele considera, o Opus Dei na Espanha:
'O Opus Dei não está à direita nem à esquerda, nem no centro, porque os objetivos da Associação não são políticos, mas, espirituais. Sem dúvida há gente
que toma por um partido político e se esforça, penosamente, em pô-lo em um ou outro campo. O Opus Dei, entretanto, nem deseja baixar ao reino de César, nem pode
fazê-lo. Todavia, seus membros podem, sem dúvida, e são inteiramente livres de fazê-lo segundo seu próprio critério e opinião. Para esclarecer e afirmar estes pontos,
o Secretário do Opus Dei na Espanha enviou uma nota à Imprensa em 1957, afirmando que "o Opus Dei" é um Instituto Secular da Igreja Católica, cujas atividades são
exata e exclusivamente apostólicas; em virtude de seu mesmo espírito, fica fora da esfera da política em qualquer país. O Opus Dei desautoriza, explicitamente, qualquer
grupo ou indivíduo que utilize o nome do Instituto para suas atividades políticas. Neste campo, como em suas atividades profissionais, financeiras ou sociais, os
membros do Opus Dei, tal como outros católicos, gozam de total liberdade, dentro dos limites do ensino cristão' (Madrid, 12 de julho de 1957).
Este artigo de Julián Herranz converteu-se em uma espécie de 'locus classicus', aludido sempre que uma discussão sobre o Opus chega, como tão freqüentemente
acontece, ao compromisso da organização em política.
O argumento então é que, como bons cidadãos, os membros do Opus podem muito bem investirem num papel do Governo de seu país. Entretanto, esse papel é seu
por eleição pessoal; não imposto, como tampouco imposta é uma orientação política pelo mesmo Opus. Essa é a afirmação. Concilia-se de modo estranho com o parágrafo
202 da Constituição de 1950, que insiste em que: 'Os cargos públicos, e especialmente aqueles que implicam direção, são os meios particulares do Instituto para seu
apostolado'.
O Opus Dei como instituição não se mete em política. 'Se isso for certo, então o Opus investe um papel positivo na política', disse um distinto teólogo espanhol
quando a Igreja na Espanha se separou, energicamente, em 1971 de um regime mantido por um número de ministros do Opus.
Porém, a verdade é mais complexa. A espiritualidade do Opus e suas estruturas inculcam uma visão da vida que é socialmente estratificada e entregue, segundo
própria confissão, ao ideal burguês, altamente disciplinado e mais que respeitoso com a autoridade. Com esta visão do mundo, o valor supremo no trabalho humano,
mais concretamente, o trabalho humano profissional. No artigo transcrito, Herranz cita a um membro inglês da 'Associação', que escreveu no 'Observer' de 26 de agosto
de 1962. Este indivíduo atraiu a atenção dos membros do Opus entre os mineiros do Norte da Espanha, que estavam então em greve contra o Governo com membros do Opus
em seu Gabinete de ministros. E, sem dúvida, há membros do Opus na classe trabalhadora inclusive fora das categorias das mulheres auxiliares recrutadas para limpar
as residências dos homens. Um filme de televisão italiana, feito para comemorar o décimo quinto aniversário do Opus Dei e com o que o Opus Dei fez, por conseguinte,
muita propaganda, mostrava um condutor de ônibus de Manchester. Era irlandês.
Entretanto, não haveria muitos condutores de ônibus, ingleses ou irlandeses, com a qualificação acadêmica de um doutorado, necessária para a categoria de
membro numerário. E, como está muito claro, tanto pela Constituição de 1950 como pela de 1982, o Opus aponta em primeiro lugar homens e mulheres profissionais, embora
seja certo que a Constituição mais recente não menciona em particular, a diferença da anterior, às pessoas ao serviço do Governo (ver a Constituição de 1950, parágrafo
4.2).
O Opus Dei, sem dúvida, atrai homens de negócios à suas filas com sua mensagem de santificação pelo trabalho e sua opinião favorável ao apostolado do almoço,
ao apostolado de não dar (ver pág. 117), e à bênção aos valores da classe média (ver págs. 118 e seguintes e parágrafos mais acima). Sem dúvida, tais homens de negócios
poderiam, em teoria, abranger e operar dentro de uma ampla escala de ambientes políticos e sociais. Mas isso é não ser realista. Quando os membros do Opus controlavam
a economia espanhola, desenvolveram a indústria privada com despesas públicas. Aduziu-se que existiam duas razões principais para isso. Primeiro, o principal inimigo
político do Opus na Espanha era a Falange, a que, devido seu apoio a Franco durante a Guerra Civil, permitiu-lhe sobreviver. Embora fascista, era tecnicamente um
partido socialista e apoiava a indústria nacional. Segundo, era um bom ensino católico que o Estado não fazia pelos indivíduos, nem os indivíduos faziam por si mesmos.
O Estado proporcionaria as condições ótimas para que a empresa privada florescesse, e interviria unicamente naquele nível no qual os empresários individuais não
pudessem fazer por si só.
De modo que a empresa privada lhe permitiu florescer. Mas, neste clima de perspicácia do Opus para os negócios, recebeu alguns golpes baixos. Espanha sofreu
dois escândalos importantes, nos quais se viram implicados membros do Opus e seus negócios, o primeiro 'da Matesa' em 1969, o segundo 'da Rumasa', em 1983.
'MATESA' ('Maquinaria têxtil do Norte da Espanha, Sociedade Anônima), foi fundada em 1956. Tinha sua sede em Pamplona e empregava duas mil pessoas na confecção
de maquinaria têxtil. Tinham-na por um dos negócios mais dinâmicos do país: no momento de seu afundamento, agosto de 1969, controlava setenta e cinco empresas mais,
tanto na Espanha como no estrangeiro. Seu crescimento foi em grande parte o resultado de ter adquirido, por meios algo duvidosos, uma patente para uma classe especial
de tear; o pagamento pela patente fez-se em francos franceses, tirados de contrabando da Espanha e que apareciam na folha de balanço como direitos de patente. 'MATESA'
melhorou o tear, todavia, não tinha dinheiro suficiente para lançá-lo ao mercado mundial. O diretor da companhia, Juan Vila Reys, obteve do 'Banco de Crédito Industrial'
o dinheiro que necessitava, aduzindo que necessitava para financiar vendas de suas máquinas, resultando totalmente fictícias. Este dinheiro, que se estima foi da
ordem de cinco milhões de pesetas, foi tirado de novo de contrabando e voltando a ingressar como pagamento de mercadorias. Quando a empresa quebrou, tinha dívidas
por uns dez milhões de pesetas. Por estes delitos Vila Reys foi julgado duas vezes: a primeira foi condenado a três anos de cárcere e uma multa onerosa; a segunda,
processado por 424 acusações distintas, a 224 anos de prisão (o fiscal tinha solicitado quase 1.290 anos) e ordenou-lhe devolver ao Governo uns setenta milhões de
libras esterlinas.
Vila Reys aprendeu sua habilidade para os negócios na Escola de Empresários do Opus, em Barcelona. Seu conselheiro legal, Villar Palasí, ministro da Educação
na época em que estourou o escândalo, movia-se em círculos do Opus Dei; López Bravo era o ministro da Indústria que aprovou os créditos. Outro membro do Opus, Mariano
Navarro Rubio, era Governador do 'Banco da Espanha' no momento da fraude e teve que demitir. Vila Reys admitiu ter dado a modesta soma de doze mil libras esterlinas
a sua antiga escola do Opus. Os rumores da época davam uma cifra muito mais alta. Uma comissão nomeada pelo Parlamento espanhol não conseguiu determinar com quanto
tinha contribuído Vila Reys à Universidade da Navarra em Pamplona, todavia, alegou-se que a soma era de cento e vinte milhões de pesetas e que, no total, os donativos
ao Opus estavam em torno de dois bilhões e quatrocentos milhões de pesetas, incluindo importantes presentes à sede central do Opus em Roma, a uma Universidade do
Peru e a residências de estudantes nos Estados Unidos ('Le Monde' -edição inglesa-, 29 de julho de 1970). Todos estes rumores foram negados, é obvio, pelo porta-voz
do Opus em Madrid. Não podia negar-se, entretanto, o fato de que um homem de negócios formado pelo Opus Dei fosse encarcerado por uma fraude importante, implicando
outros membros da Obra em suas ações ilegais, embora escapassem do processo.
Embora, o assunto 'MATESA' arrojou alguma luz sobre os modos de fazer negócios aprovados pelo Opus, a expropriação da "Rumasa" resultou ser ainda mais reveladora.
'Rumasa era uma das maiores empresas da Espanha em mãos privadas. Possuía dezoito Bancos e lojas de departamentos bem conhecidas, como 'Galerias Preciados' e 'Sears
Roebuck'. No Reino Unido era mais conhecido por suas companhias de vinhos (seu diretor procedia de Xerez), com marcas como o xerez 'Dry Sack'. Também era proprietário
da cadeia de almacenes de licores 'Augustus Barnett'. Totalizando 245 empresas sob o guarda-chuva da 'Rumasa'. A intervenção ocorreu em fevereiro de 1983, para evitar
a quebra, conforme argumentou o Governo, com um passivo que excedia seu ativo em uns bilhões de libras esterlinas.
O fundador da 'Rumasa', e seu diretor, até que tomou posse dela o Governo espanhol, era José Maria Ruiz Mateos ('Rumasa' significa Ruiz Mateos, Sociedade
Anônima). Depois da expropriação de seu império, fugiu a Londres (como também o fez o diretor do 'Banco Ambrosiano', Roberto Calvi, cujo corpo encontrou-se pendurado
sob a ponte do Blackfriars) e foi, finalmente, detido na Alemanha. Agora está na Espanha, esperando julgamento.
Em Londres, Ruiz Mateos disse aos jornalistas que tinha dado grandes somas de dinheiro a partidos políticos, a líderes políticos e a sindicatos. Embora disse
que simpatizava com seus objetivos, negou ser membro do Opus Dei (Ver Stephen Árias, 'How Mateos Rose and Fell: the End of a Reign in Spain', Sunday Time, 24 de
abril de 1983.), O que é mais difícil entender por que o Jornal de seu encarceramento aponta que, junto com uma sagrada imagem da Virgem Maria abraçando a seu Filho,
pôs uma fotografia de Escrivá do Balaguer sobre a mesa de sua cela (Ver Santiago Aroca em 'Tempo', Madrid, 11 de agosto de 1986), ou como, enquanto estava no cárcere
em Madrid, podia ser visitado por membros do Opus e ameaçado com a expulsão. Não negou, entretanto, que tinha doado consideráveis somas de dinheiro - mencionaram
sete milhões de libras esterlinas- via Ilhas Normandas, a um instituto educativo associado ao Opus no Reino Unido. No início de 1983, quando a 'BBC' preparava um
programa de televisão sobre o Opus, os investigadores ficaram perplexos pela forma em que a 'Netherhall Educational Association' (NEA), de Hampsted, controlada pelo
Opus, conseguiu reunir o dinheiro, até certo ponto por empréstimos baratos em moeda estrangeira, para financiar suas consideráveis compras de propriedades.
A 'Netherhall Educational Association' começou a existir em 1964, mas não era exatamente a primeira organização do Opus registrada no Reino Unido. Em 1954
Michael Richards e um sacerdote espanhol, João Antonio Galarraga, dando ambos sua direção de número 18 do Netherhall Gardens, fundaram um 'charitable trust' para
'a sociedade católica constituída segundo o Direito Canônico da Igreja católica como Instituto Secular conhecido como 'A Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz e Opus
Dei''. Depois de mais de um quarto de século de existência, nunca apresentou contas aos encarregados da instituição de caridade, algo que não é de estranhar que
estes encontrassem preocupados.
As escrituras de 1954 do 'trust' indicava que o propósito do mesmo era 'a promoção da religião católica'. Dava aos 'trusts' 'discrição absoluta' sobre a compra
e venda de propriedades, valores e ações, obrigações, etc. Tinham que ser nomeados -e cessados- pelo 'Presidente Nacional'; em outras palavras, o conselheiro regional
do Opus, com completo controle sobre a nomeação de trusts da Sociedade total, como em efeito o tem sobre a nomeação e dos diretores de cada empresa associada com
o Opus. Quando a Sociedade Sacerdotal se converteu em uma instituição de beneficência inscrita em 1965, reconhecia a posse de três propriedades: a 'Grandport House'
de Oxford (ver pág. 76), uma casa em Manchester, e a sede do Opus no Reino Unido no número 6 do Orme Court, em Bayswater Road, Londres. Entretanto, naquela época,
o trust já tinha vendido uma série de propriedades, incluindo o 16 e o 18 do Netherhall Gardens, entregues a 'Netherhall Educational Association', formada em 1964,
com sete diretores, seis dos quais viviam em conhecidos imóveis do Opus Dei. Tecnicamente, a 'NEA' comprou casas por sessenta mil libras esterlinas, mas estas foram
doadas com este propósito pela Sociedade Sacerdotal.
Embora existiam lacunas, a 'NEA' é algo mais meticulosa que a Sociedade Sacerdotal em apresentar contas. (Entretanto, foi convocada pelo Tribunal Supremo,
divisão de Justiça, em fevereiro de 1979, para que explicasse por que não tinha registrado três hipotecas, transgredindo assim a Lei de Sociedades.) Estas contas
revelam um número muito considerável de compras de propriedades caras declarando depois a 'educação dentro do ideal cristão'. A instituição de beneficência estendeu
sua propriedade em Netherhall com uma hipoteca de mais de 250.000 libras esterlinas do (já inexistente) 'Greater London Council' e uma subvenção de 75.000 libras
esterlinas do 'British Council', com a condição de que oitenta por cento de seu alojamento estivesse disponível para estudantes estrangeiros (Escrivá do Balaguer
se referia ao 'Netherhall House' como um hotel para estudantes da África e Ásia. 'Escrivá do Balaguer, Conversation'). Entre suas muitas compras estavam 'Dawliffe
Hall', em Chelsea Embankment, que em 1980 passou a ser propriedade da 'Dawliffe Educational Foundation', junto com a próxima 'Shelley House', comprada em 1976 por
quase 500.000 libras esterlinas, e outras várias propriedades tanto em Londres como pulverizadas por todo o país. A 'Dawliffe Educational Foundation' parece ser
o 'charitable trust' que opera na seção de mulheres do Opus.
Muitas das propriedades que possuem a 'NEA' ou a 'Dawliffe Educational Foundation' estão nas melhores convocações de Londres. Aparece em primeiro lugar Orme
Court, onde, além disso do número 6, sua primeira aquisição e ainda a sede britânica do Opus Dei, comprou agora os números 1, 4, 5, 7 e 10, por uma cifra superior
a um milhão de libras esterlinas. Parece haver menos interesse no Norte da Inglaterra, embora a 'Greygarth Association Ltd.', Fundada pela 'NEA' em 1974 com uma
especial responsabilidade para o apostolado do Opus no Norte.
Ruiz Mateos admitiu ter dado dinheiro às instituições benéficas do Opus no Reino Unido, e está claro pelas contas da 'NEA' que empréstimos bastante abundantes
procediam do estrangeiro em dólares, francos suíços ou marcos, para tipos de interesses, extraordinariamente, favoráveis. Por volta de setembro de 1983 os empréstimos
não garantidos em moeda estrangeira à tipos de interesses entre o zero e três por cento subiam a milhão e meio de libras esterlinas. 'Dawliffe' e 'Greygarth' desfrutavam
de empréstimos similares, embora em menor quantia. As 'instituições de beneficência associadas' da 'NEA' também proporcionavam dinheiro, como em 1980 o fizeram o
grande hotel e o grupo de catering 'Trust House Forte'. Neste último caso a soma não era especialmente elevada, comparada com o pressuposto do Opus para a compra
de casas, só 50.000 libras esterlinas como empréstimo sem interesse. Quatro anos mais tarde, em agosto de 1984, Lorde Forte repassou 50.000 libras esterlinas ao
Netherhall House' (Nicholas Perry, 'Unliberation Theology', 'New Statesman', 1 de março de 1985. pág. 21). Como instituições benéficas, a Sociedade Sacerdotal e
suas filiais podem solicitar convênios e donativos sobre os quais uma instituição benéfica pode reembolsar de fazenda, bens, propriedade rural, qualquer imposto
sobre a renda que se pagou. É uma prática normal para os membros de ordens religiosas pactuar qualquer imposto que possam economizar para sua ordem. Provavelmente,
o mesmo possa dizer do Opus, e a renda estabelecida figura no balanço da 'NEA', embora, possivelmente, não até o ponto que poderia esperar-se. Entretanto, seria
o caso de algumas das somas a disposição das 'Instituições de beneficência associada', como a 'Dawliffe Educational Foundation', sejam reunidas por meio de convênios
obtidos por membros numerários.
Houve também um intento coordenado de obter dinheiro de outras fontes. Em 1970 o 'Netherhall House Trust' foi constituído precisamente para promover a obra
do "Netherhall House". Entre seus primeiros oito 'trustes' estavam Sir George Bolton, que acabava então um trabalho de treze anos como presidente do 'Bank of London
and South America' ('Banco de Londres e América do Sul'), e Sir Philip de Zulueta, também um distinto banqueiro, embora muitos anos antes, demitiu-se da Administração
pública como secretário privado de sucessivos primeiros ministros. Cada ano, os diretores da 'NEA' esmeraram-se em agradecer aos membros do trust o trabalho realizado
para conseguir dinheiro para amortizar a hipoteca sobre 'o Netherhall' . As somas contribuídas pelo trust foram variáveis, não foram de modo algum comparáveis com
os empréstimos disponíveis do estrangeiro a tipos de interesses bem abaixo dos que se encarregam comercialmente. Não obstante, as fontes desta generosidade não foram
reveladas ainda.
Segundo um artigo da revista mensal irlandesa 'Magill' (Maurice Roche, The Secrets of Opus Dei de 1983), ao 'Netherhall Educational Trust' pediu colaboração
a um grupo de empresas privadas de engenharia estabelecido pelo Seamus Timoney, professor de Engenharia Mecânica no 'University College' em Dublín, e membro do Opus
dos anos cinqüenta. Também, segundo 'Magill', Timoney utilizou não só os recursos do Opus para suas distintas empresas, mas também, a experiência do Opus. Uma de
suas empresas de mais êxito foi o desenho do 'Timoney Armoured Personel Carrier' (Transportador de pessoal blindado Timoney), que começou a produzir em 1978 e que
foi vendido ao Governo militar do general Jorge Videla na Argentina. Timoney atuou como conselheiro tanto para o Ministério de Defesa em Londres, como para o Pentágono
em Washington.
