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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Índias Negras - Júlio Verne

AS ÍNDIAS NEGRAS

JÚLIO VERNE


As Índias Negras - Na cidade das trevas, onde os homens vivem
como toupeiras, a riqueza e a morte têm o mesmo nome: carvão.

Mais de meio século após a sua morte, Júlio Verne conquista a
plena actualidade! Com efeito, o que no tempo do grande
romancista francês era mirabolante ou fantástico, é
presentemente uma realidade de que todos somos testemunhas. A
Nova Colecção que apresentamos - inteiramente revista e
incluindo ilustrações da edição original francesa assinala o
espectacular ressurgimento de um escritor que só hoje
encontra, verdadeiramente, o seu público.


ÍNDICE


CAPÍTULO I - DUAS CARTAS qUE SE CONTRADIZEM ... 7/0
CAPÍTULO II - A PARTIDA ...................... 17/0
CAPÍTULO III - O SUBSOLO DO REINO UNIDO ...... 24/0
CAPÍTULO IV - AS HULHEIRAS DE ABERFOYLE ...... 35/1
CAPÍTULO V - A FAMÍLIA FORD .................. 48/1
CAPÍTULO VI - CASOS EXTRAORDINÁRIOS .......... 60/1
CAPÍTULO VII - OS EFEITOS DO GRISU ........... 67/2
CAPÍTULO VIII - A EXPLOSÃO ................... 79/2
CAPÍTULO IX - A NOVA ABERFOYLE ............... 85/2
CAPÍTULO X - O REGRESSO DA EXPLORAçãO ........ 89/2
CAPÍTULO XI - AS DAMAS DE FOGO .............. 100/3
CAPÍTULO XiI - UM AMIGO CERTO NUMA
OCASIÃO INCERTa .............. 109/3
CAPÍTULO XIII - COAL-CITY ................... 124/3
CAPÍTULO XIV - SUSPENSO POR UM FIO! ......... 133/4
CAPÍTULO XV - O GÉNIO BOM DA MINA ........... 145/4
CAPÍTULO XVI - PROJECTOS E CONFIDÊNCIAS ..... 157/4
CAPÍTULO XVII - O CÉU E A TERRA ............. 166/5
CAPÍTULO XVIII - UM PASSEIO PELOS LAGOS ..... 179/5
CAPÍTULO XIX - UMA DERRADEIRA AMEAÇA ........ 195/6
CAPÍTULO XX - O PENITENTE ................... 206/6
CAPÍTULO XXI - O DIA DO NOIVADO ............. 217/6
CAPÍTULO XXII - A LENDA DO VELHO SILFAX ..... 224/6



CAPÍTULO I


DUAS CARTAS qUE SE CONTRADIZEM


"Para o senhor J. Starr, engenheiro, Rua de Canomgate,
30

Edimburgo.

Pede-se ao senhor Jaime Starr o obséquio de se dirigir
amanhã às hulheiras de Aberfoyle, travessa Dochart(1), poÇo
Yarow, onde Lhe será feita uma comunicação da mais alta
importância.
Harry Ford, filho do antigo overman (2) Simão Ford,
encontrar-se-á na gare de Callander, à chegada dos comboios,
esperando pelo senhor Jaime Starr, a quem se recomenda sobre
este assunto o mais completo segredo."


Tal foi a carta que recebeu Jaime Starr pela primeira
distribuição do dia 3 de Dezembro de 18... - carta carimbada
com a marca do correio de Aberfoyle, condado de Stirling,
Escócia.
Depois desta leitura, o engenheiro ficou visivelmente
sobressaltado. Nem por um momento lhe passou pela ideia que
semelhante carta pudesse conter uma mistificação. Servia-lhe
para isso de garantia o nome de Simão Ford, que ele conhecia
de longa data, e que fora um dos melhores contramestres


*1. Travessa é a galeria mais estreita que nas minas corta
as galerias principais. (N: do T.)
2. Contramestre. (N. do T.)


8


das minas de Aberfoyle, onde o próprio Jaime Starr
desempenhara durante vinte anos as funções de director -
emprego que nas hulheiras inglesas é designado pelo nome de
viewer.
Jaime Starr mostrava ser ainda um homem vigoroso a quem os
seus cinquenta e cinco anos não tiravam a robustez dos
quarenta. Pertencia a uma antiga família de Edimburgo, de que
era um dos mais ilustres ornamentos. Trabalhador infatigável,
as suas obras honravam a respeitável corporação desses
engenheiros perseverantes, que vão a pouco e pouco devorando o
subsolo carbonífero do Reino Unido, tanto em Cardiff e
Newcastle, como nos condados inferiores da velha Caledónia.
Entretanto, fora particularmente no fundo das misteriosas
hulheiras de Aberfoyle que o nome de Jaime Starr conquistara
maiores títulos à consideração dos homens de ciência. A sua
vida tinha-se passado quase toda nessas hulheiras, cuja área
abrangia uma parte do condado de Stirling. Além de engenheiro,
Jaime Starr fazia parte da sociedade dos antiquários
escoceses, de que era presidente. Figurava também entre os
sócios mais activos e diligentes da Royal Institution, e na
Revista de Edimburgo apareciam frequentes vezes notáveis
artigos devidos à sua pena. Era, como se vê, um desses sábios
que juntam a prática à teoria, e a quem a Inglaterra deve a
sua maior prosperidade. Jaime Starr ocupava, pois, um lugar
proeminente nessa velha capital da Escócia, que, já sob o
ponto de vista físico, já sob o ponto de vista moral, mereceu
com justo fundamento a designação de "Atenas do Norte".
Sabe-se que os ingleses deram ao conjunto das vastas
huLheiras que possuem um nome extremamente significativo.
Chamavam-lhes com razão as "Índias Negras", e estas Índias têm
decerto contribuído mais que as próprias Índias Orientais para
o fabuloso desenvolvimento da sua imensa riqueza.


10

É nelas, com efeito, que anda noite e dia enxameando um povo
de mineiros, ocupado em extrair do subsolo do Reino Unido esse
precioso combustível - o carvão de pedra-, elemento hoje
indispensável ás exigências da vida industrial.
Pelo tempo em que principia esta narração, ainda vinha longe
o limite calculado para a definitiva extinção das minas
carboníferas. Ninguém receava ver um dia escassear o carvão
mineral. Pois não havia ainda que explorar em larga escala os
jazigos carbonífEros dos dois mundos? As oficinas, apropriadas
a tão diversos ramos de trabalho, as locomotivas, as
locomóveis, os barcos a vapor e as fábricas de gás podiam
continuar, portanto, na sua labutação, que não lhes faltaria
tão depressa o alimento indispensável às mil bocas das suas
fornalhas.
O consumo tinha, porém, tomado proporções tais nos últimos
anos, que algumas das minas já estavam esgotadas até os
últimos filões. Desertas agora, essas minas sulcavam
inutilmente o solo com os seus poços em ruínas e as suas
galerias tão silenciosas.
Tal era precisamente o caso que se dava com as hulheiras de
Aberfoyle.
Havia já dez anos que se extraíra deste jazigo o último
alcofão de hulha. O material empregado nos trabalhos de mina:
máquinas destinadas à tracÇão mecânica sobre os carris das
galerias, caixas para a safra nos poÇos de extracção, carros
formando os comboios de serviço, trâmueis subterrâneos, tubos
a cuja compressão do ar se moviam os engenhos perfuradores -
numa palavra, tudo quanto constituía a variada ferramenta de
uma exploração fora retirado das galerias e deixado à
superfície do solo. A hulheira, completamente esgotada,
parecia o cadáver de um mastodonte de grandeza colossal, a
quem tivessem roubado os órgãos da vida, deixando-lhe apenas á
vista o formidável esqueleto. Deste imenso material só
restavam algumas compridas escadas de madeira,


*1. Trabalhos de mina são os que se fazem no interior das
galerias e trabalhos de contramina os que se realizam ao ar
livre. (N. do T.)


11

lançadas sobre o poço Yarow, o único - depois de paralisados
os trabalhos - que dava ainda comunicação à travessa Dochart.
Da parte de fora do solo, as oficinas que haviam servido aos
trabalhos de contramina indicavam o sítio onde se tinham
aberto os poços das diferentes galerias que formavam o
conjunto das hulheiras de Aberfoyle.
Foi um dia de luto aquele em que os mineiros tiveram de
deixar para sempre o local onde haviam passado tantos anos da
sua vida.
No telheiro da galeria principal achavam-se agora reunidos
os barreneiros, os estivadores, os cantoneiros, os peões, os
pesadores, os ferreiros, os carpinteiros, todos aqueles enfim
- homens, crianças, velhos e mulheres - que compunham a
corajosa e activa população da hulheira. O engenheiro Jaime
Starr mandara-os chamar para lhes fazer as suas despedidas.
Esta pobre gente, que durante tantos anos se tinha visto
suceder de pai em filho nos trabalhos da velha Aberfoyle, esta
pobre gente que, pelas necessidades de uma nova existência, ia
em breve dispersar-se, aguardava silenciosa e triste os
últimos adeuses do seu engenheiro. A título de gratificação,
os directores da companhia fizeram distribuir pelos operários
os ganhos do ano corrente. Insignificantes ganhos na verdade,
porque o rendimento da mina pouco excedera as despesas de
exploração. Todavia, este auxílio pecuniário devia permitir a
todas aquelas famílias que pudessem esperar por uma nova
colocação, quer nas hulheiras vizinhas, quer nas granjas ou
oficinas do condado.
Jaime Starr conservava-se de pé junto do sítio onde tinham
funcionado dias sem conto as poderosas máquinas a vapor do
poço de extracção.
Simão Ford, overman dos mais considerados destas hulheiras,
homem então de cinquenta e cinco anos, e vários outros
condutores de trabalho, faziam roda ao engenheiro.


12

Jaime Starr tirou o seu chapéu. Os mineiros, já todos de
chapéu na mão, aguardavam num respeitoso silêncio.
Esta cena de despedida oferecia um carácter comovedor, a que
não faltava certo ar de grandeza.
- Meus amigos - disse o engenheiro -, chegou o momento de
nos separarmos. As hulheiras de Aberfoyle, que durante tantos
anos nos trouxeram unidos na comunidade do trabalho,
encontram-se completamente esgotadas. As nossas pesquisas em
busca de novos filões têm sido inúteis, e da travessa Dochart
acabou de se extrair há pouco a última parcela de carvão de
pedra!
E, em apoio da sua palavra, Jaime Starr mostrava aos
mineiros um pedaço de hulha metido no fundo de um alcofão.
- Este fragmento de combustível, meus amigos - Prosseguiu
Jaime Starr -, é como o último glóbulo de sangue que circulava
pelas veias da hulheira! Havemos de conservá-lo, como ainda
conservamos o primeiro que há cento e cinquenta anos se
extraiu dos jazigos de Aberfoyle. Entre estes dois bocados de
carvão quantas gerações de mineiros se têm sucedido no
interior das nossas galerias! Acabou-se tudo agora! As
palavras que lhes estou a dirigir, são palavras de despedida.
Foi ao impulso dos vossos braços que esta mina se exauriu. O
trabalho era pesado, mas não deixava de ser profícuo. Hoje, a
nossa grande família vai disseminar-se, e não é provável que o
futuro torne aqui a reunir os seus membros dispersos.
Lembrem-se porém que viveram muito tempo juntos, e que um dos
seus deveres mais sagrados é auxiliarem-se mutuamente. Os seus
antigos chefes não hão-de esquecê-lo também. Quando se tem
assim passado uma parte da vida em comum, há a obrigação de se
não ser indiferente. Pela nossa parte prometemos-lhes todo o
auxílio de que pudermos dispor, e, onde quer que a sorte os
conduza, hão-de sempre segui-los as nossas recomendações, uma
vez que se comportem com honra e dignidade. Adeus pois, meus
amigos. Que a Providência os proteja!


13


Dito isto, Jaime Starr abraçou comovido o mais velho dos
mineiros, que estava com os olhos cheios de lágrimas. Depois
todos os overmen das diferentes galerias vieram apertar a mão
do engenheiro, enquanto os outros operários agitavam os seus
chapéus, bradando:
- Viva Jaime Starr! Viva o nosso chefe e amigo!
Semelhante despedida não podia deixar de produzir um
profundíssimo abalo no coração desta boa gente. Entretanto -
assim era preciso - foram-se todos afastando pouco a pouco.
Jaime Starr assistia com saudade àquele afastamento. O solo
enegrecido dos caminhos que davam saída à mina ressoou pela
última vez sob os pés dos mineiros, e, à rüidosa animação que
até ali enchera as hulheiras de Aberfoyle, sucedeu um silêncio
sepulcral. Um homem apenas ficara ao lado de Jaime Starr.
Era o overman Simão Ford. Junto dele via-se um rapaz de
quinze anos - seu filho Harry -, que havia já muito tempo se
encontrava empregado nos trabalhos da mina.
Jaime Starr e Simão Ford conheciam-se bem a fundo, e
estimavam-se reciprocamente.
- Adeus, Simão! - disse o engenheiro.
- Adeus, senhor Jaime - respondeu o overman. - Ou para
melhor dizer: Até sempre!
- Tens razão - acrescentou Jaime Starr -, até sempre. Somos
bastante amigos um do outro para que deixemos de nos tornar a
ver. Tu bem sabes que as tuas visitas nunca deixarão de me ser
agradáveis.
- Bem sei, senhor Jaime.
- A minha casa em Edimburgo está constantemente às tuas
ordens.
- Fica muito longe Edimburgo! - respondeu o overman,
sacudindo a cabeça. - Muito longe da hulheira!
- Muito longe, Simão! Pois onde tencionas tu residir?


14

- Aqui mesmo, senhor Jaime. Porque secou o leite à nossa
querida ama, será isso razão para nos separarmos dela? Eu,
minha mulher e meu filho havemos de lhe ser fiéis!
- Adeus, adeus, Simão - respondeu o engenheiro, cuja voz, a
seu pesar, denunciava uma grande comoção.
- Adeus, não, senhor Jaime, até sempre, como já lhe disse -
retorquiu o overman. - Juro-lhe por quem sou que nos havemos
de tornar a ver aqui mesmo!
O engenheiro não quis desvanecer esta última ilusão do
overman. Dirigiu-se a Harry, que o estava a fitar com os olhos
humedecidos, abraçou-o, e depois de apertar pela última vez a
mão de Simão Ford saiu definitivamente da hulheira.
Eis o que se tinha passado havia dez anos, mas, apesar do
desejo que mostrava o overman de tornar a ver o engenheiro,
este nunca mais ouvira falar dele.
E era depois de decorridos dez anos que Jaime Starr recebia
esta carta de Simão Ford, convidando-o a ir novamente visitar
as hulheiras de Aberfoyle.
Tratava-se de uma comunicação da mais alta importância. Que
seria? A travessa Dochart, o poço Yarow! Que interessantes
lembranças do passado estes nomes traziam à memória de Jaime
Starr! Era aquele o bom tempo! O tempo do trabalho e da luta -
o melhor tempo da sua vida de engenheiro! Jaime Starr lia e
relia a carta muitas vezes, mirando-a por todos os lados.
Lastimava na verdade que Simão Ford não lhe tivesse juntado
mais uma linha. Estava até zangado com ele por ter sido tão
lacónico.
-Dar-se-á o caso de que o overman tenha descoberto álgum
novo filão para explorar? Não é possível! Jaime Starr passava
mentalmente em revista os cuidados minuciosos de que tinham
sido alvo as hulheiras de Aberfoyle antes de cessarem
definitivamente os trabalhos. Ele próprio dirigira as últimas
sondagens sem encontrar nenhum novo jazigo naquele subsolo
devastado por uma exPloração exagerada.


15

Chegara-se a imaginar que nas camadas mais inferiores de grés
vermelho devoniano se encontrasse de novo a hulha. Esta
esperança porém desvanecera-se! Jaime Starr largara pois a
mina firmemente convencido de que não ficava nela por extrair
um único pedaço de combustível.
- Não é possívell - dizia ele a si próprio. - Não é
possível! Como havia Simão Ford de encontrar o que tão
obstinadamente escapou às minhas indagações? Entretanto, o
velho overman era incapaz de me dirigir esta carta se não
tivesse razões fortíssimas para o fazer. E o segredo que se me
pede sobre a minha ida à travessa Dochart leva-me a supor...
Jaime Starr sentia-se vivamente preocupado.
O engenheiro tinha Simão Ford na conta de um hábil mineiro,
profundamente conhecedor de todas as especialidades do seu
ofício. Desde que as minas de Aberfoyle estavam desertas,
nunca mais Jaime Starr ouvira falar do velho overman. Ignorava
até o destino que tomara, nem sabia onde ele, sua mulher e seu
filho estariam agora residindo. O que só via de positivo em
tudo isto, era o convite para voltar às hulheiras de
Aberfoyle, pelo poço Yarow, e a certeza de que Harry - o filho
de Simão Ford - estaria todo o dia seguinte à sua espera na
gare de Callander. Não lhe restava pois a menor dúvida de que
se tratava de um negócio importante.
- Irei! Irei - disse Jaime Starr, cuja curiosidade crescia à
proporção que as horas voavam.
É que o bom do engenheiro pertencia a essa categoria de
homens impressionáveis que têm sempre o cérebro em ebulição,
como qualquer chaleira de água colocada sobre um fogo bem
ateado. Ora assim como há chaleiras humanas onde as ideias
fervem em cachão, outras há onde as ideias só a custo levantam
fervura. Jaime Starr encontrava-se agora no caso das
primeiras.
Um incidente imprevisto veio, porém, modificar esta
situação.


16

Foi como que uma gota de água fria condensando momentaneamente
os vapores daquele cérebro.
Seriam seis horas da tarde quando o criado de Jaime Starr
lhe trouxe uma segunda carta recebida pela terceira
distribuição.
Esta carta vinha fechada num grosseiro sobrescrito, cuja
letra denunciava mão de pessoa pouco afeita a escrever.
Jaime Starr, abrindo-a, encontrou dentro um pedaço de papel,
já amarelecido pelo tempo, e que parecía arrancado a algum
velho caderno, há muito fora de serviço. Nesse papel
continham-se apenas as seguintes e concisas palavras:
"É inútil que o engenheiro Jaime Starr se dirija às minas de
Aberfoyle. Considere-se de nenhum efeito a carta de Simão
Ford.
E por baixo destas linhas nem sombra de assinatura.



CAPÍTULO II


A PARTIDA


O curso das ideias de Jaime Starr ficou por assim dizer
paralisado, em seguida à leitura desta nova carta, que tanto
diferia da primeira.
- Que significará tudo isto? - perguntou ele a si próprio.
Jaime Starr levantou do chão o sobrescrito meio rasgado.
Via-se nele, como no outro, a marca do correio de Aberfoyle.
Não restava dúvida de que ambas as cartas tinham tido a mesma
procedência. Percebia-se que não fora o velho mineiro quem
escrevera a segunda, mas era também incontestável que o autor
desta se achava bem ao facto do segredo de Simão Ford, uma vez
que tão formalmente revogava o convite dirigido ao engenheiro.
Seria, pois, razoável que se considerasse de nenhum efeito a
primeira comunicação Ou haveria, com referência à segunda, o
empenho de afastar de Aberfoyle o engenheiro Jaime Starr? Não
encobririam as extraordinárias palavras do anónimo uma
premeditaÇão tendente a prejudicar os projectos do overman?
Depois de madura reflexão, Jaime Starr inclinou-se a esta
última hipótese. A contradição que se notava entre as duas
cartas mais vivamente Lhe excitou o desejo de ir a Aberfoyle.
De resto, o melhor meio de saber se em tudo isto haveria
alguma mistificação, era aceitar o convite.


18

Por fim, Jaime Starr entendeu que devia dar mais crédito ás
palavras de um homem de bem, como era Simão Ford, do que às
insinuações misteriosas do seu anónimo contraditor.
- Não há que duvidar - disse ele consigo mesmo. - Se
pretendem influir na minha resolução, é porque deve ser de
grande importância o que Simão Ford tem a comunicar-me. Está
decidido, parto amanhã, e hei-de encontrar-me à hora indicada
no lugar que se me aponta!
Nessa noite, Jaime Starr fez os seus preparativos de
jornada. Como podia dar-se o caso de que a sua ausência se
prolongasse por alguns dias, escreveu a Sir W. Elphiston,
presidente da Royal Institution, prevenindo-o de que não
assistiria à próxima sessão da sociedade. Procurou também
desembaraçar-se de dois ou três negócios que deviam tomar-lhe
parte da semana. Depois deu ordem ao seu criado para lhe
preparar uma mala de mão e foi deitar-se, mais impressionado
talvez do que o caso exigia.
Na manhã seguinte, Jaime Starr saltava da cama abaixo às
cinco horas, vestia-se com bastante roupa, em consequência de
estar a cair uma chuva frigidíssima, e saía da sua casa da Rua
Canongate(1) para ir esperar no cais de Granton aquele barco a
vapor que em três horas costuma percorrer o Forth até
Stirling.
Era talvez esta a primeira vez que, ao atravessar a
Canongate, jaime Starr não se voltava para trás a fim de ver
Holyrood - esse antigo palácio dos reis da Escócia. Não deu
pelas sentinelas de guarda aos seus postigos, e trajando o
antigo uniforme escocês: saiote de lã verde, plaid(2) de
quadrados verdes, azuis e encarnados, e bolsa de pele de cabra
caindo sobre a coxa. Se bem que fosse admirador fanático de
Walter Scott, como deve sê-lo todo o bom filho da velha
Caledónia, o engenheiro nem sequer concedeu,


*1. Rua célebre e principal da parte velha de Edimburgo. (N.
do T.)
2. Manto que usam os Escoceses em guisa de faixa, preso ao
ombro e soltando-se em curvas graciosas. (N. do T.)


19

segundo era seu costume, um simples volver de olhos à
estalagem onde Waverley esteve hospedado, e onde ele recebeu
das mãos do alfaiate aquele famoso trajo de guerra, que a
viúva Flockhart adorava com tamanha ingenuidade. Jaime Starr
chegou até a não se importar com a pequena praça, na qual os
montanheses, depois da vitória do Pretendente, descarregaram
as suas espingardas, em risco de matarem Flora Mac Ivor. O
relógio da prisão parecia estender sobre a rua o seu imenso
mostrador, pois o engenheiro olhou só para ele com o fim de
verificar se não faltaria à hora de embarque. Diga-se ainda
que, ao passar por Nelher-Bow não fez caso da habitação do
grande reformador John Knox - o único homem que não
conseguiram seduzir os graciosos sorrisos da rainha Maria
Stuart. Depois, tomando pela High-Street - a rua popular tão
minuciosamente descrita no romance do Abade-, Jaime Starr
encaminhou-se para a formidável ponte de Bridge-Street, que
liga naquele sítio as três colinas de Edimburgo.
Alguns minutos depois chegava o engenheiro à gare do General
Railway, e, passada meia hora, apeava-se ele do comboio na
estação de Newhaven, bonita aldeia de pescadores, situada a
uma milha de Leith, que serve de porto a Edimburgo. A praia
denegrida e pedregosa achava-se então encoberta pela maré
cheia. As ondas do golfo banhavam uma espécie de molhe,
sustentado por cadeias. À esquerda via-se preso ao cais de
Granton um desses barcos que navegam pelo Forth, entre
Edimburgo e Stirling.
O "Príncipe de Gales" estava prestes a largar. Sentia-se-lhe
já o arfar da caldeira, e da sua chaminé começavam a sair
rolos de fumo negro. Ao toque da sineta afluíram os últimos
passageiros. A bordo viam-se agora, confundidos no mesmo
grupo, rendeiros, lavradores e ministros do culto protestante
- estes últimos fáceis de reconhecer pelos seus calções
curtos, compridas sobrecasacas e pela fina orla branca em roda
do pescoço.


20

Jaime Starr nem foi dos últimos a embarcar, nem daqueles que
mais tardaram a ser vistos sobre a tolda. Se bem que a chuva
continuasse a cair com violência, nenhum dos passageiros
pensou em ir abrigar-se na câmara do "Príncipe de Gales".
Todos se conservavam impassíveis, envolvidos nas suas mantas
de viagem. Alguns o mais que faziam era aquecerem-se por
dentro com o gin ou o uísque que traziam nos seus frascos.
Ouviu-se ainda um toque de sineta, depois largaram-se as
amarras, e o barco a vapor começou a mover-se para sair do
pequeno porto, que o resguardava contra os vagalhões do mar do
Norte.
"Firth of Forth", tal é o nome que se dá no Reino Unido ao
golfo aberto entre o condado de Fife, ao Norte, e os condados
de Linlihgow, Edimburgo e Haddington, ao Sul. Forma este golfo
o esteiro do rio Forth - espécie de Tamisa ou de Mersey, pouco
importante, mas muito fundo-, que nasce nas vertentes
ocidentais do Ben Lomond e se lança no mar em Quincardine.
Deveria ser curta a viagem desde Granton até o extremo do
golfo, se a necessidade de tocar nos portos intermédios não
obrigasse o vapor a fazer muitas paragens. Pelas margens do
Forth abundam as casas de campo, as vilas e as aldeias,
espalhadas entre arvoredos e prados fertilíssimos. Jaime
Starr, embrulhado no seu casaco impermeável, não se distraía a
olhar para esta paisagem, meio esfumada agora pela chuva que
não cessava de cair.
O seu trabalho limitava-se a observar se o estaria
examinando algum daqueles passageiros. Efectivamente, podia
muito bem ser que o autor anónimo da segunda carta se
encontrasse a bordo do barco. Contudo o engenheiro não
conseguiu surpreender nenhum olhar que lhe causasse
desconfiança..


21

O "Príncipe de Gales", ao largar do cais de Granton, entrou
pela estreita passagem que se abre entre as duas pontas de
SouthQucensferry e North-Qucensferry, para lá da qual o Forth
constitui uma espécie de lago, acessível a navios de cem
toneladas. Ao fundo do horizonte, quando as brumas se
dissipavam um pouco, apercebiam-se à distância os cumes
nevados dos montes Grampiam.
Minutos depois, o "Príncipe de Gales" perdia de vista a
povoação de Aberdour, a ilha de Colm, coroada pelas ruínas de
um mosteiro do século xII, os restos do castelo de Barnbugle,
mais adiante Donibristle, onde o genro do regente Murray foi
assassinado, e por fim a ilhota fortificada de Garvie. O vapor
passou o estreito de Queensferry, deixou à esquerda o castelo
de Rosyth, onde residiu antigamente o ramo dos Stuarts ao qual
pertencia por aliança a mãe do Cromwell, ultrapassou
Blackness-Castle, sempre fortificado em harmonia com um dos
artigos do tratado da União, e seguiu por diante do pequeno
porto de Charleston, de onde se exporta a cal pertencente às
pedreiras de Lord Elgin. Finalmente, a sineta de bordo
anunciou a chegada a Crombie-Point.
O tempo cada vez estava pior. A chuva, sacudida por uma
brisa forte, espalhava-se no ar. As lufadas, violentas e
estrepitosas, passavam como se fossem trombas marinhas.
Jaime Starr não deixava de sentir uma certa inquietação:
Estaria no lugar aprazado o filho de Simão Ford? O engenheiro
bem sabia por experiência que os mineiros, habituados ao
profundo sossego das hulheiras, não afrontam, como os
trabalhadores do campo ou das cidades, estes grandes
desequilíbrios atmosféricos. De Callander às minas de
Aberfoyle pelo poço Yarow devia contar-se com uma distância de
quatro milhas. Este facto poderia até certo ponto justificar a
ausência de Harry Ford. Contudo, o que mais preocupava Jaime
Starr era o sentido vago da segunda carta, que dava como de
nenhum efeito o convite contido na primeira. A dizer a
verdade, a sua principal inquietaÇão procedia deste desaCordo.


22

Em todo o caso, se o filho do velho overman se não visse em
Callander à chegada do comboio, Jaime Starr estava bem
decidido a ir só à travessa Dochart, e até à própria aldeia de
Aberfoyle, se assim fosse preciso. Ali pelo menos ser-lhe-ia
fácil colher notícias de Simão Ford, e saber onde ele residia
actualmente.
Entretanto o "Príncipe de Gales" ia continuando a levantar
grossas vagas com o impulso das suas rodas. As duas margens do
rio estavam inteiramente escondidas pelas brumas. Nem se via a
aldeia de Crombie, nem Torryburn, Torry-House, Newmills,
Carriden-House, Kirk-Grange e Salt-Pans. O pequeno porto de
Bowness e o porto de Grange-Mouth, cavado à entrada do canal
do Clyde, sumiam-se por entre o véu do espesso nevoeiro. O
velho burgo de Culross e as ruínas da sua abadia de Cister,
Quincardine e os seus estaleiros de construÇão, por onde o
barco fazia escala, Ayrth-Castle e a sua torre quadrada do
século XIII, Clackmannan e o seu castelo do tempo de Roberto
Bruce - todos estes lugares enfim passavam despercebidos, em
consequência da chuva e da neblina.
O "Príncipe de Gales" parou no porto de Aloa para largar
alguns passageiros. Jaime Starr sentiu comprimir-se-lhe o
coração ao passar, depois de uma ausência de dez anos, por
esta pequena cidade - centro de exploração de hulheiras
importantes, que ainda hoje empregavam um número respeitável
de operários. A sua imaginação fê-lo descer ao subsolo destas
hulheiras, que a picareta dos mineiros rasgava com tanto
proveito para a indústria. As minas de Aloa, quase contíguas
às de Aberfoyle, continuavam a enriquecer o condado, enquanto
os próximos jazigos, esgotados há tantos anos, já não contavam
um único trabalhador sequer!
O navio, ao sair do cais de Aloa, lançou-se nos numerosos
rodeios que faz o Forth durante um percurso de dezanove
milhas. O barco circulava rapidamente por entre as grandes
árvores das duas margens do rio.


23

Numa aberta que houve, puderam-se ver de bordo as ruínas da
abadia de Cambuskenneth, levantada no século xII, e mais
adiante o castelo de Stirling e o burgo real do mesmo nome,
onde o Forth, atravessado por duas pontes, deixa de ser
navegável para embarcações de grande mastreação.
Apenas o Príncipe de Gales" atracou a este último ponto,
saltou logo para o cais o engenheiro. Cinco minutos depois
chegava ele à gare de Stirling, e, passada uma hora, apeava-se
do comboio em Callander, vasta aldeia, situada sobre a margem
esquerda do Teith.
Em frente da gare estava um rapaz, que principiou a caminhar
em direcção a Jaime Starr.
Era Harry Ford, o filho do velho overman.



CAPÍTULO III


O SUBSOLO DO REINO UNIDO


PARA melhor compreensão desta narrativa, convém dizer em
poucas palavras qual foi a origem da hulha ou carvão de pedra.
Durante as épocas geológicas, o esferóide terrestre, ainda
em via de formação, achava-se completamente envolvido numa
atmosfera saturada de vapores de água e em grande parte
impregnada de ácido carbónico.
Esses vapores condensaram-se pouco a pouco em chuvas
diluvianas, que se precipitavam com violência, como se fossem
arremessadas pelo gargalo de milhões e milhões de garrafas de
água de Selt(2). Abundava em ácido carbónico o líquido que
então caía torrencialmente sobre um solo empastado,
inconsistente, sujeito a uma variedade de transformações, quer
rápidas, quer prolongadas, e que se mantinham num estado
semifluido, tanto em consequência dos raios do Sol como dos
fogos da sua massa interior.
É que naquele tempo ainda o calor interno se não achava
suficientemente armazenado no centro do globo.
A crusta terrestre, pouco espessa e mal endurecida,
deixava-o expandir-se por todos os seus poros. Provinha desta
circunstância uma vegetação fenomenal semelhante à que se deve
produzir talvez na superfície de outros planetas inferiores -
tais como Vénus e Mercúrio, mais próximos do que a terra do
astro refulgente.
O solo dos continentes, mal firmado ainda, cobria-se de
imensas florestas, graças ao ácido carbónico. Os vegetais
cresciam de um modo prodigioso, sob a forma arborescente. Não
existiam plantas herbáceas. Por toda a parte enormes e
compactas aglomerações de grandes árvores, monótonas de
aspecto, desprovidas de fruto, e inúteis completamente ao
desenvolvimento de qualquer ser vivo. A Terra ainda não estava
preparada para a elaboração do reino animal.
Predominava nessas árvores antediluvianas a classe das
criptogâmicas. Os lepidodendros, género de licopódios imensos,
de vinte e cinco a trinta metros de altura sobre um de largo
na base, as calamites, variedade de equisetos arborescentes,
os asterófilos, os fetos, as agigantadas sigilárias de que se
têm encontrado exemplares nas minas de Saint-Etienne(1) - tudo
plantas de assombrosas proporções hoje apenas representadas
por espécimes rudimentares-, tais eram os vegetais, pouco
variados na sua espécie, mas enormes no seu desenvolvimento,
que compunham exclusivamente as florestas primitivas.
Esses vegetais, cujas raízes se estendiam por um imenso e
profundo pântano, formado de águas lacustres e marinhas,
assimilavam com avidez o carbono que pouco a pouco absorviam
da atmosfera, e iam-se assim acumulando, sob forma de hulha,
lá no íntimo das entranhas do globo.
Era esta com efeito a época dos tremores de terra, desses
abalos do solo, devidos ao trabalho plutónico e às revoluções
subterrâneas que modificavam de repente os lineamentos ainda
incertos da superfície terrestre. Aqui surgiam intumescências
que deviam converter-se em montanhas, acolá voragens que
deviam tornar-se oceanos.


*1. Cidade da França no departamento do Loire, onde existem
as hullieiras mais importantes daquele país. (N. do T.)


26

E então sucedia que florestas inteiras se afundavam pela
crusta da terra, através das camadas movediças, até
encontrarem um ponto de apoio - como o solo primitivo das
rochas granitóides - ou até chegarem pela acumulação a formar
um todo resistente.
É efectivamente, seguindo esta ordem, que nas entranhas do
globo se apresenta o edifício geológico: primeiro o solo
primitivo, servindo de base às diferentes camadas que compõem
os terrenos primários, em seguida os terrenos secundários, em
cuja maior profundidade se encontram os jazigos de hulha,
depois os terrenos terciários, e por cima deles o terreno das
aluviões antigas e modernas.
A este tempo as águas, que nenhum leito refreava ainda, e
que nasciam da própria condensação em todos os pontos do
globo, despenhavam-se precipitadamente, roubando às rochas,
recentemente formadas, as matérias de que deviam compor-se os
xistos, os grés e os calcários.
Essas águas, que chegavam a cobrir as florestas turfosas,
iam depositando os elementos de onde haviam de sair os
terrenos superiores ao terreno hulheiro. Com o andar dos
séculos - período que se pode contar por milhões de anos -
esses terrenos foram adquirindo consistência, formando
socalcos e escondendo toda a massa de florestas primitivas sob
uma espessa camada de pudins, xistos, grés compactos ou
friáveis, saibro e calhau.
Que se passou então neste cadinho imenso, onde se acumulava
a matéria vegetal soterrada a diferentes profundidades? Uma
verdadeira operação química, uma espécie de destilação. Todo o
carbono que estes vegetais continham se foi aglomerando, dando
lugar a que a hulha se formasse gradualmente sob a dupla
influência de uma pressão enorme e da elevada temperatura que
lhe fornecia o calor interno.
Assim, pois, nesta lenta mas irresistível reacção, um reino
substituía outro. Transformava-se em mineral o vegetal.


27

Petrificavam-se as plantas que, sob a poderosa seiva dos
primeiros dias, haviam tido uma existência vegetativa. Algumas
dessas substâncias, encerradas em tão vasto herbário e ainda
não de todo transformadas, deixavam a sua forma esculpida
noutros produtos, que, por se mineralizarem mais depressa, as
apertavam e comprimiam, como poderia fazê-lo uma prensa
hidráulica de força incalculável. Ao mesmo tempo, várias
conchas e zoófitos, tais como estrelas-do-mar, pólipos,
esperíferas e até mesmo peixes e lagartos, arrebatados pelas
águas, estampavam sobre a hulha ainda branda a sua impressão
com a máxima nitidez.
A pressão parece ter desempenhado um papel considerável na
formaÇão dos jazigos carboníferos. Efectivamente, é à força da
pressão que se devem as diversas espécies de hulha de que se
serve a indústria. É por isso que nas mais baixas camadas do
terreno hulheiro se encontra a antracite, que, privada quase
completamente de matéria volátil, encerra uma extraordinária
quantidade de carbono. Nas camadas superiores, pelo contrário,
aparecem a lenhite e a madeira fóssil, substâncias nas quais é
infinitamente menor a quantidade de carbono. Entre estas duas
camadas, segundo o grau de pressão por que elas foram
passando, é que se observam os filões de grafites e as hulhas
gordas ou magras.
Pode-se até afirmar que por falta de suficiente pressão é
que não chegou completamente a modificar-se em hulha a camada
dos pântanos turfosos.
A origem das hulheiras, seja qual for o ponto onde se tenham
descoberto, é portanto a seguinte:


*1 Deve observar-se que todas estas plantas, de que se tem
achado as impressões, pertencem às espécies que actualmente
existem nas zonas equatoriais. Pode-se daqui concluir que
nesta época era igual o calor em todos os pontos do globo,
quer ele fosse produzido pelas correntes de água quente, quer
os fogos interiores da terra se fizessem sentir através da sua
crusta porosa. É assim que se explica a formação de jazigos
carboníferos sob todas as latitudes terrestres.


28

absorção pela crusta terrestre das grandes florestas da época
geológica, depois, mineralização dos vegetais, obtida com o
tempo sob a influência do calor e da pressão e sob a acção
directa do ácido carbónico.
Entretanto a Natureza, tão pródiga de ordinário, não
soterrou as precisas florestas para um consumo que deveria
compreender alguns milhares de anos. Um dia a hulha há-de
faltar - é caso averiguado. Se algum novo combustível não vier
substituir o carvão, as máquinas do mundo inteiro hão-de
fatalmente ver-se expostas a uma forçada paralisação. Dentro
de um período mais ou menos remoto, desaparecerão os jazigos
carboníferos, restando apenas aqueles que na Gronelândia e nas
proximidades do mar de Bafim existem debaixo de uma eterna
camada de gelo, cuja exploração é quase que absolutamente
impraticável. Eis a sorte que se não pode evitar. Os terrenos
hulheiros da América, ainda extraordinariamente ricos, e os do
lago Salgado, do Oregão e da Califórnia, verão também findar
um dia a sua actual abundância. O mesmo sucederá às hulheiras
do cabo Breton e do rio São Lourenço, aos jazigos dos
Aleganis, da Pensilvânia, da Virgínia, do Ilinóis, da Indiana
e do Missouri. Se bem que a riqueza carbonífera da América do
Norte seja dez vezes superior à do resto do mundo inteiro, em
menos de cem séculos esse monstro armado de milhões de bocas -
a indústria - há-de ter seguramente devorado o último pedaço
de hulha, oculto nas entranhas do globo.
Será no velho mundo que primeiro se sinta a escassez de
combustível. É certo que existem muitas camadas de carvão
mineral na Abissínia, no Natal, na Zambézia, em Moçambique e
em Madagáscar, a sua regular exploração, porém, oferece mil
dificuldades. As bacias hulheiras da Birmânia, da China, da
Cochinchina, do Japão e da Ásia Central extinguir-se-ão
depressa. A hulha abundante que encerra o solo da Austrália
estará exaurida ainda antes do dia em que ela chegue a faltar
no Reino Unido.


29

Para esse tempo já não terão que dar os jazigos carboníferos
da Europa, tenazmente explorados até aos seus mais ocultos
filões.
Julgue-se pelos seguintes algarismos quais as quantidades de
hulha, consumidas depois que se descobriram os primeiros
jazigos. As bacias hulheiras da Rússia, da Saxónia e da
Baviera abrangem seiscentos mil hectares, as da Espanha cento
e cinquenta mil, as da Boémia e da Áustria cento e cinquenta
mil. As da Bélgica - apresentando quarenta léguas de extensão
sobre três de largura - também contam cento e cinquenta mil
hectares, espaLhados por baixo dos territórios de Liège,
Namur, Mons e Charleroi. Em França, os terrenos, situados
tanto ao Norte como entre o Ródano e o Loire, compreendem uma
área de trezentos e cinquenta mil hectares.
O país mais abundante em hulha é inquestionavelmente o Reino
Unido, que, à excepção da Irlanda, onde escasseia o
combustível mineral, possui enormes riquezas carboníferas,
susceptíveis contudo de se esgotarem, como sucede a todas as
riquezas. A mais importante das suas bacias hulheiras, a de
Newcastle, que ocupa o subsolo do condado de Northumberland,
produz por ano cerca de trinta milhões de toneladas, isto é,
quase um terÇo do consumo inglês e mais do dobro da produção
francesa. A bacia hulheira do principado de Gales, que em
Cardiff, em Stvansea e em Newport concentra uma verdadeira
populaÇão de mineiros, dá anualmente dez milhões de toneladas
dessa excelente hulha, conhecida no mercado pelo nome da sua
procedência. No centro exploram-se as hulheiras dos condados
de Iorque, de Lencastre, de Derby e de Stafford, menos
produtivas, porém, de uma extracção ainda considerável. Enfim,
nessa parte da Escócia, situada entre Edimburgo e Glásgua,
entre esses dois mares que tão profundamente a recortam,
dilata-se um dos mais vastos jazigos hulheiros que possui o
Reino Unido.


30

O conjunto dessas diferentes bacias não compreende menos de um
milhão e seiscentos mil hectares, produzindo anualmente cem
milhões de toneladas do negro combustível.
Mas que importa! As exigências da indústria e do comércio
tanto hão-de aumentar o consumo que estas riquezas terão de
desaparecer forçosamente. O terceiro milenário da era cristã
não acabará sem que a mão do mineiro tenha esgotado na Europa
esses vastos armazéns, onde, segundo uma sensata apreciação,
se concentrou o calor solar dos tempos primitivos(1).
Na época justamente em que principia esta história, já se
encontrava esgotado de todo, por efeito de exploraÇão levada
ao exagero, um dos mais importantes depósitos carboníferos do
território escocês. Era precisamente na parte da Escócia,
situada entre Edimburgo e Glásgua, sobre uma largura média de
dez a doze milhas, que ficavam as hulheiras do Aberfoyle, onde
o engenheiro Jaime Starr exercera por tanto tempo a direcção
dos trabalhos.
Ora havia já dez anos que essas minas estavam absolutamente
abandonadas. Apesar dos esforços empregados, não fora possível
descobrir novos jazigos, se bem que as sondagens se tivessem
levado até uma profundidade de mil e quinhentos e mesmo de
dois mil pés. Quando Jaime Starr se decidiu, pois, a
retirar-se, foi porque se convenceu de que não restava a
explorar o mais insignificante filão de combustível.


*1 Atendendo à progressão de consumo que a hulha tem na
Europa, está calculado, segundo as últimas observações, que
ela deverá achar-se completamente esgotada na França dentro de
1140 anos, na Inglaterra dentro de 800 anos, na Bélgica dentro
de 750 anos, na Alemanha dentro de 300 anos.
Na América. supondo que extraiam anualmente quinhentos
milhões de toneladas, os jazigos deverão conter combustível
para um período de seis mil anos.


32

Era, portanto, manifesto que, dadas estas circunstâncias, o
descobrimento de uma nova bacia hulheira nas profundidades do
subsolo inglês devia considerar-se como um acontecimento
importantíssimo. Referir-se-ia a um facto desta ordem a
comunicação feita por Simão Ford? Eis o que Jaime Starr a si
mesmo perguntava muitas vezes.
Tratar-se-ia, numa palavra, de conquistar algum novo jazigo
dessas Índias Negras, para cujo empreendimento se precisasse
de recorrer ao auxílio de um engenheiro? Jaime Starr assim se
atrevia a suspeitá-lo.
A segunda carta havia-lhe por um instante modificado essas
ideias, agora, porém, já não pensava nela. Demais, não estava
ali o filho do velho overman, esperando por ele no lugar
indicado? A carta anónima deixava, pois, de ter a mínima
significação.
No momento em que o engenheiro se apeava do comboio, viu
aproximar-se dele um rapaz que devia ter mais de vinte anos.
- Chamas-te Harry Ford? - perguntou sem mais preâmbulos
Jaime Starr.
- Chamo, sim, senhor.
- Não te conhecia, se não estivesse prevenido, meu rapaz! É
que em dez anos fizeste-te um homem às direitas.
- Pois eu conheci-o logo - respondeu o filho do velho
overman, que se conservava de chapéu na mão. - O senhor Jaime
Starr está na mesma. É ainda aquele engenheiro, nosso amigo,
que me abraçou no dia em que acabaram os trabalhos da
exploração! São coisas que nunca esquecem!
- Põe o teu chapéu, Harry - disse o engenheiro. - Chove a
cântaros, e a delicadeza não manda que a gente se constipe.
- Quer que nos abriguemos da chuva, senhor Starr? -
perguntou Harry Ford.


