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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A homossexualidade masculina

Colecção TEMAS DA ACTUALIDADE

A HOMOSSEXUALIDADE MASCULINA

Teresa Castro d'Aire

INTRODUÇÃO

Este livro pretende oferecer um breve momento de reflexão
sobre a homossexualidade masculina. Um tema sobre o qual um
grande número de leitores, mesmo os heterossexuais, sobretudo
os heterossexuais, deseja provavelmente aprofundar um pouco
mais o seu conhecimento.
Trata-se de uma questão que é de sempre, e sobre a qual muito
parece haver ainda a dizer. Principalmente porque aqueles a
quem mais directamente diz respeito, os próprios homossexuais,
ao longo dos séculos e salvo raras excepções se têm esquivado
a falar sobre a intimidade dos seus sentimentos e da sua
sexualidade.
Este silêncio dos homossexuais sobre a sua verdade foi um
fenómeno que existiu até ontem.
Neste momento as coisas mudaram. Ao contrário do que seria de
esperar, apenas um dos indivíduos contactados se recusou a
conceder a entrevista. As suas razões? O estatuto social da
família. Os outros, pelo contrário, acolheram a ideia com
satisfação e até com entusiasmo. Como se toda a vida tivessem
estado à espera de uma oportunidade de romper o secretismo da
sua intimidade e falar finalmente um pouco de si.
Tiveram aqui a palavra, disseram o que tinham a dizer.
Dois deles quiseram inclusivamente dar a cara e o nome.
São doze entrevistas que se pretenderam informais no tom mas
nem por isso menos sérias na abordagem das questões, e
sobretudo despidas de preconceitos. A intimidade é chamada
pelo nome que tem, sem falsos pudores, evitando-se no entanto
a obscenidade gratuita, tentando não cair na triste
vulgaridade comercial.
Foram entrevistados indivíduos de grupos etários que vão dos
19 aos 64 anos, com estatutos sócio-profissionais muito
diferentes, indivíduos diferentes até na cor da pele, com
opções políticas e religiosas muito diferentes. Está presente
um monárquico como está um militante do PSR. Estão católicos
praticantes como está um agnóstico convicto.
Nalguns pontos assumem no entanto posições convergentes:
Todos eles entendem que a homossexualidade é uma
característica que nalguns casos se revela logo na infância,
noutros casos só muito mais tarde se revela, mas é uma
tendência que nasce com o indivíduo.
Todos eles garantem que os homossexuais portugueses são
muitos. Ninguém sabe quantos serão ao certo, mas de acordo com
estes depoimentos são muito mais numerosos do que geralmente
se imagina.
Nenhum deles parece ter qualquer espécie de recalcamentos
contra as mulheres.
Todos eles têm códigos de valores e todos eles têm conceitos
morais da vida.
Todos eles parecem absolutamente libertos de qualquer
sentimento de culpa em relação à sua orientação sexual, todos
eles estão perfeitamente satisfeitos com a sua condição de

homens e com a sua condição de homossexuais.
Todos eles passaram por situações mais ou menos rocambolescas,
e todos eles pareceram ter algum prazer em fazer graça com a
sua condição de homossexuais.
Quem são eles? Pessoas comuns. Pessoas, apenas pessoas que
quiseram falar um pouco de si próprias. Talvez seja... esse
rapaz que vai sentado ao seu lado no autocarro.



Os meus agradecimentos à Ana Fisher Berquó, pela forma como
colaborou na realização das entrevistas e na composição final
deste livro.




Jonatas, meu irmão, amei-te mais
do que à mais amável donzela

Rei David, II Livro de Samuel, 1,26





Guilherme de Melo, 64 anos, Jornalista.

- Guilherme, o que é que lhe apetece dizer?

- Sobre a minha vida? Sabe, eu parece-me um bocado que a maior
parte daquilo que havia a dizer sobre a minha vida já foi
dito, até porque eu desde muito novo me assumi tal como sou.
Evidentemente que na infância, todas as mais recuadas
reminiscências que tenho de mim, de quando era rapazinho,
todas elas apontam para a homossexualidade. Durante muito
tempo... eu nasci em Moçambique. Antes de mais nada devo dizer
que nasci em Moçambique, e aquilo naquela altura era uma
sociedade muito fechada, Lourenço Marques era um meio em que
as pessoas, mais ainda do que aqui, estavam com os olhos em
cima umas das outras, e por conseguinte, durante a minha
infância, e durante a minha adolescência, como é natural, eu
vivi como que escondido atrás de um biombo. Só mais tarde é
que me libertei. Entretanto casei. Tinha uma amiga de infância
com quem me abri, expliquei-lhe que desde sempre sentia dentro
de mim a tendência homossexual, nunca tinha tido contactos com
mulheres, não sentia qualquer atracção física por elas, mas
enfim, como éramos muito amigos ela entendeu que uma vida a
dois, mesmo sem sexo, seria possível, e casámos. Mas não foi
possível. Fomos casados quatro anos, depois cada um foi para
seu lado. A partir desse momento é que eu assumi francamente a
minha homossexualidade, porque num meio pequeno como era
aquele, a anulação do nosso casamento deu demasiado nas vistas
e começou a constar que eu era realmente homossexual, e como
eu não gosto de andar com máscaras, assumi frontalmente a
minha homossexualidade. Tive então o meu primeiro companheiro,
tudo isto aos vinte e sete anos. Claro que foi um pequeno
escândalo, um pequeno grande escândalo, num meio como era

aquele, mas eu entendi sempre que mais vale nós vivermos de
cabeça levantada do que vivermos acobardados, porque isso faz
com que as pessoas se virem contra nós. Sabe que se você for
homossexual e se comportar como um rafeiro sarnento que mete o
rabo entre as pernas e se encolhe cheio de medo, pode ter a
certeza que todos lhe jogam pedras. Se você conseguir assumir
a postura orgulhosa de um pastor alemão, as pessoas
respeitam-no e abrem caminho para você passar. De então para
cá, dos meus vinte e sete, vinte e oito anos, para cá, passei
a viver abertamente a minha homossexualidade. Vivi-a em
Moçambique, depois vim para cá, em 74, e continuei a vivê-la
abertamente. Eu tenho a consciência de que vivemos num meio
onde é muito difícil as pessoas assumirem-se, isso a todos os
níveis. Existem muitos escritores, poetas, actores, artistas
plásticos que são notoriamente homossexuais, que as pessoas
sabem que são homossexuais, mas todos eles entram no jogo.
Fingem que não são, fingem acreditar que as pessoas com quem
privam pensam que eles não são, mas todos ao fim e ao cabo
sabem que estão a entrar num jogo. De qualquer forma
compreendo que a nossa sociedade ainda não está preparada para
aceitar abertamente que uma pessoa assuma a sua
homossexualidade. Porque ao contrário do que muita gente diz,
o 25 de Abril veio trazer uma abertura, também neste campo,
mas não tenhamos ilusões. O que há é uma tolerância da
homossexualidade, não há uma aceitação, são duas coisas muito
diferentes. A sociedade tolera-nos, vamos lá, com uma certa
displicência, com um ar um tanto paternalista, como quem diz
"pronto, vamos lá deixar-lhes um espaço para viverem". Eu
talvez seja de certo modo uma excepção, e não tenho a mínima
razão de queixa. Tenho tido uma plena aceitação em todo o
lado, nunca fui marginalizado. Em parte porque talvez as
pessoas fiquem um pouco surpreendidas com a minha atitude. Por
outro, também reconheço, eu sou muito convidado para festas
porque as pessoas acham que é de bom tom convidarem-me, sou
uma nota de classe, sou a avis rara que as pessoas gostam de
exibir numa festa, num convívio. Mostra por parte de quem
recebe, de quem convida, uma certa superioridade, uma certa
condescendência, uma certa aceitação, para se poder dizer
"também lá esteve fulano, aquele que é homossexual e que tem
ido à televisão..." dá um certo toque, vamos lá, quase
exótico. Mas a verdade é que nós continuamos a viver numa
sociedade em que a homossexualidade ainda é discriminada,
digam lá o que disserem.

- Guilherme, o que é que faz com que um rapaz se interesse por
rapazes, e não por raparigas, ou melhor, o que é realmente a
homossexualidade?

- Olhe, eu penso que não há uma resposta única para essa
pergunta, há várias respostas. Primeiro porque não há um
homossexual que seja igual a outro homossexual e por outro
lado eu penso que a homossexualidade pode ser fruto de muitas
coisas. No meu caso, eu acredito que a homossexualidade nasceu
comigo. Eu nasci homossexual como nasci com os olhos azuis,
como nasci com o cabelo louro, como podia ter nascido com os
olhos escuros, com o cabelo escuro, e heterossexual. Nasci
assim, pronto, nasceu comigo. Desde as mais recuadas
reminiscências que eu tenho de mim, houve sempre uma atracção

que eu tive por indivíduos do mesmo sexo. E não me venham com
essa história dos traumas de infância, problemas de educação,
porque isso é um bluff, é uma invenção, um completo disparate.
Nós éramos uma família perfeitamente feliz, os meus pais
aceitaram a partir de certa altura, quando souberam, aceitaram
plenamente, aceitaram a minha homossexualidade, aceitaram os
meus companheiros, mas de pequenos nós éramos quatro irmãos,
dois rapazes e duas raparigas. Fomos criados da mesmíssima
maneira, com os mesmos amigos, as minhas irmãs fizeram uma
vida "normal", o meu irmão, ao contrário de mim, foi sempre um
maluco por mulheres, não podia ver uma burra de saias, e eu,
criado com eles, sem qualquer discriminação por parte dos meus
pais, num ambiente perfeitamente harmonioso, desde miúdo senti
atracção pelos meninos que brincavam connosco, mais tarde no
liceu senti essa mesma atracção pelos outros rapazes, e no
entanto sempre convivi com mulheres, com raparigas, porque
nunca tive qualquer aversão ao convívio com raparigas.
Simplesmente elas para mim eram companheiras de brincadeira,
eram companheiras de confidências, eram o prolongamento das
minhas próprias irmãs, mas fisicamente nunca me despertaram
qualquer atracção. Agora se me disserem "Ah, a
homossexualidade é um vício". Pode ser um vício em
determinadas condições. Suponhamos, um indivíduo que nunca
teve qualquer tendência homossexual, um dia
comete um crime, é preso, está sete, oito anos numa prisão,
privado de mulheres, que são o elemento para o qual ele tem
toda a sua sexualidade dirigida. Ao fim de um certo tempo é
muito natural que ele comece a praticar a homossexualidade,
porque essa é a única forma que ele tem de resolver a sua
própria sexualidade. Ao fim desses anos ele sai cá para fora,
e entretanto pode ter descoberto um outro tipo de prazer que
não aquele a que estava habituado. E então, embora volte para
a mulher, para a companheira, é natural que ele continue a
praticar a homossexualidade, e pode considerar-se que adquiriu
um vício.

- Como outro vício qualquer?

- Sim, mas dentro de muitos indivíduos também há aquilo a que
eu chamo homossexualidade latente. Simplesmente eles nunca se
aperceberam disso. Ou apercebem-se, e então têm uma reacção
tremenda, pior do que aqueles que efectivamente nunca tiveram
tendência nenhuma. Porque os piores detractores da
homossexualidade, os mais intolerantes, são aqueles que no
fundo têm tendência, eles sabem que têm, o subconsciente
diz-lhes que eles estão a querer pôr um pé do outro lado da
fronteira, e não são capazes de se aceitar a si mesmos. De
maneira que eu defendo e sustento que a homossexualidade nasce
com o indivíduo. Agora também há aqueles que por pressões da
sociedade, da família, ganham eles próprios um horror a
admitir isso, e então eles acabam por sufocar essa tendência,
mas não se é homossexual porque se quer mas sim porque se
nasce homossexual.

- Se pudesse mudar, mudava?

- Não, não mudava. Sinto-me perfeitamente realizado, sinto-me
perfeitamente feliz, e acho que deixaria de ser eu próprio, se

de repente me tornasse heterossexual.

- Há, como sabe, rapazes já crescidotes, e homens até casados
e pais de filhos, alguns com posições importantes dentro da
sociedade, que sempre foram intimamente homossexuais, que
fizeram sempre o teatro da vida de família e nunca viveram na
prática a sua homossexualidade, se calhar nunca tiveram aquilo
que os ingleses chamam the nerve para levarem a coisa à
prática, e que viveram infelizes uma vida inteira. Houve uma
vez um que me disse que a sua vida não tinha valido a pena ser
vivida, porque a tinha vivido permanentemente amarfanhado,
contrariado, achincalhado, e outros que acabam num consultório
de psiquiatra ou de psicanalista, que também é um negócio
muitas vezes montado à custa deste tipo de situações. O que é
que me diz dessas pessoas que gostariam de ter sido aquilo que
são e nunca tiveram a coragem suficiente?

- Olhe, eu tenho um grande sentimento de solidariedade para
com essas pessoas. Eu não estou a dizer que tenho pena, nós na
vida não temos que ter pena de ninguém, mas tenho pena, isso
sim, que no fim do milénio a sociedade em que vivemos ainda
esteja estruturada de tal forma que essas pessoas tenham de
viver nessa angústia, estou-me a referir a essas pessoas que
casam, e constituem uma família, e tudo isso, sem que esse
seja realmente o seu pendor. Resultado, essas pessoas vivem
uma vida de grande sofrimento, uma vida de aflição, permanente
expostas a todo tipo de chantagens. Inconscientemente são os
piores transmissores de toda a espécie de doenças, porque...
pronto, na sua ânsia de se realizarem sexualmente, às
escondidas, não podem seleccionar, não podem arranjar um
companheiro certo, porque a companheira é a mulher, embora
eles preferissem ter um companheiro do sexo masculino. Quanto
a mim o grande segredo da vida é nós começarmos por nos
aceitar a nós próprios. É a única maneira de vivermos em paz
connosco próprios e com a vida. Essas pessoas não, vivem numa
guerra tremenda consigo próprias, vivem numa angústia
horrível, estão extremamente fragilizadas, estão sujeitas a
toda a espécie de chantagens, de pressões, de violências, mas
são elas as culpadas? São, na medida em que não têm a coragem
de se assumir como são, mas ao mesmo tempo também há uma
grande culpa por parte desta sociedade em que vivemos, esta
terrível herança da moral judaico-cristã que nós temos a pesar
sobre nós, e eles são as grandes vítimas de tudo isso.
Precisamos de abrir a cabeça das pessoas, explicar-lhes que
não somos nenhuns bichos esquisitos.

- E como é que o Guilherme acha que isso podia ser feito?

- Bom, lá fora fazem-se manifestações, mas também era preciso
ver como é que esse desfile iria ser feito, para não cairmos
no folclore. Não podemos, por exemplo, dar azo a que a
sociedade, que não está preparada para isso, olhe para um
desfile desses como para uma palhaçada, porque então era pior
a emenda que o soneto. Ora é preciso realmente começar a
haver, na televisão, por exemplo, debates. Mas com pessoas
responsáveis. E que não fossem sempre as mesmas pessoas. Eu,
por exemplo, hoje em dia já fujo o mais possível, sempre que
me pedem para ir a um debate, a um encontro, a uma reunião,

porque sou eu sempre a dar a cara, e tornei-me assim uma
espécie de Papisa Joana da homossexualidade, e isso é mau. Mas
é um facto que realmente a nossa sociedade vive muito como a
avestruz, com a cabeça enterrada na areia. Fala dos assuntos,
mas fala marginalmente, e quando as revistas, os jornais,
tratam realmente do assunto, tratam de uma forma muito cheia
de lugares comuns, e sobretudo esses trabalhos são entregues a
pessoas que fazem um esforço grande para entender toda esta
problemática, mas não estão por dentro dela. Porque as pessoas
que podem realmente falar sobre isso são aquelas que a vivem
na prática, e essas também se escusam, e enquanto os
homossexuais não fizerem um esforço para virem à ribalta com
dignidade, não chegamos a lado nenhum.