Os vínculos entre o Opus na Irlanda e Grã-Bretanha foram estreitos. Inclusive antes de que a Sociedade Sacerdotal fosse constituída como trust em Londres,
Michael Richards foi ao Dublín para ajudar a criar 'University Hostels Limited'. Os diretores fundadores desta companhia, além de Richards, eram Cormac Burke e Richard
Mulcahy. Os três se converteram, posteriormente, em sacerdotes do Opus. Tanto no Dublín como em Londres as regras eram as mesmas: a direção das empresas associadas
com o Opus era controlada pelo principal representante do Opus do país. Os 'University Hostels' atraíram ampla escala de investidores distintos -incluindo dois bispos
conservadores e John Costello, um antigo Primeiro-ministro irlandês-, mas, unicamente, deram dinheiro como um ato de generosidade para o Opus, posto que os prospectos
deixavam claro que pouca ou nenhum ganho devia esperar-se das ações, e as ações em oferta não suportavam direitos de voto. 'Magill' informava que as ações em 1983
tinham-nas em sua maior parte o 'Limusllin Scientific Trust' e o 'Tara Trust', operando as duas de uma mesma direção, uma residência do Opus Dei.
Até certo ponto, o modelo da Irlanda reflete o da Inglaterra: o Opus possui propriedades consideráveis em situações privilegiadas, mas, possivelmente, devido
à natureza da sociedade irlandesa, a Obra foi capaz, na aparência, de diversificar seus interesses mais que no Reino Unido. Por exemplo, através de um 'trust' para
o desenvolvimento da educação, introduziu-se na educação secundária na Irlanda como na Espanha e em alguns países da América Latina. As escolas estabelecidas em
Dublín são dirigidas, afirma Roche, 'à elite da sociedade dublinesa'. Têm muito êxito: os alunos viajam quinze ou trinta quilômetros para assistirem aulas. É obvio,
estão separadas por sexos.
Roche considerava altas estas cotas de 460 libras esterlinas em 1983; os países ingleses que enviam seus filhos à escolas independentes consideravam muito
razoáveis. O que poderia ser estranho, todavia, é o modo em que o trust de desenvolvimento educacional tem de prover o que certamente deve ser um déficit considerável
nos custos das escolas. Em 1975 estabeleceu uma empresa chamada 'Parl Industrial and Provident Society'. Por cada filho que enviam às escolas dirigidas pelo Opus,
os pais antecipam um empréstimo sem interesse (1.200 libras esterlinas em 1983) para 'Park Industrial and Provident Society'.
O Opus também tem consideráveis interesses editoriais na Irlanda. 'Scepter Publishers Limited' começou em 1959 em Dublín, mais uma dentro de uma cadeia de
empresas parecidas em todo mundo, como veículo para pôr a venda títulos do Opus Dei, incluído Caminho. Também, segundo Roche, deixou de comercializar em 1978. Tais
títulos foram traspassados: vários dos livros utilizados ao escrever este estudo, por exemplo, foram publicados pela 'Four Courts Press', fundada em 1969 por Michael
Adams, um membro numerário do Opus. Também publica livros e panfletos escritos pelo doutor Jeremiah Newman, possivelmente, o mais conservador de todos os bispos
irlandeses. O senhor Adams também controla a 'Irish Academic Press', que comprou os recursos da 'Irish University Press', que quebrou em 1974 com dívidas de um milhão
e quatrocentos mil libras esterlinas. O senhor Adams foi diretor da 'Irish University Press '.
'Scepter', aparentemente, segue subsistindo ainda no Reino Unido. Opera no número 1 e o 2 do Leopold Road, um imóvel perto da estação de Metro Ealing Common,
comprado por perto de cem mil libras esterlinas em 1974, e aloja também ao 'Westpark', um centro de estudos para meninos. Foi o 'Scepter' inglês quem em 1977 publicou
o livro de Bernal Monsenhor Escrivá do Balaguer, muito citado neste livro. Além da última coleção de máximas ou aforismos de Escrivá, 'Forja', publicada em janeiro
de 1988, 'Scepter' do Reino Unido não estar especialmente ativo ultimamente, embora, apareça dez vezes ao ano no 'Scepter Bulletin', uma minúscula publicação a um
preço de 70 peniques, misturando artigos piedosos de tom conservador e longas seções de declarações papais, tiradas do seminário em língua inglesa L'Osservatore
Romano (a versão italiana do periódico do Vaticano é diária). É comum que grupos religiosos publiquem periódicos mensal ou trimestralmente. No Reino Unido, citando
apenas dois exemplos, os dominicanos dirigem 'New Blackfriars', e os jesuítas 'The Month'. Todavia, nos dois casos a filiação da revista é clara e conhecida. A menos
que tenhamos conhecimento de que seu diretor, John Horrigan, é o porta-voz do Opus em Londres, seria impossível coligir por 'Scepter Bulletin' a que grupo pertence.
O Opus dirá, certamente, que esta empresa, como a maioria das demais, não é absolutamente, uma empresa do Opus Dei, mas pertencente a membros do Opus. Falando
com rigor, isso pode ser certo. Além do trust constituído em 1954 como a Sociedade Sacerdotal de Santa Cruz e Opus Dei, as demais entidades legais através das quais
seus membros operam, com freqüência incluem pessoas que não são membros. São conhecidas como 'obras comuns'. Também há 'obras cooperativas' nas quais os numerários
e os super numerários colaboram e possuem inteiramente; embora, exista pessoas empregadas que não sejam membros. Os editoriais são exemplos típicos da primeira classe;
as escolas, da segunda. Todavia, é um sofisma tratar de distinguir quaisquer destas duas classes de empresas das que são puramente Opus Dei. Primeiro, todos os benefícios
obtidos pelos membros numerários correspondem ao mesmo Opus. Essa é a conseqüência da obrigação de pobreza que tomaram sobre si. Inclusive os membros super numerários
(ou casados) são pressionados a dar à Obra tanto quanto seja possível. Segundo, nenhum membro numerário, certamente, e provavelmente, nenhum super numerário tampouco,
empreende um negócio sem havê-lo discutido, atentamente, com seu diretor; a obrigação de ser inteiramente franco com o diretor é aplicável nesta esfera como em qualquer
outra. E há um terceiro ponto:
'Os membros do Opus Dei, atuando individualmente como fazem através de associações que podem ser culturais, artísticas, financeiras, etc., fazem-no através
do que se conhece como 'sociedades auxiliares'. Em suas transações estas sociedades estão igualmente sujeitas a obediência à autoridade hierárquica do Instituto'
(Constituição de 1950, parágrafo 9).
Cada cinco anos, segundo o parágrafo 375 do mesmo documento, o administrador geral deve encarregar-se de fazer uma inspeção da administração em cada uma das
regiões do Opus. 'Aproveitará a oportunidade de sua inspeção para examinar também às sociedades auxiliares.'
Há alguns ex-membros do Opus, o padre Vladimir Felzmann é um deles, que estão dispostos a aceitar a linha oficial do Opus Dei de que os interesses de negócios
dos membros são assunto dele e que se houver algum procedimento ilegal, como nos casos da 'Matesa' ou da 'Rumasa', isto é responsabilidade dos executivos principais
destas companhias, e que não implicam, absolutamente, o próprio Opus. À luz da forma nas quais as companhias relacionadas com o Opus estão tão fortemente encaixadas,
e mais especialmente, à luz dos três pontos recém sublinhados, parece difícil, se não impossível, defender tal opinião.
É ainda mais estranho que o Opus não tenha, realmente, nenhuma necessidade de ser tão absolutamente reservado. É perfeitamente razoável que, como corporação,
esteja comprometido, até certo ponto, em assunto de ganhar dinheiro. Todas, ou quase todas, as organizações religiosas da Igreja católica têm que fazer o mesmo e
têm sua pessoa legal para operar. Os jesuítas britânicos, por exemplo, são legalmente conhecidos como 'Trustes for RC Purposes Rgd', um pomposo título que expressa
tudo. Entretanto, poucas organizações, se houver, dispõe da classe de somas de dinheiro que necessitam para fazer as compras que o Opus fez na Grã-Bretanha, desde
que pela primeira vez se converteu em uma entidade identificável em 1954.
Que o Opus é rico, dificilmente pode negar-se. O mesmo Ruiz Mateos admitiu ter dado em torno de quatro milhões de pesetas à Obra nos vinte e três anos de
vida da 'Rumasa'. A "Larrain Crusat", uma companhia chilena, reflexo da 'Rumasa', nascida em fins dos anos setenta sob o regime de livre empresa dos economistas
formados nos Estados Unidos, conhecidos como os 'Chicago Boys'; dava ao Opus dez milhões de pesos ao mês; numa época na qual a moeda chilena estava estabilizada
em torno de quarenta pesos o dólar (Esta cifra foi citada por um jornalista em 'Hoy', uma revista chilena iniciada por um grupo de escritores que abandonaram 'Ercilla'
quando Crusat assumiu a direção e converteu-se em um veículo para os interesses próximos do Opus Dei). Além destes presentes, as administrações regionais enviam
dez por cento de sua renda a Roma, enquanto que as residências locais remetem dez por cento de sua renda à administração regional. Qualquer donativo extra ou dinheiro
restante vai também para Roma. Maria do Carmen Taipa calcula que, quando ela era diretora da seção de mulheres na Venezuela em meados dos anos sessenta, enviava
entre dez mil e doze mil dólares ao ano ao Instituto para Obras de Religião (Instituto per le Opere di Religione, ou 'IOR', em sua abreviatura italiana). Ela acreditava
ser para a formação de sacerdotes e manutenção de um colégio de mulheres. Não se deu conta, então, de que o 'IOR' era o nome oficial do 'Banco Vaticano'.
Este Banco começou em 1887 como veículo para conseguir recursos para as obras da Igreja em todo mundo; chamando-se, então, Administração das Obras de Religião.
Papa Pio XII deu seu novo nome em 1942 e ampliou seu papel de modo que tivesse e investisse dinheiro em prol de ordens religiosas e outros projetos relacionados
com a Igreja que precisassem movimentar dinheiro ao redor do mundo. Está situado dentro do Estado da Cidade do Vaticano e, portanto, não está em território italiano.
É um Banco mercantil mais que um Banco de compensação, embora para gente associada ao Vaticano, atue do segundo modo. Entre o Estado da Cidade do Vaticano e a República
da Itália não há, certamente, barreiras de Alfândegas, nem outros pontos de controle. O 'IOR', portanto, foi uma fonte de tentação para qualquer italiano que tentasse
encontrar um caminho para esquivar os controles de mudança de seu país. Desde 1971 seu diretor foi o arcebispo Paul Marcinkus, um prelado de ascendência lituana
nascido em Chicago, que atuou para o Papa como guarda-costas e diretor de viagens. A considerável intensidade de Marcinkus era bem visível em viagens papais ao redor
do mundo; até que ordens de detenção limitaram seus movimentos aos confins do Estado da Cidade do Vaticano, quando muito, o menor país do mundo, sendo somente um
terço do tamanho do menor que o segue, o Principado de Mônaco.
Marcinkus chegou ao 'IOR' em 1968, em um momento no qual o Vaticano tentava diversificar seus investimentos. Um dos consultados com vistas a este fim foi
Michele Sindona, um banqueiro siciliano com fortes vínculos com a Máfia e durante um tempo sócio de David Kennedy, do 'Continental Illinois'. Em março de 1980 foi
condenado a vinte e cinco anos de cárcere nos Estados Unidos por sessenta e oito fraudes e outros cargos similares resultantes da quebra de seu ' Franklyn National
Bank' em 1974; mais tarde devolvido a uma prisão italiana para responder por cargos sobre a quebra de sua 'Banca Privata Financiaria', também em 1974. Morreu em
22 de março de 1986 em uma prisão italiana, depois de ter bebido café envenenado. No mesmo ano em que quebraram os Bancos de Sindona, o 'IOR' apresentou um relatório
com fortes perdas -suas perdas totais estimadas alcançaram em torno de duzentos milhões de dólares-, sustentadas através do 'Banco di Roma per la Svizzera', uma
sucursal metade do 'IOR' e outra metade do 'Banco di Roma'. O executivo responsável por estas perdas foi, posteriormente, encontrado morto em uma via de trem.
Naquele tempo, o arcebispo Marcinkus fomentava vínculos com o 'Banco Ambrosiano', com sede em Milão, e em particular com ele; certa época, colega em Sindona,
Roberto Calvi, que estava muito ocupado expandindo o 'Ambrosiano'. Em 18 de junho de 1982 Calvi foi encontrado enforcado sob o Blackfriars Bridge de Londres.
Uma das razões para que estes contatos se desenvolvessem e para que o 'Ambrosiano' estabelecesse Bancos no estrangeiro, trabalho em que Marcinkus teve um
considerável papel, era a urgente necessidade do Vaticano em contar e sonhar com o dinheiro. Durante os anos setenta sua situação financeira era cada vez mais frágil,
uma situação geralmente encoberta sob o Papa Paulo VI, todavia, reconhecida publicamente pelo Papa João Paulo II. Este era o momento no qual Paulo VI negou ao Opus
Dei o estatuto de prelatura pessoal que Escrivá do Balaguer tratava de obter. Escrivá raciocinou em persuadir o Papa a que reabrisse a questão, caso o Opus desviasse
seus consideráveis recursos em direção ao 'IOR'. A quantia combinada foi que o Opus proporcionaria trinta por cento dos custos anuais do Vaticano (Assim o afirma
José Maria Bernáldez, "Tempo", 1 de agosto de 1983). O Vaticano queria que o dinheiro do Opus chegasse ao 'IOR' de forma indireta, através do 'Banco Ambrosiano'.
O Opus, por outro lado, queria os pagamentos feitos através dos Bancos controlados pela 'Rumasa' na Alemanha, Suíça, Inglaterra, América Latina e outras partes.
O Banco suíço da 'Rumasa' era o 'Nordfinanzbank', em Zürich, cujo diretor de administração, junto com quatro membros do Opus, constituíam a junta do 'Limmat-Stiftung',
uma fundação do Opus Dei, também em Zürich, e que tem laços com Bancos do Opus Dei em todo mundo. O 'Nordfinazbank' e seu diretor de administração, Arthur Wiederkehr,
tinham ações nas empresas de Calvi.
Embora Ruiz Mateo apresentando provas de donativos em grande escala aos recursos do Opus, está longe de ficar claro que se levasse a cabo o acordo de sustentar
as finanças do Vaticano, que se desmoronavam. Por duas coisas: porque o Papa João Paulo II resultou mais afim aos objetivos do Opus do que tinha sido Paulo VI, e
porque o 'Banco Ambrosiano' tinha problemas. O 'Banco da Itália' fazia tempo, desde 1978, que investigava em suas operações e suas conexões com o 'IOR'. Certamente,
a misteriosa morte de Calvi pôs fim a qualquer complicação do Opus que tivesse intenção de solucionar as preocupações monetárias do Papa. Agora já não havia necessidade
alguma de proteger a demasiada extensão 'Rumasa'. Menos de um ano depois da morte de Calvi, que também tinha quebrado, e, como Calvi antes que ele, Ruiz Mateo tinha
fugido a Londres.
Diferentemente de tantos atores principais nestes dramas financeiros, Ruiz Mateo ainda vive. Acusou vários membros do Opus de colaborarem na expropriação
da Rumasa', entre eles Luis Valls Taberner, do 'Banco Popular'. Por suas declarações públicas foi ameaçado com a expulsão do Opus, do qual, em princípio, negava
ser membro. O Escritório de Imprensa do Opus em Madrid viu-se obrigado a fazer uma manifestação. Confirmava que:
'Em 24 de maio (Opus 1986) disse ao José Maria Ruiz Mateo que sua forma de atuar e suas freqüentes declarações ao longo de muito tempo não estão de acordo
com as obrigações espirituais e formativas que ele livremente contraiu com o Opus Dei, e que devia corrigir. A prelatura nunca deixou de oferecer tal ajuda, única
e exclusivamente espiritual, a que tem direito e que em realidade rechaçou...
'Por outro lado, lamentamos, novamente, que continui repetindo afirmações e raciocínios negados em muitas ocasiões desde 10 de janeiro de 1986 porque carecem
de qualquer fundamento. Nessa data este escritório disse que nenhum diretor do Opus Dei estava comprometido em acordo algum em relação com 'a Rumasa'. Nem tampouco
deram a José Maria Ruiz Mateo sugestões, conselhos ou promessas de nenhuma classe referente a seguir à Espanha, ou a sair do país, nem quanto à defesa técnica de
sua pessoa nem de seus legítimos interesses. Não tem nenhum sentido atribuir ao Opus Dei as conseqüências dos atos pessoais e livres, nem esperar da prelatura nenhuma
classe de amparo ou de apóio em assuntos profissionais, sociais, econômicos nem políticos.'
Não parece muito generoso por parte de uma organização a qual, não só Ruiz Mateo, mas, também muitos membros de sua família mais próxima, tinham dedicado
grande parte de suas vidas e uma grande quantidade de seu dinheiro.
O Vaticano, enquanto isso, negou aceitar responsabilidades pelo que os italianos denominam graficamente o crack 'Ambrosiano', dando algumas compensações:
duzentos e cinqüenta milhões de dólares, menos o desconto por ter feito o pagamento de uma vez, foram entregues aos credores do 'Ambrosiano' em maio de 1985. Não
há explicação de como o Vaticano, atolado pela pobreza como diz estar, encontrou tal soma. Alguns comentaristas suspeitam que de novo o Opus serviu ajuda. O Vaticano
está agora interessado em que o Opus tenha permissão da mesma isenção de impostos na Espanha de que gozam outras organizações eclesiásticas, como as ordens religiosas,
as diocese, as paróquias, etc., sob os acordos Igreja espanhola-Estado. Caso esteja sob os acordos, então tem que revelar muito de si mesmo, de seus propósitos,
de sua estrutura, etc. Não quer fazê-lo. Se o assunto chegar ao Parlamento espanhol, é muito provável que toda a relação Igreja-Estado sobre matéria de tributação
seja revelada e o resultado pode muito bem não ser benéfico para a Igreja. Por outro lado, se não for aprovado ao Opus Dei o estatuto de isenção de impostos, então,
ficaria em perigo uma importante fonte de ganhos para a Igreja. É natural que o Vaticano tenha suscitado a questão com o Governo de Madrid.
Caso o Opus, realmente, reparta grandes somas, então a fatal visita de Calvi a Londres reflete a crença do banqueiro de que o Opus podia tirá-lo dos apuros.
Tanto a senhora Calvi como seu filho afirmaram que esperavam que o Opus preparasse uma operação de resgate. Além disso pensavam que fosse a Espanha; ao invés disto
foi a Inglaterra. Foi porque acreditava que o centro das operações financeiras do Opus estava em Londres? Giancanlo Zizola, o observador mais acostumado à cena
vaticano, assinala que em Austin Friars, não muito distante do Blackfniars Bridge, está o 'Banco Urquijo Hispano-Americano', um Banco do Opus Dei, e é sabido que
Ruiz Mateo enviou grandes somas ao Opus na Inglaterra. Possivelmente ele, como Calvi, esperava encontrar apoio em seus velhos amigos. Ambos foram gravemente decepcionados,
embora Ruiz Mateo vive para explicá-lo.