33

- Para quê? O tempo hoje não muda. Temos água para todo o
dia, e estou com pressa. A caminho, Harry.
- Às suas ordens - respondeu o rapaz.
- Diz-me lá, Harry, teu pai tem passado bem?
- Muito bem, senhor Starr.
- E tua mãe?
- Da mesma maneira.
- Foi teu pai que me escreveu, pedindo-me Para vir aqui?
- Não foi ele, fui eu.
- Mas então - perguntou com interesse o engenheiro -, foi
Simão Ford que me dirigiu a segunda carta, inutilizando as
primeiras indicações?
- Não, meu pai não escreveu carta alguma, senhor Starr.
- Bem... bem... - respondeu Jaime Starr, sem querer aludir
mais à carta anónima.
Depois acrescentou:
- E podes por acaso dizer-me o que pretende o velho Simão?
- Isso é negócio que ele próprio lhe deseja expor, senhor
Starr.
- Mas tu sabes da que se trata?
- Sei.
- Está bem, Harry, não te pergunto mais nada. A caminho, e
depressa, que estou morrendo por falar com Simão Ford. A
propósito, onde mora ele?
- Dentro da mina.
- O quê?! Dentro da mina?
- Decerto - respondeu Harry Ford.
- Como assim! Teus pais ficaram a residir ali, depois que
cessaram os trabalhos?
- E nunca mais vieram cá fora. O senhor Starr conhece bem
meu pai. Foi ali que se fez homem, é ali que deseja morrer.
- Percebo, Harry, percebo. Não quis afastar-se da sua
hulheira natal! E vivem lá satisfeitos?


34

- Vivemos, senhor Starr, porque não somos ambiciosos.
- Está bem, Harry - disse o engenheiro. - Agora a caminho.
E Jaime Starr, levando na frente o seu companheiro,
atravessou com rapidez as ruas de Callander.
Dez minutos depois achavam-se ambos fora da povoação.


CAPÍTULO IV


AS HULHEIRAS DE ABERFOYLE


HARRY FoRD era um rapaz de vinte e cinco anos, forte,
espadaúdo e bem parecido. A sua fisionomia um tanto séria e o
seu porte sempre grave tinha-o feito distinguir desde pequeno
entre os seus numerosos camaradas. De feições regulares, olhos
suaves e rasgados, cabelo farto e mais castanho de que louro,
tudo nele concorria para completar o verdadeiro Lowlanler,
isto é, tudo nele denunciava um soberbo espécime do escocês da
planície. Habituado desde os primeiros anos às fadigas do
ofício, era não só trabalhador vigoroso, como também um
companheiro agradável e de bom fundo. Aconselhado por seu pai,
e impelido pelos seus próprios instintos, começara cedo a
instruir-se e a ser homem, conseguindo fazer-se um dos
melhores mineiros numa idade em que apenas se é aprendiz e
numa nação onde se contam poucos ignorantes, porque se
empregam nela todos os meios para acabar com a ignorância. Se
de pequeno viu as mãos calejarem-se-lhe no trabalho, de
pequeno principiou também a dar ao estudo as horas necessárias
para vir depois a ser um dos primeiros na sua profissão. E
decerto haveria sucedido no emprego de seu pai, se a falta de
combustível não tivesse obrigado a companhia hulheira a
suspender a lavra das suas minas.
Jaime Starr ainda era um bom caminhador.


36


contudo, ficado para trás, se o seu guia se não decidisse a
moderar o passo de propósito.
A chuva já não caía tão torrencialmente. Os grossos pingos
de água pulverizavam-se antes de tocarem no solo. Pareciam
lufadas húmidas, agitando-se no ar impelidas por uma brisa
fresca.
Jaime Starr e Harry Ford - este levando na mão a pequena
bagagem do engenheiro - seguiram, durante cerca de uma milha,
a margem esquerda do Theit. Depois de terem percorrido as
sinuosidades da praia, tomaram por um caminho que se abria
diante deles entre árvores completamente alagadas pela chuva.
De um e outro lado do caminho estendiam-se vastíssimas
pastagens em redor de algumas granjas isoladas. Diferentes
rebanhos andavam pascendo em sossego a erva sempre fresca e
abundante destes prados da baixa Escócia.. Compunham-se esses
rebanhos: uns de vacas sem armaÇão, outros de pequenas ovelhas
de lã sedosa, que faziam lembrar os carneirinhos com que
brincam as crianças. Não se viam os pastores, recolhidos que
estavam nas locas do arvoredo; mas o colley, cão particular a
esta parte da Escócia e muito apreciado pela sua vigilância,
lá andava de guarda aos rebanhos.
O poço Yarow ficava situado a quatro milhas de Callander.
Jaime Starr, sem deixar de seguir o seu guia, não deixava
contudo de mostrar-se impressionado. Era a primeira vez que,
depois de uma tão longa ausência, tornava a passar por estes
sítios. A tranquilidade da vida agrícola viera substituir a
ruidosa animação da vida industrial. O contraste era tanto
mais frisante, quanto é certo que no Inverno sofrem os
trabalhos do campo uma certa paralisação. No bom tempo, fosse
qual fosse a estação, os mineiros animavam sempre estes
lugares, quer labutando no fundo das galerias, quer
empregando-se nos trabalhos de contramina. Os grandes
transportes de carvão cruzavam-se de noite e dia. Os carris,
enterrados agora sob as travessas apodrecidas, rangiam então
com o peso dos vagões.


37


O caminho, de terra e de brogal, substituíra pouco a pouco os
trâmueis de exploração! Jaime Starr supunha que atravessava um
deserto.
O engenheiro lançava em redor de si um olhar de tristeza. De
vez em quando parava alguns instantes para descansar. Tudo
estava silencioso. Já não se ouvia ao longe o silvo agudo das
locomotivas, nem a bulha compassada das máquinas de trabalho.
No horizonte não se divisavam esses rolos negros, que o
industrial tanto gosta de ver confundidos com a grande massa
das nuvens. Nenhuma dessas enormes chaminés cilíndricas où
prismáticas, enchendo a atmosfera de fumo, depois de se ter
alimentado com o carvão da própria hulheira, nenhum tubo de
descarga resfolegando o seu vapor esbranquiçado! O solo,
enegrecido anteriormente pelo pó da hulha, tinha agora um
aspecto de limpeza, contra a qual mentalmente se insurgia
Jaime Starr.
Se o engenheiro parava, parava também o seu guia. Harry Ford
ficava esperando em silêncio. O moço operário, adivinhando o
que se passava no espírito de Jaime Starr, sentia-se também
dominado por um grande sentimento de saudade. Não tinha ele,
filho da hulheira, vivido toda a sua vida nas entranhas deste
solo?
- Como está mudado tudo isto! - disse Jaime Starr. - Verdade
é que à força de explorar o terreno hulheiro, os tesouros que
ele continha deviam um dia esgotar-se. Lastimas esse tempo de
animação, Harry?
- Se lastimo, senhor Starr! - disse Harry. - O trabalho era
violento, mas atraía-nos, como sucede sempre quando se luta.
- Tens razão, meu rapaz. E lutava-se ali a todos os
instantes: era o perigo dos desabamentos, das inundações, dos
incêndios e das explosões de grisu que fulminam como o raio! E
era pouco todo o cuidado contra inimigos tão terríveis! Mas,
como tu dizes, lutava-se, e a luta é o movimento.


38


- Os mineiros de Aloa foram mais felizes que os de
Aberfoyle, senhor Starr!
- É verdade - respondeu o engenheiro.
- É para lastimar - exclamou o filho do overman - que o
globo terrestre não seja todo composto de carvão de pedra! Se
assim fosse, teríamos combustível para alguns milhares de
séculos.
- Decerto, Harry, mas é justo confessar que a Natureza se
mostrou previdente quando formou a Terra principalmente de
grés, de calcário e de granito, que o fogo não pode destruir.
- Quer o senhor Starr dizer que, se assim não fosse,
acabariam os homens por queimar o globo que habitamos!
- Sim, queimavam-no todo, meu rapaz - tornou Jaime Starr. -
A Terra teria ido alimentar, até ao seu último pedaço, as
fornalhas das locomotivas, das locomóveis, dos barcos a vapor,
das fábricas de gás, e seria assim que um belo dia havia de
desaparecer o nosso mundo!
- Estamos longe desse perigo - disse Harry -, mas também à
hulha há-de chegar a vez de se extinguir. E quem sabe se mais
cedo do que imaginamos!
- Assim terá de acontecer, meu rapaz, é por isso que a
Inglaterra faz muito mal em ceder o seu combustível pelo ouro
que as outras nações lhe dão em troca.
- Decerto - respondeu Harry.
- Eu bem sei - acrescentou o engenheiro - que a hidráulica e
a electricidade ainda não disseram a última palavra, e que lá
virá tempo em que se utilizem melhor estas duas grandes
forças. A hulha, contudo, é de uma aplicação muito prática, e
presta-se admíravelmente às necessidades da indústria. Por
infelicidade não está na mão dos homens produzi-la a seu
bel-prazer. Se as florestas exteriores rebentam e frondeiam
sob a dupla influência da água e do calor, as florestas
interiores, essas é que não se reproduzem, nem o globo poderá
jamais encontrar-se em condições de renová-las.



39


Jaime Starr e Harry, sem deixarem de conversar, tinham
continuado com rapidez o seu caminho. Uma hora depois da sua
saída de Callander, chegavam ambos às imediações da mina.
Que triste aspecto ela apresentava! Parecia uma triste e
desanimadora imagem do que fora antes um corpo cheio de vida!
Numa grande extensão, orlada de raquítico arvoredo, via-se
ainda o solo enegrecido pelo pó do carvão de pedra.
Sobre esse deserto solo não se encontrava a mais
insignificante parcela da imensa hulha que ali se acumulara.
Tudo tinha desaparecido há muito.
Sobre uma colina pouco elevada desLocava-se o contorno das
diferentes oficinas que o sol e a chuva - esses dois grandes
agentes do tempo - se iam encarregando lentamente de destruir.
Na extremidade de uma dessas oficinas via-se ainda um grande
malacate, e por baixo dele os enormes tambores sobre os quais
se enrolavam as maromas que traziam as caixas para fora dos
poços.
Na parte inferior da mesma oficina divisava-se a casa onde
tinham existido as máquinas, cujas peças de metal andavam tão
limpas e luzidias durante a época dos trabalhos. Por entre
vigas e barrotes, que a humidade para ali apodrecia,
notavam-se também alguns pedaços de parede já caídos.
Fragmentos de balanceiros, aos quais se prendia a haste das
bombas de esgoto, engrenagens com os dentes partidos, balanças
decimais caídas pelo chão, chumaceiros meio torcidos ou cheios
de ferrugem, barricas escangalhadas, alguns degraus ainda
presos por um dos lados aos cavaletes, dando-lhes a aparência
de grandes costelas de ictiossauros, carris desprendendo-se
dos coxins que já mal se seguravam sobre as travessas
carcomidas, trâmueis que não podiam resistir ao peso de uma
vagoneta vazia, tal era o aspecto desolador que a mina
apresentava da parte de fora.
As bordas dos poços, com as pedras desconjuntadas,
desapareciam sob o espesso mato de musgo.


40


Encontravam-se aqui as rodas quebradas de uma carroça. além os
destroços de um telheiro onde se armazenava o carvão para ser
apartado segundo o seu tamanho e qualidade. Pesos de ferro com
as argolas mal seguras, pequenas pontes com as estacas
abaladas, chapas fundidas que tinham feito parte de alguma
caldeira arrebentada, pranchas de madeira a desfazerem-se,
êmbolos torcidos, paredes rachadas, semelhando os canhões
modernos que têm a culatra cintada de anéis cilíndricos: todos
estes objectos infundiam um sentimento de abandono, de
miséria, de tristeza, que nunca provocam as ruínas do velho
solar, nem os restos de uma fortaleza desmantelada.
- Faz pena ver isto assim! - observou Jaime Starr, olhando
para Harry, que se deixou ficar calado.
Em seguida penetraram ambos no alpendre que cobria o poço
Yarow, por cujas escadas se podia descer para a travessa
Dochart.
O engenheiro inclinou-se sobre o orifício do poço.
Era por ali que saía dantes a forte coluna do ar aspirado
pelos ventiladores. Hoje este ponto representava apenas um
abismo silencioso. Parecia a boca impassível de algum vulcão
extinto.
Jaime Starr e Harry Ford puseram os pés no primeiro patamar.
Na época da exploração havia nas hulheiras de Aberfoyle
magníficos apareLhos aplicados aos seus poços, que nada tinham
que invejar aos melhores das outras minas:
eram as escadas oscilantes, chamadas engine-men, e as
gaiolas, guarnecidas de pára-quedas automáticos e grampadas
sobre corrediças de madeira, que permitiam aos mineiros descer
sem perigo e subir sem fadiga.
Estes aparelhos, porém, tinham sido retirados depois de
finda a exploração. Do poço Yarow ficara apenas uma longa
série de escadas separadas de cinquenta em cinquenta pés por
pequenos patamares. Eram trinta as escadas assim dispostas,
umas de encontro às outras, que facilitavam a descida até uma
profundidade de mil e quinhentos pés,


41


e era este o único meio de comunicação que então existia entre
o solo e a travessa DO arejamento, esse fazia-se pelo poço
Yarow, que, em correspondência com outro, cujo orifício,
aberto a um nível superior, dava livre passagem ao ar quente
que vinha de dentro.
- Vai tu adiante, meu rapaz - disse a Harry o engenheiro.
- Com todo o gosto, senhor Starr.
- Tens o teu candil?
- Tenho, mas permitisse Deus que, em vez dele, nos fôssemos
agora alumiando com a lanterna de segurança.
- Isso era bom - respondeu Jaime Starr. - Provaria que não
andava longe de nós o grisu, e que por consequência ainda a
mina encerrava combustível.
Harry trazia apenas o candil ordinário de azeite, cuja
torcida acendeu. Numa hulheira completamente esgotada não
podiam dar-se fugas de grisu. Por consequência não havia
receio de explosões, nem precisão de interpor entre a luz e o
ar ambiente essa rede de metal que impede o gás de se inflamar
exteriormente. A lâmpada de Davy, tão aperfeiçoada já a este
tempo, não tinha aqui razão de ser utilizada.
Harry desceu os degraus da primeira escada. Jaime Starr fez
outro tanto. Dali a segundos achavam-se ambos no meio de uma
profunda escuridão, cortada apenas pela frouxa claridade do
candil.
Desceram assim umas dez escadas com o Passo compassado,
habitual ao mineiro.
As escadas estavam ainda em bom estado de conservação.
À luz escassa do candil, Jaime Starr ia examinando as
escuras paredes do poço, ainda revestidas de um madeiramento
já meio apodrecido.
Chegados ao décimo quinto patamar - a metade justamente da
descida -, Harry e jaime Starr pararam um momento.


42


- Decididamente já não tenho as tuas pernas, meu rapaz! -
disse o engenheiro, custando-lhe a respirar. - Entretanto,
isto há-de ir até ao fim.
- O senhor Starr ainda está vigoroso - respondeu Harry. -
Deve isso com certeza a ter passado na mina tantos anos.
- Quando eu tinha a tua idade, Harry, era capaz de descer o
poço de uma assentada. Vamos lá para diante.
No momento em que Harry e Jaime Starr se propunham a descer
outra escada, ouviu-se uma voz que vinha do fundo do poço.
Essa voz, que se tornava cada vez mais nítida, ia subindo,
subindo como se fosse uma onda sonora.
- Que voz será aquela? - perguntou o engenheiro.
- Não sei - respondeu Harry.
- Não é teu pai?
- Não, decerto, senhor Starr.
- Talvez algum vizinho?
- Não tenho vizinhos lá em baixo - tornou Harry.
- Então deixemos passar o desconhecido - observou Jaime
Starr. - Os que descem é que devem dar lugar aos que sobem.
Ambos se puseram à espera.
A voz percebia-se já perfeitamente. Parecia ser transmitida
por um pavilhão acústico. Harry chegou enfim a ouvir
pronunciar nitidamente alguns versos de uma trova escocesa.
- A canção dos lagos! - exclamou ele. - Já sei quem sobe,
senhor Starr. Aquela voz é a do meu amigo Jack Ryan.
- E quem é esse Jack Ryan que tão bons pulmões mostra
possuir? - perguntou o engenheiro.
- Um antigo companheiro da mina - replicou Harry.
Depois, dirigindo-se para baixo:
- És tu, Jack? - perguntou com força.
- És tu, Harry? - responderam-lhe das escadas inferiores.


43


- Espera um momento, que não tardo a estar contigo.
E a mesma voz tornou a entoar com força a mesma canção.
Alguns minutos depois, aparecia no fundo do cone luminoso,
projectado pelo seu candil, um rapaz de vinte e cinco anos,
alto, cara alegre, olhar simpático, boca risonha e cabelo de
um louro deitando para ruivo.
Ao pôr os pés no patamar da décima quinta escada, a primeira
coisa que fez o recém-chegado foi apertar vigorosamente a mão
que Harry lhe estendia.
- Ainda bem que te encontro! - exclamou ele. - Deus me
perdoe! Se eu soubesse que tinhas saído hoje da mina, teria
poupado às minhas pernas o trabalho de subir e descer estas
escadas.
- Apresento-te o senhor Jaime Starr - disse então Harry,
aproximando o seu candil do engenheiro, que se conservava
afastado.
- O nosso antigo engenheiro? - perguntou Jack Ryan. - Ah!
senhor Starr, acredite que o não tinha reconhecido. Desde que
deixei de trabalhar na hulheira, os meus olhos perderam
completamente o hábito de ver às escuras.
- Agora, agora me lembro de um rapazito que passava os dias
sempre a cantar. Eras tu, pois não eras?
- Em pessoa, senhor Starr, e se mudei de ofício, pode
acreditar que não mudei de génio. Rir e cantar sempre é melhor
que ser resmungão, ou passar por choramingas.
- Decerto, Jack Ryan. E que fazes agora?
- Trabalho na herdade de Melrose, que fica perto de Irvine,
a quarenta milhas daqui, no condado de Renfrew. Mas tenho pena
das nossas queridas hulheiras, palavra! Gostava mais de
manejar a barrena do que a enxada. Além disso, dentro da mina
havia sempre muitos ecos para me transmitirem as cantigas, ao
passo que lá por cima!... Mas pelo que vejo, o senhor Starr
vai visitar o velho Simão?


44


- Vou - respondeu o engenheiro.
- Nesse caso não quero demorá-lo.
- Olha lá, Jack - atalhou Harry. - O que foi que te trouxe
cá?
- Em primeiro lugar, ver-te - respondeu Jack Ryan -, depois
convidar-te para as festas do clã(1) de Irvine. Bem sabes que
sou o ier(2) daqueles arredores. Há-de cantar-se e dançar-se
até não se poder mais.
- Obrigado, Jack, mas não contes comigo.
- Porquê?
- A visita do senhor Starr pode prolongar-se, e tenho de ir
acompanhá-lo a Callander.
- Mas as festas de que te falo são para daqui a oito dias. A
visita do nosso antigo engenheiro não vai decerto durar todo
esse tempo.
- Aceita o convite do teu amigo - aconselhou Jaime Starr.
- Pois bem, aceito, Jack - disse Harry. - Dentro de oito
dias encontrar-nos-emos nas festas de Irvine.
- Está combinado - respondeu Jack Ryan. - Adeus, Harry. Um
seu criado, senhor Starr. Gostei deveras de o tornar a ver!
Vou dar notícias suas a alguns dos nossos antigos
companheiros. Por cá ainda todos se lembram do senhor.
- Também eu me lembro de vocês, rapazes - respondeu Jaime
Starr.
- Obrigado, em nome da classe - acrescentou Jack Ryan.
- Adeus, Jack - disse Harry, apertando pela última vez a mão
do seu amigo.
E Jack Ryan, recomeçando a toda a voz a sua canção,
desapareceu rapidamente pelas escadas superiores, que o seu
candil a custo alumiava.


*1 Tribo escocesa formada por um certo número de famllias.
(N: do T.)
2. Tocador de gaita-de-foles na Escócia. (N. do T.)


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Um quarto de hora depois, Harry e Jaime Starr tocavam com os
pés o fundo do poço Yarow.
Da meia-laranja que o cercava partiam diversas galerias que
tinham sido abertas para a exploraÇão do último filão
carbonífero. Estas galerias dilatavam-se pela massa de xistos
e de grés, umas escoradas por trapézios de grossas vigas mal
aparelhadas, outras sustidas por um duplo e valente reforço de
alvenaria. Os aterros substituíam por toda a parte os filões
completamente exauridos pela exploração.
Os pilares artificiais que sustentavam o solo, isto é, os
pilares que suportavam os terrenos terciários e quaternários,
depois de abertas as galerias, eram feitos de pedras
arrancadas às pedreiras mais próximas.
Era completa a escuridão que enchia agora estes
subterrâneos, iluminados nos últimos tempos da exploraÇão com
o brilho da luz eléctrica. Sobre os carris dos sombrios túneis
já não se ouvia o rumor produzido pelas rodas das vagonetes.
Nas solitárias galerias um silêncio profundo, um silêncio de
meter medo, substituía as vozes dos operários, o relinchar dos
cavalos e das mulas, os golpes da picareta e o estampido das
explosões que faziam estalar as rochas.
- Quer descansar um pouco? - perguntou Harry ao engenheiro.
- Não quero - respondeu Jaime Starr. - Estou com pressa de
ver teu pai.
- Siga-me então, senhor Starr. Vou guiá-lo por estas
encruzilhadas, se bem que não lhe fosse difícil atinar por si
próprio com o caminho.
- Decerto. Conservo ainda de memória todo o plano da
hulheira.
Harry, seguido de Jaime Starr, e levando erguido o candil
para assim se ver melhor, tomou então por uma elevada galeria:
que fazia lembrar a nave de uma catedral.


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Os pés de Harry e do engenheiro iam tropeçando nas travessas
que durante a época dos trabalhos suportavam as calhas dos
trâmueis.
Não tinham, porém, andado cinquenta passos, quando uma
grande pedra veio cair junto de Jaime Starr.
- Tome cuidado, senhor Starr! - bradou Harry, agarrando o
engenheiro pelo braço.
- Pelo que vejo, Harry, a abóbada destas galerias já não tem
a mesma solidez de outros tempos.
- Senhor Starr - atalhou Harry -, Parece-me que aquela pedra
não se desprendeu, foi arremessada por mão de homem!
- Arremessada?! - exclamou Jaime Starr. - Que dizes tu, meu
rapaz?
- Nada... não digo nada - respondeu Harry, cujo olhar agora
sério parecia querer varar aquelas sombrias solidões. -
Continuemos o nosso caminho. Aqui tem o meu braço. Encoste-se
bem a ele, que não cai.
- Aceito, Harry.
E ambos continuaram a avançar, estendendo Harry para trás de
vez em quando o seu candil, como desejando encontrar uma
explicação para aquele caso misterioso.
- Ainda nos falta muito? - perguntou o engenheiro.
- Dez minutos apenas de caminho.
- Bom.
- Contudo - murmurou Harry -, acho extraordinário o que
ainda há pouco sucedeu. Como foi que a pedra veio cair
justamente no momento em que passávamos?
- Não quebres a cabeça em conjecturas, meu rapaz. Atribui
tudo ao acaso, que é o melhor.
- Ao acaso? - observou Harry em ar de dúvida. - Não me
convenço de que o acaso...
Harry parou de súbito e aplicou o ouvido.
- Que há? - perguntou o engenheiro.
- Parece-me sentir passos atrás de nós - retorquiu Harry,
que redobrava de atenção e vigilância. - Foi engano -
acrescentou pouco depois. - Já lhe disse, senhor Starr:


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pode encostar-se bem ao meu braço, Faça de conta que sou o seu
bordão.
- E que bordão! - respondeu Jaime Starr. - O melhor bordão
que há... o dos teus vinte e cinco anos, meu valente rapaz!
Harry, visivelmente preocupado, voltava-se a medo ,
procurando surpreender, quer um indeciso clarão, quer um ruído
afastado.
Contudo, em redor dele o silêncio era absoluto e a treva
impenetrável.



CAPÍTULO V


A FAMÍLIA FORD


DEz minutos depois, Jaime Starr e Harry Ford conseguiam
sair da galeria principal.
O engenheiro e o seu guia tinham penetrado, enfim, na
travessa Dochart, em cuja extremidade existia uma escura e
vasta escavaÇão, que não podia considerar-se absolutamente
privada de luz. Esta escavação, rasgada na massa de xisto,
recebia alguns raios luminosos pelo orifício de um poço aberto
nos andares superiores. Era por meio deste conduto que a
corrente de arejamento se estabelecia na hulheira. O ar quente
do interior, esse, devido à sua menor densidade, saía pelo
poço Yarow.
Nesta vasta escavação, onde tinham funcionado as poderosas
máquinas destinadas a operar a tracção mecânica das galerias,
é que Simão Ford estabelecera, havia dez anos, a sua
permanente residência.
Graças a uma certa mediania, adquirida em longos anos de
trabalho, Simão Ford poderia, se quisesse, ter vivido, à luz
do Sol e no meio de árvores, em qualquer povoação do Reino
Unido. Mas tanto ele como os seus, participando em comum das
mesmas ideias e sentimentos, achavam preferível ficar a
residir na hulheira, onde todos viviam felizes. Esta
modestíssima habitação, enterrada mil e quinhentos pés abaixo
do solo, que para outros seria aborrecida, era para eles
extremamente agradável.


49


Entre outras vantagens, a família Ford não tinha a temer que
os stentmaters, encarregados de lançar o imposto da capitação,
fossem ali importuná-la.
A este tempo o velho overman Simão Ford contava, ainda cheio
de vigor, os seus sessenta e cinco anos. Alto, robusto e bem
proporcionado, Simão Ford podia considerar-se como um dos
notáveis Sawneys(1) do distrito que tão bons soldados
costumavam dar aos regimentos de Highlanders(2).
Simão Ford pertencia a uma antiga família de mineiros, cuja
genealogia remontava aos primeiros tempos em que foram
explorados os depósitos carboníferos da Escócia.
Sem investigar arqueologicamente se os Gregos e os Romanos
fizeram uso da hulha, se os Chineses se utilizaram das minas
de carvão de pedra muito antes da era cristã, sem discutir se
o combustível mineral deve realmente o nome que tem ao
ferrador Houillos, que vivia na Bélgica pelo século
XII,pode-se, contudo, afirmar que as bacias hulheiras da
Grã-Bretanha foram as primeiras cuja exploração se encetou
regularmente. No século xI já Guilherme o Conquistador dividia
entre os seus companheiros de armas o produto dos jazigos de
Newcastle. No século xIII apareceu também Henrique III
concedendo licença para ser explorado o "carvão marinho".
Finalmente, nos últimos anos desse mesmo século já começa a
fazer-se menção dos depósitos da Escócia e do principado de
Gales.


*1. Dá-se ao escocês a designação de Sawney, como ao inglês
a de John Bill e ao irlandès a de Paddy. (N. do T.)
2. Highlanders são os habitantes da parte setentrional e
montanhosa da Escócia, que se chama Highlands (Terras Altas),
da mesma forma que Lowlanders são os habitantes da parte
meridional do dito país. Chamada Lowlands (Terras baixas), Os
Highlanders passam por ser dos melhores soldados do exército
Britânico. (N, do T.)
3. Outros autores há que derivam a palavra hulha do velho
termo saxónio hulla, com que os Aiemies designavam este
géFord. Era ela quvel. (N. do T.)


50 - 51


Foi por esse tempo que os antepassados de Simão Ford
penetraram nas profundezas do solo caledoniano, para, de pai
em filho, nunca mais dali saírem. De princípio esses homens
eram apenas grosseiros operários, que trabalhavam como
forçados na extracção do precioso combustível. Julga-se até
que os mineiros de carvão de pedra, bem como os salineiros
dessa época, não passavam de simples escravos. Efectivamente,
no séCulO XVIII estava em Inglaterra tão arreigada esta
opinião que, durante a guerra do Pretendente, chegou mesmo a
recear-se que vinte mil mineiros de Newcastle se sublevassem
para reconquistarem uma liberdade que não supunham possuir.
Seja como for, Simão Ford sentia-se orgulhoso de pertencer a
esta grande família de mineiros escoceses.
À maneira de seus ascendentes, havia também manejado de
pequeno a picareta e o alvião. Aos trinta anos já era um dos
overman das hulheiras de Aberfoyle. verdadeiramente dedicado
ao seu ofício, exerceu sempre com zelo as funções que lhe
cabiam. Só um desgosto Lhe tinha pesado nos últimos tempos da
exploração: era ver que o jazigo se empobrecia sensivelmente,
e que não tardaria o momento de ele deixar de produzir.
Foi por isso que Simão Ford se lançou tenazmente à procura
de novos filões. Auxiliado pelo seu instinto de mineiro,
chegou a descobrir ainda alguns veios carboníferos. A sua
longa prática nunca o iludia, e o engenheiro Jaime Starr
apreciava-lhe muito essa boa qualidade.
Dir-se-ia que o velho overman adivinhava a existência dos
jazigos, como um hidróscopo adivinha o sítio onde, debaixo da
terra, se ocultam as nascentes de água.
Chegou, porém, um momento, como já se sabe, em que a matéria
combustível faltou de todo na hulheira. As sondagens não
acusaram nenhum novo jazigo. A exploração teve de cessar.
Viram-se os mineiros obrigados a sair.
À maior parte deles custou imenso uma tal separação. Todos
que sabem quanto o homem se habitua ao trabalho, não hão-de
estranhar decerto este sentimento de mágoa. Simão Ford foi um
dos que mais se afligiram. Tipo de mineiro por excelência,
julgava a sua vida presa à sorte da hulheira. Habituado a ela
desde a infância, não teve coragem de abandoná-la, mesmo
depois de terminada a exploração. E deixou-se ficar.
Encarregou seu filho Harry do cuidado de abastecer a casa, e,
num período de dez anos, talvez não viesse dez vezes
contemplar o céu e as estrelas à superfície do solo.
Costumava dizer: "Ir lá acima!... Para quê?" e prometia a si
mesmo não tornar mais a sair da sua querida habitação.
Vivendo sempre neste meio perfeitamente sadio e sujeito a
uma temperatura regular, o velho overman nem conhecia os
calores do Estio nem os frios do Inverno. A sua pequena
família também gozava de saúde. Que mais podia ele desejar
Interiormente, porém, ralava-o um desgosto. Tinha saudades do
tempo passado, daquele tempo em que a vida e o movimento
alegravam os trabalhos da hulheira.
Entretanto, havia uma ideia fixa que o não largava.
- É impossívell... Ia jurar que a hulheira não está
esgotada! - dizia ele muitas vezes.
E mal daquele que diante de Simão Ford se atrevesse a
sustentar o contrário. A sua ideia fixa era deparar com algum
novo jazigo, que fizesse restituir à mina o seu antigo
esplendor. Como ele folgaria, sendo preciso, de tornar a
manejar a picareta! Como os seus velhos braços se sentiam
ainda fortes e vigorosos para atacar de frente as rochas
subterrâneas! Possuído deste pensamento, não passava um único
dia sem ir revistar as desertas galerias, ora só, ora na
companhia do filho, para depois voltar a casa, fatigado sim,
porém não esmorecido.
Chamava-se Madge, a digna companheira de Simão Ford.


52


Era alta e forte a goodwife, a boa mulher, conforme indica a
expressão escocesa. À semelhança de seu marido, Madge também
não quis abandonar a hulheira. Neste ponto compartilhava todas
as esperanças de Simão Ford. Era ela quem diariamente o
influía para não desistir do seu plano, quem o incitava a
prosseguir com tenacidade na empresa, e de tal arte lhe dizia
estas coisas que o velho overman redobrava de energia ao
escutar as graves reflexões da boa Madge.
- Aberfoyle não morreu, meu Simão - ponderava ela. - Tu é
que não te enganas. O que os outrus julgam que é a morte, é
apenas um sono prolongado.
Madge não aspirava também às distracções da vida exterior,
concentrando a felicidade da sua existência de mãe e de esposa
no fundo desta sombria morada.
Foi a essa morada que chegou finalmente o engenheiro.
Jaime Starr era previamente esperado. Apenas o candil de
Harry lhe fez ver de longe o seu antigo viewer, Simão Ford,
que estava de pé à entrada da porta, correu logo para ele de
braços abertos.
- Seja bem-vindo, senhor Jaime! - bradou Simão Ford com uma
voz que se repercutiu através das abóbadas de xisto. - Seja
bem-vindo à casa do seu antigo overman! Lá porque a família
Ford reside a mil e quinhentos pés de profundidade, não é isso
razão para que ela receba menos cortês e hospitaleiramente os
seus velhos e bons amigos.
- Como passas, meu bom Simão? - perguntou Jaime Starr,
lançando-se nos braÇos que o seu hóspede lhe estendia.
- Perfeitamente, senhor Starr. E como se poderia aqui passar
mal ao abrigo de todas as intempéries do ar? As senhoras de
Edimburgo, que vão banhar-se durante o Verão a Newhaven e
Porto-Belo, faziam muito melhor se viessem antes aqui passar
alguns meses! Ao menos estariam a coberto das constipações que
podem apanhar, tanto nas praias, como nas ruas húmidas da
velha capital.


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- Não serei eu que te contradiga, Simão - respondeu Jaime
Starr, satisfeito de encontrar o overman tal como ele era
antigamente. - Eu mesmo na verdade não sei por que me não
decido a trocar a minha casa de Canongate por uma habitação
próxima da tua.
- Quem dera isso, senhor Starr! Conheço até um dos seus
antigos mineiros, que se julgaria extremamente feliz se o
tivesse por vizinho de ao pé da porta.
- E Madge? Onde está ela? - perguntou o engenheiro.
- A minha velha ainda passa melhor do que eu, se é possível
- replicou Simão Ford. - Se visse como ela está alegre de o
ter hoje à nossa mesa!... Eu sei lá!...
Creio que para o receber como quem é, vai para aí
apresentar-nos algum banquete de pessoa real.
- Veremos isso, meu amigo, veremos isso! - disse o
engenheiro, a quem a perspectiva de um bom almoço não podia
ser indiferente depois de tão grande caminhada.
- Está com apetite, senhor Starr?
- Se estou, meu velho Simão! A madrugada abriu-me a vontade
de comer. Demais a mais viemos por aí fora com um tempo
horroroso.
- Ah! chove lá por cima! - respondeu Simão Ford com ar de
ligeira zombaria.
- Se chove! As águas do Forth estão hoje mais agitadas que
as do mar do Norte em dia de temporal.
- Pois aqui, senhor Jaime, nunca chove! Mas que necessidade
tenho de estar a descrever-lhe vantagens que o senhor deve
conhecer tão bem como eu? O principal foi termos o prazer da
sua visita, por isso lhe repito ainda uma vez: seja bem-vindo.
Simão Ford, acompanhado de Harry, convidou Jaime Starr a
entrar na sua habitação.


55


O engenheiro achou-se a meio de uma vasta casa de jantar,
alumiada por diferentes lanternas - uma das quais suspensa das
traves do tecto, que eram pintadas.
A mesa, respirando asseio e coberta por uma alvíssima toalha
com barras de cores muito vivas e alegres, apenas esperava
pelos convivas, a quem estavam reservadas quatro cadeiras de
couro.
- Muito bons dias, Madge - disse o engenheiro.
- Muito bons dias, senhor Jaime - respondeu a boa da
escocesa, levantando-se para cumprimentar o seu hóspede.
- Creia que tenho imenso prazer de tornar a vê-la, Madge.
- São favores, senhor Jaime. Eu é que folgo de me encontrar
novamente com uma pessoa que me tratou sempre tão bem.
- O almoço arrefece, Madge - disse então Simão Ford -, e não
é justo que façamos esperar o senhor Jaime, que está com uma
fome de mineiro. Havemos de mostrar-lhe hoje como é que,
devido aos cuidados do nosso rapaz, temos sempre a despensa
bem fornecida. A propósito, Harry - acrescentou o velho
overman, voltando-se para o filho -, tenho a dar-te uma
novidade. Jack Ryan veio cá para te ver.
- Já sei, meu pai. Encontrámo-lo no poço Yarow.
- É um excelente companheiro, sempre alegre e folgazão -
disse Simão Ford. - Parece que se dá muito bem lá por cima!
Aquilo não tinha nas veias legítimo sangue de mineiro. Para a
mesa, senhor Jaime, e é comer a fartar, porque talvez não nos
tornemos a reunir aqui hoje senão lá para a noite.
No momento em que iam sentar-se, Jaime Starr disse,
dirigindo-se a Simão:
- Espera, Simão: queres que eu coma com apetite?
- Será isso o nosso maior prazer, senhor Starr - respondeu o
velho mineiro.


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- Nesse caso, é preciso que não haja da nossa parte, da
minha em especial, a menor preocupação. Ora eu tenho duas
perguntas a fazer-te.
- Diga, senhor Jaime.
- A tua carta falou-me de uma comunicação da mais alta
importância.
- Assim é, com efeito.
- E essa comunicação interessa-te directamente?
- Interessa-me tanto a mim como ao senhor. Mas não desejo
fazer-lha senão depois de termos almoçado e no próprio lugar
que se relaciona com ela. Preciso destas restrições, quando
não o senhor Jaime não ousará acreditar-me.
- Simão - replicou o engenheiro - olha bem para mim e não
desvies os olhos dos meus. Diz-me: essa comunicação é assim
muito importante?
Simão Ford, sem baixar os olhos, fez um sinal afirmativo.
- Está bem, não quero saber mais nada - acrescentou Jaime
Starr, como se tivesse lido a resposta que desejava no olhar
firme do velho overman.
- E qual era a segunda pergunta? - disse este.
- Saber-me-ás explicar, Simão, quem foi que me es creveu
isto?
E o engenheiro apresentou a carta anónima que recebera em
Edimburgo.
Simão Ford pegou na carta e leu-a com atenção.
Depois, mostrando-a ao filho, ajuntou:
- Conheces esta letra?
- Não conheço - respondeu Harry.
- E esta carta levava a marca do correio de Aberfoyle? -
perguntou Simão Ford ao engenheiro.
- Levava, sim. Exactamente como a tua - respondeu Jaime
Starr.
- Que pensas disto, Harry? - disse Simão Ford, cujo parecer
denunciou uma certa inquietação.


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- Penso, meu pai - respondeu Harry -, qe alguém teve empenho
em impedir que o senhor Jaime Starr aceitasse o nosso convite.
- Mas quem? - exclamou o velho mineiro. - Quem se atreveria
assim a devassar o íntimo dos nossos pensamentos?
E Simão Ford deixou-se cair numa espécie de cogitação, a
quem a voz de Madge veio pôr termo.
- Sentemo-nos, senhor Starr - disse ela. - É tempo de
começarmos a almoçar. Não se pense mais por agora nessa carta.
Em seguida, cada um tomou o seu lugar à mesa: Jaime Starr em
frente de Madge, o filho em frente do pai.
O almoço reunia todas as características de uma agradável
refeição escocesa.
Começava por um hotchpotch, sopa em que a carne anda a nadar
no meio de um excelente caldo. Segundo a opinião do velho
overman, sua mulher não tinha rival na maneira de fazer o
hotchpotch.
Podia-se dizer o mesmo do cockyleeky, espécie de guisado de
capão, adubado cõm alhos, que também estava delicioso.
Estes dois pratos magníficos foram acompanhados de uma ale
magnífica, procedente das melhores cervejarias de Edimburgo.
O prato principal consistia, porém, num haggis, pudim
nacional feito de carnes e de farinha de cevada. Este nõtável
manjar, que inspirou ao poeta Burns uma das suas melhores
odes, teve a sorte reservada ás coisas mais formosas deste
mundo: passou depressa, como um sonho.
A boa Madge foi sinceramente cumprimentada pelo seu hóspede.
O almoço terminou por uma sobremesa composta de queijo e de
cakes, bolos de aveia muito bem preparados, seguindo-se por
último uns copinhos de usquebauglz, excelente aguardente de
cereais, que tinha vinte e cinco anos - exactamente a idade de
Harry.


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O almoço havia-se prolongado por mais de uma hora. Jaime
Starr e Simão Ford não tinham só comido bem: tinham também
conversado muito, principalmente acerca do passado das velhas
hulheiras de Aberfoyle.
Harry, pela sua parte, poucas palavras dissera. Por duas
vezes se levantara da mesa, chegando até a sair da casa de
jantar. Percebia-se que o filho do overman ficara
impressionado com o incidente da pedra, pelo que desejava
observar os arredores da habitação. A carta anónima também
concorria para lhe inquietar o espírito.
Foi durante uma dessas saídas que o engenheiro disse a Simão
Ford e a sua mulher:
- É um rapaz como há poucos este Harry.
- Se é, senhor Jaime! Não há melhor coração que o dele! -
respondeu com certo orgulho o overman.
- E vive aqui satisfeito?
- Não nos deixa por coisa nenhuma.
- Entretanto precisam pensar em casá-lo.
- Casar o nosso Harry! - exclamou Simão Ford. - E com quem?
Com alguma rapariga lá de cima, que só pensasse em festas e
bailes, preferindo o seu clã à nossa hulheira! Harry não
quereria uma noiva por tal preço.
- Contudo, Simão - respondeu Madge -, tu não deves exigir
que o nosso Harry fique solteiro toda a vida.
- Eu não exij o nada - tornou o velho mineiro -, mas o
negócio não é urgente. Quem sabe porventura se nós não lhe
acharemos...
Harry entrou neste momento e Simão Ford calou-se.
Quando Madge se levantou da mesa, todos a imitaram, e vieram
sentar-se um instante para a porta da entrada.
- Agora pode falar, Simão - disse o engenheiro. - Todo eu
sou ouvidos.
- Não é dos seus ouvidos que eu preciso, senhor Jaime, é das
suas pernas - ponderou Simão Ford. - Vamos a saber: isso agora
já está melhor de forças?


59


- Já. E depois do almoÇo que me deu tua mulher, até me sinto
capaz de te acompanhar aonde queiras levar-me.
- Harry - disse o velho overman voltando-se para o filho -,
acende as nossas lanternas de segurança.
- Lanternas de segurança! - exclamou Jaime Starr
surpreendido, visto não haver que recear as explosões de grisu
numa hulheira absolutamente exausta de carvão.
- É por prudência, senhor Jaime!
- Se te parece, exige também que eu vista um fato de
mineiro.
- Por ora não, senhor Jaime, por ora não! - acudiu o veLho
overman, cujus oLhos brilhavam com intensidade por debaixo das
suas órbitas profundas.
Harry, que se tinha ausentado por um instante, voltou logo
depois, trazendo três lanternas de segurança.
Harry deu uma das lanternas ao engenheiro, entregou outra a
seu pai e guardou a terceira para si, suspendendo-a na mão
esquerda, enquanto com a direita se armava de um pau comprido.
- A caminho! - bradou Simão Ford, que pegou numa boa
picareta, encostada à entrada da porta.
- A caminho! - repetiu o engenheiro. - Até logo, Madge!
- Que Deus vos acompanhe e guarde - disse a escocesa.
- Madge! - exclamou Simão Ford -, prepara-nos um bom jantar
para a volta, ouviste! Lembra-te que havemos de vir com fome!




CAPÍTULO VI


CASOS EXTRAORDINÁRIOS


Sabe-se como estão arreigadas as crenças supersticiosas
nas Terras Altas e Baixas da Escócia. Em certos clãs, os
rendeiros do laird(1), quando se reúnem ao serão, costumam
entreter-se a contar histórias extraídas na maior parte do
vasto reportório da mitologia hiperbórea. A instrução, se bem
que larga e liberalmente espalhada neste país, ainda não
conseguiu reduzir ao estado de ficções a infinidade de lendas
peculiares ao solo da velha Caledónia. Aquela ainda é a terra
dos espíritos e das almas do outro mundo, das fadas e dos
duendes. Além do génio maligno, que nunca se afasta das
habitações sem se Lhe fazerem oferendas de dinheiro, costumam
ali aparecer: o Seer, que tem o dom da previsão para anunciar
os que hão-de morrer breve; o May Moullach, que toma as formas
de uma rapariga com braços felpudos e previne as famílias das
desgraÇas que lhes estão iminentes; a fada Branshie, que
prediz os acontecimentos funestos; os Brawnies, a quem se
confia a guarda dos móveis de uma casa; e o Urisk, que aparece
mais frequentemente nos desfiladeiros do lago Katrine;


*1. Senhor, na Escócia, de um feudo ou domínio territorial
que se arrenda. (N. do T.)


61


afora muitos outros espíritos, de diversas categorias.
É escusado dizer que as hulheiras escocesas deviam
contribuir com um grande contingente de lendas e de fábulas
para este reportório mitológico. Se as montanhas das Terras
Altas se mostram povoadas de seres quiméricos, uns bons e
outros maus, com maior razão deviam essas legiões de espíritos
frequentar as profundas galerias das minas carboníferas. Quem
faz estremecer o jazigo durante as noites de trovoada, quem
indica o rasto do filão ainda por explorar, quem inflama o
grisu e preside às terríveis explosões senão algum génio
particular às hulheiras?
É esta, pelo menos, a opinião mais geralmente espalhada
entre os supersticiosos mineiros da Escócia. A maior parte
deles pende de bom grado para o fantástico, embora se trate de
causas puramente físicas, e se alguém pretendesse
desiludi-los, perderia o seu tempo com certeza, Onde acharia a
credulidade melhores disposições para medrar do que no fundo
destes abismos subterrâneos?
Ora as hulheiras de Aberfoyle, pelo facto de existirem no
país das lendas, não podiam deixar de se prestar à influência
do maravilhoso.
As lendas davam-se ali perfeitamente. Diga-se, porém, que
certos fenómenos, até então inexplicáveis, concorreram para
aumentar a credulidade dos mineiros.
Na primeira fila dos supersticiosos contava-se Jack Ryan, o
jovem companheiro de Harry Ford. Em toda a Escócia não havia
outro partidário mais acérrimo de casos maravilhosos. História
de fantasmas ou almas penadas que Lhe chegassem aos ouvidos,
era logo por ele transformada em trova para sua maior glória
nos compridos serões do Inverno.
Jack Ryan tinha porém muitos sócios na credulidade. Todos os
outros mineiros afirmavam que as hulheiras de Aberfoyle eram
habitadas por certos entes impalpáveis que ali apareciam a
miúdo.