- Pois, essas coisas levam muito tempo...

- E também é preciso que se acabe com a ideia de que o
homossexual, feminino ou masculino, é um tarado sexual. Não é
um tarado sexual. É uma pessoa que tem uma maneira diferente
de viver a sua sexualidade. O que não quer dizer que entre os
homossexuais não possam existir tarados sexuais, tal como
entre os heterossexuais. E aqueles pais que violam as filhas
pequenas? Não são tarados sexuais? Mas eu sei de casais que
são capazes de ir a um cinema, ou a um teatro, ou a qualquer
lado, e deixar os filhos pequenos entregues ao vizinho
heterossexual, porque enfim, é um senhor respeitável, não há
problema nenhum, e são capazes de lhes deixar ficar as
crianças, e no entanto não são capazes de os deixar ao vizinho
homossexual porque partem do princípio que o homossexual vai
fazer sexo com as crianças. Ora essa ideia, e aí o Freud teve
muita culpa, temos de acabar com ela de uma vez por todas. O
homossexual não é um tarado sexual!

- E filhos? Nunca teve pena de não ter filhos?

- Houve uma altura em que tive realmente pena de não ter
filhos, até pensei em adoptar um, mas penso que a nossa
sociedade ainda não está preparada para isso, e pelo respeito
que essa criança me merece, eu não era capaz de adoptar uma
criança. Não por mim, mas por aquilo que esperava essa
criança. Era uma criança que ia ficar marcada com um estigma.
Na escola, por exemplo, logo que percebessem que o pai dele
era um homossexual assumido, haviam de tentar achincalhá-la o
mais possível, e eu, involuntariamente, ia criar traumas
tremendos a essa criança.

- Que vantagens e que desvantagens teve pelo facto de se ter
assumido tão cedo?

- Bom, tive muito mais vantagens do que desvantagens. A
primeira grande vantagem foi de repente poder respirar
aliviado. Sentir que já não tinha necessidade de andar a fazer
jogos duplos, de andar a viver uma vida oculta, de andar com
uma máscara afivelada, porque isso é terrível, ter de estar a
medir os gestos, as palavras, as atitudes. Criar uma dualidade
exige um esforço muito grande, de maneira que eu senti-me em
paz comigo mesmo e com as pessoas. Essa foi a primeira grande
vantagem, para já. Por outro lado senti-me a salvo de

chantagens, e eu vi alguns amigos meus serem alvo de algumas,
e terríveis chantagens, com fotografias que lhes tiraram,
armadilhas que lhes prepararam, dinheiro que eles tiveram que
pagar, e eu senti-me a salvo disso, porque comigo era inútil,
só se me tirassem uma fotografia com uma mulher... por outro
lado também tive outra grande vantagem. As pessoas julgam que
não, mas no fundo as pessoas respeitam quem tem a coragem de
levantar a cara e dizer "Eu sou como sou. Sou diferente, sou
homossexual, sou como sou." No momento em que me assumi com
frontalidade e com dignidade, e nunca andei por aí a fazer
cenas ridículas, passei a sentir à minha volta respeito e
admiração, e é por isso que eu digo às pessoas: Assumam-se,
com naturalidade e com dignidade.

- Para terminar, Guilherme, há a situação daqueles rapazes e
raparigas cujos pais de repente se apercebem de que o filho ou
filha é homossexual, e a partir daí gera-se uma tragédia
familiar de dimensões catastróficas. Dão-lhes uma tareia,
correm com eles para fora de casa, metem-nos no psiquiatra
para lhes fazerem uma lavagem ao cérebro, que recado tem para
esses pais, e que recado tem para esses jovens?

- Eu fazia antes de mais um apelo a esses pais. Eles têm de se
convencer de uma vez por todas de que a homossexualidade não é
uma doença. Eles continuam a encarar aquilo que detectaram na
criança da mesma maneira como se descobrissem que a criança
está anémica, ou que a criança tem um defeito qualquer no
andar, e então há que corrigir, há que tentar modificar, há
que levar ao médico. Eles quando descobrem que têm uma criança
homossexual partem do princípio que a homossexualidade é uma
doença que deve ser tratada, porque a criança está doente,
gosta de crianças do mesmo sexo, e então cometem a pior das
violências que se pode cometer contra uma criança, que é
tentar convencê-la de que ela está doente, e que tem de ser
tratada para corrigir aquilo que não é de facto uma doença, é
a sua maneira de ser, e os pais só têm é que aceitar.
Quanto à criança que se aperceba muito cedo de que é
homossexual, antes de mais nada deve estudar disfarçadamente
os pais que tem, porque há pais e pais, e tudo isto passa
também pelo grau de cultura das pessoas. Eu não estou a dizer
a essa criança que se torne dissimulada, mas que dê a entender
a pouco e pouco aos pais que é diferente, e então, quando
sentir que já está a entrar na adolescência, que tem mais
força, que é senhor de si, poderá então abrir-se com os pais,
com naturalidade, ter uma conversa com eles, mas que nunca,
nunca, nunca assuma uma atitude de culpabilidade, porque ele
não é culpado dessa tendência que tem, nem essa tendência é
nenhuma coisa negativa.

Carlos, 34 anos, Técnico de vendas.

- Quando é que o Carlos descobriu pela primeira vez as suas
tendências homossexuais, e em que circunstâncias?

- Olhe, não sei, desde que me conheço. Desde os meus oito,
nove anos, quando se dá o despertar do sexo. Eu era miúdo,
andava na escola, ia para a casa de banho com os outros
rapazes, juntavam-nos, mexíamos na pilinha uns dos outros,

enfim, eu acho que desde que me conheço que sei que sou
homossexual.

- Quer dizer que sempre soube?

- Sim, sim, desde muito novo. Eu lembro-me que era muito
miúdo, praí com doze anos, treze anos, já tinha um grupo de
amigos que nos juntávamos para fazer sexo, para nos
masturbarmos uns aos outros.

- E a sua família? Sabem que o Carlos é homossexual??

- Não. Não sabem, nem sonham, ou se sabem não falam no
assunto.

- E as raparigas? Nunca teve namoradas?

- Nunca me interessaram muito, francamente.

- Acha que é um homem efeminado?

- Não.

- E o que é que pensa dos homens efeminados?

- Acho horrível, acho que não são carne nem peixe, é uma coisa
que me assusta, que me impressiona, e que não gosto de ver.

- E experiências sexuais? Muitas?

- Bom, actualmente não, mas no passado devo ter tido algumas
centenas.

- E sexo em grupo?

- Nunca fiz. Acho que o sexo é uma coisa demasiado pessoal,
acho que se saboreia melhor na intimidade.

- E os bares?

- No passado gostava, mas hoje em dia já não vou. Não me dizem
nada.

- E da prostituição homossexual, o que é que pensa?

- Penso muito mal.

- O Carlos nunca pagou a um homem?

- Nunca, nem penso pagar. Por todos os motivos e até pelo
risco que essas pessoas representam.

- Se lhe aparecesse o Robert Redford?

- Mesmo assim não pagava.

- Olhe, Carlos, e o tamanho da pilinha, tem alguma importância
na relação homossexual?

- Pode ter alguma importância numa relação de ocasião, mas
numa relação mais séria não tem influência nenhuma.

- E da Sida? Tem medo?

- Claro, eu acho que isso é um problema que assusta toda a
gente, sejam heterossexuais, sejam homo, mas eu no meu caso,
como no passado me fartei de fazer "certas coisas", é natural
que tenha medo, mas é claro que me protejo, de todas as formas
possíveis.

- Carlos, porque é que você é homossexual?

- Porque é a forma como melhor me realizo como homem.

- O Carlos já alguma vez fez um travesti?

- Sim, por brincadeira, no Carnaval.

- E então? Sentiu-se bem?

- Nem bem nem mal, foi só uma brincadeira.

- E uma noção de pecado, ligada à sua sexualidade? Tem? A
ideia de um Deus que um dia possa vir a pedir-lhe contas...

- Não. Eu acredito em Deus, e creio que Deus nunca poderá vir
a condenar uma pessoa por gostar de outra, seja do sexo oposto
ou seja do mesmo sexo. Acho que é tão normal as pessoas
gostarem umas das outras, porque é que um homem não há-de
poder gostar de outro homem? Deus nunca nos irá condenar por
uma coisa dessas.

- Já agora, uma história engraçada ligada à sua vivência
homossexual, não me quer contar?

- Conto. Aqui há uns anos atrás nós costumávamos ir para Tróia
passar os fins de semana, e então eu tinha um amigo que nessa
altura era o meu namorado, e iam também duas amigas nossas,
Lésbicas. Da primeira vez que fomos nós não sabíamos que às
dez da manhã vinha sempre a mulher a dias fazer a limpeza do
apartamento. Aquilo era um T1, as nossas amigas tinham dormido
no quarto e nós tínhamos ficado a dormir na sala. Tínhamos
estado na ramboiada, tínhamo-nos deitado tarde, de maneira que
ainda estávamos a dormir, e de repente ouvimos bater à porta,
ouvimos meter a chave à porta, e entra uma matrafona de uma
mulher com três metros de altura, com o balde e uma esfregona
ao ombro. "Posso entrar?" Nós fomos apanhados de surpresa, e a
páginas tantas começam a ver-se corridas de pessoas para um
lado, corridas de pessoas para o outro, e a mulher a ver as
pessoas todas nuas, a correr para cá e para lá, e acabamos
todos no sofá da sala, no meio dos lençóis, todos com as
pernas no ar, e a mulher a olhar para nós muito espantada, com
o balde e a vassoura na mão.

Francisco, 25 anos, cabeleireiro.

- Quando é que o Francisco descobriu em si pela primeira vez

as suas tendências homossexuais, e em que circunstâncias é que
as descobriu?

- Foi por volta dos meus dezasseis, dezassete anos. Não lhe
sei dizer em que circunstâncias porque não foi uma coisa que
se manifestasse assim muito repentinamente. Antes pelo
contrário, foi crescendo gradualmente, eu antes até tinha mais
tendência para gostar de raparigas, e só a partir dessa idade
é que comecei a sentir uma certa tendência para os rapazes,
mas cresceu tão gradualmente que eu próprio nem dei por isso.

- E durante a sua infância, durante a adolescência?

- Tinha assim umas namoradinhas

- E chegou a ter relações com elas?

- Sim, como elas eram super libertas, eram raparigas com um à
vontade incrível, eram óptimas, eram raparigas com uma cabeça
super aberta, compreendiam tudo, aliás algumas até tinham
relações com outras raparigas, portanto...

- Está-me a dar a impressão de que tudo isso era encarado com
um grande à vontade...

- Ah, sim, não havia tabús, nem nada disso.

- Olhe, Francisco, vamos voltar um bocadinho atrás. O
Francisco acha que não nasceu homossexual, acha que foi uma
coisa que lhe aconteceu depois... como se tivesse adquirido
isso... é assim?

- Eu acho que já devia haver alguma coisa dentro de mim, à
nascença.

- E então? Acha que só se desenvolveu mais tarde?

- Sim, talvez até por causa do contacto que eu tinha com as
pessoas. Eu fui criado muito à rapaz, cresci na rua, de uma
maneira muito liberta, mas penso que a coisa já vinha de
nascença.

- E a sua família? Sabem? Reagem bem? Como é?

- Eu penso que sim, que sabem. Nunca que eu tivesse dito, mas
acho que sim, que toda a gente sabe que eu vivo com um homem,
e aceitam perfeitamente, e aceitam-no a ele lindamente...

- Que remédio... é isso?

- Se calhar! Mas também não tocam no assunto. Se estão
incomodados nunca me disseram nada.

- Mas preferiam que não fosse...

- Com certeza, penso que sim, talvez. Mais por parte da minha
mãe. Mas a minha família não se preocupa muito com isso, eu
acho que eles pensam é que eu tenho de estar feliz, e o facto

de viver com uma mulher ou com um homem não tem tanta
importância assim.

- Isso para si deve ser muito bom...

- Pois, eles pelo menos não se manifestam, e aceitam
perfeitamente a relação que eu tenho, quando há alguma festa
convidam-nos aos dois.

- E o que é que pensa dos bares Gay?

- É difícil responder, porque é assim... são sítios bons para
se conviver, acho óptimo, mas por outro lado acho que exageram
um bocadinho em certas coisas, em certos deboches...

- Deboches?

- Sim, sei lá, no Carnaval, por exemplo... e às vezes é chato
para certas pessoas que não tenham conhecimento, e podem
pensar que é tudo assim, podem pensar que a homossexualidade é
aquilo que vêem nos travestis, mas não é verdade, aquilo é só
folclore, nós não somos assim, nenhumas malucas, somos pessoas
iguais a toda a gente.

- Quer dizer que não aceita os travestis?

- Ah, não, não é isso, eu aceito, claro, acho que é uma forma
de as pessoas se manifestarem, até já fiz, no Carnaval, várias
vezes.

- E sentiu-se bem?

- Senti-me lindamente, o que eu lamento é que as pessoas não
percebam que aquilo é só uma brincadeira, e fiquem a pensar
que nós somos assim.

- E o que é que pensa dos rapazes que vendem o sexo?

- Não estou de acordo. Acho que fazem mal.

- Já alguma vez pagou a um homem?

- Não.

- E o que é que pensa dos homens muito efeminados?

- Aceito, não critico. Acho que é mesmo deles, não me maça
nada, não me incomoda.

- E a sua experiência sexual? Tem tido contacto com muitos
homens, com poucos?

- Assim assim...

- Acha que é só para fazer quando se ama, é preciso uma grande
paixão, ou acha que se pode fazer uma brincadeira sem sentir
nada, só por fazer?


- Não, isso não, quer dizer, não sou uma pessoa que pense que
só me posso deitar com alguém se houver um grande amor, isso é
mentira, acho que todos nós temos as nossas aventuras, como os
heterossexuais, lá por fazermos isto ou aquilo, isso não quer
dizer que tenhamos de amar as pessoas. Eu sou capaz de me
deitar com uma pessoa sem estar apaixonado, mas sem sentir
nada também não é bem assim, para me deitar com alguém tenho
de sentir um mínimo por essa pessoa. Não quer dizer que seja
uma grande paixão, mas alguma coisa tenho de sentir, atracção,
carinho, sei lá... agora deitar-me por deitar, só por
necessidade do sexo, acho que é uma parvoíce.

- Experiências de sexo em grupo, teve?

- Tive.

- E então?

- Fiquei a saber como é... e nem sei se gostei muito. Acho que
essas brincadeiras em grupo só podem funcionar quando as
pessoas se entendem perfeitamente, com pessoas muito
especiais, porque senão não resultam.

- E acha que vai voltar a fazer, ou não?

- Não sei. Tinha de sentir alguma coisa por essas pessoas, e
tinham de ser pessoas muito especiais. Acho que o sexo é uma
coisa tão nossa...

- Olhe, Francisco, e porque é que você é homossexual?

- Porque tinha que o ser, penso eu, não sei, ou já o era,
pronto, nasci assim.

- E se pudesse mudar de sexo?

- Não queria.

- E se pudesse passar a ser heterossexual?

- Gostar só de mulheres? Acho que não, acho que não me ia
sentir bem, não me ia sentir completo.

- Olhe, e práticas sexuais? O que é isso de homossexuais
activos, e passivos?