VIII. CATOLICISMO SECTÁRIO


No índice da versão inglesa de Caminho, não há capítulo: PROFISSIONAL, FORMAÇÃO e PRUDÊNCIA. (Veja-se Formação profissional.) Mas, na edição espanhola encontra-se
uma: PROSELITISMO. Um exame mais detido mostra que o texto inglês prefere APÓSTOLOS, GANHANDO NOVOS. O texto, evidentemente, foi expurgado por toda parte. 'Proselitismo.
É o sinal certo do zelo verdadeiro' converteu-se na busca de companheiros apóstolos. É o sinal inequívoco do zelo verdadeiro' (máxima 793), enquanto que 'A oração
é o meio mais eficaz de proselitismo' foi traduzido pela oração é o meio mais eficaz de ganhar novos apóstolos' (máxima 800).
'Crônica', por outro lado, não mostra tal gentileza no uso da palavra 'proselitismo'.
'Proselitismo na obra é precisamente a rota, o caminho para chegar à santidade... Ninguém será dispensado de fazê-lo, sob nenhuma circunstância. Nem sequer
os doentes serão dispensados, porque seria tanto como dispensá-los de serem Santos... Unicamente, se formos proselitistas viveremos totalmente nossa vocação. Quando
uma pessoa não tem zelo para ganhar outros é porque seu coração não pulsa. Está morto e podemos aplicar-lhe aquelas palavras de Escritura: 'Iam foetet, quadriduanus
est enim' (João, 11-39). 'Já se decompõe [literalmente, empresta] porque já está morto quatro días.' Essas almas, embora estivessem na Obra, estariam mortas, decompostas,
'iam foetent'. E eu, diz o Pai, não vou a nenhuma parte com cadáveres. Eu enterro aos cadáveres.'
O fato de traduzir proselitismo por 'ganhar apóstolos' dá uma impressão absolutamente equivocada. Os apóstolos são pregadores do Evangelho. O fim primitivo
do proselitismo do Opus Dei, por outra parte, é ganhar recrutas para se: 'Para promover no mundo o maior número possível de almas dedicadas a Deus no Opus Dei para
o serviço da Igreja católica e para o bem das almas.' O Opus Dei vai mais longe.
Procurar adeptos é uma obrigação primitiva, é algo que deve expor-se cada semana nos círculos: até onde cumpriu um indivíduo sua tarefa de 'pesca', a palavra
do Opus, de novos membros. 'É o momento de contar. Quantas vocações há traído?' 'Nosso apostolado pessoal, prossegue 'Crônica'? Dirige-se em primeiro lugar a preparar
nossos amigos no trabalho de são Rafael.' O apostolado de são Rafael é o termo usado pelo Opus Dei para a busca de membros jovens ('Eu não digo, conclui o Pai, que
não possamos encontrar vocações entre a gente maior, mas isso... é algo difícil') que poderiam depois, se são adequados, ser recrutados para ser membros plenos e
celibatários (o apostolado de San Miguel), ou formados como pais de família (o apostolado de são Gabriel). ''Que de bom ganha rindo, quando o aconselhei pôr seus
anos jovens sob o amparo de são Rafael para que ele o guiasse, como o fez com o jovem Tobías, até um santo matrimônio, com uma garota que seja boa, bonita e rica',
[Escrivá] acrescentou em brincadeira.'
Os que têm amigos entre os membros do Opus podem sentir-se molestados ao saber que sua amizade se considera um meio para atrair a novos adeptos. Uma vez ganhos,
os profissionais os instigam a seguir com os procedimentos da organização.
'O mesmo Pai nos ensinou o caminho exato para construir o edifício espiritual dos mais jovens. E nos deu normas bem definidas para os cursos de formação,
que 'são a essência da obra de são Rafael', e que são, portanto, inalteráveis, idênticas para todas as circunstâncias de lugar e de tempo. '
Os em outro tempo amigos, seguem com ulteriores exceções de 'pesca'.
O lugar preferido para 'pescar' é a boa escola católica, com ou sem o estímulo da autoridade escolar. Um distinto correspondente estrangeiro de um periódico
britânico queixava-se de que seu diretor beneditino insistia a que confraternizasse com o Opus; seus membros seguiram importunando muito depois de ter deixado claro
que não estava interessado na organização. Em uma escola de garotas não longe de Londres, a diretora proibiu o Opus em seu estabelecimento depois de descobrir que
as alunas recém chegadas da Espanha eram convidadas a entrevistas, não autorizadas, na grama às cinco da tarde com sacerdotes do Opus.
Uma vez pescado um jovem, o seguinte passo é o clube de jovens. Nenhuma casa do Opus que seja bastante grande está completa sem um, ou dois. O clube para
garotas 'Tamezin', por exemplo, opera desde 'o Dawliffe Hall' no Chelsea Embankment de Londres. Há centros similares, tanto com propósitos recreativos, como de estudo
em várias propriedades londrinas mencionadas anteriormente. Há conferências, grupos de leitura, guia para o trabalho escolar (têm 'algum dos moços mais avançado
que esclarece pontos obscuros aos mais jovens') excursões, etc. Os que assistem não são conscientes de que estão sendo cuidadosamente investigados:
'antes de um jovem tomar parte na classe semanal, ou melhor, antes de que possa assistir à classe de formação, o diretor tem que lhe perguntar a ele em solitário...
Nessa conversação privada jovem que quer assistir aos cursos deve lhe fazer ver, indica o Pai, que nossa casa não é um lugar de recreio (não temos, nem teremos,
nem sequer uma mesa de bilhar). Esta mais para um lugar desagradável, onde freqüentemente lhe perguntam se rezou, etc.., se foi bom com seus pais..., se estuda.'
O 'clube' do Opus Dei se converte em um segundo lar: 'Os moços não vão a um clube ou a uma sociedade de amigos. Vêm à sua casa.' Ao separar os filhos de suas
famílias vão dando a mão com a criação de dependência do Opus:
'Para dirigir este crescimento está o bate-papo com o sacerdote e a conversação que cada jovem tem com quem está trabalhando com ele, para dizer, com a confiança
de irmãos menores, seus pequenos segredos e preocupações de todo tipo. No começo é difícil para eles. Depois, o necessitam.'
A recompensa para os membros mais leais dos clubes e grupos de estudo, para os que têm descoberta suas almas aos sacerdotes e ao diretor, para os que são
mais maleáveis, é a peregrinação anual de Páscoa a Roma. Esta é uma aventura cheia de camaradagem, zelo religioso e sentimento cuidadosamente fomentado de pertencer
a um grupo de elite. 'Quando foste à peregrinação de Páscoa, está começando a te unir', disse um ex-membro desiludido ao seminário do Liverpool The Catholic Pictorial
('Catholic Pictoria, 29 de novembro de 1981). E então é quando começam os problemas.
Em uma carta ao 'Daily Mail', Andrew Byrne, um sacerdote do Opus, admitia: 'Em alguns casos, quando um jovem diz que quer unir-se a nós, aconselhamo-o não
dizer aos seus pais. Isto é devido aos pais não nos compreenderem.' A um jovem que estudava Economia na Universidade de Manchester e vivia em uma residência universitária
pertencente ao Opus Dei (suprimida da lista de residências reconhecidas depois de uma investigação das autoridades universitárias ao receber queixa de alguns estudantes)
ofereceu-lhe sua amizade um membro do Opus. A amizade seguiu o curso normal e foi abordado como possível candidato. Quando disse que primeiro o falaria com seus
pais, seu amigo lhe respondeu que não o fizesse porque, como o padre Byrne dizia, poderiam não compreender. 'Eu não o disse a meus pais até depois de ter ingressado,
acrescentou o 'amigo'; no início zangaram-se, mas, convenceram-se gradualmente' (Conversação privada, 14 de novembro de 1987. O jovem em questão se fez finalmente
da Companhia de Jesus).
Os relatos de filhos separados de suas famílias são muito menos freqüentes que as histórias de filhas, provavelmente, devido à maior liberdade que o Opus
Dei permite a seus varões. Estes relatos seguem pautas bastante familiares para qualquer que se encontrou com as acusações dirigidas com regularidade aos novos movimentos
religiosos, ou 'cultos', como agora se conhecem mais popularmente. 'Vi que sua conduta mudava, dizia uma mãe de sua filha, que tinha ido ao Lakefield', o colégio
de pupilas do Opus Dei no Hampstead, Londres, depois de um bate-papo sobre carreiras na escola. Era uma maravilha de filha, e agora se tornou reservada e introvertida'
(Senhora Sylvia Loffler do Poolo, Dorset, relatado no The Universe', 18 de maio de 1984).
As restrições sobre as garotas parecem estar apoiadas no medo de que, se estivessem expostas a acontecimentos familiares, os laços de afeto se restabeleceriam
rapidamente. A assistência a batismos ou a bodas se considera especialmente perigosa. Ao menos dois antigos membros do Opus na Inglaterra explicaram que sua decisão
de deixá-lo-se manifestou pela negativa do Opus a lhes permitir fazer de damas de honra nas bodas de suas irmãs. As visitas ao lar são muito escassas, e estão estritamente
regulamentadas: um par de noites ao ano é tudo o que está permitido. Em uma ocasião um pai, condutor de caminhão, encontrou-se com sua filha em Londres, ela decidiu
de improviso voltar para casa com ele para fazer uma visita. Um superior do Opus chamou à casa e acusou ao pai de ter seqüestrado a sua própria filha.
Embora tais histórias podem multiplicar-se, devem tratar-se com certa prudência. O Opus Dei é novo e relativamente desconhecido. Alguns pais não fizeram objeções?
ou não tantas? Se suas filhas tivessem escolhido unir-se a uma das congregações conhecidas. Em muitos casos a perplexidade é maior porque os filhos não só se uniram
ao Opus sem dizer-lhe a seus pais, mas sim primeiro se converteram ao catolicismo a partir de alguma outra seita ou de nenhuma, depois de ter trabalhado ou estudado
na atmosfera de estufa de uma das residências do Opus.
A oposição paterna a que os filhos se unam a comunidades religiosas, com inclusive seqüestros ou intentos de deserdá-los, não são nada novo na história da
Igreja. São Tomás de Aquino no século XIII se encontrou com a oposição de sua família quando quis unir à nova Ordem do São Domingo, foi feito prisioneiro por seu
irmão e, segundo a lenda, submetido a tentações para lhe persuadir a adotar outra classe de vida. No século XVI, Estanislao da Kostka foi obrigado a fugir de seu
irmão e se expôs a considerável cólera de seu padre contra a Companhia de Jesus na Polônia por ingressar os jesuítas. O Opus poderia muito bem reclamar, com este
exemplo ao menos, que se encontra em uma tradição venerável.
Mas as práticas tradicionais mudaram. Agora seria impensável para qualquer das principais congregações religiosas, de varões ou de mulheres, aceitar a um
candidato, ao menos a um menor de vinte e um anos, que não tivesse a aprovação paterna para ingressar. Nem tampouco nenhuma congregação recrutaria como membro alguém
menor de dezoito anos ou próximo a eles, porque consideram que a gente jovem raramente alcança a maturidade suficiente para tomar a classe de compromisso que normalmente
requer a adesão à vida religiosa.
Estas considerações preocuparam claramente ao cardeal Hume, arcebispo do Westminster, depois de que o 'Time' de Londres publicasse em janeiro de 1981 um artigo
a toda página muito crítico sobre o Opus, apoiado principalmente nas experiências do doutor John Roche. 'Por isso corresponde ao que está estabelecido na diocese
do Westminster, declarava, tenho a responsabilidade, como bispo, de assegurar o bem-estar de toda a Igreja local, assim como os melhores interesses do mesmo Opus
Dei.' E prosseguia:
'Fiz saber aos responsáveis pelo Opus Dei neste país o que considero que são as devidas recomendações para a futura atividade de seus membros dentro da diocese
do Westminster. Agora quero fazer públicas estas quatro recomendações. Cada uma delas emerge de um princípio fundamental: que os procedimentos e atividades de um
movimento internacional, presentes em uma diocese particular, podem muito bem ter que ser modificados com prudência à luz das diferenças culturais e costumes locais
legítimas e normas da sociedade em que tal corporação internacional pretende trabalhar.
'Estas considerações não devem ser tomadas como uma crítica à integridade dos membros do Opus Dei, nem de seu zelo ao promover seu apostolado. Estou-as fazendo
públicas para sair ao passo de inquietações compreensíveis e para fomentar a prática ortodoxa da diocese.
'As quatro recomendações são as que seguem:
'1. Nenhuma pessoa de menos de dezoito anos deveria ser autorizada a tomar nenhum voto nem obrigação a longo prazo com o Opus Dei.
'2. É essencial que quão jovens queiram unir-se ao Opus Dei tratem primeiro o assunto com seus pais ou tutores legais. Se excepcionalmente houver boas razões
para não dirigir-se a suas famílias, estas razões deveriam, em cada caso, ser discutidas com o bispo local ou com seu delegado.
'3. Embora se admite que os que se unem ao Opus Dei aceitam os deveres e responsabilidades próprios dos membros, deve-se pôr cuidado em respeitar a liberdade
do indivíduo: primeiro a liberdade do indivíduo para unir-se ou para deixar a organização sem que seja exercida uma pressão indevida; segunda, a liberdade do indivíduo
em qualquer etapa para escolher a seu diretor espiritual, tanto se o diretor é membro do Opus Dei ou não.
' 4. As iniciativas e atividades do Opus Dei dentro da diocese de Westminster, deverão levar uma clara indicação de seu patrocínio e direção.
Estas 'Pautas para o Opus Dei dentro da diocese de Westminster', como se intitulavam, levavam data de 2 de dezembro de 1981. Embora no parágrafo final o cardeal
afirmava 'confiar em que estas quatro pautas não obstaculizarão em modo algum a obra apostólica a que o Opus Dei se comprometeu, mas sim lhe ajudarão a adaptar-se
à espiritualidade tradicional e aos impulsos de nosso povo', os leitores a esta altura do livro estão conscientes quão contrárias são às atitudes e às práticas do
Opus. Portanto, é questionável até que ponto são observadas.
Um jovem que ingressou no Opus aos dezessete anos (tenho lido uma entrevista extensa, não publicada, com este antigo numerário, mas eu não lhe conheci. O
texto me chegou através do entrevistador, em quem tenho total confiança. De modo que, embora acredite nas afirmações feitas na transcrição, não estou em posição
de mencionar à pessoa da qual se trata) afirmou depois que, quando expôs a questão da declaração do cardeal, lhe disse que eram simplesmente pautas, não regras,
e que, portanto, o Opus não estava obrigado seguir. Por outra parte, duas mulheres numerárias auxiliares reiteraram que, embora possa não ser uma boa idéia o dizer-lhe
aos pais, ninguém era admitido até ter mais de dezoito anos. Isso poderia ser tecnicamente certo, embora o recrutamento comece antes de tal idade. A quarta recomendação
exige 'indicação clara' das atividades do Opus dentro da diocese do Westminster. Em seu comprido relatório anual, que finaliza em 30 de setembro de 1986, a 'Netherhall
Educational Association' não menciona em nenhum momento que esta sociedade limitada controla não somente o 'Netherhall', mas também 'Ashwell House' (o relatório
de 1986 indica que esta propriedade deve ser entregue 'a um instituto de beneficência associado, Dawliffe Mai Education Foundation Lixnited, em outubro de 1986'),
no oeste de Londres e 'Grandpont' em Oxford, como residências internacionais para estudantes; 'Lakefield Housecraft and Educational Centre', Elmore (no Orme Court),
'Westpark' no sudoeste e 'Kelston' (um clube e centro de estudos para escolares masculinos) no sul de Londres; o 'Wickenden Manor Conference Centre' em Sussex e
'Dunreath' em Glasgow tem uma junta diretiva formada exclusivamente por membros do Opus, que dão como direção suas casas do Opus Dei em Londres ou Manchester, e
nenhum dos quais recebe remuneração por seus serviços. O relatório manifesta que: 'Os propósitos principais da associação são a melhora da educação e a formação
de caráter segundo os princípios e ideais cristãos.' Em nenhum deles se menciona que o Opus esteja de algum modo comprometido, um descuido notável, pensará alguém,
à luz dos desejos do cardeal sobre questão. Mas surgem inclusive problemas maiores com outro aspecto da terceira recomendação, a liberdade de deixar a organização.
Maria Angustia Moreno foi durante muito tempo membro do Opus na Espanha e, depois de sua renúncia, escreveu sobre suas experiências. Seu relato provocou muitas
cartas de outros antigos membros: vinte assinaram uma carta pública de apoio. A todos visitaram dois sacerdotes do Opus. O primeiro contato para alguns desde que
se foram muitos anos antes. Disse-lhes que Maria Angustia tinha sido uma lésbica e uma lésbica praticante durante sua época no Opus Dei, e que essa era a razão pela
qual foi despedida. Não apresentaram nenhuma prova, afirma em seu livro 'A outra cara do Opus Dei', mais que a de um dos sacerdotes que tocou sua batina para indicar
que, como clérigo, devia ser digno de crédito. Maria, a quem previamente o Opus advertiu que utilizariam contra ela costumes conhecidos, sem especificar o que era
o que se conhecia, sentiu que não tinha mais alternativa que procurar uma reparação legal. Finalmente lhe ofereceram uma desculpa completa ante seu advogado pelas
coisas ditas contra ela, mas ela queria que as desculpas se repetissem em audiência pública. Nisto fracassou uma e outra vez por razões técnicas, devido claramente,
em sua opinião, às maquinações do Opus.
O relato da Maria Angustia Moreno parece raiar às vezes na paranóia. É difícil acreditar que uma organização religiosa cujos membros se dedicam à busca da
santidade se comportem do modo que ela descreve. Mas Maria do Carmen Taipa também teve problemas. Pouco depois de ter deixado o Opus decidiu ir a uma Universidade
dos Estados Unidos. É obvio, tinha estudado enquanto era membro da Obra mas nunca lhe tinham dado certificado nem diploma algum. Quando a Universidade norte-americana
solicitou um certificado de assistência a tais cursos, o Opus respondeu que nunca os tinha feito. Taipa se dirigiu ao Vaticano para pedir ajuda. Disseram-lhe que
havia outras pessoas esperando, como ela, um certificado dos estudos feitos enquanto estavam no Opus Dei. Finalmente, o Opus enviou ao Vaticano uma declaração de
que 'a menos que os membros aprovem uma revalidação de seus estudos, o Opus Dei não guarda nunca um registro dos estudos feitos'.
Não houve nenhum intento para evitar que Taipa deixasse o Opus. Ao contrário. Foi, como ela diz, 'despedida pessoalmente pelo fundador', mas em circunstâncias
muito notáveis.