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E o mais é que, depois de se ouvirem as descrições que estes
homens faziam, quase se era obrigado a tomá-las como
plausíveis. Efectivamente, não há lugar mais adequado que o
fundo de uma hulheira para essas danças e folguedos dos
génios, dos trasgos, das fadas, dos duendes e de tantas outras
personagens que figuram nos dramas de imaginação. Se a cena
estava armada por si mesma, porque não haviam de aproveitá-la
para as suas representações essas companhias de artistas
invisíveis? Era assim que Jack Ryan e os seus companheiros
raciocinavam sobre o caso.
As hulheiras de Aberfoyle estavam todas em comunicação por
meio das galerias que se tinham rasgado entre os filões. Por
debaixo do condado de Stirling existia, pois, uma extensa
massa, cortada de poços e túneis, uma espécie de hipogeu, ou
de labirinto subterrâneo, oferecendo o aspecto surpreendente
de um grandioso formigueiro.
Os mineiros das diferentes galerias encontravam-se pois a
miúdo, quer quando iam para o trabalho, quer quando voltavam
dele. Resultava daqui poderem facilmente conversar uns com os
outros, fazendo correr à vontade as histórias cuja origem
provinha da própria hulheira. As narrações transmitiam-se
assim rapidamente, ganhando em maravilhoso à proporção que
passavam de boca em boca.
Havia porém dois mineiros mais instruídos e de temperamento
mais sólido que tinham sempre resistido a esta alucinação, não
querendo admitir por maneira alguma a interferência
maravilhosa dos duendes e das fadas nos diversos actos da
vida.
Estes dois mineiros eram Simão Ford e seu filho, que
mostraram bem o seu desprezo pela superstição, continuando a
viver no fundo da sombria hulheira, mesmo depois de terminados
os trabalhos.
Talvez que a boa Madge, como todas as escocesas das Terras
Altas, sentisse uma certa queda para o maraviLhoso.


63


Mas, por falta de ouvintes na família, era obrigada a contar a
si mesma essas histórias sobrenaturais - encargo que ela
desempenhava conscienciosamente, para não prejudicar as velhas
tradiÇões.
Simão e Harry Ford, ainda mesmo quando fossem tão crédulos
como os seus camaradas, dificilmente largariam a hulheira à
discriÇão dos génios e das fadas. A esperança de descobrirem
um novo filão tê-los-ia feito arrostar com todas as falanges
de duendes. A sua credulidade e a sua crença consistiam só num
ponto, é que não podiam admitir que estivessem completamente
esgotados os jazigos carboníferos de Aberfoyle. Simão Ford e
seu filho tinham a esse respeito uma confianÇa ilimitada, uma
dessas confianças que nada consegue abalar.
Aí está porque havia dez anos que o pai e o filho,
obstinados e inflexíveis nas suas convicções, não tinham
deixado passar um só dia sem se munirem das suas picaretas e
candis para irem ambos percorrer as galerias, investigando
tudo, e muitas vezes atacando a rocha por meio de golpes
isolados, a fim de ver se ela produzia algum som prometedor.
Enquanto as sondagens não fossem dirigidas até à massa
granítica do terreno primário, Simão e Harry Ford entendiam
que as suas investigações, inúteis hoje, podiam amanhã
tornar-se proveitosas, e que portanto não convinha largar mão
delas um só dia. Ambos estavam decididos a passar por ali a
vida, esperando restituir ainda à hulheira a sua primitiva
prosperidade. Se o pai tivesse de sucumbir antes de chegada a
hora de êxito, seria o filho quem deveria continuar a empresa
demorada.
Ao mesmo tempo estes dois guardas perseverantes não se
esqueciam de ter em vista a conservação das galerias. Para
esse fim examinavam escrupulosamente a solidez dos aterros e o
estado das abóbadas, indagando se haveria a recear algum
desabamento, ou se deveria ser condenada como perigosa alguma
parte da mina.


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A infiltração das águas superiores merecia-Lhes um cuidado
especial, fazendo-as derivar convenientemente, e buscando
canalizá-las para determinados escoadouros.
Haviam-se finalmente constituído protectores e conservadores
deste domínio improdutivo, donde tantas riquezas tinham saído
- presentemente desfeitas em fumo!
Foi durante algumas dessas excursões que Harry pôde verificar
a existência de certos fenómenos, cuja explicação ele debalde
procurava.
Sucedeu que muitas vezes, ao passar por alguma apertada
travessa, Lhe pareceu ouvir do outro lado da mina uma bulha
surda, como de golpes de picareta.
Harry, que se não deixava intimidar pela influência dos
espíritos invisíveis, apressava então o passo para surpreender
a causa daqueles sons misteriosos.
O túnel estava silencioso. O candil do mineiro, erguido e
abaixado em difErentes direcções, não conseguia divisar o
menor vestígio de qualquer trabalho recente.
Harry perguntava então a si próprio se não estaria sendo
vítima de alguma ilusão de acústica, de algum eco singular e
caprichoso.
Outras vezes, projectando de repente uma intensa claridade
sobre um ponto suspeito. parecia-lhe ver deslizar rápida uma
sombra. Corria sobre ela... Porém, nada! E, contudo, nenhuma
saída havia por onde ente humano se pudesse furtar às
insistentes pesquisas!
Por duas vezes durante um mês. andando Harry a visitar a
parte oeste das hulheiras, pôde ouvir diferentes detonações ao
longe, parecidas com o estalar de cartuchos de dinamite.
Depois de minuciosas diligências, Harry veio finalmente a
descobrir que um dos pilares das galerias tinha sido em parte
destruído por meio de explosão.
À luz do seu candil, Harry examinou cuidadosamente o sítio
atacado pela dinamite. Compunha-se de xistos, que haviam
penetrado até ao próprio andar do jazigo carbonífero.


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Aquele acontecimento teria tido por alvo a descoberta de algum
novo filão? Ou limitar-se-ia a explosão a provocar qualquer
desmoronamento naquela parte da hulheira? Eis o que não se
podia facilmente explicar.
Quando Harry narrou a seu pai o que presenciara, nem um nem
outro puderam atinar com a verdadeira causa deste mistério.
- É singular! - repetia Harry amiudadas vezes. - Parece
inadmissível a existência de um desconhecido dentro da mina, e
contudo não resta dúvida que existe cá alguém. Com que fim?
Para descobrir algum veio ainda por explorar? Ou para
unicamente destruir o que ainda resta das hulheiras de
Aberfoyle? Oh!, hei-de saber o que há nisto de verdade, ainda
que tenha de arriscar a própria vida!
E Harry Ford esteve quase a conseguir o fim das suas
diligências, duas semanas antes do dia em que foi postar-se na
gare de Callander à espera do engenheiro Jaime Starr.
O caso passara-se da seguinte forma. Ele percorria a parte
sudoeste da hulheira, levando na mão uma grande lanterna.
De repente pareceu-lhe que, na extremidade de uma travessa
muito comprida, se lhe tinha ocultado um indeciso clarão.
Harry, sem perder um instante, precipitou-se afoitamente sobre
aquele ponto suspeito.
Baldado empenho! Como Harry, para as coisas físicas, não
admitia explicações sobrenaturais, acabou por se convencer que
dentro da mina andava uma pessoa desconhecida. Apesar, porém,
dos esforços que empregou para encontrá-la, e do extremo
cuidado com que examinava as menores fendas da galeria, sempre
o resultado foi negativo.
Harry chegou a esperar que o acaso lhe revelasse este
mistério. De vez em quando tornava a distinguir aqueles
indecisos clarões, que volitavam de um para outro lado, como
se fossem fogos-fátuos. A sua apariÇão tinha, contudo,


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a rapidez do raio, e o filho do overman não conseguia nunca
descobrir-lhes a origem.
Se no tempo dos trabalhos, Jack Ryan e os outros mineiros
supersticiosos tivessem assistido a casos desta ordem, não
deixariam com certeza de atribuí-los a um poder sobrenatur al.
Harry, todavia, não pensava assim, nem tão-pouco o velho
Simão Ford, quando sucedia estarem ambos a falar destes
fenómenos, devidos a uma causa puramente física.
- Esperemos ainda - dizia o pai para o filho. - Um dia virá
em que tudo isto se aclare!
Entretanto - seja dito em abono da verdade -, contra Simão
Ford e seu filho ainda até agora se não tinha manifestado
nenhum acto de violência.
Se a pedra que veio cair aos pés de Jaime Starr ocultava a
mão de um malfeitor, era esse o primeiro facto criminoso que
poderia apontar-se com fundamento.
Jaime Starr, consultado sobre o assunto, foi de opinião que
essa pedra se tinha desprendido da abóbada da galeria. Harry
não se conformava com esta simples explicação. Segundo a sua
maneira de ver, a pedra não caíra, fora arremessada. A não ser
que ela ressaltasse, como poderia ter descrito uma
trajectória, senão movida por meio de estranha impulsão?
Harry via nisto uma tentativa contra ele e seu pai, e talvez
contra o engenheiro. E em presença do que já fica dito, parece
que ao prudente rapaz não faltavam motivos para assim supô-lo.


CAPÍTULO VII


OS EFEITOS DO GRISU


DAva meio-dia no velho relógio de parede, colocado no
meio da casa de jantar, quando Jaime Starr e os seus dois
companheiros se puseram a caminho.
A claridade, que penetrava através do poço de arejo,
alumiava frouxamente a escavação. A lanterna de Harry não era
por enquanto necessária, mas sê-lo-ia dentro em pouco, porque
o velho overman desejava conduzir o engenheiro até aos últimos
limites da hulheira.
Depois de terem percorrido um espaÇo de duas milhas na
galeria principal, os três exploradores - pois ver-se-á em
breve que se tratava de uma exploração - chegaram à boca de
uma estreitíssima travessa, cuja abóbada repousava sobre um
madeiramento coberto de musgo esbranquiçado. Desta travessa
seguia pouco mais ou menos a linha que traçava a mil e
quinhentos pés de altura o curso superior do Forth.
Se acontecia mostrar-se o engenheiro menos familiarizado com
o dédalo das galerias, Simão Ford recordava-lhe as disposições
do plano geral, comparando-as com o traçado geográfico do
solo.
jaime Starr e Simão Ford caminhavam pois em animada
conversação.


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Harry ia adiante para alumiar o caminho, procurando ver se
descobria qualquer vulto suspeito por meio de rápidos e
brilhantes clarões, que fazia projectar com a sua lanterna
sobre as negras cavidades.
- Temos de ir assim até muito longe? - perguntou o
engenheiro.
- Ainda meia milha, senhor Jaime - disse o velho overman. -
Dantes poderíamos ter andado este caminho nos trâmueis de
tracção mecânica... Como já vão longe esses bons tempos!
- Pelo que vejo, queres levar-me até o sítio onde existia o
último filão? - perguntou Jaime Starr.
- Tal e qual! Noto que ainda conhece a mina muito bem,
senhor Jaime.
- Iria até jurar - acrescentou o engenheiro - que já nos
falta pouco para lá chegarmos, não é verdade, Simão?
- É, senhor Jaime. Foi aqui que os nossos mineiros
arrancaram ao jazigo o seu último pedaço de hulha. Lembro-me
ainda como se fosse hoje! Estava eu dirigindo esses trabalhos,
quando a picareta se cravou na rocha pela derradeira vez! Que
dor, senhor Jaime! O efeito daquela pancada gravou-se-me para
sempre no coração! Em redor de nós não se via senão grés e
xisto. Depois, quando se retirou, para não voltar mais, a
vagonete, eu segui-o até o poço de extracção, comovido e
angustiado, como se pode seguir o enterro de algum amigo que
estremecemos em vida. Parecia-me que a alma da nossa querida
hulheira nos era arrebatada naquela vagonete.
A gravidade com que o velho overman pronunciara estas
palavras impressionou profundamente o engenheiro, que também
compartilhava os mesmos sentimentos. A dor destes dois homens
só era comparável à do marinheiro que o naufrágio obriga a
deixar o navio, ou à do fidalgo que vê cair por terra o solar
de seus avós!
Jaime Starr apertou sensibilizado a mão de Simão Ford. O
overman então, mudando de tom e abraçando com força o
engenheiro, exclamou cheio de entusiasmo:
- Nesse dia todos nós nos enganámos! A velha huLheira não
estava morta!


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Aquele corpo que os mineiros iam ali deixar ao abandono não
era um cadáver! E a prova, posso afiançá-lo, senhor Jaime, é
que o seu coração ainda palpita!
- Que me dizes, meu amigo! Descobriste porventura algum novo
filão? - bradou o engenheiro, que não pôde ter mão em si de
contente. - Oh!, eu bem devia supor que a tua carta se referia
a um achado dessa ordem! Não me falavas tu de uma comunicação
importante. E que outra coisa poderia ter maior importância
para mim do que o descobrimento de um novo depósito
carbonífero?
- Senhor Jaime - tornou Simão Ford -, o meu principal desejo
era prevenir desta boa nova o nosso antigo engenheiro.
- E fizeste bem, Simão! Mas por meio de que sondagens
conseguiste chegar a esta conclusão?
- Ouça-me, senhor Jaime - replicou Simão Ford. - Eu ainda
não encontrei propriamente um jazigo.
- O que foi então que encontraste?
- A prova material de que existe esse jazigo.
- Essa prova?
- Pode porventura admitir-se que o grisu se desprenda das
entranhas da terra sem haver hulha para produzi-lo?
- Decerto que não - respondeu o engenheiro. - Ausência de
carvão de pedra, ausência de grisu. Não há efeito sem causa.
- Como também não há fumo sem fogo!
- E verificaste ao certo a presença do hidrogénio
protocarbonado?
- Um velho mineiro não se deixa iludir facilmente -
retorquiu Simão Ford. - Estou certíssimo de ter descoberto o
nosso velho amigo, o negregado grisu!
- E se fosse outra espécie de gás! - ponderou Jaime Starr. -
O grisu é quase inodoro e não tem cor. Só pela explosão é que
ele se denuncia!


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- Senhor Jaime - tornou Simão Ford -, dá-me licença que lhe
conte o que eu fiz, e como foi que o fiz, sem me levar a mal
que seja minucioso?
Jaime Starr, conhecendo bem o velho overman, entendeu que o
melhor seria deixá-lo falar.
- Há dez anos - observou Simão Ford - que não se passa um
único dia sem que eu e meu filho trabalhemos com afinco para
restituir à hulheira a sua antiga prosperidade. "Haverá ainda
nela por acaso algum jazigo?", dizíamos nós um para o outro.
Pois havemos de dar com ele, suceda o que suceder. De que
meios nos serviríamos? Das sondagens? Não as tínhamos ao nosso
alcance, mas sobrava-nos o instinto do mineiro, e muitas vezes
faz-se mais pelo instinto do que se faz pelo saber. É essa
pelo menos a minha opinião.
- Que eu não contradigo - atalhou o engenheiro.
- E quer saber, senhor Jaime, o que meu filho observou por
duas vezes durante as suas excursões à parte ocidental da
hulheira? Umas pequenas chamas que se apagavam de repente e
que apareciam através do xisto ou dos aterros das últimas
galerias. Qual era a verdadeira causa daqueles fogos? Quanto a
mim, a presença do grisu. E o grisu não se mostraria, decerto,
se não lhe ficasse próximo o jazigo carbonífero.
- E esses fogos não produziam nenhuma explosão?perguntou com
interesse - perguntou o engenheiro.
- Alguns produziam - respondeu Simão Ford -, mas pequenas,
parciais, e de natureza tal que eu mesmo as provocava, quando
queria convencer-me da existência do grisu. O senhor Jaime
lembra-se ainda como era que se preveniam antigamente as
explosões, antes de o nosso humanitário Humphry Davy ter
inventado a sua lanterna de segurança?
- Queres referir-te ao "penitente"? - disse Jaime Starr. -
Nunca cheguei a conhecê-lo.
- Não admira. O senhor é muito novo, apesar dos seus
cinquenta e cinco anos, para ter presenciado essas coisas. Eu,
que sou muito mais velho, ainda vi funcionar o último
penitente de hulheira.


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Chamava-se-lhe assim, porque trazia vestido um hábito de
frade. O seu verdadeiro nome era fireman, homem do fogo. O
único recurso que havia naquele tempo para evitar os terríveis
efeitos do grisu era decompô-lo por meio de pequenas explosões
, antes que ele se acumulasse em grande quantidade nas alturas
das galerias. É por isso que o penitente se arrastava pelo
chão, levando a cara tapada com uma máscara, envolvida a
cabeÇa num espesso capuz, e o corpo estreitamente apertado na
sua vestimenta de burel. Tomando a respiração nas camadas
inferiores, onde era o ar mais puro, o penitente sustinha na
mão direita um facho de luz bem viva, que agitava amiúde por
cima da cabeÇa.
Se o grisu existia no ar em condições de constituir um misto
inflamável, a explosão realizava-se sem perigo, conseguindo-se
desta forma evitar outras desgraças. Algumas vezes, porém, o
penitente, surpreendido por uma explosão mais forte, sucumbia
aos seus efeitos. Quando se dava um desses casos, outro vinha
substituí-lo sem demora. E foi isto o que sempre se fez até ao
dia em que a lâmpada de Davy se adoptou em todas as minas. Mas
como eu conhecia o processo tratei de o empregar, e foi desta
maneira que, verificando a existência do grisu, acabei por me
convencer que tinha encontrado dentro da hulheira abandonada
um novo depósito de carvão de pedra.
Tudo que o velho overman acabava de dizer acerca do
penitente não admitia a menor contestação. Era aquele o meio
empregado antigamente nas hulheiras, a fim de purificar o ar
das galerias.
O grisu, chamado também hidrogénio protocarbonado ou gás dos
pântanos, incolor, quase inodoro e de frouxa claridade é
completamente impróprio à respiração. Seria tão difícil a um
mineiro viver num local cheio desse gás nocivo como é difícil
viver-se no meio de um gasómetro cheio de gás de iluminação.


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À semelhança deste último, que se compõe de hidrogénio
bicarbonado, o grisu forma também um misto explosivo desde que
o ar entra nele numa proporção de oito e mesmo talvez de cinco
por cento. Quando qualquer circunstância concorre para o
inflamar, a explosão segue-se-Lhe de perto, acompanhada quase
sempre de catástrofes assombrosas.
É para evitar este perigo que serve o aparelho de Humphry
Davy, isolando a chama das lanternas por meio de um tubo de
rede metálica, que destrói o grisu no interior desse tubo sem
deixar reproduzir-Lhe a inflamação exteriormente. Esta
lanterna de segurança tem sido aperfeiçoada por diferentes
maneiras. Se por qualquer acaso ela se quebra, apaga-se logo.
Se, apesar das mais rigorosas proibições, o mineiro insiste em
querer abri-la, ainda assim mesmo se apaga. Porque é então que
as explosões ainda não acabaram de todo? Porque nada pode
obstar à imprudência do mineiro que se lembra de acender o seu
cachimbo, ou ao choque da picareta que provoca uma faísca.
Nem todas as hulheiras são infeccionadas pelo grisu.
Naquelas onde este gás se não produz. permite-se o uso do
candil ordinário. Mas quando a hulha do jazigo em exploração é
gorda, encerra sempre uma certa quantidade de matérias
voláteis, de que resulta o grisu poder desenvolver-se em
grande abundância. Só a lanterna de segurança consegue nesse
caso evitar as explosões, tanto mais terríveis, quanto é certo
que os mineiros que escapam ao grisu correm perigo de serem
instantaneamente asfixiados pelo ácido carbónico - esse outro
gás deletério, que se forma depois da inflamação, invadindo
completamente as galerias.
Sem interromper a sua marcha, Simão Ford foi contando ao
engenheiro como chegara a convencer-se que o grisu se soltava
do fundo de uma travessa, aberta na extremidade oeste da
hulheira, e de que modo obtivera sobre o afloramento do
foliado de xisto algumas explosões parciais, ou antes
determinadas inflamações, que lhe não deixavam a menor dúvida
acerca da natureza daquele gás, cuja fuga se operava em
pequenas doses, mas de uma forma permanente.


73


Uma hora depois de terem saído de casa, Jaime Starr e os
seus dois companheiros tinham já percorrido uma distância de
quatro milhas. Impelido pela curiosidade e pela esperança, o
engenheiro fizera aquele trajecto sem dar por tal. Ia
reflectindo em tudo que Lhe apontara o velho mineiro, e
calculando mentalmente os argumentos que este apresentara em
favor da sua tese. Jaime Starr supunha, como Simão Ford, que
esta apariÇão sucessiva de hidrogénio protocarbonado indicava
com certeza a existência de um novo jazigo carbonífero. Se se
tratasse apenas de uma certa emissão de grisu, como sucede ás
vezes entre o foliado de xisto, essa emissão, deixando de se
repetir, faria cessar as suposições do velho overman. Longe
disso, porém. O grisu - segundo afirmava Simão Ford -
desprendia-se muito amiúde, donde era fácil concluir que havia
por ali perto algum desconhecido filão. As riquezas da
hulheira não deviam, pois, considerar-se completamente
esgotadas. Mas tratar-se-ia apenas de alguma camada pouco
produtiva, ou de algum jazigo que ocupasse um extenso andar do
terreno hulheiro? Todo o interesse do assunto batia sobre este
ponto.
Harry, que precedia seu pai e o engenheiro, estacou de
repente.
- Eis-nos chegados - exclamou o velho mineiro. - Com a ajuda
de Deus, senhor Jaime, vamos enfim saber...
E a voz tão firme do velho overman tremia agora
ligeiramente.
- Tranquiliza-te, meu velho amigo - disse o engenheiro. -
Sinto-me tão comovido como tu, mas é preciso não perder tempo!
A travessa alargava-se na sua extremidade, formando uma
espécie de sombria caverna. Como nesta parte da hulheira não
se tivesse escavado nenhum poço, a travessa achava-se privada
de comunicação directa com a superfície do condado de
Stirling.


74


Jaime Starr examinava com extraordinário interesse o lugar
aonde o tinham conduzido Simão Ford e seu filho.
Sobre a massa da caverna distinguiam-se ainda os golpes da
picareta e os vestígios da dinamite empregada para rasgar as
rochas nos últimos tempos da exploração. Estas rochas eram tão
rijas que fora desnecessário aterrar a parte do subsolo em que
elas assentavam. Ali vinha morrer de facto o filão
carbonífero, entre os grés e os xistos do terreno terciário.
Dali se extraíra finalmente o último pedaÇo de combustível
pertencente a esta mina.
- É aqui, senhor Jaime - disse Simão Ford levantando a
picareta -, que havemos de atacar a faille(1). Por detrás dela
deve estar o novo filão, cuja existência eu afirmo.
- E foi à superfície destas rochas que pudeste verificar a
presença do grisu.
- Foi, senhor Jaime - tornou Simão Ford. - E consegui
inflamá-lo, aproximando simplesmente a minha lanterna do
foliado de xisto. Meu filho também fez o mesmo.
- A que altura se inflamou o gás? - retorquiu Jaime Starr.
- A dez pés acima do solo - respondeu Harry.
Jaime Starr, que se tinha sentado sobre uma rocha, aspirou
com forÇa o ar da caverna. Depois começou a olhar para os dois
mineiros, como se quisesse duvidar das suas palavras, embora
elas fossem tão positivas.
É que efectivamente o hidrogénio protocarbonado não é de
todo inodoro, e o engenheiro estava surpreendido de que o seu
olfacto excessivamente fino lhe não tivesse ainda denunciado a
presença daquele gás explosivo. Em todo o caso, se o grisu
existia ali combinado com o ar ambiente, era em dose tão
diminuta que não havia a temer nenhuma explosão.


*1. Chama-se faille à porção da massa de rochas, formada
ordinariamente de grés ou de xisto, onde não se encontra o
filão carbonífero.

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Assim, podia abrir-se afoitamente a lanterna de seguranÇa e
tentar-se uma experiência, como as que o velho mineiro já
tinha feito.
O que mais inquietava Jaime Starr neste momento não era a
possibilidade de que existisse no ar muito grisu espalhado,
era, pelo contrário, o receio de que este aparecesse em
pequena quantidade, ou que mesmo não chegasse a aparecer.
"Ter-se-iam eles enganado?", murmurava de si para si o
engenheiro. "Qual! São homens que conhecem muito bem o seu
ofício! E contudo..."
Suspendeu-se aqui, esperando, não sem uma certa ansiedade,
que o fenómeno indicado por Simão Ford se repetisse na sua
presença. Parece todavia que neste momento Harry Ford notou
também, como o engenheiro, a falta do cheiro característico do
grisu, porque exclamou com voz alterada:
- Meu pai! O grisu já não passa através do foliado de xisto!
- Que dizes tu, Harry! - bradou o velho mineiro. De repente
fez um gesto violento, dizendo:
- Dá-me a lanterna, Harry!
Simão Ford pegou na lanterna com mão febril. Desaparafusou a
rede metálica que cercava a torcida, e a chama ardeu
serenamente ao contacto do ar livre.
Como se esperava, não houve nenhuma explosão; mas também -
circunstância grave - não se chegou a notar esse tenuíssimo
nevoeiro, que indica em pequena dose a presença do grisu.
Simão Ford pegou no pau que trazia o filho e, prendendo-lhe
a lanterna na extremidade, levantou-o até às camadas de ar
superiores, onde o gás, em consequência da sua leveza
específica, deveria ter-se acumulado, por menor que fosse a
sua quantidade.
A chama da lanterna, branca e imóvel, não denunciou o menor
indício de hidrogénio protocarbonado.
- Sobre a massa da rocha! - gritou-lhe o engenheiro.


77


- É isso! - respondeu Simão Ford, encostando a lanterna à
parte da caverna, onde ele e seu filho ainda na véspera tinham
verificado a fuga do gás.
O braço do velho overman tremia-Lhe de sobressalto ,
enquanto ele agitava a lanterna junto às fendas longitudinais
do folhado de xisto.
- Vem tu agora em meu lugar, Harry - disse ele, muito
agitado.
Harry pegou no pau e moveu sucessivamente a lanterna pelos
diferentes pontos da massa, onde parecia que o foliado se
desdobrava. Depois sacudiu a cabeça desanimado. Não ouvira a
ligeira crepitaÇão que faz o grisu quando se solta.
Falhara a experiência. Estava manifestamente provado que
através da massa xistosa não se coava a mais insignificante
molécula de gás.
- Que significa isto? - exclamou o velho Simão Ford, com os
punhos cerrados numa atitude mais de cólera que de desalento.
Da boca de Harry saiu um grito de espanto.
- O que é? - perguntou com ansiedade Jaime Starr.
- As fendas do xisto foram tapadas há pouco tempo!
- Estás bem certo do que dizes? - atalhou o velho mineiro.
- Veja, meu pai!
Harry não se tinha enganado. A obstrução das fendas era
perfeitamente visível à claridade da lanterna. Uma pasta feita
de cal deixara sobre a massa um traço comprido e
esbranquiçado, que mal se conseguira disfarçar com uma camada
de pó de carvão por cima.
- Foi ele! - exclamou Harry. - Não podia ser senão ele!
- Ele quem? - perguntou Jaime Starr.
- O ente misterioso que percorre esta hulheira e que mais de
cem vezes tenho inutilmente querido surpreender - disse Harry.


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- O autor, para mim incontestável, dessa carta que pretendia
afastar daqui o senhor Jaime Starr, aquele, enfim, que nos
arremessou uma pedra na galeria do poço Yarow! Já sei o que
devo supor! Vejo que anda em tudo isto a mão oculta dum
inimigo!
Harry tinha falado com tanta energia que as suas palavras
levaram a convicção ao espírito até ali hesitante do
engenheiro. Pela sua parte, o velho oVerman aceitou como
formais as indicações de seu filho. De resto, havia um facto
que não admitia a menor dúvida: era a obstrução da fenda, por
onde na véspera o gás ainda pudera sair.
- Pega na tua picareta, Harry - exclamou Simão Ford - e
trepa acima dos meus ombros. Sou forte bastante para poder
contigo!
Harry compreendeu a intenção de seu pai. Simão Ford
encostou-se à massa. Harry colocou-se-Lhe sobre os ombros de
maneira que pudesse com a picareta chegar ao sítio onde se
divisava a argamassa. Depois, por meio de golpes sucessivos,
começou a picar a rocha de xisto no sítio onde o luto a
encobria.
Sentiu-se logo uma ligeira crepitação, semelhante à que
produz qualquer vinho espumoso, quando se abre a garrafa -
crepitação conhecida nas hulheiras inglesas pelo nome
onomatopaico de "puff".
Harry lançou mão da lanterna e aproximou-a da fenda.
Ouviu-se imediatamente uma fraca detonação logo seguida,
volteando sobre a rocha, de uma pequena chama vermelha de
contornos azulados, parecida com os fogos-de-santelmo.
Harry saltou para o chão, e o velho overman, não podendo
conter por mais tempo a sua alegria, agarrou as duas mãos do
engenheiro, gritando:
- Vitória! Vitória, senhor Jaime! Se o grisu se inflamou, é
porque o filão não está longe!



CAPÍTULO VIII


A EXPLOSÃO


A experiência, indicada pelo velho overman, obtivera o
melhor êxito. Sabe-se que o hidrogénio protocarbonado só se
desenvolve nos jazigos do carvão de pedra. Não se podia,
portanto, pôr em dúvida a existência de um filão do precioso
combustível. Qual era a sua importância? Qual a sua qualidade?
O futuro se encarregaria de o dizer.
Tais foram as consequências que o engenheiro tirou do
fenómeno por ele observado. Eram em tudo conformes às que
Simão Ford já tinha deduzido.
- Efectivamente - disse Jaime Starr - por detrás desta massa
estende-se uma camada carbonífera que as nossas sondagens não
souberam indicar. Foi pena, porque temos agora de renovar
todas as ferramentas da mina, há dez anos abandonada. Não
importa! Uma vez que encontrámos um veio ignorado, havemos de
explorá-lo até ao fim!
- Então, senhor Jaime - perguntou Simão Ford -, o que diz da
nossa descoberta? Tive ou não tive razão para lhe escrever? Dá
por mal empregada esta visita às nossas galerias?
- Não dou, meu velho amigo! - respondeu Jaime Starr. - Não
perdemos o tempo, mas perdê-lo-íamos agora se não voltássemos
quanto antes a tua casa. Amanhã tornaremos aqui para abrirmos
uma passagem nestas rochas por meio da dinamite.


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Havemos de pôr o novo filão a descoberto, e se as sondagens
mostrarem que abunda o combustível, reconstituirei uma
sociedade da Nova Aberfoyle com grande satisfação dos antigos
accionistas! É preciso que antes de passados três meses se
tenham extraído do novo jazigo os primeiros cestos de hulha.
- Bem falado, senhor Jaime! - replicou Simão Ford. - Temos
então a velha mina remoçada, como qualquer viúva que se
enfeita para casar de novo! Cada vez melhor! Veremos outra vez
a animaÇão dos antigos dias, com esse movimento agradável da
faina dos operários, do rodar dos vagões, do relinchar dos
cavalos e do ruído das máquinas! Tornarei pois a presenciar
tudo isso! Espero que o senhor Jaime não me julgará tão velho
que não possa continuar a exercer o meu emprego de overman?
- Velho, tu, Simão! Estás mais novo do que eu!
- E que São Mungo nos proteja! Havemos de tê-lo ainda por
nosso viewer, senhor Jaime! Deus permita que a nova exploração
dure muitos anos, e que eu possa morrer antes de lhe ver o
fim!
O contentamento do velho mineiro não conhecia limites. Jaime
Starr, se bem que igualmente satisfeito, deixava que Simão
Ford se entusiasmasse por ambos.
Harry era o único que se conservava pensativo. Pelo seu
espírito passavam como que em revista os acontecimentos
extraordinários e inexplicáveis que tinham precedido a
descoberta do novo jazigo. E, na verdade, esses acontecimentos
não deixavam de o inquietar pelo futuro.
Uma hora depois Jaime Starr e os seus dois companheiros
achavam-se na presença de um suculento jantar, que Madge lhes
tinha preparado.
O engenheiro comeu com grande apetite, aprovando com o gesto
os diferentes planos que Simão Ford lhe apresentava.


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E se não fora o ardente desejo de chegar ao dia seguinte,
nunca em toda a sua vida Jaime Starr teria tido melhor noite
do que esta agora passada na residência do velho mineiro.
No dia imediato, depois de um abundante almoço, Jaime Starr,
o overman, seu filho Harry e a própria Madge tomaram o mesmo
caminho que se tinha percorrido na véspera. Todos iam
preparados para uma excursão de mineiro. Levavam consigo
diversas ferramentas e os cartuchos de dinamite indispensáveis
para fazer estalar a massa da caverna.
Harry muniu-se de um lampião que dava uma luz brilhante e de
uma lanterna de segurança que podia arder por doze horas. Era
mais do que o necessário para realizar esta pequena jornada de
ida e volta, mesmo contando com as demoras provenientes da
exploração - dado o caso de poder tentar-se uma exploração.
- Mãos à obra! - disse Simão Ford logo que chegou com os
seus companheiros à extremidade da travessa.
E em seguida lançou mão com extrema ligeireza de uma pesada
barrena.
- Um instante ainda - ponderou Jaime Starr. - Vejamos se de
ontem para cá não houve alguma novidade, e se o grisu continua
a coar-se pelas folhas estratificadas.
- Tem muita razão, senhor Starr - respondeu Harry. - O caso
que se deu ontem, pode-se ter repetido hoje.
Madge, sentada sobre uma rocha, examinava cuidadosamente a
escavação e a massa que se pretendia rasgar.
Reconheceu-se que estava tudo no mesmo estado. As fendas,
abertas no folhado de xisto, não tinham sofrido a menor
alteração. O hidrogénio protocarbonado soltava-se regularmente
por elas, mas em porção muito diminuta. Isto provinha
naturalmente de o grisu não encontrar impedimento na sua livre
passagem. Todavia esta emissão era tão insignificante que não
podia formar com o ar interior um misto explosivo.


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Jaime Starr e os seus companheiros iam pois dar começo aos
seus trabalhos sem receio de incidentes. De resto, o ar
impregnado deste gás ir-se-ia purificando pouco a pouco, à
proporção que ganhasse as altas camadas das galerias, e o
grisu, perdido em tamanha atmosfera, não teria força para
produzir explosões.
- Mãos à obra! - repetiu Simão Ford.
E, sob o impulso da sua barrena, manejada com vigor, começou
a rocha a voar em estilhaços.
Esta faille compunha-se principalmente de pudins intermeados
com grés e xisto, como os que geralmente se encontraram no
afloramento dos filões carboníferos.
Jaime Starr levantava do chão os pedaços de rocha que o
ferro desprendia, examinando-os com cuidado, a fim de ver se
descobria neles algum indício de carvão de pedra.
Ese primeiro trabalho, que durou cerca de uma hora, abriu
sobre a massa uma profunda abertura.
Jaime Starr escolheu então o sítio onde se deviam brocar os
furos para a mina - trabalho que Harry desempenhou
rapidamente, auxiliado dos respectivos instrumentos. Em
seguida introduziram-se nestes furos alguns cartuchos de
dinamite. Depois aplicou-se-lhes um foguete de segurança
terminando por uma cápsula de fulminato. Deste foguete
desprendia-se um comprido morrão alcatroado, ao qual se lançou
fogo muito rente do solo. Jaime Starr afastou-se com os seus
companheiros.
- Ah!, senhor Jaime! - disse o velho overman, não podendo
reprimir a comoção que o dominava, nunca na minha vida senti
bater o coração com tanta forÇa! - O meu desejo era poder já
atacar o novo filão!
- Espera, meu amigo, espera! - respondeu-lhe o engenheiro. -
Não tenhas a pretensão de supor que por detrás desta rocha
existe uma galeria já feita.
- Desculpe, senhor Jaime - tornou Simão Ford. - Eu sinto-me
capaz de todas as pretensões. Se a fortuna esteve até agora
connosco, auxiliando-nos a descobrir este jazigo, porque não
há-de ela continuar a seguir-nos daqui por diante?


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Entretanto, a dinamite completava a sua obra, provocando um
estrondo surdo, que se foi ecoando de galeria em galeria.
Jaime Starr, Madge, Harry e Simão Ford correram logo para o
lugar da explosão.
- Senhor Jaime! Senhor Jaime! - gritou o velho overman. -
Veja! Veja! Metemos a rocha dentro!
As palavras de Simão Ford estavam mais que justificadas pela
presensa de uma grande abertura, cuja profundidade não era
fácil avaliar.
Harry ia a entrar por aquela enorme fenda...
Nisto o engenheiro segurou-o com força, dizendo-lhe:
- Não te precipites, Harry. Deixa que o ar interior tenha
tempo de se purificar.
- É verdade, rapaz! - gritou Simão Ford. - Toma cuidado com
as atmosferas(1).
Passou-se um quarto de hora em grande ansiedade. Depois
atou-se o lampião à ponta de um pau, e introduziu-se na
escavaÇão. A luz da sua grande torcida continuou a arder com
muito brilho.
- Podes entrar, Harry - disse Jaime Starr. - Nós seguiremos
atrás.
A abertura era mais que suficiente para dar passagem a um
homem.
Harry, auxiliado pelos braços de sua mãe, e levando consigo
o lampião, meteu-se afoitamente por aquela abertura. e
desapareceu entre as sombras.
Jaime Starr, Madge e Simão Ford ficaram como que imóveis,
mostrando no rosto a ansiedade que nasce das grandes crises.
Passou-se um minuto que lhes pareceu um século. Harry não
aparecia, nem chamava por nenhum deles. Jaime Starr,
aproximando-se do orifício,


*1. Nome que se dá às exalações deletérias das hulheiras.


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não chegou mesmo a distinguir a luz do lampião, que devia
projectar-se naquela sombria cavidade.
Teria o terreno faltado debaixo dos pés de Harry? Haveria o
corajoso rapaz caído repentinamente nalguma cova? Estaria ele
já tão distante que a sua voz não pudesse chegar até aos seus
companheiros?
Sem atender às considerações de Madge e de Jaime Starr,
Simão Ford ia por seu turno a entrar na cavidade, quando
comeÇou a divisar-se ao longe uma claridade, primeiro
indecisa, depois mais pronunciada.
- É o lampião que levou meu filho! - bradou Simão Ford com
alegria.
E em seguida ouviram-se estas palavras, pronunciadas
distintamente por Harry:
- Pode vir, senhor Starr! Pode vir, meu pai! Está livre e
desembaraçado o caminho da Nova Aberfoyle!



CAPÍTULO IX


A NOVA ABERFOYLE


Se, graças a um poder sobrenatural, alguns engenheiros
conseguissem levantar de um golpe e sobre uma espessura de mil
pés a porÇão da crusta terrestre que sustenta o conjunto de
lagos, rios, golfos e territórios marginais dos condados de
Stirling, Dumbarton e Renfrew - debaixo dessa tampa enorme
achariam eles uma escavaÇão tão grande que apenas outra seria
capaz de se lhe comparar em todo o mundo: a celebrada gruta de
Mammouth, no Kentucky.
Essa escavação, vista assim a descoberto, compor-se-ia de
muitas centenas de alvéolos de todas as formas e tamanhos.
Dir-se-ia uma colmeia, com as suas sucessivas ordens de
células, caprichosamente dispostas: uma colmeia porém de
grandeza colossal, que, em vez de encerrar abelhas, mal
pudesse conter os ictiossauros, os megatérios e os
pterodáctilos da época geológica!
Um número assombroso de galerias - umas semelhando estreitas
e tortuosas naves de uma velha catedral, outras mais elevadas
que as mais altas abóbadas dos grandes edifícios, estas
seguindo invariavelmente a linha horizontal, aquelas
erguendo-se ou inclinando-se em diversas direcções - reunia
essas centenas de alvéolos, estabelecendo de uns para os
outros acessível comunicaÇão, As colunas em que repousavam
tais abóbadas, cuja linha curva admitia todos os estilos
arquitectónicos, as sólidas e comp actas paredes que mediavam
entre as galerias, as próprias naves deste andar dos terrenos
secundários, eram feitas de grés e de rochas de xisto.


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Mas entre essas camadas estéreis e completamente comprimidas
por elas corriam algumas veias importantes de carvão, como se
tais colossos de rocha precisassem para viver deste sangue
enegrecido.
Eis o aspecto que o subsolo da Nova Aberfoyle produziria
visto assim de repente. Os seus jazigos, dilatando-se do Norte
ao Sul numa extensão de quarenta milhas, chegavam a
prolongar-se até por debaixo do canal do Norte.
Embora só depois das competentes sondagens se pudesse
verdadeiramente apreciar o valor desta bacia hulheira, nunca
ela seria inferior aos depósitos carboníferos de Cardiff, no
principado de Gales, nem aos jazigos de Newcastle, no condado
de Northumberland.
Acrescente-se ainda que a exploração da Nova Aberfoyle ia
tornar-se facílima, visto que - por uma disposição caprichosa
dos terrenos secundários, por um inexplicável retraimento das
matérias minerais durante a época geológica da solidificação
desta massa - a própria Natureza se encarregara de multiplicar
ali as galerias e os túneis.
Sim, a Natureza unicamente! À primeira vista poderia
supor-se que se estava em presença de uma exploração desde
muitos séculos abandonada. Mas tal não sucedia. Não se
costumam largar de mão riquezas semelhantes. As térmites
humanas nunca tinham devastado esta porção do subsolo da
Escócia; era a Natureza que tinha assim disposto as coisas.
Mas, diga-se ainda uma vez, nenhum hipogeu da época egípcia,
nenhuma catacumba da época romana, poderia comparar-se às
grandiosas proporções desta nova bacia hulheira. Só afrontaria
esse paralelo a prodigiosa gruta de Mammouth, que, :sobre uma
extensão de mais de vinte milhas, conta duzentas e vinte e
seis avenidas, onze lagos, sete ribeiros, oito cataratas,


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trinta e dois poços insondáveis e cinquenta e sete cúpulas,
algumas delas suspensas a mais de quatrocentos e cinquenta pés
de altura.
À semelhanÇa dessa gruta, a Nova Aberfoyle era não a obra
dos homens, mas sim a obra do Criador.
E devia-se exclusivamente ao velho Simão Ford o
descobrimento de uma tão avultada e fabulosa riqueza
carbonífera! Dez anos de residência na antiga hulheira, uma
rara perseverança nas pesquisas e uma fé absoluta, alimentada
por um instinto admirável, eis o que lhe fizera levar a cabo
uma empresa, onde outros muitos haveriam soçobrado. Porque
seria que as sondagens, dirigidas por Jaime Starr nos últimos
anos da exploração, tinham parado justamente em frente da nova
mina Porque assim o quisera o acaso, que tem sempre largo
quinhão nas experiências deste género.
Fosse como fosse, era certo que no subsolo escocês existia
uma espécie de condado subterrâneo, ao qual apenas faltava
para ser habitado a luz do Sol, ou, na ausência deste, a
claridade de outro qualquer astro especial.
Em certas depressões da Nova Aberfoyle achava-se a água
perfeitamente localizada, formando vastas lagoas e até lagos
maiores que o lago Katrine, situado por cima deste subsolo.
Esses lagos não tinham decerto o movimento das correntes e da
ressaca. Não reproduziam o perfil de nenhum velho castelo
gótico. Sobre as suas margens não se miravam, debruçando-se,
os choupos e os carvalhos. As montanhas não lhe projectavam as
suas grandes sombras, nem os percorriam a cada hora os barcos
a vapor. Em suas águas plácidas nenhuma luz se reflectia. O
Sol não vinha inpregná-los de raios luminosos, nem a Lua
jamais se erguia sobre o seu imóvel horizonte. E contudo estes
lagos profundos, a que a brisa não vinha encrespar a lisa
superfície, não deixariam certamente de ser belos vistos à luz
de algum astro de prodigiosa força eléctrica.


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Se bem que de todo ingrato ao amanho de qualquer cultura,
este subsolo prestava-se admiravelmente a conter um grande
número de habitantes. E quem sabe se nestes centros de
invariável temperatura, se no fundo destas hulheiras de
Aberfoyle, de Newcastle, de Aloa ou de Cardiff - quando já de
todo estiverem esgotados os seus jazigos - não pedirá refúgio
qualquer dia a população indigent do poderoso Reino Unido?



CAPÍTULO X


O REGRESSO DA EXPLORAçãO


À voz de Harry, Jaime Starr, Madge e Simão Ford
introduziram-se logo pelo estreito orifício, que punha a nova
hulheira em comunicaÇão com a antiga.
Os três exploradores encontraram-se de repente no começo de
uma vasta galeria, onde todos imaginariam ver o trabalho
perseverante da mão do homem. De facto ninguém diria que a
picareta e a barrena se não tinham encarregado de promover
aqui a exploraÇão de um novo jazigo carbonífero. Jaime Starr e
Simão Ford supunham-se, por um acaso inexplicável,
transportados ao centro de alguma antiga hulheira, cuja
existência nunca tivesse chegado ao conhecimento dos mais
velhos mineiros do condado.
Enganavam-se contudo! As camadas geológicas é que haviam
"poupado" esta galeria pelo tempo da formação dos terrenos
secundários. Talvez que alguma corrente enorme tivesse por
aqui passado, quando as águas superiores iam misturar-se com
os vegetais soterrados. Agora porém esta galeria estava tão
enxuta como se fosse encontrada alguns mil pés mais abaixo no
terreno das rochas granitóides. Além disso, o ar circulava por
ela com facilidade, donde se devia depreender que alguns
respiradouros naturais a punham em contacto com a atmosfera
exterior.