- Eu acho que isso é um bocado invenção. Quer dizer, dizem que
sim, que há, e é capaz de existir, porque as pessoas utilizam
esses termos aplicados às pessoas que fazem o papel de homem,
ou fazem o papel de mulher, mas eu acho que não tem de ser
assim, eu por mim não acho que tenha de ser sempre uma coisa,
ou sempre a outra, eu acho que as pessoas quando amam fazem
tudo, às vezes até pode nem haver penetração, há tantas outras
maneiras...

- Outras maneiras?

- Sim, sei lá, há o sexo oral, há a masturbação, ele há tantas

coisas que se podem fazer... para mim o amor não deve ter
limites, as pessoas devem fazer tudo o que gostam, e também
depende da disposição do momento, mas comigo é assim, acho que
tudo é válido desde que as pessoas se sintam bem.

- E no entanto você não parece dar demasiada importância ao
sexo, parece dar mais importância à questão afectiva. Aliás eu
estou surpreendida consigo, você não parece um rapaz da sua
idade a falar.

- É verdade que eu não dou muita importância ao sexo, dou
muito mais importância a uma relação em que haja verdadeiro
amor. É claro que o sexo ajuda a completar tudo isso, e faz
muita falta numa relação, mas não é tudo. Por isso, quando
procuro o meu companheiro não é só para fazer sexo, entre nós
há muito mais do que isso. O sexo nem sequer é uma coisa
prioritária entre nós. Há pessoas que vêem muito o sexo como
se fosse a única coisa da vida, têm uma relação hoje, outra
amanhã, porque têm necessidade, sei lá, não se satisfazem, e
eu também as entendo, mas às vezes é tudo feito à pressa, mal
empregadinho... mas o sexo para mim não tem essa importância
doentia. Estou-me a lembrar de um que tinha uma fixação num
certo e determinado jogador de futebol, da equipa do
..........., e então andou a temporada inteira atrás deles,
por esse país fora. Acabou por "fazer" a equipa toda! E quando
acabou o campeonato, veio do Porto para Lisboa, foi para a
casa de banho do comboio e ainda "despachou" mais de trinta
magalas que vinham na carruagem. Eu essas coisas acho um
bocado demais, nem Deus gosta que as pessoas sejam assim, mas
tolero e aceito, eu nunca censuro ninguém.

- Você é de facto uma lição de tolerância...

- Eu aqui há uns anos atrás tinha discussões com amigos meus,
porque eles achavam que o sexo era tudo na vida, e não
pensavam em mais nada. Repare, todos nós temos dias melhores e
dias piores, e em relação ao sexo também, há dias em que a
coisa não resulta, ou não resulta tão bem, e quando isso
acontecia eles ficavam danados, e eu dizia-lhes que tivessem
juízo, mas hoje dão-me razão. Porque nós com uma cabeça gira
conseguimos ter sexo, mas um sexo bom não nos dá uma cabeça
gira. Eu sei de muita gente que todas as noites acaba de
jantar e vai para o Parque Eduardo VII, e depois nunca se
sentem felizes, e admiram-se...

- Acho que isso do sexo obsessivo pode ser um vício, com
acontece com alguns heterossexuais?

- Acho. Eu não aceito esse comportamento. Aliás aceito, eu
estou no mundo é para aceitar tudo, e para ser coerente com a
minha forma de estar na vida sou obrigado a aceitar tudo, e
aceito, mas não me identifico com esse tipo de pessoas. A
pessoa chega a um ponto em que fica sem referências, chega a
um estado em que nem sequer consegue manter uma relação
estável, tudo lhe complica, tudo lhe faz confusão, está tão
vazia que nem sabe se valeu a pena viver a vida, e eu penso
que há gente que actualmente já está a descobrir isso, eu
tenho amigos que passaram por essa fase e que presentemente

estão a descobrir que de facto gostariam de ter uma relação
estável, mas estão a ter uma certa dificuldade, porque também
este meio é pequeno, a pessoa começa a ficar marcada, e depois
agora há também o problema da doença, "aquela doença", não é,
e depois com o problema da solidão tudo neles começa a
funcionar mal, e depois decidem recorrer a outras coisas...

- Outras coisas?

- Sim, sei lá, comprimidos, coca, depois injectam-se...

- E a propósito da Sida, o Francisco tem medo?

- Claro que sim. Todos temos, e temos é de nos proteger, não
é? É horrível, eu tenho tantos amigos que apanharam, uns já
morreram, outros com certeza vão morrer...

- E noção de pecado, tem alguma? De cada vez que se deita com
o seu companheiro, por exemplo. Tem alguma sensação de culpa?

- Não. Mas pecado como?

- Sei lá, uma sensação de estar a fazer uma coisa que algum
Deus, lá no Céu, possa achar mal?

- Não, não, antes pelo contrário. Eu acho que o meu Deus
aceita a minha homossexualidade, e compreende. E eu gosto
muito de Deus.

- Deus também deve gostar muito de si. Mas há bocadinho o
Francisco disse-me que achava que as pessoas deviam ver os
homossexuais de outra maneira, o que é que acha que era
preciso fazer nesse sentido?

- Não sei, sei lá, marchas de rua, um festival, um programa
semanal de televisão... e acho que mais tarde ou mais cedo vão
ter de fazer, mas eu também acho que a culpa é muito dos
homossexuais, porque se fossem mais amigos, mais unidos, se se
deixassem de invejas, de coisas estúpidas...

- Olhe, e quantos serão os homossexuais portugueses?

- Ai, não sei, mas são muitos...

- Muitos? O que é que são muitos? Metade da população?

- Ai, mais, eu acho que até são capaz de ser mais. Porque na
minha profissão, eu tenho conhecimento, eu trabalho só com
mulheres, e conheço maridos dessas mulheres que são, e elas
nem sonham.

- Olhe, e qual é o meio social que aceita melhor a
homossexualidade? São as pessoas mais modestas?

- Não, é a gente que está mais lá em cima, e com mais estudos.

- E os piores?


- São os da classe média.

- Olhe, e agora para acabar, uma história engraçada, ligada à
sua vivência...

- Olhe, tive uma vez uma cena muito engraçada. Eu vivia com
uma pessoa, e estava com essa pessoa, e chegou o irmão dele, e
nisto oiço os passos no corredor, e o que é que eu faço,
deito-me na banheira, tapo-me com a cortina, e ele entrou, e
fez xixi, e lavou as mãos, e foi-se embora.

- E você?

- Então, fugi depois pela janela.


João, 41 anos, actor.

- As suas tendências homossexuais... aliás, homossexuais ou
homoeróticas?

- homossexuais.

- Porque se trata de uma questão essencialmente sexual?

- Acho que sim.

- E com que idade, e de que maneira, é que detectou em si pela
primeira vez essas tendências?

- Por volta dos meus seis, sete anos. Com os meus primos.

- Em brincadeiras de crianças, então.

- Sim, com primos e primas, nessa altura.

- Isso é interessante. Quer dizer, o elemento feminino estava
também presente.

- Pois estava...

- E como é que isso foi vivido por si, na adolescência?

- ...

- Quer dizer, em relação à família, em relação às pessoas em
geral, em relação a si próprio...

- ...

- Foi vivido de uma maneira fácil? Foi muito complicado?

- Foi um bocado complicado.

- Foi complicado por si próprio, ou por causa das pessoas à
volta?

- Por causa das pessoas à volta.

- Quer dizer, não era um problema interior?

- Não, eu nunca tive problemas com isso, eram os outros é que
faziam os problemas.

- Quer dizer, os pais descobriram, e as coisas foram
complicadas, é isso?

- Pois, os meus pais estão separados, da parte do meu pai
houve uma incompatibilidade completa, da parte da minha mãe
houve uma aceitação, da parte da família do meu pai, os avós,
por exemplo, não aceitaram, da parte de outras pessoas da
família houve aceitação, porque há mais casos de homossexuais
na família, não sou o único...

- Acha que há alguma hipótese de haver alguma espécie de
herança genética a esse nível?

- Acho, acho que o estudo dos ADN hoje em dia já explica muita
coisa, e dentro da história da minha família há muitos casos
de homossexualidade.

- E acha que a componente homossexual é uma característica com
que se nasce, ou adquire-se depois, ao longo da vida?

- Eu acho que não há uma regra fixa para isso. Para umas
pessoas pode ser inato, para outras pode não ser. No meu caso
acho que já nasci homossexual. Aliás, eu estou aqui a falar de
homossexualidade mas na realidade eu sou bissexual. Eu tive
relações com várias mulheres.

- E então? A experiência foi boa?

- Foi, foi gira. Embora eu prefira de facto os homens.

- Bom, mas em relação às mulheres não tem inibições, é isso?
Quer dizer, aquele mito da "vagina dentata", para si não tem
significado.

- Não, claro, mas olhe, a propósito disso estou-me a lembrar
de uma história de uma bicha tonta que conheci uma vez, e que
não queria que eu lhe fosse ao rabo, devia estar com meducho,
e então dizia ele: "Olha, sabes, tu agora não podes meter a
coisa no meu rabo." "Ah, não? E porquê?" "Ah, é porque depois
o meu rabo fecha-se e corta-te a coisa..." Enfim, pela
experiência vim a verificar que não cortou nada, não é?

- Portanto, não acha nada que as relações com as mulheres
sejam uma coisa terrível? Não tem nenhuma fobia contra isso?

- Não, não tenho, de facto não tenho.

- Acha que é um homem efeminado?

- Acho que já fui bastante mais efeminado do que sou agora.

- E o que é que acha dos homens muito amaneirados?


- Acho que isso é sobretudo um problema de educação, penso que
isso acontece mais nas classes mais baixas. Querem todas ser
vedetas, e arquiduquesas... e isso é uma das maiores pragas da
homossexualidade.

- E porque é que isso acontece?

- Eu acho que isso acontece porque as pessoas, por serem
homossexuais, encontram uma certa dificuldade de aceitação
social, portanto tentam afirmar-se para ultrapassarem isso, é
um jogo que fazem com elas próprias e com a sociedade, porque
as pessoas dizem "Ah, aquele é bicha..." "Pois, mas é
Habsburgo, e é Bragança, e é Gotha, e é..." o raio que os
parta, e geralmente são uns desgraçados de pé descalço, e às
vezes basta abrirem a boca e dizerem duas coisas, a gente
percebe logo como é que as coisas são, e de onde é que eles
vieram. Começam por jogar este jogo, e acabam por se tornar
uns vigaristas. E não são só os das classes baixas, eu
estou-me a lembrar de um que conheço, que tem uma profissão de
imenso prestígio, e podre de rico, ainda por cima, que eu
tenho a certeza que se pudesse trocar a fortuna toda que tem,
que é brutal, por um título de visconde, ou por um brasão, um
brasão autêntico, trocava de boa vontade. E outros, que são
operários, e vão para os bares dizer que são engenheiros. Não
quer dizer que isso não aconteça entre os hetero, mas enfim,
achei que devia falar disso.

- E experiência sexual? Muita? Pouca?

- Bastante.

- O que é que é bastante? Dez homens? Quinhentos? Dez mil?

- Sei lá, praí mil, dois mil...

- E sexo em grupo, teve experiências?

- Sim, e com mulheres também à mistura, e senti-me sempre
muito bem.

- Já alguma vez pagou a um homem?

- Sim, mas sou contra. Porque é uma sensação um bocado
estranha. Quando eu pago por uma coisa, estou à espera que
essa coisa me dê exactamente aquilo que eu quero, mas acaba
sempre por ser frustrante, porque às vezes as coisas não se
compram com dinheiro, não é, os Taxi Boys, por exemplo...
olhe, eu tive uma experiência muito desagradável esta semana,
porque estive numa discoteca, e às oito da manhã há uma pessoa
que se chega ao pé de mim, e tal, e eu disse-lhe: "Está bem,
mas olha que eu não dou dinheiro, não há dinheiro para
ninguém" "Que ideia, mas quem é que está a falar em dinheiro?"
"Então está bem". Depois trouxe-o para aqui, deitámo-nos na
cama, primeiro não fez nada, depois deitou-se de barriga para
baixo e disse "Serve-te", e eu disse "Desculpa, não quero.
Acabou, veste-te e vai-te embora." E foi o que ele fez, e
depois disse-me: "Agora dá-me cinco contos para o Taxi" e eu
disse "Não, não dou, porque eu disse-te logo que não havia

dinheiro", e tive de chamar a Polícia.
Mas isso da Polícia... isso da Polícia já é outro assunto, não
é, agora já estão um bocadinho melhor, mas ainda há pouco
tempo, a reacção da Polícia em relação aos homossexuais era
como se nós fossemos como os criminosos, ou mais criminosos
ainda. Aconteceu-me uma vez, num jardim aqui perto de casa, eu
tinha um relógio estupendo que tinha trazido dos Estados
Unidos, e de repente estava um rapaz assim com ar de operário
mas muito engraçado, eu já estava com um copito, e estivemos a
masturbar-nos atrás de uma árvore, e depois pegou numa faca de
ponta e mola e disse "agora dá-me o relógio". Eu fiz de conta
que nem tinha visto a faca, e dei-lho, não é, como se já
fizesse tenções de lho dar, o que é que eu ia fazer? E
continuei a conversar com ele, como se nada fosse, mas a
esquadra era mesmo ali a dois quarteirões, e eu percebi que
ele não era de cá, e levei-o, na conversa, e chegámos à porta
da esquadra, e entrámos mesmo. Apareceu-me uma mulher polícia,
que era a sub-chefa de serviço, e tratou-me mal, ainda por
cima, "se eu não tinha vergonha de ter abusado daquele rapaz"

- Mas ele não era um miúdo, ou era?

- Não, nem por sombras, tinha praí vinte e cinco anos, vinte
e seis, era maior e vacinado, se fez alguma coisa foi porque
quis, acho que não tinha nada de que se queixar, ninguém o
obrigou, e mais, nem sequer era nenhum novato na matéria, que
isso é uma coisa que se percebe muito bem. E acabou por se ir
embora com o meu relógio.

- E os corredores do Metro? Também são policiados, não são?

- Pois, e é muito perigoso. Tenho um amigo que antigamente ia
lá muito, e foi apanhado várias vezes, e uma vez apareceu-lhe
um polícia que lhe exigiu dinheiro, outra vez foi apanhado por
outro que o obrigou a ir para a casa de banho e a baixar as
calças, ou então levava-o para a esquadra, mas isso foi aqui
há uns anos, agora já não é assim. Os Polícias não são nenhuns
santos, mas já é diferente, pelo menos assim que eu saiba,
ultimamente essas coisas não têm acontecido. Até sei de dois
polícias homossexuais que vivem juntos, e na esquadra não
sabem, ou pelo menos não lhes dizem nada, só querem que eles
cumpram as suas obrigações, e que façam o seu trabalho como
deve ser, mas não se metem na vida privada deles.

- E os bares Gay?

- Que chatice, que tédio! Só lá há santas de altar que chegam
cá fora e abrem o cú ao primeiro que lhes aparece, ou então
são chulos. As outras são as desgraçadas de pé descalço de
anel de brasão comprado na feira da ladra, fulanos que andam
de pijama em casa todo o dia, e só têm uma calcinha para
vestir ao sábado, para ir ao Bric. Mas sabe que eu acho que
todo esse mecanismo que faz com que alguns homossexuais tentem
parecer aquilo que não são, ainda é uma espécie de herança dos
tempos da inquisição, é a necessidade de usar uma máscara,
está a ver? É a consequência da hipocrisia da moral judaico
cristã, os vícios privados e as públicas virtudes. Eu já vi
uma pessoa que estava directamente implicada na morte de uma

outra, e chegou à missa de corpo presente e foi a primeira a
ir lá tomar a hóstia. Enquanto essa moral subsistir não se
consegue mudar coisa nenhuma, continuam a haver para aí esses
grupos marialvas, que felizmente, quanto mais marialvas são,
mais gostam de levar no rabinho.