Em 1965 foi chamada à sede de Roma, onde a puseram virtualmente sob arresto domiciliário durante oito meses. Não lhe permitiu comunicar-se com o mundo exterior,
nem por telefone nem por carta. Um pormenorizado numerário da Venezuela abriu uma Caixa postal, mas foi descoberto e o numerário foi severamente castigado. A negativa
de Taipa a revelar o número de sua Caixa postal foi qualificada por uma mulher, oficial da Direção Central do Opus, como pecado mortal. Informou-lhe que a qualquer
que perguntasse por ela lhe diria que estava doente ou ausente. Em um período de três meses seu cabelo ficou branco. Perguntou se podia voltar com sua família à
Espanha, e negaram permissão.
Sendo diretora da seção de mulheres na Venezuela, Taipa tinha sido uma das superioras mais liberais do Opus Dei, lutando por iguais oportunidades que os homens
para as mulheres a seu cargo, dando permissão para que fossem confessar com o sacerdote (do Opus) de sua eleição, algo que o Opus não passa, e queixando da quantidade
de instruções que costumavam receber de Roma. Por estes pretendidos 'delitos' foi acusada de prejudicar à unidade da organização. Ao não admitir sua culpabilidade
e não dar sinais de arrependimento, o fundador lhe exigiu que demitisse, mas lhe advertiu que não mencionasse nunca em Roma o que tinha acontecido. Além do passaporte,
o Opus lhe guardou todos os documentos pessoais. Ao partir foi obrigada a confessar-se. Um sacerdote do Opus Dei lhe advertiu que não importava a penitência que
fizesse por seus diversos 'delitos', era pouco possível que se salvasse. Em seu relato no 'National Catholic Reporter', descreve o tratamento mal educado e insultante
que recebeu de mãos do fundador. Conclui: 'Meu assombro é infinito quando ouço agora que Monsenhor Escrivá está em processo de beatificação'
Acontecimentos igualmente estranhos rodearam a marcha do mundo Pániker. Quando já não se encontrava feliz com vida dentro do Opus, em lugar de lhe dispensar
de suas obrigações, seus superiores lhe enviaram à Índia. (Seu pai era índio.) Disse-lhe que podia ser eximido da obrigação de pobreza, podia encontrar um bispo
em cuja diocese pudesse trabalhar, e que enquanto escrevesse ao Opus de vez em quando, não surgiriam problemas. Só havia uma condição: não podia voltar para a Europa
sem permissão.
Pániker ateve-se a esta condição, inclusive quando se estabeleceu um instituto inter eclesiástico em Tantur, no Israel, e foi renomado pelo Papa Paulo VI
como um dos membros católicos fundadores. O mesmo Pániker, consciente de que não podia voltar para a Europa sem permissão, disse que não podia assistir à primeira
reunião desta junta de governo. Não obstante, deram-lhe permissão para ir à segunda No caminho organizou um encontro com uma mulher francesa, a pedido desta, em
Zürich: o Opus pretendeu que tinha uma aventura com ela.
Enquanto esteve na Europa, acessou a ir a Bonn com o cardeal Alfrink, arcebispo do Utrecht, a dar uma conferência. Estando ali, convenceram-lhe de que voltasse
para Roma em avião porque Monsenhor Escrivá do Balaguer queria lhe ver. Assim que chegou a Itália, saíram a seu encontro dois sacerdotes do Opus que lhe disseram
que lhe levavam a ver o fundador, mas uma vez no carro trocaram seu relato. Escrivá estava muito cansado naquele momento; levariam-lhe a outra parte e veria o fundador
ao dia seguinte. Efetivamente, ao dia seguinte lhe levaram ante o Escrivá, mas só para começar uma espécie de julgamento ante um jurado, que lhe acusou de toda classe
de ofensas. Negou-se responder e assinar nenhum papel. Apresentou um relatório à Congregação para os Religiosos e os Institutos Seculares sob a qual ainda se achava
o Opus, era em 1966, mas foi rechaçado e ridicularizado. Fixou-se uma audiência com o Papa a que não foi permitido assistir. Sua mãe telefonou de Barcelona; lhe
disse que não estava em Roma. Finalmente lhe expulsaram do Opus, puseram-lhe em um vôo direto a Nova Delhi e lhe disseram que fora a encontrar um bispo benévolo.
Converteu-se em sacerdote da diocese do Benarés e mais tarde em professor de Estudos Religiosos na Universidade de Califórnia, na Santa Bárbara.
Estas são pessoas que foram expulsas do Opus em circunstâncias curiosas. Uma experiência mais comum, é de pessoa que encontra dificuldade em sair. Um jesuíta
colombiano informou de suicídios. E também John Roche, que diz saber de forma direta de um suicídio no Opus Dei do Quênia e que ouviu que duas mais de mulheres em
Londres, uma das quais se arrojou do quarto apartamento de uma casa do Opus (John Roche, 'Rhe Inner World of Opus Dei'). O caso de Michael Richards, anteriormente
mencionado como o primeiro adepto inglês e mais tarde sacerdote do Opus Dei, é especialmente estranho. Como sacerdote foi capelão dos estudantes universitários do
Bangor, no Norte do Gales. Pouco depois pareceu ter perdido todo interesse em si mesmo e na vida. Segundo outro capelão, precisava tomar medicamentos constantemente,
mas não o fazia. Padecia de insônia e permanecia velando durante longas horas, e às vezes durante toda a noite. Consumiu-se. Finalmente foi encontrado morto na casa
de sua irmã na praia, aparentemente por causas naturais, embora pareça haver-se destruído a si mesmo por negligência.
Sejam quais forem as dificuldades que possam ficar no caminho de alguém que queira deixar o Opus, estas não são possivelmente o problema real. 'Quando vai
converte em uma não pessoa, e a nenhum membro é permitido ajudar, diz Maria do Carmen Taipa. Quando uma pessoa deixa o Opus, encontra-se na rua, financeira, espiritual
e psicologicamente. Foi a experiência de John Roche, cuja própria irmã, membro do Opus ainda, não queria ter nada a ver com ele, embora isto trocou recentemente.
Tentou apresentar demanda contra a organização para que lhe devolvessem o dinheiro que tinha posto nela, mas fracassou por um tecnicismo. As Constituições do Opus
não mencionam em nenhum caso de forma específica que intente devolução de dinheiro. Excluem-no.
Mas os problemas reais são espirituais e psicológicos. Taipa recorda ao fundador dizendo que 'nenhuma pessoa que tenha pertencido ao Opus quererá pertencer
a nenhuma outra instituição'. Não é difícil entender por que. Está claro tudo em 'Crônica', por exemplo:
'O espírito [do Opus Dei] está por cima de todas as fronteiras geográficas, históricas, sociais ou culturais. Transcende também o desenvolvimento evolutivo
através das épocas... Como resultante, enquanto existam homens na Terra, haverá Opus Dei... [nossa lei interna] por vontade divina contém todo o necessário para
nossa santificação e nossa efetividade. Por isso é Santa, inalterável e eterna... Deus nos confiou este tesouro. Nossa primeira obrigação, pois, é guardá-la e defendê-la
exatamente como a recebemos... Nunca chegará um tempo, nem agora nem nos séculos vindouros, em que as circunstâncias nos aconselhem abandonar constantemente alguma
parte de nossa lei interna.'
'Nem, acrescentou o fundador dirigindo-se a seus 'filhos', teremos que ir nunca depois do progresso humano.'
Nesta visão, dominante na ideologia do Opus Dei, a organização é perfeita, como Deus é imutável (embora tenha havido, é óbvio, várias mudanças em seu estatuto
legal, acompanhados todos por uma nova Constituição, e oferece a todos, sem considerações de tempo nem de lugar, a esperança certa da salvação pelo trabalho). Pániker
recorda que no início dos quarenta, quando se uniu a ele, o Opus Dei era uma forma de 'contracultura', uma séria aceitação das exigências do cristianismo em contraste
com a prática conformista de catolicismo que Escrivá do Balaguer e os primeiros membros acreditavam ver em seu redor. Entretanto, converteu-se, não simplesmente
em um compromisso sério para o seguimento de Cristo, a não ser no único caminho verdadeiro no que os ensinos de Cristo podem entender-se. Igual à cristandade, que
até tempos relativamente crescentes não aceitou que os não crentes pudessem ser 'salvos' e alcançassem a felicidade eterna no céu, aos membros do Opus ensinam a
pensar o mesmo de sua organização. É a única esperança segura de salvação. Desde aí a enorme insistência em ganhar conversos ou em fazer proselitismo, em animar
pessoas a 'apitar', como diz o jargão do Opus. Segundo John Roche, supõe-se que cada membro tem ao menos quinze amigos aptos para ser recrutados, dos quais um terço
trata de persuadir para que 'apite' em qualquer momento. 'Nenhum de meus filhos pode descansar satisfeito se não ganhar quatro ou cinco vocações fiéis cada ano',
diz o fundador em 'Crônica'.
Raimundo Pániker descreveu à Obra como 'o último remanescente daquele messianismo militante que é endêmico nas religiões abrahámicas' As religiões abrahámicas
(judaísmo, Cristandade e Islã) estão todas por afirmações de que são a única fé verdadeira. Cada uma delas periodicamente deve sofrer acessos dos grupos fundamentalistas
dentro da qual tentam fazer voltar para os desencaminhados ao que eles consideram a fé primitiva e verdadeira. No caso da Cristandade, ao menos, tais grupos pregam
sua mensagem no contexto de uma (para eles) sociedade decadente que consideram o prelúdio dos últimos tempos.
O Opus, diz Pániker, quer salvar ao mundo de si mesmo em nome de Deus, mas segundo suas próprias condições. As condições do Opus, é óbvio, são idênticas às
de seu fundador. Toda graça que conduz à salvação chega aos membros do Opus Dei através de seu fundador. Através da graça do fundador é o que é. Desde aí os traumas
que sofrem os que saem. Muito freqüentemente acreditam, e os membros do Opus Dei o pensam assim, que ao separar-se desta fonte de graça ficam a si mesmos fora desta
instituição de inspiração divina e inalteravelmente perfeita, e estão destinados a condenar-se eternamente. 'O demônio atua rapidamente, disse-lhe Janet Gould a
sua mãe quando explicava por que não podia abandonar por um curto período a residência do Opus para ir a casa de visita, e o fará se me parto daqui' (Chamado no
'Catholic Pictorial', 13 de setembro de 1981. A senhorita Gould já deixou o Opus.)
O impacto sobre os membros do Opus é previsível. Separam temporariamente de sua família natural. Ensinam acreditar que a salvação é impossível, agora que
são membros do Opus, a não ser através de ingresso na organização. Supre sua vida familiar, seu meio ambiente, ao menos quanto a tudo o que não seja atividade profissional
e, em muitos casos, especialmente para as mulheres, também esta. Quando estão desenganados, portanto, o impacto emocional é esmagador. Os que querem partir não têm
a ninguém a quem recorrer, ninguém, fora do Opus, com quem estabelecer uma relação, suficientemente, estreita que possam confiar neles. E também foram educados na
crença de que ao romper seus laços estão cometendo o pecado mais infame. A salvação é transmitida através do Opus. Sem o Opus o antigo numerário está condenado.
As similitudes entre o Opus e alguns dos novos movimentos religiosos são surpreendentes. Não é difícil fazer comparações reveladoras entre organizações destrutivas
como a Igreja da Unificação, a seita Moon, e o Opus. Entretanto, tais comparações nem sempre funcionam: o Opus durante toda sua vida procurou, e finalmente recebeu,
a aprovação da Santa Sede. Apesar de seus muitos caluniadores, continua sendo uma parte aceita do catolicismo, com entradas no Livro do Ano do Vaticano e nos diretórios
das Igrejas católicas de todo o mundo. A primeira vista, pensar que o Opus pudesse ser classificado como um novo movimento religioso ou seita que opera dentro do
catolicismo, pareceria paradoxal e muito improvável. Paradoxal ou não, pergunta deve ser feita: É o Opus Dei uma parte irrepreensível do catolicismo, ou é uma seita
em desacordo com a Igreja que lhe deu a vida? Carol Coulter, uma jornalista irlandesa, inclui um capítulo sobre o Opus em seu livro 'São perigosos os cultos religiosos?
(Carol Coulter, Are Religious Cults Dangerous? Dublín, Mercier Press, 1984, pág. 43) e conclui dizendo: 'Deve ficar a suspeita de que a Igreja Católica tem seu próprio
culto, protegido até agora pelas mais altas filas na mesma Igreja' . assim, está a Igreja católica dividida a seu pesar? Está o monólito ?embora realmente a Igreja
tenha parecido um monólito unicamente a quem estava fora de seus braços, a ponto de desmoronar-se? Porque o problema está mais estendido. Não é só o Opus.
Não faz muito tempo, a Santa Sede expressava sua preocupação pelo crescimento na América Latina de seitas protestantes, especialmente de uma variedade evangélica.
Tem boas razões para alarmar-se, como mostra inclusive uma breve visita aos bairros mais pobres das grandes cidades. A expansão destas seitas, quase invariavelmente
de uma classe teológica claramente conservadora, foi tema de estudo repetidas vezes. Muito menos atenção se apresentou, não obstante, a um desenvolvimento igualmente
alarmante dentro do mesmo catolicismo: a aparição de agrupamentos de direitas.
Algumas destas, Comunhão e Liberação, por exemplo, conhecem-se na Europa sob um nome equivalente. Outras, como Fiducia no Chile ou a peruana Sodalitium Vitae,
são produtos de cultivo caseiro. Têm idênticas características. Sem dúvida, existem similitudes entre as seitas protestantes e católicas que os sociólogos poderiam
rapidamente apontar. Muito mais surpreendentes são, entretanto, os contrastes.
As seitas protestantes atraem pobres e sem posses; as católicas, os ricos e privilegiados. Os primeiros rechaçam energicamente Roma em nome da Reforma; os
últimos mostram uma lealdade indisputável, embora, aos de sua própria classe. Os primeiros evitam a política e, deste modo, como disse uma vez um distinto teólogo
da liberação, Jon Sobrino, separam seus conversos de suas responsabilidades históricas. Os últimos fazem exatamente o contrário, considerando a Igreja como escora
do Estado e esperando que o Estado seja, em troca, o protetor da Igreja. Os primeiros são com freqüência do Pentecostes, procurando consolo da quase insuportável
carga da luta diária pela existência nas lacunas criadas pela imprevisível chegada do espírito. Os últimos se refugiam na segurança de um sistema de valores bem
provado: na tradição, família e a propriedade. Este é, de fato, o nome de um de tais grupos ;
Tradição, Família e Propriedade ativo em várias zonas da América Latina.
Entretanto, apesar destas diferenças, o êxito de seitas anti-católicas como as protestantes parece ter a mesma origem: o papel cambiante da Igreja oficial
dentro das estruturas políticas.
Para que as estruturas políticas possam sequer funcionar, tem que haver um grau de consenso entre os que trabalham dentro das mesmas e os que são governados
por elas. Quando esse consenso nacional se rompe, um país se volta ingovernável. O modo mais óbvio, embora o menos atrativo, de restaurar uma aparência de ordem
em tais circunstâncias é através de uma ditadura militar. Mas, enquanto seja possível impor ordem, não será possível impor consenso, criar um novo sistema de valores,
nem ganhar a aceitação pela força de uma estrutura social que não reflete as necessidades e as aspirações da maioria das pessoas.
No passado, a Igreja católica formou parte desse consenso nacional em muitos países, especialmente na América Latina. Esteve estreitamente comprometida com
o Estado, parecendo dar-lhe autoridade divina sobre aqueles a quem governava. A presença em um país de um núncio papal, sua assistência e a de outros prelados, em
acontecimentos estatais; o reconhecimento por parte do Estado de festas religiosas... estes e muitos outros sinais demonstraram que o Estado tem a bênção da Igreja
e que a Igreja legitima ao Estado.
Mas é exatamente esse papel o qual a Igreja católica já deixou que fazer, ou ao menos já não está tão segura dele. Sua retirada deixou um vazio no qual as
seitas católicas se precipitaram.
É necessário, é obvio, que haja um grau de consenso dentro do Estado. Também é próprio que os cristãos participem da formação desse consenso, mas com a chegada
da teologia da libertação nos anos sessenta, o método de fazê-lo-se transformou radicalmente. A Igreja estava acostumada a atuar como se o Estado e seus cidadãos,
o Estado e a sociedade, fossem idênticos, e não o são. Dirigiu-se aos governantes mais que aos governados. Os teólogos da libertação, pelo contrário, desviaram a
atenção do Estado e a dirigiram para o povo, para a sociedade.
Esta diferença de perspectiva entre a Igreja oficial e os teólogos da libertação pode ser uma razão a mais do porque custou tanto a Roma chegar a um acordo
com este novo fenômeno teológico. Também pode explicar porque o ensino social católica, e com a qual aparenta estar de acordo, causou tão pouco impacto sobre a
vida da gente. Em todo seu ensino social a Igreja se dirigiu até agora ao Estado. Para tomar um exemplo recente, a encíclica do Papa João Paulo II, de setembro de
1981 a toda a Igreja, conhecida como 'Laborem Exercens', embora possa ser admirável no que diz sobre a dignidade do trabalho humano, tem pouco consolo para os parados.
Trata com o Estado e com sua política de emprego, não com a gente e seus problemas.
Ninguém poderia dizer o mesmo da teologia da libertação. Indubitavelmente, ninguém poderia dizê-lo depois de assistir a uma catequese em um bairro de Santiago
do Chile, ou depois de ter escutado canções de liberdade cantadas nas Igrejas da cidade de barracos dos arredores de Lima, ou acima nas colinas por cima de Bogotá.
E da teologia da libertação o Opus é, como se viu (páginas 134-136), inimigo implacável.
O Opus é o decano dos movimentos neoconservadores dentro da Igreja católica. É o mais poderoso, com membros em altos cargos em Governos de países católicos
em todo mundo, e em postos influentes nos meios de comunicação e nos negócios. Como prelatura pessoal, é o único capaz de dar a seus devotos um serviço do berço
até a sepultura, não só sacramentalmente na Igreja, mas também em muitos lugares para a educação, embora em escolas claramente conservadoras, e indevidamente de
um só sexo. Disposta serviço de alguma forma a todas as escalas da sociedade, mas sua clientela preferida é a elite profissional, como deixa claro sua Constituição.
Os católicos desta classe que tinham, em muitos países, um acesso privilegiado aos órgãos do Estado através da Igreja, foram 'privados de privilégios' pela 'opção
pelos pobres' abraçada pelas hierarquias de muitos países do Terceiro Mundo. Como um meio alternativo de acesso se tornaram para estes novos movimentos, e particularmente
para o Opus Dei.
As razões do êxito do Opus Dei estão bastante claras e foram graficamente descritas pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff. No início de seu controvertido
livro 'Igreja, Carisma e Poder', Boff fala de vários 'modelos' de Igreja, de distintas classes de modos de atuação. Em um destes modelos descreve a Igreja como 'mãe
e professora', ou, em latim, 'Mater et Magistra', utilizando as famosas palavras de abertura de uma das encíclicas do Papa João XXIII sobre problemas sociais.