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Esta observação, apresentada pelo engenheiro, era justa: a
ventilação fazia-se regularmente dentro da mina. Quanto ao
grisu que se coava há pouco pela massa de xisto, supunha-se
ter desaparecido de todo, uma vez que a atmosfera da galeria
não conservava dele o menor vestígio. Entretanto Harry, por
precaução, só levava agora a lanterna de segurança, que tinha
voltado atrás a buscar.
Jaime Starr e os seus companheiros mostravam-se extremamente
satisfeitos. Viam excedidos até os seus desejos. Tudo era
hulha em redor deles! A comoção embargava-Lhes a voz. O
próprio Simão Ford não tinha vontade de falar. A sua alegria
manifestava-se mais por pequenas interjeições do que por
frases estiradas.
Era talvez imprudente avançar tanto pelo interior desta
gruta. Os nossos exploradores contudo não pensavam em
retroceder. A galeria apresentava-se perfeitamente acessível e
quase em linha recta. Nenhuma fenda profunda lhe obstruía a
passagem; nenhuma espécie de mofeta lhe viciava o ambiente.
Não havia pois motivo para suspender a exploração, e, durante
uma hora, Jaime Starr, Madge, Harry e Simão Ford continuaram a
caminhar sem que uma única circunstância lhes pudesse indicar
a verdadeira orientação deste desconhecido subsolo.
E sem dúvida que teriam ido mais longe ainda, se não
chegassem entretanto à extremidade da espaçosa galeria, por
onde seguiam desde a sua entrada na hulheira..
A galeria findava numa enorme caverna, de que não era fácil
calcular nem a altura nem a profundidade. Onde é que se
fecharia a abóbada desta caverna? Até onde se prolongaria ela
do outro lado de lá? As trevas, que a cercavam totalmente, não
permitiam descortinar esses limites. Mas, à claridade da
lanterna, os exploradores puderam verificar que a cúpula desta
escavação cobria um vasto lençol de água dormente


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- lagoa ou lago - cujas margens pitorescas, acidentadas por
altos rochedos, se perdiam na obscuridade.
- Alto! - gritou Simão, parando de repente. - Um passo mais,
e lá iríamos despenhar-nos em algum abismo!
- Descansemos um bocado - ajuntou o engenheiro.
- É tempo de pensarmos em voltar à antiga hulheira.
- A lanterna ainda tem luz para dez horas - observou Harry.
- Não importa - retorquiu o engenheiro. - Sempre será bom
que descansemos, pois sinto que as minhas pernas se recusam a
ir mais longe. Que diz a isto, Madge?
Não se queixa de tamanha caminhada?
- Não me queixo, senhor Jaime - respondeu a robusta
escocesa. - Estamos habituados a andar dias inteiros sem dar
por isso.
- Ora essa! - acrescentou Simão Ford. - Madge seria capaz de
percorrer dez vezes este caminho! Mas voltando ao mesmo
assunto: o que me diz à comunicação que Lhe mandei na minha
carta, senhor Jaime? Valeu ou não valeu a pena em cá vir?
Ande... atreva-se a dizer o contrário!...
- Deus me defenda de tal, meu velho amigo - respondeu o
engenheiro. - Nunca senti na minha vida uma alegria tão
profunda como hoje. O pouco que temos visto desta nova
hulheira habilita-me a supor que é muito considerável, pelo
menos em extensão.
- E em largura e profundidade também! - replicou Simão.
- É o que havemos de saber lá mais para diante.
- E eu afirmo-o desde já! Confie no meu instinto de mineiro,
senhor Jaime. Olhe que nunca me iludiu!
- Pois sim, pois sim, meu amigo - respondeu o engenheiro a
sorrir. - Numa palavra, a julgar por este rápido exame,
parece-me que possuímos os elementos de uma exploração de
muitos séculos!
- De muitos séculos, decerto! - exclamou Simão Ford.


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- Hão-de passar-se mais de mil anos primeiro que se tenha
extraído o último pedaço de carvão desta nova mina.
- Que Deus te ouça! - replicou Jaime Starr. - Enquanto à
qualidade da hulha que vem aflorar esta massa...
- Óptima, senhor Jaime, óptima! - respondeu Simão Ford. -
Convença-se pelos seus próprios olhos.
E, dizendo isto, fez saltar com um golpe vigoroso da sua
picareta uma lasca do negro combustível.
- Veja, veja! - repetiu ele, aproximando-a da lanterna. -
Como brilham as superfícies deste pedaço de carvão! Havemos de
tirar daqui magnífica hulha gorda, abundante em matérias
betuminosas. E como ela se parte bem, quase sem fazer pó! Ah!,
senhor Jaime, creia que este jazigo há vinte anos teria
causado uma sérta concorrência ao Swansea e ao Cardiff. É o
mesmo! As fábricas e as oficinas hão-de acabar por não
quererem outro combustível, e se ele custa pouco a extrair da
mina, isso não servirá de motivo para se vender menos caro nos
mercados.
- Assim é - disse Madge, que tinha pegado no pedaço de hulha
e o estava a examinar como entendedora. - Isto é carvão de
primeira qualidade. Havemos de levá-lo para casa, meu Simão.
Quero, para experimentar, fazê-lo arder logo no nosso
braseiro.
- Bem pensado, Madge - respondeu o velho overman. - Tu verás
que não me enganei.
- O senhor Starr - observou então Harry - tem alguma ideia
da orientação provável desta comprida galeria?
- Não tenho, meu rapaz - respondeu o engenheiro. - Com uma
bússola ser-me-ia fácil indicar a sua direcção geral. Mas, sem
bússola, acho-me aqui como qualquer marítimo no mar alto,
quando os nevoeiros Lhe não deixam verificar a altura em que
navega.
- Decerto, senhor Jaime - respondeu Simão Ford -, mas por
Deus lhe peço que não compare a nossa posição à do marítimo
que tem sempre um abismo debaixo dos pés!


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Nós encontramo-nos felizmente em terra firme, e nem o menor
perigo de naufragar!
- Não era intenÇão minha fazer uma comparação que te
desagradasse - respondeu Jaime Starr. - Longe de mim o
pensamento de depreciar as altas qualidades da nossa Nova
Aberfoyle! O que eu só queria dizer, meu amigo, é que não
sabemos onde estamos.
- Estamos no subsolo do condado de Stirling, senhor Jaime -
respondeu Simão Ford -, e isso ia eu jurá-lo como se...
- Ouçam! Ouçam! - disse Harry, interrompendo subitamente seu
pai.
Todos se puseram a escutar com a máxima atenção. O nervo
auditivo de Harry, muito exercitado desde criança, acabava de
surpreender ao longe um vago rumor, um som indefinido. Jaime
Starr, Simão Ford e sua mulher ouviram por seu turno o mesmo
som. Nas camadas superiores da massa dava-se uma espécie de
ruído surdo que ora aumentava, ora diminuía em determinadas
proporções.
Durante alguns minutos conservaram-se todos quatro com o
ouvido à escuta sem proferirem uma palavra.
Depois Simão Ford exclamou de repente:
- Dar-se-á o caso que as vagonetas já principiassem a
deslizar pelos carris da Nova Aberfoyle?
- Parece-me antes - replicou Harry - a bulha que fazem as
águas a rolar sobre uma praia.
- Mas nós não estamos debaixo do mar! - exclamou o velho
overman.
- Debaixo do mar, não - respondeu o engenheiro -, mas não
seria para estranhar que estivéssemos debaixo do lago Katrine.
- Isso provaria então que a abóbada é pouco espessa neste
sítio, uma vez que chega até nós a bulha das águas lá de cima.
- Efectivamente é pouco espessa - respondeu Jaime Starr.


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- E é justamente por esse motivo que esta escavação é tão
vasta.
- Acho que tem razão, senhor Starr - disse Harry.
- Demais, o tempo está tão mau sobre a terra - continuou o
engenheiro - que as águas do lago devem encontrar-se tão
agitadas como as do golfo de Forth.
- Ora! que tem isso? - ponderou Simão Ford. - O jazigo
carbonífero não há-de valer menos, lá porque fica debaixo de
um lago! Não seria a primeira vez que se iria buscar a hulha
sob o próprio leito do oceano! Quando tivéssemos até de
explorar as mais insondáveis profundidades, inferiores ao
canal do Norte, onde é que nisso estaria o mal?
- Bravo, Simão! - exclamou o engenheiro, que não pôde
reprimir um sorriso ao ver o entusiasmo do overman. - Levemos
as nossas galerias até debaixo das águas do mar! Furemos o
leito do Atlântico como se fora uma escumadeira! Com o auxílio
das nossas ferramentas, corramos a abraÇar os nossos irmãos
dos Estados Unidos através do subsolo do Atlântico! Escavemos
até ao centro do globo, se for preciso, para lhe arrancarmos
das entranhas o seu último pedaço de combustível!
- Ah! O senhor Jaime está a levar a coisa a brincar? - disse
Simão Ford com ar risonho.
- Não estou, Simão, não estou! Mas vi-te há pouco tão
entusiasmado, que o teu entusiasmo levou-me até desejar o
impossível. Mas desçamos à realidade, que já de si é
magnífica. Deixemos portanto aqui as picaretas, e voltemos
quanto antes a tua casa.
Não havia naquele momento resolução mais acertada. Para
melhor se estudarem as dimensões da Nova Aberfoyle, o
engenheiro voltaria mais tarde acompanhado dos mineiros e dos
utensílios que fossem necessários. Por agora o que convinha
era tornar para trás. De resto, o regresso não oferecia
dificuldades. A galeria corria quase em linha recta pela massa
até chegar ao orifício que tinha feito a dinamite.


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Não havia portanto receio de errar o caminho.
No momento, porém, em que Jaime Starr se dirigia para a
galeria, teve de parar à voz de Simão Ford.
- Vê esta caverna, senhor Jaime Starr? - disse o velho
overman. - Vê este lago subterrâneo que ela encerra, e estas
águas tranquilas que nos banham quase os pés? Vê tudo isto,
vê? Pois muito bem! Afirmo-lhe que transportarei para aqui
dentro em pouco a minha pequena família; será neste local que
eu hei-de levantar uma nova habitaÇão. E se alguns
companheiros decididos quiserem seguir o meu exemplo, antes de
decorrido um ano contar-se-á uma povoação de mais no subsolo
da nossa velha Inglaterra!
Jaime Starr, aprovando com um sorriso os projectos de Simão
Ford, apertou-lhe a mão; depois, todos se puseram a caminho, a
fim de voltarem às galerias da velha Aberfoyle.
Durante a primeira miLha percorrida não se deu nenhum
incidente notável. Harry ia adiante, levando a lanterna
erguida acima da cabeça. Seguia cautelosamente a galeria
principal, afastando-se dos túneis estreitos que se
encontravam da direita e da esquerda. Parecia portanto que a
volta se realizaria tão auspiciosamente como a ida, quando
surgiu uma desagradável circunstância, que veio complicar
seriamente a situação dos nossos exploradores.
Num dos momentos em que Harry levantava a lanterna,
operou-se uma forte deslocação de ar, como que provocada pelo
bater de asas de alguma ave invisível. A lanterna, açoitada
obliquamente, soltou-se das mãos de Harry, e foi cair sobre o
solo da galeria.
Jaime Starr e os seus companheiros viram-se de repente
envolvidos na mais completa escuridão. A lanterna, que
entornara todo o azeite ao cair no chão, estava incapaz de
poder servir de novo.


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- Então, Harry! - bradou Simão Ford -, queres que vamos por
aí quebrar a cabeça antes de chegarmos a casa?
Harry não respondeu. Estava a meditar. Deveria ele atribuir
à mão de um ente misterioso o recente acontecimento? Viveria
acaso nestas profundidades algum inimigo dele e dos seus, cujo
antagonismo inexplicável chegasse ainda a ser-Lhes fatal?
Alguém teria empenho em subtrair o novo jazigo carbonífero às
tentativas de uma exploração? Era na realidade absurda
semelhante conjectura, mas os factos estavam falando tão alto,
e acumulando-se de tal arte, que tornavam aceitáveis as mais
simples presunções.
Entretanto a situação dos exploradores não estava sendo
invejável. Era-Lhes necessário seguir, durante aproximadamente
cinco milhas, e no meio da mais profunda obscuridade, o
caminho que devia conduzi-los até às antigas hulheiras. Depois
teriam que andar ainda uma hora antes de chegarem à morada do
overman.
- Nada de parar! - disse Simão Ford. - Não temos a perder um
só minuto. Iremos às apalpadelas, como os cegos. É impossível
que nos enganemos no caminho. Os túneis que se abrem, de ambos
os lados da galeria, parecem tocas de toupeiras, por onde um
homem decerto não cabe. Se continuarmos, pois, a seguir pela
galeria principal, havemos de acabar por dar com o orifício
que nos abriu para aqui passagem. Depois achar-nos-emos na
velha mina, e essa conhecêmo-la nós bastante bem por a termos
já percorrido algumas vezes sem luz. De resto, havemos de lá
encontrar o lampião que Harry não trouxe consigo. Vamos,
vamos, a caminho! Harry, vai tu na frente. Siga-o, senhor
Jaime.
Depois, dirigindo-se a Madge:
- Coloca-te tu depois do senhor Jaime, que eu fecharei a
marcha. O essencial é não nos afastarmos uns dos outros e que
se ouçam os nossos passos já que não podemos ir de braço dado!
Não havia remédio senão aceitar as indicações do velho
overman.


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Como ele dizia, tacteando o terreno, não havia perigo de errar
o caminho. Era preciso substituir os olhos pelas mãos, e ter
inteira confiança nesse instinto de mineiro, que viera com o
tempo a converter-se para Simão Ford e seu filho numa segunda
natureza.
Jaime Starr e os seus companheiros romperam a marcha na
ordem que se indicara. Não falavam, mas não era porque
deixassem de ir pensando. Estava provadíssimo que tinham um
adversário. Mas quem seria ele, e de que modo se poderiam
evitar os seus ataques tão misteriosamente combinados? Eis o
que seriamente inquietava o espírito dos quatro exploradores.
Entretanto o momento não era o mais acertado para perder o
sangue-frio.
Harry, com os braços estendidos e o passo firme, caminhava
adiante, passando sucessivamente de um para o outro lado da
galeria. Se acaso se lhe deparava alguma abertura duvidosa,
sabia, pelo exame feito com os dedos, se lhe convinha
afastar-se dela, e assim continuava sempre a seguir o caminho
mais direito.
Esta difícil e penosa excursão durou cerca de duas horas, no
meio de uma obscuridade a que os olhos se não podiam habituar,
porque era absoluta. Computando o tempo decorrido, e tendo em
vista os obstáculos do regresso, Jaime Starr supunha que ele e
os seus companheiros deviam achar-se próximo da saída.
Efectivamente, Harry parou logo em seguida.
- Chegámos enfim à extremidade da galeria? - perguntou Simão
Ford.
- Chegámos - respondeu o filho.
- Nesse caso encontraste já o buraco por onde entrámos na
Nova Aberfoyle?
- Ainda não - respondeu Harry, cujas mãos convulsas não
encontravam na espessura da massa o menor vestígio da
cavidade.
O velho overman deu alguns passos para diante, e veio também
apalpar a rocha de xistos.


99

Não pôde reprimir um grito!
Ou durante o regresso os exploradores se tinham enganado no
caminho, ou o estreito orifício, aberto na rocha pela
dinamite, fora de novo tapado!
Em qualquer das alternativas, Jaime Starr e os seus
companheiros achavam-se encarcerados no subsolo da Nova
Aberfoyle!

100


CAPÍTULO XI


AS DAMAS DE FOGO


OIto dias depois destes acontecimentos, lavrava grande
inquietação entre todos os amigos de Jaime Starr. Era certo
que o engenheiro desaparecera, mas nenhum motivo aceitável
justificava semelhante desaparição. Sabia-se apenas, por
declarações do seu criado, que tinha embarcado no cais de
Granton, e o capitão do barco "Príncipe de Gales" afirmava que
o vira desembarcar em Stirling. Deste ponto para diante não
havia as menores informações. A carta de Simão Ford
recomendava segredo ao engenheiro, e este não participara a
ninguém a sua partida para as hulheiras de Aberfoyle.
A ausência inexplicável de Jaime Starr tornou-se pois o
assunto de todas as conversações em Edimburgo. O presidente da
Royal Institution, Sir W. Elphiston, apresentou aos seus
colegas a carta que lhe dirigira Jaime Starr, desculpando-se
de não poder assistir à próxima sessão da Sociedade. Houve
ainda três ou quatro pessoas que mostraram cartas escritas no
mesmo sentido. Se estes documentos afirmavam que o engenheiro
saíra de Edimburgo - o que ninguém punha em dúvida - não
diziam contudo qual o destino que ele tomara. Não admirava
pois que uma ausência tão fora dos hábitos de Jaime Starr
começasse a causar sérias inquietações.
Nenhum dos amigos do engenheiro se atreveria a pensar que
ele tivesse na verdade partido para Aberfoyle. Sabia-se quanto
lhe era saudosa a recordação daquele antigo teatro da sua
actividade. Efectivamente, desde que se arrancara do fundo da
hulheira o último fragmento de carvão de pedra, nunca mais o
engenheiro ali voltara a pôr os pés.
Contudo, como era evidente que ele desembarcara em Stirling,
tratou-se de dirigir sobre aquele ponto algumas das pesquisas.
Foram, porém, inúteis todas as diligências. Ninguém se
lembrava de ter visto o engenheiro. O único que estaria no
caso de dar a seu respeito alguns esclarecimentos era Jack
Ryan, que o tinha encontrado juntamente com Harry numa das
escadas do poço Yarow. O folgazão ex-mineiro contudo
trabalhava na herdade de Melrose, situada quarenta milhas a
sudoeste no condado de Renfrew, e mal podia ele supor que se
andasse tão preocupado com o desaparecimento de Jaime Starr.
Oito dias depois da sua visita à residência da família Ford,
Jack Ryan estava pois muito satisfeito da sua vida, tocando e
cantando nas festas do clã de Irvine, quando sucedeu achar-se
também envolvido num sinistro conflito, como adiante se verá.
Jaime Starr gozava de muita importância e consideração,
tanto em Edimburgo como em toda a EscóCia, para que pudesse
passar despercebidamente cualquer circunstância que se
prendesse com a sua vida.
O lorde preboste, primeiro magistrado da cidade, os bailios
e os conselheiros - todos pela maior parte amigos do
engenheiro - mandaram proceder às mais rigorosas indagações.
Puseram-se em movimento os mais activos agentes de polícia.
Nenhum resultado, porém, se chegou a conseguir.
Recorreu-se aos principais jornais do Reino Unido,
mandando-se publicar uma nota relativa ao engenheiro Jaime
Starr, com indicação de todos os seus sinais e data do seu
desaparecimento.


102

Depois esperou-se com ansiedade pelas consequências deste
expediente. O mundo científico de Inglaterra comeÇava já a
recear-se de que tinha definitivamente perdido um dos seus
mais ilustres e honrados membros.
Ao passo que a pessoa de Jaime Starr estava merecendo tantos
cuidados, não era também digna de menos sérias preocupações a
pessoa de Harry Ford. A diferença consistia unicamente em que
o filho do velho overman, longe de ocupar a opinião pública,
só inquietava a boa e expansiva alegria do seu amigo Jack
Ryan.
Deve ainda estar lembrado que, por ocasião do encontro no
poço Yarow, Jack Ryan convidou Harry a ir daí a oito dias
assistir às festas do clã de Irvine. Harry tinha prometido
formalmente que não faltaria àquela função. Jack Ryan sabia,
por experiência de muitos anos, que o seu amigo era homem de
palavra. Quando se combinava com ele uma coisa, era negócio
decidido.
Ora nas festas de Irvine tudo tinha corrido alegremente:
danças, folias e cantares. Só se notara com desprazer a
ausência de Harry Ford.
Jack Ryan começara por se agastar contra ele. A presença de
Harry Ford influía muito no seu bom humor. Perdeu a memória -
caso raro! - quando estava a cantar, e pela primeira vez na
sua vida teve de ficar parado durante os passos de uma jiga -
ele que não conhecia rival naquele género de dança viva e
animada.
Diga-se também que a nota inserta nos jornais, com relação a
Jaime Starr, ainda não chegara ao conhecimento de Jack Ryan. O
bom do rapaz preocupava-se exclusivamente com a ausência do
seu companheiro, alegando de si para si que só uma causa
gravíssima poderia tê-lo obrigado a faltar ao prometido. No
dia seguinte ao das festas de Irvine, tencionava Jack Ryan
meter-se no caminho de ferro de Glásgua, a fim de ir saber o
que teria sucedido a Harry Ford, quando um desagradável
acontecimento - que por pouco Lhe não custava a vida -,


103

veio opor-se formalmente à realização do seu projecto.
Estava-se a 12 de Dezembro. Era já noite havia muito tempo.
O que então sucedeu parecia feito de molde para justificar as
apreensões e a credulidade de todas as pessoas supersticiosas.
E Deus sabe se na herdade de Melrose não era grande o número
delas! A pequena cidade de Irvine, pertencente ao condado de
Renfrew e cuja população anda por sete mil almas, fica situada
sobre uma curva que faz a costa da Escócia quase à entrada do
golfo de Clyde. O seu porto, bem abrigado contra os ventos de
travessia, tem à entrada um farol de luz tão brilhante que
nenhuma embarcação, ao acercar-se daquelas paragens, corre
perigo de encalhar. Por isso também os naufrágios são
raríssimos nesta parte do litoral, e por isso também podem
manobrar à vontade, mesmo em noites escuras, todos os navios,
quer costeiros, quer de grande tonelagem, que pretendam
fundear em Irvine ou seguir rumo para Glásgua pelo golfo de
Clyde.
Quando uma cidade qualquer conta um passado histórico, por
mais insignificante que seja, quando possui um castelo que
fosse noutras eras apanágio de um Roberto Stuart, pode-se ter
a certeza de que essa cidade não deixa de encerrar um certo
número de ruínas.
Ora sucede que na Escócia todas as ruínas são habitadas por
espíritos invisíveis. É essa pelo menos a opinião mais aceite
e vulgarizada nas Terras Altas e Baixas.
As ruínas mais antigas, e também as de pior fama, nesta
parte da Escócia, eram justamente as do castelo de Roberto
Stuart, conhecido pelo nome de Dundonald-Castle, e distante da
cidade duas milhas.
O castelo de Dundonald, abrigo natural de todos os duendes
errantes dos arredores, estava nesta época votado ao mais
completo isolamento. Ninguém se atrevia a visitá-lo sobre o
alto rochedo em que ele assentava, superior ao mar.


104

Se alguns estrangeiros pretendiam consultar aquelas memórias
de outra idade, tinham de se decidir a ir lá sozinhos. Os
habitantes de Irvine não se resolveriam a acompanhá-los, fosse
por que preço fosse. Efectivamente não deixavam de correr
algumas histórias pavorosas em relação às "Damas de Fogo" que
se dizia habitavam as ruínas do derrocado castelo.
Os mais supersticiosos afirmavam terem visto com os seus
próprios olhos as fantásticas apariÇões. Escusado será dizer
que Jack Ryan pertencia ao grupo destes videntes.
O certo é que de tempos em tempos divisavam-se umas chamas
longas e intensas, ora sobre as muralhas aluídas, ora sobre a
torre de menagem, pertencentes ao velho solar.
Possuiram estas chamas a forma que se lhes atribuía?
Mereceriam elas o nome de "Damas de Fogo" que Lhes davam os
escoceses do litoral? Em tudo isto evidentemente não havia
mais que uma alucinação de cérebros inclinados ao maravilhoso.
A ciência poderia explicar sem dificuldade a causa provável de
semelhante fenómeno.
Entretanto as "Damas de Fogo" tinham adquirido em todo o
país a reputação de habitarem aquelas ruínas, e de se
entregarem ali de vez em quando a estranhas sarabandas,
especialmente em noites lôbregas e cerradas. Jack Ryan, por
mais amigo de música e de dança que fosse, não se teria
aventurado a ir acompanhar com a sua gaita-de-foles os
requebros e meneios de tão sobrenaturais criaturas.
Como se deve supor, as "Damas de Fogo" formavam o assunto
obrigatório de todas as palestras ao serão. Jack Ryan possuía
a seu respeito um vasto reportório de lendas que nunca se
esgotava.
Na última noite das festas do clã de Irvine - noite bem
regalada de cerveja, de brande e de uísque -,


105


estava Jack Ryan de volta com o seu tema predilecto, cercado
por um grupo bastante numeroso, que o escutava tanto com
prazer como terror.
Depois de terminadas as danÇas, todos se tinham ido agrupar
numa vasta granja, dependente da herdade de Melrose, e situada
muito perto do mar. No meio do pavimento ardia sobre um enorme
braseiro de ferro um excelente fogo de coque.
Fora dali o tempo corria tempestuoso. O mar, cavado e
coberto de nevoeiros, rugia furiosamente agitado por uma brisa
forte de sudoeste. A noite muito escura, não se via uma
estrela. O céu, a terra e as águas confundiam-se na mesma
treva. Se naquela conjuntura algum navio demandasse a baía de
Irvine, expunha-se a ir cair sobre a costa, corrido com vento
pela popa.
O movimento marítimo de Irvine costuma ser limitadíssimo. É
sempre mais ao norte que as embarcações, tanto de vela como a
vapor, costeiam a terra, quando entram no golfo de Clyde.
Se naquela noite porém algum marítimo se tivesse demorado na
praia, poderia ver, não sem espanto, que estava um navio
procurando aproximar-se da terra. E se fosse possível romper
ali de repente a luz do dia, já não seria com espanto, senão
com pavor, que se teria visto o malogrado navio precipitar-se
a toda a forÇa de pano sobre a costa aparcelada.
Se falhasse a entrada do golfo, aquele barco iria fatalmente
despedaçar-se entre os infinitos escolhos do litoral. Só um
milagre poderia salvá-lo em tão apertado lance.
Entretanto, dentro da granja, ia findar a festa com a última
história de Jack Ryan. O seu auditório, transportado ao mundo
dos espíritos, achava-se disposto a crer em tudo Que lhe
dissessem.
De repente sentiram-se da parte de fora uns gritos
aflitivos.
Jack Ryan parou com a sua narração, e saiu precipitadamente,
seguido de todos os seus amigos:


106

A noite era medonha! A chuva e o vento açoitavam sem cessar
os altos fraguedos da extensa costa.
Dois ou três pescadores, abraçados a um rochedo para melhor
resistirem à força do temporal, continuavam a gritar
desesperadamente.
Jack Ryan e os companheiros correram para o ponto donde
partiam os gritos.
Não era aos habitantes da herdade que se dirigiam os
pescadores, era à tripulação de um navio, que estava em risco
de perder-se.
Entre as sombras da noite começava a distinguir-se uma massa
negra a poucas milhas da costa. Era efectivamente um navio,
fácil de reconhecer pelos seus faróis, um de luz branca, no
topo do mastro de mezena, outro vermelho, a bombordo, e o
terceiro verde, a estibordo. O barco via-se agora todo pela
proa, e era evidente que se dirigia acossado para a costa.
- Temos algum navio em perigo? - bradou Jack Ryan.
- Temos - respondeu um dos pescadores -, e tão em perigo
que, se quisesse virar de bordo, já não podia fazê-lo.
- Façam-lhe sinais - gritou um dos escoceses.
- Como? - replicou o pescador. - Com um temporal tão rijo,
nenhum archote se conservaria aceso dois segundos.
E enquanto se trocavam estas palavras, continuava-se a
bradar em direcção do navio. Os brados perdiam-se, contudo, no
meio desta horrorosa borrasca. A tripulação do barco parecia
estar condenada a um naufrágio inevitável.
- Mas que desastrada manobra é aquela? - exclamou impaciente
um dos escoceses, marinheiro de profissão.
- Parece que a gente de bordo tem vontade de dar à costa! -
replicou outro.
- Não veria o capitão o farol de Irvine? - perguntou Jack
Ryan.


107

- Assim parece - respondeu um dos pescadores -, a não ser
que se deixassem enganar por algum...
O pescador não teve tempo de acabar a sua ideia. Veio
interromper-lha um grito formidável de Jack Ryan. Ouvi-lo-iam
de bordo? Em todo o caso era tarde para evitar a catástrofe. O
navio estava prestes a bater nos cachopos, cujos redemoinhos
de espuma branca se distinguiam por entre as sombras.
Mas não era um derradeiro aviso, como poderia supor-se, que
Jack Ryan tratava de enviar ao barco em perigo. Jack Ryan
encontrava-se a esse tempo com as costas voltadas para o mar.
Os seus companheiros fitavam juntamente com ele um ponto
distante meia milha da costa.
O ponto para que todos olhavam ansiosos era o castelo de
Dundonald. Na extremidade da sua torre de menagem estorcia-se,
batida pelo vento, uma intensa e comprida chama.
- As "Damas de Fogo!" - bradou com pavor toda esta gente
supersticiosa.
Tudo se explicava agora. Era claro que o navio, desorientado
com os nevoeiros, se enganara no rumo, tomando pelo farol de
Irvine esta chama que brilhava no alto do velho castelo. O
barco julgava-se à entrada do golfo, situado a mais de duas
milhas ao norte, e metera a proa sobre uma costa que lhe ia
causar a perda.
Que se poderia tentar para salvá-lo? Correr, sem demora às
ruínas do castelo, e tratar de extinguir a chama traiçoeira.
Mas qual daqueles escoceses teria tido o pensamento, e
depois do pensamento a coragem, de arrostar de frente com as
"Damas de Fogo"? Talvez um só: Jack Ryan, que, além de
resoluto, saberia vencer a própria credulidade para praticar
uma boa acção.
Era, porém, já muito tárde. No meio daquela tremenda luta
dos elementos sentiu-se um horroroso estampido.


108

O barco tocara num baixo, e começava a meter água pelo
fundo. Apagaram-se-Lhe os faróis. A linha espumosa da ressaca
abriu-se num dado momento. Era o navio que varava por cima de
uma restinga, indo completamente desconjuntar-se entre os
recifes da praia.
Ao mesmo tempo - devido a uma coincidência que só o acaso
poderia explicar - desaparecia também a chama do alto da
torre, como que violentamente apagada por algum imenso
furacão.
O mar, o céu e a costa ficaram novamente envoltos na mais
completa escuridão.
- Sempre as "Damas de Fogo!" - exclamou ainda uma vez Jack
Ryan, quando de todo se sumiu aquele foco de luz para ele
sobrenatural.
E, caso notável, a intrepidez que estes supersticiosos
escoceses não se atreveriam a ter contra um perigo imaginário,
começaram a senti-la em vista de um perigo real. É que desta
vez tratava-se de salvar a vida dos seus semelhantes.
A fúria da procela não conseguiu aterrá-los. Por meio de
cordas, que lançaram sobre as vagas encapeladas, correram em
auxílio dos náufragos-tão arrojados agora como crédulos se
tinham mostrado há pouco.
E viram felizmente coroados os seus esforÇos, embora alguns,
em cujo número entrava Jack Ryan, ficassem gravemente contusos
nas asperezas do fraguedo. O capitão do barco, porém, e os
seus oito homens de tripulação foram depostos na praia sãos e
salvos.
O navio era o brigue norueguês "motala", em viagem para
Glásgua, com carregamento de madeira do Norte.
Não tinham falhado as conjecturas, Efectivamente o capitão
do brigue, iludido pela chama que presenciara no alto do
castelo de Dundonald, viera dar à costa, supondo que entrava
no golfo de Clyde.
Do "Motala" só restavam agora informes e raros fragmentos,
que as vagas se incumbiam de destruir, cuspindo-os
desdenhosamente sobre os escolhos do litoral.



CAPÍTULO XiI


UM AMIGO CERTO NUMA OCASIÃO INCERTA


Jack Ryan e mais três dos seus companheiros, feridos como
ele, tinham sido transportados para um dos quartos da herdade
de Melrose, onde logo se lhes prestaram os primeiros
curativos.
Jack Ryan era de todos o mais contuso, porque, na ocasião de
se lançar ao mar preso por uma corda à cintura, fora com a
fúria das vagas arremessado de encontro aos cachopos. Por
pouco até que os seus amigos o não retiraram das águas
moribundo.
O excelente moço viu-se, pois, condenado a ficar de cama por
algum tempo - o que ele não podia levar à paciência.
Entretanto, apenas lhe deram licença para cantar, começou a
conformar-se melhor com a sua sorte, mostrando que os
ferimentos não lhe tinham de modo algum ofendido a forÇa dos
pulmões. A história do naufrágio do "Motala" fê-lo porém
acreditar cada vez mais no poder dos duendes e dos espíritos,
que se divertem a embirrar com a pobre humanidade. Debalde
proCuraram convencê-lo de que tais "Damas de Fogo" não
existiam, e que a estranha aparição daquela chama só devia
atribuir-se a um fenómeno puramente físico. Nenhum raciocínio,
por mais rigoroso que fosse, conseguia destruir-lhe as
apreensões. E, sobre este ponto, ainda os outros companheiros
se mostravam muito mais intransigentes.


110

Segundo eles afiançavam, eram as "Damas de Fogo" que tinham
obrigado o brigue norueguês a dar à costa. E que ninguém
pensasse em castigá-las. Seria isso tão difícil como querer
multar o temporal pelos estragos que faz.
Os juízes podiam à sua vontade autorizar quantas devassas
lhes parecessem necessárias. Não se dá voz de prisão a uma
chama, nem se mete um duende na cadeia.
E, diga-se a verdade, as buscas feitas anteriormente
pareciam dar razão - pelo menos em aparência - a esta maneira
supersticiosa de encarar os acontecimentos.
O magistrado, incumbido de proceder a um inquérito com
relação ao "Motala", procurou ouvir as diferentes testemunhas
que tinham presenciado o naufrágio. Todas foram unânimes em
imputar a catástrofe à incompreensível aparição das "Damas de
Fogo" sobre as ruínas do castelo de Dundonald.
Como é bem de supor, a justiça não podia contentar-se com
explicações tão pueris. Que naquelas ruínas se tivesse
produzido um fenómeno puramente físico, era caso admissível.
Mas dever-se-ia esse fenómeno a um simples acidente, ou a uma
premeditada malvadez? Eis o que a justiça tinha a deslindar.
Que não cause estranheza o emprego da palavra "malvadez".
Para se Lhe encontrar a explicaÇão, não será preciso
remontar-se aos primeiros séculos da história americana.
Sabe-se que os moradores da costa bretã lanÇaram mão por muito
tempo de odiosos artifícios para provocarem naufrágios, de
cujos despojos se apossavam em seguida. Umas vezes era um
feixe de árvores resinosas, que se acendiam de noite,
obrigando as embarcações a irem bater sobre os escolhos de que
não podiam safar-se. Outras vezes era um touro que se deixava
correr à solta, com um archote preso nos chifres, a fim de
enganar os marinheiros sobre a verdadeira linha da sua
derrota. De semelhantes ardis resultava perder-se grande
número de navios - com o que muito folgavam estes grupos de
bandidos. Foi preciso a intervenção da justiça e mais de um
castigo severíssimo para se conseguir finalmente pôr termo a
tão bárbaros e odiosos costumes.


111

Ora não poderia muito bem ser que a mão criminosa de algum
malfeitor tivesse agora recorrido às práticas do antigo tempo?
Foi o que a justiça pensou, mau grado as convicções de Jack
Ryan e seus companheiros. Quando estes ouviram falar em
devassas, dividiram-se em dois grupos - o dos indiferentes,
que não via a menor vantagem naquele aparato judicial, e os
dos medrosos, que receava por este meio irr itar os espíritos
sobrenaturais.
A justiça, contudo, tratou de proceder a um inquérito
rigoroso. Os seus agentes foram examinar pessoalmente as
ruínas do castelo de Dundonald, procedendo a buscas aturadas e
muito minuciosas.
O magistrado que os acompanhava quis ver se o solo
conservaria sinais de alguns entes menos impalpáveis que as
fadas ou os duendes. Nada porém lhe denunciou pegadas humanas,
embora a terra, ainda húmida das chuvas da véspera, devesse
conservar-lhes os vestígios.
- Pudera! - exclamou Jack Ryan, quando teve notícia do mau
êxito das diligências efectuadas. - Assim se encontram pegadas
de duendes! Antes querer tirar um prego do fundo do golfo!
O princípio do inquérito não deu pois resultado algum. Não
era de supor que se fosse mais feliz com o seu seguimento.
Tratava-se de averiguar: 1, de que maneira se teria ,
manifestado o fogo; 2, quais os elementos empregados para
produzir a combustão; 3, finalmente ue resíduos a mesma
combustão teria deixado no alto da velha torre.
Sobre o primeiro quesito nada se apurou: nem fósforos meio
ardidos, nem aparas de papel a denunciarem a premeditação de
um crime - se crime havia nisto.
Sobre o segundo sucedeu o mesmo: nem cavacos nem urzes secas
ou tojo que pudessem ter servido para atear aquela chama.


112

Quanto ao terceiro, idêntico resultado: a completa ausência
de cinzas ou de qualquer outro resíduo de combustível não
deixava precisar em que ponto a chama se localizara. Nem sobre
a cortina das muralhas, nem sobre o pavimento da torre se
encontraram pedras enegrecidas pelo fogo. Deveria pois
concluir-se que tivesse alguém andado ali de noite agitando
com a mão aquele foco luminoso? Era pouco aceitável esta
hipótese, porque, segundo o depoimento das testemunhas, a
chama apresentava dimensões tais que a tripulação do "Motala",
apesar do nevoeiro, pôde vê-la perfeitamente do mar alto.
- Pois sim! - exclamou Jack Ryan. - As "Damas de Fogo"
precisam lá de fósforos! Basta-lhes um sopro só para elas
fazerem arder tudo o que queiram sem o mais leve sinal de
cinza.
A conclusão de tudo isto foi que a justiÇa perdeu o seu
tempo, e que, às lendas já existentes, veio juntar-se mais uma
- a que se referia ao naufrágio do "Motala" e ao poder
sobrenatural das impalpáveis "Damas de Fogo".
Entretanto, um rapaz, tão forte e vigoroso como Jack Ryan,
não podia ficar de cama eternamente. Lá porque o temporal se
tinha lembrado de o obsequiar com alguns ferimentos e
contusões, isso não era motivo que o obrigasse a conservar-se
toda a vida sem acção. O tempo não Lhe sobrava para estar
doente. Ora quando o tempo escasseia para essas coisas em
regiões tão sadias como as Lowlands, a consequência mais
natural é que nunca ali se está doente.
O jovial ex-mineiro restabeleceu-se pois muito depressa.
Logo que se viu de pé, o seu primeiro pensamento - ainda antes
de voltar aos trabalhos da herdade - foi levar a efeito o
projecto que formara durante a curta doença. Consistia esse
projecto numa visita às hulheiras de Aberfoyle, a fim de saber
porque teria o seu amigo Harry faltado às festas de Irvine.
Semelhante ausência da parte de um rapaz que nunca faltava à
sua palavra não podia deixar de envolver algum mistério.


113

Parecia incrível que o filho do velho overman não tivesse
ouvido falar do naufrágio do "Motala", descrito minuciosamente
nos jornais, e da parte que Jack Ryan, com risco da própria
vida, tinha tomado na salvação dos seus tripulantes. Seria
grande indiferença da parte de Harry não dar uma saltada até
Melrose para apertar a mão de Jack Ryan e saber do seu estado.
Se, portanto, Harry ainda não tinha vindo visitar o amigo, é
porque algum facto extraordinário se opunha a esse dever. Jack
Ryan quisera antes negar a existência das "Damas de Fogo" do
que acreditar, por um momento só que fosse, na ingratidão do
seu antigo companheiro.
Dois dias depois do acontecido, saía Jack Ryan da herdade já
meio curado das suas feridas, como se nada tivesse sido com
ele. Atroando os ares com as alegres notas de uma das suas
mais predilectas cantigas, foi-se direito à gare do caminho de
ferro, que de Glásgua se dirige para Stirling e Callander.
Depois de comprar bilhete, e enquanto esperava pelo comboio,
pôs-se casualmente a olhar para uns grandes cartazes que
cobriam as paredes da sala de espera, e continham as seguintes
palavras:


"No dia 4 do corrente mês de Dezembro o engenheiro Jaime
Starr, da cidade de Edimburgo, entrou para bordo do "Príncipe
de Gales", no cais de Granton, e seguiu nesse barco até
Stirling, onde desembarcou algumas horas depois. Desde esse
dia que se não sabem notícias dele.
Quem puder prestar algumas informações a respeito do dito
engenheiro, queira servir-se de as enviar ao presidente da
Royal Institution, em Edimburgo."


Jack Ryan, parado diante de um dos cartazes, leu-o duas
vezes a fio, dando sinais de uma extraordinária surpresa.
- Será possível o que eu acabo de ler! - exclamou ele
admirado. - Mas a 4 do corrente foi justamente quando eu
encontrei o senhor Jaime Starr com o meu amigo Harry nas
escadas do poço Yarow! Faz agora dez dias!


114

E não tornou a aparecer desde então! Dar-se-á o caso que este
desaparecimento se relacione com a falta do meu pobre Harry às
festas do clã de Irvine?
E, sem tratar de mandar dizer por escrito ao presidente da
Royal Institution o que sabia sobre o engenheiro Jaime Starr,
o dedicado rapaz saltou logo para o comboio, resolvido a não
parar enquanto não tivesse chegado à boca do poÇo Yarow.
Três horas depois, apeava-se do comboio na gare de
Callander, seguindo apressadamente em direcção às huLheiras de
Aberfoyle.
- Porque não tornariam eles a aparecer? - perguntava a si
mesmo Jack Ryan. - Detê-los-ia algum obstáculo no caminho. ou
andarão entretidos nalguma nova experiência? Hei-de sabê-lo em
breve!
Jack Ryan alargou o passo e em menos de uma hora
encontrava-se à entrada do poço Yarow.
Exteriormente não havia a menor mudança. O mesmo sossego em
torno dele. A mesma solidão em torno da mina.
Jack Ryan penetrou no alpendre que cobria a boca do poço.
Espreitou para dentro. Não viu nada. Aplicou o ouvido.
Silêncio profundo.
- E o meu candil? - exclamou ele. - Não estará já no mesmo
sítio?
O candil, de que Jack Ryan se servia quando ia visitar a
família Ford, costumava geralmente estar preso a um canto no
patamar da primeira escada.
O candil tinha desaparecido!
- O caso complica-se! - disse Jack Ryan, que principiava a
inquietar-se.
Depois, sem hesitações, apesar de supersticioso,
acrescentou:
- Hei-de ir, ainda que o poÇo esteja mais negro que as
profundas do inferno!


115

E começou a descer a longa série de escadas que se sucediam
umas às outras.
Era preciso que Jack Ryan conservasse ainda os seus antigos
hábitos de mineiro, e conhecesse bem o caminho das diferentes
galerias e travessas, para se atrever assim a descer às
escuras. Para mais segurança, não se firmava em nenhum degrau
sem primeiro tê-lo procurado com os pés. Qualquer passo mal
dado por aquelas escadas carunchosas poderia ocasionar uma
queda mortal. Jack Ryan ia contando os degraus que deixava
atrás de si. Sabia por experiência que não estaria no fundo do
poço antes de ter chegado ao trigésimo patamar. Acabada a
descida, não tinha medo de enganar-se, por estar bem ao facto
do plano da hulheira.
Jack Ryan chegou assim ao vigésimo sexto patamar.
Separavam-no do fundo do poço quando muito duzentos pés.
Depois estendeu a perna em busca da vigésima sétima escada.
A perna, porém, agitou-se no vácuo sem encontrar nenhum ponto
de apoio. Jack Ryan pôs-se de joelhos no patamar, e procurou
agarrar com a mão a extremidade da escada. Trabalho inútil.
Era evidente que, não estando no seu lugar a vigésima sétima
escada, alguém a tinha dali tirado.
- Andariam por cá as bruxas? - disse Jack Ryan, não sem
experimentar um certo sentimento de terror.
Jack Ryan levantou-se e cruzou os braços, parecendo querer
penetrar com a vista as sombras espessas que o cercavam.
Esteve assim alguns momentos. Depois veio-lhe ao espírito que
assim como ele não podia descer, também os habitantes da
travessa Dochart não poderiam subir. Se as últimas escadas do
poço Yarow tinham desaparecido depois do encontro de Jack Ryan
com Harry e Jaime Starr, o que seria feito de Simão Ford, de
sua mulher, de seu filho e do engenheiro?! A ausência
prolongada de Jaime Starr estava dando bem a conhecer que
nenhuma comunicação existia entre o solo do condado de
Stirling e o fundo das hulheiras de Aberfoyle!


116

O que se estaria ali a passar há tanto tempo? A despensa da
família Ford achar-se-ia suficentemente abastecida de víveres
para sustentar quatro pessoas por espaço de dez dias? Todas
estas considerações foram rapidamente feitas por Jack Ryan. O
pobre rapaz bem viu que, faltando-lhe as escadas, nada podia
fazer só por si para chegar ao fundo do poço. Haveria em tudo
isto alguma intenção criminosa? Parecia bem que sim. Em todo o
caso, se à justiça competia proceder, a ele, Jack Ryan,
competia preveni-la.
Antes porém de se afastar dali, Jack Ryan, debruçando-se
sobre o último patamar, pôs-se a gritar com toda a força dos
seus pulmões:
- Harry! Harry!
Os ecos repetiram-Lhe muitas vezes este nome, que por fim se
perdeu de todo nas profundezas do poço Yarow.
,Jack Ryan subiu rapidamente as escadas superiores, e
depressa tornou a ver a luz do dia. Sem perder um minuto,
deitou a correr na direcção da gare de Callander, onde chegou
a tempo de apanhar o comboio expresso de Edimburgo. Às três
horas da tarde apresentava-se ele em casa do lorde preboste da
capital.
Ali, as suas declaraÇões foram recebidas com alvoroço. Eram
tão explícitos os pormenores de Jack Ryan, que sobre a sua
veracidade não podia admitir-se a menor suspeita. O presidente
da Royal Institution, Sir W. Elphiston, não só colega mas
também amigo particular de Jaime Starr, foi logo prevenido, e
pediu para dirigir pessoalmente as diligências que se iam
tentar nas hulheiras de Aberfoyle. À sua disposição puseram as
autoridades diversos agentes de polícia, que se muniram de
lanternas, cordas, picaretas, escadas de corda muito
compridas, alguns víveres e cordiais.