- Essa agora?!

- É verdade, olhe, eu por exemplo vou para a cama com uma
bicha, com um gajo que é homossexual, assumidamente, ou não
sei quê, e a maior parte das vezes começa logo com coisas, não
faço, não gosto, não quero, sou pura, e virgem, e o raio que a
parta. Vou com um gajo que não tem experiência com homens, e
que só anda com mulheres, e ele chega à cama e faz tudo, e
leva ali no rabinho que nem não sei quê, e adora, e não diz
nada.

- E quantos homossexuais há em Portugal? Acha que são muitos,
são poucos, o que é que acha?

- Olhe, acho que em Portugal, este povo, se estivesse um
bocadinho mais liberto e se o 25 de Abril tivesse sido outra
coisa... o português é muito espontâneo, e gosta muito...
devem ser praí uns cinquenta por cento, os que já
experimentaram, para não contar com os que toda a vida tiveram
vontade e nunca foram capazes.

- E práticas sexuais?

- Olhe, eu acho que se uma pessoa faz certas e determinadas
coisas é porque gosta, e se quer saber até já tive
experiências de "fist fucking", não na posição passiva mas na
activa, fiz isso a várias pessoas que me pediram. Há momentos
em que vale tudo, porque é que eu hei-de mentir?

- E se pudesse mudar de sexo, mudava?

- Não.

- E se pudesse passar a ser completamente heterossexual?

- Também não.

- E travestis, já fez?

- Fiz, muitos. Até na televisão. Acho que fui uma das
primeiras pessoas a fazer travesti na televisão. E no
Carnaval, mas agora já não tenho pachorra nenhuma.

- E chantagens?

- Bom, a mim nunca me aconteceu, mas sei de pessoas que já se
viram em situações muito difíceis, mas eu prefiro nem falar
nisso. A maioria dos homossexuais em Portugal calam-se muito
bem caladinhos e aceitam a chantagem toda que lhes fazem.

- Porquê?


- Olhe, nuns casos por cobardia pura e simples, nem todos
nascemos para heróis, e nesse aspecto os homossexuais são
iguais a toda a gente. Noutros casos porque talvez tenham
muito a perder.

- Até que ponto é que a sua vivência de actor e a sua
componente homossexual, ou uma certa estética Gay, um certo
culto do corpo, por exemplo, está ligada à sua vocação de
actor?

- Eu às vezes entro em especulações metafísicas, e ponho-me a
pensar que não sei quem sou, e que podia ser outras coisas, e
de facto tenho um grande interesse em tentar sair um bocado de
mim para ser outras coisas. Claro que de facto a forma como se
abordam certas questões também tem muito a ver com o facto de
ser Gay, porque somos diferentes desses cepos, dessas bestas
quadradas que a gente às vezes vê por aí, e portanto ajuda-me,
de facto, acho que sim, que a minha sensibilidade de
homossexual me tem sido bastante útil, tem-me ajudado muito a
compreender determinados problemas.

- E uma noção de pecado? Alguma vez teve esse tipo de
sentimento? Sei lá, pensar "eu estou a cometer um pecado, e
mais tarde Deus pode vir a pedir-me contas daquilo que eu
estou a fazer..."

- Não, porque eu acho... eu até acredito em Deus, e acho que
essas coisas todas, de facto, dependem daquilo que existe no
íntimo das pessoas. Se as pessoas têm uma abordagem da vida e
das coisas um bocado pura, essa noção de pecado não existe,
não é? Se as pessoas não estiverem recalcadas não sentem nada
dessas coisas. Jesus Cristo viveu rodeado de doze homens, não
foi? E nunca disse que a homossexualidade era nenhum pecado,
os padres depois é que inventaram essas palermices todas.

- João, porque é que um rapaz de repente resolve olhar para os
outros rapazes e não para as raparigas? Qual é o encanto que
um rapaz tem para outro rapaz?

- Bom, eu acho que isso é tudo uma questão de estética, não é?
E de ética. Eu posso achar uma mulher bonita, claro, mas para
mim um homem é sempre mais bonito. E não estou a falar da
pilinha, isso é só um acessório. Tem a haver com o todo.

- Disse que a pilinha é só um acessório?

- Para mim é. É claro que há gente que dá uma grande
importância a isso, e só se interessam por homens que tenham
mais de vinte ou mais de vinte e um, ou vinte e dois
centímetros, mas é uma imbecilidade. Se toda a gente pensasse
assim, eu por mim até nem tenho nada uma pilinha muito grande,
estava tramado! Tem a ver com a harmonia, com a estética, mas
não com a pilinha propriamente dita.

- Sabe que com as mulheres um dos pontos mais sensíveis é
justamente a entrada vaginal, tudo o que for comprimento a
mais não vai lá fazer muita coisa...


- Pois, mas com os homens é diferente, vocês não têm a
próstata, e com os homens a massagem na próstata produz uma
série de sensações e quanto mais comprida for a pilinha,
quanto mais forte for o contacto com a próstata, mais intenso
é o prazer que provoca. A mim já me aconteceu olharem para
mim, verem que tenho uma pilinha pequena, e irem-se embora.

- E uma história engraçada, para acabarmos. Não se lembra de
nenhuma?

- Olhe, uma vez estava eu a pintar a decoração deste tecto,
está a ver, e pedi a um amigo meu que me viesse ajudar, mas
aquilo ainda é um trabalho um bocado cansativo, é preciso um
para estar com os braços esticados, a segurar o papel
recortado, e outro para ir pintando, com a boneca de pano. Foi
numa Quinta Feira Santa, nunca mais me esqueço. A certa altura
diz ele: "Olha, já não posso mais. Espera aí que eu já venho."
Saiu, e daí a bocado voltou com um magala que tinha arranjado
ali no jardim, tinha-lhe pago vinte escudos, isto praí em
1972, para ele vir segurar o papel.

- Então e depois?

- E depois, o magala era um latagão louro, de ombros largos,
nessa noite já não se foi embora.

- Não quer contar só mais uma, para acabar?

- Uma vez fui sair com uns amigos, fomos até à Praça do
Império, isto já lá vão uns poucos de anos, foi na altura da
Guerra do Golfo. E eu então vi um fulano muito engraçado, saí
do carro, fui falar com ele, e diz ele assim: "Não, não, pá.
Eu cá não alinho com homens". E eu comecei a conversar com
ele, até que ele a certa altura sai-se com esta: "Então está
bem. Se for só para te fazer um ..., na boa, está bem".

- Quer dizer, no fundo ele gostava da coisa, não queria era
envolvimentos, nem problemas, é isso?

- Pois, e eu acho que no fundo a maior parte dos portugueses
gosta da coisa, não quer é complicações. Mais de cinquenta por
cento dos portugueses, na boa, até vão lá, não gostam é de
conotações sociais.

- Você já deve ter aprontado cada uma...

- Olhe, lá vou fazendo aquilo que posso...

Alberto, 19 anos, Estudante Universitário.

- Quando é que descobriu pela primeira vez as suas tendências
homossexuais, e em que circunstâncias?

- Surgiram muito cedo. Que me lembre, aos quatro anos já sabia
muito bem em que colos é que gostava mais de me sentar. Mas
concretamente acho que foi aos dezassete. Aconteceu por
influência de várias coisas de que me apercebi à minha volta,
sei lá, filmes que vi, livros que li, e por achar que estava

ali, que aquilo era eu.

- E como é que você viveu isso na infância e na adolescência?

- Eu muito cedo fiquei separado da minha mãe, portanto vivi
uma experiência muito recheada pelos mimos dos avós e de
pessoas que eram homossexuais. Foram uma espécie de pais
adoptivos que eu tive, de nacionalidade diferente da minha,
que não tinham filhos e me apaparicavam. Ele era homossexual,
ela era Lésbica, viviam os dois por conveniência,
desempenhavam uma função administrativa, e isso levou-me a
identificar-me um pouco com eles, embora durante muito tempo
eu não soubesse qual era o tipo de relação que existia entre
eles. Ele tinha uma relação com um pintor, ela tinha com uma
outra rapariga, e aquilo funcionava porque eles iam
encontrar-se noutros sítios, e eu acabei por me aperceber, e
em mim tudo apontava para um desenvolvimento semelhante. Houve
pessoas que já me quiseram explicar a minha homossexualidade
pela ausência da figura do pai dentro de casa, acho que isso
são as teorias do Freud, eu não acredito nada, mas pronto. Na
adolescência as coisas passaram-se de uma maneira diferente.
Houve fases muito marcantes. Talvez a minha maior paixão tenha
sido por um pianista que vivia na Alemanha, ao pé da minha
mãe, e eu não sei se ele era homossexual, mas penso que sim.
Não chegou a passar-se nada de propriamente sexual entre nós,
mas houve trocas de olhares, beijos, e eu penso que essas
foram as minhas primeiras manifestações de erotismo e do meu
próprio desenvolvimento sexual, porque me levavam à
masturbação.

- E a sua família? O que é que diz de tudo isso?

- A minha família sabe, a minha mãe tem plena consciência do
facto, acho que sim, quando ela se refere ao meu amigo chega
a dizer "Ah, ele não pode estar muito tempo fora, tem de ir
para o pé do maridinho". Ela diz isso a brincar, mas no fundo
ela sabe. Prefere fingir que não acredita.

- Alberto, nasce-se homossexual, ou é uma coisa que se adquire
com o tempo?

- Eu acho que se nasce, é genético.

- E experiências com mulheres?

- Tive várias, e não foram más. Aliás eu acho que se tivesse
de escolher uma pessoa para viver, que não a pessoa com quem
vivo actualmente, que é um homem, eu escolheria uma mulher.
Não posso dizer que tenha tido uma grande paixão por ela, mas
era uma grande amizade, e essa amizade poderia dar para eu
partilhar a minha vida com ela. Só em termos de relação sexual
é que era capaz de ser um bocadinho mais complicado, mas em
relação ao resto penso que poderia muito bem resultar.

- E filhos? Tem pena de não ter?

- Eu não tenho pena de não ter, mas também ainda não perdi a
esperança de vir a ter. Apesar de saber que iria ter alguma

dificuldade em suportar crianças em casa. Assumiria sempre um
papel de pai, um pouco distante. Digo isto porque sei que há
homossexuais que têm uma espécie de instinto maternal, mas
esse não é o meu caso. Tenho alguma paciência, mas só em certa
medida.

- Alberto, você é um homem efeminado?

- Eu não ponho muito as questões dessa maneira, embora conheça
algumas pessoas que são mesmo aquilo a que se pode chamar
bichas, mas eu não gosto do termo bicha. Agora se feminino
significa requintado, eu acho que sou um bocado, agora em
termos de comportamento eu acho que não sou efeminado.

- E se pudesse passar a ser heterossexual?

- Acho que depois de experimentar uma relação homossexual
ninguém volta a ser heterossexual.

- Alberto, você gostaria de mudar de sexo?

- Não, eu gosto de ser homem.

- E relações? Conheceu muito homens?

- Poucos. Quatro, em termos de relações íntimas, mas se for
contar aqueles com quem houve penetração, ou em que penetrei
alguém, foram só duas pessoas. Apesar de me atribuírem
imensas histórias, e de ter a fama de já ter estado deitado
com Lisboa inteira. Em termos de sair, encontrar um fulano
qualquer, e ir a correr com ele para a cama, isso nunca fiz.

- E da prostituição homossexual, o que é que me diz?

- Eu não concordo minimamente com a prostituição, apesar de a
aceitar. Eu às vezes sou solicitado por homens que passam de
carro, carros caros, e fico revoltado, porque o meu sexo não
está à venda. Eu acho que a prostituição, toda ela, devia ser
legalizada, porque de facto esses rapazes são livres de se
prostituir, e são livres de vender o seu corpo, e de seguir
aquilo que se calhar eles acham uma maneira fácil de ganhar
dinheiro, e se calhar é a única que conhecem de ganhar a vida,
e eu tento ser tolerante, mas não me vendo, e nem que tivesse
milhões, nunca os procuraria, em circunstância alguma.

- Alberto, e práticas sexuais? O que é isso de activos e
passivos? À verdade? É um bluff?

- Bluff... não é bluff. Eu na relação que tive com o outro
rapaz que esteve na minha vida durante dois anos, eu tive uma
função de activo. Actualmente, com a pessoa com quem estou,
tenho uma função de passivo, porque essa pessoa gosta mais
assim. Mas acho que isso não é nada, eu tanto posso ser uma
coisa como outra.

- E a Sida? Você tem medo da Sida?

- Tenho pavor. Tenho todos os cuidados, mas tenho pavor. Até

em relação a dentistas, até tenho medo dos insectos que me
possam picar.

- Já alguma vez fez um travesti?

- Vesti-me de mulher com um grupo de amigos que até nem eram
homossexuais, eles vestiram-se todos, e então eu também me
vesti, mas senti-me tão estúpido, tão ridículo, mas pronto,
fiz de Greta Garbo, e um outro fez de Marilyn Monroe e não sei
quê, mas não me diverti assim muito.

- E uma noção de pecado? Como é a sua relação com Deus?

- A minha relação com Deus é nula. Leio a Bíblia como quem lê
outro livro qualquer, sinto aquele Cântico dos Cânticos como
qualquer coisa de sublime, mas não penso nada que haja nenhum
Deus que me vá condenar. Eu acredito que há uma coisa que está
acima das forças da natureza, e penso que hei-de cá voltar
mais vezes, mas não tenho medo de Deus, nem de nenhum
julgamento. Acredito que se por exemplo eu traísse o meu
amigo, isso sim, é que merecia um castigo.

- Olhe, para acabar, não me quer contar alguma história
engraçada que tenha vivido?

- Olhe, uma vez eu entrei num autocarro, e estava uma senhora
com umas mamas daqui até à outra banda, e eu então fiquei ali
entalado no meio, e a mulher começa a chamar-me nomes,
ordinário e não sei mais o quê, que me estava a encostar as
mamas dela, e eu então, com a minha calma toda, disse-lhe: "Oh
minha senhora, ainda se fossem os tomates de um homem..."

Manuel, 41 anos, artesão.

- Manuel, no seu caso, com que idade é que descobriu as suas
tendências homossexuais, e como é que as descobriu?

- Descobri-as muito cedo, praí com oito, nove anos. Eu tenho
mais irmãos, e tinha relações sexuais com eles, com um deles,
de preferência.

- O facto de ser um seu irmão não era para si um obstáculo?

- Sabe que essa situação é relativamente comum, embora as
pessoas mais tarde não o admitam, isto em casas onde há vários
irmãos. Há muitos homens casadíssimos, pais de filhos, a
profissão pode ser uma qualquer, podem ser quadros, podem ter
uma situação mais modesta, começaram quase todos da mesma
maneira, e prosseguiram pela adolescência, quer com irmãos,
com primos, com amigos. Vão para as casas de banho
masturbar-se uns aos outros.

- A esse nível como é que foi vivida a sua infância, Manuel?

- Tinha um prazer muito grande.

- E a família, sabia?


- Não. Não sabia nem sabe. ou faz que não sabe. Acho que a
nível das mães... as mães têm mais o sexto sentido, e vai daí
desconfiam sempre de alguma coisa. A minha, pelo menos.

- Manuel, você nasceu homossexual, ou foi uma coisa que
adquiriu depois?

- Acho que nasci homossexual. Acho que as minhas tendências,
já na infância, e embora ainda muito primárias, eram todas
para a homossexualidade. Depois também é preciso ver o que é a
educação que a gente recebe. A educação também está muito
ligada a tudo isso. Eu quando era miúdo, com os meus doze,
treze anos, mandavam-me para o monte com as cabras, mas os
pastores eram todos rapazes, o que é que eles julgavam que a
gente fazia, à noite? Era preciso passar o tempo...