É típico deste modelo de Igreja, diz Boff, e se deve recalcar que não tem em memória ao Opus aqui, que 'a Igreja se alia com as classes dominantes que controlam
o Estado, organizando seus projetos ao redor destas classes, dando origem a colégios, Universidades, partidos políticos cristãos e demais'. Entretanto, não descuida
aos pobres. Ao contrário, eles ocupam um lugar importante em sua lista de prioridades, como no Opus, que pode afirmar, com toda justiça, que dirige escolas agrícolas
e industriais, escolas de formação de serviço doméstico para mulheres, etc. 'Se estabelece uma vasta rede de programas de ajuda, levando a Igreja a ser uma Igreja
para os pobres mais que uma Igreja 'com' ou 'de' pobres.' Boff segue depois com uma descrição da atitude teológica desta classe de Igreja, que encaixa perfeitamente
com o Opus dentro da Igreja:
'Em um plano doutrinal, a Igreja é conservadora e ortodoxa. Está receosa de qualquer inovação. O dogma é rígido e a visão, legalista, confinada a aqueles
em postos de poder dentro da Igreja, a hierarquia. Está o sempre presente recurso à autoridade, especialmente a do Papa ['poderia-se acrescentar, no contexto do
Opus, do fundador']; o pregador é sacerdotal e carente de testemunho profético. O depósito da fé ['um termo católico e romano para a revelação definitiva de Deus
no Jesus Cristo'] é apresentado como completo e perfeito; nada lhe pode acrescentar e nada lhe pode tirar. Todas as práticas sociais devem derivar do mesmo. A Igreja
surge, fundamentalmente, como 'mater et magistra', mãe e professora: tem uma resposta para cada pergunta, tirada do depósito da fé, formada pela Escritura, a tradição,
os ensinos magistrais ['quer dizer, da hierarquia'], e uma compreensão específica da lei natural.'
Segundo seu modelo, prossegue Boff, há uma relação direta entre a Igreja e o Estado, como se fora entre duas forças, a Igreja entendendo-se a si mesmo, como
o faz o Estado, em termos de lei e de poder. É um modelo de Igreja que atrai ao Estado porque, entretanto, ainda permite à Igreja ter voz em questões políticas,
tendo implicações morais, limita o espaço da Igreja a uma intervenção mais direta na arena política, e em qualquer caso, compromete a Igreja por seus estreitos laços
com os poderes políticos existentes. Embora o mesmo Boff não utiliza esta classe de linguagem, é outra formulação da descrição do século XIX da Igreja e do Estado
como duas 'sociedades perfeitas', cada uma delas autônoma em sua própria esfera, embora vinculadas, porque ambas têm em comum o povo submetido a seu poder. É com
esta teoria que muitas gerações de sacerdotes foram educados, e isso inclui o novo Papa. Uma explicação da atitude aparentemente ambígua de João Paulo II ante a
ação política por parte de homens e mulheres da Igreja, apoiando-a na Polônia e parecendo condená-la na América Latina, poderia muito bem ser que no primeiro exemplo
a Igreja está tentando voltar para modelo das antigas 'duas sociedades perfeitas', enquanto, os teólogos da libertação da América Latina rechaçam tal formulação,
e tomam partido pelo povo, pela sociedade, mais que pelo Estado.
Que o Opus Dei compartilhe com o Papa a mesma atitude ante a ação política manifesta, enquanto, deixa a seus membros em liberdade para atuar politicamente
como querem, quer dizer, com caráter geralmente conservador, encaixa exatamente com esta estrutura da Igreja como 'mãe e professora', descrita por Boff. Em seu livro
'Jesus and Politics: Ao Scriptural Study of Messianism', o sacerdote do Opus Dei (embora, é óbvio, em nenhum lugar lhe descreve como tal), José Maria Casciaro acaba
seu ensaio com uma passagem que poderia ser escrita para confirmar descrição de Boff:
'A Igreja, assim, com corpo de Cristo, está, como seu Senhor, por cima de ideologias, regimes políticos, movimentos sociais, grupos de pressão, partidos,
corporações nacionais e profissionais, etc., embora continue profundamente interessada e preocupada com estes assuntos humanos, a perspectiva é dominante. Mas todas
estas coisas, todos estes assuntos humanos, nobres muito freqüentemente, são ainda efêmeros e variáveis. O que em um momento se considerou como a etapa final de
um longo processo, passa a ser totalmente uma coisa do passado. Tudo isto é, pois, instável e cambiante. Cristo, a Igreja, são, por outro lado, eternos, igual sua
missão é eterna'
A concorrência de ideologias entre o Papa e o Opus, junto com seus similares pontos de vista sobre o lugar de trabalho como o centro da vida, podem ajudar
a explicar a aparente simpatia de João Paulo II pelo Opus Dei. Um observador do Vaticano experiente, entretanto, observou que a influência do Opus no atual pontificado
tocou o teto (Peter Hebblethwaite, o correspondente vaticano para o seminário norte-americano 'National Catholic Reporter', em conversação privada.) Acontecimentos
ocorridos no Sínodo de Bispos em Roma, em outubro de 1987, fazem pensar numa razão.
Durante o Sínodo se falou muito de 'movimentos', palavra pela quais os presentes se referiam a organizações como 'Comunhão e Libertação', na prática mais
conhecido em sua roupagem italiana como 'Communione e Liberazione'. Os bispos com diocese não estavam contentes com estes movimentos porque estavam fora de seu controle,
e freqüentemente mostravam, como o Opus Dei, rasgos fortemente conservadores. Não obstante, o Opus se manteve orgulhosamente à margem destes debates. Como prelatura
pessoal já não era um movimento; tinha conseguido uma independência jurídica a que outros movimentos aspiravam ainda.
Por outra parte, o próprio Vaticano favoreceu estes movimentos. Talvez, haja razões internas dentro da Igreja para isso: os movimentos são centralistas, e
o Vaticano, que também o é, anda alarmado pela crescente independência revelada pelas Conferências Episcopais em todo mundo. Todavia, há outra razão, possivelmente
mais significativa. Os movimentos podem ser mobilizados e utilizados pelos poderes romanos existentes; o Opus insiste em que não atua coletivamente, em que seus
membros podem ser ativos, mas unicamente como indivíduos. Como se viu, esta é a réplica constante do Opus aos críticos que lhe acusam de interferência política em
benefício dos conservadores. Mas, ante um papado cada vez mais intervencionista, essa atitude do Opus pode diminuir seu valor para o Vaticano, e, portanto, diminuir
também o interesse do Vaticano pelo desenvolvimento futuro do Opus.
Não obstante, como demonstrou este estudo, as autoridades centrais da Igreja católica tiveram grande interesse pelo Opus durante seus sessenta anos de existência,
e este interesse faz difícil conceber à Obra como um culto ou movimento religioso novo, ou como seita. A primeira vista parece ser parte integrante de uma Igreja
universal, reconhecido como tal pelas autoridades eclesiásticas.
As seitas religiosas foram objeto de considerável estudo nos últimos anos como movimentos individuais e como conceito bastante mais geral (um dos melhores:
'The Making of ao Moonie', Eileen Barker. Oxford, Basil Blackwell, 1984). Como conceito geral, a análise das características das seitas se associa especialmente
ao doutor Bryan Wilson, do 'All Souls College', de Oxford. Em seu artigo 'A sociologia das seitas', aponta que 'seita' se utiliza como palavra pejorativa em um contexto
religioso, aplicada a 'um movimento entregue a uma crença herética e, freqüentemente, a atos e práticas rituais que se separam dos procedimentos religiosos ortodoxos'.
Logo continua descrevendo as distintas características que apresentam as seitas. Estas tendem: 1) a ser exclusivas; 2) a manter um monopólio sobre a completa verdade
religiosa; 3) a ser laica, embora possam desenvolver um corpo de organizadores profissionais; 4) a negar 'a virtuosidade religiosa especial' a todo mundo exceto,
possivelmente, a seus próprios fundadores e a seus líderes; 5) são voluntários, é o indivíduo que escolhe ser membro; 6) preocupam-se em manter as pautas, sancionando
aos incapazes e aos rebeldes; 7) exigem lealdade total. Também acrescenta, 8) que as seitas são grupos de protesto, ou contra a Igreja, embora acreditem que isto
se dá menos no que considera como um estado debilitado da Igreja, ou contra a sociedade secular. Em outra parte, o doutor Wilson comenta que:
'As seitas têm um domínio totalitário mais que parcial sobre seus membros: ditam a orientação ideológica do membro na sociedade secular, ou especificam de
forma rigorosa as pautas necessárias de retidão moral, ou forçam o compromisso do membro em atividades de grupo'
Na maioria das categorias acima expressas o Opus Dei encaixa-se com grande facilidade. É exclusivo: 1) em vários níveis, como se viu: em seu recrutamento
seletivo e no segredo no qual está rodeado. Seria incerto dizer que afirma ter um monopólio da verdade religiosa 2), mas seus membros estão completamente convencidos
de que a interpretação da fé católica a qual se aderem é a única versão ortodoxa: confirma-o a exortação de Monsenhor Escrivá do Balaguer a seus fiéis depois do
Vaticano II. Que seja uma organização 'laica' é um de seus mais orgulhosos alardes 3), embora tecnicamente seja um Instituto Secular dentro da Igreja e esteja sem
dúvida dominado pelo clero. É também uma de suas características o depender quase, inteiramente, dos escritos de seu fundador e está, inteiramente, moldado por sua
espiritualidade. Portanto, acomoda-se limpamente com a característica 4), tal como enunciado por doutor Wilson. Os procedimentos de recrutamento, a disciplina interna
do Opus e o compromisso total exigido a seus membros, coincidem com os pontos 5) e 7). Que o Opus fosse descrito como um 'grupo de protesto' é, possivelmente, bastante
mais problemático, embora, como Pánniker assinalava, começou com um caráter 'contra cultural'.
Em anos mais recentes mostrou marcada relutância em amoldar-se às mudanças que seguiram como resultado do Vaticano II, e é um adversário declarado da teologia
da libertação, a que se aderem muitos homens da Igreja em todo mundo. Se a comparação feita, mais acima, entre o modelo da Igreja 'Mater et Magistra' de Boff e o
Opus é válida, então, certamente, dá-se o caso no qual o Opus está vinculado a um ponto de vista teológico que, por muito que seja atrativo para os altos cargos
da Igreja, baixou muito em popularidade na Igreja em geral do Vaticano II.
O perigo dos argumentos apresentados anteriormente para demonstrar que o Opus apresenta muitas das características de uma seita é que poderiam provar muito
dentro da Igreja católica e, em distintas formas, em outras religiões cristãs, existem ordens religiosas. São grupos de tamanho variável, que vão desde menos de
cem até muitos milhares de homens ou mulheres (os grupos são quase todos de um mesmo sexo), que se dedicam a Deus sob uma norma de vida particular e, geralmente,
embora não sempre, compartilham uma vida comum em monastérios ou conventos. Incluem corporações tão conhecidas dentro do catolicismo como a Companhia de Jesus (os
jesuítas), a Ordem de Pregadores (dominicanos), ou os franciscanos em suas distintas formas. Se os argumentos apresentados para demonstrar que o Opus é uma seita
fossem também aplicáveis às ordens religiosas, então, tais argumentos não teriam sentido: seria parvo argumentar que corporações tão consolidadas como os jesuítas,
os franciscanos, ou os dominicanos eram sectárias quando têm feito tanto por fomentar o bem-estar da Igreja católica em sua totalidade.
A sociologia das ordens religiosas não atraiu tanto interesse como a das seitas: um dos poucos livros importantes sobre o tema é o do Michael Hill, 'The Religious
Order' (A ordem religiosa), que em sua maior parte é um estudo do ressurgimento desta classe de instituições na Igreja da Inglaterra, mais que uma investigação do
fenômeno em toda sua escala. Entretanto, proporciona uma definição para ordens que as distingue das seitas. 'A ordem religiosa, escreve, é um agrupamento de virtuosos
religiosos com uma interpretação intransigente da ética do Evangelho sancionada pela Igreja, todavia, não se propõe como necessária para todos', uma definição que
encaixa limpamente nas categorias teológicas católicas.
Dentro deste pensamento teológico há uma distinção (embora deve dizer-se que já não tem muita aceitação) entre preceitos e conselhos. Os preceitos são aquelas
interpretações da ética do Evangelho obrigatórias para todos; os conselhos são aqueles que só abraçam os entusiastas religiosos (ou, em palavras do Hill, 'virtuosos')
e são reconhecidos como não obrigatórios para todos. Na prática, estas interpretações concretiza-se na forma dos três votos de pobreza, castidade e obediência.
Com este critério, entretanto, o Opus se encontra na classe sectária mais que na ordem religiosa. Não acredita que sua própria interpretação do Evangelho
seja unicamente uma entre as muitas versões que se apresentam.
'Somos os vestígios do povo de Israel. Somos os únicos que, tendo permanecido fiéis a Deus, podemos ainda salvar hoje à Igreja. Dado o estado atual de Igreja,
parece ter sido abandonada pelo Espírito Santo. Somos os que podemos salvar à Igreja por nossa fidelidade ao Pai' (José Casanova, 'The First Secular Institute').
Esta é uma expressão perfeita de uma classe de pensamento sectário chamada por Wilson uma seita 'Arca da Aliança', os únicos que se mantêm firmes na fé verdadeira.
Russell Shaw, antes porta-voz dos bispos católicos norte-americanos, compara a Igreja norte-americana com a Igreja católica. Os membros desta última 'tomam a iniciativa
em questões de caráter espiritual e moral em sua maior parte do catolicismo ortodoxo enunciado por João Paulo II', diz. Identifica o Opus com este grupo. A Igreja
norte-americana, por outro lado, dirigida pelos bispos que foram durante um bom número de anos seus patronos, afastaram-se de tal ortodoxia. (Russell Shaw, 'Judged
by Opus Dei').
Para os membros do Opus, sua norma e sua vida espiritual, ao ser aplicável a casais casados, gente solteira e, inclusive, gente jovem, é o modo no qual todos
os cristãos viveriam e renderiam culto, bastava apenas que fossem conscientes disso. A essência do 'proselitismo' no Opus Dei é precisamente a convicção de que todo
mundo deve ser convertido à interpretação de Escrivá da mensagem do Evangelho.
O Opus, pois, mostra muitas das características que os sociólogos descobrem quando analisam as seitas religiosas e o comportamento sectário. O mais fundamental
para uma seita no sentido tradicional é, entretanto, como apontou Bryan Wilson, que é 'um movimento entregue a uma crença herética e freqüentemente a atos e práticas
rituais que se separam dos procedimentos religiosos ortodoxos'. Entretanto, 'o que caracterizou ao Opus Dei incluso depois do Concílio Vaticano II foi sua extrema
ortodoxia é a opinião de José Casanova, mas, logo continua arrojando dúvidas sobre a catolicidade fundamental do Opus. 'Escrivá reitera, basicamente, os principais
temas de Lutero e Calvino, idéias que foram analisadas por Max Weber como determinantes da ética protestante', diz. E logo prossegue separando três elementos. O
ensino de Escrivá, afirma 1) põe fim a 'estruturação hierárquica tanto deste como do outro mundo'; 2) insiste em que a salvação se tem que encontrar em atividades
mundanas, e 3) proclama uma chamada universal à perfeição.
Se estes forem os sinais do 'protestantismo', como afirma Casanova, então toda a Igreja católica está protestante, ao menos do Vaticano II. E nenhuma Igreja
cujo fundador pregasse 'Sede, pois, perfeitos, como perfeito é seu Pai celestial' (Mateo, 5, 48) vai negar uma chamada universal à perfeição. Os critérios de Casanova
exigem matizar algo mais.
Tomemos este último ponto sobre a chamada à perfeição, por exemplo. Alguns grupos protestantes o desenvolveram mais. Acreditam que há um número reduzido de
'escolhidos' predestinados que irão ao céu e que o resto da Humanidade está condenado. Este é um ponto de vista que foi categoricamente rechaçado pela Igreja católica.
Segundo seus ensinos, ninguém pode estar seguro de sua salvação. Mas, não é assim, entretanto, para os membros do Opus. Sua salvação está garantida pelo padre/fundador:
'Quando os anos passarem, não acreditarão o que viram. Parecer-lhes-a que estiveram sonhando. Quantas coisas boas e grandes e maravilhosas verão...! Posso
lhes assegurar que serão fiéis, embora às vezes terão que sofrer. Além disso, prometo-lhes o céu' ('Crônica', 1971/1).
Assim que evita os evidentes perigos da doutrina da predestinação, Escrivá do Balaguer consegue assegurar a seus seguidores que não são simplesmente uma elite
espiritual, a não ser uns escolhidos religiosos. Isto parece escassamente compatível com a doutrina ortodoxa católica.
Por outro lado, nenhum católico poderia negar que a imensa maioria de seres humanos tem que chegar a sua salvação no meio do 'mundo', embora muitos deles
hoje em dia se sentiriam incômodos com a interpretação 'do mundo' tão depreciativa que se encontra em muita devoção tradicional. Em outra parte, é um conceito calvinista,
mais que católico, que recalca tanto o êxito profissional que este êxito chega a ser considerado como um sinal do favor divino. Umas vezes lhes acusam de heterodoxos.
Outras lhes acusam, por exemplo, de cair no engano do pelagianismo acreditando que, com o guia da sabedoria do fundador, podem alcançar a santidade por seus próprios
esforços.
Todas as grandes heresias têm sua origem em uma determinação a persistir em formulações antiquadas, e o maior engano do Opus está em seu constante conservadorismo.
'Estamos entre os mais entregues defensores da noção de que a verdade indiscutível existe. A doutrina não é discutível', disse o padre Rolf Thomas, um membro do
Conselho Geral da organização (O padre Rolf Thomas é citado em Time, 11 de junho de 1984, págs. 74-75).
O Opus ficou onde estava no início dos anos quarenta, e isso significa para a teologia católica, intelectualmente, nos primeiros anos do século, quando Pio
X lançava seu encarniçado ataque contra o saber histórico aplicado às ciências religiosas. Antonio Fontes ensina História Sagrada na Universidade de Navarra. Em
1987 a 'Four Courts Press' de Dublín publicou seu 'Guide to the Bible' ('Guia da Bíblia'), um trabalho muito notável. Nele sustenta a opinião de que Moisés escreveu
os primeiros cinco livros da Bíblia e que o autor do Livro de Isaías é um só indivíduo. Ao fazê-lo menciona a autoridade das declarações do Vaticano da primeira
década deste século. Estas opiniões, e muitas outras em seu 'Guia', contradizem, categoricamente, a douta opinião tanto de dentro da Igreja católica, como de fora
dela. Muito freqüentemente sobre a autoria das cartas de Paulo, por exemplo, Fontes nem sequer permite a seus leitores que saibam das opiniões distintas, a sua própria,
são amplamente mantidas. Esta é a tendência intelectual do catolicismo da primeira metade do século XX, totalmente convencido de que só ele possuía a verdade, sem
lhe importar quão grotesca era sua linha oficial.