117

Assim preparados, marcharam todos sem detença em demanda do
poço Yarow, levando na frente Jack Ryan.
Chegados nessa mesma noite àquele poço, começaram a
descê-lo, parando, como sucedera a Jack Ryan, no seu vigésimo
sexto patamar. Depois ataram algumas das lanternas à
extremidade das cordas que traziam, e lançaram-nas
cautelosamente para baixo. Deste modo tornou-se facílimo
verificar que faltavam as últimas quatro escadas.
Era portanto evidente que tinham sido cortadas de propósito
todas as comunicações entre o interior e o exterior da mina.
- Porque esperamos ainda? - perguntou com impaciência Jack
Ryan.
- Esperamos que voltem para cima as lanternas - respondeu
Sir Elphiston. - A descida far-se-á depois, servindo-nos tu de
guia através das galerias.
- Com todo o gosto - exclamou Jack Ryan. - Primeiro havemos
de ir à residência de Simão Ford, depois, se for preciso, aos
mais recônditos abismos da hulheira.
Logo que se içaram as lanternas, os agentes prenderam ao
último patamar as escadas de corda, e deixaram-nas cair pelo
poço dentro. Como ainda existiam inteiros os patamares
inferiores, a descida de uns para outros não se tornava tão
perigosa.
Ainda assim a operação oferecia as suas dificuldades. Jack
Ryan foi o primeiro que se suspendeu a estas escadas
vacilantes, como também foi o primeiro que chegou ao fundo do
poço.
Sir W. Elphiston e os agentes seguiram-no de perto.
A meia-laranja, formada em baixo pelo poço Yarow, estava
absolutamente deserta. Sir W. Elphiston ficou, porém, muito
surpreendido, quando ouviu dizer a Jack Ryan:
- Cá estão os restos das escadas! Cá estão elas meio por
queimar!
- Que dizes, rapaz! - Exclamou Sir W. Elphiston.


118 - 119

Efectivamente, no chão viam-se alguns fragmentos de madeira
carbonizada, denunciando ainda a forma dos degraus.
- É lá possível - acrescentou Jack Ryan - que fosse o
engenheiro Jaime Starr quem destruísse estas escadas?
- Isso não - respondeu Sir W. Elphiston, que ficou
pensativo. - Vamos, Jack, vamos à morada de Simão Ford. Lá é
que devemos conhecer toda a verdade.
Jack Ryan abanou a cabeça como quem não era da mesma
opinião. Mas tirando a lanterna da mão a um dos agentes,
começou a avançar apressadamente pela galeria principal.
Todos trataram de o seguir.
Um quarto de hora depois, Sir W. Elphiston e os seus
companheiros entravam na travessa Dochart, onde ficava a
morada de Simão Ford.
Pela fenda das janelas não se via sinal de luz.
Jack Ryan aproximou-se da entrada, e abriu a porta de par em
par.
A casa estava deserta.
Percorreram-se todos os quartos daquela sombria residência.
Em nenhum se divisou o mínimo sinal de violência. Tudo existia
na melhor ordem, como se ainda ali estivesse a boa Madge. A
reserva de víveres, abundante, devia chegar para muitos dias.
Não se compreendia pois a ausência desta família. Mas
poder-se-ia conhecer a data do seu desaparecimento? Podia,
porque neste viver subterrâneo, em que os dias se não sucediam
às noites, Madge adoptara o sistema de indicar o movimento do
tempo por meio de cruzes feitas na sua folhinha.
Essa folhinha lá estava pregada na parede da casa de jantar.
A última cruz, feita por Madge, marcava a data de 6 de
Dezembro. Jaime Starr entrara para ali no dia 4 -
circunstância que Jack Ryan estava bem no caso de afirmar.


120

Era, pois evidente que Jaime Starr e a família Ford tinham
dali saído, havia já dez dias. Explicar-se-ia esta longa
ausência por alguma nova exploração tentada pelo engenheiro?
Não era fácil responder afirmativamente a semelhante pergunta.
Sir W. Elphiston, depois de ter minuciosamente examinado a
casa, ficou perplexo, sem saber que resolução tomar.
Era completa a escuridão. A luz das lanternas, que os
agentes levavam, mal permitia diferençar os objectos vizinhos.
De repente, Jack Ryan soltou um grito.
- Ali! Ali! - bradou ele.
E apontava com o dedo para um ponto afastado da galeria,
donde se destacava um intenso clarão.
- Corramos naquela direcÇão, meus amigos! - exclamou Sir W.
Elphiston.
- Alguma fada! - murmurou Jack Ryan. - Para que servirá
persegui-la? Nunca poderemos alcançá-la!
O presidente da Royal Institution e os agentes, menos
inclinados ao maravilhoso, dirigiram-se precipitadamente para
o ponto indicado pelo clarão. Jack Ryan, tomando também uma
resolução enérgica, não foi dos últimos a ficar atrás.
Começou então uma longa e cansada correria. A luz que se
observara ao longe parecia derivar de um facho que alguém de
formas delicadas e franzinas agitava no ar, correndo sempre.
De vez em quando sumia-se a luz atrás de uma galeria para
tornar a aparecer ao fundo de uma travessa. Depois seguiam-se
novas curvas e ramais que a punham fora de alcance. Parecia
que tinha desaparecido de todo, quando subitamente surgia de
novo com mais viva intensidade. Jack Ryan continuava a dizer,
não sem grande fundamento, que seria trabalho inútil querer
apanhar uma fada.
Por espaço de uma hora que durou esta desenfreada correria,
Sir W. Elphiston e os seus companheiros foram-se
insensivelmente embrenhando na parte sudoeste das hulheiras.


121

Chegou também o momento de perguntarem uns para os outros se
não estariam perseguindo uma sombra impalpável.
Entretanto a distância entre o misterioso portador do facho
e aqueles que o perseguiam diminuía a olhos vistos. Quereria
ele encaminhar Sir W. Elphiston e os seus companheiros para o
sítio onde talvez estivesse Jaime Starr e a família Ford
Ninguém poderia dizê-lo.
Os agentes, porém, vendo afrouxar a distância, redobraram de
energia. O clarão, que primeiro se observara a mais de
duzentos passos, encontrava-se agora a menos de cinquenta,
mostrando sempre tendências para mais se aproximar.
As formas daquele ser misterioso começavam já a perceber-se.
Quando voltava a cabeça, não era difícil distinguir-Lhe o
perfil de uma figura humana.
A não ser que algum génio ou duende tivesse tomado aquela
forma, Jack Ryan via-se obrigado a confessar que não tinha
diante de si nenhum ente sobrenatural.
E então, sem nunca deixar de correr:
- Rapazes! - exclamava ele. - O nosso desconhecido já parece
estar cansado! Se Lhe chegarmos a deitar a mão, e se ele
possuir a língua tão desembaraçada como as pernas, teremos
palestra para muitas horas!
Nos confins das últimas galerias, os ramais encruzilhavam-se
de tal arte que faziam lembrar as curvas e rodeios de um
complicado labirinto. O empenho de perseguir aquela sombra
tornava-se cada vez mais difícil. Bastava que ela apagasse o
facho e se escondesse no fundo de alguma invisível escavação
para de todo se escapar aos seus perseguidores.
- Porque o não terá já feito, se deseja fugir-nos sempre? -
dizia a si mesmo Sir W. Elphiston.
Neste momento, porém, o clarão sumiu-se de improviso, e os
agentes, continuando a correr, encontraram-se, sem saber como,
diante de uma estreita abertura que as rochas de xisto
deixavam entre si na extremidade de uma travessa.


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Atiçar de pronto as lanternas e penetrar por essa abertura
que tão inesperadamente se acusava, foi obra de alguns
segundos, tanto para Sir W. Elphiston como para os seus
companheiros.
Mal tinham dado cem passos numa nova, extensa e altíssima
galeria, quando foram obrigados a parar. , Acabavam de ver
quatro corpos estendidos no chão - quatro cadáveres talvez!
- Harry! Harry! - bradou Jack Ryan, precipitando-se com
ansiedade sobre o corpo do seu amigo.
Eram efectivamente Jaime Starr, o velho Overman, sua mulher
e seu filho que para ali jaziam sem movimento.
Nisto ergueu-se a custo um desses corpos, e ouviu-se a voz
desfalecida de Madge balbuciar estas palavras:
- A eles!... Salvem-nos a eles primeiro!
Sir W. Elphiston, Jack Ryan e os agentes cercaram logo o
engenheiro e os seus companheiros, fazendo-Lhes tomar com
fortuna algumas gotas de um eficacíssimo cordial. Estes
infelizes, encarcerados havia dez dias nas profundidades da
Nova Aberfoyle, estavam radicalmente a morrer de inanição.
E se, durante esse tempo todo, não haviam sucumbido -
disse-o Jaime Starr a Sir W. Elphiston - era por terem umas
três vezes encontrado junto de si alguns pedaços de pão e uma
bilha com água.
A parcimónia do auxílio mostrava bem que não pudera melhor
socorrê-los o ente invisível a quem deviam a salvação.
Sir W. Elphiston chegou a ponderar se esse ente invisível
não seria o mesmo que momentos antes lhe tinha servido de guia
até chegar a este ponto.
Fosse como fosse, ,Jaime Starr e os seus companheiros
estavam salvos, sendo logo conduzidos para a morada de Simão
Ford pela mesma estreita abertura por onde tinham penetrado na
Nova Aberfoyle Sir W. Elphiston , Jack Ryan e os agentes de
polícia.


123

E se Jaime Starr, Simão Ford e Harry não tinham podido dar
no meio das trevas com o orifício feito pela explosão da
dinamite, é porque esse orifício fora posteriormente
disfarçado pela acertada acumulação de várias pedras
sobrepostas.
Assim, pois, ficava demonstrado que, enquanto os
exploradores percorriam a extensa cripta, mão inimiga e
traiçoeira Lhes cortava perfidamente todos os meios de
comunicaÇão entre a antiga e a Nova Aberfoyle!



CAPÍTULO XIII


COAL-CITY


Três anos depois dos acontecimentos que ficam narrados,
não havia guia de viajante na Escócia que não apontasse como
grande curiosidade uma visita de algumas horas às importantes
hulheiras da Nova Aberfoyle.
Nenhuma outra mina, quer no velho quer no novo mundo,
apresentava mais curioso aspecto do que esta.
Começava logo porque o visitante sentia-se transportado, sem
o menor risco nem cansaço, até ao próprio centro da
exploração, assente mil e quinhentos pés abaixo da superfície
do condado de Stirling.
Efectivamente, numa distância de sete milhas a sudoeste de
Callander, encontrava-se aflorando o solo um túnel oblíquo,
embelezado por uma entrada monumental com torres, seteiras e
ameias. Este comprido túnel, muito largo e de uma suave
inclinação, ia terminar justamente sobre a parte central da
Nova Aberfoyle.
Os comboios de um duplo caminho de ferro, movido por força
hidráulica, partiam, de hora em hora, para a recente povoação
levantada no subsolo do condado com o nome, talvez um pouco
ambicioso, de Coal-City - Cidade do Carvão.
O visitante chegado a Coal-City achava-se de repente no meio
de um local onde a electricidade representava, como agente de
luz e de calor, um grandíssimo papel.
De facto, por mais numerosos que fossem os poços de
arejamento, não podiam eles transmitir bastante claridade à
profunda escuridão das galerias. Para remover este obstáculo,
havia-se recorrido a uma luz intensa que inundava
completamente a hulheira.
Supriam o disco solar diferentes discos eléctricos. Estes
discos - uns sóis, outros estrelas -, suspensos ao centro das
abóbadas, pendurados nos pilares das galerias, eram todos
alimentados por contínuas correntes que as máquinas
electromagnéticas produziam. Quando chegava a hora de se
largar o trabalho, bastava um isolador para dar princípio
artificialmente à noite dentro dos extensos abismos da
hulheira.
Estes aparelhos, quer grandes, quer pequenos, funcionavam no
vácuo, isto é, os seus arcos luminosos não comunicavam de
forma alguma com o ar ambiente. Por semelhante meio - dado
mesmo o caso de estar a atmosfera saturada de grisu numa
proporção inflamável - não havia que recear nenhuma explosão.
Seguia-se daqui a circunstância de ser o agente eléctrico
exclusivamente empregado em todas as exigências da vida
industrial e doméstica, tanto nas galerias em exploração, como
nas casas particulares de Coale-City.
Deve-se dizer ainda que, em relação ao valor da nova
hulheira, estavam perfeitamente justificados os cálculos do
engenheiro Jaime Starr. A riqueza dos filões quase que não
podia determinar-se. Na parte ocidental da mina, a um quarto
de milha de Coal-City, é que os mineiros tinham começado a
atacar os depósitos carboníferos. A cidade operária não
ocupava o centro da exploração. Os trabalhos das galerias
estavam directamente ligados com os de contramina pelos poços
de arejamento e extracção que punham os diferentes andares da
hulheira em contacto com o solo. O grande túnel, onde existia
o caminho de ferro de tracção hidráulica,


126

era simplesmente destinado ao transporte dos habitantes de
Coal-City.
Deve ainda estar na lembrança dos leitores qual era a
configuração da vasta caverna onde o velho Simão Ford e os
seus companheiros tiveram de parar durante a primeira visita
feita à Nova Aberfoyle.
Por cima deles erguia-se ali majestosamente uma espécie de
imensa cúpula de curva ogival. As colunas ou pilares que
sustinham essa cúpula iam perder-se completamente na abóbada
de xisto a uma altura de trezentos pés - altura quase igual à
de Mammouth-Dôme nas grutas de Kentuck.
Sabe-se que por baixo de Mammouth-Dôme - que é a maior
cúpula do vasto hipogeu americano - podem caber à vontade umas
cinco mil pessoas. Nesta parte da Nova Aberfoyle dava-se a
mesma proporção e também a mesma disposição. Mas, em vez das
admiráveis estalactites existentes na gruta de Kentucky, a
vista agora aqui fixava-se nas intumescências dos filões
carboníferos, que pareciam emergir de todos os lados sob a
pressão das rochas xistosas. Dir-se-ia que eram altos-relevos
de azeviche, iluminados brilhantemente pelos raios que os
discos projectavam.
Por baixo desta cúpula estendia-se um lago, comparável pela
sua extensão ao mar morto das Mammouth-Caves - lago profundo,
a que o engenheiro Jaime Starr dera o nome de lago Malcolm, e
em cujas águas transparentes se divisavam milhares de peixes
sem olhos.
Era junto deste imenso lago que o velho overman levantara a
sua nova habitação - habitação que ele não trocaria decerto
pelo mais esplêndido palácio de Princes-Street, em Edimburgo.
A nova moradia deitava cinco janelas sobre aquelas águas
adormecidas, cujo limite os olhos não podiam descortinar.
Dois meses depois levantava-se outra habitação nas
vizinhanças de Simão Ford. Era a de Jaime Starr. O engenheiro
dedicara-se tanto de alma e coração à Nova Aberfoyle,


127

que acabara por vir habitá-la. E só dela se afastava quando
algum negócio muito urgente a isso o compelia.
Efectivamente, onde Jaime Starr vivia melhor era no meio dos
seus operários.
Depois da descoberta dos novos jazigos, todos os mineiros da
antiga hulheira se tinham apressado a largar os trabalhos de
lavoura para pegar de novo na picareta e na barrena. Atraídos
pela certeza de que o trabalho não tornaria a faltar-lhes,
lisonjeados pela vantagem dos salários que o bom êxito da
empresa lhes oferecia, tinham deixado a parte superior da
terra pela inferior, alojando-se todos eles na hulheira, que
se prestava, em consequência das suas disposições naturais, a
esta singular instalação.
As casas de toda esta gente, feitas de tijolo, e dispostas
de uma maneira pitoresca, estendiam-se agora, umas sobre as
margens do lago Malcolm, outras debaixo desses arcos naturais
que pareciam feitos para resistir ao avançamento das abóbadas,
como os contrafortes de uma catedral. Mineiros que fendem as
rochas com as suas picaretas e barrenas, trabalhadores que
transportam o carvão, condutores de trabalhos, carpinteiros
que especam as galerias, cantoneiros a quem compete a
conservação dos caminhos, serventes que acarretam a pedra para
se deitar nos sítios donde se extrai a hulha - todos estes
operários enfim, mais directamente empregados nos trabalhos
interiores, vieram fixar a sua residência na Nova Aberfoyle,
fundando progressivamente Coal-City, situada debaixo da ponta
oriental do lago Katrine, ao norte do condado de Stirling.
Era pois uma espécie de aldeia flamenga esta que se estendia
agora pelas margens do lago Malcolm. Uma capela, erigida sob a
invocação de São Gilles, dominava todo o conjunto das casas do
alto de um rochedo que escondia a sua base nas águas deste mar
subterrâneo.


128

Quando Coal-City se iluminava com os raios dos seus discos
eléctricos, suspensos nos pilares da cúpula e doS arcos das
naves, o seu aspecto era completamente fantástico e
justificava de todo o ponto as recomendaÇões que faziam desta
povoação subterrânea os guias de viagem. Eis porque nunca lhe
faltavam visitantes todos os dias.
Que os habitantes de Coal-City se mostravam orgulhosos da
sua cidade, escusado será dizê-lo. À semelhança do que
praticava Jaime Starr, era raro que algum deles quisesse vir à
superfície da terra. Simão Ford teimava em dizer que "lá em
cima" chovia sempre, e se fizermos justiça ao clima do Reino
Unido devemos concordar que o velho overman se não enganava
absolutamente.
As famílias da Nova Aberfoyle viviam pois alegres e
satisfeitas. Num período de três anos tinham chegado a uma
certa mediania, que nunca lhes seria permitido alcançar se
continuassem a residir fora da mina. Muitas das crianÇas
nascidas por ocasião de recomeçarem os trabalhos ainda não
tinham respirado o ar exterior, o que levava Jack Ryan a fazer
a seguinte observação:
- Há já dezoito meses que deixaram de mamar, e ainda,
coitadinhos!, não viram a luz do dia!
Diga-se, a propósito de Jack Ryan, que ele foi um dos que
mais depressa acudiram ao chamamento do seu antigo engenheiro.
Este alegre e bom rapaz entendeu que era um dever para ele
voltar de novo à sua primeira ocupaÇão. A herdade de Melrose
ficara privada portanto do seu cantador e tocador habitual.
Isto não quer dizer, porém, que Jack não tornasse a cantar.
Pelo contrário, cantava tanto, que os ecos sonoros da Nova
Aberfoyle gastavam, a responder-Lhe, os seus pulmões de pedra.
Jack Ryan vivia na mesma casa de Simão Ford. Tinham-lhe
oferecido um quarto, que ele se deu pressa em aceitar, com
toda a simplicidade e franqueza do seu bondoso carácter. A
velha Madge era muito sua amiga.


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E, diga-se a verdade, também compartilhava um pouco as suas
ideias acerca dos entes fantásticos que deviam povoar a mina.
A prova é que, quando se reuniam ambos, passavam o tempo a
contar histórias sinistras, dignas de figurarem na colecção da
mitologia hiperbórea.
Jack Ryan era a alegria da casa. Além disso, nenhum outro
operário lhe levava a palma no vigor e desembaraço. Seis meses
depois de encetados os trabalhos, já dirigia um grupo de
mineiros.
- Há males que vêm por bem, senhor Ford - dizia ele um dia
ao velho overman. - O novo filão ia-lhe custando a vida, mas,
a falar verdade, não foi caro.
- Diz mesmo que foi barato, Jack - respondeu Simão Ford. -
Nem eu nem o senhor Jaime Starr esqueceremos jamais que foste
tu o nosso salvador.
- Não fui eu - replicou Jack Ryan -, foi seu filho Harry,
que teve a feliz ideia de aceitar o meu convite para as festas
de Irvine...
- E a feliz ideia de lá não ter ido, não é assim? - tornou
Harry apertando a mão do seu amigo. - Vamos, Jack, sê franco.
Todos nós teríamos ficado para sempre no fundo da hulheira se
tu não viesses em nosso auxílio, apenas convalescido dos teus
ferimentos.
- E eu sustento o contrário! - observou o teimoso rapaz. -
Oponho-me a que se avance uma coisa que não é exacta. O meu
trabalho limitou-se unicamente a querer saber o que era feito
de ti. E por fim de contas, para sermos justos, devemos
considerar que se não fosse aquele misterioso e impalpável
duende...
- já tardava que os duendes não entrassem na festa! -
exclamou Simão Ford.
- Um duende, um trasgo, um espírito das sombras, qualquer
filho de fada ou neto das "Damas de Fogo", pouco importa o
nome! - insistiu Jack Ryan. - O que é certo é que, sem a
intervenção desse génio, ainda hoje não teríamos entrado na
galeria, nem os meus amigos saído de lá.
- De acordo, Jack - respondeu Harry sorrindo.


130

Resta, porém, averiguar se esse tal génio será tão
sobrenatural como tu o pintas.
- Ainda duvidas? - exclamou Jack Ryan. - E quem queres tu
que seja uma sombra como aquela? Não será sobrenatural o ente
que deita a correr de archote na mão sem se deixar apanhar, e
que se desvanece de repente sem se saber para onde foi? Deixa
estar, Harry, que ainda havemos de tornar a vê-lo, e tu me
dirás então se eu não digo a verdade.
- Deus te ouça, Jack - disse Simão Ford. - Duende ou não, é
preciso que o encontremos um dia, e conto que nos ajudarás
nessas diligências.
- Veja no que se mete, senhor Ford, olhe que o caso é
melindroso! - ponderou Jack Ryan.
- Não te dê isso cuidado, meu rapaz!


Concebe-se facilmente como este recanto da Nova Aberfoyle se
tornou em pouco tempo familiar ao velho overman e a seu filho.
Este especialmente deu-se logo ao trabalho de lhe estudar os
mais secretos escaninhos. Chegou a poder indicar com precisão
em que ponto da superfície do solo correspondia tal ou tal
ponto da hulheira. Sabia perfeitamente que superior àquela
camada de rochas existia aqui o golfo de Clyde, acolá o lago
Malcolm, mais além o lago Katrine. Estes pilares suportavam um
contraforte dos montes Grampian. Aquela abóbada servia de
envasamento à cidade de Dumbarton. Por cima do extenso lago
passava o caminho de ferro de Balloch. Deste lado terminava o
litoral da Escócia, daquele começava a imensidade do mar,
cujos soluços estridentes se ouviam aqui durante as grandes
tormentas do equinócio. Harry estava no caso de ser um
apreciável cicerone destas catacumbas naturais, e tudo que
fazem os guias dos Alpes sobre os píncaros nevados à luz do
Sol, podia ele fazê-lo na hulheira à luz apenas da sua
lanterna.
E como ele gostava desta Nova Aberfoyle! E com que interesse
percorria os seus mais afastados recessos!


131

Hoje, com um pequeno barco por ele próprio dirigido, passava
horas a remar naquelas adormecidas lagoas. A manhã escoando-se
ao prazer de uma caça extravagante, desfechava contra as
narcejas e os patos bravos, que se tinham introduzido nesta
cripta, e ali viviam tranquilamente do muito peixe de suas
águas. Parecia que os olhos de Harry haviam sido feitos para
devassar as escuras regiões, como os dos marinheiros para os
longínquos horizontes.
Mas entregando-se a esta paixão pela vida extterior da
hulheira, Harry obedecia como que irresistivelmente à
esperança de tornar a ver o ente misterioso, a cuja
intervenção devia, por assim dizer, o benefício de ter
escapado à morte, juntamente com seus pais e o engenheiro
Jaime Starr. Poderia ele chegar a ver realizada essa
esperança?
A dar crédito aos seus pressentimentos, podia; a só se levar
pelo mau resultado das suas pesquisas, não.
Quanto aos ataques, de que a família do velho overman fora
vítima antes de explorada a Nova Aberfoyle, tinham eles
desaparecido de todo.
Assim corriam as coisas nesta mina importantíssima.
Não se vá imaginar que, durante os primeiros tempos, em que
ainda estava por levantar a maior parte das habitações de
Coal-City, a existência fosse ali monótona e privada de
distracções.
Longe disso. Aquela população, ligada pelos mesmos
interesses e aspirações, constituía por assim dizer uma só
família. Todos se conheciam, todos se falavam, por
consequência não se tornava imperiosa a necessidade de ir
procurar fora da mina algumas distracções.
De resto, aos domingos havia sempre na Nova Aberfoyle
passeios em família e excursões nos lagos e lagoas - o que já
representava um regular e agradável passatempo.
Muitas vezes também vinham alegrar as margens do lago
Malcolm os sons vibrantes de uma gaita-de-foles.
Os escoceses afluíam todos ao ouvirem o seu instrumento
nacional. Dançava-se então, e nesses dias Jack Ryan,

132


que vestia o seu pitoresco fato de Highlander, tornava-se o
rei da festa.
A consequência de tudo isto era que - na opinião de Simão
Ford - a moderna Coal-City já rivalizava com a capital da
Escócia, essa cidade sujeita aos frios do Inverno, aos calores
do Estio, às intempéries de um clima detestável, e que,
envolta no manto de fumo das suas fábricas e oficinas,
justificava perfeitamente a sua alcunha de "Velha
Denegrida"(1).


*1. Auld-Reeky - nome que se dá por gracejo à parte velha de
Edimburgo.

133


CAPÍTULO XIV


SUSPENSO POR UM FIO!


Em vista das condiÇões que rodeavam a família do veLho
overman, e do bom êxito que tinham tido os seus mais íntimos
desejos, devia ela considerar-se absolutamente feliz.
Entretanto não acontecia assim em relação a Harry. Quem fosse
fisionomista poderia notar que aquele moço, já de seu natural
um pouco sombrio, cada vez se tornava mais concentrado e
taciturno. Jack Ryan, apesar da sua alegria tão expansiva, não
conseguia distraí-lo.
Num domingo - era pelo mês de Junho - passeavam os dois
amigos junto das margens do lago Malcolm. Os trabalhos tinham
parado por ser dia de descanso. Fora da mina o tempo estava
feio e chuvoso. Violentas bátegas de água faziam sair da terra
uma espécie de vapor quente. Quase que se não respirava na
superfície do condado.
Em Coal-City, pelo contrário, havia um sossego absoluto e
uma temperatura suave. A chuva e o vento não se sentiam ali.
Da luta dos elementos sobre a terra não transpirava um eco só
que fosse na profunda habitação dos mineiros. Era por isso que
um certo número de pessoas de Stirling e seus arredores tinha
vindo procurar dentro da hulheira um pouco de frescura.

134


Os discos eléctricos lançavam um brilho a deixar morrer de
inveja o sol britânico, mais anuviado concerteza do que deve
ser em geral um sol de domingo.
Jack Ryan fazia notar ao seu camarada Harry esta afluência
enorme de visitantes. Harry, contudo, mal prestava atenção às
palavras de Jack Ryan.
- Olha, Harry! - dizia-lhe este. - Repara com que empenho
nos querem ver. Vamos, amigo! Manda para longe o teu ar de
tristeza, e mostra a essa gente que vives bem cá em baixo. Não
dês lugar a pensar-se que lhe invejamos a sorte.
- Não te importes comigo, Jack - respondeu Harry. - A tua
alegria vale por dois, é quanto basta.
- Os maus espíritos me levem - tornou Jack Ryan - se a mim
se me não pega a tua tristeza! Eu ando com olheiras, trago a
língua pegada ao céu da boca, e nem quase que sei rir! Se até
me vai faltando a memória para as cantigas! Vejamos, Harry...
o que é que tu tens?
- Tu bem o sabes, Jack.
- Sempre o mesmo pensamento?
- Sempre!
- Ah!, meu pobre amigo! - replicou Jack Ryan, encolhendo os
ombros. - Se tu desses em atribuir tudo isso aos duendes que
há na mina, havias de ter como eu o espírito mais sossegado.
- Os duendes, Jack, só existem na tua imaginação, e bem
sabes que, depois que recomeçaram os trabalhos, nunca mais
apareceu nenhum na Nova Aberfoyle.
- Assim será, Harry. Mas se os duendes não aparecem, creio
que outro tanto sucede àqueles que tu procuras.
- Não importa! Hei-de encontrá-los, Jack!
- Lembra-te, Harry, que os génios da Nova Aberfoyle não se
deixam surpreender.
- Hei-de encontrá-los, esses pretendidos génios de que tu
falas! - atalhou Harry com o tom enérgico de uma profunda
convicção!
- Tu assustas-me, Harry!


135

- É que eu tenho de punir e de premiar, Jack. Se houve quem
nos encerrasse naquela galeria, houve também quem nos fosse lá
socorrer. E eu não esqueço nem uma nem outra coisa!
- E se esses dois indivíduos - ponderou Jack Ryan - se
resumissem num só?
- Porque dizes isso? Donde te veio essa ideia?
- Eu sei lá, Harry! As criaturas que vivem nestes abismos
não são feitas como nós!
- Enganas-te, Jack.
- Talvez não me engane, Harry. Demais, não é lícito supor
que na mina se introduzisse algum doido?
- Algum doido?! -- replicou Harry. - Pois um doido era capaz
de ter aquele seguimento de ideias? Pode lá ser doido o
malfeitor que não cessou de nos perseguir desde que pela
primeira vez nos cortou as escadas do poço Yarow!
- Mas lembra-te, Harry, que já vai para três anos que tu e
os teus não são vítimas de nenhuma nova agressão.
- Embora! - respondeu Harry. - Ninguém pode convencer-me de
que esse ente misterioso renunciasse de todo aos seus
projectos vingativos. Em que me fundo para te falar assim, não
poderia dizer-to. Mas o que te afianço é que, em proveito
mesmo da nova exploração, preciso saber quem ele é, e donde
vem.
- Em proveito da nova exploração? - perguntou Jack Ryan
muito espantado.
- Sim, Jack - tornou Harry. - Tenho de mim para mim que anda
em tudo isto um interesse oposto ao nosso. E cada vez me
convenço mais desta ideia. Ora recorda-te dos diversos
acontecimentos inexplicáveis que se prendem logicamente uns
aos outros. Aquela carta anónima, em contradiÇão com a de meu
pai, prova, em primeiro lugar, que um homem chegou a saber dos
nossos projectos, procurando tenazmente inutilizá-los.
Decide-se o engenheiro Starr a vir falar com meu pai, e apenas
ele entra, guiado por mim nas hulheiras de Aberfoyle,


136

logo uma pedra enorme cai a nossos pés, seguindo-se o corte de
algumas das escadas do poço Yarow para nos fecharem as
comunicações com o exterior. Tenta-se a primeira exploração,
que devia indicar-nos onde ficava o novo jazigo, e essa
exploração torna-se impossível porque nos tapam
intencionalmente as fendas do xisto. Entretanto fazem-se as
experiências, e aparece o filão. Voltamos para trás depois de
verificado o descobrimento. Sente-se no caminho um esvoaçar
estranho. A nossa lanterna quebra-se. Ficamos sem ver nada.
Conseguimos, apesar disso, chegar ao extremo da galeria.
Nenhuma abertura para sair! O orifício por nós feito na massa
estava obstruído! Achávamo-nos incomunicáveis! E não queres
tu, meu amigo, que eu veja em tudo isto um pensamento
criminoso? Não há que duvidar! Um ente invisível, mas não
sobrenatural, como tu pretendes, existia oculto na hulheira.
Movido por um interesse que não chego a compreender, esse ente
procurou por todos os meios ser-nos prejudicial. E diz-me um
pressentimento que ele vive ainda, preparando talvez na sombra
alguma nova cilada. Não importa! Ainda que tenha de arriscar a
vida, prometo-te, Jack, que hei-de dar com ele!
Harry acabava de falar com tamanha convicção, que chegou a
abalar seriamente o seu companheiro.
Jack Ryan não podia negar que Harry tinha razão, pelo menos
com referência ao passado. Fosse ou não fosse natural a origem
desses factos extraordinários, o certo é que eles tinham
existido.
O pobre moço, contudo, não queria renunciar ainda ao seu
sistema de explicar esses factos. Reconhecendo, porém, que
Harry jamais admitiria a intervenção de um génio misterioso,
agarrava-se ao único incidente que não podia conciliar-se com
aquele sentimento de malvadez alimentado contra a família
Ford.


137

- Verdade, verdade - observou ele -, eu sou obrigado a
dar-te razão sobre um certo número de coisas. Mas por outro
lado hás-de convir comigo que só algum génio bom podia
ocasionar-vos o pão e a água que vos livrou de mor...
- Não digas mais, Jack! - exclamou Harry interrompendo-o com
veemência. - O ente caritativo, de que tu desejas fazer um
ente maravilhoso, é tão verdadeiro como o outro que pratica o
mal, e juro-te que a ambos eles hei-de eu procurar, ainda
mesmo que tenha de descer aos mais recônditos limites da
hulheira.
- Tens alguns indícios que te possam guiar nessas
diligências? - perguntou Jack Ryan.
- Talvez - respondeu Harry. - Ouve-me bem, Jack. A cinco
milhas a oeste da Nova Aberfoyle, debaixo da porção da massa
que suporta o lago Lomond, existe um poço natural que se
afunda perpendicularmente nas próprias entranhas do jazigo.
Haverá oito dias quis sondar-lhe a profundidade. Ora, enquanto
eu estava encostado à abertura do poÇo para lhe introduzir a
sonda, pareceu-me que o ar se agitava lá dentro como que
impelido por um bater de asas.
- Era talvez algum pássaro que se perdera nas galerias
inferiores da hulheira - respondeu Jack.
- Ainda não é tudo, Jack - replicou Harry. - Esta manhã
voltei ao mesmo poço, e, aplicando o ouvido, julguei
surpreender uma espécie de gemido.
- Um gemido! - exclamou Jack. - Enganaste-te decerto, Harry.
Foi alguma corrente de ar, a não ser que algum duende...
- Amanhã, Jack - atalhou Harry -, eu saberei dizer-te o que
foi.
- Amanhã - respondeu Jack, olhando desconfiado para o seu
companheiro.
- Sim! Amanhã tenciono descer ao fundo daquele poço.
- Que dizes, Harry!... Isso é tentar a Deus!
- Não é, Jack, porque de Deus espero eu todo o auxílio para
levar a cabo a minha ideia. Amanhã havemos de voltar ambos
àquele sítio, acompanhados por alguns dos nossos companheiros.


138

Levaremos uma corda rija e comprida, com a qual serei atado
pela cintura. Depois tu e os nossos companheiros começarão a
descer-me pelo poço com cautela, devendo puxar por mim a um
sinal convencionado. Posso contar contigo, Jack?
- Farei o que me pedes, Harry - disse Jack Ryan abanando a
cabeça. - Entretanto, parece-me que vais cometer uma
imprudência.
- Antes cometer uma imprudência do que ficar com o remorso
de não ter feito o que devia - respondeu Harry com ar
decidido. - Amanhã de manhã, em sendo seis horas, espero por
ti. Nem uma palavra sobre este assunto! Adeus, Jack.
E para evitar o seguimento de uma conversação, em que Jack
Ryan tentaria ainda dissuadi-lo, Harry afastou-se rapidamente
do seu amigo.
Deve-se, contudo, concordar que não eram despidas de
fundamento as apreensões de Jack Ryan. Se algum inimigo
pessoal ainda ameaçava o seu companheiro, se esse inimigo
existia agora no fundo daquele poço, o projecto de Harry Ford
não deixaria de ser perigoso. Mas que fundamento podia haver
para julgar as coisas deste modo?
- No fim de contas - dizia a si próprio Jack Ryan -, para
que há-de estar o pobre Harry a afligir-se tanto com uma série
de factos, que se explicam tão fàcilmente pela intervenção dos
génios da mina?
Entretanto, no dia seguinte de manhã, Jack Ryan e mais três
homens de sua confiança chegavam, acompanhados por Harry, ao
local do poço já citado.
Harry ocultara o seu projecto ao velho overman mais ao
engenheiro Starr. Do seu lado, Jack Ryan também guardara
segredo sobre o caso. Os mineiros, vendo afastarem-se aqueles
cinco homens, supuseram no mesmo instante que se tratava de
algum simples reconhecimento na direCção do Corte vertical do
jazigo.


139

Harry prevenira-se com uma corda que media duzentos pés. Não
era muito grossa, mas era extremamente forte para poder
sustentar o peso de um homem. Harry não tinha que empregar
nesta operação a força dos seus braços, visto que aos
companheiros competia descê-lo ao fundo do poço e içá-lo
depois. Combinou-se que, para Começar a subida, deveria Harry
puxar com força pela corda.
O poço, bastante largo, tinha doze pés de diâmetro no seu
orifício. Atravessou-se-lhe de lado a lado uma viga
Completamente redonda, para que a corda, escorregando por ela,
pudesse sempre conservar-se no eixo do poço; e, Precaução
indispensável, a fim de evitar que Harry fosse arremessado na
descida de encontro às paredes laterais. Abriram-se duas
cavidades aos lados do poço, uma fronteira à outra, e meteu-se
nelas a viga que ficou assim girando como se fosse uma roldana
improvisada para auxiliar sobretudo a subida de Harry.
Este, pela sua parte, encontrava-se já pronto a enCetar a
empresa.
- Insistes ainda no teu projecto? - perguntou Jack Ryan em
voz baixa.
- Insisto - respondeu Harry.
A corda foi atada primeiro em redor dos rins de Harry, e
depois por debaixo dos sovacos dos braços, para que o corpo
não pudesse desequilibrar-se.
Desta forma, Harry ficava com ambas as mãos desembaraçadas.
À cintura suspendeu ele uma lanterna de seguranÇa e no peito
guardou uma dessas boas facas escocesas que têm bainha de
couro.
Assim preparado, Harry aproximou-se do poço e Jack Ryan deu
com a corda uma volta à roda da viga.
Depois começou a descer a corda, e não tardou que Harry
desaparecesse de todo. Como a corda fosse produzindo um
ligeiro movimento de rotaÇão, Harry aproveitou essa
circunstância para examinar Cautelosamente, à luz da lanterna,
as sombrias paredes do poço.


140

Estas paredes compunham-se de xisto hulheiro, e eram
bastante lisas para que alguém pudesse trepar por elas. Harry
calculou que ia descendo com uma velocidade moderada:
aproximadamente um pé por segundo, o que lhe permitia ver tudo
muito bem, e a prevenir-se com tempo contra qualquer
eventualidade. Ao cabo de dois minutos já ele tinha atingido
sem acidente uma profundidade pouco mais ou menos de cento e
vinte pés. Nas paredes do poço, que se ia estreitando em guisa
de funil não se divisava nenhuma galeria lateral. Entretanto,
Harry comeÇava a sentir um ar mais fresco vindo de baixo,
donde concluiu que a extremidade do poÇo comunicava com alguma
abertura de terreno inferior da hulheira. A corda continuava
sempre a descer. A escuridão era mais completa, e o silêncio
sepulcral. Se algum ser vivo tinha procurado refúgio neste
profundo e misterioso abismo, ou já fugira dele, ou então
nenhum movimento denunciava a sua presenÇa ali.
Harry, que à proporção que descia cada vez se tornava mais
cauteloso, desembainhara a sua faca e segurava-a, agarrando-a
com firmeza na mão direita.
A uma profundidade de cento e setenta pés notou Harry que
tinha tocado no solo inferior, porque a corda afrouxou e
deixou de se desenrolar.
Harry respirou um momento. Não se havia felizmente realizado
um dos seus maiores receios - o de Lhe cortarem a corda,
fazendo-o cair no fundo do abismo. De resto, as paredes do
poço não apresentavam nenhuma abertura que deixasse esconder
um homem.
Era excessivamente apertada a extremidade inferior do poço.
Harry, tirando a lanterna da cintura, examinou detidamente o
lugar onde se encontrava. Não se enganara nas suas
conjecturas. De um dos lados havia uma estreitíssima travessa
que se prolongava indefinidamente pelo jazigo carbonífero.


142

Mas, para entrar nela, era preciso que Harry se abaixasse
primeiro e depois fosse de rastos.
Com o fim de ver se esta apertada galeria teria outras
ramificações, ou se por acaso iria terminar nalgum precipício,
Harry deitou-se no chão, e começou a andar de rojo.
Um obstáculo, porém, fê-lo parar de repente.
Pareceu-lhe, pelo contacto das mãos, que este obstáculo era
um corpo humano, atravessado sobre a sua passagem.
Harry, dominado por um forte sentimento de repulsão, recuou
um passo. Depois, enchendo-se de coragem avançou de novo.
Não o tinham enganado as suas primeiras impressões: Era
efectivamente um corpo humano que ele acabava de encontrar.
Levantando-o logo do chão, pôde convencer-se que esse corpo,
frio já nas extremidades, ainda conservava no peito alguma
vida.
Pegar nele ao colo, trazê-lo para o fundo do poço, e
chegar-lhe ao rosto a luz da sua lanterna, foi para Harry
apenas obra de alguns segundos.
- Uma criança!... - bradou ele espantado.
A pobre criança, encontrada no ponto mais remoto deste
abismo, ainda respirava, mas era tão fraca a sua respiração
que Harry chegou a temer que ela se extinguisse. Urgia pois,
sem perda de um instante, retirar dali aquela infeliz criança,
e conduzi-la a Coal-City, onde Madge lhe prodigalizaria os
cuidados indispensáveis.
Harry, pondo de parte qualquer outra preocupação, suspendeu
de novo ao lado a sua lanterna, tornou a passar a corda à
cintura, pegou na criança moribunda, com o braço esquerdo,
encostando-a contra o peito, e deixando livre e armado o braço
direito, e rapidamente fez o sinal ajustado para puxarem por
ele.
A corda esticou-se e a subida começou a fazer-se
regularmente.


143

Harry examinava tudo à sua volta com redobrada atenÇão.
Agora não era ele só que estava exposto a qualquer perigo.
Durante os primeiros minutos da ascensão tudo correu bem.
Parecia que nenhum obstáculo viria interromper esta
uniformidade, quando de repente Harry supôs ouvir um ruído
prolongado, deslocando as camadas de ar nas profundidades do
poço. Olhou então para baixo de si, e distinguiu na penumbra
uma estranha massa que se elevava gradualmente, e que roçou
por ele na subida.
Era um pássaro enorme de que Harry não pôde conhecer a
espécie e que voava com extrema velocidade.
O monstruoso volátil suspendeu o voo de repente, pairou por
alguns instantes, e depois cresceu sobre Harry com uma sanha
ameaçadora.
Harry só tinha verdadeiramente livre o braço direito para se
defender contra as bicadas desta ave feroz.
E assim começou a fazer, protegendo como podia a criança que
ele encontrara. Mas não era à criança que o pássaro queria
chegar. Harry, embaraçado pela rotação da corda, não conseguia
ferir mortalmente este implacável inimigo.
A luta ia-se prolongando. Harry gritou com toda a força dos
seus pulmões, esperando que os companheiros o ouvissem de
cima.
Foi o que sucedeu, porque a corda principiou a subir com
maior rapidez.
Faltavam ainda oitenta pés a transpor. O pássaro deixou
então de atacar de frente a frente. Mas... Ah! -perigo mil
vezes mais terrível! -A dois pés acima da cabeça de Harry, e
fora do alcance do seu braço, o encarniçado animal
precipitou-se sobre a corda, suspendeu-se nela, e tentou
raivosamente despedaçá-la com o bico.
Os cabelos de Harry puseram-se em pé.
A corda foi cedendo pouco a pouco.


144

Harry olhou para cima e soltou um grito desesperado: um dos
ramais da corda acabava de se partir! Estava então a uma
altura do abismo já superior a cem pés!
Nisto o bico daquela sinistra ave rompe a corda no segundo
ramal!
Restavam dois apenas, sustentando frouxamente o duplo peso
de Harry e da criança!
Em conjuntura tão aflitiva, Harry deixou cair a faca, e num
esforço inaudito, no momento em que a corda ia estalar de
todo, chegou a poder agarrá-la com a mão direita por cima do
sítio em que o pássaro a rompera. Apesar, porém, de ser de
ferro aquele pulso, Harry sentiu que lhe escorregava a corda
d'entre os dedos.
Para evitar a iminência deste perigo, Harry só tinha um
recurso desesperado: tornar a segurar a corda com ambas as
mãos, sacrificando a criança que sustinha no braÇo direito. O
filho do velho Simão Ford nem sequer pensou em tal.


Entretanto, Jack Ryan e os seus companheiros, excitados
pelos gritos de Harry, içavam a corda com maior frenesi.
Harry suspeitou que não poderia sustentar-se naquela posição
até chegar ao orifício do poço. Injectou-se-lhe a cara,
subiu-Lhe o sangue ao cérebro. Depois fechou os olhos
maquinalmente, esperando cair no abismo.
Entretanto, o pássaro, assustado sem dúvida, tinha
desaparecido.
Harry - quando justamente ia a largar a corda que sustinha
apenas pela extremidade - sentiu-se agarrado fortemente e
deposto sobre o solo com a criança desfalecida.
Foi então que, não podendo reagir aos acontecimentos, caiu
sem sentidos nos braços dos seus companheiros.