- E relações com mulheres, nessa altura? Teve namoradas?

- Tive umas brincadeiras com uma prima minha...

- Mas era ela que se interessava por si, ou era o Manuel que
se interessava por ela?

- Era eu que me interessava por ela.

- E chegou a ter relações com ela?

- Não, não cheguei a ter relações sexuais, foram só umas
brincadeiras.

- E foram desagradáveis? Acha que de algum modo lhe criaram
alguma aversão às mulheres?

- Não, até foram umas brincadeiras muito giras.

- É que sabe que há quem pense que os homossexuais são rapazes
que tiveram más experiências com mulheres, que de alguma forma
foram traumatizados ou maltratados por elas, e que foi por
isso que se viraram para os homens. Você não pensa isso?

- Não, não. Não penso. Acho que não tem nada a ver com isso.

- Portanto, o seu interesse não estava dirigido exclusivamente
para os rapazes...

- Bom, eu gostava mais. Gostava desta minha prima mas gostei
sempre mais de rapazes. E não eram só os meus irmãos e os meus
primos, eram também os outros rapazes da escola.

- Em resumo, acha que é um bissexual?

- Eu agora não sei se serei bissexual, acho que sou mais
homossexual. Eu hoje em dia nem sei se seria capaz de ter
relações sexuais com uma mulher, não é? Aliás eu namorava com
raparigas, e por exemplo ia na rua com elas, e quando dava por
mim estava a olhar para os rapazes que me despertavam
interesse, e olhava, mais ou menos às escondidas.


- O Manuel não tem um tipo efeminado. O que é que pensa dos
homens muito femininos?

- A mim incomodam-me um bocado. Não gosto, e sinto-me mal ao
pé de homens amaricados, aqueles cheios de trejeitos, com umas
vozinhas muito agudas. Porque eu acho que uma coisa é ser
homossexual, outra coisa é ser bicha. Quer dizer, eu não tenho
nada contra, cada um adopta o figurino que quer, mas a mim não
me agrada.

- E experiências sexuais? Muitas? Poucas?

- Nem por isso, não, não tenho tido muitas.

- Sexo em grupo, já praticou?

- Não, nunca. Isto é, para além daquelas brincadeiras de
rapazes que já lhe contei.

- Manuel, e a prostituição homossexual? Os rapazes que andam a
vender o sexo no Parque Eduardo VII? O que é que pensa deles?

- Quer dizer... eu não faria isso, em primeiro lugar. Mas
penso que não devo censurá-los, quem sou eu para criticar seja
quem for? Até porque na maior parte dos casos são pessoas que
não têm emprego, não têm outra maneira de subsistir no dia a
dia. Estamos num mundo em que tudo se compra e tudo se vende,
de forma que se há pessoas que querem vender, e outras que
querem comprar, o assunto é lá com eles.

- E as práticas sexuais? O que é isso do activo e do passivo?

- Eu gosto mais de ser activo, mas também já me aconteceu da
outra maneira e não tive problemas nenhuns.

- Não teve?

- Quer dizer, das primeiras vezes foi um bocado complicado.
Não era que me fizesse doer, até nem era desagradável, o meu
problema era psicológico, achava que estava a fazer o papel de
uma mulher, e aquilo fazia-me um bocado de confusão, mas
depois habituei-me, e agora já não tenho esses problemas, nem
esses nem nenhuns, faço tudo.

- Tudo? Até sexo oral, por exemplo?

- Claro, até já alinhei com um tipo que quis fazer uma coisa
muito gira, que foi besuntarmos o "coiso" todo com compota...

- Estou a ver... e a Sida? Tem medo?

- Claro que tenho, não é? Toda a gente tem. Tento tomar todas
as precauções para não ser contagiado, mas não estou livre,
não é? Todos os dias penso nisso.

- Manuel, o que é que faz com que um rapaz seja homossexual? O
que é que faz com que um rapaz se interesse pelos outros
rapazes, muito mais do que pelas raparigas? Sabe que há quem

diga que é uma doença...

- Não. Eu não acho que seja nenhuma doença. É apenas uma
atracção que se sente por outras pessoas do mesmo sexo. Eu
acho que é tão simples como isso. Uma atracção física e uma
atracção sentimental por pessoas do mesmo sexo. Dão-nos
prazer, dão-nos satisfação, às vezes também dão amarguras, mas
pronto, isso faz parte da vida também.

- Manuel, se você pudesse mudar de sexo, mudava?

- Ai, não, nunca.

- E se pudesse deixar de ser homossexual, deixava?

- Não, também não. Gosto de ser assim.

- Já fez travestis?

- Já, de brincadeira.

- E que tal? Sentiu-se bem?

- Senti, porque foi em casa. Mas se fosse para sair para a rua
não saía. Houve um Carnaval em que fui com um grupo de amigos,
e fomos todos para um bar, e foi assim um bocado... eu
senti-me um bocado inibido.

- E sensação de pecado? Uma noção de pecado, a ideia de um
Deus que poderá um dia vir a pedir-lhe contas, porque no fundo
o Manuel está a transgredir uma norma...

- Nunca tive.

- Acha que não está a cometer pecado nenhum?

- Acho que não estou a cometer pecado nenhum.

- E para acabar, uma história engraçada ligada à vivência da
sua sexualidade.

- Olhe, estou-me a lembrar de uma coisa engraçada que eu fazia
quando era miúdo, e ia para o monte com as cabras, e punha-me
a apanhar moscas, e depois quando conseguia agarrar alguma
tirava-lhe as asas, e depois deitava-me de barriga para o ar,
e punha a mosca a passear em cima do "coiso", e aquilo fazia
umas cócegas danadas, e eu pelava-me por aquilo, foi assim que
consegui a minha primeira erecção.
Também me lembro quando era miúdo, eu e os meus primos íamos
muito à tourada. Eu sou do Ribatejo, não é, e então lá íamos
para a tourada, na minha família toda a gente gostava muito de
tourada, de forma que nós íamos também, e o que nós nos riamos
porque aqueles toureiros, os espadas, que usam o traje muito
justo, e os forcados, que também usam a calça muito apertada,
ficavam todos de "coiso" espetado, aquilo era uma coisa que
eles não tinham maneira de esconder, os adultos faziam de
conta que não percebiam, achavam que eles tinham toureado bem,
ou que tinham toureado mal, mas nós entre miúdos ríamo-nos

muito "olha aquele, estás a ver?" de cada vez que cravavam um
par de bandarilhas, ou de cada vez que faziam uma pega. O
"coiso" não espetava mais porque as calças não deixavam, mas
que ficavam de pau feito isso ficavam, que lá disso percebo
eu. E com o fandango é a mesma coisa, eu acho que o fandango é
uma dança muito erótica, e desconfio que muitos dos homens
também sentem isso, só que ficam é muito caladinhos, não dizem
nada a ninguém, mas é uma tolice porque são tudo coisas muito
naturais, não há razão nenhuma para ficarem com problemas.


António, 45 anos, Contabilista.

- Quando é que o António descobriu pela primeira vez as suas
tendências homossexuais, e em que circunstâncias?

- Foi quando estava a cumprir o meu serviço militar. Foi num
quartel, tinha eu vinte e um anos.

- E então, que tal?

- Foi interessante. Eu ficava numa camarata, e foi o indivíduo
da cama de cima. Foi a descoberta do corpo... de um corpo
igual ao meu.

- Nunca se tinha sentido atraído por outros rapazes?

- Que me lembre, não.

- E agora? A sua família sabe?

- A minha família não sabe. A minha mãe deve desconfiar, mas
nunca falámos no assunto.

- Bom, mas eu sei que você é casado.

- Pois sou, e tenho dois filhos, e a minha mulher também pode
suspeitar, mas eu nunca lhe disse.

- Acha que a homossexualidade é uma característica com que se
nasce, ou adquire-se depois?

- Eu acho que é uma coisa que se desenvolve com a idade. Se
calhar já cá estava, dentro de mim, eu acabo por concluir
isso, mas isto não são coisas que se possam provar.

- Acha que é um homem efeminado?

- Acho que não, pelo menos espero não ser demasiado.

- E o que é que o António pensa dos homens efeminados?

- Acho que é a parte pior dos homossexuais. É o lado negativo,
caricato, ridículo, é o que nos desacredita.

- E experiências sexuais? Teve muitas?

- Contactos esporádicos sim, tive muitos, algumas centenas.

Relações completas talvez umas vinte.

- E sexo em grupo?

- Só como espectador. Nunca quis participar.

- Já agora, porque é que não quis participar?

- Por vergonha. Eu sou filho único, sabe, fui sempre um
bocadinho tímido, e também naquela altura ainda estava a
descobrir estas coisas, e tudo aquilo me envergonhava um
bocado.

- E aos bares, gosta de lá ir?

- Uma vez por ano, no Carnaval, por curiosidade.

- E da prostituição homossexual, o que é que pensa?

- Não penso nada, acho que é uma profissão como outra
qualquer. Acho que é pena, porque o amor é uma coisa que se
devia fazer livremente, e voluntariamente, porque se gosta, e
não devia ser pago.

- Já alguma vez pagou a um homem?

- Não.

- Olhe, e o que é essa história de homossexuais activos, e
passivos, é verdade? Ou é um bluff?

- É verdade. Mas a maioria das pessoas actua das duas
maneiras. É prática corrente. Comigo depende da disposição.

- E o tamanho da pilinha, tem alguma importância na relação
homossexual?

- Eu acho que sim, porque se for uma coisa enorme não deve dar
prazer nenhum. Mas falando de pessoas normais, aquilo a que eu
chamo normais, sem idiotices dentro da cabeça, eu acho que o
tamanho do sexo não tem importância nenhuma. Ou seja, é
importante, mas é muito mais importante o que um homem é na
sua globalidade. A forma como pensa, aquilo que transfere para
a relação, aquilo que ele é enquanto ser humano completo.

- E da Sida? Tem medo?

- Claro, não tanto pela minha sexualidade de hoje, mas pelos
anos em que estávamos desinformados, não é, tem-se sempre uma
pontinha de receio, porque a doença tem um período de
incubação muito longo, acho que nem se sabe exactamente quanto
tempo ela pode demorar a aparecer, e há sempre um bocado de
medo, não em relação ao presente mas em relação ao passado.
Mas ainda tenho mais medo de me sentar numa cadeira de
dentista do que de me deitar com um homem.

- E na juventude, teve namoradas?


- Sim, claro.

- E teve relações com elas?

- Tive com duas delas, com as outras não.

- E que tal? Foi bom?

- Não foi mau, mas eu gosto mais com homens.

- E em relação à sua mulher, como é a sua relação com ela?

- É normal, acho eu.

- Olhe, já agora, desculpe, mas porque é que casou com ela?

- Sabe, era um namoro já antigo, a família dela não parava de
me mandar bocas, os meus pais também me pressionavam muito, se
calhar desconfiavam de alguma coisa, e pensaram que o
casamento me iria trazer "para o bom caminho", mas não, eu
faço amor com a minha mulher, mas gosto muito mais de fazer
com homens.

- E a Sida? Não pensa que pode vir a ser um veículo
transmissor, que pode vir a infectar a sua mulher, que não tem
culpa nenhuma, nem tem nada a ver com o assunto?

- Sabe, os contabilistas não ganham muito neste País, eu não
posso dar-me ao luxo de fazer outro filho, de maneira que
tenho uma óptima desculpa para usar sempre a borrachinha. De
qualquer forma, e dentro da medida do possível, tento ser um
bom marido para ela.

- E os seus filhos? Tem a sensação de ser um pai menos bom
pelo facto de ser homossexual?

- Não, antes pelo contrário. Sou um pai muito afectuoso. E não
é só isso, penso que lhes consigo transmitir e chamá-los para
as realidades da vida, e que tenho uma sensibilidade maior
para compreender os problemas deles do que os pais
heterossexuais.

- E eles, enquanto adolescentes, sabem que o pai é
homossexual?

- Não, nunca lhes disse.

- E pensa dizer-lhes um dia?

- Sim, quando me parecer que atingiram o grau de maturidade
necessário, acho que sim, que deverei dizer-lhes.

- Se o António pudesse mudar de sexo, mudava?

- Não. Não, não. Não mudava. Gosto de ser homem, e sinto-me
bem assim, não gostava de ser mulher nem gostava de ser
heterossexual.


- Se pudesse passar a ser exclusivamente heterossexual, não
aceitava?

- Não, eu sinto-me assim muito bem.

- António, porque é que você é homossexual?

- Porque nasci assim, e gosto de ser assim.

- Já alguma vez fez um travesti?

- Não, nunca fiz, nem no Carnaval nem nada, nunca me apeteceu.

- E uma noção de pecado, ligada à sua sexualidade? Tem?

- ...

- Quer dizer, a ideia de um Deus que um dia possa vir a
pedir-lhe contas...

- Não, acho que não. Para mim um pecado é as pessoas roubarem,
matarem, eu sei lá! Porque por aquilo que eu tenho lido, a
sexualidade já no tempo dos romanos e dos gregos também era
assim vivida, muito naturalmente. Eu acho que foi só na Idade
Média é que se deu esse fenómeno da culpabilização, por causa
da religião católica. Acho que foram os frades que incutiram
nas pessoas essas ideias de pecado, mas é tudo um grande
disparate.

- E uma história engraçada, não me quer contar?

- Olhe, eu tenho um amigo que é segurança numa empresa, uma
grande empresa deste País, e às vezes à noite não temos outro
ponto de encontro, e eu vou lá ter com ele, e vamos para cima
da mesa do Conselho de Administração, e já lá se têm passado
umas coisas muito engraçadas, acredita?


Luís, 38 anos, Empresário.

- Luís, quando é que descobriu em si, pela primeira vez, as
tendências homossexuais, e em que circunstâncias é que as
descobriu?

- Não me lembro, desde sempre. Sempre soube, não posso
precisar uma data.

- Nem sabe em que circunstâncias?

- Não, isto é uma coisa que faz tanto parte de mim como os
meus pés, as minhas pernas, os meus braços, faz parte
integrante de mim.

- Portanto, não houve um momento na vida em que de repente
tivesse dado por isso?

- Não, de todo.


- Olhe, já agora, para si, homossexual ou homoerótico?

- Homossexual.

- Quer dizer que para si é uma questão basicamente sexual?

- Acho que não há que ter medo das palavras. A
homossexualidade caracteriza-se por uma apetência do indivíduo
por outros indivíduos do mesmo sexo, e na medida em que a
nossa sexualidade passa pelo erotismo... Parece que também não
desgosto da palavra homoerótico, mas francamente nunca tinha
pensado nisso, e a palavra homossexual também não me faz
cócegas nenhumas.

- Como é que você viveu a sua homossexualidade em miúdo, e
depois em adolescente?

- Eu tive a minha primeira experiência com oito anos. E a
razão pela qual eu lhe disse que não houve momento nenhum em
que eu tivesse percebido... tipo - Aha! - Foi porque me
lembro perfeitamente da sensação que tive de bem estar, de
belonging, que experimentei no momento em que tive essa
primeira experiência. Quer dizer, não houve nenhuma espécie de
"corrupção" por parte do outro, apesar de ser mais velho do
que eu; pelo contrário, houve um namoro pegado durante uma
quantidade de dias, o namoro foi perfeitamente recíproco, e eu
lembro-me da sensação de agrado, de bem estar, quando a coisa
se concretizou. Era aquilo que eu queria, era aquilo que eu
sentia...

- E a família?