A Igreja católica caminha, e o tem feito depressa, especialmente, depois do Vaticano II, que tanto desagradava ao Escrivá. Não obstante, o Opus, no traje
de seus clérigos, no estilo de adoração em suas capelas, em seu assessoramento espiritual obrigado por uma regra, ou no ensino de suas faculdades teológicas e, aparentemente,
em seus departamentos de História Sagrada, é um anacronismo. Não há razão para duvidar da sinceridade da crença de seus membros de que eles guardam a fé verdadeira.
A ampla maioria dos restantes oitocentos e cinqüenta milhões de membros da Igreja pertencem a uma ortodoxia bastante distinta.
O fundador do cristianismo advertiu que: 'Todo reino dividido será desolado e toda cidade ou casa dividida não subsistirá' (Mateo, 12, 25). Uma seita que
se atente a crenças heterodoxas faz isso precisamente: divide à Igreja contra si mesmo. Naturalmente, os membros do Opus negam que eles dividam à Igreja. Sua resposta,
fácil de predizer, como sempre, é alegar a aprovação dos Papas e de muitos bispos. Como este livro apontou, tal apoio hierárquico é difícil de comprovar. Dos Papas
anteriores ao atual dificilmente pode dizer-se que tenham sido entusiastas em seu apoio ao Opus, e por cada bispo que lhes acolhe com beneplácito em sua diocese
está clara que há muitos que, ou não lhes aceitam, ou não estão contentes de lhes encontrar instalados em sua jurisdição quando ocupam suas sedes.
É uma tática comum do Opus apelar à História para silenciar seus críticos, em particular à formação da Companhia de Jesus em meados do século XVI. É certo
que a fundação dos jesuítas esteve acompanhada de controvérsia, um pouco porque decidiu não permitir mais ordens religiosas, entretanto, mais porque a Companhia
constituía uma nova forma de vida dentro da Igreja, como hoje em dia o Opus Dei. Devido à similitude das obras que empreendem e à rapidez de seu crescimento, a comparação
entre o Opus e a Companhia é inevitável. Todavia, em seus primeiros sessenta anos os jesuítas reconheceram quatro Santos, proporcionaram teólogos à Papas e enviado
missionários à Índia, Japão e China para penetrar o mais possível na cultura dos povos que foram evangelizar. Eram, em sua maior parte, homens tolerantes, com abertos
pontos de vista, e foi por essa razão que entraram em conflito com os membros mais tradicionais da Igreja.
No caso do Opus Dei, é exatamente o contrário. É com os liberais que entram em conflito. Como missionários não penetram na cultura dos povos entre os quais
trabalham, mas sim consideram seu trabalho o moldar a cultura de seus neófitos no modelo tradicional de cristianismo que eles mesmos aprenderam. De seus Santos seria
impróprio falar; depois de tudo, demorou-se bastante em canonizar inclusive uma figura tão amplamente popular como Francisco Xavier. Na vida de Escrivá, o Opus apresentou
a causa do 'engenheiro de Deus' (ver pág. 43). Essa foi proposta agora, enquanto, promove-se a canonização de suma importância do mesmo Escrivá do Balaguer.
Se isto acontecesse, apesar dos enormes esforços contra alguns ex-membros do Opus que trabalharam estreitamente com o fundador, seria saudado como um triunfo
para a Obra. Seria considerado por eles como uma pancada nas costas de aprovação final da Igreja sobre a fundação de Escrivá. Não obstante, a canonização em si é
simplesmente uma declaração da Igreja de que a pessoa assim honrada está no céu e é digna de que lhe mostre pública veneração. E de que seus promotores têm a riqueza
necessária para pagar o que é claramente um processo custoso.
O Opus, por outra parte, argumentará que as autoridades do Vaticano não seguiriam adiante com tal empresa se não a apoiassem por completo, porque unicamente
têm presente o bem de toda a Igreja. Isso não é muito convincente, particularmente se for certo que o 'Banco Vaticano', através de sua implicação com o 'Banco Ambrosiano',
proporcionava ajuda econômica a regimes despóticos da América Latina que se dedicavam a perseguir sacerdotes e monjas que trabalhavam com os pobres e os oprimidos.
O escândalo do 'Banco Ambrosiano', o desenvolvimento do Opus e demais organizações igualmente sectárias dentro do catolicismo romano, são evidências de uma Igreja
que hoje está dividida contra si mesmo.
Como disse Maria do Carmen Taipa em agosto de 1984, falando do outro lado de uma mesa cheia de taças de café no 'Barbizon Plaza Hotel', de Nova Iorque: 'dentro
de cem ou de cinqüenta anos a Igreja dirá que nos equivocamos ao aprovar ao Opus Dei.'


IX. A APOTEOSE DO FUNDADOR


Em seu livro 'Cults, New Religions and Religious Creativity' ('Cultos, novas religiões e criatividade religiosa'), Geoffrey Nelson comenta:
'Muitos líderes religiosos atraem muitos seguidores e formam uma organização através da qual suas experiências podem ser transmitidas a gerações futuras,
mas a experiência transmitida deixa de ter poder transformador algum para os indivíduos que a recebem. A organização cresce e chega a dominar as vistas de populações
inteiras, devido ao poder que a 'mensagem' dá aos líderes sacerdotes, sobre as vidas de seus seguidores. O controle que têm estes 'sacerdotes' lhes permite que a
massa do povo questione a autenticidade da 'mensagem', e lhes permite perseguir os que observam que os benefícios do contato com Deus só podem obter-se através da
experiência pessoal'.
Há pouca dúvida sobre o magnetismo pessoal de Escrivá do Balaguer e seu 'carisma', por utilizar esta palavra da qual tanto se abusa. Tampouco, existe dúvida
alguma de que a gente lhe seguia e de que ele proporcionou uma forma de guia espiritual que necessitavam naquele momento. Alguns dos quais deixaram o Opus Dei gostariam
de acreditar que o atalho que tomaram agora é uma traição a sua intuição essencial, que ele nunca quis uma organização secreta, algo sinistra, e extremamente regulamentar
e manipuladora em que se converteu.
Uma nova coleção de aforismos dele, tirados de notas que Escrivá apontou através dos anos em cadernos, foi publicada sob o título de Forja, pareceria provar
o contrário. O Opus se converteu exatamente no que queria seu fundador. O aforismo 466 diz:
'Os inimigos de Deus e de sua Igreja, manipulados pelo ódio incansável do demônio, são implacáveis em suas atividades e organização. 'Com 'exemplar' perseverança
preparam a seus quadros, dirigem escolas, nomeiam líderes e organizam agitadores. De forma clandestina -mas muito efetiva- propagam suas idéias e semeiam, em lares
e lugares de trabalho, uma semente destruidora de qualquer ideologia religiosa' O que será que nós, cristãos, não estivéssemos dispostos a fazer para servir a nosso
Deus, certamente, sempre com a verdade?'
A resposta clara é utilizar os mesmos métodos que 'os inimigos de Deus e de sua Igreja -embora-certamente sempre com a verdade'. Adaptado perfeitamente ao
Opus.
A imagem projetada de Escrivá ia bem, tanto a sua vaidade, como à necessidade de seus seguidores de acreditar que o homem a quem eles seguiam e a organização
a que se uniram eram algo fora do comum. Isto era muito evidente nas visitas de exibição feitas a vários países, especialmente nos últimos anos de sua vida. Reunia-se
a grandes multidões de fiéis em estádios, ou em centros de conferência. Era saudado em todas partes com extasiados aplausos. Falava. As massas respondiam com entusiasmo
e ele se encaminhava ao triunfo seguinte. Suas frases mais banais eram recolhidas e, como se viu com o conselho dado à Vázquez (ver pág. 21), considerava-as como
se fossem de grande sabedoria. Bernal refere-as fielmente e tantas outras mais 'conseguindo pronunciar' que alguém começa a perguntar-se se o fundador era seguido
a todas partes por um discípulo com um gravador. Muitos dos encontros gravavam-se em vídeo para a prosperidade, e colocavam-se, cuidadosamente, aos que faziam perguntas
na audiência para permitir que o fundador desse, na aparência, conselho espiritual espontâneo.
Na extraordinária campanha para apresentar ao Escrivá do Balaguer como a uma figura heróica, Vázquez chama a atenção sobre as honras acadêmicas obtidas. Por
seu conhecimento tanto de leis como de teologia, afirma, Escrivá do Balaguer converteu-se em membro da Pontifícia Academia de Teologia e em Consultor (quer dizer,
conselheiro) da Sagrada Congregação de Seminários e Universidades. Dois anos mais tarde, foi nomeado para a Comissão Pontifícia para a Autêntica Interpretação do
Direito Canônico. Posteriormente, também, converteu-se em Grande Chanceler das Universidades de Navarra e de Piura no Peru.
Entretanto, estes são todos modos de honras, mais que sinais de respeito pelo profundo conhecimento de Escrivá. As duas universidades citadas são, é óbvio,
instituições do mesmo Opus. Por contraste, o enorme volume celebrando o cinqüentenário da fundação do Opus, 'Monsenhor José Maria Escrivá do Balaguer e o Opus Dei',
publicado pela faculdade de Teologia da Universidade de Navarra não tem um só artigo sobre 'Monsenhor Escrivá: teólogo' nem nada parecido, embora, mencionam seus
'ensinos'. O artigo do L. F. Mateo-Seco, 'Obras de Monsenhor Escrivá do Balaguer e estudos sobre o Opus Dei' contém trinta páginas dedicadas às obras e o dobro aos
estudos sobre o Opus Dei. As trinta páginas são, não obstante, muito reveladoras. Seus escritos publicados são poucos, e principalmente espirituais. Entre os 'escritos'
Mateo-Seco inclui entrevistas concedidas, recolhidas e publicadas por seus devotos. 'Escritos eruditos e acadêmicos' consistem em 'La Abadessa das Greves' (primeiro
publicado em 1944, mas logo reproduzido por um editorial do Opus Dei em Madrid uma década depois e muito revisado pelos eruditos do Opus Dei) e conferências, freqüentemente,
em ocasião de receber doutorados honorários ou outorgando-os, em sua capacidade de Grande Chanceler. 'Evidentemente -sublinha Mateo-Seco- Monsenhor Escrivá do Balaguer
empregou seus melhores esforços em tarefas muito distintas, as de escrever monografias sobre histórias, direito ou teologia.' Totalmente evidente.Para compensar
a falta de publicações, os hagiógrafos do Opus Dei se estendem morosamente no número de edições das obras de Escrivá em distintos idiomas. Caminho, por exemplo,
segundo o mesmo artigo, apareceu em trinta e seis edições em espanhol e foi traduzido a não menos de trinta e cinco idiomas, totalizando 189 edições. Alguém se
vê obrigado a perguntar-se por que apareceu em Esperanto, por exemplo? Quem se beneficiou que as traduções em albanês ou amhárico? (Idioma de Etiópia). O 'Santo
Rosário' não foi tão bem, mas Mateo-Seco segue deleitando-se em nos dizer que houve até agora 63 edições em quatorze idiomas distintos, e 'Via Crucis', em 19 edições
em oito idiomas, etc. Não se preocupe com a qualidade, como eles dizem, apalpe a quantidade.
Um dos esforços mais extravagantes para apresentar ao Escrivá do Balaguer como a um homem de grande sabedoria e discernimento é a Bíblia Navarra, da qual
apareceram dois volumes até agora em versão inglesa, naturalmente, em um editorial do Opus, a Four Courts Press no Blackrock, CO. Dublín. A idéia de uma tradução
e comentário à Bíblia 'acessível a um amplo número de leitores', diz o prefácio, foi um 'projeto encomendado [à Universidade da Navarra] pelo zelo apostólico do
fundador da universidade e primeiro Chanceler, Monsenhor Josemaría Escrivá do Balaguer'.
O comentário cita muitas autoridades, mas nenhuma delas um erudito bíblico contemporâneo de uma reputação reconhecida por seus iguais no campo da exegese
bíblica. Em lugar disso há amplas entrevistas do 'Magisterium', o ensino oficial de Papas e concílios, e de escritores cristãos antigos de grande reputação, como
Agustín, João Crisóstomo ou Tomás de Aquino. E de Escrivá. É chamado ao lado destas pessoas talentosas como se fora seu igual. Sem que seja surpreendente, possivelmente,
deve-se dar crédito ao sucessor de Escrivá como cabeça do Opus. Na introdução a 'É Cristo que passa' (45 edições em oito línguas) comenta que em sua exposição das
Escrituras o fundador 'tem descoberto novas luzes, aspectos permanecidos escondidos ao longo dos séculos'.
Embora, espera-se dos membros do Opus, ao menos dos numerários, que sejam instruídos, não é por seu saber pelo que lhes conhece principalmente. E, é obvio,
pela questão da 'filiação sócio-política' do Opus Dei pela qual mais debate houve. A própria classe das crenças políticas de Escrivá não é fácil de definir. Evidentemente,
opôs-se aos republicanos espanhóis nos anos trinta, e abraçou o que chama-se o nacional-catolicismo espanhol. Quando fugiu de Madrid se dirigiu, como se viu, via
a França, aos quartéis das forças nacionais de Franco. Sua organização se identificava com a 'retomada' espiritual que seguiu à derrota dos republicanos em 1939.
Pessoalmente, entretanto, não parece ter sido um seguidor de Franco. Atraía-lhe muito mais a tradição monárquica carlista espanhola que Franco, embora não a aboliu,
adiou-a durante a maior parte do período em que governou a Espanha. O carlismo, que Franco conseguiu integrar na Falange, o único partido permitido enquanto foi
chefe de Estado, encontrava seu maior apoio na região em que cresceu Escrivá do Balaguer. Seus dois pilares eram uma Igreja autoritária em uma monarquia autoritária.
opunha-se à monarquia constitucional e à democracia parlamentarista. Nada escrito pelos admiradores de Escrivá, nem por seus críticos, detém-se, extensamente, sobre
suas inclinações políticas, deixando a parte seu evidente aborrecimento à esquerda, dificilmente surpreendente à luz de sua experiência na Espanha dos anos trinta.
Mas a tradição carlista corresponde muito bem com as chaves que nos deixou em Caminho e em todas partes. A tradição monárquica encaixa também com a busca de um título,
porque os títulos de nobreza têm pouca importância em uma constituição republicana. E também coincide com o gosto pela 'grandeza' que Escrivá do Balaguer ostentou
durante sua vida, apesar de seus protestos de humildade.
Possivelmente, fosse uma reação contra a repentina pobreza em que se viu inundada sua família, mas, tudo o que rodeava ao Escrivá do Balaguer, tinha que ser
de alta qualidade. Isto era certo, não só para o Escrivá pessoalmente, mas também para todos os membros numerários. Sua pobreza não tinha que ser igual a dos membros
das congregações religiosas. Escrivá tinha um interesse muito pessoal na escolha do mobiliário e dos acessórios. Para ele, só o melhor era suficiente. Sua capela
privada na sede do Opus em Roma no Viale Bruno Buozzi, estava ricamente decorada, inclusive com opulência. Mostrava-a com orgulho aos visitantes importantes.
Estava constante e meticulosamente preocupado com detalhes de decoração. Giuseppe Corigliano, um porta-voz do Opus em Roma, contou a John Thavis do 'National
Catholic News Service' que recordava uma vez que um pequeno canhão decorativo estava 'mal colocado' em um centro do Opus Dei. 'Muitos membros tinham passado por
ali e, ou não se deram conta, ou não o arrumaram -disse Corigliano-. O fundador chamou os membros e lhes disse que ignorar um detalhe como aquele significava que
não viviam o amor de Deus. Alguns choraram, de tão comovidos.'
Maria do Carmen Taipa comentou que tudo aquilo que Escrivá do Balaguer comia, ou do que comia, tinha que ser de grande qualidade. Os pratos eram da melhor
porcelana, os talheres de prata. Segundo um arcebispo, o qual levaram ali comer em 1965 durante a última sessão do Concílio Vaticano, a baixela era chapada em ouro.
O arcebispo (embora então era só bispo e recém consagrado) é um homem de uma considerável consciência social. Foi impossível conciliar os pratos de ouro com a vida
cristã que ele esperava em um homem de tal distinção na Igreja. Também foi impossível comer aqueles alimentos esquisitamente preparados e perfeitamente servidos.
Freqüentemente, o que chama a atenção não é tanto o bom gosto de Escrivá como sua vulgaridade. Durante uma visita à cidade brasileira de São Paulo (chama
a atenção que nem no Bernal, nem no Vázquez, quando há alguma descrição das viagens do Escrivá ao Terceiro Mundo, que não se mencione a situação deprimida de tantos
milhões de católicos que tentam sobreviver em condições muito duras), em maio de 1974, Escrivá do Balaguer dirigiu-se a habitual multidão, reunida naquela ocasião
no Palácio das Convenções do Anhembi Park. Disse às mulheres ali reunidas:
'Quando vem o marido do trabalho, de seu trabalho, de sua tarefa profissional, que não encontre a ti rabiando, te arrume, ponha-se bonita e, quando passarem
os anos, acerta um poquito mais a fachada, como se faz com as (velhas) casas. Ele lhe agradece isso tanto!'
Nem tampouco está sempre presente seu famoso bom gosto em seu livro mais conhecido, Caminho. A máxima 367, por exemplo, diz:
'O manjar mais delicado e seleto, se o comer um porco (que assim se chama, sem perdão) converte-se, ao mais, em carne de porco! Sejamos anjos para dignificar
as idéias, ao assimilar. Quando menos, sejamos homens: para converter os alimentos, sequer, em músculos nobres e belos, ou possivelmente, em cérebro potente... capaz
de entender e adorar a Deus. Mas... não sejamos bestas, como tantos e tantos!'
Esta, diria eu, dificilmente é a linguagem ou a sensibilidade de um professor da vida espiritual. Assim é, entretanto, como os membros do Opus desejam lhe
retratar.
O processo de fazer de Escrivá do Balaguer um santo tinha começado muito antes de sua morte: era algo ante o que ele fazia vista grossa. Os defeitos que tinha
não eram nada fora do corrente, mas eram dificilmente compatíveis com o grau de santidade necessários para a canonização. Por exemplo, era claramente presumido.
Era vaidoso em sua aparência, sempre vestido com muito esmero. Era vaidoso de seus antecedentes familiares. Sua mãe era uma singela mulher de classe média do Barbastro.
Os retratos que ele mandou fazer a apresentavam esplendidamente vestida e, segundo quem a conheceu, estavam totalmente em desacordo com seu caráter. Ele mesmo, levou
durante um tempo um solideo, segundo Bernal, para compensar sua jovem aparência e para dar um aspecto mais adequado, a seus próprios olhos, a sua dignidade como
fundador de uma organização muito importante dentro da Igreja.