CAPÍTULO XV



O GÉNIO BOM DA MINA


Umas horas depois, graças ao auxílio de Jack Ryan e dos
seus homens, davam entrada na habitação do velho overman, o
corajoso Harry, ainda com os sentidos perdidos, e a criança
que ele arrancara do fundo do poço.
Jack Ryan contou então a Simão Ford o que o seu filho
acabara de fazer, e a boa Madge apressou-se em rodear a pobre
criança dos carinhos e cuidados que o seu estado de fraqueza
ainda reclamava.
Harry supusera ter salvo uma criança. O filho do velho
overman enganara-se nesse ponto. A criança era já uma rapariga
de quinze para dezasseis anos. O seu olhar vago e cheio de
espanto, o rosto magro e cavado pelo sofrimento, os cabelos de
um louro que nunca um raio de luz iluminara, a figura suave e
delicada, tudo nela enfim denunciava uma criatura extravagante
e atraente ao mesmo tempo. Por isso o crédulo Jack Ryan não
hesitou em compará-la com um duende de vago e simpático
aspecto. Ou fosse devido a circunstâncias particulares que
ninguém podia determinar, ou ao meio excepcional em que até
agora tinha vivido, esta rapariga não parecia pertencer
completamente à humanidade. Era estranha a sua fisionomia. O
seu olhar, fitando a custo a cintilação das luzes, estendia-se
confusamente sobre os objectos que a rodeavam.


146

A mãe de Harry, para cuja cama tinham conduzido a
recém-chegada, dirigiu-lhe então as primeiras perguntas.
- Como te chamas? - perguntou a velha escocesa fitando-a com
interesse.
- Nell(1) - respondeu a interrogada, parecendo voltar à vida
depois de um letargo prolongado.
- E o que sentes agora, Nell? - acrescentou Madge.
- Tenho fome - replicou esta. - Já não como vai para... vai
para...
Por estas poucas palavras reconheceu-se que Nell não tinha o
hábito de falar. A língua de que ela se servia era o velho
gaélico, usado também muitas vezes por Simão Ford e os seus
mineiros.
Em vista da resposta de Nell, a boa Madge foi buscar-lhe
alguns alimentos. Nell estava literalmente morrendo de fome.
Desde quando se encontraria ela perdida naquele abismo?
Ninguém poderia dizê-lo.
- Quantos dias estiveste no fundo do poÇo, minha filha? -
perguntou Madge.
Nell não respondeu. Parecia não compreender a pergunta que
lhe faziam.
- Há quantos dias? - replicou Madge.
- Dias?... - balbuciou Nell, para quem esta palavra parecia
não ter o menor significado.
Depois abanou a cabeça, como faz qualquer pessoa que não
entende o que se lhe pergunta.
Madge pegara nas mãos de Nell, acariciando-Lhas suavemente
para lhe dissipar todos os motivos de timidez que a jovem
pudesse abrigar.
- Que idade tens, minha filha? - perguntou-lhe ela com a voz
insinuante e o olhar cheio de bondade.
Mesmo gesto negativo da parte de Nell.
- Quantos anos contas? - voltou a dizer-lhe Madge.
- Anos?... - exclamou Nell admirada.


*1. Diminutivo de Helena.


147

E esta palavra pareceu-lhe tão desconhecida como a palavra
"dia", que havia pouco tinha ouvido.
Simão Ford, Harry, Jack Ryan e os seus companheiros
contemplavam a pobre Nell com imenso dó e simpatia. O
espectáculo desta infeliz rapariga, vestida apenas com uma
grossa camisa de algodão e uma saia de serapilheira, devia
decerto impressioná-los.
Harry sentia-se, mais do que nenhum outro, profundamente
comovido. Chegou a ocasião de se aproximar também. Tomando o
lugar que Madge acabava de ceder-lhe, e pegando nas mãos de
Nell, começou por seu turno a fitá-la bem de frente. Os lábios
de Nell esboçaram então uma espécie de sorriso.
Harry disse-lhe em seguida com brandura:
- Nell... vê se te recordas... No fundo daquele poço estavas
tu só?
- Só! Só! - exclamou ela, num estado de violenta agitação.
A sua fisionomia denotava agora o terror. O olhar, que se
tinha suavizado na presença de Harry, tornara-se intratável.
- Só! Só! - tornou ela a bradar, deixando-se cair sobre a
cama de Madge, como se as forças lhe faltassem de repente.
- Esta pobre criança ainda está muito fraca para nos poder
responder - observou Madge, depois de ter aconchegado a roupa.
- Uma boa alimentação restituir-lhe-á dentro em pouco o vigor
que ainda lhe falta. Anda, Simão, anda Harry. Venham todos,
meus amigos. Deixemo-la em paz, que o sono há-de fazer-lhe
bem.
Todos seguiram o conselho de Madge, e logo que Nell ficou
só, apoderou-se dela uma profunda sonolência.
Este acontecimento não podia deixar de produzir grande
sensação, tanto na hulheira como no condado de Stirling, e até
por todo o Reino Unido. A celebridade de Nell foi crescendo
gradualmente.


148

A sua história foi mais falada do que se ela tivesse saído do
meio de uma rocha xistosa, à semelhança desses seres
antediluvianos que um golpe de picareta liberta do seu
invólucro de pedra.
Nell, sem o saber, veio a estar muito na moda. As pessoas
supersticiosas acharam neste acontecimento novo pasto às suas
tendências para o maravilhoso. Jack Ryan, que pertencia a esse
número, afirmava que Nell era o génio bom da Nova Aberfoyle. E
quando assim se expressava diante do seu amigo Harry, este
respondia-lhe:
- Quero admitir que tenhas razão. Mas nesse caso hás-de
concordar que há também um génio mau. Acredito que foi o génio
bom quem nos socorrera e nos evitou de morrer à fome durante
os dias que estivemos encerrados na hulheira. Não podia ser
senão ele! Quanto, porém, ao génio mau... se ainda existe
nestas profundezas - e estou certo de que existe! -, é
indispensável que me encontre um dia com ele cara a cara.


Como é bem de supor, o engenheiro Jaime Starr foi dos
primeiros a saber o que se tinha passado no fundo do poÇo.
No dia seguinte, quando Nell já tinha recuperado as suas
forças, apresentou-se-lhe Jaime Starr para interrogá-la com
solicitude. O engenheiro percebeu logo que a infeliz rapariga
desconhecia a maior parte das coisas da vida. Contudo
verificou também que era inteligente embora lhe faltassem
algumas das noções mais elementares. Via-se que não a tinham
acostumado a dividir o tempo nem por horas nem por dias, e que
até ignorava o sentido destas palavras. Além disso, os seus
olhos, habituados a uma noite permanente, só a custo se
familiarizavam com o fulgor dos discos eléctricos. Em
compensação possuíam extraordinária agudeza quando estavam às
escuras, e a sua pupila, imensamente dilatada, permitia-lhes
verem no meio da mais profunda treva. Notou-se também que
nunca recebera a menor impressão do mundo exterior, que nunca
saíra da hulheira, e que para ela a humanidade em peso podia
caber no fundo daquelas sombrias cavernas.


149

Saberia a infeliz Nell que fora dali havia céu, estrelas,
campos e cidades, um universo enfim encerrando milhares de
mundos? Era caso que oferecia dúvidas, enquanto certas
palavras que ela ainda ignorava tomassem no seu cérebro uma
significação mais preCisa.
Com relação à maneira por que Nell vivia no fundo da Nova
Aberfoyle, não conseguiu Jaime Starr o mais leve
esclarecimento. Efectivamente, qualquer pergunta sobre
semelhante assunto obrigava a pobre rapariga a uma crise de
terror. Ou Nell não podia ou não queria responder. Em todo o
caso, na sua estranha mudez parecia haver um mistério que só
ela seria capaz de explicar.
- Queres viver connosco? - perguntou-lhe Jaime Starr. - Ou
queres voltar para onde estavas?
À primeira destas perguntas apressara-se Nell em responder:
"Quero". À segunda só replicou por um gesto de terror.
Em presença deste silêncio obstinado, Jaime Starr e Simão
Ford não deixaram de experimentar uma certa apreensão.
Lembravam-se das circunstâncias extraordinárias que tinham
rodeado o descobrimento da nova hulheira. E, se bem que há
três anos se não tivesse repetido nenhum incidente
desagradável temiam contudo que de um momento para o outro
lhes aparecesse alguma nova agressão do seu inimigo invisível.
Em presença de tal receio decidiram que se explorasse
largamente o poço misterioso. Foram eles próprios examiná-lo,
bem armados e bem acompanhados. Mas debalde se procurou
qualquer indício que levantasse uma suspeita. O poço
comunicava com os andares inferiores da mina, escavados na
camada carbonífera.
Jaime Starr, Simão e Harry falavam amiúde destas coisas. Se
um ou muitos malfeitores existiam ocultos na hulheira, urdindo
ciladas ou preparando traições, Nell não teria deixado de o
confessar. Ela, porém, não dizia a esse respeito uma única
palavra.


150

A menor alusão ao seu passado causava-lhe crises nervosas, e
julgou-se conveniente não insistir em afligi-la. Talvez que o
seu segredo viesse a escapar-se-lhe com o tempo.
Quinze dias depois da sua chegada, já Nell sabia dar volta a
uma casa, ajudando neste ponto com vantagem a mãe de Harry. A
boa rapariga sentia-se perfeitamente bem nesta habitação onde
fora tão delicadamente acolhida. Para ser feliz bastava-lhe o
convívio da família Ford. Pela sua parte, o velho Simão e
Madge também já consideravam Nell como sua filha adoptiva.
Nell era na realidade encantadora. A sua nova existência
aumentava-lhe a formosura. Os primeiros dias de bem-estar
começavam para ela agora. A gratidão que por isso dedicava aos
seus benfeitores não conhecia limites. Madge também sentia por
Nell um afecto maternal. O velho overman seguiu de perto sua
mulher nos mesmos sentimentos. Todos gostavam dela, enfim. O
jovial Jack Ryan só lastimava uma coisa: não ter sido ele
próprio o seu salvador. Desforrava-se, porém, disso, em
cantar-lhe, e Nell, que nunca tinha ouvido cantar, achava
muito bonita a voz de Jack.
Entretanto, às cantigas animadas de Jack Ryan, Nell ia
preferindo as conversações mais instrutivas de Harry, sobre os
diferentes objectos do mundo exterior.
Deve-se observar que, desde que Nell se mostrou sob a sua
forma natural, as convicções de Jack Ryan a respeito de
espíritos e duendes se sentiram de certa forma abaladas. Além
disso, passados dois meses, a sua credulidade sofreu nova e
séria desilusão.
Por esse tempo, efectivamente, deu-se uma descoberta
inesperada, que vinha explicar em parte a aparição das "Damas
de Fogo" no castelo de Dundonald.
Um dia, depois de uma prolongada exploração na pàrte sul da
hulheira, Harry conseguira trepar a Custo por uma apertada
travessa, aberta num desvio da rocha xistosa.

151


De repente parou, e achou-se, Com grande surpresa, banhado
pela luz do dia! A travessa, depois de subir obliquamente em
direcção à superfície do solo, ia terminar precisamente nas
ruínas de Dundonald-Castle. Existia portanto uma comunicação
secreta entre a Nova Aberfoyle e a colina em que assentava o
velho castelo. Essa comunicação, porém, era totalmente
invisível do lado do castelo, em consequência da grande
quantidade de pedras e de tojo que lhe tapavam a entrada.
Ficava assim explicado o motivo por que a justiça não
chegara a dar com ela quando se tratou da vistoria.
Alguns dias depois, Jaime Starr, guiado por Harry, foi
pessoalmente verificar esta disposição natural do jazigo
hulheiro.
- Aqui temos uma circunstância que vem desvanecer as
superstições da nossa gente - disse o engenheiro. - Foram-se
os trasgos, os duendes e os espíritos sobrenaturais!
- Creio que não devemos felicitar-nos por isso - respondeu
Harry. - Os que vieram substituí-los não são meLhores, e
talvez nos causem muito mais dano.
- Dizes bem, Harry - tornou Jaime Starr. - Mas que havemos
de fazer? É fora de dúvida que os entes misteriosos que se
escondem na mina comunicam por esta galeria com a superfície
do solo. Foram eles sem dúvida que, de archote em punho,
durante aquela noite de temporal, atraíram o "Motola" sobre a
costa, dispondo-se a pilhar os despojos dos náufragos, se Jack
Ryan e os seus companheiros não se encontrassem felizmente lá
para impedirem essa barbaridade. Agora tudo se explica sem
esforço. Cá está a entrada do covil onde se ocultavam os
malfeitores. E ocultar-se-ão eles ainda nestes lugares?
- Decerto, uma vez que Nell estremece toda quando se fala
nisto - respondeu Harry com extrema convicção.
Harry parecia não se enganar. Se aqueles entes misteriosos
tivessem já morrido ou abandonado a hulheira, que razão
poderia apresentar Nell para justificar o seu silêncio?


152

Jaime Starr entretanto caprichava em descobrir este segredo.
Ele bem via que o futuro da nova exploraÇão dependia desse
facto. Tomaram-se, pois, novamente as mais severas precauções.
Preveniram-se os magistrados: Houve agentes da autoridade que
foram rondar secretamente as ruínas de Dundonald-Castle. O
próprio Harry passou algumas noites escondido entre os tojos
que cercavam as ruínas do castelo.
Baldado empenho. Nada se pôde apurar. Nenhum ente humano
tentou sair pela comunicação que descobrira o filho do velho
overman.
Chegou-se por fim à seguinte conclusão: que os malfeitores
já se haviam retirado da hulheira, convencidos de que Nell
morreria no fundo daquele poço onde a tinham talvez deixado.
Antes da exploração, a hulheira podia-lhes oferecer um abrigo
seguro contra as diligências da justiça. As circunstâncias,
porém, estavam agora mudadas. O covil tornara-se impossível de
guardar.
Em vistas destas suposições, assentou-se que não havia nada
a recear pelo futuro.
Todavia, Jaime Starr não estava completamente descansado nem
tão-pouco Harry, que repetia muitas vezes:
- Nell achou-se com certeza envolvida em todo este mistério.
Se ela não receasse alguma coisa grave, há muito que já se
teria aberto connosco. Que vive feliz na nossa companhia é
caso mais que certo. Sabe-se que nos estima a todos e que
morre por minha mãe! Se insiste pois em calar-se com respeito
ao passado e com respeito ao que poderia tranquilizar-nos para
o futuro, é porque pesa sobre ela algum terrível segredo que a
sua consciência lhe não permite revelar. Talvez que, mais por
interesse nosso do que seu, julgue dever mostrar-se tão
reservada!
Foi em virtude destas considerações que se combinou de comum
acordo nunca mais conversar diante de Nell em assuntos que
pudessem lembrar-lhe o seu passado.


153

Um dia, porém, Harry viu-se obrigado a falar a Nell no
grande serviço que, segundo todas as probabilidades, tinha
prestado ao engenheiro Starr, a seus pais e a ele próprio.
Era um dia de festa. Os trabalhos haviam cessado tanto nas
terras escocesas como nas entranhas das hulheiras. Os mineiros
aproveitavam a folga em passeios e descantes. Pelas abóbadas
sonoras da Nova Aberfoyle ressoava o eco de mil vozes
festivas.
Harry e Nell tinham saído de casa e seguiam a passos
vagarosos a margem esquerda do lago Malcolm. Naquele ponto
projectavam-se com menos violência os discos eléctricos, e os
seus raios vinham quebrar-se caprichosamente nos ângulos de
alguns rochedos pitorescos. Os olhos de Nell, que dificilmente
se habituavam à luz, sentiam-se mais à vontade no meio daquela
penumbra.
Depois de uma hora de passeio, Harry e Nell pararam em
frente da capela de São Gilles, numa espécie de terraço
natural que dominava as águas do lago.
- Nell, os teus olhos ainda não estão habituados à claridade
- disse Harry. - Decerto não poderiam suportar o brilho do
sol.
- Assim o creio - respondeu Nell. - E o Sol é na verdade
como tu mo tens pintado, Harry?
- Por mais que dissesse, eu não podia dar-te uma ideia
exacta do seu esplendor, nem das belezas desse universo que tu
ainda não viste. Mas diz-me, Nell, é possível que, desde que
nasceste nas profundezas desta hulheira, nunca subisses à
superfície da terra?
- Nunca! - respondeu Nell. - E não creio mesmo que em
pequena meus pais me levassem lá acima alguma vez. Se assim
fosse, teria conservado com certeza alguma lembrança do que
vira.
- Acredito - replicou Harry. - De resto, nesse tempo as
comunicações com a terra eram difíceis. Conheci muitos rapazes
e raparigas que na tua idade ignoravam ainda o que tu ignoras
em relação ao mundo exterior. Agora, porém, o caminho de ferro
do grande túnel transporta-nos em alguns minutos à superfície
do condado. Tomara já ouvir-te dizer:


154

"Vamos, Harry, os meus olhos já podem suportar a luz do dia.
Quero ver o Sol! Quero ver a obra do Criador!"
- E não tardará que me ouÇas essas palavras, Harry. Espero
que dentro em pouco irei contigo admirar esse mundo exterior.
Todavia...
- Todavia o quê? - atalhou Harry com vivacidade. - acaso
terias saudades de deixar o sombrio abismo em que se passaram
os teus primeiros anos, e donde te tirámos quase morta?
- Não, Harry - respondeu Nell. - Estava a pensar que a treva
também tem os seus encantos. Se tu soubesses o que podem ver
olhos a elas habituados! Há sombras que deslizam rapidamente,
e que nós quereríamos seguir na sua impalpável carreira.
Outras vezes são milhares de círculos que se cruzam diante do
nosso olhar, formando um espectáculo fantástico e
extravagante. No fundo da hulheira existem negras cavidades
cheias de vagos reflexos. De longe em longe ouve-se um ruído
que nos fala, um som indefinido que se lamenta como um
suspiro. Ah! Harry! é preciso ter vivido nas sombras para
compr eender o que eu sinto e que não sei explicar-te.
- E não sentias medo quando te encontravas só?
- Harry - respondeu Nell -, era justamente quando estava só
que eu não tinha medo.
A voz de Nell havia denunciado uma certa comoÇão ao
pronunciar estas palavras. Harry entendeu que a devia apertar
com perguntas, e nesse sentido ponderou-Lhe:
- Mas não receavas perder-te nessas compridas galerias?
- Não, Harry. Desde muito pequena que me habituei a
percorrer todos os recantos da nova hulheira.
- E nunca saías dela?


155

- Saía... algumas vezes... - respondeu Nell com hesitação! -
Algumas vezes atrevia-me a ir até às antigas minas de
Aberfoyle.
- Conhecias então onde ficava a nossa morada?
- Conhecia, mas só muito de longe aqueles que nela viviam.
- Eram meus pais - respondeu Harry -, eu próprio, Nell. A
minha família não quis nunca deixar a antiga hulheira.
- E contudo fora melhor tê-la deixado! - balbuciou Nell.
- Porquê? - observou Harry. - Pois não foi à nossa
persistência em habitá-la que se deveu o descobrimento do novo
jazigo? E este descobrimento não trouxe como resultado o
trabalho para tantos braços, o bem-estar para tantas famílias,
o próprio repouso para ti, que vieste encontrar entre nós as
mais sinceras afeiÇões?
- Afeições que não esquecerei jamais, suceda o que suceder!
- respondeu Nell calorosamente. - Quanto, porém, ao bem-estar
de que falas...
- Que queres tu dizer?
- Nada!... Nada!... Mas de princípio havia grande perigo em
penetrar na nova hulheira. Oh!, decerto... grande perigo!
- Um dia, Harry, alguns imprudentes atreveram-se a entrar
nesses abismos. Adiantaram-se muito! Foram longe... tão longe
que se perderam por fim...
- Perderam-se? - disse Harry, olhando de frente para Nell.
- Sim... perderam-se... - respondeu Nell com a voz já
trémula. - Apagara-se-lhes a lanterna! Não puderam atinar com
o caminho, e...
- E, encarcerados ali por espaço de oito dias intermináveis
- exclamou Harry -, estiveram quase que a sucumbir! E sem um
anjo que Deus lhes mandou, sem um protector invisível que Lhes
trazia algum alimento às escondidas, sem um guia misterioso
que mais tarde conduziu até eles os seus libertadores, esses
infelizes nunca teriam saído do seu tenebroso encerro!


156


- E como sabes tu isso? - perguntou Nell.
- Porque esses infelizes éramos nós! Eu, meu pai, minha mãe
e Jaime Starr!
Nell, erguendo a cabeça, pegou na mão de Harry e fixou-o com
tal insistência que este sentiu-se perturbado até ao fundo
mais íntimo da sua alma.
- Eras tu! - exclamou ela.
- Era - tornou Harry depois de um momento de silêncio-, e
aquele anjo, a quem devemos a vida, eras tu, Nell! Não podia
ser outro senão tu!
Nell, sem responder, deixou cair a cabeça entre as mãos.
Harry nunca a tinha visto, como agora, tão profundamente
impressionada.
- Aqueles que te salvaram, Nell - acrescentou Harry com a
voz comovida -, não chegam sequer a pagar-te a sua dívida de
gratidão. E pensas tu que eles possam jamais esquecer o muito
que te devem?



CAPÍTULO XVI


PROJECTOS E CONFIDÊNCIAS


Os trabalhos de exploração da Nova Aberfoyle caminhavam
entretanto com feliz resultado. Escusado é dizer que o
engenheiro Jaime Starr e Simão Ford - como primeiros
descobridores deste rico depósito carbonífero - participavam
largamente dos seus lucros. Harry tinha-se tornado pois um bom
casamento para qualquer rapariga. Ele, porém, não pensava em
deixar a mina. Substituía seu pai nas funÇões de overman, e
vigiava com extrema assiduidade aquele mundo de mineiros.
Jack Ryan sentia-se orgulhoso e contente de ver o seu amigo
tão bafejado pela fortuna. Do seu lado, os negócios também não
lhe corriam mal. Os dois companheiros encontravam-se repetidas
vezes, quer no fundo da mina, quer em casa de Simão Ford. Jack
Ryan já notara a inclinação que Harry sentia por Nell. Harry
não dizia nada, mas Jack Ryan, com o seu riso aberto e de bom
quilate, zombava do seu companheiro, quando este pretendia
ocultar-lhe a verdade.
Deve dizer-se que um dos mais ardentes desejos de Jack Ryan
era também poder acompanhar Nell, quando ela fosse ver pela
primeira vez o mundo exterior. Queria assistir ao espanto e ao
enleio que devia produzir em Nell a contemplação da Natureza.


158

Contava que Harry não deixaria de o convidar para este
passeio. Contudo, o seu amigo ainda até agora não lhe fizera
semelhante convite - o que não deixava de o trazer de certa
forma inquieto.
Um dia, Jack Ryan encaminhava-se para um dos poços de
arejamento, pelo qual os andares inferiores da hulheira
comunicavam com a superfície do solo. O alegre moÇo tinha-se
colocado numa dessas escadas que, levantando-se e abaixando-se
em virtude de sucessivas oscilações, evitam completamente o
cansaço quer a subir, quer a descer. Vinte oscilações daquele
aparelho tinham-no já feito descer perto de cento e cinquenta
pés, quando, sobre um dos estreitos patamares onde parara, deu
de frente com o seu amigo Harry, que vinha acima examinar os
trabalhos de contramina.
- És tu? - disse Jack, olhando para o seu companheiro, a
quem o brilho das lanternas eléctricas do poÇo deixava os
contornos bem desenhados.
- Sou eu, Jack - respondeu Harry -, e folgo de te encontrar.
Tenho a propor-te uma coisa.
- Não quero ouvir nada enquanto me não deres notícias de
Nell - replicou Jack Ryan.
- Nell vai bem, Jack, e tão bem que, dentro de um mês ou
seis semanas, conto...
- Contas casar com ela?
- Tu não sabes o que dizes, Jack!
- Assim será, Harry, mas lá para diante sei perfeitamente o
que hei-de fazer.
- E o que hás-de tu fazer?
- Pedi-la em casamento, visto que tu a não queres para
companheira! - replicou Jack desatando a rir. - Valha-me São
Mungo, nosso patrono!... É que me agrada a pequena, palavra de
honra! Uma criatura que nunca saiu da mina é a melhor noiva
que se pode escolher para um mineiro! É órfã como eu, e se não
repelir a minha corte, estamos aqui, estamos para sempre
unidos como dois pombinhos!


159

Harry olhava com gravidade para Jack, deixando-o falar, e
sem mesmo pensar em responder-Lhe.
- O que eu te disse não te causa ciúmes? - perguntou Jack
Ryan com um tom de voz um pouco mais sério.
- Não - respondeu Harry serenamente.
- Entretanto, se não queres que Nell seja tua mulher, também
não deves querer que ela fique solteira toda a vida?
- Eu não dirijo as acções de Nell - tornou Harry.
Uma oscilação da escada veio interromper neste ponto os dois
amigos, permitindo que ambos se separassem, um para descer,
outro para subir. Eles, porém, deixaram-se ficar no mesmo
sítio.
- Olha lá, Harry - respondeu Jack Ryan -, tomaste a sério o
que eu disse a respeito de Nell?
- Não, Jack - respondeu Harry.
- Pois então prepara-te, que vou agora falar-te com muita
gravidade.
- Quem, tu?
- Eu sim - tornou Jack Ryan. - Não me julgarás capaz de dar
um bom conselho a um amigo?
- Lá isso, julgo.
- Então ouve. Tu amas Nell com todo o amor de que é digno
aquele excelente coração. Teu pai e tua mãe amam-na igualmente
como filha. Ora da tua parte pouco resta a fazer para que ela
se torne verdadeiramente sua filha. Porque não casas, pois,
com ela?
- Porque me falas desse modo? - respondeu Harry. - Conheces
porventura quais são as intenções de Nell?
- Ninguém já as ignora, nem tu mesmo, Harry. E aí está
porque não tens ciúmes de mim, nem dos outros. Acabemos,
porém, a conversa, que aí faz a escada outra oscilação, e...
- Espera, Jack - disse Harry, segurando o seu companheiro
que já tinha levantado um dos pés para o firmar sobre o degrau
movediço.


160

- Toma cuidado, Harry! - declarou Jack às gargalhadas. - Por
pouco que não me ias fazendo cair!
- Chegou também a minha vez de te falar sério - disse Harry.
- Pois fala, mas olha que, ao primeiro movimento da escada,
vou-me embora.
- Não devo ocultar-te que amo Nell - disse Harry. - O meu
maior desejo é dar-lhe o nome de esposa.
- Muito bem.
- Mas, em atenção ao seu estado actual, tenho um certo
escrúpulo de consciência quando me lembro que Lhe hei-de falar
em casamento.
- Não te entendo, Harry.
- Vais entender-me. Nell nunca saiu destas profundezas. onde
certamente nasceu. Não sabe nada, não conhece nada do que vai
pelo mundo. Tem tudo a aprender por intermédio dos olhos, e
quem sabe até se do coração. Ainda é um mistério o que se
há-de passar no fundo da sua alma, quando novas impressões lhe
vierem ferir a vista. Nell ignora o que é a terra; parece-me
pois que seria um abuso condená-la a viver sempre aqui dentro,
antes de ela saber se a vida exterior lhe agrada mais.
Compreendeste-me, ,Jack?
- Vagamente... O que eu compreendo melhor é que ainda vais
fazer com que eu não aproveite a primeira oscilação.
- Jack - respondeu Harry com gravidade -, ainda que estas
escadas não tornassem a servir mais, ainda que este patamar
tivesse de faltar-nos debaixo dos pés, juro-te que me hás-de
ouvir até ao fim!
- Ora aí está o que é falar claro! Dizias-me então que,
antes de casares com a encantadora Nell, pretendes mandá-la
educar como pensionista nalgum colégio da "Velha Denegrida?"
- Não é isso, Jack - respondeu Harry. - Para a educação da
que deve ser um dia minha mulher, basto eu!
- É o melhor que tens a fazer - disse Jack Ryan.


161

- Mas antes de lá chegarmos - prosseguiu Harry -, quero,
como já te disse, que Nell possa formar uma ideia exacta do
mundo exterior. Façamos uma comparação, Jack. Se porventura
amasses uma rapariga cega e se te viessem dizer que dentro de
um mês ela havia de recuperar a vista, não esperarias tu, para
casar com ela, que a cura se realizasse?
- Com toda a certeza que esperava! - respondeu Jack Ryan.
- Pois, meu amigo, Nell está cega por enquanto, e, antes de
lhe dar o meu nome, quero que saiba quem eu sou e se lhe
agradam as condiÇões de vida que Lhe ofereço. Quero, numa
palavra, que os seus olhos se abram rasgadamente à luz do dia.
- Muito bem, Harry, muito bem! - exclamou Jack Ryan. -
Compreendo agora a tua ideia. E quando se efectuará a
operação?
- Dentro de um mês, Jack - respondeu Harry. - Os olhos de
Nell vão-se pouco a pouco habituando ao fulgor dos nossos
discos. É já meio caminho andado. Dentro de um mês espero que
possam fitar a terra e as suas maravilhas, o céu e os seus
esplendores! Por essa ocasião poderá Nell verificar que Deus
concedeu ao olhar humano horizontes mais largos do que aqueles
que se encontram nas entranhas de uma hulheira! Ela se
convencerá então de que o universo não tem limites!
Enquanto Harry se deixava assim levar pelos ímpetos da sua
imaginação, Jack Ryan saltara do patamar para o degrau
oscilante do aparelho.
- Olá, Jack! - bradou Harry. - Onde estás tu?
- Por baixo de ti - respondeu a rir o moço folgazão. -
Enquanto tu te elevas aos infinitos, desço eu aos abismos!
- Adeus, Jack! - respondeu Harry, agarrando-se por seu turno
à escada que vinha para cima. - Peço-te que não fales a
ninguém do que te disse há pouco.


162

- Descansa! - gritou-lhe Jack Ryan. - Mas imponho uma
condição.
- Qual?
- Que eu hei-de acompanhar-te a primeira vez que levares
Nell à superfície da terra.
- Está combinado - respondeu Harry.
Um novo impulso do aparelho veio estabelecer um maior
intervalo entre os dois amigos. Qualquer deles já mal poderia
ouvir o que o outro dissesse. contudo, Harry ainda chegou a
distinguir a voz de Jack Ryan, que gritava lá do fundo:
- E quando Nell já tenha visto a Lua, o Sol e as estrelas,
sabes o que ela há-de continuar ainda a preferir?
- Não sei, Jack!
- A tua pessoa, maganão! Sempre a tua pessoa!
E a voz de Jack Ryan sumiu-se de todo nas profundidades da
hulheira.


Harry, entretanto, ia consagrando à educaÇão de Nell as suas
horas de repouso. Ensinou-lhe assim a ler e a escrever, coisas
que ela aprendia com extrema facilidade. Dir-se-ia que tinha o
instinto da instrução. Nunca se vira tão viva inteligência
triunfar em tão pouco tempo de tão completa ignorância. A
todos causava admiração esta assombrosa facilidade.
Simão Ford e sua mulher cada vez se sentiam mais amigos
desta filha adoptiva, cujo passado não deixava contudo de os
preocupar. Tinham já percebido quais os sentimentos que Harry
nutria por Nell, e não Lhes fora desagradável essa descoberta.
Não esqueceu ainda aos leitores que, por ocasião do
engenheiro Jaime Starr ir visitar a travessa Dochart, dissera
o velho overman:
- Para que se havia de casar meu filho? Que mulher lá de
cima poderia convir a um rapaz, que tem de passar a vida no
fundo de uma hulheira?
Pois não parecia agora que a Providência se tinha incumbido
de lhe deparar a única e dedicada companheira que podia convir
a seu filho? Não deveria considerar-se como um favor do céu
semelhante achado?


164

Por isso o velho mineiro prometia a si mesmo que, se este
casamento chegasse a realizar-se, havia de haver nesse dia em
Coal-City uma festa de dar brado entre a população mineira da
Nova Aberfoyle.
E Simão Ford não era homem para faltar à sua palavra.
Deve-se acrescentar ainda que havia outra pessoa não menos
interessada nesta união de Nell e Harry. Era o engenheiro
Jaime Starr, que estimava muito do coração a felicidade
daqueles dois entes. Outra circunstância, porém de ordem mais
superior, influía talvez no ânimo do engenheiro para ele
desejar o bom termo destes amores.
Sabe-se que Jaime Starr conservava ainda certas apreensões,
se bem que nada as justificasse presentemente. Dizia ele que
era possível tornar-se a dar o que já se realizara mais de uma
vez. Na sua opinião, Nell devia estar ao facto do mistério da
nova hulheira. Ora, se o futuro ainda reservava outros perigos
aos mineiros de Aberfoyle, como se podiam eles conjurar,
ignorando-se a causa de quem os promovia?
- Nell tem-se obstinado em guardar silêncio - repetia muitas
vezes Jaime Starr. - Mas o que ela até aqui não disse a
ninguém, há-de forçosamente contá-lo a seu marido. O perigo
que nos ameaçasse a nós, não deixaria também de o ameaçar a
ele. Um casamento, portanto, que reunisse à ventura dos noivos
o sossego e o bem-estar dos seus amigos, seria um bom
casamento ou neste mundo não havia casamentos bons!
Assim raciocinava, não sem alguma lógica, o engenheiro Jaime
Starr. O velho Simão não deixava também de achar muito
aceitável este raciocínio. Parecia, pois, que nada se devia
opor à união de Harry com a sua querida Nell.
E quem poderia opor-se? Harry e Nell amavam-se
reciprocamente.


165

Madge e Simão Ford não queriam outra noiva para seu filho. Os
companheiros de Harry invejavam-lhe a felicidade, reconhecendo
contudo que era digno dela o seu actual overman. Nell não
dependia de ninguém, e só tinha a consultar o seu próprio
coração.
Mas se ninguém tinha poder para obstar a este casamento,
porque é que apenas se apagavam os discos eléctricos nesta
cidade de operários, porque é que apenas os habitantes de
Coal-City se retiravam às suas casas para repousar, surgia de
um dos mais sombrios recantos da Nova Aberfoyle um ente
misterioso, escoando-se por entre as sombras? Que instinto
guiava este fantasma através de certas galerias tão estreitas,
que ninguém poderia imaginá-las acessíveis? Porque vinha
arrastando-se até às margens do lago Malcolm este ser
estranho, cujo olhar penetrante parecia rasar as mais
profundas trevas? Porque se dirigia ele à residência de Simão
Ford, e tão cautelosamente que passava sempre despercebido?
Porque se aproximava das janelas, procurando surpreender
palavras soltas por entre as fendas dos postigos?
E quando sucedia chegarem até ele algumas frases, porque
levantaria o punho cerrado, em sinal de ameaça, contra aquela
tranquila habitação? Porque, finalmente, se lhe soltariam dos
lábios, contraídos pela cólera, estas únicas palavras:
- Unidos os dois!... Nunca! Nunca!...


CAPÍTULO XVII


O CÉU E A TERRA


Um mês depois, era ao anoitecer do dia 20 de Agosto,
Madge e Simão Ford despediam-se afectuosamente de quatro
viajantes, que se propunham a sair da mina.
Jaime Starr, Harry e Jack Ryan iam enfim mostrar a Nell uma
terra, que os seus pés não tinham ainda pisado, uma terra de
que os seus olhos ainda não haviam visto os esplendores.
A excursão deveria prolongar-se por dois dias. Jaime Starr,
de acordo com Harry, queria que, depois de decorridas estas
quarenta e oito horas, Nell tivesse presenciado os diferentes
aspectos do globo, fazendo-se-lhe para esse fim contemplar um
variadíssimo panorama de cidades, planícies, montes, rios,
golfos, lagos e mares.
Ora, nesta parte da Escócia, compreendida entre Edimburgo e
Glásgua, parecia que a natureza se encarregara de reunir todas
as maravilhas terrestres. Com relação ao céu, fácil seria
admirar-Lhe de qualquer parte o seu manto de nuvens cambiantes
e o seu cortejo de astros luminosos.
A projectada excursão fora combinada de modo que
satisfizesse a todas as condições do programa.
Madge e Simão Ford ter-se-iam decidido a acompanhar os
viajantes, se os não contrariasse tanto a ideia de deixarem
ainda mesmo por pouco tempo a sua querida e subterrânea
habitação.
Jaime Starr ia a este passeio como observador e filósofo que
desejava estudar de perto, sob o ponto de vista psicológico,
as ingénuas e cândidas impressões de Nell. Quem sabe até se
ele não esperaria surpreender em parte os misteriosos
acontecimentos que deviam ter cercado a infância da pobre
menina.
Harry não deixava de se preocupar com a ideia desta
experiência, temendo que Nell se lhe apresentasse depois bem
diferente do que até ali tinha sido.
Pela sua parte, Jack Ryan sentia-se mais alegre e satisfeito
que um pássaro a quem soltassem da gaiola. O bom do rapaz
confiava que a sua contagiosa alegria se comunicasse aos
outros companheiros. Seria a melhor maneira de agradecer o
quinhão que lhe coubera neste agradável passeio.
Nell conservava-se pensativa e concentrada.
Jaime Starr tinha resolvido, não sem fundamento, que só
muito depois do Sol posto se devia sair da mina. Prevenção
acertada, para que Nell fosse gradual e insensivelmente
passando das trevas da noite aos esplendores do dia.
Efectivamente, desta forma poderia Nell atravessar sem esforço
todas as fases sucessivas de sombra e luz, às quais se iria
pouco a pouco habituando o seu olhar.
No momento de sair da hulheira, Nell pegou na mão de Harry e
disse-Lhe:
- Harry, é pois indispensável que eu saia destes lugares,
ainda que seja só por pouco tempo?
- Sim - respondeu Harry. - Tão indispensável por ti, como
por mim.
- Entretanto, meu amigo - ajuntou Nell -, desde que tu me
salvaste a vida, julgo-me aqui tão feliz, que não ambiciono
mais nada. Era ignorante, fizeste-me Instruída. Não bastará
isso? Que tenho eu que ir fazer lá acima?


168

Harry fitou-a sem lhe responder. Os sentimentos que Nell
expressava eram por assim dizer exactamente os seus.
- Compreendo a tua hesitação, minha filha - ponderou Jaime
Starr -, mas acho útil que venhas connosco: Os teus
companheiros são pessoas que te estimam, e que não te vão
deixar lá por cima toda a vida. Que tu depois queiras
continuar a viver aqui, à semelhança do velho Simão, de Madge
e de nós todos, ninguém to leva a mal. Creio até que sejam
essas as tuas intenções, e eu sou dos primeiros a louvar-tas.
Mas, realizando esta excursão, ficarás habilitada a saber em
consciência o que é que tu preferes. Portanto não tens remédio
senão sujeitares-te ao nosso projecto.
- Vem, vem, minha querida Nell - disse Harry.
- Estou pronta a seguir-te, Harry - respondeu Nell.


Eram nove horas quando Nell e os seus companheiros partiram
para a superfície do condado pelo último comboio do túnel.
Vinte minutos depois entraram todos na gare do entroncamento,
que estava em comunicação directa com a Nova Aberfoyle, e
fazia parte da linha férrea entre Dumbarton e Stirling.
A noite já tinha caído de todo. Do horizonte ao zénite ainda
corriam pelas alturas do céu alguns ligeiros vapores,
impelidos por uma brisa de noroeste, que refrescava a
atmosfera.
O dia tinha estado esplêndido. A noite prometia também ser
formosa.
Chegados a Stirling, Nell e os seus companheiros apearam-se
do vagão, saindo logo da gare.
Em frente deles, por entre renques de árvores frondosas,
abria-se uma estrada que ia dar às margens do Forth.
A primeira impressão física por que passou Nell foi a do ar
puríssimo, que os seus pulmões aspiraram com avidez.


169

- Respira à vontade, Nell - disse-Lhe Jaime Starr. - Aspira
este ar abundante de todos os perfumes vivificadores que os
campos encerram.
- Que rolos de fumo são aqueles que passam por cima das
nossas cabeças? - perguntou Nell.
- São as nuvens - respondeu Harry -, são os vapores meio
condensados que o vento leva para o ocidente.
- Ah!, meu Deus! - exclamou Nell. - Como eu gostava de ser
arrebatada no meio daquele silencioso turbilhão! E que pontos
cintilantes são aqueles que brilham no espaço onde não há
nuvens?
- São as estrelas de que te falei, Nell. São as infinidades
de sóis que representam outros tantos centos de mundos, talvez
iguais ao nosso!
As constelações desenhavam-se agora nitidamente sobre o
azul-escuro do céu, que o vento ia pouco a pouco purificando.
Nell fitava embevecida esses milhares de estrelas brilhantes
que resplendiam por todo o firmamento.
- Mas - observou Nell - se tudo aquilo são diferentes sóis,
como se compreende que os meus olhos possam impunemente
suportar-lhes o brilho?
- porque todos esses sóis - respondeu Jaime Starr - gravitam
a uma enorme distância. O mais próximo desse número infinito
de astros, cujos raios chegam até nós, é a estrela Vega, da
constelação a Lira, que tu vês, quase chegada ao zénite, e que
ainda assim dista da Terra cinquenta mil milhares de milhões
de léguas. O seu brilho não pode portanto fazer-te impressão à
vista. Mas já não acontece o mesmo com o Sol, pois, apesar de
estar apenas a trinta e oito milhões de léguas, o seu foco
luminoso é tão ardente que ninguém pode fitá-lo. Mas vamos,
Nell, vamos para diante.
A esta indicação todos se puseram a caminho. Jaime Starr
levava Nell pela mão, Harry ia junto de Nell, Jack Ryan ora
avançava, ora tornava para trás à semelhança dos cãezinhos que
se impacientam pelo andar vagaroso de seus donos.


170

A estrada estava deserta. Nell demorava-se a olhar para o
contorno das grandes árvores que o vento agitava na sombra.
Essas árvores pareciam-lhe gigantes movendo os seus braços
colossais. O sussurro da brisa nas altas ramarias, o profundo
silêncio que depois se sucedia a esses vagos gemidos, a linha
do horizonte destacando-se mais pronunciadamente quando a
estrada seguia por uma planície, todas estas circunstâncias
enfim despertavam no espírito de Nell novos sentimentos,
produziam-lhe indeléveis impressões. Depois das naturais
pergun tas, Nell calava-se, e todos de comum acordo ficavam
silenciosos. Os seus companheiros não queriam de forma alguma
influenciar aquela sensível imaginação. Preferiam que as
ideias se lhe fossem desenvolvendo espontaneamente.
Pelas onze e meia da noite chegavam os quatro viajantes à
margem setentrional do golfo de Forth.
Esperava-os ali um barco, antecipadamente fretado por Jaime
Starr, que devia conduzi-los ao porto de Edimburgo.
Nell pôs-se a olhar para o límpido lençol de água que
ondulava a seus pés sob a acção da maré, e que parecia
constelado de estrelas oscilantes.
- É um lago? - perguntou ela.
- Não é um lago - respondeu Harry -, é um vasto golfo de
águas correntes, é a foz imensa de um rio, quase um braço de
mar. Apanha com a mão uma pouca dessa água, e verás que não é
doce como a do lago Malcolm.
Nell abaixou-se, meteu uma das mãos na superfície do golfo,
e levou-a depois aos lábios.
- É salgada esta água - disse ela.
- É - respondeu Harry. - O mar refluiu até aqui, porque está
cheia a maré. Três quartas partes do nosso globo acham-se
cobertas dessa água salgada que tu acabaste de provar.


171

- Mas porque é então doce a água dos rios, sendo ela a mesma
que as nuvens tiram do mar e depois lançam na terra? -
perguntou Nell.
- Porque a água perde o sal quando se evapora. As nuvens
formam-se pela evaporação, e devolvem ao mar na forma de chuva
essa água doce que de lá saiu salgada.
- Harry! Harry! - bradou Nell. - Que clarão é aquele
avermelhado que ilumina o horizonte? Será por acaso alguma
floresta em chamas?
E Nell mostrava com o dedo um ponto do céu para o lado
leste, que se tingia de vermelho.
- É a Lua, Nell - respondeu Harry. - É a Lua que está a
nascer.
- A Lua, sim! - acrescentou Jack Ryan. - Uma soberba salva
de prata que os génios celestes fazem circular no espaço para
recolher dentro dela um farto donativo de estrelas.
- Ora esta! - respondeu a rir o engenheiro. - Não te
conhecia essa queda para as comparações arrojadas.
- A minha comparação é verdadeira, senhor Starr. Pois não vê
que as estrelas desaparecem à medida que a Lua avança? É
porque lhe vão caindo no regaço!
- É porque o brilho da Lua ofusca as estrelas de sexta
grandeza, deixando-as sumidas na sua passagem - respondeu o
engenheiro.
- Como tudo isto é belo! - exclamava Nell, que só tinha
olhos para admirar. - Eu supunha que a Lua era completamente
redonda.
- Redonda quando está cheia - respondeu Jaime Starr. - Isto
é, quando se acha em oposição com o Sol. Hoje, porém, a Lua
entra no quarto minguante, já tem um bocado de menos, e
actualmente a salva de prata do nosso amigo Jack não passa de
uma bacia de barba!
- Ah!, senhor Starr - retorquiu Jack Ryan desapontado. - Que
feia comparação! Agora que eu ia entoar uns versos em
homenagem à Lua! Mas qual!... Foi-se tudo! A sua bacia de
barba cortou-me a inspiração!
A Lua ia-se, entretanto, levantando no horizonte.