- Bom, aí sim, houve problemas. Os meus pais souberam, aliás
fui eu que lhes disse. O meu pai não aceitou... Aliás eu acho
o meu pai um homossexual manqué, embora semelhante coisa nunca
lhe tenha passado pela cabeça, como é óbvio. Mas toda a vida
foi muito fraco, muito influenciável, e nunca foi capaz de
enfrentar os factos reais da vida, de maneira que tive grandes
problemas, principalmente com ele. Com a minha mãe, ela é uma
mulher muito esperta, e se não era uma pessoa tolerante, que
remédio, passou a ser. Mas andei muito tempo em médicos, em
psiquiatras, dos meus dezoito aos vinte anos corri oito
médicos diferentes, e todos eles disseram "Ele não está aqui a
fazer nada, ele está perfeitamente assumido, não tem nenhuma
doença"... De maneira que os meus pais estão fartos de saber,
é evidente, e hoje em dia é um assunto de que não se fala, mas
também não acho que os filhos heterossexuais andem por aí a
contar aos pais as suas aventuras de cama.

- Alguma vez apresentou os seus namorados aos seus pais?

- Ah, não, não, de maneira nenhuma.

- Nunca os levou lá a casa?

- Sim, mas nunca como meus namorados, sei lá, "É um amigo
meu". Quer dizer, eu toda a vida levei lá para casa montes de
amigos, de maneira que os namorados iam na onda. Aliás também

não foram assim tantos.

- E os seus pais não podiam saber quais é que eram os
namorados e quais é que eram os amigos, é isso?

- Não faziam a menor ideia, em geral desconfiavam quase sempre
dos errados, enganavam-se sempre. Eu só tive três casos
amorosos, e já lá vai algum tempo, era muito miúdo. Hoje em
dia o tipo de pessoas de que gosto são perfeitamente
inapresentáveis, não posso nem pensar em levá-los lá a casa.

- E raparigas? Namoradas, e assim...

- Credo! Não, estava a brincar, tive uma, estive quase para
casar, mas felizmente caí em mim a tempo. Mas estive quase
para casar com ela, assim muito à séria e tudo. Foi numa fase
que passei em que me recusava a aceitar a minha
homossexualidade, achava que tinha de ser igual a toda a
gente, mas felizmente a coisa não foi por diante, e ainda bem,
porque tinha sido uma desgraça.

- E sexo com mulheres?

- Tive, três vezes. A primeira vez foi conscientemente, para
saber como era. Eu tinha talvez os meus dezanove anos.

- E então? Foi giro? Foi traumatizante?

- Não, não, foi normal, acho eu. A segunda vez foi para ter a
certeza que não gostava. A terceira fui violado. Foi uma
mulher que saltou para cima de mim, eu estava num sofá, foi em
casa de uns amigos, e aquilo acabou em grande gargalhada,
porque caímos os dois do sofá abaixo, e a coisa ficou por
ali, felizmente.

- Quer dizer que não chegou a haver...

- Não, foi só um ameaço, e pronto, foram as minhas três
tentativas heterossexuais.

- Luís, a homossexualidade é uma característica com que se
nasce, ou é uma coisa que se adquire depois, por razões
sociais, familiares, etc?

- Bom, eu acho que isso é uma pergunta à qual ainda ninguém
foi capaz de responder... No meu caso, repare, eu acho que foi
inato. Admito que possam existir casos de pessoas que nascem
tarde para a homossexualidade, mas penso que já tem de haver
uma predisposição.

- Você acha que é um homem efeminado?

- Acho que não. Posso às vezes ter gestos, quando me apetece
fazer graça com isso, fazer aquilo a que se chama uma
"bichice" mas acho que não.

- E o que é que pensa dos homens muito efeminados?


- Cada um defende-se como pode e como sabe, não é? Quer dizer,
não é assim uma coisa que eu adore, mas dou-lhes o direito de
fazerem aquilo que lhes apetecer. Se eles se sentem bem assim,
acho que não tenho a ver com isso.

- E sexo em grupo?

- Acho que sim, que já fiz, mas já foi há tanto tempo, você
sabe que de há uns anos para cá as coisas têm de ser feitas
com muito cuidado, nós vivemos permanentemente com uma espada
de Democles em cima da cabeça, há coisas que hoje em dia são
perfeitamente impraticáveis. Houve muitos comportamentos, hoje
em dia chamados de risco, que tiveram de ser deixados para
trás, e esse é um deles. A época das saunas em que uma pessoa
ia para lá e fazia dez de uma vez, isso foi um tempo que
passou.

- O Luís tem medo da Sida, claro...

- Tenho, como toda a gente. Não tenho uma fobia, porque acho
que nós todos temos de morrer de alguma maneira, e que pela
boca morre o peixe, mas tento precaver-me. Evito fazer coisas
que possam ser situações de risco, e uma delas é o sexo em
grupo, está a ver, não dá... Antigamente, há quinze anos
atrás, a prática do sexo era uma coisa muito simples, mas hoje
em dia já não é assim. Até porque repare, eu tinha um irmão
bissexual, ele era uma pessoa que passava de um sexo ao outro
sem o menor dos complexos, e morreu com Sida, aliás morreu sem
saber se tinha apanhado de uma mulher ou de um homem... Isso é
uma coisa que me traz a mim uma dupla responsabilidade, quer
dizer, não é só em relação a mim próprio, é também em relação
aos meus pais, não posso correr o risco de eles repente
ficarem sem os dois filhos por causa da Sida, já chegou um...

- E protege-se...

- Eu fui falar com o meu médico e ele disse-me que o risco
realmente existe nas relações anais. Aí sim, porque faz sempre
sangue, a não ser aqueles que já estão tão habituados... mas
não é o meu caso. Esse risco é minimizado com o uso do
preservativo. Ora como eu odeio preservativos, a solução foi
arrumar o assunto, pronto, não faço. Quanto ao resto, quer
dizer, no sexo oral, há uma hipótese em mil milhões de se
apanhar. Ora eu não vou viver preocupado por causa de uma
hipótese em mil milhões, mais depressa sou atropelado, mais
depressa me cai um avião em cima da cabeça, não é? E se
acontecer, o que é que eu hei-de fazer? Agora não ando à
procura de situações de risco, isso é que eu acho uma coisa
inadmissível. A última vez que eu tive uma relação anal foi em
Nova Iorque, em 1982. Depois disso nunca mais. E também é uma
coisa de que nunca gostei extraordinariamente. Em toda a minha
vida foram muito poucas as situações em que tenha tido um
verdadeiro prazer anal.

- E sobre os bares Gay, o que é que me diz?

- Não digo nada, o que é que eu hei-de dizer? Eles existem, às
vezes lá vou tomar um copo, e pronto. É lá que encontro os

meus amigos, é lá que faço os meus engates, cada vez menos...

- E a prostituição homossexual? Alguma vez pagou a um homem?

- Credo! Tanta vez! Adoro!

- Não preferia que as coisas acontecessem de outra maneira?

- Não! Se eu entro numa pastelaria, e me apetece um bolo, eu
compro-o. Se me apetece um homem, e ele está à venda, óptimo,
poupa-me imenso trabalho, poupa-me imenso dinheiro, porque os
romances saem muitíssimo mais caros...

- Que maneira tão fria de ver as coisas...

- E ainda por cima tem outra vantagem óptima, que é o prazer
imediato, quer dizer, escuso de estar uma semana ou um mês à
espera que Sua Excelência se defina. Não, está ali, e assunto
arrumado. Toda a vida gostei muito.

- E quanto é que se paga?

- Bom, isso depende muito, vai de dois contos até cinco, seis,
vinte, trinta... eu sei de uma pessoa que um dia pagou trinta
contos a um miúdo só para se despir, não foi para fazer mais
nada. O miúdo chegou, despiu-se, esteve assim uns minutos,
pegou nos trinta contos, vestiu-se e foi-se embora, e isto
passou-se já lá vão uns anos, era bastante dinheiro. Por isso
repare, isto é a lei da oferta e da procura... eu pago, e acho
muito saudável. Hoje em dia o sexo para mim não tem conotações
emocionais, eu não gosto de ninguém, quer dizer, não estou
apaixonado por ninguém, o sexo é só uma questão de satisfação
física. Ora a satisfação física, se posso tê-la com o tipo de
pessoa de que eu gosto, e sem grandes problemas, encantado da
vida, radiante, não me traz nenhum tipo de complicações.

- É curioso, isso é uma óptica extraordinariamente masculina
da sexualidade, porque geralmente a óptica feminina é aquela
que obriga ao romance, àquela parte emotiva, ao "gosto tanto
de ti", ao "diz-me baboseiras"...

- Pois, eu não tenho muita paciência para essas coisas.

- Quer dizer, se lhe aparecesse agora um rapaz que lhe
dissesse "Adoro-te, estou louco de apaixonado por ti..."

- Bom, acho que começava por levá-lo ao manicómio, porque ele
não devia estar bem da cabeça...

- Porquê?

- Porque, sejamos realistas, já não há disso...

- Quer dizer que hoje em dia já não há amor? As pessoas já não
se apaixonam?

- Acho que não. Pelo menos a nível homossexual, entre homens,
há muito pouco. Estamos num mundo que não tem lugar para essas

coisas. Não temos em Portugal nem apetência nem condições para
nada disso.

- Quer dizer, não lhe apetecia assim um romance, sei lá,
daqueles em que as pessoas voltam a ser adolescentes...

- Repare, todos nós temos um côté piroso que nos leva a pensar
que o romance cor de rosa é que é bom, e que de repente nos
aparece o príncipe encantado que pega em nós e pronto, "vamos
dançar por esse mundo fora". É possível que eu também tenha
isso cá no subconsciente, mas a frio digo-lhe que não tenho
paciência nenhuma para essas coisas.

- Ou será que não acredita muito, porque de repente as coisas
acabam, e depois ainda se fica pior?

- Pois, se calhar também é isso. Como lhe disse só tive três
casos. O primeiro foi violentíssimo, de maneira que fiquei
logo vacinado contra essas coisas. O segundo foi mais ou
menos, e quando aconteceu o terceiro eu já sabia o que é que
tinha a esperar. Repare, quando eu quero estar bem, a
conversar, tenho um leque de amigos enorme, e estupendo. Só
que eu não vou para a cama com os amigos. São amigos que eu
estou farto de ver a fazer engates ao meu lado, que me fartava
de ver todos nus a fazerem tudo quanto há nas saunas ao meu
lado, sei o corpo deles de uma ponta à outra, que picante é
que acha que isso tem? Acho que tínhamos o maior ataque de
riso da nossa vida. Portanto, quando quero companhia tenho os
meus amigos. Quando quero sexo é muito fácil, vou até um bar,
ou vou até ao Parque, e consigo separar as coisas muito bem.

- Esses rapazes prostitutos, tem-se um bocado a ideia de que
são tropas...

- Não, hoje em dia já não. Antigamente os tropas eram rapazes
que chegavam a Lisboa completamente desasados, não sabiam onde
é que haviam de cair mortos, davam-lhes 2$50 por dia, acho que
era esse o ordenado que recebiam, de forma que havia disso por
aí aos pontapés, mas eu não considero que isso fosse
propriamente prostituição, prefiro chamar-lhe sobrevivência.
Hoje em dia há prostituição realmente assumida, mas
infelizmente é sobretudo por causa da droga. É claro que
também há homens de trinta anos que se prostituem, mas é raro.
E depois também há aqueles que gostam e não querem assumir que
gostam, estou-me a lembrar de um, uma vez, que me dizia "Tu
tens de me pagar. Nem que sejam vinte escudos, mas tens de me
pagar". Pelo menos assim ninguém podia dizer que ele tinha
feito a coisa pelo gozo, tinha sido por dinheiro, está a ver?
De outra vez eu estava na cama com um marinheiro, nos tempos
gloriosos, e eu estava em cima dele, a fazer o que tinha para
fazer, e de repente ele volta-se para mim, lá de baixo, e
sai-se-me com esta "sabes, eu para me excitar tenho de pensar
em mulheres". Acho que nunca me ri tanto na minha vida.

- Olhe, Luís, e o que é isso dos activos, e dos passivos, isso
é verdade? É um bluff?

- Antigamente era muito verdade, sobretudo cá em Portugal.

Hoje em dia vai sendo cada vez menos. Porque repare, Portugal
é um país de bissexuais que não se assumem a maior parte
deles, mas que o são na realidade. É a nossa herança
mediterrânica. Antigamente o homem português adorava ir para a
cama com bichas, desde que fizesse o papel de homem. "Ho ho
ho!", batia no peito, e dizia "Eu sou activo, eu só faço não
sei quê". Mas esse género desapareceu, esse tipo já não há.
Havia uma fronteira muito bem definida entre o passivo e o
activo. Os activos eram eles, que faziam o favor de vir para a
cama connosco, e os passivos éramos nós, que tínhamos de
aguentar tudo o que eles quisessem. Nós os mediterrânicos
somos todos profundamente bissexuais, acho que é a influência
árabe. Em circunstâncias propícias, duvido que haja algum
português que não tenha já tido experiências homossexuais.
Basta estarem fechados num quartel, ou num convento, ou numa
prisão, ou num colégio só de rapazes. Ou mesmo sem isso, basta
acontecer um momento em que estejam predispostos. E aliás é o
que está certo. Eu acho tão errado uma pessoa ser
heterossexual a 100% como homossexual a 100%. Acho que o ideal
é a pessoa cumprir aquilo para que nasceu, e desfrutar do
sexo, com letra grande. Contra mim falo, porque eu não me
deito com mulheres, mas é agradável das duas maneiras, não há
razão nenhuma para as pessoas se virarem só para um dos lados.
Portanto o latino, ou mediterrânico, é profundamente um ser
sexual, e um ser sexual deve ter sexo com o que lhe apetecer.
Há os pastores que têm com as ovelhas, com as cabras... Há uns
tempos vi uma peça de teatro muito engraçada, em Londres, em
que há este diálogo "Desculpe a pergunta, but have you ever
had sex with small animals?" "Define small..."

- Eu estou a pensar no que é que os heterossexuais que lerem
este livro vão pensar... Vão pensar que está tudo doido...

- Porquê? Eu acho que eles vão pensar... vão-se lembrar que
também já fizeram das deles... e vão fazer a parte que não é
nada com eles, ou então vão dizer que é tudo mentira. Eu acho
que muito poucos... A não ser que sejam muito religiosos, aí é
possível que tenham sublimado, ou que sejam assexuados, que
também há... Mas em relação aos outros eu acho que não há
quase nenhuns, sobretudo hoje em dia, que nunca tenham
experimentado. Outro pormenor curioso, e que eu ainda não
consegui perceber porque é que acontece, é que os homens,
quando vão ver filmes pornográficos, estão sempre à espera que
haja uma cena de Lésbicas, e adoram, por muito ridícula e
artificial que seja. Quando há cenas entre dois homens ficam
completamente hirtos na cadeira e não acham graça nenhuma, de
repente parece que perdem todo o à vontade. São os mistérios
insondáveis da mente masculina. Sabe que a criatura homem vive
obcecada com o sexo, desde que se levanta até que se deita. O
homem vive em função do sexo, e por outro lado os ambientes
masculinos, e isto ao longo da história, sempre atrairam
pessoas com fortes tendências homossexuais. Os exércitos, os
conventos, os colégios internos, as prisões... E ao mesmo
tempo também foram sempre os maiores viveiros de homossexuais,
e isto é um circulo vicioso, vão para lá porque têm tendências
homossexuais, e já que lá estão praticam a homossexualidade,
e depois começam a procurar coisas cada vez mais kinky, que há
dez ou vinte anos atrás nunca lhes passariam pela cabeça, e

isso conduz inclusivamente ao sadismo e ao masoquismo.