Havia algo mais que um toque de vaidade na forma em que se mantinha distante. Embora em seus primeiros tempos em Madrid escolheu aos jesuítas como diretores
espirituais, mais tarde se voltaria contra eles. Quando Pedro Arrupe foi eleito General da Companhia de Jesus escreveu aos diretores de todas as ordens e congregações
religiosas de Roma lhes dizendo que gostaria de lhes fazer uma visita fraterna. A resposta cortês de todos, menos a gente, foi a mesma: eram eles quem deveria lhe
visitar. O único chefe de uma organização religiosa que não respondeu foi Escrivá, como cabeça do Opus Dei. afirma-se que Arrupe lhe telefonou cinco vezes. Disse-lhe
que Escrivá do Balaguer não estava em casa. Segundo uma versão da história, quando finalmente se encontraram os dois para almoçar, a conversação foi quase inexistente,
embora não por falta de que o padre Arrupe o tentasse.
Em Bogotá um jesuíta espanhol explicou uma história similar. Embora ele se uniu à Companhia, o resto de seus irmãos estavam mais estreitamente relacionados
com o Opus Dei que com os jesuítas. Uma irmã e o cunhado visitaram Roma. Devido a sua grande vinculação com o Opus na Colômbia solicitaram, e lhes concedeu rapidamente,
uma entrevista com o Escrivá do Balaguer. Recebeu-lhes com considerável cordialidade. O irmão jesuíta acertou um encontro de sua irmã e seu marido com o padre Arrupe
para o dia seguinte. Enquanto esperavam falar com Arrupe, o jesuíta residente em Bogotá ficou conversando com o secretário de Arrupe, um sacerdote jesuíta. comentou-se
que no dia anterior os três tiveram um encontro com Escrivá. O secretário expressou sua surpresa. O padre Arrupe, disse-lhes, tinha esperado três anos para que lhe
concedesse tal entrevista.
A inacessibilidade do fundador era parte do jogo, parte do mito que cuidadosa e conscientemente se começava a construir a seu redor. Era um homem importante
e ocupado.
Não se espera de um professor da vida espiritual que prepare sua própria canonização. No Barbastro o Opus adquiriu a casa em que Escrivá nasceu, junto com
uma propriedade fronteiriço, como uma espécie de santuário. Fizeram-se cargo do santuário da Virgem Maria de Torreciudad, onde Escrivá do Balaguer foi 'curado' em
1904. reuniu-se o dinheiro por meio de uma série de chamadas fomentadas pelo Escrivá para que o santuário fosse aumentado. Agora tem uma esplanada capaz de dar capacidade
a 40.000 peregrinos, uma torre com treze sinos, todas com nomes de invocação da Virgem Maria (uma das maiores se chama Dolores, uma das menores Carmen). Há uma cripta
com quarenta confessionários e outros vários adornos totalmente desconjurado no singelo santuário que tinha sido antigamente, quando Escrivá foi levado ali por sua
mãe. A direção espiritual do lugar estava, e está, em mãos do Opus. Está sendo promovido por eles como um dos santuários de uma 'rota Mariana' que inclui o grande
santuário de Lourdes e o antigo santuário nacional da Espanha, o Pilar. Promovem viagem ao mesmo de um escritório em Lourdes.
No Torreciudad, o típico modo do Opus, os sacerdotes oferecem confissões. Desta 'pesca' de clientela informou um distinto sacerdote católico inglês, que vestia
informalmente naquela ocasião e que não era reconhecível como sacerdote. Enquanto visitava Torreciudad desde Lourdes aproximou um sacerdote do Opus na cripta do
santuário e perguntou se queria confessar-se.
Mas, não é só o lugar de nascimento de Escrivá, nem o santuário no qual foi curado os que recebem esta classe de tratamento. Objetos que lhe pertenceram foram
recolhidos e exibidos. Inclusive a pilha batismal em que foi batizado Escrivá do Balaguer foi tirada da catedral do Barbastro e reconstruída em Roma. Foi destruída
no transcurso da guerra civil espanhola; o que Escrivá recebeu da prefeitura do Barbastro foram os fragmentos da pilha, que ele transladou a Roma e fez reconstruir
ali.
Os restos mortais de seus pais foram transladados por sua ordem de um cemitério de Madrid à cripta que há sob a residência do Opus em Diego de Lion, em Madrid.
Deu ordens para ser enterrado em uma cripta, a do oratório dedicado à Virgem Maria na residência principal de Roma. Ele escolheu a inscrição para sua lápide:

PECCATOR LOUCO PRÓ o EO GENUIT FILIOS ET FICHA

(Um pecador. Roguem por ele. Teve filhos e filhas) Nisto, entretanto, não conseguiu fazer o que queria. A laje de mármore que cobre seus restos mortais diz
simplesmente 'O Padre.' Sempre há flores frescas sobre sua tumba. Seus devotos se congregam ali. Encontram-se rezando de dia e de noite: é o único lugar onde os
homens e mulheres do Opus Dei é permitido reunir-se.
'me tenham ali por um tempo, e logo me enviem a uma igreja pública, porque não quero lhes incomodar', ouviu-lhe dizer Maria do Carmen Taipa. Transladar uma
tumba a uma igreja pública é uma clara evidência de um 'cultus' ou devoção.
Apesar de tudo isto, Escrivá afirmava repetidamente ser um homem humilde. Adorava chamar-se a si mesmo 'burrito sarnento' (assinava como 'b.s.' - burrito
sarnento nas cartas a seu confessor em seus primeiros anos em Madrid). Tanto, em realidade, que colecionava modelos de burros; a sede do Opus em Roma estava cheia
deles. Quando um admirador lhe pedia um retrato, Escrivá lhe dava uma figura de um burro, grosseiramente moldado em metal. 'Aí tem -dizia- meu retrato. Isso sou
eu, um borriquillo. Oxalá seja sempre borriquillo de Deus, instrumento sua de carga e de paz.' Entretanto, danificou esta exibição de humildade deixando que soubessem,
enquanto orava, disse uma vez: 'Aqui tem a seu burrito sarnento' e que tinha recebido a resposta do alto: 'Um burrico foi meu trono em Jerusalém'.
As visões são freqüentes entre os Santos. Entretanto, além da história da fundação do Opus contada anteriormente, estas palavras são o único exemplo mencionado
pelos hagiógrafos, apesar de toda sua devoção, de uma intervenção sobrenatural direta na vida do Escrivá. Por outra parte, rumores de que tinha visões, especialmente
da Virgem Maria, eram e são correntes dentro do Opus.
Era, finalmente, alguém que tinha um sentido particular de sua própria dignidade. 'Em minha vida -cita em Crônica-, já conheci vários Papas, muitos cardeais
e multidão de bispos. Mas, por outro lado, fundadores do Opus Dei, só há uno!'
Tal, pois, é o homem cuja santidade de vida e ortodoxia de doutrinas estão agora sendo formalmente julgadas no Vaticano. A Congregação romana para as Causas
dos Santos, que controla estas coisas, deu permissão para iniciar o processo que levaria a beatificação e à subseqüente canonização de Monsenhor Escrivá do Balaguer
em 30 de junho de 1981. Os porta-vozes do Opus Dei informam que está indo depressa: a primeira etapa concluiu formalmente em novembro de 1986. O Opus acredita que
tem testemunhos suficientes para os dois milagres que se requerem para completar um processo de canonização. Uma monja carmelita espanhola e uma garota peruana afirmam
ter sido curadas de câncer pela intercessão celestial do Escrivá. 'Está no saco!', diz o Opus (Nicholas Perry, 'Unliberation Theology', New Statesman, 1 de março
de 1985).
A canonização de Monsenhor Escrivá do Balaguer é muito importante para a organização que ele fundou. Embora a concessão da prelatura pessoal foi um claro
sinal do favor papal, o reconhecimento de Sua Santidade seria o selo de aprovação final da Igreja tanto do ensino do Opus como da de seu fundador como guia seguro
para as almas. Embora o Opus anualmente assinala o dia da morte do Escrivá com missas públicas bem divulgadas, a veneração por ele chegou, escassamente, além das
filas dos fiéis do Opus. 'Se o Papa declarar santo Escrivá do Balaguer -disse o arcebispo mencionado anteriormente (pág. 207)- aceitarei-o como uma decisão da Igreja,
mas nunca o poderei entender.'
Dado o poder e a riqueza do Opus Dei, a canonização de seu fundador parece inevitável. John Roche e outros ex-membros encabeçaram uma campanha para arruinar
o processo, mas tiveram pouca sorte: Escrivá tem amigos na corte. Estas negociações, não obstante, levam tempo; não importa que o Opus através de sua influência
consiga avançar rapidamente o processo. Possivelmente, o arcebispo não aceite a idéia de São Josemaría Escrivá do Balaguer durante sua vida.
Na Igreja católica em geral, entretanto, penso que alcançaram o apogeu das fortunas do Opus, e que até passou. Embora, em número seja o mais numeroso grupo
de conservadores dentro da Igreja, já não é o mais influente. Essa posição adquiriu a fundação italiana 'Communione e Liberazione', cuja Constituição é muito mais
declaradamente ativista.
Talvez as simpatias do Papa, supostamente conservador, voltem-se contra a organização a qual deu este, ainda único, estatuto de prelatura pessoal. Em sua
carta sobre 'As preocupações sociais da Igreja' publicada em fevereiro de 1988, Papa João Paulo II mostrou-se muito mais, favoravelmente, disposto que até agora
para os defensores da teologia da libertação, a doutrina a qual o Opus se oposto tão constantemente em nome da ortodoxia.
É, acredito firmemente, um princípio básico do cristianismo, que a fé em Jesus Cristo seja uma força libertadora na vida das pessoas; liberando-as para que
cheguem a ser mais elas mesmas; encarregadas de seus próprios destinos. O Opus com suas regras e normas, sua censura, seu controle da minúcia da vida do dia a dia
de seus membros, suas estruturas relacionadas com as classes, sua associação com as elites da riqueza e do poder, como tentei descrever neste livro, não poderia
alegar ser uma força para a libertação. E como não supera esta prova, como seita, não é simplesmente, menos que católica.
É menos que cristã.


COMENTÁRIO DO AUTOR SOBRE A BIBLIOGRAFIA


A bibliografia contém livros e artigos, incluindo os artigos dos jornais mais importantes, consultados para a preparação deste livro. Acrescentei alguns mais,
que não pude consultar, assinalados com um asterisco, todavia, acredito que vale a pena recomendar atenção daqueles que desejem ampliar o tema. Omiti vários artigos
sobre prelaturas pessoais, auspiciados pelo Opus, que não acrescentam nada significativo aos que se incluem a seguir. É obvio, houve uma série de notas breves de
inestimável valor, especialmente, no seminário madrilenho 'Vida Nova' e na agência de notícias 'Kalotische Nachrichten Agentur' (K.N.A.). Tampouco faço menção especial
aos livros de referência; destes, o 'Dizionario di Istituti di Perfezione' foi consultado com muita freqüência.
ARIS, Stephen. How lhes Mate Rose and Fell: the End of ao Reign in Spain, 'Sunday Time', 24 abril 1983.
AROCA, Santiago. Três artigos, Tempo, 4, 11 e 18 agosto 1986.
ARTIGUES, Daniel 'O Opus Dei na Espanha: sua evolução ideológica e Política'. Paris, Arena Ibérico, 1971.
BALTHASAR, Hans Urs von. 'Integralismus', Wort und Wahrheit, dezembro 1963.
- Friedliche Frage an dá Opus Dei', 'Der Christliche Sonntag', 12 abril 1964
- Entrevista na televisão Suíça, reproduzida no Trenti Giorni', junho 1984
BARKER, Eileen. Free to Choose? Sorne Thoughts on the Unification Church and Other Religious Movements: I and II', 'The Clergy Review', outubro e novembro
1980.
-'Doing Love: Tensions in the Ideal Family', Gene G. James (ed.), The Family and the Unification of Sharon Press, 1983.
-The Limits of Displacement: Two Discipline Pasta Each Other', David Martin, John Urine Milis, e W. 5. F. Pickering (eds.). Sociology and Theology: Alliance
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BELINGARDI, Giovanni. 'L'Opus Dei é potente MA o deve ao Céu' (entrevista com o Alvaro do Postigo), Correr della Sera, 7 dezembro 1985.
BERNAL, Salvador. Msgr Josemaría Escrivá do Balaguer, Profile of the Founder of Opus Dei. Londres, Scepter. 1977.
BERNÁLDEZ, José María. 'O caso Rumasa salpica ao Vaticano e ao Opus', Tempo, 1 agosto 1983.
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BYRNE, Frank e Willie KEALY. 'Inside Opus Dei', Sunday lndependent, Dublín, 16 agosto 1987.
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Adendo à edição espanhola:
A ESTRUTURA OCULTA DO OPUS DEI NA Espanha

por Santiago Aroca


Às 5.30 horas da manhã de cada dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada abotoa uma impecavelmente limpa batina. É Tomás um homem muito preocupado pela limpeza,
desgosta-lhe encontrar uma bolinha de pó em seu caminho matutino para o salão onde se faz servir o café da manhã, sempre frugal e interrompido pelas badaladas das
seis, quando chega a primeira missa.
Entra em seu escritório às sete em ponto da manhã e não sairá dali até entrada a noite, uma rotina que só se interrompe quando seus secretários organizam
alguma viagem para visitar uma casa da Obra, algo que em seu foro interno desgosta Tomás Gutiérrez de La Calzada, embora entenda a imperiosa necessidade de manter
freqüentes contatos com 'os filhos', sobretudo nos últimos anos quando se prodigalizam os ataques dos inimigos da Santa instituição.
A vida de Tomás Gutiérrez de La Calzada, transcorre com poucos sobressaltos desde que em uma fria manhã outonal de 1982 chegasse a ordem de Roma: designado
'Concílio' do Opus Dei na Espanha. Esse dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada, sucessor no cargo de Florencio Sánchez Bella, irmão daquele famoso ministro franquista
que impôs o fechamento do jornal 'Madrid', passou a reger na Espanha os destinos do Opus Dei.
É Tomás Gutiérrez um homem afável, grande conversador e convencido de que está à frente do grupo de homens mais seletos e disciplinados da Espanha. Esse homem,
que em 10 de março de 1989 fez 60 anos, realizou uma longa carreira para abrir caminho na vida.
Nascido em Valladolid, filho de um modesto agricultor perdeu a sua mãe, Visitação, a muito temprana idade. Internado em um colégio religioso, Tomás Gutiérrez
de La Calzada sempre desenvolveu sua vida entre batinas, com a exceção do breve período de tempo que passou em Fuentelarreina (Zamora), para cumprir o serviço militar
e de onde saiu com a estrela de alferes.
Licenciado em Direito, nunca exerceu a advocacia e só utilizou os conhecimentos adquiridos na Universidade de Valladolid para avançar pelo campo do Direito
Canônico, o que lhe acabou convertendo em diretor do Colégio Romano do Opus. Ali, em contato direto com as altas hierarquias da Obra, ficou conhecido como bom organizador,
um eficaz burocrata que despreza a publicidade e admira o trabalho calado. 'Sempre o espetáculo! Pede-me fotografias, gráficos, estatísticas', escreveu Josemaría
Escrivá do Balaguer em Caminho, em uma sentença gravada no mais fundo da alma de Tomás Gutiérrez de La Calzada. Este homem que desde muito jovem oficiou de coroinha
no colégio do Valladolid, dirigiu na década de 80 um exército invisível, formado pelos 12.000 membros da Obra na Espanha.
O quartel general deste exército, o lugar onde vive Tomás Gutiérrez de La Calzada, está convocado na madrilenha Rua de Diego di Lion, número 14. Ali, situado
em um solar com forma de triângulo de 972,58 metros, levanta-se um edifício com dez andar e 7.967 metros quadrados construídos, de onde se dirige toda a estrutura
da Obra. O projeto foi realizado em 1964 pelos arquitetos Jesus Alberto Cajigal e Javier Cotelo, com um custo declarado de 20.651.648 pesetas.
Depois dos compactos muros de concreto, o quartel general tem dois pontos nevrálgicos, o mais importante está no segundo porão, a quinze ou vinte metros sob
o nível da rua. Trata-se da cripta onde estão guardados os restos mortais dos pais de Josemaría Escrivá do Balaguer, José e Dolores, uma mulher incorporada à história
da Obra como a inventora dos 'crispillos', uns doces a base de açúcar e espinafres que os membros da instituição tomam em ocasiões especiais.
Nas cercanias da cripta, encontra-se a capela na qual toda manhã do ano, às seis em ponto, Tomás Gutiérrez de La Calzada, reza missa para os varões que com
ele compartilham o privilégio de viver no quartel general da Obra.
O segundo ponto importante do edifício está no quarto andar, onde Tomás Gutiérrez di La Calzada, tem seu escritório do Concílio' e está a sala de reuniões,
em que três vezes por semana, às oito da manhã, celebra seus encontros com o governo na sombra da Obra, a Comissão Regional para a Espanha.
Está acostumado chegar ao Concílio, a sala de reuniões detrás, ler a correspondência importante, sobretudo a que de Roma lhe traz em mão o enlace -'misus'
na linguagem oficial- Ramón Herrando. Gosta do Concílio de concentrar-se na leitura das missivas, especialmente quando a valise contém a revista 'Romana', uma publicação
de 200 páginas, impressas em um papel amarelado e redigida em latim. É 'Romana' uma espécie de 'Quem é quem' na Obra, com detalhada explicação das altas e baixas
e um minucioso detalhe dos quais subiram a responsabilidades importantes, ou em quais nações vão se desenvolver campanhas especiais para rebater a sempre presente
difamação do inimigo.
Tem a sala de reuniões um escasso mobiliário e entre as cadeiras, sempre perfeitamente alinhadas em torno de uma grande mesa, destaca a ciclópea presencia
de uma caixa forte embutida na parede, onde se guardam as atas das reuniões de Comissão Regional e uma cópia de todas as comunicações intercentros.
O máximo organismo de direção do Opus na Espanha sofreu muito poucas mudanças durante a década dos 80. Em torno da mesa circular, com um rosário e um copo
de água ao alcance da mão, sentam-se os destacados membros da Comissão Regional, do lado esquerdo, a direita de Tomás Gutiérrez di La Calzada por ordem de importância.
À direita de Tomás Gutiérrez de La Calzada, ocupa assento o segundo homem em importância: José Luis Añón, formalmente o 'sacerdote secretário'. Em realidade,
trata-se de uma espécie de vice-presidente da Obra, um termo que, possivelmente, não se usa para ressaltar o caráter fortemente caudilho da organização, pois no
Opus só há um responsável, Alvaro do Postigo, em Roma, que delega autoridade nos 'conciliários ' regionais.