172

Diante dela desfaziam-se os últimos vapores. Para os lados do
zénite e do ocidente brilhavam ainda as estrelas sobre um
fundo negro, que o luar ia gradualmente branqueando. Nell
contemplava em silêncio tão admirável espectáculo. Os seus
olhos suportavam sem fadiga esta luz suave e prateada, mas as
suas mãos estremeciam entre as de Harry, traduzindo as
comoções que a voz não expressava.
- Embarquemos quanto antes, meus amigos - disse Jaime Starr.
- precisamos estar no alto do Arthur-Seat antes de o Sol
começar a nascer.
O barco estava junto da praia, amarrado a uma estaca.
Tripulava-o um homem só. Nell e os seus companheiros entraram
para ele e sentaram-se. Armou-se a vela, e o barco principiou
a deslizar, auxiliado fortemente por uma brisa de noroeste.
Que nova comoção se apoderava agora de Nell! Tinha já
navegado nos lagos da Nova Aberfoyle, mas o remo, por mais
brandamente que o manejasse o braço de Harry, denunciava
sempre o esforço do remador. Aqui, pelo contrário, Nell
sentia-se resvalar quase que imperceptivelmente, como se fosse
fendendo os ares levada por um balão. O golfo tinha a
uniformidade de um lago. Meio encostada para trás, Nell ia-se
agradavelmente habituando a este ligeiríssimo balanço. Por
instantes vinha um raio da Lua beijar a face do golfo, e Nell
supunha-se então sobre uma superfície de prata recamada de
cintilações. A quilha da embarcação, cortando as águas,
deixava após si um rasto luminoso, que mais aumentava a beleza
deste quadro. Era um verdadeiro deslumbramento.
Sucedeu então que os olhos de Nell se fecharam
involuntariamente. Apoderou-se dela uma espécie de modorra
passageira. Inclinou a cabeça sobre o ombro de Harry, e
deixou-se adormecer suavemente.
Harry queria acordá-la para que não perdesse nenhuma das
belezas desta noite esplendorosa.


173

- Deixa-a dormir, meu rapaz - disse-lhe o engenheiro -, Duas
horas de repouso são-lhe proveitosas para melhor poder
suportar as impressões do dia.
Às duas horas da manhã chegava a embarcação ao cais de
Granton. Nell abriu os olhos no momento em que se acabava de
atracar.
- Estive a dormir - perguntou ela.
- Não estiveste, minha filha - respondeu Jaime Starr. -
Imaginaste que dormias, mas foi engano.
A noite estava muito clara. A Lua, a meio caminho do
horizonte para o zénite, espalhava por todos os pontos do
firmamento os seus raios argentinos. O pequeno porto de
Granton continha apenas dois ou três barcos de pesca,
docemente balouçados pelas ondas do golfo. A brisa ia
abrandando com a aproximação da manhã. A atmosfera, limpa de
nuvens, prometia um desses deliciosos dias de Agosto, que a
vizinhança do mar ainda torna mais belos. Do fundo do
horizonte destacava-se uma espécie de vapor tépido, tão fino,
tão transparente que bastariam para sorvê-lo os primeiros
raios do Sol.
Nell pôde observar o aspecto do mar, quando ele se confunde
com o extenso perímetro do céu, e a sua vista adquiriu assim
maior alcance, embora não experimentasse aquela impressão
particular que produz o oceano, quando a luz parece
alongar-lhe indefinidamente os limites.
Harry pegou na mão de Nell. Ambos seguiram atrás de Jaime
Starr e de Jack Ryan, que iam percorrendo ruas silenciosas. Na
opinião de Nell, este arrabalde de Edimburgo, formado por um
ajuntamento de casas, fazia-Lhe lembrar Coal-City, com a
diferença porém de ter uma abóbada mais elevada e toda ela
recamada de pontos luminosos.
Nell caminhava depressa, e Harry nunca teve de abrandar o
passo com receio de poder fatigá-la.
- Não estás cansada - perguntou-lhe ele depois de meia hora
de caminho.



174

- Não estou - respondeu Nell. - Parece que os meus pés não
tocam no chão. Este céu está na realidade tão alto que o meu
desejo seria voar para ele se tivesse ásas!
- Segura-a!... - gritou Jack Ryan. - Que temos de dar conta
dela! Eu também sinto o mesmo desejo de voar, quando passo
muito tempo sem sair da mina.
- É a consequência - ponderou Jaime Starr - de não estarmos
aqui comprimidos pela abóbada de xisto que serve de tecto a
Coal-City! O firmamento faz-nos o efeito de um grande abismo,
em que a gente deseja precipitar-se. Não é isso que tu estás a
experimentar, Nell?
- É isso, é isso justamente, senhor Starr. Sinto assim uma
espécie de vertigem!
- Tu te acostumarás - respondeu Harry. - Hás-de habituar-te
a esta imensidade do mundo exterior, e talvez chegues mesmo a
esquecer o fundo da nossa hulheira!
- Isso nunca - replicou Nell.
E em seguida tapou os olhos com as mãos, como se quisesse
avivar no seu espírito a lembrança do que deixara ainda havia
poucas horas.
Por entre as ruas desertas da cidade, Jaime Starr e os seus
companheiros atravessaram Leith-Walk. Depois rodearam
Calton-Hill, onde existem o Observatório e o monumento de
Nelson. Seguiram pela Rua do Regente, atravessaram uma ponte,
e chegaram, por um rodeio, à extremidade da Canongate.
A cidade continuava ainda completamente adormecida. Ao mesmo
tempo ouviam-se bater duas horas na torre gótica de
Canongate-Church.
Ao chegarem aqui, Nell parou um momento.
- Que massa confusa é aquela que estou ali a ver? - perguntou
-ela, apontando para um edifício isolado, que se erguia no
fundo de uma pequena praça.
- Aquilo, Nell - respondeu Jaime Starr -, é o palácio dos
antigos soberanos da Escócia, é Holyrood, onde se passaram
tantos cásos de sinistra memória! O historiador poderia ali
evocar as sombras de muitas personagens reais, desde a infeliz
Maria Stuart até ao destronado rei de França, Carlos X!


175

E todavia, apesar de tão sinistras recordações, quando romper
o dia tu verás, Nell, que nada tem de lúgubre aquela
residência. Çem as suas quatro formidáveis torres ameadas,
Holyrood faz lembrar um castelo mandado construir por algum
milionário, segundo o estilo da época feudal. Continuemos
porém a nossa excursão. Ali, no próprio recinto da antiga
abadia de Holyrood, é que se levantaram os soberbos rochedos
de Salisbury, dominados pela colina do Arthur-Seat. É ali que
nós havemos de ir. É daquele alto, Nell, que os teus olhos
hão-de ver levantar-se o Sol acima do horizonte do mar.
Jaime Starr e os seus companheiros entraram no Parque do
Rei. Depois, começando gradualmente a subir, atravessaram
Victoria-Drive, magnífica estrada circular acessível a
carruagens, que Walter Scott se gabava de ter obtido apenas
com algumas linhas de romance.
O Arthur-Seat não passa de uma eminência de setecentos e
cinquenta pés, cujo cimo fica sobranceiro a todos os cerros
que o rodeiam. Seguindo por um carreiro em curvas, que
facilitava muito a ascensão, o engenheiro Jaime Starr e os
seus companheiros puseram-se, em menos de meia hora, no alto
do Arthur-Seat, que, visto de lado, faz lembrar o crânio de um
leão.
Chegados ali, sentaram-se todos quatro, e Jaime Starr, que
era pródigo em citações tiradas do grande romancista escocês,
acudiu logo a dizer:
- Ouçam o que a respeito deste ponto de vista escreveu
Walter Scott no capítulo oitavo da sua Prisão de Edimburgo:
"Se me dessem a escolher um lugar, donde se pudesse ver
perfeitamente o nascimento e o ocaso do Sol, seria este o
lugar que escolheria."
- Espera, portanto, um bocado, Nell. O Sol não tarda que
apareça, e pela primeira vez na tua vida poderás contemplá-lo
em todo o seu esplendor.


176

Os olhos de Nell voltaram-se para o Nascente: Harry, de pé
junto dela, observava-lhe os movimentos com verdadeira
ansiedade. Que impressão lhe iriam causar os primeiros raios
do dia?
Todos se conservavam calados, O próprio Jack Ryan não tinha
vontade de falar.
Nisto começou a desenhar-se, por cima do horizonte, sobre um
fundo de ligeiras brumas, uma pequena linha pálida, matizada
de cor-de-rosa. Numa porção de vapores, ainda perdidos pelo
zénite, foi cravar-se de repente o primeiro reflexo de luz.
Por baixo do Arthur-Seat divisava-se confusamente a capital da
Escócia, ainda entorpecida pelo sono. Alguns pontos luminosos
quebravam aqui e acolá a densidade das sombras. Eram as luzes
que se acendiam nas habitações daqueles a quem o trabalho
fazia madrugar. Para o lado de oeste, o horizonte, cortado por
linhas caprichosas, servia de limite a uma região acidentada
de montes, aprumados, onde cada raio do Sol iria colocar em
breve um feixe de luz.
Entretanto, o perímetro do mar traçava-se mais acen
tuadamente para leste. A escala das cores formava-se pouco a
pouco segundo a ordem do espectro solar. A cor vermelha das
primeiras brumas ia por degradação até à cor violeta do
zénite. De segundo em segundo tornavam-se as tintas desta
prodigiosa palheta cada vez mais opulentas. Da cor-de-rosa
passava-se ao encarnado, do encarnado à cor rubra do fogo. O
dia manifestava-se no ponto de intersecção, que o arco diurno
ia fixar sobre a circunferência do mar.
O olhar de Nell podia agora estender-se desde a base da
colina, onde estava, até à cidade, cujos diferentes bairros
começavam a destacar-se por grupos. Alguns campanários
pontiagudos, alguns monumentos mais altos surgiram num e
noutro ponto, deixando perceber com maior nitidez os seus
lineamentos gerais. Pelo espaço derramava-se como que uma
espécie de luz acinzentada. Chegou enfim o momento dos olhos
de Nell se fitarem no primeiro raio do Sol. Era um raio
esverdeado que, tanto de manhã como à tarde, emerge do mar
quando está puro o horizonte.


177

Meio minuto depois, Nell admirada apontava para a elevação
superior aos bairros da cidade nova.
- Fogo ali! - exclamou ela.
- Enganas-te, Nell - respondeu Jaime Starr -, não é fogo, É
o Sol que imprime um beijo de ouro no vértice ao monumento
dedicado a Walter Scott!
Efectivamente, a parte superior desse monumento, de uma
altura de duzentos pés, brilhava agora como se fosse um farol
de primeira ordem.
Estava feito o dia. O Sol rompera de todo. O seu disco
parecia ainda húmido, como se tivesse realmente saído do seio
das águas. Dilatado primeiramente pela efracção, foi-se
restringindo pouco a pouco até mostrar a forma circular. A sua
chama, dentro em breve insuportável, era igual à da boca de
uma fornalha que tivesse furado o céu.
Nell teve de fechar os olhos quase de repente. Sobre as suas
pálpebras, ainda muito sensíveis, foI-lhe preciso aplicar os
dedos estreitamente unidos.
Harry pediu-lhe que se voltasse para o lado oposto.
- Obrigado, Harry - disse ela. - Deixa-me estar assim. Quero
que os meus olhos se habituem a ver como os teus...
Através dos dedos, Nell distinguia ainda uma claridade
cor-de-rosa, que se ia tornando branca à proporção que o Sol
se erguia acima do horizonte. Depois levantou as pálpebras, e
os seus olhos impregnaram-se logo completamente da luz do dia.
de joelhos, A piedosa criança deixou-se então cair
exclamando:
- Oh!, meu Deus! Como é bela a tua obra!
Nell baixou os olhos, e lançou-os em redor. Aos seus pés
dilatava-se o panorama de Edimburgo, de um lado os bairros
modernos e bem alinhados da cidade nova, do outro a
aglomeração das casas e das ruas tortuosas da "Velha
Denegrida". Duas alturas dominavam este panorama:


178

o castelo pendurado no seu rochedo de basalto, Calton-Hill,
suportando sobre o seu cabeço arredondado as ruínas recentes
de um monumento grego. Da capital para o campo ramificavam-se
magníficas estradas, vestidas de arvoredo. Para o lado do
norte um braço de mar - o golfo de Forth - rasgava
profundamente a costa escocesa, sobre a qual se abria o porto
de Leith. Mais adiante, no terceiro plano, destacava-se o
harmonioso litoral do condado de Fife. Uma estrada, tão recta
como a do Pireu, ligava com o mar esta nova Atenas do Norte.
Para a parte de oeste estendiam-se as belas praias de Newhavon
e de Porto Belo, cujas areias tingiam de amarelo as primeiras
ondas da ressaca. Ao largo animavam as águas do golfo algumas
chalupas de pesca, e dois ou três vapores, expelindo para o
céu seus cones de fumo negro. Ao longe, finalmente, muito ao
longe, alargavam-se os imensos campos cobertos de verdura.
Alguns modestos outeiros acidentavam aqui e ali a planície.
Ao norte, os Lomond-Hills, a oeste, o Ben-Lomond e o Ben-Ledi
reflectiam os rais do Sol, como se os seus cumes estivessem
coroados de neves eternas.
Nell não podia falar. Os seus lábios apenas murmuravam
palavras sem nexo. Tremiam-lhe os braços. Sentia a cabeça
esvaída. Houve um momento em que as forças Lhe faltaram. No
meio deste ar tão puro, perante um espectáculo tão grandioso,
foi-lhe o corpo insensivelmente fraquejando até se deixar cair
nos braços de Harry, que estavam prestes a recebê-la.
Nell, cuja existência até ali se tinha passado toda nas
entranhas da terra, pudera enfim contemplar o que constitui
todo o universo, tal como ele foi feito pelo Criador e pelo
homem.
Os seus olhares, depois de se terem librado sobre os campos
e a cidade, acabavam de se estender também sobre a imensidade
do mar e o infinito do céu!



CAPÍTULO XVIII


UM PASSEIO PELOS LAGOS


HARRY, seguido por Jaime Starr e Jack Ryan, desceu as
encostas do Arthur-Seat, levando Nell nos braÇos. Depois de
algumas horas de repouso e de um almoço restaurador, mandado
fazer no Lambrets-Hotel, decidiu-se completar a excursão por
um passeio através do país dos lagos.
Nell tinha recuperado as suas forças. Podia já sem esforço
abrir os olhos à luz e aspirar livremente o ar puro e
vivificador que a cercava. O tom verde das árvores, o matiz
variado das plantas e o azul diáfano do céu tinham já
desenvolvido diante do seu olhar toda a escala das cores.
O comboio, que tomaram em General Railway Station, conduziu
Nell e os seus companheiros a Glásgua. Da última ponte lançada
sobre o Clyde puderam eles admirar o curioso movimento
marítimo daquele rio. Depois foram pernoitar no Comrie's
Royal-Hotel.
No dia seguinte, o comboio, que partia da estação de
Edimburgo and Glasgow Railway, devia transportá-los
rapidamente por Dumbarton e Balloch, à ponte meridional do
lago Lomond:
- Vamos atravessar o país de Rob Roy(1) - exclamou Jaime
Starr.


*1 Rob Roy, chefe de um bando de escoceses que viviam de
depredações, é o herói de úm dos mais populares romances de
Walter Scott. (N. do T.)


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- O território que Walter Scott nos descreveu tão
poeticamente! Conheces aqueles sítios, Jack Ryan?
- Conheço-os - respondeu Jack Ryan - pelas obras do grande
romancista, que decerto os não teria cantado se não fossem
realmente belos.
- Não te enganas, meu rapaz - tornou o engenheiro. - Tão
belos, que a nossa querida Nell há-de conservar deles uma
agradável recordação.
- Com um guia como o senhor Starr - acudiu Harry - deve
duplicar para nós o interesse do passeio, pois esperamos que
não deixará de nos descrever o país à proporção que o formos
percorrendo.
- Da melhor vontade, Harry - disse o engenheiro. - E, até
onde a minha memória me auxiliar, conta comigo. Mas imponho
uma condição: é que o nosso alegre Jack Ryan me sirva de
ajudante. Quando eu estiver cansado de falar, substituir-me-á
ele cantando.
- De acordo! - replicou Jack Ryan, lançando ao vento uma
nota vibrante, como se quisesse chegar ao lá do diapasão.


Entre a metrópole comercial da Escócia e a extremidade sul
do lago Lomond contam-se, pelo caminho de ferro de Glásgua a
Balloch, apenas umas vinte milhas de distância.
O comboio em que iam os quatro viajantes passou por
Dumbarton, burgo real e capital de condado, cujo castelo -
sempre bem guarnecido em harmonia com o tratado da União -
assenta pitorescamente sobre os dois cimos de um grande
rochedo de basalto.
Dùmbarton fica na confluência dos rios Clyde e Leven. A este
respeito contou Jaime Starr algumas particularidades da
aventurosa história de Maria Stuart. Foi efectivamente de
Dumbarton, que ela partiu para casar com Francisco II,
tornando-se assim rainha de França, Foi também ali que o
ministério inglês, depois de 1815, teve ideias de internar o
vencido de Waterloo.


181

A escolha de Santa Helena prevaleceu porém, e aí está porque o
primeiro Napoleão acabou os seus dias sobre um rochedo do
Atlântico, em proveito manifesto da sua legendária memória.
O comboio parou finalmente em Balloch, junto de uma ponte de
madeira que dava serventia para o lago.
Um barco a vapor - o "Sinclair" - esperava pelos viajantes
que costumavam visitar os lagos. Jaime Starr e os seus
companheiros embarcaram nele, depois de terem adquirido
bilhetes para Inversnaid, na extremidade norte do lago Lomond.
O dia começava auspiciosamente por um sol esplendoroso, a
que não ofuscavam o brilho esses impertinentes nevoeiros tão
vulgares no Reino Unido. Os passageiros do "Sinclair" poderiam
pois desfrutar à vontade todas as belezas que se iam
desenrolar a seus olhos num percurso de vinte milhas. Nell,
sentada à popa do barco entre Harry e Jaime Starr, aspirava a
largos tragos a imensa poesia de que está prodigamente
impregnada esta formosíssima Natureza.
Jack Ryan girava de um para o outro lado na tolda do
"Sinclair", dirigindo sucessivas perguntas a Jaime Starr, que
sempre respondia da melhor vontade. O engenheiro, como
admirador entusiasta, sentia verdadeira satisfação em
descrever o país de Rob Roy, à medida que o barco sulcava as
águas do lago.
De princípio começaram a ver-se numerosos agrupamentos de
pequenas ilhas. Eram tantas, que pareciam um viveiro. O
"Sinclair" costeava as margens escarpadas destas ilhotas, e,
pelos intervalos de umas às outras, ora despontava um vale
solitário e pitoresco, ora um desfiladeiro agreste, revestido
de rochedos aprumados.
- Todas estas pequenas ilhas - disse Jaime Starr -, possuem
a sua lenda, bem como todas as serras que ficam à volta do
lago. Pode-se dizer, sem grande exagero, que a história deste
país está escrita com esses caracteres imensos feitos de ilhas
e de montanhas.


182

- Sabe, senhor Starr - disse Harry -, o que me faz lembrar
esta parte do lago Lomond?
- O quê?
- Os milhares de ilhas do lago Ontário, de que nos fala tão
admiravelmente Fenimore Cooper. Deve também surpreender-te a
semelhança, Nell, pois ainda não há muito que estive a ler-te
esse romance, considerado com justiça como a primeira obra do
célebre romancista americano.
- É verdade, Harry - respondeu Nell -, é exactamente a mesma
coisa, e o "Sinclair" segue por estas ilhas, como se fosse o
cúter de Jasper Água-Doce através do lago Ontário.
- Pois bem - respondeu Jaime Starr -, isso o que prova é que
ambos os lagos mereciam ser igualmente cantados por dois
poetas. Não conheço as ilhas do lago Ontário, mas duvido que
sejam mais variadas que estas do lago Lomond. Vejam, que linda
paisagem! Ali está a ilha Murray, com a sua velha fortaleza do
Lennox, onde viveu a duquesa de Albany, depois da morte de seu
pai, de seu marido e de seus dois filhos, decapitados por
ordem de Jaime I. Lá aparecem a ilha Clar, a ilha Cro, a ilha
Torr - umas de rochas, feias de aspecto, sem aparência de
vegetação, outras graciosas e atraentes, mostrando as suas
encostas cobertas de verdura. Aqui os lariços e as bétulas.
Além as veigas e os estevais. Repito, custa-me a crer que as
ilhas do lago Ontário ofereçam maior variedade do que estas!
- Que porto é aquele? - perguntou Nell, que se tinha voltado
para a margem oriental do lago.
- É Balmaha, que põe o lago em comunicação com as Highlands
- respondeu Jaime Starr. - Ali começam as Terras Altas da
Escócia.


183

As ruínas que tu estás a ver, Nell, pertencem a um antigo
convento de freiras, e as sepulturas espalhadas pelo seu
cemitério encerram as cinzas de vários membros da família
Mac-Gregor, cujo nome é ainda célebre em toda esta região.
- Célebre pelo sangue que essa família derramou e fez
derramar - observou Harry.
- Tens razão - respondeu Jaime Starr -, a maior de todas as
celebridades é a que deriva das batalhas. Não há nada para
atravessar os séculos como são as descrições marciais.
- Depois, há também as trovas, que ajudam a perpetuar esses
feitos - acrescentou Jack Ryan.
E, como se quisesse provar o que dizia, o bom do rapaz
começou a cantar a primeira estrofe de um canto guerreiro,
onde se exaltavam as proezas de Alexandre Mac-Gregor, do vale
de Srae, contra Sir Humphry Colquhour, de Luss.
Nell ouvia sem interesse a lenda de Jack Ryan. As histórias
de combate causavam-lhe uma impressão desagradável. De que
serviria tanto sangue vertido naqueles campos, se o espaço ali
chegava à farta para todos? -perguntava a si mesma a bondosa
menina.
As margens do lago, que medem três a quatro milhas de
largura, tendiam a estreitar-se nas proximidades do pequeno
porto de Luss. Nell pôde ver por um momento a velha torre do
antigo castelo. Depois, o "Sinclair" meteu a proa ao norte, e
aos olhos dos passageiros mostrou-se então o Ben Lomond, que
se eleva perto de três mil pés acima do nível do lago.
- Que admirável montanha! - exclamou Nell. - E do seu alto,
que bonita vista se deve gozar!
- É exacto - respondeu Jaime Starr. - Repara, Nell, como ela
se destaca altivamente da cinta de carvalhos, bétulas e
lariços que revestem a sua zona inferior! Dali avistam-se dois
terços da nossa velha Caledónia. Era nesta parte oriental do
lago que o clã de Mac-Gregor residia habitualmente.


184

Não muito longe deram-se as contendas entre os jacobitas(1) e
os hanoverianos, de que resultou ficarem mais de uma vez
ensanguentados estes desfiladeiros. Ali se levanta, pelas
formosas noites de céu puro, essa pálida Lua, que as velhas
crónicas chamam o "fanal de Mac-Farlane". Ali repetem ainda os
ecos os nomes imorredoiros de Rob Roy e de Mac-Gregor
Campbell!
O Ben Lomond, último pico da cordilheira dos Grampians, é
digno na verdade de ter sido celebrado pelo grande romancista
escocês. Como bem dizia agora Jaime Starr, havendo pelo mundo
montanhas muito mais altas e sempre cobertas de neve, nenhuma
delas se avantajava a esta em beleza e poesia.
- E lembrar-me eu - acrescentou Jaime Starr -, que o Ben
Lomond pertence todo inteiro ao duque de Montrose! E
lembrar-me eu que Sua Graça possui uma montanha, como qualquer
habitante de Londres pode possuir no seu jardinzinho um
tabuleiro de relva!
Entretanto o "Sinclair" chegava à povoação de Tarbet sobre a
margem oposta do lago, onde desembarcavam os passageiros com
destino a Inverary. Deste ponto o Ben Lomond deixava-se
admirar em toda a sua grandeza. Os seus flancos, mosqueados
pelo curso das torrentes, esplendiam como lâminas de prata em
fusão.
À medida que o Sinclair" costeava a base da montanha, mais
abrupto se mostrava o panorama. Apenas algumas árvores
isoladas, entre as quais diversos salgueiros, de cujos
filamentos se fabricavam antigamente as cordas com que a
arraia-miúda era enforcada.
- A fim de poupar o cânhamo! - observou Jaime Starr.
Quanto mais se avançava para o norte, mais o lago se
estreitava. As montanhas, que o ladeavam, iam-se gradualmente
aproximando.


*1 Nome dado em Inglaterra aos partidários de Jaime II e de
seu filho Jaime III depois da revolução de 1688. (N. do T.)


186

O barco ainda passou ao lado das ilhas de Inveruglas e
Eilad-Whou, onde se diferenÇavam os restos de uma fortaleza
que pertencera aos Mac-Farlane. As duas margens abraçaram-se
finalmente, e o "Sinclair" fundeou na estação de Inverslaid.
Enquanto ali se preparava o almoço, Nell e os seus
companheiros foram visitar, a pequena distância do
desembarque, uma torrente que de grande altura se precipitava
no lago. Parecia que tinha ali sido posta de propósito como
cena de teatro para maior encanto e satisfação dos viajantes.
Por cima das águas tumultuosas ficava uma frágil ponte, que
desaparecia entre um véu de líquida poeira.
Deste sítio a vista abrangia uma grande parte do lago
Lomond, e o "Sinclair" tornava-se um ponto imperceptível
perdido na sua superfície.
Terminado o almoço, tratou-se de seguir para o lago Katrine.
Diversas diligências, pertencentes à família Breadalbane - a
mesma que antigamente garantia a lenha e a água ao foragido
Rob Roy -, aguardava os viajantes, oferecendo-lhes o agradável
conforto que nunca deixa de se encontrar numa carruagem
inglesa.
Harry fez subir Nell para o tejadilho, a fim de meLhor ver a
paisagem. Ele e os seus companheiros sentaram-se junto de
Nell. Um excelente cocheiro, fardado de vermelho, segurou na
mão esquerda as guias dos seus quatro cavalos, fazendo logo
partir o carro, que principiou a trepar a encosta da montanha,
torneando cautelosamente o leito sinuoso das torrentes.
A estrada era muito íngreme. À proporção que subia, iam
mudando de aspecto os cabeços que a rodeavam. Via-se agora
crescer desmedidamente toda a cordilheira da margem oposta do
lago, bem como os cimos de Arroquhar, que ficavam superiores
ao vale de Inveruglas. À esquerda o Ben Lomond ostentava
majestosamente os ásperos contornos do seu flanco
setentrional.
A região compreendida entre o lago Lomond e o lago Katrine
apresentava uma perspectiva agreste e selvagem.


187

O vale era cercado por estreitos desfiladeiros que iam
terminar junto de Aberfoyle. Este nome trouxe à memória de
Nell os tenebrosos abismos onde se tinham passado os seus
primeiros anos. Para distraí-la, Jaime Starr apressou-se em
continuar as suas descrições.
O país demais a mais prestava-se a esse intento. Foi sobre
as margens do pequeno lago de Ard que se realizaram os
episódios principais da vida de Rob Roy. Erguiam-se por aqui
diferentes rochas calcárias de sinistra aparência, entremeadas
de calhaus que a acção do tempo e da atmosfera tornara tão
duros como cimento. Por entre as arribanas em ruínas
divisavam-se algumas choças miseráveis, que mais pareciam
covis. Seria difícil dizer se eram homens ou feras que
habitavam aqueles antros. Um número limitadíssimo de crianças,
com os cabelos já de todo desbotados pela intempérie do clima,
olhavam imbecilmente espantadas para as diligências que
passavam.
- Atravessamos justamente a parte da Escócia que se pode
chamar o país de Rob Roy - disse Jaime Starr. - Foi aqui que a
milícia do conde de Lennox deitou a mão ao excelente bailio
Nichol Jarvie, digno filho de seu pai o diácono. Foi mesmo
neste sítio que ele ficou suspenso pelo cós dos calções -
feito aliás de um bom pano escocês, que não cedeu ao peso do
corpo. Junto das nascentes do rio Forth, engrossadas pelas
torrentes do Ben Lomond, ainda hoje se pode observar o vau que
o herói atravessou para escapar aos soldados do duque de
Montrose. Ah!, se ele a esse tempo conhecesse os refúgios
insondáveis da nossa hulheira, poderia ter ali dentro
desafiado todas as pesquisas dos seus perseguidores! Bem vêem,
meus amigos... não se dá um só passo por aqui sem se
encontrarem de todos os lados mil recordações desse passado
que inspirou o nosso grande Walter Scott, quando em magníficas
estrofes ele prarafraseou o chamamento às armas de todo o clã
dos Mac-Gregor!


188

- Tudo isso assim será, senhor Starr - replicou Jack Ryan. -
Mas se é verdade ter Nichol Jarvie ficado suspenso pelo cós
dos calções, para que serve então o nosso provérbio: "Esperto
aquele que puder apanhar um escocês pelos calções?"
- Tens muita razão, meu rapaz - respondeu a rir Jaime Starr.
- Isso prova apenas que naquele dia o nosso bailio não ia
vestido à moda dos seus antepassados!
- Pois não fez bem, senhor Starr!
- Também assim me parece - tornou o engenheiro.
A diligência, depois de ter deixado atrás de si os
despenhadeiros e as torrentes, desceu o resto da encosta, e
entrou num vale sem árvores e sem água, apenas coberto por
alguns enfezados tojos. De espaÇo a espaÇo levantavam-se, em
forma de pirâmides, alguns montes de pedras.
- São túmulos - disse Jaime Starr, antecipando-se às
perguntas dos seus companheiros. - Quem antigamente encontrava
no seu caminho algum destes cairns, devia ajuntar-Lhes uma
pedra para assim honrar a memória dos heróis que jaziam
debaixo deles. É daí que procede o adágio gaélico: "Maldição
sobre aquele que passar por diante de um cairn sem nele depor
a pedra da última saudação!" Se os filhos conservassem a fé
imutável de seus pais, estas acumulações de pedras formariam
hoje grandes colinas. É que neste país tudo concorre para
desenvolver no coração dos montanheses uma doce e singela
poesia. De resto, sucede sempre assim em toda a parte onde há
montanhas. Se os Gregos tivessem tido por berço um país
rodeado de planícies, decerto que nunca eles haveriam
inventado a mitologia antiga.
Durante este e outros discursos, tinha-se o carro metido
pelos desfiladeiros de um estreito vale, que parecia talhado
propiciamente para nele se juntarem os duendes e os génios das
montanhas. Depois de se deixar à esquerda o pequeno lago de
Arklet, o cocheiro meteu as duas parelhas por uma estrada de
áspera subida, que ia dar à pousada de Stronachlacar, sobre a
margem do lago Katrine.


189

Nas águas do lago balouçava-se um pequeno vapor, atracado a
uma ponte de madeira. Este barco, pronto para largar,
chamava-se "Rob Roy". Nell e os seus companheiros só tiveram
tempo de embarcar.
O lago Katrine mede dez milhas de extensão sobre duas, o
máximo, de largura. As colinas mais próximas do seu litoral
conservam ainda os vestígios de uma grande cratera.
- Aqui temos um lago - disse Jaime Starr - que foi
acertadamente comparado com uma enguia comprida. Há quem
afirme que nunca gela. Não sei até que ponto seja isso
verdade, mas o que se não deve esquecer é que ele serviu de
teatro às proezas da Dama do Lago(1). Parece-me que se o nosso
amigo Jack Ryan se desse ao trabalho de o examinar com
atenção, talvez ainda visse deslizar pela sua superfície a
figura vaporosa da bela Helena Douglas.
- E que dúvida? - respondeu Jack Ryan. - Não há motivos para
que essa linda mulher seja mais invisível sobre as águas do
lago Katrine do que os génios da hulheira sobre as águas do
lago Malcolm.
Ao mesmo tempo sentiram-se à ré do "Rob Roy" os sons claros
e vibrantes de uma gaita-de-foles.
Era um Highlander, vestido à moda do país, que preludiava no
seu bag-ipe, composto de três tubos, dos quais o maior dava o
sol, o segundo o si e o mais pequeno a oitava do maior. A
parte do instrumento chamada pífaro ou ponteiro tinha oito
buracos, e dava uma escala de sol maior com o fá natural.
Era singelo e suave o motivo tocado pelo Highlander. Estas
melodias nacionais, longe de representarem o trabalho de algum
determinado compositor,


*1 A Dama do Lago é um dos mais belos poemas de Walter
Scott. (N. do T.)


190

parece que são o produto de uma combinação natural, formada
pelo sopro da brisa, pelo murmúrio das águas e pelo sussurro
das folhas. A toada do estribilho, que se repetia em dados
intervalos, tinha um não sei quê de extravagante. O seu ritmo
compunha-se de três compassos binários e de um compasso
ternário, que acabava em tempo fraco. Afastando-se da
tradição, este estribilho era em modo maior, e poder-se-ia
escrever da seguinte forma, por meio da linguagem cifrada que,
em lugar das notas, indica os intervalos dos tons:
5 1.2 3525 1.7 65 22.22 1.2 3525 1.7 65 11.11
Quem não coube em si de contente foi Jack Ryan, que sabia de
cor esta música dos lagos da Escócia. Aproximou-se pois do
Highlander, e, pedindo para lhe fazer o acompanhamento,
começou com a sua voz sonora a cantar o seguinte hino,
consagrado às lendas poéticas da velha Caledónia:


Formosos lagos da Escócia,
Espelhos de argêntea cor,
Que as vossas águas murmurem
As velhas lendas do amor.

Por estas margens viçosas
Inda o traço se descobre
Dos heróis da raça nobre
Que Walter fez imortal.

vê-se a torre onde Habitava
A sinistra feiticeira,
E entre as sombras da clareira
Paira a sombra de Fingal.

Volteiam em dança louca
Os duendes inimigos,
Dos Puritanos antigos
Ressurge o vulto e maior,
Por entre os bravos rochedos,
Na hora em que a luz é baça,
Waverley como que passa
Junto a Flora Mac Ivor.

A gentil Dama do Lago
Aqui divaga por certo,
Diana escuta já perto
A trompa de Rob Roy!

Ferges desprende o seu canto,
Incitando os clãs à guerra,
E na montanha e na serra
Tem cada trilho um herói!

Se a sorte, ó poéticos lagos,
Nos afastasse algum dia,
Roubar-nos não poderia
memórias deste lugar;
Teus cerras, as tuas grutas,
Tanto vale, tanta quebrada,
Sempre, ó Caledónia amada,
Se hão-de ante nós debuxar.

Formosos lagos da Escócia,
Espelhos de argêntea cor,
Que as vossas águas murmurem
As velhas lendas do amor(1).


A traslação do hino existente no romance francês para os
magníficos versos que acabam de se ler deve-a o tradutor à
gentileza do seu bom amigo Eduardo Vidal. Receba o distinto
poeta sinceros agradecimentos pelo seu trabalho, e para que os
leitores possam avaliar quanto lucrou a poesia passada para a
nossa língua, publicamos em seguida as estrofes originais:


Beaux lacs aux ondes dormantes,
Gardez à jamais
Vos léendes charmantes,
Beaux lacs écossais!

Sur vos bords on trouve la trace
De ces héros tant regrettés,
Ces descendants de noble race,
Que notre Walter a chantés!
Voici la tour où les sorcières
Préparaient leur repas frugal;
Là, les vastes champs de bruvères,
Où revient l'ombre de Fingal.

Ici passent dans la nuit sombre
Les folles danses des lutins.
Là, sinistre, apparait dans l'ombre
La face des vicux Puritains!
Et parmi les rochers sauvages,
Le soir, on peut surprendre encor
Waccrley, qui, vers vos rivages,
Entraìne Flora Mac Ivor!

La Dame du Lac vient sans doute
Errer là sur son palefroi,
Et Diana. non loin, écoute
Résonner le cor de Rob Roy!
N'a-t-on pas entendu naguère
Fergus au milieu de ses clans,
Entonnant ses pibrochs de guerre,
Réveiller 1écho des Highlands?

Si loin de vous, lacs poétiques,
Que le destin mène nos pas,
Ravins, rochers, grottes antiques,
Nos yeux ne vous oubliront pas!
O vision trop tôt finie,
Vers nous peux-tu revenir!
A toi, vieille Calédonie,
A toi, tout notre souvenir!

Beaux lacs aux ondes dormantes,
Gardez à jamais
Vos légendes charmantes,
Beaux lacs écossais!


Eram três horas da tarde. No duplo fundo do Ben An do Ben
Venue destacavam-se agora as margens ocidentais do lago
Katrine.


192 193


A meia milha de distância começava a desenhar-se vagamente o
estreito limite do lago, onde o "Rob Roy" ia largar os
passageiros, que se destinavam a Stirling por Callander.
Nell estava como que extenuada pela constante aplicação do
seu espírito. Sempre que se lhe deparava algum novo motivo de
admiração, dos seus lábios apenas saíam estas palavras: "Meu
Deus! Meu Deus!" Era pois necessário que descansasse algumas
horas, ainda que mais não fosse senão para fixar melhor a
lembranÇa de tantas maravilhas.
Harry, entretanto, pegara-lhe novamente nas mãos e, olhando
para ela comovido, dissera-lhe:
- Minha querida Nell, dentro em pouco estaremos todos de
volta na hulheira. Fala-me com franqueza: destes momentos
passados à luz do dia não te ficará por acaso alguma saudosa
recordação?
- Não fica, Harry - respondeu Nell. - O espectáculo
deslumbrou-me, é certo, mas acredita que voltarei alegre
contigo para casa de teus pais.
- Nell - disse Harry mal disfarçando com a voz a sua grande
comoção -, consentirás tu, depois do que viste, que a tua
existência se una para sempre à minha? Quererás tu finalmente
que eu seja teu esposo?
- Quero - respondeu Nell, fixando em Harry um olhar cheio de
candura -, quero, se acreditas que a minha existência possa
completar a tua.
Mal acabava Nell de proferir estas palavras, em que se
resumia toda a felicidade de Harry, eis que de repente se
manifesta dentro do lago um assombroso fenómeno.
Se bem que o "Rob Roy" ainda estivesse meia milha afastado
do cais, a seu bordo sentiu-se um choque imprevisto e
violento. A quilha do barco tinha encalhado no fundo, sendo
inúteis todos os esforços para o arrancar dali.
É que o lago Katrine acabava de se esgotar quase
subitamente, como se por debaixo do seu leito se tivesse
produzido uma imensa abertura.


194

Poucos segundos depois o lago estava completamente seco.
Parecia uma praia na vazante, por ocasião das grandes marés
equinociais. As suas águas tinham-se escoado todas através das
entranhas da terra!
- Ah!, meus amigos! Deus proteja a Nova Aberfoyle! -
exclamou Jaime Starr, como se tivesse adivinhado a causa
daquele fenómeno.


CAPÍTULO XIX


UMA DERRADEIRA AMEAÇA


No mesmo dia em que jaime Starr fazia votos pela
conservação da Nova Aberfoyle, corriam os trabaLhos dentro
daquela mina com a máxima regularidade.
Ao longe ouviam-se as explosões da dinamite, fazendo estalar
o filão carbonífero. Aqui eram os golpes das picaretas e das
barrenas, desagregando da massa os grossos pedaços do carvão;
acolá a bulha estrepitosa das máquinas perfuradoras, cujos
aríetes rasgavam as rochas de xisto ou de grés, com a
regularidade de um pêndulo. Havia pelas galerias e travessas
prolongados ruídos cavernosos.
O ar, que as máquinas aspiravam, expandia-se pelos poços de
arejamento. Nos túneis inferiores corriam, movidos
mecanicamente com uma velocidade de quinze milhas por hora, os
comboios de vagonetas, cujas campainhas automáticas avisavam
os trabalhadores para se afastarem na sua passagem. As gaiolas
dos mineiros e as caixas transportando a hulha subiam e
desciam sem descanso, impelidas pelos enormes elevadores,
colocados à superfície do solo. Os discos eléctricos enchiam
de luz intensa as diferentes ramificações de Coal-City.
A exploração seguia pois com pasmosa actividade. O
combustível, extraído do jazigo, passava todo para as centenas
de vagonetas, que depois o despejavam no fundo dos poços de
extracção donde era iÇado posteriormente.


196

Enquanto uma parte dos mineiros descansava dos trabalhos
nocturnos, sucediam-se-lhe os turnos diurnos para se não
perder um momento.
Madge e Simão Ford, depois de findo o jantar, tinham vindo
sentar-se ao portal da casa. Era a hora da sesta do velho
overman, hora que ele costumava passar, fumando do seu
cachimbo, cheio até acima de magnífico tabaco francês. Quando
o marido se dirigia à mulher, ou esta àquele, era sempre com
relação a Nell, ao filho, a Jaime Starr e ao passeio recente
que todos tinham empreendido à superfície da terra.
- Onde estarão eles agora? O que andarão a fazer? Como é que
podem demorar-se tanto tempo lá por fora, sem terem saudades
da hulheira? - perguntou Simão Ford com visível impaciência.
De repente sentiu-se um choque enorme e violento, que veio
interromper a conversação dos dois esposos. Dir-se-ia que
acabava de penetrar dentro da hulheira uma espantosa e
desmedida catarata.
Simão Ford e Madge levantaram-se de um salto.
Ao mesmo tempo viram-se crescer desordenadamente as águas do
lago Malcolm. Uma vaga alterosa, encapelando-se com medonho
macaréu, veio quebrar-se, espumante e redemoinhando, de
encontro à casa de Simão Ford.
Este, agarrando em Madge, subiu com ela precipitadamente
para o pavimento superior.
Logo depois, rompiam de todos os lados, com atroadora
repercussão, os gritos aflitivos de numerosas famílias.
Os habitantes de Coal-City corriam lívidos e desvairados,
procurando até refúgio sobre as altas rochas de xisto que
formavam o litoral do lago.
O terror chegara ao seu maior auge. Os mineiros fugiam
espavoridos em direcção ao túnel, a fim de alcançarem os
andares superiores da mina. Receava-se que o mar tivesse
irrompido dentro da hulheira, na parte em que as galerias
ficavam inferiores ao canal do Norte.


197

Mas se assim fosse, a Nova Aberfoyle teria completamente
desaparecido, arrastando na sua submersão todos os moradores
do Coal-City.
No momento em que os primeiros fugitivos chegavam à entrada
do túnel, encontraram-se aí frente a frente com Simão Ford que
já deixara Madge em lugar seguro.
- Parem! Parem, rapazes! - bradou o velho overman. - Se a
nossa hulheira tivesse de submergir-se, a inundação correria
mais depressa que vocês, e ninguém poderia escapar-lhe. As
águas, porém, deixaram de crescer. O perigo afasta-se de nós.
- E os companheiros que trabalham nas galerias inferiores? -
exclamou um dos operários.
- Nada há que recear por eles - respondeu Simão Ford. - A
exploração está-se a fazer num andar superior ao lago Malcolm!
Os factos deviam dar razão ao velho overman. A imprevista
queda das águas distribuíra-se unicamente pelo andar inferior
da vasta hulheira, produzindo apenas um aumento de alguns pés
no nível do lago Malcolm. Coal-City não corria, pois, nenhum
risco, e era até de supor que a inundação não tivesse feito
vítimas.
Quanto, porém, à origem desta inundação, nem o velho overman
nem os seus companheiros estavam no caso de poderem
explicá-la. Seria ela a consequência de se haver extravasado,
por entre as fendas da massa, alguma oculta nascente? Ou
ter-se-ia afundado sobre a terra o leito de algum rio ou lago,
precipitando impetuosamente as suas águas até os últimos
andares da mina?
A opinião mais seguida era que se devia atribuir a
catástrofe a um simples acidente.
Nessa mesma noite, porém, já se sabia o que acontecera pelos
jornais do condado, onde vinha circunstanciadamente narrado o
estranho fenómeno de que o lago Katrine fora teatro.
Nell, Harry Ford, Jaime Starr e Jack Ryan,


198

que tinham voltado para a hulheira a toda a pressa,
confirmaram a notícia, e ficaram a saber com grande satisfação
que na Nova Aberfoyle só havia a reparar alguns estragos
materiais de pouca importância.
O lago Katrine tinha abatido subitamente para o lado do sul,
fazendo as suas águas rápida irrupção dentro da hulheira por
meio de uma larga e espaçosa abertura. O lago predilecto de
Walter Scott ficara com tão pouca água que a Dama do Lago mal
poderia banhar nele os seus pequenos e delicados pés, e mais
ao norte, onde se não dera o sinistro, encontrava-se
presentemente reduzida a uma laguna de pequenas dimensões.
Com que rapidez porém se espalhou este inesperado sucesso!
Era decerto a primeira vez que se via desaparecer um lago nas
entranhas do globo. Os geógrafos do Reino Unido tinham agora
de riscar este dos seus mapas, enquanto não tornassem a
enchê-lo, por subscrição pública, depois de previamente
calafetada aquela importuna abertura. Se o célebre romancista
escocês ainda vivesse, teria morrido de pena à vista de
semelhante desgraça!
Todavia, o acontecimento nada tinha de incompreensível.
Efectivamente, o andar dos terrenos secundários, entre o leito
do lago Katrine e a Nova Aberfoyle, compunha-se unicamente de
uma camada pouco espessa, em consequência de uma disposição
geológica particular àquela parte da crosta terrestre.
Se contudo este sinistro parecia dever a sua origem a uma
causa natural, não eram dessa opinião o engenheiro Jaime Starr
e os dois Ford, pai e filho, que o atribuíram a uma
premeditada malvadez. As primitivas desconfianças volveram de
novo, e com mais força, ao espírito deles todos. Quereria o
mesmo ser invisível de há três anos recomeçar as suas
misteriosas vinganças contra os exploradores da riquíssima
hulheira?
Alguns dias depois, Jaime Starr conversava a esse respeito
com Simão Ford e seu filho.