- Já teve experiências sado-masoquistas?

- Muito poucas. Eu acho que todos nós temos uma faceta
sado-masoquista, mas a minha é muito pequena. Mas a propósito
de sadismo, e voltando à questão dos exércitos, os rapazes
que chegaram a África entre 1962 e 1974 de repente eram
instintos sexuais à solta, sem nenhuma espécie de auto
controle, de forma que tanto davam largas a uma crueldade
tremenda, como praticavam a homossexualidade, como violavam
mulheres negras, até porque há uma outra coisa, é que o
indivíduo está em situação de risco de vida, e pensa: "deixa
cá fazer tudo o que me der na cabeça, porque se calhar amanhã
já não estou vivo, ao menos não morro estúpido".

- Há bocadinho, e a propósito da posição dita passiva, disse
"tínhamos de aguentar". Quer dizer que o papel passivo é um
papel desagradável? Doloroso, ou pelo menos desagradável ao
nível psicológico?

- Não, não, não, de todo. O que eu quero dizer é que não havia
contrapartidas. Hoje em dia, homossexual passivo e activo são
designações que já não fazem sentido, eu por mim não recuso
coisa nenhuma, só não faço uma ou outra coisa porque tenho
medo, nos tempos que correm, mas é só por isso. É claro que há
umas coisas de que gosto mais do que de outras, mas pronto...
Mas aqueles homens que eram bissexuais, que iam para a cama
com mulheres e também iam com homens, mas que se recusavam a
fazer o papel passivo, isso é uma coisa que hoje em dia já não
se usa. Os machos latinos já se deixaram dessas coisas.

- E travestis, já fez?

- Fiz uma vez só, no Carnaval. Eu não quero ser mulher, de
maneira nenhuma.

- Quer dizer que se pudesse mudar de sexo...

- Ai, não, de todo!

- E se pudesse mudar para heterossexual?

- Aos vinte anos talvez tivesse mudado. Hoje em dia não. Até
porque repare, eu hoje considero um privilégio ser
homossexual.

- Explique lá isso melhor.

- Sabe, a sensibilidade homossexual dá-nos acesso a uma vida
interior e exterior que a maior parte das pessoas não tem.
Dá-nos uma liberdade íntima que a maior parte das pessoas nem
sequer sonha que existe.

- E filhos? Gostava de ter?

- Não, de todo. Não tenho nenhum instinto de reprodução. Nem
tenho paciência nenhuma para aturar criancinhas.

- Mesmo quando são bem educadinhos, e não berram nem gritam?

- Mesmo assim, são muito engraçadinhos mas lá no cantinho
deles e eu no meu. Gosto de animais. E também acho que o mundo
está super povoado, passa muito bem sem os meus genes. Eu sou
o último de quatro famílias diferentes, que acabam comigo.

- E isso não lhe diz nada?

- Nada.

- Olhe, e uma noção de pecado ligada à sua sexualidade, alguma
vez teve?

- Ah, sim, eu fui muito religioso, por volta dos meus catorze,
quinze, dezasseis anos, e foi muito difícil ao nível
religioso, porque eu era muito católico, muito crente, e a
coisa foi perfeitamente trágica. Tive muitos problemas, tudo
aquilo era um pecado, era mais do que um pecado, era uma
violência contra tudo aquilo em que eu acreditava. É claro que
fazia, nunca me coibi, nem por um segundo, sabe como é, a
carne é fraca, e a minha então é fraquíssima... Agora tive
grandes problemas, mas grandes mesmo. Só que depois entrei num
processo de ruptura total com a Igreja, e hoje em dia sou
completamente agnóstico, não acredito em Deus, não acredito em
nada, nada, nada, absolutamente nada. Acho que... como diz o
Sagan, "Nós somos o produto do pó das estrelas."

- Não acredita na existência de uma alma, na reencarnação...
olhe, alguma vez consultou uma bruxa?

- Fui uma vez no Brasil a uma Mãe de Santo, por curiosidade.
Por acaso teve muita graça, porque eu entrei na sala, ela
deitava búzios, e a primeira coisa que me disse foi o dia do
meu nascimento, sem me conhecer de lado nenhum. Eu fiquei
espantado. Mas não, não acredito. Acho que o pensamento é um
processo químico. No momento em que esse processo químico
deixa de se fazer, não existe mais nada. Não acredito, mas
tenho pena.

- E com a Polícia, nunca teve problemas?

- Não. Já tive foi vários Polícias na cama, mas problemas
assim de ser apanhado, e isso, nunca tive. Fui sempre bastante
cuidadoso. Quer dizer, eu vou muito ao Parque, mas vou de
carro.

- Olhe, e nunca teve medo que um desses fulanos lhe desse uma
facada?

- Sabe que há sempre um factor de risco, mas eu sou muito
cuidadoso. Não levo anéis, nem relógio, nem o fio, levo só o
dinheiro indispensável, eles vão-me dar uma facada porquê? Por
causa de mais um conto de reis ou dois? Além disso só meto no
carro, ou pessoas que eu já conheço ou que... Veja uma coisa,
esse tipo de perigo vem sobretudo dos miúdos, por causa da
história da droga, e eu não gosto de miúdos, gosto é de
homens, e um homem de vinte e oito, trinta anos, já pensa de

outra maneira, não me vai espetar uma faca porque quer um
conto de reis. Enquanto que um miúdo que está desesperado por
ir comprar uma dose já é capaz de fazer isso, portanto eu
nesse aspecto tenho muito cuidado. E também nunca levo gente
para casa. Quer dizer, já levei, mas contam-se pelos dedos das
mãos. Não quero correr o risco de ter alguma chatice. Nesse
aspecto, tento proteger-me. Para além disso, outra coisa
importante é que eu não tenho medo. Há uma coisa só de que
tenho medo, é a garrafa partida com os cacos de vidro
apontados; agora facas, pistolas e isso, não tenho medo. Já
tive uma faca apontada, e não tive medo. Sou inconsciente, sou
doido, se quiser, mas não tenho medo.

- Olhe, e o que é que me diz daquela história da fixação no S.
Sebastião? Até o Mishima fala disso...

- O Mishima era chanfrado.

- E para acabar, tem alguma história engraçada que queira
contar?

- Houve uma vez uma gira que se passou comigo há mais de vinte
anos. Isto aqui em Portugal ainda era um cantinho muito
sossegado, e eu não fazia a menor ideia de como é que as
coisas se passavam lá fora, e cheguei a Amsterdão, onde há
aquele parque muito famoso, o Vondle Park, que foi legado à
cidade por uma família muito rica com a condição de nunca
fechar, dia e noite, de maneira que... Maravilha, não é? Há lá
um cantinho que aquilo é um ver se te avias. Ora eu estava lá
muito bem no meio dos arbustos, e de repente chegou um carro
da Polícia, parou, apontou os faróis para o sítio onde sabia
que nós estávamos, os Polícias saíram e disseram qualquer
coisa. Eu tinha dezoito anos, tinha vindo de Portugal, fiquei
aterrado... "Saio daqui preso", pensei eu. Mas eles meteram-se
outra vez dentro do carro, e foram-se embora. Eu estava com um
rapaz holandês e perguntei-lhe o que é que os Polícias tinham
dito, e então ele lá me traduziu "Vá, meninos, está muito
frio, tudo para a cama, tudo para a cama!"

- Olhe, relativamente aos outros países da Europa, e aos
States, acha que Portugal está atrasado? Portugal é um País
hipócrita?

- Sim, claro, porque na Grécia apesar de tudo há uma herança
cultural que eles mais ou menos tentam assumir, só na Irlanda
é que ainda é pior do que cá. Porque lá fora as pessoas saem
para a rua, fazem desfiles, mostram que existem. Em Portugal
toda a gente se fecha, é o estigma do catolicismo. Começa por
ser falta de liberdade interior... Mas olhe que lá fora as
pessoas que fazem essas paradas também têm uma mentalidade
tremenda, uma mentalidade de ghetto, às vezes não sei se não
são um bocado doentios.

- E em relação àqueles pais que de repente descobrem que têm
um filho pequeno que é homossexual? Como é que eles deverão
reagir, e no caso do filho, o que é que ele deverá fazer em
relação aos pais, se for descoberto, ou se sentir necessidade
de falar com eles sobre o assunto?

- Bom, eu acho que um pai que tem uma reacção negativa, que
põe o filho fora de casa, ou que lhe dá uma sova... De
qualquer maneira para mim é sempre uma pessoa muito mal
formada, porque acho que não há razão nenhuma que justifique
que se ponha um filho fora de casa, de maneira que eu aí não
sei aconselhar uma pessoa que à partida eu considero que é mal
formada. Francamente não sei, não estou a saber responder.
Nunca pensei no que é que teria de dizer a um pai ou a um
filho numa situação dessas, não faço a menor ideia, deixe-me
pensar... Acho que não vou responder directamente, vou só
dizer uma coisa: Uma das maiores qualidades que um ser humano
pode ter é a tolerância. Nós temos todos de aceitar as
diferenças que existem entre nós, por isso o que eu posso
dizer, tanto aos pais como aos filhos, é que numa situação
dessas, que não pode deixar de ser incómoda para ambos, a
única coisa que há a fazer é ser tolerante de parte a parte.
Mas uma tolerância sentida e profunda. É a única maneira de as
coisas se resolverem. Estou-me a lembrar de um fulano que eu
conheço, da minha idade, tem menos um ano do que eu, que pôs
na rua o filho de dezasseis. E pronto, o miúdo anda por aí, às
vezes parece que dorme em casa de uma tia, enfim... Agora o
que eu não percebo é como é que um indivíduo de trinta e oito
anos ainda pensa assim. Cá está, há gente para tudo, é a tal
história da intolerância.

- E outras histórias engraçadas, não tem?

- Tenho tantas... Olhe, estou-me a lembrar de uma que
aconteceu uma vez, era um amigo meu que os pais tinham uma
casa fora de Lisboa, e às vezes não iam para lá, e então ele
às vezes convidava assim um grupinho, éramos praí uns quinze
ou vinte, e então ia tudo para lá, e fazíamos grandes
esparguetadas, e então uma vez resolveram ir ao armário da mãe
dele, e pegaram nas roupas, e toca de vestirem os vestidos, os
sapatos de salto alto, as pulseiras, os colares e mais não sei
o quê, até uma touca de banho que era uma peruca de nylon cor
de rosa toda aos caracóis, e vá de fazerem uma passagem de
modelos. Aquilo era uma casa com dois andares, e então vinham
pela galeria, e depois desciam a escada, assim com um ar de
grandes ladies, e depois no melhor da festa chegaram os pais
dele, até foi a mãe que entrou à frente, coitada, ia tendo uma
coisa! Até ficou sem fala! Ainda hoje deve achar que teve uma
alucinação.

- E depois?

- Então, depois tiraram-lhe a chave da casa.

José Carlos Tavares, 31 anos, Activista Gay.

- José Carlos, por favor sinta-se à vontade para dizer aquilo
que quiser.

- Sabe que eu falo sempre da homossexualidade como uma
questão, nunca como um problema, porque a homossexualidade não
é um problema. É uma questão como outra qualquer, só passa a
ser um problema quando as pessoas têm problemas. Mas como nós
somos uma sexualidade ainda marginalizada, acabamos por ter

problemas porque somos condenados a viver em ghettos, e esse
sim, é um problema muito grave.
Outro dos grandes problemas da nossa sociedade é pensarem que
os homossexuais vivem apenas para o sexo. Acham que somos
seres somente sexuais, não percebem que os homossexuais também
são seres amorosos, são seres que se apaixonam, e é porque não
percebem isso que eles nos catalogam como pessoas viciadas no
sexo. É claro que há homossexuais que estão desencantados com
o amor, isso existe em todas as sexualidades, mas esse é um
fenómeno que não pode ser generalizado.
Eu trabalho com um grupo, que é o GTH (funcionamos em Lisboa,
na Rua da Palma 268, o prédio tem duas palmeiras na frente),
trabalho com muitos Gays e Lésbicas, e acho que em primeiro
lugar somos pessoas. Em segundo lugar temos a nossa opção
sexual. Não é o facto de sermos homossexuais não faz de nós
pessoas melhores ou pessoas piores, há de tudo como em todas
as sexualidades. Não sou um criminoso nem sou um santo. Como
pessoa que sou, posso ter é melhor formação ou pior formação,
agora o que acontece é que a sociedade nos obriga a
comportarmo-nos como se fossemos esquizofrénicos, porque nos
obriga a assumir uma dupla personalidade. Por um lado temos a
família e o emprego, e temos de assumir um comportamento muito
"certinho", e depois temos uma outra personalidade "debaixo do
pano", como dizem os brasileiros, que só podemos revelar aos
mais íntimos, e isso é horrível.
Em relação a uma instituição como a Família, nós sabemos que
ela é apoiada por políticas muito conservadoras, pelas igrejas
e pela moral judaico-cristã que existe ainda hoje, mas também
sabemos que o cristianismo nem sempre viveu com estes valores,
e muito menos com os valores que este Papa agora defende. É
claro que há o Pentateuco, onde são feitas várias censuras à
homossexualidade, mas depois temos o Rei David que tem um
amigo a quem diz "Amei-te mais do que o amor de todas as
mulheres". Portanto ele no mínimo terá sido bissexual. Também
há as Epístolas de Paulo, mas Paulo era um romano arrogante e
recém convertido ao cristianismo, e ainda por cima homófobo,
se calhar até sexófobo, para além de que nunca na vida dele
conheceu Jesus Cristo, (bem feita!) e não conseguiu, não teve
capacidade, não foi capaz de compreender a essência da
mensagem do Mestre que seguiu, e a prova disso é que as
posições que tomou nem sequer têm nada a ver com aquilo que
foi o verdadeiro pensamento de Jesus Cristo. Paulo entendia
que os homossexuais não herdariam o Reino dos Céus, quando
Jesus Cristo, ele próprio, nunca disse uma única palavra que
fosse contra a homossexualidade. Jesus Cristo disse "amai-vos
uns aos outros", sem fazer qualquer espécie de discriminação,
e inclusive Amou João, e a prova disso é que deixou a sua mãe
ao cuidado dele. Lá fora, por exemplo, há grupos homossexuais
que são apoiados por Rabis, ou Padres, ou Pastores, conforme
as Igrejas, e até há uma Igreja que é a Igreja Metropolitana,
que foi criada por Gays e Lésbicas que acreditam em Deus, e
acreditam nos princípios cristãos. Esta Igreja Metropolitana
funciona nos Estados Unidos, e agora também já está em
Inglaterra e na Holanda. Houve agora uma conferência com a
ILGA, que é a International Lesbian and Gay Association, esta
conferência foi feita no Rio de Janeiro, e eles levaram um
pastor dessa Igreja, e foram inclusivamente celebrados vários
casamentos.

- Quer dizer que o José Carlos é a favor do casamento entre
homossexuais?