A principal função de José Luis Añón é servir de enlace com a hierarquia da Igreja Católica, para informar das atividades da Obra. Não é esta uma tarefa fácil,
pois, com freqüência, os bispos querem saber mais do que o Opus considera conveniente contar, originando atritos.
Paralelamente, José Luis Añón é o único membro da direção da Obra autorizado a ter um contato permanente com o outro sexo, em sua qualidade de responsável
pela seção feminina da instituição. Na Espanha está composta por 1.500 damas, com funções auxiliares em relação aos varões, pois, na prática, dedicam-se a limpar
e cozinhar nas residências. Como quer, no Opus, a convivência entre os sexos está estritamente diferenciada, até o ponto de que o quartel general de Diego di Lion
conta com uma entrada para varões e outra para mulheres, José Luis Añón tem às vezes ingrata tarefa de velar pela separação e fortalecer a militância religiosa das
senhoras.
Em atenção a sua importância, o seguinte cargo é o Diretor Espiritual, também desempenhado por um sacerdote, Juan Vera Campos. Sua tarefa é a de velar pela
pureza da doutrina e nesta função é assistido pelo valioso Departamento de Estudos Bibliográficos, a frente está o ex-magistrado e professor da Universidade da Navarra
Carmelo do Diego.
Função múltipla a deste organismo, porque por um lado escreve, constantemente, a história da Obra e por outro guia o espírito intelectual dos membros. Em
sua primeira faceta tem que revisar os textos da Obra para evitar que apareçam referências a um grande número de ex-diretores, que abandonaram a instituição e não
regulam suas críticas. Miguel Fisac, Antonio Pérez Tenesa, Alberto Moncada ou Raimundo Pániker, só por citar a um reduzido grupo dos que entregaram seus entusiasmos
e saíram exaustos.
Também deste departamento sai semana após outra uma nota, encabeçada com a frase 'de leitura obrigatória em todos os centros' indica os filmes, livros, revistas
e espetáculos teatrais aos quais podem ou não ter acesso os membros. Como é sabido, os filiados à Obra têm uma margem de entretenimento intelectual um tanto estreito,
não só porque os censores aplicam critérios morais restritos, mas, porque estes revistam procedendo uma famosa máxima de Josemaría Escrivá do Balaguer, que deixou
bem clara a necessidade de 'cuidar a vista, a revista e a entrevista'. O que é interpretado como necessária proibição de tudo aquilo que faça duvidar da fé.
Neste sentido, os listrados emitidos pela censura partem do princípio de que nem todos os sócios têm a mesma fortaleza espiritual, por isso, adverte que a
leitura de alguns textos pode ser autorizada aos diretores da Obra, nesse caso junto ao título aparecem dois círculos; três significa que em nenhum caso pode ler-se.
Em torno da mesa na sala de reuniões sentam-se outras três pessoas com curiosos títulos, os vocais de San Miguel, São Gabriel e São Rafael. Estes postos ocupados
pelo Miguel Angel Montijano, Alejandro Cantero e Rafael Solís, respectivamente.
O primeiro deles é um cordato de cinqüenta anos, licenciado em Ciências Físicas, que se ocupa do cuidado espiritual da nata da organização: os 'numerários'.
O segundo, Alijandro Candero, um galego nascido em Lugo e licenciado em medicina, encarrega-se da direção dos 'super numerários'. Enquanto que o último, o também
cordato Rafael Solís, ocupa-se de organizar a captação, de atrair sangue novo para que a organização não morra.
E não só é necessário atrair mais membros, também a fé necessita de enormes recursos. Nessa mesa circular a pessoa sentada a maior distância de Tomás Gutiérrez
de La Calzada é, possivelmente, a que mais poder material tem de todas ali reunidas, trata-se de Francisco Montuenga Aguayo, o administrador geral do patrimônio
da Obra.
Nascido em Barcelona em 1924, filho de uns humildes emigrantes, Francisco Montuenga se incorporou à Obra nos anos sessenta. Economista de profissão, incorporou-se
ao projeto da Universidade de Navarra -o centro modelo da Obra- como assessor financeiro, logo se converteu em administrador geral da universidade e dali saltou
a gerente de todos os bens da Obra na Espanha.
Alegam os mais fiéis seguidores da Obra que a Instituição é pobre, carente de bens. O primeiro é incorreto enquanto que o segundo é absolutamente certo.
Isso não quer dizer que Montuenga careça de trabalho, justamente o contrário. Sua principal tarefa é, precisamente, dissimular os bens da Obra.
O Opus Dei, com seu próprio nome, não possui nada, nem um telefone em todo o planeta. Aparentemente, nem a sede central do Diego de Lion, nem o centro de
peregrinação Torreciudad (Huesca), pertencem ao Opus Dei, a não ser uma confusa trama de sociedades anônimas.
O esquema o inventou o próprio Escrivá do Balaguer, quando pouco depois de criar o Opus Dei em 1928 pôs em pé a 'Academia D e A', siglas que aparentemente
significavam 'Direito e Arquitetura', as carreiras favoritas do 'fundador', mas, que na linguagem secreta da Obra significavam 'Deus e Audácia'.
No final dos anos 80, a trama financeira da Obra alcançava 1.500 empresas e sociedades, a maior parte delas ignorantes de que seus benefícios servem para
fortalecer o Opus Dei.
O desenho perfilado por Francisco Montuenga ao longo dos anos poderia ser representado como um conjunto de pirâmides, cujos vértices não se tocam e irradiam
poder para a base. Assim, boa parte do patrimônio imobiliário da Obra em Madrid, avaliado por peritos em 1989 em 30 milhões de pesetas, é dirigido pela 'Companhia
Mercantil Imobiliária Moncloa, S. A.', proprietária, por exemplo, do quartel general de Diego de Lion, e cujos acionistas são pessoas desconhecidas e sem cargos
na direção da Instituição. Além disso, seria errôneo ligar os dirigentes da Obra à propriedade do edifício em Diego de Lion, porque podem alegar com razão, que o
imóvel está arrendado por outra sociedade 'Colégio Maior da Moncloa, S. A.', e que, afinal eles são fiéis empregados desta instituição acadêmica, encarregados só
de orientar jovens estudantes.
Na prática, as coisas são diferentes: a imobiliária e o colégio universitário são o mesmo, Opus Dei. trata-se de uma ficção jurídica que lhes permite efetuar
discursos sobre o ascetismo da Instituição. Finalmente, argumentam que sua pobreza é tal que só são inquilinos temporários de um grupo de edifícios.
Foi necessário esperar a década de 80 para conhecer os mecanismos financeiros da Obra, postos de manifesto pela constante saída de membros importantes que
abandonaram a Instituição. Entre eles, estava, com a categoria de 'super numerário', o banqueiro José Maria Ruiz Mateos, quem assegura que o Opus Dei move ao ano,
só na Espanha, 30 milhões de pesetas. Uma parte considerável deste dinheiro procede das contribuições efetuadas pelos sócios e o resto são benefícios de operações
mercantis ou financeiras. Além disso, a Obra realiza coletas especiais para campanhas concretas, recebe de forma indireta subvenção do Estado e obriga seus sócios
'numerários' a que assinem um testamento deixando seus bens à Instituição.
'Entreguei à obra 3.000 milhões de pesetas', assegura José Maria Ruiz Mateos, que avalia sua afirmação com as fotocópias das transferências. Através desses
documentos se pode descobrir o procedimento utilizado pela Obra, que consiste em girar o dinheiro fora da Espanha, geralmente a Suíça, onde recebe uma sociedade
fantasma denominada 'River-Invest'. O dinheiro fica depositado na União de Bancos Suíços, até que o administrador geral decide utilizá-lo com o melhor fim.
Se os recursos estão destinados a investimentos na Espanha, 'River-Invest' desvia o dinheiro na forma de créditos concedidos a alguma das sociedades de fachada,
como seriam 'Fomento de Centros de Ensino, S. A.', 'Estudo Geral de Navarra, S. A.' (proprietária do campus universitário na Pamplona), ou 'Imobiliária Urbana da
Moncloa, S. A.'. dali os recursos passariam a outras sociedades, dedicadas a satisfazer necessidades da Obra ou puros investimentos para obter benefícios.
Na cripta linguagem do Opus Dei, as primeiras são chamadas 'Obras Corporativas' e Montuenga as tem subdivididas em três áreas de atividades: imobiliárias,
editoriais, centros educativos.
Caracterizam-se porque a totalidade das ações está em mãos de sócios 'numerários', escolhidos entre o grupo dos mais fiéis seguidores da Instituição. Assim,
por exemplo, os terrenos sobre os quais se assenta Torreciudad pertencem a um conjunto de imobiliárias ('Companhia Imobiliária A Escora, S. A.', 'Artesona, S. A.',
'Imobiliária O Povoado do Grau, S. A.' e 'Companhia Imobiliária O Tozal do Grau'), todas elas coordenadas durante bastante tempo por Luis Montuenga Aguayo, irmão
do administrador geral da Obra.
O ensino sempre foi um terreno natural de trabalho para o Opus Dei. Durante as décadas de 50 e 60, nutria-se, principalmente, de estudantes universitários,
mas a resposta que seguiu nos 70 aconselhou variar a estratégia. A Obra concentrou-se em colégios para meninos, nos quais os trabalhos de captação são mais fáceis.
Em 1989, controlava um total de 29 centros, convocados nos maiores núcleos urbanos do país. O mais famoso de todos eles, o colégio Retamar em Madrid, reproduz à
perfeição o esquema de trabalho empresarial do Opus: o edifício pertence a uma imobiliária -'Retamar, S. A.'- mas supostamente está alugado a uma sociedade -'Fomento
do Ensino, S. A.'- que reparte a docência.
Por último, no terreno das 'Obras Corporativas' estão editoriais como 'Scriptor, S. A.' controlam as edições de Caminho, publicam seminários como Telva, Palavra
ou Mundo Cristão e editam milhões de folhetos relatando os milagres do Escrivá do Balaguer, elemento muito importante na hora de obter a santificação do fundador.
Junto destas 'Obras Corporativas' estão as chamadas 'Obras Auxiliares', sociedades onde o Opus coloca seus recursos para obter benefícios, a difusão de seus
princípios ou a captação de novos militantes.
As 'Obras Auxiliares' foram as quais deram mais trabalho, produzidas por Francisco Montuenga, quem anos atrás tomou a decisão de centralizar os investimentos
especulativos na sociedade 'Urdefondo, S. A.', uma desconhecida companhia mercantil presidida por Abelardo Alonso do Porres, ex-diretor geral do 'Banco Latino' quando
a entidade estava dentro do grupo 'Rumasa', e conselheiro de 'Rialp', editorial mais conhecido do Opus.
Evitar os investimentos errôneos, como ocorreu recentemente na Itália, onde a Obra estava financiando a companhia química produtora do popular anticoncepcional
'Lutolo', é uma das ordens fielmente seguidas pelo 'Urdefondo'. A outra é rodear-se dos investidores mais seguros, o que inclui aproximá-lo menos possível das instituições
bancárias ligadas à Obra, como o 'Banco Popular'. Não em vão esta instituição, cujo conselho de administração está em mãos de sócios 'numerários', é generosa com
a esquerda: cobre o possível as dívidas do Partido Comunista, inclusive administra os descobertos de 'Mundo Operário', e é muito receptiva às petições de crédito
do PSOE.
Apesar da indubitável crise sofrida nos 80, a Obra foi capaz de preservar uma extraordinária rede de contatos nas instituições financeiras, que vão desde
sua presença em dois importantes meios de comunicação relacionados com as finanças, como o diário 'Expansão' e o seminário 'Atualidade Econômica'; até manter conselheiros
afins nos Bancos ' Bilbao-Vizcaya', 'Hispano-Americano', ' Confederação Espanhola das Caixas de Economias' e 200 sociedades mais. Homens chave da Obra, como José
Maria Aristraín Noam, Emilio Ibarra e Churruca, Alberto Ullastres, Luis María Rodríguez da Fonte, Aristóbulo de Juan e José Joaquín Sancho Dronda, entre outros ilustres
sobrenomes, foram capazes de defender os interesses terrestres da Instituição durante a década dos 80.
Controlar um conjunto industrial com tantas ramificações é difícil e com freqüência salta o escândalo. Anos atrás Gregorio Ortega Pardo, 'numerário' de toda
confiança, recebeu de mãos do Rafael Valls o encargo de abrir um Banco e estender os ensinos do Escrivá do Balaguer em Lisboa. Durante uns anos dedicou a ambas as
tarefas com esmero, até que um bom dia subiu a um avião e desapareceu na Venezuela com 50 milhões de pesetas que não eram deles. Recentemente, outros diretores do
Opus foram assinalados como generosos no gasto de recursos que não lhes pertenciam, embora muitos deles, como ocorre no caso do financista José Víctor do Francisco
Graça, negaram tudo de forma terminante e explicado que são objeto de uma campanha de calúnias.
Estes incidentes e o mais grave de Ruiz Mateos aconselharam reforçar os sistemas de controle interno. Desde 1970, todos os sócios do Opus em cujo poder obram
ações compradas com recursos que não são seus estão obrigados a assinar uma carta de compra-e venda sem data, que entregam ao próprio Francisco Montuenga. Desta
forma ninguém apropria-se de propriedade que não lhe pertence. Claro que este sistema também tem seus problemas, não serve para fiscalizar o correto uso dos lucros
nem evita investimentos arriscados. Para obter este último, o Opus Dei espanhol procura cada vez mais o conselho de peritos financeiros, gestores independentes a
quem expõe a simples questão de 'como podemos investir para ganhar mais'.
Encobre muito a Obra seu poder financeiro não só para esconder-se de possíveis represálias. 'Os jesuítas perderam muitas coisas porque era fácil localizar,
não cometamos esse engano', assinalou Escrivá do Balaguer. Em realidade não se trata só de encobrir-se do poder civil, mas, também, resulta fácil cortejar como demonstra
o 'Banco Popular'. O principal inimigo dos recursos da Obra é a estrutura da Igreja Católica e suas gigantescas necessidades financeiras. Já o assinalou Escrivá
ao dizer: 'As forças que se opõem a nosso caminho estão dentro da igreja.'
É muito difícil que em seu foro interno os dirigentes do Opus Dei esqueçam a dramática decisão da Conferência Episcopal, perguntado pelo Vaticano sobre a
conveniência de transformar à Obra em uma prelatura respondeu negativamente, possivelmente, um pouco assustados com as práticas de fração organizada dentro da Igreja
Católica adotada pelo Opus Dei.
Com João Paulo II as coisas mudaram no Vaticano e os clérigos espanhóis modificaram sua atitude. Dois espanhóis opus-deístas se movem livremente pelos corredores
do poder vaticano, Joaquín Navarro Valls, responsável pelo departamento de Informação, e Eduardo Martínez Somalo, substituto do Secretário de estado. Na Conferência
Episcopal espanhola aprenderam a lição, é necessário levar-se bem com a Obra, algo que Monsenhor Suquía impôs na Igreja espanhola desde 1985.
E tranqüilizada a comunidade religiosa, o Opus se derrubou sobre os uniformizados. Como não podia ser menos em uma Instituição que alcançou seu máximo esplendor
na Espanha do general Franco, o Opus Dei se apaixona pelos uniformes. Inclusive há um grupo de 'numerários' dedicados a cortejar aos militares em ativo. Na década
dos 80, a Obra teve uma fecunda relação com o almirante Liberal Lucini, chefe do Estado Maior da Defesa. Algo que não resulta estranho dado que a Marinha é o setor
das Forças Armadas mais suscetível de sucumbir ante os encantos da Instituição.
Carrero Blanco abriu as portas da Marinha à Obra e um ministro da Marinha, Manuel Baturone Colombo, consolidou o trabalho de penetração, não em vão dois de
seus filhos, Adolfo e Luis, abandonaram a carreira militar para consagrar-se às teias da Obra.
No Exército também contaram com uma considerável presença; dois chefes de Estado Maior, Alvaro Lacalle Leloup e José María Sáenz de Tejada, eram 'super numerários'
da Instituição. No amplo círculo de simpatizantes, destacaram Emilio Alonso Manglano, 'Juanito' no jargão dos espiões que dirige desde seu posto de coordenador geral
o Centro Superior de Investigação da Defesa (CESID).
Entre quem controla a informação reservada, policiais e espiões, o Opus teve uma forte presença no início dos anos 80 que depois perdeu. Inclusive contou
com um colaborador na pessoa de um dos diretores gerais da Polícia na presente década, Rafael do Rio Sendino, o que lhes permitiu colocar a sua gente. Em poucos
meses monopolizaram a Direção da luta anti terrorista, com o delegado Jesus Martínez Torre, e a muito importante brigada de Interior, uma espécie de Polícia política
cuja frente situou-se Alberto Elias.
A presença do Opus Dei na Polícia se revelou vital durante a investigação do 'assunto 'Rumasa', quando um policial, o inspetor Medina, deparou-se com documentos
comprometedores, concretamente, a doação por parte de José Maria Ruiz Mateos de 2.000 milhões de pesetas ao Instituto de Educação e Investigação, uma das sociedades
de fachada da Obra; seus superiores ordenaram-lhe parar a investigação.
Sem dúvida, onde mais terreno perdeu a Obra é no da política. Quando Franco morreu, perderam o governo e logo soltaram quase todas as fibras que tinham conseguido
conservar. Depois das eleições de outubro de 1989, a voz do Opus Dei permanecia representada na Câmara Baixa mediante três vozes, as dos deputados Isabel Tocino
(Cantabria), Andrés Ollero (Granada), e Juan Luis de la Vallina (Asturias). Atrás ficaram os tempos de esplendor, sua infiltração no UCD, sua presença no Partido
Democrático Cristão de Oscar Alzaga, seu assédio ao Partido Liberal, onde contaram com o apoio do vice-presidente Andrés de la Oliva Santos. Inclusive durante um
breve período foram capazes de atrair pessoas que hoje se deslocaram ao campo socialista, como Manuel da Rocha, Ludolfo Paramio e Alfonso Lazo, este último deputado
por Sevilha e secretário pessoal do vice-presidente Alfonso Guerra.
Concentrada em preservar seu poderio financeiro, a Obra recusou os enfrentamentos com o poder socialista na década de 80. Esperar que mudem as circunstâncias
para pressionar de novo, é a ordem que Tomás Gutiérrez de la Calzada impôs entre seus seguidores. Enquanto, aguardam esse momento, Tomás Gutiérrez, o 'Concílio',
acordam todas as manhãs convencidos de que tem atrás de si o melhor exército da Espanha. Sem dúvida, quando se instala em seu escritório, para dar uma olhada em
Livros Contábeis, também, adverte que é o mais rico e isso lhe tranqüiliza muito. Finalmente, todos recordamos ao Bom Samaritano não só porque tinha boa vontade,
mas também porque contava com muito dinheiro. Os pobres não podem fazer obras de caridade.

FIM DO LIVRO

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