199

- Na minha opinião - dizia o engenheiro -, ainda que o facto
se possa explicar naturalmente, quer-me parecer que ele se
liga com todos os outros, cuja origem temos debalde procurado.
- Também penso da mesma forma - redarguiu Simão Ford. - Mas
se me dá licença, senhor Jaime, acho que o melhor é não dizer
nada sobre o caso, e fazermos nós mesmos as buscas
indispensáveis.
- Pois sim! - tornou o engenheiro. - O resultado dessas
buscas já eu o conheço antecipadamente.
- E qual será ele?
- Encontrarmos as provas do crime, sem nunca podermos
apanhar o criminoso.
- E, contudo, ele existe - exclamou Simão Ford. - Mas onde
se esconde ele? Eu creio até que há mais de um malfeitor. Um
homem só, por mais perverso que seja, podia lá pôr em prática
uma ideia tão infernal como a de querer inundar a nossa
hulheira? Quase que me vejo obrigado a acreditar, como Jack
Ryan, que algum génio mau nos anda a perseguir, em castigo de
lhe termos devassado os misteriosos domínios.
Diga-se ainda que estas conversações se passavam quase
sempre na ausência de Nell.
Por seu lado, Nell fazia também quanto estava ao seu alcance
para nunca assistir a elas.
A pobre menina, sempre triste e reservada, dava bem a
conhecer os constantes receios e temores que a traziam
inquieta.
Dir-se-ia que, em luta consigo mesma, esperava a todos os
momentos ver surgir sobre a sua nova família alguma desgraça
tremenda.
Entretanto o engenheiro Jaime Starr, Simão Ford e seu filho
tinham assentado ir pessoalmente examinar o local do sinistro,
procurando colher sobre ele o maior número de informações.
Deste projecto, porém, guardou-se absoluto segredo. A quem não
soubesse as razões que lhe serviam de base, a opinião de Jaime
Starr e dos seus amigos deveria parecer completamente
inadmissível.


200

Alguns dias depois meteram-se todos três nùma pequena canoa
governada por Harry, e foram observar os pilares naturais que
sustinham a parte da massa por cima da qual ficava o leito do
lago Katrine.
Deu-lhes razão o exame que fizeram. Os pilares haviam sido
atacados nalguns pontos por meio de mina. Ainda se viam os
vestígios da explosão, porque as águas tinham baixado em
consequência de infiltraÇões, deixando a descoberto a base
desses pilares.
Este desabamento de uma porção das abóbadas da hulheira fora
manifestamente concebido e levado a efeito por mão de homem.
- Está mais que provada a premeditação! - exclamou Jaime
Starr. - O que seria feito da Nova Aberfoyle se, em vez de um
pequeno lago, tivesse por cima de si um grande mar!
- Assim é! - respondeu com orgulho o velho overman. - Para
inundar as nossas hulheiras, só as águas de um grande mar!
Mas, pergunto eu de novo, que interesse pode ter esse ente
invisível em destruir a nossa exploração?
- Eu sei lá! - replicou Jaime Starr. - O certo é que se não
trata de um bando qualquer de malfeitores vulgares, a quem a
mina servisse de valhacouto para melhor poderem atacar e
roubar os habitantes do condado. Se assim fosse, tê-los-iam
denunciado, há muito, os seus roubos e ataques. Também se não
trata de contrabandistas ou falsos moedeiros que, ocultando a
sua criminosa indústria nalgum recanto destas imensas
cavernas, tivessem todo o empenho em nos afastar para longe. O
dinheiro falso e o contrabando não se fazem para se guardarem.
E contudo é manifesto que um inimigo implacável jurou a perda
da Nova Aberfoyle, procurando por todos os meios saciar contra
nós o seu ódio inexplicável. Fraco decerto para lutar de
rosto, é na treva que prepara as suas ciladas. A inteligência
e acerto porém que desenvolve em tudo, fazem dele um inimigo
perigoso.


201

Conhece melhor que nós todos os segredos destes subterrâneos,
visto que tem escapado até aqui às mais rigorosas
investigações. É com certeza um mineiro, e até dos mais hábeis
entre os hábeis, disso não deve restar-nos dúvida.
O que lhe temos visto pôr em acção há três anos, prova que
me não engano a seu respeito. Ora vamos, Simão:
lembras-te porventura de teres tido algum inimigo pessoal, a
quem se possam atribuir estes casos? Procura bem. Há
monomanias de ódio, que o tempo não consegue dissipar. Desde
até os teus primeiros anos de rapaz. O que se está a passar
parece ter por base uma loucura fria e paciente, que reclama
um escrupuloso exame sobre todos os actos da tua vida.
Simão Ford não respondeu logo. Via-se que o honrado overman,
antes de se explicar, interrogava mentalmente o seu passado
sem mancha.
Depois, levantando a cabeça:
- Não! - disse ele com dignidade. - Perante Deus posso jurar
que nunca fiz mal a ninguém. Não julgo que exista contra mim
ou contra os meus um inimigo só que seja!
- Ah!... - observou Jaime Starr. - Se Nell se decidisse a
falar...
- Senhor Starr - acudiu Harry -, peço-Lhe que guardemos por
enquanto só para nós o resultado desta descoberta. Não
interrogue a pobre Nell, que já anda assustada e aflita. É
ponto assente para mim que ela oculta no coração algum segredo
que a oprime. Se não fala, é porque entende que não lhe é
lícito fazê-lo. Da sua amizade por nós todos - por nós todos,
sem excepção - ninguém pode duvidar. Esperemos portanto que
Nell se abra comigo, e eu lhes prometo dizer depois o que se
passar a tal respeito.
- Está combinado, Harry - observou o engenheiro.
- E, contudo, se Nell sabe alguma coisa, não compreendo de
forma alguma o seu silêncio.


202

E, como Harry manifestasse desejos de responder:
- Descansa - acrescentou Jaime Starr. - Fica certo que não
diremos nada à que está para ser tua mulher.
- E que sê-lo-ia desde já, se meu pai o consentisse.
- Consinto, meu rapaz, consinto - disse Simão Ford. - O teu
casamento há-de fazer-se de hoje a um mês contado dia por dia.
O senhor Jaime será o padrinho, não é verdade?
- Da melhor vontade, Simão - respondeu o engenheiro.
Jaime Starr e os seus dois amigos voltaram a CoalCity,
guardando só para si o resultado das suas pesquisas.
O desabamento das abóbadas ficou sendo para todos que viviam
na hulheira apenas a consequência de uma circunstância casual.
Só o que havia a lastimar, pelo lado pitoresco, era a perda
completa de um dos lagos da Escócia.
Nell voltara com o tempo às suas ocupações habituais.
Daquele passeio à superfície do condado restavam-Lhe agora
indeléveis recordações, que o filho de Simão Ford ia
aproveitando para continuar a instruí-la. A sua estada no
exterior não lhe fizera perder o amor a estas sombrias
cavernas, onde passara toda a infância, e onde queria, depois
de esposa, continuar a residir.
Entretanto, o próximo casamento de Nell com Harry Ford tinha
causado grande sensação entre os moradores de Coal-City. À
residência do velho overman afluíam as felicitações. Jack Ryan
não foi dos últimos a apresentar as suas. O bom do rapaz
andava sempre só aplicado a recordar os seus melhores trechos
musicais para repeti-los na festa do noivado - festa a que não
podia deixar de ser convidada toda a população da Nova
Aberfoyle.
Dir-se-ia contudo que a aproximação daquele momento servia
de estímulo fatal para se darem dentro da hulheira novas e
mais terríveis catástrofes.


203

Era nos trabaLhos das galerias inferiores que se sucediam as
desgraças sem que se pudesse atinar com a sua verdadeira
causa.
Aconteceu, por exemplo, que uma vez todo o madeiramento de
uma galeria foi destruído pelo fogo, chegando a encontrar-se a
lanterna empregada nessa ocasião.
Harry e os seus companheiros tiveram de arriscar a vida para
apagar aquelas chamas que ameaçavam destruir o jazigo todo, e
só o conseguiram recorrendo aos extintores cheios de água
saturada de ácido carbónico - de que a hulheira estava
prudentemente abastecida.
De outra vez foi um desabamento devido à separação das vigas
que escoravam um dos poços, e Jaime Starr pôde verificar que
se tinham previamente serrado essas vigas. Harry, que dirigia
us trabalhos neste ponto, ficou debaixo das tábuas e do
entulho, parecendo que só por milagre escapara à morte daquela
vez.
Dias depois o comboio de vagonetas, em que ia Harry,
descarrilou de súbito e virou-se completamente. Foi-se a ver o
que era: encontrou-se atravessado na via um grandíssimo
barrote.
Numa palavra, repetiam-se tão amiüde e em tais proporções
estes e outros sinistros, que entre os mineiros já começava a
lavrar uma espécie de terror pânico. Por fim só iam para o
trabalho levados pelos seus chefes.
- Mas com a fortuna! - exclamou Simão Ford. - Temos aqui um
bando de malfeitores, e nós não havemos de agarrar ao menos
um!
Decidiu-se que se tentassem novas e severas indagações. A
polícia do condado foi prevenida para vigiar a hulheira de
noite e dia, mas tornaram a ser inúteis, como sempre, todos os
esforços empregados. Jaime Starr ponderou a Harry, a quem
pareciam dirigir-se mais pronunciadamente as provocações, que
nunca mais se adiantasse para além do centro dos trabalhos sem
ir acompanhado.
Tomaram-se iguais precauções a respeito de Nell, à qual,


204

por pedido de Harry, se ocultavam todas estas criminosas
tentativas, para lhe não avivarem no espírito alguma triste
recordação do seu passado. Madge e Simão Ford vigiavam-na com
uma espécie de severidade, ou, para melhor dizer, de feroz
solicitude. Não passavam desapercebidas à pobre menina estas
sucessivas precauções. Da sua boca, porém, nunca saía um
queixume.
Perceberia ela que tudo isto se fazia para seu bem? Talvez.
Verdade é que do seu lado também não era menor o interesse que
tinha pelos outros. A sua felicidade só era completa quando
via reunidos em casa todos aqueles que estimava. Ao voltar à
noite o seu noivo, Nell não podia reprimir um movimento de
louca alegria, pouco em relação com a sua índole, mais
reservada que expansiva. Aproximava-se no dia seguinte a hora
de ele voltar para o trabalho, era Nell a primeira a
levantar-se. E a sua inquietação recomeçava desde que o via
ausentar-se com seu pai em direcção às galerias inferiores.
Harry desejaria que se antecipasse o dia do casamento para
sossegar a pobre Nell. Parecia-lhe que só desta maneira
cessaria a perseguição de que ele e os seus estavam a ser
vítimas. E diga-se que esta mesma reflexão faziam também Jaime
Starr e Simão Ford. Cada um por seu lado, incluindo Madge, ia
contando com impaciência os dias que ainda faltavam.
A verdade é que todos andavam sob a impressão de terríveis
pressentimentos. Já se dizia baixinho que a existência de Nell
não podia deixar de se prender com aquele inimigo misterioso,
que ninguém via, e que a todos os momentos afirmava o seu
poder destruidor. Temia-se que o acto solene da união de Nell
com Harry desse lugar a alguma nova manifestação do seu ódio
entranhado.
Uma semana antes do dia marcado para o casamento, impelida
talvez por alguma sinistra preocupação, Nell chegou a sair do
seu quarto sem que ninguém desse por tal.


205

Ao abrir a porta que dava para o lago Malcolm, soltou-se-lhe
dos lábios um grito de tremenda angústia.
Este grito, que ecoou em toda a casa, atraiu logo junto dela
toda a família.
Nell ficara pálida, imóvel, e com as feições completamente
transtornadas. Sem poder proferir uma palavra, o seu olhar
estava cravado na parte exterior da porta. Transida de terror,
a sua mão trémula e febril apontava para estas linhas que
tinham sido traçadas durante a noite:
"Tu, Simão Ford, roubaste-me o último filão das nossas
velhas hulheiras! Harry, teu filho, roubou-me Nell! Maldição
sobre todos vós! Maldição sobre a Nova Aberfoyle, que tem os
seus dias contados!

SILFAX."


- Silfax! - exclamaram ao mesmo tempo Madge e Simão Ford.
- Quem é este homem? - perguntava Harry, olhando
alternativamente para seus pais e para sua noiva.
- Silfax! Silfax! - repetia Nell num paroxismo de dor.
E o seu corpo tremia convulsivamente, enquanto Madge
diligenciava conduzi-la quase à força para dentro de casa.
Jaime Starr acudiu entretanto para saber o que se passava.
Ao ler com atenção a terrível ameaça escrita na porta,
voltou-se para o velho overman exclamando:
- A mão que traçou estas linhas foi a mesma que me dirigiu a
carta anónima. Sabes agora quem é este homem, Simão Ford?



CAPÍTULO XX



O PENITENTE


O nome de Silfax fora como que uma revelação para o velho
overman.
Silfax chamava-se com efeito o último "penitente" das
hulheiras de Aberfoyle.
Antes de adoptada a lâmpada de Davy,, Simão Ford conhecera
aquele homem rude e intratável, que tinha por ofício provocar
dentro das galerias as explosões parciais do grisu, expondo
para esse fim a vida com incrível temeridade. Esse ente
singular andava sempre acompanhado de um enorme harfang(1) -
espécie de estrige monstruosa, que o auxiliava no seu
arriscado mister, levando nas garras uma torcida inflamada aos
pontos mais altos, onde ele não chegava com as mãos.
Um dia desapareceu de todo esse homem, desaparecendo também
com ele uma pequena órfã, sua neta, nascida dentro da
hulheira. Era evidente que essa crianÇa não podia ser outra
senão a noiva de Harry. Havia portanto já quinze anos que
aqueles dois entes viviam ignorados no fundo de alguma caverna


*1. Harfang - estrige ou coruja de grandes dimensões, que
vive nas regiões árcticas, e se dedica especialmente à caça
das lebres. O nome deriva de duas palavras anglo-saxónias:
hare, lebre, e fangan apanhar. Conservou-se-Lhe a designação
que tem em inglês e francês por não haver na nossa lingua
palavra para designar semelhantes aves. (N. do T.)


208


quando o filho de Simão Ford salvou da morte a pobre Nell.
Foi, dominado por um duplo sentimento de cólera e de
compaixão, que o velho overman contou a Harry e a Jaime Starr
estes factos, cuja lembrança o nome de Silfax lhe tinha
avivado.
Definia-se finalmente a situação. Era Silfax o ente
invisível, que debalde se procurara até ali nas profundezas da
Nova Aberfoyle.
- Com que então conheceste bem esse homem? - perguntou Jaime
Starr.
- Conheci - respondeu Simão Ford. - Chamavam-lhe o homem do
harfang. Já não era novo. Devia ter mais quinze a vinte anos
do que eu. Dotado de um temperamento irascível e sombrio,
quase que não falava com os companheiros. Era arrojado a ponto
de não ter medo da água nem do fogo. Fizera-se penitente por
gosto. Esta perigosa profissão, de que todos fugiam,
desarranjara-lhe a cabeça. Diziam que era mau, quando talvez
não fosse senão doido. Era de uma força prodigiosa. Conhecia
as hulheiras como ninguém, pelo menos tanto como eu.
Afirmava-se que tinha bem com que passar. Por minha fé, que o
julgava já morto há muitos anos.
- Mas - tornou Jaime Starr - que pretenderá ele dizer com
estas palavras: "Roubaste-me o último filão das nossas velhas
hulheiras?"
- Agora! Agora! - redarguiu Simão Ford. - Em consequência,
como já disse, do seu desarranjo mental, Silfax havia muito
tempo que se julgava com direitos à posse da antiga Aberfoyle.
Quanto mais as galerias se esgotavam, as suas galerias, mais
ele se tornava rancoroso e feroz. Dir-se-ia que os golpes das
picaretas lhe arrancavam as próprias entranhas. Tu deves
lembrar-te dele, Madge.
- Lembro, lembro - respondeu a mãe de Harry.
- O nome de Silfax - acrescentou Simão Ford - é o que me
trouxe à memória estas coisas.


209

Torno, porém, a dizer que julgava morto há muitos anos o velho
penitente, que nunca me podia passar pela cabeça que fosse ele
o autor de tantas desgraças.
- Efectivamente - disse Jaime Starr - tudo agora se explica
sem dificuldade. Houve um acaso que revelou a Silfax a
existência do novo jazigo. No seu egoísmo de doido, quis
guardá-lo só para si, empregando para isso os meios de que
podia dispor. Vivendo dentro da hulheira, e percorrendo-a dia
e noite, foi-lhe fácil saber que tu, Simão, estavas para me
escrever. Daí a carta anónima que me enviou, a fim de
neutralizar a tua, e toda a série de vinganças por ele
projectadas desde a pedra que nos arremessou nas galerias da
velha mina até fechar-nos dentro da Nova Aberfoyle-donde
saímos, já não posso duvidá-lo, graças à generosa
interferência da boa e querida Nell.
- Diz muito bem, senhor Jaime Starr - tornou Simão Ford. -
As coisas não podiam passar-se de outra maneira. O velho
penitente cada vez está mais doido!
- Antes doido do que mau! - exclamou Madge.
- Não sei, Madge - disse Jaime Starr, abanando a cabeça. - A
doidice desse homem deve ser terrível. Ah! compreendo agora
porque Nell tremia toda ao lembrar-se do seu nome. A pobre
criança não se atrevia a denunciar seu avô! E que triste
existência deve ela ter tido na companhia daquele homem!
- É verdade! - acrescentou Simão Ford. - Ver-se obrigada a
viver com um doido e um pássaro, tão arisco e bravo como o
dono! Porque para mim é ponto de fé que aquele maldito harfang
ainda não morreu. Foi ele decerto que nos apagou a lanterna
dentro da hulheira, e que tentou partir a corda a Harry
naquela arriscada ascensão do fundo do poço.
- E é de crer - disse Madge - que esse homem esteja
duplicadamente furioso depois de saber que a sua neta vai
casar com o nosso filho.


210

- Isso decerto! - replicou Simão Ford. - O casamento de Nell
com o filho do mineiro que ele acusa de lhe ter roubado o
último jazigo carbonífero devia, por força, torná-lo
inconciliável.
- E, contudo, é preciso que ele se resigne a este enlace! -
exclamou Harry. - Por maior que seja o seu horror pelos nossos
hábitos de vida, sempre há-de vir a concordar que a nova
existência de Nell é muito preferível à antiga. Estou certo,
senhor Starr, que se chegarmos a lançar-lhe a mão, acabaremos
por convencê-lo desta verdade.
- Não se discute com a demência, meu pobre Harry - tornou o
engenheiro. - Entretanto, bom é saber quem temos por inimigo.
Devemos continuar a precaver-nos, e para isso convém que tu
interrogues Nell. Assim é preciso. Ela não pode ignorar que a
continuação do seu silêncio seria uma inqualificável
imprudência. Em proveito de seu próprio avô, urge que a tua
noiva se explique. Importa, não só para nós como para o velho
Silfax, que possamos destruir completamente os seus projectos
sinistros.
- Eu creio, senhor Starr - disse Harry -, que Nell não
deixará de vir voluntariamente explicar-se. Como vimos, era
por consciência e dever que ela se conservava calada. Será por
consciência e dever que ela agora há-de falar. Minha mãe teve
razão em levá-la para o seu quarto. Nell precisava de juntar
as suas ideias, e eu vou já pedir-lhe...
- É inútil, Harry - atalhou Nell com voz pausada e firme,
entrando para a sala onde todos estavam reunidos.
Nell vinha extremamente pálida.
Os olhos ainda húmidos denunciavam as lágrimas que tinham
chorado. Mas a postura cheia de dignidade mostrava a resolução
que a sua lealdade Lhe acabava de aconselhar.
- Nell! - exclamou Harry, correndo para ela.
- Harry! - disse Nell, fazendo parar com um gesto o seu
noivo. - É preciso que tu e teus pais saibam hoje toda a
verdade.


211

É preciso que também o senhor Jaime Starr não fique ignorando
as diferentes circunstâncias que se prendem com a pobre
criança tão benignamente acolhida nesta casa, e que melhor
fora nunca ter saído do abismo onde ela ia morrer!
- Que dizes, Nell?! - balbuciou Harry.
- Deixa-a falar - disse Jaime Starr, impondo silêncio a
Harry.
- Sou neta do velho Silfax - prosseguiu Nell. - Mãe não
tive outra na minha vida senão a que vim encontrar aqui. - E,
dizendo isto, lançava um olhar de gratidão para o lado onde
estava Madge.
- Louvado seja o dia em que me foi dado poder-te chamar
filha! - respondeu a boa escocesa.
- Não conheci outro pai que não fosse o senhor Simão Ford, e
só soube o que era a amizade quando pela primeira vez as mãos
de Harry se enlaçaram com as minhas. Durante quinze anos vivi
só com meu avô, não digo bem, eu nem com ele vivia, porque
raras eram as vezes que chegava a poder vê-lo. Quando meu avô
saiu da antiga Aberfoyle, foi para estas profundezas que veio
refugiar-se. A esse tempo ainda ele era bom para mim, apesar
dos seus modos secos e desabridos. Vivíamos do que ele ia
buscar ao exterior; lembro-me ainda vagamente de ter sido
amamentada na infância por uma cabra. O pobre animal porém
morreu, e eu senti com isso tamanha dor, que meu avô, para me
distrair, trouxe-me um cão. O cão infelizmente era alegre e
buliçoso, ladrava muito, e meu avô detestava tanto a alegria
como a bulha. Tendo-me educado a estar sempre calada, não
conseguiu do cão a mesma coisa. Por isso veio um dia em que
nunca mais tornei a ouvir aquele inocente companheiro dos meus
pesares. O avô tinha grande estimação por um pássaro que eu
não podia encarar sem ficar transida de medo. Todavia, este
pássaro, apesar do tédio que me inspirava, mostrou-se tão meu
amigo que eu tive de acabar por ser também amiga dele. O
harfang já por último obedecia mais à minha voz que à do avô,


212

e isto inquietava-me bastante, pois sabia que o avô era
invejoso. Eu e o harfang ocultávamos quanto podíamos a nossa
recíproca afeição. Tínhamos como que um pressentimento de que
assim era preciso. Mas para que hei-de estar eu a cansá-los
com a história do meu passado? Falemos do presente.
- Não, não minha filha - ponderou Jaime Starr. - Conta as
coisas à maneira que elas te forem lembrando.
- Meu avô - continuou Nell - nunca viu com bons olhos a
vizinhança da família Ford dentro da hulheira. O espaço,
contudo, abundava ali para todos. Era sempre longe, muitn
longe, da travessa Dochart que ele procurava residir.
Incomodava-o a ideia de ter alguém junto de si. Quando eu lhe
dirigia alguma pergunta sobre o exterior e seus habitantes,
fazia-se carrancudo, e ficava sem responder por muito tempo.
Mas quando a sua desesperação não conheceu limites foi no dia
em que soube que Simão Ford e seu filho, não se contentando
com os terrenos da antiga hulheira, procuravam devassar novos
domínios. Cego de raiva, jurou então que havia de
desembaraçar-se de todos aqueles que porventura se quisessem
apropriar da Nova Aberfoyle. Apesar dos anos, é dotado de uma
força prodigiosa, e eu cheguei a tremer pelas consequências do
seu ódio.
- Continua, minha filha - disse Simão Ford a Nell, que tinha
parado um instante como para reunir melhor as suas ideias.
- Logo depois das primeiras tentativas - prosseguiu Nell -,
logo depois que todos aqui presentes conseguiram entrar nas
extensas galerias da nova mina, meu avô apressou-se a
fechar-lhes a retirada, condenando-os a uma lenta e fatal
agonia. Eu mal conhecia os moradores da antiga Aberfoyle, que
uma ou outra vez apenas entrevira de longe na obscuridade. Mas
não me pude conformar que entes cristãos fossem para ali
morrer de fome, e, com risco de ser surpreendida, cheguei a
levar-lhes durante alguns dias uns pedaços de pão e uma pouca
de água.


213

Quisera tê-los retirado daquela prisão; mas era tão difícil
enganar a vigilância do avô!... Nisto apareceu Jack Ryan
seguido de outros homens. Era Deus que os enviava! A
Providência permitiu que os encontrasse no meu caminho.
Servi-Lhes de guia até ao ponto onde jaziam os encarcerados. À
volta fui apanhada por meu avô. Não se descreve a sua cólera
contra mim! Julguei que ia morrer nas suas mãos. Desde essa
época tornou-se-me a vida insuportável. A razão do meu avô
perdeu-se completamente. Dizia-se o rei das sombras e do fogo!
Quando ele ouvia os mineiros a rasgar com as picaretas os
filões que tinha por seus, tornava-se medonhamente furioso, e
batia-me então com entranhado rancor. Quis fugir-lhe. Não
pude, porque estava sempre vigiada por ele. Finalmente, há-de
haver três meses, num acesso de horrível loucura, lançou-me no
abismo onde Harry me encontrou. Depois desapareceu, chamando
inutilmente pelo harfang, que, mais compadecido, ficou junto
de mim sem querer abandonar-me. Que tempo estive eu ali?
Ignoro. O que sei apenas é que sentia aproximar-se a minha
última hora, quando me apareceste, meu Harry. Mas tu bem
vês... a neta do velho Silfax não pode ser a companheira de
Harry Ford. Opõe-se a isso o ódio de meu avô - ódio terrível e
fatal que não recuaria mesmo diante de um crime.
- Nell! - disse Harry.
- Não prossigas - retorquiu Nell. - Sinto-me forte para o
sacrifício. Há só um meio de conjurar o mal: voltar de novo
para junto de meu avô. Ele ameaça destruir a Nova Aberfoyle. É
um homem incapaz de se condoer, e ninguém pode calcular o que
a sua vingança lhe terá sugerido. O meu dever está, bem
traçado. Seria a mais desprezível das criaturas, se hesitasse
um momento em cumpri-lo. Devo, pois, separar-me destes sítios
para mim tão caros. Principiei a conhecer aqui a felicidade.
Suceda o que suceder, o meu coração estará sempre convosco,
sempre! Agora, adeus:.. ;adeus, meus bons amigos.


214

A estas palavras todos se levantaram espantados. Harry
estava louco de dor.
- Que dizes, Nell - exclamaram angustiadamente Madge e Simão
Ford.
Jaime Starr, afastando todos com um gesto cheio de
autoridade, aproximou-se de Nell, e tomou-lhe ambas as mãos.
- Muito bem, minha filha - disse ele. - Falaste como devias
falar. Agora, porém, ouve a nossa resposta. Sabes que não te
deixaremos sair, e, se tanto for preciso, guardar-te-emos à
vista. Julgavas-nos capazes de cometer uma cobardia, aceitando
o sacrifício da tua felicidade? Nunca! São para temer as
ameaças do velho Silfax? Embora. No fim de tudo, ele só é um
homem, e nós saberemos tomar as nossas precauções. Contudo,
talvez tu possas dizer-nos onde ele se oculta. Nós só temos em
mira um desejo: tolher a teu avô os meios de ser perigoso, e
procurar restituir-lhe a razão, se tanto for possível.
- O senhor Jaime Starr engana-se - respondeu Nell. - Meu avô
está por toda a parte, sem estar em nenhuma. Nunca pude saber
onde eram os seus esconderijos. Nunca o vi uma só vez
adormecido. Quando me decidi a deixá-los, já imaginava o que o
senhor Jaime Starr iria dizer-me para modificar a minha
resolução. Mas creiam no que lhes digo! Há só um meio de
desarmar meu avô: é de novo procurá-lo. Se bem que
aparentemente invisível, sabe tudo o que se passa em torno
dele. A prova está no modo por que descobriu os projectos da
nova exploração. Se meu avô não andasse por toda a parte, como
poderia ele ter adivinhado o meu casamento com Harry? Pelo que
eu própria observava, meu avô, apesar de louco, era de uma
grande lucidez nas suas ideias. Em pequena dizia-me coisas
admiráveis. Foi ele que me ensinou a crer em Deus, e só num
ponto me Iludiu: foi quando me quís convencer que eram falsos
todos os homens, procurando assim inspirar-me contra a
humanidade o imenso ódio de que estava possuído.


215

- Quando Harry me arrancou do fundo daquele abismo,
trazendo-me para aqui, todos julgaram que eu só era ignorante.
Enganavam-se. Eu não era só ignorante; era também desconfiada!
Perdoem essa fraqueza. Durante os primeiros dias, julguei-me
em poder dos maus, e desejei fugir-lhes. O que me fez voltar a
mim foi o espectáculo que me deu a mãe de Harry, mais pelos
seus actos que pelas suas palavras: foi a veneração de que ela
era objecto por parte da sua família e dos seus amigos.
Depois, quando vi esses operários de rosto alegre e levantado
em presença do senhor Starr, de quem os supunha simples
escravos; quando vi pela primeira vez toda a população de
Coal-City ajoelhar-se em oração na capela de São Gilles,
agradecendo a Deus os seus infinitos benefícios; então disse
comigo: Meu avô enganou-me! Hoje, porém, que já sei apreciar
melhor as coisas, graças ao carinho e amor com que fui
instruída, creio que também ele se enganava nas suas
apreciações injustas. Vou pois lançar-me através desses
misteriosos caminhos por onde o acompanhei tantas vezes. Meu
avô deve pressentir-me. Chamá-lo-ei. Há-de ouvir a minha
voz... e quem sabe? talvez que, vendo-me de novo a seu lado,
Deus nos faça o milagre de lhe restituir a razão.
Ninguém se atrevera a interromper Nell. Todos a tinham
deixado expor livremente as suas impressões, agora que ela,
movida por um impulso generoso, supunha ir afastar-se para
sempre da companhia dos seus amigos.
Mas quando Nell, com a voz embargada pela comoção e os olhos
anuviados de lágrimas, se calou de todo, Harry, voltando-se
para Madge, exclamou:
- Que ideia formaria minha mãe do homem que, depois destas
palavras, se lembrasse de abandonar a sua noiva?
- Para mim, esse homem - respondeu Madge - não passaria de
um cobarde, e, se fosse meu filho, renegá-lo-ia,
amaldiçoando-o.
- Ouviste o que disse minha mãe, Nell? - replicou Harry.


216

- Já vês que onde tu fores, hei-de eu também seguir-te. Se
insistes pois em partir, teremos de partir juntos.
- Harry! Harry!. - balbuciou Nell.
A emoção, porém, fora superior às suas débeis forças. A
pobre menina empalideceu mortalmente e deixou-se cair sem
sentidos nos braços da mãe de Harry.



CAPÍTULO XXI


O DIA DO NOIVADO


DEPois desta cena comovedora, todos se afastaram, não sem
primeiramente se ter combinado que era preciso vigiar cada vez
mais a residência de Simão Ford. O velho Silfax indicara tão
claramente o seu pensamento, que seria imprudência não estar
prevenido còntra ele. Chegou-se até a recear que o antigo
penitente se lembrasse de destruir a Nova Aberfoyle por meio
de alguma terrível combinação só dele conhecida:
Para prevenir essa hipótese, puseram-se em todas as saídas
da hulheira diferentes guardas armados, que se rendiam de duas
em duas horas. Qualquer pessòa estranha à mina era logo
conduzida perante o engenheiro Jaime Starr, a fim de provar a
sua identidade. Assentou-se, como necessário, informar os
mineiros das ameaças que estavam iminentes sobre a sua pequena
cidade. Como Silfax não tinha relações em Còal-City,
entendeu-se que por este lado não havia perigo de traiÇão a
favor dele. Indicaram-se a Nell as medidas de precaução que se
tinham tomado, e, sem que a pobre menina ficasse de todo
serenada, pôde ao menos recuperar algum sossego.
Entretanto o firme propósito em que estáva Harry de seguir a
sua noiva onde quer que ela fòsse tinha influído muito para
decidir Nell a prometer que não fugiria da casa de Simão Ford.


218

Durante a semana que precedeu o casamento, nenhum incidente
veio perturbar a marcha regular dos trabalhos na Nova
Aberfoyle. Por isso também os mineiros, sem prescindirem das
medidas de segurança já adoptadas, foram gradualmente perdendo
o terror de que andavam possuídos.
Jaime Starr não afrouxou porém nas diligências empregadas
para que se procurasse por toda a parte o velho Silfax. Tendo
o antigo penitente dado a perceber que Nell não seria esposa
de Harry, devia-se esperar que ele não recuaria diante de
nenhum crime para impedir um tal casamento. O empenho portanto
do engenheiro era apoderar-se do louco sem contudo pôr em
risco a sua vida. Não se pouparam nesse sentido as mais
aturadas pesquisas dentro da hulheira. Examinaram-se com
cuidado todas as galerias até aos andares superiores que
afloravam as ruínas de Dundonald-Castle, em Irvine. Supunha-se
com fundamento que devia ser pelo velho castelo que Silfax
comunicava com o exterior e se abastecia dos poucos objectos
necessários à sua mesquinha subsistência. Quanto às "Damas de
Fogo", lembrou-se Jaime Starr que o antigo penitente poderia
muito bem ter inflamado alguma porção de grisu, acumulada
nesta parte da hulheira, produzindo assim aquele fenómeno tão
sobrenatural aos olhos de Jack Ryan. E o engenheiro não se
enganava no seu cálculo. Todavia as pesquisas por causa do
velho Silfax continuaram infelizmente sem resultado.
Quem mais sofria com esta luta de todos os momentos, embora
o não desse a perceber, era o engenheiro Jaime Starr. As suas
apreensões contra um homem completamente invisível cresciam à
proporção que se aproximava o dia do noivado. Chegou até a
parecer-lhe que devia por excepção comunicá-las ao velho
overman. Este, quando teve notícias delas, ainda ficou mais
sobressaltado que o próprio engenheiro.
O dia aprazado chegou enfim!


219

Silfax continuava a não dar sinais de vida.
A população inteira de Coal-City começou a mover-se muito
cedo. Nesse dia não se trabalhou na Nova Aberfoyle. Mestres e
operários, todos se empenharam em vir dar pessoalmente os
parabéns ao velho overman e a seu filho, a cuja perseverança e
arrojo eles deviam o bom êxito da actual exploração.
O casamento havia de efectuar-se às quinze horas na capela
de São Gilles, situada sobre as margens do lago Malcolm., À
hora indicada viram-se aparecer Simão Ford dando o braço a
Nell, e Harry dando o braço a sua mãe.
Caminhavam atrás deles o engenheiro Jaime Starr,
aparentemente impassível, porém no fundo muito preocupado, e
Jack Ryan, eufórico e muito elegante com o seu fato de dias de
festa.
Depois seguiam-se os outros engenheiros da mina, as
principais autoridades de Coal-City, os amigos e Companheiros
do velho overman, todos os membros enfim desta grande família
de mineiros, que formava a populaÇão especial da Nova
Aberfoyle.
Fora da mina dava-se um desses dias abrasadores e de
trovoada do mês de Agosto, particularmente insuportáveis nas
regiões situadas ao norte. O ar exterior penetrava até às
profundidades da hulheira, onde a temperatura se tinha elevado
de um modo anormal. A atmosfera saturava-se de electricidade
por intermédio dos poços de arejamento e do grande túnel do
caminho de ferro da mina.
Quem naquele momento consultasse o barómetro em Coal-City,
veria com espanto que ele tinha baixado consideravelmente. Era
caso para se perguntar se debaixo daquela abóbada de xisto que
formava o céu da imensa gruta não iria desencadear-se também
alguma tremenda trovoada.


220

A verdade, porém, é que dentro da hulheira ninguém se
preocupáva com as lutas atmosféricas que podiam surgir sobre a
terra.
Como era bem de supor todos se tinham preparado com os seus
fatos para assistirem à cerimónia.
Madge vestia à moda do velho tempo. Vinha penteada como as
antigas matronas e sobre os ombros caía-Lhe o rokelay, espécie
de mantilha de quadrados, que as escocesas costumam usar com
certa elegância.
Nell tinha prometido a si mesma que não havia de dar a
conhecer as inquietações do seu espírito. Impondo silêncio ao
coraÇão, e dominando as angústias que a oprimiam, a corajosa
menina mostrava a todos um rosto afável e suave.
A simplicidade do seu trajo - simplicidade que ela preferia
aos alegres adornos de uma menina - mais lhe fazia realçar a
própria formosura. Por enfeite na cabeÇa levava apenas uma
suood, feita de cores variegadas, com que se penteiam as
jóvens caledonianas:
Simão Ford vestia um fáto digno de figurar no corpo do
respectivo bailio Nichol Jarvie, de Walter Scott.
O cortejo dirigiu-se todo para a capela de São Gilles,
previamente ornamentada com muito gosto.
Nas alturas de Coal-City, os discos eléctricos, anunciados
por correntes mais intensas, resplendiam como se fossem outros
tantos sóis: A Nova Aberfoyle achava-se esplendidamente
envolvida numa atmosfera luminosa.
Os lampadários eléctricos da capela projectavam também
vívidos clarões; e os vidros coloridos do altar-mor brilhavam
como se fossem caleidoscópios.
Era o reverendo W. Hobson que devia celebrar o enlace. O
estimado sacerdote esperava pelos noivos à porta de São
Gilles.
Nisto acercoù-se a comitiva, depois de ter percorrido
festivamente as márgens do lago Malcolm.


221

Ao mesmo tempo começaram a ouvir-se as plangentes melodias
do órgão, e os noivos acompanhados de Simão Ford e Jaime Starr
dirigiram-se para o altar da capela.
O reverendo W. Hobson, depois de ter lanÇado a bênção sobre
todos os assistentes, pegou no livro santo, e chamou para
junto de si os noivos.
- Harry - perguntou o sacerdote -, quereis receber Nell por
esposa?...
- Quero - respondeu Harry com voz firme.
- E vós, Nell, quereis receber Harry por marido?
Não tinha ainda a noiva tido tempo de responder, quando de
fora da capela se ouviu romper um sinistro clamor.
Um dos enormes rochedos, que existiam à flor de água
inclinados sobre a margem do lago Malcolm, acabava de tombar
sem explosão, a cem passos da capela, como se a sua queda
fosse devida a um plano premeditado. Por baixo dele via-se
agora uma profunda escavação, que ninguém conhecia e através
da qual se precipitavam as águas com extrema violência.
Depois, entre os diversos fragmentos do rochedo desmoronado
apareceu de repent uma canoa, que um impulso vigoroso atirou
para o meio do lago.
Nessa canoa encontrava-se um velho de olhar sinistro, barbas
alvíssimas, caindo sobre o peito, roupas talares e a cabeça
coberta por um capuz.
Trazia na mão uma lâmpada de Davy, cuja chama, protegida
pela rede metálica do aparelho, brilhava fulgurantemente.
Ao mesmo tempo ouviu-se a voz cava do velho gritando:
- O grisu! O grisu!... Soou a hora da minha vingança!
E pela atmosfera da hulheira começou a espalhar-se o cheiro
próprio do hidrogénio protocarbonado. Era evidente que a queda
do rochedo tinha dado livre passagem a uma grande quantidade
de grisu, acumulado até ali em cavidades de que os xistos
obstruía o orifício.


222

Os jactos de grisu elevavam-se para as abóbadas do lago, sob
uma pressão de cinco a seis atmosferas.
Aquele velho fatal sabia da existência desses depósitos de
grisu, e soltara-os agora com o fim de produzir uma horrível
explosão.
Entretanto, Jaime Starr e alguns outros engenheiros tinham
saído precipitadamente da capela, dirigindo-se para o lago.
- Fujam da mina! Fujam da mina! - bradou Jaime Starr, que,
tendo compreendido a iminência do perigo, procurava prevenir
dele quanto antes a população de CoalCity.
- O grisu! O grisu! - repetia com riso cavernoso o velho
demente, impelindo a sua barquinha para diante.
Harry puxou para si a noiva, o pai e a mãe, e saiu
precipitadamente com eles da capela.
- Fujam da mina! Fujam da mina! - continuava a bradar Jaime
Starr.
Já era tarde para fugir! O velho Silfax lá estava prestes a
executar a sua derradeira ameaça, prestes a impedir o
casamento de Nell, enterrando toda a população de Coal-City
sob as ruínas da hulheira.
Por sobre a cabeça de Silfax esvoaçava o seu inseparável
harfang, cujas penas brancas eram mosqueadas de pintas negras.
Ao mesmo tempo lançava-se um homem ao lago, nadando
vigorosamente em direcção da canoa.
Era Jack Ryan, que procurava deitar a mão ao doido, antes de
ele poder pôr em prática o seu nefasto projecto.
Silfax, percebendo a intenção de Jack Ryan, quebrou o vidro
à lâmpada, e extraiu-lhe a torcida em chama, que principiou a
agitar no ar.
Toda aquela população aterrada guardava um silêncio de
morte. Jaime Starr, resignado, admirava-se de que a explosão
fatal e inevitável ainda se não tivesse produzido.


223

Silfax, cerrando os punhos convulsivamente, notou cheio de
raiva que o grisu demasiadamente ligeiro, se tinha todo
acumulado nas alturas da cúpula do lago.
A um gesto dele, porém, o harfang, segurando com as garras a
torcida inflamada, como dantes fazia nas hulheiras de
Aberfoyle, levantou voo em direcção ao ponto que o louco lhe
indicava com a mão.
A Nova Aberfoyle estava fatalmente condenada. A sua
destruição dependia apenas de alguns segundos.
Então, como que inspirada por uma revelação celeste, Nell
deitou a correr afoita e corajosa para junto das margens do
lago.
- Harfang! Harfang!... - bradou ela com voz enérgica e
vibrante. - Aqui já! Aqui já!
A estrige, ouvindo que a chamavam, hesitou em obedecer.
Reconhecendo, porém, a voz de Nell, deixou cair nas águas a
torcida incendiária, e, traçando um largo círculo, veio
pousar, fiel e submissa, aos pés da sua amiga de tantos anos.
As alturas da abóbada de xisto, onde o grisu se tinha já
confundido com o ar, não chegaram a ser alcançadas pelo fogo.
Do meio do lago partiu ao mesmo tempo um grito de horrível
imprecação. Foi o último que proferiu o antigo penitente.
No momento em que Jack Ryan ia quase a deitar as mãos à
canoa, o velho louco, vendo fugir-lhe a projectada vinganÇa,
precipitou-se de súbito nas águas do lago.
- Salvem-no! Salvem-no! - gritava Nell com a voz
entrecortada pela dor.
Ouviu-a Harry, que se lançou também a nado. O filho de Simão
Ford acercou-se de Jack Ryan, e, juntamente com ele, mergulhou
repetidas vezes.
Os esforços que ambos empregaram foram, porém, infrutíferos!
As águas do lago Malcolm não quiseram restituir a sua presa.
Tinham-se fechado para sempre sobre o corpo do velho Silfax!



CAPÍTULO XXII


A LENDA DO VELHO SILFAX


SEIs meses depois destes acontecimentos, celebrava-se
definitivamente o enlace de Nell com Harry Ford.
Depois de o reverendo W. Hobson ter abençoado aquela união,
os noivos regressaram a casa, acompanhados dos seus amigos.
Jaime Starr e Simão Ford presidiram com verdadeiro prazer às
festas do casamento, que se prolongaram por dois dias.
Foi nessa memorável circunstância que Jack Ryan, depois de
ter enchido de vento a sua melhor gaita-de-foles, obteve um
triplicado triunfo, tocando, cantando e dançando entre os
gerais aplausos de um numeroso auditório.
Terminadas as festas, recomeçaram com a mesma actividade,
dentro da hulheira, os trabalhos de mina e contramina,
dirigidos pelo engenheiro Jaime Starr.
Escusado será dizer que Harry e Nell foram muito felizes na
sua nova existência. Aqueles dois corações, tão feridos pelos
reveses, encontraram no casamento as venturas de que eram
dignos. Simão Ford, pela sua parte, elevado ao cargo de
overman honorário da Nova Aberfoyle, esperava ainda viver
bastante para celebrar o quinquagésimo aniversário do seu
consórcio - louvável aspiração em que também o acompanhava a
sua virtuosa esposa.


225

- E depois desse aniversário, porque não se há-de ainda
festejar outro igual? - perguntava-lhe Jack Ryan.
- Contar duas vezes cinquenta anos de casado não deve ser lá
grande coisa para um homem tão robusto como o nosso
respeitável overman.
- Tens razão, Jack - respondia-lhe tranquilamente Simão
Ford. - que haveria de extraordinário que neste clima
agradável da Nova Aberfoyle, que neste centro onde se não
conhecem as intempéries do exterior, chegasse uma pessoa sadia
a contar de idade mais de cem anos?
Deveriam os habitantes de Coal-City presenciar ainda esta
segunda cerimónia? Só ao futuro competia decidir a questão.
Uma ave, contudo, que parecia estar destinada a viver longa
existência, era a estrige do velho Silfax. É certo que, depois
da morte do antigo penitente, Nell pretendera atraí-la junto
de si; ela, porém, fugira-lhe de casa, apenas decorridos
alguns dias.
Aquele harfang, além de nutrir contra a convivência dos
homens sentimentos de repugnância iguais aos do seu falecido
dono, mostrava por Harry uma antipatia especial. Dir-se-ia que
não lhe perdoava o ter-lhe ele arrebatado do fundo do poÇo a
companheira fiel de tantos anos de convívio.
A verdade é que desde então Nell só de longe em longe
conseguia avistá-lo, pairando melancolicamente sobre as águas
do lago Malcolm. Viria até ali, guiado pelo desejo de tornar a
ver a sua boa amiga? Ou quereria perscrutar o fundo do abismo,
onde se afundara subitamente o corpo do velho Silfax. Ambas as
versões foram admitidas.


226

O harfang acabou por se tornar legendário, inspirando a Jack
Ryan mais de uma história interessante, em que os génios e os
duendes figuravam largamente.
E é, graças à facúndia deste notável improvisador que ainda
hoje nos serões da Escócia se repete a lenda aterradora do
velho Silfax - o antigo Penitente das hulheiras de Aberfoyle.


FIM

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