- Eu não não concordo com o casamento nem sequer para os
heterossexuais, porque entendo que a vida afectiva das pessoas
não tem que passar pela assinatura de um contrato, mas é
preciso pensar na questão das heranças, nos direitos civis, e
outras questões muito práticas que não deixam de ter também
alguma importância. Eu sei de casos de casais de homossexuais
que viveram juntos uma vida inteira, e trabalharam juntos para
um património comum, e depois um deles morreu e os pais do
outro atiraram-se à herança como abutres, e só não levaram o
que não puderam. Num dos casos até tinham expulso o filho de
casa há vinte anos atrás, e nem nunca mais o tinham querido
ver. Mas a Lei é a Lei, e mesmo fazendo um Testamento há
sempre uma parte que é obrigatoriamente herdada pelos pais,
para além dos direitos de transmissão, que entre não-cônjuges
são elevadíssimos, e a única forma de se contornar esta
situação é as pessoas irem a um notário, fazerem uma
procuração em que o indivíduo pode vender os bens pertencentes
ao outro, pode vendê-los até a si próprio, procurador, e por
um preço simbólico se assim o entender, e esta procuração é
válida também em caso de morte, mas isto é claro, é preciso
muito cuidado, só se pode fazer com alguém em quem se tenha
uma confiança absoluta, porque é o mesmo que uma pessoa pôr os
seus bens todos no nome da pessoa com quem vive. Se a ligação
acabar e a outra pessoa for desonesta pode ser um problema
muito complicado. E depois há outras questões: se a minha
união com o meu companheiro estiver legalizada, e ele estiver
doente eu tenho o direito de ficar em casa a prestar-lhe
assistência, e se ele estiver num hospital eu posso ir vê-lo
na qualidade de cônjuge. Se a minha união não estiver
legalizada, os médicos podem, pura e simplesmente, barrar-me o
acesso até junto dele, e isso pode tornar-se uma situação
verdadeiramente dramática, sobretudo nos últimos momentos.
Mas voltando à questão religiosa, o meu conceito de Deus
implica uma certa consciência, individual e colectiva, porque
eu, até atingir o conceito que faço de Deus, que são estas
árvores que nós temos aqui à volta, somos nós, que estamos
aqui a conversar, é este ar que nós estamos aqui a respirar,
até eu conseguir compreender tudo isto sofri um bom bocado,
mas hoje consegui harmonizar a minha vida com a natureza,
respeitando-a e não a destruindo.
É claro que nada disto tem nada a ver com aquilo que pensam os
católicos, por exemplo, que acham que vai chegar aí um Deus
que vai castigar os maus e vai levar os bonzinhos todos para o
céu, e ainda por cima os bonzinhos são os que obedecem ao
Papa, e não usam preservativo, e depois a carne é fraca, não
é, de maneira que muitos deles acabam por ser infectados pelo
vírus da Sida, e o Deus dos católicos deve ficar todo
contente, porque é um Deus vingativo e mau, só que este Deus
dos católicos não é o Deus de quem Jesus Cristo nos falou, que
é um Deus de compreensão e de amor, que não faz discriminações
nem exclui nenhuma pessoa.
E não se pense que são só os católicos. Os protestantes, os
judeus, os jeovás, essas igrejas novas que há agora por aí,
todos eles são igualmente intolerantes.
Nascer homossexual no fundo é uma coisa tão simples e tão

natural como nascer com aptidão para a arte, ou para a música,
ou para máquinas, ou para jardinagem. As pessoas é que fazem
um bicho de sete cabeças, porque quando andaram na escola
ensinaram-lhes muitas historinhas da História para glorificar
os heróis heterossexuais e para empolar os romances
heterossexuais, mas esqueceram-se de lhes contar, por exemplo,
que o nosso D. Pedro, o D. Pedro da D. Inês, mandou capar um
"amigo" que tinha porque tinha tido relações com outro homem.
Os americanos, outros tremendos hipócritas, dizem que a Sida
veio dos três grupos com H, os Haitianos, as Hookers e os
homossexuais. Esquecem-se do H dos heterossexuais.
Os preservativos, como nós sabemos, são supostos proteger um
número tão grande quanto possível de pessoas, não é? Mas não
há uma única marca que traga dois rapazes na embalagem. É esta
a sociedade em que vivemos.
E depois nós também esquecemos que os hábitos dos povos também
são muito variáveis. Nós sabemos que no Norte de África, e não
só, noutros Países, em África, no Médio Oriente, no Extremo
Oriente, os homens andam na rua de mãos dadas, e não se
assumem como homossexuais. Mas até podem nem o ser, há
temperamentos mais afectuosos, há hábitos culturais,
diferentes e não é andarem de mãos dadas que faz deles
homossexuais, podem sê-lo ou não o ser, isso é um fantasma que
está na cabeça das pessoas, as pessoas têm uma palas, como os
burros, e pronto, não vêem mais nada para além daquilo.
E outra coisa que eu também acho é que se houvesse vontade
política por parte dos Partidos Institucionais, mesmo aqueles
que são homófobos e têm homossexuais lá dentro, para já não
falar da Igreja Católica que também os tem, e devem ser mais
do que se julga. Eu acho que se houvesse vontade política,
todos estes problemas se tornavam de fácil resolução. Por que
motivo não existe essa vontade política, eu gostava de saber.
Se calhar é porque também há muitos políticos com receio da
sua própria homossexualidade.
E é esta, a nossa situação. Encontramo-nos nos bares, quando
temos casa podemos levar o namorado para casa, mas quando não
temos casa, que é a situação da maioria dos jovens, e vivemos
em casa dos pais, já é muito mais difícil, porque os jovens
não têm autonomia económica, vivem de uma mesada, que nunca é
muito grande, portanto não têm casa, também não podem levar o
namorado para casa dos pais, portanto não podem viver
livremente a sua sexualidade, mas isto não se aplica só aos
jovens homossexuais, isto abrange também heterossexuais e
bissexuais. E tudo isso traz às pessoas uma insegurança muito
grande, porque se privam constantemente da vivência da sua
afectividade, o beijo, o abraço... e quem reforça também muito
esta situação e reprime muito as pessoas são as instituições,
a Igreja, a Família, enfim.
Eu próprio passei por uma situação muito complicada, fui
expulso de casa quando era muito miúdo, tinha dezassete anos.
Fui apoiado por um casal Gay, dois amigos que me receberam em
casa, deram-me todo o apoio possível, fui assim uma espécie de
filho deles, depois lá consegui arranjar um emprego, e depois
houve uma tentativa de reaproximação por parte da família, e
eu então nessa altura pus as minhas condições, e acho que é
assim que todos devem fazer.
Os jovens devem lutar, devem procurar emprego, uma forma digna
de subsistência, estudar à noite, se puderem, e mostrarem que

conseguem vencer apesar da estupidez da sociedade. Eu consegui
ultrapassar tudo isso, hoje tenho uma boa relação com toda a
minha família. Eles respeitam-me, a mim e ao meu companheiro,
às vezes fazem perguntas, querem saber, conversamos
abertamente sem tabús de espécie nenhuma.
Acredito que se eu consegui sair vencedor desta luta tão
difícil, os outros jovens homossexuais hão-de consegui-lo
também.

Pedro, 27 anos, Empregado de Comércio.

- Pedro, quando é que descobriu pela primeira vez as suas
tendências homossexuais, e em que circunstâncias?

- Eu acho que desde muito cedo que senti que tinha tendências
homossexuais, mas é engraçado que só muito tarde, aos vinte e
dois anos, é que eu tive a minha primeira experiência, e mais
engraçado ainda é que só a tive porque pensava que havia de
casar, e ter filhos, mas que não havia de casar sem ter uma
experiência daquilo que sentia. Era para ser só uma
experiência de uma noite e mais nada, mas acabei por gostar, e
pronto.

- E como é que você viveu isso na infância e na adolescência?

- Bom, isso é um bocado difícil de responder, porque nunca
houve assim um contacto sexual com outra pessoa, eu só me
masturbava, e os heróis da minha masturbação eram homens, não
eram mulheres.

- Mas eram o quê? Heróis da banda desenhada, tipo Tarzan e
assim?

- Não, eram pessoas reais, que eu conhecia, que eu via na
rua... mas penso que também houve em mim uma outra coisa que
foi fundamental: eu vivia numa quinta, e até havia mais um
quarto lá em casa, mas eu e os meus irmãos, éramos três
rapazes, dormíamos todos no mesmo quarto, e foi assim que
aconteceram as primeiras brincadeiras com o meu irmão mais
velho. Não foram propriamente traumatizantes, mas nunca mais
me esqueci. O meu irmão casou, tem filhos, e nunca mais
voltámos a falar no assunto, mas ainda hoje é aquele com quem
tenho uma relação mais fria.

- E a família?

- A minha família nem sonha. Quer dizer, no fundo devem
desconfiar, mas nunca me falaram no assunto. A minha mãe uma
vez disse-me que achava que o meu amigo, este meu amigo que
vive comigo, era muito esquisito, mas andam-me sempre a
chatear, a perguntar quando é que eu caso, e essas coisas
assim, e para mim é um bocado problemático. Sinto que estão
sempre à espera que eu apareça com uma namorada, e são muito
hipócritas, e fazem imensa chantagem.

- Pedro, nasce-se homossexual, ou é uma coisa que se adquire
com o tempo?


- Eu penso que... eu acredito muito na ciência, a ciência hoje
em dia diz que é genético, e eu acredito que é genético,
embora nalguns casos seja uma coisa adquirida, mas essa não é
a homossexualidade verdadeira. Eu acho que nós temos de
distinguir vários tipos de homossexualidade. De facto existe a
homossexualidade genética, e depois há factores sociais e
culturais que aniquilam um pouco essa tendência. Ela está
sempre presente, está latente, mas às vezes só muito tarde é
que a descobrimos, alguns se calhar nem nunca chegam a
descobri-la. Depois há os casos dos pederastas, homens feitos
que saem à noite e andam atrás de miúdos, e depois há um outro
tipo de homossexualidade que é adquirida. São rapazes que
convivem com pintores e actores, e gente do mundo artístico, e
ficam fascinados, e tornam-se homossexuais por causa disso.

- E relações com mulheres? Que tal?

- Eu só tive duas relações com mulheres. Uma mais ligeira e
uma outra mais profunda, mas não cheguei a ter relações
sexuais propriamente ditas. Fazíamos só umas brincadeiras, mas
eu gostava, ficava muito excitado.

- E filhos? Nunca teve pena de não ter filhos?

- Na altura, se eu depois não tivesse realmente pensado melhor
na minha condição, e naquilo que eu sentia, era capaz de me
ter deixado levar um bocado pelas circunstâncias sociais,
religiosas, culturais... eu hoje era capaz de estar casado e
pai de filhos.

- Portanto você tem algum instinto paternal?

- Todas as raparigas que eu conheci disseram que eu daria um
bom pai e um bom chefe de família. Acho que sim, que tinha
condições para ser um bom pai, porque gosto muito de crianças,
mas hoje em dia não me parece já que venha a ter filhos.

- Pedro, você é um homem efeminado?

- Considero-me um homem feminino, não efeminado. Talvez
interiormente eu seja mais meigo que a maioria dos homens,
mais doce, mas exteriormente acho que não tenho trejeitos, nem
tento imitar a mulher, porque sou um homem, e gosto de me
sentir homem, de sentir o meu corpo tal como ele é. Não vejo
porque é que um indivíduo, lá porque é homossexual, há-de
andar aos gritinhos e a fazer-se de mulher.

- Pedro, você se pudesse mudava de sexo?

- Não, não mudava de sexo nunca. Aliás não aceito muito bem os
travestis. Tento compreender mas não gosto.

- E se pudesse passar a ser heterossexual? Queria?

- Não, para quê? Eu também posso ser heterossexual, eu posso
ser aquilo que eu quiser, não é? Não sou heterossexual porque
não quero. Eu tenho uma atitude muito discreta, não ando por
aí com um rótulo na testa. Consigo viver sossegado, uma vida

normal, sem ninguém me chatear. Mas também acho que se nós
tivéssemos uma varinha mágica, e a toda a hora e a todo o
instante nos pudéssemos transformar, aí nós havíamos de ser
muita coisa!

- E homens? Muitos?

- Experiências sexuais com homens? Eu sou muito reservado, e
só conheci duas pessoas. Foi um amigo que tive no passado e
aquele com quem vivo agora. Porque eu tenho uma maneira
diferente de pensar, e de ser, e de estar, e penso que não é
nenhum pecado, nem nenhum crime, nem nada, mas também não é
preciso andar por aí a caçar dúzias de homens, e acho que sei
ser, e sei estar, e também é por isso que não tenho problemas
com a sociedade.

- E sexo em grupo?

- Não, nunca fiz. Acho que isso faz parte da adolescência, e
como eu na adolescência não tive oportunidade de fazer, também
não é agora que vou fazer. Em adolescente houve muitos rapazes
com quem me apeteceu estar, mas devido ao meio onde vivia, que
era um meio muito fechado, nunca tive esse tipo de aventuras.
Hoje em dia também já não as teria, mas houve muitos rapazes
com quem eu gostava de ter estado.

- E dos rapazes prostitutos, o que é que me diz?

- Bom, se eu quiser pôr as coisas em termos filosóficos, eles
têm o direito de se vender, como têm o direito de cortar uma
perna, mas eu pessoalmente, com todos os meus preconceitos,
todas as minhas crenças, tudo aquilo que me limita, não
aceito, e nunca iria com um prostituto ou com uma prostituta,
acho que não me sentiria bem, que não seria capaz de fazer
nada. Deve ser uma situação muito fácil, para aquele que vende
e também para o que compra, porque não têm aqueles problemas
morais, sei lá, a pessoa que está ali não é um ser humano, é
como se fosse um boneco.

- Pedro, e práticas sexuais? O que é essa história dos
homossexuais activos e dos passivos? É verdade?

- Eu acho que isso dos activos e dos passivos é uma treta. As
pessoas adaptam-se, e pronto. E também não sou uma pessoa com
uma grande actividade sexual.

- E da Sida? Tem medo?

- Sim, claro. Eu só tenho sexo com o meu parceiro, e tenho
confiança nele, e por isso não uso preservativo, mas tenho
medo, como toda a gente.

- E travesti, já fez algum?

- Não. Só quando era miúdo, no Carnaval. Podia vestir-me de
mulher como podia vestir-me de outra coisa qualquer. Lembro-me
de uma vez no Carnaval, eu devia ter os meus dez, onze anos,
em que vesti uma saia da minha mãe, e gostei da sensação da

saia a bater-me nas pernas.

- E uma noção de pecado? O Pedro acha que há um Deus que mais
tarde lhe vai pedir contas da sua vida sexual?

- O pecado existe, durante um tempo eu pensei que estava a
cometer um pecado, e durante toda a minha adolescência tive
medo do julgamento de Deus, e se calhar até foi por isso que
não me assumi mais cedo, mas não estou arrependido, porque o
facto de só ter experimentado pela primeira vez aos vinte e
dois anos fez com que eu fosse aquilo que sou hoje, muito mais
calmo, muito mais reservado, nunca andei por aí com uma vida
promíscua, hoje com um amanhã com outro. De qualquer maneira
Deus não perdoa todos os pecados?

- Olhe, e para acabar, conte-me uma história engraçada, de que
se lembre, conta?

- Eu tenho uma prima que é Lésbica, e ela tinha uma amiga, e
tinha um encontro marcado com a amiga, e queria sair, e então
pediu-me para lhe arranjar um amigo para ir lá buscá-la a
casa, para ela apresentar ao pai, como se fosse o namorado com
quem ela ia sair, só que eu arranjei-lhe um homem que era dos
mais bichas que havia por lá. O rapaz chegou lá, esqueceu-se
que o nome dela era Mariana, e disse que ia lá à procura da
Jacinta. O meu tio, que tem um certo humor, apesar de ser uma
pessoa muito brava, perguntou-lhe qual Jacinta, se era a
Jacinta Maria, que era uma vizinha, se era a Jacinta Carneiro,
que era a mulher do sócio dele, ou se era a Jacinta de Fátima.
Ele ficou completamente baratinado, não sabia como é que havia
de sair daquela, e então disse "Olhe, eu não sei quem é,
porque eu até gosto é de homens, isto é um frete que eu estou
aqui a fazer, e nem me pagam nem nada."

(fim do livro)

Obs: Vou procurar, o tenho, a homossexualidade feminina e então postarei.

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